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VIOLLET-LE-DUC, Eugene Emmanuel.

Restauração I; apresentação e tradução Beatriz


Mugayar Kohl; revisão Renata Maria Parreira Cordeiro. - 3. ed. - Cotia, SP: Ateliê
Editorial, 2006.

Gustavo Santos Silva Junior

O presente texto se propõe a refletir os aspectos mais relevantes à compreensão dos


caminhos históricos percorridos pelas teorias do Patrimônio Cultural, a partir da leitura
sistemática do Verbete “Restauração” escrito pelo francês Viollet-Le-Duc, originalmente
publicado na obra intitulada “Dicionário fundamentado de Arquitetura francesa do Xl ao
século XVI”, em dez volumes entre os anos 1854 e 1868. Para isso, inicialmente, devemos
considerar as complexidades do panorama histórico, político e científico e a importância
da consolidação de teorias, métodos e protocolos próprios da restauração que situam autor
e obra no campo do conhecimento.
A ideia de preservação e restauração de edifícios considerados monumentos
históricos ganha força na Europa na última década do século XVIII, especialmente na
França pós revolução devido ao grande número de castelos e monumentos que foram
alvos de vandalismo. Os relatórios de monumentos vandalizados escritos pelo Abade
Gregori impulsionaram as primeiras medidas positivas de proteção e preservação
determinadas pelo novo Estado, ao passo que, a Arquitetura francesa carecia de teorias
metodológicas que refletissem como balizadores dos limites éticos e modos de fazer na
ação de restaurar.
A narrativa histórica proposta pelo autor nos primeiros parágrafos denunciam
dogmas, até então intransponíveis à época e que o perseguiram concorrente a vontade
progressista de superar tradições. Por isso, importante notar que, a envergadura científica
das teorias do autor permitiu a ciência moderna avançar na formulação dos conceitos de
patrimônio, preservação e restauração, e ainda iniciou diálogos entre profissionais de
diferentes formações para refletirem além da beleza e da racionalidade da Arquitetura e da
Arte do Medievo.
Assim, a construção profissional de Le-Duc anuncia a importância das experiências
de campo para forja de intelectuais, no primeiro momento com os arquitetos Jean-Jaques
Huvé e Archille Leclère logo após sua formação, até ocupar respectivamente as funções
de Auditor do Conselho das Construções Civis e de Inspetor Geral Diocesano, detentor de
legitimidade para avaliar projetos de restauração. Tais experiências no campo da
Arquitetura e da Restauro serviram de combustível para elaboração da instrução técnica
para restauração de edifícios diocesanos publicada em 1849 em parceria com Mèrimmé,
considerada como documento fundamental para época devido sua influência na formação
dos profissionais que atuavam na restauração.
Na obra aqui tratada é possível identificar características que descrevem a realidade
da Europa do século XIX, as estruturas e agências empenhadas pelos atores da primeira
face da restauração numa sociedade em transição, mas também os conhecimentos do autor
sobre formas de construir, adequação de materiais e suas formas, funções, estruturas e
princípios racionais da construção.
Com longa produção sobre o tema Restauração, foi pioneiro na elaboração e
difusão de métodos e técnicas próprios da restauração, tais como, modo de fazer o
levantamento, de analisar, e de verificar as causas mais comuns de degradação, as
maneiras de talhar pedras e de fazer rejuntes e compreensão sobre as técnicas medievais.
Por outro lado, as teorias de restauração de Viollet-Le-Duc também foram alvo de críticas,
se destaca a dialética que partia do movimento pró absoluto respeito a matéria original e
tinha como principal expoente o inglês John Ruskin.
Neste sentido, o autor além de alavancar a restauração da teoria à prática, concebeu
que tais processos deveriam superar a “reconstituição hipotética do estado de origem”
para alcançar uma nova concepção, realizando aquilo que os construtores teriam feito se
detivessem os conhecimentos e experiências do tempo presente. Acontece que, deixava de
considerar as transformações ocorridas nas obras, edifícios e monumentos com a ação do
tempo, desvalorizando o dever de conservar para evitar a degradação.
A importância do Sr. Villet encontra-se nas consequência de sua preocupação com a
restauração séria de monumentos antigos, pois as críticas realizadas produziram a abertura
para o ofício na restauração, a construção de uma práxis que veio a incluir uma
diversidade de cientistas, críticos de arte, e posteriormente de artistas. Contudo, uma
parcela dos estudiosos voltaram-se para o dogmatismo, ou seja, um afastamento das
provas. No entanto, essa área inaugural continuou no exercício de suas práticas, em
exemplo ao impulso conferido aos arquitetos para que realizassem estudos mais
aprofundados, além da construção de relações mais diretas com operários da construção.
Compreender a distinção entre o ofício do restauro e da arqueologia traz a tona a
formação do pensamento científico no século XIX, delegando a Arqueologia o papel de
descortinar o passado para atender meramente a uma função, enquanto a Restauração, o
lugar da crítica, experimentação e da habilidade prática por remeter ao uso e as
necessidades do presente. Neste quesito, destaca-se um verdadeiro projeto de
resignificação estética de igrejas e castelos por meio das restaurações idealizadas por
Le-Duc, sua assinatura deixada em monumentos medievais e góticos muitas vezes
apareceu através de vitrais, estátuas de gargulas, kimeras e bestas.
Restou explícito o embate entre o pensamento de parte dos profissionais da
Arqueologia nomeados pelo autor de “arqueólogos especulativos”, e a teoria da
restauração de Viollet-Le-Duc que defendia que, o melhor meio de conservar um edifício
era encontrar para ele uma destinação e a satisfação de todas as necessidades dessa
destinação. Em diferentes momentos do texto em análise é possível verificar uma
irresignação quanto aos protocolos de conservação acrítica e aos riscos da atuação de
profissionais aleatórios desprovidos de conhecimentos técnicos específicos. Alertava que
“mais vale deixar morrer doente do que o matar”.
Por fim, compreender que a leitura também revelou um exemplo prático da
importância do acesso irrestrito aos bens culturais desde a primeira infância, é reconhecer
que a genialidade verificada na obra de Viollet-Le-Duc resulta de uma infância rodeada
por familiares pensadores, artistas e cultivadores da cultura. Por essa razão, o
compromisso ético com a continuidade e aprimoramento de teorias, métodos, técnicas e
pensamentos científicos desenvolvidos em tempos passados, deve estar atrelado ao dever
de alargar os limites de acesso à Cultura, aos mecanismos e bens culturais para todos,
especialmente, para pessoas em condições de vulnerabilidade e hipossuficiência.

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