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PRO-

JETO
BRASIL
POPU
LAR
Cadernos
para debate
// 03
caderno para
debate / 03 SUMÁRIO

Quem somos 6
Eixo Temático - 3 Paradigmas 14

ESTADO,
Democratização da Justiça e Direitos Humanos 22
Estado, Democracia, Participação Popular
e Reforma Política 30

DEMOCRACIA Federalismo e Administração Pública


Relações Internacionais, Integração Regional e Defesa
36
42

E SOBERANIA
Segurança Pública 51
Sistemas de Comunicação 59

2020
Apresentação

Desde quando foram compostos os primeiros Grupos de Trabalho (GTs) do


Projeto Brasil Popular, em 2016, seus integrantes debateram e aprofundaram o
diagnóstico e as propostas existentes para cada área temática.
Os GTs estão distribuídos em quatro eixos: 1 | Direitos, 2 | Economia,
Desenvolvimento e Distribuição de Renda, 3 | Estado, Democracia e Soberania
e 4 | Igualdade, Diversidade e Autonomia. Os textos que compõem esse caderno
foram formulados por uma equipe de redatores junto com a Secretaria Nacional
do Projeto Brasil Popular partindo dos subsídios produzidos pelos GTs do Eixo
Temático 3: Estado, Democracia e Soberania.
Esta é uma versão de texto para estudo e debate!
Todos/as podem enviar sugestões e contribuições para a Secretaria Nacional
do Projeto Brasil Popular por e-mail: contato.grupoprojetobrasil@gmail.com
Sua contribuição é muito importante para o aprimoramento das nossas propostas.
Desde já, agradecemos e convidamos os leitores a conhecerem as produções dos
GTs dos demais eixos.
Vamos todos/as construir o Projeto Brasil Popular!
Secretaria Nacional Projeto Brasil Popular
embora se trate de uma preocupação permanente, não temos conseguido
Quem produzir formulações e estratégias unitárias de médio e longo prazos que
nos possibilitem mobilizar força social em torno de uma proposta viável de
Somos? desenvolvimento para o país.
Entendemos ser fundamental que, em paralelo à formulação de análises
e propostas, possamos reafirmar a necessidade de diálogo com as bases
sociais e o compromisso e disponibilidade para debater ideias com o povo.
Diante da profunda crise política, econômica e social que o Brasil atravessa Mobilizados por essa perspectiva, desde fevereiro de 2016, viemos nos
no último período, diferentes forças da esquerda e suas bases sociais dedicando à tarefa de discutir e formular o conteúdo programático de um
identificaram a necessidade de criar um espaço de união e debate, com o projeto nacional, democrático e soberano, que represente uma oportunidade
objetivo de, junto à sociedade brasileira, formular um projeto nacional. de construção de uma nova hegemonia de forças construída a partir do
Acreditamos que esse processo auxiliará na organização da luta de massas, diálogo junto ao povo brasileiro.
ou seja, na construção de força social em torno de propostas que possam
transformar a realidade brasileira.
Não é de hoje que homens e mulheres debatem um projeto de país.
Entendemos essa tarefa como permanente para a vida dos povos, além
de estratégica para os setores populares. Diante de um período em que
o processo de desmonte da nação é reforçado, tal tarefa torna-se ainda
mais urgente, além de oportuna, dada as condições criadas a partir das
necessidades concretas da população. O que aqui chamamos de projeto
nacional é um conjunto de temas, diagnósticos e propostas que apontam
dilemas estruturais do nosso país e caminhos pelos quais é possível resolver
os atuais problemas na vida do povo.
A esquerda brasileira já formulou importantes contribuições para esse
debate. Porém, historicamente, o processo de produção dessas reflexões,
via de regra, não esteve combinado com a articulação com movimentos
populares e sindicais, resultando em formulações teóricas que, embora
consistentes, tiveram pouca capacidade de enraizamento social. Nas últimas
décadas, nossas formulações e estratégias não avançaram rumo à construção
de um projeto de nação ou de um programa amplo, que transcenda medidas
imediatas e emergenciais, ou as plataformas e programas eleitorais. Assim,

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Vida Boa para todos/as ou Bem Viver: compreendemos o ser
O que humano em sua integralidade e afirmamos que a vida deve ser vivida
em todas as suas dimensões, por isso, devemos orientar as formas de
queremos? produção dos bens, a reprodução social e os bens públicos para garantir
a qualidade de vida de todos/as. Quanto ao Estado, ele deve atuar para
proporcionar ao povo uma vida que valha a pena ser vivida. Isso se
Como dito anteriormente, não partimos do zero. Há acúmulos de diversos vincula à garantia do exercício de um conjunto de direitos, mas também
setores construídos ao longo da história. O projeto de país que estamos a uma outra forma de organizar a produção, a reprodução e o consumo.
construindo deve expressar esses acúmulos e reflexões.
Bens comuns: prezamos pela garantia e soberania dos bens
Fundamentalmente, nos propomos a construir um projeto para o Brasil que compartilhados pelas comunidades. A natureza, o ar, a água, a
aponte para a superação de todas as formas de desigualdades, exploração e cultura, a linguagem, os conhecimentos tradicionais e o patrimônio
falta de liberdades. Portanto, um projeto que promova rupturas com o passado histórico, assim como a própria comunidade em que nos inserimos, são
escravocrata, colonial, patriarcal, ditatorial, antipopular e que responda a um bens comuns e, em conjunto, sustentam a vida humana. Ao contrário do
presente de crise no qual essas dimensões estruturais da exploração, dominação que afirma o ideário de atribuição de valor capitalista, os bens comuns
e opressões se intensificam. têm seu valor medido pelos benefícios que produzem ao coletivo e sua
Acreditamos que a melhoria das condições objetivas de vida do povo preservação não deve estar condicionada ao retorno financeiro, mas sim
brasileiro depende de um modelo de desenvolvimento econômico, político, ao compromisso de uso comum a longo prazo.
cultural e ambiental capaz de distribuir igualitariamente as riquezas e a Igualdade e diversidade: buscamos superar as condições de
renda gerada por toda a sociedade, além de orientar como serão tratados opressão e engendrar novas relações sociais entre as pessoas e os povos.
nossos bens públicos. As bases para a construção desse projeto popular No Brasil, a desigualdade é um componente histórico e estrutural,
para o Brasil estão alicerçadas na construção de um novo Estado orientado que tende a reproduzir novas formas permanentes de exclusão e
por novos paradigmas. discriminações. O enfrentamento à desigualdade tende a encontrar
Dessa forma, reafirmamos que há a necessidade de, durante o processo de resistência de uma parte da sociedade, mas não é possível caminhar na
formulação do projeto, construirmos referências de valores e princípios capazes perspectiva de transformar a sociedade sem enfrentar todas as dimensões
de contribuir para análise crítica da complexidade do presente e enunciar o desse problema: desigualdade econômica, regional, cultural, racial, de
futuro inédito que queremos compartilhar. Essas referências fundamentais gênero, de conhecimento, de acesso a serviços sociais de qualidade,
sobre as quais serão assentadas as bases do nosso projeto de sociedade são divisão social e sexual do trabalho etc. A construção da igualdade é
os nossos paradigmas, capazes de exprimir as referências estruturantes da uma referência para a formulação de um projeto para o país que deve
sociedade que queremos construir. Definimos os seguintes paradigmas que passar pela defesa de políticas que contribuam para o combate das
guiam nossas reflexões: exclusões, discriminações e as fontes de produção e reprodução das
diferenciações sociais e econômicas.

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Democracia, participação e autonomia: trabalhamos a partir da
compreensão de sentido público do Estado, retirando-o da condição Método de construção
do projeto
de mero prestador de serviços para o povo, mas como um garantidor
de direitos, comprometido com a autodeterminação dos povos, com
o respeito à diversidade e com papel ativo na construção de uma
sociedade igualitária. Partimos de um contexto histórico que demanda um debate de projeto
Soberania nacional e desenvolvimento: apontamos um caminho de país, o que se torna ainda mais urgente diante da gravidade da crise e
para o desenvolvimento no qual a distribuição da riqueza seja justa e do desmonte da nação. Entendemos que a burguesia não possui um projeto
onde os compromissos sociais não se submetam à lógica da economia nacional e utiliza o contexto de crise econômica para provocar instabilidade
de mercado. A soberania nacional é compreendida como a garantia de política e impor um projeto neoliberal que atualmente ganha contornos
autodeterminação do conjunto do povo brasileiro para escolher e decidir ainda mais agressivos e autoritários. Diante disso, é tarefa primordial da
sobre seu próprio destino. Ao propor também o desenvolvimento como esquerda se debruçar na elaboração de um projeto popular para o país.
eixo paradigmático, queremos afirmar a necessidade de desenvolver as O método de construção desse projeto, portanto, é tão importante
forças produtivas em um país periférico, respeitando, porém, o meio quanto o resultado. Entendemos que o programa só cumprirá sua função
ambiente e proporcionando condições dignas de vida a todos e todas. se for uma produção coletiva que combine conhecimento científico e
Esses paradigmas são referências para os debates dentro dos GTs, dos eixos militância social. Só assim será ampliada nossa capacidade de mobilização:
e do Projeto como um todo. Os GTs, porém, a partir de uma perspectiva considerando o povo como protagonista das mudanças. Por isso, devemos
cíclica de construção, devem ao mesmo tempo em que partem desses constantemente cotejar com a realidade as nossas reflexões, interpretar as
paradigmas para construir propostas, enriquecê-los com novas formulações. contradições e a partir delas formular novas propostas. O método com
Através deles buscamos reafirmar a generosidade humana do projeto o qual nos propomos a trabalhar é coletivo, dialógico e dialético, capaz
que propomos e seu esforço permanente em afirmar e resgatar os valores de envolver diversos setores, conjugando especificidades e especialidades,
humanistas que orientam a busca da emancipação e da libertação do ser temas, regiões, naturezas diversas dos sujeitos, colocando em diálogo
humano das mais variadas formas de opressão e alienação. perspectivas mais gerais e mais específicas.
O processo de construção será contínuo, partindo da produção de sínteses
que serão aprofundadas, gerando a construção de novas sínteses. Temos
desafios importantes: 1 | produzir um projeto de nação; 2 | transformar esse
projeto em um instrumento do processo político pedagógico que estimule
nosso povo a debater, criticar e formular novas questões; 3 | formular
sínteses coletivas a partir desse acúmulo e criar força social em torno
dessas propostas. Nesse sentido, esse é um processo contínuo no tempo
e na sua intencionalidade, um processo permanente de disputa de
hegemonia na sociedade brasileira.

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Atualmente, possuímos 31 grupos de trabalho temáticos (GTs) que
possuem a tarefa prioritária de refletir sobre temas estratégicos para a
Eixos e Grupos de
formulação de um projeto. Esses grupos são constituídos por intelectuais
e acadêmicos comprometidos com o desenvolvimento do país; militantes
Trabalhos Temáticos
dos movimentos populares que trazem o acúmulo de propostas de cada
organização; e trabalhadores com experiência em gestão de políticas públicas e
com conhecimento em diversas áreas. Os GTs debatem e formulam propostas Direitos Estado, Democracia
de modo a obter uma elaboração programática que possa posteriormente ser Cidade e Soberania Popular
discutida pela sociedade, buscando com isso agregar força social e apontar Cultura Democratização da Justiça
para as bases de um projeto de país. Educação e Direitos Humanos
Esporte Estado, Democracia,
Além dos GTs, foram estabelecidos Eixos Temáticos. A discussão em
Religião, Valores Participação Popular e
eixos objetiva potencializar a transversalidade dos temas e garantir que
e Comportamento Reforma Política
os documentos produzidos por eles tenham unidade programática. O
Saúde Coletiva Federalismo e
Eixo Temático realiza a síntese integrada dos debates realizados pelos
Administração Pública
GTs, sendo o espaço prioritário de sistematização e aprofundamento de
Economia, Sistemas de Comunicação
propostas e pontos divergentes.
Desenvolvimento e Relações Internacionais,
Não devemos ter a pretensão de dar solução para tudo, muito menos Distribuição de Renda Integração Regional e Defesa
em nome de todos e todas, mas buscaremos agir em torno de um esforço Agricultura Biodiversidade Segurança pública
coletivo e intelectual, para formular um projeto que sirva como referência e Meio Ambiente
para as lutas sociais e para o pensamento crítico brasileiro. Amazônia Igualdade, Diversidade
Somar-se ao Projeto Brasil Popular é vislumbrar a esperança de Ciência, Tecnologia e Inovação e Autonomia
construção coletiva das condições que irão possibilitar ao Brasil ser um país Demografia e Migrantes Igualdade Racial e
mais justo, soberano e democrático. Desenvolvimento Regional Combate ao Racismo
Economia Juventude
Energia e Petróleo LGBTI+
Financeirização Mulheres
Mineração Povos Indígenas
Reforma Tributária
Seguridade Social e Previdência
Semiárido
Trabalho, Emprego e Renda
Transportes e Logística

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O futuro é inédito e está para ser construído e reconstruído de forma

Paradigmas
permanente. Projetar esse futuro e construí-lo no presente, por meio dos
processos de luta, requer ferramentas capazes de dar conteúdo àquilo que

do Projeto podemos denominar de nossa utopia: a sociedade que queremos construir.

Brasil Popular A compreensão de paradigma


Utilizamos os paradigmas para indicar que há a necessidade de, durante
o processo de formulação, adotar referências, princípios, sensibilidades,
A presente proposta está em permanente elaboração, no entanto, buscamos noções mestras e conceitos capazes de analisar criticamente a complexidade
apresentar aqui sinais balizadores importantes para o atual momento histórico do presente e enunciar o inédito futuro que queremos construir. Essas
de construção de um Projeto Popular para o Brasil. O presente documento referências fundamentais sobre as quais serão assentadas as bases do nosso
expressa o acúmulo das discussões realizadas, mas que continuam em aberto projeto de sociedade são os nossos paradigmas.
para novas formulações e debates.

Insuficiência das elaborações


Objetivo teóricas e práticas sociais:
A discussão de paradigmas tem a finalidade de estabelecer referências para
a construção de um Projeto para o Brasil. Entendemos que as formulações abertura para o novo.
teóricas e as elaborações programáticas dos movimentos sociais fornecem as Pensar em paradigmas na perspectiva de construir um projeto inédito, nos
bases para um programa coerente e coeso que corresponda às necessidades desafia a partir do pressuposto da insuficiência do que estamos produzindo
deste momento histórico tão desafiador. e da necessidade de incluir novas dimensões na nossa práxis teórica e social,
levando em conta as elaborações e experiências já adquiridas na nossa
A construção de uma sociedade fundada na justiça social, na igualdade, na caminhada pela transformação social.
liberdade, na diversidade, e organizada com base na democracia, no Estado
de Direito, na sustentabilidade e na soberania, requer um projeto capaz de
reunir as forças sociais, econômicas, políticas e culturais, mobilizando-as Crise civilizacional
para uma longa empreitada de profundas transformações. A construção de um projeto para o país apresenta como pressuposto a
Nesse sentido, há um esforço permanente para dar conteúdo ao projeto, visão de que estamos vivendo um momento de crise civilizatória, em que
formulando novas referências que sejam capazes de orientar o movimento as bases da organização social estão colocadas em xeque, o que abre espaço
de construção e as lutas pela transformação social. Para tal, apostamos no para a formulação e disputa de novas perspectivas para uma revolução de
diálogo e no debate entre movimentos sociais, intelectuais e acadêmicos que nossos paradigmas de sociedade, “em toda a constelação de opiniões, valores
se dedicam a pesquisar, refletir e atuar sobre a realidade brasileira, propondo e métodos participados pelos membros de uma sociedade, fundando um
soluções para seus problemas históricos. sistema articulado mediante o qual a sociedade e o conjunto de suas relações
se orienta e se organiza”, como aponta Leonardo Boff. Isso implica em uma
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crítica radical ao tipo de civilização existente e a criação de novos sonhos, 1 | Vida boa para todos
novos valores, novos comportamentos, novas sensibilidades, novas relações, Nos inspiramos aqui em nossos irmãos andinos e o buen vivir ou, como
formas novas de ver, pensar e agir sobre o mundo. Disso nasce, se constrói e afirmam algumas economistas feministas, “uma vida que valha a pena ser
se disputa um novo paradigma. vivida”. Trata-se de garantir o exercício de um conjunto de direitos, mas
também uma outra forma de organizar a produção, a reprodução e o
Nosso desafio é transformar os paradigmas em soluções concretas para os
consumo. Toda a prática social e as formulações políticas precisam contribuir
problemas da sociedade brasileira, práticas exemplares que superem as antigas
para geração de qualidade de vida em todas as suas dimensões. Para tanto,
e se tornem ideias aglutinadoras da esperança de transformação social. Para
é necessário inverter o modelo de produção centrado no lucro, que acumula
isso, faz-se necessário reinventar um novo modo de estar no mundo, criar
riqueza nas mãos de poucos e condena milhões de pessoas à miséria. As
novas formas de gerir o Estado e as relações sociais e econômicas, o que
perguntas chave são o que, como, para que e para quem produzir? E mais:
implica novas formas de produzir, distribuir, consumir, habitar e conviver.
como organizar a reprodução da vida, de modo que seja compartilhada entre
É importante construir progressivamente as bases para uma sociedade que
homens e mulheres, e que esteja no centro um modelo econômico, político e
esteja em sintonia com os ritmos e limites da natureza. Os paradigmas
social que coloque a sustentabilidade da vida como primordial?
indicam duas dimensões combinadas: como progressivamente melhorar a
vida das pessoas, mas também apontar transformações mais profundas que É fundamental atuar aqui e agora para estabelecer um processo de
busquem superar o capitalismo e construir uma nova sociedade. transição para o novo modelo. A transição nos impõe a urgência de
limitar o extrativismo e combater a mercantilização da vida. Isso implica
realizarmos mudanças na produção como, por exemplo, privilegiar o
Os eixos estruturantes transporte coletivo em detrimento do individual, adotar a agroecologia
dos paradigmas em vez da agricultura industrial, investir na durabilidade dos produtos,
A construção de uma sociedade sustentável exige superar as desigualdades contrapondo-se à estratégia da obsolência programada, criar políticas
econômicas, políticas e sociais e incorporar a cidadania na forma de para o cuidado que reorganizem espaços e promovam ações coletivas e
participação popular no exercício da democracia, bem como o respeito às comunitárias, promovendo a cultura da suficiência.
diferenças culturais e a consolidação de valores éticos de respeito à vida em Uma vida boa para todos e todas almeja que todos possam ter acesso à
suas múltiplas expressões. integralidade dos benefícios construídos pela humanidade, gerando o
Os paradigmas que elegemos como norteadores para construção do desenvolvimento de um conjunto de potencialidades, criatividade, relações
projeto são: prazerosas e de satisfação das necessidades.

1 | Vida boa para todas e todos 2 | Bens comuns


2 | Bens comuns São aqueles que uma comunidade ou uma população compartilham e
3 | Igualdade e Diversidade aos quais todos e todas têm acesso, sem que sejam propriedade privada.
4 | Democracia, Participação e Autonomia A natureza (ar, água), a cultura (linguagem, conhecimentos tradicionais
5 | Soberania e Desenvolvimento patrimônio histórico), e a própria comunidade em que nos inserimos, seja o

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espaço físico, seja a internet, são bens comuns e, em conjunto, sustentam a classe, relações sociais entre gêneros e raças como condição para superar
vida humana. as relações de dominação impostas pelo capitalismo. A desmercantilização,
a superação da divisão sexual do trabalho e a solidariedade são elementos
Ao contrário do que afirma o capitalismo, os bens comuns têm mais valor
centrais para a construção de práticas que respeitem a autonomia e a liberdade
quanto mais abundantes são. Seu valor não é medido de forma financeira,
de todas as pessoas.
mas pelos benefícios que produzem, e sua preservação não depende do
retorno financeiro, e sim do compromisso comum de longo prazo. O Brasil possui altas taxas de violações de direitos humanos, entre os
quais destacamos o genocídio da juventude negra, dos povos indígenas,
Há uma urgência em reconectar as esferas da produção, reprodução e
e a violência patriarcal contra mulheres e meninas (incluindo femicídios,
consumo, separadas pelo capitalismo. Essa reconexão é que nos propiciará
violações, abusos sexuais e assédios de diferentes tipos), e contra a população
as transformações necessárias em nosso cotidiano para atuar em termos de
LGBTI+. A isso se soma a não representação política desses setores da
recuperação e produção dos bens comuns.
população. Há ainda índices alarmantes de tráfico de pessoas, em particular
de mulheres, geralmente para fins de exploração sexual.
3 | Igualdade e Diversidade
As profundas e enraizadas hierarquias na sociedade brasileira exigem um
A produção da desigualdade é intrínseca ao capitalismo. Quando mais
compromisso prioritário com o desmantelamento desses sistemas de opressão
o mercado é “livre” e “autorregulado”, maior tende a ser a desigualdade
e que não passa apenas por uma questão de classe, embora seja necessário
que produz. Atualmente, o 1% mais rico acumula a mesma quantidade de
considerar essa imbricação e consubstancialidade das relações sociais.
riqueza dos 50% mais pobres. No Brasil, a desigualdade é um componente
histórico e estrutural que tende a reproduzir novas formas permanentes de Nosso princípio é que a ampliação e distribuição da riqueza é um meio para
exclusão e discriminação. É uma desigualdade que atravessa a sociedade, viabilizar uma vida boa para todos e todas, diminuindo progressivamente
encontrando respaldo político em segmentos médios e ricos da sociedade. todos os tipos de desigualdades, opressões e discriminações sociais; por isso,
O enfrentamento da desigualdade tende encontrar resistências, mas não é a questão do direito à igualdade necessita ser articulada com a diversidade.
possível caminhar na perspectiva de transformar a sociedade sem enfrentar
todas as dimensões da desigualdade: econômica, regional, cultural, racial, 4 | Democracia, Participação e Autonomia
de gênero, de conhecimento, acesso a serviços sociais de qualidade, divisão A participação popular ativa e a democratização do Estado estão
social e sexual do trabalho etc. A construção da igualdade é uma referência vinculadas à força dos movimentos e organizações populares. Considerando
para a formulação de políticas de um projeto para o país que empregue as múltiplas opressões na sociedade brasileira, é de fundamental importância
políticas que combatam as exclusões, discriminações e as fontes de produção a organização de diversos sujeitos coletivos em nossa sociedade. Essa
de diferenciações sociais e econômicas. É também fundamental defender a organização que responda à diversidade de problemáticas deve criar sinergia
democratização do conhecimento e da cultura, em todas as suas expressões, para a definição de um projeto integral que rompa com as fragmentações e
na perspectiva de todas e todos terem acesso a eles. hierarquias internas da classe trabalhadora.
O capitalismo e o patriarcado são parte de um único sistema que estrutura Só com uma organização enraizada e que dê protagonismo a um conjunto
as relações sociais com base na exploração, na opressão e no racismo. A de setores invisibilizados pelo silêncio e exclusão é que se garantirá,
contraposição a esse modelo deve articular necessariamente a dimensão de: nas práticas concretas, a democratização da sociedade, a recuperação e

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construção dos bens comuns, o enfrentamento das elites e a construção de Não é possível pensar um projeto para o Brasil sem ter como fundamento
um posicionamento emancipador e libertário. a soberania sobre o território e suas riquezas naturais com a garantia
militar de sua defesa, a autodeterminação política da Nação, incluindo sua
Entendemos também que há de se combater a concentração dos meios
produção científica e tecnológica e a plena governabilidade sobre a própria
de comunicação em mãos de poucos grupos econômicos, e afirmamos
economia. As soberanias energética e alimentar também são basilares em
a urgência de uma ampla democratização da comunicação, que passa
termos políticos e econômicos.
por garantir a neutralidade e liberdade dos fluxos de informação na
infraestrutura das comunicações e de internet, portanto, pelo combate Propor desenvolvimento como eixo paradigmático significa afirmar
à lógica capitalista da propriedade intelectual. Ademais, partindo a necessidade de desenvolver as forças produtivas em um país periférico,
do princípio de que o conhecimento liberta as pessoas, é necessário respeitando a sustentabilidade ambiental, e proporcionando condições dignas
democratizar a cultura e o conhecimento. de vida a todos e todas. Deve ser um desenvolvimento pluridimensional,
altamente diversificado, fortalecendo os setores que possam atender as
Precisamos recuperar o sentido público, inclusive do Estado. Queremos
necessidades da população e as estratégias da Nação. Um desenvolvimento
um Estado que realmente seja capaz de garantir nossos direitos e esteja
que garanta qualidade de vida, inclusive possibilitando que os ganhos
a serviço da sociedade e do povo, exercendo seu poder e sua gestão de
tecnológicos sejam redistribuídos entre todos, a fim de que as pessoas
forma democrática, transparente e com participação popular. Um Estado
possam ter tempo para viver todas as dimensões da vida para além do
comprometido com a autodeterminação dos povos, que respeite a diversidade
trabalho. Precisamos também ter no horizonte a superação progressiva do
e seja ativo na construção de uma sociedade igualitária.
assalariamento e a garantia de uma renda básica para todas as famílias,
Isso implica um papel ativo no âmbito internacional que promova a independente da ocupação e do tempo dedicado ao trabalho.
integração dos povos. As políticas entre os países devem basear-se nos
princípios da solidariedade, reciprocidade e redistribuição.
Nesse sentido, seguimos com nossa luta pela desmilitarização e
Afirmação dos Valores Humanistas
Nunca é demais afirmar a valorização e o cultivo da generosidade humana
questionamos o papel do poder econômico em intervenções militares
em nosso projeto e seu esforço permanente em afirmar e resgatar valores
realizadas em nome do controle de territórios ricos em bens naturais.
humanistas que orientem a busca pela emancipação e libertação do ser
Quando falamos em autonomia, incluímos também o respeito às formas humano das mais variadas formas de opressão e alienação. A busca pela
de organização populares dos povos indígenas, quilombolas, pescadores, e igualdade, liberdade, solidariedade, respeito, pluralidade, sororidade,
outras comunidades. fraternidade, dignidade, respeito a todas as formas de vida proteção na
  infância e velhice serão valores com força vital a orientar permanentemente
5 | Soberania e Desenvolvimento o esforço de construir um Projeto Popular para o Brasil.
Soberania Nacional é a garantia de autodeterminação do povo brasileiro
para escolher e decidir sobre seu próprio destino. Defendemos uma ideia
de emancipação na qual o povo decide os rumos e defende seu território e
bens comuns.

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democráticas predefinidas, sua mediação entre os diferentes grupos sociais,
DEMOCRATIZAÇÃO e destes contra o Estado, revela-se, no mínimo, problemática.

DA JUSTIÇA E
DIAGNÓSTICO
DIREITOS HUMANOS A estrutura do sistema de justiça brasileiro blinda o poder judiciário, o
que entra em contradição com os princípios da democracia e da soberania
popular. O operador do Direito tende a interpretar a lei de acordo com sua
própria visão de mundo. Mas se a decisão judicial constitui um exercício
INTRODUÇÃO de poder político, é necessário proteger as decisões não apenas da visão de
A democratização da justiça e dos direitos humanos tem seus princípios na
mundo de quem interpreta a lei, como também do risco de interpretações
Constituição Federal de 1988, que prevê a proteção a direitos individuais e
que apenas reproduzam a ordem econômica e política. Daí a importância de
coletivos, baseados nos princípios da cidadania, soberania popular, promoção
que os operadores do Direito obedeçam à estruturas democráticas de gestão
do bem de todos sem discriminação de qualquer tipo, promoção dos direitos
do poder judiciário.
humanos e direitos sociais. A Constituição trata a justiça como tema amplo
que não apenas envolve as pretensões – individuais e coletivas – levadas ao O que se vê, entretanto, de forma geral, é um compromisso ideológico
judiciário, mas a promoção de políticas públicas que ajudem a construir uma entre o judiciário e a ordem estabelecida. A justiça acaba por tornar-
sociedade livre, justa e solidária. se mais um instrumento da classe social hegemônica para reproduzir as
desigualdades. Temos, nesse sentido, um sistema de justiça marcado pela
A estrutura política brasileira se divide entre o poder de criação das leis
confusão entre o público e o privado, onde o Estado é visto como um bem
(legislativo), o poder de executá-las (executivo) e de julgar a aplicação das leis
pessoal, um “patrimônio” daqueles que historicamente utilizam o poder
(judiciário). A importância do judiciário se funda, portanto, nessa relação com
para fins particulares. Algo que a Operação Lava Jato nos confirma de
os outros poderes, segundo as premissas do Estado Democrático de Direito.
maneira exemplar.
A função do sistema de justiça na distribuição de direitos é decisiva, uma
A desproporção do poder judiciário em relação aos outros poderes da
vez que cabem aos seus órgãos (magistratura, ministério público e defensorias
República se ancora no modelo de garantia de livre opinião do intérprete da
públicas), além da advocacia, a disputa pela interpretação das leis. Ou seja,
lei desenhado pela Constituição de 1988, no contexto da redemocratização.
a função mais importante na democratização da justiça e na promoção dos
Tal modelo deu à magistratura e ao Ministério Público um desenho político-
direitos humanos é daqueles agentes do Estado a quem cabe dizer qual o sentido
institucional flagrantemente individualista e desvinculado de qualquer
em que a lei deve ser aplicada, seja no caso de limitar a atuação do Estado, seja
controle democrático.
no caso de avaliar políticas públicas ou mesmo obrigar o Estado a agir.
Uma vez selecionados por concurso público, os agentes da justiça
Mas a função democrática de julgar a adequação dos atos políticos (do
submetem-se exclusivamente ao controle de um pequeno grupo dentro
legislativo e do executivo) à Constituição Federal cabe ao único poder
de suas instituições, geridas pelos interesses das elites. Curiosamente, as
político da República que não possui qualquer instrumento de controle
corregedorias ainda se baseiam em lei anterior à redemocratização, a Lei
democrático. Assim, sua tarefa de arbitrar conflitos de acordo com regras
Orgânica da Magistratura Nacional (Loman), de 1979.
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Quanto à política de gestão do judiciário, é seguido um modelo no O modelo de ascensão da magistratura e a indicação para os tribunais
qual o critério de antiguidade é fundamental para manter os mais velhos de segunda instância e superiores é historicamente condicionado por
como líderes responsáveis pela conservação de privilégios concentrados nas dois fatores: (1) os pequenos grupos de gestão da instituição tem o poder
cúpulas (presidência e corregedoria) dos Tribunais de segunda instância. A de indicar os nomes da lista tríplice a ser apresentada aos governadores e
falta de mecanismos democráticos garante a concentração do poder político Presidente da República (que, no caso do STF faz a indicação livremente
nos concursos para ingresso na carreira, nas promoção de membros para quando um ministro se aposenta, já que se trata de cargo vitalício); (2) a
os tribunais, nos processos disciplinares e na remoção e transferência de tendência ao fisiologismo político-partidário característico dos governos de
membros pouco alinhados com a gestão oligárquica. coalizão no loteamento dos cargos da justiça, o que é ainda mais sensível
pelo fato de que se tratam de cargos vitalícios e de desproporcional poder de
Outro ponto é a falta de controle sobre o orçamento do judiciário que,
interferência sobre questões políticas, econômicas e sociais.
em 2015, foi de R$ 79,2 bilhões (1,3% do PIB, e 2,6% das despesas da
União). Pesquisas estimam que 70% dos juízes e procuradores ganham No que diz respeito à Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), deve
acima do teto constitucional. ser problematizada a gestão política aliada à lógica de mercado, tanto no
ingresso de seus membros nos tribunais, quanto nas campanhas para a
Os altos salários de membros concursados do judiciário muitas vezes são
Presidência da entidade. Tais fatores contribuem para o distanciamento de
justificados por meio do argumento da meritocracia, entretanto, é importante
pautas sociais, sobretudo aquelas vinculadas à desigualdade histórica da
lembrar que os concursos públicos selecionam indivíduos em uma base
sociedade brasileira.
já elitizada da sociedade devido ao sistema educacional historicamente
excludente no Brasil. À desigualdade no acesso combina-se a tendência da A justiça só se legitima por meio da democratização de direitos, uma vez
classe média de se acomodar, depois de concursada, a um estilo de vida que que a dimensão essencial da democracia está não apenas em garantir direitos
pouco considera a desigualdade social brasileira. O critério meritocrático já existentes, mas em promover as condições para a sua efetivação através
reforça a mentalidade individualista da cultura judiciária, tendencialmente de políticas e de serviços públicos. Essa tarefa ressalta o poder político do
descompromissada com os direitos humanos. judiciário, sobretudo quando confrontado com demandas sociais excludentes,
inconciliáveis do ponto de vista do bem comum, devendo posicionar-se para
Assim, toda a cultura jurídica nacional deve ser problematizada, desde a
compensar desigualdades históricas. O confronto entre a justiça social e a
formação elitizada ao recrutamento meritocrático das carreiras do sistema
legalidade estrita é a condição para a democratização da justiça e para a
de justiça. A visão de acordo com os interesses de classe está na base do
promoção dos direitos humanos.
mito da neutralidade ideológica do direito. A ideologia da imparcialidade
jurídica encobre, em vez de explicitar, as motivações dessa ponderação e a Há, ainda, um tema extremamente relevante relativo à democratização da
sua necessidade. justiça no Brasil: a crítica à estrutura, formação, atuação e independência das
polícias (sobretudo a independência da Polícia Federal, muitas vezes decisiva
A composição da oligarquia judiciária evidencia a reprodução de
para a investigação de casos envolvendo poderes políticos e econômicos). A
desigualdades históricas. De acordo com o Conselho Nacional de Justiça
ideologia que defende a repressão policial está em total contradição com os
(CNJ), 84% da magistratura é branca; na primeira instância cerca de
direitos humanos, e o controle institucional de condutas abusivas cometidas
63% são homens, índice que aumenta para 80% nos tribunais de segunda
por seus agentes está longe de prevenir a repetição de abusos de poder.
instância e para cerca de 89% nos superiores.

24 25
Essa ideologia reforça os estigmas contra grupos socialmente vulneráveis. A democratização nos processos de acesso às carreiras da justiça, incluindo
A violência contra eles é banalizada, sempre legítima e justificável, mesmo o expediente das cotas como política de ação afirmativa; e a flexibilização de
quando a ação da polícia é flagrantemente ilegal. A manipulação do medo critérios antidemocráticos nas carreiras do sistema de justiça.
faz do suposto combate à violência um combate às próprias populações
vulneráveis consideradas como responsáveis pela violência estrutural de 2 - Mudanças nos Tribunais
que são vítimas. Assim, por exemplo, a violência da falta de moradia é
A instituição de mandatos para a composição dos Tribunais, incluindo o
transformada, pelo discurso hegemônico, em criminalização dos movimentos
Supremo Tribunal Federal (STF).
sociais que lutam por habitação.
Transformação do STF em Corte Constitucional, retirando o seu caráter
de instância recursal, priorizando-se desse modo a decisão sobre questões
PROPOSTAS estratégicas de relevância política.
Atualização da Lei Orgânica da Magistratura Nacional (Loman)
1 - Controle social sobre o judiciário e soberania popular com participação social, instituindo a eleição dos gestores da máquina
Implementar mecanismos de participação e controle social na estrutura jurisdicional (presidência de Tribunais, órgãos de direção e corregedorias)
institucional através da criação de Conselhos de Controle Externo da Justiça com a participação da magistratura de primeira instância e dos servidores
com efetiva participação social, superando o modelo de controle interno e da justiça.
corporativo instituído pelo CNJ (onde a presidência e 9 dos 15 integrantes Participação social nos procedimentos de indicação de membros da
são membros do judiciário) e CNMP (onde a presidência e mais 7 dos advocacia e do Ministério Público para os tribunais, sem prejuízo da criação
conselheiros são membros do MP). de critérios eleitorais.
Implementação de ouvidorias-externas em todas as instituições de justiça Dissociação entre processos de seleção de ingresso e promoção, e a gestão
e segurança pública, ocupadas por membros externos à respectiva carreira, dos tribunais (presidência e corregedoria), transferindo-se funções para
com mandato eletivo por indicação da sociedade civil organizada, com órgãos como Conselhos Sociais de Justiça, com a participação da sociedade
poderes de escuta e assento nos órgãos de gestão das instituições do sistema civil, a fim de democratizar a justiça e desconcentrar o poder.
de justiça, inclusive OAB.
As instituições do sistema de justiça devem se aproximar da sociedade civil 3 - Mudanças nos critérios de ingresso nas carreiras do sistema de justiça
organizada e estarem a serviço da população, buscando reconhecimento de
Valorização de projetos de superação do modelo meritocrático, seja com
sua legitimidade social, com o fomento da capacitação e do empoderamento
a eleição de juízes e promotores, seja com a valorização de outros critérios
da sociedade civil para a elaboração de experiências comunitárias de gestão
complementares ao atual modelo, como a participação da sociedade civil nos
e solução restaurativa de conflitos, incluindo a transferência de recursos
critérios de recrutamento.
financeiros.
Expansão das cotas e políticas de ação afirmativa para o ingresso e ascensão
nas carreiras do sistema de justiça.

26 27
4 - A criação de órgãos externos de controle Implementação das recomendações da Comissão Nacional da Verdade
sobre o sistema de justiça, como a revogação de leis que contribuem para
Implementação de mecanismos de participação e controle social do
a criminalização dos movimentos sociais, como a Lei de Organizações
Judiciário, como a constituição de Conselhos de Controle Externo da
Criminosas e a Lei Antiterrorismo.
Justiça, superando o modelo de controle corporativo do Conselho Nacional
de Justiça (CNJ), composto por membros do Judiciário, e do Conselho
Nacional do Ministério Público (CNMP), composto por membros do 7 - O aperfeiçoamento de balizamentos às contrapartidas ao exercício
Ministério Público. da função de interesse público nas carreiras do sistema de justiça

Implementação de Ouvidorias Externas em todas as instituições do Vedação de remuneração que exceda o teto constitucional,
sistema de justiça, ocupadas por membros da sociedade civil organizada independentemente da do tipo de remuneração acumulado na função.
com mandato eletivo, com participação nos órgãos de gestão do sistema de Criação de impedimentos para agentes que exerçam cargos de governo,
justiça, incluindo a OAB. com a quarentena após a saída dos Tribunais.
Participação social nos procedimentos de indicação de membros da Vedação aos patrocínios de eventos de associações de carreira e de
advocacia e do Ministério Público para os tribunais, sem prejuízo da criação instituições do sistema de justiça por empresas.
de critérios eleitorais.
Regulamentação sobre a acumulação de cargos, com a proibição do
Abertura da gestão e dos currículos das escolas da Magistratura, do recebimento de honorários paralelos à carreira jurisdicional.
Ministério Público e da Defensoria Pública para o controle social mediante
Regulação das campanhas para o quinto constitucional e para a Presidência
o Conselho de Composição Social e a Ouvidoria Externa.
da OAB, para que sejam imunizadas contra a mercantilização de tais funções
de interesse público.
5 - A especialização da jurisdição de conflitos coletivos
Estabelecimento de órgãos especiais de justiça ligados às causas de
conflitos coletivos e à proteção dos direitos humanos. Tais órgãos atuariam
em diálogo com a sociedade, procurando compor seus conflitos, valorizando
a informalidade, multidisciplinariedade e a simplificação de procedimentos
como estratégia de aproximação da justiça da realidade social, tornando-a
mais acessível à compreensão da população, e respondendo a demandas de
violação de direitos humanos.

6 - Mudanças legislativas
Reconhecimento das jurisdições indígenas, quilombolas e tradicionais
com vistas a sua autonomia, com o fomento de projetos comunitários de
justiça restaurativa, com a transferência de recursos estatais.

28 29
original a separação entre o exercício do poder político e a propriedade da

ESTADO, DEMOCRACIA, riqueza. A participação popular no regime foi decisiva, por exemplo, para
manter a propriedade fundiária limitada e para impedir a escravidão por

PARTICIPAÇÃO POPULAR dívidas. O aprofundamento dessa relação – ampliação do poder político e


defesa dos interesses dos mais pobres – caracteriza o processo de afirmação

E REFORMA DO permanente da democracia desde suas origens.


Pensar assim significa, evidentemente, deixar em segundo plano a concepção
SISTEMA POLÍTICO liberal da democracia, que é fundada na ideia da separação entre as massas
e o exercício do poder (democracia representativa) e na manutenção por lei,
por meio do poder judiciário e do monopólio da violência pelo Estado, de
INTRODUÇÃO um conjunto de garantias e privilégios econômicos e sociais.
A Constituição Federal de 1988 é a lei fundamental do país e serve como
Fundamentalmente, a democracia se faz sentir nas sociedades capitalistas
parâmetro de validade a todas as demais espécies normativas. Ela declara
ocidentais com base na combinação entre voto universal e direitos sociais. Ou
como objetivos: “construir uma sociedade livre, justa e solidária”, garantir
seja, a combinação da ampliação da participação política com a construção
o desenvolvimento nacional”, “erradicar a pobreza e a marginalização e
de mecanismos de proteção dos trabalhadores contra a superexploração por
reduzir as desigualdades sociais e regionais”, “promover o bem de todos,
parte do capital.
sem preconceitos de origem, raça, etnia, sexo, cor, idade e quaisquer outras
formas de discriminação”. E que “todo o poder emana do povo, que o exerce No Brasil, esse processo de construção da democracia vem sendo
por meio de representantes eleitos ou diretamente”. marcado por avanços e recuos. Ele esteve no centro das disputas sociais que
culminaram no golpe de 1964 e ganhou forte impulso a partir do final da
Vivemos formalmente em uma democracia. Entretanto, faz mais sentido
década de 1970, quando um amplo conjunto de movimentos transformou
pensá-la como um processo, uma vez que as circunstâncias políticas,
o tema da participação política em um elemento central na luta contra a
institucionais e históricas determinam as possibilidades democráticas reais e
ditadura militar e nas reivindicações sociais que se seguiram.
a efetividade da representação dos interesses populares.
A democracia participativa e/ou democracia direta tornou-se um dos
Defendemos que o aprofundamento democrático só pode ser real e efetivo
fundamentos constitutivos desses movimentos. Desde os anos 1980, sobretudo
com a democratização dos espaços públicos de decisão. O processo de
em prefeituras de cidades governadas pelo Partido dos Trabalhadores e seus
aprofundamento democrático deve enfrentar as desigualdades e a exclusão,
aliados, foram adotadas diferentes formas de consulta e participação popular,
promover a diversidade e fomentar a participação cidadã. Somente por meio
como o orçamento participativo. Mais tarde, ações do Governo Federal nas
dele será possível fazer com que o Estado trabalhe em defesa do interesse público.
gestões de Lula e Dilma, como as conferências nacionais, cumpririam papel
semelhante, ainda que com poder de decisão reduzido.
DIAGNÓSTICO Por outro lado, o projeto neoliberal só poderia ser implementado por meio
A democracia grega, forma de governo que começou a se desenvolver em da redução da democracia. No Brasil, podemos citar como exemplos desse
Atenas, em meados do século VI a.C., teve como fenômeno absolutamente cerceamento: a Lei de Responsabilidade Fiscal – de 2000, lei que condiciona

30 31
os gastos de todos os entes federativos à sua capacidade de arrecadação e partidários, o que reduz a questão a uma reforma do sistema eleitoral, ou
de tributos; a autonomia operacional do Banco Central; a Emenda mesmo como um instrumento para melhorar a governabilidade do Estado
Constitucional 95 – aprovada sob Michel Temer, que limita o crescimento ou aumentar sua eficiência – dentro do atual status quo.
das despesas do governo brasileiro durante 20 anos.
Nossa proposta diz respeito a mudanças no próprio sistema político, na
Apresentadas como formas de proteção da política macroeconômica e da cultura política e no Estado. A reforma política que defendemos visa à
política monetária contra “possíveis excessos” dos representantes eleitos pelo radicalização da democracia, para enfrentar as desigualdades e a exclusão,
voto popular, essas ferramentas reduzem na prática os espaços democráticos promover a diversidade e fomentar a participação cidadã. Isso significa
que haviam sido conquistados em décadas anteriores e que estão previstos na uma reforma que amplie as possibilidades e oportunidades de participação
Constituição. Essas restrições legais evidenciam a necessidade de impedir que política, capaz de incluir e processar os projetos de transformação social
a vontade popular interfira no gerenciamento da macroeconomia, uma vez que de segmentos historicamente excluídos dos espaços de poder, como as
os interesses populares (ampliação e qualificação do SUS e da educação, por mulheres, os/as negros/as, a população LGBTI+, indígenas, jovens, pessoas
exemplo) entram em conflito direto com os interesses das elites econômicas. com deficiência, idosos/as e os/as despossuídos/as de direitos.
Depois dos avanços observados durante os anos dos governos populares, Uma reforma política em sentido amplo deve englobar os processos de decisão
o momento atual trouxe um retorno ao processo de fechamento dos espaços e a forma de exercer o poder, as formas de participação e de representação
de influência democrática sobre a distribuição da riqueza. política, as práticas políticas e todos os espaços de expressão política. Ela deve
Nesse contexto, o avanço de um projeto democratizante para o Estado envolver o âmbito do Estado (Legislativo, Executivo e Judiciário), dos entes
brasileiro deve ocorrer em dois movimentos estratégicos distintos e federativos e suas relações (União, estados, DF e municípios), dos partidos
combinados. O primeiro é reativo, voltado para a preservação dos elementos políticos e da sociedade civil organizada. Alguns princípios democráticos
democráticos presentes no arcabouço institucional existente, e o segundo se sobressaem como eixos para essa reforma política ampla: igualdade,
movimento é afirmativo, visando retomar a pauta democrático-participativa diversidade, justiça, liberdade, participação, transparência e controle social.
construída pelos movimentos sociais dos anos 1970 aos 1990 e a combater
as iniciativas antidemocráticas posteriores à aprovação da Constituição
PROPOSTAS
de 1988. Esses dois movimentos podem e devem ocorrer de maneira
combinada e articulada, no mesmo período de tempo, levando em conta a
1 - Fortalecer a democracia direta
correlação de forças como critério para a configuração da pauta prioritária
em cada momento. É fundamental, ainda, que ambos os movimentos sejam Regulamentar as formas de manifestação da soberania popular expressas
compreendidos como partes de uma estratégia mais ampla, voltada para na Constituição Federal (plebiscito, referendo e iniciativa popular). O
o aprofundamento permanente e radical da democracia entendida como aprimoramento das regras sobre o plebiscito e referendo é necessária para
controle popular sobre as decisões políticas e econômicas. que a participação popular seja efetiva e não meramente simbólica.

Reforma política 2 - Fortalecer a democracia participativa


O tema da reforma política tende a estar orientado por interesses eleitorais Propomos a criação de um sistema integrado de participação popular

32 33
que possa criar e consolidar espaços de participação e democratização da 6 - Revogação dos mecanismos de restrição da vontade popular
gestão das políticas públicas, a exemplo dos Conselhos e Conferências
Entre eles, a Lei de Responsabilidade Fiscal e a autonomia operacional do
(nacionais, estaduais e municipais), de modo que tenham maior coesão e
Banco Central.
possam tensionar os poderes. São pressupostos da participação o caráter
deliberativo, laico, suprapartidário e autônomo dos espaços institucionais
de participação, a liberdade de escolha da representação não governamental, 7 - Criar mecanismos de participação, deliberação e controle social das
o financiamento público, a transparência e o pleno acesso às informações políticas econômicas e de desenvolvimento
públicas, assim como o respeito do Executivo às deliberações aprovadas Hoje, esses mecanismos não existem. Essa participação e controle social
pelos mecanismos de participação. deve ocorrer nos níveis de criação e execução das políticas de diversos
órgãos da área, como Ministério da Fazenda, Banco Central e BNDES.
3 - Reforçar a diversidade e a igualdade nos mecanismos participativos Em relação ao processo orçamentário, propomos um fórum permanente,
e de democracia direta com representantes do governo e da sociedade civil, que participe da criação,
execução, monitoramento, avaliação e revisão do processo orçamentário.
Esses mecanismos devem ser pautados pela diversidade, pela igualdade em
termos de gênero, raça, etnia, orientação sexual etc., e devem garantir o acesso
das camadas sociais excluídas aos processos de tomada de decisões políticas. 8 - Impedir o aprofundamento da autonomia do Banco Central

4 - Aperfeiçoar a democracia representativa 9 - Garantia de acesso universal às informações orçamentárias

É preciso garantir uma representação mais efetiva da vontade popular,


enfrentando as sub-representações (trabalhadores/as, mulheres, negros/as, 10 - Articular a reforma do sistema político com as discussões sobre a
juventudes, LGBTI+ etc) e a influência do poder econômico nas decisões democratização da informação e da comunicação, exigindo mecanismos
públicas. Para isso, devem-se restringir todas as formas de financiamento que garantam a transparência total em relação a dados, incluindo
privado das campanhas eleitorais. aqueles vinculados ao sistema judiciário, além do controle social dos
meios de comunicação

5 - Fomentar participação da sociedade civil na definição da pauta do


Legislativo 11- Apoiar a criação de um Sistema Público de Comunicação, conforme
previsto na Constituição, com a criação de centrais públicas de
Para tal, propomos que o primeiro ato de cada sessão legislativa no início comunicação
do ano seja convocar uma assembleia com a participação dos parlamentares
e representantes dos movimentos sociais e organizações representativas da
12 - Regulação e fiscalização da justiça eleitoral
sociedade civil com reconhecida atuação em prol dos direitos da cidadania
e do interesse público, cujo objetivo será debater a pauta de votação daquele
ano, elegendo prioridades.

34 35
lado, agregou mais complexidade às relações federativas, pois o arranjo das
FEDERALISMO políticas públicas nacionais precisa ser feito entre os três diferentes níveis,

E ADMINISTRAÇÃO
todos autônomos entre si. Assim, falta à federação instrumentos adequados
à coordenação das políticas públicas. Além disso, hoje, a participação dos

PÚBLICA
níveis mais altos de governo na construção de estratégias em conjunto com
as demais esferas federativas, sobretudo dos governos locais, baseia-se quase
que exclusivamente na transferência de recursos financeiros.

INTRODUÇÃO As regiões metropolitanas são grandes exemplos desse déficit de


cooperação. Em cada estado foram adotados critérios e modelos distintos;
Partimos da definição de que a federação brasileira é muito desigual, tanto
na maior parte das regiões metropolitanas, o órgão gestor - quando existente
regionalmente quanto em relação aos 5.568 municípios, muito díspares em
- é estadual e as estruturas de paridade com municípios estão apenas no
relação à densidade demográfica, dinâmica econômica, indicadores sociais e
discurso, sem efetivação. Os fundos metropolitanos e outros instrumentos de
arrecadação tributária.
financiamento do desenvolvimento regional são praticamente inexistentes.
Reiteramos a necessidade de fortalecer o protagonismo estatal conjugado A superação dos desafios das grandes metrópoles brasileiras passa pela
com controle social possibilitando avançar nas transformações institucionais integração das políticas setoriais e pela integração de todo seu território em
do Estado, de modo a recuperar sua capacidade de planejar e agir. Em si, nas suas diversas escalas.
paralelo, o Estado deve renovar as estratégias e ampliar os instrumentos para
Em nível nacional, as desigualdades regionais persistem, sobretudo na
construção de pactos que respeitam a autonomia dos entes da federação, mas
dicotomia norte-sul. Além disso, o universo dos municípios brasileiros é
também fortalecem a cooperação entre eles.
marcado por grandes diferenças demográficas, de dinâmica econômica,
indicadores sociais, arrecadação, capacidade técnica e gerencial de suas
DIAGNÓSTICO administrações públicas. Atualmente, 70% dos municípios possuem menos
O Brasil está organizado como um Estado Federal, mas com aspectos de 20 mil habitantes e abrigam apenas 18,2% da população. Já os 283
peculiares. É a única Federação do mundo a reconhecer municípios como municípios com mais de 100 mil habitantes acumulam aproximadamente
entes federativos em sua Constituição. A República Federativa do Brasil é, 70% de toda a renda do país, enquanto os 3.915 municípios com até 20 mil
portanto, formada pela união indissolúvel dos 26 estados, 5.568 municípios habitantes representam menos de 10% da renda nacional.
e o Distrito Federal. Além disso, adotou um modelo cooperativo em que Por isso, qualquer proposta de Reforma Federativa deve levar em conta o
muitas competências são exercidas de forma conjunta pelos diferentes entes. enfrentamento dessas desigualdades e o papel na União na redistribuição
Essa característica trouxe enormes avanços democráticos, com a ampliação equitativa dos recursos no território nacional, bem como, incentivar
de serviços e o aperfeiçoamento dos canais de controle e participação social instrumentos de cooperação federativa e solidariedade territorial, como os
municipais que contribuíram para uma maior democratização, ainda que consórcios públicos e colegiados regionais ou setoriais.
insuficiente, uma vez que o município está mais próximo do cidadão, o Não há, entretanto, um modelo e diretriz única. Em inúmeras situações
que amplia sua capacidade de atender às especificidades locais. Por outro é possível afirmar que a centralização de atividades e competências na
36 37
União podem surtir bons efeitos, como, por exemplo, nas compras de bens e PROPOSTAS
serviços comuns em grandes escalas, como material escolar, medicamentos,
dentre outros. Noutros casos, a descentralização pode ser o melhor caminho, 1 - Realizar uma Reforma Federativa que busque
abrindo espaço para a inovação e a criatividade no desenvolvimento local,
a exemplo do orçamento participativo, projetos de economia solidária e Reconhecer e reforçar o papel do Estado na administração pública,
incentivo às micros e pequenas empresas, ou à agricultura familiar. rejeitando a visão de que o Estado deve trazer da iniciativa privada sua
lógica administrativa supostamente mais eficiente, com “choques de gestão”
Em suma, há casos em que convém concentrar competências na União, e redução de gastos.
há casos em que é melhor descentralizá-las para os estados ou municípios.
O importante é que essa escolha seja fruto de um pacto, que respeite as Defender o pressuposto de que a orientação das ações do Estado pelo lucro
autonomias dos entes da Federação e fortaleça a cooperação. Não há, é incompatível com uma gestão do Estado que aponte para uma ética cidadã.
portanto, como prescrever um único modelo de gestão para todas as áreas, Reconhecer o papel central do Estado no enfrentamento das desigualdades
sendo necessário que cada política setorial amadureça e apresente propostas e o da União, em especial, na redistribuição equitativa dos recursos no
de arranjo federativo adequadas às suas necessidades. território nacional.
O essencial é suspender pressupostos de uma lógica e concepção Elaborar um modo de concepção, desenho, execução, monitoramento
neoliberal de Estado que orienta suas práticas e normas a atuações tímidas e e avaliação de políticas públicas em que a construção coletiva, para além
concentradoras. Esse ideário foi absorvido sem ressalvas pela opinião pública da mera participação, não seja uma característica marginal, mas central,
ao ser incansavelmente defendido pelos meios de comunicação. imprescindível e fator de distinção das políticas públicas; essa participação
Essa ideologia, aliada a nossos processos históricos e sociais forjou um popular deve estar calcada nos direitos humanos e priorizar a promoção
Estado orientado para o “não fazer”, burocratizado em seus procedimentos, da igualdade, a inclusão social, a sustentabilidade socioambiental e a
cheio de controles que travam qualquer impulso transformador. Autoritário reconstrução das amplas capacidades do Estado.
em seus métodos, o Estado parece eficiente somente na manutenção do status Construir novas estratégias de pacto federativo que favoreçam a cooperação
quo e em solapar direitos individuais e sociais, além de impedir a efetivação e que acelerem o fortalecimento dos estados e, em especial, dos municípios.
dos objetivos constitucionais. A precariedade da gestão tornou-se uma
Permitir que o governo federal gradualmente deixe de atuar de maneira
política de governo e serviu para converter o Estado brasileiro numa espécie
tutelar e com viés de controle e passe a articular políticas públicas em
de escritório de gerenciamento de negócios privados que extrapolaram as
harmonia com a autonomia política dos entes subnacionais, respeitando as
fronteiras nacionais.
realidades de cada localidade.
Todo esse processo serviu para alienar ainda mais as camadas populares
das estruturas sociais que lhes dizem respeito como a educação, o mercado,
2 - Novo sistema tributário progressivo, simplificado e melhor
a segurança alimentar etc. Mesmo após a mudança de governo, em 2003,
fiscalizado
este cenário não se modificou totalmente, uma vez que seus pilares centrais
permanecem erguidos, especialmente o sistema político, a política fiscal, e a Promover uma reforma que compreenda não apenas a necessidade de
concentração dos meios de comunicação de massa. progressividade, mas também a simplificação do sistema e a centralização

38 39
do processo de arrecadação e sua fiscalização. Defendemos a existência de Órgãos de controle interno e externo.
três tributos: um sobre a propriedade (imóveis, automóveis, embarcações, Contratações (uso do poder de compra, arranjos com setor privado etc.).
dinheiro etc.); um sobre a renda (salários, honorários, dividendos, lucros
etc.); e outro sobre o valor agregado (comércio, circulação de mercadorias, Autonomia da administração indireta.
indústria, serviços etc.). Administração do patrimônio.
Os tributos poderiam ser cobrados pelos níveis maiores (algo a ser Logística, TI, base de dados.
estudado e pactuado, com vistas à eficiência e a redução de personalismos).
Do montante arrecadado, ampliar o percentual de compartilhamento com
5 - Fortalecimento e ampliação dos sistemas nacionais
os entes subnacionais.
Buscar reforçar e aperfeiçoar, com a contribuição de toda sociedade (em
especial seus usuários, gestores e funcionários públicos), de sistemas que
3 - Promover a cultura do debate político
busquem um desenho de cooperação entre os entes federados, como é o caso
Estimular a cultura do debate na sociedade e fortalecer a participação do Sistema Único de Saúde (SUS), o Sistema Único de Assistência Social
dos partidos políticos e da população em torno das decisões coletivas, assim (SUAS), o Sistema Nacional do Meio Ambiente (SISNAMA), o Sistema
como avançar no desenho e implantação de mecanismos que promovam sua Nacional de Habitação de Interesse Social (SNHIS), o Sistema Único de
efetividade. A conquista do poder não deve ser para concentrá-lo, mas para Segurança Pública (SUSP), o Sistema Nacional de Cultura (SNC) etc.
distribuí-lo, sobretudo aos historicamente alijados.
6 - Adoção de um modelo de gestão compartilhada das políticas
4 - Construção de agenda de debates sobre Administração Pública com públicas por meio de comissões tripartites e controle social
especialistas, beneficiários e representantes da população em geral a
Para que as políticas sejam efetivas e de qualidade, é essencial que a
partir de uma lista preliminar de itens para discussão:
população possa participar do seu desenho, gestão e avaliação; tal medida
Competências. gera valorização das ações e resolução de problemas de forma coletiva,
Parcerias com as organizações da sociedade civil. pautadas pela valorização da ideia de cooperação e comunitarismo. Além
do mais, acompanhar e avaliar a execução das políticas e serviços públicos
Mecanismos de participação social nas gestões. melhora a qualidade deles o que possibilita que a população, na prática,
Mecanismos de articulação e coordenação (intra e inter setoriais) de identifique os lados positivos da ação estatal.
políticas públicas.
Oferta e qualidade de serviços públicos.
Força de trabalho no setor público (recrutamento e seleção, formação,
avaliação, remuneração, mobilidade etc).
Planejamento, Orçamento, Finanças Públicas e seus instrumentos (LOA,
LDO, PPA, LRF, - Leis 4.320/64 e 10.180/01 e DL 200/67, entre outros);
40 41
Estados Unidos, em detrimento da criação de laços e processos duradouros
RELAÇÕES e profundos com os Estados periféricos do sul global.
Durante o século XX essa posição consolidou a dependência econômica,
INTERNACIONAIS, financeira e tecnológica do país, resultando na baixa autonomia política do

INTEGRAÇÃO
Estado para a gestão das políticas macroeconômicas e sociais. Poucos foram
os governos que buscaram garantir ao Estado brasileiro mais autonomia,

REGIONAL E DEFESA
interna e externamente.
A partir dos anos 1980, com a redemocratização, houve uma aproximação
entre os Estados brasileiro e argentino e a defesa da integração regional.
INTRODUÇÃO Nos anos 1990, formou-se o Mercosul. Após 2003, o novo direcionamento
A maneira como o Brasil se posiciona e se insere no cenário internacional à política externa resultou na aproximação a nações em desenvolvimento
reflete diretamente na vida e no cotidiano do povo brasileiro, e também na e subdesenvolvidas por meio de processos de integração regional como a
de outras populações. Este GT buscou definir diretrizes para uma política Unasul (2008). Nesse contexto, foi possível, também devido a mobilizações
externa e de defesa a partir de um projeto nacional soberano e popular, populares, arquivar a proposta dos Estados Unidos de criação de uma Área
pautado por valores democráticos, pela busca de igualdade, autonomia, Livre Comércio das Américas (Alca), e os planos para a criação de uma força
desenvolvimento, integração regional e multilateralismo. Assume ainda armada regional (“Otan dos pobres”). Outras alianças e coalizões políticas
uma posição anti-imperialista, anticolonialista, antirracista e feminista. como o G-20, o Fórum Ibas (Índia, Brasil e África do Sul) e o grupo dos
Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) foram fortalecidas.
O Brasil não deve escolher ser o rabo do tubarão ou a cabeça da sardinha,
isto é, alinhar-se de forma subalterna às principais forças imperialistas ou Essas iniciativas permitiram a contraposição a acordos desiguais e o
buscar reproduzir essa mesma lógica em sua relação com outros países da arquivamento de propostas de instalação de bases estrangeiras no território
periferia. O que sim precisamos é priorizar alianças, parcerias e cooperações nacional, como o protocolo 505 da base de Alcântara, no Maranhão. Além
com países que possuem um passado de exploração e desenvolvimento disso, deu-se início à construção de projetos políticos de integração regional,
semelhante para buscar, em conjunto, a independência com relação a como o Conselho e a Escola de Defesa Sul-americana, ligada à Unasul, e
limitações internacionais das mais diversas naturezas. Essas relações com fortaleceram-se iniciativas de cooperação política com os Estados Africanos,
outras nações devem sempre respeitar o princípio da autodeterminação dos como a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e a Coordenação-
povos e os direitos humanos. Geral de Cooperação Humanitária e Combate à Fome (CGFOME).
O reconhecimento dos laços históricos, sociais e econômicos com os Estados
africanos, principalmente na questão do combate ao racismo e da luta pelo
DIAGNÓSTICO desenvolvimento, só encontrou um lugar de destaque nos governos Lula e
Relações internacionais Dilma (2003-2016). Entretanto, a relação com o continente vem sendo pautada
Historicamente a atuação internacional do Estado brasileiro priorizou pelo interesse na exportação de manufaturas e pela internacionalização de
a subordinação em relação às grandes potências, especialmente Europa e empresas brasileiras, como construtoras, a Vale e a Petrobrás.

42 43
Essa política externa foi alvo de críticas das forças políticas à direita, a Estratégia Nacional de Defesa, a Política Nacional de Defesa e o Livro
sendo qualificada como “ideológica”, “isolacionista” e “bolivarianista”. Com Branco. Neles, por exemplo, foi ressaltada a importância do desenvolvimento
Michel Temer (2016), deu-se uma nova inflexão. O processo de integração nacional, da integração das três forças sob o comando do Ministério da
regional foi enfraquecido, o que ficou marcado inicialmente pela mudança Defesa, da necessidade de um complexo industrial-militar de defesa, da
de postura com relação à Venezuela. Em seguida veio a candidatura do dedicação a três áreas estratégicas – nuclear, cibernética e aeroespacial, assim
Brasil para a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico como o desenho dos “três espaços geopolíticos prioritários” para o Brasil:
(OCDE), também chamada de “grupo dos ricos”, uma vez que seus 36 América do Sul, Atlântico Sul e os BRICS. Mas sua principal força é a ideia
membros produzem mais da metade da riqueza do mundo. A organização de dissuasão contra ameaças especialmente extra regionais, pois o Brasil não
defende a proteção e promoção dos investimentos externos e, para isso, é parte ativa de nenhum conflito bélico internacional, não tendo portanto
impõe uma série de alterações legislativas e políticas, além da defesa do propósitos ofensivos, e sim defensivos, desestimulando outros países a
avanço nas negociações entre o Mercosul e a União Europeia. tomarem iniciativas bélicas contra o Brasil.
O governo de Jair Bolsonaro propõe uma mudança radical que inclui o Entre as limitações dos documentos, podemos citar a baixa participação
abandono das relações sul-sul e a retomada da subordinação aos Estados da sociedade civil (mesmo por meio do parlamento), a heterogeneidade entre
Unidos, o combate ao multilateralismo – ou “globalismo” –, em defesa do as três forças armadas, o baixo poder (ou desejo/capacidade de exercício de
chamado “Ocidente” cristão. poder) político-civil sobre as forças armadas e, uma questão especialmente
importante para o campo popular, a possibilidade de emprego das forças
A permissão para a instalação da base militar de Alcântara, a cessão onerosa
armadas em questões internas foi mantida e até ampliada.
do pré-sal, a venda de empresas estatais como a Embraer e a Petrobrás são
outras medidas que atacam fortemente a soberania e autonomia nacional. Considerando que o Brasil não é parte ativa de nenhum conflito
internacional, a atuação das forças armadas vem se concentrando em duas
Outro elemento de forte preocupação tem sido a defesa da invasão da
frentes. A primeira é a manutenção da ordem interna e a segunda é a atuação
Venezuela por parte dos Estados Unidos, em apoio a uma visão imperialista
nas fronteiras, com foco no combate a delitos transnacionais e na política de
que rompe com os princípios de defesa da autodeterminação dos povos e da
guerra às drogas – como no Projeto Calha Norte (Amazônia), no Sistema
estabilidade regional.
Integrado de Controle de Fronteiras (Sisfrom) e nas Operações Ágata (maior
Paralelo a isso, o campo popular vem construindo diversas experiências atividade brasileira, que mobiliza 30 mil militares). Nessa frente, situa-se
de articulação internacional de solidariedade e de lutas anti-imperialistas, também a delicada questão dos refugiados, cujo primeiro contato com
que demonstram que o exercício das relações internacionais não é uma o Estado Brasileiro são as forças armadas. As duas frentes refletem uma
exclusividade dos Estados. Há também esforços de troca de experiências influência doutrinária estadunidense.
com atores políticos em outros continentes do Sul Global. Um projeto de
Isso leva à questão da necessidade de uma perspectiva regional na defesa
integração regional e popular não pode prescindir dessas organizações e de
nacional, buscando possibilidades de fortalecimento da tecnologia, da
suas experiências.
ciência e da afirmação de autonomia. Houve um movimento nessa direção,
Defesa mas as instituições criadas não chegaram a se consolidar (Unasul, CDS,
O Brasil tem atualmente três documentos importantes na área de defesa: Celac, Esude).

44 45
Entre 2003 e 2016, houve medidas de reforço à base industrial de defesa,
ao orçamento e reequipamento das forças armadas, e à cooperação regional, PROPOSTAS
como a criação do Conselho Sul-americano de Defesa. Por outro lado,
alguns temas causaram atritos entre o governo civil e as forças armadas, com 1 - Criação de um Conselho Nacional de Política Externa
destaque para o positivismo (forças armadas como “reserva moral do país”, Escolhas e decisões do Estado brasileiro em política externa não devem
acima das ideologias), o Levante de 1935, a Guerra Fria, a Luta Armada e, ficar restritas a diplomatas e altos escalões do governo. Propomos a
principalmente, a Comissão Nacional da Verdade. criação de um Conselho aberto à participação de estados, municípios,
Com a crise de 2008, a ascensão mundial de um modelo multilateralista, sindicatos, movimentos sociais, intelectuais, estudantes, empresários
a descoberta do Pré-Sal e o aprofundamento da integração regional, e representantes de instituições estatais. O Conselho deve garantir
observamos o aumento do assédio dos Estados Unidos aos militares processos decisórios mais transparentes, legítimos e democráticos, além
brasileiros. Para os estadunidenses, desde a Guerra Fria, o papel das forças de assegurar que as iniciativas tomadas estejam em consonância com o
armadas latino-americanas é de contenção do inimigo interno. Por influência projeto soberano de desenvolvimento nacional. Estados e municípios, de
dos americanos, as forças armadas são, por exemplo, mais pró-americanas acordo com suas demandas e especificidades, também podem criar seus
que pró latino-americanas. Isso é facilmente observável na missão de paz conselhos.
do Haiti, que serviu como escola para o posterior engajamento das tropas
brasileiras nas favelas cariocas. 2 - Reestabelecer as parcerias estratégicas nas relações Sul-Sul
A crescente demanda por segurança por parte dos cidadãos, que se Atuar em parceria com Estados da América Latina, África e Ásia nos fóruns
veem acuados tanto pelo aumento da criminalidade quanto pela violência e organismos internacionais, como no Conselho de Segurança da ONU, do
policial, redundou no cada vez mais frequente uso das forças armadas em Banco Mundial, do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da OMC.
operações de Garantia da Lei e da Ordem. Previstas na Constituição (artigo
142 da Constituição Federal de 1988), reguladas por leis complementares 3 - Integração regional autônoma na América do Sul
e portarias, as GLO são instrumento constante de segurança interna –
A integração regional deve compreender iniciativas nos campos
houve 133 operações entre 1992 e 2008, em movimento ascendente desde o
político, econômico, produtivo, social, cultural e de infraestrutura,
segundo governo Lula (2007-2010).
buscando a cooperação e a complementaridade, inclusive na área de
Existe uma crença de que as forças armadas são nacionalistas. No entanto, defesa. Ampliar a solidariedade entre os povos do nosso continente,
há diferentes definições de nacionalismo e também de pátria. Os militares principalmente em territórios em situação de conflitos domésticos,
que estão no poder confundem pátria com território, sem a nação e seu catástrofes naturais e intervenções externas, buscando a diminuição das
povo. Os documentos que regulam a ordem interna e o emprego das forças assimetrias no continente. É preciso rechaçar a ingerência, o desrespeito à
armadas definem como “forças oponentes”, os “agentes da perturbação da autodeterminação, o imperialismo e o uso desnecessário da força, segundo
ordem pública”. A lei define um inimigo interno que, se na década de 1960 a tradição diplomática brasileira. Devemos criar mecanismos de atuação
eram os comunistas ou mesmo os democratas, hoje podem ser os movimentos conjunta, se necessários, e fortalecer os já existentes, como Unasul e
populares ou algum outro inimigo de ocasião. Mercosul, por exemplo.

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atuação das forças armadas deve estar voltada exclusivamente para fora das
4 - Fomentar a integração regional e a participação social
fronteiras nacionais.
Os dois objetivos se encontram na realização de eleições diretas para o
Parlamento do Mercosul e na melhoria dos canais de participação social
7 - Outra política de combate às drogas
regional. É preciso abrir espaços permanentes para os movimentos populares e
garantir a construção de redes, reuniões especializadas e campanhas regionais. A atual política de guerra às drogas, impulsionada pelos EUA e com aval da
ONU, tem se mostrado ineficaz e intensificado o processo de militarização
das sociedades, gerando inúmeros impactos sociais. O combate ao tráfico
5 - Migração e combate à xenofobia
internacional deve ser feito por meio da cooperação regional autônoma na
O Estado brasileiro deve promover políticas públicas que garantam América do Sul, sem a interferência de Estados e exércitos externos.
condições dignas de vida a imigrantes e refugiados, incluindo o combate
ativo à xenofobia. A Lei de Migração, de 2017, traz avanços em relação
8 - Contra ingerências e intervenções imperialistas
à legislação anterior (Estatuto do Estrangeiro), mas ainda precisa de
regulamentação para ser efetivamente implementado. Propomos a criação O Estado brasileiro deve respeitar a soberania e a autodeterminação dos
de uma Autoridade Nacional Migratória, que substitua a Polícia Federal no povos, sem jamais permitir intervenções externas em outros países, muito
trato com os imigrantes. menos deve atuar nesse tipo de ação. Os direitos humanos não podem ser
utilizados como uma justificativa política para a intervenção das potências
imperiais contra outros países. As crises humanitárias são graves e sérias,
6 - Forças Armadas a serviço do povo e sua autonomia
criadas pelos próprios atores hegemônicos das relações internacionais, que
Criar mecanismos civis de controle sobre as forças armadas: o Estado depois utilizam essa situação para intervir na realidade dos países que
brasileiro deve excluir qualquer possibilidade de intervenção ou tutela lhes interessam. O Brasil precisa atuar respeitando sua tradição pacífica e
política das forças armadas sobre os demais poderes e impedir ações de diplomática, posicionando-se como mediador em busca da estabilidade e da
intervenções domésticas. resolução negociada dos conflitos.
Revisar a formação das forças armadas brasileiras, que deve ser compatível
com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Sendo um campo privilegiado 9 - Reverter as medidas nocivas à soberania nacional
para a produção e reprodução de doutrinas, a formação deve valorizar a
Dentre as concessões de campos de exploração de recursos estratégicos
garantia da autonomia do Estado face às forças externas e o apreço pela
(minas, petróleo) e a concessão da utilização da Base de Alcântara (MA)
democracia, abandonando a lógica do “inimigo interno”.
por forças armadas estrangeiras. Empresas nacionais devem explorar os
Garantir os direitos humanos nas forças armadas, com a inclusão de recursos estratégicos e gerir fundos soberanos para investimentos em
mulheres, direitos trabalhistas, respeito a pessoas LGBTI+ ou escolha políticas públicas de saúde e educação, respeitando o meio ambiente e as
religiosa entre outras questões. comunidades impactadas pelos projetos.
A defesa nacional não é de responsabilidade exclusiva das forças armadas.
Retirar a Garantia da Lei e da Ordem como função dos militares: a 10 - Desenvolver uma sólida Base Industrial de Defesa (BID)

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O desenvolvimento de novas tecnologias de defesa deve ser parte da
estratégia e política de Ciência, Tecnologia e Inovação. O Brasil deve SEGURANÇA PÚBLICA
priorizar o desenvolvimento de uma sólida Base Industrial de Defesa (BID),
condicionando parcerias externas que incluam transferência de tecnologias,
preferencialmente aquelas que permitam o uso dual (militar e civil). Deve-se INTRODUÇÃO
buscar a cooperação regional no desenvolvimento e produção de produtos de Pensar uma política de segurança pública compatível com os direitos
defesa, em consonância com o interesse na integração regional. Devem ter humanos, com a democracia, e comprometida com o sistema de garantia de
protagonismo as iniciativas que visem o reequipamento das forças armadas, direitos em um projeto nacional soberano é desafiador. Para tal, defendemos
o desenvolvimento de tecnologias do setor aeroespacial e de monitoramento um conjunto de princípios necessários para uma mudança de paradigma
espacial, assim como a defesa do ambiente cibernético e informacional. É no qual as políticas públicas para a área tenham como prioridade o uso de
importante garantir a periodicidade desses recursos. instrumentos não violentos, e que o Estado busque formas de intervenção
com o menor uso da violência possível.
11 - Buscar a autonomia decisória do Estado brasileiro sobre suas Buscamos indicar alternativas baseadas na redução de danos e na
políticas nacionais e seu posicionamento internacional minimização do sistema penal, apontando para uma transição a um novo
Diversificação de produtos e parceiros (comerciais, financeiros e modelo de justiça criminal no Brasil.
tecnológicos) nas relações internacionais.
Buscar a autossuficiência em áreas estratégicas como a produção de energia DIAGNÓSTICO
e alimento para o próprio povo. Temas vinculados à segurança pública como “criminalidade”, “violência”
O Estado brasileiro deve ter o controle dos seus recursos naturais e “corrupção” ganharam uma posição central no debate político atual. As
estratégicos. eleições presidenciais de 2018 reforçaram “soluções” ancoradas fortemente na
tradição autoritária anterior à Constituição Federal de 1988. O populismo
Buscar a autonomia decisória não significa o isolamento. É possível pensar penal (mais repressão, leis penais mais duras, sentenças mais severas e
cadeias produtivas no contexto regional. execução penal sem benefícios) apresenta-se como “solução” nesse debate.
Assim, reforça-se a tradição autoritária do Estado brasileiro, por meio de
propostas que promovem a violação sistemática dos direitos, de garantias
fundamentais e o abandono de valores centrais da vida democrática.
Não seria exagero afirmar que, atualmente, vive-se uma crise dos direitos
humanos sem precedentes no período pós-redemocratização, estando os
princípios da chamada Constituição Cidadã de 1988 sob constante ataque.
No discurso e na prática, assiste-se, de um lado, à desproteção social crescente
de grupos vulneráveis (pobres, moradores de favelas, idosos, mulheres,
comunidade LGBTI+, afrodescendentes, quilombolas, militantes sociais,

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indígenas) e, de outro, à perseguição e criminalização seletiva contra esses
da reprodução da desigualdade social, ou seja, na “manutenção da ordem”,
mesmos grupos.
expressão utilizada com frequência pelos adeptos do populismo penal.
O discurso da maioria dos políticos e governantes, ecoado por parte dos
Esse ideal de segurança pública como política de restabelecimento da
meios de comunicação, sobre o combate à criminalidade legitima e mesmo
ordem criminaliza as mobilizações por transformação social, o que é um
enaltece os excessos e abusos cometidos pelo Estado, onde a tradição autoritária
evidente retrocesso, considerando que os direitos sociais foram conquistados
se faz presente, ignorando os parâmetros da legalidade democrática. Não
por meio de reivindicações e de lutas na arena democrática.
foram formuladas políticas de segurança pública para além da exclusão ou
eliminação de grupos indesejados, tampouco foram criados mecanismos Umas das consequências de todas essas concepções aqui elencadas é a
significativos de prevenção da violência estrutural que caberia a esse mesmo alta letalidade das forças de segurança pública no Brasil. A estrutura
Estado resolver. Assim, a desigualdade social e a pobreza são fatores que não das instituições policiais favorece e encoraja o uso desmedido e abusivo
têm lugar nas análises e nos discursos sobre segurança. da força policial. É comum que nos registros oficiais execuções sumárias
sejam registradas como atos lícitos, amparadas pelo direito à legítima
Observa-se, portanto, a legitimação e intensificação do discurso
defesa (autos de resistência). No entanto, a desproporção entre óbitos de
repressivo, policialesco e punitivista que, apesar de ineficaz sob o ponto
policiais e de suspeitos civis faz com que entidades de defesa dos direitos
de vista científico, ganha cada vez mais espaço como “solução mágica”. As
humanos denunciem a letalidade policial como parte do programa de
ações estatais e governamentais passam a visar cada vez mais determinados
política criminal. Aqui, é importante apontar que a maior parte das vítimas
cidadãos do que de fato eventuais crimes cometidos e investigações perdem
da violência policial são homens jovens e negros. Aliás, esse segmento da
importância diante da seletividade e estigmatização sumária de minorias.
população é o que está menos seguro no Brasil. Segundo dados Fórum
As “soluções mágicas”, junto com a naturalização da violência e a repressão Brasileiro de Segurança Pública de 2016, das 60 mil mortes violentas no
são instrumentos do populismo penal para manipular a opinião pública. Brasil, 81% delas foram cometidos contra pessoas com idades entre 12 e 29
Determinados grupos sociais têm sido desumanizados a partir da falsa anos. Destas, 99% eram do sexo masculino e 76,2% negras. Uma pessoa
responsabilização pela crise política, social e econômica do país. negra no Brasil tem 30% mais chance de ser vítima de um homicídio que
O tratamento de questões sociais como “caso de polícia” reduz a uma pessoa branca.
compreensão de conflitos sociais complexos que só poderiam ser devidamente Também a política prisional reflete o mesmo programa, e como último
abordados através da multidisciplinaridade e de redes institucionais de apoio estágio da neutralização de grupos indesejados, faz com que o Brasil tenha a
que, embora muitas vezes existentes, não recebem os devidos investimentos quarta população carcerária mundial. É também sintomático que a população
para que efetivem a sua função constitucional. negra tenha 18% mais chance de ser presa. Ressalta-se, ainda, as condições
Tudo isso não é por acaso. A criminologia crítica aborda a relação entre o carcerárias subumanas, sobretudo no que se refere à cultura da tortura, à
controle penal da força de trabalho e o capitalismo, como forma de pressionar superpopulação, aos direitos à saúde (mais graves no caso de mulheres
as classes subalternas a aceitarem as condições impostas pela desigualdade encarceradas) e à infraestrutura compatível com a dignidade humana.
econômica. Trata-se, então, do controle penal dos indesejáveis ao mercado, Mesmo com a ampliação dos direitos sociais nas últimas duas décadas –
com a segurança pública transformada em um mecanismo que auxilia na políticas públicas de inclusão social, através de programas de distribuição de
regulação do sistema econômico, e com o governo a serviço do mercado e renda, redução do desemprego e ampliação do acesso ao ensino – a população
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carcerária aumentou, revelando que as iniciativas ainda foram insuficientes as hipóteses de audiências por videoconferência, contra o direito do preso de
para reverter uma tendência histórica que, agora, com a interrupção das estar na presença do juiz; dentre outras medidas que enfraquecem o sistema
políticas sociais, tende a aumentar ainda mais. de garantias fundamentais da Constituição.

Uma última questão fundamental relacionada à segurança pública no Brasil Uma política democrática de segurança pública deve se pautar pelo “direito
é a adesão à “guerra às drogas”, mais letal que os danos causados pelo uso de penal mínimo, direito social máximo”. De acordo com essa visão, a reforma
entorpecentes. Esse modelo bélico se consolidou após o colapso da Guerra do sistema penal deve ser acompanhada pela redução da desigualdade social;
Fria, com a escolha de um novo inimigo para mobilizar a indústria bélica e o direito penal deve ser baseado nos direitos humanos e obedecer ao princípio
manipular a opinião pública. A pobreza relacionada à maioria dos incriminados da intervenção mínima, segundo o qual a resposta penal deve ser o último
por condutas relacionadas às drogas - maior motivo de encarceramento, no recurso do Estado para situações conflituosas.
Brasil -, revela o objetivo de criminalização da pobreza. À essa abordagem
repressora se opõe, como alternativa, a abordagem preventiva, interdisciplinar
e terapêutica, baseada na redução de danos, na qual a questão das drogas é
PROPOSTAS
deslocada para o âmbito da assistência social e da saúde pública.
1 - Descriminalização de condutas:
A segurança pública é tratada como direito fundamental pela Constituição
Legalização e regulamentação do comércio e uso de drogas, para que passe
Federal. Mas, como alertam estudiosos do tema, ela é um direito secundário,
a ser assunto de saúde pública e não criminal.
pois sempre se refere a um direito primário, à garantia de um outro direito
anterior, ou seja, a segurança não pode ser vista como um direito isolado Descriminalização de contravenções penais, da maioria dos crimes punidos
de outros. A tendência da segurança ser tratada como um valor em si e com detenção, revisão das penas dos crimes de perigo abstrato e a ampliação
independente dos outros direitos revela, em uma sociedade desigual, que de hipóteses de pena pecuniária ou restritiva de direitos.
apenas os grupos privilegiados são protegidos pelo aparato estatal, que Descriminalização dos crimes sem vítima, como o aborto.
revela a sua função na reprodução da sociedade de classes. A relação entre
Ampliação de casos de ação penal pública condicionada à representação,
o neoliberalismo e autoritarismo é essencial para esse fenômeno, e sua
bem como de ações privadas, a fim de aumentar os casos de iniciativa da
problematização passa por resgatar a importância dos direitos fundamentais
vítima para ação penal.
contra os retrocessos no sistema democrático de garantias fundado na
Constituição Federal. Aumento relativo de ilícitos administrativos e civis substituindo alguns crimes.
O maior exemplo de medidas que não fortalecem uma sociedade justa e Superação da criminalização das opressões (homofobia, racismo, etc), por
igualitária, muito ao contrário, é o “pacote anticrime”, que amplia as hipóteses compreender que o Direito Penal não serve adequadamente à tutela dos
de interpretação da legítima defesa, especificamente a agentes policiais; Direitos Humanos.
consolida a prisão em segunda instância; suprime recursos de defesa; amplia
a captação de material para o banco de perfis genéticos, contra a garantia 2 - Despenalização de condutas
constitucional de vedação à autoincriminação; autoriza a escuta de conversa
telefônica de advogados, fragilizando o direito de defesa internacionalmente Desenvolvimento da justiça restaurativa (conforme as diretrizes do PL
reconhecido; aumenta os poderes do delegado em relação aos do juiz; amplia 7.006/2006) em comparação com o modelo punitivo.

54 55
Abolição do sistema de penas mínimas. vagas para o regime ao qual o condenado tem direito.
Redução das penas máximas, inspiradas na falsa ideia de que a prevenção Vedação da pena privativa de liberdade e da prisão provisória às mulheres
é proporcional a pena. gestantes e lactantes, com o cabimento de prisão domiciliar e medidas
Ampliação dos substitutivos penais em alternativa ao encarceramento cautelares não-privativas de liberdade.
(suspensão condicional da pena, suspensão condicional do processo, Prisão domiciliar e monitoramento eletrônico em caso de superlotação da
livramento condicional, conciliação e transação penal), e das hipóteses de prisão.
extinção da punibilidade.
Indulto para crimes patrimoniais sem violência. 4 - Redução de danos do sistema penitenciário
Para os crimes patrimoniais comuns não violentos, permitir o ressarcimento Reforma prisional no que se refere às possibilidades de instrução, de
do dano ou restituição da coisa; como forma de extinção da punibilidade. trabalho e de serviços médicos.
Exclusão da agravante da reincidência, com aumento das respostas Revogação do Regime Disciplinar Diferenciado (RDD).
alternativas à prisão.
Combate à cultura da tortura mediante a criação de mecanismos efetivos
de fiscalização.
3 - Descarcerização
Fiscalização humanitária efetiva das condições do cumprimento de pena.
Restrição das penas privativas de liberdade em caso de crime sem violência.
Efetiva separação dos detentos de acordo com idade, situação processual
Admissão da prisão provisória apenas para casos de grave ameaça ou de e natureza do delito.
violência contra a pessoa.
Investimento em programas profissionalizantes e de emprego de presos e
Restrição dos fundamentos (sobretudo a garantia da ordem pública e egressos;
econômica) da prisão preventiva.
Vedação à privatização do sistema penitenciário.
Redução do tempo de pena para fazer jus ao livramento condicional, e a
Vedação da revista vexatória em presos e familiares de presos.
exclusão dos pressupostos gerais subjetivos.
Remição penal deve ser de um dia de trabalho para um dia de pena.
5 - Política criminal judiciária
Ampliação das hipóteses de regime aberto (que o limite de pena para o
Aumento das penas alternativas à prisão.
benefício seja maior que quatro anos).
Valorização das audiências de custódia.
Aceleração da progressão de regime na execução de pena; mediante
redução do tempo mínimo de cumprimento de pena no regime anterior – Estimular adoção de medidas cautelares alternativas à privação da
de 1/6 (um sexto) para 1/10 (um décimo) ou 1/12 (um doze avos) da pena, liberdade.
em vistas a reduzir os efeitos negativos da prisão. Fortalecer a defensoria pública em todos os Estados da Federação;
Implementação da progressão per saltum na hipótese de inexistência de Vedação aos mandados de busca e apreensão genéricos.
56 57
Dotar de eficácia o princípio acusatório: o pedido de arquivamento de
inquérito pelo MP é vinculante, como também o será o pedido de absolvição; SISTEMAS DE
o MP será obrigado a quantificar a pena que postula, e seu quantum
configura o limite máximo do juiz. COMUNICAÇÃO
6 - Política criminal policial
INTRODUÇÃO
Reformulação da carreira policial, com gratificação por respeito aos
A partir de uma análise que coloca os meios de comunicação como eixo
direitos humanos;
central da estrutura política, econômica e cultural da sociedade capitalista,
Investimento nas ouvidorias e na independência de sua estrutura. procuramos identificar quem são os detentores desses meios, como e a serviço de
quais valores operam. Em contrapartida, formulamos propostas que apontem
Reformulação do sentido do trabalho policial, fora do paradigma bélico.
para o exercício da comunicação como direito e como um serviço público que
Fortalecimento de mecanismos inibidores do uso da força pelos agentes do demanda regulamentações que garantam ao conjunto da sociedade acesso à
Estado, e a menor ingerência possível sobre os direitos fundamentais. pluralidade de informações, ajudando a aprofundar a democracia.
Primazia de instrumentos não violentos de intervenção estatal, baseada na
redução de danos do sistema penal.
DIAGNÓSTICO
Investimento na formação humanitária dos policiais, com políticas de Os chamados meios de comunicação (conjunto de jornais, revistas,
incentivo a condutas de respeito aos direitos humanos. emissoras de televisão, rádio, provedores de conteúdo via internet,
Criação de mecanismos mais efetivos de investigação e de responsabilização plataformas de entretenimento digital etc.) respondem por cerca de 6 a
em casos de abusos por agentes do Estado. 7% do PIB, tanto brasileiro como mundial. Apesar de deterem uma fatia
considerável de rendimentos, a totalidade da produção, transmissão e
Investimento para a melhoria das condições do cumprimento de pena,
distribuição de conteúdo está concentrada nas mãos de poucas corporações.
com a valorização de aspectos humanitários.
Essa concentração impede que a população tenha acesso a fontes variadas
Controle da intervenção dos meios de comunicação social no que tange à de informação e entretenimento, impondo valores hegemônicos voltados
cobertura referente à questão criminal”. à perpetuação de um ciclo de consumo. Além disso, a diversidade e
Superação das políticas de orientação Lei e Ordem. pluralidade de culturas, identidades, etnias, crenças que compõem a
humanidade não são contempladas.
No Brasil, existem cinco grupos empresariais que detém mais da metade
de todos os meios de comunicação em operação. O modelo de negócios,
focado em explorar ao máximo a capacidade comercial do tempo de TV,
e na disseminação de conteúdos a partir das chamadas “cabeças de rede” -
emissoras líderes de rádio ou TV - faz com que as transmissões brasileiras

58 59
de rádio e televisão propaguem uma narrativa única, baseada nos interesses Em nosso país, os serviços de telecomunicação também estão altamente
de classe, gênero e etnia das pessoas que são as proprietárias desses meios. concentrados: três grandes companhias controlam 94% da banda larga fixa,
94% da telefonia fixa e 81% da telefonia móvel. O impacto dessa concentração
É comum que esses meios sejam controlados por grupos políticos
para a oferta do serviço de acesso à Internet é brutal. Segundo a Pnad 2017,
vinculados às elites locais, que utilizam seus veículos como mais uma forma
pelo menos 30% da população brasileira não possui acesso à Internet. Dados
de exercer e perpetuar seu poder. São frequentes também ilegalidades como a
divulgados pelo Cetic – departamento relacionado ao Comitê Gestor da
chamada propriedade cruzada dos meios de comunicação, ou seja, empresas
Internet no Brasil (2016) revelam que, nas classes mais baixas (46% da classe
que possuem veículos de diferentes naturezas, como jornais, revistas, portais
C e 76% das classes D e E) a internet é acessada exclusivamente pela rede
de Internet, distribuidoras de TV por assinatura, produtoras de cinema.
móvel, por meio de pacotes de dados extremamente reduzidos, mas que
Outra irregularidade é o arrendamento da programação, ou seja, a venda
permitem acesso livre a aplicativos como Facebook e WhatsApp, reforçando
de parte de espaço de transmissão a terceiros, ultrapassando o limite de
o poder dessas mídias.
25% que pode ser destinado à publicidade, conforme estabelece o Código
Brasileiro de Telecomunicações (CBT, art. 124). Uma tentativa de proteção dos direitos civis na internet (liberdade de
expressão, privacidade etc.) em âmbito nacional foi a lei denominada Marco
Entretanto, como sabemos, a forma como hoje as pessoas consomem
Civil da Internet (MCI), de 2014. O MCI reflete a disputa capitalista entre o
produtos midiáticos (notícias, vídeos, filmes etc.), vem mudando radicalmente.
“novo capital” informacional-digital (Google, Facebook etc.) e o “velho capital”
Mesmo os meios mais tradicionais (TV, revistas, jornais) têm tido, cada vez
das operadoras de rede que controlam a infraestrutura de telecomunicações,
mais, seu conteúdo acessado via internet, seja pelo computador, televisão ou
disputa essa expressa no debate sobre a “neutralidade de rede”.
celular, conforme a demanda de cada usuário. Vem daí a tentativa de fomentar
a televisão segmentada (canais exclusivos de filmes, esportes, notícias, Esse embate está colocado não somente em nosso país, mas nos principais
variedades, infantis, femininos etc). Uma parcela importante da população centros capitalistas do mundo, e suas definições estão sujeitas às repactuações
já prefere os canais do YouTube aos programas de televisão; baixar música no no interior do próprio capital midiático-financeiro. Dessa forma, é mais que
SpotiFy a comprar CDs; assistir filmes no Netflix às salas de cinema ou mesmo urgente construir um programa de regulação e de políticas públicas para
aos canais de filmes na TV paga. Por sua vez, essa mesma rede que, quando as comunicações que garantam um mínimo de diversidade e pluralidade
começou a se expandir, pareceria ser uma rede aberta, livre, colaborativa, está aos conteúdos, coloquem em prática os dispositivos constitucionais que
sob o controle do capital financeiro, por meio do Google, Facebook (dono entendem a comunicação como direito e bem público, além de proteger
também do Instagram e WhatsApp), Amazon, Netflix etc. a democracia e os cidadãos da captação indevida de dados para fins de
manipulação política.
Essas corporações conseguem identificar e analisar tendências estéticas,
culturais e políticas de seus usuários, ao passo que também as molda
por meio da coleta indiscriminada e do tratamento massivo de dados
PROPOSTAS
pessoais. Essa configuração facilita significativamente o direcionamento e
manipulação da propaganda política, prática que impacta profundamente a
1 - Regulamentar os artigos da Constituição Brasileira relacionados à
democracia. Empresas especializadas em garimpar dados passaram a vender
Comunicação
influência sobre escolhas de opinião pública num cenário de ausência de
regulamentação específica. Tais como os artigos que vetam o monopólio e o oligopólio na radiodifusão
60 61
(incluindo aí medidas para limitar a concentração em redes) e o que estabelece Proteger crianças e adolescentes, adotando a classificação etária indicativa
a complementaridade dos sistemas públicos, privado e estatal. também nos conteúdos online e coibindo a publicidade direcionada a
crianças de até 12 anos.
2 - Regular os serviços de comunicação por camadas Instituir um Conselho Nacional de Comunicações, com participação
de representantes eleitos da sociedade civil, dotado de poderes políticos e
Separar tecnológica e comercialmente todos os segmentos de comunicação
regulatórios para formular e, uma vez adotadas pelos poderes Executivo ou
social eletroeletrônica, entre a camada de rede (infraestrutura) e a camada de
Legislativo, fazer executar ou fiscalizar, políticas de comunicações, incluindo
conteúdos. Isso implica em estender, para a radiodifusão aberta, a legislação já
as camadas de conteúdo, a internet e as telecomunicações.
adotada na radiodifusão paga (Lei 12.485/2011), na qual empresas produtoras/
programadoras não podem deter controle de redes de acesso e vice-versa.
4 - Uso do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) para estimular
a universalização do acesso ao conteúdo audiovisual nacional e a
3 - Elaborar lei regulatória para o conjunto dos serviços de
diversidade temática, estética, de gênero, étnica, e regional na produção,
comunicação social eletrônica nos termos da Constituição, em especial
privilegiando pequenos produtores
o Artº 221 combinado com o Artº 222, § 3º, independentemente das
condições econômicas e/ou tecnológicas de acesso. Esta lei, entre
outros aspectos, deve: 5 - Estruturar políticas de comunicação local e comunitária em
equipamentos públicos, como escolas e centros culturais; buscar a inclusão
Reservar 33% do espectro de radiofrequência ao sistema público, garantindo
de disciplinas de educomunicação e educação para a mídia nas escolas
espaço para os veículos comunitários e estruturando um sistema de fato autônomo
em relação ao governo de plantão e que chegue ao conjunto da população
brasileira, com o restabelecimento dos mecanismos de autonomia excluídos da 6 - Garantir a universalização do acesso à rede e uma internet mais
lei que criou a EBC (Empresa Brasil de Comunicação). A sustentabilidade desses justa, mais barata, mais segura e democrática por meio de:
meios deve ser garantida pelo Fundo Nacional de Comunicação Pública.
Fortalecimento da Telebras.
Acabar com a renovação automática das concessões, garantindo um
Descontingenciamento do Fundo de Universalização dos Serviços de
processo submetido a amplo debate e impedir a venda e o arrendamento da
Telecomunicações (Fust) e sua aplicação em políticas públicas inovadoras,
grade de programação das emissoras.
que garantam o acesso em todas as escolas, bibliotecas, órgãos e postos
Limitar a propriedade cruzada dos meios e proibir que igrejas e políticos de saúde; que estimulem a construção de redes comunitárias, sem fins
eleitos (ou parentes próximos) sejam proprietários diretos ou indiretos de lucrativos, por parte da própria população; e que articulem os receptores
canais de rádio e TV. de TV digital já distribuídos às famílias mais pobres junto a dispositivos de
Coibir manifestações discriminatórias e preconceituosas de todas as compartilhamento de Internet.
naturezas que possam induzir à violência contra qualquer ser humano,
promovidas por corporações midiático-financeiras globais, da internet e 7 - Reconhecer a internet como uma infraestrutura técnico-econômica
de videojogos. distinta comercialmente da rede técnica de telecomunicações que lhe

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dá suporte e também dos serviços e “plataformas”, sobretudo os de 8 - Garantir a diversidade e pluralidade nas redes
natureza comercial, fornecidos sobre ela. Tais serviços, que empregam
Incluindo mecanismos que evitem a concentração de conteúdo hoje
a tecnologia da internet como provedores de conteúdos, devem
constatada em plataformas como Google e Facebook – e fortalecer a
estar necessariamente submetidos à Constituição e leis nacionais,
participação popular na governança da Internet brasileira, por meio da
considerando suas especificidades:
estabilidade institucional do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br).
Serviços audiovisuais: serviços de streaming que funcionam como
produtores ou distribuidores de conteúdos audiovisuais, seja distribuindo
9 - Garantir a plena implementação da Lei Geral de Proteção de Dados
material de catálogo (Netflix, SpotiFy), seja funcionando como canais de
Pessoais
rádio ou televisão (YouTube), que serão reconhecidos como tais para efeito
de cumprimento da Constituição brasileira (Arts. 220-223) e, portanto, Criação de uma Autoridade de Proteção de Dados independente do
submetidos à legislação regulatória apropriada. governo, dotada de mecanismos para o efetivo cumprimento da lei pelos
poderes públicos e a iniciativa privada e gerida com participação social.
Serviços de mensageria: serviços de transmissão de mensagens, em
princípio neutros quanto aos conteúdos (WhatsApp, Telegram, Skype etc.),
similares pois aos Correios ou à telefonia, que serão reconhecidos como 10 - Recuperação do princípio da soberania nacional nas redes e
tais para efeito de cumprimento da Constituição brasileira (Art 21-XI) e, infraestrutura de comunicação, implicando, particularmente na Internet:
portanto, submetidos a legislação regulatória apropriada. Na defesa de transferência para agência especializada tutelada pela ONU,
Serviços de interação social e outros remunerados basicamente pelos dados da governança da internet, agência que deveria ser criada e que promoveria
do usuário: são serviços de fato nascidos das potencialidades tecnológicas e a elaboração e observância de tratados políticos, econômicos e técnicos
econômicas da Internet, a exemplo das plataformas Facebook ou Google, internacionais (intranacionais) similares, guardadas as devidas diferenças,
que evoluíram para se tornarem corporações mundialmente poderosas aos estabelecidos para as telecomunicações e radiodifusão quando essas
em termos econômicos e políticos intervindo e afetando distintos ramos tecnologias eram também nascentes nas primeiras décadas do século XX.
da comunicação social e da produção cultural (jornalismo, espetáculos, Manutenção, no Brasil, de servidores de corporações globais que
publicidade, biblioteconomia, vivência cotidiana etc.), dificilmente contenham e tratem dados de cidadãos e empresas brasileiras.
classificável nos termos da legislação histórica, por isto estando a exigir
tratamento regulatório específico no que tange à soberania e segurança
nacionais, liberdade de expressão, direito à privacidade, combate a
monopólios econômicos, entre outros tópicos;
Muitos outros serviços apoiados na internet não passam, realmente, de
renovados negócios privados tradicionais explorando as possibilidades
tecnológicas da rede, logo não precisariam de regulação, além da ordinária,
a exemplo do comércio eletrônico, do táxi privativo etc.

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POPU
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