CENTRO UNIVERSITÁRIO DE BELO HORIZONTE (UNI-BH) NAJELA LIANE CASTOR SALOMÃO BRUCK

ADEUS AO MITO: Uma análise da cobertura da morte de Michael Jackson nas revistas Época, Istoé e Veja

Belo Horizonte 2010

NAJELA LIANE CASTOR SALOMÃO BRUCK

ADEUS AO MITO: Uma análise da cobertura da morte de Michael Jackson nas revistas Época, Istoé e Veja

Monografia apresentada ao Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH) como requisito parcial para a obtenção de título de Bacharel em Jornalismo Orientador: Luiz Henrique Vieira de Magalhães

Belo Horizonte 2010

Agradeço a Deus por me proporcionar sabedoria, paciência e perseverança para realizar este trabalho. Ao professor e querido mestre Luiz Henrique, por ser o meu guia nesta caminhada e acreditar em mim. A todos que de alguma maneira contribuíram para que eu alcançasse os meus objetivos. Muito obrigada!

“Before you judge me, try hard to love me” “Antes de me julgar, tente me amar” Michael Jackson

RESUMO As figuras míticas e olimpianas da sociedade contemporânea, criadas e fomentadas pela indústria cultural, se tornaram as maiores vedetes da grande imprensa. Toda e qualquer atitude destas figuras são tomadas como acontecimentos noticiosos. Os veículos de comunicação assumiram o papel, na contemporaneidade, de reafirmar a essência mítica destas figuras. A partir destas considerações, busca-se avaliar como o jornalismo reporta a morte de uma grande figura olimpiana, neste caso o cantor Michael Jackson. Adotou-se, como método, o estudo da construção textual apresentado na produção de matérias jornalísticas em veículos impressos, especificamente em revistas. O objeto empírico de estudo será, portanto, as revistas informativas nacionais Época, Istoé e Veja. Objetivou-se analisar se na cobertura da morte do artista as revistas cumprem o papel de reafirmar, ou não, a figura mítica.

Palavras-chave: Mito. Olimpianos. Revistas. Michael Jackson. Sensacionalismo.

SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO.......................................................................................................... 07

2 O MITO ONTEM E HOJE ..................................................................................... 2.1 O mito........................................................................................................................ 2.1.1 O mito antigo.......................................................................................................... 2.1.2 O mito hoje............................................................................................................. 2.2 Mito e Imaginário Cultural........................................................................................ 2.3 O poder dos mitos na indústria cultural.................................................................... 2.4 O papel dos olimpianos na relação entre indústria cultural e sociedade................... 3 JORNALISMO CULTURAL, REVISTAS INFORMATIVAS E MITOS........ 3.1 Jornalismo e critérios de noticiabilidade................................................................... 3.2 O jornalismo cultural e as revistas informativas....................................................... 3.3 As figuras míticas no jornalismo............................................................................... 3.4 Espetacularização no jornalismo...............................................................................

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4 MICHAEL JACKSON: UM MITO EM PÁGINAS DE REVISTAS .................... 36 4.1 Um panorama das revistas estudadas.................................................................... 4.2 A reafirmação da figura mítica a partir dos critérios jornalísticos ........................ 4.3 “O destino quis lhe mito” e a mídia reafirmou...................................................... 4.3 Três revistas, três coberturas..................................................................................... 5 CONCLUSÃO............................................................................................................ REFERÊNCIAS......................................................................................................... LISTA DE FIGURAS................................................................................................ 38 40 51 63 65 67 69

7 1 INTRODUÇÃO Vinte e cinco de junho de 2009, às 20h17 horário de Brasília, 16h17 em Los Angeles, o mundo recebia a informação oficial: o planeta perdia um de seus reis absolutos. Michael Jackson, o “Rei do Pop” estava morto, vítima de parada respiratória e cardíaca.

Michael Joseph Jackson nasceu no dia 29 de agosto de 1958, em Gary, cidade do estado de Indiana nos Estados Unidos. Aos cinco anos de idade demonstrou seu talento como cantor e dançarino, aos doze estreava como cantor profissional ao lado dos irmãos no grupo Jackson Five. Concebido pelo patriarca Joseph Jackson, o grupo Jackson Five alcançou o sucesso mundial com os ritmos Soul e R&B (Rhythm and Blues), que tem por origens estilísticas o jazz, blues, jump blues, blues elétrico, pop, gospel. Os irmãos Jackie, Tito, Jermanie, Michael, Marlon e Randy, formavam o grupo que atingiu as paradas de sucesso com músicas como ABC, I’ll be there, I want you back e Stop the love you save. Na primeira gravadora, a Motown, o grupo gravou quatorze discos. Anos depois assinou com a gravadora CBS, onde passaram a se chamar The Jacksons.

No início da década de 1970, Michael Jackson lançou-se em carreira solo, ainda pela gravadora Motown, onde lançou seu primeiro álbum Off the Wall, em 1979. Já no ano de 1982, e na gravadora Epic Records, lançou Thriller, aquele que se tornou o disco mais vendido de todos os tempos na história da música. Com o lançamento de Thriller, Michael tornou-se a figura mais popular nos Estados Unidos, foi o primeiro artista negro a ter seus vídeos veiculados pela MTV norte americana, abrindo assim caminho para os demais artistas negros.

Videoclipes como Beat it, Billie Jean, e, especialmente Thriller, são considerados divisores de águas na história dos vídeos musicais em todo o mundo. Ao unir heavy metal, funk e pop em fusões musicais inéditas, o cantor tornou-se o Rei do Pop (King of Pop). Michael foi ainda o único artista a entrar duas vezes para a Calçada da Fama do Rock (Rock and Roll Hall of Fame), possui recordes reconhecidos pelo Guinness World Records, como por exemplo, o de “maior artista e todos os tempos” e um para seu disco Thriller. Michael Jackson já ocupou o topo das paradas dos rádios, em todo o mundo, com quarenta e uma canções.

8 Considerado um dos artistas que mais vendeu, e ainda vende, em todo o mundo, os empresários da gravadora Sony já registraram lucros de US$ 1 bilhão, em torno de Michael. Recente lista divulgada pela revista norte americana Forbes, especializada em celebridades e listas, apontou Michael Jackson como o artista morto que mais arrecadou no último ano, ultrapassando nomes, ainda vivos, como Madonna, Lady Gaga, Beyoncé e Jay-Z juntos. Michael atuou também como filantrópico. Ao longo de sua turnê Dangerous World Tour, doou milhões de dólares à instituições de caridades. Em 1985, uniu-se a Lionel Richie e Quincy Jones e produziu a canção We are the World para a campanha USA for Africa. Numa reunião de 44 nomes da música mundial, duzentos milhões de dólares foram arrecadados pelo projeto encabeçado por Michael, em combate à fome na Etiópia. Aspectos da vida pessoal de Michael Jackson também chamaram a atenção, em especial suas mudanças físicas, entre elas a pele que passou de negra à branca, em decorrência da doença vitiligo. Assim como as cirurgias plásticas em todo o rosto, com destaque para o nariz, e acusações de abuso sexual infantil.

Aclamado pelo público e pela crítica, e reforçado pela indústria cultural e comunicação de massa, Michael Jackson tornou-se mito. Antes mesmo de sua morte, a essência mítica já era atribuída a sua figura. Com milhares de fãs ao redor do mundo, o artista alcançou fama de proporções imensuráveis, seu trabalho atravessa gerações, e, ainda hoje é influência para muitos artistas e profissionais, sejam músicos, cantores, dançarinos, produtores e até mesmo no universo da moda.

De acordo com Mircea Eliade (1972), as figuras míticas são aquelas que fornecem exemplo de vida a ser seguido, mas podem ensejar interpretações conflitantes ao assumir caráter positivo para alguns e negativo para outros. Todavia, os mitos precisam, constantemente, ser atualizados para continuarem a gozar do status que lhes foi atribuído. Da mesma forma, os olimpianos, citados por Morin (1997), estão diretamente relacionadas às figuras míticas. Com dupla natureza, situadas entre o real e o imaginário e exemplo de vida, sucesso e poder, os olimpianos, como Michael Jackson, permeiam a grande imprensa de massa, são as grandes vedetes destes veículos.

Na atualidade, mitos são criados, recriados, recuperados e até mesmo desmitificados através da imprensa. Ao mesmo tempo em que a mídia e a indústria cultural reforçam a imagem e essência mítica das figuras olimpianas – mergulhando profundamente em

9 suas vidas e contribuindo para fortalecer a identificação com os simples mortais – também pode atuar no sentido inverso, destruindo a aura mítica até então existente. Logo, a morte de Michael Jackson e todas as questões que a envolveram são propícias para a exploração da imprensa, pela relevância do fato, já que se trata do desaparecimento de uma personalidade de renome internacional, ao mesmo tempo que pelo seu caráter mercadológico. Com isso, a proposta deste estudo é analisar se as revistas Época, Veja e Istoé, em suas edições especiais sobre a morte do cantor, contribuem ou não para reforçar a imagem mítica de Michael Jackson.

Foram analisadas as edições especiais das revistas Época, Veja e Istoé, as três principais informativas do Brasil, sobre a morte do cantor Michael Jackson. Todas chegaram às bancas poucos dias depois do falecimento de Michael. As revistas Veja e Época dedicam suas capas e principais editorias ao músico. Já a revista Istoé, além de sua capa, traz a morte de Michael Jackson em trinta páginas de sua edição, apresentando ao leitor uma espécie de matéria/dossiê.

Por meio de uma análise qualitativa serão analisados os conteúdos das revistas citadas. Para tal, foram estabelecidas três categorias: análise de construção textual, onde serão avaliados os critérios de noticiabilidade, sensacionalismo e características de textos de revista. Análise da figura mítica, na qual será avaliada se, a partir dos pontos da categoria anterior, temos um afastamento ou reafirmação do mito. Por fim, a comparação entre as revistas analisadas.

10 2 O MITO ONTEM E HOJE 2.1 O mito Narrativa. Essa é a palavra que mais se aproxima do real conceito de mito, considerando que este é uma estrutura complexa, de difícil definição. De maneira simplificada, podese dizer que o mito narra um processo de criação, revela como algo passou a existir e como foi produzido. Segundo Mircea Eliade, em Mito e Realidade (1972), o mito se refere apenas ao que realmente aconteceu, que se manifestou em sua plenitude, atuando, na maioria das vezes, como uma narrativa de “criação”. Através das narrativas míticas as sociedades buscam referências para se espelharem, nelas são encontradas oportunidades para que as sociedades possam externar suas questões, paradoxos, desejos e vontades. Desta forma, são criadas possibilidades de reflexão sobre a existência. Os mitos apresentam-se como exemplos a serem seguidos pelas atividades humanas, desde a alimentação até o processo de disseminação da sabedoria.

O mito, muitas vezes, é visto de maneira simplista, equivocada e superficial, o que acaba por gerar a ideia de que o mito é algo irreal, fantasioso e desprovido de importância para a compreensão do desenvolvimento da humanidade. Todavia, de acordo com Mircea Eliade (1972), o mito é uma realidade cultural de grande complexidade, que possui diversas formas de abordagem e interpretações. Considerar o mito como algo irreal e fantasioso, é negar que a mitologia tenha a função de guiar o homem nas atividades humanas, e, que o mito seja algo inerente ao homem. Segundo Karen Armstrong (2005), em História do Mito, as narrativas míticas tratam do desconhecido, nos falam de algo que a princípio o homem não possui palavras para expressar. Sendo assim, o mito supre um grande silêncio diante de determinadas questões que a razão não sabe solucionar. O mito não é uma história contada sem propósito, tem o objetivo de guiar o homem.

A mitologia é algo inerente ao homem. Desde o princípio das sociedades, passando pelo advento da razão, até os dias de hoje, os mitos continuam presentes na vida diária da humanidade. É algo que a razão não conseguiu substituir. Nem mesmo com a prevista extinção da mitologia mediante o surgimento da ciência isto aconteceu. Segundo Armsntrong (2005), por mais que a humanidade usufrua da razão e da ciência, ela sempre revisita a mitologia, e a adapta às novas condições. As narrativas, não se

11 referem somente à criação do mundo e tudo o que existe nele, abordam também os acontecimentos essenciais que proporcionaram a conversão do homem naquilo que ele é hoje: um ser mortal e sexuado, que vive organizado em sociedade.

2.1.1 O mito antigo

O homem sempre criou mitos, desde as sociedades primitivas até o mundo moderno. O homem arcaico criava mitos para compreender a realidade na qual vivia. De acordo com as autoras Maria Lúcia de Arruda e Maria Helena Pires (2005), a verdade mítica é intuída, por isso, não há necessidade de comprová-la. O que leva a sociedade a acreditar no mito é a crença, a fé. Como o mito é o exemplo a ser seguido pela sociedade, o homem primitivo seguia fielmente os gestos e atitudes dos deuses, pois eles acreditavam que ao repetirem estas ações, o sagrado se realizaria novamente. Desta forma, haveria uma espécie de reatualização das narrativas míticas, o que proporcionaria a continuidade das primordiais atividades humanas. A produção de mitos pelo homem arcaico é produto de uma consciência mítica.

Nas sociedades primitivas, em especial, onde se percebe a presença da consciência mítica, a experiência individual está intimamente ligada à experiência coletiva. Porém, uma não anula a outra. O homem primitivo, dotado de consciência mítica, age de uma maneira mágica na sua compreensão da realidade. Os entes sobrenaturais, os deuses e seres animados são os personagens que dão vidas às narrativas míticas seguidas pelo homem primitivo. A maneira mágica, pela qual o homem primitivo exerce suas funções no mundo, está ligada à forma sobrenatural de se descrever a realidade em que se vive. Neste cenário os rituais, ou ritos de passagem se fazem presentes. Como por exemplo, nascimentos, casamento, morte, entre outros. Sem a existência dos ritos, é como se os fatos naturais, descritos nas narrativas não pudessem se concretizar.

A Lua tem sua história mítica, mas também o Sol e as Águas, as plantas e os animais. Todo objeto cósmico tem uma “história”. Isso significa que ele é capaz de “falar” ao homem. E, pelo fato de falar de si mesmo, em primeiro lugar de “origem”, do evento primordial em conseqüência do qual passou a existir, o objeto se torna real e significativo. (ELIADE, Mircea. 1972, p.125)

12 A consciência coletiva pressupõe a aceitação passiva dos indivíduos de um grupo social à determinadas regras tradicionais. Sendo assim, a consciência mítica pode ser considerada ingênua, acrítica, ou seja, aquela que é aceita sem nenhuma crítica. Por não possuir nenhum tipo de problematização e questionamento, acarreta na aceitação direta dos mitos. O coletivismo é outra característica importante na estrutura da consciência mítica. A experiência individual está intimamente ligada à experiência coletiva, entretanto, uma não anula a outra. Pode-se dizer que o equilíbrio individual está diretamente relacionado com o coletivo. A consciência mítica adquire caráter de ingenuidade devido ao coletivismo, pois este favorece a adaptação e aceitação acrítica das regras tradicionais propagadas pelas narrativas míticas.

2.1.2 O mito hoje

Com o desenvolvimento das sociedades, a consciência humana foi enriquecida com a razão, proporcionando o surgimento do pensamento crítico-reflexivo. Várias tradições e conceitos passaram a ser questionados, entre eles o mito. A nova forma de pensamento, subtrai o caráter de sobrenatural, impulsiona a filosofia, a técnica e a ciência. Com isso, a consciência mítica deixa de ser o centro do entendimento da forma de viver.

Contudo, a razão, ou logos, não surgiu repentinamente na face da humanidade, houve um processo de desenvolvimento histórico. Antes do advento da razão, que se dá a partir do século V a.C, o homem era regido pelo projeto mitocêntrico, ou seja, aquele que coloca o mito no centro das coisas, de toda e qualquer explicação do viver e compreensão da humanidade. Momento em que se percebe a presença da consciência mítica, onde os rituais de repetição dão sentido às evocações do homem, com o objetivo de concretizar os fatos naturais.
O valor apodíctico do mito é periodicamente reconfirmado pelos rituais. A rememoração e a reatualização do evento primordial ajudam o homem “primitivo” a distinguir e reter o real. Graças à repetição contínua de um gesto pragmático, algo se revela como fixo e duradouro no fluxo universal. Através da repetição periódica do que foi feito in illo tempore, impõe-se a certeza de que algo existe de uma maneira absoluta. Esse “algo” é sagrado, ou seja, transumano e transmudano, mas acessível à experiência humana. (ELIADE, Mircea. 1972, p.124)

Com o evoluir das sociedades o projeto mitocêntrico foi sendo, aos poucos, substituído pelo Teocêntrico, ou seja, Deus e a religião passavam a ser o centro do universo. Tudo

13 no mundo se explicava através deles. Todavia, mito e religião sempre estiveram muito ligados. Não se sabe distinguir onde termina um e começa o outro, a religião sempre esteve cercada de elementos e características míticas. Segundo Auri Cunha (1992), “o discurso teológico do cristianismo romano bloqueava qualquer postura que não mostrasse ser o homem inteiramente submetido aos desígnios da transcendência divina”. (1992; 211)

No projeto mitocêntrico os homens viviam de acordo com a bondade divina, todos viviam sujeitos a um destino que escapava às suas mãos, eram vítimas de castigos ancestrais, de uma fraqueza incurável. Diante de tais subordinações e características, houve a propulsão de uma reforma teológica, que teve como principal representante Martinho Lutero, que modificava mais uma vez o projeto que dava sentido à vida humana. O principal ponto da revolução teológica foi reconhecer o trabalho humano como uma das principais fontes de graças divinas. A partir do trabalho o homem atingiria a felicidade e a riqueza. A liberdade de exame de consciência, que permitia compreender e julgar a vontade divina trazia novamente à luz a razão. Esta, que surgiu na Tradição Helênica Clássica entre os gregos no século V a.C, havia sido suspensa durante a Era Medieval. A partir de então, razão e trabalho são vistos como as principais dádivas divinas.

Com todos os acontecimentos e revoluções ocorridas na humanidade, o logos caminhava para o patamar de projeto civilizatório. As revoluções Copérnica, Industrial, Francesa, o Humanismo e o Iluminismo proporcionaram a mudança de prisma para a compreensão da vida humana. Desta forma, passamos a ter o logos como projeto civilizatório. O advento do pensamento crítico - reflexivo quebra a unidade do mito, com ele o caráter de sobrenaturalidade é posto em cheque, dando lugar às percepções realizadas pela filosofia, técnica e ciência. De acordo com Karen Armstrong (2005), “ao tratar o mito como se fosse racional, os cientistas, críticos e filósofos modernos o tornaram inacreditável”.

As questões propostas pelo pensamento crítico-reflexivo abrem espaço para outro questionamento: com o advento da razão seria decretada a morte do mito? A maturidade do espírito humano, ocasionada pela evolução da humanidade, roga pelo abandono das formas míticas e religiosas. A partir de então, mito e razão tornam-se opostos,

14 paralelamente, tem-se a inferiorização do mito, classificando-o como uma tentativa fracassada de explicação da realidade. Todavia, a crítica ao mito e a exaltação à ciência faz nascer, contraditoriamente, o mito do cientificismo, ou positivismo, sendo aquele que crê na ciência como a única forma de interpretação da realidade.
Além disso, o positivismo mostra-se reducionista, empobrecendo as possibilidades de abordagens do mundo, porque a ciência não é a única interpretação válida do real nem é suficiente, já que o mito é uma forma fundamental do viver humano, o mito é o ponto de partida para a compreensão do ser. Em outras palavras, tudo o que pensamos e queremos se situa inicialmente no horizonte da imaginação, nos pressupostos míticos, cujo sentido existencial serve de base para todo trabalho posterior da razão. (ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. Martins, Maria Helena Pires. 2003, p.75)

Por ser a primeira leitura humana em relação ao mundo, o surgimento de outras formas interpretativas não o excluem das raízes da inteligibilidade. O mito é intrínseco à raça humana, independente do advento da razão, considerando que as antigas civilizações eram mitocêntricas, inclusive a civilização helênica clássica, onde surge o logos. A fabulação, impulsionada pelo mito, se faz presente nas mais diversas situações humanas e diárias. Os contos populares, o folclore e até mesmo palavras como casa, lar, pai, mãe, liberdade, morte e nascimento são compostas por significados com traços de subjetividade. Afinal, estas palavras remetem a valores e costumes tradicionais universais, que existem no inconsciente do homem. Com base nestes aspectos a psicanálise utiliza a riqueza da narrativa mítica e procura, através dela, entender os desejos humanos. Como exemplo clássico e incontestável, temos a interpretação de Sigmund Freud, médico neurologista e criador da psicanálise, para o mito de Édipo e a razão dos desejos e anseios do homem. A perspectiva de Freud surgiu no início do século XX, enfatizando ser de responsabilidade das forças inconscientes a movimentação do comportamento humano.

No mundo contemporâneo os meios de comunicação de massa se incumbem de transformar celebridades, artistas e personalidades em imagens exemplares que, no imaginário coletivo, são sinônimos de realizações pessoais, profissionais, sexuais. Assim como sucesso, poder, riqueza e liderança. Tais figuras permeiam o imaginário e inconsciente das pessoas, fazendo com que elas criem identificação com estas figuras, tornando-as exemplos de vida, criando mitos contemporâneos.

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Por exemplo, na década de 1950 o ator James Dean expressa o mito da “juventude transviada” e Marilyn Monroe um mito sexual, posteriormente outros modelos surgem e desaparecem, conforme as expectativas que predominam em cada período. Hoje em dia, com a rapidez dos meios de comunicação, essas influências tornam-se múltiplas e fugazes. Nas histórias em quadrinhos, o maniqueísmo exprime o arquétipo da luta entre o bem e o mal, enquanto a dupla personalidade do superherói atinge em cheio o desejo da pessoa comum de superar a própria inexpressividade e impotência, tornando-se excepcional e poderosa. (ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. Martins, Maria Helena Pires. 2003, p.76)

Rituais, semelhantes aos realizados pelas sociedades arcaicas, também estão presentes no mundo contemporâneo. Celebrações como aniversário, casamentos, festas de debutantes, formaturas, entre outros podem ser considerados ritos de passagem. Há também a presença de componentes míticos nas artes e grandes manifestações populares, como o carnaval. Sendo assim, não se pode dizer que mito é resultante de um delírio. E, ao contrário do que propõe o logos, o mito não é uma mentira, pois, faz parte da vida cotidiana e uma das sustentações da existência humana. Logo, mito e razão são complementares entre si. Porém, nas sociedades modernas o mito não possui a mesma abrangência que possuía nas sociedades arcaicas. Afinal, o desenvolvimento do pensamento crítico-reflexivo proporciona a crítica racional em relação a mitos que podem ser prejudiciais ao homem. Os mitos que possam levar a algum benefício são legitimados, já os que sugerem uma desumanização são descartados. Considerando que os mitos propõem valores saudáveis ou não, cabe à consciência distingui-los e executálos da melhor maneira.

Os mitos modernos não objetivam a transcendência, os efeitos de sentido e a busca das significações são realizados através de rituais profanos. Os rituais profanos são dessacralizados, evocam as emoções cotidianas que priorizam a satisfação, prazer e descontentamento. São caracterizados também pelo fato de não possuírem apelo à transcendência, estão relacionados apenas à realização dos desejos concretos e os individuais, ainda que os processos para a realização sejam coletivos.

2.2 Mito e imaginário cultural

Não obstante o desenvolvimento da razão, as narrativas míticas continuaram a fazer parte da vida do homem. Haja vista que o mito é intrínseco à condição humana. Porém,

16 o mito não se apresenta mais de forma explícita como acontecia nas sociedades arcaicas. Agora, o mito situa-se no chamado imaginário cultural.

Um projeto civilizatório, só toma forma real de civilização quando se vê capaz de responder a todas as questões humanas, durante o transcurso da existência social, privada e pública. O logos, ao se estabelecer como projeto civilizatório, afirma-se capaz de fornecer as respostas para estas perguntas. Com isso, lança mão do imaginário cultural, um aliado para auxiliar nestas respostas. Através de jogos de projeçãoidentificação, nos quais são mostrados imagens, modelos, valores, desejos, fantasias e sonhos a serem seguidos, o logos insere na sociedade o imaginário cultural, que passa a responder aquilo que a razão não consegue provar através de análise e reflexão. Como afirma Cornelius Castoriadis (2000), “o papel das significações imaginárias é o de fornecer uma resposta a essas perguntas, resposta que, evidentemente, nem a “realidade” nem a “racionalidae” podem fornecer”.

Tudo o que se apresenta à sociedade, tanto no social quanto no histórico, está ligado ao imaginário cultural, ou simbólico. Atos individuais, reais ou coletivos, como as guerras, o trabalho, o consumo, o amor e diversos outros bens, sem os quais a sociedade humana não seria a mesma, não são diretamente imaginários e/ou simbólicos. Porém, todos eles não são possíveis sem a ligação com uma rede de simbolismo e imaginação.

O imaginário está presente em terrenos nos quais a repressão das pulsações está sempre presente, seus pontos de apoio estão no inconsciente dos indivíduos. Toda e qualquer sociedade elabora sua própria imagem à respeito do mundo natural, do universo em que estão inseridas, com o objetivo de criar um conjunto de significações, nos quais originarão os seres naturais e objetos necessários à vida coletiva. Tal imagem não está ligada ao logos, depende do imaginário. Percebe-se nitidamente a construção desta imagem nas sociedades arcaicas, assim como nas concepções religiosas de sociedades históricas. E até meso nas sociedades modernas, onde o racionalismo está presente.

Uma cultura fornece pontos de apoio imaginários à vida prática, pontos de apoio práticos à vida imaginária; ela alimenta o ser semi-real, semi-imaginário, que cada pessoa secreta no interior de si (sua alma), o ser semi-real, semi-imaginário que cada um secreta no exterior de si e no qual se envolve (sua personalidade). (CUNHA, José Auri. 1992. p. 222)

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O imaginário cultural nos leva, desde a infância, a viver e respeitar as experiências míticas vividas no passado. O respeito pelos heróis da pátria, o amor pela terra mãe são criados através de relações de identificação e projeção. Tais relações, na sociedade onde está instaurado o imaginário cultural, se dão pelos rituais profanos, substitutos dos rituais sagrados, na modernidade.

Enquanto os rituais sagrados são voltados para uma realidade mais longínqua, extramundana e sobrenatural, ou seja, rituais de culto, de presentificação do divino e objetivam a transcendência, os rituais profanos não o são.

2.3 O poder dos mitos na Indústria Cultural

O mundo passou por dois processos de industrialização. No início do século XX o poder industrial, ou seja, das máquinas, tomou conta de todo o globo terrestre. Modificou ações, métodos e técnicas de trabalho. Em seguida, o espírito humano passou a ser industrializado. Há uma segunda colonização, desta vez a da alma. Por intermédio desta colonização e industrialização, o exterior é posto de lado, para se dedicar ao interior do homem, que passa a ser o receptor direto de mercadorias culturais.

Oriunda dos problemas causados por todos os processos de industrialização está a terceira cultura, ou, cultura de massa. Morin (1997) define este termo como aquela que é produzida seguindo as formas de fabricação industrial, como um verdadeiro material concreto. A propaganda desta cultura é realizada de acordo com as técnicas de divulgação maciça e abrangente. Tal cultura é destinada a uma grande e homogênea massa social. A cultura de massa, como toda cultura, é constituída por símbolos, imagens e mitos referentes à vida prática e à imaginária. Constituindo assim, um sistema de projeção-identificação. Como toda cultura produz seus mitos, símbolos e produtos, assim a cultura de massa também o faz. Tendo como produtora a indústria cultural. De acordo com Morin (1997), dentre os fatores que compõem o processo de criação da indústria cultural, está o modelo burocrático-industrial. Que decidem e estipulam o grau de noticiabilidade daquilo que será publicado, por exemplo. O que gera um paradoxo,

18 pois esta forma de ação se choca com uma exigência contrária, inerente à própria indústria cultural, o individualizado e novo.
A indústria cultural deve, pois, superar constantemente uma contradição fundamental entre suas estruturas burocratizadas-padronizadas e a originalidade (individualidade e novidade) do produto que ela deve fornecer. Seu próprio funcionamento se operará a partir desses dois pares antitéticos: burocracia-invenção, padrão-individualidade. (MORIN, 1997, p. 26)

Os mitos modernos são alguns dos principais atores da indústria cultural. Através deles, a indústria tem o seu „poder de venda‟ ampliado e diversificado. De acordo com Auri Cunha (1992), os mitos modernos não têm como objetivo a transcendência, eles são mitos pensados. Têm por função projetar os desejos humanos, através do imaginário cultural. Ou seja, tudo o que se assemelha ao sonho é captado pelo imaginário e ritualizado de acordo com os mitos modernos, ou seja, de forma dessacralizada. Sendo assim, a indústria cultural tem nos mitos uma rica fonte de matéria prima para a produção dos bens a serem consumidos pela cultura de massa. Segundo Morin (1997) a cultura de massa ganha vida através do duplo movimento do imaginário arremendando o real, e, do real pegando as características do imaginário. O grande público torna-se consumidor do mito recriado pela indústria cultural.
Na realidade, aquilo que permite ao leitor consumir o mito inocentemente é o fato de ele não ver no mito um sistema semiológico, mas sim um sistema indutivo: onde existe apenas uma equivalência, ele vê uma espécie de processo casual: o significante e o significado mantêm, para ele, relações naturais. Pode exprimir-se esta confusão de um outro modo: todo o sistema semiológico é um sistema de valores; ora, o consumidor do mito considera a significação como um sistema de fatos: o mito é lido como um sistema fatual, quando é apenas um sistema semiológico. (BARTHES, 1980. PG. 152)

Com a instauração do logos, o mito passou a ser tratado de maneira racional. Cientistas, filósofos e críticos o tornaram inacreditável. Com isso, coube aos artistas e romancistas adotá-los como matéria prima de suas criações. Como afirma Karen Armstrong (2005), “se os líderes religiosos e profissionais não podem nos instruir no conhecimento mítico, nossos artistas e romancistas talvez possam ocupar esse papel sacerdotal e apresentar uma visão nova a nosso mundo perdido e avariado”. Desta forma, os mitos ganham importância na produção de conteúdos da indústria cultural.

19 2.4 O papel dos olimpianos na relação entre indústria cultural e sociedade Dentre os diversos produtos e mitos criados pela cultura de massa, um dos que mais se destacam são os olimpianos. De acordo Morin (1997), os olimpianos são aqueles que propõem um modelo ideal de vida, lazer. Eles vivem de acordo com a ética de felicidade, prazer, jogo e espetáculo. Estes seres modelos de vida são dotados de simpatia, suscitam amor e ternura.

É no ponto de convergência entre o ímpeto do imaginário para o real e do real para o imaginário, que se situam os olimpianos, que são as grandes vedetes da imprensa. Os olimpianos não são apenas os astros e estrelas do cinema e televisão. Incluem-se nesta lista os campões, herdeiros reais, artistas célebres, socialites, exploradores, etc.

O olimpismo de uns nasce do imaginário, isto é, de papéis encarnados nos filmes (astros), o de outros nasce de sua função sagrada (realeza, presidência), de seus trabalhos heróicos (campeões exploradores) ou eróticos (playboys, distels). (MORIN, 1997, p. 105)

O Olimpo é o produto mais genuíno do novo curso da cultura de massa. Anteriormente as estrelas do cinema eram consideradas divindades, este novo trajeto da cultura as humanizou, multiplicando as relações com o público. Morin (1997) afirma que os olimpianos são sobre-humanos no papel que eles encarnam e humanos na vida privada que possuem. A imprensa de massa, ao mesmo tempo em que contribui para este papel mitológico dos célebres, ela mergulha na vida pessoal a fim de extrair delas a substância humana que irá proporcionar a identificação do grande público.

Através desta dupla natureza, a divina e a humana, os olimpianos circulam entre o mundo da projeção e da identificação. “Eles realizam os fantasmas que os mortais não podem realizar, mas os chamam para realizar o imaginário”. (MORIN, 1997, p. 107)

Morin (1997) afirma que os olimpianos estão presentes em todos os setores da cultura de massa. Estão onde se convergem a cultura de massa e o público: festas, espetáculos, eventos de caridade. Os olimpianos proporcionam a comunicação entre o imaginário, a informação, conselhos, incitações e normas. Concentram os poderes mitológicos e os da cultura de massa.

20 Sendo assim, os olimpianos se transformaram na ponte mais acessível e eficaz na relação entre indústria cultural e sociedade. Permeiam o imaginário cultural. Como o logos não tem capacidade suficiente para suprir todos os anseios dos homens, é necessário que haja refúgios aos quais o homem possa recorrer, para que ali, manifeste suas vontades. Na atual sociedade, os olimpianos, projetados pela indústria cultural, representam este papel de „válvula de escape‟.

Ainda que o desenvolvimento da razão tenha proporcionado diversos benefícios à população, não se pode dizer que houve triunfo absoluto. A vontade de ir mais além de onde se está, de adquirir mais do que se ter e de ser mais do que se é, permeia o inconsciente dos seres humanos. A população está sempre em busca de uma existência plena, satisfatória e intensa. Segundo Karen Armstrong (2005), a sociedade tenta alcançar esta dimensão, de vida plena e satisfatória, através da arte, da música como o rock n‟ roll, das drogas. Ainda há a procura incessante por heróis. Não à toa Elvis Presley e a princesa Diana foram transformados em seres míticos instantâneos, e para alguns, até mesmo adorados em culto religioso. Todavia, existe certo desequilíbrio nesta adoração aos olimpianos. “O mito do herói não visava fornecer ídolos para admiração, mas estimular a veia heróica dentro de nós. O mito deve levar à imitação ou à participação, não à contemplação passiva”. (ARMSTRONG, 2005, p.114). É necessário que os olimpianos representem algo mais, além de modelos de vida e anseios.
Precisamos de mitos que nos ajudem a nos identificar com nossos semelhantes, e não apenas com quem pertence a nossa tribo étnica, nacional ou ideológica. [...] Precisamos de mitos que nos ajudem a desenvolver uma atitude espiritual, para enxergar adiante de nossas necessidades imediatas, e nos permitam absorver um valor transcendente que desafia nosso egoísmo solipsista. Precisamos de mitos que nos auxiliem a novamente venerar a terra como um lugar sagrado, em vez de utilizála apenas como “recurso”. (ARMSTRONG, 2005. p. 115)

Os olimpianos são projetados pela indústria cultural como modelos exemplares, a serem seguidos pela sociedade. Os olimpianos, que assumem o posto de figuras míticas contemporâneas, surgem como seres intocáveis. Porém, aos poucos os olimpianos revelam suas características humanas, muitas vezes mostradas pela própria indústria cultural, e assim aumentam ainda mais a identificação entre público e olimpianos. Segundo Morin (1997), os olimpianos são sobre humanos no papel que eles encarnam,

21 humanos na existência privada que eles levam. A indústria cultural, ao mesmo tempo em que reforça o posto de mito dos olimpianos, procura mergulhar a fundo em suas vidas privadas, com o objetivo de extrair delas a essência humana que possa criar a identificação.

22 3 JORNALISMO CULTURAL, REVISTAS INFORMATIVAS E MITOS 3.1 Jornalismo e critérios de noticiabilidade A atividade jornalística consiste em trabalhar com notícias, acontecimentos factuais ou não, produção e divulgação de informações. O jornalismo é considerado uma atividade de comunicação. Considera-se que o jornal mais antigo da história seja o Acta Diurna , que surgiu em torno de 59 a.C, sob a vontade do imperador Júlio Cesar em informar a população das ações sociais e políticas que ocorriam no império. Na Ásia, mais precisamente na China, os primeiros jornais escritos à mão datam do século VIII. Contudo, foi apenas em 1447 com a invenção da imprensa por Gutemberg que o jornal ganhou vida ágil e conquistou o mundo.

A atividade jornalística a que temos acesso atualmente, nas sociedades democráticas, tem raízes no século XIX. Foi ao longo deste século que se desenvolveu o primeiro mass media, a imprensa. A partir de então a forma como eram noticiados os acontecimentos ganhou novos contornos. Com isso, foi necessário repensar a maneira como as notícias eram produzidas, e mais, quais acontecimentos poderiam ser transformados noticiados. Estabeleceram-se então os critérios de noticiabilidade e os valores-notícia. Critérios de noticiabilidade podem ser considerados “o conjunto de valores-notícia que determinam se um acontecimento, ou assunto, é susceptível de se tornar notícia, isto é, de ser julgado como merecedor de ser transformado em matéria noticiável e, por isso, possuindo “valor-notícia””. (TRAQUINA, 2005, p. 63). Ao analisar estes critérios ao longo dos séculos, percebe-se que seus valores básicos variaram pouco. Desta forma, as principais qualidades de uma notícia continuam sendo o extraordinário, o atual, as guerras, a calamidade, o insólito (o homem que morde o cachorro) e a morte. Na atualidade, esta é um dos critérios de noticiabilidade que mais se destaca. É considerada um valor-notícia fundamental entre os diversos veículos de comunicação.

Existem ainda os critérios substantivos. Segundo Wolf (1995), estes critérios articulamse entre dois importantes fatores: a importância e o interesse da notícia. No que se refere à importância considera-se o grau e nível hierárquico dos envolvidos no acontecimento noticiado, o impacto sobre a nação e o interesse nacional, a quantidade de pessoas

23 envolvidas e relevância e futuras conseqüências do acontecimento. Já o interesse pela notícia está ligado à imagem que os jornalistas e veículos de comunicação têm do público. Podem ser consideradas interessantes as notícias que conseguem interpretar um acontecimento de um ponto de vista humanista. Assim como, enfatizar o insólito, através de pequenas curiosidades que atraem os cidadãos.

Demais pontos como a proximidade, relevância, tempo, a infração, a controvérsia e o conflito, os escândalos e a notabilidade também são critérios de noticiabilidade que regem a produção e divulgação das notícias. Porém, um dos principais critérios é a notoriedade, ou seja, a visibilidade que possui o ator principal do acontecimento e as demais pessoas envolvidas. Desde o surgimento dos primeiros jornais e demais veículos de comunicação as celebridades e a importância hierárquica dos envolvidos nos acontecimentos, sempre possuíram valor como notícia. “Quanto mais o acontecimento disser respeito às pessoas de elite, mais provavelmente será transformado em notícia”, como afirma Traquina (2005 apud GALTUNG, Johan e RUGE, Marie Holmboe. 1996/1993) 3.2 O jornalismo cultural e as revistas informativas

Em 1711 o jornalismo cultural sofreu uma grande transformação. Neste ano os ensaístas ingleses, Richard Steele e Joseph Addison, criaram a revista diária The Spectator. A revista tinha a finalidade de levar a filosofia discutida nos gabinetes e bibliotecas, escolas e academias para o cidadão comum. Em pauta estavam os mais diversos assuntos, como ópera, festivais de músicas, teatro e política. Com uma linguagem simples e direta atingia a todos os públicos. Desta forma, pode-se dizer que o jornalismo cultural teve como embrião a revista The Spectator, que nasceu na cidade e com a cidade.

Segundo Piza (2004), o jornalismo cultural se dedica a avaliar ideias, artes e valores. É considerado produto de uma era iniciada após o Renascimento. Em meados do século XIX, a industrialização já havia tomado conta da Europa, o ensaísmo e a crítica cultural ficaram ainda mais influentes. Ainda no século XIX, o jornalismo cultural atravessou o Oceano Atlântico e chegou, de maneira atuante, a países como os Estados Unidos da América e o Brasil.

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Em terras brasileiras, o jornalismo cultural ganhou forças no final do século XIX. Paralelamente, a arte moderna derrubou muros e tabus e o jornalismo cultural iniciou um processo de renovação. Até o início do século XX, o jornalismo apresentava um escasso noticiário, artigos políticos em excesso e debates sobre livros e artes. Porém, a modernização da sociedade, também transformou a imprensa. O jornalismo moderno focou-se mais na reportagem, relato de fatos e iniciou o processo de profissionalização.

O jornalismo cultural também ganhou forma, lançou mão da reportagem e da entrevista, além de críticas de arte mais breves e participantes. As revistas e os tablóides literários continuaram a desempenhar papéis fundamentais no jornalismo cultural. Já nas décadas de 1930 e 1940 a política contaminou bastante o jornalismo cultural. Foi nesta época, especialmente difícil para os europeus, que Nova York ganhou espaço como centro intelectual, graças a revistas como a New Yorker. A crítica continuou sendo a espinha dorsal do jornalismo cultural.

O jornalismo cultural moderno frequentemente passa por crises de identidade, em especial a partir da metade do século XX. A partir da década de 1920 as revistas culturais se multiplicaram e seções culturais na grande imprensa tornaram-se obrigatórias já na década de 1950.

O jornalismo, que faz parte dessa história de ampliação do acesso a produtos culturais, desprovidos de utilidade prática imediata, precisa saber observar esse mercado sem preconceitos ideológicos [...]. Por outro lado, como a função jornalística é selecionar aquilo que reporta (editar, hierarquizar, comentar, analisar), influir sobre os critérios de escolha dos leitores, fornecer elementos e argumentos para sua opinião, a imprensa cultural tem o dever do senso crítico, da avaliação de cada obra cultural e das tendências que o mercado valoriza por seus interesses [...]. (PIZA, Daniel, 2004, p.45)

De acordo com Piza (2004), o jornalismo cultural vem se expandindo mais para os livros nos últimos anos. Mais facilmente vemos coletâneas de ensaios e críticas, assim como projetos de reportagem criados especialmente para livros. A internet também vem sendo um caminho alternativo para o jornalismo cultural. Contudo, as revistas ainda são consideradas o berço do jornalismo cultural. Este tipo de publicação, sempre dedicou espaço para os conteúdos produzidos por esta ramificação do jornalismo.

25 Revistas são veículos de comunicação, podem também ser consideradas produtos, negócios, uma mescla de jornalismo e entretenimento, um apanhado de serviços, e até mesmo, uma marca. Porém, revistas são mais do que isto. Para Scalzo (2004) revista é também um encontro entre um editor e um leitor, um contato que se estabelece, um fio invisível que une um grupo de pessoas e, ajuda a criar identidades, sensação de pertencer a um determinado grupo.

A primeira publicação classificada como revista data do ano de 1663, na Alemanha, chamava-se Erbauliche Monaths-Unterredungen (Edificantes Discussões Mentais). Seu aspecto e forma eram semelhantes aos de um livro, e apenas foi considerada revista por trazer vários artigos e discussões sobre um mesmo assunto, e, ser voltada para um público específico. Além disso, tinha o objetivo de ser publicada periodicamente, e, serviu de exemplo e inspiração em todo o mundo.

Ao decorrer do século XIX, a revista ganhou espaço, virou moda e também ditou tendências. A queda do nível de analfabetismo nas camadas menos favorecidas da população proporcionou um aumento nas vendas destes periódicos. As pessoas recém alfabetizadas buscavam informação, porém, não se interessavam pelos livros, que ainda eram vistos como de elite e pouco acessíveis. O avanço tecnológico, presente também nas gráficas, proporcionou a transformação das revistas no lugar ideal para a reunião de diversos assuntos, na companhia de imagens para ilustrá-las.

Permitiu também o aumento das tiragens, o que consequentemente, atraiu os anunciantes, que objetivavam levar seus produtos para um público cada vez mais diversificado. Com a renda da publicidade foi possível diminuir os preços das publicações, o que por sua vez, aumentou o número de vendas. Assim, as revistas passavam a ser lidas por ainda mais camadas da população, ricos e pobres tinham acesso às publicações. Desta forma, nasceu o mercado das revistas, que hoje faz parte da indústria de comunicação de massa. Contudo, determinadas características deste nascimento influenciaram nos moldes a serem seguidos pelas revistas, assim como suas estruturas e funções.

Enquanto os jornais, tanto diários como semanais, nascem e crescem engajados, ligados a tendências ideológicas, a partidos políticos e à defesa de causas públicas, as revistas acabam tomando para si um papel importante na complementação da

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educação, relacionando-se intimamente com a ciência e a cultura. Com recursos mais modestos que os jornais, muitas vezes as revistas não conseguiam ter acesso à mesma tecnologia e por isso acabavam tendo que criar modelos paralelos. [...] talvez este fator tenha ajudado a reafirmar a vocação deste tipo específico de publicação, que se vê empurrada a desenvolver uma natureza diferente, mais afastada do noticiário, mais preocupada em buscar caminhos alternativos, a encontrar sua própria função, seu público, sua linguagem. (SCALZO, 2004, p.21)

Desde o surgimento da primeira revista, em 1663, vários modelos de publicação nasceram e morreram na história da imprensa. Alguns fizeram mais sucesso que outros. E, com o passar do tempo, a segmentação da produção foi necessária. Era preciso falar com um público menor, para se falar melhor. As revistas femininas foram as primeiras a ganhar espaço, a primeira delas surgiu em 1793, na França. Já no século XIX, surgem revistas voltadas para a literatura e ciência. Na mesma época, profissionais de diversas áreas passam a dispor de revistas específicas. “Com circulação restrita, elas se transformaram em referência em seu meio e deram origem às revistas especializadas, ligadas a categorias profissionais ou a temas de interesse técnico”. (SCALZO, 2004, pg.22).

Porém, as revistas informativas semanais foram as que mais se destacaram no ramo. A partir do nascimento da Time, publicada pela primeira vez no dia 03 de março de 1923, nos Estados Unidos, que o gênero obteve um grandioso progresso. O objetivo principal era levar para o leitor as notícias da semana, nacionais e internacionais, divididas por seções, a partir de informações pesquisadas e checadas. Este foi o embrião das revistas informativas.

De acordo com Vilas Boas (1996), considerando as características e propostas das revistas semanais informativas, conclui-se a grosso modo que elas preenchem as lacunas deixadas pelos demais veículos de informação, como os jornais, televisão e rádio. Vazios informativos causados, principalmente, pela rapidez demandada por estes veículos e também pelo consumo voraz do público alvo destes meios. Ao contrário das revistas especializadas, as revistas informativas não falam para um público específico. Os mais diversos assuntos abordados nas revistas informativas permitem que todos os grupos sociais sintam-se interessados pelo conteúdo produzidos por elas. Muitas vezes as revistas informativas dedicam muitas de suas páginas ao jornalismo cultural, contudo, nem sempre o conteúdo é produzido por especialistas do assunto.

27 Com um visual mais trabalhado e sofisticado, o texto de revista é muito mais profundo que o do jornal. Com mais tempo para analisar os fatos, as revistas oferecem textos mais criativos, lançando mão de recursos estilísticos que na maioria das vezes é impensável no jornalismo diário. Desta forma, a reportagem interpretativa é o grande forte das revistas informativas.

Recursos gráficos são os grandes diferenciais das revistas, independentes de qual tema abordem. Em geral, as capas são as grandes estrelas no universo dos recursos gráficos. Para ser comprada, é necessário que a publicação possua uma boa capa, pois, nela contém o resumo da edição, servirá, portanto, de vitrine para o leitor. Boas imagens sempre são fortes atrativos em capas de revistas, assim como o logotipo, principalmente quando a publicação é conhecida e possui credibilidade junto ao público. Chamadas claras e objetivas também funcionam como iscas. „A chamada principal e a imagem da capa devem se complementar, passando uma mensagem coesa e coerente‟(SCALZO, 2004, p.63).

Tão importante quanto às chamadas principais, são os leads, ou seja, o primeiro parágrafo da notícia, em jornalismo impresso. No caso de outras mídias, como o rádio, por exemplo, corresponde à primeira fala de uma notícia, é o texto lido pelo apresentador. Segundo Lage (2000), o lead corresponde ainda ao relato do fato

principal de uma série, ao que é o mais importante e/ou interessante. Em sua formação clássica, no caso da notícia impressa, contém um sujeito, um predicado e as circunstâncias que cercam este sujeito. Na concepção acadêmica de Laswell, o lead tem a função de responder as seis perguntas básicas: quem, o que, quando, onde, como e por que.

No jornalismo diário temos a utilização, em larga escala, do lead clássico. Porém, Lage (2000) enumera outros tipos de leads que podem ser encontrados na imprensa escrita. Entre eles temos o lead interpretativo que é muito utilizado em jornalismo especializado. Neste caso, a interpretação é sintética e óbvia, “porque a notícia não é texto adequado à analise mais profunda dos fatos, mas vai além da simples tradução de palavras e expressões. Ocorre na cobertura de esportes, política, ciência e tecnologia etc”. (LAGE, 2000. p.36) Já o lead diferenciado é o lead narrativo, mais comum no noticiário diário. É constituído apenas de uma sequência narrativa, em poucas linhas.

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O design das revistas também é essencial. Contudo, ao contrário do que se pensa, design não é apenas arte, em revista é também comunicação, informação e mais um ponto para fazer com que a revista, e todo seu conteúdo, atraiam mais os leitores. Para que o design alcance o objetivo esperado é necessário que fique definida qual será a linguagem gráfica da revista, considerando que nesta etapa o leitor também tem voz ativa.

É o universo de valores e interesses dos leitores que vai definir a tipologia, o corpo do texto, a entrelinha, a largura das colunas, as cores, o tipo de imagem e a forma como tudo isto será disposto na página. Por isso, o projeto gráfico tem que estar inseridos num projeto editorial mais amplo. O projeto de uma revista de turismo certamente vai usar muitas fotos, já uma publicação sobre ciência talvez prefira usar infográficos, uma revista para pessoas mais velhas vai escolher um corpo e uma entrelinha maior para facilitar a leitura, enquanto uma revista para crianças terá, necessariamente, textos mais curtos... (SCLAZO, 2004.p.67)

A fotografia é a primeira coisa a ser vista em uma revista, antes mesmo do que qualquer palavra. Ela é a responsável por prender, ou não, a atenção do leitor em uma página. Logo, é essencial possuir boas fotos. O objetivo das fotografias não é apenas ilustrar os textos das revistas, mas estimular, entreter, informar e até mesmo auxiliar o leitor na compreensão da matéria. Da mesma forma apresentam-se as legendas. É de bom senso que em todas as fotos de uma revista haja legendas, elas fazem com que o leitor aprofunde-se no assunto, ao invés de se afastar.

Ao lado da fotografia, os infográficos compõem as principais características de uma publicação impressa. Servem como auxilio e interpretações para os textos. Os infográficos fornecem ao leitor, em muitos casos, informações extras. Através de tabelas, gráficos, legendas, fotos mapas, maquetes e ilustrações. São considerados informações visuais.

Seguindo os padrões jornalísticos, as revistas solicitam de seus profissionais textos elegantes e que seduzam os leitores. Seguindo-se os valores ideológicos do veículo em questão, não existem muitas regras rígidas. De acordo com Vilas Boas (1996) os textos possuem tonalidade, ou seja, uma escolha prévia de linguagem que prevalecerá (humor, tragédia, tensão etc), considerando-se também que um texto de revista, que às vezes ocupa cinco ou seis páginas, não se mantém neutro. A neutralidade é uma “pretensão” objetivada pelo jornalismo diário. O texto de revista se propõe a interpretar o fato de

29 maneira mais explícita, ele não é apenas uma revisão ou desdobramento daquilo que já foi lido ou visto na semana, ele propõe uma reflexão, apresenta uma visão detalhada do contexto.

3.3 As figuras míticas no jornalismo A mídia possui a capacidade de influenciar a construção do imaginário cultural contemporâneo. A contribuição midiática para este imaginário é composta por uma vasta e complexa rede de signos, símbolos, referências culturais, políticas, sociais e artísticas. Estes pontos presumem um gênero de memória coletiva globalizada, um mundo cada vez mais sem fronteiras.

Segundo Arbex (2002), existe uma mídia planetária na qual os as grandes marcas e ícones do mundo célebre atingem os mais longínquos pontos do planeta terra. São considerados os responsáveis por excitar os desejos, educar as percepções, e até mesmo alterar ritmos e rotinas construídos por tradições e costumes locais.

O jornalismo, por sua vez, necessita vender seus produtos, com isso lança mão de tais marcas e figuras célebres, com o objetivo de atingir o maior e mais diversificado público. Contudo, a grande imprensa segue uma tendência ao sincretismo, com o intuito de satisfazer todos os gostos e interesses que se apresentam no vasto leque da cultura de massa. Porém, esta tentativa de satisfação é feita através de uma retórica frequente, a unificação de dois setores da cultura industrial: a informação e o romanesco. Morin (1997) afirma ainda que no setor da informação a maior procura é pelo sensacionalismo e pelas vedetes que parecem viver em outro patamar da vida. A informação lança mão de elementos romanescos, constantemente utilizados ou criados pela imprensa.
A cultura de massa é animada por esse duplo movimento de imaginário arremedando o real e do real pegando as cores do imaginário. Essa dupla contaminação do real e do imaginário (...) esse prodigioso e supremo sincretismo se inscreve na busca do máximo de consumo e dão à cultura de massa um de seus caracteres fundamentais.” (MORIN, 1997, pgs. 36-37)

Segundo Morin (1997), a imprensa de cultura faz vedete tudo aquilo que possa ser comovente, sensacional, excepcional. Tudo o que diz respeito às próprias vedetes e mitos são transformados em espetáculos. As conversas, beijos, confidências, amores e desamores. O leitor se porta como se fosse um espectador de tudo o que acontece, tendo

30 as vedetes como os atores do espetáculo. Este consumo exacerbado da vida privada das vedetes caminha de mãos dadas com o desenvolvimento privado do setor da informação. Foi a partir da década de 1930 que as figuras célebres começaram a permear as produções do jornalismo. Esta inserção começou com o surgimento da ideia de publicar em revistas tiras de quadrinhos, que anteriormente eram publicadas pelos jornais. Tão logo, as tirinhas ganharam vida própria e passaram a ser veiculadas as revistas de histórias em quadrinhos. No mesmo período, o interesse pela vida célebre de Hollywood chamou a atenção das publicações. Desta forma, nascia a primeira revista de fãs, com absoluto sucesso de vendas. No Brasil não foi diferente, a primeira revista brasileira de fãs, a Cinelândia, chegou a vender 250 mil exemplares. Contudo, foi a revista Senhor que, em 1959, no auge da efervescência da cultura nacional que marcou a história como uma das revistas mais bem sucedidas no país. Idealizada por Nahum Sirotsky, ex-editor de Visão e Manchete, Senhor reunia o melhor do jornalismo, e, apostava em design, humor e literatura. Características que permeiam o jornalismo, ainda hoje. Afinal, revistas como esta, impulsionam a produção do jornalismo, em especial o cultural.

Existem diversas maneiras de se contar histórias, contudo, nenhuma delas se faz sem o personagem. Existem também inúmeras maneiras de apresentá-lo ao público, assim como caracterizá-los e atribuir atuações a eles. Muitas vezes o texto que se incumbe de mostrar ao público a essência de um personagem, acaba por intensificar a realidade, e, paralelamente compartilhar publicamente a experiência de se conhecer, em partes, a essência desta figura. De acordo com Oswaldo Coimbra (1993), a densidade psicológica é um forte elemento para distinguir as personagens quanto à sua construção. Desta forma, são apresentadas terminologias, criadas por E. M. Foster e apresentadas no livro Aspects of the novel (1937), para caracterizar os tipos de personagens existentes.

A personagem plana é aquela que é construída a partir de uma única idéia ou qualidade apresentada. Após a sua descrição, sempre volta aos mesmos gestos, características de comportamento, torna-se redundante. Já a personagem redonda é aquela que se reveste de complexidade para subsidiar a construção de uma personagem bem marcada. Um dos principais pontos de sua configuração é a revelação lenta e gradual de seus traumas,

31 obsessões e vacilações. Caracteriza-se ainda por ser dinâmica e multifacetada. Outro tipo definido por Foster (1937) é a personagem referencial, ou seja, aquela que remete a um sentido pleno e fixo, que foi imobilizado por uma cultura. Logo, sua apreensão e compreensão estão submetidas ao grau de participação do leitor/público na cultura em questão.

É comum a grande imprensa tratar de figuras e/ou pessoas que o público já conheça anteriormente. Isso se deve ao fato de ambos estarem inseridos na mesma cultura. Contudo, o fato destas figuras e/ou pessoas públicas existirem para o público fora de um texto, não significa que há um impedimento para recriação delas enquanto personagem do texto, como afirma Coimbra (1993).

Foster (1937) caracteriza ainda a personagem anáfora que é aquela que ao contrário da referencial, só é completamente compreendida no texto, ou ainda, na rede de relações mantidas pelo texto. Há ainda o figurante, que às vezes é denominada de personagem com função decorativa. Sua função subalterna é clara, além disso, é distanciado e passivo em relação aos acontecimentos narrados. Contudo, não é dispensável. Contribui para a ilustração de um cenário, uma atmosfera.

Entretanto, não é apenas a classificação das personagens que é considerada em sua composição. Segundo Coimbra (1993), existem outras classificações que consideram cada personagem de acordo com diversos critérios, como: função, relevância, etc.

Segundo Vilas Boas (2003), reportagens que apresentam personagens, muitas vezes, têm o papel de gerar empatias. Empatia é considerada a preocupação com a experiência do outro, uma forte tendência em tentar sentir o que o outro sentiria caso estivesse nas mesmas situações vividas pela personagem. Personagens de grande dimensão popular, normalmente ocupam mais espaço nas publicações. Porém, é preciso ter cuidado neste quesito:

O (falso) problema da dimensão do personagem. Na imprensa convencional, os espaços, medidos em centímetros ou em caracteres, são determinados pelas realizações da pessoa. Mesmo assim, é preciso que as realizações tenham sido ratificadas pelo mainstream. (VILAS BOAS, Sérgio. 2003, p.15)

32 Existe uma tendência em humanizar os personagens, atitudes como esta possuem uma expressão mais abrangente, oriunda de pesquisas qualitativas em Ciências Sociais: as Histórias de Vida, como explica Vilas Boas (2003). Tal modalidade foca-se total ou parcialmente nas narrativas sobre a vida de indivíduos, com o objetivo de humanizar um fato, tema ou mesmo uma situação contemporânea. Em sua forma mais abreviada, a história de vida analisa episódios e acontecimentos específicos da trajetória do protagonista.

3.4 Espetacularização no jornalismo Junto com a atividade jornalística nasceu a ideia de que as notícias, independentemente de qual veículo de comunicação sejam publicadas, são o retrato do fato exatamente como aconteceu. Com isso, os canais de imprensa sempre disputaram o reconhecimento de ser aquele que divulga os acontecimentos da maneira exata, objetiva e isenta.

Todavia, existem os críticos em relação à objetividade que acreditam que fatos não existem, e, sim apenas interpretações. O que, de certa maneira, invalidaria o trabalho de apuração jornalística. Porém, não é plenamente aceitável a ideia de que os fatos são apurados, de forma objetiva, e transmitidos de maneira fiel ao público. Deve-se considerar que a mensagem, até chegar ao receptor final passa por alguns filtros. Como observa José Arbex (2002), “não apenas o olhar do observador é seletivo quanto ao evento presenciado, como ao relatar um evento o observador seleciona, hierarquiza, ordena as informações expostas, fazendo ai interferir as suas estratégias de narração”.

De acordo com Arbex (2002 apud Debord, 1997) a sociedade de consumo, através dos meios de comunicação de massa, transforma-se na sociedade do espetáculo, ou seja, o espetáculo torna-se a essência da sociedade de consumo. Dentre as diversas definições para espetáculo destaca-se a de Debord:

O espetáculo consiste na multiplicação de ícones e imagens, principalmente através dos meios de comunicação de massa, mas também dos rituais políticos, religiosos e hábitos de consumo, de tudo aquilo que falta à vida real do homem comum: celebridades, atores, políticos, personalidades, gurus, mensagens publicitárias – tudo transmite uma sensação de permanente aventura, felicidade, grandiosidade e ousadia. (ARBEX, 2002 apud DEBORD, 1997, pg. 69)

33 O espetáculo, ou hiper-real, assim chamado por Arthur da Távola, no artigo “A notícia como espetáculo hiper-real” possui duas características que modificam a relação entre receptor e fato em si. Pois, ao mesmo tempo em que aproxima a realidade do espectador, através de aumento por lentes, destaques e aproximações, o hiper-realismo faz aumentar a estranheza, assim como insere um elemento que provoca reações. “Sem afastar do real, mas tornando-o maior do que é, simulando, inclusive, ser ele a expressão da realidade total e construindo uma linguagem na qual o recurso da ênfase se transforma no próprio discurso” (Távola, 1993). O hiper-realismo é encontrado, inicialmente, na literatura, e, em seguida na comunicação. Com o objetivo de expressar a perplexidade presente na

contemporaneidade, de uma maneira que aparenta surgir de uma necessária objetividade na informação. Porém, a subjetividade é o que comanda a notícia como espetáculo. Por possuir, ilusoriamente, uma função objetiva o hiper-real direciona o público aos objetivos e convicções desejadas pelo emissor.

Percebe-se que em consequência da adoção do espetáculo/hiper-real na construção das notícias, alguns elementos construtivos da realidade passaram a ser confundidos. Ficção e realidade se fundem, banalização e repúdio à violência, evasão e participação, alienação e militância. Todos estes fatores passam a ficar lado a lado na percepção e interpretação das notícias. Na atualidade, as manchetes informativas exercem grande poder, assim como os títulos das matérias, as capas de revistas, uma foto, ou a combinação de textos com imagens em um telejornal. A partir da ênfase emotiva que se aplica nestes elementos tanto se pode aumentar a sensibilidade, “quanto conduzir às conclusões desejadas pela ditadura oriunda do modo sedutor de apresentação das informações”, como afirma Távola (1993).

Com o desenvolvimento da indústria e da tecnologia, os meios de comunicação desenvolveram, e ainda desenvolvem, suas técnicas de apresentação das noticias. Elementos característicos da dramaturgia e da publicidade são inseridos na comunicação, como por exemplo, a tensão dramática, as extremidades do ser humano, ambições e medos.
As regras do espetáculo, quase sempre nutridas na experiência da ficção, transmitem-se à informação, modelando-lhe o resultado através de uma intervenção

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na sua forma e a manipulação de seu conteúdo. A notícia como espetáculo utiliza elementos retirados da dramaturgia e da publicidade. Esta, quase toda vazada em linguagem supra-real (surrealista por vezes) ou hiper-real, acostumou o público a "ler" mensagens ao mesmo tempo imediatas e intensas. O hiper-real aparece na presença superlativa das "qualidades" anunciadas. [...] A identificação com heróis ou com vilões, a simbologia do "bem" e do "mal", a busca do instante transfigurador, resultante do máximo de alegria ou de dor, a intensidade de rostos em "close up", a extroversão dos impulsos básicos do ser e dos instintos, os códigos da moral vigente e os códigos da sua transgressão. (TÁVOLA, 1993)

De acordo com Eugênio Bucci (2000), é legítimo que as narrativas jornalísticas objetivem prender o público em suas produções, através de todo e qualquer sentimento que possam despertar. Contudo, à medida que as empresas jornalísticas foram sendo incorporadas aos conglomerados de mídia, houve mudanças na cultura e nas especificidades da imprensa. Pois, os conglomerados objetivam acumular os negócios do jornalismo com os negócios do entretenimento. Logo, o entretenimento passou a influenciar as narrativas informativas. A aplicação dos elementos dramáticos e

publicitários no jornalismo proporciona o achatamento do pensamento. O receptor das mensagens espetacularizadas tornam-se passivos e acostumados a fortes emoções, depressivas e maníacas.

A realidade que interessa, para um (jornalismo com base nos fatos) e para outro (entretenimento com base na ficção), é a realidade espetacular, uma realidade que se confecciona para seduzir e emocionar a platéia. A conseqüência da confecção da realidade espetacular não está apenas no sensacionalismo; ela redunda em egocentrismo, em fetichismo, em sexismo e se materializa no culto das falsas imagens. Essa característica sempre esteve aí, desde que começaram a ser publicadas as primeiras reportagens, mas ela se intensificou violentamente nas últimas décadas.[...] O bem e o mal organizam a informação. (BUCCI, 2000. pgs.142-143)

Este ciclo vicioso acaba por padronizar o trabalho dos profissionais de comunicação, em especial do jornalismo. As características do espetáculo transformam-se em linguagem, desta forma, de maneira inconsciente redatores, repórteres, fotógrafos e cinegrafistas são atribuídos de posturas dramatúrgicas e publicitárias. “Quase nunca se dão conta de que tal com eles ocorre. Acabam por acreditar de tal forma na eficácia de seu processo informativo que, dele, se tornam multiplicadores, e, em muitos casos, professores de informação hiper-real” (TÁVOLA, 1993). O universo do espetáculo/hiper-real impregna o jornalismo, este acaba por ser permeado, em grande parte, por hipérboles, exageros, intensidades e acentuações. A

35 contemporaneidade vibra e se reconhece no universo da ênfase e do exagero, desta forma, o jornalismo embarca nestes pontos.

36 4 MICHAEL JACKSON: UM MITO EM PÁGINAS DE REVISTAS Para Scalzo (2004), toda e qualquer revista, independente de editoria ou especialização, tem a capacidade de estabelecer com seus leitores uma relação distinta dos demais veículos de comunicação. O leitor de revista a tem como algo pertencente à sua intimidade, como um bem material.

Tudo o que compõe uma revista contribui para que esta seja atraente e diversificada. A construção textual, a maneira como os assuntos e notícias são abordados, os recursos gráficos, fotos e até mesmo o tipo de folha. Todos estes elementos fazem com que as revistas criem uma relação de identificação com o seu leitor. Como afirma Vilas Boas (1996), mesmo com uma periodicidade diferente dos outros veículos informativos, as revistas fazem jornalismo baseadas naquilo que ainda é relevante nos noticiários, acrescentando ainda pesquisas, documentação e riqueza textual. Todas estas características aliadas proporcionam um texto prazeroso de se ler, que rompe com as amarras da padronização do dia a dia.

Como já visto, esta pesquisa tem como objetivo analisar a cobertura da morte de Michael Jackson nas revistas informativas Época, Veja e Istoé, verificar se estas contribuem para a manutenção da figura mítica do artista, ou se mantêm uma postura neutra diante do fato. As revistas possuem publicações semanais, com notícias e editorias diversas. Para alcançar o objetivo, foram escolhidas três edições, uma de cada revista, sendo as três, edições especiais sobre a morte do artista. As publicações escolhidas trazem complementos acerca da morte do cantor, assim como relembram a trajetória profissional e pessoal, destaques para os acontecimentos contraditórios e surpreendentes que ocorreram ao longo da vida dessa celebridade:    Época – edição 580/junho 2009 Istoé - edição 2068/ julho 2009 Veja – edição 2119/ julho 2009

A revista Veja foi criada em 1968 pelo empresário Victor Civita e pelo jornalista Mino Carta. Aos moldes da norteamericana Life, Veja, ainda hoje, é publicada pela Editora Abril S. A. A publicação aborda diversos temas da sociedade brasileira e mundial como

37 política, economia, saúde, entretenimento e entrevista, nas suas páginas amarelas. A maioria dos textos são feitos por jornalistas, porém, algumas seções da revista não são assinadas. A revista conta também com colunas assinadas pelo escritor e roteirista Diogo Mainardi, o humorista e apresentador de televisão Jô Soares e a escritora Lya Luft. Veja é a revista informativa semanal de maior circulação no Brasil, com uma tiragem superior a um milhão de exemplares. Segundo Marília Scalzo (2004), é a quarta revista informativa mais lida em todo o mundo.

Trinta anos após o lançamento de Veja chegava às bancas, em maio de 1998, a revista Época. Publicada pela Editora Globo. O objetivo maior deste lançamento era a inserção da editora no mercado editorial de revista, pois, até então as Organizações Globo, de Roberto Marinho, estavam voltadas, principalmente, para os jornais, televisão e sistemas de rádio. Com tiragem próxima a 420 mil exemplares, Época possui estilo parecido ao da publicação alemã Focus, na qual se valoriza o padrão de imagem e de apresentação das matérias e reportagens. Temas como cenário político, saúde, literatura, ciência compõem as editorias da revista. Entre os principais colunistas de Época estão Zuenir Ventura, Ricardo Freire e Ruth de Aquino.

A revista Istoé foi lançada em 1976, publicada pela Editora Três, até os dias atuais. O responsável pela criação de Istoé é Mino Carta, que também lançou Veja e Carta Capital. Com uma circulação de 362 mil exemplares por edição, a publicação é considerada uma das principais revistas informativas semanais do Brasil, ao lado de Veja e Época. As principais editorias da revista são política, atualidades, saúde, entretenimento e saúde.

Pretende-se também com a análise criar um paralelo comparativo entre a cobertura de revistas informativas perante um mesmo fato. Foram escolhidas as já citadas revistas por serem algumas das principais do segmento no Brasil. O método utilizado é análise do conteúdo das matérias, sobre a morte de Michael Jackson publicada nas edições especiais.

Para realizar a análise de conteúdo foram estabelecidas as seguintes categorias:

38 a) Categoria de análise da construção textual e uso de linguagem

Analisar a construção textual das matérias, a maneira como foram redigidos os textos e o tipo de conteúdo que passam ao leitor. Se podemos considerá-los textos compatíveis ao estilo de revista, se apresentam o uso de adjetivos, comparativos e juízos de valor. Avaliar como, através dos textos, as revistas estudadas informam a morte de Michael Jackson. Títulos e suas derivações também serão analisados, assim como as legendas, a partir dos mesmos critérios de avaliação dos textos principais.

b) Categoria de análise da presença da figura mítica

Analisar como a figura mítica se faz presente nas matérias estudadas. A partir dos quesitos avaliativos da categoria anterior, verificar se há um afastamento ou a reafirmação da figura mítica.

c) Comparação entre as revistas

Estabelecer uma comparação entre as coberturas realizadas pelas revistas. Verificar qual delas reforça mais a figura mítica e qual delas apresenta maior afastamento crítico em seu texto. 4.1 Um panorama das revistas estudadas A revista Veja traz duas matérias que ocupam 12 páginas da edição 2119. A primeira, que ocupa sete páginas da publicação, é assinada por Sérgio Martins e leva o título “Uma lenda envolta em mistério, dentro de um enigma”.

Sérgio Martins é crítico de música e subeditor de Artes e Espetáculos da revista Veja. Trabalhou na revista Bizz, uma das principais publicações sobre música no Brasil, e na revista Época. Sérgio também já escreveu um artigo sobre Música Popular Brasileira, publicado na revista norteamericana Time.

A matéria é bem ilustrada, sendo recheada por vinte e duas fotos, além de um infográfico que traz informações sobre os acontecimentos mais marcantes da carreira do

39 artista, com o título “Os altos e baixos de Michael (em número de cópias vendidas)”. Legendas acompanham as fotos, complementando as informações. A matéria “O avesso do avesso” ocupa cinco páginas. Assinada por Lizia Bydlowski, traz em seu conteúdo as transformações físicas de Michael, suas manias e relações amorosas. Lizia é jornalista, trabalha na revista Veja há 14 anos, responsável pela editoria de comportamento, com foco nas áreas de moda, estilo e celebridades. O texto é ilustrado por dezesseis fotos, sendo sete delas pertencentes a uma linha do tempo relativa às transformações físicas do artista. Um box intitulado de “As cinco mulheres” fala sobre a ligação de Michael Jackson com o sexo feminino, suas amizades com mulheres importantes e seus casamentos. Assim como na primeira matéria, as fotos também vêm acompanhadas de legendas que complementam as informações do texto principal.

Já a revista Época traz em sua publicação, edição 580, uma única matéria, de capa, sobre a morte de Michael Jackson, sendo esta a matéria de capa. Ocupando sete páginas, a matéria intitulada de “O gênio atormentado” é assinada por Luís Antônio Giron. Luís é jornalista e crítico cultural, pós graduado em musicologia. Desde 2002, até os dias atuais, é editor da seção Mente Aberta da revista Época, onde escreve sobre os principais acontecimentos do mundo da música, literatura, TV e cinema.

A matéria contém muita ilustração, com oito fotos ligadas ao texto principal e quatro infográficos. O maior deles “O ícone do pop e seu tempo”, que faz um paralelo da vida de Michael Jackson com o que acontecia no mundo, ocupa cinco das sete páginas destinadas ao texto de Giron. É uma linha do tempo, assim como o infográfico “Branco ou Negro” que mostra as transformações físicas do artista ao longo de toda a sua vida. Os outros dois infográficos são relativos à quantidade de discos vendidos por Michael e como o seu trabalho influenciou diversos músicos em distintas gerações.

A revista Istoé traz 30 páginas dedicadas a Michael Jackson na edição 2068. Esta espécie de dossiê é composta por oito matérias, escritas por autores distintos, dois infográficos relatando a ascensão e decadência do artista em sua vida profissional. Outro infográfico fala sobre as excentricidades de Michael. Um Box intitulado de “Não está consciente” transcreve a conversa entre o empregado do artista e o atendente do

40 serviço de urgência que prestou os primeiros socorros a Jackson, quando ele passou mal em casa. As oito páginas que antecedem as matérias principais compõem uma espécie de introdução e resumo sobre a trajetória de Michael Jackson. Quatro pequenos textos, de maneira gradativa, apresentam o decorrer da vida do artista. Todos ilustrados por fotos equivalentes ao momento que relatam. Muitas fotos ilustram as 30 páginas, a maioria delas é arquivo, mas muitas foram tiradas no momento que sucedem a morte de Michael. Frases de artistas consagrados lastimando a perda do músico, também são apresentadas em uma das matérias.

A primeira matéria de Istoé é assinada pelos jornalistas Antônio Carlos Prado e Ivan Cláudio. Ivan é editor-assistente da editoria de cultura e Antônio Carlos é editor executivo da Istoé. O repórter de comportamento João Loes é o responsável pela matéria “Éramos Cinco”. A editora Daniela Mendes, em parceria com a repórter especializada em comportamento, moda e sociedade, Verônica Mambrini, assina a matéria “O mundo encantado de Neverland”. “O menino que não conseguia amar as mulheres” é o título da reportagem assinada pela editora Débora Crivellaro e pela repórter Cláudia Jordão. O editor de cultura Ivan Cláudio também é o responsável pela matéria “O artista revolucionário”. A jornalista Carina Rabelo, que já trabalhou nos jornais O Globo e A Tarde (BA), foi repórter das editorias Brasil e Comportamento, na revista Istoé, assina a matéria “Mente insana em corpo doente”, ao lado da Luiza Villaméa, editora da Istoé, e ex-funcionária dos jornais Folha da Tarde e O Globo.

4.2 A reafirmação da figura mítica a partir dos critérios jornalísticos

As revistas informativas, conforme afirma Vilas Boas (1996), têm o poder de preencher as lacunas deixadas pelo jornalismo diário. O texto das revistas informativas é mais profundo que o jornal. Com mais tempo para apurar os fatos, as revistas oferecem textos mais criativos, tendo como forte a reportagem interpretativa. A partir dos padrões jornalísticos, as revistas oferecem textos que seduzem seus leitores, sem estar preso a regras muito rígidas.

41

Revista Época
Figura 1

A reportagem intitulada de “O Gênio Atormentado”, assinada por Luis Antônio Giron, está localizada em duas editorias simultaneamente: mundo e música. Considerando-se que Luis Antônio Giron é um jornalista especializado em cultura e artes, sua reportagem é ao mesmo tempo interpretativa e reflexiva. O título da matéria vem acompanhado de um “bigode” (recurso utilizado para complementar uma informação), no qual são apresentados os tópicos que serão abordados no texto principal. Com a utilização de adjetivos superestimados, o texto do bigode engrandece o trabalho do artista e ao mesmo tempo cria dúvidas a respeito do falecimento de Michael. “A trajetória extraordinária, o legado artístico, a vida controvertida e a morte surpreendente e enigmática do rei do pop”.

Os critérios de noticiabilidade fazem parte da rotina de qualquer veículo informativo. Dentre os principais critérios noticiosos está a morte, como afirma Traquina (2005). Na atualidade os olhares se voltam para o valor notícia de uma morte, ainda mais quando se trata de nomes públicos. Considerando-se este critério a revista Época dedicou sua capa (edição 580) praticamente toda a Michael Jackson, na ocasião de sua morte, deixando apenas três pequenas chamadas em sua parte superior. Neste caso, considera-se também o critério de relevância dos envolvidos, pois, o cantor tinha fama mundial, assim como toda sua família.

Conforme afirma Vilas Boas (1996), as revistas informativas preenchem os vazios deixados pelo jornalismo diário, com isso, as reportagens destes veículos têm caráter interpretativo. Os textos de revistas, normalmente, são mais interessantes, atraentes e

42 reflexivos. O grande objetivo destes textos é fugir do convencional e não repetir o que já foi dito sobre um fato. Giron apresenta fatos novos em sua reportagem, como por exemplo, os três importantes acontecimentos aos quais Michael esteve à frente. “Primeiro simbolizou as mudanças de modificação social nos Estados Unidos e no mundo nas últimas cinco décadas”. E ainda “afirmou o lugar de destaque dos artistas negros, fez moda e alterou o comportamento da juventude”. Giron afirma ainda que Michael Jackson “atuou como peça fundamental para a transformação da indústria da música e do entretenimento em um negócio gigantesco”, e que “sua contribuição artística se revelou tão poderosa que hoje quase toda a música pop de sucesso é devedora de suas invenções”. Desta forma, percebe-se que a matéria expõe fatos que vão além da narrativa da morte do artista. Assim como, apresenta características de jornalismo cultural, avaliando ideias, obras e artes, como destaca Piza (2004).

O título da matéria de Giron é curto e composto por dois adjetivos relacionados à personagem central: gênio e atormentado. Percebe-se, logo de início, uma atribuição de valores à Michael, pode se supor que a palavra gênio refere-se ao trabalho artístico realizado por Michael, e o adjetivo atormentado está ligado à vida do artista por trás dos holofotes. O bigode também traz adjetivos que superestimam o trabalho e a vida do membro mais famoso da família Jackson. Define a trajetória do artista como extraordinária, e, sua morte como inesperada e enigmática, refere-se a ele como “Rei do Pop”.

Conforme afirma Morin (1997), a grande imprensa segue uma tendência ao sincretismo, com o intuito de satisfazer todos os gostos e interesses que se apresentam no vasto leque da cultura de massa. Porém, através de uma retórica frequente, a unificação de dois setores da cultura industrial: a informação e o romanesco. Morin (1997) afirma ainda que no setor da informação a maior procura é pelo sensacionalismo e pelas vedetes que parecem viver em outro patamar da vida. A informação lança mão de elementos romanescos, constantemente utilizados ou criados pela imprensa. Tais pontuações podem ser percebidas no terceiro parágrafo do texto de Giron, a frase inicial é um gancho do segundo parágrafo, que termina dizendo que Michael era “um artista conturbado e sincero cujas confissões nunca foram levadas a sério”. No parágrafo seguinte (o terceiro) há uma afirmação de que exatamente por estas características de Michael, quando os “twitters e sites de fofocas anunciaram sua morte, furando os

43 jornais” tudo aquilo parecia boato, “entre os muitos que envolveram Michael”. Porém, logo em seguida o jornalista diz que desta vez era verdade, e que a “notícia levou um choque de proporções mundiais”, o que reforça a ideia de Morin (1997), de que as notícias sobre as vedetes e olimpianos têm a capacidade de despertar a curiosidade do público, e a imprensa, por sua vez, alimenta esta curiosidade com sensacionalismo, criando sua própria realidade, como é o caso deste trecho:

A morte de Michael Jackson foi confirmada oficialmente na tarde da quinta-feira 25, no Centro Médico da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA). [...] Imediatamente, multidões saíram espontaneamente às ruas no mundo inteiro para reverenciar o ídolo máximo do pop. De Mubai a Nova York, de São Paulo a Londres, as pessoas se reuniram para fazer homenagens e cantar juntas os sucessos do ídolo. (ÉPOCA, p.94, junho 2009)

Percebe-se então, a utilização do hiper-real na matéria de Giron para criar uma situação que envolve um personagem olimpiano, neste caso a comoção causada pela morte de Michael, o que acaba por gerar uma possível exacerbação da realidade. Pois, o hiperreal/sensacionalismo tem a capacidade de modificar a relação entre fato e receptor. Afinal, ao aproximar a realidade do receptor por meio de lentes e destaques, o hiper-real também ocasiona estranheza e provoca reações. “Sem afastar do real, mas tornando-o maior do que é, simulando, inclusive, ser ele a expressão da realidade total e construindo uma linguagem na qual o recurso da ênfase se transforma no próprio discurso” (Távola, 1993), como vimos anteriormente esta afirmação (vide página 33). Para Eugênio Bucci (2000), toda e qualquer narrativa jornalística objetiva prender o seu público alvo, principalmente, através dos sentimentos que são capazes de despertar. Isto é percebido no texto de Giron em muitos momentos. Um deles é o trecho em que é relatada a tensão vivida por Michael nos momentos que precediam sua volta aos palcos com a turnê This is it, que estrearia no dia 13 de julho de 2009 em Londres, com uma série de cinquenta shows. “A temporada estava pré-consagrada, com 800 mil ingressos vendidos para 50 shows programados até março do ano que vem (2010). [...] Ele tinha consciência de que sua carreira não poderia continuar depois”. Neste trecho, percebemos a ansiedade expectativa pelo retorno do artista aos palcos, uma volta classificada como sucesso antes mesmo de acontecer. Logo em seguida, a frustração com o fim anunciado de uma carreira. Mais adiante, a narrativa se torna ainda mais emotiva com a citação de falas marcantes do próprio Michael Jackson, quando este

44 anunciou a sua turnê em uma coletiva de imprensa. “ Esta será a minha cortina final, disse diante de 7 mil fãs. Depois disso, nada mais. É isso e ponto (This is it)”. Para Bucci (2000), a realidade que interessa para a grande imprensa, ou seja, aquela que realiza um jornalismo factual é a realidade pautada no hiper-real, no espetacular. Uma realidade que se constrói com o objetivo de seduzir e emocionar sua plateia. Como se percebe no trecho abaixo:

E emendou, com as lágrimas transparecendo, apesar de seus óculos mais escuros que seu cabelo longo tingido de negro, encobrindo o rosto desfigurado por sucessivas cirurgias plásticas: “Eu amo vocês, de verdade!”. As multidões que lhe prestaram tributo no mundo inteiro nos últimos dias mostraram que o sentimento era recíproco. (ÉPOCA, p.94, junho 2009)

Revista Veja
Figura 2

A revista Veja traz duas matérias sobre Michael Jackson: a primeira é assinada pelo crítico musical e subeditor de artes e cultura Sérgio Martins. Ao contrário da revista Época, o título de Martins é grande, porém, assim como o de Giron também imputa valores e sugere reflexões. O título “Uma lenda envolta em mistério, dentro de um enigma” é uma paráfrase, como diz o próprio jornalista, da famosa frase de Winston Churchill. A mesma é repetida no final do primeiro parágrafo, reafirmando as dúvidas e questionamentos que cercavam o artista.

Seguindo os parâmetros expostos por Vilas Boas (1996), o texto de Martins foge do lead convencional do jornalismo diário. Atrelando-se ao estilo característico do texto de revista, a reportagem de Martins apresenta um lead que estabelece comparação entre as principais figuras artísticas dos Estados Unidos e suas realizações, acrescentando assim ao seu texto, traços do jornalismo cultural. “A música popular americana deu origem a

45 três ídolos incontestáveis no século passado. Frank Sinatra foi... Frank Sinatra. Elvis Presley foi a cintura e o topete do rock. Michael Jackson, o terceiro, inventou a música pop – e não há exagero nessa afirmação”, são as frases que compõem o lead do texto de Martins. Grande parte da matéria possui as características interpretativas, analíticas e crítica que se encontram no jornalismo cultural, neste caso, por meio de relatos de fatos, como acontecimentos do ramo econômico que favoreceram o mercado musical, principalmente Michael Jackson. “A Sony japonesa lançou um ícone cultural tão poderoso quanto o próprio Thriller: o walkman, acessório que inaugurou a era da portabilidade da música. Mas os Estados Unidos, se não inventaram o aparelho, tinham a música que se ouvia nele – Michael Jackson”. Com interpretações a respeito do trabalho desenvolvido por Michael e a influência exercida por ele em outros artistas, Martins faz do seu texto de revista, nesta matéria em especial, ainda mais próximo do jornalismo cultural. Por meio destas comparações estabelecidas por ele, percebe-se a importância cultural, musical e mercadológica de Michael Jackson. Suas atitudes marcaram modificações sociais nos Estados Unidos, como a inclusão da música negra em locais antes proibidos, sua obra é comparada à de grandes nomes que, assim como o artista, obtiveram sucesso e repercussão em escalas mundiais. No setor econômico, a força de seu trabalho e capacidade de venda é comparada a uma potência mundial. Fatores estes que reforçam a dimensão e superlativo que cercavam o cantor.

A narrativa jornalística da matéria de Sérgio Martins é mais objetiva, mas também cumpre, paralelamente, sua função de emocionar o leitor e despertar sentimentos em relação à história contada. No parágrafo onde é descrita a trajetória do atendimento de Michael Jackson em sua mansão até a confirmação de sua morte, são expostas informações que mostram a dimensão e “comoção global” causadas pelo falecimento do artista. Reafirmando assim o critério de noticiabilidade a respeito da relevância das pessoas envolvidas no fato.

O tráfego de serviços de microblogs Twitter dobrou. O Google entrou em pane, tantas as buscas. O serviço de mensagens instantâneas da AOL também sofreu um colapso nos Estados Unidos. O iTunes e a Amazon, as maiores lojas virtuais de música do mundo, registraram um aumento extraordinário nas vendas de discos e canções de Jackson. No caso da Amazon, o volume de vendas cresceu incríveis 700 vezes. (VEJA, p. 98, julho 2009)

46 A morte como critério de noticiabilidade também se faz presente, não apenas nas especulações sobre o que teria levado o cantor a óbito, mas principalmente o impacto que ela causou, suas consequências e legado. Martins também vai além em suas informações e, seguindo o objetivo do texto de revista de oferecer mais informações do que os diários, explica o que remédios e analgésicos, como os que Michael utilizava, podem causar no organismo, o grau de dependência que geram em quem os ingere com frequência e traz ainda a fala de uma médica confirmando estas colocações.

No que se refere ao hiper-real, a reportagem de Sérgio Martins apresenta dose moderada da deturpação da cena real. Com a utilização de adjetivos em referência à obra de Michael, percebe-se a descrição de um artista incontestável no campo do talento e criatividade. Ao mesmo tempo em que interpreta, o texto faz inferências e propõe reflexões sobre o cantor. Os trechos a seguir são exemplos destas adjetivações e possíveis reflexões. “No início da década de 80, momento da explosão de Jackson, nem nos confins do planeta se encontraria um adolescente que não tivesse se arriscado a imitar o quase impossível moonwalk”, e mais adiante “Jackson desenhou ainda o mapa de comportamento do ícone pop para as décadas seguintes”. A segunda matéria sobre Michael Jackson, edição 2119 da revista Veja, é assinada por Lizia Bydlowsky. A reportagem fala das mutações físicas sofridas por Michael, as relações com mulheres e atitudes contestadas pela população mundial. O título “O avesso do avesso” pode ser considerado uma referência às diversas aparências físicas que o artista apresentou ao longo de sua carreira, e, o que ele trazia em sua essência por trás destas figuras. O bigode da matéria pode ser considerado mais interpretativo do que informativo, ressaltando traumas e desejos inconscientes do cantor, como se percebe no texto que compõe o bigode: “Michael passou a infância trabalhando como um adulto. Aí, cresceu e dedicou a maior parte de seu tempo a agir como criança e a querer provar que isso era a coisa mais natural do mundo”.

Assim como Sérgio Martins, Lizia também foge do lead convencional. O texto é iniciado com a reprodução das falas dos pais do cantor em entrevista à revista Time. O depoimento de Joseph Jackson, o pai, revela a timidez do cantor longe dos palcos e a paixão por animais. Já de Katherine, mãe de Michael, é a respeito da sexualidade do filho. A partir destas declarações, Lizia inicia seu discurso próprio com adjetivações e

47 pontuando reflexões sobre Michael. A narrativa jornalística se segue com suas características de despertar emoções e como texto de revista, fugindo dos parâmetros do jornalismo diário, como se percebe no trecho “A ambição dos pais não conhecia limites. Aos 6 anos, Michael se tornou a maior estrela do grupo criado por ele. Acabava ali sua infância. Ensaiava o dia inteiro. [...] se os meninos erravam um passo ou uma nota, o pai se enfurecia como um treinador de circo”.

A morte e notoriedade dos envolvidos são os principais critérios de noticiabilidade existentes na matéria, mas outros fatores como esquisitice e interesse do público também podem ser considerados. Além de revelar acontecimentos da infância e adolescência do artista, um box traz um resumo sobre os relacionamentos de Michael com mulheres, fato que sempre despertou a atenção do público, pois o artista sempre teve sua sexualidade questionada e foi apontado como principal suspeito em denúncias de assédio sexual. As esquisitices como uma cama hiperbárica, a utilização de máscaras por temor aos germes, o rancho Neverland, a amizade com crianças e o casamento com Liza Presley são considerados fatores capazes de despertar a atenção do público, principalmente por serem relativos a uma pessoa de grande notoriedade.

No texto de Lizia, percebe-se que a dramatização, muito utilizada nas narrativas jornalísticas, está extremamente ligada ao hiper-real/ sensacionalismo. Utilizando adjetivos e caracterizando o artista às vezes como consciente de suas ações, às vezes vítima de vários acontecimentos e pessoas, a matéria apresenta-se, ao mesmo tempo, como interpretativa, que é o forte das reportagens de revistas, reflexiva e opinativa.

Revista Istoé
Figura 3

48 As oito matérias que compõem o especial sobre a morte de Michael Jackson na revista Istoé, edição 2068, dividem-se por temas relativos à vida do artista. “As várias vidas de Michael Jackson”, assinada por Antônio Carlos Prado e Ivan Cláudio fala a respeito da carreira profissional do artista e tudo que o cercava nesta área. Assim como o seu ápice e a queda. “As últimas horas” é assinada por quatro jornalistas: Adriana Prado, Gustavo de Almeida, Maíra Magro e Renata Cabral. Como o próprio título revela, a matéria traz informações sobre as horas que antecederam o falecimento do músico, e a repercussão mundial. O jornalista João Loes assina a matéria “Éramos Cinco” que conta a trajetória do Jackson Five e a saída de Michael do grupo. “O mundo encantado de Neverland”, de Daniela Mendes e Verônica Mambrini, aborda o grande símbolo material do artista e suas extravagâncias. Cláudia Jordão e Débora Crivellaro falam sobre os relacionamentos de Michael em “O menino que não conseguia amar as mulheres”. O talento do cantor e dançarino é ressaltado novamente por Ivan Cláudio em “O artista revolucionário”. A saúde e fragilidade física e emocional são ressaltadas por Carina Rabelo e Luiza Villaméa em “Mente insana em corpo doente”. Por fim, Eliane Lobato em “A fama mata” relaciona a fama de Michael à sua morte.

Segundo Vilas Boas (1996), as revistas informativas têm a capacidade de falar para um amplo público, para diversos grupos sociais. É o que se percebe nas matérias citadas acima, sobre Michael Jackson. Seguindo as características do texto de revista, as reportagens apresentam títulos atraentes e textos fluídos, sem as amarras da padronização presente no jornalismo diário. Com leads que fogem do comum, as matérias apresentam-se de maneira narrativa, em algumas, comparativa e reflexiva em outras. Como por exemplo, em “As últimas horas”: “Na noite da quarta feira 24, Michael Jackson chegou três horas atrasado ao ginásio para a turnê que realizaria no próximo mês”, temos aqui em lead narrativo. Já em “O menino que não conseguia amar as mulheres” temos uma introdução mais interpretativa: “Elvis Presley era mais do que um ídolo para Michael Jackson. Era uma meta a ser alcançada. E superada”.

A busca pela emoção do leitor por intermédio da narrativa jornalística, citada por Eugênio Bucci (2000) também está presente nos textos, com destaque para os títulos e bigodes. O título “Mente insana em corpo doente” transmite a sensação de fragilidade na qual se encontrava o músico. Já o bigode vem por reforçar esta imagem passada pelo título: “cheio de energia no palco, o astro lutava contra a saúde frágil e as angústias

49 psicológicas da vida real”. Palavras do próprio Michael são reproduzidas, o que reforça a ideia de sofrimento, o que contribui para o surgimento de emoções no leitor. Como na fala a seguir, “a pressão dessa falsa acusação, junto com a incrível energia necessária para que eu me apresente, provocou demasiada tensão, o que me deixou exausto. [...] Eu me tornei muito mais dependente de analgésicos”.

Para Wolf (1995), a importância e o interesse da notícia são dois importantes fatores constituintes dos critérios de noticiabilidade. Estes fatores estão presentes nas oito matérias, assim como a morte, a relevância do personagem, o insólito, o impacto na nação e por ser uma notícia referente a uma celebridade, afinal, as figuras célebres sempre despertam a curiosidade do público. No que se refere à morte de Michael todas as matérias a citam, porém, a reportagem “As últimas horas”, que ocupa quatro páginas, tem a função exclusiva de contar como foi o falecimento de Michael e sua imediata repercussão. Conta ainda com a transcrição completa da conversa telefônica entre o funcionário da casa de Michael Jackson e o atendente socorrista, minutos antes do músico ser levado para o hospital. O insólito e exagero estão presentes, em especial, na matéria “O mundo encantado de Neverland” onde são mostradas as paixões do artista por animais e brinquedos, sendo o rancho Neverland “um símbolo de suas extravagâncias”.
Um lugar mágico, o sonho de qualquer criança, com zoológico e toda sorte de brinquedos. Michael Jackson fez do rancho Neverland, localizado em Santa Barbara, na Califórnia, seu paraíso particular. [...] Comprado em 1998 pelo cantor por US$17 milhões, tem cerca de 1.100 hectares e é cercado por fazendas de gado e parreiras. [...] Abrigava um zoológico com girafas, orangotangos, tigres e serpentário. Pista de kart, duas linhas férreas, uma das quais capaz de acomodar um trem antigo a vapor, e um ônibus amarelo com imagens em tamanho real dos Três Patetas do lado de fora. Quarto de brinquedos, de bonecas e uma minialdeia indígena. (ISTOÉ, p. 73, julho 2009)

Na esteira das ideias de Vilas Boas (1996), os textos de revistas preenchem as lacunas deixadas pelo jornalismo diário através de textos mais aprofundados, com pesquisas e informações complementares. Isso é perceptível nos dois infográficos relativos à carreira do músico. Ambos ocupam duas páginas, lado a lado. O intitulado de “Ascensão” refere-se à discografia e suas vendagens, conta ainda com um resumo sobre a vida do artista. Já o infográfico “Decadência” mostra o dinheiro gasto por Michael nos processos judiciais e pagamentos de dívidas. Mostra ainda a transformação física ao longo dos anos e as excentricidades do músico, como a coroa de ouro dada por seus filhos e uma Limusine personalizada com ouro 24 quilates. Traz ainda as palavras de

50 especialistas como na matéria “O menino que não conseguia amar as mulheres”. A sexualidade do cantor, tema principal, é apresentada a explicação de um professor especialista sobre as atitudes sexuais de pessoas que não vivem a infância em sua plenitude.

No que se refere ao jornalismo cultural, proposto por Piza (2004), as matérias que mais se aproximam destas características são “As várias vidas de Michael Jackson” e “O artista revolucionário”, considerando que ambas são assinadas por Ivan Cláudio, subeditor da seção de cultura. A primeira matéria cuida dos prêmios e títulos do artista, assim como sua ascensão no universo da música. Já a segunda fala da essência da música propriamente dita. O trecho a seguir é o bigode da matéria “O artista revolucionário”: “o cantor concebia a música como uma fusão de som e visual a abriu o pop para as misturas de ritmos”, ressaltando o talento e criatividade musical de Michael. Já o trecho que se segue ressalta a importância que Michael alcançava na música e suas vertentes, “impossível sobreviver fechando os olhos ao novo astro, até porque os clipes que o próprio Michael Jackson concebera para acompanhar as canções também eram uma revolução”. A frase pertence à matéria “As várias vidas de Michael Jackson” e refere-se à época do lançamento do videoclipe da música Thriller e à primeira vez que a emissora de televisão MTV abria espaço para artistas negros.

Conforme afirma Távola (1993), a comunicação tem explorado a dramaticidade, mostrando as angústias do ser humano, suas ambições, desejos e medos. Ao longo das oito matérias percebemos a exposição dos medos e anseios de Michael, ainda mais explorada em “Mente insana em corpo doente”, como se percebe nos trechos a seguir. “Michael Jackson enfrentava uma fragilidade física e emocional que, no decorrer de sua carreira, produziu um extenso prontuário médico” e mais adiante: “uma mente insana em um corpo doente, é difícil estabelecer a fronteira da responsabilidade a partir da qual a cabeça de Michael infernizava sua saúde física ou o contrário: a doença real agravava suas perturbações mentais”. As demais características do hiper-

real/sensacionalismo também estão presentes nas oito matérias, como por exemplo, a tentativa de aproximação máxima do leitor ao acontecimento, neste caso através da transcrição da conversa telefônica entre o funcionário de Michael e o socorrista. O exagero, falando-se repetidas vezes sobre as esquisitices, manias e costumes de Michael.

51 4.3 “O destino lhe quis mito” e a mídia reafirmou O mito está associado à narrativa. Segundo Eliade (1972), esta narrativa é uma realidade cultural de grande complexidade, sujeita a diversas abordagens e interpretações. Contudo, estas narrativas não são contadas aleatoriamente, têm a função de guiar o homem ao longo de sua história. Com o evoluir do tempo, o conceito de mito transformou-se juntamente com o ser humano. Nas sociedades arcaicas foi o centro da humanidade e explicação de todo o viver, ao longo dos anos foi substituído pelo projeto Teocêntrico (Deus e a religião são o centro do universo), e, posteriormente pelo Logocentrismo, no qual a razão era o fundamento de todas as ações. E assim permanece até os dias atuais. Contudo, o mito é intrínseco aos homens, ou seja, ele permanece e sempre permanecerá na cultura da humanidade.

Se nas sociedades arcaicas os Entes Sobrenaturais eram os grandes personagens das narrativas míticas, hoje são as figuras olimpianas, citadas por Morin (1997), que protagonizam as narrativas míticas. Na contemporaneidade, são os veículos de comunicação de massa os responsáveis por transformar as celebridades, personalidades e artistas em mitos. Eles se tornam os exemplos a serem seguidos, perante a sociedade são sinônimos de sucesso, realizações, riqueza e poder. Através de entrevistas, reportagens e diversas outras abordagens a imprensa leva ao público as informações que despertam a curiosidade. Desta forma, figuras são feitas vedetes, como afirma Morin (1997). Toda e qualquer narrativa possui sua personagem e existem diversas maneiras de apresentá-la ao público. Como afirma Coimbra (1993), algumas apresentações acabam por intensificar determinadas características ou acontecimento da vida desta figura. Revista Época O discurso da matéria de Luis Antônio Giron é pautado em adjetivação e elementos superlativos no que se refere à figura de Michael Jackson. O título da matéria de Giron – “O gênio atormentado” - é curto e composto por dois adjetivos relacionados à personagem central: gênio e atormentado. Percebe-se, logo de início, uma atribuição de valores a Michael, pode se supor que a palavra gênio refere-se ao trabalho artístico realizado por Michael, e o adjetivo atormentado está ligado à vida do artista por trás dos holofotes. O bigode também traz adjetivos que superestimam o trabalho e a vida do

52 membro mais famoso do Jackson Five. Define ainda a trajetória do artista como extraordinária, sua morte como inesperada e enigmática, refere-se a ele como “Rei do Pop”.

O texto principal começa comparando a morte de Michael Jackson à de ídolos como Elvis Presley e John Lennon, ressaltando que a “comoção mundial” causada pela morte de Michael esteve, até os dias de hoje, reservada apenas a estes outros dois artistas. Ainda neste mesmo parágrafo, frases como “A reação dos fãs canoniza o “rei do pop”” e “Não poderia haver apelido mais adequado” reforçam a imagem de mito da música pop.
Assim como Presley ganhou o título de “rei do rock” e Lennon se consagrou como o poeta da rebeldia global dos anos 60, Michael Jackson foi o líder revolucionário da música pop, o fundador da era do videoclipe, o defensor de causas sociais e o maior vendedor de discos de todos os tempos. (Revista Época, p.92, junho, 2009)

De acordo com Morin (1997), figuras olimpianas como Michael Jackson, possuem dupla natureza, a divina e a humana, e através dela circulam entre o mundo da projeção e da identificação. Morin (1997) afirma que os olimpianos são sobre-humanos no papel que encarnam em público, e, humanos na vida privada que possuem. A imprensa de massa, ao mesmo tempo em que contribui para este papel mitológico dos célebres, ela mergulha na vida pessoal a fim de extrair delas a substância humana que irá proporcionar a identificação do grande público. A colocação acima pode ser comprovada ao longo do texto de “O gênio atormentado”. No segundo parágrafo da matéria, o autor ressalta as principais características que possuem os ícones da cultura pop. Sendo elas carisma, mistério, decadência e morte. Giron atribui todos estes adjetivos a Michael e ainda vai além. “Michael Jackson reuniu todos esses elementos. Subiu mais alto que todos, foi o artista mais popular do planeta e amargou uma longa derrocada artística que durou 20 anos. [...]. Michael passou de anjo a monstro, mas a história deverá lhe dar o status de gênio” . No que se refere às reações causadas pela notícia da morte do artista, em todo o texto, são apresentadas como algo que tomou proporções mundiais, levando às ruas multidões nos quatro cantos do mundo. Ao longo de toda a matéria, a vida profissional de Michael Jackson é mais enfatizada do que a vida pessoal, por trás dos holofotes. Mesmo não se

53 aprofundando muito a respeito da trajetória musical, a matéria refere-se a ela de maneira elogiosa. A carreira do artista é apresentada com a utilização de adjetivos e superlativos. Seja no texto principal, ou nas legendas e demais recursos gráficos, há a presença destes atributos. Como por exemplo, no título e bigode da linha do tempo relativa à discografia do artista: “O MAIOR SUCESSO DA HISTÓRIA DA MUSICA: o disco Thriller vendeu 65 milhões de cópias no mundo inteiro. Foi o auge de uma carreira extraordinária, com um recorde considerado imbatível”.

Tudo o que se refere ao trabalho realizado por Michael Jackson, em toda sua carreira, é colocado por Giron como algo extraordinário, chegando a afirmar que “ele instaurou a era dos superastros”. Todas as realizações do músico são apresentadas na matéria como contribuições para o universo da música. “Outra contribuição do artista está na transformação do vídeo musical em peça de arte. Antes, o videoclipe era usado como peça promocional”

Segundo Coimbra (1993), é comum a grande mídia tratar de figuras e personagens que sejam conhecidas pelo grande público, porém, isso não impede que haja uma recriação da essência e características desta personagem. Percebe-se esta colocação ao longo da matéria, Michael recebe adjetivos de “visionário social”, “líder revolucionário”. Quando citado o título de “Rei do Pop”, atribuído ao artista pela atriz Elizabeth Taylor, a frase que completa este dado é a seguinte: “Não poderia haver apelido mais adequado”, o que reforça a imagem de grandiosidade do cantor no universo musical. Contudo, é no penúltimo parágrafo da matéria que Giron reforça a imagem de mito de Michael Jackson, referindo-se a ele diretamente pelo adjetivo. “Nesta última década, o público lhe virou as costas. Seu último disco, Invencible, não cumpriu a promessa do título: apesar da qualidade à altura do mito [...].”

Revista Veja

O texto de Sérgio Martins, assim como o de Luis Antônio Giron, também se inicia comparando Michael Jackson a outros nomes da música popular norteamericana. Sendo eles Elvis Presley, também citado por Giron, e Frank Sinatra. Martins atribui a Elvis Presley “a cintura e o topete do rock”. “Frank Sinatra foi... Frank Sinatra”, já Michael Jackson é apresentado como “o inventor da música pop”, complementando esta

54 informação segue-se a frase “e não há exagero nesta afirmação”, na qual percebemos a atribuição de valores à figura do cantor. Ao longo de toda a reportagem o artista é citado como um revolucionário, empreendedor e à frente de seu tempo. A vida de profissional de Michael é mais enfatizada do que a vida pessoal, contudo, nos momentos em que esta é abordada foca-se mais nas dependências químicas sofridas pelo músico.

Toda e qualquer referência feita a Michael Jackson, na matéria de Martins, se dá por adjetivos e superlativos. O título da reportagem é uma paráfrase da frase de Winston Churchill e atribui ao artista três características em apenas uma frase: “Uma lenda, envolta em mistério, dentro de um enigma”. Podemos perceber a atribuição das características lenda, mistério e enigma ao artista, tanto no que se refere ao seu trabalho, quanto a sua vida. Logo, sua figura mítica, e olimpiana, é reforçada perante o leitor, considerando que para Morin (1997) as vedetes e estrelas estão sempre envoltas ao surreal e espetacular.

Em diversos momentos da reportagem Michael é citado como grandioso em seu trabalho, e tudo aquilo que realizava nele. Os seus passos de danças são chamados de “coreografias sensacionais”, suas inovações e experimentos musicais os dão o título de criador da música pop, como Sérgio diz na frase “ele de fato criou o pop”, e ainda “Michael Jackson foi o primeiro grande ídolo mirim da música”. No texto principal, nas legendas e infográficos o artista é citado de maneira elogiosa. É o que se percebe no infográfico “Por que ele foi grande” em diversos setores. Referente à sua música temos a frase, “com ele, a música negra tornou-se a força dominante no pop”. O recurso também enfatiza sua moda e estilo, “seu visual foi moda nos anos 80. [...] os brilhantes e o ouro de suas luvas e casacos tornaram-se parte do vocabulário da alta-costura – até mesmo em desfiles deste ano, de grifes como Louis Vuitton”. E quanto à dança de Michael, o infográfico afirma que “depois de Michael, ser um bom dançarino tornou-se imperativo para qualquer astro masculino da música pop”. Logo, percebemos que há também novamente uma afirmação de figura grandiosa e mítica do artista.

Jackson desenhou ainda o mapa de comportamento do ícone pop para as décadas seguintes: o artista inacessível que, com suas esquisitices e demandas, causa frenesi entre os paparazzi, aumenta a circulação dos tablóides eleva seus assessores e contratantes à loucura. (VEJA, p.100, julho 2009)

55 A partir do trecho acima percebe-se que na matéria de Sérgio Martins, assim como em muitos momentos de sua vida, Michael Jackson é visto como uma personagem. Como afirma Coimbra (1993), são diversos os motivos que classificam as personagens de toda e qualquer história narrada, entre eles estão a função, relevância e personalidade. Em diversos momentos são atribuídos a Michael adjetivos que lembram a de personagens fictícios como “infantilizado” que vive em uma “bizarra propriedade” em um universo particular “imerso em esquisitices”, e, que “fazia questão de ostentar o epíteto de “rei do pop””. Em uma das legendas do infográfico “Os altos de baixos de Michael”, ele chega a ser chamado diretamente de personagem. “Bad – 1987 – Coincide com os primeiros sinais de plásticas e descoloração da pele. A partir de seu lançamento, as pessoas começam a prestar mais atenção no personagem Michael que em sua música”. Na penúltima frase da reportagem o cantor é caracterizado como uma personagem destoante do auge de sua carreira. “Esse Jackson aberrante e patético encobriu o totem da revolução pop”. Contudo, ainda é adjetivado como uma figura de extrema importância para a música. O maior exemplo desta adjetivação de figura mítica está presente na última frase do primeiro parágrafo, onde a palavra ícone refere-se a Michael Jackson. “No momento de sua morte, contudo, voltou a ser o que foi na maior parte da vida: um ícone”.

Na reportagem assinada por Lidia Bydlowsky temos um aprofundamento na vida pessoal e amorosa do artista. Para Oswaldo Coimbra (1993) a densidade psicológica da personagem em questão é um forte elemento para definir a sua construção enquanto figura principal de uma reportagem. Percebemos esta abordagem psicológica já no título da reportagem, “O avesso do avesso” nos dá a ideia de algo interior e escondido de todos. A matéria se inicia com a reprodução do trecho de uma entrevista dos pais de Michael concedida à revista Time. Nesta entrevista o pai de Michael o define como uma pessoa tímida quando está diante de poucas pessoas e solto quando está nos palcos. Percebemos ai a dupla natureza olimpiana citada por Morin (1997). O depoimento de Katherine Jackson, mãe de Michael, refere-se à sexualidade do artista, algo que sempre foi questionado e especulado ao longo de sua carreira e, subsidiou a criação de boatos acerca de sua vida. “Falam que ele é gay. Michael não é gay. Isso iria contra a religião, contra Deus”.

56 Quando expõe seu próprio texto, Lizia caracteriza Michael como uma figura “esquisitíssima, ambígua e desequilibrada”. Ao longo de todo o texto, o cantor é apresentado como uma figura mítica que pendeu para o lado mais berrante que a fama pode ter, e, provocar em um olimpiano. Com a tentativa de tentar entender o que se passava no interior dos sentimentos e pensamentos de Michael, haja vista o título da matéria, são apresentados fatos que contribuíram para o nascimento de traumas na vida do cantor. Como por exemplo, as duras críticas do pai em relação a aparência física de Michael quando jovem, o que viria a ser um dos principais motivos das cirurgias plásticas. As relações amorosas e sexuais do artista também aparecem na matéria, contudo, Michael sempre é apresentado como bizarro e fora dos padrões considerados normais. “Quanto mais estranho parecia, mais Michael Jacson queria provar que era um homem normal”, esta frase pertence ao quadro “As cinco mulheres” relativo às relações do artista com as mulheres, sejam como amigas ou como esposas. Também neste texto Michael é apresentado a partir do prisma bizarro da fama, uma figura mítica excêntrica. São atribuídos a ele adjetivos como “esquisito”, “recluso”, “calado”, “solitário”, “acabado”, “multimilionário” e “desequilibrado”.

A matéria de Lizia afirma que a vida de Michael Jackson pode ser considerada um “exemplo acabado” para manuais básicos de psicologia, “em especial nos capítulos sobre os efeitos na personalidade da infância perdida e da busca torturante pela perfeição”. As transformações físicas do cantor são abordadas na matéria, há uma sequencia de sete fotos mostrando as mudanças de Michael ao longo dos anos. Percebese que todas as referências feitas às estas transformações, dificuldade de relacionamento com o sexo oposto, relação com as crianças e os filhos são mostradas como bizarras, o que reforça a sua imagem de figura mítica, e ao mesmo tempo tenta humanizá-la. O que segue a ideia proposta por Morin (1997), no que se refere à ambiguidade do comportamento das figuras célebres. “Bonzinho? Nem tanto: a imagem cultivada pela proximidade com meninos como Macaulay Culkin despedaçou-se com as acusações de pedofilia e as imprudências com o próprio filho”. Esta legenda refere-se a duas fotos, uma onde estão Michael Jackson, Macaulay Culkin e um boneco do Mickey, e na outra Michael balança seu filho caçula, ainda bebê, na sacada de um hotel em Berlim. Tanto a relação de Michael com o ator mirim e sua atitude com o filho renderam críticas e especulações, na matéria em

57 questão, são reforçadas as posturas críticas sobre tais ações do artista. Contudo, a matéria sempre se refere a Michael como uma personagem mítica e olimpiana.

Revista Istoé

Na maioria das vezes, as reportagens e matérias que se incumbem de apresentar uma personagem, desejam gerar empatia. Além disso, querem se aproximar ao máximo dos sentimentos desta personagem em determinadas situações. A partir de questões como essas, às personagens de grande dimensão popular são dedicados os maiores espaços das publicações. É o que se percebe na revista Istoé, onde 30 páginas referem-se a Michael Jackson.

O especial sobre Michael possui uma introdução de oito páginas, porém, a maior parte destas páginas é ocupada por fotos e apenas pequenos textos. Estes compõem um resumo sobre a trajetória do artista. O primeiro deles “No início, o encanto” fala sobre o início da carreira de Michael nos Jackson Five, anunciando desde já que “o rosto infantil e o sorriso amigável de Michael Jackson seduziram os americanos”. E vai além, afirma que a indústria cultural objetivava um roteiro diferente para fazer mover sua “máquina de sucesso” e que Michael, então com cinco anos, “viria a se tornar essa peça chave”. O pequeno texto está acompanhado por uma grade foto, que ocupa duas páginas, dos Jackson Five durante uma apresentação, nela Michael esta à frente dos irmãos assumindo os vocais do grupo. O segundo texto “Na juventude, o fenômeno” fala a respeito do lançamento do álbum Thriller e toda a sua repercussão, descrito como uma obra que possui uma “engrenagem perfeita dos anos 1980: um disco irrepreensível, a coreografia surpreendente e o casamento do som com a imagem”. Ao artista é atribuída a função de inaugurador da era do videoclipe. A foto que ilustra o texto é uma cena do videoclipe de mesmo nome do álbum Thriller, na qual Michael, ainda novo e negro, aparece cercado de zumbis. O terceiro texto “No auge, o mito” é referente ao sucesso de Michael em shows e vendas de discos. Dos quatro textos que compõem o resumo sobre a trajetória do artista, este é o mais elogioso. Em seu próprio título já reforça a imagem mítica de Michael. A

58 foto referente ao texto também ocupa duas páginas, e traz Michael cantando em um palco, com uma pose que remete poder e força, características de figuras míticas.

O artista, que na década de 79 fez a televisão e na de 80 o videoclipe, foi o precursor dos mega concertos. No estádio de Wembley, teve mais público que Beatles ou Rolling Stones. A turnê “Bad Tour”, com 123 apresentações e 4,4 milhões de ingressos vendidos em 15 países, entrou para a história como a mais rentável do século XX. Detém o recorde de maior vendedor de discos de todos os tempos, com 750 milhões de cópias de 16 álbuns. Faturou mais de US$ 1 bilhão na carreira. “Eu me sinto honrado por ter sido escolhido pelos céus para ser invencível”, declarou em 2001. (ISTOÉ, p. 73, julho 2009)

O quarto e último texto da introdução é intitulado de “No fim, o enigma”. Inicia-se com a frase “A estrela se apagou na hora em que deveria voltar a brilhar”, percebemos que tanto no título quanto na frase inicial o estigma de mito, lenda e astro é reforçado quanto a Michael. O texto cita, rapidamente, a série de shows que o cantor faria no mês seguinte à sua morte. E, assim como nas revistas Época e Veja também é comparado a dois grandes astros da cultura norte americana no momento de suas mortes, Marilyn Monroe e, mais uma vez, Elvis Presley. Propõe ainda um questionamento que dá a entender que será respondido nas matérias que se seguem, o que realmente causou sua morte, “a mente instável, o corpo frágil ou a crescente dependência de remédios?”. A foto ilustrativa do texto, assim como as demais, ocupa duas páginas e mostra a estrela com o nome de Michael Jackson na Calçada da Fama, em Hollywood, cercada por velas, flores e fãs momentos depois da morte do artista, representando assim a comoção que abateu os fãs do cantor.

A primeira matéria do especial é assinada por Antônio Carlos Prado e Ivan Cláudio e intitulada de “As várias vidas de Michael Jackson”. De todas, esta é a mais elogiosa a Michael, o lead se inicia definindo o cantor como “a maior estrela pop de todos os tempos”, esta frase é repetida quatro vezes em um parágrafo de oito linhas. A partir desta frase são feitas atribuições acerca da cor, sexualidade e vida do cantor.

A maior estrela pop de todos os tempos não tinha cor. Teve várias. A maior estrela pop de todos os tempos não tinha uma sexualidade claramente definida. Disse ele, certa vez, que tinha várias. A maior estrela pop de todos os tempos, nem sequer tinha face – também aí teve várias. A maior estrela pop de todos os tempos, Michael Jackson, que morreu em Los Angeles na quinta-feira 25, não teve vida. Teve várias. (ISTOÈ, p. 76, julho 2009)

59 Dentre os diversos tipos de personagens citadas por Coimbra (2003), Michael é apresentado como uma personagem redonda, ou seja, aquela que tem seus traumas, obsessões e desejos apresentados de maneira gradual. Podemos perceber isto na matéria de Prado e Cláudio, o lead transcrito acima é um exemplo desta característica. Contudo, a reportagem define o músico não somente como uma personagem, reforça também sua imagem mítica e olimpiana. A morte de Michael é apontada como “única e solitária”, contudo, afirma ainda que após o término das homenagens póstumas será descoberto “qual Michael Jackson será conduzido à imortalidade”, o que liga a figura de Michael à ideia tradicional de mito porposta por Eliade (1972), na qual os mitos são imortais, diferentemente dos mitos atuais que não anseiam a transcendência.

A palavra mito é atribuída diretamente ao artista ao longo do texto, assim como se referem de maneira elogiosa ao talento de Michael, definem seus trabalhos como “bemsucedidos”, “canções perfeitas”, “turnê avassaladora”, entre outros. A matéria se propõe a explorar mais a vida profissional de Michael Jackson e a caracteriza como algo surpreendente, dotada de muita criatividade e histórica. Porém, alguns fatos da vida pessoal também são abordados, como sua “difusa sexualidade”, o possível assédio sexual a crianças. Chega a citar o apelido que o cantor odiava “Wacko Jacko, ou seja, Jackson Maluco”. Entretanto, o texto principal é permeado por falas de grandes nomes da música, cinema e política que lamentam a morte do artista e reforçam sua imagem de olimpiano e lendária. A frase mais emblemática, no que se refere a este reforço de imagem mítica é “a partir daí tudo que se passou a se referir a Michael Jackson foi astronômico e superlativo, o destino lhe quis mito”. A segunda matéria “As últimas horas” retrata os momentos que antecederam a morte de Michael. Por ser uma matéria mais narrativa não se apega às questões profissionais ou pessoais de Michael Jackson, contudo, sempre se refere a ele como “ídolo pop”, “astro” o que evidencia sua figura olimpiana. Tudo o que se refere às emoções e curiosidades causadas pela morte do artista é apresentado por um prisma superlativo, como podemos percebemos em frases como: “Os diálogos dos funcionários gravados e transmitidos para todo o planeta”; “A imagem da dor estava estampada em fãs inconsoláveis, abraçados ou atônitos na porta do hospital”; “[...] a polícia cercou e interditou o acesso ao hospital que, a essa altura, havia virado alvo de atenção internacional”,e por fim, “uma favela carioca, em especial, entrou em luto: o Morro Dona Marta”.

60

A matéria “Éramos Cinco”, assinada por João Loes, trata do surgimento do grupo Jackson Five, que alçou Michael Jackson ao estrelato mundial. Ao longo de todo o texto Michael é apresentado como uma figura talentosa, genial e idolatrada. A família Jackson é nomeada nesta matéria como a “Família Real do Pop”. O bigode descreve a musicalidade presente na mesma e qual a posição de Michael nela: “A família musical comandada pelo pai tirano e controlador perde sua porção mais genial”, referindo-se também ao momento em que Michael iniciou carreira solo.

A matéria cita ainda os importantes prêmios que o cantor recebeu ao longo de sua carreira, entre eles estão 12 Grammys, a maior e mais importante premiação da música mundial, e, ainda o prêmio especial de “Lenda do Grammy”, em 1993. Acontecimentos como estes ajudam a reforçar a imagem mítica e lendária do artista. Buscando a dupla natureza dos olimpianos, proposta por Morin (1997), o texto apresenta características geniais de Michael ao mesmo tempo em que o humanizam.

Foi o mais jovem e frágil membro da trupe, Michael, quem sustentou a família no show biz por mais de quatro décadas. Joe misturou violência, talento musical e um aguçado tino empresarial para criar o fenômeno pop. Michael, com talento artístico puro, não só sustentou a mística como transformou os Jackson em uma indústria bilionária. (ISTOÉ, p. 86, julho 2009)

Intervenções de Joe Jackson e de Michael permeiam a matéria, entre elas está o desabafo de Michael durante o evento no qual recebeu o prêmio de “Lenda do Grammy”, “não tinha Natal nem aniversário, não tive os prazeres de uma infância normal – eles foram substituídos por muito trabalho, esforço e dor”. Percebemos que a utilização desse depoimento tem o objetivo de criar subsidio para a sustentação da figura apresentada no texto. A matéria “O mundo encantado de Neverland” da conta das extravagâncias do artista que, também neste texto, é apresentado como “ícone pop”, “astro” e “ídolo”. O futuro do rancho de Michael é previsto na matéria como algo que também venha a reforçar sua figura de estrela, e mítica. “Com a sua morte, deverá ser venerado como um santuário pelos fãs do ícone pop”. Observa-se ainda que toda associação feita entre Michael e o rancho é pautada em superlativo. “Neverland estará para sempre associada a Michael Jackson e, para seus fãs, será o guardião da magia e do encanto que o astro pop irradiou

61 ao hipnotizar o mundo com sua dança e sua voz”. Mais uma vez temos a atribuição de magia e encanto ao artista. Em “O menino que não conseguia amar as mulheres” temos uma abordagem relativa à vida afetiva de Michael Jackson. Contudo, também nesta matéria os adjetivos referentes a Michael reforçam sua imagem de figura mítica, olimpiana e superlativa. “Astro pop”, “ídolo pop” e “astro negro” são as principais formas de referências ao cantor ao longo do texto. A segunda matéria que leva a assinatura de Ivan Cláudio é “O artista revolucionário”. Com foco na vida profissional do artista, ela também o estigmatiza como astro e mito. O trabalho de Michael é definido como perfeito, sejam suas músicas ou sua dança. A matéria afirma que, a partir de trabalhos como Billie Jean e Thriller “ele cravou seu nome definitivamente na história da música” e que “Michael Jackson era um gênio da música. O perfeccionismo de Michael é abordado na reportagem, o que é caracterizado como uma das origens da qualidade de seu trabalho. “Billie Jean é o melhor exemplo deste perfeccionismo”, exemplifica o jornalista. O cantor é apontado também como o revolucionário principal da música pop, a partir da fusão de pop e heavy metal na canção Beat it “abriu o pop para o cruzamento de ritmos, uma mestiçagem sonora que ainda está em processo”. Reforçando ainda mais a importância das criações do cantor para o universo musical e a sua figura mítica, temos o trecho: “Isso explica por que o desaparecimento de Michael Jackson deixou o meio musical estarrecido. Sem ele, a música ficou menor”.

A foto que ilustra a matéria é uma sequência do passo moonwalk, o mais famoso de Jackson. A legenda que a acompanha reforça o preciosismo do trabalho do cantor, e, ainda reforça sua postura lendária. “SEM GRAVIDADE Michael dança o “moonwalk”, que ensaiou muito para lançar “Billie Jean”, uma música perfeita de um disco perfeito”. Assinada pelas jornalistas Carina Rabelo e Luiza Villaméa, “Mente insana em corpo doente”, a reportagem aborda a dupla natureza olimpiana de Michael Jackson. Assim como define Morin (1997), o texto é iniciado com a apresentação dos dois lados do artista. “No palco, o personagem era ágil, flexível e irradiava energia. Essas características davam-lhe forças para encarar multidões. Na vida real, Michael Jackson enfrentava uma fragilidade física e emocional [...]”. A matéria aborda este lado contraditório de Michael em relação à sua postura nos palcos e como agia nos bastidores

62 e longe dos holofotes. Pode se observar que Michael é apresentado como uma personagem. Seguindo a proposta de Vilas Boas (2003) temos a história de vida do artista narrada pelo prisma da insanidade, haja vista o título. Lançando mão da forma mais abreviada de se narrar a história da personagem, temos uma análise acerca de episódios traumatizantes ocorridos com Michael ao longo de sua vida. Neste texto, Michael é apontado como uma vedete que aparenta viver em outro patamar da vida, pautado em bizarrices e surrealismo. A última matéria do especial é assinada por Elaine Lobato. “A fama mata” fala a respeito de como a vida sem limites das celebridades pode levar à morte, o falecimento de Michael Jackson é o ponto de partida do texto. A reportagem não explora aspectos profissionais ou pessoais da vida de Michael Jackson, revela apenas como a celebridade tem o poder de transformar por completo a vida do célebre, a ponto deste não saber como realizar ações banais do cotidiano. Tomemos como exemplo o trecho a seguir: “Michael Jackson só se sentia à vontade no palco. Dizia estar tão acostumado a andar com seguranças e assistentes que tremia se tivesse de abrir uma porta”.

Mesmo não sendo referente a aspectos diretamente relacionados à vida de Michael, são atribuídas características que reforçam a imagem mítica do cantor, como se percebe nas frases, “Para Goldim, Jackson provou quanto era poderoso quando decidiu mudar a própria genética, trocar de pele”. E em, “Ou seja, premissas que praticamente inexistem na vida de estrelas da grandeza de Michael Jackson”.

Além das matérias, dois infográficos compõem o especial, ocupando duas páginas. O primeiro deles “Ascensão”, como o próprio título sugere, traz as principais informações sobre os anos de sucesso absoluto do artista. Mostra ainda uma linha do tempo com a discografia do cantor e os números de vendas relativos a ela. Um pequeno resumo sobre a vida de Michael é apresentado na mesma página, esta é branca com letras pretas. O infográfico “Decadência”, com o nome escrito na parte inferior da página, traz informações acerca das transformações físicas de Michael, assim como os valores que ele perdeu em gastos materiais e despesas com a justiça. As excentricidades financeiras do cantor também são abordadas. O fundo da página é preto com letras brancas, o inverso da página onde está o infográfico sobre os momentos de glória de Michael.

63 Podemos interpretar que a cor preta liga-se ao luto e tristeza pela decadência e morte do cantor.

Para Scalzo (2004), os infográficos são considerados adendos informativos para as matérias impressas, ajudam a complementar e enriquecer os textos. Auxiliam também na interpretação dos fatos. Observa-se então, que estes dois gráficos ajudam na reflexão sobre o patamar financeiro e artístico alcançados por Michael. A partir de informações como “US$ 1 bilhão foi o quanto o astro faturou em três décadas de carreira” e “após 12 anos sem sair em turnê, Michael Jackson anunciou em março deste ano uma série de 50 shows em Londres para julho. 40 mil ingressos foram vendidos por hora”, a imagem mítica e superlativa do cantor é também reforçada pelos infográficos.

4.4 Três revistas, três coberturas A partir da análise realizada nas três revistas observamos que Istoé é a que mais contribui para a manutenção da figura mítica de Michael Jackson. Das três publicações estudadas, Istoé dedica 30 páginas de sua edição para tratar da morte de Michael, assim como outros temas relativos ao artista, o que por si só pode ser considerado como relevante, pois se trata de uma importante revista informativa, que abre mão de matérias sobre outros assuntos, para dar maior atenção ao artista. Ao longo dos textos, a

publicação é a que mais se refere ao cantor por adjetivos como astro, ídolo e gênio. Percebe-se que não há um afastamento crítico em relação ao fato.

Contudo, o texto de Luis Antonio Giron, na revista Época, é o que constrói de maneira mais elogiosa o trabalho de Michael. Considerando que o jornalista é especializado em jornalismo cultural, a obra de Michael é analisada com um olhar mais crítico e técnico. Mas, ainda assim é atribuído a ela, e também ao artista, o status de genialidade e preciosismo. A vida do artista não possui grande espaço na matéria de Giron, porém, quando citada, se faz de maneira cautelosa, sem a atribuição de adjetivos fortes, como se percebe na reportagem de Lizia Bydlowski, na revista Veja, que apresenta a vida de Michael como algo bizarro, problemático e esquisito, em todos os aspectos. Entretanto, o texto de Lizia também se refere a Michael como uma típica figura mítica e olimpiana.

64 As matérias de Veja também reforçam imagem mítica de Michael, porém, em vários momentos têm-se a sensação de o artista ser abordado como uma personagem fictícia. Em especial na matéria assinada por Lizia Bydlowski. Adjetivação e comparações também são atribuídas ao cantor, que é chamado de ídolo e astro. Contudo, comparando-se aos textos de Época e Istoé, a revista mantém o maior afastamento crítico e emocional perante o fato reportado, principalmente no que se refere à falta que o artista fará ao cenário musical e ao trabalho realizado por ele.

65 5 CONCLUSÃO Realizadas as análises de conteúdo, nas quais foram consideradas a construção textual e a presença da figura mítica, concluímos que as revistas estudadas reforçam a essência mítica de Michael Jackson na cobertura de sua morte. A análise realizada é qualitativa, pautando-se na avaliação de critérios de noticiabilidade, sensacionalismo, características dos textos de revistas, mitos, olimpianos e comparação entre as revistas.

Considerando os espaços dedicados, abordagens, jornalistas envolvidos, utilização de vocábulos, adjetivações e comparações as revistas apresentam aos leitores uma figura dotada de genialidade e essência mítica. Como afirma Morin (1997), a grande imprensa lança mão, com grande frequência, de tudo o que possa ser comovente, sensacional, excepcional. Tudo o que se refere à vida das vedetes, figuras olimpianas e mitos é transformado em espetáculo. É o que percebemos nas publicações analisadas, que trazem a morte de Michael Jackson como um grande evento de comoção e proporções mundiais.

A vida das figuras olimpianas e míticas é cercada pelo superlativo. Tudo o que se refere a elas é mostrado aos cidadãos comuns de maneira privilegiada e intensa. Casamentos, aniversários, festas e romances são abordados pelo prisma do hiper-realismo. Podemos observar que nas revistas analisadas, em especial em Istoé que traz uma cobertura mais aprofundada, estes acontecimentos na vida de Michael Jackson, são cercados de grandiosidade, sensacionalismo e espetacularização, o que reforça o status de mito, atribuído ao artista.

Seguindo a perspectiva de dupla natureza olimpiana, proposta por Morin (1997), observamos que as coberturas buscam a porção humana de Michael Jackson, à medida que relatam passagens de sua infância, relacionamento com os pais, anseios e medos. Contudo, é a figura sobre-humana e a essência mítica do artista que ganham mais espaço. O trabalho de Michael é elevado à genialidade, seu status de artista ao de “super astro” e “maior estrela de todos os tempos”. Em nenhum momento, e por nenhuma das revistas, Michael Jackson é comparado a cidadãos comuns. Sua vida e trabalho são comparados à de figuras como Elvis Presley, Frank Sinatra e John Lennon, todos também considerados mitos pela indústria cultural. A grande imprensa, de acordo com

66 Morin (1997), mergulha na vida de suas vedetes com o objetivo de extrair dela a essência humana que irá proporcionar a identificação do público, temos um pequeno aprofundamento na vida particular de Michael, porém, mesmo neste quesito o artista é mostrado de forma superlativa e extraordinária. Como por exemplo, o nascimento de seus filhos é explorado pelo prisma da bizarrice. O filho caçula do artista é fruto de inseminação artificial, isso é mostrado como algo excêntrico e questionável. Assim como suas relações afetivas e casamentos.

Para Eliade (1972), a mass media impõe à coletividade estruturas e comportamentos míticos. Alguns destes comportamentos são reconhecidos e considerados características da sociedade moderna, apresentam-se como a tradução do desejo obscuro de transcender os limites da condição humana. Observa-se de maneira que geral que as revistas analisadas reforçam estes comportamentos e estruturas míticas que cercam a figura de Michael Jackson. Frases como “No momento de sua morte, contudo, voltou a ser o que foi na maior parte da vida: um ícone” (Veja); “Michael passou de anjo a monstro, mas a história deverá lhe dar o status de gênio” (Época) e “O destino quis-lhe mito” (Istoé) são exemplos cruciais de que as publicações, na cobertura da morte, reforçam a imagem de mito atribuída a Michael Jackson ao longo de sua carreira.

67 REFERÊNCIAS ARBEX Jr., José. Showrnalismo: a notícia como espetáculo. São Paulo: Casa Amarela, 2002. ARMSTRONG, Karen. A grande transformação ocidental in Breve História do Mito. Tradução Celso Nogueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. PIRES, Maria Helena Pires. Filosofando, uma introdução à filosofia, 3. ed. São Paulo: editora Moderna, 2003. BARTHES, Roland. Mitologias. Tradução de Rita Buongermino, Pedro de Souza. São Paulo: Difel, 1993. BUCCI, Eugênio. Sobre ética e imprensa. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. CAMPBELL, Joseph. O poder do mito com Bill Moyers. Tradução de Carlos Felipe Moisés. São Paulo: Palas Athena, 1990. CASTORIADIS, Cornelius. A instituição imaginária da sociedade. 5. ed. Tradução de Guy Reynaud. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2000. COIMBRA, Oswaldo. O texto da reportagem impressa: um curso sobre sua estrutura. São Paulo: Ática, 1993. CUNHA, José Auri. Filosofia, iniciação à investigação filosófica. São Paulo: Atual Editora, 1992. ELIADE, Mircea. Mito e realidade. Tradução Pola Civelli, São Paulo: Perspectiva, 1972. LAGE, Nilson. A estrutura da notícia. 5. ed. São Paulo: Editora Ática,2000. MORIN, Edgar. Cultura de Massas no Século XX, Volume I: Neurose. Tradução de Maura Ribeiro Sardinha, Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1997. PIZA, Daniel. Jornalismo Cultural. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2004. SÓDRE, Muniz. FERRARI, Maria Helena. Técnica de reportagem: notas sobre a narrativa jornalística. São Paulo: Summus, 1986. SCALZO, Marília. Jornalismo de revista. São Paulo: Contexto, 2004. TÁVOLA, Artur da. A notícia como espetáculo hiper-real. Barcelona, 1993. Disponível em < http://www.dubitoergosum.xpg.com.br/a314.htm>. Acesso em: 12/11/2010. TRAQUINA, Nelson. Teorias do jornalismo, Vol. II. A tribo jornalística – uma comunidade interpretativa transnacional. Florianópolis: Insular, 2005. VILAS BOAS, Sérgio. O estilo magazine. São Paulo: Summus, 1996.

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VILAS BOAS, Sérgio. Perfis e como escrevê-los. São Paulo: Summus, 2003. WOLF, Mauro. Teorias da comunicação. Lisboa: Editora Presença, 1995.

69 LISTA DE FIGURAS Figura 01 – Revista Época, edição 580, junho 2009. Figura 02 – Revista Veja, edição 2119, julho 2009. Figura 03 – Revista Istoé, edição 2068, julho 2009.

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