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Ferrugem, Lucas

Uma breve história da Rússia: Aula 4

ISBN:

1. História da Rússia

CDD 990
__________________________________________

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SINOPSE
Durante a segunda metade do século 20, a União Soviética e os Estados
Unidos travaram uma guerra para assegurar o domínio de seu modelo político-
econômico ao redor do globo. Como foi possível para União Soviética, um país
socialista, realizar essa disputa com os Estados Unidos?

INTRODUÇÃO
Antes de iniciarmos o conteúdo dessa aula, gostaria de fazer uma breve
recapitulação. Terminamos a aula anterior com a chegada da União Soviética, sob
comando do Stalin, e dos Estados Unidos na Alemanha, a fim de derrotar Hitler. Além
disso, continuamos a visitar a história da Rússia ao longo do tempo, principalmente
seu avanço na Segunda Guerra e o posicionamento geopolítico que adotou. Ao final
da aula, também mencionamos que tanto os Estados Unidos quanto a União Soviética
empreenderam uma corrida para chegar em Berlim, visando ao mérito de ser o
vencedor da guerra e à possibilidade de realizar o desfile da vitória. Existia a
expectativa, ainda, de conseguir o corpo de Hitler, algo que não aconteceu.

A Segunda Guerra chega ao fim


Hitler estava vencido. A Alemanha nazista e a ameaça que representava
estavam derrotados. A expectativa era de volta à paz, era de tranquilidade e de
retorno de todos aos seus respectivos territórios. Alguns líderes, contudo, estavam
cientes de que a situação era mais problemática do que parecia. Neste exato
momento em que a guerra chegava ao fim, a corrida para Berlim denunciava a
mentalidade de dois dos vencedores. Os dois principais vencedores do bloco dos
Aliados, responsáveis por derrotar a Alemanha Nazista, foram a frente saxão-
estadunidense, formada por Estados Unidos e Inglaterra, e a União Soviética. No
entanto, estes eram inimigos diametrais e não concordavam em absolutamente nada
acerca de quais providências deveriam ser postas em prática a partir de então.
A Europa sofrera a morte de 60 milhões de pessoas. Diversos regimes
políticos, com diferentes nomes, haviam sido extremamente traumáticos. As fronteiras
estavam desconfiguradas. Nenhum dos países apresentava o mesmo território
anterior ao conflito. Os exércitos da Rússia, da Inglaterra e dos Estados Unidos
estavam por todos os lados. Nessas circunstâncias, era preciso determinar como as
fronteiras seriam reorganizadas, como isso seria feito, quem ficaria com que território.
As soluções para essas questões não eram fáceis e nenhum dos líderes tinha
esperanças de uma conversa tranquila. Inaugurava-se uma guerra muito diferente,
que ficou conhecida como Guerra Fria. Sua particularidade está na forma como esses
líderes confrontaram-se e como buscaram ser bem-sucedidos no desbravamento e
na conquista deste território, usando métodos para além dos militares.
Stalin continuava à frente da União Soviética. Nos Estados Unidos, o mandato
de Roosevelt chegava ao fim e Truman assumiu a função presidencial.

Os cientistas alemães
Nesse contexto, os ingleses deixaram de aprisionar, maltratar e confiscar as
armas dos alemães que capturavam no caminho. Essa nova política, uma espécie de
lobby com os alemães, foi adotada caso viessem a precisar dos alemães. A
determinação aos soviéticos, por outro lado, era encaminhar aos gulags, campos de
trabalho forçado, os alemães capturados. Stalin, contudo, estava a par do movimento
dos ingleses, ainda que tenha tido acesso a informações desencontradas, pois
possuía agentes da KGB infiltrado em todos os lugares da guerra. Do mesmo modo,
os Estados Unidos tinham agentes da CIA infiltrados por todos os lados.
Por que isso é importante? Porque existia, na Alemanha, um grande poder
bélico relacionado ao desenvolvimento de foguetes. A Alemanha havia sido muito
eficiente no desenvolvimento de foguetes e no armamento bélico para enfrentar a
guerra. Ambos países tinham a expectativa de se apoderar dessa tecnologia para
desenvolvimento bélico, para a corrida armamentícia que apresentava seus primeiros
indícios. A perspectiva de que aquele que possui mais armas é mais forte estava clara
tanto para a União Soviética quanto para os Estados Unidos. Por isso, conseguir se
apropriar da tecnologia dos foguetes era fundamental. Nós temos uma falsa ideia de
que todos os nazistas foram punidos. Na verdade, foi feita uma negociação com
cientistas e engenheiros, em que tiveram a oportunidade de escolher em qual lado
gostariam de ficar, usufruindo de todas as benesses, do anonimato, de novas
identidades e de dinheiro. O conhecimento desenvolvido pela Alemanha valia muito
dinheiro e muito progresso. Para termos uma noção, além dos foguetes, a Alemanha
havia desenvolvido o transplante de órgãos.
Um detalhe muito importante mudou o rumo da história. Os cientistas alemães,
que lideravam os projetos, dentre os quais, o projeto dos foguetes, decidiram ir para
os Estados Unidos. O motivo da escolha é evidente. Corriam boatos acerca do regime
stalinista, que era muito fechado e perigoso. Os Estados Unidos, por outro lado,
tinham muito dinheiro, fato amplamente conhecido devido aos empréstimos que
estavam concedendo aos países. Assim, esses pesquisadores acreditavam que os
Estados Unidos tinham maior capacidade de financiar suas iniciativas científicas. Nos
Estados Unidos, esses estudiosos começaram a publicar uma série de artigos
científicos nas revistas internacionais de reconhecimento.

A disputa tecnológica
Em certo momento, o líder da KGB teve uma percepção muito astuta, ao se
dar conta de que as publicações científicas haviam sumido das revistas norte-
americanas. A fim de encontrar um padrão, resolveu identificar quais temas não eram
mais abordados. Ele descobriu que os pesquisadores que haviam sumido, há pouco
tempo estavam fazendo pesquisas relacionadas a projeções atmosféricas, a foguetes
que sairiam da órbita e a células atômicas e de hidrogênio. Esse homem encaminhou
a Stalin essas informações e acrescentou que, do seu ponto de vista, esses cientistas
estavam desenvolvendo a bomba atômica.
Esses cientistas estavam tentando desenvolver dois tipos de tecnologia: a
colisão do átomo e a projeção atmosférica. Esse agente da KGB havia recebido
informações discrepantes e buscou contatar todas suas fontes a fim de verificar a
veracidade acerca da existência do projeto Manhattan, que ousava ter a capacidade
de explodir o mundo caso fosse necessário. O projeto Manhattan era o projeto da
bomba atômica, em cuja equipe estavam presentes os engenheiros capturados na
Alemanha nazista. O agente da KGB teve a informação afirmativa confirmada. O
projeto Manhattan estava em operação.
Vista a perspectiva soviética, podemos migrar para os Estados Unidos, que
estavam obtendo esse progresso tecnológico.
Era meio consensual: os americanos não queriam mais esse clima de guerra.
Os homens do exército queriam voltar para casa, para viver o american dream. As
esposas queriam seus maridos de volta ao lar. As mães, seus filhos. Quando a
Primeira Guerra, a Grande Guerra, chegou ao fim, os americanos acreditaram que
estava tudo bem. Contudo, não demorou tanto para que a Segunda Guerra eclodisse.
Mais uma vez, os homens foram enviados para o campo de batalha. Todos esses
conflitos haviam consumido muito tempo e esses soldados finalmente podiam voltar
para casa. Por isso, estender a guerra, estabelecer um novo conflito, era uma ideia
muito antipopular que não estava ao alcance de um presidente que quisesse se
manter no poder. É preciso observar que o povo americano sempre teve dificuldade
para se engajar nessas guerras, pois ficavam do outro lado do mar. Houve uma
campanha para que o povo aderisse à guerra contra a Alemanha. Caso o ataque a
Pearl Harbor, empreendido pelo Japão, aliado da Alemanha Nazista, contra os
Estados Unidos, não tivesse ocorrido, provavelmente não teria havido tanta facilidade
de entrar na guerra. Com o ataque a Pearl Harbor, o presidente percebeu uma chance
de ter apoio popular, porque a população, é claro, não quer ser atacada.
Resumidamente, por mais que a população achasse aqueles acontecimentos
absurdos, já desejava o retorno de seus homens para casa. Há cenas dos filmes que
ficaram famosas, em que as mulheres estão com as bandeirinhas esperando os
maridos.
O presidente americano estava ciente que o lado oriental era uma caixa-preta.
Afinal, o Japão havia realizado um ataque imprevisto. Churchill, Primeiro-Ministro da
Inglaterra, sempre soube e deixou claro que a União Soviética era o novo problema.
Na opinião de Churchill, após conquistar a Alemanha, os exércitos deveriam continuar
até a Rússia, pois, se isso não acontecesse, não haveria paz. Lembrando que a União
Soviética, os Estados Unidos e a Inglaterra estão configurados como aliados. Havia
conferência entre os líderes dos países, que declaravam estar juntos para deter as
ameaças da Alemanha nazista. Em meio às reais opiniões, é evidente que era uma
aliança mais do que falsa entre os três.
Quando Stalin tomou conhecimento do projeto Manhattan, afirmou que a União
Soviética precisava liderar o progresso tecnológico. Neste momento, começa a se
delinear o que imaginamos como Guerra Fria, aquela corrida armamentícia, espacial,
nos esportes, a competição de quem era melhor em todos os aspectos possíveis.
Havia, no entanto, uma noção pouco clara de como seria essa guerra.
Tem uma frase famosa que, no meu entendimento, é a melhor para entender
a Guerra Fria: “Guerra improvável. Paz, impossível”. É preciso entender essa dupla.
Não há como esses países estabelecerem a paz, mas, ao mesmo tempo, a guerra é
muito improvável porque ambos recém saíram de uma guerra e têm muito a perder.
Afinal, são dois exércitos enormes, que precisariam fazer longas travessias para
conflitar. Isso após a Segunda Guerra Mundial e sem popularidade.
Inicialmente, Stalin quadruplicou os investimento em tecnologia na União
Soviética, para mostrar que estavam muito evoluídos. O orçamento ainda foi
multiplicado muitas vezes mais. Com todo esse financiamento, a União Soviética
conseguiu formar um corpo de cientistas muito importante. Stalin nomeou esses
pesquisadores para diferentes equipes, as quais competiam entre si para produzir os
foguetes primeiros. Nascia a corrida espacial que, anos mais tarde, levaria o homem
à Lua. Nessa época, Stalin estava mais preocupado em demonstrar força do que em
atacar. Por isso, queria obstinadamente que a União Soviética demonstrasse o poder
de enviar um foguete para fora do planeta, para que os Estados Unidos a percebesse
como uma grande ameaça e evitassem de nela interferir ou conflitar.

A Bomba
Posto esse cenário, os Estados Unidos conseguiram produzir a bomba
atômica1. Primariamente, havia um medo que a Alemanha nazista já tivesse
inventado a bomba e, depois, que a União Soviética a fabricasse primeiro. No entanto,
foram os Estados Unidos o primeiro país a descobrir a sua fórmula. Oppenheimer2,
um dos inventores, matou-se depois, ao perceber que havia feito um cálculo incrível,
mas com capacidades cruéis. Albert Einstein havia garantido que a teoria da
relatividade jamais poderia ser usada dessa forma. Ao ser comunicado que a bomba
atômica havia sido produzida, Einstein respondeu que era impossível. Então,
encaminharam a ele os cálculos de Oppenheimer. Após analisá-los, Einstein
escreveu uma carta pública ao presidente dos Estados Unidos, em que diz “Sinto
muito. Temos a bomba”. Naquele instante, os Estados Unidos ganharam um poder
verdadeiramente diferente. Não existia, na história da humanidade, a ideia de apertar
um botão e explodir todos os átomos e moléculas de vida em um determinado
território, de amplas dimensões.
Com a bomba em mãos, os Estados Unidos exigiram a rendição do Império do
Japão. O Japão, contudo, não aceita a rendição e afirma que os países continuarão

1
Há um livro muito bom, chamado “Projeto Manhattan”, que conta essa história em
detalhes.
2
Robert Oppenheimer foi um físico norte-americano, responsável por dirigir o Projeto
Manhattan, que desenvolveu a bomba atômica.
em guerra. Diante da recusa, os Estados Unidos sobrevoam o Japão. Essa ameaça
tinha como objetivo provocar a desistência japonesa. No entanto, a resposta
permanece a mesma: o Império do Japão não irá se render. Truman estava cansado.
Ele havia assumido a presidência somente ao final da guerra, substituindo Roosevelt,
que liderou os Estados Unidos durante a maior parte do conflito. Truman estava
decepcionado com o desenrolar da guerra. Mais do que isso, ele estava ciente que o
povo queria paz e de que a opinião pública americana não tinha nenhuma empatia
para com o povo japonês, muito em função de vários filmes que haviam sido feitos3.
Foram os filmes os responsáveis por incutir na cabeça das pessoas a ideia, que
perdura até hoje, de que os orientais são todos iguais. Isso não é verdade. Os
orientais são nitidamente diferentes, mas ainda fazemos piada com isso. Nos filmes,
os orientais eram retratados como batalhões de formigas e de ratos, todos uma massa
uníssona, burra. Eram filmes de propaganda em plena Segunda Guerra. Os diretores
jamais esperaram que a bomba atômica seria fabricada. No entanto, essas produções
cinematográficas ajudaram a criar essa opinião pública e a falta de empatia entre os
americanos. Somado ao estresse da guerra, ao Japão ser uma ameaça, ao desejo
de acabar logo com a guerra, os Estados Unidos advertem que se o Japão não se
render, irão explodi-lo. O Império do Japão novamente não se rende.
Muitos acham que, nesse momento, os Estados Unidos repentinamente
apertaram o botão e explodiram Hiroshima e Nagasaki. Não foi assim que aconteceu.
Os Estados Unidos detonaram bombas incendiárias, do tipo pega fogo, que mataram
algumas pessoas. O Japão contra-atacou.
Enquanto isso, Stalin esticava os tentáculos soviéticos no leste europeu,
fomentando e financiando partidos comunistas com os empréstimos que os norte-
americanos haviam lhe concedido para enfrentar a Alemanha nazista. Esse
empréstimo estava em voga pois os dois países não haviam se encontrado para
renegociá-lo.
Outro fator importante que tornava emergencial, para os Estados Unidos, o
término da guerra com o Japão, era o fato de a prolongação do conflito fazer com que
parecesse fraco aos olhos da União Soviética. Como último recurso, os norte-
americanos tentaram uma estratégia inusitada. Eles imprimiram 65 milhões de
panfletos, nos quais informavam as cidades a serem atacadas. Ainda, acrescentaram

3
Sobre o tema, recomendo a série do Netflix “Five Came Back”.
que não havia garantia de que eles não atacariam outras cidades. Afirmavam que
explodiriam o Japão e solicitavam que a população fizesse seu governo capitular.
Esse panfleto foi distribuído ao povo japonês, a fim de forçá-lo a pressionar o governo
e fazer este declarar a rendição. O governo, no entanto, não cedeu.
Em um determinado momento, ainda em 1945, os norte-americanos apertam
o botão. Era 6h da manhã quando Hiroshima perdeu conexão com a base central. O
exército japonês tentou entrar em contato, mas não houve resposta. Recorreram ao
rádio, mas a situação permaneceu inalterada: não havia comunicação com Hiroshima.
Assim, homens foram enviados à Hiroshima para verificar qual era o problema. O
avião decola em direção à Hiroshima. Depois de três horas de voo, os homens na
aeronave avistam um grande cogumelo de fumaça negra no céu.

Apavorados, os homens entraram em contato com base, informando que a


situação era crítica. Ao se aproximarem, esses homens percebem que a cidade havia
sido dizimada. Posteriormente, parte dessa tripulação morreu devido à infecção da
explosão atômica. O relato é que, ao sobrevoar à volta do cogumelo de fumaça, ainda
havia lava no chão, uma fenda, efeito da bomba. Um desses homens deu um
depoimento em que afirmou que não havia palavras para descrever, que ele não
acreditava no que estava vendo. Sua orientação é que o Japão não tinha nenhuma
chance. A guerra tinha ganhado outra proporção. A rendição era imprescindível, pois
o Japão não tinha, em seu horizonte próximo, o menor vislumbre de produzir uma
bomba, sequer parecida.
O governo do Japão faz luto e, no dia seguinte, declara que os Estados Unidos
cometeu um ato inadmissível, um atentado, etc.. Diante disso, os Estados Unidos
explodem Nagasaki. Eles comunicam que ou o Japão se rende ou explodiriam tudo.
O governo japonês finalmente capitula. O Japão se rendeu.
Esse é o único momento da história de qualquer guerra em que a bomba
atômica realmente foi usada. As consequências de sua explosão perduram até hoje.
A bomba atômica tem a capacidade de atingir a carga genética humana. Por isso,
ainda hoje, embora não seja um fenômeno generalizado, há pessoas que nascem
com má formação congênita ou física em função disso. Essa medida foi muito
agressiva e o pronunciamento do Truman acerca do fato foi um tanto quanto irônico.
Truman declarou que foi bom Deus ter impelido os Estados Unidos a usarem a bomba
contra o Japão e não o contrário, o Japão usar a bomba contra os Estados Unidos. É
preciso estar consciente do contexto. Estamos na Segunda Guerra Mundial.
Infelizmente, a morte tinha virado, em alguma medida, algo normal.
Stalin percebe nesses acontecimentos uma oportunidade. Ele entendeu que
seria muito difícil, para os Estados Unidos, ganhar popularidade, pois eles haviam
explodido um país de um jeito que fez muito marketing, no sentido de ser muito
simbólico e de apresentar amplo conhecimento ao redor do mundo. Eu tenho certeza
que vocês já se depararam com essa história ao longo da vida. O cogumelo de fato.
O fato de a bomba matar as árvores, os animais, dizimar completamente a vida. Eu
não sei se vocês sabem, mas a bomba atômica não explode somente onde é jogada.
Ela se expande e acaba com toda vida que tocar. Isso foi muito impopular.
Certamente, essa é a semente do movimento hippie que surgiu posteriormente, no
Vietnã.

Uma nova estratégia comunista


Voltemos nossa atenção para a União Soviética. Stalin estava querendo
garantir o domínio do leste europeu. No entanto, houve uma alteração nas
circunstâncias dos países. Antes e durante a Segunda Guerra, o partido comunista
era muito popular. As pessoas estavam empolgadas com as novas ideias de Lenin e
de Trotski e com os rumos da Rússia e tantos outros exemplos. O partido comunista
prosperava muito e usufruía de uma fácil adesão através do movimento sindical. Toda
essa movimentação era vista com muita euforia na Europa. Com o término da guerra,
o partido comunista estava parando de crescer, porque a volta da prosperidade e um
tipo de progresso econômico modificaram os regimes de trabalho e atenuaram as
críticas contra as empresas. As jornadas de trabalho não duravam mais 16 horas por
dia. A penosa situação de todos, a vida sofrida, propagava a ideia de que era preciso
buscar formas de aliviar tantas dificuldades. Esse impacto emocional se traduz de
várias formas, descentralizadamente, em uma política mais tranquila. Nesse contexto,
o partido comunista parava de ser tão atrativo, porque era um movimento de revolta
contra os meios de produção e contra a vida tradicional.
Stalin, que nunca foi burro, sempre esteve ciente dessa possibilidade. Ele
chegou a mencionar em seus escritos que era necessário esperar mais tempo para
fazer algumas implementações. Para resolver o problema da perda de atratividade
dos partidos comunistas, criou uma estratégia, utilizada até hoje. Primeiro, Stalin
comunicou a Churchill e a Truman o fim da Comintern, devido ao esgotamento da
ideia de comunismo global. Em seu lugar, Stalin fundou um Bureau, um comitê
soviético de assuntos internacionais. Na realidade, era simplesmente uma troca de
nome, em que a escolha por uma palavra francesa foi usada propositalmente para
retirar a aura comunista da organização. Além disso, Stalin instruiu os países do leste
europeu, os países comunistas e os países que estavam flertando com o comunismo,
com um forte movimento comunista, a retirarem o nome comunista e empregarem
palavras como operário, democracia do povo e trabalhadores.
O termo comunista estava assustando as pessoas, inclusive por ser um dos
lados da guerra. A regra de colocar operário, democracia popular e trabalhadores
seria uma solução para esse problema. Sabemos que essa estratégia foi
extremamente bem-sucedida. Até hoje, essas terminologias são utilizadas. Essas
palavras nomeiam muito mais partidos do que “comunismo” e, de fato, há a impressão
de que se tratam de vertentes políticas diferentes. Exemplos, em variados países, não
faltam: “Partido dos Operários Ingleses”, “Partido dos Trabalhadores Alemães”,
“Partidos dos Trabalhadores”, “Partido dos Trabalhadores do Brasil”, “Partido Social-
democrata Brasileiro”. Essas diferentes nomenclaturas nos conduzem a exatamente
o mesmo movimento. É importante saber que isso aconteceu e que foi uma diretriz
do movimento comunista central.
A Cortina de Ferro e os Estados Satélites
Nessa época, Stalin também começou a estabelecer a cortina de ferro. Na
Conferência de Potsdam, na Alemanha, Truman, Stalin e Churchill se reuniram e
determinaram a divisão da Alemanha entre o lado Ocidental, dividido entre os Estados
Unidos, a Inglaterra e a França, e o lado Oriental, pertencente à União Soviética.
Embora Berlim estivesse incrustada na Alemanha Oriental, por ser a capital, também
foi dividida ao meio. O lado direito, dos soviéticos, deu origem à República
Democrática da Alemanha. A Alemanha Ocidental, por sua vez, foi nomeada
República Federal da Alemanha. Apenas para demonstrar o contraste: A Alemanha
Ocidental obedecia aos Estados Unidos. Isso significava a presença do exército norte-
americano e o normal funcionamento do país, que contava com empréstimos a juros
baixos. A Alemanha Oriental obedecia à União Soviética. Isso significava a
transformação de todas as fazendas e negócios em propriedades do governo. As
pessoas também foram convertidas em empregados do Estado, o qual era
responsável por decidir aspectos concernentes da vida pública e privada. Havia,
portanto, essa leve diferença entre estar sob tutela de um ou de outro.
Havia mais uma discussão em pauta: o que fazer com a Polônia? No Tratado
de Yalta, os líderes se comprometeram a deixar que eleições livres ocorressem.
Entretanto, Stalin criou uma estratégia chamada Estado satélite. Os Estados satélites
não seriam integrados à União Soviética, mas, nesses países, um partido disputando
eleições receberia apoio do exército e financiamento soviéticos. Caso esse partido
não fosse vitorioso, Stalin usaria essas tropas para entender o que aconteceu na
eleição. Deste modo, o partido comunista ganhou os cargos em todos os lugares.
Vale a pena citar que o caso ímpar da Iugoslávia, que teve uma política diferente.
Neste país, havia um governante, chamado Tito4, que era aclamado pelo povo.
Podemos descrever Tito como um homem mais stalinista do que o próprio Stalin. A
Tchecoslováquia e a Polônia tiveram movimentos de resistência contra o comunismo
bem fortes.
Outro aspecto importante a mencionar é que, à exceção da Iugoslávia, em
nenhum desses países - Letônia, Estônia, Lituânia, Polônia, Grécia, Romênia,
Cazaquistão -, existia um movimento majoritário em prol do comunismo. Existia, sim,

4
Josip Broz Tito foi ex-presidente da Iugoslávia. Ficou no comando do país de 14 de janeiro
de 1953 até 4 de maio de 1980.
um movimento minoritário, intensamente financiado pela União Soviética. Vale
ressaltar que, além do petróleo russo, o dinheiro advinha dos empréstimos norte-
americanos mal negociados.
Churchill foi quem cunhou o termo “cortina de ferro” denunciando essas
práticas de Stalin e sublinhando que havia um desconhecimento sobre o que estava
acontecendo. As eleições e os processos estavam estranhos e o Exército Vermelho
marchava sobre o leste europeu como se lhe possuísse. Com isso, instaura-se um
clima áspero.
Stalin, no entanto, manteve essa política e conseguiu estabelecer o governo
nesses países. Depois da vitória, Stalin começou a expropriar dinheiro dos Estados
satélites para investir enormes montantes em tecnologia. Enquanto isso, o povo
continuava na mesma miserável situação. Um indicador interessante para entender
esse cenário está no consumo de sabão. O sabão era dado pelo governo. Sua compra
era ilegal, pois equivalia à existência do mercado negro, que era proibido. As famílias
ganhavam, em média, três barras de sabão por ano. Com essa informação,
conseguimos mapear o estado da União Soviética. Na Rússia, durante o inverno, as
temperaturas podem chegar a até -30ºC. No leste Europeu, em -10ºC. Nesse
contexto, as pessoas podiam escolher somente um sapato por ano. Era preciso optar
entre um sapato de couro, para trabalhar, e uma bota para frio. Não era possível ter
os dois. Assim, as pessoas em um ano escolhiam a bota e no outro, o sapato. A partir
daí, era possível intercalar entre os dois.
Apenas um parêntese, isso são hábitos que prevalecem. No ano passado5,
visitei a República Tcheca. Lá, as pessoas usam o mesmo sapato e a mesma roupa
todos os dias. Na viagem, fui acompanhado durante sete dias por uma pessoa local
e pude perceber que era um hábito. Ela vestia o mesmo casaco, a mesma calça, a
mesma camisa, o mesmo cinto, o mesmo sapato, o mesmo chapéu. O povo criou
uma cultura adaptada à escassez.
Portanto, o dia a dia das pessoas continuava desafiador. Os gulags ainda
estavam ativos e, com a guerra, adquiriram uma característica especial. Stalin não
libertou os judeus que encontrou nos campos de concentração, ele os transferiu para
seus próprios campos. Essa é a diferença entre um e outro. Enquanto os Estados
Unidos libertavam os judeus, Stalin reaproveitou os campos de concentração que

5
Faz referência a 2018.
havia descoberto, encarcerando os judeus nos gulags, forçando-os a trabalhar para
ele. Se o genocídio do Holocausto contabilizou seis milhões de judeus, Stalin
apreendeu os cinco milhões de sobreviventes e os enviou aos gulags.
É uma falsificação histórica gigantesca não abordarmos essa política da União
Soviética. Isso não foi alardeado porque o contexto de final de Segunda Guerra
Mundial pediu uma negociação entre Rússia e Estados Unidos que impossibilitou que
a opinião pública enxergasse essa prática. Os Estados Unidos ficaram sabendo que
a União Soviética estava fazendo isso. Os poloneses denunciaram a União Soviética
para o papa e houve várias outras denúncias. Sabia-se o que estava acontecendo.

Prontos para luta


Em 1949, surge um novo problema. Para ameaçar a União Soviética, que
estava investindo muito em tecnologia, os Estados Unidos criam a OTAN 6, uma
aliança nuclear dos países ocidentais, justamente para posicionar mísseis apontados
para a Rússia nos países europeus.
A partir desse momento, existia um fácil botão de ação. Ao mesmo tempo,
criou-se o DEFCOM7. O DEFCOM é um código americano, que varia de 5 a 1, e
estabelece o nível de problema militar existente em cada momento. Atualmente, os
Estados Unidos estão em DEFCOM 5 ou 4. O nível oscila, às vezes, devido às
questões da guerra muçulmana. O nível 5 indica que está tudo tranquilo. O nível 4
indica que as operações de inteligência estão ligadas, coletando informações e
informando os órgãos militares. O nível 3 indica que as operações militares estão
ativas, os mísseis estão prontos e a aeronáutica está pronta para ser ativada em 12
horas. O nível 2, do qual os Estados Unidos nunca passaram, informa que há uma
ameaça iminente e que o exército está pronto para atacar em três horas. Por fim, o
nível 1 significa que é preciso se preparar para uma guerra nuclear iminente. Para
termos noção, no caso do World Trade Center, o nível do DEFCOM era 3.
Com o posicionamento dos mísseis em vários pontos da Europa, com alcance
à Rússia, e a criação do DEFCOM, o presidente americano passou a possuir a

6
Aliança militar intergovernamental baseada no Tratado do Atlântico Norte, que foi assinado
em 4 de abril de 1949.
7
Níveis de DEFCOM. Nível 5: Nível Padrão de tempos de paz; Nível 4: Aumento de coleta de
inteligência; nível 3: prontidão elevada. Força aérea pronta para se mobilizar em 15 minutos.
Nível 2: alta prontidão. Forças armadas prontas para serem acionadas em seis horas. Nível 1:
máxima prontidão. Guerra nuclear provável ou iminente.
capacidade de iniciar um rápido ataque. Havia, em seu poder, configurações de
estratégia militar para se defender.
Chama-se Guerra Fria justamente porque, apesar dos países se preparem
como se fossem se enfrentar e realizar a batalha do século, a guerra direta entre eles
nunca aconteceu.

A China é comunista
Talvez vocês não tenham percebido, mas há uma similaridade entre o idioma
russo e os idiomas orientais. Em ambos, existe a pronúncia tônica em várias sílabas.
Essa proximidade não é à toa, pois eles, de fato, são mais próximos. Basta ver no
mapa. Até hoje, não temos muito contato com essas regiões. Permanecemos presos
em nossa bolha, no mundo ocidental. Nessa época, na China, um movimento surgido
no campo, de ideologia marxista, rebela-se e toma o poder em 1949. Stalin recebeu
um telegrama assinado por Mao Tsé-Tung8, líder da revolução, solicitando a Stalin
respostas em relação a dúvidas acerca da ideologia marxista. Stalin respondeu aos
questionamentos. Ele e Mao trocaram muitos telegramas ideológicos neste momento.
Stalin estava a par da existência de Mao Tsé-Tung, um guerrilheiro. Contudo, nunca
achou que ele fosse conseguir tomar o poder.
Isso apavorou os países ocidentais. A China era um país enorme, com mais
de 600 milhões de habitantes. De repente, da noite para o dia, o movimento comunista
havia dobrado de tamanho. Foi uma notícia ruim nos Estados Unidos.
Para piorar, logo em seguida, eclodiu a Guerra da Coreia. A Coreia sempre
havia sido um ambiente muito turbulento. Durante muito tempo, o país foi subjugado
pelo Japão e contou com o auxílio chinês para expulsá-los. Na Coreia, a disputa
estendeu-se até o estabelecimento das fronteiras atuais, que hoje conhecemos como
Coreia do Sul e Coreia do Norte. Uma curiosidade é que a guerra não acabou. Embora
não estejam em conflito neste exato momento, não existe nenhum tratado de paz. A
fronteira entre as duas Coreias é uma das zonas mais militarizadas do mundo. O
confronto não está em marcha devido à saturação dos envolvidos. Ou seja, eles
cansaram de lutar. A qualquer momento, a guerra pode recomeçar e estará dentro do
esperado. Às vezes, essa consciência nos escapa.

8
Mao Tsé-Tung foi ex-Presidente do Governo Popular da China de 1 de outubro de 1949 até
27 de setembro de 1954.
A morte de Stalin
Houve uma mudança fundamental que marcou esse período. Stalin estava
ficando velho. Ele começou a apresentar alguns problemas de saúde. O médico o
diagnosticou com uma doença que enrijece as veias, a qual poderia ter enrijecido as
veias do cérebro. Ao receber esse diagnóstico, Stalin acusa os médicos de formarem
um complô para matar comunistas e manda que sejam assassinados. Os médicos
foram aprisionados e mortos. Isso é um absurdo, mas depois de 31 anos de poder
ininterruptamente impondo essas determinações, Stalin conseguiu pasteurizar a
tragédia.
Stalin estava em sua Datcha, sua fazenda. Ele costumava ir para o quarto
cedo, mas não dormia. Em vez disso, ficava caminhando no quarto, pensando,
elaborando estratégias. Ele costumava dormir um pouco de manhã e acordar
estressado. As escravas de sua fazenda sabiam que ele tinha o hábito de pedir chá
em uma hora específica. No entanto, naquela dia, Stalin não fez nenhuma solicitação.
As pessoas na fazendo demoraram 12 horas para ter coragem de bater na porta, de
medo do que poderia lhes acontecer se interrompessem o supremo líder. Isso
explicita o quão agradável ele era. Quando bateram na porta, no dia 5 de março de
1953, na datcha de Kuntsevo, o senhor Ioseb Besarionis dze Jughashvili,
autodenominado Josef Stalin, estava morto, fruto de um derrame, provavelmente,
enquanto dormia, pois estava na cama.
Stalin estava morto. Preciso que façamos um exercício de empatia para tentar
compreender o tamanho desse problema. Stalin estava há 31 anos no poder. Ele
havia sido responsável pela vitória na guerra. Toda estrutura da Rússia estava
pautada nele. Os homens próximos a eles, psicopatas que lideravam o serviço
secreto, o exército, e outras instituições e ministérios, precisavam determinar quem
ocuparia o seu lugar. Mal descobriu-se que Stalin estava morto, criou-se um cenário
em que esses homens articulavam, tentando identificar o que fazer para aproveitar
essa oportunidade e pegar o poder.
Para vocês terem noção da dimensão do problema, os Estados Unidos não se
manifestaram. O governo esperou para ver a reação do resto do mundo. Ninguém
sabia o que significava exatamente a morte de Stalin.
A morte de Stalin também nos mostra fatos interessantes da humanidade. Boa
parte dos russos chorou muito com a morte de Stalin. Ficaram muito tristes. Inclusive,
nos próprios gulags. Stalin era tido como um grande pai. Mao Tsé-Tung, que também
matou seus milhões, chegou a dizer que Stalin foi 70% bom e 30% mau. Essa dor é
um fenômeno estranho. Tem um livro escrito por Svetlana Alexijevich, chamado “O
fim do homem soviético”. Svetlana entrevistou várias pessoas, bem depois da morte
de Stalin, sobre a queda do regime comunista na Rússia. Grande parte dos
depoimentos das pessoas são de nostalgia, de carinho pelo viveu. Neles, também
está presente a ideia de que Stalin foi um homem de ferro, de que, em sua época, a
Rússia era ordenada. É difícil e maluco tentar entender esse amor à própria servidão.
Mas, prova disso é que Stalin não foi derrubado. Ele tinha legitimidade, também com
base no medo, mas a tinha.

Kruschev, a Desestalinização e a Teoria da Soberania Limitada


Em março de 1953, Georgy Malenkov9, braço direito de Stalin, assume o poder,
no qual ficou somente até setembro deste mesmo ano. A causa para essa decisão,
tomada a portas fechadas, não está precisamente definida pela historiografia. No
documentário “Os últimos dias de Stalin”, importantes políticos da Rússia concederam
depoimentos completamente diferentes e até mesmo conflitantes acerca do fato.
Sequer concordam sobre o assunto da reunião.
De qualquer forma, em setembro de 1953, quem assumiu o poder foi Nikita
Kruschev10. Kruschev tinha uma longa experiência em Rússia. Ele havia comandado,
junto com Beria, várias operações da KGB. Kruschev também participou da execução
do grande expurgo, em que os ucranianos foram expulsos da Rússia. O que torna
interessante seu governo é que empreendeu uma política de desestalinização, ainda
que tenha sido aliado de Stalin ao longo dos tempos. Em 1956, no 20º Congresso do
Partido Comunista, Kruschev pediu para realizar um discurso a portas fechadas para
os líderes do partido. Esse discurso secreto foi divulgado somente em 1992, depois
da queda da União Soviético. Nesse discurso, Kruschev condenou as políticas
stalinistas e afirmou que, caso a União Soviética não melhorasse, seria difícil mantê-
la.

9
Georgy Malenkov: ex-líder da União Soviética. Ficou no poder de 6 de março de 1953 a 13 de
setembro de 1953.
10
Ex-líder da União Soviética, cargo que exerceu de 14 de setembro de 1953 a 14 de outubro
de 1964.
O objetivo da desestalinização não era liberalizar a economia, mas aliviar a
situação da população e findar com a política acentuadamente persecutória e
assassina. Na coletiva de imprensa em que Kruschev anuncia a desestalinização, um
jornalista levanta a mão e questiona onde ele estava com a desestalinização
enquanto Stalin estava vivo. Estou contando essa história porque acho a frase de
resposta muito simbólica. Kruschev olha para o jornalista e responde: no mesmo lugar
que você, com a boca fechada11. Dentre as respostas possíveis, acho essa a mais
honesta, porque ele não tentou se justificar.
Além da desestalinização, Kruschev também empreendeu a teoria da
soberania limitada. Essa teoria afirmava que a política de não intervir em outros
países deveria ser limitada, porque era dever da Rússia, mãe do comunista, auxiliar
os países comunistas que estivessem em uma situação frágil. A teoria da soberania
limitada pressupõe que todos os países comunistas, antes de Estados, são
comunistas. Isso muda muito a história.
O professor Olavo aborda essa questão. Ele ressalta que os sovietólogos, que
estudavam pelo viés dos Estados Unidos, pensavam a Rússia em termos de Estado.
Eles pensavam a disseminação do comunismo por países. A partir desse momento,
no entanto, a Rússia coloca o comunismo em primeiro lugar e o país, em segundo. O
movimento comunista ocupa os países para ser comunista, mas não o contrário, de
ser comunista para ter um país.
Stalin era muito nacionalista. Conforme comentei, ele inaugurou o nacional-
socialismo. Por isso, a teoria da soberania limitada fazia parte da desestalinização.
Isso causa problemas. Em 1953, Kruschev assumiu o poder com o desejo de
implementar essa teoria. Em 1955, estoura uma guerra na região da Ásia, a guerra
do Vietnã12, e a União Soviética decide interferir. O Vietnã era uma colônia francesa.
Por isso, junto com o Laos, era chamado de Indochina Francesa. Havia, no Vietnã, o
Vietminh, um movimento que se propunha a estabelecer o socialismo marxista dentro
do Vietnã, através de uma revolta comunista. Devido à teoria da soberania limitada,
a União Soviética decide intervir, auxiliando esse movimento.

11
Essa entrevista está disponível na internet.
12
Sobre esse tema, assistam ao documentário “Guerra do Vietnã”, do Ken Burns, disponível
no Netflix. O documentário é fruto de um trabalho de pesquisa incomparável e é o melhor
sobre esse assunto.
Nessa circunstância, John F. Kennedy, presidente dos Estados Unidos à
época, reflete sobre o que fazer. O povo não queria mais uma guerra, mas, ao mesmo
tempo, a China havia se tornado comunista e havia chances de a Coreia seguir
exatamente o mesmo rumo, uma vez que a guerra ainda estava em curso. O
comunismo iria tomar a Indochina, além de toda a União Soviética. Era evidente o
problema de deixar que metade do planeta fosse comunista. Kennedy fica nesse
impasse e opta por não se envolver diretamente na guerra enquanto os soviéticos
estivessem interferindo no conflito. No entanto, os Estados Unidos gostam sempre da
mesma moeda, literalmente. Eles decidem financiar o movimento de oposição. Para
isso, procuram o homem mais nacionalista e oferecem ajuda para que vença a
disputa. Além de um grande auxílio financeiro, os Estados Unidos forneceram armas
e mísseis. A guerra progressivamente adquire maiores proporções. Posteriormente,
os Estados Unidos se viram forçados a entrar na guerra. Vamos tratar disso mais para
frente. Fundamental entender que esse ponto se tornou uma certa obsessão, porque
os dois países entendiam que o resultado desse confronto provocaria um efeito
dominó, espalhando-se para os países periféricos na região.

Sputnik chega à órbita


Paralelamente, o vasto investimento em tecnologia empreendido por Stalin
teve como resultado o lançamento do Sputnik13. Isso apavorou os Estados Unidos.
Um belo dia, os americanos abrem o jornal e nele está estampada a manchete que a
União das Repúblicas Socialistas Soviéticas colocou o primeiro satélite em órbita.
O ser humano nunca tinha lançado nada para fora do espaço. A URSS realizou
vários lançamentos. Um deles com a cadela Laika, que foi posta dentro do míssil e
morreu ainda na decolagem.
Era o início da corrida espacial.
Quando falamos em satélite, pensamos em canais de televisão ou algo similar.
No entanto, esse foi o primeiro satélite. Os americanos se perguntavam se, do satélite,
a União Soviética podia monitorar a todos e até mesmo bombardeá-los. Não era claro
ou evidente o que aquele satélite poderia fazer.
Os Estados Unidos tomou providências emergenciais. Eu não quero machucar
o liberalismo, mas é preciso falar a verdade, que talvez estrague um pouco aquela

13
Lançamento do Sputnik 1, no dia 4 de outubro de 1957, Cosmódromo de Baikonur.
narrativa empreendedora do Vale do Silício na Califórnia. Era inadmissível os Estados
Unidos estarem perdendo. Eles precisavam ser a liderança também na corrida
espacial. Novamente, o país recorreu ao dólar. O governo injetou $50 milhões na
Califórnia, na região que posteriormente originou o Vale do Silício, destinados a
investimentos de pesquisa na Universidade de Stanford e à criação da NASA14. Desse
dinheiro para pesquisas, surgiram grande parte das primeiras empresas do Vale do
Silício, que se tornaram um polo de tecnologia. As pessoas iam para lá, atraídas
precisamente pela existência de financiamento para pesquisa. Elas ficavam na região
para trabalhar e lecionar na Universidade de Stanford. Isso se desenvolveu e ganhou
uma proporção incrível. As primeiras empresas de tecnologia vendiam tecnologia
para o governo.
Quando falamos sobre como o Vale do Silício começou com três
empreendedores, é importante mencionar que havia $50 milhões em jogo e todo
incentivo dos Estados Unidos para criar uma tecnologia e um laboratório que virou a
NASA, para que não achemos que podemos simplesmente reprisar esse fenômeno
em qualquer cidade brasileira. Isso não invalida de nenhuma forma o mérito do Vale
do Silício, mas, certamente, é um estopim importantíssimo para aquilo que aconteceu
tecnologicamente na próxima década.
A computação e a internet são um investimento militar, advindos desse
dinheiro para pesquisa, direta ou indiretamente15.
Os Estados Unidos aceleram suas pesquisas, mas isso não os impede de
serem ocasionalmente humilhados. Em alguns lançamentos, suas naves explodem
ao vivo. Enquanto isso, a União Soviética envia dois cachorros para a atmosfera e os
traz de volta, vivos. Esses eventos são televisionados para toda população. Era
inegável, a União Soviética estava liderando a corrida espacial. Inicialmente, John
Kennedy não levava essa competição muito a sério. Seu ponto de vista se alterou no
momento em que percebeu o impacto que aquilo causava na população. As pessoas
acompanhavam as transmissões ao vivo do lançamento de foguetes, torcendo para
que a União Soviética fosse bem-sucedida. O americano estava torcendo para URSS

14
A NASA foi criada em 29 de julho de 1958. É uma agência do Governo Federal dos Estados
Unidos responsável pela pesquisa e pelo desenvolvimento de tecnologias e programas de
exploração espacial.
15
Recomendo o filme “O Jogo da Imitação”, acerca do Alan Turing, para ter uma noção dessa
questão. Ressalvo que há ficção presente na história que é contada.
porque queria ir para o espaço. A exploração do espaço sempre esteve presente no
imaginário popular. O primeiro filme de ficção científica, que data de 1908, trata
justamente da lua. Os nossos ancestrais e antepassados criaram, por exemplo, a
astrologia.
Nesse contexto, John Kennedy fez o discurso “We go to the moon”. Embora
arrogante, porque os Estados Unidos não possuíam aquela tecnologia, o discurso é
incrível. Nesse discurso, Kennedy diz que os Estados Unidos escolheram ir para a
Lua não porque é fácil, não porque é preciso, mas porque decidiu. Justamente porque
é difícil, os Estados Unidos vão fazer isso. Quantias gigantescas de dinheiro foram
investidas para isso acontecer. Tinha início a corrida espacial tal qual a conhecemos.
No intervalo de dois anos, cada país realizou cerca de 15 lançamentos de foguete
extra-atmosfera. Essa era a pauta. Embora os noticiários trouxessem uma análise da
guerra fria, o que realmente estava presente eram os mísseis. Em um desses
lançamentos, eles decidem enviar o macaco Albert. Eles o amarram e colocam-no à
força dentro do foguete. Na decolagem, Albert também morreu. Percebemos
claramente o desconforto do macaco sendo colocado dentro do foguete. Mas essa
disputa havia virado um certo circo e essas ações chamavam atenção.
Quando a União Soviética descobriu que os Estados Unidos haviam tentado
tirar o foguete da atmosfera com duas pessoas dentro, tentou mandar um foguete
para lua com três pessoas. Os engenheiros informaram que não havia nenhuma nave
com tamanho suficiente. Então, para caberem em uma nave projetada para duas
pessoas, os astronautas foram enviados ao espaço sem roupa apropriada, apenas
com o capacete. Isso expõe o quixotesco que virou a Guerra Fria. Pensamos como
se fossem grandes Estados tomando grandes decisões. Na prática, eram homens
sendo enviados à Lua sem roupa de astronauta só para garantir que estariam à frente
do outro.
Esse é o período que classicamente conhecemos como Guerra Fria. A Guerra
do Vietnã está em curso, Kruschev está no comando da URSS, Kennedy é o
presidente dos Estados Unidos. Há uma intensa corrida espacial e a competição entre
esses dois países é feita em diversas esferas, dentre as quais, as Olimpíadas e as
indústrias. Surgem, nessa época, as piadas dos americanos em relação aos
soviéticos. Um delas, clássica, tornou-se famosa com Reagan: “como pode, na União
Soviética, conseguirem produzir mísseis e não conseguirem fazer uma geladeira?”. A
piada se devia ao fato de a União Soviética ainda não ter a tecnologia para produzir
a geladeira, tendo de importar esse bem.
Com a adoção da teoria da soberania limitada, a União Soviética se sentiu livre
para investir em partidos comunistas fora de seu perímetro tradicional. A revolução
socialista se expande para além dos Estados satélites, tendo a Rússia como
fomentadora do conflito. No início do documentário “1964: o Brasil entre armas e
livros”, abordamos rapidamente esta questão. Pondé fala, em sua entrevista, que ao
redor do mundo havia uma série de guerras civis, eleições e ideias circulando que
tinham os Estados Unidos e a União Soviética por trás, utilizando-se desses
movimentos como marionetes. Na maior parte dos lugares, as eleições passam a ser
falsas, compradas.

Cuba Socialista e a Guerra dos Mísseis


Em meio a esse caos, em 1959, um grupo de guerrilheiros deixa Sierra Maestra
em direção à Havana. Ao chegar lá, o grupo depõe o atual presidente de Cuba,
Fulgencio Batista. Os guerrilheiros não tinham relação com a União Soviética ou com
os Estados Unidos. Ninguém sabia o que estava acontecendo. Esses guerrilheiros
tomam o poder e declaram seu apoio à União Soviética. Os Estados Unidos ficam
estupefatos. Cuba é um território muito próximo. Os americanos da costa iam passar
as férias em Havana, jogar nos cassinos.
Para tentar deter o movimento comunista e reverter a tomada do poder, os
Estados Unidos realizam uma invasão na Baía dos Porcos. A tentativa, no entanto,
fracassa. Che Guevara e Fidel Castro ganham e pedem auxílio à Moscou. Kruschev
fica furioso. Havia muitas questões a serem solucionadas. A União Soviética estava
participando de guerras em diversos países. Neste cenário, a ajuda aos cubanos era
mais um encargo passado, o qual não fazia sentido para Kruschev. O premier
soviético sugestiona, articuladamente, que a União Soviética pode ganhar com essa
situação, se posicionar uma estrutura armamentícia na ilha para vigiar os Estados
Unidos16.
Um barco, munido com um grande carregamento de mísseis, é enviado à
Cuba. A movimentação desperta desconfiança nos Estados Unidos, que manda um
avião inspecionar a situação. O avião é abatido, mas consegue encaminhar a
informação de que há um vasto estoque de mísseis em Cuba. Para vocês terem uma
dimensão do problema, aqueles mísseis não possuíam alcance para atingir o
noroeste dos Estados Unidos, próximo ao Alasca. Washington, Nova York, Los
Angeles, Califórnia, Miami, Texas, Virgínia, Minnesota, Chicago, todos poderiam ser
explodidos. A Marinha americana foi posicionada e fez-se o famoso bloqueio
americano. As armas nucleares foram preparadas. Nesse ínterim, a União Soviética
declarou que também tinha uma bomba atômica e, para demonstrar a veracidade da
afirmação, realizaram uma explosão no mar. Isso tornava a decisão de manter a
confrontação mais difícil.
Nessa circunstância, um acontecimento nos permite ter a ideia de que talvez
estejamos todos vivos por um mero e pequeno detalhe. Há uma história específica,
interessante para compartilhar. Em meio a essa provocação, em que havia mísseis
em Cuba apontados para os Estados Unidos, mísseis na União Soviética apontados
para a Europa, mísseis na Europa apontados para Rússia, um submarino soviético,
carregado de mísseis atômicos, submergiu. A fim de fazer com que subisse à
superfície, os Estados Unidos atiraram no submarino. Dentro dele, estavam três
comunistas que haviam perdido contato com Moscou. Quando foram alvejados pelos
Estados Unidos, os três tripulantes chegaram à conclusão de que a guerra havia
começado. Era preciso explodir os Estados Unidos o mais rápido possível. Se eles

16
Com o sucesso da Revolução Cubana, a URSS viu uma oportunidade de preparar um ataque
contra os Estados Unidos, formando, assim, uma aliança, em 1959.
tivessem apertado o comando, os Estados Unidos teriam sido explodidos. Como
reação, os Estados Unidos explodiriam outros países. Seria um efeito dominó. Os três
tripulantes fizeram uma reunião para decidir se acionariam o ataque à bomba ou não.
Eram três pessoas. O primeiro votou a favor do uso das bombas. O segundo votou a
favor do uso das bombas. Havia maioria. Somente o terceiro homem ponderou que
eles não deveriam ativar o ataque. Assim, uma pessoa impediu a explosão de
acontecer. Um voto impediu uma guerra nuclear de começar. Por isso, afirmo que
estamos vivos por um detalhe. Esse evento faz lembrar a frase de que a pré-história
ronda a humanidade.
Esse episódio ficou conhecido como a Crise dos Mísseis em Cuba 17. Os
Estados Unidos e a União Soviética chegaram a um acordo. Kruschev aceitou retirar
os mísseis de Cuba. Esses foram dias que a geração que viveu essa época lembrar
de ter passado muito medo. Houve uma cobertura jornalística que empregou o
sensacionalismo de guerra. A decisão de Kruschev pela remoção dos mísseis fez
com que ficasse muito mal visto e perdesse popularidade. A China, um aliado
importante, rompeu sua aliança com a União Soviética, acusando-a de ter se retraído
e acovardado perante os Estados Unidos. O povo russo recebeu com desagrado essa
notícia. Devido à ruptura com a China e à impopularidade de seu governo, Kruschev
foi algemado e preso. Ele acabou morrendo na cadeia. Em seu lugar, assumiu
Brejnev18.

Brejnev, a desinformação e o movimento Hippie


Brejnev era um homem mais carismático, contudo, ao assumir o poder, piorou
a situação no que diz respeito à guerra. Sua primeira ordem foi intensificar a presença
soviética na guerra do Vietnã. Sua segunda ordem foi fomentar questões culturais.
Brejnev não queria que a guerra do Vietnã lastimasse o Vietnã. Ele queria que a
guerra do Vietnã fragilizasse os Estados Unidos. Por isso, promoveu a infiltração de
pessoas, de repórteres, de agentes, para falar dos Estados Unidos nas mídias
americanas e para estimular o movimento hippie. Há a execução da tese da
desinformação soviética, que é gerar notícias falsas contadas por pessoas em que o
povo americano acredita. A União Soviética contava uma mentira. No entanto, essa

17
Crise dos Mísseis em Cuba: de 16 de outubro de 1962 a 28 de outubro de 1962.
18
Leonid Brejnev, ex-líder da União Soviética, ficou no poder de 14 de outubro de 1964 a 10
de novembro de 1982.
não era contado por um soviético, mas sim por alguém de confiança dos norte-
americanos. Por exemplo, marechais de guerra revelando os excessos e os abusos
cometidos pelo exército americano no Vietnã. Com isso, passa a existir uma pressão
interna cada vez mais forte nos Estados Unidos.
Com a presença soviética intensificada no Vietnã, os Estados Unidos decidem
entrar de vez na guerra19. No Vietnã, havia muita mata. Como os americanos não
conseguem adentrar nesses territórios, explodem a bomba de Napalm, queimando a
todos. Apesar de seu poderio bélico, os Estados Unidos precisam deslocar tropas
para o longínquo Vietnã, enquanto este está ancorado pela China e pela União
Soviética, duas potências com grande proximidade geográfica. A China tinha um
exército muito vasto e a União Soviética, muito dinheiro. Conquanto o Vietnã fosse
um país pequeno, a guerra estendia-se e a pressão hippie, para dar fim ao conflito,
aumentava.
Simultaneamente, Brejnev empreendia revoluções socialistas fomentadas na
África. As revoluções são bem-sucedidas em Angola, Moçambique, Etiópia e
Nicarágua20, e esses países se tornam comunistas. Todos também viveram
desgraças econômicas.
Percebam tudo que está acontecendo. Brejnev estava fomentando a
desinformação, a intensificação da guerra no Vietnã e revoluções socialistas em
países africanos. Em meio a esse contexto, um evento fundamental acontece. John
Kennedy21 estava fazendo uma passeata quando foi assassinado por um sniper com
um tiro na cabeça. A inteligência conseguiu capturar o sniper. Sem querer entrar em
teorias da conspiração, a conclusão do inquérito é confusa para mim, pois
estabeleceu que o sniper era um comunista de crença sem nenhuma ligação
internacional. Outro aspecto interessante acerca desse caso é que o domínio dessa
narrativa foi tão forte a ponto de não ser de conhecimento geral que o assassino de
John Kennedy pertencia ao movimento comunista.
Com a morte de Kennedy, Lyndon Johnson assumiu a presidência dos Estados
Unidos.

19
O filme Rambo 2 retrata esse momento.
20
Angola (Guerra de Independência de Angola); Moçambique (Luta Armada de Libertação
Nacional); Etiópia (Guerra Civil da Etiópia); Nicarágua (Revolução Sandinista).
21
Morre John F. Kennedy, no dia 22 de novembro de 1963.
O Grande Salto para Frente
Enquanto a guerra no Vietnã estava em curso, também fomentada pela China,
esta passava por um momento delicado. Mao queria provar que a economia stalinista
faria a China prosperar muito. Por isso, ele criou e implementou um programa
econômico chamado “o grande salto para frente”. O resultado foi catastrófico. A
população estava morrendo de fome. As pessoas recorreram a uma alimentação à
base de insetos e de carne de cachorro para sobreviver. Embora a prática de comer
insetos e carne de cachorro já existisse, foi expandida nessa época devido à
qualidade de recursos, em termos proteicos, que esses animais possuem. Mao
responsabiliza os capitalistas exploradores pelo fracasso do programa, acusando-s
de impedir a Revolução de ser bem-sucedida. Mao declarou que, apesar da China já
ser um país comunista, ainda existiam capitalistas dentro do país, pessoas com
cultura de capitalistas. Por isso, era preciso empreender a revolução cultural chinesa.
Existem vários aspectos da revolução cultural chinesa. Houve a produção de filmes e
a interferência no âmbito artístico. Além disso, juridicamente, pessoas foram
cassadas e foi concedida a todos os chineses habilitação para matar aquele que
estivesse em desacordo com os princípios culturais do comunismo. Naquele
momento, todo chinês passou a ser fiscal do chinês ao lado. Posteriormente, Mao
chegou ao cúmulo de estipular recompensas para essa atividade. Os números a
respeito da quantidade de assassinatos não são claros, mas certamente rondam a
casa de dezenas de milhões de pessoas. Na época, o governo chinês mentia a
população da China, para que não denunciasse a quantidade de mortes que estava
acontecendo22. Quando é preciso mentir a população, ainda mais na proporção da
China, é porque muitas pessoas morreram.
Há um ponto significativo que precisamos abordar. Pensamos na Guerra Fria
como uma batalha ideológica, mas, talvez, em algum momento, os valores tenham se
perdido e a Guerra Fria tenha se tornado uma luta entre superpotências. Afirmo isso
porque, no momento em que a China rompeu com a Rússia, e estava executando a
catastrófica grande revolução chinesa, com muitas mortes, os Estados Unidos
tentaram estabelecer uma aliança com a China contra a União Soviética. Os Estados
Unidos não mencionaram todas as mortes que estavam ocorrendo no país,

22
Número de mortos na China no período de 1959 a 1961 varia entre 20 e 75 milhões. No
período posterior, foram dezenas de milhões a mais.
endereçando as agressões exclusivamente para os soviéticos, sem deixar claro que
a China era um país comunista. Nós recebemos essa herança, porque, na percepção
popular, não é como se a China fosse comunista como a Rússia. Os Estados Unidos
passaram pano e deram dinheiro para a China. Isso coloca em xeque o fato de a
guerra estar centrada em uma batalha entre visões de mundo. Afinal, o que permitiria
aos Estados Unidos ser aliado de um país cuja visão de mundo está confrontando?
Qual valor moral permitiu essa circunstância? Certamente, esta foi uma decisão difícil
e há muitas justificativas, mas é preciso estar ciente do que isso representa.
A corrida espacial também estava em curso. Com Brejnev no comando da
União Soviética e Richard Nixon como presidente dos Estados Unidos, no dia 20 de
julho de 1969, a Apollo 11 alunou. 700 milhões de pessoas assistiram a isso ao vivo
e ouviram o discurso “um pequeno passo para o homem, mas um grande passo para
a humanidade”. A bandeira dos Estados Unidos foi cravada na lua. A chegada do
homem à Lua engendrou uma série de discussões e tratados de ética foram
assinados, estipulando como ocorreria a exploração do espaço. Há empolgação foi
tanta que acharam que a exploração espacial seria estilo Star Wars. Com esse feito,
Neil Armstrong e Buzz Aldrin se tornaram os astronautas mais famosos do mundo.
Há teses de que, na verdade, o homem nunca foi à Lua e que as imagens
foram fabricadas. Essa tese, para mim, é muito estúpida. Há uma razão para a história
da chegada ao homem na Lua ser mal contada. A NASA foi criada e era comandada
por agentes do governo. A corrida espacial significava 700 milhões de pessoas
assistindo a quem era o líder e quem venceria a corrida espacial para chegar na Lua.
Em plena Guerra Fria, com os Estados Unidos perdendo a Guerra do Vietnã, com os
soviéticos promovendo desinformação dentro do país, de repente, os Estados Unidos,
que estavam para trás na jornada espacial, que não conseguiam mandar sequer um
cachorro para fora do planeta Terra, chegam à Lua, cravam sua bandeira e retornam
para a Terra. Coincidentemente, os Estados Unidos eram o país que capitaneava as
produções cinematográficas. É plausível imaginar que dessas 700 milhões de
pessoas, algumas tenha contestado o acontecimento.
Aproveito essa oportunidade para dizer que, com certeza, muitas das
informações presentes nessa aula são mentira. Não porque eu ou o autor do livro em
que me baseio estejamos mentindo, mas porque estamos tratando da Guerra Fria. É
provável que haja muitos acontecimentos dos quais não temos a menor ideia. É
preciso ter essa noção.
Ao mesmo tempo, os Estados Unidos foram derrotados no Vietnã em 1975. No
ano anterior, um musical chamado “Hair” havia sido lançado. Eu recomendo que
vocês o assistam para entender o momento que os Estados Unidos estavam vivendo.
Esse musical milita para que os Estados Unidos saiam da guerra. “Hair” fez muito
sucesso e popularizou uma música muito famosa, “Let the Sunshine In”, “Deixe o sol
entrar”. Resumidamente, o musical conta a história de um menino que se vestiu com
a farda do amigo para fazer uma brincadeira e, por estar vestindo a farda, foi recrutado
e enviado à guerra sem querer. Esse menino era um hippie e acabou morrendo na
guerra. O filme questiona por que ele, que não concorda com a guerra, mesmo assim,
tem que ir lutar em nome de seu país. Esse musical é muito bom. É difícil não se
emocionar assistindo. Quando esse menino morre, as mães e mais centenas, talvez
milhares, de pessoas vão para a praça comemorar a sua morte, porque agora ele
está livre da guerra. O potencial de propaganda disso é altíssimo.
Eu fico imaginando o efeito, na cabeça do americano, quando milhões de
pessoas travaram contato com o filme de um homem que era pacifista, de bem com
a vida, e que, por uma brincadeira com seu amigo, foi para a guerra, sofreu horrores,
morreu, e teve sua morte comemorada na praça de Washington por estar livre da
guerra, com as pessoas cantando “let the sunshine in”, ou seja, “deixe o sol entrar”.
É uma pressão difícil de o governo lidar.
O frame criado é que os Estados Unidos não estavam em uma guerra contra
o Vietnã, contra a União Soviética ou contra o comunismo. Os Estados Unidos
estavam em uma guerra contra paz. Essa narrativa se tornou clássica. Um logo da
paz apareceu durante a guerra do Vietnã, com o objetivo de pressionar o governo a
retirar os Estados Unidos da guerra.

Em 1975, os Estados Unidos negociam com Brejnev um pacto para findar as


disputas entre fronteiras, devido ao estresse e ao desgaste financeiro que estava
provocando. A União Soviética, de fato, havia gasto muito dinheiro financiando esses
conflitos. Os dois países entram em acordo e firmam o Pacto de Helsínquia23, em
1975. O Pacto de Helsínquia define, pela primeira vez, quais são as fronteiras pós-
Segunda Guerra Mundial.
Acho pertinente voltarmos no tempo, para a conferência realizada entre
Truman, Churchill e Stalin. Churchill e os ministros da Inglaterra chegaram à
conferência com um papel, no quais tinham anotado suas proposições acerca do
percentual dos países que ficaria sob tutela de cada um. Naquele papel, à caneta,
estavam registradas apenas ideias iniciais para uma negociação com os russos.
Depois de ler o papel, Stalin assinou-o e foi embora, acreditando que aquele
realmente era documento que dividia os países. Os ingleses queimaram o papel,
temerosos. No outro dia, Stalin reintroduziu o tema, preocupado, querendo renegociar
os percentuais referentes à Romênia. Stalin realmente encarou que haveria uma
divisão dos países. Acabou, era dele e fim de história.
Um aspecto que eu não comentei. Inicialmente, quando a Alemanha foi
dividida em dois lados, não existia o muro. Só que todo mundo, principalmente as
pessoas qualificadas, fugia da Alemanha Oriental. Os soviéticos constroem o muro -
com estruturas de segurança, torres de soldado, ordem de atirar para matar quem se
aproximasse - para impedir as pessoas de fugirem. Com toda essa confusão
envolvendo fronteiras, fazia sentido um pacto para cessar esse problema. Vietnã,
Coréia, China, África, Leste Europeu. Todos estavam criando problemas que foram
resolvidos com o Pacto de Helsínquia em 1975.
Quatro anos depois, em 1979, outra guerra eclode. Embora tenhamos a
assistido nos jornais, porque faça parte da nossa geração, quase ninguém sabe o que
aconteceu. Estourou a primeira guerra do Afeganistão24, envolvendo as potências
ocidentais. O Afeganistão está localizado abaixo da Rússia.

23
Pacto de Helsínquia, firmado no dia 3 de julho de 1973, tinha, dentre seus acordos, a
igualdade soberana, a abstenção a ameaças e uso de força, a inviolabilidade de fronteiras, a
não intervenção nos assuntos internos.
24
A Primeira Guerra do Afeganistão perdurou de 27 de dezembro de 1979 a 15 de fevereiro de
1989.
A Rússia sempre teve poder de influência no Cazaquistão, o qual fazia parte
da União Soviética. Havia interesse soviético de estender essa influência ao
Afeganistão. Por isso, quando uma revolta comunista surgiu no Afeganistão, os
soviéticos a financiaram. Eles não vislumbraram que o Afeganistão era um país
muçulmano. O governo comunista chegou ao poder. No entanto, o comunismo é ateu
e os muçulmanos levam a sério a revolução, eles empreendem a jihad. Os mujahidin,
grupos islâmicos que defendem a fé, tentam combater a revolta comunista. Os
Estados Unidos financiaram os mujahidin para que lutassem contra os comunistas.
Atenção. Esses grupos islâmicos eram o Hamas, Hezbollah, Al Qaeda. Eles usaram
dinheiro dos Estados Unidos para comprar armamento - bombas, fuzis, metralhadoras
- e realizar treinamentos. Os mujahidins apresentam uma diferencial que nenhum dos
outros têm: eles lutam em nome de Deus. Tal como os vikings, eles morrem em glória
quando morrem por Deus. Esses grupos entendem que a jihad é componente
fundamental da fé muçulmano. Essa vantagem competitiva é muito complicada na
guerra25.
A guerra do Afeganistão foi a guerra que mais demandou dinheiro soviético da
história das guerras satélites. Isso significa que os Estados Unidos precisaram colocar
um montante exorbitante nesse confronto. Era tanto dinheiro que os países do Oriente

25
Sei que eles não compõem o todo da fé muçulmana e que nem todos são radicais. Não está
generalizando neste caso. Apenas estamos mencionando que estes grupos apresentam essa
perspectiva.
Médio, como Paquistão e Uzbequistão, fortaleceram-se e criaram facções islâmicas
para ajudar os mujahidin. Esse processo foi liderado por Osama Bin Laden, que
encaminhava os financiamentos. Osama Bin Laden perdeu filhos, família, amigos,
companheiros na guerra dos mujahidin contra o exército comunista. A guerra terminou
com os islâmicos como vitoriosos. Depois de findado esse confronto, eles decidiram
explodir os americanos. Eles escolheram como alvo o capital financeiro dos Estados
Unidos, o World Trade Center, principal prédio de finanças e negociações dos
Estados Unidos, principal prédio de investimentos, localizado em Nova York. O
atentado foi um aviso aos Estados Unidos, para que tivesse cuidado com que mexia.
É muito absurdo que tenhamos assistido a essa guerra no noticiário e não
tenhamos um desenho levemente preciso acerca do que aconteceu. Sobre o tema,
há muitas análises, tanto por parte da esquerda quanto dos conservadores. Há uma
tese segundo a qual o Osama Bin Laden é um agente americano que fez isso para
justificar a invasão ao Afeganistão, que possibilitou que os Estados Unidos se
apropriassem do petróleo. Há muitas teses e teorias. No entanto, não estamos em
condições historiográficas para analisar o Afeganistão como se pertencesse ao
passado. O país ainda está em guerra.
Em 1982, Brejnev26 morre de overdose. Brejnev foi o terceiro governante a ficar
mais tempo do poder, atrás apenas de Stalin e de Putin, se considerarmos aquele
intervalo em que seu vice-presidente assumiu e ele se tornou Primeiro-Ministro27. De
acordo com a autópsia, a enfermeira de Brejnev ministrou-lhe um remédio muito
pesado em altíssima quantidade, o que provocou sua morte. Essa enfermeira era, na
verdade, da KGB. Coincidentemente, quem assume o comando da União Soviética é
Iúri Andropov28, diretor da KGB. Com isso, inaugura-se, na União Soviética, outra
teoria, a teoria do Terceiro Mundo ou terceiro mundista. Essa teoria nada mais é do
que supor que o primeiro mundo é o capitalismo, o segundo, o socialismo, e o terceiro,
países ideologicamente indefinidos. O Terceiro Mundo são países indefinidos
politicamente que são campo de batalha ideológica para o primeiro e o segundo
mundo. Temos uma falsa ideia de que essa classificação está relacionada ao nível

26
Morre Leonid Brejnev em 12 de novembro de 1982.
27
Joseph Stalin (1922 - 1953); Geórgy Malenkov (1953); Nikita Khrushchev (1953 - 1964);
Leonid Brejnev (1964 - 1982); Iúri Andropov (1982 - 1984); Konstantin Chernenko (1984 -
1985); Mikhail Gorbachev (1985 - 1991)
28
Iúri Andropov, ex-líder da União Soviética de 12 de novembro de 1982 a 9 de fevereiro de
1984.
de desenvolvimento. Só que não temos exemplos de Segundo Mundo, justamente
porque o segundo mundo é o socialismo. A União Soviética faz um mapeamento dos
países capitalistas, dos países socialistas e dos países do terceiro mundo.
Menos de dois anos após assumir, Andropov morre de falência renal. Ele foi
substituído por Chernenko, que, menos de um ano depois, também sofre com
problemas de saúde. Assume então Mikhail Gorbachev29, último governante da União
Soviética como conhecemos. Gorbachev ficou realmente famoso por três momentos.
Primeiro, Gorbachev abriu documentos antigos da União Soviética, que permitiu ao
mundo conhecer algumas atrocidades que haviam sido perpetradas. No princípio,
Gorbachev era extremamente comunista. Com o passar do tempo, moveu-se em
direção à social-democracia. É difícil fazer esse julgamento, pois não podemos
determinar ao certo quanto era propaganda e quanto era real. Além de abrir os
documentos, Gorbachev empreendeu a Perestroika. Costumamos entender a
Perestroika somente como a queda do sistema e a reabertura da Rússia. Na verdade,
a Perestroika foi uma política de reestruturação, de conciliação da Rússia com o
mercado. Perestroika, em russo, significa reestruturação. Gorbachev também
implementou a Glasnost, que é a transparência e a abertura de dados por parte do
governo. Gorbachev corrigiu em milhões a população da Rússia. Havia uma
falsificação desse número para que não fosse de conhecimento público a quantidade
de pessoas que havia morrido. Gorbachev governa de verdade, não por ideologia.
Lembrando que ele é um socialista, um comunista. Portanto, estou sinalizando
somente que ele renunciou à fortíssima mão de ferro ditatorial. Isso ocorreu porque o
governo da Rússia começou a flertar com as teorias elaboradas por Antonio Gramsci
e pela Escola de Frankfurt. Na época em que estas surgiram, os líderes russos não
tiveram qualquer interesse. No entanto, após a guerra do Vietnã, eles viram o
progresso dessas ideias, a forte militância nos Estados Unidos, e começaram a
repensar o caminho do comunismo.
Outro episódio do governo de Gorbachev que ficou muito conhecido foi da
Usina em Chernobyl30. Eu mais que recomendo a série Chernobyl, produzida pela
HBO. É maravilhosa, obrigatória. Sugiro que assistam aos cinco episódios de uma só
vez, como se fosse um filme, porque é incrível. Resumidamente, Chernobyl foi um

29
Mikhail Gorbachev, líder da União Soviética de 11 de março de 1985 a 24 de agosto de 1991.
30
Acidente Nuclear de Chernobyl em 11 de março de 1985.
acidente no reator de uma usina nuclear que quase acabou com boa parte da Europa.
Ainda hoje, a zona é radioativa.
Gorbachev deu início ao processo de abertura da União Soviética. Em 1989,
ocorre a derrubada do Muro de Berlim. Em 1991, há o final da Perestroika e o
desmantelamento da União Soviética31. Há aquela famosa abertura do Jornal
Nacional em que William Bonner anuncia “a renúncia de Mikhail Gorbachev [em
1991]. É o fim da União Soviética”.
Fazendo uma breve retrospectiva. A União Soviética é criada em 1922, depois
da revolução leninista. Em 1924, Lênin morre. Trótski e Stalin estabelecem uma
disputa para ver quem assume o poder, em que o segundo é o grande vencedor. Nas
fontes mais conservadoras, foram cerca de 30 milhões de homicídios. Há fontes mais
usadas, foram mais de 70 milhões de homicídios empreendidos ao longo dessa
história. Passamos pela Segunda Guerra Mundial. Vimos como a Alemanha Nazista
cresceu com financiamentos de Stalin. Há a Revolução Chinesa. A Guerra do Vietnã.
As revoluções socialistas na África. Os Estados do Leste Europeu como satélites da
União Soviética, em que Polônia e Tchecoslováquia são dois exemplos de intensa
resistência ao domínio soviético. Há a guerra da desinformação. A chegada do
homem à Lua. As bombas de Hiroshima e Nagasaki. Basicamente todos os episódios
do século 20 que conhecemos estão imersos nesse grande problema que foi essa
batalha de visões de mundo.
Na próxima aula, abordaremos a República Federativa russa, que surge pós-
Gorbachev, e sobre seus presidentes. O objetivo e o desafio da última aula é
justamente entender o que mudou, porque os presidentes que assumiram o poder
são todos membros do partido comunista. Vladimir Putin, neto da camareira do Lenin,
era chefe da KGB e está no poder há 20 anos. É um desafio compreender se a União
Soviética acabou ou se apenas se redesenhou.
Além disso, investigaremos por que Putin é considerado, por alguns, uma
figura conservadora, e, para outros, uma força comunista. Veremos qual o elo da
Rússia com a Venezuela e o posicionamento do Oriente Médio. Nosso objetivo é
investigar o que está acontecendo na contemporaneidade. Uma vez que temos
menos historiografia, usaremos os fatos óbvios, como as eleições, acompanhada de
diferentes interpretações sobre o que é a Rússia nos de hoje, já que foi a única

31
Fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) em 25 de dezembro de 1991.
potência que, historicamente, contrariou e disputou com os Estados Unidos e com a
Inglaterra de igual para igual, mantendo, sob todos formatos mais questionáveis
possíveis, a força para fazer isso. A Rússia fez o possível e o impossível para se
manter de igual para igual com os Estados Unidos. Na minha percepção, a Rússia
nunca conseguiu se equiparar. Foi mais alarde do que qualquer outra coisa. De todos
os modos, empreendeu mudanças valiosas e hoje vivemos em um mundo, que é
tabuleiro de xadrez, onde um botou metade das peças e o outro, a outra.

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