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Adquirir a sua alma na paciência

Adquirir a sua alma na paciência. Não é este enunciado, certamente sempre inoportuno,
capaz de matar, de um só golpe, toda a audaciosa expectativa que anseia por um feito de
renome, por ações entusiasmadas, por luta e conflito, onde a recompensa é incerta, mas
também magnífica? Não é este enunciado, para o velho, o mesmo que a voz do pai para
a criança, quando a chama do jogo barulhento, onde era rei e imperador, para a tranquila
ação da paciência – sim, não é este enunciado ainda mais angustiante quando pretende
estender-se a toda a vida, não admitindo que se brinque com ele, como se só de vez em
quando fosse a sério? Se, porém, aquele que disse isso sabia aquilo que é proveitoso
para um homem; se ele – como é bem o caso – o disse na mesma ocasião em que
recorda que a abominação da desolação haveria, com o seu sorvedouro, de revolver a
vida desde a sua mais funda raiz e, justamente assim, ser ocasião para grandes feitos e
obras de renome, então, quando pensamos estar certos de que o enunciado não nos
aproveita – sim, que ele oprime a nossa alma –, que tenhamos, pelo menos, paciência
para acreditar que o erro consiste em não compreendermos corretamente o enunciado, e
que é erro nosso se o efeito do enunciado parece tão pequeno que, em vez de dar a cada
homem a sua alma e todo o mundo em retribuição do seu anseio e do seu esforço, pelo
contrário, lhe tira todo o mundo e a sua glória, como algo que ele nunca terá; sim, lhe
tira até mesmo a sua alma, para o fazer adquiri-la na paciência.

Tenhamos, então, pelo menos, paciência para acreditar no enunciado; paciência para
não protelar a ponderação para um tempo mais oportuno; para não pedir ao enunciado –
faltando-nos a nós esta capacidade – que tenha paciência, paciência para separar, a fim
de voltar a unir, aquilo que está inseparavelmente unido.

"Adquirir a sua alma". Não possui um homem a sua alma? E pode ser essa a verdadeira
instrução para ser feliz, aquela que, em vez de ensinar um homem a adquirir, por meio
da sua alma, o mundo inteiro, antes o ensina a empregar a sua vida para adquirir a sua
alma? Nasce nu o homem e nada traz consigo para o mundo e, quer as condições para a
sua vida estejam dadas como figuras amigáveis que tudo têm à disposição, quer ele
tenha penosamente de as descobrir por si – qualquer homem tem, no entanto, de um
modo ou de outro, de adquirir as condições para a sua vida. E, mesmo se esta
consideração torna alguém impaciente e, assim, incapaz de tudo, os melhores, pelo
contrário, compreendem-na e conformam-se com isso – que a vida deve ser adquirida e
que deve ser adquirida na paciência. E para isso, exortam-se a si mesmos e aos outros,
porque a paciência é uma força da alma necessária a cada homem para alcançar aquilo
que deseja na vida.

Que o caminhante, que se dirige para o seu longínquo destino, não se apresse no
começo, mas, de cada vez que cai a noite, pacientemente descanse para poder continuar
o caminho no dia seguinte; que aquele que carrega um pesado fardo não se esgote
excessivamente no começo, mas, de vez em quando, deponha o fardo no chão,
sentando-se ele mesmo ao seu lado, a fim de ganhar novas forças para o carregar; que
aquele que trabalha pacientemente o seu campo espere pela chuva tardia e pela temporã
até chegar a colheita; que aquele que adquire o seu sustento pelo comércio se sente
junto às suas mercadorias e espere pacientemente até que chegue o comprador e até que
este venha pagar; que aquele que estende a sua armadilha para os pássaros espere todo o
dia até ao fim da tarde e se sente pacientemente junto à sua armadilha, sem se mexer,
até que eles venham; que aquele que vai buscar o seu alimento ao fundo do mar espere
pacientemente com a sua linha durante todo o dia; que a mãe que quer obter alegrias
com o seu filho não deseje que ele cresça depressa, mas espere pacientemente em noites
de insónia e dias inquietos; que aquele que quer ganhar o favor dos homens trabalhe dia
e noite e não deite tudo a perder por impaciência; que aquele que quer falar aos homens
acerca do que lhes parece indiferente não se precipite ao princípio, e depois desista, mas
continue a falar e espere pacientemente – tudo isto os homens compreendem:
compreendem que seja assim e conformam-se com isso, que é bom e proveitoso que
assim seja, e deixam-se formar por isso e, na sua visão da vida, preferem este modo de
atuar à selvagem e indomável ebulição que não leva a nada, antes causa apenas
perturbação e dano.

A condição de que se fala é exterior ao homem e a condição para, por meio disso,
alcançar aquilo que deseja é a paciência, de sorte que ele não conquista propriamente a
paciência, mas sim o desejado. Há, assim, muitas e muito diferentes condições, mas
constitui a alma uma condição desta ordem? Diz-se, então, demasiado pouco ao dizer
que o homem vem nu ao mundo e que não possui nada no mundo, quando nem mesmo
possui a sua alma? Se as considerações anteriores já eram de molde a tornar um
indivíduo impaciente e incapaz de viver – sim, como é que esta outra consideração não
haveria de tornar qualquer pessoa impaciente como que desde a raiz? Para que é que se
há-de viver, se em toda a vida se tem de adquirir o pressuposto que é, no seu mais
profundo fundamento, o pressuposto da vida? Sim, que significa isto?

A paciência ajuda-nos ao ponto de este enunciado – que na sua brevidade parecia ser tão
desencorajante, tão insignificante, a custo merecedor de consideração – se mostrar
agora, na sua brevidade, tão cheio de significado que antes produz tentação de outra
forma – como se fosse insondável. E não é angustiante entrar por este caminho onde
bem depressa e a cada instante se vê a meta, mas nunca se vê a meta alcançada – ao
contrário do que sucede com o caminhante, que chega à meta, e com aquele que carrega
o fardo, que chega ao seu destino? Caminho onde, por assim dizer, nunca se sai do sítio
– ao contrário do caminhante, que agora vê uma região e depois outra, e ao contrário
daquele que carrega o fardo, que perde de vista uma parte do caminho e depois outra.
Caminho onde nunca se vê nenhuma mudança – ao contrário do mercador, que tão
depressa vê um homem como outro, ao contrário daquele que persegue pássaros ou
peixes, que agora vê capturados uns e depois outros, antes [acontece que cada um] se vê
sempre só a si mesmo. Caminho onde – ao contrário daquele que pretende ganhar o
favor dos homens (que às vezes ouve o louvor, outras vezes a desaprovação, às vezes
muitas vozes, outras, vozes isoladas) – se ouve apenas uma única voz, perante cuja
verdade quase se estremece, pois é como se, uma vez ouvida, nunca mais se lhe
escapasse, nem no tempo nem na eternidade. Caminho onde, por assim dizer, nunca se
adquire nada: nem alcançar a meta, nem descarregar o fardo, nem a rica colheita, nem a
riqueza, nem a magnífica captura, nem a felicidade do filho, nem o favor dos homens,
nem o ter aproveitado a outros – antes se adquire apenas a si mesmo (uma recompensa
que é tão pobre que mesmo a criancinha que morre no instante do nascimento
aparentemente a possui). Caminho onde nada se conquista que possa convidar os
homens a compartilhá-lo alegremente – porque apenas se adquire a si mesmo, isto é:
que se está a ser enganado, como de facto o mercador o seria, se ninguém viesse à sua
loja durante todo o dia e se lhe quisesse dizer "aprendeste a paciência", ou como [o
seria] o pescador que todo o dia tivesse estado à pesca e nada apanhasse. Ou não será
semelhante revolução no pensamento e na linguagem algo mais estranho do que o mais
estranho – que a vida se transforme de tal modo para um homem que aquilo que é
tangível, aquilo que para ele era o mais certo de tudo, se torne duvidoso, e o espiritual,
que o enganava pela sua distância, se torne o mais certo, infinitamente mais certo do
que o tangível?

Soren Kierkegaard
In Adqurir a sua alma na paciência,. ed. Assírio & Alvim
25.11.13