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ASSOCIAÇÃO INSTITUTO DE TECNOLOGIA DE PERNAMBUCO

MESTRADO PROFISSIONAL EM TECNOLOGIA AMBIENTAL

ALEXANDRE SÁVIO PEREIRA RAMOS

O RACIONAMENTO DE ÁGUA NO ABASTECIMENTO RURAL

NA ZONA DA MATA DE PERNAMBUCO

RECIFE - PE
2012
ASSOCIAÇÃO INSTITUTO DE TECNOLOGIA DE PERNAMBUCO

MESTRADO PROFISSIONAL EM TECNOLOGIA AMBIENTAL

ALEXANDRE SÁVIO PEREIRA RAMOS

O RACIONAMENTO DE ÁGUA NO ABASTECIMENTO RURAL

NA ZONA DA MATA DE PERNAMBUCO

Dissertação apresentada ao Programa do


Mestrado Profissional em Tecnologia
Ambiental da Associação Instituto de
Tecnologia de Pernambuco para a obtenção
do título de Mestre, sob orientação da
Profa. Dra. Sônia Valéria Pereira.
Área de concentração: Gestão Ambiental
Linha de Pesquisa:

RECIFE - PE
2012
Autorizo a reprodução e divulgação total ou parcial deste trabalho,
por qualquer meio convencional ou eletrônico, para fins de estudo
e pesquisa, desde que citada a fonte.

Catalogação na fonte
Bibliotecária Elaine Raposo, CRB-4 / 1726
R175r Ramos, Alexandre Sávio Pereira, 1975 -
O racionamento de água no abastecimento rural na Zona da Mata de
Pernambuco / Alexandre Sávio Pereira Ramos. - Recife: O autor, 2012.
148 f.
Inclui bibliografia.

Dissertação (Mestrado Profissional em Tecnologia Ambiental) -


Associação Instituto de Tecnologia de Pernambuco – ITEP, 2012.
Orientadora: Sônia Valéria Pereira, Dra.

1. Saneamento rural. 2. Abastecimento de água. 3. Racionamento.


4. Zona da Mata. 5. Gestão comunitária. I. Pereira, Sônia Valéria. II. Título.

CDU 628.1(1-22)
Só o desejo inquieto, que não passa,
Faz o encanto da coisa desejada...
E terminamos desdenhando a caça
Pela doida aventura da caçada.
Mario Quintana
DEDICO a todos os operadores e moradores,
mulheres e homens das comunidades rurais que,
incessantemente, lutam para garantir as condições
mínimas de qualidade de vida.

RECONHEÇO minha caminhada até agora a partir


do aprendizado e dedicação dos meus pais, Seu
Ramos e Dona Adalgisa e a paciência e amor de
Neguinha, Pedro e Miguel.
AGRADECIMENTOS

Inicialmente agradeço ao Instituto de Tecnologia de Pernambuco por abrir esta possibilidade


de formação que encontrou pessoas de diversas formações e vivências para tratar a nossa
realidade ambiental.

Agradeço a oportunidade de ter participado desta turma, à Coordenação e aos funcionários do


Mestrado, por ter tido o anseio, a iniciativa e a aplicação necessária ao bom andamento do
Curso.

Meus agradecimentos a Profa. Dra. Sônia Valéria Pereira, por instigar em mim a possibilidade
de ser pesquisador, orientando, cobrando, confiando nas minhas capacidades e por induzir a
continuidade nos momentos mais críticos.

Também os Professores Walter, Gilson, Portugal e Silvio, por suas dedicações, paciências,
flexibilidades e humanidades, extremamente importantes para continuarmos trabalhando.

Sou muito grato a Hermelinda Rocha, Rejane Santos, Natércia Araújo, pelo companheirismo,
participação, apoio e contribuição ao longo destes 02 anos de convivência. Bem como a todas
as alunas e alunos do curso, grandes achados, pela troca de experiências, conhecimentos e
vivências, bem como a continuidade de vínculos de amizade futuros.

Meus agradecimentos francos a Ana Virgínia, Paula Raquel, Geruza Felizardo, Luci e
Luciano Siqueira, pela companhia e apoio, quebra galhos nas horas mais urgentes e difíceis,
amigas e amigo de plantão. Também a Synergia e sua equipe, pela possibilidade de trabalhar
como educador, de debater e desvendar a problemática do racionamento com várias lideranças
comunitárias de áreas rurais.

Destaco e presto homenagem à pessoa do Professor Denis Bernardes, instigador acadêmico,


incentivador da pesquisa e amigo de todas as horas.

Agradeço especialmente as lideranças das comunidades visitadas e gestores estaduais que


contribuíram com a pesquisa, abrindo portas e possibilitando o melhor andamento do
levantamento de campo, pela energia positiva e diálogo sincero.

Enfim, gostaria de agradecer imensamente a todas as pessoas que participaram das entrevistas
e colaboraram de alguma forma com a construção deste trabalho, a contribuição de todas e
todos foi fundamental.
RESUMO

O papel da água como elemento indutor do desenvolvimento socioeconômico é amplamente


reconhecido. Os debates sobre o assunto destacam que o acesso à água potável possibilita
melhores condições de saúde, trabalho e habitabilidade. A água como bem da natureza, como
direito humano, insumo econômico e elemento insubstituível, referenda a condição de recurso
essencial e tema fundamental para o desenvolvimento de políticas públicas. Segundo a Lei
Nacional de Saneamento (11.445/07), os serviços de abastecimento de água devem ser
garantidos a todos de forma integral e com garantia de qualidade e regularidade. No Brasil
83% dos domicílios são atendidos por rede de abastecimento de água, mas nas áreas rurais, o
índice nacional representa 28% (IBGE, 2010). Nos oito anos recentes, o Governo de
Pernambuco desenvolveu ações de implantação de saneamento rural em 88 comunidades na
Zona da Mata, a partir dos programas Promata e ProRural. Foram desenvolvidos projetos,
obras de abastecimento de água e esgotamento sanitário e processos de capacitação e
fortalecimento comunitário visando à gestão local e autônoma dos serviços de saneamento
implantados, beneficiando cerca de 19 mil famílias. Tais sistemas foram projetados para
garantir água potável com regularidade e de forma permanente a essas comunidades, no
entanto, verifica-se o racionamento no abastecimento na maioria das localidades rurais, apesar
dos investimentos para estruturação e implantação dos projetos citados. Este trabalho é
dirigido ao estudo das estratégias de racionamento no abastecimento de água nessas
comunidades rurais que desenvolvem gestão autônoma de serviços de saneamento, visando
avaliar o regime e a situação atual dos sistemas implantados. Para tanto são analisados
documentos oficiais referentes aos projetos e caracterizados indicadores específicos como
fonte de captação, condições da infraestrutura existente, os usos, técnicas operacionais, entre
outros. São desenvolvidos estudos de casos em dez localidades rurais a partir de pesquisa
exploratória com abordagem quali-quantitativa e semiestruturada com análise documental,
entrevista e pesquisa de campo. O racionamento é observado em 67% dos sistemas
implantados, resultante de problemas com o projeto ou execução da obra, gestão e operação
dos sistemas. Observa-se a carência de pessoal capacitado para operar os sistemas e a
necessidade de avaliação que justifique o racionamento. A pesquisa identifica os processos
estruturados e as ações dos atores locais, governamentais e técnicos que permitem elucidar os
elementos necessários ao aprimoramento de políticas públicas, de aspectos tecnológicos,
ambientais e operacionais do saneamento rural. O acompanhamento técnico, a
complementação das obras e o controle estatal podem minimizar e até eliminar o
racionamento nas comunidades. A efetivação da gestão comunitária consorciada poderá
facilitar esse processo resultando na melhoria da qualidade de vida das comunidades rurais
estudadas.

Palavras-chave: saneamento rural, abastecimento de água, racionamento, Zona da Mata,


gestão comunitária.
ABSTRACT

The role of water as an inducer of socioeconomic development is widely recognized. The


debates on the subject emphasize that access to clean water enables better health, work and
housing. The nature of water as well as human rights, economic input and irreplaceable,
referenda condition essential resource and of fundamental importance to the development of
public policies. According to the National Sanitation Law (11.445/07), the services of water
supply must be guaranteed for all in full time and with guaranteed quality and regularity. In
Brazil 83% of households are served by water supply mesh, but in rural areas, the national
rate is 28% (IBGE, 2010). In recent eight years, the Pernambuco Government developed
actions deployment rural sanitation in 88 communities in the Mata Zone, from the programs
Promata and ProRural. Projects were developed, construction of water supply and sanitation
systems and processes of capacity and community empowerment aimed at local and
autonomous management of sanitation services deployed, benefiting about 19.000 of families.
Such systems are designed to ensure safe drinking water regularly and permanently to these
communities, however, there is a shortage of supply in most rural areas, despite investments
in structuring and implementation of the projects cited. This work is to study the strategies of
rationing the supply of water in these rural communities that develop autonomous
management of sanitation services, to evaluate the system and the current status of deployed
systems. Therefore are analyzed official documents relating to projects and specific indicators
characterized as a source of funding, conditions of existing infrastructure, usage, operational
techniques, among others. Study cases were developed in ten rural localities based on
exploratory research with qualitative-quantitative approach with semistructured and document
analysis, interviews and field research. The rationing is observed in 67% of systems deployed,
resulting in problems with the design or execution of the work, management and operation of
systems. Observed the lack of trained personnel to operate the systems and the need for
assessment to justify rationing. The research identifies the structured processes and actions of
local actors and technicians that allow government to elucidate the elements required for the
improvement of public policies, technological, environmental and operating rural sanitation.
The technical monitoring, the completion of works and state control can minimize and even
eliminate rationing in communities. The effectiveness of community management consortium
can facilitate this process resulting in improved quality of life in rural communities studied.

Keywords: rural sanitation, water supply, rationing, Mata Zone, Community management.
LISTA DE TABELAS

Tabela 1- Acesso aos Serviços de água na área rural, 2007 (em %) ........................................ 11
Tabela 2 - População urbana e rural do Brasil, Pernambuco e Mesorregião da Mata.............. 21
Tabela 3 – Comparativo dos domicílios por forma de abastecimento de água 1991, 2000
e 2010 ....................................................................................................................................... 25
Tabela 4- Número de contratos por macrorregiões do Programa de Saneamento Rural ......... 29
Tabela 5- Atendimento e déficit por componente do saneamento básico no Brasil adotado pelo
Plansab, 2008 ............................................................................................................................ 40
Tabela 6- Consumo médio per capita de água.......................................................................... 43
Tabela 7- Consumo médio per capita de água (L/hab.dia) ....................................................... 44
Tabela 8- Demandas médias de água para cidades brasileiras ................................................. 45
Tabela 9 - População do Estado de Pernambuco por Mesorregião e situação do domicílio .... 64
Tabela 10- Recursos investidos por programa governamental ................................................. 73
Tabela 11 - Caracterização dos sistemas de abastecimento quanto ao regime de
racionamento ............................................................................................................................ 83
Tabela 12- Frequência e duração do racionamento .................................................................. 85
Tabela 13 - Categorização das razões do racionamento ........................................................... 88
Tabela 14- Calendário de abastecimento por comunidade ..................................................... 129
LISTA DE QUADROS

Quadro 1- Critérios analíticos básicos para a avaliação de políticas ........................................ 12


Quadro 2- Enfoques para avaliação da dimensão tecnológica do abastecimento de água ....... 33
Quadro 3- Síntese dos modelos de saneamento rural por Estado ............................................. 54
Quadro 4- Estratégia de avaliação e discussão dos resultados da pesquisa.............................. 57
Quadro 5- Categorização dos motivos de racionamento e definição das comunidades
pesquisadas ............................................................................................................................... 60
Quadro 6- Entrevistas realizadas .............................................................................................. 61
Quadro 7- Organização das atividades do Promata .................................................................. 68
Quadro 8- Localidades com SAA implantados pelo Promata e ProRural ................................ 71
Quadro 9- Questões sobre a implantação do sistema de abastecimento de água ................... 109
Quadro 10- Questões sobre o funcionamento do sistema de abastecimento de água............. 116
Quadro 11- Olhar comunitário sobre o conceito de racionamento ......................................... 120
Quadro 12- Questões norteadoras sobre a implantação do racionamento .............................. 122
Quadro 13- Questões norteadoras sobre o impacto do racionamento nos SAA..................... 126
Quadro 14- Manobras executadas diariamente pelo operador do sistema ............................. 131
Quadro 15- Questões norteadoras sobre a extinção do racionamento .................................... 134
Quadro 16- Condicionantes e soluções propostas para o racionamento ................................ 137
LISTA DE GRÁFICOS

Gráfico 1 - População urbana e rural ........................................................................................ 20


Gráfico 2 - Acesso à água por situação do domicílio em 2010 ................................................ 24
Gráfico 3- Domicílios abastecidos por rede geral, Brasil, Pernambuco e Zona da Mata. ........ 26
Gráfico 4 - Acesso e déficit em abastecimento de água no Brasil segundo faixa .................... 41
Gráfico 5- Acesso e déficit em abastecimento de água no Brasil, ........................................... 41
Gráfico 6 - Déficit de canalização interna de água em domicílios, segundo Brasil ................. 42
Gráfico 7- Proporção da população rural com acesso ao ......................................................... 43
Gráfico 8- Distribuição dos Sistemas de abastecimento .......................................................... 73
Gráfico 9 - Ressalvas no funcionamento dos sistemas de abastecimento de água .................. 76
Gráfico 10- Entraves no funcionamento dos sistemas de abastecimento de água.................... 77
Gráfico 11- Ressalvas no funcionamento das diretorias das associações ................................ 78
Gráfico 12- Entraves no funcionamento das diretorias das associações .................................. 78
Gráfico 13- Ressalvas na mobilização da comunidade ............................................................ 79
Gráfico 14 - Entraves na mobilização da comunidade ............................................................. 80
Gráfico 15- Ressalvas na realização da gestão dos sistemas de abastecimento de água .......... 80
Gráfico 16- Sistemas pesquisados e situação atual do regime de abastecimento de água ....... 82
Gráfico 17- Gráficos de caracterização dos sistemas de abastecimento pesquisados .............. 82
Gráfico 18- Situação do racionamento por tema pesquisado ................................................... 84
Gráfico 19- Frequência e duração do racionamento por comunidade ...................................... 86
Gráfico 20 - Razões do racionamento segundo representantes das associações ...................... 87
Gráfico 21- Informação sobre a garantia de água num volume adequado ............................. 111
Gráfico 22- Repasse da tecnologia de operação ..................................................................... 112
Gráfico 23 - Situação da obra quando entregue ..................................................................... 113
Gráfico 24 - Implantação de kit sanitário (% de domicílios) ................................................. 115
Gráfico 25 - Situação de adimplência..................................................................................... 117
Gráfico 26 - Situação de hidrometração ................................................................................. 118
Gráfico 27- Domicílios com caixa d’água.............................................................................. 118
Gráfico 28- Apoio institucional na gestão do sistema de abastecimento ............................... 119
Gráfico 29- Conceito de racionamento ................................................................................... 120
Gráfico 30 - Necessidade de água plenamente ....................................................................... 121
Gráfico 31 - Surgimento do racionamento ............................................................................. 123
Gráfico 32-Quem propôs o horário ........................................................................................ 123
Gráfico 33- Atividades educativas realizadas ........................................................................ 125
Gráfico 34- Suficiência do volume garantido aos domicílios ................................................ 127
Gráfico 35- Danos no sistema causados a partir racionamento .............................................. 127
Gráfico 36 - Cumprimento do calendário ............................................................................... 128
Gráfico 37- Período de abastecimento domiciliar (% de horas/semana)................................ 130
Gráfico 38- Tempo entre a primeira e a última operação por dia........................................... 130
Gráfico 39- Quantidade de operações por dia ........................................................................ 132
Gráfico 40- Razões alegadas para a existência de racionamento ........................................... 132
Gráfico 41- Sugestões para anular o racionamento ................................................................ 133
Gráfico 42- Fatores determinantes e resultantes do racionamento ......................................... 136
LISTA DE FIGURAS

Figura 1- Representação do conceito de déficit em saneamento básico................................... 39


Figura 2- Roteiro de análise da pesquisa .................................................................................. 63
Figura 3- Localização da Zona da Mata Pernambucana........................................................... 64
Figura 4- Localização dos SAA implantados ........................................................................... 72
Figura 5- Gráficos de caracterização dos sistemas de abastecimento ...................................... 75
Figura 6- Gráficos sobre a situação dos sistemas de abastecimento ........................................ 75
Figura 7- Localidades estudadas .............................................................................................. 89
Figura 8- Imagens do Distrito de Angélicas ............................................................................. 90
Figura 9- Imagens da ETA de Angélicas ................................................................................. 91
Figura 10- Imagens do Distrito de Borracha ............................................................................ 92
Figura 11- Imagens do SAA de Borracha ................................................................................ 93
Figura 12- Imagens do Povoado de Belo Oriente .................................................................... 94
Figura 13- Imagens do SAA de Belo Oriente .......................................................................... 95
Figura 14- Imagens do Sítio Camboa ....................................................................................... 96
Figura 15- Imagens do SAA do Sítio Camboa ......................................................................... 97
Figura 16- Imagem do Povoado de Encruzilhada .................................................................... 98
Figura 17- Imagem do sistema de Encruzilhada ...................................................................... 99
Figura 18- Imagem aérea do Povoado de Gambá................................................................... 100
Figura 19- Imagens do SAA de Gambá ................................................................................. 101
Figura 20- Imagens da comunidade de Quebec...................................................................... 102
Figura 21- Imagens do SAA de Quebec ................................................................................. 102
Figura 22- Imagens do Distrito de Poço Comprido................................................................ 104
Figura 23- Imagens da ETA de Poço Comprido .................................................................... 105
Figura 24- Imagens do SAA do Sítio Uruçu .......................................................................... 106
Figura 25- Imagem da Vila da Barragem ............................................................................... 107
Figura 26- Imagens do SAA da Vila da Barragem ................................................................. 108
LISTA DE SIGLAS

Asseco - Associação de Serviços Comunitários


Caern - Companhia de Águas e Esgotos do Rio Grande do Norte
Cagece - Companhia de Água e Esgoto do Ceará
Cerb - Companhia de Energia Rural
Compesa - Companhia Pernambucana de Saneamento
Funasa - Fundação Nacional de Saúde
IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
IRC - International Water and Sanitation Centre
KfW - Kreditanstalt für Wiederaufbau -
MS - Ministério da Saúde
OMS - Organização Mundial da Saúde
Opas - Organização Pan-Americana da Saúde
PGE - Procuradoria Geral do Estado
PIM - Plano de Investimentos Municipais
Plansab - Plano Nacional de Saneamento Básico
Promata - Programa de Apoio ao Desenvolvimento Sustentável da Zona da Mata
de Pernambuco
ProRural - Programa de Desenvolvimento Rural Sustentável de Pernambuco
Prosar-PI - Programa de Saúde e Saneamento Básico na Área Rural do Piauí
RD - Região de Desenvolvimento
RMR - Região Metropolitana do Recife
SAA - sistema de abastecimento de água
Sisar - Sistema Integrado de Saneamento Rural
SNSA - Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental
SRHE – Secretaria de Recursos Hídricos e Energéticos
WSSCC - Water Supply e Sanitation Collaborative Council
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................ 1
2 OBJETIVOS ...................................................................................................................... 5
3 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA .................................................................................... 7
3.1 A QUESTÃO DO SANEAMENTO................................................................................. 7
3.2 O SANEAMENTO RURAL .......................................................................................... 19
3.3 RACIONAMENTO NO ABASTECIMENTO DE ÁGUA............................................ 35
3.4 GESTÃO COMUNITÁRIA DOS SERVIÇOS DE SANEAMENTO ........................... 45
4 METODOLOGIA .......................................................................................................... 56
4.1 TIPO DE ESTUDO: PESQUISA EXPLORATÓRIA COM ESTUDO DE CASOS .... 56
4.2 FASE PREPARATÓRIA ............................................................................................... 57
4.3 FASE DE EXECUÇÃO.................................................................................................. 58
4.4 CONTEXTO DA PESQUISA ........................................................................................ 60
4.5 CONSOLIDAÇÃO DOS DADOS ................................................................................. 62
4.6 A ÁREA DE ESTUDO................................................................................................... 63
5 RESULTADOS E DISCUSSÃO ............................................................................... 67
5.1 OS PROGRAMAS DE SANEAMENTO RURAL NA ZONA DA MATA
PERNAMBUCANA ............................................................................................................. 67
5.2 OS SISTEMAS DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA IMPLANTADOS ..................... 71
5.3 CARACTERIZAÇÃO DOS SISTEMAS ....................................................................... 74
5.4 OS SISTEMAS DE ABASTECIMENTO COM RACIONAMENTO .......................... 81
5.5 DESCRIÇÃO DOS SISTEMAS DE ABASTECIMENTO DAS LOCALIDADES
ESTUDADAS ....................................................................................................................... 88
5.6 A IMPLANTAÇÃO DOS SISTEMAS DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA ............ 108
5.7 O FUNCIONAMENTO DO SISTEMA ....................................................................... 115
5.8 ENTENDENDO O RACIONAMENTO ...................................................................... 119
6 CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES ........................................................... 140
6.1 CONCLUSÕES ............................................................................................................ 140
6.2 RECOMENDAÇÕES ................................................................................................... 142
REFERÊNCIAS ............................................................................................................... 144
APÊNDICE ........................................................................................................................ 150
APÊNDICE A – Questionários aplicados .............................................................................. 150
APÊNDICE B – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido ............................................ 155
1

1 INTRODUÇÃO

O papel da água como elemento indutor do desenvolvimento socioeconômico de


comunidades, regiões ou países é amplamente reconhecido. Os debates sobre o assunto
permanentemente destacam que o acesso à água potável possibilita melhores condições de
saúde, trabalho e habitabilidade. A água como bem da natureza, como direito humano, insumo
econômico e elemento insubstituível, referenda a condição de recurso essencial e tema
fundamental para o desenvolvimento de políticas públicas.

Apesar de o Brasil ter a maior disponibilidade de água doce do planeta (BRASIL,


2006), o acesso para o abastecimento humano é desigual: as populações urbanas das grandes
cidades possuem os melhores índices de atendimento enquanto que as populações rurais das
pequenas cidades encontram-se no outro extremo de cobertura, com o mais baixo grau de
abastecimento domiciliar de água.

No Brasil, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE,


2012a), 29,8 milhões de pessoas encontram-se em áreas rurais, representando 15,6% da
população nacional. Desses, apenas 28% dos domicílios estão ligados à redes de
abastecimento de água (IBGE, 2012b). Ainda ressaltando a carência desse serviço fora do
meio urbano, destaca-se a indisponibilidade de recursos públicos que mudem a situação.
Assim, em 2009 foram desembolsados 117,9 milhões de reais para o saneamento rural,
representando 3,3% dos recursos destinados ao saneamento em nível federal nesse ano
(BRASIL, 2010).

Com um aporte financeiro tão reduzido, percebe-se que a política pública para a
universalização do saneamento no Brasil, designou ao saneamento rural uma posição anódina.
Restando assim aos Estados o direcionamento da política de intervenção nas áreas rurais e,
com isso, possibilitando a estruturação de distintos modelos de intervenção e gestão, os quais,
muitas vezes são interrompidos no caminho, por falta de uma política estruturada e
continuada.

Se por um lado os recursos financeiros são exíguos, por outro, nos anos recentes o
Governo do Estado desenvolveu programas de saneamento rural na Zona da Mata do Estado
garantindo o acesso à água para 88 comunidades rurais. O Programa de Apoio ao
Desenvolvimento Sustentável da Zona da Mata de Pernambuco (Promata) e o Programa de
2

Desenvolvimento Rural Sustentável de Pernambuco (ProRural) contemplaram em seus eixos


de ação, a garantia do abastecimento rural através de sistemas simplificados e geridos pelas
associações comunitárias.

Atualmente, percebe-se a existência de racionamento no abastecimento de água na


maioria dos sistemas rurais implantados na Zona da Mata Pernambucana, apesar de
estruturados para garantir água potável de forma regular. Tal procedimento vem ocorrendo de
forma comum e ininterruptamente e se consolidando como uma operação normal, sendo assim
incorporado na cultura e no cotidiano da população beneficiada. Para uma população com
grandes dificuldades anteriores de acesso à água com qualidade e em quantidade, o corte
programado nos sistemas de abastecimento não é considerado fator de preocupação relevante.

Como resultado, no ambiente domiciliar, percebe-se a adequação e reformulação das


medidas familiares às necessidades determinadas pelo gestor, fator de impacto e risco de
degradação do ambiente familiar, da precarização do trabalho doméstico e da saúde dos
usuários do sistema. Bitoun justapõe que:

Face à morosidade das políticas públicas de saneamento básico, todas as famílias


(...) desenvolvem estratégias para resolver individualmente a questão que as afeta.
Quem tem mais condições financeiras, se protege mais facilmente; quem não as tem
procura, ao longo da vida, equipar seu domicílio de canalizações internas de
abastecimento d’água, de caixa d’água (...). Esforços permanentes que se verificam
em comunidades de baixa renda, transformadas em milhares de canteiros de obras
domésticas, conduzidas ao sabor das oportunidades e, obviamente sem nenhuma
coordenação. Compelidos a usar estratégias individuais, (...) correm o risco de se
tornar cada vez mais estranhos uns aos outros, cada vez mais desiguais, cada vez
menos solidários. E, conseqüentemente, cada vez menos capazes de formular um
projeto coletivo de recuperação ambiental, sanitária e de habitabilidade. (BITOUN,
2004)

Este trabalho possibilitou o estudo do processo de implantação e consolidação do


racionamento como elemento de gestão comunitária dos serviços de saneamento, a partir de
estudos de casos. Uma breve revisão nas práticas atuais destaca a inexistência de um
programa de avaliação da implantação, assim como o acompanhamento na consolidação
gestão e operação comunitária dos serviços de saneamento rural. Nesse contexto de reflexão
em que se dirige o interesse do estudo, quais as medidas resultantes da implementação do
racionamento de água? Como foram o processo de planejamento, as formas de interação e
dificuldades da sociedade quando da implantação e consolidação do corte programado? Quais
as alternativas para mitigar tal medida?
3

Em consequência a todas as informações até agora mencionadas, a pesquisa objetivou


a avaliação do racionamento de água em comunidades rurais com gestão autônoma de
serviços de saneamento inseridas na Zona da Mata de Pernambuco. Para tanto, foi necessária
à caracterização dos sistemas de abastecimento de comunidades rurais implantados pelo
Governo na referida Região, assim como a identificação das estratégias de implementação do
racionamento definidas pelas comunidades. Ao final, a pesquisa propõe medidas de operação
visando normalizar o abastecimento.

A pesquisa faz-se necessária, uma vez que, após a implantação dos sistemas, a gestão
comunitária poderá ser questionada por esse procedimento de racionamento. Assim o estudo é
realizado a partir da análise crítica do processo de implantação, consolidação e manutenção
dessas medidas, enfatizando o funcionamento do sistema e os meios para sanar tal problema.
O estudo justifica-se tendo em vista a necessidade de aprofundar o conhecimento e análise
sobre a apropriação dos operadores no processo, a fim de conhecer as soluções desenvolvidas
pelos gestores, uma vez que, ao longo desse período de racionamento, não foram realizados
ou divulgados estudos que avaliassem esses procedimentos em qualquer aspecto.

Esta pesquisa visa contribuir com elementos que justifiquem o aprimoramento de


políticas públicas e a formulação de subsídios mais concretos sobre os processos de operação
dos sistemas de abastecimento rural. Também com elementos para a reflexão junto aos órgãos
públicos responsáveis, analisando a importância de suas contribuições para a melhoria da
qualidade de vida no meio rural.

Diante do exposto, a dissertação discorre sobre a questão do saneamento rural,


caracterizando os processos de gestão, os sistemas tecnológicos adotados e as experiências
existentes no Nordeste. Também destaca a problemática do racionamento no abastecimento
de água dirigindo-se à contextualização e ao entendimento sobre a questão. Para a
compreensão sobre o assunto, esse capítulo versa sobre os princípios de disponibilidade e
demanda, a operação e as condições técnicas para o enfrentamento do problema, assim como
os procedimentos de gestão comunitária dos serviços de saneamento.

Em seguida, é apresentada a trajetória metodológica da pesquisa, abordando os


caminhos percorridos da pesquisa exploratória, seus aspectos éticos, seu processo de
construção, a preparação para ida ao campo, bem como o trabalho de campo. Nesse capítulo,
4

é situado o ambiente de estudo: a Zona da Mata Pernambucana e seus aspectos geográficos


relevantes.

O capítulo seguinte organiza as informações referentes aos sistemas de abastecimento


e ao racionamento, as comunidades rurais com gestão comunitária dos serviços de
abastecimento de água na Zona da Mata Pernambucana e a caracterização das comunidades
com destaque ao abastecimento de água, apresentando os resultados encontrados e a situação
e a percepção do racionamento pelos operadores/representantes das associações e de gestores
públicos. Nas conclusões são construídas as avaliações dos resultados e as perspectivas ação
que mitiguem os procedimentos de racionamento adotados.
5

2 OBJETIVOS

2.1 GERAL

Avaliar o regime de racionamento no abastecimento de água em comunidades rurais


com gestão autônoma de serviços de saneamento inseridas na Zona da Mata de Pernambuco.

2.2 ESPECÍFICOS

• Caracterizar os sistemas de abastecimento de comunidades rurais implantados pelo


Governo do Estado na Zona da Mata;
• Identificar as estratégias de implementação do racionamento definidas pela
comunidade;
• Mapear a situação atual do racionamento nas comunidades rurais;
• Propor medidas de operação visando normalizar o abastecimento.
6

Nenhum de nós
pode programar a vida
como linha reta
imutável, inflexível...
A cada instante
as surpresas rebentam,
e temos que ter
humildade e imaginação criadora
para ir salvando o essencial,
através do inesperado de cada instante.
Dom Helder
7

3 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

3.1 A QUESTÃO DO SANEAMENTO

O conceito de saneamento engloba diversos aspectos e setores do conhecimento e do


cotidiano. Inojosa (2011) descreve, na perspectiva da Organização Mundial da Saúde, que a
definição de saneamento é bastante ampla e enfatiza uma ação de gerenciamento que abarca
um grande elenco de saberes e práticas que interferem, ou podem interferir, em fatores físicos
capazes de exercer efeitos nocivos à saúde humana.

Houaiss, (2001) ao definir o verbo transitivo sanear como tornar são, habitável,
respirável, agradável e limpo, apresenta elementos que relacionam a saúde, a moradia, o
ambiente o bem estar e a salubridade. Esse Autor apresenta o saneamento como uma série de
medidas que tornam uma área sadia, limpa, habitável, oferecendo condições adequadas de
vida para uma população ou para a agricultura.

A ocupação humana dos ambientes naturais modifica os ambientes, essa intervenção


humana produz desequilíbrio e gera resíduos. Segundo Ramos (2007), esses desequilíbrios
precisam ser reparados e os resíduos poluentes precisam ser transportados para algum lugar e,
em seqüência, serem tratados: os resíduos sólidos, o esgotamento, a poluição do ar, entre
outros, também o manejo da água da chuva e a água potável que é cada vez mais difícil de
encontrar, compõem o que conhecemos por saneamento ambiental. Desse modo, sanear é
tornar saudável.

Conforme assegura Ramos (2007), para garantir um ambiente saudável, as ações de


saneamento devem ser estruturadas a partir da implantação interrelacionada entre seus
diversos setores e assim orientado a partir de três princípios elementares:

• Universalidade – garantia de acesso aos serviços de saneamento a toda a população,


indistintamente, a partir de soluções adequadas a cada ecossistema e respeitando as
identidades culturais de cada região;
• Equidade – garantia do igual nível de qualidade na prestação dos serviços a toda
população, independentemente de classe social, sendo as taxas e tarifas dos serviços,
instrumentos de justiça social;
8

• Integralidade – oferta e prestação de serviços em todas as suas fases e componentes,


garantindo melhores resultados e eficácia a partir de políticas integradas e não
fragmentadas, o que permite a eficiência na aplicação recursos investidos.

O Relatório sobre o Desenvolvimento Humano (PNUD, 2006 apud TEIXEIRA, 2011)


informa que cerca de 1,1 bilhão de pessoas, nos países em desenvolvimento, não tinham
acesso à água potável, e que 2,6 bilhões não tinham acesso ao esgotamento sanitário. Segundo
o mesmo Relatório, 660 milhões pessoas, que não possuíam saneamento básico, viviam com
menos de dois dólares por dia, sendo que 385 milhões viviam somente com um dólar por dia.
No período, a população mundial atingiu a cifra de 6,5 bilhões de pessoas. O Relatório afirma
que essa carência não tem origem na disponibilidade de água no mundo, mas nas instituições
e nas opções de políticas públicas para o setor e que há água suficiente no mundo para a
agricultura, indústria e consumo humano (TEIXEIRA, 2011).

Para muitas das populações mais carentes do mundo, uma das maiores ameaças
ambientais à saúde permanece sendo o uso contínuo de água não tratada, embora o percentual
da população com acesso a água tratada tenha aumentado de 79% (4,1 bilhões) em 1990 para
82% (4,9 bilhões) em 2000. A maior parte dessas pessoas vive na África e na Ásia. (WHO e
UNICEF, 2000).

De acordo com a Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental (BRASIL, 2004a),

o saneamento ambiental é o conjunto de ações com o objetivo de alcançar níveis


crescentes de salubridade ambiental, compreendendo o abastecimento de água; a
coleta, o tratamento e a disposição dos esgotos e dos resíduos sólidos e gasosos e os
demais serviços de limpeza urbana; o manejo das águas pluviais; o controle
ambiental de vetores e reservatórios de doenças e a disciplina da ocupação e uso do
solo, nas condições que maximizem a promoção e a melhoria das condições de vida
nos meios urbano e rural.

Em 2007, o Congresso Nacional aprovou a Lei Nacional de Saneamento


(11.445/2007) e no seu Art. 3o considerou o saneamento básico como o conjunto de serviços,
infraestruturas e instalações operacionais de abastecimento de água potável, esgotamento
sanitário, limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos e drenagem e manejo das águas
pluviais urbanas (BRASIL, 2007). Essa definição ressalta os aspectos técnico-operacionais da
prestação do serviço, enquanto que os conceitos apresentados anteriormente destacam uma
abordagem mais abrangente e multidisciplinar.
9

Para o abastecimento de água potável, a Lei Nacional do Saneamento determina o


serviço constituído pelas atividades, infraestruturas e instalações necessárias ao abastecimento
público de água potável, desde a captação até as ligações prediais e respectivos instrumentos
de medição (BRASIL, 2007). O Ministério da Saúde (MS), através da portaria nº 518/2004,
define sistema de abastecimento de água (SAA) para consumo humano como uma “instalação
composta por um conjunto de obras civis, materiais e equipamentos, destinada à produção e à
distribuição canalizada de água potável para populações, sob a responsabilidade do poder
público, mesmo que administrada em regime de concessão ou permissão” (BRASIL, 2004a).

Para a conceituação do saneamento, também é importante ressaltar os elementos da


gestão dos serviços: “todos os abastecimentos se regem por uma lógica de gestão que pode ser
estabelecida como: maior satisfação de um maior número de usuários e entidades envolvidas,
com o melhor uso possível dos recursos disponíveis” (FARIA E ALEGRE, 1996, apud
SILVA, 2003). Enquanto que a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) acrescenta que sob o
aspecto econômico, o abastecimento de água visa (FUNASA, 2006):

• aumentar a vida média pela redução da mortalidade;


• aumentar a vida produtiva do indivíduo, quer pelo aumento da vida média quer pela
redução do tempo perdido com doença;
• facilitar a instalação de indústrias, inclusive a de turismo, e conseqüentemente ao
maior progresso das comunidades;
• facilitar o combate a incêndios.

3.1.1 Alguns Princípios


O valor da água é tema de debate em escala mundial, muito se fala sobre seu valor
econômico e seu potencial para o desenvolvimento de comunidades e nações. Antes de sua
importância para a economia, a água possui acentuado valor biológico: água como fonte de
vida e patrimônio de todos os seres; valor social: elemento que possibilita o trabalho, a
convivência, a solidariedade e também o conflito e; valor ambiental: seu ciclo guia todos os
ecossistemas existentes. Destaca-se também o amplo alcance do valor simbólico da água:
presente nas manifestações culturais, religiosas, nas atividades recreativas e turísticas dos
povos desde o princípio da civilização.
10

De acordo com o IRC (International Water and Sanitation Centre, 2005), o


abastecimento de água é um fator-chave para o desenvolvimento, uma condição para a vida
saudável e produtiva e, portanto, para a redução da pobreza. Assim a água é multifuncional e
suas várias funções são complementares e sinérgicas. O IRC destaca ainda que todas essas
funções, incluindo a utilização produtiva, devem ser consideradas para a expansão dos
serviços de água em regiões rurais.

A resolução 160 da 1ª Conferência Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável e


Solidário (BRASIL, 2008), destaca que a água, em todas as suas origens, deve ser garantida a
todas as famílias com qualidade e quantidade, destinando-se prioritariamente para o consumo
humano, dessedentação animal e para a produção de alimentos, sendo que o acesso se
constitui em direito público de toda a população.

Heller (2011) enfatiza que um processo de avaliação, que considera as ações na área
de saneamento básico como política pública, nortear-se-ia pelos princípios da universalidade,
igualdade, integralidade, titularidade municipal, gestão pública, participação e controle social,
parte dos quais são estabelecidos pela Lei n. 11.445/20071.

Como definição, a Funasa considera que o sistema de abastecimento público de água


constitui-se no conjunto de obras, instalações e serviços, destinados a produzir e distribuir
água a uma comunidade, em quantidade e qualidade compatíveis com as necessidades da
população, para fins de consumo doméstico, serviços públicos, consumo industrial e outros
usos (Funasa, 2006). Para tanto, seu acesso deve ser universal. Paim (2011) estabelece como
acesso universal a possibilidade de todos os brasileiros poderem alcançar uma ação ou serviço
de que necessite, sem qualquer barreira de acessibilidade, seja legal, econômica, física ou
cultural. Destacando que o acesso igual para todos é igualitário para ricos e pobres, homens e
mulheres, velhos e crianças, nordestinos e sulistas, negros e brancos, independentemente de
1
O Art. 2º da Lei 11.445/07 destaca os princípios fundamentais para a prestação dos serviços públicos de saneamento básico,
dentre eles e com relevância ao abastecimento rural de água:
I - universalização do acesso;
II - integralidade, compreendida como o conjunto de todas as atividades e componentes de cada um dos diversos serviços de
saneamento básico, propiciando à população o acesso na conformidade de suas necessidades e maximizando a eficácia das
ações e resultados;
III - abastecimento de água, esgotamento sanitário, limpeza urbana e manejo dos resíduos sólidos realizados de formas
adequadas à saúde pública e à proteção do meio ambiente; (...)
V - adoção de métodos, técnicas e processos que considerem as peculiaridades locais e regionais; (...)
VII - eficiência e sustentabilidade econômica;
VIII - utilização de tecnologias apropriadas, considerando a capacidade de pagamento dos usuários e a adoção de soluções
graduais e progressivas; (...)
X - controle social;
XI - segurança, qualidade e regularidade;
XII - integração das infraestruturas e serviços com a gestão eficiente dos recursos hídricos. (BRASIL, 2007)
11

etnia ou opção sexual. Contudo, para os efeitos da lei, considera-se


considera se a universalização como a
ampliação progressiva do acesso de todos os domicílios ocupados ao saneamento básico (art.
3° Inciso III da Lei Federal 11.445/07).
11.4

Sobre o abastecimento
cimento de água rural, o acesso universal
iversal permanece como um princípio
distante. No Brasil, menos de 30% dessa população possui acesso à rede de distribuição,
índice semelhante às comunidades rurais do Nordeste (Tabela
( 1). Nota-se
Nota que a maioria da
população rural acessa a água para consumo domiciliar a partir de soluções individuais com
poços ou nascentes. Já o contingente nordestino possui o menor índice de acesso dessa
categoria,, acessando outro tipo de fonte como as cisternas de captação de água de chuva ou
caminhões-pipa,
pipa, mais especificamente no semiárido nordestino.

Tabela 1-- Acesso aos Serviços de água na área rural, 2007 (em %)

Fonte: Teixeira (2011).

A partir dos componentes sanitário e social, a Funasa (2006) considera que


qu o
abastecimento de água visa, fundamentalmente, à:
• controlar e prevenir doenças;
• implantar hábitos higiênicos na população como, por exemplo, a lavagem das mãos, o
banho e a limpeza de utensílios e higiene do ambiente;
• facilitar a limpeza pública;
• facilitar as práticas desportivas;
• propiciar conforto, bem-estar
bem e segurança;
• aumentar a esperança de vida da população.

O MS e a Organização Pan-Americana
Pan da Saúde (Opas) trataram do impacto das ações de
saneamento na saúde (Brasil 2004b)
2004 destacando que noo campo das políticas públicas, a
efetividade, eficácia e eficiência se constituem em critérios analíticos básicos para a avaliação
de políticas (Quadro 1).
12

Quadro 1- Critérios analíticos básicos para a avaliação de políticas


Critérios caracterização Questões norteadoras
Analisa a relação entre a implementação • Em que medida ocorreu a efetiva mudança nas
de um programa e seus impactos e condições de saneamento das populações
resultados: o sucesso ou o fracasso de beneficiadas pelo Programa de Saneamento?
uma mudança nas condições sociais da • Em que medida essas mudanças têm relação com o
EFETIVIDADE
vida das populações atingidas pelo Programa de Saneamento?
programa sob avaliação. Deve-se • Em que medida os resultados do Programa de
demonstrar que os resultados estão Saneamento se afastaram ou se aproximaram dos
relacionados aos produtos oferecidos princípios de uma política pública de saneamento que
por uma dada política sob análise. promova a justiça social e ambiental?
É usualmente mais aplicada por ser
mais factível e de menor custo. Visa à
verificação dos objetivos e instrumentos • Os objetivos e metas propostos pelo Programa de
EFICÁCIA
explícitos de um determinado programa Saneamento foram atingidos?
e seus resultados efetivos e conclui pelo
sucesso ou fracasso da política.
É a relação entre o esforço empregado • O Programa de Saneamento foi implementado
na implementação de uma dada política segundo princípios de justiça social, de moralidade e
e os seus resultados alcançados. de probidade administrativa?
Essa avaliação atende a princípios • Durante a execução do Programa de Saneamento
EFICIÊNCIA democráticos, pois a utilização de ocorreu uma aplicação criteriosa dos recursos
recursos públicos na implementação de financeiros e humanos?
políticas envolve a necessidade de se • O processo de implementação do Programa de
garantir a probidade, competência e Saneamento atendeu a um cronograma físico de
eficiência no uso dos mesmos. execução factível?
Fonte: O Autor (adaptado de BRASIL, 2004b).

Os critérios básicos de efetividade, eficácia e eficiência nas políticas públicas de


abastecimento de água, seguindo as questões descritas na Tabela 2, relacionam diretamente
aos princípios fundamentais definidos na Lei Nacional de Saneamento e remete à necessidade
de uma melhor estruturação da política pública nacional para o saneamento rural. Nesse
contexto, tais critérios que norteiam princípios de justiça social e ambiental, possibilitam
mudanças estruturais nas diretrizes2 e efetivação de políticas públicas para a garantia de
comunidades rurais com maior salubridade e, consequentemente, melhoria da qualidade
ambiental.

Dentre os princípios relacionados com a prestação do serviço de abastecimento de


água, destacam-se também a regularidade e a segurança no atendimento às populações.
Conforme Moraes (2011), a regularidade é a execução dos serviços de forma continuada nas

2
No Artigo 48 da Lei 11.445/07, são definidas as diretrizes para a Política Federal de Saneamento Básico, destacando:
I - prioridade para as ações que promovam a eqüidade social e territorial no acesso ao saneamento básico;
II - aplicação dos recursos financeiros por ela administrados de modo a promover o desenvolvimento sustentável, a eficiência
e a eficácia; (...)
IV - utilização de indicadores epidemiológicos e de desenvolvimento social no planejamento, implementação e avaliação das
suas ações de saneamento básico;
V - melhoria da qualidade de vida e das condições ambientais e de saúde pública; (...)
VII - garantia de meios adequados para o atendimento da população rural dispersa, inclusive mediante a utilização de
soluções compatíveis com suas características econômicas e sociais peculiares;
VIII - fomento ao desenvolvimento científico e tecnológico, à adoção de tecnologias apropriadas e à difusão dos
conhecimentos gerados;
IX - adoção de critérios objetivos de elegibilidade e prioridade, levando em consideração fatores como nível de renda e
cobertura, grau de urbanização, concentração populacional, disponibilidade hídrica, riscos sanitários, epidemiológicos e
ambientais;
X - adoção da bacia hidrográfica como unidade de referência para o planejamento de suas ações. (BRASIL, 2007)
13

frequências determinadas por normas regulamentares e contratuais e, segundo Menezes (2008


apud MORAES, 2011) a segurança visa a resguardar o usuário e a coletividade de quaisquer
riscos.

Moraes (2011) ressalta que para o saneamento básico, são diversos os riscos da
coletividade e dos usuários:

• comprometimento da saúde e integridade física dos funcionários e usuários dos


sistemas;
• degradação do meio ambiente;
• interrupção da prestação de serviços essenciais;
• segurança das estruturas e instalações físicas.

Em casos de racionamento no abastecimento, o princípio da regularidade inexiste,


enquanto que o da segurança é comprometido. No Art. 43. da Lei Nacional de Saneamento, é
destacado que a prestação dos serviços atenderá a requisitos mínimos de qualidade, incluindo
a regularidade, a continuidade e aqueles relativos aos produtos oferecidos, ao atendimento dos
usuários e às condições operacionais e de manutenção dos sistemas, de acordo com as normas
regulamentares e contratuais (BRASIL, 2007). Casali (2008) complementa que

manter a água potável e constantemente disponível ao homem é uma das obrigações


tanto dos órgãos governamentais fiscalizadores quanto da sociedade como um todo.
Todas as soluções a serem adotadas para os problemas da água devem assegurar as
condições necessárias para que as crianças e seus familiares do meio rural
sobrevivam, se desenvolvam, aprendam e vivam com dignidade.

3.1.2 O saneamento é uma questão social

Considerando os processos intersetoriais da gestão do saneamento, dentre os diversos


aspectos possíveis de ser abordados, o componente social dos sistemas de saneamento
possuem expressiva relevância. De acordo com o MS e a Opas

a natureza da ação de saneamento a coloca como uma meta social e coletiva,


principalmente em função das repercussões coletivas de sua ausência e por se
constituir em um monopólio natural e essencial à vida. Em sendo uma meta social, a
mesma se situa no plano coletivo, onde os indivíduos, a comunidade e o Estado têm
papéis a desempenhar. Dada a sua natureza, o esforço para a sua promoção deve se
dar em vários níveis envolvendo diversos atores. As ações de saneamento, além de
ser fundamentalmente uma ação de saúde pública e de proteção ambiental, são,
também, um bem de consumo coletivo, um serviço essencial, um direito do cidadão
e um dever do Estado. (BRASIL, 2004b)
14

Assim os autores destacam que a promoção das ações de saneamento é mais


compatível com as políticas públicas e sociais, afirmando como princípio que a promoção das
ações de saneamento deve ter uma abordagem pública, resultando no fortalecimento do papel
do Estado

Tais perspectivas são tratadas por Borja (2010 apud HELLER, 2011) entendendo o
saneamento básico como ação de saúde pública, medida de interesse local, direito do cidadão
vinculado à moradia digna e à salubridade do meio, ação de proteção ambiental, alegando
então que o saneamento é um direito social vinculado às políticas sociais. Assim, percebe-se
que as ações de saneamento influenciam e impactam as práticas sociais, limitando ou
facilitando a vida social comunitária. Apesar desse fato, as intervenções de saneamento
normalmente não envolvem os favorecidos pelas políticas. De acordo com Heller (2011), a
apropriação dos serviços pela população depende das características socioculturais da
comunidade objeto das intervenções e, frequentemente, não é curta a distância entre as
soluções concebidas pelos técnicos e a aderência a elas pelos pretensos beneficiários.

Sobre a relação saneamento e saúde, o Ministério da Saúde e a Organização Pan-


Americana da Saúde (BRASIL, 2004b) afirmam que na determinação da relação
custo/beneficio das intervenções em saneamento básico e a melhoria da saúde percebe-se que
as ações de saneamento, ao propiciarem melhoria nos níveis de higiene dos indivíduos e do
seu contexto, reduzem o contato das populações com grande variedade de vetores,
reservatórios e agentes patogênicos e, assim, diminuem as chances de adoecimento por
diversas doenças. De acordo com Britto (2011) a área da saúde compreende, reflete e dialoga
com o saneamento, mesmo que isso não ocorra sempre na esfera institucional, nem sempre na
gestão. A autora enfatiza que há uma articulação temática, de agentes e de indicadores de
controle de saúde e saneamento.

Pensando a articulação das ações, os temas saneamento, saúde e meio ambiente


encontram-se relacionados em diversos instrumentos legais desde a Constituição de 1988, no
Lei Orgânica da Saúde (8080/1990) e a Lei Nacional de Saneamento (11.445/07)3. Apesar
disso, pouco se avançou no tratamento temático integrado e, segundo Carlos (2004), existe a

3
O Artigo 49 dessa lei (BRASIL, 2007) estabelece os objetivos da Política Nacional de Saneamento Básico destacando sobre
a questão social: a redução de desigualdades regionais, geração de emprego e renda e inclusão social; a prioridade às áreas
ocupadas por populações de baixa renda; a salubridade ambiental dos povos indígenas e populações tradicionais conforme
suas características socioculturais; e das populações rurais e núcleos urbanos isolados; a maximização da relação benefício-
custo e do retorno social; a minimização dos impactos ambientais e assegurar o atendimento às normas relativas à proteção
do meio ambiente, ao uso e ocupação do solo e à saúde.
15

necessidade de um tratamento sistêmico dessa relação e uma ampliação dessa visão que
adquire complexidade crescente e busca aproximar os modelos idealizados da realidade,
centrados na busca da integração das ações.

A 1ª Conferência Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável e Solidário


(BRASIL, 2008) expressa que

o direito ao saneamento integrado é garantia de saúde e qualidade de vida. A


implantação de sistemas apropriados de abastecimento de água potável (incluindo
legislação específica simplificada para a utilização de recursos hídricos pelas
agroindústrias familiares), de esgotamento sanitário, de coleta e destinação adequada
de resíduos sólidos, incentivo à proteção de nascentes, acompanhados de educação
sanitária e ambiental, é fundamental para a prevenção de doenças. (BRASIL, 2008)

Essa Conferência ainda destaca que ser necessária uma articulação entre os entes
federados para destinação de recursos e ampliação das ações de saneamento rural que
contemplem o diagnóstico e formas de gestão participativa intersetorial e controle social.

3.1.3 A política pública de saneamento

A emergência da universalização do saneamento no Brasil requer a estruturação de


uma política pública eficiente que garanta a eficácia e efetividade das ações. A formulação
das políticas deve ser induzida pelos princípios, objetivos e diretrizes garantidos pela Lei. De
acordo com Inojosa (2011), a política apenas indica as bases de um organismo sistêmico,
buscando identificar elementos que possam realizar a articulação institucional. Funcionando
como um sistema, contribui para a transformação da iniciativa de um governo, lançando
raízes e envolvendo outros atores que tenderão a lhe dar sustentação e ajudar a transformá-la
para adequar-se às mudanças da realidade.

Para a política de saneamento percebe-se, em nível mundial, a necessidade de acesso


universalizado da população rural e urbana a melhores condições de saneamento básico. No
contexto de consolidação de uma política pública estruturada, Marinho (2006) ressalta que
serão necessários investimentos financeiros na área de saneamento e uma reestruturação
administrativa para o setor, considerando seus aspectos legais e institucionais. Também se
percebe que diversos sistemas implantados, muitas vezes executados com investimentos
externos, são desativados por falta de manutenção e operacionalização correta, resultado de
ausência de políticas continuadas de execução, gestão e controle públicos.
16

Entender as interrelações e conexões entre Estado e políticas públicas, assim como


investigar as preferências e os interesses que formatam a formulação e a
implementação de políticas públicas são tarefas teóricas e analíticas que podem
contribuir para o melhor entendimento das possibilidades e dos obstáculos de
políticas específicas, como a de saneamento básico, para o alcance dos direitos
universais a seu acesso pelo conjunto da população. (SOUZA, 2011)

Sobre o saneamento rural, conforme Carlos (2004) percebe-se uma indefinição de


atribuições, não existindo uma política efetiva que trate do assunto, com poucos órgãos
governamentais atuando nesse campo e o destaque é dado ao envolvimento da Funasa, mesmo
que sua atuação necessite ser aprimorada e adequada às necessidades de comunidades rurais.
Diante desse quadro, Borja (2011) acrescenta que

O ambiente da concepção e implementação dos programas e projetos envolve


problemas determinados por múltiplos fatores (técnicos, financeiros,
administrativos, políticos, ideológicos, culturais, sociais, legais, etc.), e, ainda, conta
com a participação de diversos atores, quer seja da burocracia estatal, como no seio
da sociedade. As estratégias de gerenciamento e administração não têm sido capazes
de lidar com essa complexidade.

Essa Autora ressalta que a implementação de políticas públicas evidencia uma


expressiva complexidade dos processos de concepção e implementação de programas e
projetos. As diversas decisões se dão em ambiente de alta incerteza, já que envolvem as
formas de organização, o financiamento, os insumos, os mecanismos de regulação e controle,
a tecnologia a ser adotada, dentre outros, e, em última instância, os projetos políticos que dão
sustentação a tais decisões (BORJA, 2011). Dessa forma,

as formulações dos programas ocorrem a partir de conhecimentos inacabados, com


uma grande simplificação ‘do social’. Os objetivos e metas das ações contêm
imprecisões, os critérios de definição de prioridades são ambíguos e os juízos dos
êxitos e fracassos são questionáveis. Assim, boa parte das políticas e programas tem
bases teóricas e metodológicas débeis. (BORJA, 2011)

Sobre essas questões Britto (2011) sugere que tais problemas resultam de: falta de
prioridade política; falta de recursos humanos e financeiros para contrapartida municipal;
deficiência de planejamento, descontinuidade da política pública de saneamento; falta de
aplicação de políticas específicas, com projetos sustentáveis de saneamento, que atendam a
toda a população urbana e rural; baixo investimento em projetos de saneamento integrado,
principalmente nas zonas rurais e nas ocupações informais. Assim,

tais indicações corroboram dados e indicadores sobre a precariedade dos


serviços na região, relacionando, essa precariedade, a descontinuidade de
investimentos e, centralmente, a fragilidade de cultura de gestão em
saneamento básico, nos municípios, como fortes marcas do legado
institucional. (BRITTO, 2011)
17

Visando à ruptura com o paradigma descrito acima, Teixeira (2011) afirma que existem
seis fatores relevantes para a estruturação de uma política e a gestão dos sistemas rurais de
saneamento, em particular para abastecimento de água:

• Tecnologia apropriada;
• Desenvolvimento de recursos humanos;
• Financiamento viável e factível;
• Articulação dos programas comunitários de saneamento rural com outras ações de
saúde;
• Participação da comunidade e intervenção da mesma de forma permanente;
• Infraestruturas viáveis ou apoios institucionais.

3.1.4 Conhecendo a gestão dos serviços de saneamento


Gerir, gerenciar ou administrar políticas, ações e sistemas públicos remete à
necessidade de construção de elementos permanentes e estruturados de organização. Para
Santoni (2010), gerenciar é a arte singular de pensar, criar, planejar, decidir e agir.

Por intermédio da interação de pessoas e num cenário de mudanças constantes,


gerenciar é fazer bem e alcançar resultados previstos, analisando-os e avaliando-os
consoante os objetivos propostos. Os gestores deverão conhecer os meandros das
relações intersetoriais e garantir no seu foro de responsabilidades quadros técnicos,
cuja inteligência instalada auxiliará na busca de tecnologias que levem
progressivamente às metas estabelecidas. (SANTONI, 2010)

O Autor afirma que a função mais importante de qualquer modelo organizacional ou


institucional para serviços públicos é o atendimento harmônico das necessidades das pessoas.
Deve-se garantir o equilíbrio biocêntrico – a priorização da vida – dos diversos interesses e
necessidades envolvidos nesse sistema institucional, responsável pelo “bem comum”
efetivamente gerado, ou seja, a boa gestão. Dessa forma, a gestão dos serviços de
abastecimento de água e esgotamento sanitário compreende um conjunto de atribuições e
atividades exercidas pelas organizações desse sistema institucional, compreendendo o
planejamento, a regulação, a fiscalização, a prestação e o controle social dos serviços
(SANTONI, 2010).

O planejamento é a proposta de estratégias e ações ao longo do tempo, resultante do


estudo da mudança de uma situação ou cenário para outro – melhor! – onde, para
cuja mudança, se faz um diagnóstico e se analisam alternativas de cenários futuros,
em função dos recursos materiais, dos colaboradores disponibilizáveis para o
processo, das variáveis naturais, socioeconômicas, financeiras, culturais e
ambientais, as quais devem ser monitoradas, avaliadas e eventualmente ajustadas.
18

As regras integrantes do pacto sobre as condições e o desenvolvimento das


atividades da prestação dos serviços compreendem a regulação, onde o ente público
responsável – o titular – define como as ações planejadas serão desenvolvidas
(SANTONI, 2010).

O referido Autor aprofunda a abordagem destacando que a verificação do


cumprimento dessas regras não é um processo simples num conjunto tão amplo de
necessidades e interesses e demanda uma sistemática de fiscalização. Nesse contexto, a
prestação dos serviços extrapola a simples operação dos sistemas de água e esgotos,
compreendendo o projeto, a construção, a pré-operação, a operação, a manutenção, a
ampliação e a informação continuada (SANTONI, 2010)

Os serviços de saneamento são considerados serviços públicos essenciais conforme a


Constituição Federal, pois garantem a sobrevivência e bem-estar da população. Assim Peixoto
(2011) alega que o Estado elege o saneamento como direito social e assume sua titularidade
juntamente com a obrigação-dever de provê-lo, direta ou indiretamente, com ou sem
exclusividade.

Como qualquer atividade laboral ou produtiva os serviços públicos em geral, e os de


saneamento básico em particular, têm custos e a sociedade paga por eles, mesmo os cidadãos
que não são seus beneficiários diretos. Sendo atividade pública essencial e indispensável para
a sociedade, e de obrigação-dever do Estado, a disposição e o acesso a esses serviços devem
ser garantidos a todos os cidadãos, inclusive para os que não tenham capacidade para pagar,
cabendo ao Poder Público estabelecer e garantir as formas e os meios de sua prestação e
sustentação econômica. Essa garantia se processa por meio de adequada regulação normativa
e técnica. (PEIXOTO, 2011)

Além dos componentes tradicionais de gestão do saneamento, as decisões devem ainda


considerar as relações com outras políticas de gestão do meio ambiente, recursos hídricos,
saúde e uso do solo. Desse modo, Inojosa (2011) postula que é preciso vincular as análises,
planos, programas, decisões e ações aos territórios, onde todas as questões se vivificam e
mostram suas interdependências. Complementa afirmando que não se trata do território
político administrativo, mas dos espaços sociais, produzidos e delimitados pelo entorno que
os ordena, que podem se aproximar ou extrapolar os limites de estados e de municípios.

Também Moraes e Borja (2005) destacam que a intersetorialidade impõe, como


requisito, a mudança sobre a abordagem que se constrói sobre determinado setor e o tipo de
intervenção que se implementa no território, reescrevendo o saneamento num lugar de
excelência como política pública que tem como principal resultante a gestão de serviços
públicos e não a obra ensimesmada. Diante desse contexto,
19

as instituições públicas devem buscar se adequar às novas exigências do mundo


contemporâneo, onde não existe mais espaço para ações fragmentadas, de baixa
transparência, sem participação e controle social e descontextualizadas da realidade.
Não existem fórmulas para o exercício da intersetorialidade são os contextos locais
de ordem política, econômica, cultural, social e ambiental, que irão se constituir em
pontos de partida para se pensar e agir de forma intersetorial. A materialidade das
ações intersetoriais será tecida no nível local, por meio de ações coletivas,
democráticas, de troca de saberes e experiências dos diversos atores sociais e com a
superação da visão técnico-burocrática. É nesse nível territorial que a complexidade
se expressa nas suas similaridades, nas suas contradições e nas suas possibilidades.
(BORJA, 2011)

Complementando o argumento, Paim (2011) ressalta que a intersetorialidade


representa uma diretriz estratégica, representando, trabalhar juntos para alcançar resultados
melhores ou uma combinação de recursos para obter eficiência, eficácia e efetividade.
Também aponta a oportunidade de a sociedade expressar qual desenvolvimento deve ser
compatível com a melhoria da qualidade de vida, contribuindo para formulação de políticas
públicas saudáveis, com caráter intersetorial e voltadas para a sua promoção da saúde.

3.2 O SANEAMENTO RURAL


No Brasil, a maioria da população encontrava-se na área rural até meados da década de
sessenta do Século passado. O movimento de migração campo-cidade é intensificado a partir
da industrialização e urbanização ocorrida nos anos cinquenta. Em 1960 a população rural
brasileira representava 54,9% enquanto que a urbana, 45,1%. Em 1970 a situação já era
inversa, com menor parte da população nacional residindo em áreas rurais (Gráfico 1).
Atualmente, 84,4% dos brasileiros residem nas cidades e 15,6% em territórios rurais,
expressando uma acelerada urbanização do País. Enquanto que na Zona da Mata
Pernambucana, percebe-se uma maior proporção de moradores rurais (25,3%) em relação ao
Brasil.
20

Gráfico 1 - População urbana e rural


84,4
81,2
75,5
67,7
Brasil Urbana
56
63,8 Brasil Rural
54,9
Pernambuco Urbana
45,1
36,2 Pernambuco Rural
44
zona da mata Urbana
32,3 zona da mata Rural
Percentual

24,5
18,8
15,6
1950 1960 1970 1980 1991 2000 2010
Anos

Fonte: Censos Demográficos de 1950 a 2010 (IBGE, 2012a).

Conforme descreve Inojosa (2011), a falta de condições de vida no campo, de trabalho


e de oferta de serviços, continua a empurrar as pessoas para as cidades, aonde vão se alojar
em áreas de risco e sem saneamento e outros serviços. A pressão por habitações e a
concentração de serviços, por sua vez, traz fortes e inesgotáveis demandas de infraestrutura
para as cidades.

Os censos demográficos também revelam que a população rural em números absolutos


decai desde a década de 1980 e, mesmo assim, representa um expressivo contingente
populacional, expressando atualmente quase 30 milhões de habitantes no Brasil, 1,7 milhões
em Pernambuco e 330 mil pessoas na Zona da Mata Pernambucana (Tabela 2).
21

Tabela 2- População urbana e rural do Brasil, Pernambuco e Mesorregião da Mata

Brasil Pernambuco Zona da Mata


censo situação
população % população % população %
urbana 18.782.891 36,2 1.167.981 34,4
1950
rural 33.161.506 63,8 2.227.785 65,6

urbana 32.004.817 45,1 1.858.078 44,9


1960
rural 38.987.526 54,9 2.280.211 55,1

urbana 52.904.744 56 2.862.489 54,5


1970
rural 41.603.839 44 2.391.412 45,5

urbana 82.013.375 67,7 3.864.285 61,9 602.046 55


1980
rural 39.137.198 32,3 2.379.990 38,1 493.420 45

urbana 110.875.826 75,5 5.046.535 70,9 702.727 62


1991
rural 36.041.633 24,5 2.076.013 29,1 429.817 38

urbana 137.755.550 81,2 6.052.930 76,5 833.436 69


2000
rural 31.835.143 18,8 1.859.007 23,5 373.838 31

urbana 160.925.792 84,4 7.052.210 80,2 979.650 74,7


2010
rural 29.830.007 15,6 1.744.238 19,8 330.988 25,3
Fonte: Censos Demográficos de 1950 a 2010 (IBGE, 2012a).

A compreensão da relação entre as dimensões urbana e rural facilita o envolvimento e


a distinção de abordagem das políticas de saneamento. Kobiyama et al (2008) acrescenta que
esse tipo de classificação é muitas vezes útil, pois as atividades humanas dependem das
características da área. Assim, as características ambientais são diferentes nas áreas urbanas e
rurais, onde cada zona necessita de ações humanas específicas adequadas e diferenciadas. Os
Autores reforçam como exemplo, as técnicas específicas de drenagem urbana e drenagem
rural, embora com mesmas finalidades. Enquanto que Matos (2007) considera como pouco
significativo o consumo doméstico da área rural, pois os volumes demandados são pequenos e
geograficamente dispersos. Assim, as previsões de cotas per capita para as zonas rurais são
bem menores do que para os núcleos urbanos.

O conhecimento do território facilita a compreensão das relações e abordagens


necessárias. Abramovay (2003) considera que territórios não é, simplesmente, um conjunto
neutro de fatores naturais e de dotações humanas. Eles se organizam por laços informais, por
modalidades não mercantis de interação construídas ao longo do tempo e que moldam a
identidade dos indivíduos e dos grupos sociais.
22

Os territórios não são definidos pela objetividade dos fatores de que dispõem, mas,
antes de tudo, pela maneira como se organizam. Esses vínculos sociais nem sempre
se traduzem em formas de organização e resultados virtuosos: a proximidade pode
ser importante para a inovação (...) mas ela é, com imensa frequência, também, a
base do provincianismo e das formas rotineiras de interação que bloqueiam as
inovações tecnológicas e organizacionais. Ainda assim, é importante reconhecer
novas formas de organização produtiva no mundo contemporâneo e os novos
desafios que colocam à intervenção do Estado. (BEDUSCHI FILHO e
ABRAMOVAY, 2004)

Os Autores também evidenciam que o enfoque territorial aplicado ao planejamento


permite que determinadas características locais sejam valorizadas, como, por exemplo, os
atributos naturais e a herança cultural de determinada localidade.

3.2.1 A questão rural


A caracterização do ambiente rural inicialmente exige uma distinção de ambiente
agrícola. A denominação do rural relaciona-se diretamente com baixa densidade populacional
e a relação com o ambiente natural. Percebem-se também aspectos distintos da área urbana
como as relações econômicas e sociais e a dependência das instituições e serviços urbanos. A
política de saneamento atual define a população que se enquadra na classificação de
saneamento rural, como aquela que mora em aglomerados de até 2.500 habitantes (Funasa,
2006)

Para Chiodi (2009), entende-se que o acesso aos bens comuns por populações rurais
tradicionais é permeado por lógicas invisíveis aos planejadores e que há normas, regras e
acordos locais para apropriação dos recursos naturais que, em muitos casos, garantem a
utilização desses recursos de forma conservacionista e por várias gerações.

As políticas implantadas por ações governamentais não percebem a lógica da cultura


dessas populações e que também não se busca compreender as relações dessas com
o meio local, para nortear as suas intervenções. Essas populações ficam à margem
das decisões, quando poderiam contribuir para a elaboração e a consolidação de
políticas públicas focadas em um modelo mais sustentável de utilização de recursos
naturais. (CHIODI, 2009)

Segundo Teixeira (2011), as áreas rurais têm sofrido mudanças profundas, devido ao
fortalecimento da concentração da terra, à manutenção e expansão da economia de mercado
da monocultura e as tecnologias agrícolas modernas sob a liderança do agronegócio focado na
exportação. Essas condições e relações econômicas do meio rural resultam em desemprego e
desigualdades sociais.
23

Todos esses povos e populações e ainda um número expressivo de vilas e


também de cidades com população de 2 mil até 50 mil habitantes, mantém
uma reciprocidade e continuidade nas relações com os espaços rurais, devido
às suas atividades produtivas, sociais e culturais. Este é o universo que,
carente de serviços de saneamento básico, coloca desafios para as políticas
públicas de Estado, clama por direitos, por justiça social e por um
desenvolvimento sustentável solidário, emancipatório e que consolide o
empoderamento coletivo de cada comunidade. (TEIXEIRA, 2011)

Dados da Opas (2001, apud TEIXEIRA, 2011), indica que 61% da população rural
tinham acesso à energia elétrica, 15% à coleta de resíduos sólidos, 19% à água de rede geral e
5% estavam conectados à rede pública de esgotos. Para o Autor, diversos dados atestavam
que, quanto mais pobre é a região ou a população, piores são as condições sanitárias, sendo
mais difícil o acesso aos serviços públicos, em especial, aos de saneamento básico.

Os dados do Censo Demográfico de 2010 mostram que no Brasil houve uma


ampliação no acesso à água potável nas áreas urbanas e rurais. Em 1970, o país possuía 60%
dos domicílios urbanos e 3% dos domicílios rurais cobertos por rede de abastecimento de
água potável, enquanto que em 2010, a cobertura dos domicílios urbanos subiu para 92% e, a
dos domicílios rurais, para 28%, sendo a maioria dos domicílios rurais abastecidos por poços
(Gráfico 2).

Pernambuco conta com rede de abastecimento em 87% das residências, índice


próximo a Zona da Mata (85%). Na zona rural dessa mesorregião percebe-se o elevado
percentual de abastecimento por poços fora da propriedade (quase o dobro do índice
nacional), resultante da concentração agrária, bem como o baixo índice de abastecimento por
carro pipa ou água da chuva (3%) em relação ao Estado (25%), decorrente da abundância de
mananciais de água existentes na região.
24

Gráfico 2 - Acesso à água por situação do domicílio em 2010

92%
87%
85%

38%

29%
28% 28% 28%
24% 25%

17% 18%
15%

6% 6% 7%
5% 5%
2% 0% 2% 2% 1% 3%
Poço ou nascente na propriedade

Poço ou nascente na propriedade

Poço ou nascente na propriedade

Poço ou nascente na propriedade

Poço ou nascente na propriedade

Poço ou nascente na propriedade


Rede geral

Rede geral

Rede geral

Rede geral

Rede geral

Rede geral
Carro-pipa ou água da chuva

Carro-pipa ou água da chuva

Carro-pipa ou água da chuva

Carro-pipa ou água da chuva

Carro-pipa ou água da chuva

Carro-pipa ou água da chuva


Poço ou nascente

Poço ou nascente
Poço ou nascente f ora

Poço ou nascente f ora

Poço ou nascente f ora

Poço ou nascente f ora


Brasil Pernambuco Mata Brasil Pernambuco Mata
Pernambucana Pernambucana
Urbano Urbano Urbana rural rural rural

Fonte: Censo Demográfico de 2010 (IBGE, 2012a).

Inojosa (2011) afirma que a desigualdade de cobertura dos domicílios urbanos e rurais
reflete o poder de uns e outros na reivindicação do benefício essencial à qualidade de vida e a
persistência da vulnerabilidade hídrica da população rural. Por sua vez, Matos (2007) acentua
que esse padrão confirma a influência da desigualdade social no acesso às estruturas de
saneamento, assim como uma maior carência do saneamento nos ambientes rurais.

Para Casali (2008), a cobertura é assimétrica em função do distanciamento entre o


rural-urbano em relação a disparidades de índices de rendimento e de pobreza, assim como
uma maior dificuldade na implantação do abastecimento de água e de saneamento pela maior
distância entre as residências, resultando em custos mais elevados em áreas rurais. O Autor
ainda discorre sobre os fatores políticos, onde normalmente as populações rurais situam-se em
áreas marginais, diminuindo sua significância para as políticas públicas frente à população
urbana.
25

Diante desse cenário, constata-se que “o saneamento rural definha no Brasil ressentido
de uma política nacional de saneamento que dê conta das rápidas mudanças decorrentes do
processo de globalização da economia, e suas implicações no setor em médio e longo prazo”
(LOPES et al, 2000).

Conforme dados apresentados, existe uma tendência à diminuição dos índices


demográficos rurais. Por outro lado, percebe-se o crescimento da quantidade de domicílios
rurais na última década (Tabela 3) tanto em nível nacional, como estadual e na Zona da Mata
Pernambucana. Tais dados repercutem na necessidade de ampliação da cobertura por rede de
abastecimento ainda insipiente na zona rural brasileira. Mesmo assim, é notado o expressivo
aumento percentual de domicílios ligados à rede: no Brasil aumentou três vezes em 20 anos
(de 9% para 27% dos domicílios), em Pernambuco aumentou uma vez e meia (de 10% para
24%), enquanto que a Zona da Mata acompanha a média nacional (27,6%). Apesar do
aumento significativo, mais de 70% dos domicílios ainda encontram-se desenvolvendo
soluções individuais, representando um contingente de mais de 60 mil domicílios na
mesorregião estudada e 5,8 milhões no País.

Tabela 3- Comparativo dos domicílios por forma de abastecimento de água 1991, 2000 e 2010
Unidade Forma de 1991 2000 2010
geográfica abastecimento absoluto % absoluto % absoluto %
Total de domicílios 34.734.715 100% 42.707.925 100% 57.324.167 100%
urbano

Total de domicílios 27.157.268 78,2% 35.946.504 84,2% 49.226.751 85,9%


Brasil Rede geral 23.846.914 87,8% 32.413.081 90,2% 45.243.421 91,9%
Total de domicílios
rural

7.577.447 21,8% 6.761.421 15,8% 8.097.416 14,1%


Rede geral 715.099 9,4% 1.246.348 18,4% 2.250.604 27,8%
urbano

Total de domicílios 1.158.586 73,0% 1.465.139 80,3% 2.091.157 82,1%


Rede geral 999.487 86,3% 1.263.986 86,3% 1.826.725 87,4%
Pernambuco
Total de domicílios
rural

428.096 27,0% 358.868 19,7% 455.715 17,9%


Rede geral 43.299 10,1% 57.165 15,9% 109.435 24,0%
urbano

Total de domicílios 153.871 64,5% 186.276 72,6% 276.032 76,8%


Zona da Rede geral 118.940 77,3% 157.287 84,4% 235.428 85,3%
Mata Total de domicílios
rural

84.680 35,5% 70.380 27,4% 83.480 23,2%


Rede geral 9.302 11,0% 12.334 17,5% 23.051 27,6%
Fonte: Fonte: Censos Demográficos de 1991 a 2010 (IBGE, 2012a).
26

Percebe-se a semelhança entre o padrão de crescimento do abastecimento rural em


Pernambuco, Zona da Mata e Brasil (Gráfico 3) diferente dos índices para as cidades nos três
níveis, refletindo as ações de fomento à ampliação das redes de água em áreas rurais.

Gráfico 3- Domicílios abastecidos por rede geral, Brasil, Pernambuco e Zona da Mata.

88% 90% 92% 86% 86% 87%


77% 84% 85%

28% 24% 28%


18% 10% 16% 18%
9% 11%

1990 2000 1990 2000 1990


2010 2010 2000 2010
Brasil rural Pernambuco rural Zona da Mata rural
Brasil urbano Pernambuco urbano Zona da Mata urbana

Fonte: IBGE (2012a).

Diante desse cenário, a universalização dos serviços de saneamento básico rural é uma
dívida histórica que as políticas públicas têm para com as populações rurais (TEIXEIRA,
2011). Havendo

demanda de soluções coletivas, na maioria das vezes, alternativas e não


convencionais, soluções coletivas para pequenos grupos de famílias e soluções
individuais, sobretudo para moradias mais dispersas, distantes cerca de mais de 500
metros, umas das outras. A adoção de tecnologias apropriadas terá influência nos
recursos financeiros para execução dos projetos, como para a operação e
manutenção dos sistemas. (TEIXEIRA, 2011)

Sobre o baixo índice de cobertura dos serviços de abastecimento em regiões rurais, no


geral nota-se o baixo interesse do poder público municipal. Lopes et al (2001) considera que a
descentralização administrativa e o consequente gerenciamento autônomo dos serviços estão
longe de serem vistos pelo poder público municipal como uma necessidade e única via a
médio e longo prazo. Assim podendo minimizar os recursos do Estado e dos municípios,
decorrentes do mau uso, desperdício, imperícia e descomprometimento da população com os
equipamentos e serviços implantados, em razão do modelo paternalista predominante.
27

A Funasa (FUNASA, 2006) acrescenta que a utilização do saneamento como


instrumento de promoção da saúde pressupõe a superação dos entraves tecnológicos, políticos
e gerenciais que têm dificultado a extensão dos benefícios aos residentes em áreas rurais,
municípios e localidades de pequeno porte. Com características específicas, o rural descrito
por Kobiyama, et al (2008) possui área bem maior, com unidades distantes entre si e
consequentemente densidade menor, representando um custo para transporte de quaisquer
elementos (pessoas, lixos, água, solo, entre outros) bem maior. Assim os Autores afirmam que
o conceito de descentralização do saneamento é ainda mais importante na área rural. Para o
IRC (2005), alcançar tais padrões requer um alto nível de envolvimento da sociedade,
ambientes de aprendizagem positivos e disposição conjunta para trocar e aprender com
experiências.

Também Lopes et al (2000) reforça que ao projetar e executar obras de saneamento


com envolvimento e organização das comunidades, busca-se o compromisso de
responsabilidade civil da população beneficiária com os equipamento e sistemas implantados,
bem como com o meio ambiente. Desse modo, deve ser realizado um trabalho social
intensivo, a partir de práticas comunitárias coletivas que objetivam envolver a comunidade
numa visão integrada e sistêmica do saneamento e sua correlação com a higiene sanitária e a
saúde coletiva. Também sua importância para as atividades econômicas e atitudes
associativistas geradoras de processos de desenvolvimento local.

3.2.2 Estrutura institucional nacional


Diante de tantas necessidades do setor de saneamento vistas até então, é possível
perceber que nos últimos dez anos o Estado Nacional vem estruturando uma política pública
que possibilite uma organização da matéria. Desde o final da década de 1990 a sociedade
debate sobre a necessidade de um ordenamento jurídico para o saneamento e tal mobilização
resultou na promulgação da Lei Nacional de Saneamento (n° 11.445) em 2007. Essa Lei traz
mudanças de paradigmas importantes que rompem com um Estado Autoritário e
centralizador, relevando a importância do planejamento e da participação da sociedade
(RAMOS, 2007), bem como acrescenta o saneamento rural como direito a ser garantido em
seus princípios fundamentais e nas diretrizes da Política Nacional.
28

Além da Lei, era necessária a definição de um órgão articulador da política, assim foi
criada a Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental (SNSA) em 2003. Apesar de
vinculada ao Ministério das Cidades, dentre suas competências, destaca-se a promoção e
coordenação de programas e ações visando à universalização dos serviços de saneamento
ambiental, incluindo o saneamento rural (BRASIL, 2012a).

Também se encontra em curso a elaboração do Plano Nacional de Saneamento Básico


(Plansab) coordenado pela SNSA e constituirá

o eixo central da política federal para o saneamento básico, promovendo a


articulação nacional dos entes da federação para a implementação das diretrizes da
Lei 11.445/07. Será um instrumento fundamental para a retomada da capacidade
orientadora do Estado na condução da política pública de saneamento básico e,
consequentemente, da definição das metas e estratégias de governo para o setor no
horizonte dos próximos vinte anos, com vistas à universalização do acesso aos
serviços de saneamento básico como um direito social, contemplando os
componentes de abastecimento de água potável, esgotamento sanitário, limpeza
urbana e manejo de resíduos sólidos, e drenagem e manejo das águas pluviais
urbanas. (BRASIL, 2012b)

Quanto aos recursos para o setor, nos últimos dez anos houve um grande aporte.
Somente a partir de recursos federais, entre 2003 a 2009 foram comprometidos 44,7 bilhões
de reais e desembolsados 22,3 bilhões reais para o setor em seus diversos componentes
(abastecimento de água, drenagem, esgotamento sanitário, resíduos sólidos, saneamento
integrado e desenvolvimento institucional) assim descrito em Brasil (2010a). Somente no ano
de 2009 foram comprometidos 6,6 bilhões de reais e desembolsados 3,5 bilhões para ações
federais, estaduais e municipais de saneamento.

Apesar desse montante, para os programas e ações referentes ao saneamento rural,


foram comprometidos 335 milhões de reais e desembolsados e 117 milhões, representando
respectivamente 5% e 3% do montante nacional. Considerando que a população rural
representa 15% da população nacional e que apresenta os menores índices de cobertura, a
destinação de 3% do valor desembolsado em 2009, representa a baixa priorização da questão
rural pelo setor4.

4
Em nível Federal, os principais projetos e atividades encontram-se no Programa de Saneamento Rural (Código 1287) do
Ministério da Saúde, descritos a seguir: Abastecimento de água e instalações hidrosanitárias em escolas públicas rurais,
Implantação e melhoria de serviços de saneamento em escolas públicas rurais, Abastecimento público de água para
comunidades rurais dispersas situadas às margens do rio são Francisco - água para todos, Gestão e administração do
programa, Implantação de melhorias habitacionais para controle da doença de chagas, Publicidade de utilidade pública,
Implantação, ampliação ou melhoria do serviço de saneamento e Saneamento básico em aldeias indígenas para prevenção e
controle de agravos.
29

Borja (2011) também destaca que entre 2005 e 2009 apenas 2,2% dos recursos
federais foram previstos para ações relacionadas ao desenvolvimento institucional, estudos e
projetos e cerca de 14% foram destinadas para os dois tipos de ação. Isso evidencia que, ao
longo dos anos, a programação orçamentária privilegiou a execução de obras em detrimento
das ações relacionadas à gestão.

Embora os déficits dos serviços de saneamento básico ainda justifiquem a


destinação da maior parcela dos recursos para intervenções físicas, a baixa
programação no campo da gestão põe em risco a sustentabilidade dos investimentos,
em face da já reconhecida falta de capacidade dos gestores para garantir a operação
e manutenção das ações implementadas. (BORJA, 2011)

Sobre os projetos que receberam recursos do Programa Saneamento Rural5, Borja


(2011) aponta que cerca de 62% dos projetos que receberam recursos do Programa eram da
Região Nordeste e 9% da Norte (Tabela 4). Segundo a Autora, os Estados que foram
beneficiados com maior número de convênios foram Alagoas (13,6%) e Piauí (9,1%).

Tabela 4- Número de contratos por macrorregiões do Programa de Saneamento Rural

NÚMERO DE
MACRORREGIÃO %
CONTRATOS
Norte 31 9,39
Nordeste 206 62,42
Centro-Oeste 6 1,82
Sudeste 19 5,76
Sul 18 5,45
Nacional e não informado 50 15,15
Total 330 100,00
Fonte: Borja (2011).

Quanto à formulação dos programas de saneamento, Borja (2011) discorre que há de


se estabelecer com maior clareza a natureza das ações de saneamento, a qual deve respaldar a
formulação dos programas e ações.

Uma formulação que considere o saneamento como um direito social, ou seja, como
uma medida de prevenção e promoção da saúde, de cidadania e de proteção
ambiental, terá pressupostos, desenhos, normas e critérios de elegibilidade e
financiamento distintos da que considera o saneamento como uma medida de
infraestrutura ou, ainda, como uma mercadoria. Considerar o saneamento básico
como um direito social pressupõe romper com a visão do saneamento como obra
física, para caminhar na construção da noção do saneamento como uma obra social.
Também considerar o saneamento como uma obra social requer rever o privilégio

5
O Programa Saneamento Rural tem como objetivo ampliar a cobertura e melhorar a qualidade dos serviços de saneamento
ambiental em áreas rurais, priorizando as populações rurais dispersas ou localidades rurais com população de até 2.500
habitantes. São atendidos também os assentamentos da reforma agrária, reservas extrativistas, minorias étnico-raciais, como
quilombolas, população indígena e outros povos da floresta, e as escolas rurais. (SIGPLAN, 2010 apud BORJA, 2011)
30

dado à execução de obras físicas, em detrimento de ações voltadas à gestão, como o


planejamento, a regulação, o fortalecimento dos titulares e prestadores de serviços e
a fiscalização. Assim, o desenho de programas que busquem promover o direito ao
saneamento básico certamente deve contemplar essas diversas concepções, que
estão, na sua maioria, expressas na Lei Nacional de Saneamento Básico como
princípios fundamentais. (BORJA, 2011)

Do mesmo modo, Britto (2011) reforça que programas concebidos a partir de uma
matriz intersetorial são bem estruturados, mas não resolvem o problema do déficit do
saneamento básico. Esses são vistos como programas marginais, que não alteram o
conservadorismo do saneamento básico (inclusive tecnológico), restringindo as inovações que
trazem ao rol de soluções alternativas.

Borja (2011) também analisa o conjunto de ações e programas Federais para o


saneamento básico observando certa dispersão de competências, associada a uma
pulverização de programas e ações e, consequentemente, de esforços e recursos. A Autora
considera que essa pulverização revela fragilidades na definição de um eixo condutor e
orientador das ações e da política. Desse modo,

embora o Ministério das Cidades seja responsável pela gestão dos programas mais
importantes, o reconhecimento de sua liderança ainda enfrenta dificuldades.
Também, cada executor conta com critérios próprios de elegibilidade e priorização,
o que interfere na coesão e direção da ação pública. Essa realidade dificulta a gestão
das ações, desde a seleção de projetos ao acompanhamento da sua implementação,
influenciando na consecução dos objetivos da política. (BORJA, 2011)

3.2.3 A tecnologia para o saneamento rural

Ao considerar os procedimentos tecnológicos como elementos fundamentais para a


sustentabilidade dos sistemas de abastecimento de água rural, torna-se fundamental a
percepção sobre a diversidade de realidades a serem encontradas e que influenciarão na
gestão, operação e manutenção dos sistemas.

Santoni (2010) afirma que para um país com proporções continentais como o Brasil
não se pode propor alternativas de gestão padronizadas, o que pelas diferenças sociais,
culturais, regionais e locais significa colocar o intuito da universalização na contramão de
tudo o que as boas experiências municipais e estaduais têm ensinado. Assim a questão
tecnológica encontra-se sob o domínio dos técnicos do setor e clama uma reflexão mais
intensa e crítica das atuais práticas e pela construção de um novo paradigma que considere
padrões tecnológicos sustentáveis e limpos (SANTONI, 2010).
31

Para a elaboração de projetos a partir de tecnologias apropriadas, Santoni (2010)


recomenda como princípios: a visão interdisciplinar para compatibilizar planos setoriais, a
visão integral do saneamento que considere o ciclo do uso da água e sua conservação, a noção
de saúde pública sob a perspectiva das ações de saneamento como instrumento de combate às
doenças relacionadas à água. Também deve ser visto, segundo o Autor, o saneamento como
gerador de desenvolvimento e de redução das desigualdades sociais, a democracia que facilita
a participação comunitária na definição de prioridades, projetos, obras e manutenção das
unidades implantadas, bem como a co-responsabilidade, e a visão universalista da política
pública de saneamento, associada ao padrão de qualidade, de forma a combater a exclusão e a
desigualdade.

Grande parte dos problemas tecnológicos na área do saneamento básico no Brasil,


afirma Andrade Neto (2011), resulta de deficiências operacionais. Dessa forma, para
“universalizar o saneamento básico no Brasil é imprescindível que se desenvolva tecnologia
que requeira procedimentos operacionais simples e de fácil aprendizado”, principalmente nos
municípios de pequeno e médio porte, onde não há pessoal especializado para manutenção e
operação.

Visando à garantia da universalização sustentável e socialmente justa dos serviços de


abastecimento de água potável, o desenvolvimento tecnológico deverá

assumir novos paradigmas, que considerem a necessidade de proteger sanitariamente


os mananciais, de desenvolver tecnologia para tratamento de água com maior grau
de poluição e contaminação, de aproveitar as águas pluviais como alternativa de
manancial, de mais bem utilizar os reservatórios das redes de distribuição em suas
funções fundamentais, e de aplicar tecnologia moderna e eficaz para controle das
pressões, e das perdas, nas redes de tubulações. No mais, é necessário ter em conta
que não basta ampliar o acesso à água encanada, mas também é importante
desenvolver e aplicar tecnologia de vigilância e gestão da segurança da qualidade,
para universalizar o atendimento com água realmente potável de boa qualidade.
(ANDRADE NETO, 2011)

Sobre o tema, Moraes et al (1999) defende que em pequenas localidades a tecnologia


apropriada para o saneamento ambiental deve conciliar objetivos de simplicidade, baixo
custo, eficiência técnica, facilidade operacional e compatibilidade das soluções com as
condições da área, com segurança e boa qualidade dos serviços oferecidos à comunidade e
com sua aceitação pela população.

Para caracterizar as tecnologias apropriadas, Ennes (1989, apud MORAES, 2011)


conceitua com a que permite atender às comunidades com serviços de saneamento em
32

condições sanitárias seguras e eficientes, que seja aceita pelas comunidades e que contemple
aspectos construtivos, operacionais e de custos compatíveis com as características
socioeconômicas, ambientais e culturais das respectivas. Enquanto que Oliveira (2004 apud
MORAES, 2011), complementa afirmando que a tecnologia apropriada deve proporcionar o
desenvolvimento de autodeterminação das populações e buscar o respeito e a confiança dos
membros da comunidade a ser beneficiada. Nesse sentido,

É uma tecnologia baseada em conhecimentos e experiência técnica, visando


trabalhar com a realidade local e de preferência com os materiais que mais
facilmente se obtenha, sempre em busca de aperfeiçoamento para melhor atender às
comunidades e aos objetivos de promoção da saúde pública e proteção ambiental.
(KLIGERMAN, 1995, apud OLIVEIRA, 2004)

Teixeira (2011), ainda acrescenta a necessidade da participação de comunidade e suas


organizações no processo de decisão em todas as fases de diagnóstico da realidade, busca de
soluções, elaboração do projeto comunitário e do projeto técnico, construção das obras,
operação e manutenção dos serviços instalados e avaliação permanente e periódica dos
trabalhos, garantindo o sucesso do projeto.

A participação é vista como necessária à tomada de decisão. Nesse sentido a


Organização Mundial da Saúde (OMS, 1996) ressalta que quem está mais próximo do
problema quase sempre tem maior possibilidade de encontrar sua solução, quem formula e
toma as decisões se compromete a dar-lhes continuidade e sustentabilidade e a comunidade é
quem melhor entende sua situação. Ainda acrescenta que quanto mais recursos materiais e
financeiros a própria comunidade investe, maior seu compromisso, continuidade e
sustentabilidade dos serviços e que a autoestima constitui um requisito prévio para a tomada
de decisão e seu cumprimento e, ao mesmo tempo, é um resultado desse processo.

Os atores locais precisam ser reconhecidos também como “produtores de


conhecimento”, e não apenas as universidades e seus cientistas. O conhecimento
popular pode ser agregado ao conhecimento científico. Aos dados quantitativos
podem ser adicionados dados qualitativos e subjetivos, que somente vão contribuir
para que a pesquisa científica se realize em bases mais realistas. Esse conhecimento
precisa ser incorporado aos programas de desenvolvimento e à gestão dos recursos
naturais. As estratégias e planos de ação precisam necessariamente estar centradas
nas pessoas e contar com a sua participação. Porém, uma maior participação dos
atores locais depende de informação e de uma maior integração entre eles.
(GUERRA, 2009)

Sobre os sistemas de abastecimento de água, Guerra (2009) também pontua que deve
haver equilíbrio entre o enfoque técnico com o enfoque comunitário, a partir da postura e
33

atuação dos técnicos, gestores, engenheiros, das lideranças locais e das Autoridades
governamentais, bem como da integração entre eles.

Os membros das comunidades devem ser desafiados e estimulados a usar sua


criatividade para identificar problemas e possíveis soluções e agir numa atmosfera
de colaboração institucional, embora as contradições e conflitos sempre estejam
presentes. Tão importante quanto a infraestrutura, são as capacidades e habilidades
de indivíduos, organizações e instituições. (GUERRA, 2009)

Tais perspectivas de abordagens interdisciplinares na concepção e operação dos


sistemas necessitam de processos estruturados de avaliação. Para o MS/Opas (BRASIL,
2004b), a avaliação da dimensão dos aspectos tecnológicos é sugerida a partir da abordagem
segundo três enfoques básicos, apresentados no Quadro 2.

Quadro 2- Enfoques para avaliação da dimensão tecnológica do abastecimento de água

Enfoques Aspectos a serem observados


• realidade sociocultural da população;
• ambiente físico e natural;
• constituição institucional do prestador de serviços;
Projeto
• atualização técnica;
• custos e condições de implantação, operação e manutenção;
• envolvimento da população alvo.
• discussões com a população alvo;
• implantação das tecnologias de saneamento;
Execução das
• eficácia e eficiência do planejamento e execução das obras;
obras
• qualidade das obras;
• satisfação da população com a tecnologia implantada e com a qualidade da obra.
• percepção do usuário e do prestador de serviços;
Operação e • apropriação da tecnologia;
manutenção dos
• utilização e manutenção adequada das instalações sanitárias domiciliares
sistemas
• qualidade e o funcionamento adequado dos sistemas implementados
Fonte: O Autor (adaptado de Brasil, 2004b).

De acordo com esses enfoques, Brasil (2004b) reforça que essa dimensão consiste na
avaliação das soluções de engenharia empregadas, envolvendo a qualidade dos projetos, o
custo e prazo de execução, a finalização e entrega dos empreendimentos e o grau de
apropriação das soluções pela população beneficiada. Também afirma que tal avaliação não se
caracteriza uma comparação temporal do antes e depois, mas de dados e informações que
necessitarão ser identificados antes (análise de projetos), durante (execução) ou depois
(custos, prazos, entrega, apropriação) da implantação dos sistemas.

Para uma avaliação da tecnologia adotada cabe ainda mencionar, a partir de Galizoni
(2005), que as ações do poder público quase sempre não levam em conta o saber local.
Famílias de agricultores afirmam que os projetos quase sempre chegam prontos, mesmo que
queiram participar, não encontram oportunidades ou espaços. A Autora vai além,
34

considerando que a soma do conhecimento das comunidades rurais ao conhecimento técnico


economizariam e potencializariam recursos, encontrando soluções amplas e adaptadas.

Nesse sentido, Arruda (2007) complementa afirmando que noções de tempo, de


ocupação do território, da concepção de lugar, das relações da vida social, do sentido do
trabalho, são premissas que devem ser cuidadosamente consideradas no cotidiano das ações
de técnicos que se propõem a intervir nesses territórios. Em relação à forma como se organiza
o espaço rural (moradias, arruamento e localização das casas), existem situações diversas.

Por isto mesmo, as soluções tecnológicas em saneamento básico poderão ser


bastante diversificadas. Haverá demanda de soluções coletivas, na maioria das
vezes, alternativas e não convencionais, soluções coletivas para pequenos grupos de
famílias e soluções individuais, sobretudo para moradias mais dispersas, distantes
cerca de mais de 500 metros, umas das outras. A adoção de tecnologias apropriadas
terá influência nos recursos financeiros para execução dos projetos, como para a
operação e manutenção dos sistemas. (TEIXEIRA, 2011)

Para que tais soluções sejam apropriadas, faz-se necessário a adoção de alguns
critérios como Opas-OMS (2009 apud TEIXEIRA, 2011) propõe:

tipo de população, se concentrada ou dispersa, e em que dimensões; tamanho da


comunidade/ quantas famílias ou habitantes; características físico-geográficas da
localidade ou das moradias; quanto à água, quais as fontes, quantidade,
temporalidade e qualidade; processo de adução da água, se por gravidade ou
recalque; tipos de tratamento necessários para a água; soluções não convencionais
para esgotamento sanitário, adotando sistemas simplificados, levando em conta as
condições do solo e dos cursos d’água, capacidade de pagamento por parte das
famílias; alternativas de manutenção e gestão; potencial e capacidades das
comunidades.

Teixeira (2011) também destaca que as tecnologias apropriadas levam em conta a


identidade cultural e o ambiente de cada comunidade; o aproveitamento os recursos do
ecossistema, os recursos energéticos locais e os insumos materiais; a contribuição com a
preservação do ambiente, com a reciclagem dos seus recursos e com o uso de fontes
alternativas de energia; o estímulo à participação organizada da comunidade em todas as fases
do sistema e a redução da dependência científica e tecnológica de nossos países e impulsionar
o desenvolvimento sustentável.

Dentre as soluções tecnológicas em questão, as soluções coletivas devem ser


priorizadas em detrimento das soluções individuais. A partir do enfoque sanitário, Funasa
(2006) destaca que a solução coletiva é a mais interessante, pois facilita a proteção do
manancial, a supervisão do sistema, o controle da qualidade da água consumida e a redução
de recursos humanos e financeiros (economia de escala).
35

3.3 RACIONAMENTO NO ABASTECIMENTO DE ÁGUA


O racionamento no abastecimento de água, corte ou interrupção programada, manobra
ou operação no sistema e outros termos proferidos sobre a matéria, ocorre em distintas
realidades, sistemas e regiões do Brasil. Tais situações são resultantes de questões técnicas,
operacionais, de disponibilidade de água, manutenção dos sistemas, entre outras. De acordo
com Leitão (2009), a escassez dos recursos hídricos não deriva de um único fator: pode ser de
caráter físico (natural e ambiental), tecnológico, social ou político-administrativo (gestão) e
pode variar no tempo e no espaço.

Em pesquisa realizada em 2001 (BRASIL, 2002), o Programa Nacional de


Modernização do Setor Saneamento (PMSS) afirmava que 42% das instituições que operavam
o abastecimento de água no Brasil trabalhavam com interrupções permanentes no
funcionamento dos sistemas (19%, de seis a 12 horas; 14%, de 12 a 24 horas; e 9%, com
períodos de interrupção maiores que 24 horas), demonstrando a ineficiência e a falta de
prioridade dos gestores com os princípios da regularidade e qualidade nos serviços prestados.

A condição de corte no abastecimento de água resulta em aumento da precariedade nas


condições de vida de populações vulneráveis. Ramos (2006) afirma que

a abordagem dos impactos socioambientais, a partir da implementação de medidas


de racionamento no abastecimento de água, numa comunidade em condições de vida
precária, pode revelar questões de ordem social e ambiental. O fundo é o espaço
físico, onde são externadas as relações entre ambiente construído, social e natural e
que moldam as precariedades, contaminações e deteriorações, bem como as
desigualdades socioeconômicas.

O Autor acrescenta que as impressões e abordagens para o convívio com o


racionamento são diversas e que as diferenças de entendimentos e reações sociais são
refletidas por estas impressões. Assim existe uma diversidade de compreensões sobre o
conceito de racionamento no abastecimento de água, a lembrança do processo de implantação,
as medidas tomadas ao longo tempo, a percepção dos impactos espaciais e sociais e os
conflitos e disputas existentes, mas resultam na construção de um clima de acomodação e
pouca reflexão sobre as condições precárias e inseguras de acesso à água (RAMOS, 2006).
Diante disso,

Quem tem mais condições financeiras, se protege mais facilmente; quem não as tem
procura, ao longo da vida, equipar seu domicílio de canalizações internas de
abastecimento d’água, de caixa d’água, de fossas ou cava valas para evacuar o
esgoto. Esforços permanentes que se verificam em comunidades de baixa renda,
transformadas em milhares de canteiros de obras domésticas, conduzidas ao sabor
36

das oportunidades e, obviamente sem nenhuma coordenação. Compelidos a usar


estratégias individuais, (...) correm o risco de se tornar cada vez mais estranhos uns
aos outros, cada vez mais desiguais, cada vez menos solidários. E,
conseqüentemente, cada vez menos capazes de formular um projeto coletivo de
recuperação ambiental, sanitária e de habitabilidade (BITOUN, 2004).

Na área rural, a precariedade de acesso aos serviços públicos, facilita a aceitação da


condição de racionamento. Nesse sentido, Ramos (2006) reforça que a reação da sociedade ao
enfrentamento do racionamento no abastecimento de água acontece a partir da adequação
particular e pontual a tal política, sem organização social que reivindique a resolução do
problema, a participação e o controle social na gestão dos recursos hídricos e abastecimento
d’água.

Apesar de atingir quase metade dos sistemas de abastecimento no país, a interrupção


programada no fornecimento de água é pouco registrada, pesquisada e debatida, existindo
poucas instituições envolvidas com o assunto. Para Porto et al(1998),

a escassez de políticas públicas de saneamento básico contextualiza-se não apenas


num quadro de ausências de serviços, mas sobretudo de cidadania. Isto porque o
acesso universal aos serviços públicos é um componente central da cidadania. O
Estado deve, portanto, garantir que os serviços públicos funcionem de acordo com
os princípios de continuidade, igualdade e mutabilidade, isto é, que eles funcionem
sem interrupções; sejam acessíveis de forma igual ao conjunto dos cidadãos e;
evoluam qualitativa e quantitativamente, segundo as necessidades dos
usuários/cidadãos. A condição de não cidadão é uma construção social que se
caracteriza pela desigualdade de acesso a bens e serviços, pela exclusão e
segregação social.

Em Ramos (2006) é registrado que é necessário resgatar a água como um bem valioso
no imaginário coletivo, que a garanta quando há necessidade e não quando chega. Também
que o desapego à água é uma construção social, pois se trata de um serviço precário, sem
visão de importância, levando à construção de negação desse bem (desperdício, vazamentos
sem relevância). A precariedade induz ao afastamento e não à valorização, tornando este
recurso em um bem não precioso nas comunidades.

Ressalta-se que, o enfrentamento destas questões do abastecimento da água através


da busca por novos meios de seu gerenciamento traz a possibilidade e a capacidade
de reconstruir a solidariedade das comunidades locais, com vistas à sustentabilidade
dos ambientes do entorno e a recuperação da dignidade humana. Para isso é
necessário envolver as pessoas, dotando-as de conhecimento e informação para que
possam assumir o papel de sujeitos para a alteração da realidade. (RAMOS, 2006)

Contudo, registra-se a inexistência de previsão legal para situações de racionamento


permanente. A Lei Nacional de Saneamento prevê a possibilidade de interrupção do
37

fornecimento de água6 apenas a partir da inadimplência do usuário, situação de emergência ou


por necessidade de reparo. Enquanto que a Portaria 518/2004 (BRASIL, 2005) do Ministério
da Saúde permite uma tolerância na interrupção do abastecimento a partir da necessidade de
realização de manobras, desde que haja aviso prévio à Autoridade de saúde pública e informar
à população, identificando períodos e locais de ocorrência de pressão inferior à atmosférica.

A Portaria do MS também determina no artigo 24, que “em todos os momentos e em


toda sua extensão, a rede de distribuição de água deve ser operada com pressão superior à
atmosférica” (BRASIL, 2005). Moraes (2011) destaca que quando a regularidade não é
atendida, segundo a referida Portaria, caracteriza-se a falta de continuidade. Sendo necessário
procurar dados que ajudem a caracterizar a regularidade dos serviços prestados a partir das
questões:

1. Qual percentual da população tem acesso à rede de água sob pressão, 24 horas por
dia?

2. Todo o sistema de distribuição de água funciona com pressão superior à


atmosférica, 24 horas por dia?

Quanto aos riscos referentes à interrupção da operação dos sistemas e da prestação


dos serviços públicos de saneamento básico, quando prolongada e sem solução
imediata, trata-se de aspecto relevante devido à essencialidade dos serviços, os quais
afetam diretamente a qualidade de vida e a dignidade humana e cuja ausência
acarreta problemas de saúde pública e ambientais. Quando medidas de remediação
visando a resolver questões de interrupção se mostram insatisfatórias, exigindo
ações de efeitos mais duradouros, isso pode significar baixa capacidade de previsão
e organização dos prestadores dos serviços, proveniente da negligência no
planejamento em ações preventivas, que conduzem para uma situação de
precarização a ponto de gerar a interrupção por tempo indeterminado dos serviços
públicos de saneamento básico. (MORAES, 2011)

Para enfrentar uma emergência em que exista falta de água, Navarro-Roa (2008)
discute que é indispensável à avaliação das condições ambientais favoráveis e desfavoráveis,
as características das infraestruturas existentes e as tecnologias disponíveis que permitam
resolver o problema no menor tempo e custo possível. Também ressalta que em um sistema

6
Art. 40. Os serviços poderão ser interrompidos pelo prestador nas seguintes hipóteses:
I - situações de emergência que atinjam a segurança de pessoas e bens;
II - necessidade de efetuar reparos, modificações ou melhorias de qualquer natureza nos sistemas;
III - negativa do usuário em permitir a instalação de dispositivo de leitura de água consumida, após ter
sido previamente notificado a respeito;
IV - manipulação indevida de qualquer tubulação, medidor ou outra instalação do prestador, por parte do usuário; e
V - inadimplemento do usuário do serviço de abastecimento de água, do pagamento das tarifas, após ter sido formalmente
notificado. LEI 11.445/2007 (BRASIL, 2007)
38

de água, é necessário o estudo das vulnerabilidades social, de infraestrutura, de administração


e de operação. Assim, percebe-se que

a vulnerabilidade dos sistemas de abastecimento de água frente a perigos ambientais


depende principalmente da localização dos componentes, da qualidade do projeto de
engenharia, da qualidade da construção (tecnologia, equipamentos e materiais
utilizados) e da qualidade da operação e manutenção das obras. A vulnerabilidade
depende, portanto, de características internas do sistema e das ações para manter ou
adequar os componentes às condições externas. (NAVARRO-ROA, 2008)

Complementando a vulnerabilidade, a eficiência de um sistema de abastecimento de


água também é medida a partir do índice de confiabilidade, que é a probabilidade de que,
dado um determinado evento, o serviço não seja afetado nesse período (TUNG et al., 1989
apud NAVARRO-ROA, 2008). A vulnerabilidade é o complemento da relação entre a vazão
disponível, a vazão requerida e a confiabilidade, é a probabilidade de fornecer a demanda
necessária no tempo de análises (FARIA et al., 2012).

A determinação da vulnerabilidade do sistema se inicia com a determinação da


vulnerabilidade dos componentes (confiabilidade mecânica) e termina com a determinação da
vulnerabilidade hidráulica do sistema (confiabilidade hidráulica). Mas, dada às complexidades
dos sistemas de água, é preciso definir quais são os componentes que mais influenciam no
desempenho do sistema ou quais são os componentes importantes (NAVARRO-ROA, 2008).
Segundo Agardy (2001 apud NAVARRO-ROA, 2008), a identificação dos componentes
críticos ou importantes é baseada na interdependência desses elementos.

3.3.1 Atendimento e disponibilidade dos serviços de abastecimento de água

Ao considerar o conhecimento sobre os sistemas de saneamento, devem-se identificar


os aspectos relacionados com as demandas quantitativas e qualitativas sobre os serviços de
abastecimento de água. De acordo com Moraes (2011), essa análise envolve a perspectiva da
demanda daqueles que não têm solução sanitária/serviço, dos usuários atendidos de forma
insatisfatória pelas soluções empregadas em face da sua qualidade e, também, dos que
dispõem da tecnologia e não a utilizam por diversos fatores, dentre eles os socioeconômicos e
culturais.

Conforme detalha o Autor, considerar o déficit nesses vários níveis torna a avaliação
mais complexa e significa também prever estratégias de atendimento em níveis distintos,
39

implicando na mensuração dos recursos necessários para a universalização dos serviços


públicos de saneamento básico com qualidade. Dessa forma, é possível perceber a situação de
demanda a partir da população que não dispõe de solução para o abastecimento, da população
que dispõe de soluções sanitárias precárias ou consideradas inadequadas e a que dispõe de
soluções sanitárias consideradas adequadas; porém, por questões socioculturais relativas à
situação financeira ou cultura local, é impossibilitada ou não está disposta a usufruir da
solução disponibilizada (Figura 1).

Figura 1- Representação do conceito de déficit em saneamento básico

População que População que População que


População tem solução tem oferta com usa a solução
(TOTAL) sanitária qualidade sanitária
(atendida) (atendida) (atendida)

População que População que


População que
não tem tem oferta com
não usa a
solução precariedade
solução
sanitária da solução (déficit)
(déficit) (déficit)

Fonte: Moraes (2011).

Outro aspecto a ser analisado neste sentido é a caracterização das demandas a partir das
necessidades de soluções. Segundo Moraes (2011), as demandas seriam caracterizadas por:

• necessidade de implantação de solução sanitária adequada nos domicílios ocupados;

• necessidade de requalificação das soluções sanitárias ou melhoria na prestação dos


serviços disponibilizados aos domicílios ocupados;

• necessidade de adequação das soluções sanitárias a hábitos, costumes e condições


financeiras do usuário ocupante do domicílio.

No mesmo estudo, Moraes (2011) enfatiza a existência de serviço ou solução sanitária de


abastecimento de água rural a partir da existência de ligação domiciliar ao sistema público, de
poço ou nascente, desde que o domicílio possua canalização interna e de cisterna para
captação de água de chuva. Já em relação aos aspectos que caracterizam a condição de
precariedade do serviço ou da solução sanitária, o Autor destaca como elementos a serem
observados: a água consumida sem tratamento, distribuída pela rede fora dos padrões de
40

potabilidade, a cisterna mantida de forma inadequada e a intermitência do abastecimento por


rede de distribuição de água. Esse último fator reforça a perspectiva do racionamento como
condição de precariedade da oferta do serviço.

Diante dos elementos analisados, é possível inserir as comunidades abastecidas por rede e
com corte programado periodicamente nos índices de déficit em abastecimento de água. E
esse pode ser traduzido pela falta de acesso à água potável, oferta em quantidade limitada à
realização das atividades domésticas ou em qualidade imprópria para consumo humano
(MORAES, 2011). De acordo com Autor, para caracterizar o déficit, deve-se perceber:

• falta de acesso a uma solução que forneça água potável ou em qualidade própria para
consumo humano;

• fornecimento de água por um prestador de serviço fora dos padrões de potabilidade


exigidos pela Portaria nº. 518/04 do MS;

• consumos per capita diários insuficientes para satisfazer as necessidades básicas;

• intermitência nas redes públicas de distribuição de água.

Diante dessa caracterização e conforme Moraes (2011), em 2008 o país possuía um déficit
no abastecimento de água que atingia mais de 54 milhões de habitantes, sendo 46,3 milhões
desses respondendo pelo atendimento precário dos serviços de abastecimento e 8,5 milhões
sem acesso ao serviço (Tabela 5). Ressalta-se que o racionamento no abastecimento de água
compõe parte desse déficit principalmente contabilizado a partir da população urbana.

Tabela 5- Atendimento e déficit por componente do saneamento básico no Brasil adotado pelo Plansab, 2008
Atendimento adequado Déficit
Componente
Atendimento precário Sem atendimento
(hab.) % (hab.) % (hab.) %
Abastecimento
134.244.670 71,0 46.323.865 24,5 8.508.465 4,5
de água
Esgotamento
90.137.850 47,8 44.624.150 43,7 8.325.000 8,4
sanitário
Manejo de
resíduos
125.969.070 66,6 37.957.316 20,1 25.316.000 13,4
sólidos
domiciliares
Fonte: Moraes (2011).

Ao dimensionar esse déficit em relação à situação dos domicílios (MORAES, 2011),


percentualmente registra-se que a zona rural acumula o maior contingente de habitantes com
deficiência no abastecimento de água (73%). Cerca de 75% da população brasileira que
41

compõe o déficit em abastecimento


abastecimento de água anteriormente caracterizado, representando pouco
mais de 9 milhões de habitantes,
habitantes possui renda domiciliar mensal de até ½ salário mínimo por
morador (MORAES, 2011). É possível destacar que quanto menor o rendimento domiciliar,
maior é o déficit no acesso à água (Gráfico 4). Tal
al informação repercute diretamente para as
populações rurais, pois possuem proporcionalmente as menores médias de renda domiciliar
do país.

Gráfico 4 - Acesso e déficit em abastecimento de água no Brasil segundo faixa


de rendimento mensal domiciliar per capita, 2008

déficit
acesso

Fonte: Moraes (2011).

A relação entre os índices de acesso e escolaridade seguem o mesmo sentido


(Gráfico 5). Analisando a relação entre a escolaridade e o acesso, observa-se
observ que quanto
menor o número de anos de estudo, mais vulnerável a pessoa se encontra por não ter acesso
adequado a abastecimento de água (MORAES, 2011).

Gráfico 5- Acesso e déficit em abastecimento de água no Brasil,


segundo anos de estudo das pessoas, 2008

déficit
acesso

Fonte: Moraes (2011).


42

Moraes (2011) também evidencia que a situação do domicílio influencia os índices de


acesso na macrorregião Nordeste,
Nordeste registrando que o déficit é maior nas áreas rurais dessa
d
macrorregião, refletindo na condição geral nacional (Gráfico 6).. Nas demais macrorregiões, a
ausência de instalações hidráulicas atinge quase a mesma quantidade de domicílios nas áreas
urbanas e rurais, enquanto as áreas rurais da macrorregião Nordeste possuem cerca de 3 vezes
maiss habitações nessa situação do que suas áreas urbanas. Proporcionalmente, mais da metade
– aproximadamente 54% – das residências rurais nordestinas não possuía canalização interna
em 2008 (MORAES, 2011).

Gráfico 6 - Déficit de canalização


canalização interna de água em domicílios, segundo Brasil
e macrorregiões, e percentual por macrorregião, 2008

Fonte: Moraes (2011).

Considerando tais indicadores descritos até então, constatam-se


constatam as deficiências
históricas das populações de baixa renda e escolaridade, bem como do interior nordestino.
Todavia, Borja (2011) observa que no período de 2004 a 2008 o acesso da população rural ao
abastecimento tem se ampliado em todas as regiões do País, embora ainda existam grandes
disparidades entre as mesmas. A Autora aponta que o Nordeste experimentou o maior
aumento em pontos percentuais (19,3), o que sugere impacto positivo do conjunto de ações
direcionadas para essaa macrorregião (Gráfico
( 7).
43

Gráfico 7- Proporção da população rural com acesso ao


abastecimento de água por macrorregião,
macrorregião 2004-2008

Fonte: Borja (2011).

Os indicadores de abastecimento de água estratificados a partir da renda domiciliar,


escolaridade, situação do domicílio e mesorregião, possibilitam uma leitura conjunta
conj da
realidade urbano/rural e facilitam a compreensão das desigualdades de acesso. Tais
informações repercutem
epercutem na média de consumo per capita da população mencionada.
Conforme as cidades decrescem em relação à população, diminuem também a renda média
domiciliar
miciliar e também o consumo médio per capita de água. No Brasil, os moradores de cidades
acima de três milhões de habitantes consomem quase o dobro em relação àquelas com até
trinta mil habitantes (Tabela 6).

Tabela 6- Consumo médio per capita de água

Consumo
Faixa populacional
(l/dia)
Até 30.000 118,41
30.001 - 50.000 130,40
50.001 - 100.000 132,67
100.001 - 150.000 149,01
150.001 - 250.000 145,64
250.001 - 500.000 145,65
500.001 - 1.000.000 152,00
1.000.001 - 3.000.000 153,88
mais de 3.000.000 200,68
Fonte adaptada: (MORAES, 2011).

Quanto ao consumo per capita ainda se destaca a relação entre os Estados da


Federação (Tabela 7).. O Rio de Janeiro com 184,51 L/hab.dia e o Amapá com 193, 06,
06 se
apresentam com as maiores médias
médi nacionais, enquanto que Roraima com um consumo per
capta de 80,91 L/hab.dia tem um dos menores índices. Ressalvadas as características
regionais, percebe-se
se que quanto maior a urbanização, maior é a média de consumo de água.
44

Outrossim, Pernambuco se difere desse padrão por possuir a menor disponibilidade hídrica
per capita do Brasil7, sendo o estado mais urbanizado do Nordeste e ao mesmo tempo com o
menor consumo de água per capita da região.

Tabela 7- Consumo médio per capita de água (L/hab.dia)

Região Estado Consumo Taxa de


urbanização
RN 135,02 77,8%
CE 120,71 75,1%
BA 113,10 72,1%
AL 98,51 73,6%
Nordeste SE 95,92 73,5%
PI 93,20 65,8%
PB 81,27 75,4%
MA 80,91 63,1%
PE 74,39 80,2%
DF 182,87 96,5%
Centro MT 175,49 81,8%
Oeste GO 119,09 90,3%
MS 115,67 85,6%
AP 193, 06 89,8%
AC 134,87 72,6%
PA 116,76 68,5%
Norte TO 108,95 78,8%
AM 92,73 79,1%
RO 90,57 73,7%
RR 80,91 76,8%
RS 130,35 85,1%
Sul PR 121,26 85,3%
SC 120,18 84,0%
RJ 184,51 96,7%
SP 170,15 95,9%
Sudeste ES 163,57 83,4%
MG 117,68 85,3%
Brasil 122,05 84,4%
Fonte adaptada: MORAES (2011), IBGE (2012a).

Apesar dessa caracterização da média de consumo per capita de água por estado e
município, o cálculo da necessidade de consumo de água em uma cidade vai depender de
vários fatores de caráter geral (FUNASA, 2006) como o tamanho, o crescimento da
população, as características da cidade (turística, comercial, industrial), os tipos e quantidades
de indústrias, o clima e os hábitos e situação socioeconômico da população. No mesmo
sentido, existem fatores específicos que influenciam a definição da necessidade de consumo
como a qualidade de água, o valor da tarifa, a disponibilidade, a pressão na rede de
distribuição, o percentual de medição da água distribuída e a ocorrência de chuvas.

7
Segundo o Plano Nacional de Recursos Hídricos (BRASIL, 2006) a disponibilidade hídrica social do estado de
Pernambuco é 1.270 m³/hab.ano, utilizando 21% deste montante (268 m³/hab.ano).
45

Para a estimativa de demandas, é necessária a categorização dos aglomerados urbanos


a partir da quantidade de habitantes, existindo distintos dimensionamentos a partir de Autores
diversos. Matos (2007) destaca as diferentes metodologias utilizadas por dois Autores em
1995 (Tabela 8): Barros et al e Von Sperling (apud MATOS, 2007). Em relação aos pequenos
aglomerados rurais com até cinco mil habitantes, o primeiro Autor sugere um consumo médio
diário per capta entre 100 e 150 litros de água, enquanto o segundo recomenda de 90 a 140
litros por dia.

Tabela 8- Demandas médias de água para cidades brasileiras

Barros et al. (1995, apud MATOS, 2007) Von Sperling (1995, apud MATOS, 2007)
Consumo médio Consumo médio
População Aglomerados População
Cidades per capita per capita
(habitantes) urbanos (habitantes)
(L/hab.dia) (L/hab.dia)
Menores Até 5.000 100 a 150 Povoado rural Até 5.000 90 a 140
5.000 a
5.000 a Vila 100 a 160
Pequenas 150 a 200 10.000
25.000
Pequena 10.000 a 110 a 180
localidade 50.000
25.000 a
Médias 200 a 250 50.000 a 120 a 220
100.000 Cidade média
250.000
Acima de Acima de
Maiores 250 a 300 Cidade grande 150 a 300
100.000 250.000
Fonte adaptada: Matos (2007).

Para Matos (2007), esses fatores não atuam individualmente, sofrendo influências de
um conjunto diferenciado de elementos e da interação entre eles. Diante disso, o Autor
evidencia que só é possível apontar tendências provenientes desses fatores, que podem ou não
se confirmar em um estudo de campo, quando as influências se somam.

3.4 GESTÃO COMUNITÁRIA DOS SERVIÇOS DE SANEAMENTO

Dentre as diversas modalidades de operação dos serviços de saneamento, a gestão


comunitária traz especificidades que necessitam de abordagem específica. A prestação dos
serviços pela própria comunidade de acordo com o IPEA & IPLAN (1989) pretende assegurar
critérios de racionalidade e eficiência no manejo dos mesmos, visando à adequada
administração, operação e manutenção. Ainda, consoante com os Autores, pode gerar
resultados econômicos de sua exploração, permitindo a acumulação de excedentes gerando
um fundo de reservas que atenda a manutenção, sempre procurando operar com qualidade,
eficiência e organização.
46

O WSSCC (Water Suply e Sanitation Collaborative Council) observa que a gestão


participativa comunitária tem sido fundamental para o abastecimento de água rural em muitos
países (WSSCC, 2012). Assim, o Conselho anuncia que o envolvimento da comunidade desde
o início do projeto, na escolha dos elementos do sistema de abastecimento de água e do
modelo de gestão, facilita a consciência e capacitação para a operação e manutenção da
estrutura implantada. Também destaca que a gestão comunitária tem a sua limitação em
termos de escala, de capacidades e status legal devendo haver parcerias que garantam a
qualidade dos serviços, o desenvolvimento de um modelo de gestão e a capacitação que
garanta a sustentabilidade do sistema. Nessa perspectiva, a cooperação público-comunitária
refere-se à cooperação entre os entes federados públicos e cooperativas ou associações de
água. Considerando que as associações de água se originaram e são geridas por agremiações,
há quem as classifique de associações privadas de caráter público (WARTCHOW, 2011)

Destarte percebe-se que, mesmo para sistemas de abastecimento de água bem


construídos, é necessário à estruturação de arranjos institucionais que garantam seu
funcionando ao longo do tempo. De acordo com Moraes et al (1999),

o organismo ou entidade comunitária responsável pelos serviços deve desenvolver


uma gestão que realize a prestação de serviços à comunidade em nível satisfatório e
a retribuição econômica adequada dos usuários, a fim de que os sistemas possam se
manter e se expandir, segundo as necessidades locais.

Em contraponto, Silva (2010) sublinha que organização internacional, como o Banco


Mundial, tem estimulado a participação da população na administração e operação de
sistemas de saneamento básico, funcionando como alternativa para a prestação dos serviços
em pequenas localidades e populações rurais, ficando assim o Estado desresponsabilizado
para com esses serviços públicos. Para Loureiro et al (2006) o afastamento do Poder Público
de sua atribuição constitucional de prestar esses serviços à população, pode resultar em
diversas outras questões como o sobretrabalho da população envolvida em questões
administrativas, problemas trabalhistas, a falta de capacidade de investimentos para a
ampliação dos sistemas e a pouca capacidade de resolução de problemas mais complexos.

Já Beduschi Filho e Abramovay (2004) complementam que o sucesso ou insucesso de


uma estratégia depende de como os interesses e as relações entre os atores estão estruturados,
por exemplo, na habilidade coletiva de examinar a situação local, definir prioridades e
estabelecer acordos sobre as formas de uso dos recursos disponíveis. Reconhecendo ainda que
47

é fundamental e urgente oferecer recursos intelectuais e capacidades que permitam que os


atores locais estejam à altura desse desafio e possam elaborar propostas de conteúdo inovador.

Apesar de propor sistemas autônomos, os modelos de gestão comunitária, não


dissociam a participação do poder público. Diante disso, Loureiro et al (2006) declaram que o
modelo de gestão comunitária não se trata de uma gestão “sem” governo, mas uma gestão
onde quem administra os serviços de saneamento é a própria população por intermédio de
uma organização de associações.

Para tanto, Lopes et al (2000) acentua que a metodologia deve priorizar o processo de
comunicação social na implantação dos projetos. O respeito à cultura das comunidades rurais
e a possibilidade de canalização das potencialidades locais para processos de desenvolvimento
vão além da expectativa de abastecimento de água potável para comunidades carentes e
possibilitam relações de respeito e cooperação entre o poder público municipal e a
comunidade organizada.

O IRC (2004) revela que o manejo comunitário rural de abastecimento de água deve
garantir a universalização da cobertura do serviço oferecido, a capacidade de gestão adequada
e sustentável dos sistemas, o fortalecimento das instituições envolvidas, a expansão de
cobertura física e a implantação de projetos simples e eficientes de abastecimento de água por
tempo indeterminado. Nessa perspectiva, o modelo de gestão comunitário é implantado de
maneira mais lenta e complexa que as abordagens tradicionais com mínima participação dos
beneficiados. O Centro ainda afirma que apesar dos muitos exemplos positivos de gestão
comunitária ainda existem problemas na sustentação dos serviços em longo prazo e que se
torna mais eficaz quando há o apoio institucional para as comunidades beneficiadas, assim
como o apoio políticas setoriais e regulamentações, papéis e responsabilidades claramente
definidas e financiamento consistente.

Existem diversas metodologias de implementação de projetos que fortaleçam a capacidade


das comunidades para gerir os sistemas de abastecimento. Para o IRC (2004) todos devem
incluir:

• a utilização de abordagens participativas de planejamento e gestão;


• o amplo envolvimento dos membros da comunidade;
• o estabelecimento de novas estruturas de gestão, ou reforço das já existentes;
48

• um processo contínuo de formação e transferência de competências ao longo do ciclo


do projeto.

De um modo geral, os fatores que podem induzir problemas para a gestão comunitária do
abastecimento de água rural são de limitações internas: dinâmicas comunitárias, políticas ou
conflitos sociais, a incapacidade de gerenciamento financeiro e técnico, falta de transparência
e manutenção; e limitações externas: má concepção do projeto e modelo de gestão,
interferência política, falta de políticas de apoio técnico e socioeconômico e legislação (IRC,
2004).

Para minimizar tais fatores, além da elaboração participativa do processo, Lopes et al


(2000) sugere alguns instrumentos relevantes:

• cotização para cobertura dos custos de operação pela comunidade;


• celebração de convênios entre prefeitura e associação para assegurar a manutenção
pesada do sistema de abastecimento;
• escolha do operador pela própria comunidade e definição do valor da remuneração de
acordo com a quantidade e complexidade das tarefas;
• capacitação dos dirigentes de associações, lideranças comunitárias e operadores dos
SAA através de cursos e treinamentos em organização comunitária, noções de
contabilidade, educação ambiental e sanitária;
• treinamento de operadores para operação, manutenção preventiva e pequenas
manutenções corretivas;
• realização de pequenas manutenções e serviços de conservação dos equipamentos pela
comunidade e operador;
• formação de multiplicadores em educação ambiental e sanitária; através de
treinamento nas escolas, nos domicílios e em reuniões com a própria comunidade;
• criação de entidades municipais autônomas para manutenção de sistemas de
abastecimento de água, formada pelas associações comunitárias.

Dentre esses elementos destacados, Teixeira (2011) afirma que o “processo educativo
constituiu o principal mecanismo de fortalecimento das relações sociais entre os atores
envolvidos, sendo também a via de aprimoramento conceitual e apropriação de práticas
participativas” que contribuem com o empoderamento das comunidades. Esse Autor também
ressalta que as intervenções educativas devem ser vistas como início de um processo
49

contínuo, visando garantir a eficiência, a eficácia e a efetividade dos projetos e das ações de
saneamento básico. Nessa direção,

a qualidade de vida está necessariamente conectada com a qualidade do ambiente, e a


satisfação das necessidades básicas, com a incorporação de um conjunto de normas
ambientais para alcançar um desenvolvimento equilibrado e sustentado (...), mas
também de formas inéditas de identidade, de cooperação, de solidariedade, de
participação e de realização, bem como de satisfação de necessidades e aspirações, por
meio de novos processos de trabalho (LEFF, 2002, p.49).

Assim, a determinação dos usuários poderá garantir a sustentabilidade do SAA rural a


partir do capital social, técnico e econômico desenvolvidos na localidade. Esse interesse está
relacionado diretamente com a qualidade do serviço prestado que gera satisfação do usuário.
Para Teixeira (2011),

o trabalho de educação e participação comunitária para que produza impactos efetivos


e eficazes na vida das pessoas, das instituições, das estruturas sociais, deve ser uma
ação contínua e duradoura, sempre na perspectiva coletiva e colegiada da
aprendizagem, da tomada de decisão, da liderança e do exercício da Autoridade.

3.4.1 Experiências de gestão comunitária no abastecimento de água rural no Nordeste

Diante do cenário de precariedade no acesso à água de qualidade na zona rural


nordestina, registram-se algumas iniciativas de implantação de sistemas de abastecimento
com gestão comunitária a partir de modelos distintos. Parte dessas derivou de políticas
consolidadas e estruturadas, outras surgiram como possibilidade de organização de possíveis
programas estruturadores. No Nordeste, algumas experiências foram consolidadas a partir da
ação dos governos estaduais, principalmente dos estados do Ceará, Bahia, Pernambuco, Rio
Grande do Norte e Piauí, como veremos a seguir.

Estado do Ceará

Dentre os modelos existentes, o Sistema Integrado de Saneamento Rural (Sisar) é o


mais consolidado, iniciado em 1996. Conforme a Companhia de Água e Esgoto do Ceará
(Cagece, 2012), o Sisar é uma federação de associações apoiado pela Cagece. Atualmente
existem oito desses sistemas em funcionamento (uma para cada bacia hidrográfica do Estado)
totalizando 614 localidades atendidas e 315 mil pessoas beneficiadas com sistema de
abastecimento de água gerenciadas pelos próprios moradores. A maioria dos sistemas foi
executado pela Cagece e a gestão é feita pela associação local.
50

Britto (2011) acrescenta que as associações locais federadas no Sisar são organizações
locais civis criadas para o fim especifico, ou adaptadas em seu estatuto, para operar sistemas
de saneamento. Assim, a associação local supervisiona a operação, realiza o atendimento
comercial, a emissão de ordens de serviço e recebe as contas. Também efetua a manutenção
mais básica: a verificação equipamentos, supervisão do tratamento, limpeza de filtros,
conservação e limpeza das instalações, reparos de vazamentos, novas ligações, emissão de
relatório dos dados operacionais (volumes, energia, dados de bombas, etc.).

Já o Sisar, presta assistência técnica, controla a qualidade da água, calcula tarifas,


emite contas e repassa informações para a Cagece, também fornece e dosa o cloro; fornece
materiais de manutenção, desenvolve a expansão e reposição, capacitação da estrutura local,
desenvolvimento comunitário e educação ambiental. A Companhia Estadual sensibiliza e
capacita as comunidades, além de orientar a manutenção nos sistemas de tratamento e
distribuição de água, mas são os próprios moradores que operam o sistema (Cagece, 2012).

Cada Sisar passa a ser responsável pela administração do patrimônio instalado pelo
Programa de Saneamento Rural, incluindo bens físicos e financeiros, que venham a
receber do governo ou de particulares, bem como os recursos decorrentes das taxas
pela prestação de serviços de saneamento. Enquanto que o papel da Cagece e de
planejar, projetar e construir os sistemas, o papel do Sisar e de administrar e operar
estes sistemas, de forma conjunta e participativa, garantindo sua continuidade, bem
como coordenar e fiscalizar o gerenciamento de cada Sisar (BRITTO, 2011).

De acordo com Teixeira (2011), para a implantação dos sistemas de água nas áreas
rurais, a Cagece dispõe de uma equipe de assistentes sociais, pedagogos e profissionais de
áreas correlatas, para capacitação social, educacional, ambiental e de desenvolvimento
comunitário. Esses profissionais se destinam ao envolvimento comunitário, desde a
elaboração do projeto, até a fiscalização da obra, e que continua atuando durante a gestão dos
sistemas.

Apesar de o município ser o titular do serviço de abastecimento de água e


consequentemente responder pela gestão do serviço, não foi percebida a participação desse
ente federado nas ações e gestão do abastecimento rural no Ceará. Apesar disso está previsto a
criação de sistemas municipais de saneamento rural sustentável, atendendo todas as
comunidades rurais de cada Município. Conforme Britto (2011), cada município deverá criar
um fundo municipal para universalização do saneamento rural objetivando a garantia da
operação e manutenção dos sistemas comunitários de saneamento e o subsídio aos sistemas
51

comunitários deficitários. O fundo municipal receberá recursos da prefeitura municipal,


através da Contribuição Municipal e uma porcentagem da tarifa cobrada.

Estado do Piauí
A iniciativa para o saneamento rural no Estado do Piauí assemelha-se com programa
desenvolvido no Ceará, acrescentando o componente do esgotamento sanitário em todos os
projetos desenvolvidos. O Ministério da Saúde (BRASIL, 2012c) apresenta o Programa de
Saúde e Saneamento Básico na Área Rural do Piauí (Prosar-PI) como resultante da
Cooperação Financeira entre o Kreditanstalt für Wiederaufbau - KfW (agente financiador) e o
MS (mutuário), sendo a Secretaria de Saúde do Estado do Piauí a responsável pela execução.
O Prosar está inserido no semiárido onde foi desenvolvido em 45 localidades, beneficiando
9.245 domicílios e 45.990 pessoas.

Para a seleção das localidades, foram definidos com critérios (BRASIL, 2012c) a
densidade populacional (aglomerações com no mínimo 60 casas ou 300 habitantes), a
disponibilidade de energia elétrica e água subterrânea ou de superfície, em quantidade e
qualidade adequadas, a aceitação do modelo de gestão sustentável e contínua e a viabilidade
financeira para sua manutenção.

O Prosar-PI usa uma estratégia de desenvolvimento comunitário, na qual incentiva a


participação ativa dos grupos beneficiados, das Prefeituras e do associativismo local
e regional, no intuito de garantir a sustentabilidade e a autogestão dos sistemas de
abastecimento de água e esgotamento sanitário. O foco para implementação são
ações de saúde por meio do Saneamento Básico. Durante a fase de implementação
são realizadas ações de educação sanitária junto às populações beneficiadas e para
assegurar a operação e manutenção da infraestrutura de forma sustentável, foi criado
um sistema de administração autônomo e participativo chamado Sistema Integrado
de Saneamento Rural do Piauí - Sisar-PI (BRASIL, 2012c).

Em nível federal, o programa conta com a parceria da Funasa no acompanhamento


técnico das obras em andamento enquanto que, para o município é necessária a aprovação de
uma lei autorizativa de concessão dos serviços de abastecimento de água em benefício do
Sisar, bem como a isenção de Imposto Sobre Serviço (ISS) em cada um dos municípios
participantes. Para a adesão da comunidade, é necessária a assinatura de Termo de Adesão
(BRASIL, 2012c).

Conforme Britto (2011), após a assinatura da adesão, as associações comunitárias


passam por um processo de instrumentalização e capacitação, que lhes dão condições para
52

assumir a gestão do sistema, por meio da criação da associação comunitária. Já o Sisar é


estruturado como uma organização sem fins lucrativos, com patrimônio e administração
própria. O Sisar Piauí viabiliza a operação e manutenção dos sistemas locais, fortalece e
integra as associações membro e promove a educação associativista, sanitária e ambiental.

Estado do Rio Grande do Norte


Nesse Estado, o modelo de autogestão de abastecimento de água refere-se basicamente
a operação e manutenção desse sistema pela própria comunidade, através de Contrato de
Prestação de Serviços entre a Caern e a associação de moradores (CAERN, 2012). Segundo a
Companhia, até o início 2012 o modelo de autogestão de operação e manutenção da
distribuição de água foi implantado em 45 comunidades rurais, enquanto que outras 42
localidades estão em processo de instalação do sistema.

Britto (2011) afirma que a associação de moradores se responsabiliza pela operação e


manutenção total do sistema de distribuição de água, na comunidade, compreendendo retirada
dos vazamentos, leitura dos hidrômetros, elaboração e entrega das contas. Também é
responsabilidade da associação o repasse mensal do pagamento à concessionária que fornece
água, o corte do fornecimento, a fiscalização e a consulta a Caern sobre a viabilidade técnica
de expansão na rede.

Para Teixeira (2011), a Caern criou uma taxa diferenciada para as comunidades rurais
que aderirem ao modelo de autogestão, representando cerca de 1/5 da tarifa normal cobrada
nas sedes. O Autor destaca a precariedade do trabalho de educação e participação
comunitária, ocorrendo apenas durante as reuniões de mobilização e em alguns trabalhos de
educação ambiental em escolas das comunidades.

Estado da Bahia
O modelo de saneamento rural no Estado da Bahia segue os princípios do programa
cearense a partir da formação de associações comunitárias articuladas pela Central de
Associações Comunitárias. Existem quatro Centrais, com cerca de 10 a 15 municípios cada,
somando 49 municípios atendidos e 78 localidades (TEIXEIRA, 2011). Conforme descrito
pelo Autor, o Programa tem a participação da Secretaria Estadual de Desenvolvimento
53

Urbano (Sedur), da Companhia de Energia Rural (Cerb), da Superintendência de Recursos


Hídricos (SRH), de prefeituras e das associações comunitárias.

Assim como no Piauí, houve um aporte de recursos do KfW e a coordenação é


estadual, desde a execução das obras juntamente com ações de mobilização social e educação
ambiental e em saneamento básico, apoio e assistência técnica aos municípios nas execuções
complementares, capacitação e assistência técnica às associações gestoras dos serviços,
monitoramento e avaliação de todo o sistema (TEIXEIRA, 2011). Enquanto que o município
garante subsídio, e pagamento dos custos corretivos de manutenção quando necessários, assim
como a concessão para as associações. A associação local garante a gestão comunitária a
partir da operação dos sistemas, tarifação e mobilização. Já a Central de Associações
Comunitárias para Manutenção de Sistemas de Abastecimento de Água coordena os trabalhos
de manutenção (preventiva e corretiva) dos sistemas de abastecimento de água e esgotamento
sanitário das comunidades filiadas e o fortalecimento das associações locais.

Dentre as estratégias de sustentabilidade do sistema baiano destacam-se (TEIXEIRA,


2011):

• cotização para cobertura dos gastos com a operação pela comunidade;


• celebração de convênio, entre a Associação e a Prefeitura, para garantir a continuidade
do serviço;
• escolha do operador pela própria comunidade e definição da sua remuneração, de
acordo com as tarefas;
• capacitação das Associações, das lideranças e dos operadores, nas áreas necessárias à
efetividade do serviço;
• formação de multiplicadores em educação em saúde e educação ambiental,
envolvendo as escolas;
• estímulo à criação de entidades autônomas, para gestão dos sistemas.

Em todos os modelos descritos anteriormente é possível destacar a relação entre as


associações e o Governo do Estado através de mecanismos de gestão compartilhada e três
destes, com organização central de apoio ao sistema, caracterizada como não governamental.
Também, todos possuem algum tipo de financiamento internacional conforme síntese dos
modelos apresentados no Quadro 3.
54

Quadro 3- Síntese dos modelos de saneamento rural por Estado


Caracte- Órgãos Órgãos
Estado Atuação
rísticas envolvidos financiadores
Associações Gestor do sistema: operação, manutenção
Comunitárias (pequenos reparos) e cobrança da tarifa.
Gestão Capacitação, operação e manutenção KfW, Projeto São
compartilhada (assistência técnica corretiva e preventiva, José, Projeto
entre as Sisar controlar a qualidade da água, emitir Alvorada, Funasa,
CE contas, calcular tarifas, corte das ligações
associações e de água). Governo do
o governo do Concessão para a prestação de serviço Estado,
Estado Município público de saneamento básico. Prefeituras.
Órgão supervisor e regulador (situações de
Estado/CAGECE conflito, garantir a qualidade dos serviços.
Gestão Associações Gestor do sistema - operação, manutenção
compartilhada Comunitárias (pequenos reparos) e cobrança da tarifa.
Manutenção geral dos sistemas de KfW, MS, Governo
entre as Sisar PI
PI abastecimento de água e esgoto. do Estado,
associações e Concessão para a prestação de serviço
Município Prefeituras.
o Governo do público de saneamento básico.
Estado Estado Construção da Obra.
Administração do Sistema de
abastecimento de água: operação e
Associações
manutenção, compreendendo retirada dos
Comunitárias vazamentos, leitura de hidrômetros,
Gestão elaboração e entrega de contas.
Concessão para a prestação de serviço
compartilhada Prefeitura público de saneamento básico.
Banco Mundial,
entre as Fundo Municipal Funasa, Governo
RN Definição das prioridades para cada
associações e de Apoio comunidade rural (representantes do Federal e
o Governo do Comunitário governo local, instituições organizadas e Estadual.
Estado (FUMAC) principalmente de moradores).
Fornecimento de água através de adutoras
para as comunidades, através de custo
Estado/Caern subsidiado. Responsável pela captação,
tratamento e adução até a comunidade.
Associações Gestor do sistema operação, manutenção
Gestão Comunitárias (pequenos reparos) e cobrança da tarifa.
compartilhada Capacitação, operação e manutenção KfW, Governo do
entre as Central das (assistência técnica corretiva e preventiva,
BA Estado,
associações e Associações controlar a qualidade da água, emitir
Comunitárias contas, calcular tarifas, corte das ligações Prefeituras.
o governo do
de água).
Estado
Estado/ CERB Construção da Obra.
Fonte: Pernambuco (2011).
55

Se cada dia cai, dentro de cada noite,


há um poço
onde a claridade está presa.
há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.
Pablo Neruda
56

4 METODOLOGIA

4.1 TIPO DE ESTUDO: PESQUISA EXPLORATÓRIA COM ESTUDO DE CASOS

A avaliação do racionamento no abastecimento de água foi desenvolvida a partir de


pesquisa exploratória com estudos de casos e, em relação ao método, através de uma
abordagem quali-quantitativa e semiestruturada com análise documental, entrevista e pesquisa
de campo.

Ao reconhecer as populações afetadas pelo processo a ser pesquisado bem como seu
ambiente, a pesquisa se permitiu como um processo dinâmico de construção e sistematização
de conhecimento e de aprendizado, estimulando reflexões e ações comunitárias sobre as
condições de acesso à água. Desse modo, a pesquisa possuiu caráter qualitativo pelo público e
pela situação específica abordada, pelas respostas particulares procuradas e pela
impossibilidade de generalização de seus resultados.

O método qualitativo, ao estudar uma situação social específica, analisa os processos


que se relacionam ao fenômeno em tela. Para Neves (1996), os estudos que adotam o método
qualitativo estão mais preocupados com os processos sociais do que com as estruturas sociais,
vislumbrando o contexto do problema, e quando possível, buscando uma integração com o
objeto de estudo para melhor compreensão do fenômeno.

Nesses estudos, o pesquisador gradualmente compreende o sentido de um fenômeno


ao contrastar, comparar, reproduzir e catalogar o objeto de estudo, o que implica
imersão na vida diária do cenário escolhido para o estudo, através de interação
contínua com o objeto de estudo (CRESWELL, 2007)

Essa abordagem é complementada com uma avaliação quantitativa baseada em


indicadores técnicos e sociais elaborados através de dados primários levantados através de
questionários ordenados para a pesquisa. Tais informações foram complementadas por dados
secundários obtidos através de diversas fontes, também de levantamentos bibliográficos,
legislações e regulamentos. Acrescentam-se ainda as informações obtidas por meio de visita
nas comunidades e sistemas, resultado do método exploratório que deram suporte à discussão
dos resultados, consolidando os elementos obtidos a partir das entrevistas.

Diante da diversidade de situações culturais e ambientes rurais, dificilmente seria


exequível a elaboração e comprovação de uma hipótese genérica. Dessa forma, alguns estudos
de caso foram determinados para a efetivação da pesquisa. Para Minayo e Sanches (1993), os
57

estudos de caso estão baseados em uma metodologia cujas informações são levantadas por
meio de uma amostra reduzida, o que em si não possibilita demonstrar o universo de cada
situação, mas permite ilustrar uma situação concreta, e se mostram adequados para pensar o
problema em foco. Em Ventura (2007) é acrescentado que para

os estudos de caso que priorizam a abordagem qualitativa da pesquisa, as


características consideradas fundamentais são a interpretação dos dados feita no
contexto; a busca constante de novas respostas e indagações; a retratação completa e
profunda da realidade; o uso de uma variedade de fontes de informação; a
possibilidade de generalizações naturalísticas e a revelação dos diferentes pontos de
vista sobre o objeto de estudo.

O Autor ainda adiciona que os estudos de caso estimulam novas descobertas, em


função da flexibilidade do seu planejamento e ressaltam a multiplicidade de dimensões de um
problema, além de permitir uma análise em profundidade dos processos e das relações entre
eles (VENTURA, 2007).

4.2 FASE PREPARATÓRIA

Para iniciar o processo de pesquisa foi necessário o conhecimento e compreensão dos


elementos a serem estudados a partir de uma revisão bibliográfica. Esse recurso foi essencial,
sistematizando as informações atualizadas sobre o assunto e elaborando um marco conceitual
para a pesquisa. A partir do conhecimento construído foram traçados os eixos e as dimensões
da pesquisa, bem como a estratégia de discussão e avaliação de seus resultados (Quadro 4).

Quadro 4- Estratégia de avaliação e discussão dos resultados da pesquisa


Eixos dimensões indicadores Resultados discussão
Tecnológica Abordagem
Gerencial técnica dos
Saneamento Relação
Operacional Coleta de resultados
entre os Conclusão
Institucional dados Abordagem
indicadores
Social primários e sócio-
de cada
Gestão Econômico secundários ambiental
dimensão
comunitária dos
cultural
resultados
Fonte: O Autor.

Dessa forma, o eixo do saneamento visa uma abordagem técnica dos resultados,
enquanto que para a gestão comunitária a abordagem é socioambiental. A relação entre as
abordagens constrói um panorama do racionamento nos sistemas de abastecimento rural em
avaliação.
58

Para o levantamento de dados secundários, foram utilizados como fontes:

• IBGE (dados demográficos e de saneamento);


• Ministério das Cidades (principalmente a partir do Sistema Nacional de Informações
sobre Saneamento – SNIS e os dados do Plansab);
• Governo do Estado de Pernambuco (do Promata e ProRural);
• Projetos executivos dos sistemas de abastecimento;
• Banco de Dados do Consórcio Synergia/Colmeia (que pesquisou os sistemas a partir
de contrato com o Promata).

Nessa etapa, a coleta de dados foi realizada a partir de diversas diretrizes quantitativas e
qualitativas de pesquisa: da entrevista a busca em bibliotecas e rede mundial de computadores
e visita a órgãos específicos.

Em seguida, o processo de sistematização dos dados secundários ocorreu principalmente a


partir da construção de tabelas síntese que possibilitaram a análise estruturada das
informações. Apesar de um grande acervo de dados adquiridos, algumas informações sobre os
sistemas e suas operações inexistiam a partir dos órgãos pesquisados, sendo levantado via
contato telefônico com representantes das associações locais. Destaca-se que, dos 88 sistemas
em análise e em um mês de tentativas, a pesquisa conseguiu contato com representantes de 61
localidades, não atingindo número maior dada a dificuldade de comunicação nas localidades
rurais.

Mediante o levantamento de informações sobre o funcionamento e gestão dos sistemas e


diante da sistematização dos dados obtidos a partir de tabelas e gráficos, foi possível a
definição de categorias de análise que facilitaram a organização de estratégias para a definição
dos estudos de caso e a preparação do questionário.

4.3 FASE DE EXECUÇÃO

A formulação do questionário ocorreu a partir de questões norteadoras sobre os


sistemas e projetos de abastecimento rural, a gestão comunitária e o racionamento. Assim
esses foram elaborados respeitando as especificidades do público a ser pesquisado. Matos
(2007) ressalta que
59

o questionário é um instrumento de coleta de dados formado por uma seqüência


ordenada de perguntas. É uma técnica de baixo custo, que propicia uniformidade ao
apresentar as mesmas questões para todas as pessoas, garante o anonimato e pode
conter questionamentos para atender a finalidades específicas de uma pesquisa. Sua
aplicação permite medir a satisfação do usuário, sendo um bom indicador de
qualidade e, se aplicado criteriosamente, tem elevada confiabilidade (MATOS,
2007).

Foram elaborados dois questionários semiestruturados (Apêndice A) a partir dos


objetivos da pesquisa e com questões específicas para cada grupo de entrevistados
(representantes das comunidades e do governo) com perguntas fechadas de respostas diretas e
abertas pretendendo a manifestação de argumentos e opiniões. O questionário elaborado
possui 27 perguntas que respondem às questões norteadoras, além de elementos a observar na
comunidade e um roteiro para levantamento de elementos relacionados à construção de uma
linha do tempo sobre a operação diária do sistema.

A aplicação dos questionários nas localidades seguiu a sistematização dos dados


levantados previamente. Assim das 61 comunidades contatadas, 52 estavam com os sistemas
de abastecimento de água funcionando e dessas, 35 com regime de racionamento no
abastecimento, onde foram encontradas razões específicas apresentadas pelos entrevistados,
optando-se assim pela pesquisa em dez localidades com racionamento (28,8% do total) com
casos típicos de motivos.

Para a definição dos casos a serem estudados na pesquisa foram levantados e


categorizados as razões para a existência desse racionamento segundo representantes das
comunidades, obtendo-se quatro categorias de motivos (projeto/execução, gestão/operação,
fatores externos e não sabe) e, consequentemente, a definição das comunidades a serem
pesquisadas conforme descrito no Quadro 5.
60

Quadro 5- Categorização dos motivos de racionamento e definição das comunidades pesquisadas


Razão do
Categoria Comunidades visitadas/municípios
racionamento
Capacidade da
1 Angélicas/Vicência
bomba
Capacidade do
Projeto e 2 Gambá/Goiana, Quebec/Itambé
reservatório
execução
Rede de distribuição -- Somente uma na Mata Norte e sem contato
Vazão do poço 2 Belo oriente/Tracunhaém, Encruzilhada/Ferreiros
É suficiente -- Somente uma na Mata Norte e sem agenda
Sem operador
1 Barragem/Carpina
Gestão e noturno
operação Custo da energia 1 Camboa/Lagoa de Itaenga
Para conter
-- Somente uma na Mata Norte e sem agenda
desperdício
Fatores Crescimento da
2 Poço Comprido/Aliança, Borracha/Vicência
externos população
Não sabe 1 Uruçu/Macaparana

Total 10
Fonte: O Autor.
Ressalta-se que houve a necessidade de determinar um recorte territorial que
facilitasse os deslocamentos, assim foi definido que as localidades a serem visitadas estariam
inseridas na Região de Desenvolvimento (RD) Mata Norte, região onde se iniciou o projeto
piloto do Promata e que possui as comunidades com sistemas de abastecimento implantados
com mais tempo de funcionamento.

Para a definição das comunidades a serem pesquisadas, ainda se adotou como


diretrizes: a existência de contato anterior pelo pesquisador, a localização com vias acessíveis,
a disponibilidade e interesse dos representantes locais.

A segunda etapa de entrevistas da pesquisa visou à compreensão da questão pelos


gestores públicos estaduais envolvidos com a implantação e funcionamento dos SAA na Zona
da Mata. Foram entrevistados dois gestores de órgãos diferentes e com atuação da área social
e tecnológica, aprofundando e esclarecendo as informações coletadas em campo.

4.4 CONTEXTO DA PESQUISA

Foram realizadas 10 entrevistas e observações de campo em 10 comunidades distintas


de oito municípios e duas no Recife com gestores estaduais (Quadro 6). Essas visitas e
entrevistas foram realizadas principalmente nos fins de semana, no período da entressafra da
produção de cana-de-açúcar (facilitando a disponibilidade de alguns entrevistados), ocorrendo
61

durante quatro semanas. Enquanto que as entrevistas com os gestores estaduais ocorreram em
horário de expediente em seus locais de trabalho.

Quadro 6- Entrevistas realizadas


Local da
Município Comunidade Participantes
entrevista
Goiana Gambá Asseco Presidente (operador)
Escola e
Uruçu Presidente e operador
Macaparana associação
Poço Comprido Residência Presidente (a associação está desativada)
Tracunhaém Belo Oriente Asseco Presidente e membro da diretoria
Lagoa de Presidente, ex-presidente mais cinco
Camboa Asseco
Itaenga pessoas da diretoria
Lagoa do Carro Agrovila Barragem Asseco Presidente
Itambé Quebec Residência Membro do conselho fiscal
Ferreiros Encruzilhada Residência Presidente (operador)
Angélicas Residência Presidente
Vicência
Borracha Residência Presidente e ex-presidente
ProRural ProRural Gestor Estadual
Recife
SRHE SRHE Gestor Estadual
Fonte: O Autor.
Para todas as entrevistas, o tempo decorrido foi entre 30 e 60 minutos, de acordo com
o envolvimento de cada entrevistado. Em seguida foi desenhado uma linha do tempo que
expressasse a rotina diária dos operadores do sistema em estudo. Ressalta-se que todas as
entrevistas e contatos com o público alvo aconteceram em conformidade com as Diretrizes e
Normas Regulamentadoras de Pesquisa Envolvendo Seres Humanos (Resolução 196 de
10/10/96 do Conselho Nacional de Saúde, BRASIL, 1996). A pesquisa foi desenvolvida a
partir do Consentimento Livre e Esclarecido dos Participantes (Apêndice B) e a partir da
apresentação de todos os esclarecimentos necessários a fim de garantir o livre arbítrio dos
participantes, respeitar a privacidade e preservar o anonimato desses. Em seu processo de
realização, a pesquisa se propôs a evitar a intervenção no meio estudado, preservando a
integridade do pesquisado e seu meio, mas promovendo a reflexão crítica e informação que
possibilite o exercício da cidadania e a exigibilidade dos direitos.

Após cada entrevista, era realizada uma caminhada exploratória com registro
fotográfico na comunidade e nos equipamentos do sistema de abastecimento. Essa caminhada
era acompanhada pelo entrevistado ou operador do sistema, visando conferir as informações
descritas e compreender o funcionamento dos sistemas de abastecimento de água implantado.
62

4.5 CONSOLIDAÇÃO DOS DADOS

Após a ação de levantamento de informações e pesquisa em campo, o processo de


registro e análise dos dados requereu a organização desses subsídios em grandes categorias
que possibilitassem a análise-reflexão-síntese. Dessa forma, as entrevistas juntamente com as
informações obtidas da observação foram sistematizadas em tabelas que facilitasse o processo
de análise.

Para materializar o caráter qualitativo no processo de sistematização dos dados,


procurou-se construir e analisar as relações entre as informações. Assim, as tabelas foram
sobrepostas de modo a associar os diversos fatores na busca de maior compreensão dos
significados e intenções diversas e interrelacionadas das ações humanas referentes ao
processo de racionamento.

Durante o processo de pesquisa em campo, ressalta-se que a ação de contato e


comunicação com a pessoa entrevistada ultrapassou as possibilidades de comunicação verbal.
A observação, registro e análise do ambiente mostraram-se uma importante ferramenta de
comunicação não verbal, fundamental para a análise dos dados. Por vezes tais informações
contradisseram a entrevista, principalmente nos aspectos mais técnicos, onde há limite no
conhecimento do entrevistado. Sendo necessário, assim, um maior processo de observação
consentido pelas pessoas entrevistadas.

Para a seleção, análise e interpretação dos dados, as informações obtidas foram


percebidas a partir dos objetivos e do referencial bibliográfico e, após seleção e
sistematização, seguiram um roteiro de análise a partir de um plano específico a partir de três
eixos: a descrição do local, análise de vulnerabilidade do sistema de abastecimento e análise
de alternativas ao racionamento (Figura 2).
63

Figura 2- Roteiro de análise da pesquisa

Descrição dos Descrição das


sistemas comunidades
Descrição local
Componentes Relações com
fundamentais os sistemas

Situação
prevista
Análise de
Situação vulnerabilidade
encontrada do sistema

Fatores
críticos

Análise de
manobras para Análise de
aumentar a Alternativas
confiabilidade

Fonte: adaptado de Navarro-Roa (2008).

4.6 A ÁREA DE ESTUDO

O território de realização da pesquisa foi a Mesorregião da Mata Pernambucana a


partir de comunidades rurais onde foram implantados serviços de abastecimento de água pelos
programas Promata e ProRural do Governo do Estado com vistas ao desenvolvimento de
gestão autônoma e comunitária dos sistemas. Os referidos programas implantaram 96
sistemas de abastecimento rural entre os anos de 2004 e 2010 em localidades rurais entre a
Região Metropolitana do Recife (RMR) e a Zona da Mata. Desses sistemas, 88 encontram-se
em 42 dos 43 municípios da Mesorregião da Mata8.

Essa Mesorregião abrange uma área de 8.432,40 Km² (8,6% do território de


Pernambuco) limitando ao Norte com a Paraíba, ao Sul com o Estado de Alagoas, ao leste
com o Oceano Atlântico e a RMR, enquanto que a porção oeste tem fronteira com o agreste
pernambucano nos primeiros extratos do Planalto da Borborema (Figura 3). Seu clima é
classificado como As’(classificação de Köppen) caracterizando-se como quente e úmido com
chuvas de outono-inverno (MACHADO e SILVA JÚNIOR, 2009), sendo a região com maior

8
Apenas o município de Nazaré da Mata não foi contemplado com intervenções de abastecimento de água em localidades
rurais pelo Promata e ProRural.
64

índice de chuvas do Estado. Os mesmos Autores destacam que a vegetação tem como
formações primitivas as Floresta Subperenefólia, Subcaducifólia e as Formações Litorâneas.

Figura 3- Localização da Zona da Mata Pernambucana

Fonte:O Autor.

Quanto aos aspectos demográficos, a região da Mata possui a terceira maior população
dentre as cinco mesorregiões do Estado com 1.310.638 de habitantes (14,9%), enquanto que
sua população rural representa 19% da população rural do Estado (Tabela 9).

Tabela 9 - População do Estado de Pernambuco por Mesorregião e situação do domicílio

População Total População Urbana População Rural


Mesorregião
Habitantes % Habitantes % Habitantes %
Sertão 996.830 11,3% 590.850 8,4% 405.980 23,3%
São Francisco 578.203 6,6% 362.898 5,1% 215.305 12,3%
Agreste 2.217.600 25,2% 1.526.963 21,7% 690.637 39,6%
Mata 1.310.638 14,9% 979.524 13,9% 331.114 19,0%
Metropolitana 3.693.177 42,0% 3.591.806 50,9% 101.371 5,8%
Pernambuco 8.796.448 7.052.041 1.744.407
Fonte: Censo 2010 (IBGE, 2012a).
65

Em relação à socioeconomia da região, a agricultura e a pobreza são destaques. Para


Britto (2011)

Sua economia é caracterizada pela forte presença da agroindústria açucareira A má


distribuição de recursos hídricos e a histórica incapacidade de enfrentamento das
secas relaciona-se a forte concentração de terras e ocupação em latifúndios dos solos
mais férteis da região, processos sociopolíticos que acentuam as desigualdades e a
pobreza de uma região historicamente marcada por características culturais, como o
clientelismo e o coronelismo. É a região brasileira com a mais baixa renda per capita
e maior nível de pobreza.

Jansen e Mafra (2012) ainda ressaltam que essa é uma das Regiões de maior potencial
econômico do Nordeste, pelos recursos naturais disponíveis (água, solo, etc.), pelas vantagens
locacionais (em torno da RMR), com razoável infraestrutura econômica (estradas, portos
marítimos, aeroportos) e abundante contingente de mão-de-obra.

Para os Autores, a Zona da Mata de Pernambuco herda do seu passado um elenco de


problemas estruturais nas dimensões econômica, social, ambiental, política e cultural, assim
resumidos:

• estrutura fundiária distorcida: grandes latifúndios explorando a monocultura da cana-


de-açúcar convivendo com unidades familiares produtivas (fornecedores de cana,
etc.), minifúndios (que exploraram culturas alimentares diversas);
• defasagem tecnológica do setor sucroalcooleiro em relação à atividade no Centro-Sul
do país;
• elevado índice de inadimplência do setor sucroalcooleiro;
• meio natural degradado com raros vestígios dos ecossistemas, terras erodidas, rios
poluídos e ameaçados de intermitência pelo assoreamento;
• elevados índices de desemprego (estrutural e sazonal) e subemprego, principalmente
na entressafra da cana-de-açúcar;
• infraestrutura social deficiente (saúde, educação, habitação, saneamento), contribuindo
para explicar os índices precários de qualidade de vida da população;
• baixo índice de educação formal e de participação política;
• uma cultura sedimentada na crença de que a cana de açúcar é a única vocação agrícola
da Região. Dessa crença compartilham trabalhadores, fornecedores de cana,
empresários, políticos e grande parte dos técnicos e instituições públicas.
66

Se as coisas são inatingíveis… ora!


Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos se não fora
A mágica presença das estrelas!
Mario Quintana
67

5 RESULTADOS E DISCUSSÃO

5.1 OS PROGRAMAS DE SANEAMENTO RURAL NA ZONA DA MATA


PERNAMBUCANA

Nos anos recentes, percebe-se uma preocupação significativa dos governos em relação
ao desenvolvimento rural. Assim diversas ações são desenvolvidas visando às melhorias de
condições de vida da Mesorregião da Mata, podendo ser observadas com maior significância
a partir dos programas estaduais conhecidos como Promata e ProRural.

5.1.1 O Promata

O Programa de Apoio ao Desenvolvimento Sustentável da Zona da Mata de


Pernambuco (Promata) teve como objetivo principal o apoio ao desenvolvimento sustentável
da Mesorregião da Mata de Pernambuco e como específicos no âmbito municipal: fortalecer a
capacidade governamental, promover a participação da sociedade civil no processo de
planejamento municipal e melhorar a oferta e qualidade dos serviços básicos, e; em nível
regional: incentivar a diversificação econômica e o manejo sustentável dos recursos naturais
da região.

O Promata foi executado pela Secretaria de Planejamento do Estado, a partir da


Unidade de Gestão do Promata (UGP) e foi financiado principalmente com recursos do Banco
Interamericano de Desenvolvimento (BID) a partir do Contrato de Empréstimo com o Estado
de Pernambuco nº 1357/OC-BR assinado em 2002 (PERNAMBUCO, 2003). Para o
cumprimento do programa foram estruturados três subprogramas a partir dos eixos:
melhoramento de serviços básicos, apoio à diversificação econômica e gestão e proteção
ambiental. Para cada subprograma, foram definidos módulos e atividades, estando o
saneamento rural no primeiro subprograma e no módulo de infraestrutura, conforme
Quadro 7.
68

Quadro 7- Organização das atividades do Promata


Subprograma Módulos Atividades
Assistência técnica, treinamento e aquisição de bens para o
Fortalecimento fortalecimento da gestão municipal.
da Gestão Modernização da administração fiscal e gestão de programas
Municipal e sociais e ambientais e planejamento territorial.
Organização Fortalecimento da organização comunitária nas áreas de
Comunitária mobilização, participação e conscientização social, operação e
manutenção de investimentos e educação ambiental.
Adequação de infraestrutura, aquisição de equipamentos e
materiais didáticos, cursos e capacitação, alfabetização e
aceleração da escolarização de crianças de 9 a 14 anos.
Ações Sociais
Melhoramento Na área da saúde: campanhas informativas para a redução e
controle de enfermidades, treinamento profissional, obras de
de Serviços adequação de infraestrutura e aquisição de equipamentos.
Básicos Construção, reabilitação ou ampliação de sistemas de
abastecimento de água e esgotamento, em 70 comunidades
rurais com população entre 200 e 10.000 habitantes.
Melhoramento e reabilitação de aproximadamente 1.000 km de
vias intramunicipais.
Infraestrutura Construção ou reabilitação de 30 matadouros, incluindo sistemas
de tratamento de águas residuais e de até dez mercados.
Reabilitação da infraestrutura vinculada aos processos
econômicos do município.
Planos Municipais de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos e
investimentos em serviços públicos de limpeza urbana.
Assessoria em aspectos produtivos, mercadológicos e
empresariais a pequenos e médios produtores.
Apoio a
Treinamento e promoção de Planos de Negócios para grupos de
Agronegócios produtores em cultivos alternativos, controle de agrotóxicos, e
manejo de recursos naturais e promoção de campanhas.
Apoio à Validação, Financiamento de projetos de validação e de difusão tecnológica
Diversificação Difusão e Financiamento de projetos de longa duração, projetos de
Econômica Pesquisa pesquisa em fruticultura, horticultura e pecuária e de difusão de
Agropecuária tecnologias.
Apoio à Serviços de treinamento e assessoria para elaboração,
Microempresa implantação e operação de Planos de Negócios, treinamento em
Não-Agrícola artes e ofícios e promoção empresarial e de mercadorias.
Elaboração de Plano de Ação Ambiental Integrado com
diagnóstico e prognóstico de qualidade ambiental, Plano de
Proteção da Mata Atlântica e de Desenvolvimento Florestal.
Gestão Desenvolvimento institucional da Secretaria de Ciência,
Gestão e Ambiental Tecnologia e Meio Ambiente (SECTMA) e da Agência
Pernambucana de Meio Ambiente (CPRH), implantação de
Proteção sistema de informação ambiental, de dois postos da agência
Ambiental governamental de controle ambiental e treinamento.
Projetos de proteção e recuperação da Mata Atlântica.
Projetos Projetos básicos de dez Sistemas Integrados de Destinação Final
Ambientais de Resíduos Sólidos para grupos de Municípios e implantação de
até quatro desses Sistemas.
Fonte: O Autor (adaptado de PERNAMBUCO, 2003).

O programa foi iniciado em 2003 a partir do Território Piloto abrangendo os


municípios de Aliança, Buenos Aires, Nazaré da Mata, Tracunhaém e Vicência. A estratégia
era a aplicação da metodologia de execução nos cinco municípios do Piloto, adquirindo
experiência para aplicação em todos os municípios da Mesorregião. Nesse momento foram
69

estruturados os Planos de Investimentos Municipais (PIM) e desenvolvidas ações nas áreas de


educação, saúde, infraestrutura e meio ambiente.

Conforme Britto (2011), o Subprograma I compreende investimentos da ordem de


US$ 80,5 milhões (53,7% dos investimentos do Promata) e no componente Infraestrutura
foram priorizadas ações de Saneamento Básico Rural. Nessas ações foram beneficiados 35
municípios e 50 localidades rurais com a melhoria do abastecimento de água e a implantação
do esgotamento sanitário, com a instalação de kits sanitários (pia, chuveiro, vaso sanitário,
tanque e caixa d’água). Os sistemas de abastecimento de água foram implantados com sistema
de tratamento e rede de distribuição com ligações e hidrômetros nos domicílios.

A estruturação da gestão dos serviços de saneamento implantados se espelha no Sisar


do Ceará com a formação de Associações de Serviços Comunitários (Assecos). De acordo
com Britto (2011), essas associações são responsáveis por gerir, operar e realizar a
manutenção do sistema de abastecimento de água e de tratamento do esgotos. Num primeiro
momento foi proposto pelo Promata um acordo tripartite, determinando responsabilidades
para o Governo do Estado a partir da Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa),
para as prefeituras municipais e as Assecos. Ressalta-se que tal acordo nunca foi efetivado,
não havendo até então arcabouço institucional de gestão dos sistemas implantados.

As primeiras 19 Assecos foram formadas em 2007 a partir do projeto Piloto e somente


em 2011 ocorreram processos de capacitação estruturados para representantes das diretorias e
operadores dos sistemas de abastecimento a partir da contratação do Consórcio
Synergia/Colmeia pelo Promata. Esse processo formativo ocorreu para as associações do
Promata e ProRural a partir de oficinas de educação ambiental e sanitária, operação e
manutenção dos sistemas e gestão financeira e contábil. Além disso, foram estruturadas duas
cooperativas de articulação das associações (uma na Mata Norte e outra na Mata Sul), visando
o fortalecimento e integração das ações e facilitando a economia de escala para as
associações.

Com a conclusão do programa Promata, atualmente o acompanhamento das demandas dos


sistemas de saneamento rural implantados é realizado pelo ProRural.
70

5.1.2 O ProRural

O Programa de Desenvolvimento Rural Sustentável de Pernambuco9 (ProRural) é


executado a partir da Secretaria Executiva de Tecnologia Rural e Programas Especiais da
Secretaria de Agricultura e Reforma Agrária de Pernambuco10 e financiado prioritariamente
com recursos do Banco Mundial (Bird). De acordo com a página eletrônica do Programa, o
ProRural tem como missão coordenar, implementar e apoiar, de forma democrática, articulada
e participativa, os programas de desenvolvimento local integrado e sustentável, voltados para
a melhoria da qualidade de vida e geração de renda das comunidades rurais em situação de
vulnerabilidade social do Estado de Pernambuco (PERNAMBUCO, 2012).

De acordo com Pernambuco (2012), o ProRural atua em 180 municípios das 12


Regiões de Desenvolvimento do Estado a partir da assessoria, capacitação e implantação de
projetos produtivos e de infraestrutura que possam reverter situações de pobreza e de exclusão
social. Na Zona da Mata Pernambucana foram implantados 38 sistemas simplificados de
abastecimento de água em comunidades rurais em 26 municípios (33 com rede de distribuição
e 5 a partir de chafariz).

Para os sistemas implantados pelo ProRural não houve definição de um modelo de


gestão estruturado. Sabe-se que para receber o projeto, a comunidade deve ter uma associação
que demanda ao Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural. Assim, existem 180
conselhos que trabalham articulados com as associações rurais discutindo e votando as
prioridades dessas. Os sistemas de abastecimento implantados são simplificados e em apenas
dez sistemas foram instalados hidrômetros nos domicílios. A Associação local existente faz a
gestão, realizando os serviços de operação e manutenção do sistema de abastecimento de
água, cobrança e gestão financeira. Destaca-se que nas comunidades onde foram implantados
sistemas pelo ProRural não houve intervenções relacionadas ao esgotamento sanitário, tanto
soluções individuais, quanto coletivas.

9
Iniciamente o programa era denominado de Programa Estadual de Apoio ao Pequeno Produtor Rural (ProRural).
10
Quando iniciou, o ProRural era executado pela Secretaria de Planejamento e Gestão do Estado (Seplag) através da Unidade
Técnica ProRural, em seguida foi gerido pela Secretaria de Articulação Social e Regional de Pernambuco (SEART).
71

5.2 OS SISTEMAS DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA IMPLANTADOS

Conforme já descrito, na Zona da Mata Pernambucana foram implantados 88 sistemas


de abastecimento de água em comunidades rurais por programas governamentais estaduais.
Essas comunidades, descritas no Quadro 8 e Figura 4, foram selecionadas pelo Promata a
partir dos PIMs e pelo ProRural a partir dos Conselhos de Desenvolvimento Sustentável
Rural.

Quadro 8- Localidades com SAA implantados pelo Promata e ProRural


RD Município Promata ProRural
Aliança Macujê, Tupaoca, Santa Luzia Chá do Camará, Loteamento Combeba
Sítio Chã das Mulatas II, Assentamento Novo
Buenos Aires -----
Mundo, Sítio Chã de Maltês,
Camutanga ----- Poço do Ferro II, Pitombeira
Carpina Chã do Meio Sítio Saco, Sítio Três Paus
Chã de Alegria Lagoinha Sítio Chã de Aldeia/Lagoinha, Sítio Brasil
Condado Jararaca -----
Ferreiros Encruzilhada -----
Glória do Goitá Tapera Poças/Caldeirão, Araçá
Goiana Gambá -----
Mata Norte Itambé Quebec -----
Itaquitinga Chã de Sapé -----
Lagoa de Itaenga Camboa Sítio Açudinho/Quatis
Lagoa do Carro Barragem -----
Macaparana Lagoa Grande, Poço Comprido Sítio Uruçu
Paudalho Chã Alegre, Chã de Cruz -----
Pombos Nossa Senhora do Carmo -----
Timbaúba Cruangi, Queimada de Cima -----
Tracunhaém Belo Oriente, Açudinho Nova Canaã
Angélicas, Trigueiros,
Vicência -----
Borracha, Murupé
Água Preta Santa Terezinha -----
Amaraji Demarcação -----
Barreiros Bom Jardim Serra D'água
Belém de Maria ----- Sitio Timbó, Sítio Quanduz
Catende Roçadinho Engenho São José da Prata, Sítio Solidão
Chã Grande Vila de Santa Luzia -----
Cortês Ilha de Flores -----
Escada Timboassu -----
Gameleira Engenho Alegre I, Alegre II Engenho Frescundim
Jaqueira ----- Engenho União
Joaquim Nabuco Engenho Machado Sitio Jaqueira
Maraial ----- Sertãozinho de Cima
Mata Sul Palmares Pirangi, Santo Antônio Engenho Fertilidade, Engenho Sumidouro
Primavera Pedra Branca Engenho Riqueza
Quipapá ----- Engenho Siri, Engenho Bananeira Grande
Ribeirão Aripibu, Agrovila Retiro Engenho Progresso
Rio Formoso Vila Conceição Engenho Siqueira
São Benedito do Sul ----- Sitio Alto Bonito
São José da Coroa
Abreu do Una, Várzea do Una Assentamento Gindaí
Grande
Sirinhaém 31 de Março Ibiratinga
Tamandaré Sauezinho Saué Grande
Vitória de Sto. Antão Oiteiro, Pirituba Sítio Chã de Batinga, Sítio Boto
Xexéu Campos Frios Vila Limão
Fonte: O Autor (adaptado do Banco de Dados Consórcio Synergia/Colmeia, 2011).
72

Em relação ao Promata, o PIM planejou a execução das ações em nível municipal a


partir de construção participativa com diversos representantes de segmentos locais (poder
público local, empresas, associações). Segundo informações do gestor do programa “os PIMs
levantaram os principais problemas locais e, a partir dos problemas levantados, foram
destacadas as comunidades com necessidade de água e então se sucedeu a contratação dos
projetos”.

Os planos municipais, de acordo com o gestor, demandaram sistemas de saneamento


em 240 comunidades e, a partir de visita, foram reduzidas para 60 de acordo com os seguintes
critérios: garantir a abrangência de todos os municípios da Mesorregião, possuir populações
mais concentradas e menos difusas e acima de 200 habitantes, ter disponibilidade de água,
viabilizar soluções mais exequíveis e preferir comunidades com ações complementares de
estradas, fortalecimento de renda, etc. Das comunidades previstas foram executadas ações em
50 dessas e, em 2011, seis dessas encontravam-se inconclusas e sem funcionamento
(CONSÓRSIO SYNERGIA/COLMEIA, 2011).

Figura 4- Localização dos SAA implantados

Fonte adaptada: Consórcio Synergia/Colmeia (2011).

Quanto ao processo de seleção das comunidades no ProRural, a demanda era


espontânea a partir das necessidades apresentadas nos Conselhos Municipais de
Desenvolvimento Sustentável Rural. Assim, o processo de elaboração de projetos e execução
73

dos recursos ocorreu a partir das agendas dos referidos conselhos, sendo executados 38
sistemas de abastecimento
stecimento rural na Zona da Mata até 2011. De acordo com o Consórcio
Synergia/Colmeia (2011), três dessas obras foram concluídos mas estão sem funcionar e
quatro não foram concluídas (três dessas em operação e uma sem funcionamento). A
distribuição desses sistemas entre Programas e Regiões de Desenvolvimento é bem equânime
como mostra o Gráfico 8.

Gráfico 8- Distribuição dos Sistemas de abastecimento


por Mesorregião e Programa Governamental

22 26
Mata Norte Promata
Mata Norte ProRural
24 16 Mata Sul Promata
Mata Sul ProRural

Fonte: O Autor.

A implantação dos SAA no


no território rural da Zona da Mata representou um aporte nas
melhores condições de vida de 78.107 pessoas ou 17.768 famílias a partir do investimento
i de
78,1 milhões de reais (CONSÓRCIO SYNERGIA/COLMEIA, 2011).
2011) O banco de dados do
Consórcio revela que o número
nú de famílias atendidas e investimento total e per capita do
Promata foi maior que do ProRural (Tabela 10). Tal situação remete às
à diretrizes propostas
por cada programa, pois enquanto o primeiro implantou sistemas completos de abastecimento
de água (captação,
ptação, tratamento e distribuição) e de esgotamento sanitário (coleta e tratamento),
o segundo apenas instalou sistemas simplificados de abastecimento de água com captação
subterrânea na maioria dos casos e até distribuição por chafariz (como no caso do sistema
si de
menor valor investido, Chã de Camará em Aliança).

Tabela 10- Recursos investidos por programa governamental


Programa Promata ProRural Total
Famílias atendidas 15.338 2.430 17.768
Investimento (R$) 73.209.646,68 4.890.663,75 78.100.310,43
Investimento per
4.773,09 2.012,62 4.395,56
capita (R$)
5.095.135,16 190.699,91
Maior investimento
(atendendo a 739 (atendendo 92 famílias 5.095.135,16
(R$)
famílias em Angélicas) em Chã de Mulatas II)
325.326,84 40.722,12
Menor 40.722,12
(atendendo 147 (atendendo 80 famílias
investimento (R$)
famílias em Açudinho) em Chã de Camará)
Fonte: O Autor (adaptado de CONSÓRCIO SYNERGIA/COLMEIA, 2011).
2011)
74

5.3 CARACTERIZAÇÃO DOS SISTEMAS

De uma forma geral, percebe-se que os sistemas de abastecimento de água


implantados em comunidades rurais da Mata são distintos e buscaram atender as
especificidades locais. Desse modo, observam-se diferenças entre as tecnologias de
tratamento de água implantadas, bem como a forma de captação e distribuição. Conforme
descrito por gestor estadual, as tecnologias adotadas deveriam ser simplificadas facilitando a
operação e manutenção e, quando possível foi priorizada a captação a partir de lençol
subterrâneo que facilitasse o tratamento com custos reduzidos.

Uma característica expressiva dos sistemas implantados refere-se à implantação de


redes de distribuição. Assim, 94% dos sistemas possuem tais redes enquanto que em apenas
cinco comunidades a água é distribuída através de chafariz, todas com SAA implantados pelo
ProRural (Figura 5).

Essas redes de distribuição de água expressam uma mudança de cultura pelo uso da
água, pois antes delas as soluções de abastecimento eram individuais/domiciliares, sem
segurança em relação à qualidade e associadas a deslocamentos expressivos para obtenção do
recurso.

Dos 88 sistemas implantados, 74% têm como forma de captação o lençol subterrâneo
(Figura 5), com 41 localidades abastecidas a partir de poços tubulares profundos (artesianos) e
21 com poços rasos tipo amazonas todos executados pelo Promata (não há informação sobre
três comunidades). A implantação de poços rasos resulta da inexistência de lençóis
sedimentares profundos no entorno das localidades e tem consequências diretas à qualidade
da água, pelo risco de contaminação do lençol superficial (freático). Ainda percebe-se a
existência de captação subterrânea associada à dessalinizador em duas comunidades: Tapera
(Glória do Goitá) e Encruzilhada (Ferreiros), onde era a solução possível apesar do custo
elevado e da dificuldade de manutenção, sendo constatado pela pesquisa que ambos
encontram-se sem funcionar há mais de um ano e o abastecimento atualmente é feito com
água salobra.
75

Figura 5- Gráficos de caracterização dos sistemas de abastecimento

Forma de distribuição 3 Forma de Captação


5 20

subterrânea
rede de distribuição 65 superficial
83 chafariz não informado

Fonte: O Autor (adaptado de CONSÓRCIO SYNERGIA/COLMEIA, 2011).

As demais comunidades (20), são abastecidas a partir de fontes superficiais (sendo 15


implantadas pelo Promata e cinco pelo ProRural) nas mais diversas modalidades, como
barragem, barragem de nível, fio d’água em rio ou riacho e nascente (aduzidas por gravidade
ou bombeamento). Pelo Promata, destaca-se o uso de barramentos com 12 captações dessa
forma, enquanto que a utilização de nascentes é destacada nas captações de águas superficiais
implantadas pelo ProRural.

Sobre a situação atual dos sistemas, registra-se que 79% dos sistemas foram
concluídos e desses, três sistemas não estão funcionando (Figura 6). Apesar de não concluídos
e entregues, sete desses encontram-se em operação, sendo as pendências de diversas ordens
como: perfuração de outros poços, instalação de equipamentos de tratamento (principalmente
clorador), conclusão de redes de distribuição e entrega de kits sanitários para algumas
famílias.

Figura 6- Gráficos sobre a situação dos sistemas de abastecimento

11 Obra e funcionamento 3 Medição 5 Pagamento


7 20
23
3 41
concluído e operando
hidrometrado tarifa
concluído e sem funcionamento não mede o consumo 60
67 24 sem tarifa
não concluído e operando não possui hidrômetro
não informado não informou
não concluído e sem funcionamento

Fonte: O Autor (adaptado de CONSÓRCIO SYNERGIA/COLMEIA, 2011).

Já em relação à medição do hidrômetro, apesar de existir o equipamento nos


domicílios de 65 localidades (50 instalados pelo Promata e 15 pelo ProRural) em apenas 41 é
realizada a medição e 3 não informaram (Figura 6). Como motivos para não haver o registro
do consumo domiciliar, recorrem principalmente a ausência de cobrança, a qualidade ou
76

quantidade de água disponibilizada, a desmobilização da associação ou a ingerência do poder


público local. Para a tarifação e cobrança mesmo que sem medição, apontam-se índices mais
expressivos que facilitam a manutenção e operação do sistema (figura 6), sendo que das 60
associações que cobram tarifa, 31 cobram tarifa excedente para consumo superior a 10m³. Das
23 associações de não efetuam a cobrança, 14 não estão em funcionamento e 9 desses
sistemas são geridos pelo Poder Executivo Municipal (não foram obtidas informações de
cinco SAA).

Dos 74 sistemas em funcionamento (concluídos e entregues ou não), em 58 existe


alguma dificuldade em seu funcionamento (Gráfico 9). A principal dificuldade registrada
ocorre em relação ao tratamento da água (46 localidades ou 62%), sendo esse o principal
objeto de reclamação dos usuários, com algumas localidades onde o consumo da água não é
incentivado, servindo apenas para realização de serviços domésticos. Para Navarro-Roa
(2008), o fornecimento de água deve cumprir normas de qualidade, disponibilizando-a na
quantidade e pressão adequada. Apesar disso, em 32 povoações percebe-se dificuldade na
distribuição de água, sendo a principal a intermitência no abastecimento, a pressão reduzida
na ponta da rede e a desigualdade de acesso.

Gráfico 9 - Ressalvas no funcionamento dos sistemas de abastecimento de água

21,6 frequência
19 17,0
percentual
15

9 10,2
4 4,5 5 5,7
3 3,4 3 3,4

Fonte: O Autor (adaptado de CONSÓRCIO SYNERGIA/COLMEIA, 2011).

Para os 14 sistemas que se encontram sem funcionamento, nota-se que assim estão por
problemas de execução da obra ou manejo inadequado dos equipamentos (Gráfico 10). Os
três conjuntos que foram concluídos e entregues e que não estão em operação enquadram-se
na situação de entraves com os equipamentos implantados. Não foram verificados, como
77

restrições ao funcionamento, problemas de ordem financeira ou organizacional, bem como de


material ou de recursos humanos, apenas dificuldades de execução e operação (técnicas).

Gráfico 10- Entraves no funcionamento dos sistemas de abastecimento de água

10,2
9 frequência
percentual

4 4,5

1 1,1

Obra Equipamento Obra e


Equipamento
Fonte: O Autor (adaptado de CONSÓRCIO SYNERGIA/COLMEIA, 2011).

A dinâmica da comunidade, o conflito político ou social, a incapacidade de gerar


receita tarifária suficiente, a falta de manutenção preventiva e a falta de coesão e de
capacidade (técnica, de gestão financeira, etc.) são limitações internas comunitárias (IRC,
2004) que demandam investigação. Como forma de compreender o funcionamento dos
sistemas de abastecimento de água a partir da gestão autônoma e comunitária, é pertinente o
conhecimento do funcionamento das Assecos e associações locais.

Destarte, das 88 associações comunitárias, 69 funcionam com restrições, dez não


funcionam e apenas nove funcionam plenamente. Das que funcionam com ressalvas, registra-
se que a maioria das diretorias (43) tem dificuldades organizacionais administrativas e
contábeis que influenciam a gestão dos sistemas (Gráfico 11). A ausência de regularidade de
reuniões de diretoria notada em 56 associações também traz riscos no funcionamento dos
sistemas pela dificuldade de determinação de decisões coletivas. Ainda é percebido em menor
frequência a desarticulação de membros de diretorias e algumas gestões com mandato
vencido.
78

Gráfico 11- Ressalvas no funcionamento das diretorias das associações

63,6
56
frequência
48,9
percentual
43

26,1
23
18,2
16

5 5,7

Ausência de membros Dificuldade Organizar Não há periodicidade Mandato Vencido Membros


da diretoria Instrumentos ADM nas reuniões desarticulados
Contábeis

Fonte: O Autor (adaptado de CONSÓRCIO SYNERGIA/COLMEIA, 2011).

Além disso, se verifica que 10 associações encontram-se sem funcionamento, sendo a


maioria na região da Mata Sul (8) e implantadas pelo Promata (8). Não se constata como
evento comum a relação entre o não funcionamento das associações e os sistemas sem
operação, pois esse fato apenas foi observado em três localidades (Ilha das Flores em Cortês,
Pedra Branca em Primavera e Lagoinha em Chã de Alegria). Por outro lado, nas localidades
onde a operação foi assumida pelo poder executivo municipal, ocorre com mais frequência à
desarticulação e desinteresse dos membros da diretoria (Gráfico 12).

Gráfico 12- Entraves no funcionamento das diretorias das associações

80,0
frequência
percentual

30,0 30,0 30,0

8 10,0
3 3 1 3

Desinteresse Membro Sistema SAAE Gestão pela


desarticulado paralizado Prefeitura

Fonte: O Autor (adaptado de CONSÓRCIO SYNERGIA/COLMEIA, 2011).

Dentre as 78 associações locais em funcionamento, ainda registra-se que 61 delas


(78%) desenvolvem processos de mobilização comunitária e dessas, 48 com ressalvas. As
questões observadas nesse sentido ressaltam que boa parte das localidades são mobilizadas
79

apenas para discutir a tarifa ou o corte no fornecimento por inadimplência (Gráfico 13),
também uma parte levanta que a ausência de respostas do poder público para os problemas
encontrados nos sistemas dificultam a mobilização, ao mesmo tempo em que é um argumento
para envolvimento dos usuários em assembleias.

Gráfico 13- Ressalvas na mobilização da comunidade

26,1
frequência
22,7 23
percentual
20
17,0
15,9
15
14

4 4,5

se houver para para tratar de outras Ausência de


distribuição ou apresentação de corte e tarifa dificuldades de resposta do
sorteio de novos projetos mobilização poder público
brindes

Fonte: O Autor (adaptado de CONSÓRCIO SYNERGIA/COLMEIA, 2011).

Para Wellin (apud TEIXEIRA, 2011) a tecnologia apropriada é importante, mas


insuficiente, assim como o comportamento humano, tanto em nível individual como
institucional, é fundamental para determinar a eficácia dos sistemas rurais de água. O Autor
enfatiza que por melhor que seja projetado o sistema, esse será ineficaz se não for usado
corretamente ou se a comunidade não estiver organizada para sua operação e manutenção.

Assim, entre as 17 associações que não desenvolvem processos de mobilização


comunitária, o destaque, segundo os representantes das diretorias, se dá principalmente pelo
desinteresse da comunidade e a dificuldades de mobilização (Gráfico 14). Como a maioria
dessas (11) está em localidades com sistemas implantados pelo ProRural e consequentemente
existentes antes da execução dos sistemas, percebe-se que as tais dificuldades pouco se
relacionam com a gestão dos serviços de abastecimento. Por outro lado, constata-se que em
oito dessas comunidades onde não há mecanismos de mobilização social os sistemas
encontram-se sem funcionamento; para as demais, ainda ressaltam-se como argumento para
não haver mobilização a desorganização da associação, a ausência de respostas do poder
público para os problemas existentes no SAA e uma dessas destacou a irrelevância da
participação comunitária (Sítio Brasil em Chã de Alegria que se encontra com o sistema sem
funcionar).
80

Gráfico 14 - Entraves na mobilização da comunidade

19,3
18,2
frequência
17
percentual 16
14,8
13
12,5
11

9,1
8

1 1,1

Fonte: O Autor (adaptado de CONSÓRCIO SYNERGIA/COLMEIA, 2011).

Quanto à gestão dos sistemas de abastecimento, em relação à operação destaca-se que


em cinco localidades não é realizado o tratamento da água, sendo distribuída in natura; sobre
a gestão financeira, dos 74 sistemas em operação, a maioria não efetua corte no abastecimento
por inadimplência (em 42 localidades) conforme o Gráfico 15. Também existem algumas
localidades onde a tarifa não é hidrometrada (24) e que não há cobrança de tarifa (23), que
podem resultar em risco para a sustentabilidade do sistema devido aumento do consumo e dos
custos operacionais.

Gráfico 15- Ressalvas na realização da gestão dos sistemas de abastecimento de água

47,7
42
frequência
percentual
27,3 26,1
24 23
20,5
18
12 13,6
5 5,7
2 2,3

Fonte: O Autor (adaptado de CONSÓRCIO SYNERGIA/COLMEIA, 2011).


81

Sobre a gestão ainda se destaca o envolvimento de algumas prefeituras municipais no


apoio aos sistemas implantados principalmente assumindo os custos com energia elétrica e
operadores (Gráfico 15), algumas ainda adquirem produtos químicos e equipamentos de
reposição. Tal envolvimento é resultado de um esforço dos programas governamentais
responsáveis pela implantação do sistema e refletem a necessidade de comprometimento do
poder público local. Por outro lado, a pesquisa também revela que nove gestores municipais
não concordam o tal modelo de gestão comunitária, ocupando o lugar da associação no
gerenciamento e operação dos sistemas de abastecimento de água implantados pelo Promata e
ProRural.

De acordo com relatório da Funasa (BRASIL, 2010b), os principais pontos críticos


relacionados com o saneamento rural destacam as dificuldades de gestão e envolvimento local
a partir: (i) da desconfiança com relação ao projeto e isolamento das comunidades, como
entraves à mobilização comunitária; (ii) a falta de interesse e de comprometimento na esfera
municipal; (iii) a ausência ou inconsistência de dados. O relatório também ressalta (iv) o perfil
centralizador das lideranças e oportunismo de pessoas e instituições; bem como (v) a falta de
conhecimento e de referenciais adequados sobre o tema saneamento e saúde como riscos para
a gestão compartilhada ou associada nos serviços de saneamento.

5.4 OS SISTEMAS DE ABASTECIMENTO COM RACIONAMENTO


Sobre a situação do abastecimento rural em relação ao racionamento, foram
investigadas 69,3% das localidades rurais abrangidas na pesquisa (61 do total de 88
povoações) e dessas localidades selecionadas, em 14,7% o SAA não se encontra sem
funcionamento, índice semelhante ao universo geral da pesquisa. Para os sistemas que se
encontram em operação, foi observada a existência de cortes regulares no abastecimento,
registrando-se assim a quantidade de 35 sistemas com racionamento ou 67,3% dos sistemas
(Gráfico 16) em funcionamento.
82

Gráfico 16- Sistemas pesquisados e situação atual do regime de abastecimento de água

Universo pesquisado contatadas


sem contato

27
17
61
9 35 Regime de
abastecimento
sem racionamento
com racionamento
52
Funcionamento
em operação
sem funcionar

Fonte: O Autor.

Dessas que se encontram sem funcionamento (16,4% do universo pesquisado), quanto


ao programa executor, duas foram implantadas pelo ProRural e sete pelo Promata e em
relação ao território seis situam-se na Mata Sul e três na Mata Norte. Destaca-se que a
implantação dos sistemas foi iniciada na região Norte a partir do Território Piloto, dessa
forma com mais tempo de funcionamento, mais experiência e relação com o poder público,
que facilitam a maior eficiência dos sistemas. Também se registra que oito SAA não foram
concluídos e encontram-se sem funcionamento (sete executadas pelo Promata e uma pelo
ProRural) e um foi concluído mas sem operação (ProRural).

Para o universo de 61 SAA pesquisados sobre a situação de racionamento, buscou-se


garantir a proporção referente ao total de comunidades, a maior diversidade possível em
relação ao território sul e norte, ao programa executor e à gestão comunitária (medição, tarifa,
funcionamento da diretoria, entre outros itens) conforme o Gráfico 17.

Gráfico 17- Gráficos de caracterização dos sistemas de abastecimento pesquisados

Região de Desenvolvimento Forma de captação 4 Forma de distribuição


15 e Programa Governamental 14
19
Mata Norte Promata
Mata Norte ProRural
Mata Sul Promata 47 Poço Rede de distribuição
18 9 57
Mata Sul ProRural superficial Chafariz

Fonte: O Autor.

Dos 52 sistemas que se encontram em funcionamento, 31 deles já foram implantados


com corte programado no abastecimento. Atualmente 35 são operados com regimes de
83

racionamento permanente (Gráfico 17), representando 67,3% dos sistemas pesquisados sobre
o assunto. Tal representatividade de dois terços dos sistemas com racionamento retrata a
relevância da questão e produz reflexões sobre o processo de implantação, acompanhamento e
gestão dessa política pública. A estratificação de situações temáticas facilita o entendimento
sobre a questão possibilitando uma investigação mais detalhada sobre o racionamento nos
sistemas. Dessa forma os dados foram desagregados a partir do recorte territorial, dos
programas governamentais, das formas de captação e distribuição, bem como a
hidrometração, tarifação, funcionamento e organização da diretoria (Tabela 11).

Tabela 11 - Caracterização dos sistemas de abastecimento quanto ao regime de racionamento

Sistemas com Sistemas sem total


Temas Situações racionamento racionamento
Qtde. % Qtde. % Qtde.
Sistemas Em funcionamento 35 67,3% 17 32,7% 52
Programa Promata 12 54,5% 10 45,5% 22
governamental ProRural 23 76,7% 7 23,3% 30
Região de Mata Sul 16 59,3% 11 40,7% 27
desenvolvimento Mata Norte 19 76,0% 6 24,0% 25
Forma de Superficial 8 61,5% 5 38,5% 13
captação Subterrânea 27 69,2% 12 30,8% 39
Forma de Com rede 33 68,8% 15 31,3% 48
distribuição Com chafariz 2 50,0% 2 50,0% 4
Medição Hidrometrado 17 77,3% 5 22,7% 22
domiciliar Não hidrometrado 18 60,0% 12 40,0% 30
Tarifado 31 72,1% 12 27,9% 43
Cobrança
Não tarifado 4 44,4% 5 55,6% 9
Situação da Funcionando 2 66,7% 1 33,3% 3
diretoria Não funcionando 33 67,3% 16 32,7% 49
Organização Com dificuldades 18 69,2% 8 30,8% 26
gerencial Sem dificuldades 17 65,4% 9 34,6% 26
Fonte: O Autor.

De um modo geral percebe-se pouca relação entre a existência de racionamento com


os temas abordados na Tabela 11 e as proporções em relação fato de haver ou não o corte
programado pouco variam. Ao selecionar as comunidades a partir dos temas das tabelas,
aponta-se que o os sistemas com racionamento no geral representa mais da metade das
localidades pesquisadas (Tabela 11). Em relação ao programa governamental, as localidades
com SAA implantados pelo ProRural possuem maior índice de racionamento (76,7%) que
pelo Promata (54,5%), tais programas distinguem-se pela forma de organização comunitária:
no primeiro, a gestão ocorre a partir de associação já existente e que atua em diversos temas e
para o segundo programa, foram criadas associações específicas para a gestão e operação dos
sistemas, podendo facilitar o abastecimento da comunidade.
84

Quanto ao território, o racionamento ocorre com mais frequência na Mata Norte


(76%), ante a Mata sul com 59,6% de comunidades com água racionada (Gráfico 18). Num
breve levantamento, constata-se que formas de captação, funcionamento e gestão são
semelhantes nos dois territórios, não justificando a diferença de proporção destacada. Nesse
caso, as condições ambientais podem influenciar tal índice mais expressivo na Mata Norte,
pois as chuvas são menos intensas nessa região e há dificuldade de acesso à água subterrânea
principalmente no setor noroeste (Itambé, Ferreiros, Macaparana, Timbaúba e Vicência).

Já as informações de racionamento referentes aos sistemas com rede de distribuição,


captação superficial e subterrânea, funcionamento e organização ou não das diretorias
(Gráfico 18) são muito próximos a média geral dos sistemas pesquisados (dois terços)
evidenciando que o racionamento pode independer de tais questões.

Gráfico 18- Situação do racionamento por tema pesquisado


77,3%
76,7%

76,0%

72,1%

69,2%

69,2%
68,8%
67,3%

67,3%
66,7%

65,4%
61,5%
60,0%
59,3%

55,6%
54,5%

50,0%
50,0%
45,5%

44,4%
40,7%

40,0%

38,5%

34,6%
33,3%
32,7%

32,7%
31,3%

30,8%

30,8%
27,9%
24,0%
23,3%

22,7%

com racionamento
sem racionamento
Fonte: O Autor.

Para a distribuição por chafariz (quatro sistemas pesquisados), todas as localidades


estão no território Norte, captam água através de poço tubular e metade possui racionamento:
Chã de Camará em Aliança com duas horas com água por turno e um dia por setor (dois
setores) e Araçá em Glória do Goitá com 11 horas de água por dia. Vale frisar que o
representante da primeira localidade alega a pouca vazão do poço e a bomba subdimensionada
85

com motivo e na segunda, não soube informar, apesar disso o abastecimento por chafariz
durante 11 horas seguidas (das 6h às 17h) é praticamente a garantia plena do consumo diário
(para quem tem disponibilidade de tempo durante esse período).

Em relação à medição por hidrômetro e cobrança de tarifa, é importante acentuar que a


não existência de medição e cobrança pode aumentar o consumo domiciliar de água,
favorecendo o risco de racionamento por superexploração do sistema de abastecimento. Nas
comunidades pesquisadas ocorre o inverso, onde o racionamento é mais intenso nas
localidades onde há hidrometração (77,3%) e tarifação (72,1%) como descrito no Gráfico 18.
Tais elementos associados com os anteriores reforçam a necessidade de maior
aprofundamento da pesquisa para conhecer as razões de existência de tal problemática.

Sobre a regularidade do abastecimento de água, das 35 localidades com racionamento,


somente em uma não há regularidade ou rotina temporal de acesso à água: o distrito de
Angélicas em Vicência que possui uma descontinuidade de abastecimento, variando os
horários e dias por setor (quatro setores) com o período executado a partir da garantia de
abastecimento de todos os domicílios do setor. Para os demais SAA, conforme a Tabela 12,
existe uma grande variação de frequência e duração do racionamento e, assim, aponta-se que
a maior frequência de abastecimento ocorre a partir do acesso diário, embora somente em
quatro dessas ocorra com mais de dez horas (11% do total).

Tabela 12- Frequência e duração do racionamento

Qtde. de Qtde. de
Frequência Duração
Localidades Localidades
mais de 10 horas 4
de 5 a 6 horas 6
Diariamente 15
de 3 a 4 horas 3
até 3 horas 2
mais de 10 horas 4
de 6 a 7 horas 3
A cada 2 dias 12
3 a 4 horas 2
até 2 horas 3
A cada 3 dias 2 3 a 12 horas 2
A cada 4 dias 1 1 hora 1
2 horas
A cada 5 dias 1 1

A cada 7 dias 1 30 minutos 1


2 dias seguidos por 24 horas 1
1
semana
2 dia com e 2 dias 24 horas 1
1
sem
Fonte: O Autor.
86

Essa situação encontrada não satisfaz a natureza integral necessária aos serviços de
saneamento (RAMOS, 2007), bem como os critérios de eficácia e eficiência dos programas
(BRASIL, 2004b) gerando impactos na saúde e na qualidade de vida das populações atingidas
(BRASIL, 2008).

Em relação à frequência do acesso à água nas comunidades e observando o Gráfico


19, a maioria das comunidades não possui abastecimento diário (20 ou 57,1%) sendo que o
melhor nível de acesso ocorre em Aripibu (Ribeirão) com 16 horas diárias o pior na
comunidade de Oiteiro (Vitória de Santo Antão) onde o acesso domiciliar acontece a cada
sete dias durante trinta minutos (ocorre distribuição diária com um dia de água para cada
setor, existindo sete setores).

Gráfico 19- Frequência e duração do racionamento por comunidade

variado por setor (4 setores) 8,0


2 dias com e 2 sem 24,0
2/semana 24,0
1 dia por setor (7 setores) 0,5
1 dia por setor (5 setores) 2,0
1 com - 3 sem 1,0
12,0
1 dia por setor (3 setores) 3,0
24,0
16,0
12,0
6,0
4,0
3,0
1 dia por setor (2 setores) 2,0
10,0
7,0
6,0
2,0
alternado 1,5
16,0
12,0
11,0
10,0
6,0
6,0
6,0
5,0
5,0
5,0
4,0
3,0
3,0
3,0
diário 1,5

Fonte: O Autor.

Constata-se a inexistência de um padrão geral de racionamento nas comunidades, pois


ocorrem de acordo com as especificidades locais e das decisões de diretoria ou coletivas. Em
alguns casos, como exemplo, há comunidades com acesso a partir das 5, 6 ou 7 horas da
manhã, enquanto que em outras o acesso se dá a partir das 16h e há certas localidades que
fornecem a água em dois turnos: manhã e tarde ou manhã e noite. O arbitramento da
frequência de horários geralmente é intermediado pelo debate comunitário em assembleia,
87

reunião ou outra forma, enquanto que, sobre a regularidade dos dias com água é decidido pelo
operador e diretoria, por ser considerado um assunto mais “técnico”.

O racionamento tem resultado imediato na estrutura hidráulica domiciliar,


principalmente nas formas de armazenamento da água, ressaltando-se que em nove
localidades com racionamento já é possível identificar que a totalidade dos domicílios possui
reservatório elevado, em oito, esses se encontram na maioria dos domicílios e em duas
comunidades as caixas d’água existem na metade das moradias. Por outro lado, verifica-se a
inexistência desses reservatórios domiciliares em dois lugarejos e poucas caixas em seis
locais, aumentando o risco de reservação de água em condições precárias, contribuindo
negativamente na qualidade da água oferecida.

Quanto aos motivos do racionamento, segundo os representantes das associações


locais, ocorrem através de compreensões diversas a partir do senso comum e da percepção
comunitária. Assim o principal motivo descrito, refere-se ao dimensionamento do sistema a
partir da vazão insuficiente do poço ou reservatórios, redes e bombas subdimensionadas
(Gráfico 20). Outros motivos têm haver com a operação (inexistência de operador noturno,
contenção de desperdício) e o crescimento da população.

Gráfico 20 - Razões do racionamento segundo representantes das associações

Vazão do poço insuficiente 9


Reservatório subdimensionado 7
Não informou 5
Bomba subdimensionada 4
Para conter desperdício 2
Rede de distribuição mal dimensionada 2
Crescimento da população 2
É suficiente 2
Aumento do custo da energia 1
Sem operador noturno 1

Fonte: O Autor.

Essas razões especificadas reproduzem a discussão da necessidade de uso de


tecnologias apropriadas e visão interdisciplinar (SANTONI, 2010), aceita pela comunidade
(MORAES, 2011) e que levem em conta o saber local (GUERRA, 2009). Tais razões podem
ser organizadas em quatro categorias de análise conforme a Tabela 13: o projeto ou execução
da obra como motivos do racionamento representam a maior quantidade de problemas
encontrados nos SAA, seguidos de questões de gestão e operação dos sistemas de
88

abastecimento. Enquanto que o desconhecimento das circunstâncias que resultam em


racionamento é retratado por 14,3% dos entrevistados, havendo ainda fatores externos ao
sistema de abastecimento a partir do crescimento da população sobrecarregando esse e
causando racionamento.

Tabela 13 - Categorização das razões do racionamento

Categoria Razão do racionamento Qtde. Total %


Capacidade da bomba 4
Projeto e Capacidade do reservatório 7
22 62,9
execução Rede de distribuição 2
Vazão do poço 9
É suficiente 2
Gestão e Sem operador noturno 1
6 17,1
operação Custo da energia 1
Para conter desperdício 2
Fatores
Crescimento da população 2 2 5,7
externos
Não sabe 5 5 14,3
Total 35 35 100,0
Fonte: O Autor.

Essa categorização foi necessária para estruturar o processo de pesquisa a partir do


estudo de casos. Assim e conforme descrito na metodologia desse trabalho, os dez sistemas
estudados foram estabelecidos a partir de tais categorias, facilitando a análise e compreensão
do processo de racionamento nos SAA.

Ressalta-se também que essas razões descritas por representantes locais delineiam caminhos
para as justificativas sobre o tema, mas carecem de maior investigação, pois o conhecimento
do ambiente local conduz a respostas mais efetivas para a questão.

5.5 DESCRIÇÃO DOS SISTEMAS DE ABASTECIMENTO DAS LOCALIDADES


ESTUDADAS

Para a realização dos estudos de casos foram selecionadas dez localidades rurais da
RD Mata Norte de acordo com a categorização proposta (Figura 7), as quais são descritas a
seguir.
89

Figura 7- Localidades estudadas

Fonte: O Autor.

5.5.1 Angélicas

O distrito de Angélicas (Figura 8) se localiza no Município de Vicência, sendo um


aglomerado urbano em área rural de relevo acidentado e com 3.472 habitantes e 739 famílias
(CONSÓRCIO SYNERGIA/COMEIA, 2011). Foram implantados pelo Promata como parte
do Projeto Piloto, os sistemas de abastecimento de água e de esgotamento sanitário e kits de
banheiro com pia, chuveiro, vaso, tanque externo e caixa d’água (500l) para 124 domicílios,
além de mais 81 kits pelo ProRural em sequência. A construção foi interrompida com 35% da
execução e uma segunda construtora deu segmento e concluiu o sistema. Atualmente o
sistema encontra-se bem mantido, mas encontra-se desgastado pelo uso, necessitando de
manutenção mais rigorosa. Há hidrometração e cobrança com bom nível de pagamento, mas
segundo o entrevistado local, “há necessidade de substituição de 300 hidrômetros
danificados”.
90

Figura 8- Imagens do Distrito de Angélicas

Fonte: O Autor, 2012.

O sistema de abastecimento funciona desde 2006 com regime de racionamento


racioname desde
sua implantação.. Tal sistema foi previsto para atender 625 domicílios até 2014, não
respondendo à realidade e demandas atuais. A comunidade é abastecida por uma barragem de
nível implantada a dois quilômetros da localidade, elevando o custo de deslocamento
de diário
até o ponto de captação para realização de vistorias e manutenção. A Prefeitura de Vicência
contribui
ntribui apenas com o pagamento da conta de energia da bomba de captação na barragem e
os demais custos são de responsabilidade da associação.

Sobre
bre o racionamento, o sistema é variado por setor em relação aos dias e horários,
não havendo um calendário fixo de abastecimento, sendo alternado por quatro setores: o setor
1 recebe água durante um dia e meio; o setor 2, dois dias; o setor 3, dois dias e;
e o setor 4,
meio dia. O abastecimento ocorre a partir das
d 6:30h até às 15h,, para alguns setores ainda é
possível o acesso das 19h às 3h.
3h Segundo representante da associação “a população não bebe
a água, por conta do descuido com a barragem. Agora está cuidada,
cuidada, mas ficou o preconceito,
apenas alguns bebem a água e todo mundo usa para atividades domésticas”.
domésticas” Existe caixa
d’água na maioria dos domicílios, algumas sem boia (havendo necessidade de maior controle
pelo operador).

Dos sistemas visitados esse é o maior e mais organizado fisicamente e na gestão, porém o
mais desordenado na manobra do corte programado. Sobre a estrutura física (Figura 9), o
sistema é composto de:
91

• 1 barragem de nível;
• 1 bomba centrífuga de eixo vertical de 25CV sobre flutuante;
• 1 macromedidor;
• Adutora de 1.960m e DN de 75mm;
• 1 reservatório apoiado de 75m3 em concreto;
• 1 reservatório elevado de 50m3 em concreto;
• 2 bombas centrífugas de eixo horizontal de 3CV (EEAT) sendo 1 reserva;
reserva
• 2 filtros ascendentes de areia;
• 2 caixas misturadoras e bombas dosadoras (sulfato e hipocal);
• Clorador;
• 2 redes de distribuição:
distribuição rede 1 com 2.635m e rede
ede 2 com 1.392m e diâmetros variando
de 150mm (242m) a 32mm (1.136m).
(1.136m)

Observa-se
se ainda que a bomba de adução trabalha 24 horas, sendo o sistema operando no
automático
tomático e que o tempo para encher os reservatórios é de quatro horas.
horas

Figura 9- Imagens da ETA de Angélicas

Fonte: O Autor, 2012.


92

5.5.2 Borracha

O distrito de Borracha (Figura 10) também se localiza no Município de Vicência,


sendo um aglomerado urbano em área rural ocupando região alta e montanhosa e com 2.538
habitantes e 610 famílias (CONSÓRCIO SYNERGIA/COMEIA, 2011). Foram implantados
pelo Promata, como parte do Projeto Piloto, os sistemas de abastecimento de água e de
esgotamento sanitário e kits para quem não tinha banheiro. Atualmente a água é distribuída
sem tratamento com a estação de tratamento de água (ETA) sem funcionamento devido a
problemas de operação e manutenção, necessitando de manutenção minuciosa. Há
hidrometração e cobrança com “30 a 40% de inadimplentes, sendo encaminhados os termos
para o corte dos inadimplentes” conforme entrevistado.

Figura 10- Imagens do Distrito de Borracha

Fonte: O Autor, 2012.

O sistema foi inaugurado em 2003 com abastecimento pleno na sua implantação. Tal
sistema foi previsto para atender 425 unidades em 2004 e 625 domicílios até 2014, havendo
ainda possibilidade de ampliação. Destaca-se que foi construído outro sistema com captação
por poço para a localidade de Sítio Novo, retirando a sobrecarga do sistema principal.

A localidade é abastecida por uma barragem de nível construída a 2,6km da


comunidade, sendo o deslocamento do operador até a captação através de motocicleta ou a pé.
93

A Prefeitura Municipal contribui com o pagamento da conta de energia do sistema e a


associação arca os demais custos de manutenção, operação e pessoal.

Quanto ao racionamento, a distribuição possui um calendário regular, com acesso à


água um dia por setor, ou uma vez por semana (sete setores) com duração de 24 horas das 5h
às 5h. Observa-se que a tubulação principal da rede que deriva para os sete setores segue pela
rua principal garantindo o acesso pleno a todos os domicílios dessa rua. Existem reservatórios
em todas as residências com volume de 4 a 5m³ por casa.

Ainda observa-se que o sistema não é utilizado para o consumo humano, donde os
moradores acessam a água de uma cacimba próxima da comunidade. O sistema (Figura 11) é
composto pela seguinte estrutura:

• 1 barragem de nível;
• 1 bomba centrífuga de eixo horizontal de 15CV;
• Adutora de 2.657m e DN de 50mm;
• 1 reservatório apoiado de 75m3 em concreto;
• 1 reservatório apoiado de 25m3 em concreto;
• 2 bombas centrífugas de eixo horizontal de 3CV (EEAT) sendo 1 reserva;
• 1 filtro ascendente de areia;
• 1 caixa misturadora e bombas dosadoras (sulfato e cloro);
• 1 rede de distribuição com 4.302m e outra rede com 1.392m e diâmetros variando de
150mm (13m) a 32mm (2.131m).

Figura 11- Imagens do SAA de Borracha

Fonte: O Autor, 2012.


94

5.5.3 Belo Oriente

Localizado no Município de Tracunhaém, o povoado de Belo Oriente (Figura 12)


possuía 744 moradores em 2004 (CONSÓRCIO SYNERGIA/COMEIA,
SYNERGIA/COME 2011) e 190
domicílios atualmente. O Promata desenvolveu a intervenção como parte do
d Projeto Piloto
garantindo sistemas de abastecimento de água e de esgotamento sanitário e 50 kits de
banheiro. Segundo representante da Associação “a inadimplência é alta, pois as pessoas não
têm água, não tem como exigir muito delas. A hidrometração somente
somente é feita
fei para quem tem
cisterna. Quem não tem não é hidrometrado pois a água é pouca” (quem possui cisterna
recebe de 4 a 6 m³ de água por mês).

Figura 12- Imagens do Povoado de Belo Oriente

Fonte: O Autor, 2012.

O sistema de abastecimento (Figura 13) funciona desde 2007


200 com regime de
racionamento desde sua implantação. Tal sistema foi previsto para atender 247 domicílios até
2014, quantidade maior que a atual. A comunidade é abastecida por dois poços tubulares
perfurados na região
gião central da área urbana,
urbana, aumentando o risco de contaminação. A
comunidade fica numa chã e os poços foram cavados na parte alta da chã, se fossem cavados
na parte baixa (“terras da Usina”),
U possivelmente a vazão seria maior,, segundo os moradores.
moradores
Sobre o assunto, a Funasa (2006)
( reforça que
95

ass referidas condições poderão ser determinadas por meio de métodos científicos e emprego de
tecnologia apropriada. Na área rural, entretanto, e para o tipo de poço em questão, bons resultados
serão obtidos por algumas
algumas indicações de ordem prática aliadas à experiência dos moradores da
área.

Figura 13- Imagens do SAA de Belo Oriente

Fonte: O Autor, 2012.

A Prefeitura contribui financeiramente com salário doo operador, a energia elétrica e a


manutenção das bombas,
s, enquanto que o recurso arrecadado destina-se
destina a manutenção da
Associação e dos sistemas de água e esgoto.
esgoto

Sobre
bre o racionamento, que existe desde a implantação, o sistema é dividido em três
setores, com água um dia por setor das 5 às 8h.. Apesar de estar prevista a perfuração de três
poços, existem apenas dois, um deles já existia antes da intervenção e foi perfurado pela
Prefeitura. Segundo
egundo representante da associação “tem
“tem gente que tem água todo dia na rua
principal e a rede foi modificada
modific para garantir água assim”. Existe caixa d’água em cerca de
metade dos domicílios,, por outro lado, numa
numa parte onde o sistema é precário e a água é
insuficiente, os moradores buscam no chafariz comunitário sendo liberado apenas no dia
destinado ao setor onde residem.

Percebe-se
se visivelmente uma baixa qualidade na estrutura executada, o reservatório
principal possui rachaduras,
rachaduras sendo executado um reforço com perfis metálicos. Diferente das
comunidades pesquisadas, todo o sistema é automatizado.
automatizado Sua estrutura
ra física é composta
compost de:

• 2 poços artesianos de 38 metros de profundidade;


profundidade
• 2 reservatório s elevados de 20m3 em PVC (junto aos poços);
• 2 bombas centrífugas (1 para cada poço);
96

• 1 dosador de cloro (desinstalado);


(desinstalado)
• Sistema de automação das bombas;
bombas
• 2 redes de distribuição
istribuição: rede 1 com 1.332m e rede 2 com 1.465m
m e diâmetros variando
de 75mm (48m)
m) a 32mm (2.484m).
(

5.5.4 Sítio Camboa

O Sítio Camboa pertence ao município


m de Lagoa de Itaenga e está assentado
parcialmente em trecho plano e baixo junto às margens do rio Capibaribe e em encosta junto
ao rio (Figura 14). Com 675 habitantes e 125 famílias (CONSÓRCIO SYNERGIA/COMEIA,
SYNERGIA/COMEIA
2011),, os sistemas de abastecimento de água e de esgotamento sanitário e 36 kits sanitários
foram
oram implantados pelo Promata e atualmente assumidos informalmente pela Prefeitura
Municipal, não havendo mais medição e cobrança domiciliar.
domiciliar

Figura 14- Imagens do Sítio Camboa

Fonte: O Autor, 2012.

O funcionamento foi iniciado em 2009 já com racionamento.


racionamento Destaca-se que
anteriormente
rmente existia um sistema de abastecimento simplificado em funcionamento e
gerenciado pelo poder executivo municipal. A localidade é abastecida por um poço e segundo
morador, “A
A água é salobra e era necessário dessalinizador, muitas pessoas não aceitaram
97

pagar a taxa por conta disso. O equipamento de cloração não foi instalado e a água não é
suficiente”. A Prefeitura Municipal desenvolve toda a gestão, operação e manutenção do
sistema e a Asseco desenvolve outras ações sociais diferentes dos objetivos para que foi
instituída.

Quanto ao racionamento, a distribuição é realizada regularmente um dia por setor


(com 2 setores na localidade) nos horários de 9 às 12h e 20 às 23h e nos sábados e domingos
não é fornecida por indisponibilidade de operador. Destaca-se que há dificuldades de acesso
nas pontas de rede e que existem grandes cisternas em todos os domicílios (acumulando água
suficiente para garantir o abastecimento por vários dias). Ainda ressalta-se que a associação
era muito atuante antes da gestão da Prefeitura, sendo uma referência no trabalho educativo.

O sistema (Figura 15) é composto por:

• 1 poço de 30m de profundidade;


• 1 bomba centrífuga;
• Adutora de 652m e DN de 50 mm;
• 1 reservatório elevado de 10m3 em concreto (construído anteriormente pela
prefeitura);
• 1 reservatório elevado de 20m³ em concreto;
• Tem clorador mas não foi instalado;
• Rede de distribuição com 2.676m (43m com DN de 75 mm e 2.633 m com 50 mm).

Figura 15- Imagens do SAA do Sítio Camboa

Fonte: O Autor, 2012.


98

5.5.5 Encruzilhada

Localizado no Município de Ferreiros, o povoado de Encruzilhada (Figura 16) possui


254 habitantes e 66 domicílios (CONSÓRCIO SYNERGIA/COMEIA, 2011). O Promata
construiu os sistemas de abastecimento de água e de esgotamento sanitário e 42 kits de
banheiro. Segundo representante da Associação a inadimplência é de 5% e a medição
domiciliar por hidrômetro somente não ocorre para 20 domicílios inseridos posteriormente no
sistema. Onde não há o equipamento, o volume gasto é controlado pelo volume do
reservatório domiciliar.

Figura 16- Imagem do Povoado de Encruzilhada

Fonte: O Autor, 2012.

O sistema de abastecimento funciona desde 2009 com regime de racionamento desde


sua implantação. Tal sistema foi projetado inicialmente para 42 casas e foi ampliado em
seguida para mais 24 casas que ficam mais afastadas. O projeto de abastecimento previa um
poço tubular associado a um dessalinizador que funcionou menos de um ano e foi danificado
sendo levado para manutenção e não mais retornou. Registra-se que 40% da água captada era
descartada pelo dessalinizador aumentando o racionamento da comunidade.

Sobre o racionamento, o sistema é dividido em quatro setores, com água um dia para
dois setores: das 6 às 14h para um setor e das 16 às 22h para outro setor. Existe caixa d’água
na maioria dos domicílios, mas a falta de tratamento na água recebida do sistema obriga os
moradores a obter água para o consumo humano no distrito de Macujê transportada a partir do
ônibus escolar.

Acentua-se ainda que a Asseco não é apoiada financeira ou estruturalmente por instituições e
que existe um projeto para perfurar mais dois poços, minimizando as dificuldades de acesso
ao abastecimento. A estrutura física do sistema (Figura 17) é composta de:
99

• 1 poço com 76 metros de profundidade (com água salobra e alto teor de ferro);
• 1 bomba centrífuga de 1,5CV;
• 1 reservatório elevado de 10m³ em PVC;
• 1 reservatório elevado de 5m³ em PVC;
• 1 reservatório apoiado de 5m³ em PVC (distribuição)
• Adutora de 1.074 m e DN de 50 mm;
• Dessalinizador e Cloradores (desativados);
• Rede de distribuição de 50 mm e 820 m de extensão.

Figura 17- Imagem do sistema de Encruzilhada

Fonte: O Autor, 2012.

5.5.6 Gambá

O povoado de Gambá (Figura 18) está localizado no distrito de Tejucupapo no


município de Goiana e encontra-se fixado em região alta sendo cortada pela PE-49. Com
3.128 moradores e 613 famílias (CONSÓRCIO SYNERGIA/COMEIA, 2011), os sistemas de
abastecimento de água e de esgotamento sanitário e 121 kits sanitários foram implantados
pelo Promata.
100

Figura 18- Imagem aérea do Povoado de Gambá

Fonte: CONSÓRCIO SYNERGIA/COLMEIA (2011)

O funcionamento foi iniciado em 2008 sem racionamento na implantação. A


localidade é abastecida por um poço de grande vazão (5,5 l/s) com água de excelente
qualidade (aqüífero Beberibe). Há medição por hidrômetro, cobrança com boa adimplência e
boa organização da associação, inclusive com controle de macromedição.

Quanto ao racionamento, a distribuição regular é diária com dois setores de


abastecimento: o setor 1 recebe água das 7h às 9h e o setor 2, das 15h às 17h. Também se
percebe a existência de caixa d’água em todos os domicílios, facilitando o abastecimento
domiciliar no regime de racionamento.

No sistema de captação, existe uma diferença de potência entre as bombas do poço e


do reservatório de adução, assim parte da água retirada do poço é lançada para o rio Arataca.
A comunidade fica numa chã e o poço no baixio, junto ao rio e distante cerca de 2 km da sede
da associação/reservatório, havendo necessidade permanente deslocamento para controle e
operação, não havendo nenhum dispositivo automático de funcionamento.

O sistema (Figura 19) é composto por:

• 1 Poço de 101m de profundidade;


• 1 Bomba centrífuga do poço com 2CV;
• 1 Reservatório apoiado de adução (junto ao poço) com 12 m³;
• 1 Bomba centrífuga para o reservatório com 12CV;
101

• Adutora de 1.156,1 m e DN de 75 e 100 mm;


• 1 Clorador;
• 1 Reservatório elevado de 150 m³ em concreto;
• 1 Macromedidor;
• Redutores de pressão na rede;
• Rede de distribuição com 7.581m e diâmetros variando de 150 mm (153 m) a 50 mm
(5.931 m).

Figura 19- Imagens do SAA de Gambá

Fonte: O Autor, 2012.

5.5.7 Quebec

A comunidade de Quebec (Figura 20) é um distrito pertencente ao município de


Itambé e encontra-se conurbado com a sede do município de Camutanga, estando assentado
em região de relevo com parte levemente acidentado e em local plano e baixo junto às
margens de um riacho. Com 3.976 habitantes e 726 domicílios (CONSÓRCIO
SYNERGIA/COMEIA, 2011), os sistemas de abastecimento de água e de esgotamento
sanitário e 209 kits sanitários foram implantados pelo Promata e atualmente assumidos
informalmente pela Prefeitura Municipal, não havendo mais medição domiciliar e cobrança
de tarifa. A Associação de Serviços Comunitários continua ativa e atuando na fiscalização e
monitoramento dos serviços prestados pela municipalidade.
102

Figura 20- Imagens da comunidade de Quebec

Fonte: O Autor, 2012.

O funcionamento foi iniciado em 2010 sem racionamento no sistema apenas nas ruas
baixas, segundo o entrevistado “no início era muito precário. Abria-se tudo e era pra quem
pegasse primeiro, tinha rua mais baixa que tinha água permanente”. Diante do problema, foi
executada uma setorização da rede que amenizou o problema e distribuiu o racionamento para
todos os domicílios. A localidade é abastecida por um sistema de captação misto composto
por três poços de água salobra e por uma barragem distante mais de dez quilômetros (os
domicílios recebem no mesmo sistema de distribuição a água salobra e doce em dias
alternados).

Figura 21- Imagens do SAA de Quebec

Fonte: O Autor, 2012.


103

Quanto ao racionamento, a distribuição é realizada regularmente com um dia de água


doce por setor (com 2 setores na localidade) nos horários de 6 às 7:30h e no outro dia o setor
recebe água salobra das 11 às 22h. Registra-se que esse calendário foi introduzido há menos
de um ano, proposto pelo operador e bem aceito pela população. Ainda destaca-se que a
totalidade dos domicílios possui caixas d’água, que existe um controle de pressão por rua
(registros para cada rua) e que há um dispositivo automático de funcionamento da bomba
(apesar disso ela é ligada manualmente).

O sistema possui a seguinte estrutura:

• 3 poços de 40m de profundidade (sem tratamento para a água);


• 3 bombas centrífugas;
• Adutora de 2.000m e DN de 75 mm (poços);
• Barragem em Carnaúba com tratamento (serve a duas comunidades: Ibiranga e
Quebec) e adução e reservação por gravidade;
• Adutora da barragem por gravidade (sem dados de extensão e diâmetro)
• 1 reservatório elevado de 100m³ em concreto;
• Tem clorador nas não foi instalado;
• Rede de distribuição com 4.770m e diâmetros variando de 150 mm (77 m) a 50 mm
(2.967m).

5.5.8 Poço Comprido

O distrito de Poço Comprido, localizado no município de Macaparana e assenta-se em


um fundo de vale em região de relevo acentuado com aglomeração urbana em área
parcialmente plana e baixa junto às margens de um riacho (Figura 22). A localidade possui
1.188 moradores e 397 residências (CONSÓRCIO SYNERGIA/COMEIA, 2011) e conta com
o SAA, o sistema de esgotamento sanitário e 49 kits sanitários implantados pelo Promata.
Atualmente a Prefeitura Municipal desenvolve a gestão dos sistemas de modo informal, não
havendo mais medição domiciliar e cobrança de tarifa, enquanto que a Asseco encontra-se
desativada.
104

Figura 22- Imagens do Distrito de Poço Comprido

Fonte: O Autor, 2012.

O sistema funciona desde 2010 já com racionamento desde o início. A localidade é


abastecida pela barragem de Paquevira, distante 2,7km da comunidade com o sistema
funcionando todo por gravidade. Quanto ao racionamento, a distribuição é realizada com
regularidade diariamente para toda a localidade nos horários de 6 às 9h e 17 às 20h. Também
se ressalta que a maioria dos domicílios possui caixas d’água e que no inverno o reservatório
do sistema fica extravasando permanentemente gerando comentários dos moradores como “tá
jorrando lá e a gente sem água em casa”. Não existe nenhum dispositivo automático de
funcionamento nem macromedidor. O tempo habitual para o enchimento do reservatório varia
de 7 às 8h.

O sistema é composto por:

• Barragem com vazão disponível de 1,61 l/s;


• Adutora por gravidade com 2.782 m de extensão e DN de 50 mm;
• Estação de Tratamento de Água (Figura 23) com clarificador (DN de 1,6m) e filtro de
polimento (DN de 0,9m);
• Sem clorador;
• 1 Reservatório apoiado de 65m³ em concreto;
• Rede de distribuição com 5.075m e diâmetros variando de 100 mm (573 m) a 50 mm
(2.559m).
105

Figura 23- Imagens da ETA de Poço Comprido

Fonte: O Autor, 2012.

5.5.9 Sítio Uruçu

Localizado no município de Macaparana, o Sítio Uruçu encontra-se numa no alto de


uma região de relevo bastante acidentado (Figura 24). O ProRural implantou apenas o sistema
de abastecimento de água abrangendo atualmente 42 domicílios. A localidade é abastecida por
um poço profundo, há medição por hidrômetro, cobrança com 100% adimplência e boa
organização da associação, enquanto que a Prefeitura Municipal apoia a gestão a partir do
pagamento da energia elétrica. Quanto ao racionamento, a distribuição regular ocorre a cada
dois dias por setor (com dois setores de abastecimento) das 11 às 14h, não havendo
abastecimento aos domingos. É possível perceber a inexistência de reservatórios domiciliares
e segundo representante comunitária entrevistada, apenas duas residências possuem caixas
d’água.

Existe uma diferenciação no valor da tarifa, sendo reduzida para quem se encontra na
ponta da rede e recebe água com menor vazão. Também é evidenciado e ausência de
automação que exige o deslocamento entre a captação e a distribuição (por mês são
percorridos de 250 a 300km de moto). Segundo o operador do sistema, “o tempo para encher
o reservatório do sistema é 3:30h, mas o poço seca com 1:30 de bomba ligada”.
106

O sistema (Figura 25) é composto por:

• 1 Poço de 50m de profundidade;


• 1 Bomba centrífuga com 3CV;
• Adutora de 2.000m e DN de 80mm;
80mm
• Reservatório elevado de 10m³ em aço;
aço
• Clorador.

Ao lado do reservatório em funcionamento, existe um segundo reservatório maior (20m³)


que pertence à escola municipal em
em bom estado de conservação mas que se encontra
desativado.

Figura 24- Imagens do SAA do Sítio Uruçu

Fonte: O Autor, 2012.

5.5.10 Vila da Barragem

Distrito da Vila da Barragem localiza-se


localiza se no município de Lagoa do Carro numa região
plana e próxima a Barragem do Carpina (Figura 26).. Com 992 habitantes e 162 domicílios
(CONSÓRCIO SYNERGIA/COLMEIA,
SYNERGIA/CO 2011), os sistemas
istemas de abastecimento de água e de
esgotamento sanitário e 41 kits sanitários foram implantados pelo Promata.
107

Figura 25- Imagem da Vila da Barragem

Fonte: O Autor, 2012.

O funcionamento foi iniciado em 2011


20 com racionamento na implantação, após
interrupção da obra durante dois anos.
anos. A localidade é abastecida por um açude com 1,5 l/s de
vazão disponibilizada. Apesar da existência de hidrômetro, não há medição e a maioria da
população é adimplente, segundo representante entrevistada
entrevi que ainda questiona: “se
“ tem
água suficiente, para que ter hidrômetro?”.

Quanto ao racionamento, a distribuição


distribuiç regular é diária com a comunidade sendo
abastecida de 5 às 17h. Ainda é notada a existência de caixa d’água cerca de metade dos
domicílioss inclusive foi informado que “a comunidade fazia sorteio de caixa d’água para
quem participava das reuniões”. Por articulação da diretoria, o Governo do Estado apóia a
associação, a Compesa contribui na manutenção e aquisição de peças e a Prefeitura contribui
contr
com o pagamento do operador e da energia elétrica.

Segundo a entrevistada, “o
“o reservatório do sistema só esvazia quando falta energia, a
caixa trabalha sempre cheia, o maior problema é monitorar o operador”. Ainda percebe-se
percebe que
o açude já existia antes
es do sistema e sua parede de contenção está ruindo,
ruindo junto a esse existe o
lixão da cidade de Lagoa do Carro, que coloca em dúvida a qualidade da água.
água

O sistema (Figura 27) é composto por:

• Açude das Marrecas;


• 2 bombas centrífugas
centrífuga de eixo vertical com 6CV sobre flutuante;
• Adutora de 1.850m e DN de 50 mm;
• 1 Reservatório elevado de 50m³ em concreto;
108

• 1 Filtro ascendente sob pressão (aço);


• 2 Bombas de tratamento (sulfato e cloro);
• Rede de distribuição com 3.218 m (431 m com DN de 75 mm e 2.787 m, com 50
mm).

Figura 26- Imagens do SAA da Vila da Barragem

Fonte: O Autor, 2012.

5.6 A IMPLANTAÇÃO DOS SISTEMAS DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA

Para compreender o processo de definição do corte programado no abastecimento de


água das comunidades rurais em estudo, inicialmente buscou-se conhecer a ação de
implantação dos sistemas. Desse modo, para facilitar a compreensão da implantação
destacam-se como questões: conhecimento sobre os projetos, a garantia de água num volume
adequado, o repasse da tecnologia de operação e o envolvimento comunitário no recebimento
dos sistemas (Quadro 9).
109

Quadro 9- Questões sobre a implantação do sistema de abastecimento de água


Como foi o
Foram projetados
Conhece os projetos envolvimento
para garantir água Houve repasse da
Comunidade dos sistemas de
num volume tecnologia de operação?
comunitário no
abastecimento? recebimento dos
adequado?
sistemas?
Foi apresentado em Foi proposto que ia ter A empresa ficou três meses Uma assembleia geral
reunião na escola, o muita água. Quando na fase do teste, antes de quando houve o repasse a
Gambá presidente anterior começou era suficiente passar o sistema para a comunidade e a posse da
acompanhou a execução e sobrava. No teste associação, orientando associação e discussão do
rua a rua. tinha água permanente. como operar o sistema. valor da tarifa.
Foi apresentado pelos Disseram que não Participação de reuniões e
técnicos do ProRural poderiam garantir a Foi repassado para o os beneficiários fizeram
descrevendo oralmente em quantidade, pois não operador. A empresa mutirão para concluir a
Uruçu assembleia e a obra não sabiam quanto de água passou três dias testando e obra, uma assembleia
foi acompanhada pela ia dar. Na obra disseram entregaram. definiu a tarifa e elegeu o
associação. que a água ia ser pouca. operador.
Em várias reuniões e foi
Foi repassado o
discutida a necessidade Houve uma assembleia
Poço Foi apresentado pelo funcionamento do sistema
de um reservatório com os moradores
Comprido Promata. para o operador e não para
maior para garantir com debatendo a tarifa.
a associação.
suficiência.
Jogaram o pepino na mão
O Promata apresentou, Disseram que ia ter
da gente e pronto. Deixaram
Belo Oriente mas era para o projeto água todo dia, o dia
pela metade, não instalaram
Não informou.
estar com a associação. todo.
o sistema de cloração.
A empresa terminou e
A primeira assembleia
Sim, foi apresentado em deixou e pronto, deveriam
Foi apresentado para a tinha 100 pessoas (definir
assembleia e disseram ter testado. Fizemos um
Camboa comunidade, mas ninguém
que ia ter água com relatório falando dos
a associação e receber o
dominava o assunto. projeto), a última somente
qualidade e quantidade. problemas e a empresa
5.
nunca voltou.
Apresentaram um mapa, Em reuniões o governo
mas não ficou na disse que a comunidade Muito bom. Ninguém tinha
Agrovila Foi projetado para ter o
comunidade. Na manteria, o operador foi água tratada e uns sem
Barragem dia todo.
assembleia que formou a capacitado pela Synergia banheiro, agora não.
Asseco foi apresentado. antes de iniciar a operação.
Foi apresentado pelo Não houve repasse do Até hoje tem gente que
Garantiram que ia ter
Promata para a funcionamento. Depois de reclama da tarifa. Depois
Quebec associação e para os
água suficiente, mas
testado apareceram só 1 de funcionar, a prefeitura
todo dia, não.
moradores. vez. assumiu o sistema.
O Promata apresentou o foi feito inicialmente para
Entregaram a obra pronta e Foi muita alegria, todo
projeto de água e esgoto, 42 casas e foi ampliado
Encruzilhada depois a construtora para mais 24 casas que
já conhecia do mundo carregava água
funcionamento. por mais de 1km.
também apresentou. ficam mais afastadas.
o Promata informou que Muita gente aceitou
Foi testado e acompanhado
deveria ser criada uma achando ruim. Eu dizia
Foi projetado para ter pela associação,
Angélicas associação para gerenciar
água com regularidade. repassando todo o
“saneamento básico é
a água. A construtora saúde”. A tarifa é definida
funcionamento.
apresentou o projeto. em assembleia.
Apresentaram a ideia e o Houve um processo de
Foi dito em praça
valor do projeto. Boa parte Não foi repassado pela construção da associação
pública para a
foi discutido com a empresa. Houve o momento para receber o projeto,
comunidade pelo
Borracha prefeitura e não com a
Promata. A ideia é que a
de teste e quando acontecia foram feitas várias
comunidade. Houve um um problema, tratamos com assembleias. Incluindo a
comunidade teria água
treinamento para a o Promata. comunidade em todas as
tratada todos os dias.
fiscalização da obra. decisões.
Fonte: O Autor.

Assinala-se que o projeto geral foi apresentado pelo programa governamental executor
em todas as comunidades pesquisadas através de assembleias e reuniões comunitárias e
apenas o povoado de Gambá possui o projeto que se encontra afixado na parede da
Associação.
110

Um gestor estadual confirmou que o projeto macro foi apresentado em todas as


comunidades junto com as prefeituras, secretarias municipais e organizações sociais dos
municípios: “entrávamos na comunidade dois meses antes da obra, apresentávamos o projeto
para a comunidade, o que seria e onde seria investido. A comunidade não participou da
discussão da elaboração do projeto e os engenheiros foram na comunidade e formularam o
projeto sem participação da comunidade”. Houve acompanhamento da obra por comissão
local em Gambá, Encruzilhada, Borracha e Sítio Uruçu, nessa última ocorreu um mutirão para
conclusão. A representante do distrito de Borracha afirma que “boa parte foi discutido com a
Prefeitura e não com a comunidade. Houve um treinamento para a fiscalização da obra. Já as
plantas foram vistas depois de muita insistência pois necessitávamos para fazer a
manutenção”.

Algumas comunidades afirmaram que o projeto deveria estar de posse com a


associação local e que “foi apresentado para a comunidade, mas ninguém dominava o assunto,
é tanto que fizeram toda a encanação no meio da rua e não no meio fio, danificando o
calçamento e a rede, ninguém sabe se estava assim no projeto. Não deveria ter sido dessa
forma, para achar o cano para novas ligações hoje dá trabalho” (representantes do Sítio
Camboa). O conhecimento do projeto a ser executado e o envolvimento local na formulação
das estratégias, facilita o comprometimento futuro com o sistema a ser implantado.

Nesse sentido, Teixeira (2011) enfatiza que

a concepção de saneamento básico sob o enfoque social e sanitário, fundamentado


nos direitos humanos e na cidadania, impulsiona o compromisso metodológico de
mobilização social, educação e participação comunitária organizada, desencadeando
relações dialógicas entre o saber técnico dos profissionais e o saber popular das
pessoas das comunidades. Essas relações e dialogicidade deverão estar construindo
o conhecimento coletivo necessário para o desenvolvimento das ações de
saneamento. Ao mesmo tempo deverão propiciar, à comunidade, a apropriação de
novos conhecimentos, inclusive tecnológicos, bem como criar iniciativas e ações
para a construção de sua cidadania e conquista de sua emancipação, em especial
daqueles segmentos socialmente excluídos.

Sobre a informação de que haveria água no sistema com regularidade, boa parte dos
comunitários (70%) informou que foi anunciado tal garantia ainda no processo de
implantação dos sistemas, enquanto que em duas comunidades foi repassado que seria
garantido a suficiência e apenas em uma localidade não foi assegurado o abastecimento
regular com volume adequado disponível nos domicílios (Gráfico 21). Essas três últimas
citadas possuem expressivas dificuldades de abastecimento refletidas em seus calendários de
manobra.
111

Gráfico 21- Informação sobre a garantia de água num volume adequado

não garantiu a quantidade 1


água com suficiência 2
informadas que sim 7
Fonte: O Autor.

Ao projetar os sistemas de abastecimento, deve ser considerado o dimensionamento do


volume per capta a ser disponibilizado, bem como o volume de água bruta para o atendimento
do sistema. Segundo gestor estadual, os SAA foram idealizados garantindo a regularidade no
abastecimento e que o “consumo per capta previsto era de 100 l/hab/dia (parâmetro usual para
comunidades rurais), considerado suficiente para atender as demandas das comunidades.
Também foi previsto o crescimento da população nos próximos 10 anos”. Outro gestor
envolvido informou que “a ideia era garantir água sem racionamento, mas os projetos eram
antigos e não foram revistos, foram feitos vários ajustes nos projetos: era a obra acontecendo
e a engenharia ajustando o projeto”. Além disso, não houve relação entre o tempo técnico e o
político, onde os projetos foram tirados da gaveta e licitados, segundo gestor: “quando
cheguei me disseram que tinha que formar 22 associações em tempo recorde. As coisas foram
meio atropeladas e sem planejamento. Se tivéssemos trabalhado com menos comunidades e
mais ajustadas, talvez tivéssemos menos problemas que estamos tendo hoje na parte
construtiva”.

Sobre o assunto, Santoni (2010) observa que os projetos de saneamento têm seu tempo
de maturação que, em geral, difere do tempo dos cronogramas políticos, significando
atropelos e riscos agregados. O Autor afirma que esses projetos em sua maioria apresentam
problemas no licenciamento ambiental, na operação, no índice de atendimento e na elevação
dos custos de investimento e de operação.

No momento de implantação do SAA outro fator a ser considerado é o repasse da


tecnologia de operação. Assim, em quatro localidades houve esse repasse e em mais uma,
ocorreu uma capacitação técnica antes do funcionamento do sistema (Gráfico 22). A
transmissão desse conhecimento foi realizada pelas empresas construtoras enquanto que a
capacitação ocorreu a partir de contrato entre Promata e consórcio de empresas de consultoria
que desenvolveu processos de capacitação para todas as comunidades com sistemas
implantados ou em implantação.
112

Gráfico 22- Repasse da tecnologia de operação

capacitado 1
sim 4
não 5
Fonte: O Autor.

De acordo com gestor do programa, o repasse da tecnologia ocorreu “sem


planejamento e direcionamento. Acabou a obra, passava-se um pente fino, chamava-se a
associação, e estando em conformidade, era repassado”. Esse também afirmou que “apenas
uma empresa construtora teve a preocupação de contratar químico e engenheiro com
experiência para dialogar com a associação. Propomos replicar para as outras empresas. Uma
empresa percebeu que a obra não era de engenharia e sim uma obra social, houve
compreensão e vontade que as outras empresas não tiveram”.

Diante dessa problemática, Galvão e Galvão (2011) considera que grande quantitativo
de trabalhadores é inserido nos serviços sem qualquer formação prévia, onde a preparação se
restringe a treinamentos introdutórios que apresentam a instituição e o trabalho que vão
desempenhar. Os Autores ressaltam a dificuldade de instrumentalização de um pensar e fazer
crítico e reflexivo.

A ausência de articulação interinstitucional que envolvesse o poder local, estadual e


comunitário com clareza nas atribuições resultou em ações dispersas e voluntárias de gestores
e técnicos em diferentes níveis de atuação. Sobre o assunto, Wartchow, 2011 ressalta que

haverá critérios técnicos, políticos, econômicos e sociais para a constituição dos


projetos de cooperação. Dentre os critérios técnicos podem-se citar: a) garantia da
transferência de conhecimentos, formação, capacitação, avaliação contínua,
assegurar a continuidade do serviço, que seja avaliado pelos atores e que os usuários
se apropriem do conhecimento; b) o projeto de cooperação deverá estar fortemente
relacionado com os critérios sociais; c) disponibilidade para transferência de
tecnologia. Quanto aos critérios políticos, todos os atores deverão participar no
planejamento, gestão e controle do projeto.

Também se registra como fatores relevantes para a continuidade, apropriação da


tecnologia e envolvimento local, a orientação dos dois programas para a garantia de
contratação de mão de obra local em todas as obras e que todo o material e mobiliário do
113

canteiro ficasse para as associações. Mesmo assim, a entrega da obra incompleta em três
localidades (Gráfico 23) dificultou o repasse de informações e funcionamento dos sistemas.

Gráfico 23 - Situação da obra quando entregue

sem funcionar 1
parcialmente completa 2
completa

Fonte: O Autor.

Quanto à titularidade, o poder executivo municipal é o titular serviços de


abastecimento de água conforme a Constituição Federal11. Para os SAA implantados, a
propriedade é do Governo do Estado, apesar de administrados pelas associações ou
Prefeituras de Itambé, Macaparana e Lagoa de Itaenga. Segundo um gestor estadual “não
houve repasse formal. Os sistemas hoje pertencem ao Governo do Estado. Existe algo
informal, o termo de recebimento da obra pelo Estado e o repasse da administração para as
comunidades”. Ainda destaca que foi desenvolvida uma proposta de convênio tripartite entre
Compesa, município e associação local: “desde 2007 foi trabalhado intensamente a clareza
das atribuições das partes, chegou a ir para a Procuradoria Geral do Estado (PGE), que achava
estranho a gestão comunitária. A PGE visitou e aprovou e a Compesa não aprovou até hoje. A
Compesa acha que não é com ela, e o saneamento rural será encaminhado por quem no
Governo? Todo mundo sabe que há um pacote sem pai e sem mãe. A verdade é essa e
ninguém quer assumir”.

Segundo o IRC (2005), a gestão comunitária gera muitos benefícios, mas não é isenta
de problemas. Assim o Centro destaca que há o reconhecimento que a maioria das
comunidades não são capazes de gerir seus sistemas de abastecimento de água sem assistência
externa. Mesmo quando a capacidade de gestão das comunidades é reforçada, não é realista
esperar que as comunidades rurais fossem plenamente autossuficientes ao longo de toda ciclo
de gestão de serviços de água: da decisão ao projeto, operação, manutenção, extensão,
aperfeiçoamento, adaptação e ampliação do sistema.

A consciência sobre a situação formal dos sistemas é reafirmada por outro gestor
estadual pesquisado: “A Compesa é concessionária para todo o município, ela precisa
11
Art. 30. Compete aos Municípios:
I - legislar sobre assuntos de interesse local; (...)
V - organizar e prestar, diretamente ou sob regime de concessão ou permissão, os serviços públicos de interesse local,
incluído o de transporte coletivo, que tem caráter essencial; (BRASIL, 2000)
114

formalizar a Autorização da operação para a associação. Para Autorizar ela precisa assumir. A
obra foi feita pelo Promata e não foi entregue a ninguém, pertence ao Estado. A empresa
passou para o Promata, o patrimônio deveria ser repassado a Compesa e esta Autorizar a
associação”. Para ele, esse patrimônio hoje “deve” pertencer a Secretaria de Agricultura e
Reforma Agrária (SARA).

De acordo com o SEBRAE (2009 apud WARTCHOW, 2011),


a cultura da cooperação é resultado de uma vontade política de um coletivo de
pessoas, entidades governamentais e não governamentais e instituições, cujo diálogo
e seus saberes, disponibilizados sem contrapartidas financeiras (sem fins lucrativos),
contribuam para o desenvolvimento sustentável e para o atendimento aos direitos
básicos humanos, como o é o acesso à água segura e saneamento. O diálogo de uma
cooperação se dá numa relação de interdependência, visando, invariavelmente, o
bem coletivo, onde diferentes atores, em lugares diferentes, em interação, se
complementam, sem se opor ou se mesclar, e experimentam o desafio de serem
autônomos na ação e interdependentes na missão.

Essa indefinição fez com que nenhuma das obras possuísse licenciamento ambiental
para operação: “as obras foram licenciadas para instalação, mas não tem licença de operação,
pois não há formalidade na operação, pois a associação não tem Autorização da Compesa ou
prefeitura. Hoje efetivamente esses sistemas são clandestinos”. Sobre o assunto, tal gestor
reflete que “o fato de não ter tido continuidade ou definição de modelo acabou gerando fatos
não previstos, como algumas prefeituras assumindo o sistema”.

Ainda sobre a implantação dos sistemas de abastecimento de água, também se verifica


que houve o envolvimento comunitário em todas as localidades pesquisadas a partir da
participação em assembleias e reuniões. Essas definiram principalmente a tarifa e
consolidaram o repasse dos sistemas às associações. Em Quebec e Camboa, atualmente com
sistemas administrados pelas Prefeituras, houve questionamentos da população sobre os
sistemas: “os comunitários disseram para os técnicos do Promata: ‘não foi a gente que pediu,
foram vocês que prometeram água doce pra todo mundo’. Primeiro desmantelaram a
comunidade, na primeira assembleia tinha 100 pessoas e na última, somente cinco”
(entrevistado do Sítio Camboa). Nesse caso, destaca-se que havia um sistema de
abastecimento anterior construído e gerido pela Prefeitura e que garantia “água de graça todo
dia, o dia todo”.
115

No geral, os gestores estaduais reafirmam que o recebimento comunitário foi muito


positivo, apenas “em alguns sistemas peculiares houve problemas, a questão do pagamento foi
mais difícil. O pagamento era um ponto delicado”. Uma representante do Sítio Camboa
afirma que “a água é salobra, era necessário dessalinizador, muitas pessoas não aceitaram
pagar a taxa. O equipamento de cloração não foi instalado e a água não é suficiente. Lá em
casa as meninas chega riem quando chega água na torneira porque chega uma vez por semana
e à noite, a gente tem que ficar esperta”.

A implantação de kits sanitários com reservatório elevado nos domicílios ainda na


implantação dos SAA estimulou a reservação de água e facilitou o cotidiano domiciliar em
situação de racionamento. Em Encruzilhada (Ferreiros), esses kits foram instalados em 90%
dos domicílios (Gráfico 24) não tornando visível a situação de escassez, nas demais, também
se percebe a disposição dos moradores em adquirir tal objeto.

Gráfico 24 - Implantação de kit sanitário (% de domicílios)

Não informou 2
garantiu em 90% 1
garantiu em 20% 2
garantiu em 30% 4
Fonte: O Autor.

Como registra um gestor entrevistado, “foi feito uma amostragem inicial e dali foi
levantada a quantidade de kits necessária (35% dos domicílios), depois foram para campo em
cada comunidade, definir o número real”. Assim, houve uma priorização da construção dos
kits sanitários a partir da precariedade ou da inexistência de banheiros. A representante de
Belo Oriente destacou que “os banheiros ficaram prontos, bonitinhos, mas água que é bom,
pras caixas, era difícil, a água não subia para as caixas”.

5.7 O FUNCIONAMENTO DO SISTEMA

Além do processo de implantação, o modo de funcionamento e gerenciamento dos


sistemas de abastecimento de água é fundamental para a existência do racionamento. Assim, a
existência de ligações clandestinas, o pagamento de tarifa, o controle de perdas e o apoio
institucional das associações são relevantes para tal identificação (Quadro 10).
116

Quadro 10- Questões sobre o funcionamento do sistema de abastecimento de água


A associação é
Há ligações Situação de Existe controle de
Comunidade apoiada por alguma
clandestinas? adimplência? perdas?
instituição?
As ligações clandestinas No geral todos pagam,
É feita medição do A prefeitura para as tarifas
afetavam o sistema e a para quem não paga em
Gambá renda. Foram descobertos dia há sempre uma
macromedidor a cada dois do posto médico e
dias. escolas.
39 “jacarés”. negociação.
Já foi descoberto ligações Com 3 mensalidades não A prefeitura paga a
Uruçu para irrigação, mas foi pagas é cortado. Até Não informou. energia e já trocaram a
proibido. atrasam, mas pagam. bomba queimada.
Não há, pois não há Não existe mais
Poço pagamento e o uso é associação, é gerido pela
Ninguém paga. Não.
Comprido apenas para consumo prefeitura sem
doméstico. envolvimento comunitário.
A inadimplência é alta. As A hidrometração somente
A prefeitura banca o
Para fazer irrigação, mas pessoas não têm água, é feita para quem tem
Belo Oriente foi descoberta e retirada. não tem como exigir muito cisterna, pois a água é
operador, a energia, a
bomba quando quebra.
deles. pouca.
Quando a bomba quebrou, Não há macromedidor, o
depois que a prefeitura
a prefeitura trocou e disse operador controla a partir
tomou conta do sistema a
Camboa Não informou. que a água somente seria de anotações de quanto
gente ficou sem nenhuma
cobrada se o Promata tempo leva para encher a
força.
trocasse. Ninguém paga. caixa.
Existia um morador O Governo apoia,
fazendo irrigação, a Compesa contribui na
Agrovila Não há hidrometração,
população denunciou pois A maioria paga. manutenção, peças, a
Barragem apesar de ter hidrômetro.
começou a faltar água para Prefeitura paga o operador
o entorno. e a energia.
O sistema é totalmente
Não há, pois ninguém Não há, pois ninguém gerido pela prefeitura. A
Quebec paga. paga.
Não há.
associação apenas
fiscaliza o sistema.
É hidrometrado. Para
casas novas, não há
Não há, existe um controle
Encruzilhada por parte da associação.
5% de inadimplência. hidrômetro e o volume Não há.
gasto é controlado pelo
volume do reservatório.
30% não paga em dia, mas
Não tem nenhuma, foi feita A prefeitura para a conta
termina pagando, depende É medido o
Angélicas uma revisão e retiradas
muito da safra de macromedidor.
de energia da bomba
todas as ligações. apenas da barragem.
cana/usina.
De 30 a 40%
Já houve adulteração de A prefeitura paga a conta
inadimplentes, foram
hidrômetro e ligações de energia. O operador da
Borracha clandestinas. Não é
encaminhados os termos Há hidrometração.
prefeitura foi dispensado
para o corte dos
percebido atualmente. por trabalhar alcoolizado.
inadimplentes.
Fonte: O Autor.

Para Silva (2003), os sistemas de abastecimentos de água têm por finalidade a distribuição
de água aos pontos de consumo, com garantia da qualidade do produto, dos serviços e de sua
continuidade. Desse modo, os objetivos fundamentais do controle e exploração são:

• Controle do grau de aproveitamento dos recursos disponíveis (água, energia, capital,


infraestruturas);
• Controle da qualidade de água consumida e do serviço prestado aos usuários
(consumidores);
• Controle dos custos de operação e manutenção do sistema.
117

Nesse sentido, em sete comunidades existe controle de ligações clandestinas, enquanto


nos sistemas onde não há pagamento de tarifa, inexiste tal controle. O conhecimento de
ligações clandestinas, adimplência e hidrometração são fundamentais para o controle do
consumo domiciliar e minimização do racionamento. Para o pagamento de tarifa, é percebido
que seis comunidades possuem grau satisfatório de adimplência e apenas em Belo Oriente o
pagamento é mínimo, nas demais não há pagamento (Gráfico 25).

Gráfico 25 - Situação de adimplência

1
3

3 100%
não há pagamento
maioria adimplente
3 minoria adimplente
Fonte: O Autor.

O povoado de Gambá pode ser considerado uma referência de gerenciamento nestas


temáticas: é a comunidade melhor estruturada e controla com eficiência as ligações
clandestinas (“não há punição e sim negociação. O operador fiscaliza as todas as casas e
registros”), a adimplência (“tem pessoas que tem prazer de pagar e outras tem raiva. A tarifa
era 6,50 por 4 anos, agora aumentou para r$10,00”) e a macromedição, sendo uma das duas
comunidades com macromedidor. Segundo o representante da associação, “por este controle o
operador percebe o consumo dos usuários, também pelo consumo/conta de energia elétrica,
assim a diretoria vai dialogar com os usuários”. Em outras comunidades foi questionada a
ausência de macromedidores: “era para ter um macromedidor mas a empresa não colocou, a
associação faz um controle a partir do volume das caixas d’água de cada casa” (dirigente da
Asseco de Encruzilhada). Segundo representante estadual “foi pensado inicialmente no
projeto a possibilidade de macromedição, mas por algum motivo não lembrado, foi
descartado”.

Já a medição por hidrômetro, prevista em todos os sistemas pesquisados, ocorre


apenas em metade dos povoados, apesar da existência do equipamento em todos (Gráfico 26).
Nas duas localidades onde a medição é parcial, registra-se o aumento dos domicílios como
fator principal, enquanto nas outras duas onde não é feita a leitura, numa é alegado que não há
118

necessidade por haver água suficiente, enquanto na outra, a precariedade da disponibilidade


de água é alegada.

Gráfico 26 - Situação de hidrometração

3 3
plenamente
parcialmente
2 2 não
não há pagamento

Fonte: O Autor.

Nas localidades não se percebe a relação entre a ausência de domicílios não


hidrometrados, a intensidade do racionamento e a existência de caixas d’água nos domicílios.
As comunidades com menor quantidade de reservatórios domiciliares possuem racionamentos
em maior grau (Belo Oriente e Sítio Uruçu). O Gráfico 27 destaca que a maioria das
localidades (nove) possui reservatórios domiciliares entre metade a totalidade das
comunidades, retratando esse armazenamento como uma necessidade que garanta o
abastecimento de água.

Gráfico 27- Domicílios com caixa d’água

não possui domicílios com reservatório 1


na maioria dos domicílios 2
em metade dos domicílios 3
100% dos domicílios com reservatório 4
Fonte: O Autor.

Outro aspecto relevante quanto à gestão, o apoio institucional fortalece o


funcionamento do SAA. A metade das associações pesquisadas recebe apoio da Prefeitura
Municipal e apenas uma dessas afirmou parceria com o Governo do Estado através da
Compesa. Em três localidades o poder público municipal exerce ingerência sobre o sistema
sem envolvimento da associação e do Governo Estadual, proprietário dos sistemas (Gráfico
28).
119

Gráfico 28- Apoio institucional na gestão do sistema de abastecimento

2 4
com apoio da prefeitura
com gestão da prefeitura
3 sem apoio
apoio da prefeitura e Compesa

Fonte: O Autor.

Para os sistemas de abastecimento rural, segundo o IRC (2005), a comunidade deve


ser envolvida diretamente com o controle sobre a operação e gestão de seu sistema, onde o
controle é entendido como a capacidade de tomar decisões estratégicas sobre os principais
aspectos do serviço. O Centro também destaca como fundamental a apropriação do sistema
pela localidade: “a formalização da propriedade da infraestrutura física pela comunidade é
altamente desejável e de igual importância é a percepção de propriedade por parte do
comunidade de usuários” (IRC, 2005).

Conforme observação de um gestor estadual, “o município deveria ser parceiro, era


esperada a parceria da prefeitura”. As dificuldades de parceria, segundo esse, relacionam-se
“muitas vezes com a questão política local que atrapalhou o processo”. O apoio do poder
local confere segurança técnica e institucional ao sistema e o gestor afirma que “não há como
deixar as prefeituras fora do processo. No Ceará, por exemplo, as prefeituras não entram, fica
ausente um ente importante na gestão”.

Sobre a questão, Teixeira (2011) enfatiza a urgência do Estado (União, Unidades


Federadas e Municípios) assumir o planejamento, execução e manutenção com investimentos
em saneamento básico, “buscando alternativas tecnológicas apropriadas, não deixando
somente sob a responsabilidade de instituições da sociedade civil e das famílias em suas
comunidades”.

5.8 ENTENDENDO O RACIONAMENTO

O conceito de racionamento regular no abastecimento de água contrasta com os


princípios da regularidade, universalidade, equidade e integralidade já descritos. Para os
120

representantes pesquisados, são diversos os olhares sobre o tema que pouco dialogam com o
princípio da garantia de água com plenitude (Quadro 11).

Quadro 11- Olhar comunitário sobre o conceito de racionamento


O que é racionamento no abastecimento É uma necessidade ter água o dia todo,
Comunidade
de água? todo dia?
É a falta de água na comunidade é quando
É. Eu tenho que fazer minha parte. Agora se
Gambá diminui o horário atual (quando há verão
houver um projeto para ampliar, melhora.
prolongado).
Ter água sim, mas na torneira, não é
Uruçu Economizar, racionar para sobreviver. necessário. Se tiver todo dia o dia todo vão
deixar as torneiras abertas.
Evitar gasto desnecessário. Aqui não tem
Poço Não há necessidade, quanto mais água tiver,
racionamento. É só uma questão de
Comprido mais o pessoal usa desnecessariamente.
operação.
A água é que não é suficiente para a Com certeza, o projeto foi feito para isso. A
Belo Oriente comunidade. A água que não abastece a água é para tudo, para beber, cozinhar,
comunidade toda. construção.
Economizar. A água está pouca e a gente tem
Camboa Não, quanto mais se tem, mais se gasta.
que economizar.
Agrovila Economizar água. O sistema da comunidade É necessário. Tem gente que trabalha fora, na
Barragem é racionamento. agricultura, pesca, e precisa de água.
Não é necessário. Pra quem não tem caixa
Quebec É dividir a água certa para todo mundo. d’água, é necessário. Pra que ter água todo dia
toda hora? É pra estragar.
É controle, é conscientizar a comunidade. 1 Sim, principalmente aqui que tem
Encruzilhada minuto de chuveiro enche um balde, se ficar trabalhadores da cana de açúcar que precisam
aberto 5 minutos? permanentemente.
É conscientizar e economizar para não faltar Não é necessidade, quando falta 8 dias
Angélicas
para o outro. ninguém reclama.
Utilizar a água de maneira racional, adequada Na casa sim, na torneira não. As pessoas
Borracha para não faltar. É o controle. Está tendo abastecem seus reservatórios, então não tem
racionamento para controlar o consumo. necessidade.
Fonte: O Autor.

Quanto ao conceito de racionamento (Gráfico 29), para oito representantes de


associações esse tema relaciona-se com o poder comunitário, pois cinco desses referem-se ao
tema como controle do consumo domiciliar e três, à racionalização e economia do recurso
hídrico. Tais informações, segundo eles, estão relacionadas com o cuidado com o desperdício
e a conscientização, embora não haja relação com a hidrometração que poderia ter a mesma
função de modo mais eficaz. Noutro momento é percebido o desconhecimento do
racionamento como uma manobra que ocorre localmente ou somente é racionamento quando
a falta d’água é maior que a prevista no calendário existente.

Gráfico 29- Conceito de racionamento

controle do consumo 5
economizar, racionalizar 3
insuficiência do sistema 1
falta prolongada não prevista 1

Fonte: O Autor.
121

Um gestor estadual reforça o conceito de controle e economia afirmando que tal


limitação trata-se de “racionalização do uso da água. Foram estimados 100 l/hab/dia, o que é
suficiente. Mas nem todo mundo consome essa quantidade, tem desperdício, perda d’água.
Você acaba forçando o consumo em 100 l/dia, restringindo o abastecimento para manter o que
foi concebido”. Enquanto que outro representante governamental reforça a ideia informando
que a “racionalidade da água passa pela educação básica e a educação para o uso racional.
Alguns dizem ‘fez o sistema mas não tem água todo dia’, e onde tem água todo dia? Deve-se
trabalhar o envolvimento e pertencimento pelas pessoas”.

Do mesmo modo, os entrevistados quando indagados sobre a necessidade de garantia


de água permanentemente, reforçam o conceito de racionalidade, informando que “as pessoas
tem água, mas devem racionar, deve-se ter mais água na comunidade, mas nem tanto para não
desperdiçar” (Sítio Uruçu) ou justificando que “todo mundo água por conta das caixas
d’água” (Poço Comprido). Assim, apenas quatro comunitários responderam que era
necessário que os domicílios fossem abastecidos com água todo dia e o dia todo (Gráfico 30),
dois desses abastecidos diariamente e os outros com abastecimento domiciliar mais precário.

Gráfico 30 - Necessidade de água plenamente

não 2
sim 4
sim, mas na torneira não 4

Fonte: O Autor.

Já os gestores públicos contradizem o conceito de racionamento anteriormente


defendido, afirmando que “todo mundo tem que ter água em quantidade e qualidade. Deveria
ser pensado para o futuro todo mundo ter água em casa” e que “é um direito. A grande
questão é o uso, saber usar. Na minha casa eu tenho, porque na área rural não pode ter”.
apesar disso um desses reforça que “a grande questão não é ter água, é saber usar a água que
tem”. Ao ser indagado sobre a existência de racionamento nos sistemas implantados, esse
representante afirma que não considera que haja. “Porque quando tem usa em abundância.
Talvez pudesse até diminuir. O hidrômetro poderia medir o consumo e contribuir com a
racionalidade. A questão não é a intermitência, as manobras têm que existir, mas também tem
que saber que quando tem uma hora de água, tem que usar bem essa hora de água”.
122

5.8.1 A implantação do racionamento

Sobre as origens do racionamento de água no abastecimento rural, no geral ocorrem


desde a implantação, com horário/calendário definido pela associação, sem questionamentos
comunitários, acompanhamento técnico ou atividades educativas sobre o assunto (Quadro 12).

Quadro 12- Questões norteadoras sobre a implantação do racionamento


Houve Houve alguma ação
Como surgiu o acompanhamento educativa ou
Quem definiu o
Comunidade racionamento nas técnico para definição informativa na
horário/dias?
comunidades? de horário do implantação do
racionamento? sistema?
Foi discutido pelo
Promata. O horário inicial
foi proposto pelo técnico Foram feitas reuniões e
Por conta do crescimento
Gambá da comunidade.
social do Promata. A Não houve. visitas as casas pela
associação modificou o diretoria anterior.
horário e a população
gostou.
Era aberto para os 2 Não. O povo tem muita
Era de 10 as 12 e depois a
Uruçu setores, mas só dava para
comunidade definiu.
Não houve. consciência, a água é
30 minutos de água. muito racionada.
Para não trabalhar o dia
Poço Não, desde o início é
Desde o começo. todo, o operador definiu Não houve.
Comprido assim.
esse horário.
Para as 50 casas iniciais O técnico social
Assembleia para dizer o
tinha água, quando foi Ideia da diretoria aprovada acompanhou o processo.
Belo Oriente ampliado é que ocorreu o em assembleia. Incentivando a decisão em
dia da água, não houve
trabalho educativo.
racionamento. assembleia.
Sensibilização da
Foram levantadas as
O Promata definiu os comunidade para que
despesas e o técnico
horários e os dias a partir Não houve todos comprassem ou
Camboa social do Promata trouxe
de uma planilha que acompanhamento técnico. fizessem reservatórios.
uma tabela com os
propôs a tarifa. Teve muitas atividades na
horários.
escola.
Não houve, mas o Promata Não houve. Deveria ter
Agrovila Os associados decidiram discutiu e propôs a tarifa em uma capacitação para as
Desde o começo.
Barragem em assembleia. 10R$ (apesar de a donas de casa
comunidade definir em 5R$). economizar.
Antes era muito precário.
Não houve Toda reunião, assembleia
Abria-se tudo e era pra A diretoria propôs o
acompanhamento técnico, sempre é repassada a
Quebec quem pegasse primeiro . calendário e ninguém até
as decisões são dos necessidade de
tinha rua mais baixa que hoje reclamou.
membros da diretoria. economizar.
tinha água permanente.
Para não desgastar a A diretoria/operador para Não houve
Encruzilhada bomba. não desgastar a bomba. acompanhamento técnico.
Não houve.
Não há dias definidos, o
Não houve Reuniões na rua
sistema é ligado para o
Já foi pior na gestão acompanhamento técnico. explicando como ia
Angélicas anterior.
setor e só é fechado
Simplesmente a empresa foi funcionar, como ia pagar,
quando a última casa é
embora. a manutenção de esgoto.
abastecida.
A água não chegava a
Foi feita uma
todos os locais desde o
Observando a situação, o sensibilização por reunião
começo. Foram colocados Não houve
Borracha registros por ruas para
calendário foi definido pela
acompanhamento técnico.
para que fechassem as
diretoria. torneiras para garantir
garantir o abastecimento
que chegasse à ponta.
de todos.
Fonte: O Autor.

A situação de corte programado surgiu, pelo menos na metade dos casos, a partir do
início do funcionamento dos sistemas de abastecimento (Gráfico 31), enquanto que duas
localidades alegaram o crescimento da comunidade (Borracha e Gambá), os representantes de
123

Camboa informam que, para a economia do custo com a energia elétrica, o Promata sugeriu o
corte programado e o entrevistado de Encruzilhada afirmou que é necessário o horário para
não haver desgaste da bomba de captação (“depois de 2 anos estourou o motor a comunidade
fez uma cota e comprou um motor novo”).

Gráfico 31 - Surgimento do racionamento

Não informou 1
para não desgastar a bomba 1
a partir da planilha de custos 1
crescimento da comunidade 2
desde o início do funcionamento 5

Fonte: O Autor.

Quanto à definição do horário e calendário nota-se que, apesar da maioria ter sido
definida pelas associações, o operador e o técnico social do Promata foram fundamentais
nessa proposição em duas comunidades cada (Gráfico 32). Enquanto que na Agrovila
Barragem, a coletividade propôs o horário: “os associados decidiram em assembleia de 7 às
17h, o operador desliga às 17h para que os meninos que vão para a faculdade (final da tarde)
consigam tomar banho”.

Gráfico 32-Quem propôs o horário

2
5 associação
operador
2 técnico do Promata
assembleia

Fonte: O Autor

Para um gestor estadual, os programas governamentais efetuaram orientações e


recomendações sobre o horário de funcionamento dos sistemas. Nesse sentido, embora “não
houvesse previsão de manobra inicialmente, em alguns o fiscal acompanhou”. Outro
representante confirma que “todo o processo de definição foi definido pelas associações” e
que o contrato de capacitação e acompanhamento realizado pelo Consórcio Sinergia/Colmeia
orientou algumas comunidades a partir das oficinas realizadas. Apesar disso, nove
entrevistados informaram que inexistiu acompanhamento técnico na implantação do
124

racionamento e em apenas uma localidade, o técnico social do Promata se envolveu nesse


processo. Os entrevistados do Sítio Camboa destacaram que “nas capacitações do Consórcio
houve um teste durante uma semana que garantiu a água permanente, mas foi visto que desse
jeito a conta de energia ia aumentar muito. A prefeitura atualmente paga a conta e economiza
mais ainda até nos feriados, sábado e domingos”.

Também nota-se a existência de questionamento dos moradores sobre o calendário e


horários com disponibilidade de água em seis comunidades, inclusive com mudanças e ajustes
em três dessas. No povoado e Gambá, durante os três meses de teste, não havia pagamento
nem racionamento. Em seguida, conforme o entrevistado, a comunidade estranhou: “oxente,
quando era grátis tinha água sempre, quando tá pagando o horário modificou? De 6 às 10 da
noite?”. No Sítio Camboa houve comentários como: “e a gente não vai ter água direto? Antes
a gente tinha água todo dia sem pagar, não vou pagar, ninguém pediu este projeto, se fosse
para prejudicar era melhor que não viesse, se fosse água doce a gente pagava”. Já na Agrovila
Barragem, “a água era ligada à noite e desligava a bomba para ‘não cansar’. Pela manhã a
caixa estava seca. Tinha que encher a caixa e só ligava às 10h. aí teve conflito entre
estudantes noturnos e donas de casa”. Em Poço Comprido o entrevistado complementa: “a
população concorda com o horário? A população queria água o dia todo, seria bom para quem
gosta de gastar água, alguns reclamam informando que não dá tempo de fazer algumas
atividades”.

Outrossim, é necessário considerar que nas localidades pesquisadas inexistiam


sistemas de abastecimento ou eram precários e não atendiam todos os domicílios. Dessa
forma, o abastecimento domiciliar, mesmo que irregular é considerado como uma condição
melhor que a anterior, havendo acomodação com a situação de racionamento: “aonde chega
energia, estrada e água há um progresso. Tem bairro na cidade que passa três dias sem água,
aqui é no máximo um dia” (Gambá); “os moradores acham o horário péssimo, mas não há o
que fazer, ia continuar como antigamente, uma fila imensa para pegar dois baldes d’água para
dois dias, é melhor como está hoje” (Belo Oriente); “a implantação desse sistema foi muita
alegria, todo mundo carregava água por mais de um quilômetro” (Encruzilhada).

Na implantação do calendário de racionamento, o trabalho educativo possibilita a


racionalização e o cuidado com a água armazenada no domicílio. Sobre o assunto, em metade
das comunidades não houve qualquer ação nesse sentido (Gráfico 33), para outras quatro,
125

foram utilizadas as reuniões e assembleias para sensibilização da população e em apenas uma


localidade houve um trabalho estruturado a partir do envolvimento com a escola local.

Gráfico 33- Atividades educativas realizadas

1
2
5 não
nas assembleias
2 reuniões e visitas
com a escola
Fonte: O Autor.

Para um gestor estadual indagado sobre a possibilidade de trabalho educativo na


implantação do racionamento, foi afirmado que o controle do consumo deveria ser garantido
pelo pagamento da tarifa embora que “nas comunidades às vezes não há medição do
hidrômetro ou pagamento, etc.”.

5.8.2 A influência do racionamento para o funcionamento do sistema

A abordagem dos impactos no SAA, a partir da implementação de medidas de


racionamento no abastecimento de água numa localidade rural, pode revelar questões de
ordem gerencial que impactam nos aspectos sociais e ambientais comunitários. Também, as
manobras de corte no abastecimento influenciam diretamente na manutenção do sistema, na
disponibilidade de água e repercute na regularidade e pontualidade do fornecimento (Quadro
13).
126

Quadro 13- Questões norteadoras sobre o impacto do racionamento nos SAA


O volume garantido é suficiente O racionamento influencia na A regularidade e
Comunidade
para a comunidade? manutenção do sistema? pontualidade são garantidas?
A comunidade é compreensiva. Se Desgasta o sistema, o registro já foi
tiver 2 horas de água é suficiente, tem corroído e refeito pela associação. Já Sim. Somente em casos de
Gambá pessoas que desperdiçam e a se abriram tampões de fim de rede, emergência não é cumprido.
comunidade tem que contribuir. por conta da pressão.
Não. O mínimo que deveria ter é 3h No começo do abastecimento,
por dia. As pessoas armazenam, mas estouraram muitos canos, eram dadas Somente varia no final do
Uruçu o risco de contaminação é maior que 5 voltas e agora somente 3 voltas, há período.
ter água na torneira. um pequeno vazamento no registro.
Abrir o registro às vezes estoura
É garantido. Se houver
Poço É suficiente, 80% tem caixa d’água canos pela pressão. É normal
problema, a comunidade é
Comprido com boia. estourar cano, já foram trocados dois
avisada.
registros.
Vários canos já estouraram, tem
registros de passagem que de 15 e 15
Belo Oriente Para alguns é, para outros não.
dias estão sendo trocados, os canos
É regular.
mestre já foram trocados.
Não é suficiente, depende do local na
É pontual. A comunidade só
comunidade. Quem está no baixo tem Nunca foi percebido problemas de
Camboa até piscina de 1000 litros, quem mora manutenção decorrentes da manobra.
se preocupa quando a água
não chega no horário.
no alto não chega suficiente.
Pode ser ligado às 6 ou 5h.
Agrovila
É suficiente. Não há influência. não especificou o motivo da
Barragem diferença.
Os canos estouravam muito, aí foram
É regular, só não é se houver
Quebec É suficiente e ainda sobra. colocados registros intermediários. Os
problema no sistema.
registros já foram trocados.
É suficiente, o problema é a qualidade, Não afeta, acontece de descolar os
Encruzilhada se tivesse mais era melhor. canos dos domicílios às vezes.
É regular.
Se passar da hora de fechar o risco
É suficiente, quando alguém reclama, A pontualidade é garantida e a
Angélicas a gente ajusta.
de estourar é grande. Houve desgaste
regularidade é variada.
e troca de registros.
Não há problema de manutenção.
A regularidade não é
É suficiente, todo mundo tem Volta e meia estoura um cano na rua,
Borracha reservatório (de 4 a 5m³ por casa). se é por causa da pressão, não
importante, o intuito é que
todos recebam a água.
sabemos.
Fonte: O Autor.

Quanto ao volume da água disponibilizado, foi perguntado se era suficiente para o


consumo domiciliar. Assim a maioria respondeu positivamente (Gráfico 34), principalmente
justificada pela existência de reservatórios domiciliares, notando ainda o reforço do discurso
de controle comunitário: “se a comunidade tiver 2 horas de água é suficiente, tem pessoas que
desperdiçam e a comunidade tem que contribuir” (representante de Gambá). Por outro lado,
nos sistemas com menor disponibilidade, é registrada a insatisfação e necessidade de maior
quantidade de água: “Não é suficiente. O mínimo que a gente deveria ter é três horas por dia.
As pessoas armazenam, mas o risco de contaminação é maior que água na torneira”
(entrevistado do Sítio Uruçu, localidade com domicílios com três horas de água a cada dois
dias). Em dois casos, há abastecimento regular para parte da localidade mais central ou na
região mais baixa, resultando em inequidade no abastecimento local e assimetria nas
condições de vida da população.
127

Gráfico 34- Suficiência do volume garantido aos domicílios

não 1
para alguns sim, para a maioria não 2
sim 7
Fonte: O Autor.

Dos dez sistemas de abastecimento visitados, são percebidos danos decorrentes do


racionamento em oito. A maioria dos problemas é referente à pressão excedente exercida
sobre a rede de abastecimento verificada em seis comunidades (Gráfico 35), principalmente
no início da operação. Assim é comum a existência de “canos estourados”, sendo por vezes
uma condição natural: “é tão difícil estourar cano. Aqui passa um mês sem estourar. Em todo
lugar estoura” (Poço Comprido). Também se observa o dano sobre os registros gerais e
registros de passagem localizados nas vias ao longo das redes, decorrente do desgaste do
excesso de manobras existentes.

Gráfico 35- Danos no sistema causados a partir racionamento

registros danificados 2
canos danificados 2
canos e registros danificados 4

Fonte: O Autor.

Existe uma relação direta entre a intermitência e a deterioração dos sistemas. O


Programa Nacional de Saneamento Rural (BRASIL, 1990) acentua que a prestação de
serviços de abastecimento de água, para ser adequada às necessidades da comunidade,

tem como condição essencial a segurança quanto à continuidade do funcionamento e


quanto à qualidade dos serviços oferecidos. Isso só se obtém com o manejo
adequado dos componentes dos sistemas - tanto na sua operação quanto na sua
manutenção – para que cumpram sua finalidade e não se deteriorem
prematuramente. (BRASIL, 1990)

O desgaste de componentes resulta em vulnerabilidade do sistema. Assim,


complementarmente Navarro-Roa (2008) indica que os componentes que tenham
interdependência com outros e que possam provocar uma emergência maior no sistema são
componentes fundamentais. Igualmente afirma que a vulnerabilidade do sistema determina o
comportamento ou desempenho do sistema e, consequentemente, uma vulnerabilidade
hidráulica alta, significa que o desempenho do sistema será baixo.
128

Sobre a regularidade do abastecimento, é garantida na maioria dos SAA (Gráfico 36),


nas outras, registra-se a variação de horário ou mesmo dia de abastecimento, sendo uma
dessas com irregularidades por vezes no final do período, devido o alto consumo e existência
de reservatório subdimensionado (10m³).

Gráfico 36 - Cumprimento do calendário

1
1

sim
2 6 é pontual, mas não regular
varia no final do período
varia no início do período

Fonte: O Autor.

É possível perceber a diversidade de soluções de manobras com distinção de dias,


horários e setorização entre as comunidades, cada qual respeitando as realidades e decisões
coletivas locais. GALIZONI (2005) realça que recursos comuns são quase sempre usufruídos
no interior de uma comunidade, mediados por relações culturais específicas e possuem
normas comunitárias que orientam extração, uso e consumo.

A inexistência de acompanhamento técnico também facilitou tais dessemelhanças.


Assim e conforme apresentado na Tabela 14, no mesmo município (Macaparana) existem
localidades grandes com abastecimento não setorizado e diário (Poço Comprido) e vilarejo
pequeno (Sítio Uruçu) com dois setores de abastecimento e frequência com dias alternados.
129

Tabela 14- Calendário de abastecimento por comunidade


Horas/
Frequên- Horas com abastecimento/dia
Localidades Setores semana
cia
5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 1 2 3 4 Total %
Uruçu 1 dia por
setor
2 setores 9 5,4%
Belo Oriente 1 dia por
setor
3 setores 6 3,6%
Gambá Setorizado Setor Setor
diário
2 setores 1 2 14 8,3%
Poço Não
diário
setorizado 42 25,0%
Comprido
Camboa 1 dia por
setor
2 setores 18 10,7%
Agrovila Não
diário
setorizado 84 50,0%
Barragem
Quebec Setor 1
1 dia por
setor
2 setores (água Setor 2 (água salobra) 84 50,0%
doce)
Encruzilhada 1 dia por 2 4 setores Setor 1 ou 3 Setor 2 ou 4 24 14,3%
setores
Angélicas 1 ou 2 dias
por setor
4 setores 34 20,2%
Borracha 1 dia por
setor
7 setores 24 14,3%
Fonte: O Autor.

Para os sistemas que garantem o abastecimento com um intervalo no meio do dia,


segundo os entrevistados, o fazem devido à incapacidade de armazenamento ou de produção
do sistema. Por outro lado, percebe-se um consumo intenso inicial resultante do enchimento
dos reservatórios domiciliares e atividades domésticas no período com água, resultando na
superexploração coletiva do sistema de abastecimento no período com fornecimento de água.

Em geral, nenhuma estrutura estudada é abastecida por períodos maiores de 50% das
horas semanais (Gráfico 37), havendo dois casos onde o tempo de abastecimento é de cinco
por cento ou menos (3,6% em Belo Oriente). Ainda se aponta que em 80% dos casos
analisados o abastecimento semanal é inferior a 42 horas semanais (25% do tempo),
resultando em dificuldades na distribuição equitativa e precariedades domiciliares. Para um
morador presente na entrevista (Camboa), “a bomba é ligada às 6h e tem local que só chega á
água às 2h da manhã do outro dia. Ou você dorme ou pega água, na terça feira é o pior dia,
ficamos de sexta a quarta de madrugada. Tem casas que ficam com as caixas e cisternas
abertas, transbordando. Tem um morador que levanta às 2h para desligar a água para não
estragar, e outros precisando”. Para o representante governamental, “a intenção era ter água
24 horas, mas ao trabalhar se viu que a realidade era outra”, havendo necessidade de
racionamento por motivos diversos.
130

Gráfico 37- Período de abastecimento domiciliar (% de horas/semana)

2 2

até 5%
2 até 15%
até 25%
4
50%

Fonte: O Autor.

A operação dos sistemas de abastecimento a partir da disponibilidade de água em


horários fragmentados também resulta em sobrecarga de trabalho para os operadores locais.
Desse modo, a pesquisa constatou que o tempo entre a primeira e a última operação diária
encontra-se acima de 16 horas (Gráfico 38) em três localidades e em outras cinco, entre 11 e
15 horas.

Gráfico 38- Tempo entre a primeira e a última operação por dia

16 a 18h 3
11 a 15h 5
0 a 3h 2

Fonte: O Autor.

Para a comunidade de Sítio Uruçu que possui equipamentos que possibilitam a


automação parcial do sistema, o trabalho de operação ocorre por três horas diárias enquanto
que em Borracha, a bomba é ligada 24 horas por dia, resultando em apenas uma operação
(Quadro 14).
131

Quadro 14- Manobras executadas diariamente pelo operador do sistema


Comunidade Manhã Tarde Noite
4h – liga a bomba
15h – abre o registro (outra 18h – fecha o registro
Gambá 7h – abre o registro
pessoa) 22h – desliga a bomba
9h – fecha o registro
5h – liga a bomba 12h – desliga a bomba
6:30 – desliga a bomba 15h – fecha o registro e liga a
Uruçu ----
11h – abre o registro e liga a bomba
bomba 16h – desliga a bomba
6h – abre o registro 17h – abre o registro
Poço Comprido 20h – fecha o registro
9h – fecha o registro
5h – abre o registro
Belo Oriente 8h – fecha o registro e controla ---- ----
a saída de água do chafariz
20h – abre o registro
5h – liga a bomba para o mesmo setor e
9h – abre o registro para um 16h – fecha o registro desliga a bomba
Camboa
setor 5h – desliga o registro e
liga a bomba para o
outro setor
5h – liga a bomba e abre o
Agrovila 17h – desliga a bomba e o
registro ----
Barragem registro
6h – abre o registro e fica de
plantão até esvaziar
7:30h fecha o registro 21h fecha o registro/esvazia o
8h – liga a bomba (se desliga reservatório e abre para
Quebec ----
automaticamente ao encher a encher de água doce até de
caixa) manhã
11h – abre a água salobra para o
outro setor
4:30h – liga a bomba do poço e
14h liga a bomba e fecha o
distribui do reservatório maior
registro do setor 1 22h fecha o motor e o
Encruzilhada para os menores
16h reservatório cheio, abre o registro para o setor
6h – abre o registro
registro para o setor 2
9h desliga a bomba
3h – lava os filtros
15h – fecha o registro
Fecha o registro do setor
Angélicas (a cada 2 setores, lava as 19h – abre o registro
6:30 – abre o registro para o
caixas de tratamento)
setor
5h – fecha o registro para um
Borracha ---- ----
setor e abre para outro
Fonte: O Autor.

Essa diversidade de horários de abastecimento resulta também na variação da


quantidade de operações diárias detalhadas no quadro anterior. Assim, há comunidades que
realizam apenas uma operação por dia, enquanto que outras chegam a nove atividades
relacionadas com as bombas e os registros gerais (Gráfico 39). Entre essas ações também
ocorrem diariamente diversas operações de abertura e fechamento de registros setoriais ou por
rua, manutenção de equipamentos, reparos em tubulações, limpeza de filtros, medição de
hidrômetros, entre outras realizadas pelos operadores dos SAA.
132

Gráfico 39- Quantidade de operações por dia

8 a 9 operações 2
6 a 7 operações 3
4 a 5 operações 2
1a 2 operações 3

Fonte: O Autor.

A automação possibilita a facilitação do trabalho do operador e diminui a quantidade


de manobras de operação dos sistemas. Apesar de existir tecnologias de automação simples,
de baixo custo e acessíveis, conforme gestor estadual “não foi previsto e isso é uma falha do
projeto”.

5.8.3 Justificativas e soluções

Quando perguntados sobre os motivos da existência de racionamento, em cinco


comunidades tais motivos referem-se a questões relacionadas com o projeto ou execução da
obra (vazão do poço, capacidade do reservatório e da bomba); em três, as justificativas
referem-se à gestão/operação dos sistemas (“para garantir pressão na ponta da rede” e
ausência de tarifa) e em duas localidades o racionamento é resultante fatores externos (decisão
da população) conforme o Gráfico 40. Um dirigente da associação local ressalta que “o
Promata jogou tudo na mão da empresa e a empresa fez o que quis. Tudo pela metade e sem
qualidade. Se viesse um projeto, eles tinham que fiscalizar”.

Gráfico 40- Razões alegadas para a existência de racionamento

garantir pressão na ponta 1


vazão do poço 1
capacidade do reservatório 1
vazão do poço e capacidade do reservatório 1
capacidade da bomba 2
ausência de tarifa (consumo exagerado) 2
decisão da população 2

Fonte: O Autor.

Para um representante governamental entrevistado, os motivos do racionamento


muitas vezes são decorrentes do mau uso da água nos domicílios. Afirma também que “é
necessário melhorar a gestão” e que tal racionamento resulta ainda da “falta capacidade
133

técnica de entender os sistemas, pois há sistemas que são complexos e a capacidade de


operação ainda é primária. Era necessária uma melhor orientação”. Para outro gestor, o
racionamento “tem haver com o pagamento da tarifa. Ter controle, responsabilidade, não ter
desperdício. O ideal era não ter racionamento. O objetivo dos programas governamentais era
ter água de qualidade e quantidade, mas não dava para fugir dos parâmetros usuais de
consumo”.

Já quando perguntados sobre o que seria necessário para acabar o racionamento, em


três localidades as respostas não são compatíveis com as razões alegadas para o racionamento,
resultando em observações que complementam a questão. Em geral nota-se a necessidade de
complementação do projeto ou obra realizada (Gráfico 41) a partir da perfuração de poços,
substituição de bombas e ampliação do reservatório.

Gráfico 41- Sugestões para anular o racionamento

nada 1
trabalho educativo 1
bomba mais potente e perfurar outro poço 1
perfurar poço e construir reservatório maior 2
reservatório maior 2
perfurar outro poço 3

Fonte: O Autor.

Tais informações partem do conhecimento empírico e da percepção do operador a


partir de sua vivência com o sistema, inexistindo uma avaliação técnica sobre a questão do
racionamento nos sistemas de abastecimento rural da Zona da Mata Pernambucana. Assim,
para o WSSCC (2012) a adoção de tecnologia adequada deve ser conjugada com uma gestão
clara e eficaz, bem como com estratégias de governança que assegurem a sustentabilidade dos
serviços de água.

A pesquisa verificou as informações descritas pelos entrevistados, apreciando as


questões in loco resultando na geração de considerações conforme descrito no Quadro 15, a
seguir.
134

Quadro 15- Questões norteadoras sobre a extinção do racionamento


Em linhas gerais, porque
O que fazer para acabar
Comunidade você acha que existe o Observações do pesquisador
com o racionamento?
racionamento?
Resolver o problema da Existe um descarte expressivo da água
bomba, cavar mais um captada devido ao superdimensionamento da
A bomba não aguenta mais que poço. Passa-se 6 horas bomba do poço e subdimensionamento da
Gambá
isso. para encher a caixa, com bomba de adução ao reservatório. Todos os
mais uma bomba e um reservatórios domiciliares são abastecidos
poço, melhora. diariamente pelo SAA.
Apesar de o poço ser profundo e a
comunidade pequena, este seca com 1:30h
A vazão do poço não é de bomba ligada. Para encher o reservatório
Uruçu Perfurar mais poços.
suficiente. existente (10m³) é necessário 3:30h
garantindo 230l de água por domicílio nesse
tempo ou seis vezes isso por dia.
A população vem crescendo. A A comunidade é abastecida diariamente duas
caixa passa a noite enchendo. vezes por dia. Apesar de o reservatório ter a
Poço Fazer um reservatório
Com 3 horas o tanque seca. capacidade de acumular/distribuir
Comprido maior.
Para garantir pressão para 500l/domicílio/dia, a adutora não possibilita
quem mora mais longe. tal acumulação (1,61l/s).
O Promata disse que deveria
Os poços não possuem vazão suficiente para
ser um poço de 40 a 50 metros,
o atendimento da comunidade e foram
quem cavou disse que a
Belo Oriente Cavar poços. perfurados em locais altos e inadequados.
máquina só perfurava até 30.
Trata-se da menor disponibilidade entre as
Se eram 3 poços, deveriam ter
dez comunidades estudadas.
3 e com água e não apenas 1.
Existem grandes reservatórios Os reservatórios domiciliares possuem
nas casas, se todos pagassem, Deveria ter 2 poços, duas grande capacidade de armazenamento que
Camboa acredito que melhoraria. A água bombas e conscientizar resultam em sobrecarga do sistema.
não dá para abastecer todo todos. Também é notado a existência de consumo
mundo, a energia é racionada. elevado e desperdício no uso.
Praticamente possui abastecimento pleno
Agrovila (diário e durante todo o período diurno). O
Foi a decisão do povo. Não há necessidade.
Barragem racionamento é uma questão de controle
comunitário.
O reservatório existente no momento da
abertura garante 130l/domicílio de água doce
Era necessária outra caixa para Deveria ter outra caixa, na comunidade ou 260l por setor a cada dois
Quebec garantir um tempo maior, mas separava uma para doce e dias. Com seis horas para encher o
tem água suficiente para todos. outra para salgada. reservatório, seria possível garantir
520l/dia/domicílio sem a necessidade de
utilização da água salobra dos poços.
Pela capacidade dos reservatórios elevados
atual, é possível garantir mais de
Perfurar um poço e 200l/domicílio em cada abertura do
Pela vazão do poço e construir um reservatório reservatório. Abrindo duas vezes por dia
Encruzilhada
capacidade do reservatório. maior (aumentar o volume (situação atual) é possível garantir o
e pressão). consumo mínimo projetado de
100l/habitante/dia (sem o funcionamento do
dessalinizador).
Aumentar o nível da
barragem em 5 metros,
Se tiver água permanentemente O reservatório existente no momento da
uma bomba com maior
a pressão na parte baixa será abertura garante 160l/domicílio de água doce
potência e um reservatório
Angélicas muito grande. Por conta da na comunidade ou 320l por setor por dia.
maior. Quando tem um
potência do motor que a água Com 4h horas para encher o reservatório,
inverno, às vezes eu
não dá vencimento. seria possível garantir 800l/dia/domicílio.
consigo abastecer 3
setores de 1 vez.
Não sabemos qual a
É o tempo de encher a caixa e o quantidade real de água Em visita a barragem no período de
tempo para ela esvaziar. O que temos, não dá para estiagem, foi percebida a inexistência de
volume de água da barragem. saber. E quanto é diminuição da lâmina d’água. Não existe
Borracha Em 3 anos ocorreu um necessário para abastecer controle/horário para o enchimento do
crescimento previsto para 10 de forma consciente. Fazer reservatório principal e registra-se a
anos. Desde o início a água não um trabalho educativo. Ver existência de grandes reservatórios nos
era suficiente. o leito do rio, mata ciliar, domicílios.
dragagem.
Fonte: O Autor.
135

Diante desse quadro, verifica-se a pouca relação entre o conhecimento popular e a


realidade observada. Assim, em nove das dez comunidades visitadas, nota-se a necessidade de
reorganização das operações de manobra para minimizar ou eliminar o racionamento
existente. A inexistência de acompanhamento técnico e capacitação permanente enfatizam as
dificuldades de operação e distribuição da água. Para um gestor do Governo Estadual, “não
existe trabalho, proposta ou projeto para melhorar ou otimizar o corte programado ou
minimizar os problemas” nas localidades atendidas com sistemas de abastecimento rural.

Para outro representante do Estado, com o fim do Promata “houve uma mudança de
Secretaria e o ProRural assumiu todo o saneamento rural na região. Atualmente há uma
equipe pequena somente administrando problemas”. Afirma também que apenas há um
engenheiro do ProRural disponível e atendendo todo o Estado, dando um suporte maior para a
Zona da Mata e que “foi preparada uma planilha por problemas/demandas e enviadas as
UGTs (Unidades de Gestão Territorial) do ProRural (Palmares, Limoeiro e RMR) para
administrar as demandas” não havendo acompanhamento e gestão efetivos do saneamento
rural. Por fim o entrevistado descerra o assunto informando que “as comunidades estão sendo
visitadas para levantamento e identificação de demandas. Muitas demandas seriam resolvidas
a partir da gestão e operação e não por obra. Em alguns locais que as associações dizem que é
necessário perfurar mais poços, a equipe está indo e percebe-se não ser necessário”.

Sobre o assunto, Heller (2011) reforça que


a (in)sustentabilidade dos serviços de saneamento básico se expressa no
descompasso entre os esforços de implantação dos sistemas e sua continuidade
posterior. A área de saneamento básico no Brasil é ainda muito dominada pela
excessiva valorização das intervenções de engenharia e pelo desprezo à dimensão
dos serviços, naquilo que se refere, por exemplo, às questões de manutenção e
operação, conduzindo a soluções com baixa “sustentação” no tempo.

Em geral, não se percebe um padrão que defina as causas e origens do racionamento


nas comunidades, sendo cada situação percebida a partir das especificidades descritas até
então (Gráfico 42). A associação de diversos fatores distintos, articulados com a inexistência
de acompanhamento técnico e de processo de capacitação constante dificulta a busca por
soluções para o racionamento.
136

Essa condição implica na necessidade de uma organização simples, porém eficaz


para a administração, operação e manutenção satisfatória dos serviços. Além do
indispensável treinamento de pessoal para as atividades operacionais e
administrativas, pressupõe-se a existência de um sistema municipal de apoio
financeiro, técnico e administrativo que se disponha a cooperar com eficiência e
presteza em tudo o que for necessário para a prestação contínua e sustentável dos
serviços de saneamento ambiental à comunidade (MORAES et al, 1999)

Gráfico 42- Fatores determinantes e resultantes do racionamento


Gambá Poço Comprido Camboa Quebec Angélicas

4,5 Uruçu Belo Oriente Agrovila Barragem Encruzilhada Borracha

3,5

2,5

1,5

0,5

Categoria resultado Categoria resultado Categoria resultado Categoria resultado


1 - 100% 1 - sim
influência do
conhece os reservatório 2 - metade 2 - parcialmente 1 – sim
1 - sim Hidrometração racionamento
projetos domiciliar 3 - maioria 3 – não 2 – não
na manutenção
4 não possui 4 - não há pagamento
1 - sim
projetados com 1 - sim Controle de considera o 1 - sim
1 – sim apoio 2 - não
garantia de volume 2 - com suficiência ligações volume 2 - não
2 – não institucional 3 - gerido pela
adequado 3 - não garantiu clandestinas suficiente 3 - para alguns
prefeitura
1 - 100% 1 - projeto ou
1 - associação
repasse da 1 – sim 2 - não há execução
Situação de Quem propôs o 2 - operador motivo do
tecnologia de 2 – não pagamento 2 - gestão/operação
adimplência horário/dias 3 - técnico do Promata racionamento
operação 3 - capacitado 3 - maioria 3 - fatores externos
4 - assembleia
4 - minoria 4 - não sabe
1 - em reuniões 1 - 50%
1 - completa ação educativa % de horas
controle da 1 – sim 2 - em assembleias 2 - até 25%
entrega da obra 2 - parcialmente ou informativa semanais com
produção 2 – não 3 - escola 3 - até 15%
3 - sem funcionar na implantação água
4 - não 4- até 5%

Fonte: O Autor.

Apesar da existência de diversos fatores determinantes e resultantes do racionamento


no abastecimento comunitário rural, o Quadro 15 (questões norteadoras sobre a extinção do
racionamento) aproxima a reflexão sobre as origens e soluções necessárias para a
minimização ou eliminação do corte programado. Na maioria das localidades pesquisadas
registra-se a reservação domiciliar que garante segurança no abastecimento, ou seja: se em um
dia de abastecimento os domicílios conseguem garantir uma reserva para uso durante quatro
137

dias (Angélicas) ou sete dias (Borracha), a produção de água durante um dia garante tal
reservação. Consequentemente, a água captada e produzida é suficiente para a maioria dos
sistemas, ocorrendo concentração e má distribuição temporal de tal bem.

Quadro 16- Condicionantes e soluções propostas para o racionamento


Reservatórios nos
Comunidade Hidrometração Cobrança Solução proposta
domicílios
Gambá Sim Sim Todos Readequar as manobras de operação
Readequar as manobras de operação,
utilização do reservatório desativado,
Uruçu Não Sim Não cobrança a partir do consumo com
tarifa mínima para 12 m³ e pagamento
progressivo pelo excedente consumido.
Readequar as manobras de operação,
medição e cobrança a partir do
Poço Comprido Não Não Maioria consumo com tarifa mínima para 12 m³
e pagamento progressivo pelo
excedente consumido.
Ampliar a captação a partir de
Belo Oriente Parcialmente Parcialmente Metade
perfuração de poço em local adequado.
Readequar as manobras de operação,
medição e cobrança a partir do
Camboa Não Não Todos consumo com tarifa mínima para 12 m³
e pagamento progressivo pelo
excedente consumido.
Readequar as manobras de operação,
medição e cobrança a partir do
Agrovila consumo com tarifa mínima para 12 m³,
Não Sim Metade
Barragem pagamento progressivo pelo excedente
consumido e sensibilização das
lideranças sobre a regularidade.
Readequar as manobras de operação,
medição e cobrança a partir do
consumo com tarifa mínima para 12 m³
Quebec Não Não Todos e pagamento progressivo pelo
excedente consumido. Implantar
dessalinizador para garantir segurança
hídrica.
Readequar as manobras de operação.
Implantar dessalinizador para garantir
Encruzilhada Parcialmente Sim Maioria segurança hídrica e a mpliar a
captação a partir de perfuração de
poço.
Angélicas Parcialmente Sim Maioria Readequar as manobras de operação.
Borracha Sim Sim Todos Readequar as manobras de operação.
Fonte: O Autor.

Nesse sentido, em nove casos a readequação das manobras de operação é descrita


como solução para o problema de racionamento (Quadro 16). Em alguns casos, tal solução
deve ser associada com o maior controle da distribuição e uso a partir da hidrometração e
cobrança, por vezes inexistentes ou ineficientes. Em cinco localidades existe uma cobrança de
tarifa adicional para o consumo domiciliar mensal maior que 10m³, o qual deve ser mais bem
estruturado e replicado para todos os sistemas implantados. Também se registra a necessidade
de adequações de estrutura em quatro comunidades: a utilização de um reservatório
desativado no Sítio Uruçu, a instalação de dessalinizadores em Quebec e Encruzilhada e a
138

perfuração de poço em Encruzilhada e Belo Oriente, sendo essa última intervenção proposta,
a mais urgente dada à escassa produção de água local.

Além de intervenções físicas e nas manobras de operação, percebe-se também a


necessidade de aprimoramento e acompanhamento da gestão comunitária. Nesse sentido
Heller (2011) reforça que intervenções no sentido de cobrir o déficit de infraestrutura física
necessariamente deverão vir acompanhadas de medidas estruturantes, a partir da participação
da comunidade, da educação ambiental para o saneamento, dos mecanismos de gestão e da
capacitação. Enquanto que Teixeira (2011) corrobora enfatizando que as ações de saneamento
devem trazer saúde no sentido mais pleno e amplo para as pessoas da população rural,
colaborando “para que elas sejam donas do seu próprio destino, para que conquistem o
empoderamento social e político de suas vidas, da condução da sociedade local e nacional”.
139

Essa minha secura


essa falta de sentimento
não tem ninguém que segure,
vem de dentro.
Vem da zona escura
donde vem o que sinto.
Sinto muito,
sentir é muito lento.
Paulo Leminski
140

6 CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES

6.1 CONCLUSÕES

Ao percorrer a trajetória de implantação e consolidação dos sistemas de abastecimento


de água em localidades rurais da Zona da Mata Pernambucana, tomando como referência as
medidas de racionamento implantadas, busca-se evidenciar as dificuldades encontradas pelas
comunidades. Tais adversidades concluem que ocorrem desde a concepção e implantação, ao
atual funcionamento dos sistemas e suas formas de interação individuais e coletivas com a
questão. Para tanto, destacam-se as condições da operação e gestão comunitária dos serviços
de abastecimento de água e a relação entre as associações locais e os poderes públicos
estadual e municipais.

Água é um bem prioritário e deve ser muito bem cuidado. A gestão comunitária,
pouco experimentada em Pernambuco, é uma ação de Estado que visa garantir o bem estar
das populações atendidas e, ao mesmo tempo, é um desafio interinstitucional. Não é
identificada a existência de um arranjo institucional nesse sentido, muito menos protagonismo
estadual ou municipais para a efetividade da gestão do abastecimento rural, sendo assim
urgente e necessária a maior articulação entre as instâncias envolvidas e responsáveis.

Quanto ao Estado, detecta-se uma grande centralização na iniciativa, bem como nas
obras e pouco interesse na continuidade da intervenção, resultando em ausência de política,
apoio técnico e consequentemente, abandono dos sistemas e investimento dos recursos. Os
programas existem como resultado de empréstimos internacionais, sem dimensionamento da
continuidade. Atualmente há dificuldades de financiamento da manutenção e ampliação,
resultando em reduzida disposição de técnicos no planejamento e gestão. A inexistência de
um programa governamental para o saneamento rural independente de recursos externos
resulta em sucateamento dos sistemas e precarização da gestão, que facilitam a ineficiência e
ineficácia do modelo.

Dos sistemas implantados, a maioria encontra-se em funcionamento a partir do


voluntarismo comunitário ou da intervenção de Prefeituras. A operação e gestão dos sistemas
ocorrem na maioria dos casos com ressalvas e restrições de ordens variadas de acordo com as
especificidades locais, assim como existe variação de horários e dias de abastecimento,
setorizações de rede distintas e razões diversas para a existência do racionamento. No geral, o
corte programado resulta principalmente de incompreensão das possibilidades de manobras,
141

também serve como recurso de autoridade comunitária e, em poucos casos, da inadequação de


projetos e má execução de obras.

A diversidade de impressões e abordagens para o convívio com o racionamento reflete


também as diferenças de entendimentos e reações comunitárias. As compreensões sobre o
conceito de racionamento no abastecimento de água, a lembrança do processo de implantação,
as medidas tomadas ao longo tempo, a percepção dos impactos na manutenção do sistema,
são diversificados, mas constroem um clima de acomodação e pouca reflexão sobre as
condições precárias e inseguras de acesso à água.

A cultura do racionamento está consolidada, sendo percebida em 2/3 dos sistemas de


abastecimento implantados na Zona da Mata Pernambucana. Percebe-se a inexistência de
ações estatais ou comunitárias que minimizem ou eliminem o corte programado. Existe uma
acomodação natural que decorre da condição de vida precária anterior à implantação dos
sistemas. A maioria afirma que o sistema implantado melhorou a vida das pessoas. Apesar do
racionamento, o consumo é elevado, resultado do acúmulo doméstico que garante a segurança
no abastecimento. É notada a preocupação e esforço para garantir segurança hídrica familiar,
buscando frequentemente soluções para melhorar suas condições de acesso e de reservação.

Assim, conclui-se que o processo de racionamento implantado nos sistemas


comunitários rurais necessita da ampliação da discussão do modelo de gestão e operação dos
serviços de abastecimento de água. O acompanhamento técnico, a complementação das obras
e o controle estatal podem minimizar e até eliminar o racionamento nas comunidades. A
efetivação da gestão comunitária consorciada poderá facilitar esse processo, assim como os
investimentos em capital social e político que fortaleça as intervenções locais.

A democratização do acesso aos serviços de saneamento vai além da universalização


do abastecimento de água e requer a construção de uma política pública estruturada. O desafio
é a formulação de um modelo de gestão para o saneamento adequado ao ambiente rural
facilitando a superação das dificuldades encontradas e garantindo a sustentabilidade dos
empreendimentos implantados.
142

6.2 RECOMENDAÇÕES

Visando a garantia da regularidade e sustentabilidade dos sistemas de abastecimento


rurais, é necessário delimitar estratégias permanentes de ação e de políticas que envolvam
todos os entes envolvidos com a temática. Dessa forma, recomenda-se:

O FORTALECIMENTO DO MODELO DE GESTÃO COMUNITÁRIA

Para tanto, é necessário consolidar o acordo tripartite entre Associação, Prefeitura e


Estado com papéis claros e definidos para cada parte e que possibilite um arranjo institucional
para a gestão tendo o Estado (fomentador e executor de obras) como o protagonista e
articulador entre as instâncias de ação.

A RESTAURAÇÃO E APRIMORAMENTO DOS SISTEMAS ATUAIS

Apoio a reorganização e estruturação das estruturas existentes a partir de:

• Retomada da gestão comunitária nas localidades com sistemas em posse das


prefeituras;
• Revisão e complementação de obras, pendências e restrições ao funcionamento pleno
dos sistemas, inclusive garantindo a automação e introduzindo macromedidores e
hidrômetros nas comunidades onde não foram implantados;
• Revisão dos horários e manobras das localidades com racionamento a partir de
acompanhamento técnico;
• Desenvolvimento e incentivo de trabalhos educativos com usuários dos sistemas,
operadores e diretorias das associações;
• Efetivação da medição de hidrômetros, tarifação, cobrança e corte para os
inadimplentes nas comunidades onde tais ações não ocorrem.
143

A CRIAÇÃO DE UMA POLÍTICA ESTADUAL PARA O SANEAMENTO RURAL

Essa política deve perpassar gestões e conter:

• O Plano Estadual para o saneamento rural que apresente estratégias, diretrizes,


prioridades, metas de investimentos, fontes de recursos e um programa específico com
ações de curto, médio e longo prazo;
• Órgão central responsável pela execução da política de saneamento rural que garanta o
apoio técnico, a capacitação continuada e permanente, bem como a articulação
interinstitucional;
• Fundo específico para o saneamento rural com dotação permanente para ações a partir
de recursos próprios e captações externas, decididos a partir do plano e monitorados
com participação das associações.

A ELABORAÇÃO DE ESTUDOS FUTUROS

A possibilidade de novas pesquisas relacionadas com o abastecimento rural e o


racionamento de água na Zona da Mata Pernambucana pode ressaltar estudos sobre
diversos aspectos/campos do conhecimento, dentre estes:

• Os impactos da implantação dos sistemas na saúde da população;


• A gestão e qualidade da água de abastecimento;
• A operação e manutenção comunitária dos sistemas;
• Os mananciais de abastecimento das comunidades rurais;
• Os impactos sociais, econômicos e ambientais do racionamento;
• O envolvimento comunitário, familiar e pessoal com o sistema de abastecimento rural;
• O conhecimento técnico e popular na gestão do saneamento rural.
144

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150

APÊNDICE

APÊNDICE A – Questionários aplicados


151

Associação Instituto de Tecnologia de Pernambuco (ITEP-OS)

Mestrado Profissional em Tecnologia Ambiental

PROJETO DE DISSERTAÇÃO: O racionamento de água no abastecimento rural na


Zona da Mata de Pernambuco

ALUNO Alexandre Sávio Pereira Ramos

ORIENTADORA: Sônia Valéria Pereira

FORMULÁRIO DE ENTREVISTA COM REPRESENTANTE DO PODER PÚBLICO

Formulário nº: Data:

Local da entrevista: horário: Início: Término:

Codinome:

Instituição:

1. CARACTERIZAÇÃO DA PESSOA ENTREVISTADA

1.1. Idade:

1.2. Sexo:

1.3. Escolaridade

1.4. Profissão

1.5. Função que exerce:

1.6. Tempo de serviço na Gestão:

1.7. Tempo de serviço na função atual:


152

2. QUESTÕES NORTEADORAS

2.1. Sobre os sistemas de abastecimento rural

• Conhece os projetos dos sistemas de abastecimento?


• Foram projetados para garantir água num volume adequado? Quanto?
• Houve repasse da tecnologia de operação?
• Foi pensado inicialmente garantindo infraestrutura domiciliar (canalização interna e
reservatório)?
• Como foi o envolvimento comunitário no recebimento dos sistemas?
• Sabe como está funcionando os sistemas?

2.2. Sobre o racionamento

• O que é racionamento no abastecimento de água?


• Como surgiu o racionamento nas comunidades?
• Quem definiu o horário/dias?
• Houve acompanhamento técnico para definição de horário do racionamento?
• O volume garantido é suficiente para a comunidade?
• A regularidade e pontualidade são garantidas?
• Qual sua impressão sobre este sistema de racionamento de água?
• Em linhas gerais, porque você acha que existe o racionamento?
• Houve alguma ação educativa ou informativa decorrente da implantação deste sistema?
• É uma necessidade ter água o dia todo, todo dia?
• O que fazer para acabar com o racionamento?
• Em linhas gerais, qual a avaliação que os GESTORES fazem sobre o sistema de
racionamento?

2.3. Sobre as políticas públicas

Existe algum programa/projeto de intervenção no racionamento no abastecimento rural?

Que ações foram executadas para adequação ao racionamento?

Existem ações para reservação e qualidade da água armazenada?

Qual a influência do município no processo?

Como o racionamento se relaciona com as políticas públicas?


153

Associação Instituto de Tecnologia de Pernambuco (ITEP-OS)

Mestrado Profissional em Tecnologia Ambiental

PROJETO DE DISSERTAÇÃO: O racionamento de água no abastecimento rural na


Zona da Mata de Pernambuco

ALUNO Alexandre Sávio Pereira Ramos

ORIENTADORA: Sônia Valéria Pereira

FORMULÁRIO DE ENTREVISTA COM REPRESENTANTE DA ASSOCIAÇÃO LOCAL E


OPERADOR DO SISTEMA

Formulário nº: Data:

Local da entrevista: horário: Início: Término:

Codinome:

Instituição:

1. CARACTERIZAÇÃO DA PESSOA ENTREVISTADA

1.1. Idade:

1.2. Sexo:

1.3. Escolaridade

1.4. Tempo de moradia

1.5. Tempo de serviço comunitário

1.6. Quantidade de pessoas participantes da instituição


154

2. QUESTÕES NORTEADORAS
2.1. Sobre os sistemas de abastecimento rural
• Conhece os projetos dos sistemas de abastecimento?
• Foram projetados para garantir água num volume adequado? Quanto?
• Houve repasse da tecnologia de operação?
• Foi pensado inicialmente garantindo infraestrutura domiciliar (canalização interna e
reservatório)?
• Como foi o envolvimento comunitário no recebimento dos sistemas?
• Sabe como está funcionando os sistemas?

2.2. Sobre o racionamento


• O que é racionamento no abastecimento de água?
• Como surgiu o racionamento nas comunidades?
• Quem definiu o horário/dias?
• Como foi o processo de implantação deste sistema?
• Houve acompanhamento técnico para definição de horário do racionamento?
• Quais as medidas tomadas para adequação ao racionamento?
• Quanto tempo se gasta com o racionamento?
• O racionamento influencia na manutenção do sistema?
• O volume garantido é suficiente para a comunidade?
• A regularidade e pontualidade são garantidas?
• Qual sua impressão sobre este sistema de racionamento de água?
• Em linhas gerais, porque você acha que existe o racionamento?
• Houve alguma ação educativa ou informativa decorrente da implantação deste sistema?
• Quais os hábitos e rotinas comunitárias que sofrem influência do racionamento
• É uma necessidade ter água o dia todo, todo dia?
• O que fazer para acabar com o racionamento?
• Em linhas gerais, qual a avaliação que os MORADORES fazem sobre o sistema de
racionamento?

2.3. Para observar na comunidade


Conferir hidrometração/tarifa/cobrança
Descrever a percepção sobre o grau de satisfação da população com a quantidade,
qualidade e regularidade da água fornecida:
Registrar pessoas que desenvolvem ações no sistema (quantas e o que faz)

3. CONSTRUÇÃO DE UM MAPA/LINHA DO TEMPO


Levantar o cotidiano da operação do sistema, tentando descrever os momentos (com
fidelidade temporal) e as relações deste cotidiano com o racionamento de água, destacando
a estrutura e equipamentos do sistema relacionados com o racionamento.
155

APÊNDICE B – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido

Você está sendo convidado (a) para participar da pesquisa: O racionamento de água no
abastecimento rural na Zona da Mata de Pernambuco. Você foi selecionado (a) considerando sua
condição de representante da diretoria da associação local das comunidades com abastecimento
rural e sua participação não é obrigatória. A qualquer momento você pode desistir de participar e
retirar seu consentimento. Sua recusa não trará nenhum prejuízo em sua relação com a pesquisa ou
o pesquisador. O objetivo deste estudo é avaliar o racionamento de água em comunidades rurais
com gestão autônoma de serviços de saneamento inseridas na Zona da Mata de Pernambuco,
enfocando a identificação da estratégia de implementação do racionamento definidas pela
comunidade, mapeando a situação atual do racionamento nas comunidades rurais e propondo um
modelo de operação visando normalizar o abastecimento.

Sua participação nesta pesquisa constituirá em ser entrevistado respondendo sobre temas
relacionados ao acesso à água potável. Garantimos, sob quaisquer hipóteses, que sua participação
não trará riscos de constrangimentos perante pessoas e instituições públicas ou privadas, caso suas
opiniões, vierem a público. Pois tais informações obtidas através da pesquisa serão confidenciais e
asseguramos o sigilo sobre sua participação. Os dados não serão divulgados de forma a possibilitar
sua identificação.

Os benefícios relacionados com sua participação referem-se à contribuição para a compreensão


sobre a implantação do racionamento de água nas comunidades rurais da Zona da Mata de
Pernambuco e para a formulação de políticas públicas que se fundamentem em critérios de justiça
social.

Você receberá uma cópia deste termo onde consta o telefone e o endereço do pesquisador,
podendo tirar suas dúvidas sobre o projeto e sua participação, agora ou a qualquer momento.

Alexandre Sávio Pereira Ramos

Rua da União, 543/Apto. 901


Boa Vista - Recife – PE CEP: 50050-010
Telefones: 8844.1240 – 3183.1033 (trabalho)

Declaro que entendi os objetivos, riscos e benefícios de minha participação na pesquisa e


concordo em participar.

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