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PROVA ESCRITA

DE
DIREITO PENAL E DIREITO PROCESSUAL PENAL
Via Académica

35.º CURSO DE FORMAÇÃO PARA OS TRIBUNAIS JUDICIAIS

AVISO DE ABERTURA: AVISO N.º 19401/2018 , PUBLICADO NO


DIÁRIO DA REPÚBLICA, 2.ª SÉRIE, N.º 251/ 2018, DE 31 DE
DEZEMBRO DE 2018

DATA: 28 DE FEV EREIRO DE 2019

2.ª CHAMADA

HORA: 14H 15M (DE ACORDO COM O DISPOSTO NO ARTIGO 12.º DO


REGULAMENTO INTERNO DO CENTRO DE ESTUDOS JUDICIÁRIOS, O TEMPO DE
DURAÇÃO DA PROVA INICIA -SE DECORRIDOS 15 MINUTOS APÓS A HORA

DESIGNADA)

DURAÇÃO DA PROVA: 3 HORAS


PROVA ESCRITA DE
DIREITO PENAL E DIREITO PROCESSUAL PENAL
Via Académica – 2.ª Chamada – 28 de fevereiro de 2019

1 – A presente prova é composta por dois grupos, ambos de resolução obrigatória:

2 – Cotações:
- Grupo I (14 valores)
- Grupo II (6 valores)
1 – 3 valores
2 – 3 valores

3 – A atribuição da cotação máxima em cada resposta pressupõe um tratamento


completo das várias questões suscitadas, que deverá ser coerente e corretamente
fundamentado, com indicação dos preceitos legais aplicáveis.

4 – Na cotação atribuída serão tidos em consideração a pertinência do conteúdo, a


qualidade da informação transmitida em relação à questão colocada, a
organização da exposição, a capacidade de argumentação e de síntese e o
domínio da língua portuguesa.

5 – As/os candidatas/os que na realização da prova não pretendam utilizar a


grafia do “Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa” (aprovado pela Resolução da
Assembleia da República n.º 26/91 e ratificado pelo Decreto do Presidente da
República n.º 43/91, ambos de 23 de agosto), deverão declará-lo expressamente
no quadro “Observações” da folha de rosto que lhes será entregue, escrevendo
“Considero que o Acordo Ortográfico aprovado pela Resolução da Assembleia da
República n.º 26/91 não está em vigor com carácter de obrigatoriedade”, sendo a
prova corrigida nesse pressuposto.
6 – Os erros ortográficos serão valorados negativamente: 0,25 por cada um, até
um máximo de 3 valores, para o total da prova (Ponto 6.3.1 do Aviso n.º 19401,
publicado no Diário da República, 2ª série, n.º 251, de 31 de dezembro).

7 – As folhas em que a prova é redigida não podem conter qualquer elemento


identificativo da/o candidata/o (a identificação constará apenas do destacável da
folha de rosto), sob pena de anulação da prova.
Grupo I

(14 valores)

1. Em janeiro de 2019, AMARO e CAROLINA dedicavam-se à venda de


laranja do Algarve em feiras e mercados de Portugal, o que faziam
envergando coletes de cor laranja fluorescente com o dizer “LARANJA
POWER” e colocando essa fruta em sacos plásticos com a mesma
inscrição. AMARO e CAROLINA aproveitavam essas ações para
divulgarem as suas ideias políticas em defesa da independência do
Algarve e ainda para, sem autorização legal, venderem por diversos
clientes em diferentes pontos do país, resina de canábis que
compravam em Marrocos.
2. Em finais de 2018, DAVID, dizendo ser um amante do sumo de laranja
doce, conseguira captar a amizade de AMARO e CAROLINA e, por
vezes, acompanhava-os nessas viagens.
3. Na verdade, DAVID era inspetor da Polícia Judiciária e, desde há meses,
no âmbito de inquérito que corria termos no Departamento Central de
Investigação e Ação Penal, que tinha como objeto a atividade de
AMARO e CAROLINA de compra e venda de canábis, havia sido
autorizada pelo Ministério Público – e validada pelo juiz de instrução –
a sua atuação encoberta junto de AMARO e CAROLINA, facto que não
era do conhecimento destes.
4. No dia 4 de janeiro de 2019, AMARO, CAROLINA e DAVID dirigiram-se a
Lisboa em automóvel propriedade de AMARO conduzido pelo DAVID,
trazendo 10 kgs de resina de canábis para entregar a ELISEU, que, pelo
telefone, havia falado com AMARO na semana anterior e que, nessa
altura, lhe comprara esse produto e quantidade pelo preço de € 10.000
(dez mil euros), a entregar em Lisboa. Todos conheciam a natureza
dessa substância e nenhum tinha autorização legal para a vender,
transportar ou comprar.
5. Em Lisboa, na zona do Marquês de Pombal, AMARO, CAROLINA e
DAVID depararam-se com uma manifestação do Movimento dos
Coletes Amarelos - onde estavam algumas dezenas de pessoas - que
condicionava a circulação automóvel na Avenida da Liberdade.
Resolveram então os três aproveitar a ocasião para divulgarem as suas
ideias de independência para o Algarve.
6. Na execução dessa decisão, depois de estacionado o referido
automóvel em rua próxima, AMARO, CAROLINA e DAVID vestiram os
seus coletes de cor laranja, onde, de forma bem visível, escreveram
ainda “INDEPENDÊNCIA PARA O ALGARVE!”, e juntaram-se aos
manifestantes.
7. Quando esses manifestantes iniciaram a descida da Avenida da
Liberdade, AMARO e CAROLINA começaram a gritar, repetidamente,
“vamos partir isto tudo” e “queremos ver Lisboa a arder”, sendo logo
seguidos por outros indivíduos que, ao ouvi-los, começaram a gritar as
mesmas palavras e outras similares.
8. Todos começaram então a correr na direção da Praça dos
Restauradores, incluindo DAVID, que não queria separar-se de AMARO
E CAROLINA. Nesse percurso, vários desses manifestantes, de cabeça
tapada, não identificados, empurraram alguns transeuntes, atiraram
pedras a montras de várias lojas, partindo os respetivos vidros, e
colocaram vários caixotes do lixo a arder.
9. Enquanto desciam a Avenida, DAVID reparou que BELA – sua ex-
namorada, e que, antes de Natal, contra a sua vontade, terminara a
relação que já levava dois anos – se encontrava a sair de uma das lojas.
Querendo dela se vingar, e sabendo que o pai de BELA era um grande
produtor de pêra rocha na região do Oeste, DAVID propôs a AMARO e
CAROLINA que dali a levassem contra a sua vontade e a mantivessem
presa até o pai proferir uma declaração pública dizendo que a laranja
do Algarve era a melhor fruta portuguesa. Enquanto AMARO e DAVID a
seguravam, CAROLINA colocou-lhe um dos coletes laranjas. Após,
puxaram-na em direção ao local onde ficara estacionado o automóvel
de AMARO.
10.Aí chegados, viram que, em frente, estava uma loja fechada ao público,
com os vidros tapados com jornais, mas que tinha a porta não
completamente fechada. CAROLINA empurrou a porta e todos
entraram nesse local. Aí encontraram XAVIER, proprietário do espaço,
que de imediato lhes ordenou que saíssem, tendo AMARO respondido
que se não ficasse quieto e calado levaria uma tareia. Temendo pela
vida, XAVIER calou-se e manteve-se imóvel.
11.Aí, CAROLINA telefonou para GOMES, pai de BELA, a quem disse que
tinham a sua filha e que se a queria voltar a ver teria de, no período de
uma hora, proferir uma declaração à comunicação social no sentido de
a laranja do Algarve ser a melhor fruta nacional. Temendo pela vida da
filha, GOMES enviou imediatamente um e-mail à agência LUSA com a
declaração pretendida por CAROLINA.
12.Após, XAVIER, pretendendo criar condições para conseguir fugir,
convidou AMARO, DAVID e CAROLINA para consumirem 4 gramas de
anfetaminas que ele havia adquirido recentemente, dizendo que isso
lhes daria muita energia para o resto do dia. AMARO, DAVID e
CAROLINA aceitaram e tomaram os comprimidos que XAVIER lhes
entregou e que, na verdade, como este sabia, eram um poderoso
soporífero. BELA pediu a XAVIER para também tomar, tendo-lhe este
entregue um dos comprimidos.
13.Minutos depois, como XAVIER previra, AMARO, DAVID, CAROLINA e
BELA ficaram nauseados, adormecendo de seguida.
14.XAVIER, observando BELA adormecida, achou-a muito bonita e beijou-
a, encostando os seus lábios aos dela.
15.Horas depois, BELA acordou. XAVIER libertou-a e propôs-lhe que
fugissem, o que ela aceitou.
16.Após, XAVIER retirou as chaves do automóvel a AMARO, saiu da loja e,
conduzindo o automóvel de AMARO sem consentimento deste, rumou
ao Sul com BELA.
17.Entretanto, no interior do veículo, BELA encontrou o pacote com os 10
kgs de canábis.
18.Vendo do que se tratava, e querendo dele se desfazer, BELA inseriu o
pacote num dos sacos plásticos “LARANJA POWER” e lançou-o pela
janela do automóvel para o rio Tejo quando passavam na Ponte 25 de
Abril.
19.O pacote caiu sobre a cabeça de HEIDI, de nacionalidade holandesa,
que viajava num navio de cruzeiro com pavilhão do Panamá, e se
encontrava deitada a apanhar sol junto da piscina. Com a pancada,
HEIDI morreu imediatamente.

Aprecie a eventual responsabilidade criminal de cada uma das pessoas supra


identificadas, todas elas maiores de 16 anos de idade.

(14 valores)
Grupo II
(situação factual do Grupo I, com os desenvolvimentos agora indicados)

(6 valores)

1 - Durante o inquérito, a Polícia Judiciária abordou FERNANDO, primo de


AMARO, quando aquele regressava a Portugal vindo de Marrocos,
suspeitando que o mesmo havia ingerido um número indeterminado de
bolotas de canábis para, dessa forma, as introduzir em território nacional
e aí as vender.
A Polícia Judiciária pretende realizar exames para determinar se tal é ou
não verdade, apreender essas substâncias e recolher prova para o
processo. FERNANDO não consente qualquer exame.

1 – Qual o procedimento legal a seguir ?


(3 valores)

2 - A FERNANDO é aplicada pelo juiz de instrução a medida de coação de


prisão preventiva, à qual se encontrava já sujeito AMARO.
São ambos colocados pelos serviços prisionais na mesma cela.
Suspeitando que os dois continuam, do interior do Estabelecimento
Prisional, a gerir um esquema para introdução de canábis em Portugal, a
Polícia Judiciária vem sugerir ao Ministério Público a colocação de um
aparelho no interior da cela para captar e gravar as conversas entre
AMARO e FERNANDO.

2 - É tal meio de obtenção de prova legalmente admissível ?


(3 valores)