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BOITO, Camilo. Os restauradores. Artes & ofícios, 2ª ed.

São Paulo: Ateliê Editorial,


2003.

Por Gustavo Santos Silva Junior

As ideias defendidas por Camilo Boito (1836-1914) colaboram diretamente


com o refinamento das teorias e práticas empregadas à restauração, nascido em Roma
e formado em Arquitetura na Escola de Belas Artes em Veneza, promoveu em sua
trajetória científica uma conciliação das visões de restauro dos seus contemporâneos.
Apontou na sua participação na “III Conferência de Arquitetos e Engenheiros
Civis de Roma” (1883), sete princípios fundamentais do seu restauro, dentre os quais
se destacam a “ênfase do valor documental do monumento” e seguindo o
posicionamento teórico John Ruskin (1819-1900), defendia ser fundamental “evitar
acréscimos e renovações, porém se necessário ter caráter diverso do original sem
destoar do conjunto”.
Chama atenção o interesse do autor em problematizar a composição dos
materiais usados e como não deveriam ser sobrepostos nos restauros, a necessidade de
“colocar um lápide apontando a data e as obras de restauro que foram realizados”, e
especialmente a notoriedade da restauração como ação distinta da conservação.
Entendia os conservadores como profissionais necessários, enquanto os restauradores
significavam verdadeiro risco, pois discordava das “adições sucessivas de
restauração”, propondo o mínimo de intervenção possível, sem acréscimos e
supressões.
Seu posicionamento crítico frente as suas próprias teorias revela o
reconhecimento da necessidade de debater e colocar os paradigmas científicos à prova,
de que tudo que se sabia naquele momento poderia e deveria ser revisitado e
possivelmente modificado por novos horizontes teóricos. A valorização das ruínas
também é tema de teorias de Boito, neste sentido, o autor expressa pensamentos que
se aproximam daqueles anteriormente descritos por Ruskin.
A necessidade de “amar e entender o monumento, seja estátua, quadro ou
edifício sobre o qual se trabalha”, segundo o autor, deveria reconhecer os limites dos
restauradores para “completar as obras de todos os séculos passados que chegaram
multiladas, alteradas ou arruinadas”. A razões para restauradores evitarem corrigir
irregularidades ou alinhar os desvios de simetria estão sustentadas nas informações
dos fatos históricos que tais marcas guardam e assim “fornecem os critérios
arqueológicos para confrontar uma época, uma escola, uma ideia simbólica”.
Por fim, atenta que “é necessário fazer milagres para conservar no monumento
o seu velho aspecto artístico e pitoresco”, provocando a as bases teóricas para
restauração de bens culturais na atualidade.