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Maximiliano Torres Barreto – 54780 – Sociedade e Ambiente

TRABALHO DE DESENVOLVIMENTO E SUSTENTABILIDADE


Docentes da Cadeira: Professora Doutora Iva Miranda Pires
Orientação: Professora Doutora Emily Lange.

Título: COVID-19, UMA ESTRUTURANTE ACELERATÓRIA DESGLOBALIZANTE?

RESUMO:O Covid-19 é uma doença altamente infecciosa virótica, causando síndrome


respiratória aguda grave, mata por asfixia. O medo da transmissão e inexistência de
vacinas isolou-nos por trás das janelas compulsoriamente em 2020. Agora enxergamos o
mundo sobre outras perspectivas. A confiabilidade do modo de vida ocidental e suas
utopias racionalistas estão em ruptura? Sempre estivemos no centro do mundo, seja
como topo da evolução das espécies seja como a excelência da criação divina,
pressupostos que aliaram ciência e religiões, ao ocidente, em acordo numa sentença,
numa perspectiva antropocentrista.

Assim, dinâmicas de afastamento social compulsória dessincronizaram os homens da


aceleração capitalista, pararam fábricas, fecharam fronteiras, desertificaram as ruas das
cidades comprimindo ainda mais o tempo político, tudo é urgente na pandemia e podem
ser vetores estruturantes de um recuo da globalização.

Ou ao contrário “antídoto para uma epidemia não é segregação e sim cooperação”,


HAHARI, Y. N. (2020:19), acelerando ainda mais o processo de interdependência e
Identidade Global, transcendendo uma reflexão profunda ecológica ambiental numa
nova visão para o mundo como na “perspectiva ameríndia” de CASTRO, E.V. (1996), onde
recrudescerão conjuntos de normas e leis a escala mundial, ao ponto de impactar uma
governança mundial em direção a uma globalização mais solidária como conceitua
STIGLITZ (2007)?

Palavras Chaves=Globalização-Antropoceno-Pandemia-Ameríndia-Desenvolvimento

Índice: 1. Introdução........................................................................................pag :2
2. O Paradigma Antropcentrista........................................................pag :3
3. Antropotempo Acelerador.............................................................pag :5
4. Desacoplamento do Tempo............................................................pag :6
5. O Fim da Globalização...................................................................pag :9
6. Uma Pausa Para Reflexões Ameríndias........................................pag :10
7. Conclusões........................................................................................pag :12
8. Bibliografia.......................................................................................pag :14
9. Webgrafia.........................................................................................pag :17

Quando o português chegou / Debaixo duma bruta chuva/ Vestiu o índio/


Que pena! / Fosse uma manhã de sol / O índio tinha despido o português.
Oswald de Andrade – Poeta “Antropofágico” Brasileiro.

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1- INTRODUÇÃO

A pandemia do COVID-19, causado pelo coranavírus, alastrou-se no mundo com uma


velocidade sem precedentes, tendo seu rápido contagio difundidos pelos efeitos das
dinâmicas globalizantes que causaram o aceleramento social, tecnológico e econômico
no mundo como descreve ROSA H.(2019). A solução então parece óbvia
desglobalização, reduzir trocas comerciais, evitando o fluxo transacional de pessoas e
fechar-se em si mesmo buscando no outro a responsabilidade pela crise e busca de
respostas urgentes, como as notícias nos médias que ora a culpa é da China , ora dos EUA
, ora da OMS que demorou em decretar o estado de Pandemia.

Apesar disso, pouco se fala da aceleração do desiquilíbrio ambiental e no aquecimento


global desencadeadores da transmissão de inúmeras doenças e viroses aos humanos
através do contato com animais silvestres portadores naturais, as chamadas arboviroses,
que aproximam-se pois tem seus habitats destruídos ou invadidos, como a relação dos
macacos e a febre amarela no Brasil VASCONCELOS P.F.C.(2003).

Podemos também pensar na criação de animais de forma intensiva, manipulada


geneticamente, amontoada por vezes num adensado misto de espécies que se alimentam
das fezes uma das outras ou até de carcaças delas mesmas, como no caso da “Vaca Louca”
em WHO (2000) ou nas condições do mercado de Wuham onde supõem-se a transmissão
zero do “Coranavírus” MONTEMERLI R. (2020) , pensem como alterações climáticas
deixarão a Europa à mercê de vários vetores de doenças tropicais, devido ao aumento da
temperatura, como o mosquito da Dengue e da Zica o “Aedes Aegypti”
ABRANTES&SIVEIRA (2009), tudo corrobora para o surgimento de vírus e bactérias
letais para nós. Tudo para produzir mais em menos tempo.

Nosso argumento central baseia-se justamente nestas questões acelaratórias produtivas


no tempo social, através de uma revisão bibliográfica, que desencadearam uma ruptura
no sincronismo do tempo biológico do Planeta, que regia em simetria o modo de vida
dos seres humanos em torno dos eixos de translação e rotação da Terra, estabelecendo
uma cronometragem biológica para a vida , como o dia para trabalhar, a noite para
descansar, o inverno para se abrigar , a primavera para plantar, até a revolução industrial
era assim a ordem do tempo.

A convenção social do tempo deu-se a partir da segunda revolução industrial ajustando


o tempo das cidades e pessoas ao tempo das fábricas, permeado pelas relações de
produção nas unidades fabris. Era medir, dividir, quantificar e sincronizar o tempo como
uma medida de 24 horas através do relógio e 24 fusos no mundo para sincronizar
comunicações, transportes, locomotivas, passageiros. Passamos a gerir, administrar,
para melhor obtermos eficiência do tempo socialmente definido ELIAS (1989). O tempo
social passou ser o tempo da hora para comer, hora para trabalhar, hora de descansar e
hora de dormir.

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O tempo, pode ser assim monetizado e acelerado através do aumento da produção,


consumo e manipulação do mesmo. Por exemplo a eletricidade permitiu que fábricas e
outras organizações produzam e consumam a noite, antes dependíamos do sol ou as
mudanças no horário de verão para evitar picos energéticos. A biotecnologia permitiu
três, quatro colheitas de soja ano na mesma terra, antes era uma, a terra não descansa é
adubada quimicamente. Um Boi para ser abatido com 18@ levava de forma extensiva e
natural de manejo cerca de 30 meses, hoje leva 12 a 18 meses. A dinâmica do acúmulo
capitalista e a produtividade, que significa produzir mais no mesmo tempo são a lógica
das organizações, tempo é dinheiro, tempo parado é dinheiro perdido, então é preciso
acelerar o tempo, isso é chamado progresso.

Dessa forma, o avanço produtivo e econômico dentro da ordem cronológica dos


acontecimentos passou a ser vinculando como progresso e desenvolvimento, um aumento
quantitativo da produção de bens materiais, monetizados produzidos nessa linha do
tempo, um exemplo são as variáveis usadas para medir o PIB dos países anualmente
GUERRA, J.&SCHIMDT,L.(2013). Essa aceleração por mais produção e mais recursos
e mais consumo no mesmo tempo, desde então, o que segundo alguns cientistas interferiu
no tempo geológico da terra causando marcas indeléveis na crosta e na atmosfera que
podem ser supostas como uma nova era, o Antropoceno CRUTZEN P.J. (2016)

Viver mais experiências , viajar mais , trabalhando mais , ganhando mais , para consumir
mais, numa espiral predatória , uma hiperaceleração do tempo, a partir de 1970 Unesco-
(2018), que ultrapassou até a nossa capacidade cognitiva de gerir nosso próprio tempo,
tudo é imediato e urgente, a comida fast food , a garantia de entrega imediata , o voo à
jato , o trem-bala. O que importa é nos satisfazer naquele momento de forma rápida o
consumo, mas que se torna efêmera e obsolecente BAUMAN, Z.(2001), o futuro é
incerto e não mais uma linha sincrônica de planejamento , tudo é urgente, acelerado,
frenético, até que o “coranavírus”, na boleia da velocidade acelerada do capitalismo
globalizado nos paralisou freneticamente.

Vamos através de uma abstração de pensamento operar hipóteses a partir de teorias


fundamentadas de várias disciplinas dentre elas a antropologia , a física , a sociologia , a
economia, a psicologia e a geografia chamadas holisticamente a estabelecer um fio
condutor através do paradigma antropocentrista e de como o ser humano acelerou o tempo
ao ponto de deixar marcas indeléveis impactando o funcionamento da Terra , e como isso
desacoplou a sincronia do tempo biológico com o tempo social no Planeta, gerando como
efeito um entropia da energia em forma de poluição e resíduos que vieram a espoletar
um desequilíbrio ambiental ao ponto de surgirem disfunções nos sistemas biológicos,(o
coranavírus) e também sócioeconômicos, a (crise econômica e política ) , que nos obriga
a uma reflexão profunda do tipo de mundo que teremos que construir ou destruir a partir
dessa nova normalidade, usando como trampolim desse mergulho a cosmovisão
ameríndia.

2- O PARADIGMA ANTROPOCENTRISTA

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Desde os anais da filosofia com Aristóteles na Grécia antiga, berço do pensamento da


ciências ocidentais , a ideia que os organismos evoluíam através de uma grande cadeia
dos seres cujo ápice espécie humana, sendo os outros organismos vistos como
degenerações de moldes perfeitos (platônicos) , tese defendida e bastante comum até o
século XIX , tendo modernidade sua proeminência em Jean-Baptiste Lamarck.

Em Lamarck, J.B. (1809), as espécies evoluíam em linhagens distintas que nunca se


intercruzavam, o ser humano o ponto alto da criação um tipo ideal. Em DARWIN,C
(1985) seu contemporâneo, outro proeminente evolucionistas cuja teoria tornou-se
paradigma, todas as espécies estavam em evolução, numa ancestralidade comum com
todos os organismos , o homo sapiens atingiu superioridade por questões de adaptação,
assim podemos pressupor que ambas as visões carregavam uma construção do
conhecimento onde o homo-sapiens tem uma primazia sobre outras espécies , esse
humanismo esteve também nas religiões adâmicas como o judaísmo, islamismo e
cristianismo viam a Terra como centro do universo, e o homem o ponto alto da criação
ZENGO, Z. A. (2008).

Considerar a revolução copernicana no século XVI, uma significativa mudança do


paradigma geocêntrico para o modelo heliocêntrico, que tirou da Terra sua centralidade
no universo, colocando-a como ínfimo grão diante dos Cosmos, espoletando o
racionalismo, mudando a forma de enxergar o mundo e a mentalidade em geral. Mas a
espécie humana continuou soberana no pensamento dominante, e a Terra como um
conjunto de bens disponíveis a serem explorados com infinitas possiblidades,
Albuquerque, B. P. (2007), que só possuíam valor quando desfraldados na sua utilidade de
maneira direta ou indireta para os seres humanos, numa perspectiva de progresso
economicista que ao mesmo tempo é utilitarista e antropocênica, intensificada cada vez
mais a partir do paradigma1 dominante racional científico.

Alicerçados então nesse racionalismo científico descobrimos que a Terra foi marcada por
uma evolução das forças geológicas desde sempre, que data a 4,5 bilhões de anos. No
decurso da odisseia, o Planeta enfrentou inúmeras transformações em sua crosta e
atmosfera. Nós como espécie singular só aparecemos nessa história há 200 mil anos e
evoluindo ao ponto de desenvolvermos a civilização como temos. Mas apesar do pouco
tempo de presença, a espécie humana tem interferido de tal forma nos ambientes , que
passaram segundo alguns cientistas contemporâneos, a impactar decisivamente no
funcionamento dos ciclos biológicos da Terra, que podem estar alterando o clima a
atmosferas, além de marcas indeléveis na crosta terrestre, marcado o fim da era geológica
do Holoceno e abrindo uma nova era marcada pelo ação do homem o Antropoceno.

O desenvolvimento da agricultura em escala, concomitante ao advento da Revolução


Industrial no século XVIII e seu rápido progresso com suas máquinas a vapor e alta
demanda por recursos naturais para funcionamento e manufatura de bens, que logo

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Kuhn (...) na filosofia dominante(lógico-positivista, lógico-empiricista, lógico-formal, racionalista) da
ciência para a qual, como disse, a ciência se explica exaustivamente (ou no que interessa) pela sua lógica
interna.(...) Aquilo que para Kuhn é parte integrante da prática cientifica é relegado pelos racionalistas
lógicos para o domínio do residual ou para o domínio da violação de regras inerentes ao processo científico.
Esta distinção entre norma e desvio, e em geral a teoria lógico-racionalista da ciência, assenta num
decisionismo meta-teórico que consiste em considerar irracional ipso facto tudo o que não é «interno» à
ciência. SANTOS, B. S. (1978:29:30)

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culminaram em dos motores a combustão interna, o uso de combustíveis fósseis


(inicialmente carvão, depois petróleo e gás) que ainda hoje consomem quase 80% da
energia produzida no planeta desencadeou uma primeira vaga no aumento da
concentração atmosférica de dióxido de carbono (CO2), com uma segunda vaga
aceleradora a partir da segunda guerra mundial , que passou de cerca de 280 ppm, da era
pré-industrial, para uma concentração média de 399 ppm, em 2015. Nunca nos últimos
800 mil anos tivemos algo parecido, além concentrações de metano (CH4), óxido nitroso
(N2O), ozônio H4(O3) e outros gases de efeito estufa que impedem a dissipação do calor
e o consequente aquecimento da biosfera. ARTAXO P. (2014)

Temos também em questão o forte crescimento demográfico, em 1750 éramos cerca de


700 milhões, que atingiu 1,7 apenas no século XX, “Hoje em dia, estamos com uma
população estimada em 7,6 bilhões e nossa projeção até 2100 é que a população chegue
a 11,2 bilhões” , ONUNEWS-(2020).Cada vez mais as tecnologias foram direcionadas
para a aceleração da exploração dos recursos naturais para suprir a crescente demanda
por alimentos, água , energia e mais recentemente de bens de consumo em geral
produzidos em massa numa segunda vaga desenvolvimentista em espiral, após a segunda
guerra mundial, que parece não ter fim no seu ciclo vicioso de produzir mais para vender
mais para lucrar mais para produzir mais, causando interferências em vários ecossistemas
da terra ameaçando sua biodiversidade e equilíbrio, que além de consumirem recursos da
natureza, devolvem a Terra resíduos poluentes como ao CO2 e o Lixo Atômico , de
difícil ou lentíssima absorção, quando não impossível.

A partir dos anos 80 alguns cientistas entre Paul Crutzen prêmio Nobel de Química em
1995, passou a conceituar a partir de observações nas alterações atmosféricas e
climáticas, o termo “Antropoceno”, referia-se a uma época em que os efeitos da ação
humana estaria afetando sistemicamente todo o planeta e através de várias investigações
publicadas, levantou a questão de que essa seria essa nova era geológica da Terra
impulsionada pela ação humana desencadeando alterações geológicas na Terra
CRUTZEN P.J.(2002). Os seres humanos ganham um papel central, capazes de interferir
alterar processos críticos no planeta, alterando a composição da atmosfera, gerando
marcas indeléveis na crosta terrestre, capazes de alterar todo o seu equilíbrio e
propriedades.

A questão levanta a discussão dos limites seguros da velocidade frenética da exploração


dos recursos naturais do nosso planeta sem dar tempo da mesma se recuperar afetando
sua capacidade de resiliência , mostrando de forma empírica que existe a possibilidade
real de termos extrapolados os limites físicos de recuperação do planeta que poderão
causar uma desestabilização climática imprevisível entre outras consequências, que se
constituem hoje em um novo paradigma.

3- ANTROPOTEMPO ACELERADOR

Segundo Helga Nowotny, “Aceleração significa (...) não apenas o aumento de


velocidade” mas a superação mais rápida de percursos, “resultado de processos
verificados tecnológica e economicamente” tendo a aceleração se tornado uma norma
social, pois “(...) Bens, pessoas, energia, dinheiro, e informação devem trocar sua
localização com frequência” NOWOTNY, H (1993;97), superando espaços temporais.
Sendo então para compreensão desse contexto tratar-se “não do fato de distâncias serem

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percorridas mais rapidamente, mas sim mais frequentemente, completa Rosa


H. (2019:127). O mindset das pessoas e organizações passaram a incorporar um ritmo de
vida acelerado que se multiplica exponencialmente em episódios de ação, experiências e
sensações no mesmo tempo, “a aceleração assim pode então ser definida como aumento
da quantidade por unidade de tempo”. Por quantidade entenda-se caminhos percorridos,
mensagens transmitidas, signos incorporados, bens produzidos e também consumidos,
como percebemos em ROSA H. (2019:129).

Para o geografo HARVEY D. (2002), o espaço e o tempo foram “comodificados”, sendo


homogeneizados de um lado e fragmentados de outro, transmutados em mercadorias
transacionáveis, constituindo que hoje são a base estrutural do economicismo
globalizante. Para o autor, a produção de “espaços”, sua organização e distribuição, é uma
faceta central do capitalismo, é o tempo como commodityes, é tempo o que o capitalista
adquire do seu trabalhador e não o fruto do seu trabalho. Assim podemos ver aplicada a
hipótese de Marx quando postula que “toda economia é uma economia de tempo” MARX
K.(1983:105) ou através do polímata e ícone da nação americana e dos seus liberais,
Benjamin Franklin que diz “Time is Money”, pois “ Quando tempo é dinheiro , a
velocidade se torna um imperativo absoluto e inabalável para os negócios” ADAM,B.
(2003) et al ROSA H.(2019:323).

Dessa maneira a mais valia é gerada e otimizada com a boa gestão do tempo de trabalho
aumentado a produtividade, ou seja da quantidade de outputs por unidade de tempo
através de uma aceleração continua que entra numa espiral aceleratória imparável do
acúmulo do sistema capitalista de produzir mais , para vender mais, para lucrar mais, para
investir mais, para produzir mais, consumindo mais recursos, adensando mais o tempo de
trabalho, desenvolvendo novas tecnologias e acelerando mais e mais a produção, a
distribuição e o tempo de consumo através da obscolência do modelo mais recente em
tempos de hiperconsumo LIPOVETSKY, G.(1989)

Defendemos assim nesta aproximação a “hipótese central”, assim como Rosa


H. (2019;135), que a sociedade moderna deve ser compreendida como uma “sociedade
da aceleração” no sentido que ela contém em si inúmeros pressupostos aceleratórios além
dos tecnológicos como os estruturais, culturais, econômicos numa convergência de todas
as formas que gera a demanda, da aceleração técnica que intensifica o ritmo de vida ainda
mais, gerando cada vez mais necessidades de recursos materiais e temporais através da
constituição de uma tríade indissolúvel e autopropulsora da aceleração social, econômica
e tecnológica civilizacional, que agindo e forma incessante nos últimos 200 anos sobre a
Terra, tem levado a mesma aos limites da sua capacidade de resiliência vetorizada por
uma dessincronizarão do tempo biológico da terra com o tempo da organização social e
do modo de produção.

4- DESACLOPAMENTO DO TEMPO

O tempo passou a ser usado para a disciplina do trabalho fundamentando o capitalismo


industrial , THOMPSOM E. P. (1967), e através de uma série de coerções passou a
orientar as subjetividades adaptativas ao imperativo da aceleração do sistema econômico,
causando a ruptura da vida cotidiana tradicional em posição ao tempo de trabalho
industrial que surgia em torno das fábricas e cidades que passaram a ter regulação própria.
O tempo de trabalho das fábricas foi monetizado e submetido as normas do relógio

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mecânico, dissociado dos ritmos da natureza que durante, milênios estruturaram e


serviram como orientação para o convívio e organização da sociedade ELIAS, N. (1989).

O dia ou a noite, o inverno ou o verão, a chuva ou o sol não fazem mais diferença na
produção de bens industriais, a vida organizada agora pelo tempo social contemporâneo
flui agora entre dias e noites durante as 24 horas e as 4 estações de maneira homogênea e
ininterrupta sem encontrar fenômenos biológicos. Deixar de produzir, de vender, de
transportar em qualquer hora é uma perca de tempo, é prejuízo certo na lógica capitalista.
Sendo essa a base constituinte a condição necessária para a manipulação temporal de
todos os processos produtivos, econômicos e sociais, que postulamos terem ultrapassado
os limites da velocidade naturais “geofísicos, biológicos e até antropológicos” ROSA
H. (2019:129), do mundo contemporâneo.

As evidências que podem ser percebidas na geração de estímulos da sociedade moderna


sobre o cognitivo do homem que devido sua quantidade e velocidades segundo SIMMEL,
G. (2005) que aglomerou-se em adensados urbanos sintéticos para economizar tempo e
trabalhar mais, mas que ao mesmo tempo impedem a reação e também a regeneração do
cérebro para além das suas capacidades de resiliência, causando o “stress” , levando ao
adoecimento do corpo e da mente como explicado pela síndrome de “Burnout” em
FREUDENBERGER, H.(1974) , que na sua origem etimológica no inglês traduz-se
como, "burn" quer dizer queima e "out" exterior, algo como queimar por completo, ou
seja, exauridas estão todas as suas energias.

Homologamente a síndrome de Burnot colocamos na perspectiva da Terra, não como


objeto geológico apenas constituída de minerais, gazes e água , mas a partir de uma
cosmovisão egocêntrica aliadas a outra representação de mundo que vê também o
Planeta como sujeito vivo que sofre ações, assentes “nas premissas fundamentais da
harmonia e do equilíbrio entre todos os seres vivos, incluindo o ser humano, e a Pacha
Mama (MãeTerra) ou mãe natureza” NOBRE, S. (2014:3).

Podemos observar o “stress” do planeta como produto do atual industrialismo a partir por
exemplo da velocidade da exploração dos seus recursos, como a “velocidade da
capacidade natural de reprodução de matérias primas, tal como a transformação de
camadas de sedimentos submarinos em petróleo, ROSA H. (2019:129). Sendo os limites
biológicos de recuperação da Terra finitos e a capacidade dos ecossistemas processarem
poluentes e resíduos industriais gerados também, mas o tempo social que estes são
produzidos é acelerado constantemente, hoje muito acima da capacidade da resiliência
pautado no Tempo biológica da Terra. A “aniquilação do tempo e espaço”, estão
marcados como características central da lógica constante de expansão de novos
mercados e fronteiras dos processos de globalização inerentes a exploração acelerada
capitalista ROSA H. (2019:162), a energia do Planeta parece estar também se exaurindo.

A tomada de ciência dessas questões deixa claro que existem limites para serem
observados nas dinâmicas aceleratórias civilizacionais e ao crescimento econômico
constante da lógica de produção capitalista como a poluição, a finitude dos recursos e a
expansão ilimitada das populações de forma assimétrica que uma vez violadas podem
trazer disfunções catastróficas ao ecossistema provocando sua ruptura, o que acaba por
trazer uma evidência de que se todas as populações da Terra, em especial, se todas as
nações tivessem como modelo já consagrado modelo de desenvolvimento

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aceleracionista o Planeta já poderia ter surtado na sua capacidade regenerativa colocando


em risco a sobrevivência da raça humana, como em MEADOWS,D.H. (1973), como
salientou o economista Censo Furtado2 .

Apesar dos alertas teriam sido feitos já há 50 anos e terem sido discutidos e se chegados
a consensos surgindo um conceito novo para o “Desenvolvimento Sustentável” SACHS,
I (1986), com fartas documentações empíricas e normas institucionais para várias
organizações transacionais e até estados nações que culminaram na AGENDA 21(1992),
o risco de ruptura sistêmica é ainda iminente como podemos ver pelos efeitos do
aquecimento global, perda da biodiversidade, colapsos de ecossistema , derramamentos
de óleo e contaminação radioativa, com limites de recursos rigorosamente explorados e
já afetando seres humanos como a agua potável, ou até mesmo a inviabilização de
indústrias pelos esgotamento de recursos, como o caso da indústria pesqueira do quase
extinto Mar de Aral, bem descrito em DAVIS, M. L., & MASTEN, S. J. (2016:254).

Parece que nada disso foi suficiente para deter o imperativo do paradigma racionalista
na prática e sua visão mecanicista de aceleração de mundo que uniram Galileu ,
Descartes, Newton, Locke e Adam Smith , RIFKIN, J. (2000) ,e quase toda ideologia
moderna debaixo de uma panóplia de crenças em que o progresso constante é a expansão
quantitativa na unidade do tempo, algo subjetivado inerente a evolução da humanidade
de maneira “natural”.

Mas apesar disso o que ocorre segundo RIFKIN, J. (2000) é uma desordem cada vez mais
crescentes nos sistemas econômicos, sociais e ambientais que tem gerado inúmeras
disfunções que podem acarretar o fim da globalização e dos tempos, pois o sistemas muito
especialistas (base do racionalismo) são os mais instáveis e propensos ao riscos da
“entropia3 “, uma disfunção ruptiva da energia no processo, incluindo ai também os
processos sociais . Segundo o mesmo, a atual crise do COVID-19 tem suas raízes nos
desequilíbrios ambientais, sendo isto só o começo pois “Estamos diante de ameaça de
extinção e as pessoas nem mesmo sabem disso”, e completa numa entrevista recente a
BBC (2020) com a previsão:

“Desastres naturais – pandemias, incêndios, furacões, inundações … – continuarão


porque a temperatura na Terra continua a subir e porque arruinamos o solo”, e parece que

2
“A novidade está em que o sistema pôde ser fechado em escala planetária, numa primeira aproximação,
no que se refere aos recursos não-renováveis. (...)se as atuais formas de vida dos povos ricos chegarem
efetivamente a universalizar-se? A resposta a essa pergunta é clara, sem ambiguidades: se tal acontecesse,
a pressão sobre os recursos não renováveis e a poluição do meio ambiente seria de tal ordem(...) que o
sistema econômico mundial entraria necessariamente em colapso” FURTADO, C. (1998: 11).
3
Em síntese, de acordo com a segunda lei da termodinâmica, cada vez que energia é transformada de um
estado para outro, tem-se por isso que pagar uma penalidade, ou seja uma perda na quantidade de energia
disponível para se executar novamente outra transformação, assim a transformação de energia aumenta a
desordem do universo, considerado sistema fechado, conforme requer o enunciado das leis da
termodinâmica. A essa energia inconversível, que não é mais capaz de ser convertida em trabalho
denomina-se entropia. Os autores de Entropy: A New World View postulam que a poluição é energia que
não é mais disponível. Em outras palavras, a poluição é o somatório de toda energia disponível que foi
convertida em energia não disponível.”A dotação fixa de matéria terrestre que forma a crosta da Terra está
continuamente se dissipando. Montanhas são gastas e a parte superior do solo é levada a cada segundo que
passa. Em última análise, até os recursos renováveis são na realidade não-renováveis, no longo prazo.

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ele não esta sozinho, a própria ONU em seu site oficial corrobora a teoria, ao afirmar
através do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente - PNUMA (2020) que o
“Surto de coranavírus é reflexo da degradação ambiental”.

Assim propomos uma abstração homologa a lógica do racionalismo mecanicista, que a


humanidade acelerou aleatoriamente o tempo social da Terra como um motorista a frente
de um carro em alta velocidade onde o motor se exauri devido as altíssimas e repetitivas
rotações por minuto, R.P.M, com o sistema de refrigeração incapaz de resfria-lo, surgindo
dai as disfunções e panes paralisantes.

5- O FIM DA GLOBALIZAÇÃO?

“A globalização4 está morta e enterrada: a distância social será a regra”, essas palavras
enfáticas que anunciam o fim pertencem a Jeremy Rifkins, e estampam a capa da revista
eletrônica do Instituto Humanistas Unisinos (2020), podem ajudar-nos a entender o
quadro atual.

Segundo STIGLITZ (2007), o agravamento da questão ambiental está justamente na


maneira como globalização tem funcionado, uma vez que esta contribuiu para acelerar a
degradação do meio ambiente e o aquecimento global. Uma vez que o problema passou
a ser fabricado numa lógica centroperiferia localmente, mas consumidos globalmente
num exemplo típico de como ações micro criam externalidades negativas, em escala
macro, em causa, planetária.

Para o autor seria fundamental para globalização de fato funcionar uma mudança radical
na gênese moral de gestão das instituições internacionais, através da criação um sistema
de governança global, fazendo com o que os países da periferia conseguissem ter voz e
pudessem, também fazer-se beneficiários da globalização com equidade. Em parte, essas
remessas sociais negativas e poluidoras da globalização também podem ser apreendidas
conjugado a partir da perspectiva Nimby5 “no meu quintal, não!” Mas agora, mesmo que
involuntariamente, chegamos a redução drástica no consumo de energias fósseis e
emissão do CO2 , através de uma enorme tragédia planetária chamada “COVID-196”, que

Enquanto continuam a se reproduzir, a vida e a morte de novos organismos aumentam a entropia da Terra,
o que significa que menos matéria disponível existe para o surgimento de vida no futuro”. (p. 37-38)
4
Entenda-se por globalização o fenómeno, característico da sociedade organizada em rede a partir de de
Castells (2000), que afetou a organização do sistema capitalista global, no qual as maiores cidades do
mundo desenvolvido se estabeleceram através da conectividade permanente e que ultrapassa claramente
as fronteiras de cada país, criando interdependências nacionais de ordem estrutural através de mecanismos
institucionais, normativos e tecnológicos que fundamentam a globalização económica, política, cultural e
social.
5
Reduzimos aqui para o rápido entendimento como ações de protesto levadas a cabo e mais difundidas
nas populações países de centro desenvolvidos , que dão ênfase na defesa local dos seus interesses e do
meio ambiente circundante, sem um alargamento sistêmicos das causas ambientais e sociais dentro do
aspecto global, FREUNDENBURG&PASTOR(1992), afinal na perspectiva do sujeito “Terra” NOBRE
(2014), não existe deitar o lixo fora.
6
A Organização Mundial da Saúde atribuiu o nome, COVID-19, é o nome da doença que resulta das
palavras “Corona”, “Vírus” e “Doença” com indicação do ano em que surgiu (2019) e que pode causar
infeção respiratória grave como a pneumonia, com rápida propagação. SNS24(2020)

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deixará além dos mortos, trará no seu desdobramento uma redução do PIB só nos, EUA
de menos 30% no segundo trimestre, a pior crise de todos os tempos segundo agência
Morgan Stanley, Unisinos (2020).

As fronteiras de países na Europa voltaram a ser controladas, conexões aéreas suspensas,


nacionalismos e xenofobias sanitárias propostas de forma ambivalente RTP (2020) , pela
China, EUA e Brasil , é moeda recorrente das fakenews das redes sociais. Em meio a
pandemia o antigo líder mundial da globalização, os EUA, e também o país mais afetado
em número de mortos absoluto com mais de 100.000 mortes, comandado pelo cada vez
mais nacionalista Trump, anuncia rompimento com a OMS (Organização Mundial de
Saúde) e a retirada do seu apoio financeiro, segundo a CNN (2020)

Por outro lado o coranavírus nos obriga a novas modalidades de comportamento no


trabalho, nos estudos, nos negócios e em toda vida social, certamente teremos de manter
distância segura uns dos outros, mesmo depois de tudo passar, nunca mais voltaremos a
normalidade, completa Gideon Lichfield diretor do Mit Technology Review,
UNISINOS(2020), no mesmo artigo Jeremy Rifkins completa que como a conhecemos
a globalização não existirá novamente, mais do que nunca precisaremos nos ater ao termo
“glocal”, e que já está envolvido em um projeto propedêutico do “Green Deal” da
Presidente da EU, Ursula von der Leyen.

Para o HAHARI, Y. N. (2020:103,113), o momento que vivemos é reflexo dos últimos


anos onde: “políticos irresponsáveis solaparam deliberadamente a confiança na ciência,
nas instituições e na cooperação internacional. Como resultado, enfrentamos a crise atual
sem líderes que possam inspirar, organizar e financiar uma resposta global coordenada”
e completa: “Xenofobia, isolacionismo e desconfiança agora caracterizam a maior parte
do sistema internacional. Sem confiança e solidariedade globais não seremos capazes de
parar a epidemia do coronavírus, e é provável que enfrentemos mais epidemias desse tipo
no futuro”, e nos lembra que as crises podem ser também grandes oportunidades.

6- UMA PAUSA PARA REFLEXÕES AMERÍNDIAS

O Covid-19 nos isolou em janelas através da qual podemos enxergar o mundo sobre
outras perspectivas, isso coloca em questão a confiabilidade do modo de vida ocidental
e suas utopias racionalistas, podemos assim enxergar como os Índios da América se
sentiram acuados com a chegada dos colonizadores a 500 anos atrás na primeira
globalização, junto com viroses e bactérias desconhecidas dos anticorpos nativos , como
sarampo , rubéola , tifo , catapora , escarlatina entre outras , além da cleptomania , da
hipocrisia , ciúmes e a lógica irracional da acumulação. Mas talvez a mais "etnocida7 ”
de todas tenha sido a implacável visão eurocentrista de mundo que os colonizadores
respiravam na sua ânsia aceleradora racionalista.

7
O conceito de “etnocídio” remete para monografia do antropólogo francês JAULIN R. (1970), que o
define como uma “destruição sistemática de um modo de vida específico (relações de produção, sistema de
parentesco, organização comunitária, língua, costumes e tradições)”.

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Maximiliano Torres Barreto – 54780 – Sociedade e Ambiente

Dessa forma o antropocentrismo civilizacional, modos de vida, produção, valores e


religião deviam ser expandidos com a alcunha de progresso para todas as populações
indígenas, como forma de melhorar suas condições de vida dos “bárbaros” e "selvagens"
uma missão civilizatória que deu vida a expansão colonialista.

Sabemos que “o genocídio consiste na eliminação física deliberada de uma etnia, povo
ou população, o ‘etnocídio’ visa o “espírito” (a moral) de um povo, sua eliminação
enquanto coletividade sociocultural diferenciada” , define CASTRO,V. (0000:2) Assim
levantamos a hipótese que para exterminar um povo basta destruir sua “visão de mundo”
como definiu MALINOWSKI (1976 [1922]).

Dessa maneira a fim de entendermos melhor o que se passa em tempos de Covid-19 ,


propomos uma reflexão profunda sobre esses paradigmas, afastando a pré-noção de que
somos sujeitos únicos e soberanos no destino do Planeta, elicitando a interdependência
que temos como o meio ambiente e outras espécies formando um universo único, a
própria Terra como “Pachamama” (Mãe Terra ) que em quíchua , língua ameríndia dos
Andes, numa relação de sentido que trazem-nos uma visão de “Sumak Kawsay”, em
português vida boa ou vida plena em harmonia e respeito com os outros sujeitos do
planeta , incluindo animais , floresta e o Planeta como sujeitos dotados de agência e
direitos, que inclusive tem normatizados sua condição na constituição do Equador como
em ACOSTA, A. (2008)

Em total convergência com o pensamento proposto o "Perspectivismo Ameríndio " ,


CASTRO, V.(1996), que segundo SZTUTMAN, R.(2008:10) põe em " xeque a
supremacia do pensamento ocidental-moderno fazendo-o experimentar outras ontologias,
outras epistemologias e também outras tecnologias”, a partir de uma outra perspectiva de
um mundo com vários sujeitos e não apenas o antropocentrismo do "Homo Sapiens".

A visão cosmológica e holista do autor abrange várias fontes como o Movimento


Tropicalista dos anos 1960 "A Tropicália", era amigo de Oiticica , na Antropofagia de
Oswald de Andrade, na literatura de Guimarães Rosa, a análise filosófica de Deleuze e
Guattari, as teorias anarquistas revolucionário-baderneiras de Hakim Bey, sem falar num
punhado de outros antropólogos como Lévi-Strauss , que apontou Viveiros de Castro
como seu sucessor . O “perpectivismo ameríndio” é um dos estandartes na resistência
atual “contra a sujeição cultural na América Latina aos paradigmas europeus e cristãos”
para os povos indígenas contra o racionalismo positivista, como vemos na entrevista livro
SZTUTMAN, R.(2008:11), onde respeito a diversidade8 deve ser biológica e social.

Um dos empreendimentos do antropólogo, foi descortinar a complexidade e riqueza dos


povos indígenas. Preocupou-se em “conceber todo nativo em sua capacidade de fabricar
teorias sobre si e sobre outrem”, descrito em SZTUTMAN, R. (2008:15). O conceito de
“perspectivismo ameríndio9 ”, destaca o “jeito” indígena de perceber a realidade, visa nos

8
Como diz “A diversidade é, portanto, um valor superior para a vida(...)Diversidade socioambiental é a
condição de uma vida rica, uma vida capaz de articular o maior número possível de diferenças
“signifiefeitos”, da diferença SZTUTMAN, R.(2008:258).
9
No “Perspectivismo Ameríndio” é a “concepção indígena segundo a qual o mundo é povoado de outros
sujeitos, agentes ou pessoas, além dos seres humanos, e que vêem a realidade diferentemente dos seres
humanos” , SZTUTMAN, R.(2008:32)

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Maximiliano Torres Barreto – 54780 – Sociedade e Ambiente

abrir os olhos para outro modo de construir o conhecimento dito real, uma revolução
antípoda do cartesianismo/positivista tão característica do pensamento ocidental que hoje
nos colocou em crise , não apenas na marola (onda do mar pequena) do "coranavírus " ,
mas talvez na impactante e irreversível vaga (onda gigante) da crise climática.

“Uma das teses do perspectivismo é que os animais não nos veem como humanos, mas
sim como animais” , aponta Viveiros de Castro em SZTUTMAN, R.(2008:35). Por
exemplo: para os homens, as onças no mato são apenas animais, “bestas”, “feras”; mas
para as onças no mato, os homens é que não passam de bichos (e de carne sedutoramente
suculenta). Outro exemplo: na perspectiva dos urubus, a carniça… é um delicioso peixe-
assado. Para a Terra pode ser que alguns seres humanos sejam vírus mutantes maléficos.

7- CONCLUSÃO

Na construção do nosso trabalho podemos ver que um paradigma dominante não é algo
fortuito ou ocasional que pode ter sua gênese creditada a um único fator ou determinante
é claro que situações pontuais pode ser como estímulo para novas descobertas e
raciocínios mas é a formação de consenso ao longo de períodos é o que de fato irá causar
grandes transformações criando aquilo que Kunh cunhou como um paradigma racional
científico que formam de uma maneira geral o pensamento dominante em uma
determinada comunidade e dentro dos pressupostos que já existem, buscando soluções
sempre a partir de uma lógica.

É bastante pertinente a noção de rompimento de tempo social com tempo biológico,


podemos clivar áreas desertificadas pela uso indiscriminado do solo, rios perenes que tem
sua água esgotada por desvios de irrigação , mares com milhares de km2 reduzidos a lama
e com a piscicultura devastada e todo ecossistema em volta em grandes proporções, tudo
isso pela ação de uma espécie recém chegada a vida da Bioesfera, não há tempo para que
os ciclos naturais da vida se recuperem. Os seres humanos têm seu próprio tempo.

A dimensão da frenética paralisação que vivemos com o distanciamento social e a


desaceleração econômica estão dentro de um contexto mais amplo do que o biológico,
estes urgem uma reflexão profunda da sociedade civil de duas condições essenciais que
têm e terão impactos estruturais a curto-prazo na nossa organização socioeconômica a
nível global , com profundas consequências nos nossos modos de vida locais. De forma
objetiva teremos que pensar em um “novo normal” para sermos resilientes , e isso nos
leva a questão na busca de um novo “mainstream”, ou pensamento dominante que
viabilize uma perspectiva de prosperidade e desenvolvimento para todos os sujeitos
humanos ou não, diferenciada da lógica do acúmulo capitalista , sem associar
prosperidade ao crescimento quantitativo contínuo e consumo acelerado e obsolecente.

Por exemplo as centenas de milhões de pessoas no mundo não têm sequer comida á mesa,
quem dirá serviços de saúde. Populações inteiras podem ser afetadas pelo coranavírus
senão houverem cuidados de isolamento básicos, esse risco não esta só abrangido a nível
local e nacional nos países periféricos, ele tem externalidades a nível global e pandêmico,
prestar solidariedade e oferecer equidade de condições de vida a Nigerianos e Congoleses
é também garantir a segurança de Americanos e Europeus, não podemos mais ficar
restritos a luta por igualdade social , desenvolvimento e qualidade de vida e saúde apenas

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Maximiliano Torres Barreto – 54780 – Sociedade e Ambiente

em nossos quintais locais, sejam países ou individualmente, numa perspectiva Nimby, o


vírus não reconhece fronteiras nacionais, nem os riscos do aquecimento global.

Isso vale sistemicamente tanto nas questões de saúde, economia e meio ambiente e
segurança, como defende Stiglitz,e não se trata só do controle do Covid-19, mesmo que
haja em pouco tempo uma vacina , parece que esse espoletamento atual , é um de vários
fenômenos que ocorrerão devido ao desequilíbrio ambiental de ordem global , como
vimos na introdução com os casos das arboviroses. Uma verdade simples e óbvia, mas
que parece fugir da consciência de boa parte das pessoas no mundo numa relação de
casuística.

Com os Índios da Amazônia onde passei parte da infância e adolescência, sempre aprendi
a olhar o mundo com outros olhos, num exercício de alteridade (nem sabia a época o que
era isso) , mas pude vivenciar in locco, a real maneira do perspectivismo ameríndio, isto
é, concebendo uma multiplicidade de consciências que se esparramam por toda a
paisagem do real, sendo que cada animal tem uma tendência a fazer de sua perspectiva
uma espécie de “centro-do-mundo”, de conceber-se como “subjetividade” e objetificar o
outro isso vale diretamente a para o nosso antropocentrismo e em especial ao nosso
racionalismo lógico euro-centrista que faz perceber-nos como mais civilizados cultural
e tecnologicamente que os “outros” povos da Terra tendo assim a missão de prosperá-
los.

Assim como a Terra não é o centro do universo, como comprovou a revolução cartesiana
podemos ao menos em um breve momento atrás das janelas, perceber também que o
homem não é o centro das espécies e nem a mais importante e nem os ocidentais humanos
mais evoluídos, é a mãe Terra a soberana , e que todas as espécies giram em torno uma
das outras , onde um pequeno e irracional vírus , teve poder para mudar fugazmente o
modo de vida de toda uma civilização, detendo aquilo que parecia impossível , a máquina
auto-propulsora do aceleracionismo capitalista contemporâneo .

As grandes transformações sociais na civilização ocidental sempre fora antecedidas por


epidemias, inclui-se a Revolução Industrial, mas muito mais teremos que observar para
podermos ousar a responder ao enunciado do texto, Covid-19-Uma Estruturante
Aceleratória Desglobalizante?, mas o que observamos é que sempre buscou-se aprender
com o erro, no caso aqui o erro foi o rompimento do tempo social contemporâneo com o
tempo geológico e biológico da Terra, dessincronizando através da entropia as energia do
Planeta, acumulando resíduos e poluição não processáveis, e a consequência disto são as
mudanças climáticas e os desequilíbrios ambientais que provocaram desordem funcional
nas organizações humanas, a extinção de animais e a liberação e mutação de vírus e outras
doenças que se alastram em busca da própria sobrevivência.

Enquanto o seres humanos estiverem centrados igualmente apenas na própria


sobrevivência e bem estar como espécie, pois não é só de humanos que o planeta se
constitui há de ser pensar como um todo a partir das diversas espécies, e também
desunidos entre “o nós e eles”, buscando interesses individuais acima dos coletivos, os
vírus; as catástrofes e outras anomalias sairão cada vez mais vitoriosas. Mas se esta
pandemia resultar numa solidariedade global de forma a aproximarmos uns dos outros e
das outras espécies o Planeta sairá vitorioso, por consequência o Homo Sapiens também.

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Maximiliano Torres Barreto – 54780 – Sociedade e Ambiente

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H- UNISINOS(2020) ( 3 citacões)

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1) “A globalização está morta e enterrada: a distância social será a regra”,


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2)“Nunca mais voltaremos a normalidade”,Gideon Lichfield diretor do Mit Technology


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3)“Redução do PIB dos EUA de -30% no segundo trimestre a partir da agência Morgan
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