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A importância da progressividade didática e os principais aspectos do nível

básico no ensino do piano

A progressividade ou sequência didática pode ser entendida como “uma


sucessão planejada de atividades progressivas articuladas entre si, guiadas por
um tema, um objetivo geral ou uma produção ” (MACHADO 1997).

Conhecer as exigências pianísticas básicas das obras e o grau de


dificuldade institui um aprendizado progressivo - do mais simples ao mais
complexo - pois a realização de certas competências ficam cada vez mais
difíceis e o pianista deve ir adquirindo de forma consciente um amplo domínio
delas para a execução de obras que possuem dificuldades fundamentais para
o seu acontecimento. Contudo, determinar os aspectos principais de cada grau
de dificuldade não exclui uma avaliação subjetiva e relativa ao individual do
professor e de cada aluno, que apresentam gostos, dificuldades e
necessidades particulares.

No trabalho Proposta de Repertório de Música Brasileira para os Níveis


Introdutório e Elementar de Denise Zorzetti, a autora constata que não há um
limite exato entre os níveis de dificuldade, mas que em conformidade a um uso
recorrente dos termos, elementar, intermediário e avançado por educadores,
eles permanecem a ser utilizados para determinar os graus de avanço dos
alunos. Sendo assim, a autora define o nível elementar como:

[...] a etapa que se segue imediatamente ao nível introdutório, na qual o aluno


já domina os elementos básicos de leitura, reconhece os símbolos e sinais
musicais e é capaz de executar peças que contenham elementos citados por
Uszler et al como pertencentes ao nível elementar e, ainda, aquelas que se
assemelhem às obras que compõem o Volume I do Mikrokosmos de Bartók
(ZORZETTI, 2010).

Uzsler (1995, APUD ZORZETTI, 2010) apresenta os elementos principais


que devem ser abordados no nível elementar, que aqui serão dispostos a
seguinte tabela:

Aspectos Atividades que preparam e introduzem a leitura de notas; valores


relacionados a leitura de notas e as pausas equivalentes: semibreve, mínima, mínima
da partitura pontuada, semínima, semínima pontuada, colcheia, semicolcheia,
quiáltera; compassos: 2/4, 3/4, 4/4, 2/2 e, possivelmente, 6/4 e
6/8, além de mudanças de compasso e compassos irregulares.
Habilidades para Leitura à primeira vista de repertório simples, que contenha
serem ensinadas no conceitos já estudados; improvisação de melodias simples
nível elementar utilizando as teclas pretas, padrões de cinco dedos ou escalas,
enquanto o professor realiza o acompanhamento; improvisação
de melodias com a estrutura de pergunta e resposta;
transposição de melodias e peças simples para tonalidades
próximas; harmonização de melodias com acordes primários,
utilizando estilos de acompanhamento simples; execução de
progressão de acordes utilizando tríades primárias de tonalidades
maiores e menores.
Habilidades técnicas Postura do corpo em relação ao instrumento; posição dos braços,
que preparam para o pulsos e dedos; execução de legato e staccato na posição dos
nível intermediário cinco dedos, com extensão até o intervalo de sexta, e com mãos
alternadas; execução de notas duplas: os intervalos harmônicos
de 2as, 3as, 5as e 6as; execução de estilos de acompanhamento
simples: baixo d’Alberti, valsa; tríades e inversões, em bloco e
quebradas, em várias alturas; execução de frases ligadas;
movimento lateral para mudança de posição; cruzamento de
mãos; extensão básica de dinâmica: do piano ao forte, além da
compreensão e execução, e dos sinais de crescendo, diminuindo,
ritardando, a tempo e fermata; uso do pedal; alguma
independência de dinâmica e articulação entre as mãos;
passagem do polegar; execução de escalas maiores, em uma ou
duas oitavas, de mãos separadas ou em; movimento contrário.

No primeiro volume do Mikrokosmos de Bela Bartók, utilizado como


principal parâmetro para classificar as obras de nível elementar do trabalho 36
compositores brasileiros: obras para piano (1950-1988) de Saloméa
Gandelman, Zorzetti percebe os seguintes aspectos:

Utilização da posição de cinco dedos em diferentes alturas e com pequenos


deslocamentos; Ritmos simples, com o emprego apenas de semibreve,
mínima, semínima (também com o ponto de aumento) e suas pausas
correspondentes; Compassos utilizados: 3/4, 4/4, 2/2, 3/2, 6/4; Melodias em
uníssono, movimento contrário e em estilo de cânone; Uso das indicações:
piano, forte, meio-forte, legato, crescendo, diminuindo, e os sinais de acento: >
e sf; Pouco uso de alterações. (ZORZETTI, 2010)

Também trazendo os parâmetros de Gandelman, a autora Claudia


Deltregia ainda acrescenta na análise de obras em seu trabalho O uso da
música contemporânea na iniciação ao piano, que o registro da extensão do
teclado atingido pela peça é importante para a dedução do nível de dificuldade
de leitura das alturas, no entanto ela não reconhece a extrema necessidade em
determinar os níveis de dificuldade e somente faz um parecer pedagógico das
dificuldades enfrentadas pelo aluno iniciante em cada peça.

No repertório do século XX existem muitos elementos timbrísticos que


segundo a autora Ingrid Barancoski (A literatura pianística do século XX para o
ensino do piano nos níveis básico e intermediário. 2004.) podem ser
desenvolvidos no nível básico, como clusters feitos com a palma da mão ou
braços, uso do interior e madeira do piano, uso de todos os registros do
instrumento e efeitos sonoros que utilizam glissandos e harmônicos. Além
destes, existem peças que estimulam a criatividade do intérprete, como por
exemplo, dando a ele a liberdade de escolher colocar um acidente em uma
nota ou não, quantas vezes um trecho irá se repetir, a forma como tocar uma
série de clusters que não possuem duração ou altura estabelecida,
transformando um tema, improvisando sobre um ritmo estabelecido ou não, e
outras. Por exemplo, vejamos esta bula da peça n3 das Seis pequenas peças
para piano de Estércio Marquez Cunha (1985):
No entanto, Ellen Thompson sugere que a leitura da música
contemporânea seja acompanhada meticulosamente por conhecimento
acadêmico, pois

“Os dedos devem se ajustar a novas fôrmas como clusters, modelos escalares
quartais, modais ou sintéticos, enquanto a mente e os olhos devem absorver
grupos de notas largamente espaçados, ritmos intrincados, mudanças
métricas, um labirinto de acidentes etc.” THOMPSON (1976, APUD
BARANCOSKI, 2004).

Posto isto, o autor Ernesto Hartmann em seu trabalho O piano didático de


César Guerra-Peixe – uma breve análise dos problemas estilísticos, técnicos e
musicais da sua produção de 1942 até 1949, criou uma tabela com as
habilidades requeridas para o nível elementar conforme as autoras Zorzetti e
Gandelman estabelecem:

Fonte: HARTMANN, 2017


Desta maneira, a tabela proposta por Hartmann (2017), sintetiza de forma
geral todas as características propostas pelas autoras citadas neste texto,
proporcionando uma ferramenta para trabalhos de análise de progressividade
didática e facilidade para o professor de piano na escolha de repertório para os
alunos de nível básico. Apesar de não existir um estudo sistemático sobre
técnicas estendidas no ensino básico de piano, é possível seguir ainda estes
mesmos aspectos para a tentativa de sequenciar didaticamente obras do
século XX. No entanto, a execução de tais elementos e técnicas diferenciadas
dependerão do professor que selecionará adequadamente um material com
técnicas menos complexas para cada aluno iniciante.
REFERÊNCIAS

BARANCOSKI, I. A literatura pianística do século XX para o ensino do piano. Per Musi, v.9,
2004 p.89-113.

GANDELMAN, Salomea. 36 compositores brasileiros: obras para piano (1950-1988). Fundacao


Nacional de Arte, Funarte, 1997.

HARTMANN, Ernesto. O piano didático de César Guerra-Peixe – uma breve análise dos
problemas estilísticos, técnicos e musicais da sua produção de 1942 até 1949. Revista Vórtex,
Curitiba, v.5, n.3, 2017, p.1-31

MACHADO, Anna Rachel. Transposição do conhecimento científico para o contexto de


ensino: a necessidade e as dificuldades. Conferência pronunciada no Seminário Critérios de
avaliação de livros didáticos de 6a. a 8a. séries, Ministéiro de Educação e de Desporto, 1997.

ZORZETTI, Denise. Proposta de repertório de música brasileira para os níveis introdutório e


elementar a partir da análise crítica de três métodos de ensino do piano. Tese de Doutorado
em Música. Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, 2010.

PARTITURAS

CUNHA, Estércio Marques. Seis pequenas peças para piano – Biblioteca Central César Lattes,
Desenvolvimento de coleção, UNICAMP, Julho de 1985.