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MODELOS DE PROCESSAMENTO DE LOCAL DE CRIME: um estudo comparativo


entre as atuações das Polícias Científicas do Brasil e do Chile

RESUMO
Apesar serem dois países sul-americanos, Brasil e Chile trazem grandes diferenças no que se
refere à forma de atuação policial e investigação criminal. O modelo de polícia de ciclo
completo adotado pelos chilenos difere bastante da estrutura das forças de segurança pública
brasileiras que contam com as polícias militares, civis e técnico-científicas (em alguns Estados).
No Chile, o Ministério Público (Fiscalía de Chile) não é vinculado a nenhum poder e cabe a
ele o protagonismo das investigações criminais, sendo os promotores (fiscales) responsáveis
por dirigir as investigações de delitos, inclusive pela manutenção da cadeia de custódia. No
Brasil, a condução das investigações fica a cargo das polícias judiciárias (federal ou estaduais),
sendo o Ministério Público um “usuário” do inquérito policial. Outra diferença percebida entre
estes dois países é a estatística da criminalidade. No Brasil a taxa de homicídio está na casa de
29,7 homicídios para cada 100 mil habitantes, enquanto no Chile este indicador aponta para 3,3
segundo relatório do Escritório para Drogas e Crime da Organização das Nações Unidas
(UNODC). A desigualdade ainda continua acentuada ao se comparar a taxa de esclarecimento
de crimes. No Brasil, uma pesquisa liderada pelo Conselho Nacional de Ministério Público
indica que apenas 8% dos homicídios dolosos são esclarecidos, sendo que no Chile este
parâmetro e estimado em 75%. Dentro deste contexto, este trabalho tem por objetivo realizar
um estudo comparativo entre as metodologias de processamento de local de crime pelos peritos
criminais do Brasil e do Chile e verificar se eventuais divergências podem ser consideradas
como fatores influenciadores na taxa de esclarecimento de crimes.
Palavras-chave: Polícia de ciclo completo. Processamento de local de crime. Esclarecimento
de crimes.

INTRODUÇÃO
Os modelos de atuação das perícias criminais no Brasil e no Chile trazem bastante
diferenças entre si. Alguns fatores que podem explicar essas divergências são: a forma de
estado, o modelo de atuação policial e o papel do Ministério Público. O Chile é organizado em
forma de estado unitário, com um único centro de poder e concentração das instituições
governamentais (FERRADA BÓRQUEZ, 1999). Já o Brasil é uma federação, com o território
nacional dividido em Estados e o poder político distribuído entre os entes federados (NETO,
2006).
Como reflexo direto da forma de estado adotado pelo Chile, a força policial chilena é
composta apenas por duas instituições: Carabineros de Chile e Policía de Investigaciones
(PDI). Ambas têm atuação nacional, sendo que os Carabineros têm caráter ostensivo (CHILE,
1990) e PDI tem vocação técnico-científico e judiciária (CHILE, 1979). O Código Processual
Penal chileno não distingue as atribuições da PDI e dos Carabineros, sendo ambas as forças
policiais responsáveis por auxiliar a Fiscalía nas investigações criminais, realizando o ciclo
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completo de polícia (CHILE, 2000). No Brasil, cada ente federado tem as suas polícias, sendo
que a Polícia Militar tem papel ostensivo e a Polícia Civil (e a Polícia Federal) tem atuação
judiciária, trazendo uma divisão de competências operacional e territorial (BRASIL, 1998).
No sistema brasileiro, a investigação criminal, na fase inquisitiva, é presidida pela
polícia judiciária, (BRASIL, 1941), enquanto que no Chile, o protagonista da investigação
criminal é a Fiscalía, na figura dos fiscales (promotores), que detém a exclusividade da
investigação penal (CHILE, 2000).
Ao analisar as estatísticas criminais fica evidente mais uma grande diferença na
segurança pública destes dois países. A taxa de homicídios para cada 100 mil habitantes no
Chile é da ordem de 3 e no Brasil este índice chega a 29 (UNODC, 2019). No Brasil apenas 8%
dos casos de homicídios são esclarecidos pela polícia (SOUZA, 2020) e no Chile cerca de 78%
(BRUM, 2018).
Como a atuação dos peritos criminais no local de crime tem papel imprescindível na
geração de prova técnica, é pertinente comparar as metodologias de processamento de local de
crime adotadas pelos órgãos do Brasil e do Chile. Este trabalho objetiva, sem intenção de
esgotar o tema, realizar comparações entre os procedimentos de atuação em local de crime
forças policiais destes países.

DESENVOLVIMENTO
O Código de Processo Penal brasileiro (CPP) vem sofrendo atualizações constantes
que afetam a interação do perito com o local do crime. Recentemente, as modificações impostas
pela Lei no 13.964/2020, de 24/12/2019 promoveram um aperfeiçoamento da legislação
processual penal brasileira (AMARAL & GIACOMOLLI, 2020) e a inclusão nos artigos 158-
A a 158-F modificou a relação jurídica dos peritos com o local de crime. Com a nova lei, foram
definidas obrigatoriedades para as diversas etapas que compõem a cadeia de custódia de um
vestígio, doutrinando que o processo de cadeia de custódia tem início com a preservação do
local ou com os procedimentos policiais ou periciais que culminaram com a detecção de um
vestígio (BRASIL, 2019). Na pesquisa realizada, não foram encontrados paralelos na legislação
chilena. No entanto, os princípios da cadeia de custódia estão amplamente relatados nas
literaturas policiais e jurídicas chilenas.
A Lei nº 13.964/2019 impõe que o primeiro agente público que reconhecer um
elemento como de interesse para produção de uma prova pericial tem a responsabilidade de
promover sua preservação. A coleta dos vestígios deverá ser realizada, geralmente, por um
perito oficial, que deverá garantir a cadeia de custódia. No entanto o CPP abre espaço para que
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essa atividade seja realizada por outras pessoas, não indicando claramente para quem devem
ser entregues os vestígios coletados pelos não peritos.
O Código de Processo Penal Chileno, Lei nº 19.696, publicada em 2000, e suas
atualizações, estabelece em seu artigo 83, alínea “c”, que os funcionários dos Carabineros de
Chile e da Policía de Investigaciones de Chile podem atuar, sem ordem prévia dos fiscales
chilenos, para isolar e preservar o local do crime. Nesta mesma alínea, é indicado que o policial
experto tem prioridade para trabalhar os elementos que podem ser utilizados como meio de
prova. Caso não exista policial experto na localidade do fato e os vestígios correrem risco de
desaparecer, os policiais que chegaram ao local deverão recolhê-los e guardá-los para posterior
entrega ao Ministério Público. Com relação à custódia, no artigo 188 do Codigo Precesal Penal
existe a previsão de que as espécies recolhidas durante a investigação devem ficar sob custódia
do Ministério Público.
No Brasil, o perito não atua de ofício, sendo necessária uma requisição que, na fase de
inquérito pode vir da autoridade policial (civil, militar ou federal). No sistema chileno, parece
que o policial experto também não atua de ofício, sendo necessária a solicitação prévia do
Ministério Público, que, naquele país, coordena a investigação criminal.
As etapas adotadas pela criminalística brasileira, assim como pelas polícias chilenas
para o processamento do local do crime, são semelhantes e envolvem, de maneira resumida, as
seguintes etapas: o isolamento e preservação do local (Protección del Sitio del Suceso); a
aplicação de técnicas de busca de vestígios (Inspección ocular del sitio del Suceso); a
documentação descritiva, fotográfica e confecção de croquis (Fijación del Sitio del Suceso: la
descripción escrita, fijación fotográfica, levantamiento planimétrico e el moldeado); a coleta,
embalagem e transporte dos vestígios (levantamiento, embalaje y traslado de evidencias del
Sitio del Suceso); busca final (rastreo del Sitio del Suceso) e liberação do local (sem paralelo
na doutrina chilena), e produção do laudo pericial (Interpretación y Formulación de Hipótesis:
consiste en la confección de un Informe Pericial) (VELHO et al., 2013),(CHILE, 2014).
No CPP brasileiro, os exames do corpo de delito, incluso os locais de crime, é ponto
obrigatório quando existirem vestígios e serão realizados, como regra geral, por perito oficial,
que elaborará o respectivo laudo pericial. No entanto, o CPP apresenta exceções, permitindo
que tais exames sejam realizados por outras pessoas, no caso de falta de perito oficial. No Chile
parece haver a possibilidade de o exame do corpo de delito não ser realizado por policial experto
se o Ministério Público entender não ser necessário.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
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Este trabalho mostrou que apesar se tratar de dois países sul-americanos, Brasil e Chile
possuem estatísticas criminais bastantes distintas, em especial as taxas de homicídio e de
resolução de homicídio. A comparação entre as técnicas de processamento de local de crime
adotadas pelos institutos de criminalística desses dois países apontou grandes similaridades dos
procedimentos, sem nenhum item que divergisse de forma categórica. Em ambas as
metodologias foi evidenciada a importância de manutenção da cadeia de custódia e seu impacto
na persecução penal.
Este estudo também concluiu que não é exclusivamente a forma de atuação do perito
criminal na cena do crime que está determinando uma maior taxa de resolução de homicídios.
Como proposta de estudos futuros fica sugerida a análise de outros fatores que possam explicar
essa discrepância na eficiência da investigação criminal, como por exemplo, forma de
estruturação da polícia da (ciclo completo ou fragmentada), estrutura tecnológica dos institutos
de criminalística e atuação do Ministério Público.

REFERÊNCIAS

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