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Ferrugem, Lucas

Uma breve história da Rússia: Aula 5

ISBN:

1. História da Rússia

CDD 990
__________________________________________

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INTRODUÇÃO
Neste último e-book do curso “Uma Breve História da Rússia”, conforme
prometido, faremos uma análise da história contemporânea da Rússia.
Diferentemente dos demais conteúdos, em que tivemos uma historiografia, de certa
forma, bem rígida, e uma narrativa dos acontecimentos em ordem cronológica, no
presente caso, essa abordagem se torna ineficiente, uma vez que ainda estamos
vivendo o período ao qual vamos nos referir. Por isso, nessa oportunidade, perde-se
a característica de história para adentrar no universo da sociologia, da ciência política
e da geopolítica, porque é natural, quando analisamos um momento contemporâneo,
que não desfrutemos das mesmas fontes e das mesmas análises e teses em relação
à avaliação de um período tão sólido na história quanto a Guerra Fria, a Segunda
Guerra, a União Soviética, o Stalinismo, as revoluções e dinastias. Muda-se um pouco
o critério de análise. Com essa mudança de critério, o que estudamos até aqui, a
partir de uma lógica utilitária, serve de nota de rodapé para o que estudaremos hoje,
serve como background para compreendermos e enfrentarmos a dificuldade de
entender a Rússia nos dias atuais.

A democracia liberal e a Rússia


Poderíamos partir de diversas perguntas para começar esta aula, mas acredito
que a melhor forma é transmitir a vocês um esquema muito particular que, na minha
opinião, compila várias dessas questões da Rússia atual. Se desejamos entender a
Rússia contemporânea, precisamos saber que se trata de um regime autocrático, um
regime político em que as leis e decisões estão baseadas nas convicções do
governante. Isso significa que a Rússia não possui uma tradição de democracia liberal
como alguns países do Ocidente. Ao adotarmos a perspectiva da ciência política, é
normal cometermos um erro de miopia, de avaliar outros Estados com base na
tradição em que nós vivemos, e que até mesmo não percebemos viver. Assim, de
certa forma, observamos a Rússia a partir dessa visão de democracia liberal como
modelo ideal de regime de Estado. No entanto, isso não acontece na Rússia. Ao longo
do curso, é possível perceber que a Rússia, desde Rurik, desde o povo de rus, até as
dinastias posteriores como os Romanov, e depois também na Revolução Russa e
durante o período da União Soviética, nunca passaram por um processo aberto de
verdadeira democratização, com partição de poderes e equanimidade das partes. Na
Rússia, a democracia liberal nunca passou de uma discussão teórica, pois nunca
aconteceu. Desta forma, eles não têm as mesmas ideias. A Rússia de hoje, quando
comparada com a Rússia de antigamente, de certa forma, pode ser entendida como
mais democrática, mas certamente não pode ser equiparada com nenhuma das
democracias consolidadas que vemos pelo mundo.

Heidegger, Dasein e os princípios filosóficos


Outro aspecto fundamental para compreender essa Rússia moderna,
autocrática, é entender quem a governa. Afinal, se é um país que centraliza poder
dessa forma, quem o governa necessariamente centraliza tanto poder. O homem que
centraliza todo esse poder é Vladimir Putin. Para entendê-lo, é preciso que
conheçamos sua história e quais foram os intelectuais ou indivíduos que formaram
suas ideias. Com isso, somos encaminhados a um grupo de cientistas políticos e
filósofos, em especial, a Aleksandr Dugin. E, novamente, para entender Dugin,
precisamos entender as principais teorias que utiliza, que são a quarta teoria política,
a teoria neo-eurasiana e a multipolaridade. Para compreender essas teorias, temos
que compreender Martin Heidegger, um filósofo alemão, em que Dugin busca toda
essa referência.
Dado esse esquema, iremos de Heidegger rumo à Rússia contemporânea, a
fim de que consigamos obter uma correta compreensão desta.
Do mesmo modo como Marx utilizou Hegel para buscar a dialética espiritual e
trazê-la para dialética histórica, o que guiou, em certa medida, o marxismo, Dugin
busca em Martin Heidegger os princípios da filosofia que a Rússia deveria seguir.
Para tudo ficar mais claro, é útil lembrar que o interesse de pesquisa de Dugin é
entender como aquele sentimento patriótico, nacionalista, da Rússia, pode ser usado
para fortalecer e impulsionar uma sociedade forte capaz de polarizar com os Estados
Unidos e que não perca protagonismo na nova ordem mundial. Dugin sempre foi
patriótico e frequentemente aparece com esse pensamento. Os estudos de Heidegger
caíram em suas mãos e o influenciaram.
Heidegger era um filósofo alemão do início do século 20. A Alemanha, nesse
período, passou pela primeira guerra mundial e adentrou a Segunda com a ascensão
do nazismo. Heidegger foi um dos mentores do pensamento nazista. Embora, nas
faculdades de filosofia, seja apresentado aos alunos um Heidegger “parte um”, do ser
e o tempo, do ser e o nada, do que é metafísico, há o Heidegger que empregou essas
ideias para mentorar o partido nazista, pelo menos no momento inicial do movimento.
Heidegger foi muito enfático em algumas teses, inclusive antissemitas, e do
Lebensraum, da ideia de expansão do povo ariano.
O que Dugin encontrou no Heidegger que o influenciou? Basicamente, o
conceito de Dasein, que é o ser-aí ou, na tradução, o ser no tempo. Dasein é uma
ideia de interdependência do ser e do espaço. É um conceito filosófico um tanto
complexo. Por isso, buscaremos entender diretamente como Heidegger o pensava e
como Putin o adaptou. Dugin começou a explorar essa interdependência entre o ser
e o todo, que significa, mais ou menos, o seguinte: como ser humano, eu não sou
independente da existência e a existência também não é independente de mim.
Porque, afirma Heidegger, eu não posso enxergar o mundo acima de mim mesmo,
por sempre estar condicionado à condição de ser humano para interpretar o mundo1.
A última instância a que eu posso recorrer sou eu mesmo. Sendo assim, a existência
que eu interpreto, a existência em que eu vivo, a existência em que eu estou, é uma
interpretação de mim. O indivíduo jamais pode acessar a existência, por ser a última
instância a que pode recorrer. Se o mundo é esse grande conjunto, do qual os
indivíduos são um subconjunto, os indivíduos não conseguem transcender esse
subconjunto. Os indivíduos não conseguem interpretar o que há acima desse
subconjunto.

Heidegger, Daisen e a teoria da multipolaridade


Esse conceito se torna significativo para nós porque, se alguém perguntar para
um grego por que ele tem lei ou constituição ou, para um romano, por que ele procura
instituições para representar suas leis, ambos dirão que é para perseguir a justiça.
Entretanto, no pensamento do Heidegger, a justiça é uma interpretação da existência
que está acima dos indivíduos. A ideia de buscar uma virtude da justiça transcende o
ser humano e, portanto, não passa de uma interpretação do ser humano, porque, uma
vez que nós não somos capazes de nos transcender para entender algo acima de
nós, por sermos limitados a nós mesmos, dependemos daquilo que nós somos para
elaborar uma ideia. Deste modo, a nossa interpretação está sempre limitada. Se
questionar um cristão acerca da sua ideia de justiça, este irá pautar sua definição em
Deus. Contudo, para Heidegger, não faz tanto sentido porque a ideia de Deus, tal qual

1
Evidentemente, Heidegger não utilizou essas palavras. Utilizou-se uma simplificação para
que a compreensão de seu pensamento seja facilitada.
a tradição do pensamento marxista de Feuerbach e outros, é transcende ao indivíduo
e, de certa forma, uma tecnologia mental do próprio ser humano para interpretar a
realidade e não é necessariamente como a realidade é.
Como essa teoria se torna geopolítica? Como isso se converte em um
pensamento do Dugin e em uma espécie de nova filosofia? O Dugin buscou em
Heidegger2 essa ideia de Dasein para aplicá-la às instituições. O entendimento de
Dugin acerca das ideias de Heidegger é que as leis que seguimos são uma
interpretação humana de como a sociedade deve ser. Neste ponto, precisamos
lembrar que estamos imersos em uma tradição de pensamento marxista, portanto, é
precisar unir ambas ideias. O resultado dessa união é que as leis que seguimos são
uma interpretação humana daqueles que dominavam os meios, daqueles que tinham
poder, daqueles que queriam governar. A elite, para facilitar o vocabulário, pensou
algo, interpretou a realidade de uma determinada forma e a impôs. Podemos
entender, portanto, que o mundo é interdependente entre essas duas instituições. Ou
seja, o indivíduo existe conforme a lei, porque a lei o forma. No entanto, o indivíduo
forma a lei, porque a interpreta. Deste modo, o indivíduo precisa combater e moldar
o mundo na capacidade que lhe cabe, para não deixar essa interpretação ser o todo,
uma vez que não tem nada de transcendente. Devemos perseguir as interpretações
que nos cabem.
Para quem conhece um pouco a forma de atuação marxista e de centralização
de poder, sabemos que esse pensamento é caminho para o desastre, porque
questiona as instituições, não como virtudes em si mesmas ou como valores a se
preservar, mas, principalmente, como instituições de poder decorrentes da
interpretação do grupo que naquela ocasião era dominante. Se a instituição
permanece a mesma, é porque moldou seres humanos, no Daisen, e os seres
humanos a moldaram, nessa negociação de poder.
Esse é o ponto do Dugin que o faz herdar essa tradição filosófica e criar a ideia
de multipolaridade. Esta surge a partir da tentativa de entender como esse
funcionamento opera para os países. Dugin afirma que a Guerra Fria foi uma espécie
de bipolaridade entre os Estados Unidos e a Rússia em que estes mutuamente se
moldaram. Dugin não está de todo errado. Se pensarmos no que vimos em nosso

2
Da mesma forma como Marx buscou em Hegel a dialética para aplicá-la ao materialismo
histórico.
encontro anterior, com a corrida armamentista, a corrida por descobertas científicas,
a corrida por estabelecer uma narrativa, de desinformação, percebemos que os
Estados Unidos de fato pautaram, em grande medida, como a Rússia estava agindo
e, da mesma forma, a União Soviética pautou a atuação dos Estados Unidos. Com
essa tradição filosófica muito sedimentada, Dugin interpreta que um país define o
outro. Em vista disso, se um país define o outro, a principal frente de batalha e a
conclusão inevitável é influenciar nos países que interferem na Rússia e que ajudam
a defini-la. Ou seja, é preciso estar em Guerra Fria com os Estados Unidos para a
União Soviética se desenvolver. É preciso que outro determinado país em
circunstâncias específicas para que a Rússia seja alguma coisa. Dugin entende que
é preciso cessar a polaridade entre Estados Unidos e Rússia, pois esse momento já
acabou, e tem que passar a ser multipolar, com vários países definindo a Rússia.
Uma multipolaridade neutra seria entender que vários países soberanos se interferem
entre si e se moldam em diferentes sentidos.

A Neoeurasiana e a Teoria da Quarta Política


Contudo, o Dugin também apresenta um viés de pensamento nacionalista, que
o faz afirmar que a Eurásia é o centro de tudo. A Eurásia é uma tradição de
pensamento que, resumidamente, entende a Rússia mais próxima à Ásia e muito
afastada da Europa e como um território que poderia ser, para os mais radicais,
central, uma espécie de Terceira Roma ou uma nova Israel. Dugin herda esse
pensamento. Além disso, é preciso lembrar que Dugin é um admirador de Himmler,
das práticas do partido nazista, e de Thiriart3. Ou seja, flerta o tempo inteiro com o
autoritarismo.
Para ficar claro, Dugin entende que se existe essa multipolaridade no mundo,
se os países externos definem o país interno, é preciso fazer da Eurásia o centro de
tudo. Isso significa que os outros países se importam na medida em que moldam a
Eurásia, moldam a Rússia, moldam a Terceira Roma. Esse pilar é muito importante
para que consigamos compreender a teoria que iremos ver agora.

3
Político associado a grupos neofascistas e neonazistas.
Com toda essa bagagem intelectual, Dugin elabora a teoria da quarta política.
A teoria da quarta política é o nome dado a um de seus livros que, posteriormente,
originou um debate entre ele e Olavo de Carvalho, chamado Os Estados Unidos e a
Nova Ordem Mundial, que está disponível em livro.
No século 20, há o socialismo, o liberalismo e o fascismo. A teoria da quarta
política trata de como, de acordo com a teoria da multipolaridade, essas três
ideologias definiram uma a outra, mesclando-se. A política foi moldada através do
fascismo, do socialismo e do comunismo. É como se fascismo, liberalismo e
comunismo entrassem em conflito o tempo inteiro, criando, nesse jogo polar, a política
prática dos Estados modernos, dos Estados contemporâneos. Dugin interpreta,
simplificada e resumidamente, que a nova interpretação da quarta política seria dada
pelo conflito dessas três. Portanto, há uma dialética, e precisamos identificar qual
síntese emergirá desse processo. Para conhecer a síntese, não preciso elaborar
teorias e teses, mas acelerar esse conflito, a disputa entre países, o contraste entre
diversos territórios. É preciso encorajar os Estados Unidos, a polarização, a briga do
conservadorismo, a briga islâmica. É preciso fazer com que isso fervilhe como uma
panela de pressão, para que se retire daí a interpretação de como a Rússia irá se
definir, de modo a ser líder nessa ocasião. Dugin defende, de forma mais otimista do
que racional, que a Rússia sempre ocupa a liderança. Seu sentimento patriótico aflora
a ponto dele afirmar que a Rússia irá se dar bem com isso pois, a exceção da Rússia
e da China, todos os países são muito efêmeros. Ele entende que a China e a Rússia
não são países efêmeros porque têm uma tradição de pensamento e uma
interpretação com perspectiva histórica. Assim, não estão vivendo um momento
leviano. Dugin também tem várias interpretações a respeito do Oriente Médio, mas
estas são menos importantes para o raciocínio que estamos construindo.
Sei que vimos muitos conceitos até aqui. Por isso, faremos uma breve
retrospectiva: primeiramente, identificamos a herança filosófica de Aleksandr Dugin.
Entendemos que Dugin é um nacionalista com perspectiva marxista, que compreende
que o papel da Rússia é de liderança na política contemporânea. Dugin entende que
um país ajuda o outro a se definir e que a única maneira de fazer isso é provocar uma
dialética, que a multipolaridade dos países, ou seja, os países em constante conflito.
Essa dialética levará ao nascimento, à gênese, da quarta teoria política, através da
qual a Rússia sairia na liderança. Expostos esses pressupostos, é preciso agora
compreender por que Aleksander Dugin é importante.
A importância de Dugin
Recentemente, um jornalista mencionou que a importância de Aleksandr Dugin
era superestimada, uma vez que este nem sequer trabalha dentro do Kremlin. Essa
declaração é uma prova absurda da ignorância a que pode chegar a interpretação de
um jornalismo, porque o fato de Dugin não trabalhar no Kremlin, não isola a
perspectiva de que tem reuniões periódicas com Putin, governante da Rússia, o qual
já declarou, publicamente, que admira Dugin e tem nele seu principal conselheiro 4.
Isso significa que Dugin é o principal conselheiro de Putin, Presidente/Ditador da
Rússia.
Terminamos a última aula no ponto em que Yeltsin5 assume o poder. Yeltsin
não foi exatamente o sonho de transição. Ele magoou diversas alas do país russo. O
povo russo era muito apegado a estética russa. A questão da mother Russia formou
um povo muito patriótico perante as percepções externas e Yeltsin apareceu bêbado
em uma série de conferências. Ainda que tenha colaborado para percepção de que
Yeltsin era um mau político, a mídia deu mais relevância a esse fato do que ele tinha,
colocando-o como ponto principal, o que não era. O ponto principal é que Yeltsin
resolveu dar um choque de capitalismo na Rússia. Há um filme que conta isso de
forma irônica, chamado “Goodbye Lenin!”. No filme, que se passa na União Soviética,
uma senhora de idade, membro do partido comunista, entre em Coma e acorda na
Rússia federativa, capitalista. A senhora estava com uma saúde muito debilitada e
seu filho está preocupadíssimo que ela percebe que a Rússia não é mais comunista.
Assim, o filho tenta esconder da mãe tudo que aconteceu. Tem uma cena em que a
senhora enxerga um McDonalds e questiona o que é aquilo, forçando seu filho a
mentir que o McDonalds foi estatizado pela União Soviética. A União Soviética chegou
a propagar mentirosamente, durante a Guerra Fria, que os russos haviam inventado
o hambúrguer. Esse filme é muito bom porque de uma forma cômica mostra a
perplexidade provocada pela introdução do capitalismo.
Afora isso, existe um dado interessante. Quando houve a queda da União
Soviética, apareceram repentinamente muitos homens ricos na Rússia. Na verdade,

4
Putin possui mais dois conselheiros. Seu principal conselheiro, politólogo, ao que
transparece, é Dugin.
5
Boris Yeltsin. Ex-presidente da Rússia. Governou de 25 de dezembro de 1991 a 31 de
dezembro de 1999.
eram os indivíduos que atuavam no mercado negro, pois não existe economia
comunista, nunca existiu economia estatal. Na União Soviética, existia um mercado
negro, velado, de alguns amigos do rei. Na época, o governo russo estava vendendo
milhares de estatais, que foram compradas por esses indivíduos, os quais ficaram
conhecidos como oligarcas. Esses homens se tornaram, digamos assim, uma liga de
mega empresários russos. Para vocês terem uma ideia, a Rússia é a terra onde mais
se vende Rolls Royce no planeta, para quem não conhece, um carro de luxo. Esses
oligarcas passaram a dominar toda a máquina russa. O Yeltsin, de certa forma, era
um capacho deles, pois nunca teve poder suficiente para subordiná-los como Putin
teve. A Rússia é um país muito rico. Comentamos, nas outras aulas, de onde tiraram
dinheiro para tudo isso. Além de alguns empréstimos dos Estados Unidos, a Rússia
tem petróleo, armas, gás. Todos aqueles itens que pertencem ao mercado de
“dinheiro infinito”, a Rússia tem e tem de monte. Então, esses oligarcas assumiram
essas empresas que eram estatais e se tornaram amigos do rei. O Yeltsin, por outro
lado, era aquele cara meio fanfarrão que foi deixando a ascensão do Vladimir Putin.
Vladimir Putin veio do interior para se tornar Vice-Prefeito de São Petersburgo,
cargo em que executou várias medidas. Putin sempre mostrou ser um homem firme,
patriótico, ciente do que estava fazendo. Ele não veio do nada. Putin chegou a ser o
terceiro homem - e alguns até afirmam que chegou a ser o segundo - da KGB, que
era o órgão de repressão da polícia secreta russa. A respeito disso, há piadas acerca
de Putin possuir cicatrizes insanas. Além disso, a avó de Putin foi camareira do Lênin
e seus pais pertenceram à alta cúpula do partido comunista. Putin sempre foi um cara
bem durão que, com a queda da União Soviética, migrou para a vida pública. Ele
ajudou a transformar a KGB na FSB, uma espécie de polícia com outro nome. Putin
sempre declarou que a queda da União Soviética foi a maior desgraça da geopolítica
do século 20. Isso diz muito sobre seu pensamento. Para ele, nesse momento, a
Rússia perdeu uma unidade muito difícil de recuperar. Por maior que fosse a crise,
era preferível ter esperado que passasse com essa unidade territorial, do que, depois,
ter que voltar com alguma tese para reconquistar esses territórios. Essa é sua matriz
de pensamento.
Putin ganhou real popularidade quando houve uma rebelião separatista na
Crimeia, em que tomou medidas muito radicais para conter os revoltosos. Essa é uma
história delicada porque, tempos depois, um homem divulgou documentos afirmando
que os separatistas eram, na verdade, voluntários russos, e que o caso havia sido
fabricado justamente com o objetivo de aumentar a popularidade de Putin. O homem
responsável por divulgar os documentos foi morto. Putin não colaborou para solução
do caso e ainda declarou que não é bom que quem propaga mentiras tenha o serviço
de justiça da Rússia. Eu não sou tão conspiracionista a ponto de comprar 100% a
tese, mas é uma história um pouco estranha, e é preciso considerar que Putin até
hoje leva a sério a questão de voluntários russos. Os voluntários russos do Putin são
homens de AK-47 que atiram na cabeça das pessoas. Fato é que, com esse conflito,
sua popularidade mais do que quadruplicou e Putin acabou sendo escolhido por
Yeltsin para sucedê-lo.
Ao assumir a presidência da Rússia, Putin estabelece uma relação diferente
com os oligarcas. Um destes homens se aproxima da oposição e aparece
envenenado em um hospital, em Londres. Ele acabou morrendo. Outro destes
oligarcas contestou a sua morte e foi assassinado. Putin dá um recado claro aos
oligarcas, subordinando-os com muita veemência. Feito esse movimento, Putin
realizou o que podemos entender como uma retomada da estratégia russa, com a
volta de investimento bélico em larga escala. Putin criticou severamente a diminuição
do investimento em armamento e declarou que era preciso reverter esse quadro.
Assim, quadruplica os orçamentos militares, em uma espécie de segunda parte da
corrida armamentista que, na cabeça dele, talvez nunca devesse ter se encerrado.
Até hoje, Putin é fanático em relação à questão armamentícia. Em todas as
convenções das quais participa, ele fala a respeito de algum míssil. No ano passado,
em uma conferência, que está disponível legendada em português, no Youtube, ele
anunciou um míssil atômico, digital, que atinge qualquer lugar do mundo e que, por
desviar de sistemas antiaéreos, os equipamentos de rastreio não têm capacidade de
reconhecer. Putin afirma que ninguém tem poder para parar esse míssil. Terminada
essa primeira parte da exposição, que dura cerca de um minuto, Putin começa a
segunda parte, com mais um minuto, declarando que qualquer tentativa de atacar um
aliado russo será interpretada como uma tentativa de atacar a própria Rússia. Isso
vindo do mesmo homem que investe pesadamente em exército e em uma certa
retomada dos Estados satélites da União Soviética. Essa retomada não acontece da
mesma forma como antigamente, em que os líderes nos outros países eram mais um
espantalho, uma marionete, do governo russo, mas através de dinheiro, de relação,
de armamento, e, também, de ameaças veladas de guerra. Com isso, Putin começa
a criar um cordão de defesa da Rússia.
A Chechênia e a Ucrânia, por exemplo, não foram conquistadas pacificamente.
Putin entende que é importante tê-los como aliados, queiram ou não, para, no caso
de os Estados Unidos ou o Bloco Ocidental, como ele chama, e que é a visão do
Dugin, invadirem, precisarem enfrentar esses sacos de areia, que seriam os países
do Leste Europeu, que morreriam na frente. Esse é, evidentemente, um resumo, pois
apresenta um pensamento mais sofisticado. Na prática, contudo, Putin precisa de
uma barreira de proteção antes de chegar em Moscou e em São Petersburgo. Por
isso, estabelece esse elo. A invasão da Ucrânia foi um dos casos mais polêmicos.
Tanto neste caso como no da Chechênia, a ONU e a OTAN se pronunciaram
declarando que essas atitudes eram maléficas, ressaltando a paz e os tantos acordos
firmados. Isso demonstra uma falta de conhecimento, como o professor Olavo fala,
da estratégia comunista. Isso é não compreender que são os grupos sociais que
aparelham os Estados, pois, nessas organizações, entende-se que são Estados
soberanos negociando em comum acordo. Putin praticamente ignorou o
posicionamento dessas instituições, prosseguindo com seu plano.
Como se não bastasse, no ano seguinte, Putin executou a maior exibição de
exército na Sibéria, maior do que todas as realizadas pela União Soviética. Pior, fez
isso em conjunto com a China, ao lado de Xi Jinping, presidente da República Popular
da China. Na minha interpretação, a OTAN já fez uma declaração mais amedrontada,
de que todos podem testar seu exército, mas que é interessante existência de
transparência para que todos saibam o que está acontecendo e seja possível fazer
um monitoramento. Isso demonstra como é uma ilusão achar que existe poder de
negociação no nível militar entre China, Rússia e Estados Unidos. Estes três,
principalmente, não negociam. Esses órgãos internacionais podem ter boas práticas
no que diz respeito a frear uma guerra direta, fazendo com que as guerras ocorram
através de um suporte financeiro a lados opostos de um conflito. Putin financiou vários
lugares do islã, em especial, a Síria. A mídia ficou eufórica com a possibilidade de
uma guerra, porque Putin estava financiando Bashar Al-Assad.
Todos esses casos são simbólicos para apontar que Putin está retomando uma
estratégia geopolítica. Putin é um homem geopolítico. Embora não execute a mesma
política interna da União Soviética, posicionando-se de forma muito diferente, adota
uma política externa similar a de Stalin, qual seja, de fazer o Ocidente conflitar para,
aproveitando-se dessa fragilidade, dominar. Foi exatamente isso que Putin fez. Ele
causou polêmica com dinheiro, com política e com a estratégia de cyber exército, que
é um exército digital. Esta última é considerada a principal pelo pentágono, uma
instituição que não emite notificações que devamos ignorar.
Quero abrir a conversa acerca do cyber exército com um caso curioso. Antes
de Putin invadir a Chechênia, o país ficou sem internet e sem meios de comunicação.
A Rússia derrubou todo sistema de comunicação do país e somente depois o invadiu.
Derrubar o sistema de comunicação significa que a Chechênia ficou sem estratégia
de defesa, porque, sua execução depende do fluxo de comunicação. Isso chamou
muita atenção e fez perceber a gravidade do quadro presente. Putin tem investido
muito no cyber exército. Em uma entrevista para Oliver Stone, que consta no livro “As
entrevistas de Putin”, Putin declarou que quem dominar a inteligência artificial
dominará o final do século 21. O míssil de que falamos há pouco, desvia do sistema
antiaérea com inteligência artificial, podendo acertar qualquer posição sem ser
detectado. Em 2014, ele derrubou, dessa mesma forma, sem ser detectado, navios
na Criméia. De lá para cá, houve tempo suficiente para evoluir muito essa lógica.
Uma vez que já entendemos que Putin é um homem geopolítico, devemos
compreender porque adota essa política intervencionista e paranoica em relação ao
Bloco Continental. Em parte, isso ocorre por ser assessorado por Dugin que, como
mencionamos, tem a ideia da multipolaridade, de que é preciso que os Estados
entrem em conflito para que seja possível entender o que está acontecendo e tomar
a dianteira. Disso deriva uma teoria da conspiração que acho a mais legal de todas,
até por não ser tão conspiração assim, de que Putin é o principal responsável por
essa polarização que vemos no mundo hoje. Vocês devem ter visto na mídia algo em
relação à Cambridge Analytica ou a outras empresas de comunicação nas
eleições´ou sobre o vazamento de dados na eleição do Trump, que são fatos
estranhos, nos quais não sabemos o quanto confiar. O fundamental é saber que boa
parte dos órgãos de esquerda tem a tese, principalmente a ala Hillary Clinton, de que
Putin é o responsável por essa polarização entre conservadores e new left, pois quer
que ela aconteça, da mesma forma como Stalin também queria. Essa não é uma
estratégia nova. Stalin queria provocar a polarização para resolvê-la.

A miopia midiática (e não só)


Por mais que a política seja um jogo de espelho, em que não sabemos
exatamente para onde olhar, há um erro midiático de interpretação muito comum de
perceber o Dugin ou como irrelevante ou como fascista e de, simultaneamente,
perceber o Putin como um presidente conservador. A mídia americana é muito
ansiosa tanto por classificar o Putin como conservador quanto por entender o Dugin
como fascista, o que é uma estupidez imensa. Ao ler o livro do Duin, é possível
identificar que sua proposta é causa essa dialética para ver o que acontece e, assim,
modificar o discurso. Além disso, uma das principais estratégias de reciclagem
comunista do Dugin é eliminar a percepção comunista do século 20. Em sua
concepção, enquanto a Rússia for vista como principal mal do século 20, o
experimento fracassado da União Soviética, enquanto essa percepção não for
eliminada, não haverá espaço para a Rússia soberana. Enquanto existir essa
percepção, não há chance de a Rússia liderar, de protagonizar o debate político
político e de ser o modelo principal. Essa necessidade de repaginar o Estado russo
está presente. Por falta de literatura de marxista, a mídia não consegue entender isso.
Uma vez que haja conhecimento da literatura de todo movimento comunista, essa
intenção da estratégia se torna perceptível. A principal tese comunista é que o homem
vive alienado pelos meios de produção e pelas artificialidades criadas para interpretar
o mundo. Portanto, o homem deve ser libertado disso. Libertá-lo não quer dizer não
ter mercado. Queria dizer isso até 1922. Libertá-lo não quer dizer multiculturalismo.
Queria dizer isso até 1954. O comunismo vai se readaptando e se recriando mantendo
como objetivo principal tirar os mecanismos de artificialidade para o homem
desalienar-se e criar, então, a sociedade ideal, que tenha igualdade. Como isso será
feito é um problema da dialética. O mundo que resolva isso nesse conflito.
Para Dugin, esse conflito será resolvido através da quarta teoria política, que
necessita dessa disputa entre liberalismo, socialismo e conservadorismo.
E o extrato para chamar Putin de conservador, de onde vem? Há dois
momentos principais para a opinião pública fazer essa assunção. O primeiro deles
aconteceu na Copa do Mundo, quanto o governo russo instruiu os turistas a não
fazerem demonstrações homoafetivas. Putin se manifestou, dizendo que se a
sociedade perder a capacidade de se autorreproduzir, será o fim, não haverá mais o
que fazer. Essa é uma das razões para ele ser considerado conservador. A segunda
razão foi a forma como Putin lidou com o Pussy Riot, um grupo feminista na Rússia.
Esse grupo de ativistas feministas estava fazendo protestos radicais. Enquanto no
Ocidente lidamos com isso falando acerca da batalha de narrativa, da tentativa de
dominação da esquerda, e, por vezes, há até piadas sobre isso, na Rússia eles se
acostumaram a lidar com as questões de outro modo. Putin mandou fazer o que fosse
preciso, fosse prender, isolar, espancar, até mesmo matar, para reprimir o movimento.
Há integrantes que foram presas e declararam terem sido torturadas. Isso serviu
como alicerce para taxar Putin de conservador pela new left.
No entanto, taxá-lo de conservador por isso é uma burrice, uma incapacidade
de entender a ideia da multipolaridade. A new left, o progressismo cultural, maneira
que a esquerda encontrou de se desenvolver nos Estados Unidos, nunca foi a matriz
ou a origem da esquerda. Vimos, em outras oportunidades, como Cuba perseguiu
homossexuais e a interpretação de Stalin a respeito dessas ideias do partido italiano
comunista. Stalin não quis que essas ideias chegassem à Rússia. A Rússia é
nacionalista. Na segunda aula, estudamos onde surgiu a ideia filosófica do nacional-
socialismo. As ideias progressistas não são afins aos russos, um país em que os
homens não usam barba, porque havia um imposto da barba, e todo mundo se veste
de forma a preservar certa imponência. Além disso, o progressismo avançou menos
na Rússia, por ser uma sociedade muito fechada. Não tinha espaço para essa
multicultura, até porque os Estados Unidos e a indústria cultural da Escola de
Frankfurt sequer entraram no país. Não existiu nada disso e os russos nunca viram
isso. Tudo que viram foi propaganda estatal, que moldava o homem russo que eles
consideravam ideal, que não era o lumpemproletariado. O lumpemproletariado é usar
os homens marginalizados do Ocidente, fazendo-os causarem a revolução. Esses
indivíduos são escolhidos simplesmente por serem marginalizados, não porque os
comunistas querem defendê-los. Eles são um meio, assim como o Estado é um meio,
a revolução é um meio, a revolta armada é um meio. A falta de compreensão acerca
disso impede uma análise correta do Putin.
Não quero ser pretensioso e dizer o que os presidentes americanos sabem ou
não, mas outra questão importante é que, pelo menos aparentemente, Putin engana
os presidentes dos Estados Unidos. Outra razão para Putin ser visto como
conservador é ter ido veranear, com Bush, na casa de verão deste. Tendo Putin ao
seu lado, Bush se manifestou dizendo que havia olhado nos olhos dele e visto que
era uma pessoa confiável. Os americanos não aprendem. Uma cena similar
aconteceu no final da Segunda Guerra, quando Roosevelt declarou que Stalin
confiava nele. Tempos depois, Stalin invadiu e massacrou a Polônia. Trump foi, de
certa forma, escolhido como preferido, porque tem um discurso pouco ácido em
relação à Rússia, apresenta um discurso de reaproximação. Se Hillary Clinton fosse
presidente, havia, até a possibilidade de o problema ser maior. É possível que falte
aos presidentes americanos essa perspectiva histórica, por estarem vendo
exatamente o momento de agora, com a forma ocidental de democracia liberal de
interpretar os regimes de Estado, de que a Rússia está abrindo o mercado, fazendo
parcerias econômicas, flexibilizando, aderindo a novos tratados. Do outro lado, a
perspectiva é completamente diferente. Putin estava na KGB, onde era agente da
transformação, e resolveu pegar a presidência, durante 25 anos, para avançar o
projeto comunista e criar uma outra estratégia. Enquanto os comunistas se entendem
como partícipes de um movimento que utiliza os meios para fazer as coisas, os
ocidentais se entendem como representantes de uma instituição a se preservar, seja
a instituição americana, seja a instituição supranacional. Há um descasamento de
raciocínio. Um está raciocinando de uma forma e o outro, de outra. É como se eu
assinasse um contrato sabendo que posso calotear o outro a qualquer momento. Na
década de 1990, inclusive, a Rússia deu um calote na dívida externa. Em outros
termos, não há muito respeito por essas instituições democráticas, porque,
retomemos o Daisen, elas são simplesmente uma interpretação dos homens que
estão no poder sobre como as coisas devem ser. Os comunistas quebram contratos,
quebram acordos, quebram o que quiserem, a hora que precisarem, desde que
tenham poderes suficientes para fazê-lo. Contrato, valores, justiça, não tem
importância para eles. É fundamental entender essa distância de interpretação do que
é o poder para os Estados Unidos e do que é o poder para a Rússia e para a China,
a qual partilha essa mesma forma.

A teoria dos três sistemas predominantes


Por isso, Olavo de Carvalho cunhou a teoria dos três sistemas predominantes,
que, na verdade, para mim, é muito mais uma descrição do que uma teoria. A teoria
dos três sistemas predominantes é a ideia de que, hoje, existem três iniciativas de
tentativa de poder expansivo, de império. A primeira tentativa de poder expansivo é o
poder sino-russo, que é a aliança entre a Rússia e China. Ambos países tentam um
comunismo reformulado, sendo a China a grande aposta, no sentido do que vai
acontecer com essa mistura de livre mercado e dinastia estatal. O que irá acontecer
na China é um mistério que será respondido nos próximos anos. A Rússia tenta se
reposicionar apelando para os nacionalismos locais e soberanos, criando conflitos
para depois dominar. Os Estados Unidos já tiveram uma visão estatal de império, mas
não a tem mais. Hoje, possivelmente, tem uma visão que chamamos de globalismo.
O globalismo gera um certo senso de teoria da conspiração, mas, na verdade, é a
representação de muitas dessas instituições supranacionais para garantir a paz e o
bom comércio. Essa ideia nasceu no SFR, um think tank americano, pelo qual
passaram vários presidentes, incluindo Obama e Bush. Os homens que financiam
esse projeto dar um término às guerras e garantir estabilidade e paz para que seja
possível progredir economicamente e ganhar dinheiro. Isso é um sintoma muito
grande de como o liberalismo está enxergando a questão. Enquanto uns estão
preocupados em ganhar dinheiro, os outros estão concentrados na criação do novo
homem. Essa é a desproporção. Embora isso não invalide as ideias liberais, isso
dificulta o conflito entre essas duas visões, porque, enquanto os liberais querem ter
uma fábrica globalizada e, para isso, precisam de instituições que garanta a paz,
sendo necessário, portanto, alças instituições de lastro governamental global 6, aquele
discurso mais institucional, do outro lado temos Putin, que está esperando ter em
mãos dispositivos suficientes para acabar com isso assim que possível. Há um
desencontro. Um lado está investindo em logística enquanto o outro está investindo
em míssil.
O sistema sino-russo e o globalismo são os dois primeiros sistemas. O terceiro
e último é o califado global. São as parcelas fundamentalistas da comunidade islâmica
que busca a teocracia, o governo fundido com a teologia islâmica. O califado global
apresenta outra lógica e outra visão de ordem. De acordo com Olavo de Carvalho,
sequer podemos dialogar na mesma língua, pois os valores, crenças, sistemas, não
funcionam, não de perto, de forma parecida. Enquanto a democracia vale uma coisa
para um e o comunismo vale uma coisa para outro, para o califado global democracia
e comunismo não valem nada. O foco está em fazer a jihad universal, em defender
Deus. Para a parcela, ressalto, fundamentalista, esse é o principal ponto.
Esses três sistemas são imperialistas e estão em conflito. Olavo analisa que o
globalismo é, possivelmente, o mais fraco entre os demais. O islamismo cresce muito
com a ideia de que qualquer sacrifício é válido. Quanto à Rússia e à China, é possível
afirmar que a Rússia perdeu protagonismo para a China nos últimos anos, mas é
preciso acompanhar o desenrolar dessa história. A China estuda muito o caso do
Japão que, nos anos 1980, era uma promessa. Todos os modelos japoneses eram

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Houve o cuidado de não utilizar a corriqueira expressão “governo global”, por entender
que se trata de um termo muito forte.
os mais avançados, os mais produtos, e o PIB do país crescia a dois dígitos por ano.
Passado um tempo, houve uma completa estagnação. Há pouco, o Japão voltou a
aparecer, em uma situação levemente melhor. A China se preocupa por isso, porque
desenvolveu muito exportação. O mercado interno com percepção de valor agregado
é difícil, embora a classe média cresça muito. Ainda há etapas da economia a serem
amadurecidas na China para entendermos o que vai acontecer. Esses três sistemas
são os que disputam a possibilidade desse governo.
Posto tudo isso, qual o estopim? Por que não há guerra? Por que isso não é
transparente? Por que temos a percepção de que findou o conflito entre comunismo
versus capitalismo e somente observamos movimentos progressistas? De algum
modo, é como se esperássemos para entender qual o papel da economia nesse novo
conflito, por esse ter sido um aspecto muito valorizado no final do século 20. A
economia era o grande norteador. Há algumas questões a serem abordados. Eu amo
liberdade econômica. Professamos esses valores, eles fazem sentido e essa
tecnologia é uma conquista da humanidade. Contudo, é algo muito recente. Se
pegarmos a história da humanidade como um todo, levando em consideração o que
institucionalizou sociedades e as levou para frente, isso é um fenômeno recente. É
fantástico, causou uma exponencialidade no crescimento, na produtividade, na
eficiência, mas, novamente, é recente. Indivíduos que tem a perspectiva histórica da
China e da Rússia observam esse fenômeno e observar esperar para ver o que
acontece.

O Estopim Econômico
Analistas que adotam o ponto de vista conjunto da ciência política e da
economia, apontam que os Estados Unidos cometeram um erro fundamental ao parar
de lastrear a moeda em ouro. Isso significa que tornou seu sistema monetário muito
mais digital. Isso significa que um país que entre em guerra com eles, com um cyber
exército, pode causar alguns problemas, já que não existe ouro. Se tudo é papel e
burocracia, por melhor que seja o sistema, ao derrubá-lo, é crise na hora, não há mais
nenhum recurso. Claro que não é exatamente assim, mas imaginem, a nível de
metáfora, que os Estados Unidos resolvam adotar uma determinada medida e quando
conferem suas contas bancárias descobrem que não há nenhum dinheiro. Com todas
as contas americanas zeradas, resta apenas o lastro, sendo que o lastro do spread
americano é cerca de 30% de tudo. Aí temos a famosa sociedade do autointeresse
liberal. Wall Street entra em pânico e começa a extrair recurso do IPO, da Bolsa, e
etc... A economia mundial é formada, mais ou menos, por duas pirâmides, a
americana e a chinesa, as quais se interseccionam. Por isso, é possível que os russos
colapsem o mundo simplesmente com um golpe digital. Aparentemente, hoje isso não
é possível.
Tentemos adotar também uma perspectiva antropológica, pairando acima da
nossa sociedade. Se prestarmos atenção, talvez tenhamos um problema.
Futuramente, poderemos ter uma sociedade que dorme com ar-condicionado e se
locomove de Uber versus uma sociedade islâmica fundamentalista, em que alguns
filhos são treinados com fuzil desde pequenos e versus uma sociedade russo, a qual
investe tudo que consegue do PIB, e mais um pouco, no desenvolvimento de exército,
e a sociedade chinesa, que tem dois bilhões de habitantes. Imaginem-se lutando com
islâmicos e chineses. Esse é um primeiro ponto. Esse é o estopim, o dinheiro.

O Estopim Militar
O segundo estopim pode vir das armas. Há uma teoria conspiratória boa, o
antiambientalismo. Boa parte das ONGs que clamam por tratados que cuidem do
meio ambiente são financiadas por instituições governamentais chinesas e russas, a
fim de lesar a produção econômica dos Estados Unidos, com o objetivo de diminuir o
PIB americano. Por quê? Com a diminuição do PIB americano, o valor investido em
exército cai. Consequentemente, a taxa de crescimento do exército americano
também diminui, fazendo com que o PIB chinês e russo consiga ultrapassar o exército
americano. A China e a Rússia já investem um percentual maior do seu PIB no
exército do que os Estados Unidos. Os Estados Unidos não conseguem expandir o
percentual do PIB destinado ao exército por causa da democracia. Há ônus e bônus.
Para realizar a expansão, é preciso aprovação no congresso, conquista da opinião
pública, etc... Na China e na Rússia, essa situação é resolvida com uma assinatura.
Os chineses não opinam sobre exército na China. O russo não sabe quanto do PIB é
investido no exército. Há quem diga que Putin pode ser o homem mais rico do mundo.
Não se sabe qual é a riqueza mapeada na Rússia. Os rankings da Forbes aos quais
temos acesso não consideram o mundo russo legitimamente e simplesmente
desconsideram o mundo islâmico. Além disso, as únicas partes da China levadas em
conta são Hong Kong e Shenzhen, locais onde a liberdade econômica está bem
instalada, a serviço do governo. Isso quer dizer que existe uma tentativa institucional
de lesar a economia americana através de acordos ambientais, e outros tantos, não
só ambientais, para que China e Rússia consigam ultrapassar o exército americano,
ganhando protagonismo. Isso, de certa forma, denuncia uma má intenção, pois
ninguém quer que os Estados Unidos diminuam sua potência e as potências dos
demais aumentem, sem ter nada em mente. Sempre há intenção de uma espécie de
submissão por trás. A opinião pública, no entanto, não consegue enxergar esse
debate e é difícil explicá-lo. Talvez estejamos caindo em uma cilada, no sentido do
desenvolvimento armamentício.
Ao observarmos a tabela do investimento em exército, é difícil não perceber a
disputa.

Os primeiros exércitos estão muito inflacionados em relação aos demais. Isso


denuncia muita coisa. Ninguém gasta tanto dinheiro para produzir exército para
guerras que não estão acontecendo. Não tem sentido econômico. Não é só uma
questão de dinheiro. É o esforço de dinheiro, de inteligência, de administração, de
gestão pública, de opinião pública, de congresso, de Suprema Corte. Tudo isso, em
algum momento ou outro, participa desse debate.

O Estopim da Dialética Negativa Contrária


O terceiro estopim é a new left. Nesse caso, tratamos de Dugin e outros
pensadores neomarxistas como Zizek, Negri, David Harvey, que aplicam a dialética
negativa do discurso marxista de se vestir do contrário. Para ficar mais claro, nesta
estratégia, a Rússia está conservando valores. Putin e Dugin estão falando em Deus,
em valores judaico-cristãos. Chegaram ao ponto de declarar, há pouco, que a Rússia,
em parte, tem uma tradição judaica. Isso é cuspir na cara do desconhecimento
histórico, uma vez que a Rússia protagonizou acentuadamente as perseguições
judaicas e deu impulso, no início, ao antissemitismo, tendo enviado judeus a Hitler,
para morrerem nos campos de concentração. Os neomarxistas adotam a estratégia
de acusar o ocidente de destruição dos valores tradicionais, em função da new left.
Vamos entender melhor a dialética negativa contrária. O pensamento é mais ou
menos o seguinte: nós temos que destruir a burguesia, mas o Estado socialista não
dá certo, não é possível realizá-lo, pois acaba em morte e em fracasso. Então, há
uma abertura econômica e o foco recai na destruição da cultura. Com a progressiva
destruição da cultura, o discurso comunista se veste de um discurso tradicionalista,
acusando as instituições econômicas de estarem depravando valores através da
indústria cultural, entre outros. Esse é o discurso do Zizek e do Negri. De que os
capitalistas ocidentais estão destruindo os valores tradicionais judaico-cristãos. Só
que, para isso, é preciso que as nações e Estados aparelhados, basilarmente, China
e Rússia, afirmem-se como valores tradicionais. A Rússia também chegou a afirmar
que o budismo faz parte da sua tradição. A China afirma que as pessoas são
ensinadas com poemas de uma dinastia de dois milênios. A Rússia declara que
sempre preservou os seus valores. Os Estados Unidos, por outro lado, são a
depravação, o homossexualismo, o movimento LGBT.
Esses neomarxistas aderem a uma teoria que embasa porque são
homofóbicos. Essa teoria marxista mais radical adere à tese marxista mais
desenvolvida de que, na esteira de tecnologias artificiais de alienação do
pensamento, uma das alienações é a homossexualidade institucionalizada, pois esta
descola o ser humano do ser humano original, instaurando-o em uma coisa incomum,
que é uma interpretação da realidade e, que, portanto, deve ser derrubada, para
desalienarmos o povo.
A dialética é exatamente isso, Se você não entender que não tem problema
esse jogo de mudar o discurso desde que o objetivo permaneça o mesmo, realmente
não vai conseguir entender nada. Enquanto não entender a dialética, não há como
entender o comunismo. Portanto, se você não gosta de comunismo, é bom começar
a entender isso.
Isso parece teoria da conspiração, mas ao lermos Karl Marx e os demais
autores como Lukács, Marcuse, Felix Weil, Horkheimer, Adorno, Habermas, todos
pensaram assim e registraram essas ideias em seus escritos. Os principais autores
de agora, Negri, Zizek, David Harvey, Dugin, Chomsky, estão pensando, cada um
com o seu viés, a mesma coisa. Chomsky pensa acerca da intervenção no islã. Zizek
adota a abordagem da depravação dos valores liberais. Dugin, a depravação da
soberania nacional por parte do capitalismo. Comunismo defendendo soberania
nacional é um absurdo, porque a tese do comunismo é acabar com o Estado, com as
nações, é derrubar as fronteiras. Essa é a tese. Todas essas ideias são um recurso
de uma moral ascética para a revolução.

O Estopim dos Meios Digitais


Outro ponto de estopim é os meios digitais. Abordamos a questão da cyber
guerra. Esse talvez seja o último ponto do estopim: saber como vai se desenvolver
essa tecnologia digital e o que vamos ganhar ou perder com isso. Esse é o aspecto
acerca do qual todos estão pensando, não só os comunistas. Todos os exércitos
refletem sobre isso, porque é muito perigoso. Desfrutamos de vários benefícios e
certamente é um avanço incrível na história da humana, mas ele também cria uma
instabilidade. Para quem procura soberania e defesa nacional, é um tema complicado.
As armas químicas foram abandonadas dada sua periculosidade. A cyber guerra está
mais ou menos na mesma situação. Qual é o grau máximo que pode acontecer em
uma era de desinformação de narrativa e que um hacker pode ter um poder tão grau?
Essa é uma pergunta fundamental.
Eu selecionei uma frase do livro do Dugin:
“Por princípio, a Eurásia [a Rússia] é o nosso espaço. O coração da Rússia e
do mundo permanece na área em qual se encenará uma nova revolução
antiburguesa, antiamericana, que desalienará o homem”.
Espero que ela sirva para representar que não houve desistência. É uma
revolução antiburguesa, antiamericana, de desalienação do homem, protagonizada
pela Rússia. Além disso, espero que sirva de filtro para compreender mais
nitidamente as guerras no islã e o conflito recente na Venezuela. Lembrem que o
Secretário de Defesa do Trump fez um telefonema mencionando que Maduro tinha
que renunciar, sendo sucedido por um telefone do Putin mencionando que o Maduro
tinha que ficar. Na verdade, a ligação poderia ter sido feito diretamente de um para o
outro.
Nessa crise que tivemos na Venezuela, com calotes das empresas e tudo
mais, a Rússia argumentou, para a opinião pública, que estava interessada em não
ser caloteada, pois tinham muito dinheiro no país, devido ao gás. Putin afirma que há
uma concorrência justa para fornecimento de gás. Essa concorrência justa funciona
com a participação da Rússia em todas as companhias de energia e com a Rússia
sendo dona da estrutura. O capitalista, o administrador, digamos assim, gerencia e
faz uso dos lucros. Apresenta uma inspiração no governo de Hong Kong. De novo, é
importante ressaltar a ideia de que o comunismo pouco se importa se o meio para o
comunismo será socialista ou não. O fundamental é a igualdade através da
desalienação e não a não-existência de moeda, de dinheiro, de mercado. Isso não
interessa. Essa foi uma tese utilizada durante 40 anos e que foi abandonada a mais
de meio século.
A Rússia é sócia de, se não estou enganado, todas as refinarias de energia da
Venezuela. É como se a Venezuela e a Rússia fossem uma joint venture de empresas
de combustível, em que a Rússia tem um percentual elevado nas empresas. A Rússia
possui esses percentuais pois deram dinheiro para construção da estrutura de
distribuição de energia na América Latina. Eles fizeram isso para poder estar no
controle da energia. É um absurdo não estarmos falando disso. Eles estão tentando
controlar a energia para poder usar esse artifício na hora que lhes convir.
Essa questão energética, de certa forma, pauta o poder que tem na Europa,
pois a Rússia consegue impedir que a energia chegue a quem resolva entrar em
disputa com o país. Poder cortar a energia é algo primário. Imagine o caos de uma
cidade ter toda energia cortada. Imagine isso no frio europeu. Isso gera danos à
economia e à opinião pública, que sequer compreender esses aspectos geopolíticos.
Torna-se difícil brigar com a Rússia. Esse é um ponto fundamental.

As recomendações do Pentágono
Recentemente, o pentágono elaborou e encaminhou ao Trump um relatório
acerca de algumas preocupações que o governo dos Estados Unidos deveria ter. Eu
gosto muito do relatório porque é totalmente catastrófico e não foi escrito por um
teórico, mas pelo Pentágono. O relatório afirma que:
“É imprescindível que os Estados Unidos passem a tomar o protagonismo
militar no mundo e não deixem para depois o que já é uma urgência hoje.
1. Concentrar os gastos das ações dos Estados Unidos e de aliados contra
China e Rússia.
2. Reduzir o risco da perigosa dependência de itens importados como, por
exemplo, aqueles provenientes da China.
3. Manter a presença militar dos Estados Unidos no Oriente Médio,
inclusive planejar a derrota do Estado Islâmico.
4. Aumentar o número de tanques, mísseis de longo alcance e artilharia,
criar mais unidades de engenharia de defesa aérea, implementar
Inteligência Artificial na defesa aérea, em especial, sob o território russo.
5. Expandir a frota submarina da marinha e ampliar a capacidade de
transporte marítimo, aumentar os provimentos à força aérea no que for
necessário.
6. Em resumo, mais de tudo. Manter, e não diminuir, o pessoal da marinha.
Desenvolver capacidade em atuar em duas frentes de guerra.
Atualmente, só somos capazes de atuar em uma.”

Esse é o relatório escrito pelo Pentágono, principal instituição de defesa dos


Estados Unidos. O Pentágono entregou esse documento ao Trump com
preocupação, pois a Rússia e a China estabeleceram uma aliança que poderia atacar
os Estados Unidos por dois lados opostos. Hoje, não existiria exército suficiente para
aguentar esse ataca. Isso não quer dizer que a guerra estaria ganha, mas que seria
uma guerra muito difícil. Lembremos que os Estados Unidos ainda possuem armas
nucleares à sua disposição. Outro ponto interessante de mencionar é que o líder da
Coreia do Norte, Kim Jong-Un, está sob jurisdição chinesa. Quem o mantém no poder
são o exército e os empréstimos chineses. Isso é uma outra aliança complicada.
É possível que Trump seja um palhaço lutando em uma jaula de leões, porque
há muitos homens tentando acabar com o seu país, enquanto ele acha que irá
conseguir resolver os problemas com uma política econômica, em uma conversa, com
uma postagem no twitter. Trump anunciou, com empolgação, um investimento no
exército muito aquém do que foi recomendado pelo Pentágono.
Como mencionei, essa foi uma aula mais sociológica, focada na compreensão
dessa dinâmica. Farei a mesma avaliação que fiz no final da última aula a respeito da
Guerra Fria, que é: embora histórica, toda essa informação pode ser muito aquém da
informação que realmente está acontecendo. A geopolítica entre principais governos
é um jogo de espelhos, em que estamos olhando para um lado enquanto deveríamos
estar olhando para outro. Não é possível diagnosticar exatamente o que esses
homens estão fazendo. Só é possível indícios como a corrida armamentista, o
financiamento de instituição que promovem determinadas pautas, os escritos dos
filósofos que acompanham os governantes. Esse é o tipo de fonte em que
conseguimos navegar. Contudo, a matéria-prima da guerra de narrativas é o discurso.
E, por ser o discurso, quanto mais cínico este for, melhor, porque, se o discurso te
convencer de uma boa intenção, de uma boa consequência, não interessa o que de
fato está por trás dele, pois esse discurso convence a opinião pública. Hoje, a política
interna da China e da Rússia é nada de democracia para os meus e toda democracia
do mundo para eles, para que possam decidir o que fazer depois, na falta de uma
expressão melhor.

Os três objetivos fundamentais


Há, no meu entender, ao longo dessas cinco aulas, nosso objetivo foi entender
a rússia para aprender, principalmente, três pontos, afora os acessórios. O primeiro é
ter uma visão da tradição do pensamento comunista marxista, que não podemos
simplificar e taxar de simples, rápido. O comunismo impera na China, na Rússia e
tem, pelo menos, duzentos anos de tradição de pensamento, identificados como tais.
Há pessoas que pensaram muito, que dedicaram sua vida para pensar sobre isso.
Que criaram experimentos muito fortes, experimentos de engenharia social muito
sofisticados, que dominaram a mídia, dominaram as universidades, que tentaram, das
formas mais variadas, as mais variadas coisas. É uma tradição séria e cria uma falsa,
a qual eu espero que seja perceptível ao longo do curso, de que, seja qualquer
filosofia, como conservadorismo, liberalismo, entre outros, tem que dar conta de
propor uma solução para a vida humana. No entanto, essa é exatamente a falha do
marxismo, propor a solução para a vida humana. Somos induzidos a pensar que, para
concorrer com o marxismo, precisamos propor uma solução também. Com isso,
tentamos forçar uma ideologia conservadora que, na verdade, é indefinida. Com isso,
forçamos um radicalismo do liberalismo, para poder dar conta do todo. Esse era o
primeiro ponto que eu gostaria de transmitir.
O segundo ponto é termos mais empatia com o território humano que lutou
contra os Estados Unidos, que influenciou parte da cultura mundial, que foi muito forte
e produziu nomes que muito ouvimos falar, mas que pouco entendemos. Passamos
pela biografia do Lênin, do Trótski, do Stalin, e de mais alguns. Espero que essa
consciência histórica amplie a nossa visão de mundo e nos dê um big picture maior.
O terceiro e último objetivo é usarmos esse repertório como uma espécie de
lente especial, que coloquemos nos olhos para interpretar os próximos
acontecimentos. É importante que você revise e entenda, com as suas próprias
palavras, o que você entendeu de tudo que ensinei aqui. Parafraseamento é uma das
principais articulações do aprendizado. Procure mais fontes. Envie suas perguntas. É
importante que entender que os ensinamentos presentes aqui são um trampolim para
interpretar as relações geopolíticas, históricas, de movimentos partidários,
ideológicas, dos próximos tempos.