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MACRAE, Edward.

Identidades homossexuais e movimentos sociais urbanos no Brasil da


“Abertura”. In: GREEN, James N.; QUINALHA, Renan; CAETANO, Márcio; FERNANDES, Marisa
(orgs). História do Movimento LGBT no Brasil. São Paulo: Alameda, 2018. p. 39 – 62

p. 39

A contestação cultural do sistema ditatorial e a “abertura democrática”

“No final da década de 1970, os brasileiros começavam a respirar ares mais otimistas. Para
muitos, a nação estava no limiar de uma nova era, mais justa e mais humana. A reorganização
da sociedade civil, juntamente com a suposta decisão do regime ditatorial civil-militar de
conter o aparato de repressão, pareciam anunciar grandes transformações.”

1978 – greve dos metalúrgicos da gnd São Paulo

p.40

Junho de 1978 – Geisel anuncia novas reformas que eliminariam os instrumentos arbitrários da
legislação draconiana e autoritária em vigor, sem enfraquecer as forças de segurança e de
inteligência

“A maneira de contestar o status quo também começava a mudar. Discursos antigos sobre “o
povo” e “sua luta” eram deixados de lado. Jovens, estudantes e intelectuais começavam a
enfatizar questões relacionadas com a subversão dos valores e o comportamento dos próprios
contestadores. Assuntos como a sexualidade, o uso de drogas, a imprensa alternativa e a
psicanálise entravam nas discussões. Os valores e as práticas da esquerda passavam a ser
vistos como conservadores. Optar pela marginalidade veio a ser considerado importante forma
de ataque ao sistema. Heloisa Buarque de Holanda comenta como o uso de drogas, a
bissexualidade e o comportamento descolonizado eram vividos e percebidos como perigosos
gestos ilegais, legitimando-os como importantes formas de contestação política.”

Final da década de 1970 reorganização do movimento estudantil – questionamento de antigos


ideiais e tradicional noção de esquerda de “luta geral” “ao enfatizar a necessidade de se
discutir temas específicos a certos setores da população, até então considerados como
secundários”

p.41

Crítica as relações de poder em diversos âmbitos

“o prazer do indivíduo era considerado o bem maior. Sempre que o prazer estivesse ausente,
eram detectados efeitos do “autoritarismo” (também chamado de “fascismo”, “rascismo”, ou
“machismo”, quase indiscriminadamente).”

Crítica ao moralismo da esquerda ortodoxa que custavam assimilar as novas posturas da


juventude

p.41-42

“Os movimentos negro e feminista chamavam uma atenção especial. As questões levantadas
por eles, assim como os seus métodos de ação coletiva, extrapolavam os limites da política
clássica. Ambos levantavam questões que até então eram desprezadas como “culturais” ou
restritas às vivências individuais dos militantes políticos. Entendiam, como de impotência
crucial, as relações hierárquicas estabelecidas entre raças, entre homens e mulheres, e mesmo
entre os líderes políticos e a “massa”nas organizações esquerdistas.”

p.42

Mov. Negro e de mulheres “começavam a elaborar novas teorias e estratégias autônomas”

“Dessa forma, as organizações de negros e das mulheres tornaram-se seus principais


interlocutores e aliados, reivindicando a relevância de demandas específicas que não poderiam
ser consideradas secundárias devido ao seu status de suposta “minoria”. Sua nova valorização
de questões “específicas” acabaria por afetar os próprios grupos de esquerda que até então se
ocupavam da “luta de classes”.”

O movimento homossexual

Relativa flexibilização da censura no fim da década de 1970 – primeiro jornal homossexual


Lampião da Esquina, editado no RJ por jornalistas, artistas e intelectuais homossexuais.

“Seus editores pretendiam originalmente não só lidar francamente com a homossexualidade,


como também forjar alianças entre outras “minorias” com reinvindicações específicas como os
negros, feministas, índios e representantes do movimento ecológico.” Aliança não
materializada plenamente.

p.43

“abordava sistematicamente aspectos políticos, existenciais e culturais da homossexualidade


de forma positiva”

1979 polícia do Rio inicia inquérito contra os editores do Lampião – acusação de ir contra a
“moral e bons costumes”. A defesa foi garantida pelos advogados do sindicato dos jornalistas.
“Tal apoio já era um sinal de que a homossexualidade deixava de ser objeto de desprezo geral
e que a legitimidade das demandas dos homossexuais começava a ser reconhecida.”

1978 – “marcado pela constituição do Movimento Negro Unificado, pelo florescimento pleno
do movimento feminista, e a aparição simultânea de diversos grupos de militância
homossexual pelo Brasil afora.”

Formação de um grupo de artistas, intelectuais e profissionais liberais em São Paulo para


discutir as implicações sociais e pessoais de sua orientação sexual. Em 1979, com o nome
Somos – Grupo de afirmação Homossexual, participam de um debate sobre “minorias”
realizado na USP – estabelecimento de contato com outros grupos e “falaram da ideia de criar
um movimento homossexual de abrangência nacional”

“O debate foi muito importante, ao estabelecer o movimento homossexual como interlocutor


legítimo na discussão de políticas mais amplas.”

p.44

verão de 1980 – reunião realizada em São Paulo com grupos homossexuais de diversos
Estados. “Visava promover a militância e, entre outros temas discutidos, destacavam-se: a
questão da identidade homossexual, as relações entre os membros do movimento
homossexual com os partidos políticos, assim como temas relacionados aos seus
procedimentos e organização. Embora houvesse uma abundância de polêmicas e diferenças de
ponto de vista, era evidente a antipatia generalizada por qualquer forma de autoritarismo,
fosse dentro dos partidos políticos (de esquerda e direita), nas relações entre homens e
mulheres, ou entre pessoas do mesmo sexo. As soluções propostas enfatizavam a autonomia
do movimento homossexual em relação aos partidos políticos e o apoio ao feminismo na luta
contra o machismo.”

“gueto homossexual” – nas grandes metrópoles como Rio de Janeiro e São Paulo, “consistia
tipicamente em uma área central onde certos bares, saunas, discotecas, banheiros públicos e
parques serviam como pontos de encontro para homossexuais”

*Nota 5: “Este termo atualmente em desuso, era usado corriqueiramente por todos e será
mantido neste texto por apontar para o ambiente semiclandestino e marginalizado em que se
davam as vivências da homossexualidade na época.”

p.44-45

“O Lampião e o movimento homossexual difundiam novas visões que divergiam dos antigos
estereótipos que representavam os homossexuais masculinos genericamente como homesn
efeminados e as lésbicas como mulheres masculinizadas.”

p.45

década de 1960 – novo modelo de relações homossexuais - encontro entre homossexuais e


grupos boêmios que frequentavam os mesmos espaços nos centros das cidades como São
Paulo

p.48

Formação dos grupos lésbicos Somos e a experiência da Fração Lésbico Feminista

p.49

1980 – rompimento com o Somos e formação do GALF

Em São Paulo as operações do delegado José Wilson Richetti – “cruzada moralista visando
“limpar” o centro da cidade, removendo prostitutas e os homossexuais”, através de “blitzes
em locais de reuniões, prisões ilegais para suposta investigação de antecedentes criminais ou
políticos, mesmo no caso de pessoas cujos os documentos estavam em ordem, e o uso de uma
brutalidade extrema, especialmente com prostitutas e travestis.”

“O movimento homossexual reagiu, e, ativando seus contatos com os movimentos feminista,


negro e estudantil, promoveu uma marcha sem precedentes pelo centro da cidade. Quase
1000 pessoas atenderam ao chamado para protestar. Os manifestantes incluíam prostitutas,
algus membros do movimento negro, estudantes, feministas, e, acima de tudo um grande
contigente de homossexuais, que davam o tom do evento como suas palavras de ordem
satíricas e “fechativas”.”

p.50

crise do Somos

p.51

“campanha para eliminar o código número 302.0 usado pelo instituto Nacional de Assistência
Médica e Previdência Social – INAMPS, que classificava a homossexualidade com “desvio e
transtorno mental” constituindo um dos únicos exemplos formais da discriminação formal
contra a homossexualidade no Brasil. Mais do que uma simples medida burocrática, o
movimento para abolir este código visava discutir e eliminar a conotação patológica
geralmente atribuída a homossexualidade.”

“Apesar das dificuldades, o propósito de repensar a identidade homossexual e combater o


preconceito em todos os seus aspectos, tornando a homossexualidade mais visível para a
população em geral, foi bem-sucedida.”

Movimento, comunidade e identidade

Década de 1970 – busca pela “3ª via” na atividade política

p.51-52

“Abandonando a dependência dos partidos tradicionais – de direita tanto quanto da esquerda


– novos movimentos sociais emergiram, com demandas imediatas para a solução de
problemas específicos.” – mov. Ambientalista, feminista, racial, direito a moradia, terra etc.

p.52

“Tilman Evers chama a atenção para certos aspectos comuns a todas essas manifestações
políticas, argumentando que elas sempre buscam novos tipos de relação, nas esferas do
“público” e do “privado”. Tais movimentos se propõe a humanizar a vida pública, no sentido
de fazê-la funcionar segundo as normas e valores mais geralmente encontrados na vida
privada. Eles procuram valorizar o “privado”, para acentuar a sua importância como um tema
“político” a ser discutido e pensado em pé de igualdade como o outro, mais “geral”. Como diz
o sociólogo, tudo isso constitui muito mais um “estado de espírito” e tendências do que uma
prática real. No entanto, seus efeitos sobre a prática organizacional são bastante evidentes. Os
novos movimentos tentam formar pequenos grupos baseados em relações interpessoais e se
empenham em tornar os debates acessíveis e claro a todos os membros do grupo. Novas
formas de democracia de base são experimentadas, tais como mandato imperativo, a
representação rotativa, e decisões por plebiscito. Esses movimentos rejeitam qualquer tipo de
estrutura grandiosa, anônima e burocrática, como o Estado, por exemplo. Várias dessas
características eram evidentes em grupos homossexuais e feministas brasileiros.”

p.53

“As novas formas de relacionamento e de participação política que se desenvolvem dentro dos
movimentos sociais contemporâneos representam esforços para estabelecer uma prática
igualitária que normalmente está implícita na noção de “comunidade”. Como Ruth Cardoso
apontou, a construção dessa comunidade igualitária não se dá por causa da possessão de
atributos positivos comuns, mas sim através de uma “falta”, carência ou opressão
compartilhada. Isso contribui para que a comunidade seja percebida como uma experiência de
igualdade e que se procure deixar de lado as diferenças que venham a existir entre os
participantes, tais como as diferenças de classe ou de gênero.”

p.54 – 55

“No entanto certas diferenças não poderiam permanecer ignoradas por muito tempo, e a
noção de uma igualdade absoluta, decorrente da condição homossexual, logo viria ser abalada
pela noção de “dupla discriminação”, como aquela que afetava indivíduos que eram
homossexuais, mas também mulheres ou negros. Isto serviu para catalisar a formação de
novos, grupos mais específicos, como o Grupo de Ação Lésbica Feminista – GALF e o grupo
baiano de negros homossexuais Adé Dudu.”

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