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DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP)


(CÃMARA BRASILEIRA DO LIVRO, SP, BRASIL)

Brandão, Carlos Rodrigues


A educação como cultura I Carlos Rodrigues Brandão. - Campinas, SP :
Mercado de Letras, 2002.

Bibliografia.
ISBN 85 85725-98-2

1. Antropologia educacional 2. Cultura 3. Cultura popular 4. Educação


básica 5. Sociologia educacional I. Título.

02-4893 CDD-306.43

índices para catálogo sistemático:

1. Antropologia educacional: Sociologia 306.43


2. Cultura e educação: Sociologia 306.43
3. Educação como cultura: Sociologia 306.43

capa: Vande Rotta Gomide


preparação dos originais: Maria Clarice Sampaio Villac
fotos do autor em viagem pela região de
Mixteca - Nahua - Tlapaneca
México, 1966.

DIREITOS RESERVADOS PARA A LíNGUA PORTUGUESA:


© MERCADO DE LETRAS EDIÇÓES E LIVRARIA L TDA.
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13073-410 - Campinas SP Brasil
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2002
PHllhldll" tuprlldllção desta ohra
IIttlll ~ f:ltlll1ll/n'.,AII [uúvlu do Pdüor.
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APRESENTAÇÃO
- A menina que lê -

Certamente a menina lê. A corda frouxa entre a mão direita e o pescoço


do hui - ou será um búfalo? - sugere que não há esforço e, menos ainda, perigo,
111111101'a
o animal seja imenso e ela pequena. A quietude do olhar do bicho não
dolxa dúvidas: apesar do longo chifre ele é manso e mais do que apenas
dOlllClslicado, é doméstico. Não fosse assim, quem o entregaria aos cuidados de
1IIIIa menina pequena e descalça, que lê enquanto trabalha e caminha? Pois, pelo
IIIIIIIIISonquanto atravessam a trilha ao longo do canal, parece nem ser necessário
plllnlal' í1I0IlÇÜOao caminho e ao trabalho e, por isso, é possível ler.
( l ()I 1rar dela é atento e como conhece de cor a trilha e a mansidão do bicho,
1""10 !:IIIH:Olllrar a atenção em ler e, assim, aprender o que não sabe. Criança e
1IIIIII'IlIIOSilpossivelmente pobre, estaria a menina apenas vendo as figuras de
111111\
I'Clvislíl0111quadrinhos que também lá no Vietnã, em 1977, fazia as delícias
.til" 1 ,rllI\I{.:/lSdo 11111
país devastado por guerras de libertação? Parece que não. O
\!/ll/1I1'IIIIISOhrtuu:o das folhas sugere um caderno ou, quem sabe? uma cartilha.
" 111"1111111
11\. I livmsa dos dois outros meninos, que montados num segundo boi
vlujmn n luzruu do trnhulho o prazo r do pussolo, iI 1I10IliIlilparece, utontu,
1111/11111/1
11I1111dlll.
Illliz dll Iruhnl 110o i111
nrvn 10do OIlSi110.A Ia rd Il (, ca 11I1iI.iI guorl"íl il(:a\JIlII
111(.qllllllclll'i' IIcrialll.:as li hllis plldlllll r.uuvivor 11111
paz,
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Quis que essa cena simples de um cartão-postal que um amigo a 1\ 11'0-


pólogo enviou de Paris fosse a capa e a sugestão do tema deste livro: u
educação como cultura. Dificilmente outra imagem seria mais sugestiva do
emaranhado de questões, entre uma coisa e a outra, que procuro desembara-
çar, não para que o novelo da ordem das idéias se recomponha aqui. Existirá
tal ordem em algum lugar? Mas para que pelo menos alguns fios da meada
possam ser descobertos, separados e, então, outra vez, reunidos.
Puxando por uma corda um boi, ser da natureza, mas bicho manso e
cativo, logo a meio caminho entre ela e o mundo humano da cultura, a menina
ICJ. Mergulha a atenção em um universo misteriosamente humano que, inin-
Ioligível a qualquer outro ser da natureza, transforma sinais - como o berro
que um boi dá a outro, ou como a água do canal que reflete as árvores e indica
que é dia e há luz - em símbolos. Aquilo através do que se lê; aquilo com que
os homens trocam entre si, nas trilhas difíceis da vida em sociedade, as
monsagens e os significados que tornam, ao mesmo tempo, tal vida, social, e
<Ideles, humana. Isto é, vivida como e através da cultura.
Atenta aos estudos mais do que ao trabalho, a menina mergulha, talvez
~inlllsaber, no universo do significado e aos poucos se apossa - outro caminho
'1111lpercorre - do poder de viver em um contexto de vida que o trabalho
lnuuano realiza e o saber torna significativo. Algo que sobre a própria vida
qlHla natureza dá ao boi (que também trabalha) e a ela (que trabalha e sabe)
111:111
Ima transforma e significa.
O que é a cultura? Que relações existem entre ela e a vida social? Como
lilluulrotecern a cultura e a educação - ela própria uma complicada trama de
1'l'lIlicas, sistemas e significados que apenas incide de um modo mais moti-
VII!lOsobre algumas dimensões da cultura e seu sentido? Eis o que os estudos
tlllldo I ivro procuram refletir, mais do que responder.
Exisle aqui a vontade de uma antropologia da educação, não a sua
111111
izal/lo. Não acredito que estes estudos, ora fragmentados, ora repetitivos
!IIIIIIIOflor que escrever outra vez?), realizem a tarefa já urgente de esclaroccr
11'11I~;t
()OS 1:11
jo cOlllwci mon lo desvendaria problemas tão i n lcnsamont [) vivi-
till/i 1'"11)o!lllcador cio nosso tumpo, I:; preciso roconhenor quo para lanlo sflo
1I1I1.IIIi/illriol;
pnsqllÍslIs do CaIIlIH), iIlVIlSligill.:I)(lS
dll Ioorins, n IIlOlllOlllos do
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diálogos entre o educador e o antropólogo, que, mal iniciados ainda, seriam


de uma tão fértil utilidade para um e outro.
Há aqui, sem dúvida alguma, uma repetição de perguntas, análises,
dúvidas e palavras, de um artigo para o outro. Mas é que o tempo todo, durante
os últimos anos, parece que tudo o que fiz foi repetir as mesmas coisas, de
modos diferentes, às mesmas pessoas e a outras, com quem dialoguei dentro
e fora do Brasil.
Em um seminário sobre "educação para a paz e os direitos humanos",
pareceu ser útil reconstruir toda uma trajetória da idéia e dos usos da cultura
e de cultura popular no Brasil dos anos 1960, para depois refletir sobre o
significado de uma educação que se propõe armada em favor de realidades e CULTURA: O MUNDO QUE CRIAMOS
símbolos tão controvertidos como liberdade, paz e justiça. Em um outro PARA APRENDER A VIVER
seminário a respeito de pesquisa participante, foi urgente retomar a questão
do sentido do saber, logo, do significado social da cultura, para perguntar se,
afinal, inventamos juntos um instrumento ou uma farsa. Já em um outro
congresso onde os participantes discutiam as relações entre a pesquisa, a arte
e a educação de crianças e adolescentes, foi preciso voltar ainda à questão da o MUNDO QUE CRIAMOS ...
cultura para discutir sobre que crianças, de que mundos, se estava falando
ali. Finalmente, em uma mesa-redonda da última Conferência Brasileira de Meu corpo é a natureza de que eu sou parte transformada no ser de
Educação, sobre a educação popular no continente, pareceu-me intrigante 11111<1
pessoa: eu. Refletida nas águas calmas e límpidas de um pequeno lago,
retomar algumas peculiaridades corriqueiras e misturá-Ias com outras, cuja 11unlureza devolve a ela a sua imagem. Ela se vê através de meu corpo e cabe
análise raramente é feita, para de novo refletir o sentido de uma educação que I1 II('IS- ela e eu - sabermos distinguir o que faz inteiramente parte de alguma
tantos anos depois insiste em ser ainda "popular". dil1wllsão de seu domínio de existência no planeta Terra e no Universo, e o
O último estudo é um rascunho e peço que seja lido, por quem tiver qlll! jíÍ é, também, parte e partilha de uma dimensão da Vida. Pois quando os
chegado até lá, como tal. É uma versão apenas um pouco mais arrumada das 1I1I:tISolhos me vêem refletido nas águas claras do lago, é ainda o mundo
anotações que fiz sobre a leitura de alguns autores utilizados nos estudos quem se revela a si mesmo através de um de seus seres. Mas nem
uuí urul

anteriores. Diálogos com o outro. Momentos em que, antes de começar a escrever, 1111110,
porque, ser humano, não consigo, como os outros animais com quem
afrouxo a corda do bicho ainda selvagem que é o meu próprio saber sobre o 1:111111,arlo
o mistério de "estar vivo" aqui e agora, ver sem perceber, e perceber
assunto e, como a menina do Vietnã, leio e aprendo do que os outros sabem. ~illIllpousar. E a idéia que de mim me faço ao me ver refletido já pertence a
De resto, ontem um presidente morreu. Hoje a vida continua. 11111 outro domínio do Mundo que comparto com a pequenina ave quo
l'III'Vlllltlll'avem ao mesmo lago, e do galho de uma árvore se olha e ao lago,
LlIIIIO011.COIllO ou'? Entrovistos por UIl1lnstanto pelos nossos olhos, 1l0SS0S
Carlos Rodrigues Brandão
1III'jlllSpllrlllllcolll ílO plano nulurnl dos sinnis. S.IO o 11110 siio, COIllOíI .ígllil o
Campinas, 22 de abril de 1 !JIHi
IIrll~\(I,1111li/liI () 11"" dI! si II111SII1I1S
dllli 11VIII'/I 11"""1 IIS VI\ (;lilllli vtl, Mus ()
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que eu penso do que vejo salta do sinal ao signo e dele ao símbolo. E exige de várias gramáticas e a "falar" as suas várias linguagens. Várias, porque bom
mim o que dispensa na ave, requer palavras, códigos complexos de sentidos sabemos que esta com que nos escrevemos uns aos outros, em uma línguu
e de significados, uma linguagem articulada por meio da qual em mim e para qualquer dentre as milhares que ainda habitam nossos mundos, é apenas uma
os meus outros a sensação e o sentimento aspiram ganhar sentido. E até mais nutre tantas outras.
do que isto. Eu me vejo como um ser da natureza, mas me penso como um Tal como outros seres vivos com quem compartimos a mesma casa, o
sujeito da cultura. Como um alguém que pertence também ao mundo que a planeta Terra, fomos criados com as mesmas partículas ínfimas e com as
espécie humana criou para aprender a viver. mesmas combinações de matérias e de energias que movem a Vida e os astros
De repente ave voa e vai embora, muito mais e muito menos sábia do que do Universo. Algo do que há nas estrelas pulsa também em nós. Algo que,
eu. Quem saberá? Ela retoma ao seu ninho como um ser que habita um absoluto «:01110o vento, sustenta o vôo dos pássaros, em uma outra dimensão da
presente e nada sabe e nem pensa, ainda e nunca, a respeito de sua própria morte. uxislência impele o vôo de nossas idéias, isto é, dos nossos afetos tornados os
E quando ela chegar, a ave de súbito fecha os olhos, cai do galho e volta à terra,
II0SS0Spensamentos.
sem saber e sem pensar de onde veio e para onde vai. Eu não. Eu carrego a minha
Não somos intrusos no Mundo ou uma fração da Natureza rebelde a
morte a cada instante, porque aprendi a me pensar no tempo e pensando o tempo
,,111.Somos a própria múltipla e infinita experiência do mundo natural
o tempo inteiro de minha vida a vivê-Ia. Carrego na antevisão de um qualquer
rnnlizada como uma forma especial da Vida: a vida humana. Da mesma
dia, amanhã, a minha morte, assim como levo pela vida afora a experiência
runnnira como boa parte dos animais, somos corpos dotados da capacidade
humana da Vida, e a minha vida na memória carregada de nomes e de cenas, de
do reagirem ao ambiente em que vivem e onde reproduzem, enquanto isto é
cenários e de símbolos, de palavras e frases. De tessituras sempre inacabadas
I'wlsívnl, a vida individual e coletiva de sua espécie. De se locomoverem nele
onde se entrelaçam gestos e seus arremedos de sensibilidades, sentidos e de
significados gravados nos genes que me habitam, no corpo que eu habito e, 11111
lunção de mensagens que captam através dos sentidos e também de atos

imagino, no espírito onde acredito que esteja a parte mais etérea e - quem sabe? 1'01'moio dos quais deixam a sua marca momentânea em seu mundo. Um
- imortal, de uma pessoa chamada Carlos. iulihri faz isto. Nós também. Alguns macacos da Amazônia que, mais felizes
No espírito ou, simplesmente, nisso a que damos o nome de memória dll II(,S,saltam de galho em galho na floresta, enquanto arrastamos pelo chão
e que, para alguns, não é mais do que uma alquimia de nervos, conexões no 11111
corpo que precisou de alguns milhões de anos para aprender a se
cérebro e alguns aminoácidos articulados durante algum tempo entre as "'illilihrar precariamente sobre duas pernas, são biologicamente diferentes de
energias e matéria efêmera dos seres que somos. Mas que outros acreditam 1111110111npenas algo inferior a 3% da composição da arquitetura das cadeias
ser uma das dimensões para além da matéria e dos seus limites. Ali, onde os ti" IINA. No entanto há nesta mínima porcentagem toda a diferença.
fios da Vida transformados em memórias, em palavras, em gestos de senti- Mas será ela tão grande assim?
mentos recobertos do desejo da mensagem, recriam a cada instante o mundo Faz alguns anos Claude Lévi-Strauss, um conhecido antropólogo euro-
que entre nós inventamos desde que somos seres humanos, e com este 111111
q\lo so iniciou como pesquisador de campo entre povos indígenas do
estranho nome: cultura. Cultura, uma palavra universal, mas um conceito 111111111
(:oJllral, foi convidado pela Assembléia Francesa a escrever algo para
científico nem sempre aceito por todos os que tentam decifrar o que os seus 11111
I'IIptlllS1I1'
o conceito o a idéia de liberdade, tal como eles estão há alguns
processos e conteúdos querem significar, e que misteriosamente existe tanto 'HU IIlwl 1111
Coustilulçáo da França. Num texto de resposta que veio depois a
fora de nós, em qualquer dia de nosso cotidiano, quanto dentro de nós, soros 11111
1'II11liclldo11111lIlll llvro, 010 COJ\J(J(,:a dizendo quo lIf10Iorin nada 11ucros-
ohrígndos a aprondor, desde crianças (J pnla vídn afora, a cornprnnndnr IlSslIas 11111\111,
LIIS(I(I I:OlIl:tliloIl ()S SIlIISpl'(l(:oilos dOVIISSll11l
IHIJ'lJlilllIlCIIJ'
II() âruhitu

17
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do contrato social.' Mas logo a seguir ele aproveita a ocasião para perguntar 11niio ser que se queira seguir iludido em pensar que "isto" que parece quo
aos franceses e a todos nós, se não seria este o momento de realizarmos urna ux isln de fato, existe fora de nós. Para que, então, a mente descubra no vazio
reviravolta corajosa de identidades, com todas as suas conseqüências. Ao ,I" nada do agora um paraíso perdido chamado: absoluto presente. Um tempo
invés de continuarmos a nos definir como "seres morais" ou corno "sujeitos 1111
i( ;0, porque é vivido fora do tempo. Um momento irrepetível sem resquício

sociais", não teria chegado a hora de nos identificarmos corno "seres da Vida"? IIlglllll da maldição de vivermos sempre atrelados a urna vida em três tempos:

Não é este atributo o mais radical, o mais verdadeiro e também o mais I) passado, o presente (o único que de fato existe, dirão lamas tibetanos e
ulguns físicos quânticos) e o futuro. Ou seja, todo um aprendizado que pode
generoso em nós e entre nós e tudo o mais que a habita: Vida?
Se isto for verdade e se isto for possível, então o que era antes um durnr uma vida inteira para virmos a adquirir a sabedoria que sonha alcançar

reconhecimento de desigualdades dado pela disjunção entre nós, seres hu- o oromita solitário, e com a qual, sem esforço algum, já nasce o pássaro com

manos e todos os outros seres da Vida, passa a ser um sinal de conjunção '1"0111estivemos na beira de um lago algumas linhas acima, e que nos espera

entre seres irmanados em urna igualdade essencial, e apenas diferentes dentro dI! IlOVOalgumas outras, abaixo.

das infinitas alternativas que a Vida abre e faz existir. Como não somos esses seres de frágil perfeição natural, aprendemos a
v Ivur dentro de algo mais do que apenas o viver e o sentir. Assim, nós nos
E entre nós, seres da natureza alçados ao mundo da cultura que nós
próprios criamos, deve existir, entre todas, urna diferença ainda mais essencial. /111111
i mos sentindo, corno os outros seres da Vida também. Mas nós nos

Com urna enorme variedade de vivências disto, em todos os outros seres vivos pllllSillllOS sabendo e nos sabemos pensando. E sabemos que sentimos e nos

podemos supor que existem formas de uma consciência reflexa da relação entre 11I!1I1
imos tornados desta ou daquela emoção porque aprendemos a nos saber

o ser e o seu mundo. Eles sentem, eles percebem, eles lembram, eles sabem, eles IHlI"'lulo. Passamos da consciência reflexa que compartimos com o colibri e

agem. Nós também. Mas nós tivemos que aprender a entrelaçar cada urna dessas II I:11iI11panzé, à consciência reflexiva, que acrescenta um "me" e um "mim" a

coisas com todas as outras, de tal maneira que precisamos fazer um enorme 11111
"I!U", e que é em nós o sinal e o símbolo do habitante de um mundo onde

esforço para conseguirmos viver cada uma delas em sua vez, sem a presença do 11I11'1
'I Iria natureza é vista e é compreendida como e através de símbolos e de
111)J,llilicados.O que é urna árvore para você? O que é urna ave?
poder das outras. Corno é bom sentir sem pensar. Mas corno é difícil!
Voltemos ao nosso pássaro.
Abra um livro de "técnicas de meditação" e você verá corno isso é
verdadeiro. O que se sugere ali - sobretudo nos mais budistas e nos mais Sabemos que um pássaro voa com um par de asas, e nós com o inacabável
tibetanos - é um enorme esforço de anos e anos de "treinamento da mente". ""11 unssus idéias. Por isso ele voa com as asas com que nasceu e nós voamos
E para quê? Para que ela aprenda a parar de "mentar" cada vez mais e por 11111111,';
nviôos (e as asas delta, e os ultraleves, e os planadores e as espaçonaves)
mais tempo. Para que ela aprenda a deixar de fazer o que aprendeu antes, ao qllnlllvlllllmllos. Vimos corno depois do ciclo de sua vida, no momento exato da
longo de anos e anos de interações e estudos: pensar com palavras, refletir "li! Iochu os olhos, sente o coração parar de bater, cai e volta à terra. Nós,
11111110
com idéias. Que aquele que medita saiba treinar-se para varrer de dentro da 11111111111111',
1l0S cercamos de ritos e de palavras. Lembramos uma vez ainda a vida
própria mente todas as memórias, os pensamentos, as imagens e, mais do que 1'11'11111,
1'11
1,11
1I0Sa IlÓSmesmos, aos nossos e aDeus, dizemos despedidas e preces.
tudo, os desejos do corpo e do espírito. Isto é, toda a ilusão do que não existe, 1':,1111
CIIITólros olhos, o quem ou o quê de nós deixa o corpo dado também à terra
11\'111(1111'11
oudo? Por quô? Mas voltemos à Vida.

~;I! SOIIlIlS mais iguais do quo imaglnamos mil quase Indo aos outros
1. Está no livro Le Regard Éloigné, da Plon, de Paris, editado em 1983 e já com tradução para
111111111
vivus COIII quom rxuupurl imns ti '('OI'I'CI,SOlllOSdifurnntos um umn OIlII'Cl
o Português. No original o artigo recebeu o título de "Réfletions sur Ia liberté". As passagens
fi que me refiro especialmente aqui estão entre as páginas 374 o 376. IIII/H! nlwl vi vuru 111)11111111111
dll 1I111111'Il:l.II
11111 '1110 111m:Ú dadl) 1I vivur, N,",s
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precisamos criar e recriar o nosso. Eles adaptam o corpo e os sistemas de vida rilualmente uma "comida" em uma "refeição" e uma refeição em uma "Iesta",
ao ambiente onde vivem, enquanto vivem. Nós precisamos transformar o Triste é comer só, mesmo quando a comida é boa, e a bebida amarga é dor:n,
nosso ambiente natural e, depois, até mesmo a nós próprios, porque somos quando entre amigos queridos.
lentos em adaptar o corpo e a vida aos padrões da Natureza. Nós e nossos
Pois afora o que fazem durante breve tempo algumas mães animais com
corpos feitos de argila e de sangue, feitos de minerais, de matéria orgânica e
«ISseus filhotes, somos a única espécie que junta porções comestíveis da natureza
também do gesto do amor dos pais e do sopro do espírito, somos, como o
C! leva o alimento para outras pessoas. Somos os únicos que, por felicidade ou
mundo onde vivemos, a Natureza. Os panos com que nos cobrimos, transfor-
1H li'desgraça, aprendemos a fazer de fragmentos do meio ambiente transformado
mando o algodão ou o pelo dos carneiros, a comida que antes de comermos,
«!l1I alimento, urna porção de coisas entrelaçadas e, de vez em quando, contradi-
semeamos, zelamos, colhemos e colocamos sobre o fogo que aprendemos a
lórias, quando "isto" poderia ser uma coisa só. Pois tal como os panos com que
acender, são porções do todo da natureza transformada não apenas em coisas
lUIScobrimos ou as casas onde nos abrigamos e reunimos, fazemos da comida
de utilidade, mas em seres de sentimento, de sentido, de significado e de
qlH:nos mantém na Vida: meios de sobrevivência, bens de uso, bens de troca,
sociabilidade. Logo, em um momento de uma cultura.
I:IlII,iriode interações, símbolos, palavras e mensagens.
Ao contrário dos outros animais, surgimos no mundo como uma
E algo semelhante acabamos realizando conosco mesmos. Pois sendo,
espécie disposta a viver em todos os ambientes do planeta e a comer de tudo
«:111110
lodos os outros seres vivos, sujeitos da natureza, acabamos nos tornan-
o que seja digerível em nossos corpos. Somos praticamente a única espécie
dll uma forma da natureza que se transforma ao aprender a viver, Sem cessar
onívoro-oportunista, e é assim que alguns paleontólogos nos definem. Em
I1IHlJII
exceção, entre todas as comunidades humanas do passado e de agora,
princípio podemos e desejamos comer tudo o que encontramos. Mas com
trnnsformamos seres do mundo de natureza: e unidades de uma espécie:
algumas diferenças notáveis. Pois aprendemos com o passar dos anos a lidar
tudividuos, em sujeitos do mundo da cultura: pessoas. Em seres de direitos e
com os seres da natureza, transformados em dieta alimentar, não só como algo
ti" dovores e, portanto, agentes culturais e atores sociais. Somos uma pessoa
bom para comer, mas como alguma coisa boa para pensar. Aprendemos,
11111
11111
duplo sentido. Ao conviverem conosco em cenários da cultura, como
primeiro, a transformar o que ingerimos, e o fogo teve aí um lugar essencial.
1111111
[umília nuclear, uma parentela, um grupo de idade ou de interesses, uma
Todos os bichos comem cru, fresco ou apodrecido. Nós criamos escolhas e
llril,lIllI.ao longo dos sucessivos círculos dos seus ciclos de vida os nossos
processamos o cru para ser também o cozido, o assado, o frito e assim por
111111lI; n as nossas filhas aprendem, pouco a pouco, a internalizarem não
diante. Aprendemos com o tempo - e cada cultura humana faz isto segundo
/jlllllflllll~"coisas" aos pedaços, como habilidades, condutas, saberes e valores.
os seus termos e de acordo com os padrões de sua própria lógica do sentir, do
1':1111/
uprondern a realizar interações e integrações cada vez mas complexas de
pensar e do agir - a lidar com os alimentos naturais como entidades de um
11/llIlm Iurlo isto. Assim sendo, um indivíduo humano é uma pessoa social
profundo valor simbólico. Assim, em um almoço entre amigos comemos a
'11111111111
inlogru e possui dentro dele urna experiência tornada individual do
comida quente e boa à volta da mesa, enquanto trocamos entre nós as
11111 1.lI1111J'HI
do sou próprio mundo de vida cotidiana.
mensagens. Sentimentos, evocações, idéias e valores de vida que nos dizemos
I': "Ios são pessoas humanas (mas o "humano" aqui é redundante)
uns aos outros através do que comemos. Através do modo como comemos e
1IIIIqllll 1111viverem em seus mundos sociais, saem continuamente de si
através do que criamos como preceitos de códigos de normas, como a rotina
IIIIIIHIIIHI
fi dm;ujalll 011so obrigam a interagir com outras pessoas em mundos
de lodos os dias, como a celebração única num ano ou na vida, em volta da
""1111'111
c:ll!lllrllllllollln uslnhnluuido», Em diferontos cenários do lrocas o dn
mosn em que nos reunimos para saciar a fome dos nossos corpos, e para dar
1111
11"Iu:ldudns I:lIjos utorus, uuloros, sohn: as leis da nnl urnza IIIHJfazo/ll do
I'IlsposlHs i\ Iuruo do símbolos (l do sonl idos do afnto n vida quo lrunsfnrnunn
111111
11dCIIIuu huuis 1I1I1I:IIIlS
o f{\lIIIIUS,IHIIISIIIII,
crium (l udmluislruu] I'lIgl'IIS
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sociais que nos transformam em maridos e esposas, em irmãos e primos, Ao emergirmos com a nossa consciência reflexiva - e nossas inteligên-
sobrinhos, filhas e afilhadas. Eis a razão pela qual alguns estudiosos da pessoa 11m; múltiplas - do signo e do ato ao símbolo e ao significado, logo, ao gesto,
humana e da cultura consideram esta obrigação criativa de construção social 1!tINI:1
,Iirimos que o importante não é tanto o que transformamos materialmen-
de sistemas de atribuição de sentido e de orientação das condutas interativas 111dll natureza. O que importa é a nossa capacidade e também a nossa
entre categorias de pessoas, como o momento fundador da própria cultura. 1111111
idade de atribuirmos significados múltiplos e transformáveis ao que
IIIZIIIII()S,
ao que criamos, aos modos sociais pelos quais fazemos e criamos e,
A Vida e a consciência da vida são o que ela própria ou um deus nos
líuuhnonte, a nós mesmos significado. Pois para a ave que pousa num galho
ofertaram. A cultura e o que fazemos dela, nela e, em e entre nós, através dela, Vida.
dll urvoro, a árvore é o galho do pouso, é a sombra, o abrigo, a referência no
A cultura é o que devolvemos a Deus ou à Vida como a nossa parte no mistério de
I1Hplll,:()
o o fruto. Para nós ela é tudo isto e é bem mais. É um nome, uma
uma criação de quem somos bem mais os persistentes inventores do que aqueles
lmuhrunça, uma tecnologia de cultivo e de aproveitamento. É uma imagem
que vieram assistir ao que fizeram antes de havermos chegado. Os outros seres
LIII'I'II).\ada
de afetos, o objeto da tela de um pintor, um poema, uma possível
vivos do mundo são o que são. Nós somos aquilo que nos fizemos e fazemos ser.
I 11
11 '11
d <Ide um deus ou, quem sabe? uma divindade que por um instante
Somos o que criamos para efemeramente nos perpetuarmos e transformarmos a
dividI! com um povo indígena uma fração de seu mundo.
cada instante. Tudo aquilo que criamos a partir do que nos é dado, quando tomamos
as coisas da natureza e as recriamos como os objetos e os utensílios da vida social I';isporque em termos bastante atuais, falamos que a cultura está mais
representa uma das múltiplas dimensões daquilo que, em uma outra, chamamos 1111
qlll! Il no como nós nos trocamos mensagens e nos dizemos palavras e
de: cultura. O que fazemos quando inventamos os mundos em que vivemos: a Idl!llI~;entre nós, para nós e a nosso respeito, do que no que fazemos em e
família, o parentesco, o poder de estado, a religião, a arte, a educação e a ciência, ~IIIII'"li IIOSSOmundo, ao nos organizarmos socialmente para viver nele e
pode ser pensado e vivido como uma outra dimensão. Iljlll~;I()l'Il1ú-lo.
Eis um belo sentido da idéia de nossa própria liberdade. Ao
IIIVIIJ'III()S
a vida do reflexo à reflexão e do conhecimento à consciência, nós
Tal como a natureza onde vivemos e de quem somos parte, também a
11111
I~Huntumos ao mundo o dom gratuito do espírito. Com ele, nós nos tornamos
cultura não é exterior a nós. A diferença está em que o "mundo da natureza"
11111
d IIII'I!S
do sentido e criadores de uma vida regida não pela fatalidade biológica
nos antecede, enquanto o "mundo da cultura" necessita de nós para ser criado,
dll lllipf!cin, como entre nossos irmãos animais, mas pelo poder de escolha
para que ele, agindo como um criador sobre os seus criadores, nos recrie a
IllIfll:lllllmlHmtelivre de nossos próprios símbolos, de nossos tantos modos de
cada instante como seres humanos. Isto é, como seres da vida capazes de
vhlu, d" nossas múltiplas identidades e das buscas de aprendizado de sentimen-
emergirem dela e darem a ela os seus nomes.
IIIIi11cllIsignificados a serem dados à teia de "tudo isto".
Castores fazem diques na água. Formigas constroem cidades debaixo
I'; íuzomos isto, ao longo da trajetória da história humana e em cada
da terra e abelhas realizam há milhões de anos verdadeiros prodígios de
lunluulu da vida social de cada grupo humano, de uma maneira afortunada-
arquitetura. Mas nestes animais e em outros o "fazer" não é um "criar". Ele é
1111111111
iuull iplu. De um ponto de vista biológico somos seres com mínimas,
uma extensão instintiva das leis de comportamento da espécie impressas no
dllfll'llll',lvnis diforonças. Mas as nossas culturas não. Elas foram e continuam
corpo de cada indivíduo dela. Quando os primeiros seres de quem descendemos
/tlllld" i 11I11I1I!J'as
ont re os tempos da história e os espaços da geografia humana.
viviam a esmo, na beira dos riachos, já os pássaros eram construtores de sábios
1'1li/! 1I11111()S
íI única espécie que, munida de um mesmo aparato hiopsicológico,
ninhos. Mas hoje os seus seguidores fazem, da mesma maneira, os mesmos
1111
Illvnfi do pruduzlr IIIll modo único do vida, ou mesmo mannirns do SOl'
ninhos. Nós inventamos sobre lodos os quadrantes da Terra uma variedade
111111111
1illllllllhillllllS,gm'allllls I]IHISIlincunlúvnis Iormns do SOl'o do vivnr 111'
nnnrmu do hahillll,:úos o nnxaiamns 110OSpOI,:O
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rmll dll pluuotu.
Impresso por Renata, CPF 025.060.790-50 para uso pessoal e privado. Este material pode ser protegido por direitos autorais e não pode
ser reproduzido ou repassado para terceiros. 12/11/2020 15:30:08

PARA APRENDER A VIVER ... () Ioljão, um rico e não raro difícil gesto social, como reunir pessoas à volLa du
1l!llSaao meio-dia de um sábado para celebrar com elas o aniversário da esposa
Damos hoje em dia bastante mais importância aos processos sociais da utruvés de uma feijoada.
cultura do que aos seus produtos deixados na esteira de um dia de vida de Quando falamos de cultura erudita e de cultura popular, de culturas
uma comunidade, ou ao longo da história de um povo. Se, de um lado, a illrlfgrmas,de cultura metropolitana, de cultura escolar ou de dilemas da cultura
cultura de uma aldeia indígena da Amazônia ou de um grupo humano ,uís-moderna, estamos apenas dando nomes diferentes a evidentes diferenças de
habitante de uma grande cidade não se reduz aos seus produtos materiais de n uulre pessoas através de suas culturas. Em boa medida, é este o assunto deste
criação, de outro lado ela também não existe apenas "na mente das pessoas", livro escrito em dois tempos separados por cerca de vinte anos.
sob a forma de algum "inconsciente coletivo" ou de uma "abstração de
E a sua razão de ser é também a evidência de que tudo o que se passa
comportamento". Subjetiva (dentro de nós) e igualmente objetiva (entre nós),
1111âmbito daquilo a que nos acostumamos a dar o nome de educação,
a experiência social da cultura constitui todo o complexo e diferenciado
III:olllnce também dentro de um âmbito mais abrangente de processos sociais
aparato de ordenação da própria vida social. Aí estão tanto os cantos e danças,
cio lutorações chamado cultura.\Tal como a religião, a ciência, a arte e tudo o
os ritos e crenças de um povo, quanto os seus "mapas simbólicos" de roteiros
IIl11ls, a educação é, também, uma dimensão ao mesmo tempo comum e
de preceitos e princípios que configuram os diferentes códigos e as gramáticas
II/lpnc:ial de tessitura de processos e de produtos, de poderes e de sentidos, de
dos rituais e jogos de trocas de bens, de pessoas e de mensagens com o que
I'II)I,I'/IS
(l de alternativas de transgressão de regras, de formação de pessoas
recriamos a cada dia a experiência da reciprocidade. O que, na verdade, se
11111111
sujeitos de ação e de identidade e de crises de identificados, de invenção
realiza não tanto de idéias e de ideais de vida, mas de cotidianas negociações
tI'l roiícraçôes de palavras, valores, idéias e de imaginários com que nos
entre pessoas e entre categorias de pessoas.
1IIIIIIIIII1110S
e aprendemos a sermos quem somos e a sabermos viver com a
Antes de mais nada viver uma cultura é conviver com e dentro de um 11\111111'
o mais autêntica liberdade pessoal possível os gestos de reciprocidade
tecido de que somos e criamos, ao mesmo tempo, os fios, o pano, as cores o " 11'111
11vida social nos obriga.
desenho do bordado e o tecelão. Viver uma cultura é estabelecer em mim e
Mas ao falar das relações entre a cultura e a educação, uma das
com os meus outros a possibilidade do presente. A cultura configura o mapa
11I11I"I'IIIH~aS
porventura mais importantes aqui deve ser a de que mais do que
da própria possibilidade da vida social. Ela não é a economia e nem o poder
11111'1111
"morais" ou "racionais", nós somos seres aprendentes. Somos, de todo
em si mesmos, mas o cenário multifacetado e polissêmico em que uma coisa
""1'4:11íris de alternativas da Vida, os únicos seres em quem a aprendizagem
e a outra são possíveis. Ela consiste tanto de valores e imaginários que
tI/lo 1I(10lHIScomplementa frações de um saber da espécie já impresso geneti-
representam o patrimônio espiritual de um povo, quanto das negociações
111111111110
om cada um de seus indivíduos, mas, ao contrário, representa quase
cotidianas através das quais cada um de nós e todos nós tornamos a vida social
1111111
1i 11'10 11111
indivíduo de nossa espécie precisa saber para vir a ser uma
possível e significativa. Quando linhas acima eu lembrava de passagem a
I"l/HIIUIhumana em sua vida cotidiana. Se páginas antes Claude Lévi-Strauss
maneira como o simples "comer" transforma-se, em nós, em um extraordiná-
11011IHIKllriélmudarmos o atributo fundador de nossa condição humana, do
rio leque de alternativas de experiências de comunicação entre pessoas e a
"'1111111111'111"
para () "ser da Vida", podemos agora pensar que uma face desta
nutureza, entre pessoas e pessoas, umas diante das outras, e entre pessoas e
'IlIl\lldlldll podoriu ser o sermos seres do aprendizado, logo, da educação.
a trnmn de seus símbolos e sentidos, eu pretendia assinalar apenas uma das
!\I(Í pOl' volta dos cinco 1ll0S0S do idade a pequena cria do uma casal do
d imunsôus om que aprendemos a codificar diferentes dimensões de relacio-
,llIltlllllllZ(IS o () filho do 11111jllll' do h\ll11/III1ISuprondom !1 snhnm mnis 011
1lIIIlH1I1IIIS
Il SflllS sil-\Ilil'iclldos, pura félzor do 11111
"ulo unl urul", COl1l0 () comnr
11111111111
cio 111
os 11111 morlo, IIS ItIlIHI1II1H
COIHIIH.MIIS IO~1I 11sO~lIir li (lmCIICfl
Impresso por Renata, CPF 025.060.790-50 para uso pessoal e privado. Este material pode ser protegido por direitos autorais e não pode
ser reproduzido ou repassado para terceiros. 12/11/2020 15:30:08

primata encerra o ciclo completo dos seus aprendizados essenciais, enquanto a pra<,:a social da Educação. Não vou lembrar agora com exatidão 1I1l1C1
das
tardia e lenta criança está apenas começando o seu. E quando o macaquinho já pllssagens mais citadas dos seus escritos. Mas a essência de suas palavras Il
aprendeu e domina por inteiro a leitura do repertório completo dos sinais dos IIKora isto é o que importa aqui. Ele lembra que as pessoas do povo - dos
seres de seu bando - os dos gritos e grunhidos, dos olhares e outros gestos do luiuueros povos que há no povo - sentem o que vivem, mas nem sempro

corpo e dos espaços sociais das interações - o menino humano apenas articula I:tIlllpreendem ou sabem o sentido social do que sentem. Enquanto isto nós,
os seus sons mais naturais, ainda anteriores à palavra que irá balbuciar um pouco IIHpessoas intelectuais - aquelas que escrevem ou lêem um livro como este,

mais adiante. Mas, e eis o milagre tão corriqueiro, daí em diante de uma maneira íulnndo sobre o povo e as suas culturas, e que muito dificilmente chegará a
irreversível a criança humana aprenderá complexos de significações cada vez "111"lido por ele, no interior de uma delas - sabemos, mas nem sempre
mais ricos, mais densos e mais complexos. Entre meses de vida e o seu primeiro cuutpreendemos o sentido vivido do que sabemos e, menos ainda, sentimos
aniversário ela estará aprendendo - como toda a humanidade fez ao longo de a Iunrlo o que compreendemos ... quando chegamos a compreender. E ao final
milhões de anos antes dela - a sair do sinal ao símbolo e a lidar com a liberdade dn purágrafo da mesma passagem Gramsci lembra que o nosso grande engano
do imaginário de uma maneira quase inimaginável, mesmo na mente de Deus. mMi um acreditarmos que seja possível saber intelectualmente I
algo sem
C:Olllpmender de maneira existencial o seu sentido e, pior ainda, sem haver-
A educação é um dos nomes dados a este milagre. Ele lembra outros:
IIIOHnprendído a sentir o que sabemos e devemos compreender.
socialização, endoculturação, internalização da cultura e outros. Todos têm
no entanto, algo em comum: são progressivos e resultam em processos de Escrito e re-escrito entre algum dia do começo dos anos 1980 e os primeiros
interação de saberes em graus e modos sempre mais amplos e profundos; não .111111 deste 2002, este livro a que dei o nome de a educação como cultura não
são necessariamente restritos a ciclos restritos da vida, podendo acompanhar 111"111:111'11 mais do que ser mas uma busca entre tantas no nosso esforço comum
a pessoa ao longo de toda a sua vida; são sempre o resultado de interações .1" t:olllpreensão das múltiplas e tão complexas (às vezes complicadas demais)
significativas da pessoa com ela mesma ("estou só, logo, somos quatro", dizia "II'IIIIIIISo leias" das relações entre as dimensões de culturas que criamos e

em algum lugar Gaston Bachelard), de pessoas entre elas, como sujeitos 11111"1
11IIIIIIIOS,e a educação que praticamos e que como um caminho sem termo,

sociais e como categorias diferenciais de sociabilidade, e de pessoas com II~nlmlll nós como um inacabável desafio ao pensamento e à re-criação. Um livro
sistemas e estruturas de símbolos e de significados. 111'("''' 1110[espero] ao qual estou dando por agora o nome de em volta do fogo,
,111 V IlI'IIretomar o que está ultrapassado ou inacabado aqui.
Educar é criar cenários, cenas e situações em que, entre elas e eles,
pessoas, comunidades aprendentes de pessoas, símbolos sociais e significa- ( ) leitor atento observará que, vinte anos mais tarde, algumas palavras
dos da vida e do destino possam ser criados, recriados, negociados e transfor- fi "h{IIIIIIIS idéias deste livro poderão ter ficado algo fora do tempo ... ou de
mados. Aprender é participar de vivências culturais em que, ao participar de 11114111'. t lulrus ganharam novos significados e dizem agora com bem maior
tais eventos fundadores, cada um de nós se reinventa as si mesmo. E realiza 1'''1101.11 11 que em alguns escritos daqueles anos eu dizia entre arrogâncias
isto através de incorporar em diferentes instâncias de seus domínios pessoais IIIMl\lIlll1so incertezas do ofício. Um texto da versão originalfoi retirado e dois

de interações (muito mais do que de "estocagem") de e entre afetos, sensações, IIIIII'Wl, IIOV()S,foram incluídos na presente edição. Espero que saiamos todos

sentidos e saberes, algo mais e mais desafiadoramente denso e profundo .1111111111110


co 111a lroca.

destes mesmos atributos.


Rosa dos Ventos
Durante cerca de duas décadas a partir dos anos 1970, Antônio Cramsci
V(do do Pcdr« Branco
foi lIllI dos ponsudnros mais procurados onl rn IIÚS, pnSS()IIS quu, t:hogadas do
VorO() do dois mil (1 dois
difllrllllllls Clllllillhwi 11dos IIJ11isrl ivtu'sns doslillOS, dOHOIIIIICII:1l111111i
1111
Kmlldo

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