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eS.

))
Estamos convencidosde que pensar
criticamente nossa experiência
universitáriaé a melhorformade
comemorar os 50 Anos da Universidade

federal de Santa Catarina(UFSC). Os


textos que aqui publicamos estão,
portanto, dirigidos a revirar a função da
universidade na formação social brasileira
cujas características mais proeminentes
são a dependência
eo CRÍTICA À RAZÃO ACADÊMICA
subdesenvolvimento

Este livroé umconviteà superaçãodo


conformismo acadêmico, marca registrada
das instituiçõesde ensino superior no
Brasil, que ainda se recusam a atuar
decididamente na descolonização do saber

Pensar os 50 Anos da UFSC é parte do


esforço de reflexão sobre a universidade
brasileira, bem como sobre a experiência
deoutrospaíses,todosenvolvidosna luta
entre manter suas instituições cativas dos
nteresses da classe dominanteou abri-las
ao desafio de romper com três séculos de
colonialismo
e doisdedependência.

A UFSC não pode submeter-se ao destino


de ser mera reprodutora das limitações da
universidade brasileira. E preciso
abandonara sua subordinação
ao que
provincianamentechamamosde 'grandes
centros'

0 primeiro passo, de que este livro é


expressão, consiste em revelar e analisar
os mecanismos que têm reduzido a
Universidade - uma boa ideia - apenas a
uma imagem rarefeita de sua promessa.
W/aldirJosé Rampinelli
Nildo Ouriques
organizadores

CRÍTICA À RAZÃO ACADÊMICA


REFLEXÃO SOBRE A UNIVERSIDADE CONTEMPORÂNEA

Florianópolis

EOiTOnal1l INSUI.Ae
201 1
Z.S3 b 21'
5c..n .t 3 'ls''"»
Editora Insular
CRÍTICA À RAZÃO ACADÊMICA
REFLEXÃO SOBRE A UNIVERSIDADE CONTEMPORÂNEA

© Waldir José Rampinellie Nildo Ouriques 201 1

Editor
Neboz Rolam de Moura
)UISlçAO
àUQuiKiDO Planejamento gráfico
Cardos Sertão

17. 07. 2012 Revisão


Ra qml Moysés

[Ü/:.
) lilli) Capa
Ç:E:: iST?0. deu M. Mastins

:Ü =1.0Ü:CÍsll;l)i3i;éii!$ié'' ql;5#:?Zacapa(www.sxc.hu)
Maurício Redes (capa) e Petr Kouar (contracapa)

Crítica à Razão Acadêmica Reflexão sobre a universidade


contemporânea / Waldir José Rampinelli e Nildo Ouriques.
Florianópolis : Insular, 201 1

c 9'Sq '224 P. A todos que deram o melhor


de suas vidas em defesade uma
ISBN 978-85-7474-576-3
universidade pública, gratuita,
1. Educação Superior Instituições de educaçãosuperior. popular, descolonizada e de
1. Título qualidade, pensando sempre na
emancipação de seu povo.
CDD 378

Editora Insular Ltda.


Rodovia João Pauta. 226 -- Bairro Jogo Paulo
CEP 88080la800 Florianópolis -- Santa Catarina Brasil
Fine/fax: O++48 3232 9591 e $334-2729
editora(@insular.com.br wwwinsular.com.br http:// twitter.com/Editoralnsular
SUMÁKiO

APRESENTAÇÃO

A LIBERDADE SACRIFICADA

Fábio L(»es da Situa

0 ESTADO ANUAL DA EDUCAÇÃO SUPERIOR


NOS ESTADOS UNIDOS

Frank Donoghue

A DEMOCRACIA NA UNIVERSIDADE BRASILEIRA


SIMULACRO OU ARREMEDO?

Matdir Josê Rampinelti

CIÊNCIA E PÓS-GRADUAÇÃO NA UNIVERSIDADE BRASILEIRA


C,,7s
Nildo Ouriques

109 A APROPRIAÇÃOPRIVADA DA UNIVERSIDADE PÚBLICA


- AS FUNDAÇOES PRIVADAS DITAS DE APOIO
Cito TeileiraCorreia

137 A UNIVERSIDADE E OS TÉCNICOS-ADMINISTRATIVOS


UMA TENSÃO PERMANENTE
Elaine Tapares

165 MOVIMENTO DOCENTE NA UFSC OS LONGOS ANOS OITENTA

Cêlio Espíndola e Marli .auras

213 A DELINQUÊNCIA ACADÉMICA


Entrevista com Mzzz/rl'czo
7 untezóerg

22 1 SOBRE OS AUTORES
A PRESENTE r''Ã n

A Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) completou


50 anos de existência em 2010. Este acontecimentomotivou uma
reflexão sobre a universidade brasileira a partir de nossa pequena
experiênciade cinco décadas. Por isso, organizamos o livro Crífz-
cz à Razão ..4cadZmzra.
Na verdade, a existência da universidade no
Brasil é breve mesmo quando comparada com outros países latino-
americanos como o Pera ou o México, que possuem instituições com
praticamente cinco séculos de história. Para nós, configura-se algo
semelhanteao que Léon Trotsky chamou, em outra circunstância,
de "o privilégio do atraso", ou seja, podemos observar como a UFSC
tenta seguir na senda aberta pela experiência universitária paulis-
ta sem dar-se conta dos graves problemas do prometo"nacional" em
curso. Consequentemente, podemos ver todas as virtudes e vícios da
expansão da universidade brasileira a partir de nossa própria e breve
trajetória. Este livro é, portanto, uma reflexão sobre a universida-
de no país a partir de nossa juventude comum, tratando-se de uma
análise sobre a história que faremos "a contrapelo", isto é, remando
contra a maré.
O objetivo do livro é também mostrar a função social da univer-
sidade pública na sociedade brasileira. Para compreender a universi-
dade do presente nada melhor do que entender a do passado, abrindo
uma perspectiva para o futuro, tal como preconizou Marc Bloch. A
realidade brasileira, marcada pelo desenvolvimento de um capitalis-
mo dependente, não tem recebido das universidades públicas grandes
aportes teóricos para superar essa condição de exploração. O Estado
brasileiro -- e o pacto de classe que o sustenta aceitou sem reparos a
política do Banco Internacional para a Reconstrução e o Desenvolvi-
mento (BIRD) -- mais conhecido como Banco Mundial --, ao adotar, a
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Waldir José Rampinelli e Nildo Ouriques
(Organizadores)
r Crítica à Razão Acadêmica
Reflexão sol)re a universidade contempol'ânea

partir da década de 1980, a estratégia de estabelecer políticas educa- gimento de uma intelectualidade brasileira e latino-americana que
cionais no ensino superior. Esta política nada mais üez do que passar discutia intensamente suas ideias, trabalhava em conjunto e travava
aos economistas a tarefa de estabelecer para a educação nacional o seu polêmicas acaloradas. Vários deles ocuparam altos postos na buro-
enquadramento conceptual e metodológico, necessários na concreti- cracia do Estado e posições de poder, como Darcy Ribeiro e Celso
zaçãodas reformas neoliberaispara reproduzir, de maneira ampliada, Furtado, no governo nacional-popular de João Goulart. Para Marini,
a dependência e o subdesenvolvimento. A universidade, em vez de se 'a comparação desse extraordinário florescimento intelectual com a
tornar um centro de criação do pensamentocrítico, uma arma im- pobreza teórica e o formalismo acadêmico que marcam hoje a refle-
portante para promover a revolução nacional, estabeleceu prioridades xão cientíHlcasobre a nossa realidade provoca perplexidade. Como
no terreno da produção da ciência, do conhecimentoe da tecnologia perplexos ficamos também quando confrontamos a originalidade e
que terminaram por fortalecer ainda mais nossa condição periférica. E liberdade de criação próprias daquela época com a subordinação atual
nossos alunos -- da graduação ao doutorado -- limitaram-se, na maio- do nosso pensamento aos padrões norte-americanos e europeus. Essa
ria dos casos, em funcionar como reserva de mão de obra para as em- reversão de tendências, essa anemia da capacidade criadora, essa vol-
presas nacionais e multinacionais. Enfim, embora a luta para manter ta ao colonialismo cultural refletem, de certo modo, em boa medida,
seu caráter público e gratuito sempre 6oie, tudo indica, seguirá sendo a estagnação económica e a desagregação social que a última década
necessária,devemosadvertir para o fato de que, a despeitode seu [re6ere--seaos anos 1980] representou para a América Latina
caráter público ou privado, a verdade é que a universidade brasileira O diagnóstico certeiro não impediu que a Marina Ihe escapasse
está longe de cumprir as funções que uma instituição como esta re- um dado relevante: se a regressão colonial marcou a vida universitá-
quer nas sociedades dependentes, marcadas pela imensa desigualdade ria em períodos de estagnação económica e desagregação social, como
e pela grande submissão ao imperialismo. de fato ocorreu em décadaspassadas, ela não âoi menor em períodos
de prosperidade económica e certa "bonança 6lnanceira" do Estado
Nem sempre Éoiassim, é preciso dizer. Sem intenção de idealizar
o passado recente, não podemos negar o contraste entre os dias que latino-americano. Agora, um período em que as greves de professores
vivemos e as décadas de 1950, 1960e 1970, que elucida de maneira universitários desapareceram -- estamos, de bato, há cinco anos sem
clara o avanço sem precedentes das ciências sociais na América Lati- uma delas -- prosperou no campus o colonialismo cultural de maneira
na. O resultado foi uma produção de obras significativas no campo da sem precedentes. Desta forma, verifica-se, mesmo aos olhos do ana-
literatura económica, sociológica, historiográHlca e política. Segundo lista pouco atento, que grande parte de nossas misérias intelectuais
Ruy Mauro Marini, vários fatores motivaram esse auge das ciências não são produto exclusivamentedas limitações económicastípicas
sociais, entre eles a instabilidade que caracterizava a vida política de um país dependente;ao contrário, nossa miséria económica é um
regional por conta das ditaduras de segurança nacional; a expansão produto necessário de nossa dependência e do colonialismo cultural
económica regional com a destilação de recursos significativos para consolidado em 500 anos de domínio e exploração. Da mesma forma,
as universidades públicas e os centros de pesquisa; por ülm, o cres- 6oiprecisamente neste período recente de "bonança económica", mo-
cimento de ordem quantitativa e qualitativa das ciências humanas, mento em que a "política de austeridade fiscal" arrefeceu, e que alguns
com o predomínio da temática do desenvolvimentoe do subdesen- tostões adicionais coram destinados às universidades, que a vida inte-
volvimento. Além desses fatores, surgiram assuntos cruciais: quais lectual não melhorou no interior de nossas instituições. Há, inclusive,
as causas de nosso subdesenvolvimento; que obstáculos superar para fundadas razões para afirmar que regrediu. Um dos fatores prepon-
nos desenvolver; que tipo de desenvolvimento seria viável e desejável l MARINI, Ruy Mauro. América Latina dependência e integração. São Paulo
para a América Latina? O resultado de todo esse debatefoi o sur- Editora Brasil Urgente, 1992,p. 67-68.
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Waldir José Rampinelli e Nildo Ouriques
(Organizadores)
r Crítica à Razão Acadêmica
Reflexão sobre a universidade contempol'ânea

derantes que impediramo surgimento de melhor clima intelectual cientes; ademais, surgiram as condições políticas, económicas, cultu-
6oia consolidação de uma "mentalidade e um comportamento acadê- rais e psico-sociais para a crítica social. A propósito, é bom lembrar
mico", que terminaram por dominar a cena universitária. Mistura de que não existe a menor possibilidade de legitimação social da univer-
autocomplacência, esnobismo de classe e indiferença aos problemas sidade brasileira se a instituição não se abrir para este tempo novo,
da grande maioria de nosso povo, o mundo acadêmicopareceviver cultivado nas ondas da crise contemporânea que uma parte ainda
em Paras ou Los Angeles. Sem os conhecidos distúrbios que também insiste em ignorar. A universidade, tal qual se apresenta, jamais re-
lá se manifestam, claro está. Enfim, os acadêmicos venceram? Impõe- ceberá aceitação social da maioria da população e em consequência
se a crítica ao academicismol não poderá cumprir sua função de efetiva casa do saber. Limitar-se-á
Nossa sociedade se ressente de intelectuais que tornem públicos à triste condição de uma instituição servil à classe dominante e ex-
e elucidem de maneira dialética e crítica os conflitos impostos pelo clusivamente funcional à ordem burguesa.
sistema capitalista. Na verdade, necessitamos atualizar a importân- Neste contexto, se o prometoacadêmicoem curso permanecer
cia do intelectual público que Éoiderrotado, para a desgraça de nos- sem a necessária crítica, que deve começar por nós mesmos, a cada
sas universidades, pela aparição da medíocre Figura "acadêmico' dia que passa a "universidade necessária", reclamada por Darcy Ri-
uma mistura de fetiche e impostura, que lamentavelmente marca o beiro, se afastará como possibilidade histórica. A renúncia voluntária
comportamentoda maior parte da vida universitária. Pala Edward à crítica social, ao Estado e suas instituições deve, portanto, começar
Said, um dos intelectuais que se ocupou do tema, é preciso desafiar pela crítica à universidade que atualmente temos. A atitude compla-
e derrotar tanto um silêncioquanto uma quietude normalizada do cente que hoje domina o campus e que marca a carreira da grande
poder invisível. Superar o estadode 7mdoque toma conta das pessoas, maioria dos professores é nociva para a construção de uma universi-
principalmentedentro dos ca7nPz universitários.Aqui, nos trópicos, dadevital para o Brasil e a América Latina. É verdade que ainda esta-
6oi Milton Santos que alertou para o fato de que "a universidade é mos distantes de um novo horizonte em nosso país, mas não podere-
talvez a única instituição que pode sobreviver apenas se aceitar críti- mos mais ignorar que grandes transformações se aproximam e que o
cas, de dentro dela própria, de uma ou outra forma. Se a universidade Brasil não poderá evita-las. Este livro pretende ser uma contribuição
pede aos seus participantes que se caiem, ela está se condenando ao para que as possibilidades abertas pela crise global não se frustrem
silêncio, isto é, à morte, pois seu destino é falar". Medo? Afinal, o e que ajudem a um despertar no campus universitário, este mesmo
que temem nossos professores? Acaso estamos diante de uma amea- despertar cujas vozes vindas das ruas já se podem ouvir.
ça ao pensamentolivre e crítico? Alguém solicitou, ou recomendou, Todos os autores aqui reunidos possuem atividade intelectual
como norma de comportamento intelectual e político, a prudência? e militante na universidade brasileira. Convidamos o estadunidense
Há registro de que a conduta orientada pela crítica e pelo rigor con- Frank Donoghue porque é necessário observar com atenção as mu-
ceptuallevaria à demissão de algum professor nos tempos recentes? danças nas universidades dos Estados Unidos, quase sempre objeto
Ninguém hoje poderia aülrmar que tal ameaça existe e muito menos de adoração por parte da consciência ingênua que orienta a atividade
que há determinações superiores para a cautela, o silêncio e mesmo o universitária na periferia capitalista latino-americana e, especialmen-
te, no Brasil.
temor que orientam a conduta de muitos professoresl Ao contrário,
é notório, diante da erupção da crise capitalista mundial, que a socie- A maior parte dos textos que compõe o livro foi escrita e debati-
dade brasileira está solicitando um novo tipo de comportamento do da entre os seus autores. Desse modo, construiu-se um trabalho co-
professor universitário, pois as respostas "acadêmicas" aos grandes letivo que pretende agora chegar a um público maior. O livro conclui
problemas da sociedade contemporânea são evidentemente insuHl- com uma entrevista de Maurício Tragtenberg, intelectual crítico que
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Waldir José Rampinelli e Nildo Ottriques
IOi'ganizaclores)
r
passou sua vida nas universidades e que percebeu precocemente o A LIBERDADE SACRIFICADA
surgimento de uma séria ameaçasobre a vida universitária.
Agradecemos àjornalista Raquel Moysés que gratuita e pacien'
temente revisou todos os capítulos deste livro. A Tadeu M. Martins Fábio Lq)es da Silua+
pela elaboração da arte e da capa. À Beatriz Tragtenberg, pela per-
missão da publicação da entrevista de Maurício e, ülnalmente, aos
autores pelo esforço em elaborar os textos e pela disposição em sub- Pala KanauiltilRajag(»alar
metê-los à discussão coletiva.

Wãdir José Rampinellie Nildo Ouriques Bom é o Ócio. Ruim é a negação do ócio,
(Organizadores) ou negócio. Pior é o sacrifício do ócio,
ou sacerdócio.
Oswald de .4ndrade

Costumamosatribuir as crises à falta de


condições, de tranquilidade, de saúde, etc.
Geralmente é apenas falta de coragem.
GKido Wzimar Sass{

O rei da Prússia está morto? yi'ua o presidenü da Capas


Kant não 6oi condenado a tomar cicuta. Em compensação, rece-
beu do rei da Prússia uma carta muito pouco amigável em que era
instadoa recordar-sede seus compromissoscom a Coroa e com a
formação adequada da juventude.
Mais de cento e cinquenta anos depois, é Jacques Derrida quem,
comentando o episódio, faz a pergunta crucial: "Quantos de n6s, na
IJniversidade, não desejaríamos receber uma carta do rei da Prússia?"
As cartas que nos chegam provêm, entretanto, de remetentes
bem mais modestos.Na melhor das hipóteses,trazem a assinatura
-- âotocopiada dos dirigentes das chamadas agências Hlnanciadoras.
É verdade que o tom delas é solene e peremptório, como se os seus
# Professor da Universidade Federal de Santa Catarina

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\MaldizJosé Rainpinelli.e Nildo Ouriques
(Organizadores)
r' Reflexão sobre a universidade contemporânea

pedaçavam entre traças e mofo, como se fossem uma relíquia arqueo-

". ':;==::==UTU'=:':

questão é o que fazer dela.

quena sssa perguntxtcair. eço por uma pe 17


Waldir José Ralnpinelli e Nildo Ouriques
Organizadores)

Em um curso recente na p6s-graduação, várias aulas foram can-


celadas devido a feriados e viagens acadêmicas que realizei. Foi ne-
r Reflexão sobre a universidade contemporânea

naria da erudição inútil", os linguistas brasileiros decidemdedicar-se


a teorias mais prestigiadas, como a que leva a assinatura de Noam
cessário, por isso, decidir com os alunos o que fazer para compensar Chomsky.
as perdas. A certa altura, uma jovem pediu a palavra e sugeriu que a
Obsessão pelo descompasso
parte final do programa fosse compactada, uma vez que abordava a
obra de Ferdinand de Saussure, um autor que, segundo ela, "ninguém O caso dos chomskianos é, aliás, exemplar. A adesão ao grupo
com ramificações no mundo inteiro -- significa, para os mais sin-
mais precisa ler'
Ora, será sempre possível atribuir a observação da aluna ao fato gelos, a possibilidade de participar do sonho internacionalista em
de que se tratava de uma neóüitana área, com formação insuficien- que brasileiros, coreanos e quiçá javaneses depositariam o seu tilo-
temente sólida para avaliar a grandeza de alguém que, a par de sua linho na construção do grande edifício da teoria, Na prática, entre-
tanto. a história é bem outra. Dada a avassaladora velocidade com
importância histórica, coloca questões que, ainda hoje, constrangem
que a bibliogranla na área cresce nos grandes centros, cabe à periferia
qualquer reflexão consequente sobre a linguagem. De minha parte,
ingressar em uma maratona patética em que, por mais que se leia,
prefiro, entretanto, arriscar uma outra hipótese.E para enuncia-la,
permanece-se sempre uns dois anos atrasado em relação ao que real-
vou repetir o que, em debaterecente na imprensa,Mana Sylvia de
Carvalho Franco disse a seu contendor, José Aníbal, então Secretário mente importa discutir.
de Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo: "Nada como um Pois bem: já ouço meus críticos dizendo que esse atraso poderia
funcionário menor da burocracia para expressar aquilo que, por po- ser suprimido com mais investimentos, a começar pelo tão reivindi-
cado robustecimento contínuo do acervo das bibliotecas.
lidez ou esperteza, os seus superiores ocultam.'
Pode ser -- mas um tal raciocínio não leva em conta o fato de que,
Temo, enfim, que a opinião da aluna sobre Saussure simples-
mente manifeste, com a crueza necessária, algo que habita os cora- a rigor, não é só de um atraso científico que se trata. Não é o caso,
enülm,de se dizer, sem mais, que, na cena acadêmica internacional, há
ções e mentes de grande parte dos linguistas contemporâneos, mes
os líderes e os retardatários, como se os primeiros ülzessema sua par-
semblaóZes.Para eles, um campo tão incerto quanto a linguística -- de
resto, escaldado pelo fracasso do positivismo estruturalista deve, te, enquanto os demais, por razões diversas, não tivessem a mesma
no entanto, ser organizado como uma ciência submetida,commezJ sorte ou a mesma competência. Ora, o que está emjogo é, na verdade,
Jazz/, ao progresso no sentido popperiano do termo. E nestas para' uma relação de poder, em que os ditos líderes escapam ' de certo
modo, deliberadamente dos que, em vão, tentam segui-los. Mano
bens, quem diz ciência certamente atribui a si e a seus alunos um
lugar na chamada ciência normal, isto é, aquele trabalho operário Perini parece tê-lo percebido: chomskiano muito bem posicionado na
que consiste em aplicar e estender teorias desenvolvidas alhures "a hierarquia acadêmica brasileira, o linguista mineiro, contudo, sim-
parte mais cacete" da tarefa intelectual, no dizer de Paul Feyerabend. plesmente abdicou de seu posto sob a alegação -- irretocável -- de que
não tinha mais disposição para seguir o rastro das infindáveis infle-
Daí Saussure estar a um passo do esquecimento: segundo essa
xões teóricas de Chomsky. Quem tiver ouvidos ouça: o que Perini não
compreeensão,o mestre genebrino é, quando muito, um sáurio mag-
nífico que dominou o mundo e depois desapareceu, deixando em seu suportava mais era a "obsessão pelo descompasso", para utilizar a
lugar ossadas que apreciamoscom pasmo passageiro em um canto excelenteexpressão com que Alfredo Bosi caracterizou a mais típica
sensibilidade colonizada.
qualquer do Museu de História Natural da Linguística.
Enquanto Saussure é posto para dormir e passa a ser cultuado Notazinha irresistível: Chomsky é um ativista político estupen-
apenas pelo que Foucault chamou de "calorosa e terna franco-maço- do, além de um brilhante Hllósoâoe historiador da ciência. Custa-me,
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Crítica à Razão Acadêmica
Waldir José Rampinelli e Nildo Ouriques
Organizadores) Reflexão sobre a universidade contemporânea

nesse sentido, entender como os chomskianos podem ignorar essa Já os negociatassão obviamenteFortimbras:os que aproveitama
parte importantíssima de sua obra para aterrar-se àquilo que ela tem ocasião para liquidar a natura. Mas esses neo-Fortimbras são ainda
de mais estéril: o formalismo com que o autor tenta capturar o que mais espertos do que o original. Afinal, não se limitam a apenas ti-
ele chama de Gramática Universal. Em tempo: é o próprio Chomsky rar proveito das trapalhadas de Hamlet. Em acréscimo, em face do
-- e não este humilde üi16sofomunicipal quem reconhece a esterili- juízo hamletianode que a Dinamarca é uma podridão só, aduzem
dade de sua pesquisa linguística: sem nenhum escrúpulo: "É isso mesmo. A podridão está por toda
parte, de modo que uma maçã podre a mais não faz a menor diferen-
Claramente, uma abordagem naturalista não exclui outros modos
de tentar compreender o mundo. Alguém comprometido com essa ça. Posso ser podre também". Com toda boa-fé tão característica dos
abordagem pode consistentemente crer (eu creio) que podemos que se prestam à servidão voluntária, os nossos pequenos príncipes
aprender muito mais coisas de interesse humano sobre como as oferecem, assim, o álibi perfeito para que os negocistas possam re-
pessoas sentem, pensam e agem através da leitura de romances ou petir a famosa fórmula dostoievskiana:"Se Deus não existe, tudo é
estudando história ou as atividades da vida ordinária do que através permitido". Portas abertas para a bandalheira de costume: incansável
da psicologia naturalista, e provavelmente sempre será assim. proliferação de cursos pagos, alegre oferecimentode consultorias re-
Seja como üor, os chomskianos têm a favor de si pelo menos muneradas, crescimento desregrado de fundações nos czz7nP}.

a circunstância atenuantede que a servidão voluntária se reporta Sacerdotes, por razões óbvias, são eunucos. Mas eunucos são
a um nome cujo prestígio internacional mantém-seinabalado por também os negocistas, pois, no fundo, eles estão obrigados a repetir a
quatro décadas. Muito pior parece ser o caso de colegas que se sen- miserável confissão daquele personagem do Rez da He/aque diz: "Sim,
tem obrigados a citar os truísmos e as extravagâncias chanceladas eu sei que sou apenas um feitor do capitalismo internacional. Mas é
por meia dúzia de autores momentaneamente em alta no mercado isso que permite ter essa ilha, essa lancha e você, Heloísa.
acadêmico.
,4 Liberdade como valor supremo
Deus não existe, tudo épermitido No tempo das vacas magras, há uns vinte e cinco anos, o escritor
Oswald de Andrade acreditava que o sacerdócio -- a servidão vo- Paulo Lins dividiu com meu ex-sogro um pequeno apartamento em
luntária é coisa ainda mais desprezível do que o negócio, a negação Cidade de Deus, o conjunto habitacional que deu nome ao seu fes-
do ócio. Quanto a mim, no que se refere à universidadebrasileira, tejado romance, depois transformado em sucesso de bilheteria nos
sinceramente não sei decidir qual das duas condutas é a mais per- cinemas.
niciosa, até porque, como tentarei mostrar, elas, no fundo, são irmãs Os colegas de apartamento formavam uma dupla improvável:
siamesas. Se não, vejamos. Lins na época, umjovem aspirante a escritor passava horas lendo
Na tragédia de Hamlet, é l;'ortimbras, o rei da Noruega, quem, avidamente; já meu ex-sogro, aos cinquenta e poucos anos, era um
ao Hime ao cabo, abocanha o espólio de que o príncipe da Dinamarca motorista de praça absolutamente viciado em trabalho.
não soube apossar-se. Um, diante de um pai que Ihe fecha os olhos, Sem papas na língua, este último não escondia sua opinião sobre
despreza o que deveria tomar como seu; o outro, de fininho, avança o fato de o outro estar sempre estendidono sofá com um livro nas
sobre o reino amaldiçoado por seu legítimo herdeiro. Ora, não é essa mãos.
uma cena conhecidanos corredores da Universidade? -- Trabalhando, Paulo? perguntava invariavelmente o velho
Os sacerdotes --já o vimos em parte são Hamlet: devotam-sea Adonias. cheio de ironia.
um pai inalcançável ao mesmo tempo em que choram a sua condição. É isso aí respondia Paulo sem interromper a leitura.
20 21
\MaldizJosé Rampinelli e Nildo Ouriques
(Oi'ganizadores)

O taxista, então, balançava a cabeça e desfechava o que acredita- 0 ESTADO ANUAL DA EDUCAÇÃO
va ser seu tiro de misericórdia: SUPERIOR NOS ESTADOS UNIDOS
-- O homem trabalha deitado.
Paulo Lins que vim a conhecer muito tempo depois -- contou- Frank Donoghue+
me essa passagem, acrescentando que, com seu comentário sardó-
nico, meu ex-sogro, na verdade, salvou-lhe a vida. É que, nos piores
momentos, só com uns trocados no bolso, ele encontrava na ironia
do velho Adonias um motivo para se regozijar: "Estou ferrado, sim,
mas trabalho deitados..'
O fator mais importante para se levar em consideração ao anali-
Ora, assim contada, essa pequena história encerra uma sabedo- sar a educação superior nos Estados Unidos é reconhecer que ela não
ria incrível. Trabalhar deitado, mesmo que com a conta zerada no é uma instituição única, ao contrário, tem sido uma variedade de ins-
banco: eis, sem dúvida, a metáfora perfeita para o exercício da liber- tituições por mais de um século. Assim, o principal propósito de meu
dade possível como valor supremo. ensaio será levar meus leitores a conhecer a extratificada diversidade
Ainda não sou santo o suficiente para fazer o elogio da vida de faculdades e universidades que constituem a educação superior no
simples,embora, se o nlzesse,não estaria mal acompanhado:seres país. Essa diversi6lcaçãoé uma função da história, assim é essencial
humanos da melhor qualidade, como São Francisco de Assis e Pies que eu comece olhando para os marcos do passadoda educação su-
Paolo Pasolini defenderam despudoradamente a opção pela pobreza perior da América antes de passar a avaliar seu presente ideológico,
("coisa bem diferente da miséria", frisava, aliás, Pasolini). Em todo político e social.
caso, incluo-me entre aqueles que não estão dispostos a sacrificar a Até a Guerra Civil Americana(1861-- 1865),as faculdadesno
liberdade possível em nome do dinheiro ou de qualquer outro valor. país eram essencialmente uma entidade. Elas compartilhavam um
No ambiente universitário, como indiquei várias vezes neste en- currículo uniforme, com ênfaseem línguas clássicas, eram muito pe-
saio, alguma.liberdadeainda pulsa entre nós. É preciso defendê-la quenas e atendiam exclusivamente a uma clientela masculina rica
-- dos sucessivos governos; da barbárie que nos sitia; dos negocistas que aspirava principalmente à carreira eclesiástica. Por exemplo, du-
e sacerdotes, esses desertores, diria Augusto Abelaira. rante a presidênciade John Leverett (1708-1724), a Universidade
E preciso, sim, defender essa alguma liberdade de que dispomos. de Harvard formou somente 531 alunos, mais da metade dos quais
No entanto, não se trata aí de nenhuma ação corporativa. Estou con-
seguiu carreiras no clero.i
vencido de que a preservação da liberdade é a única maneira de nos A Guerra Civil mudou dramática e permanentemente a paisa-
tornarmos cortes -- simbolicamente cortes, bem entendido. E cortes
gem, introduzindo, e mais tarde estabelecendo,um tipo de faculdade
para quê? Para exigir melhores salários, se quiserem. Mas cortes so- totalmente novo e diferente, o qual então coexistiu com as faculdades
bretudo para multiplicar entre nós e para além de n6s a mensagem tradicionais tais como Harvard e Princeton. As circunstâncias desse
da liberdade como valor supremo. Essa é a melhor lição que, como
professores, temos a dar.
'k Professor de Inglês, Ohio State University. Columbus, OH 43210-1$70U.S.A.
donoghuel.l@osu.edu
Tradução: Samuel Cruz, PhD Candidate Spanish and Portuguese Department, Ohio
Skate University
l Josiah Quincy.The History of Harvard University, vol. i(Cambridge: John Owen,
1840), 192
23
Waldir José Rampinelli e Nildo Ouriques Crítica à Razão Acadênlica
(Organizadores) Reflexão sobre a universidade contempol'ânea

desenvolvimento se afastaram bastante da memória popular, mas são ma de oficiais. O novo Decreto Morrill foi esmagadoramente aprova-
fascinantes e vale muito a pena recontá-las. Tudo começou com uma do e a lei foi assinada pelo recém eleito Presidente Lincoln em 1862.
emenda proposta em 1857 por Justin Morrill, um congressista do Dessa forma, nascia uma nova espécie de ensino superior.
estado de Vermont. A emenda solicitou ao governo federal a criação, Obviamente em 1862 ninguém poderia ter imaginado a escala
em cada estado, de uma universidade pública que teria terras cedidas ou a duração da Guerra Civil, então as universidades voltadas à prá-
pelo governo e que se especializada no ensino de ciências agrícolas tica de Morrill existiram somente em teoria até o üim dos anos 1860
e mecânicas. Ou seja, essas novas faculdades ofereceriam um currí- e 1870. Entretanto, quando elas tomaram forma, tornaram-se, em
culo fundamentalmente diferente em relação aos já existentes e com questão de poucas gerações, a espinha dorsal da educação superior
orientação profissional. dos Estados Unidos e, entre as universidades de regime quadrianu-
Infelizmente o momento para a emenda não 6oibom: os estados al, assim permanecem hoje. As universidade estaduais atualmente
do Sul, cautelosos de qualquer invasão do governo federal à sua au- educam 4,7 milhões (dos 18 milhões) de estudantes universitários no
tonomia (uma das origens dos conflitos da guerra civil que se aproxi- país e têm 20 milhões de ex-alunos.3
mava), se opuseram à emenda. Assim, enquanto ela passou apertada Sutis, mas signinlcativas,algumas mudanças alteraram a pai-
tanto na Câmara dos Deputados como no Senado, o Presidente Bu- sagem da educaçãosuperior dos Estados Unidos no fim do século
chanan a vetou no interesse do apaziguamento do Sul e da preserva- dezenove e início do século vinte, principalmente a relativa ao cur-
ção da harmonia nacional. rículo padronizadodo início do século dezenove,caracterizadopor
Entretanto, quando a Guerra Civil eclodiu em 1861, o clima sua ênfase em línguas clássicas, que se desintegrou. Esta mudança de
educacionalmudouda noite para o dia. Agora o senadorMorrill paradigma Êoicertamente auxiliada pela ascensão das universidades
reintroduzia a emenda para um Congresso totalmente nortista e, as- estaduais, mas Éoi encabeçada pelas ÊilosoHlaseducacionais de dois
tutamente, adicionou uma cláusula que as universidades estaduais NT reitores extremamente influentese a criação de um outro tipo de ins-
deveriam ensinar ciência militar também. Havia uma questão urgente tituição superior de aprendizado: a universidade voltada à pesquisa.
para essa inclusão: vários dos generais e engenheiros militares mais A notável historiadora da educação superior americana, Elizabeth
bem treinados, educados ou na academia militar nacional em West Renker, descreve concisamente a transformação:
Point ou nas outras duas faculdadesmilitares dos Estados Unidos,
Três instituições em particular melhor emblematizama pressão
Instituto Militar da Virginia e Citadel (amboslocalizadosno sul),
cultural crescente que forçou sua [o Currículo clássicos morte.
escolheram lutar para os recém formados Estados Conüederadosda Primeiramente, a nova Universidade Cornell aberta em 1868 como,
América. O exército Con6ederado venceu todas as primeiras batalhas nas famosas palavras do benfeitor Ezra Cornell, "uma universidade
na guerra, principalmente (como a maioria dos historiadores milita- onde qualquer pessoa pode encontrar instrução em qualquer área
res concordam), porque suplantaram o Norte.2 Assim, os estados do do saber". Em segundo lugar, o reitor Charles William Eliot tor-
Norte sentiram uma súbita necessidadede produzir sua própria tur- nou-se dirigente da Universidade Harvard em 1869 e lá inaugurou
o sistema eletivo. Cornell e Harvard incorporaram a distinção entre
NT: o que chamaremosde Universidades Estaduais aqui, com fins de simplificaçãoe educaçãosuperior vocacional e a liberal, e, ainda que concorrentes,
coerência com os exemplo dados ao longo do texto(Ohio State, Michigan State
etc), refere--seàs Public Land-Grant (Jniversities, instituições de educação superior 3 Não se deve negligenciar o fato de que todas as universidades estaduais (land grant
nos Estados Unidos designadas pelos estados para receber os benefícios da Lei universities) eram co-educacionais,davam completo acesso à educaçãosuperior às
Morrill, cujo conceito é diferente daquele das Universidades Estaduais brasileiras mulheres. Isto também pode ser interpretado como consequênciada Guerra Civil,
2 0 relato mais competenteda Guerra Civil dos Estados Unidos é o texto de Shelby que dizimou a população masculina em idade de iniciar a educação superior tanto nos
Foote:The Ciül War: A Narrative(New York: Vintage Press, 1986;S vais.) estados do Norte como nos do Sul.

24 25
Crítica à Razão Acadên)ica
Waldir José Rampinellie Nildo Ouriques
(Organizadores) Reflexão sobre a universidade contemporânea

essas instituiçõesse uniram na legitimaçãoda ideia de um currí- do Militar, comumentechamadode Carta de Direitos G.l. Uma das
culo mais amplo. Ao fazê-lo, elas desaHlarame de fato demoliram disposições centrais era um sistema de garantia de educação supe-
o critério curricular das faculdades clássicas tradicionais. Em ter- rior para o pessoalmilitar que tinha servido na guerra. A Lei G.l.
ceiro lugar, a Universidade Johns Hopkins, aberta em 1876, rede- possibilitou a uma geração inteira de americanos poder frequentar
finiu a educação superior como uma forma de especialidadecientí- uma faculdade às custas do governo. De outra forma, a vasta maioria
fica avançada. Com seu coco ideológico e material na contratação desses soldados, marinheiros, aviadores e fuzileiros navais que reto-
de docentes que fossem professores especialistas, na produção de mavamnunca teriam sido capazesde fazê-lo.Dessa forma, em apenas
pesquisa para publicação e no treinamento de alunos de doutorado, alguns anos, a forma demográfica da população universitária ameri-
a Hopkins atuava de uma forma totalmente independente do mode-
cana fbi radicalmente alterada e expandida. Um total de 7,8 milhões
lo colegiado pré-guerra.'
de militares que regressavam (de 16 milhões) escolheu ir para algum
Embora o currículo eletivolivre conservasseum grupo de ma- tipo de curso superior ou programa de treinamento ocupacionale
térias obrigatórias, ele deu a chance aos alunos de se especializarem ainda mais militares o fizeram quando a Lei G.l. foi estendida aos
em tópicos que mais lhes interessassem. Seria muito adequado dizer veteranos do Conflito Coreano.'
que esse desenvolvimento (muito menos dramático que a adoção do Antes da Segunda Guerra Mundial, faculdadese universidades
Decreto Morrill de Seção de Terra) estabeleceuo primeiro passo na americanas eram uma província para os ricos. Ainda que as univer-
consumerizaçãoda educaçãosuperior dos Estados Unidos, a qual sidades federais fossem muito baratas, os quatro anos investidos em
perdura ainda hoje. Atualmente, entretanto, é usual os administra- frequenta-las (em oposição a trabalhar em tempo integral) tornou-as
dores das universidades descreverem os alunos como "clientes", uma inacessíveis ao pobre. A Lei G.l. mudou tudo isso: uma vez que to-
vez que o currículo eletivo livre fornece a eles grande amplitude para dos os veteranos que retomavam poderiam beneficiar-seda garantia
decidir o que estudar e o que não estudar. Considere um exemplo de matrícula, a população universitária de repente vinha de todas as
dramático: em 1907, na Universidade Yale, 98% de todos os alunos classes sócio-económicas dos Estados Unidos.
tinham conhecimento prévio de grego; em 192 1, apenas catorze anos O grande número de veteranos que se matricularam também
depois, menos de 50% dos calouros de Yale chegavam à universidade forçou uma imediata e rápida expansão do sistema universitário. A
com algum conhecimento de grego e, uma vez lá, somente 8% esco- fim de acomodar todos os novos alunos, faculdades e universidades
lhia continuar estudando a língua.s Este rápido declínio na popula- aumentaram dramaticamente tanto em número como em tamanho,
ridade do grego foi uma consequência direta da adoção por Yale do particularmente as instituições públicas. Os números são realmente
currículo eletivolivre. Uma vez que os alunos não eram obrigados chocantes: l,S milhão de estudantes coram matriculados em 1939,
a estudar grego, eles escolhiam -- em grande medida -- não fazê-lo. antes da guerra. Em 194.9,em boa medida graças à Lei G.l., o nú-
A próxima mudança sísmica na educaçãosuperior veio em 1944 mero tinha saltado para 2,4 milhões. E em 1960 havia 7,5 milhões de
quando, nos meses finais da Segunda Guerra Mundial, o presiden- estudantes matriculados em cursos superiores nos Estados Unidos.
te Franklin D. Roosevelttransformou em lei o Decreto de Reajuste Não é um exagero dizer que a Lei G.l. criou a classe média ameri-
cana ao dar a tantos cidadãos a chance de obter um diploma univer-
4 Elizabeth Renker, "Shakespeare in the College Curriculum, 1870-1920," em Coppelia sitário e assim ter acesso às procissões.Seus efeitos perduraram por
Kahn, Heather S. Nathans, and Mima Godo'ey eds, Shakespearean Educations:
Power, Citizenship, and Performance (Newark, Delaware; University of Delaware gerações após sua aprovação, uma vez que os beneficiários da Lei
Press. 201 1). 133.
5 Robert Scho]es,The Ride and Fa]] of English: ReconstructingEnglish as a 6 The bestaccountof the G.l. Bill is Milton Greenberg,The G.l. Bill: The Law that
Discipline (New Haven, Conn.: YaJe University Press, 1998), 2. Changed America (Lickle Publishing, 1997)

27
Crítica à Razão Acadêmica
Waldir José Ralnpinelli e Nildo Ouriques
(Organizador'es) Reflexão sobre a universidade contemporânea

naturalmente supunham que seus filhos e bilhas frequentariam um sional separadas umas das outras e raramente fundaram instituições
curso superior também, tornando, assim, a educação superior uma que possibilitariam às pessoas transferir créditos para programas de
expectativa bastante difundida. bacharelado."i: Há um certo senso idealístico de igualitarismo que
Aquela expectativa, juntamente com o crescimento da população subscreve o conceito de faculdade local, a noção de qlle cada cidadão
do país, deu origem a um outro tipo de instituição de educaçãosupe- dos Estados Unidos deveria ter acesso de custo acessível a alguma
rior, a faculdade local.7 Faculdades com duração de dois anos que se Forma de educação superior. Portanto, há mais de 1.100 faculdades
especializam em educação geral e orientadas ao treinamento ocupa- locais nos Estados Unidos com crédito educacionalque as tornam
cional existiram nos Estados Unidos desde a virada do século vinte, acessíveis a qualquer estudante que termine o ensino médio.
mas proliferaram na era pós Segunda Guerra Mundial e continuam O último e mais novo tipo de instituição americana de ensino
a se expandir até hoje. Por exemplo, entre 1963 e 2006, as matrículas pós-médioé a universidadecom Hlnslucrativos.:: Tendo como pio-
nas faculdades locais aumentaram 741%. Elas agora matriculam 7 neira a Universidade de Phoenix, fundada em 1994, as faculdades
milhõesde estudantes,mais de um terço do total de matrículas do e universidades com fins lucrativos são ao mesmo tempo as escolas
país.8Em comparação,durante esse período as matrículas para facul- de ensino pós-médio mais peculiares e também as que representam
dades e universidades públicas de quatro anos cresceram a uma taxa o setor que mais cresce na área de educaçãosuperior. Há atualmente
de 197%, enquanto as matrículas para faculdades e universidades pri- mais de 2.400 faculdades e universidades com fins lucrativos no país.
vadas de quatro anos aumentaram a uma taxa de 170%.9 Algumas são gigantescas: a Universidade de Phoenix tem aproxi-
Por que faculdades locais de dois anos cresceram em populari- madamente 500.000 alunos matriculados. A maioria é menor, mas o
dade? Elas são, fundamentalmente, acessíveis. O custo médio de uma grupo como um todo matricula 10% dos estudantesde ensino pós-
faculdadelocal é de US$ 2.5 10 por ano se comparado com faculdades médio do país e as matrículas cresceram 25% em 2009. Elas estão, em
e universidadesprivadas de quatro anos, nas quais o custo médio outras palavras, ganhando terreno rapidamente sobre as faculdades
é US$ 26.515.ioElas também são um tipo de instituição exclusiva- locais e faculdades e universidades tradicionais de quatro anos.
mente americanas. Em sua abrangente história das faculdades locais, Duas características em particular distinguem as universida-
Arthur M. Cohen e Florence B. Brower apontam que "outras nações des com fins lucrativos das outras. A primeira é óbvia: elas são um
desenvolvidas, especialmente aquelas do Oeste Europeu, das quais a negócio, organizadas para educar alunos, com certeza, mas também
maioria das ideias sobre educação foram importadas, não desenvolve- para obter lucro. Algumas são negociadaspublicamentenas bolsas
ram suas próprias faculdades locais. Todas elas se depararam com o de valores. A Universidade de Phoenix, por exemplo, negocia como
mesmo fenómeno de populações crescentes, mudanças tecnológicas, o Grupo Apollo na Nasdaq e tem um capital de aproximadamente 6
diferentes expectativas para a criação dos Êllhose uma mudança no bilhões; Strayer Education tem um mercado de capital de aproxima-
padrão de preparação para o mercado de trabalho. Entretanto, cons- damente 2 bilhões. Algumas das maiores com fins lucrativos têm um
truíram centros de educação de adultos e escolas de formação profis- número de franquias considerável e possuem ca2nPzem vários países.
A segundacaracterística
que as distingueé que as institui-
7 Community College. ções com fins lucrativos, em particular a Universidade de Phoenix,
8 http://www.aacc.nche.edu/AboutCC/Trends/Pages/enrollment.aspx inventaramo ensinoa distância.Este é o maior impulsorem seu
9 http://nces.ed.gov/programa/coe/2008/analysis/sa02b.asp
10 Escritório de Prestação de Contas do Governo, Relatório ao Presidente, Comitê
emEducação e Trabalho, Câmara dos Deputados: "Educação Superior: A Instrução 1 ] The American Community College (San Francisco: Jossey Base, 2008; 5'h edition)
Continua a Crescer, mas os Padrões Variam por Tipos de Instituição, Matrícula e lo-l l
Gastos Educacionais" (Washington, D.C., 2007), 22. 12 For-pro6lt university

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Waldir José Rainpinelli e Nildo Ouriques Reflexão sobre a universidade contemporânea
(Organizadores)

Assim conclui-se um breve relato da complexidade da educação


crescimento exponencial. Pelo fato de que o ensino a distância não superior como instituição social nos Estados Unidos. Ela é melhor
requer um campus físico todo o ensino é deitovia computador --o descrita como um palimpsesto determinado por eventos históricos e
número de alunos pode expandir-se quase sem limite, simplesmente considerações financeiras. Todos os tipos de instituições que descre-
porque a proximidade do campus deixa de ser um problema. Assim, vi neste ensaio continuam a coexistir, e estudantes aspirantes a uma
um aluno numa área rural de Ohio pode fazer cursos a distância na educaçãosuperior têm uma variedade grande de escolhas.
Universidade Walden (uma grande universidade com fins lucrati-
vos sediada em Minnesota) ainda que more a muitos quilómetros 11

de distância. A expansão das instituições com ülnslucrativos pode A pergunta central a ser deita agora é: "Qual é o atual estado do
ser bem dramática. A Universidade Ash6ord, que estava próxima da
ensino superior no país?" A resposta, creio, é que ele está em cons-
falência, dirigida por um grupo de franciscanos, numa área rural de tante declínio e eu vou dedicar o restante de meu ensaio para tentar
lowa, cresceu de pouco mais de 400 alunos em 2005 para mais de explicar por quê. Eu colocaria a razão central da seguinte maneira:
76.000 no final do ano passado, depois que 6oi comprada por uma
os Estados Unidos são um país jovem e nós, como povo, temos estado
corporação de San Diego, a Bridgepoint Education Inc.," uma com- desdeo início muito mais interessadosem todas as coisaspecuniá-
nhia com ülnslucrativos que negocia publicamente na bolsa com
rias do que no aprendizado. Dois legendários sociólogos americanos
um capital de US$ 900 milhões. apresentam-na de maneira melhor. Thorstein Veblen, em seu estudo
Além disso, o modelo ülns-lucrativos, com sua ênfase em conve-
clássico TBe lízlg#erZ,ezzr/zz7zg
zn .4merzca,alude constantemente à ten-
niência, seu currículo prático, e com orientaçãoprofissional e uma
dência do público americano de apresentar o sucesso nos negócios
confiança corte na educação a distância tem tido uma influência tre- como evidência de sabedoria em todas as áreas, incluindo a acadê-
menda em faculdades tradicionais também. O Consórcio Sloan ofeü
mica, quando, na verdade, os princípios norteadores do bom negócio
rece a seguinte constatação: "Nos últimos seis anos as matrículas a -- competição, eficiência, produtividade não têm lugar no mundo da
distância têm crescido substancialmente mais rápido que a média das
educação superior. As universidades, ele argumenta, deveriam sem-
matrículas de.ensino superior... com os dados mais recentes demons-
pre ser "um lugar de refúgio e um lugar de encontro, confluência e
trando que não há sinais de desaceleração. disseminação para aquelas ideias que vivem e se movem e têm seu
©Mais de 4,6 milhões de alunos estavam fazendo pelo menos um cur- ser no ensino superior.:sRichard Hofstadter apontao mesmo argu-
so a distância durante o período do outono de 2008, um aumento de
mento em diferentes termos. Ele afirma que "tem sido o destino do
17% sobre o número apresentado no ano anterior.
ensino superior americano desenvolver-se em uma cultura eminente-
e A taxa de crescimento de 17% para matrículas a distância excede mente profissional, com uma base superficial de tradições culturais;
em muito os 1,2% de crescimento da média da população de alunos
e que "os americanos têm demonstrado uma fé intensa, quase como-
de educação superior. vente, tanto no z/sepessoal como cívico da educação; mas esta K não
e Atualmente mais de um entre quatro alunos de faculdadese univer-
sidades fazem pelo menos um curso a distância.'' (Albany: State University of New York, 2006), David L Kirp, Shakespeare,
Einstein and the Bottom Lhe(Cambridge, Mass.: Harvard University Press,
IS http://www.huMngtonpost.com/2011/0s/lo/senate-probes-growth-iowa-college 2003), e minhas próprias reflexões sobre a indústria em The Last Professora:
n 834$50.html . . The Corportate University and the Fate of the Humanities (New York: Fordham
14 i;,;a mais informações sobre educação superior com fins.lufTativos. (tor t), ver University Press, 2008)
15 The Higher Learning in America (1916;rpt. New Brunswick,New Jersey:
Transaction, 1993), 38
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30
Crítica à Razão Acadêmica
Waldir José Rampinelli e Nildo Ouriques
Reflexão sobre a universidade contempoi'anea
(Organizadores)

tem sido acompanhada por um entendimento igualmente profundo ções matriculam, mais rendimento elas conseguem para elas mesmas
do cozzzezZdacultural da educação".iõ e seus acionistas. Os critérios de admissão são, portanto, em geral
Em Tl%eLasf Pr(2#zssors eu argumentei que o mundo corporativo ridiculamente baixos, e muitos estudantes são levados a se matricu-
e o mundo do ensino superior têm estado em desacordo um com o lar através de práticas de recrutamento altamentequestionáveis.Por
exemplo, um investigador disfarçado, do EPCG, informou que um
outro por mais de um século. A razão para o declínio que descrevo é
recrutador, tentando convencê-lo a se matricular em uma faculdade
que os interesses corporativos, que sempre caem nas graças do pú-
blico americano mas que, ao mesmo tempo, desconfia do valor da com fins lucrativos que tinha um programa de cabeleireiro, disse a
educação, têm constantemente usurpado os interesses do ensino su- ele que barbeiros ganham entre US$ 150.000 e US$ 200.000 por ano
perior a ponto de ser possível hoje caracterizar todas as faculdades e (o salário médio de um barbeiro é, na verdade, de IJS$ 43.000por
universidades americanas como negócio. ano). Uma vez que os alunos estão matriculados, os instrutores são
Não há melhor exemplo dessa usurpação que a indústria das fa- rotineiramente orientados a aumentar suas notas. Em outras pala-
culdades com fins lucrativos, as quais acabei de descrever. Aquela vras: devem mantê-los matriculados pelo máximo de tempo possível,
indústria, mais que qualquer outro setor do sistema de educação su- para que eles continuem a gerar renda.
perior, tem que tomar decisões diárias sobre o que é mais importante: A fonte daquelarenda é igualmenteperturbadora. As "pró-lu-
cros" matriculam 10% da população universitária nacional, mas seus
ganhar dinheiro ou educar estudantes. Infelizmente, eles constante-
mente escolhema primeira. O último exemploda seção anterior ilus- estudantes recebem 37% de todos os empréstimos e bolsas finan-
tra aquela tendência perfeitamente. A Bridgepoint Education, que ciados pelo governo federal. Assim, os alunos universitários menos
resgatou a falimentar faculdade e aumentou sua matrícula de 400 qualificados do país estão sendo educados quase que completamente
às custas do contribuinte. Dessa forma, elestêm uma taxa de inadim-
para 78.000, em apenas quatro anos, pode parecer, à primeira vista,
ter feito uma enorme, positiva contribuição à sociedade, ao dar acesso plência três vezes maior que a de estudantes de faculdades e uni-
à educação superior a muitas pessoas. O problema, no entanto, é que versidades tradicionais. Isso sugere que, mesmo aqueles que se for-
a Bridgepoint tem uma taxa de formandos espantosamentebaixa, de mam, falham em conseguir empregos que paguem bem o suHlciente
apenas 1,2%. Portanto, somente uma pequena fração daqueles 78.000 para que eles sejam capazes de pagar seus empréstimos.Portanto,
estudantes colherão qualquer benefício por frequentar o ensino su- enquanto, teoricamente, as universidades com Hlnslucrativos presta-
perior. E a Bridgepoint não está sozinha: a Universidade de Phoenix, riam um serviço ao país proporcionando acesso à educação superior
com matrículas aproximadas de 500.000 alunos, forma somente 9% a milhões de cidadãos, há uma evidência crescente de que elas fazem
deles. Na administração do presidente Obama, esses números alar- isto de maneira tão inescrupulosa que estão, na verdade, prejudican-
mantes passaram pelo escrutínio do Escritório de Prestação de Con- do os alunos e também o país.
tas do Governo (EPCGF' e têm sido alvo de audiências no Senado. Se nós passamos das faculdades e universidades com Hlnslucrati-
As constatações consistentemente ilustram toda vez o mesmo vos para o alto escalão da educação superior americana, encontramos
problema: o lucro do negócio das faculdades e universidades com âlns desapontamentos de outro tipo, mas que também estão relacionados
lucrativos sempre supera sua pretensa missão educacional. Como a questões de acesso. A elite de universidades do país não só voltou
isso funciona na prática é simples. Quanto mais alunos essas institui- ao seu status pré-Guerra Civil de refugiopara os mais abastados, mas
também se converteu em especialista na comodinlcaçãoe marketing
16 Hofstadter and C.DeWitt Hardy, Thoughts on the Present Collegiate System in de seu próprio prestígio. Eu já escrevi bastante sobre este fenómeno
the United States (New York: ColumbiaUniversity Press, 1952),10S.
17 Government Accountability OfHice.
Minha análise se orienta no pressuposto de que a versão americana
# ' ' ''" '""''.h 33
(Oi'ganizadores) Reflexão sobre a universidade contemporânea

de prestígio é distinta: ela não é entendida como uma qualidade natu- admitiria. Com dinheiro sunlciente,as conexões carretas e um início
ral ou necessariamentecomo um aspecto de tradições duradouras ou antecipado, uma pessoa pode comprar seu caminho para o topo do
seculares; em vez disso, ela é parte integrante da cultura de consumo. mercado acadêmico tão facilmente quanto alguém poderia comprar
Em nossa nação de compradores aspirantes, em que as compras são um Boxster em 1996, "a um custo". Uma pessoa pode se preparar
com tanta frequência expressões de inveja ou ansiedade por "status' para fazê-lo frequentando uma escola preparatória de elite, tal como
social, o prestígio se manifesta quase sempre como a aura ao redor a Phillips Andover, na qual instrução, moradia e refeições (em 2007-
de qualquer mercadoria cara -- uma casa, um carro, um relógio, um 2008) custava US$ 37.200 e se inscrevendo para o pacote de prepara-
par de sapatos ou, para meus propósitos, uma faculdade. Dessa for- ção "deluxe" da Princeton Review para o SAT por US$ 7.000;?o.Tais
ma, embora o conceito de prestígio possa ser inefável, os americanos medidas, quase rotineiras, estão se tornando cada vez mais comuns.
conscientes do prestígio têm a tendência de querer avalia-lo, pâr uma Samuel G. Freedman relata que "o negócio de teste de preparação
etiqueta nele, atribuir-lhe uma marca, adquiri-lo. Esta preocupação da graduação tem agora receitas de US$ 726 milhões por ano, com
com medir o prestígio, por sua vez, deixa uma série de traços que crescimento de 25% em apenas quatro anos'
posso utilizar para navegar pelo sistema de educaçãosuperior. Crescendo em popularidade ainda mais rápido está o negócio de
Deixe-me elaborar. Robert Frank, em "Higher Education: The aconselhamentopara admissão. 'n. Associação de Consultores Inde-
Ultimate Winner-Take-All Market?"'* diz, argumentando sobre o pendentes de Educação, que representa consultores acadêmicospri-
mercado de educaçãosuperior, que prestígio, em última instância, vados, diz ter 3.500 membros. Eram 200 há apenas uma década. Cerca
transcende a mercantilização. Ele contrasta a admissão a uma facul- de 100 consultores se inscrevem para associar-se todo mês". Esses
dade de prestígio (e portanto, necessariamente, altamente seletiva) orientadores cobram uma média de IJS$ 3.$00 por seus serviços, mas
com um artigo familiar de luxo fabricado pela Porsche: se dinheiro não é problema, a companhia de consultoria lvyWise co-
bra de US$ 10.000a US$ 30.000.A lvyWise oferecevários níveis
Quando o excesso de demanda por um bem ou serviço privado co- de serviço para estudantes do ensino médio que têm como objetivo
mum surge no mercado, ele é quase sempre fugaz. Assim, quando as faculdadesde alto nível, e o principal é o "Pacote Platina Junior/
a Porsche.recentemente introduziu seu novo Boxster [em 1996],
Veterano".2i As universidades de alto nível também fazem sua parte
cada nova remessa se esgotou com mais de um ano de antecedência,
ao garantir acesso aos muito ricos. Joseph A. Soares, em 7» Pomar og
ainda que qualquer um que realmente quisesse este carro poderia
encontrar um, a um preço Não é assim no topo do mercado acadê- P7'zz,fZege:
Za& a d 47mrzZa's E/zfe Ca/beges,
usou os dados da própria
Yale para mostrar que 14% dos alunos matriculados em 2000 eram
mico. Apesar do persistente excesso de demanda neste mercado,
as universidades continuam a mandar alunos qualificados embora, 'legados",âllhosde ex-alunos.Daniel Golden, em 7'» Preceof .,4dmls-
enquanto cobram daqueles que elas admitem somente cerca de um sioz: Ho'w .4medca's Ruting Class Bu)s lts may Indo Elite Cotleges--and
terço do que custa para servi-los.'P M»o Geü Z,eP OzóZszde ZãeGa/es, assinala os benefícios que resultam
para os mais generosos doadores de Harvard e para os filhos daqueles
Mas, creio eu, Frank está errado. Enquanto é verdade que o ta-
manho das classes de entrada nas faculdades e universidades "mais que aparecemna "Lista VIP" da universidade. Como a /mszde.fJzgãer
Edzlcczfz07z
relata, o "Comitê de Recursos Universitários-. é geralmente
competitivas" se mantém fixo independentementeda demanda por
admissão,dinheiro se torna muito mais importante do que Frank 20 0 SAT (Exame de DesempenhoEscolar), um testepadronizado,de múltipla
escolha, é um teste bastante usado como exame de entrada por muitas universidades
\8 0 Dl$ziüuo Mercado' O VeTmdor Leva Tudo' americanas.
19 Robert Frank, "Higher Education=The Ultimate Winner-Take-All Market?" in 21 Samuel G. Freedman, "ln College Frenz$ A Lesson Out of Left Field," AlemMaré
Devlin and Meyerson, eds., Roam FzéZres,8. 7zlms 26 April, 2006. See algo, lvywise.com
34 35
Waldir José Ralnpinelli e Nildo Ouriques Crítica à Razão Acadêmica
(Organizadores) Reflexão sobre a universidade contemporânea

restrito àqueles que deram pelo menos US$ 1 milhão... Dos 340 mem- competição que a edição anual da revista US. Nêws &í Hor/dBepofZ,
bros do comitê que têm filhos na idade de ir para a universidade ou que classifica as faculdades e universidades americanas, da melhor à
que já tenham passado da idade, 336 estão matriculados ou estudaram pior. As universidades públicas competem nesses posicionamentos
em Harvard -- embora a universidade admita menos de l em cada IO (os quais, embora controversos, são largamente usados como mate-
candidatos" em média. A Lista VIP (sobre a qual Harvard se recusa rial promocional por um número bastante grande de instituições),
a comentar), de acordo com Golden, consiste em 25 a 50 "candidatos com uma desvantagem tremenda se comparadas aos seus pares pri-
com boas conexões,mas em geral academicamentefronteiriços", que vados. Inevitavelmente mais pobres, elas não são seletivas, e a seleção
são informados que podem se matricular se eles adiarem por um ano.22 e a qualidade acadêmicado corpo discente são fatores de bastante
Assim, não é que a admissão em faculdades seletas transcende peso na fórmula da U.S. -ZVews.
o custo e é, portanto, prestigiosa de maneira única; em vez disso o Sem a opção de rejeitar mais inscritos do que elas podem admitir,
custo, quando se combina o custo de preparação e quatro anos de as universidades estaduais têm que abandonar qualquer reinvidica-
instrução, excede até o dos carros mais caros. ção à exclusividade e portanto renunciar a qualquer sonho de atingir
Finalmente, se nos voltamos para a classe média das faculdades e o ápice da escala de prestígio. Uma carta aberta de Karen Holbrook,
universidades americanas, encontramos mais evidências de declínio, então reitora da Ohio State, para "ex-alunos e amigos" da universi-
particularmente no sistema público universitário, por gerações as dade tentou pâr uma cara feliz nesta predestinação.Ela anunciou:
instituições de quatro anos mais acessíveis do país. Como Ferros Wo- 'Eu fico feliz em informar a vocês que a edição de 2007 dos melhores
mack e James Duderstadt apontam, as universidades públicas estão cursos superiores da América da U.S. ]Vews&? Hor/dRePorZ,lançada
agora "pra lá da encruzilhada"2s A razão: estão tentando fazer muitas hoje, posiciona a Ohio State entre as eo melhores universidades pú-
coisas com recursos financeiros insuülcientes.Elas estão sendo for- blicas. Nós demos um passo signiÊlcativo de 2 1' para um empate em
çadas a competir com faculdades locais e faculdades com fins lucrati- 19' lugar. Entre todas as universidades, públicas e privadas, a Ohio
vos, as quais se definem como testes para os negócios comunitários e State saltou de 60' para 57' posição". O fraseado de Halbrook enfati-
oferecem treinamento de formação profissional facilmente aplicável za a natureza patética das afirmações: ela mesma separa universida-
bem como a conveniência da educação a distância. As universidades des privadas das públicas de modo a não enfatizar que a Ohio State
públicas têm sido muito lentas na adoção do modelo a distância em saltou para a 57' posição entre todas as universidades e ela caracte-
nível significativo, ficando atrás das faculdades locais, as quais têm riza a passagemde 21' para a co-igual 19' como "signinlcativa".A
leitura da carta imediatamenteleva à desaHiadoratarefa de nominar
sido rápidas em seguir a liderança daquelascom ülns lucrativos
muitas agora têm uma extensa seleçãode cursos a distância. E as todas as universidades que estão posicionadas acima da Ohio State,
a vasta maioria delas privadas, menores e portanto em uma posição
universidades públicas estão também, equivocadamente em minha
opinião, tentando competir com a elite das universidades privadas para serem seletivas. 7'%ePr/2zceZo euzewtambém classifica o ensino
na corrida por prestígio mercantilizado. Nada melhor resume aquela superior americano, avaliado em uma escala de 60 a 100 ( 100é a mais
alta, 60 é desdenhosamente atribuída a qualquer escola que se recuse
22 Soarem,The Power of Privilege: Yale and America's Elite Univeresities (Stan6ord,
CA: Stanford University Press, 2007), Golden, The Prece of Admission= a divulgar seus dados). Das 101 instituições que recebem notas de 97
How America's Ruling Class Buys lts Way into Colleges-- and Who sets Left para cima, somente ]4 são públicas.24
Outside the Gates (New York: Random House). http://insidehighered.com/
news/2007/04/ 1]/soarem.http://insidehighered.com/news/2006/09/05/admit. e4 Para mais informação sobre este tópico, veja meu capítulo "Prestige and Prestige
23 The Future of Public Universities in America(Baltimore: Johns Hopkins Envy." in Frank Donoghue, The Last Professora: The Corporate University and
University Press, 2003), 60-6 1. the rate of the Humanities (New York: Fordham University Press, 2008), 111-138
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VValdirJosé Rampínellie Nildo Oui'iques Crítica à Razão Acadêmica
(Organizadores) Reflexão sobre a universidade contemporânea

De forma geral, os estados têm abandonadoamplamenteseus rior nos Estados Unidos está inquestionavelmentemais complicado
compromissos em financiar a educação pública. Duderstadt, que foi do que üoi desde o início do século vinte, quando somente o abastado
reitor da Universidade de Michigan de 1988a 1996,certa vez brin- frequentava a universidade. Os estudantes de classe média têm que
cou ao lembrar que, durante o tempo dele na reitoria, sua universi- fazer uma terrível escolha: não frequentar a universidadee assim
dade passou de "apoiadapelo estado, para assistida pelo estado,para se posicionarem em enorme desvantagem em uma economia global
localizada no estado' baseada no conhecimento, ou assumir uma esmagadora quantia de
Ele está carreto: o Estado de Michigan atualmente paga 12% do débito para poder frequentar um curso superior, uma decisãoque
orçamento da Universidade. Ohio contribui com apenas 10% do or- inevitavelmente tem consequências para a vida.
çamento da Universidade Estadual de Ohio. A diminuição no finan-
ciamento de universidades públicas atinge as grandes universidades
estaduais, com as quais eu iniciei meu ensaio. Por mais duro que sqa, Que conclusões podemos tirar e que recomendações dar para
uma triste ironia, uma vez que aquelarede de escolasserviu por ge- evitar essa situação calamitosa? Tanto para políticos como para es-
rações como espinha dorsal da educação superior americana. Elas tudantes nos Estados Unidos tudo se resume a uma única pergunta
mantinham aquela posição em grande medida porque eram acessí- fundamental: a educação superior deveria ser um direito social no
veis e, portanto, garantiam acesso ao ensino superior a milhões de país da mesma forma que os primeiros doze anos de educaçãoi)A
cidadãos. A retirada generalizada de apoio para essas universidades resposta, creio, é bastante desanimadora. Se nada mudar quer di-
signinlcou,inevitavelmente, grandes aumentos em custos de instru- zer, se o orçamento dos Estados Unidos e a política de impostos não
ção. O custo de instrução nas universidades públicas disparou dra- forem fundamentalmente reformados, então o país simplesmente não
maticamente nos primeiros dez anos desta década. Por exemplo, de será capaz de financiar educação superior para todos. Talvez nenhum
2004 a 2006, o custo de instrução cresceu 24% na Universidade do outro país desenvolvidoutilize tão ridiculamentemal seu dinheiro
Arizona, 30% na IJniversidade do Kentucky e 32% na Universidade quanto os Estados Unidos. O autor ganhador do Prêmio Pulitzer,
do Colorado.2s Chris Hedges, argumenta eloquentementeem E7nPíreog .í//zzszozz que
Se essa tendência continuar, cada vez menos americanos terão os gastos militares dos Estados Unidos são equivocados e inchados,
a possibilidadede frequentar o ensino superior ou vão frequentar eclipsando os de qualquer outro país no mundo2ó.Cary Nelson, pre-
somente porque escolheram emprestar quantidades enormes de di- sidente da Associação Americana de Professores Universitários, es-
nheiro para pagar os custos crescentes de instrução. Os novos nú- peculou que, se os Estados Unidos eliminassem apenas dois ou três
meros do Departamento de Educação dos Estados Unidos mostram sistemas bélicos que operam atualmente como zóm meão de 27z/zmzdação
que o desembolso federal de empréstimo estudantil -- o valor total cozzfraa/agzóes
da Uzzzão,Soz;zéfzca,
o governo federal poderia tornar a
emprestado por estudantes e recebido pelas escolas no ano acadê- educação superior pública gratuita para todos.z'
mic0 2008/2009 cresceu cerca de 25% em relação ao ano anterior, Outro problemaé a forma como os Estados Unidos taxam sua
atingindo IJS$ 75,1 bilhões. O volume de dinheiro que os estudantes população: desde 1992 a média de imposto de renda federal realmen-
emprestam tem crescido há muito tempo, mas no ano passado supe- te pago pelas 400 famílias mais ricas do país caiu de 26% para 17%.
rou em muito aumentos anteriores, os quais variaram de 1,7% no ano Mas por que, se a alíquotamais alta nos Estados Unidos é de 35%,
escolar 1998-99 a quase 17% em 1994-95. O acesso à educação supe-
26 Chris Hedges,Empire of IUusion: The End of Literacy and the Triumph of
Spectacle (New York: Nation Books, 201 1)
25 Wã// Sír?e/ Jozlr zaZonline, July 19, 2005. 27 Cary Nelson, in an address in Los Angeles, December, 2010.
38 39
Waldir José Rampinellie Nildo Ouriques Crítica à Razão Acadêmica
(Organizadores) Reflexão sobre a universidade contemporânea

os muito, muito ricos estão pagando um percentual tão baixo de sua as implicações financeiras da educação superior universal deveriam
renda em taxas? Resposta curta: incentivos fiscais.28O simples fato ser extremamente precárias. Por causa do custo do ensino superior,
é que o sistema de impostos do país é severamente tendencioso em os estudantes âinanciariam sua educação mais comumente empres-
favor dos muito ricos, as pessoas que podem enviar seus filhos às uni- tando dinheiro. Isto já é um problema. Como Toby aponta, pela pri-
versidades mais caras -- Harvard, Yale, Princeton -- sem beneficio ou meira vez o total do débito de empréstimo estudantil nos Estados
auxílio financeiro. Se os ricos pagassem sua parte justa de impostos, Unidos hoje ultrapassa um trilhão de dólares, mais que o total de
isso poderia liberar dinheiro para ajudar os pais dos pobres e da clas- débito dos cartões de crédito do país.
se média em seus esforçospara financiar a educaçãosuperior de seus A solução apontada por Toby essencialmente amarrar a ajuda
6llhos.Mas, na verdade, o humor do país parece muito contrário a tal financeiraa um dado estudantee até mesmo o acesso à educação
mudança. O orçamento delineado pelo partido Republicano (agora superior à promessa acadêmica daquele aluno e seu desempenho é,
maioria na Câmara dos Deputados), cortaria a alíquota mais alta de em minha.opinião, inconÊortável -- mas possivelmente inevitável. Ex-
35% para 25% e pode muito bem criar mais incentivos Êlscais para os ceto pelas mudanças radicais que delineei acima, a economia de nosso
ricos e poderia também cortar auxílios federais aos estudantes mais país simplesmentenão poderia sustentar o custo da educação supe-
pobres da educação superior. Assim, a receita disponível para educa- rior universal. Além disso, a solução de Toby visa essencialmentea
ção superior para as classes média e baixa parece que será reduzida meritocracia, um sistema no qual os melhores alunos ganham acesso
ainda mais. à educação superior. Mas, como Michael Young assinalou em sua bri-
Outra questão que também precisa ser abordada permanece, in- lhante sátira 7'»e Rfse od Mera/ocrac7( 1958), meritocracias evoluem
dependentemente de dinheiro. É a questão de se a educação superior com o tempo para oligarquias.30Estajá é uma tendência na educação
dez,erga
ser um direito. Ou seja, todos os formandos do ensino médio superior americana e a reforma proposta por Toby somente acele-
nos Estados Unidos deveriam ter permissão para se matricularem rada isto. Quer dizer, os alunos academicamentemais promissores
em universidades públicas, independentemente de sua habilidade aca- viriam provavelmentedas famíliasmais ricas do país e eles teriam a
dêmica ou desejo de aprender? Um número crescente de especialis- melhor preparação acadêmica antes de atingirem a idade de entrar
tas em educação superior, liderados pelo sociólogoJackson Toby e o para a universidade.
economista Richard Vedder, estão dizendo "não". Toby dependeseu Gostemos ou não, as mudanças regressivas esboçadaspor Toby
ponto de vista mais enfaticamente em seu recente livro 7'»e .Lowerzng são, como eu disse, muito provavelmente inevitáveis. Se a educação
oJ Higher Education in Zmerica: W'hy FinanciamÁid ShouLdbeBasca on superior dos Estados Unidos tende na direção que Toby advoga,
.SZz/denfPramzse. Ele afirma: "Preparados ou não, os jovens ouvem que ela irá refletir os sistemas da China e da Índia. Todos concordariam
têm que ir para a faculdade para o próprio bem deles e, persuadidos que todas as nações desenvolvidas ou em desenvolvimento compe-
por adultos, uma maioria de formandos do ensino médio se inscreve, tem no que é geralmente descrito como uma economia do conheci-
independentemente de seu entusiasmo por mais educação". 29 mento global. China e Índia essencialmenteapostaram que podem
Então, "tendo convencido graduandos do ensino médio a se ins- competir nesse tipo de economiarigorosamente treinando apenas
creverem para o ensino superior, nós tornamos fácil para quase qual- uma oraçãode sua população em idade de entrar para a universidade.
quer formando do ensino médio ser aceito em alguma faculdade e Contrariamente, o acesso à educação superior expandiu consisten-
ficamos felizes por eles quando chegam lá". Finalmente, ele delineia, temente desde a década de 1870. Agora, porém, mais expansão pa-
28 http://blogs.abcnews.com/george/20 ]1/04/âor-super-rich-taxes-keep-Ealling.html ço The Rise of the Meritocracy: 7%e New EZzfe of Ozír SoaaZ Rez,oZa/z07z(Random
29 The Lowering of Higher Education in America, xiii House, 1959)
40 41
l?ValdirJosé Ralnpinelli e Nildo Oul'iques
(Organizadores)

rege financeiramente insustentável e pode ser tempo de reexaminar A DEMOCRACIA NA UNIVERSIDADE BRASILEIItA
aquelepadrão igualitário. Poderíamos fazer o mesmo tipo de aposta SIMULACRO OU ARREMEDO?
que China e Índia Hlzeram?Isto seria arriscado para os Estados Uni-
dos porque nossa populaçãoé muito menor que a de qualquer um
daqueles países. Se vocês não nos deixam sonhar,
Eu prevejo que este será o debate central sobre a educação su- Nós não os deixaremos dormirá -
perior nos Estados Unidos ao adentrarmos mais no século vinte e
um: continuamos a expandir o acesso à educação superior seja qual
âor o formato e a qualquer preço -- ou concentramos os recursos que Watdir José Rampinelli'
dedicamos à educação superior para o treinamento dos melhores e
mais brilhantes? Somente o tempo dirá o que o país fará e quais se-
rão as consequências.

Analisar a democracia na universidade significa entender a de-


mocracia da sociedade. A universidade, que sempre se apresentou
como o Zezn@;o do saber,pouco tem contribuído no campo da teoria e
da praxis para que se criem relações de poder em que todos tenham
seus direitos assegurados e suas posições ouvidas, ou seja, para que
a sociedade avance na direção da democracia participativa. A univer-
sidade raramente tem levado em conta todas as circunstâncias para
interpretar o mundo, para ajudar a mudar a vida, para defender ver-
dades,para denunciar mecanismos de opressão,para fortalecer a luta
libertária, enfim, passando a escova da história "a c07z/napa/a"
dentro
da concepçãode Walter Benjamin,para dar voz e vez àqueles"que
sofreram, trabalharam, deÊlnharame morreram sem ter a possibili-
dade de descrever seus sofrimentos" (Michelet); para compreender
plenamente as condutas políticas e sociais dos grupos dominantes
que se esmeram em ocultar a presença ativa dos subalternos; para
iluminar uma profunda e extensa parte do passado que permaneceu

l Consigna do 'Movimento iS-M" dos jovens espanhóis que, alentadospelos ventos


do Norte da Áhica, protestam contra a falta de democracia participativa no sistema
capitalista. As manifestaçõescomeçaram em Madrid, no dia 15 de maio de 2011,
na Porta do Sol, e ganharam dimensões nacionais e internacionais, exigindo uma
democracia 'limpa dos corruptos", "mais .justa, mais representativa, mais humana e
mais igualitária" e que "não governe para os interesses do mercado'
2 Professor do Departamento de História da Universidade Federal de Santa Catarina
(UFSC)
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Waldir José Rampinelli e Nildo Ouriques Crítica à Razão Acadêmica
(Organizadores) Reflexão sol)re a universidade contemporânea

escondida por determinação de uma classe dominante; para clarear o de cora não fossem seres pertencentes à humanidade. Era a imagem
presente e ajudar a construir um novo futuro. Pelo contrário, a função originária da condição não humana do outro: o espanhola
primordial da universidade tem sido a de reproduzir os interesses da A democracia vivenciada pelos povos originários se fundamen-
classe dominante com todos os seus privilégios e os seus esquemas tava, teoricamente, em seus próprios nllósoEos,mais conhecidos como
intelectuais de dominação. Por isso, a verdadeira democratização da sábios.Dois deles são notórios na região mesoamericana:Nezahual-
universidade só poderá vir a partir de uma junção de corças dos estu- cóyotl (1402-1472),que, além de HilósoÉoe poeta, desempenhouas
dantes com os movimentos sociais comprometidos, com os sindicatos funções de arquiteto e guerreiro na cidade-estado de Texcoco, e Tla-
de luta de classes e com as corças progressistas em geral. caelel( l $98- 1487), que foi pensador, economista, estadista, guerreiro
É óbvio que existem grupos dentro da universidade brasileira e reformador religioso dos Mexicas, na cidade-estadode Tenochti-
que se esforçam e lutam para que ela se torne um verdadeiro me- tlán'. Ambos são estudados, atualmente, na Faculdade de FilosoHla
canismo de emancipação de seu povo No entanto, essas corças são da Universidade Autónoma da Cidade do México (UACM), ao lado
minoritárias e têm sido sistematicamente vencidas pela burocracia da dos pensadores chineses, hindus, pré-socráticos e europeus, vencen-
própria universidade aliada aos conservadores da sociedade. do, desse modo, um eurocentrismo que tem predominado na filosofia
O conceito de democracia, vivenciado na universidade, é o bur- e nas ciências sociais na América Latinas. Guaman Poma de Ayalajá
guês, no qual prevalecemas corças do mercadoe a influênciada declarara, em 16 15, por meio de suas imagens e de sua prosa, que não
classe dominante. Longe está a Mázzma Casa do Saberde buscar na havia nenhum ponto de contato produtivo entre a cultura europeia
realidade nativa latino-americana a experiência da autonomia e da e a andina, permanecendo uma separada da outra, sem esperança
democracia, consubstanciada na consigna "mandar obedecendo" que de uni-las e sendo impossível a compreensão entre ambas. Por sua
se tornou conhecida do grande público a partir do levante zapatista, vez, Garcilaso de la Veja mostrou, em 1609, como a Coroa espanhola
em 1994. O lema significa uma nova política, na qual os responsáveis destruirá um sistema político, económico, social e cultural que tinha
pelos cargos eletivos passam a exercer suas atribuições após ouvir como fundamento o "bom governo" e o "bem viver".'
os verdadeiros detentores do poder -- isto é, a comunidade, a base Hoje, enquanto a universidade brasileira pouco avança em seu
de qualquer organização --, podendo, inclusive, terem os mandatos processo interno de democraciaparticipativa, movimentos em vá-
revogados quando não cumprem o estabelecido nas suas assembleias. rias partes do mundo exigem, cada vez mais, um sistema que sqa
As consequências desta nova redenlniçãode poder "desdezzóaya"são o comandado desde a base, isto é, a partir de um poder popular. A Pra-
;bomgoverno" e o "bom viver", teorizadospor FelipeGuaman Poma
de Ayala, no Peru, em 1615. Ele escreveu e pintou sobre o colonia- 3 GUAMAN POMA DE ABALA, Felipe. Aluada roró7zzca y ózle2z goóza'7zo [1615]
México: Fundo de Cultura Económica,199$,3 vais. (O documentoâoiproduzido
lismo espanhol e a vida dos povos originários, mostrando como esta em forma de carta contendo mais de 1.000 páginas, das quais 400 são desenhos à
nova forma de dominação encobria a realidade nativa, gerando um tinta, dirigida ao rei de Espanha, Felipe 111,com o objetivo de fazer um grande relato
péssimo governo e um mau viver. Tanto que nos idiomas aymara e de como era a vida dos indígenasantese depois da chegadados conquistadores
espanhóis. Esse trabalho, escrito em espanhol pelo primeiro historiador indígena da
quéchua não existem as palavras "opressão" ou "exploração", incon- América Latina e achado no início do século XX também conhecido como "carta al
gruentes com a prática de suas organizações. Ambas as concepções rey" --, se encontra atualmente em uma biblioteca na cidade de Copenhague)
4 Tenochtitlán é a atual cidade do México, enquanto que Texcoco -- que conservou o
se resumem, nas referidas línguas, na noção de e n@eqzzeãeczmze#Zo, pertence ao Estado do México.
que se associa à condição humilhante da servidão. Muitos indígenas 5 1)USSEL Enrique. Un programa exemplar de filosofia en la UACM. l,a Jorpzada,
México, 25 j-. 201 1
chegaram a pensar, por conta da violência utilizada pelos conquista-
6 GARCILASO DE LA VEGA, Inca. Los conm2zZanosr?aüs & hs amas(Epítome). Lima
dores contra as entidades políticas vigentes nos Andes, que os vindos Editorial Mantaro, 1998

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Crítica à Razão Acadêmica
Waldir José Rampinelli e Nildo Ouriques
(Organizadores) Reflexão sol)re a universidade contemporânea

escondida por determinação de uma classe dominante; para clarear o de cora não fossem seres pertencentes à humanidade. Era a imagem
presente e ajudar a construir um novo futuro. Pelo contrário, a função originária da condição não humana do outro: o espanhol'
primordial da universidade tem sido a de reproduzir os interesses da A democracia vivenciada pelos povos originários se fundamen-
classe dominante com todos os seus privilégios e os seus esquemas tava, teoricamente, em seus próprios filósofos, maisconhecidos como
intelectuais de dominação. Por isso, a verdadeira democratização da sábios. Dois deles são notórios na região mesoamericana: Nezahual-
universidade só poderá vir a partir de umajunção de forças dos estu- cóyotl (1402-1472), que, além de Hilósotoe poeta, desempenhou as
dantes com os movimentos sociais comprometidos, com os sindicatos funções de arquiteto e guerreiro na cidade-estadode Texcoco, e Tla-
de luta de classes e com as forças progressistas em geral. cae[e[( 1398- ] '+87), que üoipensador, economista, estadista, guerreiro
É Óbvio que existem grupos dentro da universidade brasileira e reformador religioso dos Mexidas, na cidade-estado de Tenochti-
tlán+. Ambos são estudados, atualmente, na Faculdade de FilosoHla
que se esforçam e lutam para que ela se torne um verdadeiro me-
canismo de emancipação de seu povo. No entanto, essas corças são da IJniversidade Autónoma da Cidade do México (UACM), ao lado
minoritárias e têm sido sistematicamente vencidas pela burocracia da dos pensadores chineses, hindus, pré-socráticos e europeus, vencen-
própria universidade aliada aos conservadores da sociedade. do, desse modo, um eurocentrismo que tem predominado na filosoâla
O conceito de democracia, vivenciado na universidade, é o bur- e nas ciências sociais na América Latinas. Guaman Poma de Ayalajá
guês, no qual prevalecem as corças do mercado e a influência da declarara, em 1615, por meio de suas imagens e de sua prosa, que não
classedominante.Longe está a MázimczCasízdo Saberde buscar na havia nenhum ponto de cantata produtivo entre a cultura europeia
realidade nativa latino-americana a experiência da autonomia e da e a andina, permanecendo uma separada da outra, sem esperança
democracia, consubstanciadana consigna "mandar obedecendo"que de uni-las e sendo impossível a compreensão entre ambas. Por sua
se tornou conhecida do grande público a partir do levante zapatista, vez, Garcilaso de la Vela mostrou, em 1609, como a Coroa espanhola
em 1994. O lema significa uma nova política, na qual os responsáveis destruirá um sistema político, económico, social e cultural que tinha
pelos cargos eletivos passam a exercer suas atribuições após ouvir como fundamento o "bom governo" e o "bem viver".'
os verdadeiros detentoresdo poder isto é, a comunidade,a base Hoje, enquanto a universidadebrasileira pouco avançaem seu
de qualquer organização --, podendo, inclusive, terem os mandatos processo interno de democracia participativa, movimentos em vá-
revogados quando não cumprem o estabelecido nas suas assembleias. rias partes do mundo exigem, cada vez mais, um sistema que seja
As consequências desta nova redefinição de poder "desdeaó©o" são o comandado desde a base, isto é, a partir de um poder popular. A Pra-
'bom governo" e o "bom viver", teorizados por Felipe Guaman Poma
de Ayala, no Peru, em i6iõ. Ele escreveue pintou sobre o colonia- 3 GUAMAN POMA DE ABALA, Fe]ipe. ]Vaeua rorózzzZa J/ ózle7z goZlier'7zo [1615].
México: Fundo de Cultura Económica, 199s, 3 vais. (O documento âoi produzido
lismo espanhol e a vida dos povos originários, mostrando como esta em forma de carta contendo mais de 1.000 páginas, das quais 400 são desenhos à
nova forma de dominação encobria a realidade nativa, gerando um tinta, dirigida ao rei de Espanha, Felipe 111,com o objetivo de fazer um grande relato
de como era a vida dos indígenas antes e depois da chegada dos conquistadores
péssimo governo e um mau viver. Tanto que nos idiomas aymara e espanhóis. Esse trabalho, escrito em espanhol pelo primeiro historiador indígena da
quéchua não existem as palavras "opressão" ou "exploração", incon- América Latina e achado no início do século XX -- também conhecido como "carta al
rey" --, se encontra atualmente em uma biblioteca na cidade de Copenhague).
gruentes com a prática de suas organizações.Ambas as concepções 4 Tenochtitlán é a atual cidade do México, enquanto que Texcoco -- que conservou o
se resumem, nas referidas línguas, na noção de e/npeqzzeãecímzen/o, mesmo nome -- pertence ao Estado do México
que se associa à condição humilhante da servidão. Muitos indígenas 5 DUSSEL Enrique. Un programa exemplar de filosofia en la UACM. La Jor7zada,
México, es j-. 20i l
chegaram a pensar, por conta da violência utilizada pelos conquista- 6GARCILASO DE LA VEDA, Inca.l,oscaiuufanos
reaisdeZosz#cas(Epítome).
Lama:
dores contra as entidades políticas vigentes nos Andes, que os vindos Editorial Mantaro, 1998.
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\Valdir José Rampinelli e Nildo Ouriques Crítica à Razão Acadêmica
(Organiza(lares) Reflexão sobre a universidade contemporâi)ea

ça de Maio, em Buenos Abres (Argentina), derrubando o governo ção direta da universidade brasileira, com a finalidade de buscar o
de Fernando de la Rúa e seu .Estado(ü e/cefão;a Praça Tahrir, no 'bomgoverno" e o "bom viver"?
Cairo (Egito), levantando a bandeira dos direitos políticos; as esca-
darias do Congresso de Wisconsin, em Madison (Estados Unidos), A Reforma de Córdoba, que ocorreu em 1918,üoi a primeira
empunhando a faixa de conquistas sociais; a Porta do Sol, em Ma- grande tentativa de democratização da universidade latino-ameri-
drid (Espanha), clamando por mudanças políticas e económicas, nada cana protagonizada pelos estudantes, fazendo surgir uma geração
mais são que tentativas de superação da democracia burguesa, a qual, contestadorana região. O espírito dessa reforma, diz José Carlos
desde que 6oi instituída pela Revolução Francesa, sempre esteve a Mariátegui, apresentou-secom idênticas reivindicações em todas as
serviço dos ricos e poderosos.As populaçõesdos países centrais e instituições de ensino superior da América Latina, já que os jovens,
periféricos começam a tomar consciência de que a democracia repre- uma vez levados ao confronto por questões peculiares de sua própria
sentativa,juntamente com os organismos internacionais, não é digna vida, pareciam falar a mesma linguagem. Exigiam eles três postula-
de connlança por causa do alto grau de corrupção de suas burocracias dos fundamentais: a intervenção dos alunos no governo das univer-
e por conta de sua opção capitalista. Diante desta realidade, o povo sidades; a criação do cargo de professor com dedicação exclusiva;
se levanta em estado(ü rede/zão, convocando a própria imaginação e o e a manutenção de cátedras livres, junto às oficiais, com idênticos
próprio ezz/zósfasmo (palavra grega que signinlca ter os deuses por den- direitos para os docentes de reconhecida capacidade. A consequência
tro) para organizar uma nova estrutura participativa do Estado que de tão grande movimento Éoi a busca pela democratização da uni-
exija, com uma planificação mínima, porém estratégica, o cumpri- versidade e o enfrentamento com as oligarquias na sociedadelatino-
mento das necessidadesdo povo pelas instituições representativas, e americana. Córdoba -- continua Mariátegui tornou-se a afirmação
que as controle e6lcazmente7. de um "espírito novo", entendido como revolucionários.
Os espanhóispromoveram uma verdadeira "revolución de los in- Embora a ideologia do movimento estudantil não dispusesse,
dignados" ao grito do slogan "estamos sem trabalho, sem casa e sem inicialmente, de homogeneidade e autonomia -- pelo contrário, sofria
medo". Na verdade, estes movimentos fazem um chamado à reflexão influência de ideias democrático-liberais --, sua aproximação e cola-
coletiva para mudar um sistema envelhecido, aülrmando que "há mo- boração com os sindicatos operários definiu sua orientação política
mentos na história em que a indiferença é criminosa"'. na luta, transformando-a em uma bandeira de mudança da sociedade
Se a internet, o facebook, o twitter, os blogs, a telefonia celular e latino-americana. Não se pode esquecer da participação dos estudan-
as redes eletrânicas de comunicação ajudaram a derrubar ditaduras tes no üimdo Estado oligárquico em vários países da América Latina.
no mundo árabe estabelecidas há mais de três décadas, algumas de- Fatos da conjuntura internacional da época também tiveram sua
las apoiadas diretamente por países imperialistas; a desafiar o poder ingerência na Reforma de C6rdoba, tais como a realidadedo P6s-
imperial estadunidenseno seu próprio território; e a questionar os Primeira Guerra Mundial com o novo ciclo que se avizinhava, des-
partidos políticos que estão no poder, na Europa, sem resolver os pertando nos jovens "a ambição de cumprir uma função heróica e de
problemas económicos de suas populações, por que tais instrumentos realizar uma obra histórica"; a crise do Estado primário-exportador
clemobilização não poderiam ser utilizados, agora, na democratiza- com a oligarquia assistindo, sem desaparecer como classe, ao Himde
seu prometopolítico; as revoluções mexicana e russa, uma permitindo
7 DUSSEL Enrique. Participacíón democrática y estado de rebelión. l,a Jor#aíü, que a burguesia agrária tomasse o poder, marcando o começo da Ida-
Médico. 25 maio. 201 1
8 TEJEDA, Armando G. Rati6ican prohibición de movilizaciones ciudadanas altos 9 MARIÁTEGUI, José Cardos. .Szeü elzsaWos lü 27zürPr?laaózz zü /a rea/z(&zd perua7za
tribunales de Esparsa. La domada, México, 21 maio 2011 México: Editora Era, 1979, p. i09 e ss.
47
Waldir José Rampinelli e Nildo Ouriques
(Organizadores) r Crítica à Razão Acadêmica
Reflexão sol)re a universidade contemporânea

de Contemporânea na América Latina, e a outra criando o primeiro sentavam uma saída nacional-popular,quando não a marxista, na
Estado socialista, dando início à Guerra Fria entre dois sistemas an- busca do desenvolvimento do país. Toda esta conjuntura de discus-
tagónicos; e a proletarização da classe média, tendo a universidade, sões e realizações acontecia, em grande parte, por conta do segundo
entre seus alunos, um contingente muito grande pertencente a esse governo de Getúlio Vargas (195 1-1954), que se havia caracterizado
estrato social. pelo caminho de desenvolvimento marcado por uma ideologia nacio-
Em estreita relação de solidariedade, estudantes e operários não nalista, por uma oposição ao colonialismo, por um questionamento
só aderiram às ideias socialistas como também ao estudo da teoria ao imperialismoe pelo estabelecimentode uma infraestrutura que
marxista, desembocando na concepção de uma universidade popular. possibilitasse ao Brasil dar um salto histórico.
T)a universidade", aülrma Mariátegui, "saíram, em todos os países la- O movimento estudantil, que participou de todos estes aconteci-
tino-americanos, grupos de estudiosos de economia e sociologia que mentos, leva para o interior da universidade brasileira a bandeira da
puseram seus conhecimentos a serviço dos operários, dando a estes, mudança. Para Álvaro Vieira Pinto:
em alguns países, uma direção intelectual até então desconhecida"''.
O movimento dos estudantes de Córdoba mostra que não é pos- Este momento merece, com razão, ser chamado pré-revolucionário,
sível democratizar a universidade sem democratizar a sociedade, ou porque, embora as classes dominantes não o desejem, e tudo façam,
sqa, sua economia, sua política, sua cultura, enfim, sua superestru- é claro, para conjurar o perigo que as ameaça, as camadas popula-
tura. Revela que, portanto, tornar a universidade uma instituição res estão começando a se convencer de que somente sua decidida
ascensão lhes dará meios para realizar as reformas que consideram
democrática é uma tarefa de todos, principalmentedo movimento
urgentes ' '
estudantil, em estreita colaboração com os movimentos progressis-
tas em geral.
Já na década de 1980, marcada pelo âlm da ditadura militar, a
No Brasil, o grande movimento pela democratização da univer- democratização das instituições de ensino superior pode ser caracte-
sidade se deu no final da década de 1950 e início da de 1960. Passa- rizada apenas como pré-democrática, ou sqa, tão somente a recupe-
va-se, então, do período nacional-desenvolvimentistado governo de ração da democracia representativa. É nessa fase que a universidade
Juscelino Kubitschek para o do nacional-popular de Jânio Quadros e logra eleger alguns de seus administradores-- como reitor, diretor
João Goulart. No cenário internacional, o país evoluíra da criação da de unidade, chefesde departamento,entre outros --, reivindicação
Operação Pan-Americana (OPA) para a estratégia da Política Exter- conquistada, principalmente, pelas agrupações de professores, orga-
na Independente (PEI), sendo essa a política externa mais avançada nizados em torno da Associação Nacional dos Docentes do Ensino
de nossa história. Internamente, a busca do desenvolvimento tran- Superior (ANDESF'. Esse momento permitiu um avanço da demo-
sitou de um Plano de Metas que pretendia avançar "cinquentaanos cratização da universidade brasileira, porém dentro dos limites do
em cinco", dentro de uma perspectiva de capitalismo associado, para liberalismo burguês.
o estabelecimentodas reformas de base entre elas a universitária
Eis porque tem 6lcadoem segundo plano a questão da função social
-- hegemonizadas pelos sindicatos de classe e pelo movimento estu-
da universidade enquanto agência que, mantida pelo conjunto da so-
dantil. O grande debate teórico sobre a superação de nosso atraso
histórico cora capitaneadopelo Instituto Superior de Estudos Brasi- 11 PINTO, Álvaro Vieira. .4 questãoda zz/zzuerszdade.
São Paulo: Editora Cortez, 1986
P. ie
leiros (ISEB), cujos cadernos, comprados nas bancas dejornais, apre-
12 Proposta da Andes/SN para a UniversidadeBrasileira, Cadernos Andes 2
10MARIÁTEGUI, José Cardos.Op. cit., p. 114- Guaratinguetá-
Srt 1996.
48 49
Crítica à Razão Acadêmica
Waldir José Ralnpínelli e Nildo Out'iques
Reflexão sobre a universidade contemporânea
(Organizador'es)

ciedade, deveria estar comprometida com a realização das aspirações seus atuais senhores, porém deixando-os nas condições de cultura
populares que impõem a luta pela transformação da estrutura sócio- rudimentar em que se encontram atualmente's
econâmica do país; vale dizer, implicam a posição revolucionária''
Por sua vez, José Narro Robles, reitor da Universidade Nacional
Universidade e classe dominante Autónoma do México (UNAM), aülrmaque, "como bem público e
A função da universidade brasileira, atualmente,é a de reprodu- social, a educação superior tem que ser acessível a todos com crité-
zir a classe dominante,assim como a de preparar quadros técnico- rios de qualidade, equidade e pertinência". No entanto, a maioria dos
intelectuais que possam conduzir o sistema económico na busca da jovens latino-americanos não pode cursar uma universidade, sendo
realização da acumulação capitalista. Daí toda sua ojeriza, e até re- obrigados a viver na pobreza, na desigualdade social e no subdesen-
volvimento económico.Hoje, um em cada quatro jovens, entre 15
pulsa, à concepção de uma universidade com caráter popular. A IJni- e 24 anos,na América Latina, está fora do sistemaeducativoe do
versidadeFederal de Santa Catarina (UFSC), durante três décadas,
mercado de trabalho, e somente um em cada 100 consegue concluir
admitiu apenas a entrada de cerca de três mil alunos por vestibular
o seucurso superior''
realizado a cada ano, quando aproximadamente trinta mil disputa-
Álvaro Vieira Pinto identi6lcaseis funçõesou atributosda uni-
vam seu ingresso. Somente a partir de 2009, com a criação de novos
versidade brasileira destinados a fazer da instituição "um instrumen-
cursos, em várias áreas, os selecionadostêm se aproximado dos seis
mil. Número ainda vergonhoso que, no entanto, faz a administração to capital da estrutura política vigente, com todas as suas caracterís-
ticas de opressões internas e de submissão externa": '
central se orgulhar do referido "avanço" (sic). Na verdade, a admissão
de estudantes brasileiros no ensino superior é uma das mais baixas A primeira função consiste em fazer da universidade o instru-
mento mais e6lcientepara o comando ideológico da classe dominan-
da América Latina, barrados, no mais das vezes, pela excrescência
do vestibular, quando não pela necessidadeurgente de buscar sua te, já que a ela incumbe a tarefa da produção dos próprios esquemas
subsistênciano mercado de trabalho''. Não há, por parte das admi- intelectuaisde dominação. Desse modo, a universidade dirige seu
nistrações centrais das universidades, qualquer estratégia para am' ensino e sua pesquisa para o fortalecimento de uma burguesia que
se beneficiado público em favor do privado, contendo sempre nos
pliar o número de vagas, de forma a acolher a todos os que concluem
seus devidos limites as forças populares que eventualmentepossam
o segundo grau. Igualmente o governo brasileiro não tem adotado
uma política de ampliação total das vagas das universidades federais, oferecer alguma ameaça.'A classe dominante", diz Vieira Pinto, "so-
licita da universidade acima de tudo as ideias que justifiquem o seu
universalizando o sistema, já que tal atitude exigiria investimentos
poderio'
maciços na educação. Diz Vieira Pinto:
As oligarquias catarinenses se reproduzem nos grupos que es-
O aluno ao iniciar a escola primária, e tão somente por isso, já está tão no poder na Universidade Federal de Santa Catarina, há cinco
habilitado a ingressar um dia na universidade. SÓ não pensa assim décadas. Ambos são defensores de um prometocapitalista dependente
quem acredita que a escola primária se destina apenas a alfabetizar e sempre estiveram juntos, quer ao longo da ditadura militar, quer
a massa dos trabalhadores, para os fazer trabalhar melhor para os durante o período chamado de restauração da democracia, mantendo

l s SAVIANI. Dermeval. Prefácio. In: PINTO, Á. V Op. cit., P. 7-8


14 A Universidade Nacional Autónoma do México (UNAM) admitiu cerca de 85 15 PINTO, Álvaro Vieira. Op. cit., p. 99. . ,. ,
] 6 NARRO ROBLES, José. La educacióny la ciencia en la integraci6n de lberoamérica.
mil novos alunos para o ano ]etivo 2011-20]2, perfazendo um total de s16 mil
estudantes matriculados na instituição que é pública, gratuita e de reconhecida La Jor,fada, México, 10 maio 2001 (Conferência).
qualidade internacional. 17 PINTO, Álvaro Vieira, Op. cit., p. 25'S4.
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0
Crítica à Razão Acadêmica
Waldir José Rampinelli e Nildo Ouriques
(Organizadores) Reflexão sobre a universidade contemporânea

o país atrelado aos interesses de classes dominantes nacionais e es- Rodolfo Joaquim Pinto da Luz, quadro da burocracia univer-
trangeiras. Isso Cazcom que, para ser reitor da UFSC, o pretendente sitária forjado durante a ditadura militar o gestor" --, exerceu o
deva ser um integrante da classe dominante ou representante dela, e cargo de reitor por três vezes na UFSC'', perfazendo doze anos de
não alguém que seja possuidor de uma autoridade ética e cientínlca, administração. Preposto das classes dominantes e integrante da Ma-
isto é, um intelectual respeitado, ouvido e comprometido com a defe- çonaria, levou para dentro da universidade a ideologia e as práticas
sa da concepção de universidade popular. quotidianas de ambas, defendendo seus objetivos e realizando suas
tnrnfn eee r)l innHn
A ditadura militar, quando completava seu primeiro ano de su- + ;< UUXXUV

pressão dos direitos civis e políticos, bem como da violação das nor- '...] o reitor traz para o interior da instituição universitária os inte-
mas constitucionais,obteve o apoio unânimedo Conselho Univer- resses dos comprometidos de modo imediato com o poder (como no
sitário da UFSC, por meio de um telegrama, no qual se aplaudia o caso das oligarquias, do mercado, das grandes forças económicas [e
golpe de Estado que havia restabelecido o "clima de tranquilidade e o eu acrescentaria: da Maçonaria]) ele é nocivo à universidade. [...1] E
trabalho progressista" no país. Isso, "graças ao restabelecimento do testemunhamos o triste espetáculo de reitores que ameaçam os seus
princípio da ordem e da autoridade que permitiu que os professores e pares, estudantes, funcionários, mas se ajoelham nas antessalas dos
os alunos cumprissem suas missões sem os movimentos subversivos ministérios e das secretarias de governo"
que tanto prqudicaram a mocidade brasileira". Na mensagem envia-
da ao ministro da Educação e Cultura -- professor Raimundo Moniz A segunda função da universidade é assegurar a colocação dos
de Aragão consta que a "nova orientaçãoimprimida pelo Minis- elementos intelectuais ociosos da classe dominante, a quem Vieira
tério da Educação assegurará às universidades condições para que Pinto denominou de "mão-sem-obra". São oferecidos a eles cátedras,
cumpram suas altas e nobres Finalidadesnesta fase de reconstrução laboratórios e cargos de assistentes, de pesquisadores, de assessores e
da vida nacional". E concluía solicitando ao destinatário que trans- outros simulacros de trabalhos válidos. Verdadeiros parasitas do di-
mitisse ao presidente da República "a expressão desta mensagem que nheiro público, esses "doutores" emprestam sua inteligência e capaci-
traduz confiança e respeito desta universidade". Não apenas o reitor dade muito mais seu servilismo para defender e reproduzir os inte-
em exercício Roberto Mündell de Lacerda, que fora o proponente resses da classe dominante. Às vezes é um procurador-geral que, mais
desta iniciativa, assinou o documento, como também !QÉIQ80s mem- zo Sobre a atuaçãode RodolâoJoaquim Pinto da Luz, veja-seVIEIRA, Pedra Antonio
bros daquele "egrégio" Conselho Universitário''. A armadilha das urnas: 20 anos de eleições diretas e de continuísmo na l.JFSC. In:
RAMPINELLI, Waldir José(Org.). O pnzfo do z,ofo: os bastidores de uma eleição
O fato se repetiu quando o golpe de Estado completara dois para reitor. 2' ed. Florianópolis: Editora Insular, 2008, p. 5 1-78
anos. Dessa vez, o reitor João David Ferreira Lima, ao dar por encer- 21 Pinto da Luz âoi reitor nos seguintes períodos: 1984 a 1988; 1996 a 2000; e 2000
a 2004
rada a sessãodo Conselho Universitário, "teceu consideraçõespela 22 Uma vez terminada a greve nacional das univer?idades autárquicas, em 1984, que
passagem d0 2' aniversário da Revolução, enaltecendo aqueles que teve a duração de 84 dias, realizou-se uma Assembleia Universitária na UFSC, com
baniram para sempre os corruptos e os subversivos dando ao País um a presença de aproximadamente seis mil participantes, que aprovou a não reposição
de aulas e a inviabilização do semestre, período este que seria destinado a discutir
clima de tranquilidade"'o. a função da Universidade Pública por meio de uma estatuinte. A decisão âoi levada
ao Conselho Universitário(CUn), no qual houve empate na votação, usando então
18 1.JNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CA:lIARINA. Conselho Universitário. o reitor -- Rodo16oJoaquim Pinto da Luz -- seu voto de Minerva para opor-se a
Florian6polis, Hfa da sessãorea/zzadaem29 de narro (ü /965. Livro n. 2, p. 285.(O esta decisão. Na verdade, ele vetou uma discussão, pedida pela comunidade, sobre
autor, ao citar o telegrama, não levou em consideração a linguagem telegránlca) a função social da universidade, já dada por ele como estabelecida, qual seja, ser a
19 UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA. Conselho Universitário, defensora dos interesses da classe dominante.
Florianópolis, ZZa da sessãorea/zzada em 3/ de mala de /966. Livro n. 2, p- 376. 28ROMANO, Roberto.Prefácio.In: RAMPINELLI W J.(Org.) Op. cit.,p. 17
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\Valdír José Rampinelli e Nildo Ouriques
(Organizadores)

que atuar em favor da universidade -- sua função primordial --, passa


a tratar de questiúnculas domésticas negociando apoios, distribuindo
favores, ameaçando docentes e técnicos-administrativos para ajudar a
r Crítica à Razão Acadêmica
Reflexão sobre a universidade contemporânea

sam critérios escusos, principalmente quando o aluno é conhecido e


atua em algum movimento social ou partido político. Na realidade,
exclui-se o estudante de pensamento crítico com praxis política, ta-
eleger o reitor e garantir benesses;outras vezes é um pró-reitor que lhado de não acadêmico; pune-se o pós-graduando não "domestica-
processa um professor por críticas recebidas,julgando-se inatacável do" e com voo teórico próprio, chamado de rebelde; humilha-seo
na função desempenhada. Pagos, e muito bem pagos, estes profissio- trabalho de pesquisa independente, dito sem qualidade; rejeita-se o
nais são úteis à classe dominante, pois ajudam a destruir a democracia ousado, apresentado como não educado. Um candidato ao mestrado
e corromper os processos eleitorais. Na eleição de 2007 para a Reito- em Sociologia Política na UFSC, após defender seu prqeto de pes-
ria da UFSC, o papel desempenhadopelos ex-reitores Ernani Bayer e quisa que tratava de uma análise do crescimento da dívida exter-
Rodolâo Joaquim Pinto da Luz, em favor da candidatura Prata-Parada, na brasileira, 6oidesta forma questionado por um docente que fazia
transformou-se em verdadeiro assédio moral, pois telefonaram para parte da banca de avaliação:'Afinal de contas,o que isso tem a ver
docentes, funcionários e até pais de alunos, sempre brandindo a espada com as nossas ciências humanas?" Até o padeiro da esquina sabe que
da intimidação e associando a vitória de uma candidatura progressista o fim do subsídio ao trigo Ihe tira lucro na venda dos pães, aumen-
à instalação do caos na instituição. Quando não convenciam o inter- tando o sa@e7"cíz,zf
primário para o pagamentodesta mesma dívida.
locutor, pediam para não votar ou, em última instância, não falar mal Com certeza, o proprietário da padaria, que ajuda na manutençãoda
do candidato oficial. Triste a galeria desses ex-reitores, que raramente universidade pública com seus tributos, estaria interessado no tema.
escreveramum artigo, nuncapublicaramuma pesquisa,jamais atua- Estas atitudes têm por finalidade direcionar a pesquisa para assuntos
ram como intelectuais na sociedade. Quando muito, perpetuam nomes que interessem e ajudem a classe dominante a realizar, cada vez mais,
.l.,aó
em placas de bronze pelos corredores da universidade. É doloroso ver a ucl avuiiiLAia bfav

a pobreza de seus currículos carregados de medalhas e honrarias, mas A quarta função da universidade é absorver e amortecer "o surto
vazios de trabalhos acadêmicos relevantes. da consciência popular, representada pelo elemento estudantil des-
A terceira atribuição da universidade é organizar o cartório para comprometido com os poderosos". Por isso a universidade assume a
o reconhecimento das funções proveitosas aos interesses da clas- tarefa de "converter" os jovens estudantes, alguns advindos de clas-
se dominante. Cabe à universidade conceder o registro de títulos e ses médias ou proletárias, aos interesses da classe dominante, ace-
documentos doutorais indispensáveis ao exercício de um cargo mais nando-lhes com a ilusão de, no futuro, integrarem essa mesma classe.
relevante na sociedade.Ela declara quem pode ser doutor e quem Diz Vieira Pinto:
não o será. Os "doutores" não apenas buscam favoreciment(}s entre si,
mas quando pertencem à mesma Loja Maçónica atribuem-se cargos e É decisivo assinalar esta 'missão catequética', no seu aspecto e sig-
funções, embora muitos deles sejam evidentemente incompetentes na nificado reais, porque, para mascara-la, os pedagogos administra
gestão administrativa. O critério é a "irmandade", não a capacidade. dos alunose seus temasde prqetos de pesquisa,passandopelo alto número de
Daí se compreende como tais "lideranças" tratam a democracia uni- orientandos que alguns professores dispunham e terminando na qualidade sofrível
versitária. de suas dissertações e teses. A universidade viu-se obrigada, por exemplo, a cassar
o título de mestre de um estudante desse programa por conta de um plágio na
Problema grave, por exemplo,é o processo de seleçãopara a elaboraçãode sua dissertação.O insólito, para não dizer o escandaloso,é que o
pós-graduação, a fábrica de muitos desses doutores". Às vezes pe- orientador do que copiou Ecrã membro da banca da defesa de tese do copiado,
sem que se desse conta do crime realizado. A Coordenação de Apeüeiçoamento
24 O Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção da (JFSC Êoinotícia de Pessoal de Nível Superior(Capes) interviu, pondo 6im à besta de concessão de
nacional por uma série de irregularidades cometidas, começando pelo ingresso títulos. /IZ#omatiz;o da Pró-Relíoria cü Pós-Grudzéação, abr. 2011.
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\Valdir José Ralnpinelli e Nildo Ouriques Crítica à Razão Acadêmica
(Organizadores) Refllexãosobre a universidade contemporânea

tivos procuram apresenta-lasob o nome de "democratização"da Na verdade, duas concepções de universidade se enfrentam, uma
universidade". baseada em valores elitistas, meritocráticos e voltada inteiramente
para o mercado,e a outra de cunho popular,nacionale orientada
Nos processos eleitorais, muitas vezes, os alunos são escolhidos para o bem comum da população.Enquanto em um mesmo centro de
pelos "doutores" para realizar o trabalho desonesto,quando não o
ensino um grupo de pesquisa se dedica a aprimorar tecnologia para
Diretório Central dos Estudantes (DCE) é cooptadoem troca de fa-
produzir umJkí slz que desenvolva mais velocidade e mais competi-
vores pessoais, com a promessa de concessãode bolsas de estudo ção nas belas águas do Jurerê Internacional, outro procura criar mó-
ou viagens de "trabalho". É muito perigoso deseducaro jovem da dulos consistentes e baratos para a construção de casas populares na
prática democrática.Isso porque o individualismo e a competição periferia de Florian6polis. Dois projetos de uma mesma universidade
que caracterizam cada vez mais o capitalismo poderão leva-lo para atendendo classes sociais completamente antagónicas.
grupos fechados.que farão da violência o mecanismo de autodefesa. A sexta função da universidade é a de formar os representantes
Os s#z2zÀea(Zç e os neonazistas são propagadores de um nacionalismo
e os dirigentes da classe dominante. Empresários, banqueiros, políti-
reacionário e de um racismo xenófobo. Os que usam os estudantes
cos, exportadores, burocratas, enfim, de oligarcas a burgueses, todos
para atitudes antidemocráticas e desrespeitadoras de manifestações passam pela instituição não apenas para adquirirem conhecimentos,
políticas poderão estar chocando ovos de serpente. como também para se tornarem "Hinos"e "educados". A classe domi-
A quinta atribuição da universidade consiste em conservar parte nante precisa dos letrados para a defesa de seus interesses.
significativa dos recursos públicos nas mãos da classe dominante. A cultura popular só entra na universidade,no mais das vezes,
Basta ver como os grandes projetos ligados às grandes empresas são por vias transversal, como nas greves, em determinadossimpósios
sempre os grandes favorecidos. Fundamentado nessa realidade, um e durante certas comemorações. Quase sempre pelas mãos dos sin-
professor do Centro Tecnológico (CTC) da UFSC defendeu em uma dicatos dos docentes,dos técnicos-administrativosou do l)iretório
lista eletrânica de discussão que, se as Ciências Humanas recebem
Central dos Estudantes, não sendo esta uma política permanente da
algo, elas devem ser gratas ao CTC, que faz o nome da universidade in eti ti l;PõA
e possibilita que outras áreas se beneficiem dessa condição. Portanto, O curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Cata.
nessa ótica, "somos mais, valemos mais e temos o direito de eleger o rina criou a Cá/ednuRB,S" -- Rede Brasil Sul --, empresaassociadaà
reitor da UFSC". Terry Eagleton afirma que,
http://wwwatilioboron.com/20 11/01/universidades-y-capitalismo.html Acesso
do mesmo modo que não pode ter um .pziósem álcool, igualmen- em: 23 .]an. 201 1
te não pode existir uma universidadesem as humanidades.Se a 27 Luiz Cartas Prates comunicadorque se tornou conhecidoem SantaCatarina
por suas posições reacionárias, quando não fascistas --, apresentava-se,em seu
história, a üilosoâiae as demais [ciências humanas] se desvanecem currículo,como "colaboradordo curso de Jornalismoda UFSC na disciplina
da vida acadêmica,o que deixarão atrás de si serão instituições de 'Cátedra da RBS"'; por sua vez, Rogério ChristoÊoletti, professor do Departamento
formação técnica ou institutos de pesquisa empresarial. Porém, não de Jornalismo, afirmou que "são bem-vindas iniciativas como a da Globo
Universidade, de aproximar seus quadros profissionais e empresas às escolas. Bem
será uma universidade no sentido clássico do termo, e seria engano- como é oportuna a criação de cátedras específicas, como a Cátedra RBS da UFSC"
so denomina-la assim. Tampouco haverá uma universidade no sen- já o estudante de Jornalismo de nome Pedra lembra que "tal disciplina [reâere-se
tido pleno do termo quando as humanidades existem isoladamente ao semináriooptativo da Cátedra RBS] servia como programa de curiosidades
das demais disciplinas". sobre o dia-a-diade proülssionaisdo grupo RBS e um exemplode atuaçãona
academia de um grupo monopolista da média catarinense. Acho importante
[continua Pedro] que se tenham matérias práticas no curso e que o jornalista que
25 PINTO, Álvaro Vieira. Op. cit., p. 29. saia da Universidade esteja de alguma forma em sintonia com o que se produz no
26 EAGLETON,TerryLamuertedelas universidades.In:BORON.Atílio.Disponívelem: mercado, sempre com o posicionamento crítico que a academia promove e que, via e'
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Waldir José Rampinelli e Nildo Ouriques Crítica à Razão Acadêmica
(Organizadores) Reflexão sol)re a universidade contemporânea

Rede Globo de Televisão, ambas defensoras e mantenedoras do mo- avanço na sociedade que pode possibilitar algum ganho democrático
dentro da universidade.
nopólio nas comunicações. Portanto, opositoras de qualquer forma
de democracia participativa e igualitária. O objetivo desta Cadeira A escolha dos nomes dos candidatos oficiais na Universidade Fe-
de Ensino é preparar jornalistas técnicos e subservientes -- mas não deral de Santa Catarina -- portanto, os futuros reitores que, por sua
críticos e independentes -- para atuarem nos órgãos de comunica- vez, vão indicar os pró-reitores e os presidentes das Fundações -- se
ção da RBS espalhadosna região sul do país. É uma interferência dá entre as diversas facções da classe dominante, cabendo aos empre-
não apenas pedagógica,mas principalmentepolítica na autonomia sários, aos políticos e aos membros da Maçonaria um peso desmedido
da universidade, com a aprovação do Colegiado do Departamento de na indicação. Na UFSC, desde a sua criação em 1960, a Maçonaria'o
Jornalismo e a aquiescência da administração central da UFSC. Sem tem exercido uma influência extraordinária, não apenas em desve-
dúvida, um assunto para uma intervenção do Conselho Universitário lar os nomes que vão disputar e ganhar as eleiçõespara a Reitoria,
mas também em conceder privilégios a seus apaniguados, tais como
(CUn), caso ele posse zeloso de suas funções acadêmicas, pedagógicas
inquéritos administrativos que não punem; funções gratiÊlcadas re-
e políticas e as exercesse com autonomia.
passadas temporariamente a "amigos" com a única finalidade de que
incorporem vantagens ao salário"; cessão de docentes à burocracia
Eleições na Universidade
federal com a acumulação de vencimentos e de gratiHlcação,apesar da
A eleição para determinadas funções na universidade brasileira negativa do Departamento de origem do professor em permitir a sua
começou na década de 1980, isto é, durante o período caracteriza- saída; indicação de pessoas para funções relevantes na universidade
do como pré-democráticopor Vieira Pinto, sob a hegemoniados simplesmente por pertencer à mesma Loja Maçónica; facilidades na
professores que criaram a ANDES. Portanto, uma conjuntura to- aprovação de proUetosjunto às fundações bem como na distribuição
talmente distinta daquela dos anos 1960, quando se vivia a época de bolsas de estudo; dificuldades na remoção de um pró-reitor de seu
pré-revolucionária, na qual os estudantes exigiam uma reforma uni- cargo quando o mesmo pertence à Maçonaria; nomeação para fun-
versitária, que consistia em impedir que a classe dominante se repro- ções em órgãos educacionais regionais e nacionais; e a concessão de
duzisse no interior da instituição, e ao mesmo tempo defendiam uma outras benessestão somente pelo critério de "irmandade". Isso nada
universidade de cunho nacional-popular. A escolha dessas funções mais é que a destruição da democracia e a instalação do patrimonia-
administrativas dentro da universidade âoi, sem dúvida, um avanço. lismo dentro da universidade.
No entanto, diz Edward Said, "por mais que a pessoa seja a favor das Então, qual deve ser a função de um reitor na universidade bra-
eleições não se pode fugir da verdade amarga de que elas não produ- sileira para que ela sqa um laboratório da respzóólzZa, preparando
zem automaticamente democracia ou resultados democráticos"". A as Jovens gerações para conhecer mais e melhor o Brasil, ajudando
universidade brasileira, com todas as eleições que realizou, infeliz- seus egressos a decifrar e resolver os grandes problemas nacionais e,
mente, não gerou mais democracia no seu interior. Na realidade, é o 29 A Maçonaria tem todo o direito de existir como uma entidade privada. No entanto.
ela se torna perniciosa e lesiva quando utiliza meios, sejam eles claros ou escusos
de regra, o mercado aniquila. [-.] Trata-se de não sairmos como um "apertador paraconceder facilidades e distribuir privilégios a seus membros, gerando a inl ustiça
de botões", coisa que matérias como a Cátedra RBS, além das implicações políticas, e a desigualdade. É uma forma de atuação que deveria ser totalmente condenada,
insistem em querer promover". Disponível em: http://monitorando.wordpress. pois ela é antidemocrática e antirepublicana
com/2009/ 10/22. Acesso em: 20 .jan. 2011 se H(Üe esta manobrajá não é mais permitida. No entanto, muitos docentes e técnicos-
28 SAID, Edward. O papel público de escritores e intelectuais. In: MORAIS, D. (Org.) administrativos continuam a perceber altos valores em seus contrachequespor
Comóafes e zzlcPzas:
os intelectuaisnum mundo em crise. Rio de Janeiro: Record, conta desta "ação entre amigos e membros de associações secretas" permitida por
zo04,P. 41 leis criadas pela ditadura militar e utilizadas largamente pelos seus gestores.

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Waldir José Rampinelli e Nildo Ouriques
Reflexão sobre a universidade contemporânea
(Organizadores)

finalmente, apontando para a sociedadeo verdadeiro conceito de de- o modelo económico que prevalece na América Latina, cuja principal
meta é a de "acumular bens". Ao fazer isso "sem limites e sem decoro.
mocracia, experimentando-oe vivendo-o dentro de seu próprio meio
acadêmico? sem freios no método e sem medir as consequências para obtê-lo, [o
Primeiramente ele precisaria se dar conta de que a universi- modelos condenou-se ao fracasso mais estrepitoso, causando simul-
dadefaz parte da realidadede um país de Terceiro Mundo ou de taneamente numerosas crises"". Por sua vez, José Vasconcelos, em
1920, assim expressava o seu nacionalismo cultural:
capitalismo periférico e, portanto, necessitaria conhecer muito bem
a política internacional e a inserção da sua região no conjunto das
nações para estabelecer diretrizes básicas no ensino, propor obje- A pobreza e a ignorância são nossos piores inimigos, e nos toca re-
solver o problema da ignorância. Eu sou nestes momentos, antes que
tivos estratégicos na pesquisa e encaminhar soluções na extensão.
o novo reitor que sucede aos anteriores, um delegado da Revolução
A alienação cultural está diretamente ligada à alienação económica,
preferia-se à Mexicana de 1910] que não vem buscar refúgio para
sendo que a classe dominante sejulga portadora do saber, oprimindo, meditar no ambiente tranquilo das salas, mas sim convida-los para
desse modo, as organizações populares em favor dos interesses es- que sapaiscom elepara a luta, e que dividais conosco as responsabi-
trangeiros. "Numa nação subdesenvolvida como a nossa, enquadrada lidades e os esforços. Nestes momentos eu não venho trabalhar pela
no complexo do imperialismo", diz Vieira Pinto, "a universidade nem Universidade, mas pedir que a Universidade trabalhe pelo povos'
por ação da classe dominada nela existente, nem por ação da classe
dominante, que a manobra, contribui para criar a autêntica cultura Em terceiro lugar, o reitor deveria ser um grande conhecedor
que o país reclama"''. Portanto, um reitor pertencente à classe domi- da realidade universitária, preferencialmente um professor ou pro-
nante, ou preposto dela, reproduzirá no interior da universidadeos fessora que se exponha diariamente a seus alunos realizando o de-
interesses da mesma. Como as instituições públicas de ensino supe- bate teórico-cientínlco;que realize pesquisa e entenda que ela não é
rior (federais,estaduaise municipais)são responsáveispor mais de neutra, mas tem objetivos políticos; que faça extensão e participe da
90% da ciência e tecnologia produzida no país, qualquer prqeto de construção de uma nova relação social na sociedade;que publique
Estado-nação soberano passa, obrigatoriamente, pela atuação dessas suas conclusões para serem discutidas e avaliadas pela comunida-
universidades. de; enülm,um reitor ou uma reitora com vivência e experiênciano
Em segundo lugar, o reitor deveria saber das carências de sua quotidiano acadêmico-técnico-científico-intelectuale que defenda a
região e estar inteiramente voltado para o seu desenvolvimento, ten- universidadecomo um instrumentode emancipaçãodas classes su-
do a clara visão de que os recursos públicos devem reverter em íà- balternas. Neste último item reside a grande função de um reitor, e a
vor de suas populações que sustentam, com seus impostos, a própria mais difícil de ser realizada, porque implica a superação de um mun-
universidade: José Narro Robles, reitor da UNAM, a6lrmou catego- do desigual no qual estamos inseridos e o modo como a universidade,
ricamente que para a universidade pública 'já não é suficiente gerar com a geração de seu saber, pode cooperar na busca dessa conquista
e transmitir conhecimento para cumprir com nossa função com res- histórica.
ponsabilidadesocial. É necessárioassumir um papel mais ativo na Um reitor não pode assistir pacinlcamente à luta dos estudantes
proposição e execução'de soluções". E üoi mais longe ao dizer que pelo passe livre no transporte urbano, como se isso fosse um proble-
;sém ciência e educação'simplesmente não existe desenvolvimento;
32 NARRO ROBLES, José. Discurso no ll Encontro de Reitores Ibera-Americanos da
sem arte e cultura perde-se o sentido humano". Por ülm, questionou Universia. Guada14jara,La Jornada, s l maio 2010
3S VASCONCELOS, José. Apud COSMO VILLEGAS, Daniel. (Org.). Hnfórza gePzenn/
cü Mézzco. México: EI Colégio de México, 2009, p. 985. (O negrito é meu)
s l PINTO, Álvaro Vieira. Op. cit., p. S9.
60.,.#. 61
Crítica à Razão Acadêmica
Waldir José Rampinelli e Nildo Ouriques Reflexão sobre a universidade contemporânea
(Organizadores)

Representar pressupõe contato com o representado. É leva-lo e


torna-lo presente onde ele não está. A democracia grega e a repúbli-
ca romanajá tratavam dessa categoria com um certo cuidado. Locke
e a Revolução Francesa também. Para representar é preciso recorrer
a assembleiase reuniões. É óbvio que não há necessidadede encon-
e reclama melhorias no seu bem-estar social, como se a universida-
tros permanentespara representar um Centro de Unidade quando
de não tivesse nada a oferecer a estes movimentos; e não pode jamais
os princípios discutidos e rea6lrmadospor este mesmo Centro vão se
deixar de levantar sua voz, fundamentadana ética e na autoridade
tornando públicos.
cientí6lca,para se contrapor à destruição do tecido social humano
No entanto, nossos representantes nas câmaras, nos colegiados
promovida pelo capitalismo neoliberal"
As universidades públicas deveriam ser tão importantes para sua e nos conselhos da universidade representam, quase sempre, a si pró-
prios ou, quando muito, a sua categoria -- os professores são maioria
cidade, estado e país que não apenas a comunidade que nela vive, tra-
balha e estuda se preocupasse com a escolha de seu reitor, mas sim absoluta nestes órgãos -- e as suas direções de Centros. Uma grande
um universo social muito mais amplo. Em vários lugares da Amé- parte deles não presta contas de seus proyetos, de suas intervenções e
rica Latina, uma realidademuito pr6xima de n6s, as universidades de seus votos. Com a tecnologia de que dispomos, isso não apenas se-
ria muito fácil como também muito importante para a democracia. A
ocupam diariamente páginas inteiras nos jornais. Basta abri.los vla universidade, para se democratizar, deverá ter necessariamente uma
internet, para ver um setor dedicadoa elas.Outras, infelizmente,só
representação igualitária de estudantes, técnicos-administrativos e
aparecem em época de vestibular. Uma universidade que se mostra docentes em todas as suas instâncias decisóriass6.
preponderantemente na média nas datas das provas .de ingresso ou
em ano de eleição para reitor ou quando há greve está muito aquém Um exemplo claro de um colegiado que desrespeita a demo-
cracia é o que aconteceu na Editora da UFSC (EdUFSC), em 2009,
da função de uma instituição voltada para a solução dos problemas
quando seu Conselho Editorial censurou um livro que havia obti-
de sua população.
Pablo Neruda se dava por satisfeito porque, de uma forma ou ou- do dois pareceres favoráveis. E/ ferrorümo de Es/.zdo e7zCoZõmóza(já
publicadopor editorasda Venezuela,da Espanta e da França), de
tra, fizera por respeitar em sua pátria o ofício do poeta e.a função da
autoria de Hernando Calvo Ospina, jornalista do Z,e Mozzde D@lomcz-
poesia. "De tal serviço prestado à cidadania estou consciente", dizia
fzqzze, Êoi apresentado à EdUFSC para fazer parte da coleção Rezam;õei
ele, "e este galardão não permito que ninguém o arrebate, pois.gosto
/n/er7zaczonaz)
e EstadoNacz07za/.
A obra, examinadapor dois docen-
de carrega-lo como uma condecoração"". Os reitores das universi-
tes -- um da UFSC e outro da UFRGS --, sendo este último um in-
dades brasileiras precisariam valorizar o ofício de reitor e a função
da Reitoria. Para tanto, precisam fazer com que as instituições que ternacionalista, teve de ambos pareceres favoráveis a sua publicação.
Ocorre que um membro do Conselho Editorial da EdUFSC, perten-
dirigem trabalhem em favor de seu povo
cente ao Departamento de Engenharia Elétrica, inconformado com
as duas opiniões favoráveis, pediu vistas das aprovações e exarou um
parecer contrário à publicação,sendo acompanhadopela maioria dos
conselheiros. O inédito aconteceu: o eletricista venceu o internacio-

86 Dos 56 membros do Conselho Universitário da UFSC, S9 vagas são preenchidas


por docentes, apenas 6 por técnicos-administrativos, igualmente 6 por estudantes e
35 NER(JDA, Pablo. C071/Zeloqzée
5 por representantes da comunidade.
P. 866
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62
Reflexão sobre a universidade contemporânea
(Organizadores)

nalista em matéria de política internacional. E o mais lamentável: ram os resultados das urnas e deslegitimaramos ditos vencedores.
não se pede ter acesso aos pareceres pelas vias normais, mesmo que As candidaturas oficiais", escolhidas e apoiadas pela classe dominan-
isso tenha sido solicitado com a preservação do nome dos autores. te. se utilizaram de uma série de mecanismos para cooptar e coagir
Tivemos, pela primeira vez na história da editora, um livro censura- docentes, técnicos-administrativos e estudantes. O processo eleitoral
do pelos seus conselheiros, apesar de duas manifestaçõesfavoráveis em nada diferiu das votações para vereador e prefeito nos chama-
à publicação. dos protões de nosso país. Se lá se compram votos com dentaduras,
A censura na EdUFSC, que teve repercussão internacional, é cestas básicas e empregos, aqui se barganham funções gratificadas,
um exemplo típico da falta de democracia na universidade. Preva- bolsas de estudo e promessas de apoios para as che6lasde unidades
leceu no Conselho da EdUFSC a defesa da cultura metropolitana, e direções de Centros. Por conta disso, nossa universidade vem cada
isto é, uma mentalidade colonizada que privilegia assuntos europeu- vez mais perdendo autoridade e tão somente adquirindo poders9
estadunidensesem detrimento dos latino-americanos.Se o mesmo As candidaturas oficiais, montadas na estrutura de poder da ins-
livro sobre a Colâmbia fosse apresentado com seu título em fran- tituição, exigem das empresas que prestam serviço à universidade
cês e um selo de casa editorial de Paras,possivelmente ele teria sido apoio financeiro, como também campanha política dos trabalhadores
aceito. Censurar é cortar, vetando às pessoas o direito de acesso ao terceirizados; cobram dos técnicos-administrativoscomissionados
conhecimento. Não podemos esquecer que a história da luta contra fidelidade na hora de votar, como igualmente de seus protegidos ou
a censura teve heróis, como também mártires. A ditadura militar, eventuais parentes que trabalhem na universidade; utilizam-se dos
com seu famigerado Ato Institucional n.' 5, é uma realidade recente aparelhos da instituição o Núcleo de Processamento de Dados --
na vida deste país. Lembro, àqueles que pensam que a gravidade dos para ter canais diretos de comunicaçãocom os eleitores,lançando
fatos não lhes toca e que guardam um silêncio bastante parecido com mão da cultura do amedrontamento diante dos independentes; pra-
a cumplicidade, o poema de Maiakovsky quando diz: "... até que um ticam o clientelismo na busca de apoio, sendo hábeis mercadores no
dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua e, balcão de compra e venda de votos; auferem vantagens dos espaços
conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E porque privatizados da universidade,pois defendemnão apenas a redução
não dissemos dada, já não podemos dizer nada' do Estado, como também da esfera pública das instituições de en-
Assim começa a censura... sino superior; utilizam o ímpeto e a ousadiade certos estudantese
a coragem e o conhecimentode alguns grupos de técnicospara, na
])emocracia na UFSC calada da noite, destruir a propaganda da oposição, feita com muito
As eleições para a Reitoria da UFSC, principalmente as realiza- custo e suor; enfim, servem-se do processo eleitoral para deseducar,
das em 2003 e 2007s', envergonharam o processo eleitoral, mancha- de maneira geral, a todos.
Nas eleições de 2003, por exemplo, quando a chapa de oposição
37 Quatro candidaturas disputaram o primeiro turno das eleições, em 19 de novembro .SaberMudar (Nildo/Alckmar) passou para o segundo turno contra
de 200S, para a reitoria e vice-reitoriada UFSC. Foram elas; chapa 1, Nildo/
Alckmar Saber Mudar; chapa 2, Joana/Raul A Universidade é Tua; chapa 3,
Lúcio/Ariovaldo -- Universidade de Todos; chapa4, Barreto/Cardos Universidade 38 Enquanto em 200S a candidatura oâcial ÉoiLúcio/Ariovaldo, em 2007 tal função
Melhor. Passarampara o segundo turno, em 8 de dezembro,as chapas l e S, sendo coube a Prata/Paraná.
esta última a vencedora. $9 Enquanto o poder reúne características tais como a corça física, a norma jurídica
Três candidaturasdisputaram as eleições,em is de novembrode 2007, para a e o controle do excedente económico, já a autoridade do pesquisador .ou .da
reitoria e vice-reitoria da UFSC. Foram elas: chapa 1, Kinoshita/Kr4jnc Nova instituição advém de sua ética e de sua ciência. Apenas a retidão ética e o verdadeiro
Visão; chapa 2, Prata/Paraná -- A UFSC do Século XXl; chapa $, Nildo/Maurício conhecimentofornecem autoridade a um corpo académico. ROMANO, Roberto
-- Contigo é Possível. Foi vencedora a chapa 2. Prefácio.In: RAMPINELLI, W J. (Org.). Op. cit., p. 15-17
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Waldir José Rampinellie Nildo Ouriques
(Organizadores) Crítica à Razão Acadêmica
Reflexão sobre a universidade contemporânea

a candidatura o6lcial U2zzz,erizdade


de Todos (Lúcio/Ariovaldo), o van-
dalismo, aliado à maldade e à covardia dos panfletos difamatórios, derrubadas, puseram abaixo a barraca dos estudantes apoiadores dos
candidatos de oposição instalada em frente ao Centro Sócio-Econó-
assumiu proporções espantosas. Nada menos que doze desses papéis
mico, causando sérios estragos à mesma. Isso aconteceu durante a
-- a metade dos quais sem assinatura -- coram espalhados pelo ca/naus,
e até cora dele, nos três dias que antecederam o pleito. E o pior de madrugada, mais exatamente entre 2 e 4 horas. Os vândalos espera-
todos os males da campanha: coube ao Comitê Estudantil fazer o ram que todas as pessoas saíssem do ccz7m@zzspara
executar o trabalho.
trabalho sujo, quando não a meninos 6szc9 dos arredores da universi- Pela quantidadede material destruído, em diferentespontos, tudo
dade. Todos pagos, de uma forma ou de outra, seguindo a lógica dos indica que não Êoiapenas um grupo que atuou, mas vários. Portanto,
administradores da UFSC. A entãoprefeita de Florianópolis, Ângela trabalho planeado com mensagem bem definida: aqui a oposição ja-
mais vencerál Vector Nunes Leal mostra como
Amin, juntamente com o seu vice-prefeito, Murilo Capela, estiveram
presentes no dia da eleição solicitando votos para os candidatos ofi-
ciais. Enquanto a primeira manteve-se "às esconsas entre as cortinas [-.] o chefe ]oca] resva]a muitas vezes para a zona confusa que medeia
entre o legal e o ilícito, ou penetra em cheio no domínio da delinquên-
e as portas da reitoria", o segundo atuou junto às urnas do Hospi-
cia, mas a solidariedade partidária passa sobre todos os pecados uma
tal Universitário, por ser médico. O mesmo se deu com a "presença esponja regeneradora. A definitiva reabilitação virá com a vitória
constante e também escondida do vereador Gean [Loureiro] nessa eleitoral, porque, no seu critério, só há uma vergonha: perder.''
campanha"". A Maçonaria em plena ação.
Se os que assumem a Reitoria de uma Universidade Federal nada
Na verdade, os processos eleitorais na UFSC serviram para ti-
fazem para coibia esta prática perversa; se os que se dizem professo- rar a sua mascara, Já que a instituição-universidade, ao defender o
res assistem passivamente a esta derrama de injúrias e difamações; se seu autoculto, se considera guardadora de valores eternos. Como a
os que se consideram educadores não emitem notas públicas conde- universidadeé milenar somentena Ásia e na Europa, a do Brasil,
nando tais gestos, na verdade, estamos diante de supostos dirigentes utilizando-se dos valores daquelas, passou a se considerar depositá-
cujos fins se justificam nos meios.Muitos chegama reclamardas ria de uma axiologia de valores, crendo ter a missão de transmiti-los
relações de poder em um mundo onde prevalece a corça bruta e do de geração em geração. Daí que as eleiçõespara reitor, com todas as
fato de o direito internacional ser literalmentejogado na lata do lixo. suas mazelas, mostraram que a instituição nada tem o que ensinar à
Esquecem, no entanto, que essas mesmas relações são construídas a sociedade em matéria de democracia. Pelo contrário, a instituição-
partir da universidade. Para pensar este mundo, dizia Tolstoi, enten- universidade tem uma função social conservadora, estimulando a
da primeiro a tua aldeia. Neruda a6lrmava que quem não conhece os sociedade a adorar normas estáveis e tradicionais. Por isso, ela não é
bosques chilenos tampouco sabe do planeta. dada à mudança, menos ainda à reforma, e Ihe repugna a revolução.
Fato deplorável ocorreu nas eleições de 2007, quando a chapa Quando algo de transformação acontece no seu ca7nPzzs é por corça e
oficial U/zzz,erszdade do SámZa XX/ (Prata/Paraná) âoi proclamada pressão externas.
vencedora. O ca/nPzzs amanheceu com a quase totalidade da publicida-
de da candidatura C07zfzgo.É Possíz,e/ (Nildo/Maurício) destroçada no Daí a inevitável luta entre a classe professoral, alienada, arrogante
dia seguinte à eleição, 14 de novembro. Não contentes com as placas e mesmo policialesca, em algumas de suas figuras, possuidora das
sesmarias em que se transformam as faculdades e escolas, zeladoras
40 SANTOS, Aickmar Luiz dos. BoZeZzm
(órgão informativoda Associaçãodos
Professores da Universidade Federal de Santa Catarina),' Florianópolis,
6, t'dez.200$. '
n'. 469,'' p.
41 LEAL, Victor Nunes. Corozze/is7m,
e/zzadae zioZo.
5' ed. São Paulo: Alia-Omega,
66 1986,P. s9. '

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Waldir José Rampinelli e Nildo Ouriques Crítica à Razão Acadêmica
(Organizadores) Reflexão sobre a universidade contemporânea

dos valores eternos, e a classe estudantil, livre, ansiosa de ver reali- O medo tem sido uma constante nas eleições da UFSC. Ele chega
zada a libertaçãodo nosso país, que Ihe dará as grandes oportunida- aos três segmentos -- estudantes, técnicos-administrativos e docentes
des por que espera, e sem motivos para cultuar outros valores senão -- causando um verdadeiro terror não apenas no comportamento das
aquelesque ela própria vai descobrindo na luta pelo seu destino, pessoas, como também nas suas consciências. Uma grande angústia
que é o de todo o povo". que só acaba com as eleições vencidas pela oficialidade. "Podes cha-
A violação do conceito de democracia com a deturpação das mar de memorioso", pergunta Roa Bastos, "ao gato escaldadoque
normas eleitorais por parte das candidaturas oficiais influencia, em foge da água fria? Não, apenas que é um gato medroso. A quentura
cascata, os demais processos na universidade, principalmente os de entrou em sua memória. Esta, por sua vez, já não recorda o medo.
escolha de diretores de unidades. Um exemplo típico desta realidade Transformou-se ela mesma no próprio medo"". Daí que, eleiçãopor
coramas eleiçõespara a direçãodo Centro de Filosoülae Ciências perto, medo na cereal
Humanas" (CFH) da UFSC, em novembro de 2004. Ao medo precede sempre a ameaça, que deseduca politicamen-
te e humilha individualmente. Uma cena constrangedora marcou as
Métodos que se julgavam inexistentes no CFH -- afinal, nossa
eleições para a direção de centro no CFH, durante o primeiro debate
auto-imagemera a de um centro democrático,aberto ao debatee
à pluralidade de ideias -- apareceram em formas modernizadoras: entre as candidaturas, quando um aluno, diante do fato de a chapa ma-
professores "pressionando" seus orientandos a votarem em deter- nos à .4ção ser composta por duas professoras integrantes do grupo
minada chapa, docentes "sugerindo" que seus alunos assinassem de estudos de gênero, ter perguntado se aquilo não seria, de algum
listas de apoio, uma "respeitável"doutora arrancando propaganda modo, nos limites do centro, uma reiteração do pensamentoúnico.
da candidatura adversária, falta de liberdade para usar o óo/fonde Do meio da plateia, intempestivamente, uma professora interrompeu
sua preferência, comitê estudantil de debates sem a isenção neces- o estudante,aos gritos, desqualificandosua participaçãoe arrema-
sária, alguns professores comunicando aos estudantes a existência tando: "É pensamento único, mas é nossos
de apenas uma chapa, a dispensa das aulas no horário de votação, Portanto, diante destes fatos conclui-se que a universidade dese-
uma "educadora" avisando a seus alunos, em tomjocoso, que no dia duca sua comunidade na escolha de seus dirigentes. Tampouco é ela a
seguinte ha'?ena eleições para a direção do centro. "Os que apoiam geradora de teorias democráticas para a sociedade. Na verdade, resta
a minha chapa" completou ela -- "devem vir. Já os que vão votar na apenas uma saída: que as classes populares organizadas democrati-
chapa adversária, podem ficar em casa". A mesma que proclamara, zem a sociedade, e esta, por pressão, chegue à universidade, já que
em outra ocasião: "vamos salvar o CFH". Simples brincadeira? On-
a democracia nela praticada, na maioria das vezes, não passa de um
tem, gritava-se nas praças dos Paços: "queimeml"E o medo, sempre
ele, mostrou mais uma vez sua cara'. simulacro ou de um arremedo. E verdade que os espaços acadêmicos
são utilizados para debater e discutir, mas sem possibilidade, por ora,
42 PINTO, Álvaro Vieira. Op. cit., p. 48
43 Duas candidaturas se apresentaram para as eleições do CFH. A chapa /mce zZzuar7)zzm de se transformar a universidade de elitista em popular e de se pas-
SH@emrtinha como candidatos os professores Waldir José Rampinelli(História) e sar da democraciarepresentativapara a participativa.Apenas para
Mana de Lourdes Borges(Filosofia), ao passoque Eis aqzlzo mzízdodas zdelas--
z,a/msâ afãs apresentouas professorasMana Juracy Filgueiras Toneli(Psicologia) exemplificar,quando o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem
e Roselane Neckel(História). As eleições aconteceram no dia 24 de novembro de Terra (MST) acampou na universidade, em 1995 (gestão Diomário/
2004. 1nce7zlzuarjDam
Su@erarobteve504 votos, enquanto Hamoià.grão totalizou 700.
Apenas 8 votos brancos e 36 nulos. Nilcéa), para discutir com toda a comunidadeos seusprincípios, os
44 DUARTE, A. L.: RAMPINELLI, W J. Universidade, sociedade e política: algumas seus objetivos e a sua estratégia na busca de apoio pela reforma agrá-
considerações sobre a relação entre público e privado em tempos de barbárie.
In : RAMPINELLI, W J.: ALVIM, V: RODRIGUES, G.(Org.). UKzuerszda.ü:a
democraciaameaçada.2' ed. São Paulo: Editora Xamã, 2007, p. 39-40 45 BASTOS, Augusto Roa. HoeJ SuPrEmo.15' ed. México: Sigla XXI, 1988,p. 9
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WraldirJosé Rampitlellie Nildo Ouriques Crítica à Razão Acadêmica
(Organizadores) Reflexão sobre a universidade contemporânea

ria, a administração central mostrou-se preocupada com tal organi- A universidade,para se democratizar,tem que se livrar das
zação por duas razões: primeiro, porque as barracas instaladas em amarras das associações "secretas" como a Maçonaria -- que bus-
frente ao prédio da Reitoria causavam dano ao gramado; segundo, cam tão somente se utilizar da instituição pública para conceder fa-
por causa da vara de bambu que sustentava a bandeira do MS'l; já vores privados a seus adeptos. O critério da universidade deverá ser
que a mesma ultrapassava o mastro oficial com os pavilhões da UFSC sempre o republicano e nunca o da "irmandade'
e do Brasil, pois tal fato seria uma provocação à soberania nacional A universidade, para se democratizar, não pode apenas adotar po-
(sic). Assim se porta a reitoria da universidade da classe dominante líticas de ações afirmativas, sendo necessário discutir e superar o ra-
quando recebe um movimento social no seu cczznPzzs. cismo secular, o colonialismo cultural e a colonialidade preconceituosa
que marcaram e ainda marcam profundamente nossa sociedade,que
Cozctusão chega a classificar algumas pessoas como seres superiores e, portanto,
A universidade, para se democratizar, precisa se emancipar da fazedores de história, e outras como inferiores e, logo, "sem história'
classe dominante, deixando de priorizar a produção de mão de obra A universidade, para se democratizar, tem que obrigatoriamente
para a burguesia e voltando-separa suafunção social,qual seja,a de estar aberta aos grandes anseios e desejos de seu povo, já que sua ra-
ajudar as camadas populares, por meio da ciência e do conhecimento, zão de ser é gerar e difundir a ciência para mudar a vida das gentes.
a superar a realidade do atraso e do subdesenvolvimento. E comum 'Não se pode negar" diz Marc Bloch "que uma ciência nos pare-
observar ao redor das universidades públicas a formação de bairros cerá sempre ter algo de incompleto se não nos ajudar, cedo ou tarde,
empobrecidos,quando não de favelas. Como pode esta instituição a viver melhor"". Por isso defendoque a comunidadeparticipedas
julgar-se o templo do saber, do conhecimento, da tecnologia e da grandes decisões da universidade, quer estabelecendodiretrizes no
cultura, quando uma grande parte da população vive em condições Conselho Universitário, quer participando da eleição de seu reitor.
sub-humanas? Lembro que na América Latina 8% de sua população Os que perderam suas terras para o expansionismodo latifúndio;
com idade superior a ]4 anos ainda é analfabeta."Não existe univer- os que viram suas casas desaparecerem por conta da construção de
sidade", diz Eagleton, "sem indagação humana, o que significa que barragens; os que engrossaram as favelas das cidades por causa da
as universidades e o capitalismo avançado são fundamentalmente modernização conservadora no campo; os que fecharam suas portas
incompatíveis."" comerciais devido à abertura económica aos produtos importados;
A universidade, para se democratizar, necessita vivenciar e di- ennlm,todas estas pessoas esperam da universidade um parecer éti-
fundir uma cultura de caráter nacional-popular,"aquela que está co-científico por conta de sua autoridade, na busca de soluções para
nascendo no seio do povo, não só nas formas chamadas 'populares' tantos problemas nacionais.
da arte, mas nas concepções, temas e ideias gerais que exprimem, A universidade, para se democratizar, há de ter o estudante
mesmo nos mais elevados domínios das ciências, os pontos de vista como protagonista desse processo. Embora os jovens de classe baixa
de uma classe nova, oposta à dominante"'P'. tenham acesso restrito ao ensino superior, eles podem liderar mo-
A universidade, para se democratizar, precisa escutar a comuni- vimentos de luta pela transformação da instituição; eles podem ser
dade na aplicaçãodos recursos de seu orçamento anual, pois a comu- os mais capazes a desempenhar esse processo histórico. No entanto,
nidade, mais do que ninguém, sabe expressar as carências e necessi- a luta pela democratização da universidade deverá travar-se muito
dades a serem vencidas e superadas. mais cora do que dentro do ca7nPz/s.
Terá que ser, para que se obtenha
46 EAGLETON, Terry. Op. cit. 48 BLOCO, Marc. ]Po&)Wada #zs/órza:ou ofício do historiador. Rio de Janeiro: Jorge
47 PINTO, Álvaro Vieira. Op. cit., p. 41. Zahar Editor, 2001, p. 45

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\Valdir José Rampinelli e Nildo Ouriques
(Organizadores)

o êxito desejado, realizada de cora para dentro e de baixo para cima,


CIÊNCIA E PÓS-GRADUAÇÃO
em uma ampla coalizão com as corças populares. NA UNIVERSIDADE BRASILEIRA
A universidade, para se democratizar, não poderá criminalizar o
movimento estudantil, utilizando-se do mecanismo de processos judi-
NiLdo Ouriques'
ciais ou de inquéritos administrativos para responsabilizar e culpabili-
zar os jovens que lutam pelo recebimento de bolsas de estudo decentes,
pelo não corte de vagas no vestibular, por um ensino de qualidade, pela
gratuidade da educação, por bibliotecas dignas desse nome e pelo fim
das taxas cobradas na instituição. Tais assuntos devem ser tratados O estado brasileiro consolidou um sistema universitário com
sempre politicamente e nunca judicialmente. corte identidade entre desenvolvimento cientí6lco e pós-graduação;
A universidade, para se democratizar, deverá ter necessariamente em consequência, quando uma autoridade universitária fala em de-
uma representação igualitária de estudantes, técnicos-administrativos senvolvimento cientínlco,o senso comum considera que está falando
e docentes em todos os colegiados e conselhos. Os alunos, embora de pós-graduação e, com grande frequência, quando alguém mencio-
transitórios, são os que mais lutam pela qualidade de ensino e pelo na que pertence a um programa de pós-graduação, em geral tenta
compromisso social da instituição; os técnicos-administrativos em ge- exibir-se como membro de um seleto clube de cientistas. Por isso, o
ral têm, na sua grande maioria, um amor e um cuidado enormes com a sistema de pós-graduação tornou-se um espaçoprivilegiado nas uni-
instituição; e os docentes -- que fazem pesquisa, ensino e extensão só versidades. Ao contrário da graduação, nesses programas não faltam
conseguem realiza-las com a participação dos dois primeiros. É óbvio professores, não existem "professores substitutos", há certo número
que, em determinados conselhos, faz-se necessária a presença majori- de alunos com dedicaçãoexclusiva, bolsasde estudo, programas para
tária de uma categoria. No entanto, isso não deve ser a regra, mas tão atendimento de demandas específicas (bibliotecas, laboratórios, edi-
somente a exceção. tais especiais, etc.). No senso comum dominante no campus, o sistema
A universidade, para se democratizar, deverá acabar de pronto com de pós-graduaçãorepresenta o futuro da universidade, o ambiente
a /rzlzc#ezmdo uàsfzóz//ar,
que nada mais é que um mecanismo utilizado no qual efetivamente o professor toma contato com as exigências do
pela classe dominante para se apropriar dos cursos que Ihe conferem mundo da ciência. E preciso duvidar do senso comum, pois ele tem
poder no domínio da sociedade. Prova disso são os sobrenomes de es- sido especialmentenocivo para a pesquisa e o desenvolvimento da
tudantes que ocupam as salas de aula de medicina, de engenharia e de ciência nos países periféricos do sistema capitalista. É precisamente
direito, contrastando com aquelesque entram em história, pedagogia esse senso comum que produziu uma universidade cativa, impedida
e biblioteconomia. São classes sociais bem deâtnidase diferenciadas. A de cumprir sua função criadora em países periféricos.
indústria dos cursinhos direciona os estudantesricos para áreas pró- O capitalismo converteu a ciência em sua principal corçaprodu-
prias e específicas da classe dominante, enquanto a escola pública enca- tiva e, por esta razão, a disputa pela propriedade intelectual trans-
minha os pobres para aquelas mal remuneradas e pouco consideradas. formou-se no principal derivativo da revolução científico-técnica. A
Enquanto a universidade brasileira não sair de sua /erre de mato/m, reflexão acerca deste decisivo tema "a revolução cientíHlco-técnica'
deixando de importar a cultura metropolitana e abdicando de repro- não tem sido prioridade no Brasil como de resto tampouco nos paí-
duzir os interesses da classe dominante, não se democratizará e nada ses dependentes. Nesses, o que prevalece é um confuso e conveniente
terá que oferecer à sociedadeno campo da concepçãoda democracia.
Continuará sendo, portanto, z/zmZZa. i' Professor do departamento de Economia e membro do IELA-UFSC
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Crítica à Razão Acadêmica
\Valdir José Rampinelli e Nildo Ouriques
Reflexão sobre a universidade contemporânea
(Organizador'es)

debate sobre a importância da "inovação" que, na verdade, não passa Segundo a mesma conte, o número de patentes concedidas se-
de uma cómoda justificativa ideológica de nosso raquitismo científi- guiu crescendoano após ano na última década.Estados IJnidos, Ja-
co e um álibi para a incapacidade da burguesia brasileira em dispu- pão, Coreia do Sul, Alemanha, China, Fiança, Federação Russa, ltália
tar, no difícil terreno da ciência, com as naçõesdos países centrais. e Reino Unido concentram a maior parte delas. O Brasil não figura
Neste contexto, a disputa pelo controle da tecnologia é inerente ao nem mesmo entre os 20 maiores países responsáveis tanto pelo pedi-
desenvolvimento capitalista da mesma forma que esta não existe sem do de registro quanto pelas concessões de patentes.
o pleno desenvolvimentoda ciência. O lucro extraordinário, deci- Entre os 50 mais importantes solicitantes universitários de pa-
sivo para a concorrência intercapitalista "entre empresas e países", tentes não figura sequer uma universidadebrasileira. Os números
além de assinalar a intensificação do conflito entre as classes sociais, sobre a insignificância brasileira e dos demais países dependentes na
porque requer aumento do grau de exploração da corça de trabalho, área de ciência e tecnologia são abundantes e ainda mais graves se
implica também no crescente investimento em ciência e aplicação a análise se estende para marcas e desenhos, dois filões suculentos
tecnológica da mesma. É por esta razão, e pela crescente importância da acumulaçãode capital no terreno da ciênciae da tecnologia.A
dos monopólios na economia capitalista, que o tema das patentes e do UFSC, que completou meio século de existência, possui apenas (1)
controle da aplicaçãoprodutiva dos resultadosdo desenvolvimento uma patente.
científico ganhou relevância. Segundo dados do INPI (Instituto Nacional de Propriedade In-
Em 2009 0s Estados Unidos registraram 45.790 patentes. O telectual), entre 2004 e 2008 cresceram as solicitações de patentes
Brasil, apenas 2 12. Segundo o Informe da OrganizaçãoMundial de por parte das universidades brasileiras, mas elas ainda estão longe da
Patentes Çlndicadores mundiais de prof)piedade intelectual/2010b em capacidade de empresas estatais como a Petrobras, que segue lideran-
2008 os Estados Unidos solicitaram 456.$2 1 patentes e o Brasil ape- do com folga a lista no Brasil. Ademais, é preciso considerar que uma
nas 2 1.825. Os números revelam o abismo existente entre a principal parte dos pedidos de patentes realizados pelas universidades brasi-
potência capitalistae um país dependenteda América Latina no de- leiras ocorre na condição de "cotitular", ou seja, prqetos associados
cisivo terreno qa produção científica. com empresas ou fundações de amparo à pesquisa, cujo resultado em
A despeito da enorme diferença entre Estados Unidos e Brasil, termos ülnanceiros não necessariamente retorna para as instituições
em nosso país os otimistas de sempre, acostumados ao estranho há- de ensino. A média para o período estudado não üoi muito superior
bito de ver o lado bom em tudo, não desprezam a cifra brasileira, mas a seis mil pedidos anuais, cifra bastante modesta quando comparada
deveriam considerar que o número bastante modesto torna-se ainda com os parâmetros mundiais.
mais elucidativo de nossa precária condição porque inclui também Num país dependente ocorre um gritante contraste entre o in-
as solicitaçõesdos "não residentes", fato que diminuiu ainda mais gênuo otimismo de nossa suposta entrada no campo da ciência e da
o "desempenho"nacional, pois no capitalismo dependentea trans- tecnologia e o ridículo desempenho dos índices sobre patentes que
nacionalização do sistema produtivo é uma característica essencial. despertou a atenção de muitos de nossos mais importantes intelec-
Por isso, as autoridades seguem exibindo otimismo e insistem que tuais no passado recente. Na periferia capitalista as universidades
se trata de um indicador relevantepara um país periférico. Mas, no deveriam cumprir um papel importante, mas permanecem como
Brasil, o número de solicitações de "não residentes" indicador que apêndicesde terceiracategoriana "estratégianacionalde desen-
para uma economia dependente é absolutamente mais importante volvimento". Mais significativo ainda é perceber que a consciência
do que nos Estados Unidos ou China representa a maior parte das universitária sobre a dependência cientíülca e tecnológica quase não
solicitações. existe, de tal forma que o otimismo ingênuo das autoridades,que
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Waldir José Rampinelli e Nildo Ouriques Crítica à Razão Acadêmica
(Organizadores) Reflexão sobre a universidade contempol'ânea

orienta a política nacional, pode ser constatado com muita claridade na medida em que atende uma demanda da indústria e até contabiliza
também no campus universitário. Ennlm, não devemos orientar nos- algum recurso para a universidade. Mas não rende patentes.
sas críticas somente na direção das autoridades, na distante Brasília, Esta gritante diferença entre a notável evolução das publicações
mas também -- e talvez com maior insistência -- na direção de nosso e o resultado em termos de patentes parece não afetar o ânimo das
vizinho de sala ou companheiro de laboratório. autoridades que zelam pelo desenvolvimento científico do país. Tal-
Há, inclusive, certo clima de exaltação no campus universitário vez mais preocupante ainda sQa constatar que o otimismo dos gabi-
com o avanço da "produção científica", tal como a definem as autori- netes de Brasília existe com mais corça no campus universitário. No
dades estatais, e o resultado objetivo no terreno da ciência e da tecno- caso específicode nossa universidade-- a Universidade Federal de
logia, que encontra nas patenteso melhor indicador de desempenho. Santa Catarina -- não deixa de ser uma ácida ironia o fato de o último
É forçoso admitir que a falta de correlação entre o vertiginoso avan- reitor eleito ter tido como mote de campanha "a universidade do sé-
ço das publicações que tantas alegrias trazem para nossas autorida- culo XXl", destinada a "internacionalizar a UFSC", ao mesmo tempo
des e não menores para os seus autores -- não se reflete nem mesmo em que se constata que em seus 50 anos de existência a instituição
no número de pedidos de patentes e, no limite, muito menos ainda no possui apenas... uma (1) patentes
número de patentes conquistadas. Neste contexto, sequer é possível Na verdade, o otimismo ingênuo que caracteriza nossa situação
qualificar o estado da arte como expressão da "consciência ingênua' se expressa no fato de que o comportamento do professor universitá-
espécie de antessala da consciência crítica, mas simplesmente de alie- rio esteja marcado, nos últimos anos, por uma imensa satisfação com
nação no sentido clássico do conceito. o chamado"avanço vertical" da universidade,ou seja, o desenvolvi-
mento da pós-graduação. E a tarefa de publicar artigos em revistas
O l)erigoso mundo das palavras especializadasconstitui um indicadorprecioso -- na verdade o prin-
Não vamos concluir que em função do contraste assinaladoo cipal -- para hierarquizar o sistema de pós-graduação no país. Ainda
esforço universitário tem sido inútil. Ao contrário, o que tem sido que implicitamente, o proflessor universitário julga que o desenvolvi-
denominado como "pesquisa" ou "produção cientíülca" pelos órgãos mento de programas de pós-graduação implica necessariamenteem
responsáveis pelo setor tanto no Ministério da Ciência e da Tecno- desenvolvimento científico, fato que Ihe confere certa autoconfiança
logia quanto no Ministério da Educação é, na verdade, um aumen- e, ainda que de maneira difusa, algo de legitimidade social. Em con-
to vertiginoso da publicação dos docentes universitários brasileiros. versas privadas, e mesmo em seminários públicos, ele reconhece
Tampouco é válido concluir que, por esta razão, se trata de um es- um pouco contrariado, é verdade que o simples estabelecimento de
forço inútil: na maioria das vezes, ainda que, quando exitoso, rende mestrados e doutorados não é garantia alguma de que a ciência este-
um artigo publicávelem revistas especializadas,o sistema de pós- ja avançando no Brasil, mas seu cotidiano está repleto de pequenos
graduação brasileiro está, na prática, vendendo serviços à iniciativa ates e declarações nos quais tudo caminha como se estivéssemos ati-
privada e não necessariamente desenvolvendo ciência e tecnologia. vando um gatilho automático: o desenvolvimento da pós-graduação
A este respeito é significativo que tenham crescido nas estatísticas é mesmo sinónimo de desenvolvimento cientíâlco.
oficiais as solicitações de "modelo de utilidade" (MU), ou sqa, um Por esta razão, oprofessor universitário circula nos corredores da
indicador mais aceito ao conceito de "inovação" que, como sabemos, universidade brasileira satisfeito com a expansão da pós-graduação
representa a melhoria parcial de algum produto ou processo que já e, em larga medida, é possível dizer que em seu universo intelectual
possui comercialização e, portanto, propriedade. Nesse caso, a rela- o ensino de graduação üoi quase que completamente subalternizado.
ção entre universidade e empresa cumpre perfeitamente sua função, Criou-se assim uma espéciede "andar superior", um novo patamar
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\Nãldir José Rama)inelli e Nildo Ouriques Crítica à Razão Acadêmica
(Oi'ganizadores) Reflexão sobre a universidade contemporânea

de prestígio ainda mais importante diante de certa "massiüjcação"da


produção científica torna-se visível pela publicação de artigos origi-
universidade brasileira que, nos marcos de certo exclusivismo esno- nais nas melhores revistas internacionais". Adiantou outra novida-
be, funciona como um novo instrumento de hierarquização, supos- de decisiva para nosso futuro: "não é sem razão que os países mais
tamente ordenado pela "meritocracia". Na graduação todos somos desenvolvidospossuam o maior número de revistas indexadasnas
obrigados a trabalhar, mas, nos programas de pós, somente aqueles bases Scopus e ISI (Institute Éor ScientiHic Information), respectiva-
que conseguem publicar nas revistas consideradas, pela cabeça alie- mente: EUA, 5.152 e 3.915; Inglaterra, 3.49 le 2.011; Hlolanda 1.782
nada dos professores, como revistas "internacionais". Nesse contexto e 768; Alemanha, 1.148 e 724; Suíça, 234 e 192...". Parece escapar
não é incomum que existam professores com manifesto sentimento completamente ao presidente da Capes que as duas bases de dados
de inferioridade porque simplesmente estão cora dos programas de mencionadas (Base Scopus e ISI) foram criadas pelos Estados Uni-
p6s e finalmente porque não entendem muito bem como o sistema dos e não precisamente para a benevolência universal da ciência e dos
realmente funciona. Não por acaso,precisamente quando o governo povos; estes mecanismos de "indexação" coram criados em função do
realizou um tímido movimento na direção de democratizar o ensino zzzferesse
zacz07zaZ...
estadunidenselNo caso da Base Scopus, que criou
universitário -- com a criação de novas universidades, ampliação das o SciVerse Scopus, trata-se de um produto da Elsevier, que a maioria
vagas nas instituições existentes e sistemas de ações afirmativas que dos professores conhece como editora, mas é, de fato, uma empresa
permitem a setores das classes populares um acesso que de outra ma- multinacional da educação. Por essa razão, o cândida prometode in-
neira seria impossível fortaleceu-seem seu interior a necessidade dexação do professor Eugene GarHield Éoi igualmente utilizado pelo
de diferenciação entre aqueles que "ensinam" e aqueles que "pesqui- interesse nacional estadunidense tão rapidamente quando o "esforço
sam". Também, neste contexto, explica-se porque os setores mais de guerra" e os interesses expansionistas dos Estados Unidos exigi-
abertamente reacionários, ou simplesmente refratários à democrati- ram. O ISI é agora, antes de tudo, um produto da Thomson Reuters
zação do ensino universitário, fortaleceram a defesa da "meritocra-
Corporation, empresa encarregada de medir o "fatos de impacto" de
cia" como arma contra o ingresso das classessubalternasno ensino uma publicação por meio do Journal Citation Reporta, um informe
superior. É claro que existe resistência consciente ao processo domi- anual destinado a medir a quantidade de vezes em que os trabalhos
nante, mas é igu almente Óbvio que, nas condições atuais, o exercício são citados na chamada literatura cientíâlcal
de uma esZru/{©a cü reco/sa,
ou sda, a decisãode não participar dos De minha parte eu realmente confesso grande interesse em co-
programas de pós-graduação, é comodamente catalogada como ex- nhecer uma "revista internacional", pois seria um acontecimento fan-
pressão de incompetência ou automarginalização "irracional". tástico, que deveria chamar a atenção de qualquer professor univer-
Em reunião recente, realizada na Unesp, o professor Jorge Gui- sitário. Ainda mantenho imensa curiosidade de conhecer uma revista
marães, presidenteda Capes, indicou com grande otimismo que uma internacional e devo admitir que, apesar do esforço pessoal destina-
das metas do Plano Nacional de Pós-Graduação 2011 é o aumento do a imaginar seu perfil, não consigo um resultado convincente. No
da produção científica: "nossa intenção é posicionar o Brasil entre os
máximo, meu esforço de imaginação consegue visualizar uma revista
dez países com maior produção científica. Atualmente, ocupamos a
francesa, uma inglesa, uma alemã ou, principalmente, uma estaduni-
13' posição, atrás da Austrália, Coxeia do Sul e Índia.' dense, que se considera "internacional" e -- mais importante ainda --
Há poucos meses o professor Jorge Guimarães deu mais uma consegue adeptos colonizados nos países periféricos para validar este
notável contribuição para o sistema colonial que a cada dia ganha objetivo. Contudo, uma "revista internacional", genuinamenteinter-
em soülsticação no Brasil (Hs ruzõesPann o az,a zç;oda.proa%ão cze7z/gira
nacional, eu jamais tive a felicidade de encontrar. Há, de fato, uma boa
órniz/ezrq 0.5.07.20.r/). Ele aülrmou que, "para qualquer país, a sua
razão para minha frustração: revistas internacionais não existeml
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Walclir José Ralnpinelli e Nildo Ouriques Crítica à Razão Acadêmica
(Organizadores) Reflexão sobre a universidade contemporânea

É também necessário registrar o verdadeiro fetiche que a pala- blica de que é incapaz de compreender a 7zafz/rezado szsZemam laia/
vra "internacionalização" exerce na cabeça do professor alienado e de.prodz4ãode cozÀecime7z/oe a função que um país dependentecomo
nas mentalidades alienadas dos que dirigem nossas principais insti- o Brasil cumpre em seu interior. Enfim, Ihe escapa o fundamental.
tuições de ensino. Uma demonstração cabal do estado avançado de As revistas indexadas nas bases de dados anteriormente men-
alienação pode ser observada quando a USP (Universidade de São cionadas são o meio pelo qual a inteligência dos países periféricos é
Paulo), a maior universidade pública do país, criou por iniciativa de exibida e gratuitamente disponibilizada para as potências capitalis-
José Goldenberg, em 1990,um conselhoconsultivo, espéciede ins- tas para que elas, a partir da relação estado-empresa-universidade,
tância superior ao Conselho Universitário, cuja composição incluía desenvolvamo controle do conhecimento pelo sistema de patentes.
um conjunto de figuras estrangeiras como, por exemplo, o sociólo- Da mesma forma que tentam por todos os meios políticos e milita-
go francês Alain Tourraine. Mais importante ainda: constava, en- res controlar o lítio na Bolívia e no Afeganistão, os Estados Unidos
tre os membros deste conselho consultivo, a senhora Jeniüer Sue garimpam, no mundo inteiro, pequenas contribuições científicas por
BradÊord, diretora executiva da Fundação Nacional de Ciência dos meio dos artigos que a inteligência da periferia, com orgulho colo-
Estados Unidos, órgão estratégico no desenvolvimentocientífico e nial, cede gratuitamente para as chamadas "revistas internacionais",
tecnológico da potência imperialista. Para não deixar dúvidas sobre a maioria delas estadunidenses.Desta forma, aos meios económicos,
a função da SNF é preciso recordar o lema que a criou, nos anos 50: políticos e militares mais visíveis, soma-se este poderoso mecanismo
'promotethe progress of science; to advance the national health, de hegemoniacultural que rende muitos frutos para o desenvolvi-
prosperity, and welÊare;and to secure the national defense." Enfim, mento da ciência e da tecnologia nos países centrais e é especialmen-
um objetivo amparado no bem-estar, prosperidade e riqueza nacional te importante para a potência capitalista dominante.
dos Estados Unidos. Semelhante iniciativa seria impensável em qual- E preciso entender que os Estados Unidos não produzem a quan-
quer universidadepequenados Estados Unidos ou da Fiança, mas tidade de engenheiros e técnicos de computação necessários para fa-
é indicada em nossa maior universidade como um símbolo de aber- zer funcionar aquela imensa máquina produtiva razão pela qual im-
tura e internacionalização do saber, espécie de precondição para que portam um número crescente de cientistas e profissionais do mundo
possamos desenvolver, nós também, ciência e tecnologia. É, de fato, inteiro para trabalhar e viver em solo estadunidense eles também
um atestadode colonialismosem precedentesque, até onde regis- necessitam da inteligência que permanece no "resto do mundo" ga-
tra minha pesquisa, não üoicriticado nem mesmo pelos sindicatos de rimpando moléculasde conhecimentoque somente fazem sentido,
professores ou técnicos-administrativos. As redes e os mecanismos que somente podem ser utilizados como mercadoria, quando encon-
que os países metropolitanos organizam para captar a inteligência tram o ambiente necessário para tal. O sistema mundial de produção
dos países periféricos são múltiplos e constantes, produto de uma de conhecimento funciona assim com dupla motivação. O ponto de
política pensada e executada em seus mínimos detalhes. partida é, obviamente, a organização, pelo escadazzzzcloa/ do país me-
Tampouco chama a atenção do professor Jorge Guimarães que tropolitano, de um sistema articulado entre estado, universidade e
um país como os Estados Unidos não pode ser considerado "qualquer monopólio, destinado a manter, sob seu controle, o desenvolvimento
país", mas o país que "organiza um sistema mundial" de servidão vo- científico e a aplicação tecnológica da ciência. Os investimentos es-
luntária para os interesses nacionais da potência dominante. É por tatais comandam essa cadeia produtiva de acordo com as condições
esta razão que os Estados Unidos não somente tornam suas revistas gerais da acumulaçãocapitalista.
nacionais indexadas, mas também estabelecem a szóabase de dados Não se trata de uma novidade dos "teóricos" da globalização que
para tal. O presidenteda Capes nos ofereceuma demonstraçãopú- o sistema capitalista somente pode funcionar em escala global, razão
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Waldir José Rampinellie Nildo Ouríques Crítica à Razão Acadêmica
(Organizador'es) ' Reflexão sobre a ul)iversidade contemporânea

tacos. No livro 7'nn/ze#ormafões. MaZnzes do sécz//o XXI. Rena Dreyaus


também tocou tangencialmente no tema ao observar as mudanças
estruturais na estratégia das empresas transnacionais para ele de-
nominadas Corporações Estratégicas Transnacionais(CETs) -- e seu
estudo indica que elas mudaram radicalmente a orientação científica
e tecnológica em relação a décadas anteriores. Nessas corporações, a
partir das transformações operadas a partir da década de 1990, o "su-
cesso de uma empresa será determinado não tanto pelo montante de
gastos em P&D, mas pela acumulação de conhecimento e capacidade
tecnológica resultante do esforço de P&D e de quanto esse esforço é
traduzido em conhecimento mensurável, materializado em patentes,
registros ou protótipos:
A análise do sistema capitalista explicita de maneira clara que,
da mesma forma que os Estados Unidos não produzem no país todos
os cientistas de que necessitam nos distintos campos de conhecimen-
to -- razão pela qual destinam programas bastante ambiciosos para
atrair professores e estudantes da periferia capitalista que queiram
passar temporadasnas suas universidades,contribuindocom o po-
tencial de pesquisa alheio -- também necessitam organizar o sistema
em escala global destinado a garimpar toda e qualquer contribuição
científica relevante para a concorrência intercapitalista global. O or-
çamento dos Estados Unidos segue sendo uma arma poderosa em
todos os campos da vida social para a disputa da hegemonia mundial,
especialmente na área de educação.
Em épocas passadas, segundo a Fundação Nacional de Ciências
dos Estados Unidos, a potência imperialista disponibilizou mais re-
cursos para buscar talentos no mundo inteiro do que quase todo o or-
çamento brasileiro em educação: em 2002, por exemplo, precisamente
10 bilhões de dólares apenas com programas de bolsas de estudo des-
tinadas à atração de estudantes estrangeiros. Na Europa a política é
a mesma, ainda que apresente uma feiçãoprópria em função da baixa
taxa demográfica; por isso, os europeus disponibilizam milhares de va-
gas para estudantes da periferia capitalista, especialmente importantes
no ensino universitário, com o claro objetivo de manter funcionando
sua máquina de produção de conhecimento necessária para rivalizar
com os Estados Unidos e a China. Não somentedestinam programas
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Waldir José Rampinelli e Nildo Ouriques Crítica à Razão Acadêmíca
(Organizadores) Reflexão sobre a universidade contemporânea

para atrair estudantes como, nos últimos tempos, fazem seleção nos ela protege seu sistema produtivo e as instituições científicas para
países periféricos. Universidades como Harvard, por exemplo,já rea- fortalecer a rivalidade empresarial-estatalem favor de seu país. Esta
liza, em São Paulo, processo de seleção para entrada nas mais diversas é uma lição elementar do funcionamento real do sistema capitalista
carreiras universitárias. Na Europa, a baixa taxa demográfica tornará que, curiosamente, não é percebida pelos homens que dirigem nosso
as políticas destinadas a atrair bons candidatos oriundos da periferia sistema de ciência e tecnologia. Este comportamento político é, ob-
capitalista uma prioridade de seu sistema educativo, uma necessidade viamente, um subproduto da dependência do país, de sua condição
iniludível de sua economia. Nos Estados Unidos, em 2001, o número de país subdesenvolvido que, em consequência,torna-se vulnerável.
de prêmios Nobel, por exemplo,já era maior para não residentes do Como advertiu Ruy Mauro Marina há muitas décadas, "não é porque
que entre aqueles nascidos nos Estados Unidos. se cometeram abusos contra as nações não industriais que estas se
A política "nacional" de publicaçãoe hierarquizaçãoem curso tornaram economicamente débeis, é porque eram débeis que abusa-
nos países da periferia capitalista não pode ser compreendida fora ram delas". A orientação da política científica em curso é, sem som-
do funcionamento do capitalismo em escala global. Mas é necessário bra de dúvida, um abuso. Contudo, é um abuso permitido pela debili-
indicar que nem todos os países atuam neste contexto de maneira dade congênita dos países dependentes, que necessitam realizar sua
idêntica. Um exemplo notável das possibilidades do estado nacional revolução nacional-popular-socialista sem a qual continuarão como
numa economia capitalista global é a China, país que foge comple- anões políticos, económicos e cientíülcos no mundo contemporâneo.
tamente do enquadramento na "teoria" implementada pela Capes e Acaso a grandeza da China após 1980 seria possível sem a Revolução
defendidacandidamentepelo professor Guimarães. A China, que a de 1949?
imprensa todos os dias anuncia como um bicho-papão prestes a devo- Restaria ainda saber por que os países com vocação imperialista
rar o mundo com sua capacidadeprodutiva (cientínlcae tecnológica que rivalizam com os Estados Unidos não participam do seleto "clu-
também, obviamente) parece não se importar muito com a teoria do be mundial do mais elevado mérito na ciência". Não é uma situação
professor Jorge Guimarães. Neste "clube mundial do mais elevado que deveria levantar suspeita entre nós? A pergunta é simples; será
mérito na ciência" -- denominação de Guimarães para o süZemamz/n- que Alemanha, Fiança e Inglaterra hierarquizam suas revistas e seu
dza/ de prodzzfão de conÀeczmezz/o os chineses, que na última década sistema nacional de pontuação favorecendo as revistas nacionais de
se notabilizaram aos olhos do senso comum como uma ameaça aos seus rivais? Como é possível que os homens de Estado que dirigem
interesses das potências dominantes, parecem não estar muito inte- nosso sistema científico não se façam essas perguntas elementares
ressados em participar do seleto clube que possui e indexa "revistas que qualquer análise definiria como realista? Responder a essas per-
internacionais". Não é curioso que a China, sempre muito interessada guntas nos levaria a aprender algo mais sobre a natureza do sistema
em ser protagonista internacional, despreze completamente a política em que estamos vivendo.
que praticamos no Brasil com especial zelo? Como explicar tamanha Neste contexto é uma gritante contradição disponibilizar re-
omissão? E a Rússia, por que tampouco aparece no ranking mundial cursos para fomentar as revistas nacionais (impressas e eletrânicas)
que tanto as autoridades brasileiras adoram e os professores univer- para "dar maior visibilidade à ciência brasileira" e manter a hierar-
sitários veneram? quização colonial que se expressa no Qualis Capes. Nos marcos da
Não pode escapar ao analista atento o fato de que a China, em hi- política oficial, os incentivos estatais para o comento de revistas na-
pótese alguma, hierarquiza o sistema científico nacional aos interes- cionais somente teria sentido se as revistas nacionais tivessem maior
ses nacionais dos Estados Unidos. Enfim, ela não orienta sua política pontuação e a política estatal estivesse dirigida a fortalecer e tornar
no estado nacional em favor do estado nacional rival; ao contrário, mais exigentes os critérios de aceitação de artigos, e não o contrário.
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Waldir José Rampinelli e Nildo Ouriques Crítica à Razão Acadêmica
(Organizadores) Reflexão sobre a universidade contemporânea

'As palavras são frágeis", recorda-nos George Orwell. No entan- inadmissível em países centrais (EUA, Alemanha, Japão ou mesmo
to, as autoridades nacionais -- e locais -- indicam que estamos avan- em situação szózgezzeas,como a China), mas é considerado absoluta-
çando na "produção cientíÊlca",pois, se no início dos anos 80 repre- mente normal e, principalmente, necessário, num país dependente
sentávamos 0,4% da "produção cientíHlcamundial", em 2010 0 país como o Brasil.
alcançará 2,7%. Analisando a classificação do Qualis Capes, chegamos à trágica
AFInal, o que é a "produção cientíâlca" que deixa tão felizes nossos conclusão de que, nas áreas estratégicas em ciência e tecnologia, as
principais dirigentes da área científica? Em que consiste a "produção revistas nacionais não são consideradas as melhores (Ai). Não exis-
cientíHlca"que deixa nossos reitores também muito felizes quando tem revistas de biologia nacional com conceito máximo; em química,
expõem os números que nutrem o cotidiano de nossas universida- tampouco alguma nacional é considerada suficientementerelevante
des? Para as autoridades brasileiras, "produção científica" se mede para ganhar pontuaçãomáxima. Na área de Astronomia/Física eu
pelo número de artigos publicados em revistas nacionais e "inter- não encontrei sequer uma considerada digna de receber o conceito
nacionais". Por isso, a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de máximo. Em Ciências e Matemática, outra área de conhecimento,
Pessoal de Nível Superior) estabelece metas de publicação e organiza somente uma revista mereceu classiülcação'n. 1". Ademais, em todas
o sistema de pós-graduação a partir do número delas, hierarquizadas as áreas, a maior parte das revistas indexadas é estrangeira, predo-
de acordo com critérios que julgam os melhores possíveis. Nessas minando em larga medida revistas dos Estados Unidos. Na literatura
condições, um programa é considerado de "excelência" se a maior poderíamos denominar esta política como subproduto do "complexo
parte do corpo de professores publica artigos em revistas que fazem de vira-latas", expressão do conhecido dramaturgo e escritor brasi-
parte de uma lista, denominada Qualis Capes. Nessa lista, as revistas leiro Nelson Rodrigues. Mas é mais apropriado chamar a coisa por
são hierarquizadas de tal forma que algumas valem mais que outras seu nome: trata-se, exclusivamente, de uma dose consistente de colo-
e muito elucidativo!-- as revistas dos países centrais valem mais do nialismo quimicamente puro, um subproduto necessário do sistema
que qualquer revista nacional ou latino-americana. de dominaçãode um país dependente.Salvemos,porém, as nossas
A decisãode outorgar maior pontuaçãopara as revistas consi- letras: na área Letras/Linguística, 22 são as revistas consideradas
deradas internacionais pela mentalidade colonizada de nossas auto- 'n.I", um verdadeiro oásis de lucidez que não contagiou os demais
ridades, e de nossos mais premiados professores, não criará risco al- comitêsl
gum de extinção das revistas nacionais,mas produzirá algo pior: o de Aos analistas mais exigentes e sempre atentos aos acontecimen-
constituir-se poderoso instrumento de publicização de resultados de tos mundiais, não lhes parece estranho o fato de que não existem
importantes pesquisas que deveriam render frutos em termos econó- revistas chinesas que, segundo analistas exibidos diariamente pela
micos para a nação e que são disponibilizadosgratuitamente para o imprensa, é o país que ameaça seriamente a hegemonia estaduni-
complexo estado-empresa-universidade dos países centrais. A criação dense na economia, na geopolítica, nas ciências e... na área científica
de programas especiais destinados a comentar a criação de publicações
e tecnológica? A maior parte desses atentos analistas, e o espírito
nacionais -- digitais ou impressas não tem maior sentido sem a inver- cientíHlcoque dizem possuir, ignora que o produto chinês com o qual
são radical e completa do sistema de pontuação em curso e a introdu- se alimenta, se transporta etc, não é um produto de quinta catego-
ção de critérios socialmente mais relevantes que a simples publicação. ria como costumávamosdizer há duas décadas. A China, de fato,
E importante refletir sobre o fato considerado normal e até transformou-se na "fábrica do mundo", país para onde as multinacio-
meritório nas ciências sociais, de as revistas "internacionais" pon- nais dos Estados Unidos se dirigem gerando arranjos institucionais
tuarem muito mais do que qualquer revista nacional. Tal fato seria e produtivos que são desconsideradospelas autoridadescientíficas
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Waldir José Rampinellie Nildo OuriqtJes Crítica à Razão Acadêmica
(Organizadores) Reflexão sobre a universidade contemporânea

brasileiras.A China, que nos tempos de Adam Smith -- acreditava os programas que incluem como disciplinas obrigatórias a macro e
ele -- estava "adormecida", ülnalmentedespertou e transformou-se micro economia, ministradas com ma7zzzazs em zzzgZês,
mesmo depois
numa espécie de dragão que tudo vai abocanhar, inclusive no terreno da crise teórica que se revelou a partir de setembro de 2007, reconhe-
da ciência e da tecnologia. Mas a China não 6lgura no Qualis Capes cida inclusive por alguns notórios cardeais da matéria, como Olivier
como um espaço de publicação e não é precisamente por falta de co- Blanchard, por exemplo. Poderia existir grau maior de alienaçãoem
nhecimento do mandarim, pois lá o inglês é bastante comum no am- uma disciplina das ciências sociais?
biente universitário. Não é curioso que a China não figure no Qualis O reconhecimentode "excelência" conferido às revistas dos paí-
Capes? Por que a China, que ameaça nosso sono sereno no terreno ses centrais, apresentadas aqui como revistas "internacionais", cons-
produtivo, não é motivo de preocupaçãopara nossas autoridades no titui, pois, uma política oficial organizada pelo Estado brasileiro e
terreno científico? instrumentalizadapor parte do que se conhececomo "comunidade
Segundo a classificação da Ç2ualisCapes, nenhuma revista nacio- acadêmica". Cada área possui um comitê eleito pelos pares sem in-
nal de Economia possui conceito máximo (A 1). Em oposição, a imen- tromissão direta do ministro ou do presidenteda Capes. Podemos
sa maioria das revistas dos países centrais -- especialmenteaquelas afirmar, sem medo de errar, que se trata, portanto, de uma política
dos Estados Unidos --é considerada como de excelência. Na Sociolo- que, nos termos da linguagem dominante no campus, é produto do
gia, tampouco se pode encontrar na referida relação alguma revista 'consenso" entre Estado e pesquisadores. Tal fato torna ainda mais
nacional com conceito máximo; na verdade, apenas uma revista bra- estimulante a busca das causas de tamanha demonstração de colonia-
sileira recebe o conceito Ae, enquanto outras tantas seguem escala lismo cultural e científico que, indiscutivelmente, possui raízes bem
abaixo. Em História existem seis revistas nacionais com nota máxi- profundas na formação universitária. É possível que, no futuro, esta
ma, mas elas também são minoria na longa relação do Qualis Capes. política seja objeto de merecida ridicularização, demonstração cabal
É realmente surpreendente veri6lcar que nenhuma revista nacional do grau de colonialismo, da mentalidade boca que organiza a cabeça
de Geografia recebeu classificação ótimal Enfim, nas ciências huma- de importante parcela dos professores universitários.
nas o grau de colonialismo intelectual chegou a níveis inimagináveis, Portanto, não se trata de um equívoco, mas de uma política tra-
a uma situação que seria impensável durante os anos da ditadura çada pelo Estado e pela chamada "comunidade acadêmica", pois âoi
militar, nos quais a crítica historiográfica, sociológica e económica através de atavaparticipação de seus notáveis que os comitês de área
era, pelo menos, intencionalmentecrítica, e não mera reprodutora estabeleceram os critérios necessários para classiülcar as publicações.
das ideologias nascidas nos países centrais. É preciso recordar que a pós-graduação brasileira teve grande ex-
Nos cursos de pós-graduação de economiaa adoção desta orien- pansão na ditadura e que, a despeito da violência do regime, parte
taçãoimplicou um vertiginoso empobrecimentoda promissãocom a signinlcativa da "comunidade acadêmica" contribuía de maneira ativa
supervalorização das matemáticas em prquízo do conhecimento so- ou tácita com os critérios de seu desenvolvimento ainda durante o
bre as distintas teorias -- neoclássica,keynesianae marxista -- que regime. Em perspectiva histórica é necessário observar que a tran-
ainda não Êoisuficientementequestionada, razão pela qual os enge- siçãoda ditadurapara um regimecivil (inauguradoem 1985)não
nheiros mais treinados e aptos na matemática elementar e avan- tocou nos pontos chaves que comentavam o sistema de pós-gradu-
çada -- terminam por conquistar com mais facilidade o mercado de ação nacional. Muitos anos depois, quando Lula venceu as eleições
trabalho que potencialmente seria do economista. A elaboração de e muitos esperavam uma ruptura -- ainda que parcial -- com o velho
um exame nacional para ingresso na maioria dos mestrados obedece sistema, a verdade é que nada foi mudado. Ao contrário, o sistema
a orientação quase que exclusivamente neoclássica e não são poucos .recebeuum reforço financeiro significativo, especialmenteno segun-
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Waldir José Rampinelli e Nildo Ouriques Crítica à Razão Acadêmica
(Organizadores) Reflexão sobre a universidade contemporânea

do mandato presidencial e, somente agora, no governo da presidente nitivamente criticado por ele em seu livro O colzcez/o
de fec7zologza.
Não
Dilma, é que os recursos voltaram a tornar-se "escassos" e algum é ocioso recordar que nosso brilhante filósofo tenha terminado esta
debate sobre a necessidade de mudança começa a surgir. Em suma, monumental obra em abril de 197S, momento em que o sistema de
podemos afirmar que, a despeito da variação entre épocas de austeri- pós-graduação brasileiro começava a viver a grande expansão que,
dade e períodos de relativa bonança, o sistema âoi se "aperfeiçoando' mais tarde, nas duas décadas seguintes, se consolidaria plenamente.
na direção atual, sob a mzZo/og7a de que, finalmente, a universidade Refletindo sobre a função do Hllósofonos países dependentes -- na
pública brasileira estruturou um sistema meritocrático digno deste verdade, um raciocínio que devemos estender para todas as áreas das
nome. Enfim, aqueles que publicam mais e, em consequência, são os ciências sociais -- Alvaro Vieira Pinto alertava sobre o risco de pra-
mais aptos cientiHlcamente,ülnalmenteestão no comando das ações. ticar uma 6ilosoHiaque não passava de uma "modalidade de alienação
De fato, nossa vida universitária está organizada nos seus mínimos cultural em forma praticamentepura" Nesse contexto, ele afirma
detalhes, da política da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) categoricamente que "o üilóso$o,não tendo nada de próprio a pensar,
até a elaboração do PAD em nossos departamentos, por uma concep- satisfaz-seem respirar os zé6irosdivinos provenientesdas regiões
ção que se deu a conhecer como "acadêmica". Este é o contexto em ocidentais cultas, ricas, pensantes por direito natural. Algumas con-
que podemos constatar a derrota acadêmzcad0 27zZe/ec/zza/ no interior sequências bizarras, e até cómicas, derivam desta situação". E prosse-
de nossas universidades, ou seja, a renúncia da ambição intelectual gue: "Nos países subdesenvolvidos, o HilósoÊo,como só registra o que
em nome de objetivos modestos orientados pela política o6lcialde 6oi pensado e dito nos centros metropolitanos, pode ser chamado de
publicação derivada do sistema de avaliação atualmente dominante. tabeliãode idéias.A cultura, em conaunto, constitui o cartório dos co-
Não poderei tratar desse tema nos limites deste ensaio, mas é pre- nhecimentos alheios. Obrigado a colecionar e registrar os produtos
ciso dizer que essa derrota acadêmica do intelectual é momentânea do pensamento de origem externa, o filósofo na verdade nunca chega
e também um claro resultado da correlação de corças conservadora ser escritor: não passa de escrevente... Não é preciso acrescentar que
que nos domina atualmente. fazem desta prerrogativa um valioso título de destaque social. A alie-
Quando observamos que a maioria das revistas consideradas por nação torna-se o melhor sinal da capacidade intelectual. Brilha com
todos os campos de conhecimento reconhecem como melhores publi- mais nitidez esse papel egrégio se o estudioso não se limitar à exclu-
cações as revistas dos países metropolitanos -- consideradas pela alie- siva atividade manducadora, mas se revelar um legítimo expoente do
nação do professor universitário como "revistas internacionais" -- po- meio desprovido de autoconsciência, engendrando livros, artigos de
demos concluir que o colonialismo venceu no campus universitário. toda espécie de publicações destinadas a difundir o pensamento dos
O colonialismo assume feiçõestão destrutivas quanto trágicas desde outros, o que é deitocom grande satisfação pelos ressoadores indíge-
uma perspectiva intelectual. E o elogio ao "acadêmico"no mundo nas, pois com estes documentos bicacomprovado em registro com fé
universitário brasileiro tornou-se a melhor expressão do colonialis- pública seu convívio com a ciência, as letras e as artes
mo e representa a derrota acadêmica de toda pretensão intelectual. guarda a alienação torna-se o melhor sinal da capacidade intetectua!
E, nos termos de Florestan Fernandes, a simulação acadêmica sob é possível afirmar que o colonialismo atingiu seu grau máximo de
roupagem decente. domínio, na forma de política estatal capaz de disciplinar a atividade
Essa constatação nos recorda algo fundamental observado pre- do professor. Com muita frequência, o professor universitário afirma
cisamente por um dos maiores filósofos brasileiros: Álvaro Vieira que é um ser totalmente livre, que determina seu próprio prometode
Pinto. Esse pensador do ISEB deixou uma importante obra póstuma pesquisa sem interferências de qualquer tipo, e em consequência, tece
e, muito antes do sistema atual ganhar musculação, já tinha sido defi- louvores à "liberdade de cátedra", enquanto se ajoelha todos os dias
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Waldir José Rampínelli e Nildo Ouriques Crítica à Razão Acadêmica
(Organizadores) Reflexão sobre a universidade contemporânea

em sua atividade prática no altar da servidão voluntária. A busca de- pesquisa de um centro de estudos metropolitano, e condenará seu au-
senfreada de pontos para seu currículo e para seu programa de pós- tor, quando exitoso, a mero papel coadguvante. Ele gostaria de parti-
graduação pode atingir patamares elevados na exata medida em que cipar da bestae inclusive ser um convidado para jornadas intelectuais
ele one7z/aseu esforço intelectual pelo calendário de publicação das nos países centrais, mas o efeito produzido por sua conduta alienante
revistas que de maneira alienante chama de "internacionais". Nesse é precisamenteo oposto do pretendido:o acadêmicodo país metro-
contexto, a política oficial hos últimos anos produziu um resultado politano se mostra formalmente interessado nas "pesquisas" produ-
que não poderia ser pior: uma quantidade imensa de artigos publica- zidas nos países periféricos, mas possui, ao alcance de suas mãos, em
dos conforma aquilo que as autoridades chamam, sem ruborizar-se, seu próprio país, dezenas de quadros treinados na arte da repetição,
de "aumento da produção científica", mas que não torna as ciências razão pela qual dispensa o oferecimento voluntário do professor uni-
sociais vitais em nossos países; ao contrário, é a razão de sua pro- versitário do país periférico. Nas ciências sociais é muito comum que
funda debilidade. E comum, neste contexto, que uma signiÊlcativa nos congressos realizados nos países centrais não figurem professo-
parcela dos professores não possua proUetosconsistentes de pesqui- res que trabalham nos países periféricos e que adotam os programas
sa, ainda que se abrigue de maneira conveniente em "linhas de pes- de pesquisa alheios. Há uma razão corte para tal: é que, muitas vezes
quisa" nos programas de pós-graduação como forma de ocultar esta -- como, aliás, nos ensina a História os cientistas sociais metropoli-
debilidade. Essas linhas não possuem lideranças intelectuais sólidas tanos estão interessados na originalidade e não na cópia.
e, na maioria das vezes, representam apenas um "guarda-chuva" pas- A simulação intelectual de que nos falou Florestan Fernandes é
sageiro em que muitos encontram o meio de manter seu isolamento precisamente isso: ao contrário do que inicialmente alguém poderia
intelectual e falta de compromisso com as grandes questões nacio- supor, a simulação intelectual não implica em falta de eficiência do
nais e os grandes desafioscientíficos e intelectuaisde nossa época. professor universitário brasileiro que, nos termos definidos pela Ca-
Além disso, outra característica necessária dos proJetos de pesquisa é pes, é mesmo altamente produtivo. É até comovente observar como
que não são duradouros e não é incomum perceber que, após alguns alguns colegas se entregam com grande paixão à tarefa de publicar,
anos de esforço numa direção, o professor mude radicalmente seu e como verdadeiramente desafiam a imaginação na arte de copiar, no
objeto de pesquisa elegendo outra prioridade, originada, geralmen- esforço por citar exaustivamente os cânones de moda na academia,
te, num programa de um professor de uma universidadeestrangei- em seguir despudoradamente um programa de pesquisa de que mal
ra. Esses condicionamentosproduzem vidas acadêmicasorientadas sabem a origem e nem imaginam o ülm para o qual üoi originaria-
difusamente, sem efeito acumulativo ao longo do tempo, sem cria- mente concebido numa universidade do país central. Este professor,
ção de sinergias com áreas afins, sem formação de alunos que sigam orgulhoso de exibir seu Currículo Lattes que Ihe permite, por meio
esse esforço no futuro e, sobretudo, cria um professor interessado de editais, conseguir alguns recursos para seguir "pesquisando",é
em muitos temas sem aprofundar numa direção. Nas circunstâncias tudo, menos um sujeito preguiçoso. E é precisamente por isso mes-
atuais, uma grande parte dos professores dedicados a captar a moda mo que o szsZemamzzzzdza/(ü.prodzéção de co z#eczme#/o necessita dele e
acadêmicaoriginada nos países-centrais, independentementede sua até alimenta o mito de que "tudo" que ele conseguiu até o momento
importância ou validez, não percebe que, no máximo, consegue estar é produto do "mérito" que imagina possuir. Portanto, esse trabalho
colonialmente atualizada. não é inútil, pois é peça indispensável no sistema mundial de produ-
Ademais, precisamente ao contrário do que pretende, a conduta ção de conhecimento; tampouco a simulação intelectual é inútil, pois
derivada da política oHlcialproduz precisamente o professor "tabelião é, 6lnalmente, responsável por manter a atenção e o esforço do pro-
de ideias alheias", que não passa de mera sucursal de algum prometode fessor meritocrático sob controle, impedindo-o de buscar as causas
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Crítica à Razão Acadêmica
Waldir José Ralnpinelli e Nildo Ouriques Reflexão sobre a universidade contempol'ânea
(Organizador'es)

mesmo mais competitivas e, via de regra, selecionam os melhores


de sua alienação,de estabelecervínculos com as grandes questões
do mundo da cultura e da ciência, todas sempre mais dramáticas nos artigos. Elas efetivamente recebem uma quantidade enorme de arti-
países da periferia capitalista. gos de todas as partes do mundo e, portanto, publicam autores mais
consistentes que aquelas revistas menos festejadas e reconhecidas.
,4tienação científica e meritocracia Em algumas universidades dos países periféricos, os professores en-
Certamente os defensores deste sistemajulgam que as revistas contram apoios financeiros para as traduções em inglês e, em alguns
dos países centrais são mais "competitivas" e com certa segurança programas, ministram menos aulas se publicam acima da média. En-
fim, contam com instrumentos de que os comuns dos mortais não
concluem que, caso um professor brasileiro consiga emplacar um ar-
tigo em qualquer delas, configurar-se-ia um reconhecimentoinequí- podem dispor. Por esta razão, é a construção da reputação das revis-
tas "internacionais" que mais me interessa, e torna-se absolutamen-
voco de qualidade, orientado por um critério de "mérito" que todos
te necessário buscar os motivos pelos quais elas chegaram até esta
nós, supostamente, devemos defender. Quanto mais alta a concorrên-
condição. Ademais, não podemos desconhecer que em toda periferia
cia, pensam eles, maior a qualidade dos artigos selecionadose maior
o mérito cientíHlco. capitalista se organizou o sistema de publicação em revistas "inter-
nacionais", de tal forma que, no limite, quem deve explicações sou
Há que duvidar desta simpática "teoria". E há também bons mo-
tivos para tal. Um deles ganhou projeção mundial nos meios inte- eu: anlnal, se no mundo inteiro as coisas funcionam assim, por que no
Brasil atuaríamos de maneira diferente?
lectuais, mas üoicomodamenteignorado no mundo acadêmico. Alan
Minhas razões se limitam a duas. A primeira é que o esforço
Sokal, físico de formação, enviou para uma prestigiosa revista esta-
intelectual, quando não é mera simulação, serve como importante
dunidense, chamada Socza/ Te/Z, um artigo denominado 7}zznsgredzr
insumo para a pesquisa dos países metropolitanose, como conse-
as/ronceiras: para uma hrmezêutica traz:lformadora da gravidade quânti-
quência, empobrece o país periférico. A segunda é que, ao proceder
ca que, na verdade, segundo o próprio autor, estava repleto de absur-
desta forma, os professores alienam seu programa de pesquisa. No
dos e de absoluta falta de lógica. Contudo, para sua surpresa, o artigo
teve plena aceitação e foi logo publicado em um número especial da limite, terminam por mutila-lo em favor de programas alheios, sem
vínculo com transformações vitais em seu próprio país, que deveria
até então conceituada revista. Este episódio é menos raro do que po-
-- como de fato ocorre com seus pares nos países centrais que ele não
demos supor. Alguns artigos escritos com objetivo oposto, embora
também repletos de inconsistências e falta de lógica, são aceitos e pu- tenta seguir -- estar orientado por motivações endógenas, critério
blicados em prestigiosas revistas se os textos repetem ou participam sem dúvida alguma absolutamentevital nos países centrais. Por-
da onda dominante. Este fato é bastante comum nas ciências sociais, tanto, o "professor-pesquisador"do país periférico atua satelizado,
ainda que possa receber Hlltros mais rigorosos nas ciências exatas, orientado por programas que não compreende cabalmente e sobre
especialmente após a "brincadeira" de Sokal. os quais tampouco pode influenciar de maneira decisiva. Nem mes-
mo a permanência por quatro anos num país central, quando realiza
O propósito de Sokal, entre outros, era demonstrar que a serie-
dade das publicações festejadas nem sempre coincide com ojuízo que seus estudos de doutorado ou pós-doutoramento, o faz compreender
a maioria dos professores possui em relação ao conselho editorial e como funciona seu sistema cientíülco-produtivo; com muita frequên-
cia ele vive numa universidade estrangeira sem entender o contex-
às práticas necessáriaspara selecionar um determinado artigo. De
to institucional ao qual está submetido e, quando desprende algum
minha parte, mesmo não ignorando o episódio de Sokal, aceito pre-
cisamente o suposto de que as revistas consideradas "internacionais' esforçopara compreender as instituições em que se encontra, não
pela cabeçaalienada dos professores universitários brasileiros são capta senão aspectos parciais e anedóticos em questão.
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' (Organizadores)

A busca desenfreada por pontos nas revistas indexadas produziu r


Crítica à Razão Acadêmica
Reflexão sobre a universidade contempoi'ânea

nos corredores das universidades, e aquele que ousar apresentar um


outro Éenâmenoimportante: não raro, os professores passaram a or- critério social para a validação do conhecimento produzido nas insti-
ganizar sua vida no terreno da pesquisa em função da publicação, com tuições terá que prestar contas diante deste argumento. As patentes,
sérias implicações para o desenvolvimento intelectual e cientíHlcodo por exemplo, jamais são invocadas para comprovar eficiência na pes-
país periférico. A primeira delas é que, dada a diversidade de revistas, quisa científica e sim a publicaçãode artigos. Completa-se, portanto,
a maior parte dos professores orienta sua vida na pesquisa em função um sistema terrível no qual o professor destina parte importante de
do fazezdárzode prazos elaboradopelas publicaçõese é obrigado a seu esforço para aumentar a "produção científica" tal qual concebe a
fazê-lo a partir de temas distintos, de acordo com a diversidade delas, Capes. Outros dirigem seu esforço na mera prestação de serviços à
e com a velocidade de quem troca de camisa. O resultado é claro: o indústria e somente subsidiariamente estão preocupados com publi-
acúmulo teórico é diminuto e os programas de pesquisa, especial- cações e, finalmente, também existem aqueles que mal conseguem
mente na área das ciências humanas, tornam-se precários, efémeros. simular na direção dominante. Em qualquer caso, inexiste o critério
Vivemos, de fato, um domínio do efémero que "evoluiu" de acordo da soberania no terreno científico e tecnológico.
com as modas acadêmicas e as linhas de financiamento disponíveis.
Grandes projetos de pesquisa,com horizontes temporais mais am- Publicar tá, pagar a qui
plos, com ambição intelectual e orientados por ütns de crítica social, O professor fissurado por publicar nas revistas que colonialmen-
por exemplo, são assim descartados sem qualquer consideração. Não te considera "internacionais" não tem a menor noção sobre as impli-
são poucos os professores que tiveram diante de si um prometoambi- cações deste procedimentoem termos de riqueza social. Ele julga
cioso de pesquisa quando desenvolviam seus respectivos doutorados que seu comportamento e o apoio que dá à política oficial é essencial-
e, depois disso, jamais voltaram a buscar um programa de pesquisa mente correto e nem pode dar-se conta, dada sua imensa alienação,
realmente consistente e de longo prazo das graves consequênciasque está produzindo para o país. Na ver-
O tema da validação social da produção científica está longe de dade, antes que desenvolver, ele ajuda a sangrar o país. A economia
ser levado em consideração. Por isso é realmente muito mais cómodo política tem seus caprichos, é preciso reconhecer. A universidade não
considerar qué os mais aptos para julgar a qualidade do trabalho de é um centro de saber neutro, sem térreos vínculos sociais.Ao con-
pesquisa e pós-graduação são os próprios pares, todos engolfados trário, mesmo aquele professor que se sente completamente alheio
na mesma lógica, longe de critérios sociais de validação do conhe- às questões sociais, culturais e económicas, é prisioneiro destas cir-
cimento e da pesquisa. Nesse sistema de pares, mais do que críticos cunstâncias.
atentos, o professor consegue cumplicidade para as suas deficiências Uma das características dos países dependentes é que pagam
e garante, em troca, o mesmo tratamento quando ele submeter um rapa/fzespelo uso de patentes. O Brasil, por exemplo, paga todos os
artigo que pretende aprovação e posterior publicação. Ao contrário anos bilhões de dólares pelo uso de licenças e patentes para as em-
do que pode parecer, a utilização de palavras chaves, de seguimento presas multinacionais. Segundo informação do Banco Central, o pa-
colonial dos modismos acadêmicos dos países metropolitanos, é o ca- gamento de rapa/fzescresceu de maneira acentuada a partir de 1994,
minho seguro para merecer aprovação do artigo. Eis aqui mais uma precisamente quando começou um novo pacto de classe que sustenta
razão pela qual é necessário alimentar o mito meritocrático nas uni- o chamado Plano Real. A informação a seguir demonstra a rápida
versidades, pois com ele se garante que apenas podem julgar douto- ascensão da sangria financeira do país, precisamente quando também
res aqueles que também são doutores. A meritocracia funciona, neste se aplicou no terreno da educação o sistema de avaliação e publica-
contexto, como uma boa justificativa para manter tudo como está ção, ainda quando era ministro Paulo Renato de Souza.
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Waldir José Rampinelli e Nildo Ouriques Crítica à Razão Acadêmica
(Organizadores) Reflexão sobre a universidade contemporânea

Neste período -- de 1994a 2010 0 Brasil pagou quase 22 bi- tecnológica (alimentos, celulose, etc.), que, nlnalmente, é responsável
lhões de dólares de roWalfzes,
cifra que não pode ser desprezadapor pelo superávit comercial brasileiro, cada ano mais modesto.
ninguém. Os defensores do sistema atual se apressarão em afirmar Enfim, precisamente quando as autoridades educacionais indi-
que a abertura da economia é a causa fundamental do elevado e per- cam que temos um "sólido sistema de pós-graduação" funcionando,
sistente gasto com licenças e patentes. Em parte é verdade, mas pre- a dependência tecnológica cresce; também cresce o gasto financeiro
cisamente é esta desnacionalização do setor produtivo que implica com patentes e marcas e aparece um terrível resultado no balanço de
em maior importância para o desenvolvimento científico e tecnoló- pagamentos quando analisamos as trocas internacionais do país. Os
gico; ou sqa, posto que a educaçãoé um subsistemada economia, defensores do atual sistema de pós-graduação poderiam alegar que
a "abertura" do mercado nacional para as empresas multinacionais a situação seria ainda pior se não tivéssemos um sistema de douto-
deixou ainda mais claro o raquitismo científico do país. A compara- rados e mestrados como atuallnente exibimos. Ocorre que para re-
ção entre a "preocupação" do empresário nacional diante da potência ferendar esta hipótese as universidades teriam que exibir o número
da multinacional contrasta com o orgulho universitário com seu sis- de patentes e, no caso da UFSC, os números indicam que temos ape-
tema de pós-graduação e seus proUetoscientíficos. A princípio tudo nas... uma (1) patente. As fundações possuem outras, mas estas nada
sugere que há um misterioso problema de se converter este saber rendem para a instituição. A ironia da história üca por conta do fato
universitário em patentes ou serviços para elevar a competitividade de que a atual gestão na UFSC apresentou-se como expressão de
da indústria... uma "Universidade do Século XXl", bordão que, nos marcos do am-
O grau de desnacionalizaçãoda indústria em um país dependen- biente provinciano e colonialista a que estamos submetidos, de fato
te é historicamente elevado e é evidente que, se por um lado faz a fes- não deixa de ser uma boa peça publicitária, mas obviamente em nada
ta dos comerciantes que seguem acumulando dinheiro com as impor- contribuiu com o desenvolvimentocientíÊlcoe cultural do país. Em
tações,por outro aprofunda a dependênciatecnológica e cientíHlcado poucas palavras: é expressão de uma orientação bocal
país. Outros indicadores mostram também, de maneira clara, que o O fetichismo aparece claramente quando observamos que, para
Brasil exibe superávit comercial naqueles produtos de "baixa densi- enfrentar o desaHlocientífico de um país dependente, o governo e
dade tecnológica" e gritantes déíicits para aqueles produtos de alta e a maioria dos professores aceitama hipótesede que o país precisa
média densidade tecnológica. Recentemente uma fonte insuspeita de investir em inovação. De fato, a maioria dos eventos oficiais promo-
'nacionalismopessimista" divulgou os dados referentes ao comércio vidos pelo governo ou mesmo por centros tecnológicos das universi-
exterior brasileiro até 20 10. Segundo o IEDI, o Brasil sofre com ele- dades públicas sublinham a necessidadede uma política de inovação.
vado déficit comercial para os produtos que, seguindo uma metodo- O recurso de caráter apologéticoà inovaçãonão poderia ser mais
logia da OCDE, são considerados de "alta intensidade tecnológica' expressivo da indigência teórica e do grau de alienação que prospera
Exceto para o setor de aeronaves,o país apresenta gritantes déülcits no campus universitário. Inicialmente esta ideologia tentava amparo
(farmacêutica, informática e comunicações, eletrânica de consumo e nas formulações de J. A. Schumpeter que estão obviamente longe
componentes eletrânicos, equipamentos médicos e de precisão). No de representar um sustento teórico necessário para rivalizar com o
setor classificado como de "média-alta intensidade tecnológica", os decisivotema da revoluçãocientífico-técnica-- mas em tempos re-
números revelam também déÊlcitestrutural no setor de bens de ca- centes nem mesmo o economista moraviano tem sido referência para
pital e na indústria automobilística.Ganha destaqueno relatório o amparar a errática e colonial política científica nacional. A referência
setor de química, com elevado déFIcit comercial. O único setor em à inovação é simplesmente um recurso ideológico destinado a ocultar
que existe superávit comercial é precisamente o de baixa-densidade o raquitismo científico e tecnológico dos países periféricos no mundo
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IOrganizadores) Reflexão sobre a universidade contemporânea

capitalista, fato que levou até mesmo ao empobrecimento do debate e lonialismo científico e cultural de órgãos agora subordinados a sua
teorização da política industrial, quase reduzida a subsídios estatais autoridade política. É importante buscar antecedentes deste caso que
aos setores perdedores da concorrência internacional. chamou a atenção de um ministro de Estado.
Há, também, um dado relevante: as empresas que deveriam ser Ein 200s, o professor Paulo Imamura, do Instituto de Química
o coração do processo de inovação realmente investem em ciência e da Unicamp, alertou para a questão decisiva. Conhecedor do caráter
tecnologia? Os dados da Pintec-2008 indicam os limites claros des- 'empreendedor" do empresariado brasileiro, Inamura afirmou que
ta ideologia, pois apenas I'$% das pessoas ocupadas em pesquisa e era "pessimista na possibilidade de a indústria nacional investir na
desenvolvimento nas empresas pesquisadas passaram por cursos de pesquisa e na viabilização de medicamentos..." Ele estava testando a
pós-graduação e os recursos investidos são bastante modestos. Na copaíba em nove tipos de câncer, mas não teve recursos para seguir
indústria, apenas 9, 1% possuem cursos de pós-graduação. na pesquisa, que era fruto de um doutoramento (aluna Ines Lunardi),
Como üoi possível criar um professor universitário que ignora e que foi patenteadopor japoneses em 1992.
questões elementares do mundo contemporâneo como o crescente O professor Inamura Êoicerteiro ao afirmar que, "no Brasil, cos-
pagamento de roWaZfzes-- especialista em ignorar o imenso desafio cien- tumamos sintetizar substâncias academicamente e publicar nossos
tíülcoe tecnológico dos países dependentes,simulando produção de trabalhos quando há ocorrências de grandes indústrias do exterior
conhecimento e, mais triste ainda, limitando-se ao papel de um impro- que se apropriam dos estudos realizados no chamado terceiro mun-
dutivo pequeno-burguês que sai à procura de citações, sugerindo que do,. principalmente na área de íitoquímica. Pelo menos no Instituto
para ele é mais importante figurar no pé de página de algum artigo em de Química, já vejo a preocupaçãode resguardar as pesquisasnão
inglês do que produzir ciência para seu país? apenas como forma de publicação...". O professor Inamura referia-se,
É claro que tamanho problema não é ignorado por todas as au- obviamente, à necessidade de patentes, mas podemos concluir, após
toridadescientíficas do Brasil, fato que torna ainda mais ilustrati- a informação do ministro, que nada prosperou e tudo permaneceu
vo nosso problema. Em audiência pública em 27 de abril de 201 1, o como "preocupação" isolada de um cientista brasileiro que desenvol-
ministro Aloísio Mercadante a6lrmou que "produção cientíülca não ve suas atividades em uma universidadepública. (http://www.uni-
significa necessariamenteinovação". Na mesma oportunidade Mer- camp.br/unicamp/unicamp.hoje/jornalPDF/e1 3-pagOS.pdf).
cadante tocou no problema, ainda que tangencialmente: mencionou O ministro Mercadante solicitou uma "mudança de cultura" para
como exemplo a copaíba (um anti-inflamatório cicatrizante) cujos enfrentar esta situação e apelou para o fato de que devemos buscar
estudos sobre o óleo de copaíba (Copa!HerasP) são maioritariamente mais avidamente o registro de patentes, mas, curiosamente, não ou-
de cientistas brasileiros (76% dos estudos) e no entanto, das 35 pa- sou tocar na necessidadede mudar radicalmente a política de publi-
tentes nos últimos dez anos não há uma sequer com registro nacio- cações e de hierarquização que atualmente inibe o desenvolvimento
nal: EUA detêm 17, Japão 8, União Européia 8, China 2... O Brasil científico nacional e favorece, colonialmente, o sistema dominado pe-
não tem uma patente sequer deste produto genuinamente nacional e las empresas multinacionais e os estados metropolitanos. O ministro
que mereceu análise e pesquisa de nosso sistema de pós-graduação. mencionou apenas um caso, mas é fácil buscar inúmeros outros cujas
Há outros exemplos nessa mesma direção, mas creio que o citado é consequências políticas, económicas, sociais e culturais não somente
contundente para elucidar o erro elementar da política científica em nada rendem para o país como representam o caminho pelo qual o
curso no país. consórcio mundial entre empresa-universidade-estadocaptura o co-
O ministro Mercadante mencionou um velho problema, que se nhecimento nacional incentivando as publicaçõesem "revistas inter-
arrasta sem solução há quase 20 anos, contando com o apoio do co- nacionais
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Waldir José Rampinelli e Nildo Ouriques Crítica à Razão Acadêmica
(Organizadores) Reflexão sobre a universidade contemporânea

A despeito das numerosas evidências, não observamos qualquer de seu próprio país. Ele está orientado pelo mito meritocrático que
movimento ou medida para mudar radical e rapidamente este estado é turbinado pela dose de colonialismo cultural e científico, tal como
de coisas. As regras dos programas de pós-graduação seguem sen- formulou Orlando Fala Borda na décadade setenta, e é compelido
do orientadaspelo colonialismocultural e cientíâlcocom acentuado pelo órgão do ministério de ciência e tecnologia do Brasil a publicar
rigor. Uma mudança simples, que está ao alcance do ministro e que 'lá cora", em inglês, como se tal procedimento fosse efetivamenteo
poderia ser sugerida por qualquer reitor, seria a valorização de revis- grau máximo da qualiHlcaçãointelectual.
tas nacionais com pontuação superior às estrangeiras. Curiosamente Ao optar pela publicação nas revistas nacionais dos países cen-
não é assim, pois uma publicação em revista estrangeira vale mais do trais, o professor universitário brasileiro cava um abismo sob seus
que uma publicação em revista nacionalll11 próprios pés. Ele raras vezes considera que sua opção pela publica-
Na área de química, o Qualis Capes não reconhece como 'Ai ção em revistas dos países centrais debilita o ambiente em que efe-
nenhuma revista brasileira. Os resultados desta política parecem es- tivamente trabalha, sabotando o diálogo com grupos nacionais de
tar a vista e definem, mais do que em qualquer outro argumento, a pesquisa, debilitando revistas nacionais que são indispensáveis em
importância do colonialismo para o sistema mundial de produção de algumas áreas e, em alguns casos, fundamentais para potencializar
conhecimento de que falaremos a seguir. a dinâmica do trabalho solitário e individual que, lamentavelmen-
te, domina plenamentea vida do professor universitário brasileiro,
O sistema fundia! de produ.ção de conhecimento pouco aceito ao trabalho coletivo e de longo prazo. Ele tampouco
Os ministros reclamam da situação e os professores universitá- entende que, com esta política -- que Ihe aparece como atitude indivi-
rios reforçam seu complexo de inferioridade, mas não estão dispos- dual meritória -- está, na prática, fortalecendo o ambiente dos países
tos a mudar radicalmente os critérios que orientam o seu cotidiano. centrais que já contam com um volume de recursos, uma tradição e,
A chamada "publicação internacional" funciona como um poderoso além disso, com o esforço de além-mar para seguir avançando cada
fetiche na vida do autoproclamado "professor-pesquisador" e ele es- vez mais na fronteira do conhecimento.Ele raramente percebeque
quece completae convenientementeque o poder de um artigo em esse artigo ou ensaio cumpre a função de "insumo" no país central,
inglês, publicado em uma revista nacional dos Estados Unidos ou permitindo a um grupo de pesquisa ou a um intelectual metropoli-
Alemanha, âoifabricado por suas próprias mãos. Esquece que o preço tano fortalecer seu trabalho que, em futuro breve, Ihe aparecerá sob
elevado que paga pelo medicamento numa farmácia contou também a forma de um novo livro ou campo de trabalho, uma "novidade" que
com seu esforço, üoi também criado por suas próprias mãos (e cé- captará toda sua atenção e energia, fortalecendo seu complexo de
rebro) e que ganha em sua cabeça um poder descomunal,tal como inferioridade, comprovado pelo fato de que outra novidade apareceu
Hegel descreveua relação entre o português colonizador e o africano num país central.
colonizado.
Além de debilitar a revista nacional, ele esquece que aquela re-
Vamos supor que as revistas consideradas melhores pela cabeça vista estadunidense, que na sua cabeça aparece como "revista inter-
colonizada do professor brasileiro sejam realmente as melhores. O nacional", faz parte de um szsZema mzz7zdza/ deprodzção de co z#eczme7zZo /
critério estabelecido pelo estado-nacional reforça a tendência de que em que ele figura apenas como mais um operário na linha de pro-
os professores guiem sua estratégia de publicação pelos tempos e te- dução e, embora se julgue muito distante do mundo do fabril estás
mas dominantes nas revistas estadunidenses, inglesas ou germânicas. na verdade, muito próximo dele. Há, de fato, um grave retrocesso
O professor do país dependente, nesse caso, o professor brasileiro, nesse aspecto,pois se é claro que as condições de vida e trabalho de
reforça a qualidade do país central e, no mesmo ato, debilita a revista um professor universitário do sistema público em nada se asseme-
102 103
Crítica à Razão Acadêmica
Waldir José Rampinellie Nildo Ouriques
(Organizadores) Reflexão sobre a universidade contemporânea

Iham à vida da classe operária, é importante registrar que, no caso pesquisa, sem domina-las completamente, agindo como apêndices
dos professores, n6s temos que buscar as condições de trabalho por periféricos de programas que não podem influenciar e esquecendo
meio de editais, fato que transforma uma austeridadeimposta aos que, uma vez descartados pelo professor metropolitano,ficarão no
docentes em meritocracia. EnÊlm, posto que o professor julga que completo abandono e com sentimento de ter "entrado numa furada
estamos diante de uma política de austeridade, que um país subde- Para manter-se em pé, não restará ao professor colonizado senão
senvolvido não pode mesmo oferecer as condições mínimas para o seguir na senda inaugurada pelo guru metropolitano em sua nova
desenvolvimento do trabalho intelectual, ele aceita com bom humor perspectiva, como quem se aterra ao único sopro de vida, ou então
a política que o leva a disputar com os pares os minguados recursos afundar na frustração de ter dedicado muitos anos (pesquisa, ensino
em editais universais. Os vencedores julgam então ser melhores que e extensão) ao trabalho alheio, na maioria das vezes sem ter tido a
os colegas porque conseguiram, por meio de editais, alguns reais oportunidade de um contato mais estreito com aquele que figura
para comprar computadores,pagar passagense diárias em algumas como seu mestre. E o triste caso da "servidão voluntária" que ele
aceita como um destino,
viagens e importar uma dezena de livros. Eis a base económica do
mérito em nossas universidades. Ao esquecer a experiência exitosa que existe em seu próprio
Tampouco passa pela cabeça do professor que pretende publicar país, o professor universitário se julga ingenuamenteum "cidadão
numa revista de ciências sociais de um país metropolitanoque ele do mundo", metáfora kantiana completamente descontextualizada
raramente será convidado para o seleto grupo de especialistas que e insistentemente utilizada como o melhor retrato do colonizado,
controla a revista por ele considerada "internacional". No cotidiano, sempre preocupado em conquistar um momento estelar, papagaian-
ele sonha com um convite para participar de um "seminário interna- do, como dizia Darcy Ribeiro, "teorias" que não logra dominar cabal-
cional" destinado a fortalecer precisamente o programa de pesquisa mente e, quando exitoso, poderá apenas figurar como um repetidor.
que se originou e se reproduz no país central. Ainda que aparentementeem minoria, não sou o primeiro em
Mais grave e nocivo ainda: e/e esqzzececz/'r(@rza e/pena/zela/ Es- questionar uma verdade estabelecidapor nossa mentalidadecolo-
quece, especialmente no caso das ciências sociais, que os únicos mo- nial, derivação necessária de nossa condição de país dependente.
mentos de glória do pensamento nacional coram precisamente quan- Mano Schemberg, um homem com muito mais autoridade que a
do nossos professores se dedicaram aos temas da sociedade nacional imensa maioria de nós, já alertou para os problemas atuais deriva-
sem qualquer preocupaçãocom "aparecer" ou "vencer" lá cora. Dessa dos da política oficial, quando eles apenas estavam surgindo, numa
forma, elejulga que não temos tradição a defender e que raros coram luminosa intervenção que acertadamente denominou .4Jormafão da
os momentos de glória que, intimamente, aspira. Embora deseje ar- mezzZa//Jade czepz/gira. Disse Schemberg: "Há uma diferença muito
dentemente brilhar como alguns "mitos" que habitam sua cabeça,ele grande entre fazer uma tese e fazer Ciência. Nós fazíamos Ciên-
esquece que Gilberto Freire e sua experiência nos Estados Unidos na cia. Muitas vezes os trabalhos nem eram publicados.Fermi não era
década de 30, que os teóricos da teoria do subdesenvolvimento, que muito favorável à publicação de trabalhos. Achava que a pessoa de-
a crítica marxista da teoria da dependênciaao desenvolvimentismo, via publicar muito pouco- Devia, sim, ter muitas ideias e guarda-las,
são todos exemplos de lucidez dos pensadores latino-americanos escritas, em sua gaveta, e não publica-las à toa. Devia publica-las
que reíletiam sobre a sociedade nacional. Eles não eram e tampou- apenas quando fossem ajudar o desenvolvimento da Ciência.
co se comportavam como verdadeiros "tabeliães de ideias alheias' Ademais, sem o espírito de Poliana que a maioria possui, sal-
na certeira e terrível expressão de Álvaro Vieira Pinto, que orien- picou: "Tomemos a reforma universitária, por exemplo.Será que a
tam sua atividade de "pesquisa" apenas reproduzindo programas de nossa universidade, depois da reforma universitária, tornou-se eül-
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\?ValdirJosé Rampinelli e Nildo Ouriques Crítica à Razão Acadêmica
(Organizadores) Reflexão sobre a universidade contemporânea

cientepara desenvolver um pensamento brasileiro? Creio que muitos derivadas do processo de integração em curso na região, que curio-
setores pioraram, setores que antes eram até razoáveis. Confundiu- samenteocupamuito mais a atençãodos homensda política e do
se, infelizmente, a pesquisa científica com a elaboração de teses. E, mundo dos negócios do que a dos professores universitários emba-
no entanto, não se exige de uma tese que ela realmente traga uma lados na alienação cultural e dominação científica a que estão subor-
contribuição para a Ciência. A tese é um instrumento para se conse- dinados.
guir um título, especialmenteo doutoramento.' Por que uma medida simples como a eliminação da hierarquiza-
Agora, a "confusão" consiste em supor que a publicação de arti- ção multinacional das revistas não é tomada? Por que uma medida
gos em revistas indexadas implica em inevitáveis sinergias em favor que não receberia contestação da "comunidade internacional" não é
do desenvolvimentocientíficode um país dependente.A "confusão' rapidamente mudada? Porque destruiria o mito da meritocracia e a
também consiste em supor que estamos criando uma universidade ideia segundo a qual temos que render contas apenas para a comu-
de "excelência" porque alguns professores publicam muito e logram nidade acadêmica, sem validação social. No entanto, não alimento
os pontos necessáriospara manter seu programa de p6s-graduação ilusões a respeito. Essas mudanças exigem um prqeto nacional-re-
entre os melhores avaliados pelo sistema dominante. volucionárioque ainda não existe na sociedadebrasileira. Por isso
Já indicamos o caráter nocivo do sistema atual de publicação e da mesmo, a atual universidade é absolutamente funcional à ordem do-
política geral de avaliação da pós-graduação para o desenvolvimento minante e jamais um anacronismo.
da ciência e da tecnologia em um país dependente como o Brasil. Nas E por isso que medidas simples não podem ser tomadas. A resis-
ciências sociais, o estrago produzido não é menor do que aqueleque tência a mudanças, ainda que pequenas, revela que somente diante de
podemos observar na área da química ou da biologia. Nas ciências grandes transformações sociais é que as instituições poderão mudar.
sociais o colonialismo domina amplamente, a tal ponto que ninguém E todos nós sabemos que embora exista um combate para fazer algo
começa uma tese ou dissertação cora do tradicional 'Wallerstein dis- aqui e agora dentro dos estreitos muros universitários, será das ruas
se", "Derrida anlrmou", ou "segundo John Raws"... A realidade nacio- que efetivamente surgirão as energias capazes de mudar substancial-
nal e os autores nacionais com profunda reflexão sobre os problemas mente a vida universitária em favor de um clima intelectual digno
de nossos países perderam espaço, e outra quantidade importante deste nome e de revitalizar a função social da universidade a partir
deles é simplesmente ignorada, como se jamais tivesse existido. Da dos interesses das maiorias e de uma completa superação do subde-
mesma forma, intelectuais de grande expressão na América Latina senvolvimento e da dependência.
são completamente ignorados no Brasil, como se simplesmente não
existissem. Por que se produziu e se reproduz semelhante üenâmeno?
Ora, enquantoem Paria Derrida dirige seu olhar para o olho de seu
gato e aqui a mentalidade boca, alienada, funda imediatamente linhas
de pesquisa subsidiárias sobre a "animalidade", destinadas a reprodu-
zir, na periferia, temáticas que surgiram como se realmente fossem
expressão do melhor da cultura francesa ou europeia, autores decisi-
vos são ignorados. O brilho de um representa o ostracismo de outros
No contexto atual, teríamos que subordinar a política de publi-
cação e de hierarquização colocando as revistas latino-americanas
com grande pontuação, política destinada a aproveitar as sinergias
106 107
A APROPRIAÇÃO PRIVADA DA UNIVERSIDADE PÚBLICA
AS FUNDAÇOES PRIVADAS DITAS DE APOIO

Cito Tei=eira Correias

T)aí o barbarismo "tecnocientífico", com o qual se


busca subordinar continuamente o ensino e a pesquisa
às exigências das organizações públicas e privadas,
de modo a aperfeiçoar as instituições, organizações e
estruturas de dominação e apropriação, com as quais
se afirma e reafirma a ordem social prevalecente.
Essa tem sido a reversão por meio da qual a "razão
instrumental", pragmática, utilitarista, tem sido
imposta no ensino e na pesquisa, na teoria e na prática,
em detrimento da "razão crítica", com a qual se podem
descobrir connlgurações,movimentos e tendências da
realidade social, em âmbito naciona! e mundial.":

Em 15 de dezembro de gOlO, último mês do mandato iniciado


em 2007, o presidente da repúblicaLuís Inácio Lula da Silva san-
cionou a Lei 12.349', que aprofunda a possibilidade de apropriação
privada das universidades públicas do país, ao ampliar a pretensa le-
galidade da ingerência de fundaçõesprivadas - autoproclamadas "de
apoio" - nas finalidades e fazeres destas instituições públicas. O deito
não é original: também nos últimos dias no poder, em 20 de dezem-
bro de 1994, o presidente ltamar Franco sancionava a Lei 8.958, com
l Geólogo, Professor do Departamento de Mineralogia e Geotectânica do Instituto
de Geociênciasda UniversidadeEstadual de São Paulo (USP). Presidenteda
Associação dos Docentes da USP -- Adusp Seção Sindical, gestão 2001-2003e do
ANDES-SN, gestão 2008-2010
2 0ctáviolanni,p. 10,ed. n' 68$,2004,Jor7za/
da [/BP.
3 Lei de conversão da MP 495/2010. Altera as Leis 8.666 (Lei das Licitações) de
21/06/199$, 8.958 (Relações entre as Instituições Federais de Ensino Superior e
as Fundações "de apoio") de 20/12/1994, ]0.973 ("Inovação Tecnológica") de
02/12/2004 e ] 1.27S(Concessão de Bolsas pelo FNDE), de 06/02/2006
109
Crítica à Razão Acadêmica
Waldir José Rampinelli e Nildo Ouriques
(Organizadores) Reflexão sol)re a universidade contemporânea

o mesmo propósito. Buscar estabelecer as motivações para esses ates 2001, e pelo ANDES-SN, a partir de 2006, que constituem a ponte
presidenciais tão similares e suas consequências no que concerne ao principal das informações aqui reportadas.
funcionamento e manutenção de nossas Instituições de Ensino Su-
perior (IES) vinculadas ao poder público, é o objeto deste ensaio. E Características dasjunda,ções ditas " de apoio
isso, em especial, quando se tem em mente que, potencialmente, os Conceitualmente, fundações seriam patrimónios materiais colo-
governos em questão poderiam ter contemplado diferenças signifi- cados a serviço de uma finalidade social'. No Brasil, fundações são
cativas quanto ao disciplinar das possibilidades de interfaces entre o reconhecidascomo entidades sem fins lucrativos, regidas pelo direi-
setor público e o privado, na perspectiva da consolidação e ampliação to público ou privado conforme a motivação da sua instituição e da
de nossas Instituições Públicas de Ensino Superior. forma pela qual 6or constituída. Uma fundação instituída pelo setor
O processo de privatização que já em 1994, como agora, procu'. público pode ser regida pelo regime jurídico do direito público ou
uva revestir-se de legalidade,encontra-se em curso há décadas.Da- privado'. Será classificadacomo "pública", quando assim especificado
tam do início dos anos 80 as primeiras referências sobre o tema em na lei que a cria, sendo, nesse caso, regida pelas normas do direito
documentos da ANDES e, a partir de 1988, do ANDES-SN'. Assim público como uma autarquia e integrará o quadro da administração
é, que no relatório final do Congresso da ANDES de Piracicaba ( 13- pública indireta. Será reconhecida como privada quando assim defi-
18/02/ 1984) decide-se criar um grupo de trabalho que se ocupasse nido for na Lei de sua criação. Fundação instituída por iniciativa de
da questão da crescente presença de fundações privadas no interior particulares será, necessariamente,privada. Nesse caso, não há uma
das Instituições de Ensino Superior - IES - Públicas. Os levantamen- Lei de criação mas, tão somente, o registro em cartório da escritura
tos realizados, a partir de então, pela entidade nacional e por suas pública da ata de sua fundação, do estatuto, e dos Órgãos dirigentes
Seções Sindicais (Associações Docentes), nas universidades federais (conselho curador e diretoria).
e estaduais, passam a demonstrar, com progressivo grau de detalhe, Pela legislação, as fundações privadas, tanto as criadas por lei,
o crescente papel desempenhado pelas fundações, ditas "de apoio", quanto as instituídas por particulares, deverão seguir procedimen-
no contexto d4 política governamental de propiciar a expansão do tos abetosà legislação pública quando estiverem exercendo atividade
controle privado sobre a atividade universitária. Dentre eles, mere- de interesse público sob autorização e/ou nlscalizaçãodo Estado, ou
cem destaque os dossiêss publicados pela Revista Adusp', a partir de ainda, quando receberem dotação ou executarem programas finan-
4 A Associação Nacional dos Docentes do Ensino Superior - ANDES, criada ciados, ainda que parcialmente, pelos cofres públicos.
originalmentepelo Congresso Nacional dos Docentes Universitários, a19 de fevereiro As fundações "de apoio" não constituem, diante da legislação,
de 1981, em Campinas, SF: constituiu-seem Sindicato Nacional dos Docentes das uma categoria à parte: são instituídas por particular e por meio do
Instituições de Ensino Superior, a partir do 11Congresso Extraordinário, realizado
de 25 a 27 de novembrode 1988,na cidadedo Rio de Janeiro,RJ, para fins de registro da escritura pública da ata de sua criação e de seu estatuto,
defesa e representação legal dos docentes, soam estes da educação básica ou da no qual conste, como sua ânalidade, prestar "apoio" a essa ou aquela
educação superior e respectivas modalidades,das Instituições de Ensino Superior
- l ES, públicas e privadas, por prazo indeterminado, com a denominação de Andes-
IES ou setor desta instituição, tendo, como órgãos de administração
Sindicato Nacional, o Andes-SN, conforme o artigo I' do estatuto da entidade e supervisão, a diretoria e o conselho curador.
5 Dossiês ] e 2 publicados pela Reuzsfa.4dmP, compreendendoas edições 22, 2S, 24.
31, s6, 37 e 40, além da 27 (Ed. especial sobre cursos pagos oferecidos pela USP Vede: Bevilácqua,C., 1979. Código Civil dos Estados Unidos do Brasil, 5 tir. ed
em "parceria" com fundações privadas), todas disponíveis no endereço wziw.adzzsP hist., Ed. Rio, Rio de Janeiro e/ou Pereira, C.M.S., 1996. Instituições de Direito
Civil. Vo1. 1, 18' ed.. Ed. Forense. Rio de Janeiro.
orgór . As edições da Revista Andes Especial, do ANDES-SN, intituladas .de Dosszê
Àrarz07za// e 2, publicadas, respectivamente, em 2006 e 2008. Possibilidade aberta pelo Decreto Lei eoo/õ7, por inusitada que seja. Vede discussão
6 Associação dos Docentes da Universidade de São Paulo, Seção Sindical do ANDES- nos pareceresjurídicos da Assessoriada ADUSP e do ANI)E$SN, conforme
SN publicadas no Caderno Andes 2$, de fevereiro de 2006 (ISSN 1677-8707).
111
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Crítica à Razão Acadêmica
\A/aldirJosé Rampinelli e Nildo Ouriques
(Organizadores) Reflexão sobre a universidade contemporânea

É esta situaçãojurídica, no mínimo ambígua, na qual o poder pú- No entanto, como a lógica privada só se mantém ao esteio do
blico tem a possibilidade de constituir entidades regidas pelo direito interesse particular se em algum momento a motivação para criação
privado, mesmo quando suas finalidades são desenvolver atividades de uma fundação privada Foi suplantar uma deficiênciana realização
a6etasao setor público, cuja execução e fiscalização se vinculam às do interesse público, é rápido o processo para que esse "vício de ori-
normas do direito público e, de modo complementar,particulares po- gem" seja superado e se observe o desconstruir do propósito público,
dem voluntariamente constituir entidades privadas, sob a justinlcati- numa ordem que se constitui na antítese do regime republicano, no
va de dar suporte a um ente público, o que propicia um sem número qual é essencial a separação entre o público (res.pzóbZzca'')
e o privado,
de problemas e conflitos de interesses, presentes nas IES brasileiras e o regime privado só pode vigorar sob a jurisdição, supervisão e
a partir dos anos 70. fiscalização do setor público, sem exceção.
A esse propósito, com propriedade, assevera Celso Antânio Ban- Contudo, mesmo diante da fragilidade da legislação especínlca
deira de Mello9: "0 que se passou entretanto no Direito Brasileiro, que rege a criação, operação e fiscalização das fundações privadas,
é que coram criadas inúmeras pessoas designadas como fundações, vários outros dispositivos da legislação em vigor constituem entra-
com atribuições nitidamente públicas, e que sob esse aspecto em nada ves para a liberdade absoluta com a qual os agentes governamentais,
se distinguiam das autarquias. O regime delas estaria inevitavelmen- os responsáveis pelas administrações de IES e demais potenciais in-
te atrelando-as às limitações e controles próprios das pessoas de teressados nas fundações de apoio, gostariam de contar. Foi no in-
Direito Público. Entretanto, foram batizadasde pessoas de Direito tento de tentar superar esses "entraves" que os presidentes, mencio-
Privado, apenaspara se evadirem destes controles moralizadores ou, nados no início, sancionaram as Leis 8.958/1994 e 12.349/2010 e os
então, para permitir que seus agentes acumulassem cargos e empre- Decretos 5.205/2004 e 7.423/2010'', como veremos a seguir.
gos, o que lhes seria vedado se fossem reconhecidas como pessoas de
direito público' O qu.elazem e como (deram as/undações de apoio
É neste terreno jurídico pantanoso e com o agravante da falta Comumente busca-sejustificar os vínculos entre fundaçõespri-
de respeito às previsões constitucionais da autonomia, da democracia vadas e IES públicas, como forma de superar a alegada falta de agili-
e da responsabilidade do Estado para com o devido ülnanciamento'' dade das regras atinentes ao setor público e a possibilidade de captar
das IES, que passaram a se multiplicar as fundações privadas autode- recursos privados em benefícioda universidadepública. No jargão
nominadas "de apoio". Isto porque, tinham o potencial de servir para oficial esses objetivos costumam ser traduzidos como "dar supor-
atender às políticas do Estado de se desobrigar da promoção da edu- te a prqetos de pesquisa, ensino e extensão e de desenvolvimento
cação superior e, também, dar ocasião à falta de escrúpulos daqueles institucional, científico e tecnológico de interesse das instituições
que, embora servidores públicos, encontraram nessas entidades os apoiadas" e o criar de "condições mais propícias a que as instituições
mecanismos para mitigar as perversas condições salariais às quais apoiadas estabeleçam relações com o ambiente externo", como tex-
estavam submetidos, sob a justificativa de que, tais fundações, pode- tualmente encontramos no parágrafo único, do artigo I', do Decreto
riam contribuir para superar, por meio de procedimentos privados, as 7.423/2010.
carências administrativas e financeiras das suas instituições.
1 1 Res pzíó/zcaé uma 6'ase latina, composta de rei + puó/zra,significando literalmente
a "coisa do povo
9 Mello, C.A.B., 2001. Curso de Direito Administrativo, 18' ed., Malheiros. ie A Lei 8.958, de eo/12/1994, Êoiobjeto de regulamentaçãoem eo04 via o l)ecreto
10 Recursos para custeio e capital su6lcientespara a provisão adequada do numerário de 5.205. de 14/09/204. Em 3 1/ 12/2010, no último dia de seu mandato, o presidente
pessoal técnico-administrativo e docente e para atribuição de salários compatíveis Lula promulga o Decreto 7.42S, que revoga o decreto 5.205 e dispõe nova
com a responsabilidade social dessas funções regulamentação para a Lei 8.958

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Waldir José Rampinellie Nildo Ouriques Crítica à Razão Acadêmica
(Organizadores) Reflexão sobre a universidade contemporânea

E nos estatutos das fundações, no entanto, que esses propósitos 'empresalíder" do consórcioconstituídocom a FIA em 1999
são deÊlnidosde modo mais próximo daqueles que de fato guardam para executar uma auditoria do Censo Escolar, financiadacom
relação como seu mod s (peru/zdz;a saber: promoção da integração verba do Banco Mundial. (instrumento para constituiçãodo
universidade-empresa,promoção de estudos, cursos, pesquisas e 'Consórcio Fipe-FIA para auditoriado Censo Escolar, 1999"):s.
prestação de serviços, aprimoramento e treinamento de recursos hu-
manos, intermediação entre entidadespúblicas e privadas, etc . Con-
4. Onde foi possível conseguir as informações, ülcou evidente que
tudo, e conforme a síntese encaminhada em outubro de 2008, pela os recursos repassados pelas fundações privadas "de apoio" para
Diretoria do ANDES-SN, para o Ministro da Educação a propósito a IES supostamente apoiada, após terem sido remunerados os
do tema, a execução destes objetivos se dá sempre por intermédio participantes da própria fundação, são irrisórios e muitas vezes
de contratos e convênios, cuja análise revela fundamentalmenteque: se destinam a investimentos para infraestrutura da própria enti-
dade privada no interior da IES. Na Universidade de São Paulo
l São essencialmente recursos públicos que financiam as fundações (USP) as fundações privadas "de apoio" transferem para a uni-
privadas -- As verbas que ingressam nas fundações privadas "de versidade recursos inferiores a 2% do orçamento repassado pelo
apoio", como remuneraçãodos contratos ou convêniospor ser- governo do Estado. No caso da Finatec, uma das fundaçõespri-
viços de consultoria, projetos e cursos, têm origem pública'' na vadas que atuam na Universidade de Brasília, os recursos conta-
maior parte dos casos, o que também ocorre com as fundações bilizados como "comento" à pesquisa para Financiar projetos da
privadas da área médica que acabam por receber os recursos universidade também coram inferiores a 2% dos valores conta-
oriundos do SUS. bilizados como "despesas totais" da entidade nos anos de 2000,
2001 e 2002iõ
2. Embora uma fundação não possa gerar lucros, eles existem e apa-
recem nos relatórios e balanços como "excedentes" ou "superá- 5 Revelou-se que é falacioso o argumento segundo o qual os di-
vits" O grosso do "lucro" está embutido na rubrica "pagamen- rigentes dessas fundaçõesnada recebem por participar de sua
tos de serviços de terceiros". Os "terceiros" são, na maioria das direção ou dos seus conselhos curadores: essas mesmas pessoas
vezes, os próprios docentes envolvidos nos proletos vendidos ao acabam recebendo pagamentos por participarem de projetos
poder público ou à iniciativa privada, ou, ainda, empresas priva- gerenciados pelas fundações sobre os quais esses mesmos diri-
das subcontratadas,cujos proprietários não raro são familiares'' gentes têm poder de decisão, ou, até mesmo, deles participam
ou pessoas de alguma forma vinculadas a esses mesmos docentes. diretamente:7

3 Documentos gerados pelas próprias fundaçõesprivadas "de 6. Em contraposição à previsão constitucional da gratuidade do en-
apoio" indicam que elas sabem que são 07lgunzkafõesde /@oem- sino nas instituições oficiais (artigo 206), têm sido viabilizados
presária/ '%.nálisede mercado em termos de viabilidade e da cursos pagos de todos os tipos nas IES públicas, medianteparce-
posição competitiva da FIA no nicho ou segmento a ser explora- rias com fundações privadas (que também não poderiam fazê-lo
do, além de uma adequada avaliação orçamentária, são algumas em conformidade com a previsão do artigo 45 da LDB, uma vez
das recomendações a serem observadas" (Fundação Instituto de 15 Vede a p. 60 da Rez,ísZa.4dzzsPeS, de setembro de pool
Administração, Plano de Trabalho, 2000). A Fipe üoidesignada 16 Vide matéria da Beuzsla.4dznp24, de novembro de 2001, páginas l S2-1S4 e o Dossiê
UnB: Fundações Privadas de Apoio, Cada'?zoHzzcüs2S, de fevereiro de 2006 (ISSN
13 Vide tabe]as das páginas 80-82 da ReuzkZa.4dzisP,22 de março de 200 ] 1677-8707)
14 Vide a Rez,zkía2dzlsP31, de novembro de 200$, p. 90-96. 17 Vede Reulsfa2dznp 40, de Abril de 2007, p. 60-6i
4 115
Crítica à Razão Acadêmica
Waldir José Rampinelli e Nildo Ouriques
(Organizadores) Reflexão sobre a universidade contemporânea

que não são instituições de ensino superior) Esses cursos pa- cado e, também, em função da influente participação de seus insti-
gos tornaram-se uma indústria com toda sorte de propaganda. tuidores nos cargos de direção das IES apoiadase, por conseguinte,
A prioridade dada a esses cursos tem induzido modi6lcaçõesna em outras organizações como a Associação Nacional dos Dirigentes
graduação e pós-graduação gratuitas, afetando grades curricula- das Instituições Federais de Ensino Superior ANDIFES, além de
res, programas de disciplinas e o obJeto de pesquisas, em favor de órgãos governamentais como as agências de comento, o Ministério
programas e temas de interesse do "mercado"''. da Educação e Cultura - MEC e o Ministério da Ciência e Tecnolo-
gia MC'l-.
Os escândalos ão modelo
Por serem emblemáticos, nos parece adequado destacar alguns
Todos estes desvios ülcam evidentes quando analisamos de modo exemplos,para melhor caracterizara verdadeiradimensãodas ili-
mais detalhado os principais episódios envolvendo fundações, nos citudes e fraudes praticadas por essas entidades que, em sua maior
quais o volume de irregularidades ocorridas, em algumas de nossas parte, continuam a contar com a guarida das políticas oficiais para o
mais renomadas IES, acabou por extrapolar os domínios da institui- setor
ção, vindo a público de modo escandaloso. Por graves e lamentáveis No entanto, é preciso de pronto ressalvar que, muitas vezes, no
que tenham sido, coram eles que permitiram expor, à sociedade como coco do noticiário a propósito desses escândalos, encontram-se inde-
um todo, o quão longe se chegou na descaracterização dos procedi- vidamente as universidades públicas, que são as vítimas do processo
mentos que deveriam vigorar em instituições em que o saber, a críti- de privatização, e não as fundações ditas de apoio, que são as prin-
ca, a ética e o interesse público devem predominar sobre os interesses cipais responsáveis pelas ilegalidades. Não se pretende negar que a
particulares, o oportunismo e o arrivismo. conivência entre reitores e a burocracia universitária, de um lado, e
A partir de 2008, manchetes como "Explode a Crise da Funda- as fundações, de outro, é muito comum, nem que, em muitos casos, se
ção Zerbini", "UNIFESP'o Transfere Atribuições Institucionais para verifique grande intersecção entre representantes dessa burocracia
Entidades Privadas", "Fundações da UnB" Ignoram advertências e a das fundações. Porém, grande parte da comunidade universitária,
da Promotoria e do TCU''", "Justiça Intervém na Maior Fundação constituída por docentes,funcionários técnico-administrativos -- que
;de Apoio" à UF:SC"", "PF acusa "fundação de apoio" da UFSM de vivem exclusivamente de seus vencimentos e estudantes, tem sido
participar de corrupção no Detran-RS", etc, ultrapassaram a frontei- vítima desta conjuntura e tem consciência da necessidade de livrar
ra dos ca2nP/universitários e das publicações ligadas ao Movimento a universidade destes desvios e da importância da luta para que ela
Docente, rep.resentado pelo ANDES-SN e por suas Seções Sindicais, permaneça pública, gratuita e de qualidade.
e atingiram a grande imprensa. Esse momento marcou o início da
reversão da imagem pública altamente favorável que essas entidades os casosna áreada saúdena USP
haviam logrado construir até então, embaladas pelo discurso insis- 'Dívida de R$ 200 milhões provoca afastamento de presiden-
tentemente veiculado pela mídia, sobre a necessidadeda redução do te da fundação Incor", essa era a manchete do Globo On Lzne, de
Estado, da "agilidade e da eficiência" das entidades privadas , das 12/12/2005, a propósito dos problemas financeiros da Fundação
possibilidades de financiamento para as IES via parcerias com o mer- privada Zerbini, que "administra" os recursos do Instituto do Co-
18 Vede Reuz)fa2cZ sP 27, Ed. Especial sobre cursos pagos de outubro de 2002. ração (Incor) do Hospital das Clínicas (HC, autarquia estadual que
19 Universidade Federal de São Paulo - l.JNIFESP se relacionacom a Faculdadede Medicina de outra autarquia: a
20 Universidade de Brasília - UnB
21 Tribunal de Contas da União - TCU USP) da Faculdadede Medicinada USP (FM). No epicentroda
22 Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC crise se encontrava o professor José Franchini Ramires, titular da
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Crítica à Razão Acadênlica
Waldir José Rampinelli e Nildo Ouriques
(Organizadores) Reflexão sobre a uniaersidade contemporânea

Faculdade de Medicina, membro da direção da Fundação Zerbini Em eo06, o professor Ramires já havia retornado ao cargo de
(FZ)" e diretor do Incor na ocasião. A superposição de atividades diretor do Incor por força de decisãojudicial, o governo de SP socor-
entre instituições públicas e fundaçõesprivadas na área da saúde, reu a fundação na renegociação do rombo de R$ 200 milhões com o
como as que envolvem os hospitais das clínicas das faculdadesde Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES) e não se teve notícia
medicina da USR em São Paulo e em Ribeirão Preto, já cora objeto dos desdobramentos dos processos que permaneciam em curso junto
ao Ministério Público Federal e a Polícia Federal.
de publicações anos antes. Em 200 1, revelaram-se as interferências
da Fundação privada Faculdade de Medicina (FFM), nas atividades Diante do sucesso dessas entidades em se ocupar da gestão de
de docência da faculdade via complementações salariais provenien- recursos públicos em benefício de práticas e interesses privados, elas
tes de recursos do Sistema único de Saúde (SUS) ". Na época essa serviram," e continuam a servir de referência para a multiplicação
fundação também "administrava" os recursos federais destinados ao de outras fundações, "centros" e organizações sociais (OS) privados
HC, via convênio que permitiu à fundaçãoacumular R$ 25 milhões na área da saúde pública e de C&'t reproduzindo e ampliando," deste
em imóveis", além de R$ 50 milhões em caixa. Novamente um pro- modo, a captação de recursos públicos, as situações de acúmulo de
fessor titular da USP tinha proeminência nos cargos administra- cargos e o cipoal de conflitos de interesses que permeiam as parcerias
estabelecidas.
tivos destas entidades: o professor Irineu Velasco ocupava então,
simultaneamente, os cargos de Diretor da Faculdade de Medicina,
de Presidente do Conselho Curador da FFM e de Presidente do Á enter'uexçãa
na Feesc/UFSC
Conselho Curador do HIC. 'Não é possível aceitar que um administrador públicojustifique
No contexto desses levantamentos, revelou-se ainda que havia o descumprimento de leis e regulamentos com a alegação de que di-
contratação pelas fundações de pessoal celetista, sem concursos, para ficultam o seu gerenciamento." Foi desta forma, que em outubro de
atuar nesses órgãos públicos e, ainda, que devido ao certificado de 2005, o ministro relator do TCIJ repreendeu o reitor em exercício da
entidade filantrópica, atribuído pelo Conselho de Assistência Social UFSC, professor Ariovaldo Bolzan, em acórdão proferido a propó-
sito dos desdobramentosjudiciais das iniciativas tomadas, em 2004,
(CNAS) a FFM deixou de recolher, em 1999 e 2000, respectivamen-
te, os montantes de R$ 23 milhões e R$ 24 milhões, de contribui- pelo Ministério Público Estadual (MPE), de que fosse incluída no
ções previdenciárias. Isso, embora em 1996, o INSS tenha tentado orçamento geral da UFSC a previsão de todas as receitas referentes
à sua ação institucional, ainda que arrecadadaspor intermédio de
cassar essa condição de entidade filantrópica, uma vez constatado,
fundações de apoio. "Não se pode admitir que seus (da IJFSC) recur-
após diligências, que a FFM e FZ não eram entidades beneficentes,
sos soam gerenciados por fundações de apoio, sob pena de se perder
vendiam serviços hospitalares e remuneravam seus diretores. No
o controle sobre a arrecadação de suas receitas e realização de suas
entanto, por interferências ministeriais à época, a cassação não se
despesas", destaca ainda o ministro no documento".
eÊetivoue os favores 6lscaispermaneceram. "Nosso negócio é rodar
No entanto, isso não impediu que, em matérias publicadas no
paciente. Não é instituição de caridade nem previdência", declarou a
l)zárzo CaZarz/zezzse,
em 2007", o professor Ariovaldo, vice-reitor da
advogada, empresária e diretora geral da FFM, Sandra Papais, para
a Revista Adusp, em 2001". 27 Vide ReuzsZa4dmP24, de Dezembro de 2001, páginas I08-107
28 Vede Rezifsía.4dusp49, de Janeiro de 2011, páginas42-52.
23 Vide Rez;zsZa
ZdzaP 36 de Janeiro de 2006, páginas 89-92. 29 Vede matérias das páginas 16-19 e 3't-43, respectivamente nos Dossiês Nacionais l
24 f?ezpzs/Q
2dKsP 86 de Janeiro de 2006, páginas 67-72. e 2, publicações especiais do ANDES-SN de 2006 e 2008, sobre o .tema
25 Vede,entre outras, a matéria 'A controversa compra do imóvel da Febem", Rez/ís/a sá =Ensinoà distânciasob suspeita"e "Reclamat6riasdão culta de R$ 50.milhões".
Zdzup 24, de dezembro de 2001, p. 73-75 de 22/11/2007 (Ed. ano 22, N' 7.886) e "Reitor da UFSC contestaauditoria",de
26 Rez;zsZa
.4dznP24, de l)ezembro de 2001, página 76. as/ii/eo07(Ed. ano 22, N' 7.887)
>

8 119
Crítica à Razão Acadêmica
Waldir José Rampinelli e Nildo Ouriques
Reflexão sobre a universidade contempoi'ânea
(Organizadores)

UFSC na época e presidente da Fundação privada de Ensino de En- Além da Feesce da Fapeu, tambéma Fundação privada José
Artur Boiteux (Funjab) üoiobjeto da atençãodo MPE, por recolher e
genharia de Santa Catarina (Feesc) nos anos de 1999-2002,decla-
I'asse como "inconclusivas", resultado de "discordâncias" e de "dife- administrar verbas de receitas vinculadas a parcerias com a universi-
dade, sem termos de contrato ou convênio com a instituição, e sem o
renças de interpretação" os indícios de irregularidades encontrados
em 207 contratos, firmados entre a fundação e a UFSC, para a reali- devido registro destas contes de receita no orçamento da instituição:
zação de cursos de especializaçãoe mestrado a distância entre 1995 'Ç2uegerenciamento é esse que consome 87,5% de toda a receita pre-
e 2003, conforme auditoria realizada pela Controladoria Geral da vista? Que apoio é esse em que o apoiados Hlcacom a parte do leão?
A realidade é que a UFSC permite que a Funjab realize os cursos,
6lquecom 12,5% das receitas previstas; e o restante, retiradas as des-
pesas reais, é distribuído entre os professores e a própria Funjab.
Esses são alguns dos questionamentos feitos pela Secretaria Geral
sência de prestação de contas, no valor de R$ 7,s milhões, relativos de Controle Externo (Secex) do TCU em Santa Catarina, a propósi-
to dos contratos em questão. Contratos esses, que estariam eivados
a pelo menos 27 dentre 59 cursos de especialização;pagamentos
de R$ 2,4 milhões a empresas com existência e/ou idoneidade não de irregularidades, uma vez que, como apontou o órgão de controle,
confirmadas e contratação irregular de professores da UFSC para 'a realização de cursos de extensão não é serviço público sujeito à
atuarem nos cursos; oferecimento direto por parte da Fundação pri- exploração sob o regime de permissão, e a universidade não detém
vada de Amparo à Pesquisa e Extensão Universitária (Fapeu) e da poder concedente" e, ainda, não estariam de acordo com o previsto
Feesc de cursos de capacitação e de pós-graduação realizados sem na Lei 8.958/94, posto que, "não conülguramapoio a projetos de en-
autorização da UFSC, se valendo do nome e da infraestrutura da sino, pesquisa, extensão e desenvolvimento institucional, cientíHlcoe
universidade. Destaque-se que os contratos investigados referem-se tecnológico'
No processo que determinou a solicitaçãode intervenção o MPE
apenas a parte das contesde receitas da fundação que, entre Janeiro
de 9000 e dezembro de 2005, movimentou R$ 444 milhões. constatou que, além das demais irregularidades apontadas, a Feesc
O que suscitou a atuação do MPE e dos órgãos federais, no não apenas teria deixado de pagar direitos reclamados em ações tra-
caso 6oi a ülscalizaçãoproduzida pela Delegada de Receita Pre- balhistas relacionadas a contratações irregulares no âmbito da fun-
videnciária do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) de dação e da UFSC, como teria buscado defender-se destas ilicitudes
Florianópolis, que identi6lcou o uso de reembolsos e pagamentos acusando a UFSC como responsável pelas contratações e, por conse-
de notas fiscais de empresas de fachada para encobrir relações de guinte, dos encargos decorrentes, o que pode vir a lesar o património
emprego entre as fundaçõese prestadores de serviços, servidores e credibilidade da universidade. Como o processo tramita sob sigilo,
técnico-administrativos e de docentes da UFSC, sobre as quais de- não se tem informações dos desdobramentos dos inquéritos crimi-
veriam incidir as contribuições de INSS, FGTS e Imposto de Ren- nais instaurados, nem de eventuais punições aos infratores.
da. Por conta disso o INSS autuou a Feesc no valor total de R$ S5
milhões e o MPE solicitou intervenção na fundação que vigorou de Os cria,es do Detran de Porto .Alegre ligados àsfun(lições de apoio
fevereiro de 2007 a março de 2008. Os levantamentos realizados da UFSM
na fundação,no período da intervenção, serviram para instruir os 'Empresa de familiares do ex-reitor da Universidade Federal de
inquéritos criminais abertos para apurar os indícios de fraudes e SantaMana (UFSM) PauloJorge Sarkis,a Wold Travei é suspeita,
demais ilegalidades apuradas. pelas investigações que culminaram na Operação Rodin, de ser uma
121
120
T
Crítica à Razão Acadêmica
Waldir José Rampinelli e Nildo Ouriques Reflexão sobre a universidade contemporânea
IOrganizadores)

teóricos e práticos da Carteira Nacional de Habilitação, por uma en-


das beneficiadas pela Raude envolvendo a UFSM, por meio da Fun-
tidade privada vinculada à credibilidade de outra instituição pública
dação privada de Apoio à Tecnologia e Ciência (Fatec) e o Departa- (no caso as "fundaçõesde apoio" à UFSM), o que de fato ocorreu,
mento Estadual de Trânsito (Detran). A fraude teria resultado em
viabilizando as fraudes. Na outra ponta do esquema,no Detran, os
um desvio de cerca de R$ 44 milhões dos cofres públicos". 'A equipe diretores Carlos Ubiratan e Hermínio Gomes Junior recebiamsua
responsável pela Operação Rodin, que desarticulou uma fraude en- parte através de duas empresas subcontratadas por uma das empre-
tre as fundações privadas ligadas à Universidade Federal de Santa sas de Lair Ferst.
Mana (UFSM) -- A Fundação de Apoio à Tecnologia e Ciência (Fa-
Em função dos indícios de envolvimento de autoridades ligadas
tec) e a Fundação Educacional e Cultural para o Desenvolvimento e ao governo de Veda Crucius, o caso redundou em uma CPI instalada,
Aperfeiçoamentoda Educaçãoe da Cultura (Fundae) - e o Depar- em fevereiro de 2008, na Assembleia Legislativa do RS, que apresen-
tamento Estadual de Trânsito (Detran) apontou que professores da
UFSM teriam recebido carros e dinheiro das fundações." É assim tou extenso relatório sugerindo medidas administrativas genéricas
para evitar a repetição de situações semelhantes no futuro.
que, respectivamente, nas matérias de 13/ 11/2007 e de 20/02/2008, Entre os envolvidos, até o momento, se tem notícia de que o ex-
a edição eletrânica do jornal Zero Hora sumariza os desdobramen-
procurador Flávio Vaz Netto teve sua aposentadoriacassadapor de-
tos da operaçãoda Polícia Federal (OperaçãoRodin), que, no dia terminação administrativa do governador Tarso Genro, baseadaem
06/11/2007, cumpriu 12 mandatosde prisão, no curso das inves-
parecer da própria Procuradoria-Geral do Estado (PGE), em função
tigaçõesde desviosde recursosdo Detran do Maranhão e do Rio da sua participação no caso. Os vários processos judiciais em curso
Grande do Sul. Entre os presos encontravam-sedocentesda UFSM
ainda não coram julgados.
ligados às fundações de apoio, advogados e autoridades do estado. Na
época, o ex-reitor Paulo Jorge Sarkis üoidenunciado pelo MP federal .4 crise na U71B
por "formação de quadrilha, locupletamento em dispensa de licitação,
Em 23 de setembro de 2010,em sentençaproferida na Tercei-
peculato-desvio, corrupção passiva e corrupção atava" em processo
que ainda aguarda decisãojudicial. ra Vara Criminal de Brasília (Processo n' 2009.01.1.010343-2), o
No curso das investigações'', conforme consta da denúncia leva- professor do Departamento de Engenharia Mecânica da UnB, An-
tânio Manoel Dias Henriques, foi condenado,em primeira instân-
da à justiça pelo MR revelou-se que Lair Ferst, lobista e integrante
do PSDB, e o professor aposentadoJosé Antânio Fernandes, "pro' cia, à pena de 10 anos de prisão em regime fechado,por conta de
meteram vantagem indevida a Paulo Jorge Sarkis (reitor da IJFSM crimes praticados no âmbito de contratos firmados pela Fundação
à época)e a Dado Trevisan de Almeida (professorda universida- privada de Empreendimentos Tecnológicos (Finatec), a maior das
de) para que praticassem os atos administrativos necessários a que a fundaçõesprivadas "de apoio" à UnB. Conforme a Revista Adusp
de janeiro de 2011", a condenação ocorreu em função do desvio de
UFSM pudesse dar suporte e participar da contratação de Fatec pelo
Detran". O objetivo era substituir, sem licitação, a fundação públi- R$ 26,8 milhões de recursos públicos praticados pela entidade em
ca Carlos Chagass', que, até 200s, cuidava da realização dos exames ação proposta pelo MP do Distrito Federal e Territórios. Além dele,
outros envolvidos também coram condenados por apropriação indé-
bita, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. Em consequência
de ter restado "provado que os réus tiveram aumento patrimonial
Ciência e Tecnologia, tem como objetivo comentar a pesquisa e a formação cientíülca 83 "Ex-Presidente da Finatec é condenado a 10 anos de prisão e perde bens". Bez,zsía
e tecnológica necessárias ao desenvolvimento sócio cultural do Estado do Rio de .4dzzsP,
49, P. 58-56.
Janeiro.
123
122
NNãldirJosé Rampinelli e Nildo Ouriques Reflexão sobre a universidade contemporânea
(Organizador'es)

fundações de apoio existentes à época, impedindo que continuassem


ilícito," os condenados tiveram todos os bens confiscados em favor
a atuar na descaracterização de nossas IES, e feito cessar o contínuo
da U dão.
No histórico deste processo encontram-se os fatos que causaram prosperar deste tipo de entidades. Não Eoi o que ocorreu. Por conta
disto, ainda hoje em muitas localidades da federação encontram-se
a crise de 2008, que ocupou o noticiário nacional quando tornaram-
em curso processos judiciais nos quais membros das administrações
se públicas as denúncias de que recursos do Fundo de Apoio Institu- universitárias são arrolados como réus. Mesmo em Brasília, está em
cional à Universidade de Brasília, da Finatec, coram utilizados pelo
curso outro processo em que o ex-reitor da UnB, Lauro Morhy, além
então reitor professor Timothy Mulholland e pelo decano de Admi-
de outros dirigentes da instituição e da Finatec, entre eles, nova-
nistração, professor Paulo Weidle, para comprar um carro de luxo
mente, o professor Dias Henriques, respondem pelo crime de pecula-
e um apartamentofuncionalpara uso do reitor. Além dos desvios
da reitoria e da fundação, outros Órgãos da administração também to, acusados pelo MP Federal de desviar cerca de R$ 24 milhões da
UnB, relativos a um contrato com o INSS.
tiveram protagonismo na crise, a exemplo das denúncias de que re-
cursos, destinados ao atendimento à saúde indígena na região Norte
ds limitações do controle e a reaPrwmção do modelo
do país, haviam sido desviados para compra de canetas M07zf -B/a7z',
Os exemplos que transbordaram para o público quanto às ilega-
televisores de LCD e passagens aéreas, por gestores da Editora da
UnB e da Fundação de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tec- lidades vigentes nas promíscuas relações estabelecidas entre o públi-
co e o privado nas IES mencionadas, constituíam-se nas evidências
nológico na área da Saúde (Funsaúde).
Assim como nos casos tratados anteriormentee, nos demais, concretas que indicavam uma realidade muito mais abrangente. Des-
te modo, poderiam ter cumprido o papel de ensejar uma mudança
objeto das publicações tratadas neste ensaio, há muito existiam evi-
de rumo no discurso e nas políticas oficiais para o setor, nas últi-
dências a indicar que as fundações da UnB ocupavam-se de muitas
mas décadas, quanto à promoção destas entidadesprivadas, das suas
atividades que não guardavam relação com o propósito de contribuir
práticas e parcerias. Contudo, infelizmente, os sucessivos governos
para o desenvolvimentotécnico-cientí6lco ou com o fato de apoiar a
continuam não assumindo sua responsabilidade pela expansão e ele-
instituição. Isso .fica evidente quando se toma conhecimento de que,
vação da qualidade do sistema público de educação, o que implicaria,
no início da década passada, após auditoria realizada pela Receita Fe-
certamente, em destinar percentuais crescentes do PIB para seu ül-
deral, üoisolicitada a suspensãoda isenção de impostos federais que
nanciamento. Como as alegadas parcerias com as fundações privadas
a fundação desfrutava". Na ocasião, o então presidente da fundação,
contribuem para a manutenção do s/afzósqzóovigente, o atual governo
o professor Antânio Manoel Dias Henriques, reagiu à concordância
do MP com a iniciativa da Receita, declarando-se "preocupado não só opta por manter o modelo e, ainda mais, 6ortalecê-lo,buscando tor-
nar legal o que é flagrantemente irregular e inconstitucional.
com o destino da Finatec, diante da postura facciosa (szc) da Receita
A Lei 8.958/94 autorizava as Instituições IQderais de Ensino
Federal, mas também, como vice-presidente do Conselho Nacional
Superior - IFES a contratarem fundações privadas "de apoio" com
de Fundações de Apoio às Instituições de Ensino Superior -- Cónüles,
dispensade licitação,de acordo com o previsto no artigo 24 incisa
com o destino das 111fundações de apoio existentes hoje no Brasil e,
Xlll da Lei 8.666/9$, e já previa a possibilidade de autorização da
especialmente, aquelas que apoiam a Universidade de Brasília"
instituição para a participação de servidores em atividades realizadas
Auspicioso teria sido se, já naquela época, as iniciativas dos ór-
nos prqetos contratados. Entretanto, o previsto neste inciso da lei
gãos de controle tivessem efetivamentedado outro destino às l ll
das licitações refere-se à possibilidade de dispensas de licitação "na
$4 Vede matéria "Silêncio da Reitoria protege atividade febril das fundações privadas contratação de instituição brasileira incumbida regimental ou esta-
na UnB", RezpzsZa.42zcüsEsPeczaéDossiê Nacional 1, de maio de 2006, p. 27-35
125
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Waldir José Rampinelli e Nildo Ouriques
(Organizadores) T Crítica à Razão Acadêmica
Reflexão sobre a universidade contemporânea

tutariamente da pesquisa, do ensino ou do desenvolvimento institu- os pilares do marco regulat6rio preconizado pela Lei 8.958/1994'
cional, ou de instituição dedicada à recuperação social do preso, desde foram:
que a contratada detenha inquestionável reputação ético-profissional l A prática de contratação direta de fundações de apoio sub-
e não tenha fins lucrativos' vertendo as hipóteses de dispensa de licitação pelo "uso elás-
Ora, na época, já era sabido que as fundações "de apoio" não se tico" do conceito de "desenvolvimento institucional";
enquadravam nessa caracterização, uma vez que não se incumbiam 2. Fiscalizaçãofrágil por parte das procuradoriasdas funda-
do ensino, nem da pesquisa, mas sim, supostamente, de "dar apoio' ções e dos ministérios públicos estaduais;
a instituições que, de fato e de direito, tinham essas finalidades.O 3. Não observância dos procedimentos previstos na Lei das Li-
conhecimento fático da atuação destas entidades, após 1994, só veio citações;
consolidar o conhecimento de que não promoviam o desenvolvimen- 4. Ausência de transparência nas prestações de contas;
to institucionale tampoucoeram detentoras de "inquestionávelre-
5. Debilidade de controle 6lnalísticoe de gestão das fundações
putação ético-proHjssional"
Foram essas contradições, fragilidades e todas as demais ilegali- de apoio pelas IFES e ausência de regras claras que possibi-
dades, já demonstradas, que permitiram ao Ministério Público - MI'l litem esse controle;
em particular o Federal", e ao Tribunal de Contas da União TCU, 6. Desprezo pelos gestores das fundações de apoio das delibe-
atuarem com objetivo de buscar conter os desvios e punir as ilegalida- rações emanadas pelos órgãos de controle (MP, TCU, etc...);
des praticadas, nem sempre, no entanto, com a efetividade desejadas'. 7. Alocação continuada de servidores em prqetos, com percep-
Foi neste sentido que, após os escândalos anteriormente men- ção perene de "bolsas" e a caracterização de contraprestação
cionados, o TCU decidiu, em 2008, investigar de modo sistêmico a de serviços;
questão, via Fiscalização de Orientação Centralizada referente ao 8. Contratação pelas fundações para atividades permanentes e
processo n' O1 7. 177/2008-2. inerentes às IFES;
Essa investigação analisou 464 contratos e convênios, envol-
9. Empenho irregular de recursos para as fundaçõesde apoio.
vendo fundações privadas "de apoio" situadas nos estados da Bahia,
Ceará, Pernambuco,Piauí, Rio Grande do Norte, Rio de Janeiro, Estas constatações conduziram ao acórdãodo TCU n' 2731/2008
Minas Gerais, São Paulo, Santa Catarina, Paraná, Golas, Roraima, que, em síntese, decidiu:
Amazonas e Acre. Os contratos auditados correspondiam à parcela
1. Explicitar o entendimentodo TCU de que, toda e qualquer
de R$ 948 milhões, do total de R$ 6,8 bilhões de recursos empenha-
receita auferida com a utilização de recursos humanos e
dos em favor de fundações de apoio por órgãos e entidades federais,
materiais das IFES, constituem "recursos públicos," sendo
no período de 2002-2007, nestes estados.
'obrigatório o recolhimento de tais receitas à conta única do
De modo resumido as principais "distorções" identiülcadas,que
Tesouro Nacional";
segundo a investigação "corroem, com maior ou menor intensidade,
35 Em muitos casos a atuação do Ministério Público nos estados, em especial das 2. Determinar ao MEC que institua ato normativo regulamen-
curadorias das fundações,se deu de modo incompatívelcom suas funções,quando tando o relacionamento das IFES com "suas" fundações de
não absolutamente suspeitos quanto à isenção de atuação. Vide, a exemplo, a matéria apoio, de modo que as IFES adotem providências para cum-
da Rezpzk/a
HcZKsP40, páginas 49-52.
36 Vede a exemplo, matéria da J?eu/sfa.4dznP40, de Abril de eo07: Fundações da UnB prir medidas, tais como: definição de parâmetros objetivos e
ignoram advertências do Promotoria e do TCU, páginas 33-38
26 127
]Maldir José Rampinelli e Nildo Ouriques
(Organizadores) Reflexão sobre a universidade contemporânea

quantitativos nos contratos efetivados; registros centraliza-


11. SÓ estabelecerconvênios ou contratos com legítimo interes-
dos de todos os proletos desenvolvidos ou executados pelas se acadêmico, de real caráter associativo, respeitada a Lei n'
fundações de apoio; obrigatoriedade de prestações de contas 8.666/98, o princípio da unicidade de caixa e da moralidade
e de sua devida análise pela IFES; publicidadedos proJetos e administrativa (sem terceirização da administração de recur-
seleçõespara concessãode bolsas (inclusive os resultadose sos públicos e a cobrança de taxas para a execução dessa ta-
os valores); deülniçãode teto para percepçãocumulativade refa ilegal);
salário, bolsas, complementos, etc ; respeito à devida segrega- 111. Impedir a realização de convênios, contratos ou ajustes com
ção de funções e responsabilidades no que concerne à propo- quaisquer entidades ou fundações privadas que tenham nas
situra, homologação, assinatura, coordenação e fiscalização, suas diretorias ou conselhos curadores docentes e ou mem-
de modo a impedir a concentração dessas funções "exclusiva- bros da administração da IES com a qual pretenda estabele-
mente em um único servidor"; evitar enquadrar nos proletos cer contrato, convênio ou termo de ajuste;
atividades de manutenção predial ou infraestrutural. lv Não permitir mecanismos de flexibilização do regime de de-
H;nan
alva\-avA -v-l.-o;-r-
\,Au&uDI vu l"\l?
JL/JLJI -..-
\lu\, ;mnl;n--.m
iiiil/JLn.lu\-xxx au vçDvux
Hacnaranl'ar;Tapa.-.
uuL\-xia'uyuv
Por mais elevadas que tenham sido as intenções dos juízes do desse regime de trabalho;
TCU ao proferir o decidido no acórdão, deve-se destacar que, em es- V Impedir parcerias com objetivo de implantar ou continuar
sência, todos esses itens já faziam parte do arcabouço legal previsto ministrando cursos pagos;
para a administração pública. No entanto, tinham o propósito de ins- VI. Impedir a autodenominação de fundação "de apoio," por ab-
tar o MEC e o MCT a, ao menos, fazer desacelerar, se não retroceder,
soluta fragilidade dessa caracterização, e por todas as impro-
este tipo de "parcerias'
priedades que tal denominação provocam diante da legisla-
Ao ensejo da manifestação do TCU, na época, a diretoria do An-
ção e da realidade vigente.
des-SN encaminhouao ministro da Educação um con)unto de propo-
sições no sentido de reverter a situação posta e visando "à construção Além dessas iniciativas, dava-se ênfase para necessidade de con-
de um processo de transição para recolocar as IES efetivamente na creta açãopolítica do MEC no sentido de remover as eventuais difi-
esfera pública, seja na lógica de seu funcionamento como na destina- culdades legais e administrativas" que, de maneira geral ou em cada
IES, diüicultassem o bom andamento do trabalho acadêmico e da ad-
ção da sua produção e, tendo como perspectiva uma universidade em
que a origem e o destino de sua produção sqa a sociedadena qual ministração da universidade. De modo complementar,solicitavam-se
está inserida em que, a extensão cumpra o importante papel de cap- medidas que possibilitassem que as dotações orçamentárias das IES
tar questões relevantes para essas atividades e contribua para a sua fossem repassadas de modo regular e planeado ao longo do exercício
realimentação' fiscal, e que pudessem permanecer nas IES, incorporadas nos or-
Apontava-se para a necessidadede revisão dos marcos regulado- çamentos seguintes quando, por justa motivação, não tivessem sido
executadas no exercício anterior.
res vigentes (Lei n' 8958/94, Decreto n' 5.205/05 e Portaria Inter-
ministerial n' 47S/MEC/MCT/08), no sentido de substituí-los por No entanto, de forma infelizmente previsível e coerente com as
mecanismos que possibilitassem: políticas oficiais até então, a condução que o governo buscou para
'satisfazer" ao acórdão üoia de aproveitar a ocasião para implementar
1. Desconstituir nos estatutos dessas fundações privadas, dire-
37 Muitas não existiriam com a simples reposição e capacitaçãode setores administrativos de
torias e conselhos curadores que estabeleçamvínculos com nossas IES e a adoção de dispositivoslegais já previstos em favor da pesquisa científica nos
cargos ou com ocupantes de cargos públicos; artiglos 24 e 25 da Lei das Licitações

128 129
Crítica à Razão Acadêmica
Waldir José Rampinellie Nildo Ouriques Reflexão sobre a universidade contemporânea
(Organizadores)

gente e demais preceitos constitucionais atinentes à administração


legislação superveniente em sentido oposto ao pretendido buscando
consolidar o modelo, superando certas "inconsistências" que deram pública.
ensejo e suporte para a intervenção do TCU. Os {ntelessesem,m,anta-ks

lsso foi feito, através das modificações introduzidas na Lei das Conforme demonstrado, as fundações privadas "de apoio" aca-
Licitações e na Lei 8.958/94 (que trata do relacionamento das IFES, bam por se tornar atraentes como mecanismo de utilização das insti-
com fundações de apoio), pela Lei 12.349/2010, conforme segue: tuições públicas as quais dizem apoiar, uma vez que propiciam a burla
1. Inclusão explícita no artigo 24 da Lei 8.666/93, .que trata de mecanismos legais, tais como: A letra "c", do inciso VI, do artigo
das dispensas de licitações, do incisa XXXI, estipulando que 150 da Constituição (veda à União, aos Estados e Municípios insti-
ülcamdispensadas de licitação as contratações -- que também tuir impostos sobre "instituições de educaçãoe de assistência social,
se referem a fundações de apoio -- previstas nos artigo 8, 4 e sem fins lucrativos", declaradas de utilidade pública pelo Ministério
5 da Lei l0.973/2004 (Lei da Inovação Tecnológica); Público); aos favores fiscais da Medida Provisória n' 1858-6/99, no
2. Inclusão na Lei 8.958/94 do artigo "l-A''; que estende a pos- que concerne a isenções estabelecidas quanto ao PIS/PASEP e CO-
sibilidade da contratação de fundação de apoio com dispen- FINS" e, ainda, as previsões de dispensa de licitação previstas para
sa de licitação, também para a FINEPI FNDC'l:, CNPq e as o setor público.
Agências Financeiras Oficiais de Fomento, além de manter a Embora flagrantemente irregular, diante dos princípios consti-
possibilidade para as IFES. tucionais da moralidade, razoabilidade e legalidade", a composição
dos corpos dirigentes e os colegiados superiores das IES incluem
De modo complementar, o Decreto 7.423/2010 incorpora a exi-
parcelas signiülcativas de pessoas que se encontram simultaneamente
gência, para registro e credenciamento de fundação "de apoio" Junto em posições de mando nas administraçõesdas fundaçõesprivadas
ao MEC e MC'l', de que os órgãos dirigentes da entidadede apoio se-
ditas de apoio.'' Esse aspecto se torna ainda mais grave quando é o
jam compostos por mais da metade de membros indicados pelo .Órgão
próprio poder público que, a revelia da legislaçãoque rege o setor,
colegiado superior da entidade apoiada e que os proletos obUetodos suscita o acúmulo de cargo, gerando o conflito de interesses. Isso se
contratos entre a entidadede apoio e a apoiadatenham a participação
verifica no Decreto 5.205/2004, na Portaria Interministerial MEC/
de no mínimo dois terços de pessoas vinculadas à instituição apoiada
MCT 475/2008 e é mantido pelo Decreto 7.423/20 10.
(docentes, servidores técnico-administrativos, estudantes regulares,
A despeito da Lei n' 8.666/98 e, agora, também do Decreto
pesquisadores de pós-doutorado e bolsistas com vínculo formal a 7.423/2 10, estipularem que em convênios, contratos ou ajustes com
progra mas de pesquisa da instituição apoiada), ampliando assim as fundações privadas seja prevista a definição precisa do objeto, do pra-
enter-relaçõesentre a universidadepública e esse tipo de entidade
privada, em absoluta discordância com a estrutura republicana vi 39 A MP 1858-6/99 6oi sucessivamente reeditada após 99 mantendo as isenções
do pagamento das Contribuições para a Seguridade Social -- COFINS e para os
programas de Integração Social e de Formação do Património do Servidor Público
: PIS/PASErt para as entidades filantrópicas e beneHicentesde assistência social
Esta benesseÉoimantidapela Lei de Conversão 11.933/99, que sacramentouo
previsto na medida provisória original após as sucessivas edições posteriores
Ocorre que as fundaçõesprivadas não são "entidades üllantrópicas e beneficentes de
assistência social," daí a burla referida.
r às ICTs inclusa,e na gestão administrativa e financeira dos proJetos mencionados
-v '. ,H.
çno" caput do ... o",-,.
.". com
art. .lo, a an lência expressa das instituições apoiadas. (Incluído
40 Vede o caPzlfe o incisa 17 do artigo 37 da Constituição
41 Vede /l!#or/zafzz;oHdusP l04, de eS de setembro de eooi
pela Lei n' 12.S49, de 2010)
131
130
Waldir José Ralnpinelli e Nildo Ouriques Crítica à Razão Acadêmica
(Organizadores) Reflexão sobre a universidade contemporânea

zo, das responsabilidades


das partes e da devidapublicidade,essa lizados para favorecer esse tipo de prática tem sido a fundação con-
previsão tem sido sistematicamente desrespeitada. Segundo levanta- tratar docentes ou ex-dirigentes aposentados da instituição pública
mentos do TCU, são frequentes as seguintes distorções: contratos ou onde se desenvolvem os aludidos "proletos institucionais" objeto das
convênios com objetos não relacionados à pesquisa, ensino, extensão parcerias. De modo enviesado, isso propicia a permanência dessas
ou desenvolvimento institucional; inobservância de cláusulas da Lei pessoas junto à instituição pública na qual, valendo-se dos seus vín-
de Licitações; ausência de prestação de contas; ausência de orçamen- culos e competências quando na atava,passam a atuar em favor dos
tos detalhados; intermediação irregular em atividades que poderiam interesses privados que lhes possibilitaram o acúmulo dos proventos
e deveriam ser executadas pelas próprias universidades e subcon- de aposentadoriacom os novos salários.
tratação. Merece destaque que a mesma lei 8.666/93 também prevê Por todos esses motivos fundações privadas "de apoio" tornaram-
situações de dispensa ou inexigência de licitações, em particular nos se o instrumento mais eficaz para desviar das IES recursos públicos
casos de interesse da pesquisa cientí6lca" no âmbito dos estabeleci- (e mesmo privados) previstos para serem a elas destinados para o
mentos oficiais,justamente para favorecê-losquanto à almejada agi- financiamento de projetos de Ciência e Tecnologia - C&T. Constitu-
lidade administrativa para realizar acordos, convênios ou contratos íram-se também no modo mais dissimulado de colocar a capacidade
que sejam legítimos no âmbito de suas finalidades. E de se estranhar, intelectual instalada nas universidades a serviço dos interesses dos
no entanto, que as IES públicas não têm adotado esses procedimen- setorescom poder económicona sociedadepara "compra-la", possibi-
tos que contam com suporte legal, em favor de parcerias com entida- litando a participação de docentes, pesquisadores e funcionários téc-
des privadas que não gozam destas prerrogativas e acabam por delas nico-administrativos em proUetosprivados contratados e remunera-
se valerem de modo irregular. dos via fundações. Para além disso, passaram a significar para muitas
Nessa medida, o principal papel que desempenham é o da admi- autoridades universitárias uma conte alternativa de poder económico,
nistração dos recursos de projetos institucionais, de laboratórios, de o que lhes assegura maiores graus de liberdade para a concessão de
centros ou demais unidades de pesquisa das IES, o que também é ile- benesses, em particular nos momentos eleitorais para renovação das
gal, uma vez que a legislação proíbe a terceirização da administração administrações universitárias. Por inconfessávelque seja, é esse con-
de recursos da administração pública direta", indireta ou fundacio- junto de interesses que constitui a motivação para mantê-las.
nal, para entidades de direito privado pelos princípios da unicidade Desse modo, numa inversão perversa do conceitoa elas vincu-
de caixa« e da moralidade administrativa4s.Um dos mecanismos uti- lado, de constituírem um património financeiro ou material colocado
a serviço de uma causa de interesse social, no caso das fundações
42 Vede os incisos XVll, XXI, XXV do artigo 24 e os incisos l e ll do artigo 25, com
as respectivascondições para sua eficáciaconforme previstos no artigo 26 da Lei privadas ditas de apoio, elas se transformaram numa causa privada a
das Licitações (8.666/98 com modificações subsequentes) serviço da constituição de patrimónios também privados, às expen-
48 Recursos públicos são os recursos provenientes do Estado, os que decorrem de sas da credibilidade das instituições públicas às quais se vinculam e
subvenção, os gerados como receita própria e, ainda, os que são captados na sociedade
Compete exclusivamente ao gestor público a gerência dos recursos públicos dos recursos públicos que a elas deveriam se destinar.
44 A Lei n' 4.$20/64, que estatui normas gerais de direito financeiro para elaboração Para manter, tanto quanto possível, essa simbiose de interesses,
e controle dos orçamentose balançosda União, dos Estados e do Distrito
a constituição dessas fundaçõesprivadas tem previsto órgãos ad-
Federal, a que a Administração Pública deve observar, estabeleceem seu artigo
56 o princípio da unicidade de caixa: Zrf. 56 da üz 4.S20/64 - O zecoZÃz/m
zZo(ü ministrativos (diretorias e conselhoscuradores) compostosou vin-
bodasas receitasjar-se-â em estHh observância ao prin.copiode unüaü de tesouraria, culados a cargos da administração, o que implica na acumulação de
vedada quahwrfragmentação para criação ü caixas especial
#5 Art. 37 da Constituição Federal: 'Art. s7. A administração pública direta e indireta
cargos, vedada no setor público por diferentes dispositivos legais"
de qualquer dos Poderes da IJnião, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios
46 Vide o Incisa XVII. do ntes nos
obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e
eâciência e, também. demais Estados da
:z=@b+i'elÜÜ;l públicos

132 133
l
Crítica à Razão Acadêmica
XAhldirJosé Rampinelli e Nildo Ouriques
Reflexão sobre a universidade coiltempol'ânea
(Organizadores)

Isso sob o pretexto de que, essa vinculação, garantiria que, desempe' em função de desvios e ilicitudes praticados por docentes ou agentes
nhando sua atividade estatutária, a fundação privada "de apoio" atu- das IES, em contratos ou atividades estabelecidasem parcerias com
aria no sentido do interesse da instituição pública. O que se constata entidades privadas. Pelo contrário, nesses casos, o interesse público
na prática é justamente o contrário, uma vez que o poder económico é o da publicidade dos atou processuais de modo a permitir reduzir
e os propósitos mercantis aos quais se associam é que acabam por a sensação de impunidade e a postura arrogante dos acusados, o que
instrumentalizar essas mesmas instituições e seus mandatários. tem propiciado a permanência ou a recondução de pessoas sob sus-
peita a cargos e posições administrativas nas IES.
Contra o quelutar Garantir financiamento adequado e autonomia de gestão admi-
Temos convicçãode que o embatecontra a privatizaçãodo sis- nistrativa e financeira para as IES, além de salários compatíveis com
tema público superior de educação no Brasil se dá no campo mais a responsabilidade social de todos que nelas trabalham podem fazer
amplo da defesa da educação pública, gratuita e universal sob res- reduzir, muito, a atração que as entidades privadas exercem sobre
ponsabilidade estatal. No entanto, diante da desfaçatez com a qual os docentese autoridadesuniversitárias, que as veem como soluções
interesses privados passaram a se valer de fundações privadas, ditas para os problemas existentes. Mas é preciso, nesse contexto, não se
de apoio," para se apropriarem das universidades públicas no país, é deixar seduzir pelo apelo reducionista daqueles que, de modo envie-
sado, adotam o discurso da defesa da "autonomia absoluta" para as
preciso agir no sentido de buscar fazer reverter as muitas inconstitu-
cionalidades dos dispositivos legais que buscam legitima-las. IES, quando o que de fato pretendem é a sua "soberania", que lhes
Para tanto, é mister que se assuma a responsabilidadede socia- possibilitariafugir dos regramentos e controles que devemvigorar
lizar o conhecimento acerca desses temas e de fomentar a discussão sobre todos os entes públicos, "soberania" que visa transformar as
nossas universidades em mais um instrumento do mercado.
sobre suas implicações. Nesse sentido, superar a possiblidade de o
Entendemos que a tarefa de caracterizar e enfrentar as limita-
Estado, em qualquer de suas esferas, criar fundações de direito pri-
ções ou impedimentos para a necessária agilidade administrativa das
vado ('); impedir que interesses particulares possam se articular para
IES pode ter relevância nesse processo, desde que conduzida na pers-
instituir "fundações" sob alegação de prestar "apoio" a entes públicos;
pectiva da almejadaeficiência, sem conflitar com o caráter público e
fazer cumprir a legislação que impede o acúmulo de cargos no setor com as normas atinentes à administração pública, inerentes aos re-
público; e não permitir que se estabeleçam "parcerias" eivadas de con- gimes republicanos democráticos. Embora desejável,o engajamento
flitos de interesse constituem etapas importantes a serem vencidas das administrações das universidades neste sentido passa necessaria-
na perspectiva de consolidação do Estado republicano democrático e mente por fazer vigorar, nas nossas IES, os princípios democráticos
da proteção das .nossas universidades enquanto património da socie- e éticos que impeçam a perpetuação de gestões reitorais, direções e
dade. Também não é razoável, nem aceitável, que se imponha "sigilo
colegiados que, de tal modo comprometidos com as fundaçõespriva-
de justiça"" aos processos administrativosou judiciais instaurados das e enredados em conflitos de interesse, já não possuem a menor
do Estado de São Paulo (Lei I0.261/68) e discussãocomplementarno parecer isenção para tratar da matéria.
jurídico sobre a legalidade de vincular cargos.executivos da Universidade às
direções de fundações privadas "de apoio", conforme elaborado pela.Assesso.ria
Jurídica da Adusp em outubro de 2004'(disponível no endereço wwwadusp-org-br)
e o parecer da Assessoria Jurídica do ANDES-SN, conforme publicado no Ca(ür7za
,4zzcüs2S, de fevereiro de 2006 (ISSN 1677-8707)
47 "Sigilo de justiça", ou "segredo de justiça" é o instituto que visar restringir a filiação, separação de cânl uses, conversão desta em divórcio, alimentos e guarda de
blicidade' de atou processuais em situações que digam respeito ao casamento, menores, ou ainda, quando assim o exigir o interesse público.
135
134
A. UNIVERSIDADEE OS
TÉCNICOS-ADMINISTRATIVOS
UMA TENSÃO PERMANENTE

E/a/ ze Zauízrzs

EI que se conforma
Con una situación de villanía
Es su cúmplice.
Josê Mlart{

Há muitas misérias na universidade. Desde a sua histórica alian-


ça com os poderes instituídos, até as difíceis relações entre os traba-
lhadores. Nesse contexto, a categoria dos técnicos-administrativos
-- responsável pelas atividades consideradas "fim" - tem uma longa
história de lutas, travadas não apenas contra os dirigentes que, em
última instância são os "patrões", mas também vividas no tensiona-
mento intraclasse. Uma ainda não resolvida questão entre o que seja
trabalho meio e trabalho fim, ou melhor dizendo, a mesma velha pro-
blemática já colocada pelos sistema capitalista e sua divisão de tra-
balho, que inaugura uma clivagem entre o que seja trabalho manual
(aqui incluído o burocrático/prosaico) e trabalho intelectual, tornan-
do uma das categorias (a dos docentes) "mais igual" que a outra.
Um conhecido filme de produção estadunidensemostra, de for-
ma explícita, como é usual essa relação complicada entre técnicos e
professores. É o "Quase deuses", que conta a história da inusitada
parceria entre um faxineiro da .UniversidadeJohns Hopkins e um
médico professor/pesquisador, que busca descobrir novas técnicas
para a cirurgia do coração. O faxineiro Thomas, um homem simples
e negro, é um exímio inventor de ferramentas que começa a operar
coraçõesjunto com o professor, conseguindo criar novas técnicas ci-
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\Valdir José Ralnpinelli e Nildo Ouriques Crítica à Razão Acadêmica
(Organizadores) Reflexão sobre a universidade contemporânea

rúrgicas e instrumentos que fazem a pesquisaavançar e tornam o lismo é elemento fundamental para a mudança destas relações, que
professor famoso. Há uma cena paradigmática na qual um âotógraüo/ pode libertar tantos uns como outros. Kant dizia que a divisão en-
jornalista chama todos os dirigentes da universidade para posar para tre mãos e mente é uma necessidade transcendental, já Sohn Rethel
a foto da matéria que anunciará as novidades científicas descobertas afirma que ela é apenas fruto da sociedade produtora de mercadoria.
ali. O pesquisador vai, todo vaidoso, e vê, ao longe, o faxineiro, que Assim, os antagonismos de classe que engendra a produção de mer-
na verdade é o real inventor da técnica. Ele se cala, segue para a foto cadorias na sociedade burguesa -- e a produção de conhecimento está
e não o chama, não anuncia a sua façanha, não o inclui na vitória que, entre elas estão intimamente ligados às formas de divisão entre
de fato, é do trabalhador. mente e mão.
Assim como na dicção,esta atitude do professor não se reveste Sohn Rethel discute o tema do ponto de vista formal, assim como
de nenhuma novidade no mundo real em que as relações de trabalho Kant, mas numa outra perspectiva.Ele mostra como num ato co-
impostas pelo sistema de produção de mercadorias, como é o capita- tidiano de compra e venda de uma mercadoria existe um momento
lista, são vistas de forma separada. Desde TmmanuelKant, conforme l ' " em que tanto quem compra como quem vende está envolvido em
afirma SOHN RETHEL ( 1980), é que o mundo moderno inaugura a \,, uma abstração (um ato intelectual). É o momento em que se eüetuao
separação radical entre o que sda trabalho manual (prosaico) e tra- l '~ intercâmbio propriamente dito, esse espaço de tempo em que alguém
balho intelectual. E é essa visão kantiana que domina na sociedade ' busca algo para seu uso e outro estabelece um valor de troca, fazendo-
capitalista que faz com que, na divisão de trabalho do mundo uni- se assim a transação. Assim, a abstração não é uma coisa exclusiva da
versitário, apareça como absolutamente natural que um técnico, que mente como queria Kant -- mas aparece no dia a dia da vida real, tem
realiza funções burocráticas, seja considerado inferior ao docente. No origem nos atos concretos.Sohn Rethel insiste que, assim como os
contexto desenhado por Kant, apenas o docente estaria realmente conceitos de ciência natural são abstrações-pensamentos, o conceito
vinculado à atividade ülm proposta pela universidade. económico do valor é uma abstração real. É certo que ele existe só
Pois é justamente essa verdade moderna que Sohn Rethel pro- no pensamento, mas não brota dele. Sua natureza é social. Não são os
cura desconstruir ao apresentar uma teoria materialistado conhe- homens que produzem essas abstrações e sim as suas ações, o que fe-
cimento em contraposição à visão kantiana. Segundo ele, Marx já cha com o conceito de que é o ser social que determina a consciência.
havia anunciadoque na fase mais elevada da sociedadecomunista Assim, se para Kant estava certo que existia uma separação ra-
haveria de desaparecer a subordinação servil dos indivíduos à divi- dical entre mente e mão, e Hegel conferia ao Espírito a primazia e o
são do trabalho e, com ela, a antítese entre o trabalho intelectual e domínio sobre o manual, Marx desorganiza essas afirmações relacio-
o trabalho manual (prosaico). Esta antítese, insiste Marx, existe em nando-as com o tempo, compreendendo que isso muda na história.
todas as sociedades baseadas na divisão de classes e na exploração Logo, não há como determinar antecipadamenteas formas do ma-
económica, sendo, inclusive, um dos ingredientes do fenómeno da nual e do intelectual. Por isso que a sociedade sem classes proposta
alienação no qual se baseia a exploração. Daí não ser nenhuma novi- por Marx só pode existir se houver uma unidade concreta entre o
dade que esta tensão se explicite na universidade, também um espaço trabalho manual e o intelectual, sem a primazia de um sobre o outro,
de poder, de divisão do trabalho e de exploração. que é o que, em última instância, provoca toda essa lógica de domi-
Mas, Sohn Rethel também observa que, na sociedadecapitalista, nação tão bem engendrada dentro da universidade, assim como em
os considerados "trabalhadores intelectuais" não são os máximos be- qualquer outro setor do mundo capitalista.
neHlciáriosdo sistema e sim os servos do domínio, logo, não deveriam Nesse sentido, aceitando-se as teses de Sohn Rethel e de Karl
vangloriar-se disso. Para o pensador francês, a superação do capita- Marx, esse processo de dominação, servidão, opressão e inferioriza-
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Waldir José Rampinellie Nildo Ouriques Crítica à Razão Acadêmica
(Organizadores) Reflexão sobre a universidade contemporânea

ção do outro, que é o caldo cultural também vivido na universidade. nómica e a universidade passa a ser como uma "fábrica acadêmica'
só poderá ser superado quando os trabalhadores compreenderem a na qual mais vale o número de "Papers"publicados em revistas tidas
ideologia que está embutida na divisão do trabalho e a superarem. como "universais", sediadasna Europa ou nos Estados Unidos, do
Para isso, os técnicos-administrativos, que hoje são os que estão sub- que o conteúdo ou a relevância social, embora haja uma relativa re-
metidos a essa opressão, devem enfrentar o debate intelectual com sistência a isso tanto entre os técnicos como entre os docentes.
mais preparo, compreendendoque, para mudar essa forma de pensar, A universidade latino-americana-- tanto a brasileira como a his-
há que mudar também a forma de organizar a vida. Não só na univer- pânica - vive sob o signo do colonialismo e da dependência,já que
sidade, mas na sociedade. são os organismos internacionais financeiros (FMI, Banco Mundial,
A universidade, tal como a conhecemos, firmou-se no Brasil só BID etc...y que desenvolvemos planos de educaçãopara os países
no início do século XX, e, como herdeira da lógica europeia, trouxe chamadosde "subdesenvolvidos".Apostam na criação de um "cog-
todos os seus problemas. Desde a criação da primeira escola de nível nitariado", gente minimamente capaz de entender o pensamento
superior, a de Medicina, em Salvador, logo depois da chegada de Dom abstrato, as novas ferramentas técnicas,,e nada mais. Pensar com a
João VI, até a criação da Universidade Federal do Para, em 19 12, não própria cabeça é heresia não incentivada. Os professores, em geral,
há qualquer referência à categoria dos trabalhadores não docentes. submetem-se à lógica da mente cativa aos interesses económicos e
E mesmo depois de consolidado o fato de que há duas categorias de políticos e os trabalhadores técnico-administrativos,também na
trabalhadores dentro da universidade, os técnicos seguiram invisí- maioria, preocupam-se mais com a preservação de sua condição de
veis, pelo menos até os anos 80 do século passado, quando iniciaram 'classe média" (muitas vezes sem .o ser) do que com os rumos da
as grandes movimentações nas universidades. Já impregnado do es- educação e do país. Mas esta realidade nem sempre foi assim. Nos
pírito capitalista da divisão do trabalho, o modelo universitário im- anos 80 do século passado, quando muitos países da América Latina
plantado no Brasil sempre privilegiou a tarefa docente (intelectual), saiam do ciclo de ditaduras, inclusive o Brasil, foram essas categorias
relegando a dos técnicos (manual/prosaico) a um deliberado apaga- laborais, que constituem a universidade, as vanguardas de muitas e
mento. Mas, a considerar a reflexão de Sohn Retel, a separação entre importantes lutas para além da pauta específicada educação.
mão e mente fica sem razão de ser, e mais do que nunca os trabalha-
dores técnico-administrativos buscam encontrar sentido no trabalho .4 universidade no Brasa!
que realizam, compreendendo que há uma diferença de fazeres entre Nas terras de Pindorama, a primeira universidade, com as carac-
as categorias, mas ao mesmo tempo observando que cada uma delas terísticas de ensino, pesquisa e extensão, só apareceu no século XX,
tem o mesmo objetivo, que é o de oferecer as condições para a criação em 1909, no estado do Amazonas, oriunda da escola universitária
do conhecimento.
livre de Manaus. Depois, em 1912, veio a Universidade Federal do
É certo que, hoje, o que impera nas universidades brasileiras é Para. Assim, nesta parte do espaço geográfico latino-americano, a
o modelo de mercado, iniciado na década de 1960, e que exacerba instituição universidademal completou 100 anos, o que por si só
ainda mais a lógica da divisão do trabalho. A proposta é a de massi- anuncia a tremenda dificuldade que as classes dirigentes têm em
ficação do ensino com a pesquisa voltada aos interesses económicos,
filosofia utilitarista e ênfase na ascensão social. A proposta é adequar l Um dos últimos documentos do Banco Mundial sobre a lógica da descentralização da
a universidade aos interesses do capital, formando gente capaz de educação pode ser acessado na página: http://wwwl .worldbank.org/publicsector/
decentralization/Feb2004Course/Background%20materials/Patrinossummary.
mangar as novas tecnologiase de continuar a reproduzir as ideias pdf - E estes são os documentos que acabam dirigindo as propostas educacionais na
dominantes. A investigação científica se dá pela competitividade eco- América Latina.
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\A/aldirJosé Rampinelli e Nildo Ottriqties Ci'ítica à Razão Acadêmica
(Organizadores) Reflexão sobre a universidade contemporânea

compreender a importância do saber sistematizado e da ciência. Não Em Santa Catarina, a Universidade Federal é ainda mais jovem.
é sem razão que o próprio modelo üoie é colonizado. O país é muito Completou há pouco tempo os seus 50 anos, o que significa que teve
jovem no campo do ensino superior e, além do mais, anda comple- apenas duas ou três gerações de pessoas envolvidas com o seu fa-
tamente a reboque dos centros europeus e estadunidenses.Desde o zer, mantendo entre suas paredes o mesmo processo de colonização
início das atividades universitárias, o Brasil estevedominado pelo do pensamentoque caracteriza o ensino universitário no país e na
eurocentrismo, copiando formas e saberes que vinham da Europa. América Latina. Não bastasse isso, ainda utiliza práticas coronelistas
Pouco se ocupou das experiências anteriores à formação europeia ou que obstaculizam o desenvolvimento da democracia participativa e
mesmo das propostas criativas e inovadoras surgidas na experiên- da liberdade. (RAMPINELLI ef aJZ,2005).
cia concreta da América hispânica, como por exemplo, a reforma de Do ponto de vista político, a instituição universidade, em qual-
Córdoba, na Argentina, em 1918,quando os estudantes iniciaram quer parte do país, tem sido, no mais das vezes, um eficiente instru-
um movimento exigindo a mudança radical da estrutura universi- mento usado para assegurar o comando ideológico da classe diri-
tária. Hoje, o ensino universitário segue colonizado,desta vez com gente, como bem lembra Álvaro Vieira Pinto' e, por isso, qualquer
mais corça pelas propostas estadunidenses, que impõem à periferia do movimento que, desde dentro, questione essa sua cristalizada missão,
mundo capitalista, pela força de suas políticas imperiais, via FMI e logo aparece como "rebeldia", "baderna" ou "patologia", sendo ime-
Banco Mundial, predominantemente a possibilidadeda inovação. Ci- diatamente combatido. Qualquer ideia de reforma é muito questio-
ência, criação de conhecimento próprio, autonomia intelectual é ta- nada e os chamados avanços são, no geral, apenas relacionadosàs
refa dos países centrais. Aos países periféricos cabe apenas papagaiar, mudanças pedagógicas. A estrutura da instituição segue a mesma.
como bem percebeu Simón Rodriguez', desde os primeiros passos da Para se ter uma ideia, até agora não é garantida a eleição direta para
libertação latino-americana. E essa dependência intelectual, unida à escolha dos reitores, o que mostra que nem no campo da chamada
dependência política, cultural e económica, é mais um entrave para o democracia burguesa a universidade conseguiu avançar. Um prometo
mundo do conhecimento brasileiro. de lei, encaminhado em junho de eoi i, promete mudar esse tópico,
Nos deJnais países latino-americanos tampouco a história Êoi mas ainda garantindo um peso maior para os professores no preces'
diferente.Apesar de a universidadeter sido trazida para a colónia se decisório.
hispânica muito mais dedosdo que no Brasil, o modelo reproduzia A construída e desejada alienação cultural contamina a maio-
igualmente as universidades europeias, gestando um conhecimento ria das pessoas nas três categorias: alunos, professores e técnicos-
colonizado e subalterno, predominantemente voltado para os inte- administrativos, e o máximo a que se chega é às lutas corporativas
resses da classe dominante, sendo instrumento de alienação cultural. por salário e melhores condições de trabalho. As grandes questões
As experiências de resistência que existiram e existem nesse âmbito nacionais, quando aparecem nas pautas de luta, são pontuais e não
apenas confirmam a regra. São poucas e de eficácialimitada. se sustentam quando o governo, de forma eâlciente,as desmontam
com promessas financeiras. E, como em todo o processo em que há
2 Simón Rodriguez Êoi um importante educador venezuelano,com uma original uma divisão social e hierárquica do trabalho, também na universida-
e vasta obra sobre a educaçãona entãoAmérica dominadapelo colonialismo.Foi de se expressa uma tensão permanente entre os que atuam na lógica
professor de Simón Bolívar e quandoaqui, na América Latina, iniciaram-seas lutas
por independência, âoi designado pelo Libertador para pensar a educação da Pátria do trabalho intelectual (docentes) e os que são reconhecidos apenas
Grande
3 A primeira universidadefundadaem terras de Abya Yala âoia de Santo Domingos, 4 Para conhecer um dos pensamentosmais acabadossobre a universidadebrasileira,
o mais antigo posto colonial da Europa, em 28 de outubro de i5s8, pelo Papa Paulo ler esse que é um dos mais importantes HilósoÉos
do país, Álvaro Vieira Pinto, no
111 livro A Questão da Universidade.
142 143
VValclirJosé Rampinelli e Nildo Ouriques
(Organizadores)
r Crítica à Razão Acadêmica
Reflexão sobre a universidade contemporânea

como meio, trabalho braçal, de menor importância (técnicos-admi- das amarras da servidão, seja a que se auto-impõemvoluntariamente
nistrativos). Isso é tão visível que em qualquer texto no qual se discu- pela corça do hábito criado pela estrutura coronelista e autoritária,
ta a Universidade é muito raro que se coloquem as problemáticas dos sqa a que é imposta pela categoria dos professores -- no geral os que
trabalhadores técnico-administrativos, como se eles não estivessem estão também nos postos administrativos de comando. É certo que
ligados à atividade íim da universidade, que é o ensino, a pesquisa e há uma parte de professores e técnicos que consegue fugir a este
a extensão. Também, mesmo estando as duas categorias (docentes e modelo, mas é minoritária.
técnicos) subsumidas na nomenclatura "servidores públicos", apenas
os técnicos são nominados como "servidores". Em qualquer discurso Á i7tferiorida( courela imposta pela divisão do trabalho
de autoridade, mesmo as de esquerda, ouve-se o indefectível: caros Essa ideia de que o trabalhador técnico-administrativo tem me-
servidores e caros professores. Isso mostra o quanto o conceitode nor importância do que o professor vem desdeos tempos mais re-
servidão está colado ao trabalhador técnico-administrativo, mesmo motos da universidade, e não só como instituição moderna. A função
quando ele é um pós-doutor, que comanda pesquisa. Na ainda quase de quem ensina sempre aparecia como nobre, enquanto a função de
colonial estrutura da universidade, o professor é o "iluminado". Os quem abre portas, limpa a sqeira e organiza o burocrático era vista
demais vivem para servi-los. E, hoje, na universidade de mercado, como atividade subalterna, meio, inferior. O professor universitário
também os estudantes já estão incorporando essa ideia de que os assume uma posição comparada a dos antigos sacerdotes, figuras que
;serviçais" estão ali igualmente para seu comando. dominam e detêm o conhecimento sobre as coisas importantes, en-
Álvaro Vieira Pinto, no seu livro .4 gzzesZão
da a#zz;ers/da(ü,
faz quanto os técnicos seriam os serviçais, os escravos. Assim, na lógica
uma análise bastante realista da formação das classes dentro da uni- da divisão do trabalho dentro da universidade -- que é a mesma im-
versidade. É certo que ele também centra sua discussão nos pro- posta pelo sistema capitalista, dividindo e separando o trabalho ma-
fessores, os quais considera, em sua maioria, elementos intelectuais nual do intelectual -- aquele que não é professor passa por um proces-
ociosos da classe dominante, os "mãos-sem-obra", parasitas do sis- so de invisibilidade. E este apagamento humano acontece de várias
tema que, por.sua vez, existe para alienar. Ele argumenta que na formas. Uma delas é provocada pelo próprio trabalhador que vai se
universidade, no geral, não se trabalha, porque ela existe justamente encolhendo, atuando no âmbito da servidão voluntária, aceitando a
para não funcionar como propulsora da transformação material da histórica condição de ser inferior para garantir alguns pequenos pri-
realidade. Na prática é só um cartório de outorga de documentos de vilégios como sair mais cedo, usar o horário de trabalho para coisas
doutores que acaba, inclusive, convertendo a essa lógica, muitos dos pessoais, entre outros.
que conseguem chegar à universidade vindos das classes populares. Mesmo aqueles que entraram na universidade por concurso pú-
Nesse sentido, se a alienação é um elemento constitutivo da essên- blico acabam desenvolvendo uma espécie de gratidão pelos dirigen-
cia desta instituição, ela automaticamenteacaba alienando de forma tes, como se fosse um favor estar ali. E obviamente que essas perigo-
igual os trabalhadores técnico-administrativos. E tanto que, mesmo sas relações são construídas ano após ano por aqueles que comandam
intraclasse, aparece como fundamental a busca por títulos de mes- a instituição e que se perpetuam nos cargos de poder. Então, nesse
trado e doutorado. O acesso ao nível superior não apenas serve para círculo vicioso, raros são os trabalhadores que conseguem atuar na
garantir ganhos a mais no salário, mas também para aproximar-se sua função de técnico-administrativo sem aceitar a lógica de insigni-
da condição daquele que assume o status de "intelectual", cora do tra- ficância imposta pelo sistema capitalista de produção. Por outro lado,
balho braçal/prosaico/meio. Mas, ainda assim, mesmo chegando a entre os professores também se expressa a superioridade no trato
pós-doutores, muitos técnicos-administrativos não conseguem fugir com os técnicos.como se estes fossem os seus trabalhadores e não os
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Waldir José Ralnpinelli e Nildo Oui'iques \ Crítica à Razão Acadêmica
Reflexão sobre a universidade contemporânea
(Organizadores)

da instituição. Essa relação acaba se fazendo dentro de uma cotidiana esporte, assistência e festa. O atrelamento da associação com a ad-
tensão que raramente se explicita publicamente, embora seja assunto ministração e o poder era tão explícito que o trabalhador, fosse do-
frequente nos corredores, nos espaços de sociabilidade,no sindicato. centeou técnico, ao ser admitido na UFSC era convidadoa assinar,
Hoje, com a nova política do governo de exigir capacitaçãodos seus junto com a admissão, a 6lchade sócio da Asufsc, conforme contam
trabalhadores,tem havido uma busca maior a cursos de mestrado Antânio Carlos Salva' e Manuel Arriaga'. Naqueles anos de início da
e doutorado por parte dos técnicos. Mas, esta política tem servido ditadura militar as vozes críticas estavam silenciadas e raros eram os
apenas para que se pleiteiem aumentos salariais, causando sérios pro- trabalhadores que se atreviam a pensar em lutas. Também a univer-
blemas por conta do fato de que não existe possibilidade de ascensão sidade estava consolidando sua ação e recrutando trabalhadores para
na carreira. Entre os que estão enquadrados em nível médio provoca seus quadros.
desinteresse pelo trabalho, uma vez que não podem mudar de função,
e entre os que já estão no nível E (com curso superior) eleva os salá- Á organização e a luta
rios de forma muito desigual. Um trabalhador de nível superior com De qualquer forma, mesmo com a direção da associação hegemo-
doutorado tem um aumento de 80% no salário enquanto um de nível nizada pelos técnicos, geralmente atrelados à administração central,
médio com doutorado ganha apenas 20% a mais. Essa discrepância coram os professores os primeiros a apontar a necessidade de rom-
tem inclusive causado profundas divisões entre os próprios técnicos- per com essa forma de dominação interna e também os que deram o
administrativos, com os de nível superior criando uma Associação à primeiro passo no sentido de criar um organismo que fosse,de fato,
parte dos demais para negociar com o governo. Não bastasseisso, um espaço para avançar nas lutas por direitos, salários e democracia.
muitos chegam a assumir posturas autoritárias junto aos seus cole- No que diz respeito ao processo organizativo da categoria espe-
gas de função, tais quais as dos docentes que tanto criticam. De novo, cífica dos técnicos-administrativos,pouco mais de uma décadade-
é sempre bom ressaltar, há os que não entram nesse espiral equivo- pois da fundação da UFSC, o ano de 1976 aparece como bastante
cado, mas é a minoria. significativo. E neste ano que chegam a Florianópolis, vindos de São
Essa tripla.posição, ora de servidão, ora de raiva contra os do- Paulo, dois trabalhadores que iriam de certa forma sacudir as ba-
centes, ora de mímese, existe desde as primeiras propostas de organi-
zação dos técnicos-administrativos como categoria que pensa e luta 5 Ant6nio Cáries Salva, arquiteto, trabalhador no ETUSC, é uma figura de absoluta
relevânciano movimentodos Técnicos-Administrativos.
Além de sua ação na
dentro da instituição. Em Santa Catarina, esse processo começou tão construção do processo de luta, ele âoi, ao longo dos anos, se tornando a mão
logo a universidade se firmou localmente, na metade dos anos ses- que desenhavaa história das greves. Com sua arte de desenhistae chargistaele
senta. Assim que se ergueram os prédios e a vida conjunta começou passou a registrar, em cartazes gigantes, todas as batalhas travadas pelos técnicos
administrativos. Durante as greves, ele produzia os desenhos e os trabalhadores
a se fazer, os trabalhadores iniciaram as tratativas para a criação de pintavam, criando assim uma obra coletiva. Esse trabalho âoi registrado no livro
uma associação,já que aos servidores públicos não era permitida a Corpo de Luta", editadopeloSintufsc. No ano de 20] i, já aposentado,Salvaveio
para a greve para seguir produzindo a história coletiva da luta. A importância desse
sindicalização.Assim, em 1969,nasce a ASUFSC (Associaçãodos trabalho é tão grande que Sirva também está sendo alvo de uma tese de mestrado
Servidores da Universidade Federal de Santa Catarina) juntando na História.
nos seus quadros professores e técnicos-administrativos, e como se 6 Manuel Arriaga também é arquiteto e trabalhador do ETUSC. Junto com Salva
trouxe para a UFSC toda uma discussãopolítica que ainda era bastante incipiente
pode observar, todos sob a mesma nomenclatura, a que os uniHicava: na instituição. Ao longo dos anos, comprometido com a construção do Partido dos
servidores. Mas, organizada por trabalhadores do departamento de Trabalhadores, Maneca, como é conhecido, Êoi se tornando igualmente uma pessoa
fundamental no processo de luta política dentro da UFSC. Hoje, já aposentado,
pessoal e geralmente comandada pelos então chefes do setor, como ele segue atento aos problemas da categoria e atua na luta pela construção de uma
João R. Dutra e Nilto Parma, a entidade se limitava a trabalhar com cidademelhor no debatedo Plano Diretor de Florianópolis.

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IÀ/aldirJosé Rampinelli e Nildo Ouriques Crítica à Razão Acadêmica
(Organizadores) Reflexão sobre a universidade contemporânea

ses da dominação imposta pela administração central defendida e tos" sobre como ser um bom "funcionário", amar a Pátria, aceitar as
praticada por alguns trabalhadores visceralmente ligados ao poder. políticas impostas pelos reitores e evitar questionamentos ao regime
Antânio Carlos da Silva e Manuel Arriaga, formados em arquitetura, militar então vigente. De política não se falava. Basta lembrar que
coram convidados a integrar o quadro de trabalhadores no setor de o primeiro presidente, Francisco de AssimRocha Cavalcanti, era um
edificações, visto que aquele era um ano de corte expansão predial da militar reformado.Antânio Carlos Silva chegoua participar de um
universidade. Cada um delesjá havia vivenciado a efervescênciado destes encontros nacionais, em 1979, e lembra que eram regados a
movimento estudantil paulista e eram ambos muito familiarizados uísque e mulheres. "Foi um sofrimento ficar lá, ouvindo os relatos das
com as correntes políticas que então floresciam no país, na luta polí- aventuras dos 'representantes' das bases nos quartos de hotel". E
tica clandestina e na luta armada. Assim, na bagagem, trouxeram a aqui é importante ressaltar que os que ali estavam representando as
sementeteórica e prática do que mais tarde viria a constituir-se num bases haviam sido indicados pelas diretorias das associações. Apenas
movimento de luta dos mais vigorosos, criativos e aguerridos dentro Salva e Pedro Costa haviam passado pela eleição em assembleia.
da UFSC. Não é que não existisse gente pensando e conspirando por Mas, quisessemos militaresou não, o Brasil estavamudando
mudanças na UFSC antes da chegada dos dois, mas a participação dos naqueles anos finais da década de 70. Por todos os cantos vicejavam
arquitetos, experienciados no manejo organizativo de corças políticas as Comunidades Eclesiais de Base, promovidas pelos padres "verme-
e conhecedores das linhas e propostas do pensamento de esquerda, lhos" da igreja católica, que nos cantões do país incentivavam o pen-
impulsionou a roda da mobilização. "Tão logo a gente chegou já co- samento crítico. E, nas grandes cidades, como São Paulo, explodiam
nheceu um jovem trabalhador, quase um menino (Moisés Eller), que as lutas de trabalhadores, agora rearticulados em sindicatos que co-
logo se enganounesse processo de pensar a universidade e o país, o locavam a luta por salários casada com a luta pela democracia. Foi
que 6oimuito importante para que a gente pudesse encontrar novos um rastro de pólvora que se espalhou e, como não podia deixar de
parceiros nesse debate. A partir daí, fomos conversando, participan- ser, também chegou à universidade.
do, propondo. Mas tudo era muito lento. Havia uma corte resistência Os professores coram os primeiros a acompanhar a onda de lutas
por parte dos trabalhadores a qualquer coisa que lembrasse política. massivas. Essa categoriajá tinha bem claro que as condições estavam
A Asufsc âortaleciaa ideiade que a associaçãoera só para bestase dadas para uma atuação política no estilo sindical e não mais como
resolução de problemas de caráter pessoal", lembra Manuel Arriaga'. mero espaço de festividades, ainda que legalmente tivessem de se
No Hlnaldo ano de 1978 também já estava constituída a Fasu- constituir como associação. Assim, no ano de 1975, os docentes deci-
bra (hoje Federação dos Sindicatos das Universidades Brasileiras, dem criar uma associação só deles para encaminhar as lutas que esta-
então Federação dos Servidores das Universidades Brasileiras), que vam por vir. Sabiam que na Asufsc isso não seria possível. Em 1980
juntava as associações de todas as universidades em nível nacional, eles protagonizam uma corte greve' e toda a organização daquele
mas, tal e qual a associação local, era um espaço de fortalecimento da movimento é acompanhada de perto pelos técnicos-administrativos
mesma política praticada nos estados, de dominação política/cultural mais engajados, que participam dos debates,das discussões e até da
e alienaçãodo trabalhadorno mundodo trabalho.Tanta que, nos organização. Muitos técnicos também já estavam articulados com
seus congressos nacionais, as "estrelas" eram os famosos cursinhos propostas nacionais como, por exemplo,.a da criação do Partido dos
de comportamento no trabalho, que disseminavam os "mandamen- Trabalhadores. Mas, a maioria, ainda dominada pela lógica assisten-
cial praticada pela Asufsc, rejeitava qualquer debate que envolvesse
7 Tanto Manuel Arriaga quanto Antânio Carlos Salvacoram entrevistados longamente
pela autora deste artigo, visto que ambos têm muito vivida a memória dos fatos que 8 A história destes movimentos pode ser conhecida neste livro, no capítulo "Movimento
envolvem a luta dos técnicos-administrativos. docente na UFSC -- os longos anos oitenta", na p. 165.
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Crítica à Razão Acadêmica
Waldir José Rampinelli e Nildo Ouriques
IOrganizadores) Reflexão sobre a universidade contemporânea

a discussão da política nacional ou a dominação local. Tudo tinha de Dois anos depois, em 1981, a coisa começou a ferver também
ser conduzido com cuidado, formando pequenos grupos de discussão entre os técnicos-administrativos. Os professores haviam garantido
e estudo, para que a atuação nos processos mais gerais, como os de vitórias e os demais servidores pressionavam por melhorias. A mobi-
eleição para a associação, por exemplo, não sofresse tanta rejeição. lização por ganhos salariais âoi crescendo, sempre com aquele grupo
A organização da luta e a vitória na greve dos professores servi- mais a esquerda promovendo conversas e articulando o deslanche
ram de base para o aprofundamentoda ideia de criação de um espaço da luta. Então, o grupo voltou à carga na disputa pela Associação.
próprio também para os técnicos-administrativos. Mas esse üoi um Desta vez, já com mais gente mostrando a cara, e muito mais orga-
processo bem mais demorado, devido àjá consolidada dominação que nização. Surgiam novas lideranças como Pedro Costa, Tânia Correa
a Asufsc exercia sobre os trabalhadores, apostando no aprofundamen- Lobo, Irac Orsi, Roberto Andrade, melenaDalri. O grupo chegoua
to da rejeição ao professor e na materializaçãoda lógica da servidão organizar uma convenção com muito debate político e apresentação
voluntária. Ainda assim, um pequeno grupo de técnicos insistia na de propostas, constituindo uma chapa de luta chamada "Movimen-
discussão e se reunia sistematicamente para pensar como encaminhar tação". Surgia o núcleo de um grupo fundamental na vida da uni-
a luta. Antânio Cardos da Salva, Manuel Arriaga, Nelson Carminatti, versidade e que iria conduzir as grandes greves dos anos 80. Mas, a
Pedro Geraldo Batista, Edson Valias, entre outros, começaram então velha guarda da Asufsc era profissional na arte da dominação. Seus
a organizaruma chapade oposiçãoà Asufsc no ano de 1979."Era integrantes sequer faziam propaganda, mas atuavam nas sombras.
quase impossível falar em democratização ou trazer para o debate as 'Tinham listas de todos os associados, chamavam por telefone, fa-
bandeiras políticas mais gerais. Então, a nossa estratégia 6oi falar em ziam corredor polonês no dia da votação, buscavam em casa com as
participação. A gente discutia o quanto estávamos cora de todas as Kombis da UFSC, bicavamacintosamentesentados perto das urnas,
instâncias de participação da vida da universidade e que isso tinha de fazendo pressão", conta Salva. Ç2ualquersemelhança com os dias de
mudar. Mas, mesmo com um discurso tão apagado,éramos atacados hoje não é coincidência, essa segue sendo a prática do poder. Naquele
como aqueles que estavam 'bagunçando' as coisas. Obviamente que ano também foi um massacre.
não ganhamos qs eleições, mas crescemos como grupo", conta Silva. Mas, a luta crescia e se espraiava capilarmente entre os técnicos.
Aquela, em 1979,6oi a primeira vez que se lançou uma chapa Havia uma pressão muito grande por salários e melhorias.Assim,
de oposição,chamada de "Renovação", com o propósito de mudar quando o então reitor Ernani Bayer chamou uma grande assembleia
as coisas na universidade. O trabalho foi feito, mas a derrota, frago- universitária num dos ginásios da UFSC, o grupo de técnicos que se
rosa. Naqueles dias também começava na UFSC a articulação para articulava desde o Êlnaldos 70 apareceu com propostas concretas de
formar uma Comissão Pró-P't e pessoas como o Sirva e Arriaga, salário e de mudanças na organização do trabalho, além da luta por
que faziam parte da organização, então já eram identificados como maior participação nas instâncias da universidade. O grupo crescia,
'gentedo PT", situaçãoque era vista com muita desconfiança.O agia politicamente e passava a ser visto como um grande problema.
professor Valmir Martins, o primeiro coordenador da Comissão pró- Tanto que quando tentavam expor as propostas naquela assembleia,
p't era igualmente muito discriminado por isso. Qualquer referên- os dirigentes da associaçãocortavam o som.
cia ao Partido dos Trabalhadores assumia logo ares de "denúncia" e
as pessoas que se identificavam com essa proposta eram etiquetadas .anos 80: greves e mudanças
como "coisa ruim". Dentre os professores que transitavam mais à No ano de 19820 clima em nível nacional também esquentava.
esquerda, apenas Osvaldo Maciel era visto com simpatia. Os demais A ditadura se distendia, os sindicatos avançavam, os trabalhadores
eram rejeitados pela maioria dos trabalhadores. se levantavam em luta. O Partido dos Trabalhadores ia se fazendo e
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Crítica à Razão Acadêmica
Waldir José Rainpinelli e Nildo Ouriques Reflexão sobre a universidade contemporânea
(Organizadores)

a minha saída da chapa, assim como a do Maneja (Arriaga), para que


ela não Hlcassevinculada ao PT. Ainda assim não venceram". conta
Antânio Carlos Sirva.
Eis que chega então o paradigmático ano de 1984. Já no mês
dejaneiro, em Natal (RN), aconteceo Primeiro Congresso Nacional
da Fasubra, anunciando que novos tempos estavam por vir. A velha
direção das bestas,uísques e bom comportamento diante do poder es-
tava com as horas contadas. A cidade nordestina $oipalco da grande
virada da federação. Saia enfim das mãos dos pelegos e iniciava uma
caminhada de vitórias, embandeirando a luta por democracia, pela
identidade dos técnicos-administrativos, melhores salários e uma
sociedadede justiça. De Santa Catarina o grupo que participou do
histórico congresso era formado na maioria por gente jovem e com
perÊllde luta. Eram os novos técnicos-administrativosque avança-
vam na busca por mudanças também no estado. Figuras como He-
lena Dalri, Moisés Eller, SilvanaPereira, Amo da Mata, Francisco
Batinga, Angela Dalri, Valcionir Correa, Tânia Lobo Correa, entre
outros importantes companheiros, iriam se transformar em destaca-
das lideranças trabalhistas na UFSC.
E é essa nova Fasubra, agora sob a batuta de Vânia Galvão, que
protagoniza a histórica greve pela lsonomia, responsável pela mo-
bilização de milhares de trabalhadoresem 84 dias de intensa luta.
Nunca se havia visto nada igual na Universidade de Santa Catarina.
'R.s assembleias eram no ginásio, porque havia gente demais. Eram
momentos emocionantes, coisa que me arrepia até hoje quando me
lembro. Bonito demais ver os trabalhadores assumindo a direção de
suas vidas", conta Amo da Mata. A greve encerra pavimentando um
importante avanço na briga pela unificação salarial e o esboço de um
Plano de Cargos e Salários. Conhecida como a "greve da isonomia",
ainda hoje falar sobre aqueles dias provoca intensa emoção em to-
dos aquelesque protagonizaram o movimento. E âoijustamente essa
greve de praticamente três meses que fortaleceu as novas lutas que
se sucederam. As idas a Brasília para o comando nacional e o contato
com as correntes de pensamento que agitavam o mundo sindical (p'l:,
PC do B, Convergência Socialista, Liberdade e Luta, Causa Operária,
Movimento de Emancipaçãodo Proletariado etc...) amalgamaram
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Crítica à Razão Acadêmica
Waldir José Rampinellie Nildo Ouriques Reflexão sobre a universidade contemporânea
(OI'ganizadores)

o que era uma tendência nacional. Ainda assim, o conservadorismo


certezas e convicções.Quem entrou naquela greve voltou dará os
estendiasuas garras e impedia a mobilização.Silva lembra que to-
postos de trabalho bastante modificado.
das as discussõesno campo da macropolíticaeram sempre muito
As forças mais à esquerda dentro da UFSC também foram de-
esvaziadas, com pouca gente participando. No geral, os debates en-
purando. Vieram as lutas pelas Diretas Já, os novos Congressos Na- volvendo as grandes questões nacionais e políticas eram feitos em
cionais da Fasubra, as lutas por autonomia. A ditadura saiu de cena,
parceria com os professores,já que eles não se furtavam a discu-
e a Nova República aparecia como um importante momento de tran-
tir os temas polêmicos e tinham conhecimento aprofundado sobre
sição. A CUT crescia e o Partido dos Trabalhadores se consolidava
eles. Entre os técnicos permanecia, contudo, certa reserva na relação
como uma proposta nascida da base da luta. Assim, era natural que os
com os docentes,e havia algumas lideranças do campo conservador
trabalhadores voltassem a se movimentar no sentido de consolidar
que incitavam à rejeição. Se os professores eram identificados com
as promessas de isonomia feitas na greve de 1984. Então, em 1987,
o p'l:, então a situação 6tcavaainda mais visível. Nas greves, quando
nova greve sacode as universidades. O governo já havia constituído a
Lei da lsonomia, faltava torna-la real. Como tudo se arrastava, mais as duas categorias uniüicavamas mobilizações e os debates, sempre
de 100mil trabalhadores cruzaram os braços em todo o país, nas 39 surgia alguma situaçãoconstrangedora, de ataque,mostrando que
universidades federais. Enfim, a tão sonhada isonomia saiu. Vitória essa relação conflituosa e desigual seguia latente e se acirrava nos
estrondosa dos trabalhadores. momentos de luta. Os comentários eram os mesmos a cada greve:
'Eles não radicalizam", "eles não carregam faixas", "eles nos usam
Em 1989, o grupo de esquerda da UFSC decidiu investir mais
Na verdade, esses momentos eram os que mais explicitavam a tensão
uma vez todas as fichas na eleição da Asufsc. Naquele então, Já cons-
tituído como uma corça unificada,o Movimento Alternativa Inde- existente entre o trabalho intelectual e o braçal, pois, no mais das
vezes, as reclamações tinham sentido. Poucos eram os professores
pendente (MAI), não aceitava mais qualquer contemporização O
discurso era radical e anunciavaa necessidadede a associaçãose que, nas greves, desenvolviam atividades consideradas mais "prosai-
transformar em sindicato. Não havia mais espaçopara a velha lógica cas", como carregar faixas e cartazes, por exemplo. Cabe destacar a
assistencialista.. Os trabalhadores se dividiram em três chapas. IJma aceitaçãoe o carinho que os técnicos tinham para com os professores
Doroti Martins e Rodolâo Pantel, dos poucos que se misturavam aos
delas representava a velha Asufsc, sob a batuta de Nilto Palma, com
Gerson Rizzati na cabeça,outra era mais moderada, e a terceira, com técnicos e que não tinham vergonha de carregar as faixas ou fazer
trabalhos "menos nobres", como pintar cartazes, encher balões, car-
o grupo do MAI, tinha Helena Dalri como candidataà presidência,
regar pirulitos de papelão etc...
acompanhada de outras lideranças nascidas daquele processo de luta,
tais comoEugênio LuasGonçalves, Pedro Costa, CensoMartins, Amo Os anos 90
da Mata, Moisés Eller e Silvana Peneira. Essa foi uma composição
Promulgada a chamada Constituição Cidadã, de 1988, a univer-
interessante, porque conseguiu juntar o grupo de esquerda e outros
sidade se preparava para pâr em prática os novos conceitos e direi-
que, apesar de não se vincularem à esquerda, tinham interesse em
constituir uma nova força dentro do movimento. A vitória finalmente tos. Um deles era a possibilidade de sindicalização dos trabalhadores
públicos. Então, o que era um debate morno começou a mobilizar as
aconteceu, mostrando que, lentamente, os trabalhadores avançavam.
Mesmo na conservadora UFSC não havia como escapulir dos ventos gentes em todos os cantos do país. Na greve de 1990, sob o governo
Collor, esse âoi um tema que apareceu insistentemente, provocan-
da mudança, apesar das contradições que logo apareceram. do acirradas discussões entre os técnicos-administrativos. O ano de
A partir daí, no comando da Asufsc, o grupo MAI deu consequên-
cia à discussão sobre a transformação da associação em sindicato, 1991chegou e com ele nova eleiçãopara a Asufsc. melenaDalri
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Crítica à Razão Acadêmica
Waldir José Rainpinelli e.Nildo Ouriques Reflexão sobre a universidade contemporânea
(Organizadores)

Os trabalhadores atravessaram os anos 90 mergulhados nas lu-


estava outra vez na cabeça de chapa, aglutinando outras lideranças
tas que incendiaram o Brasil. Impedimento de Collor, eleições,Lula,
como Valcionir Correa, Luas Pereira, Antânio Carlos Salva,Angela
Fernando Henrique Cardoso. Toda a efervescênciapolítica nacio-
Dalri, Mano Dutra. Então, por dentroda associação,
começauma nal se expressava na UFSC e culminava nas greves que se repetiam
nova batalha: a criação do sindicato. Durante muitos meses esse de-
em função das políticas neoliberais que começaram a se aprofundar
bate correu a UFSC, no jornal, em reuniõessetoriais,seminanos.
desde o governo Collor. Em nível local, as velhas disputas políticas
Havia muitas dúvidas sobre o que fazer com a Asufsc. Ficava ela
paroquiais e a tradição conservadora fizeram com que, ao arrefecer
como uma associação e criava-se um sindicato à parte? E os proees'
os arroubos de transformação em nível nacional, por aqui também
fores? E o património? Era muita coisa para decidir.Várias assem-
claudicasse a compreensão da luta. Lideranças ligadas à reitoria, no
bleias coram realizadas até que se chegasse a uma decisão. Então,
melhor estilo da antiga Asufsc, voltaram ao comando do sindicato, e,
finalmente,no histórico dia 8 de abril de 1992, em meio às mobi-
durante dois mandatos, ao longo dos anos 90, conduziram a política.
lizações por mais uma greve, com o RU lotado, os trabalhadores Greves coram deitas,lutas travadas, mas sempre puxadas com mais
disseram sim à proposta de sindicato. Foi uma grande batalha que s6
vigor pelo mesmo grupo de esquerda responsável pelas profundas
chegou a bom termo por conta do compromisso do grupo que então transformações acontecidas na década de 80.
dirigia a Asufsc. Em 1998 o grupo do Movimento Alternativa Independente
,{ fase sindical, (MAI) retoma o sindicato, agora incorporando uma nova geração de
trabalhadores que, junto com os precursores, passam a também for-
Com a criaçãodo Sindicatodos Trabalhadoresda UFSC (Sin-
mular politicamentejunto à Fasubra, apresentandoteses nos Con-
tufsc), a velha lógica da associação assistencialista estava quebrada, gressos, atuando sistematicamentenas Coordenações Nacionais de
mas não na sua totalidade.Muitos vícios foram transpostos como,
Greve e Grupos de Trabalho. Dentro da UFSC, durante quaseuma
por exemplo, dentistas, ginástica, vales, festas,brindes e outras situa- década, em sucessivas vitórias internas, o MAI, na direção do sindi-
ções desse tipo que só bem mais tarde foram retiradas da estrutu- cato, procurou desmontar a estrutura quase feudal que ainda se man-
ra do sindicato. O arraigado conservadorismo tornava as mudanças
tinha na relação reitoria z,erszóitrabalhadoreso, assim como a difícil e
muito lentas. E, como toda a estrutura física da antiga associação
fora automaticamente
transferida,era natural que alguns entraves sempre tensa relação entre professores ue z/stécnicos. Mas, a vitória
de Luas Inácio, em 2002, iria provocar uma nova profunda transfor-
ainda perdurassem, principalmente no campo da política. mação na correlação de forças entre os técnicos-administrativos.
No âmbito nacional também a Fasubra avançava dentro de um
A chegadade Luis Inácio à presidênciafoi, em certa medida,
viés combativo.Foi criada a Agenda Autonomia Universitária, Jun'
apoiadapor grande parte do funcionalismopúblico, aí incluídos os
tardo técnicos e professores, e começou o debate do prqeto Univer-
trabalhadores da UFSC, principalmente os que, desde os anos 70,
sidade Cidadã para os Trabalhadores, que colocavaos técnicos-ad-
vinham constituindo a base da luta local. Nesse sentido, a proposta
ministrativos no papel de formuladores de políticas para a categoria
e ainda constituía o esboço de um prometopolítico para a universi- de reforma da Previdência, apresentada nos primeiros meses de go-
dade. Também criou-se a Coordenação das Entidades Nacionais dos 9 Mais informações sobre esse momento da luta dos trabalhadores podem ser
conhecidas em TAPARES. ELAINE. O voto universal -- conservadorismo ou
Servidores Públicos, na tentativa de unificar as lutas. Aparentemente
radicalidade,no livro O Preço do Voto. Insular, 2004, assim como no artigo da
não havia mais espaço para a aceitação da lógica de inferioridade que mesma autora, Esta Democracia?l Ou a invenção do novo-., no livro l.Jniversidade:
a divisão trabalho intelectualversus trabalho manual/burocrático a democracia ameaçada. Xamã. 2005, ambos organizados pelo professor Wãldir
José Rampinelli
impunha aos trabalhadores.
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Crítica à Razão Acadêmica
Waldir José Ralnpinellie Nildo Ouriques Reflexão sobre a tlniversidade contemporânea
(Organizador'es)

no sindicato, porque este fazia oposição ao governo de Luas Inácio.


verno, acabou sendo o detonador de uma profunda dIVisão entre o Alguns chegarama se desHlliardo sindicato,outros até acusaram de
grupo que desde aqueles anos vinha atuando de forma praticamente
monolítica., "terroristas" aquelesque alertavam os trabalhadores para os perigos
das reformas neoliberais do governo de plantio. Para os que naquele
Como a conjuntura nacional nunca está descoradada vida dos
momento atuavam na direção do sindicato e acompanhavam de perto
trabalhadores, a proposta de reforma os levantou em luta. O Partido
dos Trabalhadores, que antes fora um dos pilares da defesados direi- os desmontei e os ajustes neoliberais Êoi um tempo difícil. 'A. gente
ia para as assembleiase sofria ao ver alguns de nossos colegas mais
tos, agora impunha a derrubada das garantias de uma aposentadoria queridos, aquelesque tinham sido nossos mestres no sindicalismo,
digna, retirava direitos, abria as portas para a entrada dos fundos de se arremeterem contra n6s. Os trabalhadores ficavam confusos, não
pensão, enülm,privatizava a Previdência e impunha para .os novos
entendiam porque estávamos divergindo se sempre tínhamos cami-
servidores públicos que viessem a ser contratados uma série de des-
nhado juntos. Mas, para nós, era fundamentalmanter o princípio que
vantagens. Num primeiro momento houve certa perplexidade, mas, sempre nos regeu: completa independência de governos e da rei-
logo depois, üoi impossível arear a luta. A reforma do governo petis- toria", lembra Raquel Moysés, uma das coordenadorasdo Sintufsc
ta era uma grande derrota para os trabalhadores. Não restou opção
naqueles dias. Os trabalhadores então no sindicato superaram, não
aos dirigentes nacionais senão deflagrar uma greve geral contra esta sem dores, a síndrome de "viúvas do Lula" e passaram a atuar na
proposta que acabou também arrastando outras categorias, chegan-
do a constituir um bom movimento nacional. crítica, desde a esquerda, das ações governamentais. Ainda assim, ti-
veram de enfrentar duas oposições.Uma, dos antigos companheiros,
Mas, o ânus da greve de 2003 não foi apenas a derrota no campo
que agora apoiavam o governo. Outra, dos adversários de sempre,
específico da Previdência, uma vez que a reforma acabou passando,
que empurravam para eles o ânus de terem sido "sulistas", portanto,
ainda que mergulhada nos escândalos do mensalão''. Ela deÊlnitiva-
responsáveis pelo que acontecia. "Nós sempre deixamos muito clara
mente abriu uma gigantesca brecha no movimento dos trabalhado-
res. tanto em nível nacional como local. O movimento durou longos nossa posição. Nunca negamos que houve um tempo em que apoia-
mos o prometoconstruído pelo p'l', mas aquilo era passado. Diante
68 dias e. nas reuniões de comando, nas assembleias,o que se via
do governo que se rendia aos interesses do capital, não havia o que
era a formação clara de dois grupos distintos no campo dos traba-
fazer: eram necessárias a crítica e a oposição em nome das lutas dos
lhadores de esquerdaou progressistas. Assim, aquelesque vinham
trabalhadores", aHlrmaRaquel
articulados, juntos, desde os anos 70, não tiveram outro remédio se-
não deixar bem claras as diferenças que os dividiam. Foi formada a Os anos que se seguiram não mudaram o estado de coisas. O
grupo que liderava o sindicato, sempre em franca oposição a qual-
dicotomia governistas versus não-governistas, o que apontava para
quer proposta governamental que viesse a fortalecer as políticas ne-
um grupo que criticava de forma radical as ações do governo e os que
oliberais ou prqudicar os trabalhadores, seguiu sofrendo o ataque
alegavam que era preciso apoiar o governo que estaria num momen-
sistemáticode alguns colegas ainda muito ligados ao governo de
to de "disputa" interna.
Luas Inácio. E isso não se deu unicamenteem nível local, aconte-
SÓ que, na medida em que a reforma avançava, as diferenças se
ceu em todos os sindicatos, se espalhando para dentro da Fasubra. A
explicitavam mais ainda. Em pouco tempo muitas lideranças que
divisão, em alguns momentos, chegou a provocar profundos rompi-
atuavam há anos foram se afastando, criticando o grupo que atuava
mentos, inclusive pessoais. O mais complicado nisso tudo é que, ao

:'EIFHE=lil=KHI,$=Eãj;H$::'s
mesmo tempo em que colegas apoiadores do governo iam se afastan-
do, outros, que sempre estiveram ligados à reitoria e aos governos
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158
Waldir José Rampinellie Nildo Ouriques
(Organizadores) Reflexão sobre a universidade contemporânea

de direita, passaram a se aproximar do sindicato«azendo um uso muitos debates,semináriose longa âoi a batalhapara que a maio-
instrumental da posição de crítica ao Lula. Por outro lado, os reito- ria dos técnicos-administrativos compreendessea importância de se
res que se seguiram, e que sempre mantiveram uma política de apoio estar articulado em nível nacional numa central. Por isso, colocar
aos governos, também passaram a apoiar as medidas do governo pe' a pauta da desfiliação âoi igualmente bastante confuso para alguns.
tinta. Este tipo de coisa causava uma tremenda confusão na cabeça Aütnal, essa proposição vinha de um grupo de esquerda. Ocorre que
dos trabalhadores. Muitos não entendiam como era possível fazerem durante a greve de 200s, contra a reforma da Previdência, a CUTjá
praticamente o mesmo discurso, na macropolítica, pessoas ligadas à havia dado mostras de sua completa sintonia com o governo Lula,
reitoria (de direita) e os que faziam oposição (esquerda). E, atéos dias em muitos momentos fazendo blindagem ao mesmo. Além do que, a
de hoje, ainda parece ser bastante difícil estabelecer a diferença entre Central nunca se envolvera com profundidade nas questões ligadas
uma crítica desde a esquerda e a crítica de direita. aos trabalhadorespúblicos.Então, por conta da aceitaçãoda pro-
Apesar de todos estes problemas e incompreensões, lideranças posta de reforma por parte da CUI', os trabalhadores então em luta
importantes dos técnicos-administrativos como José de Assis, Mar- decidiram criar um espaçode nível nacionalque pudessearticular
cos Borges, Raquel Moysés, Jussara Godos, Rodrigo Borges, Elaine as mobilizaçõesem todo o país. Foi quandosurgiu a Coordenação
Tavares, Vanilde Gerânimo, Valquíria Peixoto, Liane Fredo, entre Nacional de Lutas, a Conlutas, e a partir daí seguiu-se um lógico
outros, coram incansáveis no debate pela autonomia, pela recupera- combate contra a política cutista que era de adesãocega ao governo
ção de direitos, contra a lógica neoliberal, mas, ao mesmo tempo, de Luas Inácio. No Sintufsc, a proposta de desnlliaçãode uma central
tiveram de sofrer o embate com aqueles que diziam que os mesmos, que não estava mais atendendo aos anseios dos trabalhadores üoire-
ao criticarem o governo, faziam o jogo da direita, fato que o grupo ação natural. Mas, como já estava dada a divisão entre as corças de
nunca admitiu, por não ser verdade. A crítica sempre foi feita desde esquerda, essa não $oi uma decisão fácil. Ainda assim, o sindicato da
a esquerda, sem deixar de ver e reconhecer os importantes ajustes fi- universidadecatarinense 6oi um dos primeiros a sair da central no
âmbito das universidades nacionais.
nanceiros que o governo üoiobrigado a dar aos trabalhadores, no ano
de 2005 para os de nível de apoio e médio, e em 2007 para os do nível Não bastasse o confronto travado em nível nacional contra as
superior. Porquê, afinal, nada aconteceu sem luta. Se hoje os contra- políticas neoliberais do governo Lula, os trabalhadores viveram,
cheques estão vindo com salários dignos, foi fruto de toda esta luta localmente, outras batalhas bastante duras, sofrendo inclusive um
que nunca arrefeceu,apesar de todos os embatesinternos vividos processo de criminalização do movimento de luta. Em 2005, ano de
nas entranhas das universidades e da Federação. SÓ que esse grupo mais uma greve, durante uma luta interna que juntou professores,
também sabia que não basta um gordo contracheque, é preciso que técnicos e estudantes na defesa de seus interesses, uma sessão do
haja uma universidade capaz de construir a democracia participativa, Conselho Universitário acabou com a Polícia Federal ocupando o au-
que se comprometa com a realidade nacional etc. A luta que envolve ditório da reitoria. Nessa reunião, que discutiria uma pauta acertada
a macro-política também precisava ser feita, e o foi. anteriormentepelas três categoriasjuntamente com o reitor Lúcio
IJm dos pontos cruciais deste embate no Sintufsc üoia desfiliação Botelho, os conselheiros decidiram não cumprir o pacto firmado de
da Central Unica dos Trabalhadores. Ao longo do processo de luta votar a elevação do valor das bolsas e os estudantes decidiram fazer
dos trabalhadores, desde os anos 80, por conta da face conservadora um ato de protesto. O acordo acertara que o Conselho iria apreciar
da universidade,6oi um parto difícil garantir a Hlliaçãodo sindicato dois pontos de pauta de cada categoria, dando prioridade à questão
a uma central de trabalhadores que pudesse assegurar politicamente das bolsas de estudo e, justamente por isso, a sessão estava lotada.
as batalhas nacionais. Para se biliar à CU'l:, o sindicato precisou de Com a intervenção da Polícia Federal, chamada pela reitoria, a luta
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Crítica à Razão Acadêmica
Waldir José Rampinelli e Nildo Ouriques
(Organizadores) Reflexão sobre a UDi\reFsidadecontemporânea

6oi criminalizada. Vinte e dois estudantes 6oraDl--denunciados sob a combatida e sua efetivação só não se deu porque o equipamento com-
alegação de que mantiveram os conselheiros e o reitor sob "cárcere prado para isso não cumpriu exigências legais.
ivado". Alguns deles fizeram acordo na justiça e outros não. Esses Assim, todo o processo iniciadopelo grupo de um pensamento
últimos seguem respondendo a processo criminal. Além disso, os es- mais avançado na UFSC, desde os anos 70, que culminou nos anos
tudantes indiciados também sofrem processo administrativo dentro 80, recuperando-se na metade dos anos 90, voltou ao ponto de par-
da UFSC e, mesmo já formados, ainda correm o risco de perderem tida. As práticas não são exatamenteas mesmas da velha Asufsc,
seus diplomas. Cinco trabalhadores técnico-administrativossofre- mas as comparações são inevitáveis. A divisão da esquerda e o cha-
ram inquérito administrativointerno (Raquel Moysés, Elaine Tava- mado crescimento económico promovido na era Lula deram o caldo
res, Valquíria Peixoto,Ângela Dalri, José de Assim)e dois deles(José para o amansamento das lutas e a ascensão de velhas práticas, que se
de Assim e Elaine Tavares) foram intimados a prestar depoimento na pensavam ultrapassadas. No que diz respeito ao tensionamento en-
Polícia Federal, acusados de terem incitado os estudantes. Tanto na tre o trabalho intelectual (professor) e o prosaico (técnico), as coisas
UFSC quando na PF os processos foram arquivados, mas foi preciso tambémpioraram, e não s6 na relação com os docentes,mas entre
muito ir e vir de advogado se Sintufsc para se resolver a questão. os próprios técnicos. Desde 2008 os trabalhadores de nível superior
No ano de 2009, por conta de todo o processo de confusão criado (os que estão em cargos que exigem curso de graduação) iniciaram
pela divisão entre a esquerda, congregado ao sempre bem azeita- um processo de divisão intraclasse, chegando a criar uma Associação
do sistema coronelista da universidade, o sindicato voltou para as Nacional de Trabalhadores de Nível Superior (ITENS). Desde aí
mãos da velha e nova direita, ou dos aliados da reitoria. Aquele que fazem suas discussões de forma separada dos demais trabalhadores,
era um "sindicatode luta" passoua ser designadocomo "sindicato e até buscam negociações com o governo, totalmente desconectados
para todos", significativamente o mesmo slogan do governo Lula. A das lutas gerais da universidade. Isso aprofunda ainda mais a divisão
diretoria suprimiu a cor vermelha pela verde, e o sindicato perdeu na categoria dos técnicos-administrativos e enfraquece sobremaneira
radicalidade e combatividade. Aliou-se aos tempos de desconstrução, a luta pela manutenção da universidade pública, assim como a luta do
cooptaçãoe desmonte dos movimentos sociais''. Hoje, o sindicato conjunto dos trabalhadores. Ao final do ano de eo l i, as perspectivas
são bastante sombrias.
da UFSC retomou, em certa medida, os mesmos velhos hábitos da
antiga Asufsc, com a proliferação de festas e pouquíssima combativi-
dade. O debate, quando acontece, é muito pobre e sem consistência. Bibtiogr(IPa
No campo interno não há crítica, o próprio jornal da entidade, assim PINTO, Álvaro Vieira.A questão da Universidade. SãoPaulo:Cor-
como a página na internet, assemelham-se a peças de propaganda. tez Editora, 1986.
A reitoria não sofre qualquer crítica, ainda que promova um avas- RAMPINELLI, WaldirJosé,ALVIM, Valdir,RODRIGUES, Gilmar
salador ataque contra a qualidade de vida no trabalho ao implantar (Org.). Universidade: a democracia ameaçada. São Paulo: Xamã, 2005.
novas práticas organizacionais sem a devida estrutura e capacitação,
RAMPINELLI, Wãldir José. O Preço do Voto -- Os bastidoresde
provocando tamanho estresse que os trabalhadores se veem envolvi-
uma eleiçãopara reitor. Insular: Florianópolis, 2004.
dos em doenças laborais e afastamentos. Igualmente a decisão da ad-
ministração central de implantar um ponto eletrânico 6oifracamente SINTUFSC. Corpo de Luta. Florianópolis: Sintufsc, 2005.
SOHN RETHEL Alfred. Trabajo manual e trabajo intelectual
11 Ver texto: O Brasil está na retaguarda da América Latina, onde faço uma análise dos una revoluci6n en el ambito de la filosofia marxista. Bogotá: EI viejo
movimentos sociais no Brasil' http://wwwiela.ufsc.br/?page=noticias.visualiza-
cao&id = 1702 Topo, 1980.
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MOVIMENTO OOCENTE NA UFSC
OS LONGOS ANOS OITENTA

Em memória dos Pr(!fêssores


Os.oatdo Made! e Raut Guenttwt

Cêtio Espíndola'
Marli .4vraf

1. Ditadura militar: a mordaça sobrea Uni'uersidade-- aÍ)autos po-


líticos, ixstitu.cionais, militares e ideológicos.
A ditadura militar, implantada pelo golpe de 1964,tratou de,
com invulgar presteza, assinar convênios de assistência técnica e po-
lítica com vistas à reorientação do sistema educacional brasileiro, no
âmagodo Acordo MEC-USAID Ministério da Educação e Cultu-
ra/United States Agency âor International l)evelopment. A maior
parte desses convênios foi firmada entre meados de 1964 e início de
1968. Essa "ajuda externa" contou com o a6lncode Rudolf Atcon,
membro da AID e consultor do MEC. No início dos anos 60 Atcon
visitou várias universidades do país, dentre as quais a UFSC -- Uni-
versidade Federal de Santa Catarina. Nesta considerou ter verificado
uma "grande novidade (-.) no que se diz respeito a um sistema ad-
ministrativo verdadeiramenre modelar. Em Florianópolis encontrei
a solução administrativa para as universidades brasileiras"'. Atcon

1 Professor aposentadodo Centro Sócio-Económico da UFSC.


2 Professora aposentada do Centro de Ciências da Educação da l.JFSC
3 SANTOS, Kennya Souza, 'A UFSC sob o regime militar: do Centro de Estudos
Básicos aos Movimentos Estudantis", in Roselane Neckel e Anta D.C.Küchler(Orgs.),
UFSC -- 50 anos, Trqjetórias e Desafios, UFSC, Florianópolis, 2010, p. 41
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Waldir José Ralnpínelli e Nildo Ouriques Crítica à Razão Acadêmica
(Organizadores) Reflexão sobre a universidade contemporânea

avaliou a UFSC como "um local promissor". Por conta disso, em a educação tem a ver, portanto, com a necessidade de desacelerar o
] 967, em convênio com o CjlUB -- Conselho de Reitores das Uni- desenvolvimento económico-social voltado para as nossas próprias e
versidades Brasileiras (então presidido pelo reitor da UFSC, João históricas exigências públicas, ou seja, para as imensas demandas das
David Ferreira Lima) e custeado pelo MEC, üoirealizado na UFSC o maiorias brasileiras.
Curso de Aperfeiçoamentodo PessoalAdministrativo das Universi- A ditadura militar tudo Êez para quebrar o ímpeto dos movimen-
dades Brasileiras. Em 1971, como expressão da continuidade de seu tos sociais que buscavam impedir sua ação. O movimento estudantil,
exemplar alinhamento à política governamental, o campus foi palco vanguardada luta contra a opressão,esteveno centro da atuação
do Seminário Internacional de Administração Universitária, em con- governamental logo após 1964. Em 1966, a UFRJ -- Universidade
vênio com a FUPAC - Fundação de Universidades Privadas da Amé- Federal do Rio de Janeiro é invadida por corças policiais, resultando
rica Central. O BID -- Banco Interamericano de Desenvolvimento, a em centenas de estudantes agredidos, laboratórios destruídos, vá-
OEA -- Organização dos Estados Americanos e a USAID estiveram rias outras instalações depredadas. Os discentes protestavam contra
representados no evento'. as proibições de atividades políticas em suas organizações, contra
As "recomendações" de Rudolf Atcon assentadas no mode- o fechamentoda UNE União Nacional dos Estudantes, contra o
lo empresarial coram fundamentaispara a definiçãoda Reforma aumento do preço das refeições. Lutavam pelo fim da cobrança de
Universitária (im)posta em novembro de 1968 (Lei n. 5540). Como anuidades, pela reabertura do Calabouço (restaurante universitário),
pano de fundo, o mote Brasil Grande, a exigir retorno a curto pra- pela libertação de estudante preso. Tal episódio, pelo seu protago-
zo e presteza no atendimentodas demandasdo crescentemercado nismo e virulência, passou a ser conhecido como Massacre da Praia
de trabalho. Trata-se da construção de uma universidade utilitaris- Vermelha.
ta, estruturada de modo a seguir os princípios da racionalidade, da Especialmente o ano de 1968 ficará marcado em nossa história
eülciênciae da produtividade, fundamentais no mundo capitalista. A pela sucessão de fatos políticos ligados ao acirramento da ação re-
educação é vista como negócio, o que implica enfraquecer as ciências pressiva do governo militar. Em março, no centro do Rio de Janeiro,
humanas e sociais, a filosofia. Ocorre o íim da cátedra, a criação de ocorre a invasão do Calabouço, em resposta à manifestação estudantil
carreira docentesde conselhos, a departamentalização. Surge uma contra o aumento do preço das refeições. O movimento foi duramen-
nova organização curricular e mecanismos de controle docente e dis- te reprimido pelas corças policiais. O estudante secundarista Edson
cente. A preocupação com a diminuição dos custos da universidade é Luís de Lama Souto é morto com um tiro à queima roupa. Poucas se-
substrato para, com autonomia, trans6ormá-la em fundação privada, manas após, emjunho de 1968, também na cidade do Rio, ocorre uma
na esteira da política de privatização da educação (menos verbas e grande manifestaçãopública,a Passeatados Cem Mil, organizada
mais controle). Instituições de ensino superior particulares passam pelo movimento estudantil, com participação de artistas, intelectuais
a brotar profusamente pelo território nacional, reivindicando subsí- e outros setores da sociedade brasileira. À frente da multidão, uma
dios governamentais para a sua manutenção. enorme faixa com os dizeres 'Abaixo a Ditadura, o Povo no Poder:
Em suma, não há dúvida de que no cerne do Acordo MEC- Em agosto, lideranças estudantis são detidas. Em outubro, mais de
USAID está o compromisso com a desnacionalizaçãoda educação quatrocentos estudantes são presos durante o Congresso clandes-
brasileira, em atenção aos desígnios da economia internacional, so- tino da UNE, em lbiúna/SPI Ao longo desse ano, pipocaram Brasil
bretudo das grandes corporações estadunidenses. O aBade privatizar adora manifestações estudantis contra a ditadura militar.
Em consonânciacom tais ocorrências,o deputadoMárcio Mo-
4 Idem, ibidem, p. 41-42- reira Alves, em discurso na Câmara Federal, pede ao povo brasileiro
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Waldir José Rampinelli e Nildo Ouriques Crítica à Razão Acadêmica
(Organizadores) Reflexão sobre a universidade contemporânea

que boicote as comemorações relativas ao dia 7 de setembro ( 1968). a espada d0 477 na mão, o então ministro alardeava que "estudante
A Câmara nega licença para que o governo militar processeAlves. era para estudar e professor era para ensinar, não para fazerem po-
Em represáliae para estancar,a ferro e fogo,quaisquermanifesta- lítica
ções em território nacional contra os desígnios da ditadura militar, Em 1973ocorre a morte de Alexandre Vannucchi Leme, estu-
Costa e Silva, em 13-12-68,assina o Ato Institucional n. 5. A partir dante da USP Universidade de São Paulo, nas dependênciasdo
de então, dada a virulência deste expediente, instaura-se entre nós o DOl-CODI Destacamento de Operações de Informações - Centro
que a história recente passou a nomear como "os anos de chumbo' de Operações de Defesa Interna, então preso pela Operação Bandei-
Como determinações mais importantes do Al-5, podemos citar rantes. Dias após, Dom Paulo Evaristo Arns, Arcebispo de São Pau-
a imposição do recesso da Câmara dos Deputados, das Assembléias lo, destemidamente,celebra missa na Catedral da Sé em intenção ao
Legislativas e das Câmaras Municipais, uma vez que o Executivo estudante morto, na presença de cerca de cinco mil pessoas.
federal passaria a assumir o poder desses níveis legislativos; a sus- Sob a égide do Al-5, emblemático da ditadura militar, a escala-
pensão dos direitos políticos de qualquer brasileiro por dez anos; a da da violência continua. Em 24-10-75, 'Wladimir Herzog, profis-
cassação de mandatos de deputados federais, estaduais e vereado- sional conhecido e respeitado, diretor de jornalismo da TV Cultu-
res; a proibição de manifestaçõesde caráter político; a suspensão ra de São Paulo e professorda Escola de Comunicaçãoe Artes da
do direito de "habeas corpus"; a censura prévia aos jornais, revistas, USR é convocadopelo ll Exército para prestar depoimento sobre
livros, músicas e peças de teatro. O peso do Al-5 estendeu-sepor suas ligações com o PCB -- Partido Comunista Brasileiro. No dia
longos dez anos, sendo revogado apenas em 1978, durante o gover- seguinte, é encontrado enforcado com sua própria gravata, ao rés do
no Geisel. chão. "Suicídio", segundo registro oficial. A morte de Herzog, deito
Poucas semanas após o Al-5 vir à tona, Costa e Silva assina o um rastilho de pólvora, gera onda de protestos internacionais pelo
Decreto-Lei 477, em 26-02-69, que trata de levar o garroteamen- 6im da ditadura militar. Pouco após, a violência sem peia é repetida.
to daquelepara dentro das universidades.Assim, o 477 deHlnein- Em 16-01-76, Manuel Fiel Filho, operário metalúrgico, é preso por
frações disciplinares consideradas subversivas praticadas por pro- agentes do DOl-CODI também sob a acusação de ter ligações com
fessores, alunos e técnicos-administrativos de estabelecimentos de o PCB. No dia seguinte, segundo registro o6lcial,é encontrado en-
ensino públicos ou particulares, determinando rito sumário para forcado com suas próprias meias;mais um caso de "suicídio". Aco-
demissões e desligamentos; considera infração disciplinar participar bertadas pelas leis de exceção, a virulência e a arrogância das ações
de paralisação da atividade escolar e de organização de eventos não militares sequer precisavam expressar a menor preocupaçãopara
autorizados, de confecção de material subversivo, de prática de ates com a verossimilhança.
contrários à ordem pública ou à moral, do sequestro de pessoas e da Em contraposição às precárias condições de vida das maiorias,
prática de atentados contra o património das universidades. Ou seja, surge a Teologia da Libertação, no Hlnaldos anos 60, no continente
por este decreto, estudantes e professores são transformados em re- latino-americano, anunciando sua "opção preferencial pelos pobres'
féns da ditadura militar, uma vez que as universidades apareciam Ao ver o desvalido não como obUetode caridade, mas como sujeito de
como robustos cocos de resistência. O movimento estudantil atuava sua própria libertação, esta teologia cria as pastorais a partir das co-
como vanguarda de luta contra o regime e os militares viam crescer munidades eclesiais de base. Nelas, os cristãos subalternos se reúnem
inclusive o risco de luta armada. Jarbas Passarinho, que assumiu o para articular fé e vida e,juntos, se organizam em busca de melhores
MEC meses após a expedição d0 477, considerava que este decreto condições de vida, passando a atuar diretamente no movimento so-
surgira para fazer frente às guerrilhas tidas comojá em curso. Com cial. Nessa vivência comunitária, solidária e participativa, ao expres-
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\Nalclir José Rainpinelli e Nildo Ouriqtles Crítica à Razão Académica
(Organizadores) Reflexão sobre a universidade contemporânea

sar combatividade política, os subalternos buscam ser protagonistas gada e de saída. Próximo às salas de aula, havia a saleta de um fun-
de seu próprio processo de libertação. cionário cujo trabalho era, como um inspetor, vigiar a disciplina dos
No Brasil, a Teologia da Libertação teve presença forte, graças alunos e professores. No prédio da reitoria, vizinha ao gabinete do
à atuação, por exemplo, de alguns de seus expoentes, como Leonardo reitor, havia a sala da Assessoria de Segurança e Informação -- ASI,
BoH'e Dom PauloEvaristo Arns. A PUC-SP -- PontifíciaUniversi- braço do Serviço Nacional de Informação -- SNI, deixando escanca-
dade Católica de São Paulo, sob a jurisdição de Dom Paulo, na noite rada, sem pqo, a presença dos tentáculos repressores da ditadura mi-
de 22-09-77, foi brutalmente invadida pela polícia militar paulista, litar no interior da própria cúpula da Universidade Federal de Santa
comandada pelo coronel Erasmo Dias, porque nela havia acabado de Catarina. Ferreira Lima, reitor longevo (de 1961 a 1972), afirmava
ocorrer o 111Encontro Nacional de Estudantes-- ENE, cujo maior em discurso sua confiança na ação das Forças Armadas, que, segundo
objetivo era reorganizar a UNE, então na ilegalidade. Proibido pela ele,"o povo aceitou para salva-lo do caos", de modo a impedir a nossa
ditadura militar, esse Encontro já havia sido impedido de ser reali- 'escravidão política, a nossa subserviência ideológica, o nosso esma-
zado dias antes em Belo Horizonte e na USP Cenas de selvageria, gamento económico"'. Assim, a ASI atuou para valer, não apenas du-
alunos agredidos, salas e documentos destruídos, dentre outras atro- rante o período Ferreira Lama, mas também nos seguintes, ao longo
cidades. Cerca de setecentos estudantes foram ülchadose trinta e sete dos anos 70. Não bastava tirar o primeiro lugar em concurso público
enquadrados na Lei de Segurança Nacional. para o ingresso no quadro docente da UFSC, era preciso, antes de
No final de outubro de 1979,no início de uma greve operária tudo, passar pela triagem da ASI, que não hesitava em promover ver-
por melhoria salarial, definida numa assembleia com cerca de seis mil dadeiras cassações brancas entre os concursados. O caso Gerânimo é
trabalhadores presentes, Santo Dias da Sirva, do comando de gre- exemplar'. Lideranças estudantis eram perseguidas e mesmo presas,
ve, é morto pela polícia militar num piquete de fábrica. Ligado às como ocorreu com feitor Bittencourt, em 1968, então presidente do
comunidades eclesiais de base, havia participado da coordenação do DCE. Em 1975,por ocasiãoda Operação Barriga Verde, quarenta
Movimento Custo de Vida entre 1973-78e em 79 integrava a Opo-
5 RODRIGUES, lcles, 'H. UFSC na década de 1960: outras histórias...". in Roselane
sição Sindical MeJ:alúrgica de São Paulo, que lutava pela mudança da
Neckel e Anta D.C.Küchler (Orgs.), Op. Cit., p. 8 1
estrutura sindical, que deveria ser independentedo Estado e organi- 6 Gerânimo Wanderley Machado, do Partido Comunista Brasileiro, estudante dos
zada a partir de comissões de fábrica. cursos de Economia e de Direito da UFSC, teve sua candidatura (bem como a de toda
a chapa) à presidência do DCE -- Diretório Central dos Estudantes, em 1969, cassada,
Fundada em 1960, a IJFSC estava saindo da adolescência, num ou sqa, considerada inelegível em resposta as "informações do SNl", pelo Conselho
contexto marcado pela corte presença do autoritarismo. A estrutura Universitário presidido pelo reitor Ferreira Lima, com a concordânciade todos os
presentes, exceto da representação discente. Tal fato abriu as portas para a eleiçãodo
básica do campus ainda estava em construção nos anos 70 (seguindo estudante Rodolâo Pinto da Luz, que, mais tarde, viria a ser reitor da IJniversidade
recomendaçõesde Atcon) e a arquitetura de então se caracterizava por três gestões.Em ]979, Gerânimo 6oiaprovado em primeiro lugar em concurso
pela disseminação da ausência de auditórios, ou seja, pela inexistên- público para professor do Departamento de Ciências Económicas. Trabalhou durante
o primeiro semestre sem receber um centavo e, em agosto daquele ano, âoi demitido
cia de espaços coletivos para as grandes reuniões, para a prática dos pelo reitor Caspar Eric Stemmer e sua "entourage". O professor Gerânimo não foi
debates. O auditório da reitoria 6oiconstruído terra adentro, apre- beneficiadopela anistia porque seu processo, que veio do MEC, sumiu dos escaninhos
sentando-sede modo sombrio, escondido. Estávamos sob a égide do do reitor. Em 1988, em outro concurso público e mais uma vez na primeira colocação,
Gerânimo, enfim, pede ingressar na UFSC como professor do Centro Sócio-
silêncio,do tacão d0 477, do "cumpra-se". Na entrada dos departa- Econâmico. Não havia mais clima para cassação. Ver IJNIVERSIDADE FEDERAL
mentos do Centro de Ciências da Educação - CED, por exemplo, ha- DE SANTA CA:l'CRINA, ConselhoUniversitário,Florian6polis. Ata da sessão
realizada em 80 de agosto de 1969, Livro 8, p. 111;NODARI, E.S. et all, Luta e
via o livro do ponto, de modo que, diariamente, pela manhã e à tarde, Resistência -- APUFSC, 20 Anos, Editora da UFSC, Florian6polis,1996,p. 106;
os professores tinham que assina-lo e registrar cada horário de che- Revista Plural, APIJFSC SSind., n. 6, An0 4,ago/dez -- 1995,p. 17-20.
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INaldir José Rampinelli e Nildo Ouriques Crítica à Razão Acadêmica
(OI'ganizadores) -----. Reflexão sobre a universidade contempol'ânea

e duas pessoas coram presas em Santa Catarina, acusadas de per- termédio vossência vg clima tranquilidade et trabalho progressis-
tencerem ao PCB'. Nessa varredura, as forças repressoras militares ta realização êste ano vg graças restabelecimento principio ordem
percorreram inclusive, sem problemas, o próprio campus da UFSC, et autoridade que permitiu professores et alunos cumprissem suas
e nele trataram de prender e encapuzar Marcos Cardoso Filho, es- missões sem movimento subversivos que tanto prqudicaram mo-
tudante de Engenharia Elétrica e professor do Colégio de Aplicação. cidade brasileira pt ConHlanova orientação imprimida Ministério
Outro estudantedo Centro Tecnológico,Vilson Rosalino,também Educação (...)"'.
procurado no cízpnPzzs,conseguiu ser imediatamente escondido por Como se percebe, o autoritarismo não vinha só de cora para den-
seus colegas e, após uma pronta articulação, teve a oportunidade de tro da UFSC, como imposição. Ele estava vivamente presente nas
sair do Brasil e viver por anos na França, na condição de exilado entranhas da própria Universidade, como posição, como visão de
político. Essa Operação prendeu jovens e vários outros estudantes mundo, sobretudo de dirigentes, cujas ações tinham claramente a ver
da Universidade (como Cirineu Martins Cardoso, Vladimir Amaran- também com a reprodução do mando das oligarquias catarinenses''.
te, Sérgio Giovanella,Roberto Motta, Alécio Verzola). Todos coram
torturados, sendo que alguns ülcaramseis meses encarcerados e ou- 2. Crise do sistemacaPitalish e da ditadura militar, retomadados
tros por mais de um ano. mouimextospolítico- sociais.
A UFSC cresceu assim, à sombra da ditadura militar. Em seus O enfraquecimentoda ditadura militar está associadoao quadro
primeiros anos, a sede da Universidade, a reitoria, localizava-se na internacional de crise estrutural do capitalismo, agravado pela ele-
Chácara Molenda, na rua Bocaiúva, numa área privilegiadíssima, vação do preço do petróleo (os choques de 1973 e 1979) e das taxas
próxima ao centro de Florianópolis, que havia sido adquirida para de juros determinadaspelo governo dos Estados Unidos (de 1979
tal nlm.Primeira instituiçãoa fazer a Reforma Universitária e de até os anos 80), provocando a grave crise do endividamento que se
braços dados com a ditadura, quando a reitoria üoitransferida para aprofundaentre 1981/82em todo o Terceiro Mundo. Ela estoura
o campus localizado no bairro Trindade, em 1970, o Conselho IJni- primeiro no México, a seguir no Brasil, na Argentina e muitos ou-
versitário aprovou a entrega, de "mão beijada", do rico património tros países,quandocessamos fluxos de recursos para rolar o paga-
da Bocaiúva para o Exército ali instalar um quartel, o Comando do mento da dívida, ao mesmo tempo em que caem todos os preços das
Grupamento Leste'. Nada a estranhar,pois esse mesmoConselhojá matérias-primas de exportação, implicando numa crise de balanço
havia aprovado, na sessão extraordinária de 29-03-65, presidida por de pagamento. Agravam-se os problemas de desemprego, de arrocho
Roberto Mündell de Lacerda, o envio de um telegrama ao Ministro salarial (principalmente dos trabalhadores do Estado), de concen-
da Educação e Cultura recomendando que fosse transmitido ao Se- tração de renda, de redução ainda maior dos gastos sociais, entra
nhor Presidente da República,em "comemoraçãoprimeiro aniver- em falência o sistema Hlnanceiro da habitação que 6lnanciava casas e
sário revolução brasileira". O texto (todo transcrito em caixa-alta apartamentos para a classe média (que se privilegiava das políticas
na ata da sessão correspondente)afirma que "Universidade Santa
Catarina vg pelo seu Conselho Universitário vg hoje reunido et por 9 UNIVERSIDAI)E FEDERAL DE SANTA CATARINA, ConselhoUniversitário.
unanimidade vg quer testemunhar Govêrno Republica vg por in- Florianópolis, Ata da sessão realizada em 29 de março de 1965, Livro 2, 1965,p.
284
10 Para saber sobre a importância da UFSC, já em seus anos inaugurais, no processo de
7 Ver MARFINS, Celso. Os quaüo cantos do sol: Operação Barriga Verde, Editora modernização do governo/ Estado de Santa Catarina, ver SILVEIRA, José Cardos
da UFSC/Fundação José Boiteux, Florianópolis, 2006. da, Gênese do ensino superior de Geografia em Santa Catarina: da Faculdade
8 Depoimento do professor Sílvio Coelho dos Santos, in Revista Plural, APUFSC -- de Filosofia à Universidade Federal (1951-1962), Dissertaçãode Mestrado em
SSind., n. 6, p. 12-15. Educação, UFSC, Florianópolis, 2004
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Crítica à Razão Acadêmica
VValdir José Rampinelli e Nildo Ouriques-""
(OI'ganizadores) Reflexão sobre a universidade contemporânea

de crescimento e concentração de renda, estruturadas pela ditadura triagem das lideranças operárias,jogando-as no olho da rua). O mo-
militar, em troca de apoio político). vimento operário sente o peso da bota militar e da burguesia, num
processo político em que crescentemente ganha corpo o movimento
A partir da segunda metade da década de setenta, a classe ope'
Faria, inicialmente nos maiores centros do país, recomeça a sua or- civil integrado por várias classes(inclusive parte da burguesia) que
vai tirando a classe operária do seu centro. Coincidência ou estra-
ganização,luta e parte para as greves a fim de recuperar as perdas têgiar
salariais, por melhores condições de trabalho, a reaülrmar enFImseus
direitos económicos e políticos. A luta dos trabalhadores se amplia Na medida em que esses movimentos tomam corpo, engrossa a
com o movimentocontra a carestia, liderado pelas mulheres dos oposição política ao regime (PMDB e militantes políticos de partidos
operários, com os movimentos sociais de base mais concentrados na e organizações "clandestinizados"), com críticas duras à concentração
região do ABC paulista'', mas que se expandem para outros estados de renda, à desnacionalização da economia, à carestia, à ampliação da
com expressivas concentrações operárias, espraiando também para miséria no campo e na cidade, à matança de presos políticos (que
o meio rural com os plantadores/cortadoresde cana-de-açúcarno culmina com a morte de Wladimir Herzog, cujo protesto invadiu as
Nordeste. Novos sindicatos são criados a partir das lutas operárias, ruas de São Paulo e Rio de Janeiro, tendo corte eco internacional), à
cora da linha peleja então vinculada ao sistema e do pouco que res- tortura de presos políticos Brasil adora.Cresce a luta pela anistia e
tava de outros setores da esquerda. Surge o novo sindicalismo e com pelo retorno dos banidos que se encontram exilados no exterior.
ele a Central Única dos Trabalhadores - CU'l', organizada e liderada A ditadura militar dá sinais de divisão interna com a disputa
pelas correntes mais combativas. pelo poder; surge um grupo mais brando representado pelo general
A contrarreÊorma agrária no campo privilegia o grande capital Euler Bentes (articulado com próceres do MDB), que se candidata
internacional (com todo o pacote da revolução verde e seu financia- à presidência da República na eleição indireta de i978, mas é derro-
tado pelo general Figueiredo. Na medida em que a crise económica
mento), poderosos fazendeiros e estancieiros, jogando milhares de fa-
mílias das áreas de tensão por reforma agrária para as áreas ao longo brasileira se aprofunda no início dos anos oitenta, quando se genera-
da Transamazânica e para a colonização no Centro-Oeste. liza como crise mundial do capitalismo, os apoios à ditadura militar
O movimento operário ganha centralidade no processo político dentro e cora da sociedade brasileira vão se bandeando, passo a passo,
até o momento em que a ditadura militar, nas suas últimas tentati- para o outro lado, engrossando estrategicamente a massa conser-
vas de reação, prende, em 1981, os principais líderes sindicais, sendo vadora que, a seguir (1984 -- Nova República),iria assumir o poder
Lula o expoente máximo. Nesse momento, o conflito sindicalismo -- civil, com Sarney na presidência (após a morte de Tancredo Neves
ditadura militar ganha status de crise política, quando os partidos de no Hospital das Clínicas de São Paulo), evitando assim as eleições
oposição, através de seus líderes (alguns resistentes à ditadura desde diretas, não obstante o grito cívico das ruas pelas "Diretas jái".
sempre, outros anistiados), passam a engrossar o movimento social
3. Nascimento do mouimenh docente.
pelas "Diretas jái" de governo civil e por uma Constituinte. Avança a
crise económica, com profundo desemprego (inclusive seletivo pela O movimento docente - MD rapidamente se estruturou na
ação das grandes multinacionais e empresas nacionais que fazem a forma de associaçõesde professores, algumas (como a APUFSC)
conquistadas eleitoralmente das mãos de docentes que delas faziam
1 1 Sigla que se refere as três cidades que constituem a região industrial de São Paulo, pontos de encontros, de bestas e de viagens por conta da arrecadação
primeiro centro da indústria automobilísticabrasileira: Santo André(A), São de contribuições dos associados e que também, a partir delas,
Bernarda do Campo (B) e São Caetano (C). Berço do PT e da ascensãopolítica de
Lula participavam do jogo político para a ocupação de cargos na Reitoria.
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Crítica à Razão Acadêmica
Waldir José Rampinelli e Nildo Ouriques Reflexão sobre a universidade contemporânea
(Organizadores)

desse esbanjamento e das taxas de juros que coram elevadas propo-


Outras (como a ADUSP) surgiram como expressão de amplo protesto sitalmente pelo governo estadunidense e pelos banqueiros interna-
docente contra a repressão, as arbitrariedades policiais, a presença da
cionais, impôs ao estado brasileiro uma crise financeira de enormes
ditadura. Ao ganhar em pouco tempo dimensão nacional, surge no
proporções, à qual até hoje tudo está atrelado, agravando o quadro
MD a necessidade de uma representação nesse âmbito; nasce, assim, a
de crise económica que vinha se arrastando desde os anos sessenta.
ANDES --Associação Nacional de Docentes do Ensino Superior, que
As consequências de tudo isso vieram com outras imposições feitas a
mais tarde incorporará os movimentos de universidades e faculdades
partir dasdeterminaçõesdo Fundo Monetário Internacional- FMI/
particulares. A expansão do movimento 6oi meteórica, assim como Banco Mundial e o grupo G-7 dos países dominantes(Estados Uni-
o nascimento de várias lideranças no seu interior, que se tornavam
dos, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá), nos
representantes importantes dos docentes de cada universidade em
planos cambial, creditício, fiscal, no papel do Estado, que se pode
todoopaís. . .
resumir nos seguintes pontos que influenciaram nessas três últimas
Quais os motivos que fizeram com que uma categoria profissio-
décadas a vida de toda a nação brasileira, em particular a das classes
nal cuja maioria nunca tinha enfrentado uma situação de greve, (]ue
subalternizadas: endividamento crescente do Estado (ou seja, da so-
apresentava um medo generalizado da ditadura (e. quantos .Enham
ciedade) com a estatização da dívida privada, transformando a dívida
até mesmo a apoiado?), porque profissionais que ainda assumiam a
externa privada em dívida externa e, na sequência,dívida interna
função docente como uma espéciede sacerdócio, que eram dirigidos
pública; favores fiscal, creditícia, cambial e monetário ao grande ca-
por feitorias eleitasviajogo interno de grupos, que tinham seus che
pital, em especial aos exportadores de matérias-primas, de produtos
fes de departamentos e coordenadores de cursos designados de cima
agrícolas e pecuários, em um esforço para cobrir pelo menos os juros
para baixo e pela usual prática de passagem do bastão entre os seus
da dívida externa; cortes dos gastos públicos,entre eles o investi-
pares, porque tantos professores novos (que talvez se orgulhassem
mento produtivo e os gastos sociais em amplos setores (saúde, edu-
re ocupar a função de Auxiliar de Ensino, a maioria em tempo parcial
cação, habitação, saneamento básico, infraestrutura de transporte,
e com salário irrisório) passaram gradativamente a entrar numa reu'
etc.); redução dos gastos com ensino público e arrocho salarial sobre
dão de Centro; numa assembleia convocada pelo MD para discutir
docentes e técnico-administrativos das escolas de todos os níveis de
uma pauta que tinha a ver com sua rotina cotidiana, numa algazar-
ra de discussão fervorosa, politizada por lideranças que estavam a ensino, arrocho que vinha se acumulando desde 1964 (em 1984, os
salários correspondiam a 'y4do recebido vinte anos antes); a privati-
emergir frente aos seus nanzesr . , :. .
Para a discussão sobre o envolvimento tão amplo e rápido dos zação das empresas e serviços públicos administrados pelo Estado,
com escandalosasentregas do património público ao grande capital
professores de praticamente todas as universidades públicas fede luta predominantemente multinacional; os vários planos Real, Bresser,
Pais, algumas estaduais e outras particulares, no processo de
Collor, FHC -- coram intensamente determinados pelas injunções do
e de organização do MD, várias questões devem ser colocadas em
grande capital financeiro transnacional, desde cora e de dentro do
pauta. Questões nacionais que atingiam direta e negativamente as
universidades estavam se aprofundando. A ditadura militar, através país, com consequênciasprofundamentenegativas aos assalariados.
Essas medidas, mais tarde chamadas de neoliberais, coram impostas
do dinheiro público, via impostos ou por empréstimos internacio-
através de vários planos ao longo das décadasde 1980, 1990e 2000.
nais, esbanjava recursos para os grandes proUetosfaraónicos e para
As lutas contra o arrocho, contra o corte de verbas para o ensino pú-
o grande capital agrário e industrial de exportação e proletos regio-
blico, contra a privatização dos serviços públicos, contra o pagamen-
nais de colonização agropecuária, minguando, por outro lado, os re-
to da dívida externa eram, portanto, lutas que se contrapunham aos
cursos para as funções sociais.A crise do endividamento, decorrente
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Waldir José Rampinelli e Nildo Ouriques Crítica à Razão Acadêmica
(Organizadores) Reflexão sobre a universidade contemporânea

interesses do grande capital financeiro e suas representações aqui e tra a carestia, o movimento da Universidade de São Paulo - USP de
lá cora. 1977,os movimentos contra a ditadura, pela anistia e pelas "Dire-
No plano político nacional, os movimentos sindical, social e polí- tas Já", desaHlaramos professores à participação política. A profunda
tico vinham tomando corpo no âmbito da sociedade,contra a ditadu- perda de legitimidade que a ditadura militar vinha tendo em setores
ra militar, desde meados dos anos setenta e vão confluir em um pro- da classe média, acabou por dar ao corpo docente da Universidade,
cessode "ruptura" pelo alto, a partir de uma lenta e segura transição, então inexperiente em política, o estímulo necessário e a relativa se-
para um regime civil de democracia eleitoral, com processo de lutas gurança para o seu engajamento político. Da tremedeira inicial, a
populares e partidárias, primeiro pela anistia de presos e exilados crescente participação atava no processo de luta vai possibilitando
políticos, depois pela eleição direta em todos os níveis de governo e, experiência, reduzindo o medo, estruturando os argumentos, con-
mais adiante, pela Constituinte para a elaboração de uma Nova Cons- quistando legitimidade com a ampliação da massa de professores nas
tituição, a de 1988. Esse amplo processo mobilizou grande parte da assembleias. Ocorrem algumas conquistas parciais de salários e a
nação brasileira e exigiu a participação política da intelectualidade e ampliação da pauta de luta que incluía desde as condições básicas de
dos estudantes nas lutas pela anistia, pelas eleições diretas em todos trabalho, salário e estrutura da carreira até a reforma universitária,
os níveis de governo, pela necessidadede se democratizar a adminis- o orçamento da educação,a eleição direta para todos os cargos de
tração do país, da sociedade e particularmente das universidades. Era direção das universidades e a incorporação de bandeiras sociais mais
premente e desaüiador,portanto, levar tal movimento para dentro amplascomo a das "Diretas Já" (o jornal da APUFSC se chamava
das instituições de ensino superior. «JÁ", elaborado em tempo recorde por nossos melhores jornalistas-
No interior das universidades, reinava o amordaçamento da li- professores, aguerridos militantes políticos, tendo como expoentes
berdade de pensamento e de ensino, pesquisa e extensão. Isso im- DanielHertz e Airton Kanitz).
pedia que se buscasse relacionar a crítica da realidade económica, No início da formação do MD, há elementosde continuidade/
social,política e militar do país, com a crítica das teorias económi- descontinuidade de um movimento político já existente desde os
cas, sociológicas, políticas e ideológicas sustentadoras do sistema anos sessenta, não enquanto organização política, mas como quadros
capitalista, dos escassos recursos financeiros vigentes, dos baixos políticos, uma vez que parte significativa da militância que lutou para
salários e da grande parcela dos professores trabalhando em tempo conquistar ou criar as associações docentes universitárias tinha raí-
parcial, da falta de condições adequadas de trabalho e de inovações zes nas lutas daquela década e na resistência à ditadura ao longo dos
tecnológicas na administração e nos departamentos e de bibliotecas anos setenta. Eram remanescentes do movimento político sufocado
atualizadas e diversificadas, da necessidade de reforma curricular e pela ditadura militar: os que não coram mortos, os que coram presos e
de eleições livres para as cheHlasde departamentos, direção de cen- torturados, os que não coram dedurados, os que fugiram do país para
tros e reitor. não serem presos, os militantes que não coram lideranças importan-
Dentro desse quadro de crise económica, Hlnanceira,social e po- tes antes e durante a ditadura militar, os que aprenderam política na
lítica do sistema capitalista e de seu subsistema subsidiário - a dita- luta de resistência frente à ditadura militar.
dura militar - e do avanço do processo político a adquirir corpo, a
ganhar as praças públicas e a exigir a derrubada do regime, é que se 4. l)ectínio do movimento (4erário, centralidade do mouimexto asse
pode entender a necessidade do surgimento do movimento docen- Largado no selar terciário e {7nportância do movimento docente.
te nas universidades brasileiras. Os movimentos operários do ABC Foi imperioso lutar contra as corças do imperialismo financeiri
paulista e de outros centros industriais do país, os movimentos con- zado e contra os estertores da ditadura militar que, no meio do pro
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\MaldizJosé Rampinelli e Nildo Ouriques Crítica à Razão Acadêmica
(Organizadores) Reflexão sobre a universidade contemporânea

cesso, Êoisubstituída, pela via indireta, por uma composição política publicamentecom a simbólicaqueda do muro de Berlim. No plano
que carregava na letra do anúncio o seu lado social, mas na prática nacional, o limite da democracia estava dado pela volta das eleições
da política económicae dos planos de contençãoextraía, a frio, os gerais, pela Constituinte que preconizava vários ganhos sociais e pe-
direitos adquiridos e tratava de negar as reivindicações sociais então las conquistas democráticas dentro das universidades federais, entre
postas. Foram muitas as batalhas, as greves prolongadas, com uma as quais a eleição com proporcionalidade desigual para reitor e para
composição de corças sindicais que passava a ter como componente direção de Centro e de Departamento. Daí em diante, esvaziou-se
principal o sindicalismo do setor terciário e, como sua liderança, em o movimento docente como campo de formação política com vistas
boa parte da década de 80, os de classe média, a ANDES entre eles. ao aprofundamento democrático dentro e cora da IJniversidade. So-
A proletarização e assalariamento do estudante de formação univer- bravam as lutas por recuperação das perdas decorrentes dos planos
sitária e do próprio professor dentro da instituição, com mínimas Cruzado, Collor, Bresser e FHC, pelo fim da defasagem salarial dos
condições de trabalho e baixos salários, em tempo parcial, generali- aposentados e por algumas migalhas mais aqui e ali.
zaram-se. Na universidade pública, no geral, s6 os antigos professo- Enquanto os movimentos sociais estavam portes e, dentro deles,
res do Direito e da Medicina podiam nela usufruir do tempo parcial, os sindicais, ainda que diferentes no que faziam, mas semelhantes
já que tinham como atividadeprincipal o trabalho em seus consul- em relação aos graves problemas que deveriam enfrentar, numa con-
tórios e o exercício de altos cargos públicos no aparelho governa- juntura marcada pela presença do Estado militarizado e pela cres-
mental. Tais professores eram os componentes mais conservadores cente crise das relações de poder militar e civil, a confluência de suas
e resistentes no interior da Universidade, embora, assim como eles, lutas reforçava mutuamente tanto o movimento sindical quanto a
existissem outros espalhados pelos diversos departamentos. Nas sua relação com os movimentos sociais e políticos nacionais e, por
demais áreas, com tempo de trabalho parcial ou integral (e até nas isso, determinava a amplitudede suas bandeiras, de suas reivindi-
engenharias,já com tempo integral desde os anos setenta), a rela- cações. Condição muito diferente do marasmo em que se encontra
ção com a IJniversidade era somente salarial. A maioria docente era hoje o movimento sindical, a partir da desmobilização, da despoliti-
constituída por Auxiliares de Ensino e por Colaboradores, estes sem zação e da transformação dos sindicatos em verdadeiros escritórios
direito a voz nem voto dentro dos departamentos, sendo chamados à de advocacia, na busca da recuperação parcial de perdas históricas.
cidadania pelo movimento docente. Surge desse contexto, por influ- Este é, sim, um trabalho importante, mas onde estão as fundamen-
ência também das implicações do relacionamento entre o movimento tais discussões e os enfrentamentos necessários acerca dos rumos da
docente e o Partido dos Trabalhadores, o conceito de trabalhador da Universidade, de sua qualidade, das grandes questões nacionais? A
educação, dando um tiro de misericórdia na percepção da educação exemplo do que ocorreu com o movimento estudantil, o dos profes-
como sacerdócio. sores caiu nas mãos dos setores mais conservadores do corpo docen-
A fragilidade da composição social que formava o MD era su- te das universidades. No âmbito do país, houve fragmentação da es-
perada pelo efervescente clima da conjuntura política, embora sem trutura sindical com a crise da CUT e, por isso e pela visão localista
fôlego suficiente para bandeiras que implicassem transformações (de um inocente localismo ecológico, estilo troca direta de produtos
mais profundas, exceto na concepçãodas lideranças mais enganadas entre iguais numa pequena beira), deu-se a desfiliação, por exemplo,
e já experimentadas na militância política. Porém, até mesmo essa da APUFSC em relação ao ANDES, pensando-se ingenuamente que
liderança acabou por desmoronar-se, fragmentar-se, burocratizar-se, é possível estabelecer,na condição de universidades independentes,
endireitar-se, aposentar-se, isolar-se do mundo da política quando uma relação de enürentamento com a alta e poderosa burocracia dos
a crise do chamado "socialismo realmente existente" espraiou-se ministérios.
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Crítica à Razão Acadêmica
Waldir José Rampinelli e Nildo Ouriques Reflexão sobre a universidade contemporânea
(Organizadores)

O movimento, que surgiu no final dos anos 1970, passou a in-


5. Construção democrática do mo'cimento docente, sua expansão e
corporar uma nova concepçãode democraciainterna. Negava o pe'
Inserção no mo'oimento social mais amplo. leguismo (a dependência ao centro de poder da Universidade ou a
5. 1 Aprendizado com outros movimentos soctats. qualquer outro tipo de subordinação), evitando o centralismo nas
O movimento docente, que se estruturou a partir de 1979tanto decisões(típico do sindicalismotradicional, mesmo que combativo,
que existia no Brasil populista dos anos 50 e início dos 60). Procura-
na UFSC quanto em outras universidades públicas brasileiras, está
va se conduzir pelo caminho da afirmação de relações internas com o
profundamenterelacionadocom a organizaçãoe a luta de amplos
movimentos sociais que têm seu reinício com o protesto massivo conjunto dos professores através da construção de uma democracia
de base ou pela base, que não era invenção propriamente sua, mas
contra a morte de Wladimir Herzog pela ditadura militar, com o iní-
do movimento operário a ressurgir naquele período. Também aqui
cio de um novo movimento sindical no ABC paulista (um sindicalis-
o aprendizado era direto com a organização operária e suas lutas:
mo definido pelas bases), com a greve da USP e com os movimentos
eleições diretas e com a ampla presença de docentes, criação do Con-
sociais de base operária em solidariedade aos movimentos grevistas,
com a luta contra a carestia por associaçõesde bairros que se prolife- selho de Representantes, assembleiasgerais concorridas, realização
de assembleiaspor Centro, comando de greve com indicação de seus
raram rapidamente em quase todo o país. Todos esses movimentos se
membros por Centro, criação de comissões (de Adesão e Participa-
ampliaram e se estimularam reciprocamente, juntamente com os de
luta contra a ditadura, pela anistia, pelo retorno à democracia e por ção, de Imprensa, Divulgação e Propaganda, de Ética, de Finanças,
de Atividades, Jurídica), debates prévios das temáticas de greve por
muitas outras bandeiras associadas.
Até 1979 não havia movimento docente na UFSC e, exceto na Centro; pautas de reivindicações sempre ligadas aos interesses dos
professores, da universidade pública e por profundas reformas sociais
USP (quando lá explodiu uma greve em 1977), nenhuma outra uni-
versidade brasileira realizara qualquer greve espontânea e, muito e políticas postas pelas mais vastas e densas lutas espraiadas pelo
Brasil. Algumas bandeiras foram criadas dentro do próprio movi-
menos, organizada. Não havia resistência articulada à ditadura mi-
mento docente. Quem não se lembra do famoso grito, "Educação,
litar nem mesmo para levantar reivindicações básicas da categoria
direito de todos e dever do Estados"?

recreativos e de aglutinação daqueles interessados em participar do


5.2 Estruturação interna e democracia do movimento docente.
jogo político para ocupar cargos na reitoria e nos diversos centros.
Na medida em que se avolumava e conquistava adesão mesmo
Da lista dos fundadores da APUFSC, em 1975, constam os professo-
entre os professores mais reticentes, o MD foi variando suas for-
res Nereu do Vale Peneira e Mana Carolina Gallotti Koerig, inclusive
mas de atuação,tanto dentro como fora da Universidade. No inte-
como integrantes da comissão encarregada de elaborar o estatuto rior. diversiíicavam-se as formas de busca de adesão, constituindo-se
da entidade. "Era essa gente que segurava os paus'de-cita da TFP
grupos de docentes para o trabalho de incursão em todas as salas de
(Tradição, Família e Propriedade). Eram os que participavam da-
aulas a fim de promover a discussão com professores e alunos sobre a
quelas'passeatas comandadas pelas madames da burguesia, a favor
da ditadura. Foram eles os queimadores dos livros da livraria sanita pauta de reivindicações, procurando ganhar pela corça da argumen-
tação as posições contrárias ou fazê-las emudecer pela fragilidade
Garibaldi', do PCB, na Praça XV em 1964"''.
de suas palavras ou por terem posições profundamente reacionárias.
Enfrentava-se até mesmo, em alguns Centros, uma espécie de fileira
]2 Depoimentodo professorGerânimo WI Machado,in Revista Plural, APUFSC de frente formada por indivíduos das corças de repressão, à guisa
SSind., n. 6, p. 19.
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Waldir José Ralnpinellie Nildo Ouriques Crítica à Razão Acadêmica
(Organizadores) Reflexão sobre a universidade contempol'ânea

de um pelotão de guarda, porém sem Êâlegosuficientepara ame- mino da missa apinhada de fiéis, para que um deles pudesseexplicar
drontar os militantes. Muitas vezes üoi necessário realizar assem- a todos as razões da greve.
bleia por Centro ou discussões com o conjunto dos alunos buscando Por medida de segurança, as reuniões diárias do comando local
conquistar também sua adesão. Foram muitos os debates calorosos, de greve eram realizadas em locais diferentes e mais reservados do
inclusive enfrentando docentes raivosos (algumas vezes certos vo- campus. O professor Raul Guenther, que presidia a APIJFSC jun-
luntaristas mais afoitos e sem liderança dentro e fora do movimento tamentecom o professor Osvaldo Maciel) e coordenavaos traba-
procuravam impedir a entrada de alunos e professores em sala de lhos do comando, fbi aconselhado a dormir em locais distintos. Havia
aula, até mesmo empilhando cadeiras na entrada principal). Porém, cortes evidências de que a Assessoria de Segurança e Informações
esse tipo de comportamento rancoroso não fazia parte da atitude das "acompanhava"as assembleias;a polícia federaltinha registros de
lideranças do MD. Para manter as greves em alto pique, o movimen- intervenções realizadas por docentes no decorrer das mesmas.
to promovia amplas discussões por Centros, que iam desde a reforma
universitária até a crise financeirado Estado, do arrocho salarial à 5.3 amplitude do mo'uimznto docente.
dívida externa e aos pacotesde medidas restritivas à soberaniada A estratégia do MEC era tirar a centralidade das nossas reivin-
naçãoe aos gastos sociais, da abertura para o domínio estrangeiro dicações sobre as questões da categoria e da Universidade, buscando
pela privatização das empresas públicas através da ciranda financeira obscurecê-las pela discussão de temas então introduzidos pelo pró-
à transferência da dívida privada em dívida pública por medidas do prio Ministério, como âoi o caso muitas vezes recorrente acerca do
próprio Banco Central. orçamento global para as universidades, que fazia parte das políticas
A greve de 1980,que se prolongou por vinte e seis dias, inau- de ajuste do FMI/Banco Mundial para o Brasil. Tal questão, além da
gurou entre n6s, os docentes, um forte e destemido instrumento de redução de verbas, tirava a autonomia (sempre simbólica) das univer-
luta. Houve a quebra da rotina (im)posta pelo cotidiano do trabalho sidades. Mas a demanda central do MD era "Mais verbas para a edu-
docente,a derrubada simbólicados muros departamentaise o (re) cação", com recuperação das perdas salariais e melhores condições de
conhecimentodof professores dos mais diferentes Centros, numa trabalho (livros para a biblioteca e material para os laboratórios, por
grande e promissora comunhão de interesses e de demandas. O exemplo). No entanto, empurrando com a barriga as nossas pautas,
campus eÊervescia,para desgosto e aflição da cúpula universitária o ministro e a alta burocracia do MEC 6orçavamo desgaste do mo-
comandada por Caspar Erich Stemmer. Docentes engrossavam es- vimento criando as condições para que as greves fossem prolonga-
pontaneamente as comissões, com realce para o trabalho de conven- das, causassem enfrentamento com os alunos que desejavam voltar
cimento em sala de aula junto aos professores renitentes. Nos finais às aulas (sobretudo os formandos) e constrangimento em relação à
de semana, grupos de professores organizados saiam pela cidade a sociedade,bem como surgiam ameaças pela justiça de coibi-las com
fim de explicar a greve para a sociedade,utilizando-sede material boatos de intervençãopolicial, de corte de salário, etc. Greves de
produzido pela Comissão de Imprensa e Divulgação. A distribuição curta e de longa duração coram se intercalando ao longo da década
do didático folheto em quadrinhas "Professores da UFSC, aprenden- de 80, sendo que a de 1991 arrastou-se por 108 dias''. Por falta de
do e ensinando uma nova lição" ocorreu, por exemplo,junto a even- atendimento adequado das reivindicações e pelo endurecimento do
tos esportivos e saídas de missas, inclusive nos municípios vizinhos, governo nos períodos de planos de ajuste (Bresser, Collor, FHC), as
semprecom alta receptividadejunto à população.Na igreja matriz perdas históricas e as relativas aos ajustes coram se acumulando e,
de Palhoça, o padre chegou a abrir espaço em pleno altar, junto ao
púlpito, para espanto dos professores do grupo ali presentes, ao tér- 13 Ver NODARI, Eunice S. et al. Op. Cit., p. 50-5] e p. 67-68
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Crítica à Razão Acadêmica
Waldir José Rampinelli e Nildo Ouriques Reflexão sobre a universidade contemporânea
(Organizadores)

desta maneira, somente através de ações judiciais é que parte signiHl- fato que acabou se transformando, nacionalmente, em exemplar ex-
posição popular de resistência à ditadura, redefinindo, a partir de en-
cativa das perdas coram conquistadas pelos professores (e nem todas
tão, a intenção de "popularizar" o perHn do general presidente pela
para todos, como üoio caso da URP).
O movimento docente Éoi imaginativo também na questão via de seu contatocom o povo Sete estudantesdo Diretório Central
cultural, tanto durante as greves como fora delas, chamando para de Estudantes- DCE da UFSC corampresos e enquadradosna Lei
de Segurança Nacional - LSN''. Docentes coram ameaçados.A praça
apresentarem-seno campus da UFSC vários conjuntos musicais,
cantores e peças teatrais. A própria liderança, depois de dias de tra- central de Florianópolis chegou a ganhar ares de verdadeira guerra
balhos exaustivos, reunia-se para fazer a sua cantoria. Músicos que campal. Foi grande a repressão policial, inclusive com uso de cavala-
se sensibilizavam com a questão cultural e política do país faziam ria. A APUFSC teve um papel de liderança na luta pela libertação dos
estudantes presos, chegando, inclusive, a participar da realização de
apresentações, entre as 12 e 14 horas, no auditório do Centro de Con-
vivência. Ocorreu inclusive, na greve de 1980, um grande encontro um tribunal popular, na rua, sobre a Lei de Segurança Nacional.
Articulada com a Associação dos Licenciados de Santa Catari-
nos galpões do Centro de Esportes, durante dois dias, com a presença
de cerca de quarenta músicos de diversos conjuntos locais que vie- na - ALISC (hoje, Sindicatodos Trabalhadores em Educação/SC -
SINTE), a União Catarinense de Estudantes - UCE, a Ordem dos
ram participar de atividadesde animaçãodo movimentoparedista,
trazendo a cultura popular para dentro da Universidade e discutin- Advogados do Brasil - OAB/SC e demais entidades, ao longo dos
do também a necessidadede articular sua própria organização para anos de 1983-84,a APUFSC teve participação decisiva na formula-
reivindicar os seus direitos. Grandes caminhadas coram realizadas ção democrática do Plano Estadual de Educação - PEE 1985-1988,
da Universidade até o centro da Capital. As escadarias da Catedral processo conquistado pelo movimento docente estadual ao explorar
as contradições políticas do governo Amin's. Pela primeira vez, todas
Metropolitana e adjacênciascorampalco, por várias vezes, da exposi- as escolas catarinenses coram chamadas a discutir e deliberar sobre
ção pública das demandas do MD. Nas esquinas mais movimentadas,
nossa educação,num processo que varreu o Estado ao envolver dire-
ampla panfletagem era realizada. Na Praça XV de Novembro, em
tamente centenas de milhares de pessoas e que culminou com a rea-
meio ao público,. professores tratavam de realizar dadas atividades,
divulgando, assim, realizações da IJFSC a Universidade na Praça. lização de um Congresso Estadual de Educação, em Lages, com mais
Nos anos 80, a imprensa catarinense abria diferentes e generosos de quinhentos delegados oriundos das unidades escolares (inclusive
a UFSC atuou como uma dessas unidades escolares no âmbito da
espaços para divulgar as razões dos nossos movimentos paredistas.
O movimento docente buscou também se integrar com os movi- região de Florianópolis). Os docentes,organizados pela ALISC, a
mentos discentes e dos técnicos-administrativosda própria universi- partir de um movimento grevista, exigiram sua participação na defi-
dade, dos servidores municipais, estaduais e federais. A APUFSC pas- nição dos rumos da política educacional catarinense, numa clara in-
sou a atuar eüetivamentecomo um sindicato, em consonância com o dicação de que não aceitariam a continuidade da histórica estratégia
novo sindicalismo brasileiro. É importante ressaltar que, até a Cons- governamental de formação de comissões de "alto nível". Democrati-
tituição de 1988, os servidores públicos eram proibidos de exercer zar a educaçãopassou a ser um desafio especialmentepara os educa-
tal tipo de organização. A greve, portanto, por ser ilegal, não podia dores, no contexto mais amplo da luta social pela democratização do
ser realizada. Nossa Associação participou ativamentedos dramáti- 14Marize Lippel, Amilton Alexandre, Newton VasconcellosJúnior, Geraldo Barbosa,
cos desdobramentos da Novembrada (manifestações amplas e viru- Rosângela de Souza, Líbia Giovanella e Adolâo Dias(presidente do DCE).
15 Nessa primeira metade dos anos 80, no âmbito da luta pela ampliação e organização
lentas contra a visita do general Figueiredo a Florianópolis, ao lado do MD da rede estadual de ensino, surgem expressivas lideranças como as dos
do governador biânico Jorge Bornhausen, em novembro de 1979), professores Ideli Salvatti e Sérgio arando.

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Waldii' José RaJnpinelli e Nildo Ouriques
(Organizadores)
Y Crítica à Razão Acadêmica
Reflexão sobre a universidade contemporânea

Estado. A Comissão Estadual, criada por Esperidião Amin em maio Nessa linha de comprometimento, igualmente relevante Êoi a
de 198s para a elaboração do PEE, viu sua dócil composição inicial participação da APUFSC nas discussões referentes à Lei de Diretri-
(vários sujeitos individuais, ainda que representando entidades, anti- zes e Bases -- LDB, junto ao Fórum Nacional em Defesa da Escola
gos e réis servidores das corças conservadoras) e seu reduzido prazo Pública. Dentre várias outras atividades, integramos a coordenação
de cento e vinte dias desmancharem-se no ar pelo forte trabalho de do l Seminário Nacional em Defesa da Escola Pública, que contou
articulação da militância docente e discente nela representada. Não com a presença de Florestan Fernandes.
obstante a ostensiva política intimidat6ria de Amin sobre a organiza- Em seus tempos inaugurais, o MD, conforme já mencionado,
ção do movimento dos educadores catarinenses - que acenou com o podia contar com um arguto setor de comunicação, competente, ágil,
uso do aparato jurídico repressivo (e dele chegou mesmo a fazer uso, crítico e com alto poder de síntese, sob a responsabilidade dos melho-
pois a greve era ilegal), que lançou mão da ação governista dos dire- res professores-jornalistas da UFSC, que produziam semanalmen-
tores escolares (ocupantes de cargos de confiança), que atacou sem te o "Jornal JÁ", com densidade política e informações relevantes,
tréguas a direção do MD -, os reclamos pelo avançar das conquistas que servia para alimentar as discussões e desafiar a consciência dos
objetivas do processo democrático falavam mais alto e acabaram por nossos docentes e discentes. Paralelamente, havia um grupo de pro-
preponderar. Na contramão das corças governistas, o MD ganha le- fessores dedicado a produzir textos sobre os temas centrais que o
gitimidade na medida em que se colocou na linha de frente da luta movimento deveria levar aos seus pares locais e aos congressos da
pela melhoria e ampliação da educação escolar catarinense, um pro' ANDES. Para o Congresso fundadorda ANDES, em 1981,em Cam-
blema concreto, que aüetou e afeta o cotidiano e o futuro de milhares pinas/SR e para o l Congresso da ANDES, realizadono campus
de famílias. A APUFSC marcou presença ativa e decisiva em todo da UFSC, em 1982, esse grupo deu contribuições importantes, com
esse longo e desaHiador processo (inclusive estando presente, inten- textos de densidade crítica, sobre o desvio de verbas da educação e de
samente, nos vários eventos realizados nas diferentes regiões de San- outros setores sociais para engrossar as doações ao grande capital,
ta Catarina), que culminou com a de6lniçãodo PEE 1985-1988,com sôbre questões salariais e mais verbas para a educação, sobre a refor-
ma universitária, dentre outros temas relacionados.
vasta e inédita participação popular''.
Em suma, a melhoria das condições de trabalho, o avanço da A questãodas fundaçõesera um desses outros temas."Às nos-
qualidade de ensino e a democratização do poder no interior da ins- sas reivindicações, era contraposta uma proposta de transformar as
tituição escolar coram o pano de fundo das questões profusamente universidades federais, que funcionavam na forma de autarquias, em
levantadas.Questões que, sem dúvida, cobravam um maior compro' fundações. E isso era acenado como uma possibilidade de aumento
metimentodo Estado para com a educação.Tal mister, no entanto, de remuneração"". A ditadura militar queria que as universidades
não obstante conquistas efetuadas,continua em aberto entre nós, tivessem maior flexibilidade para a captação de recursos e, por essa
dada a histórica leniênciapela qual os governantes têm tratado o via, pudessem entãodispor de mais verbas. "Nós mostramos que esse
setor. A baixa qualidade da educação pública brasileira, e catarinense era o caminho para a privatização da universidade (...) que a flexibi-
em particular, é resultado direto da reiterada irresponsabilidade go- lização administrativa era, na verdade, a maneira de fazer com que
vernamental ao longo dos tempos, a despeito de abundantes procla- o governo se descomprometesse com a manutenção da universidade
mações em contrário. pública e gratuita que nós deÊendíamos.Não foi simples fazer isso.

] 6 Para mais informações, ver AURAS, Marli, Poder oligárquico catarinense: da


guerra aos "fanáticos" do Contestado à "opção pelos pequenos", Tese de Doutorado 17 Depoimento de Raul Guenther, in Revista Plural, APUFSC SSind., Florianópolis,
em Educação, PUC-Sít 199i, especialmente p. SSo-S78. n. 6, ago/dez.-1995, p. 27.

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Waldir Jbsé Ralnpinelli e Nildo Ouriques Crítica à Razão Acadên)ica
(Orgar*izadores) Reflexão sobre a universidade contenlpm'ânea

Porque muitos professores eram a favor disso"''. A APUFSC chegou sim, por contradição, ao crescente desalinhamento a brotar com viço
a realizar uma assembleia geral, com a presença de duzentos e cin- de suas entranhas. Do boicote ao vestibular à luta pela democrati-
quenta docentes, para discutir ponto a ponto o prometode fundação, zaçãodo poder no interior da instituição,por reajuste salarial,pela
ao ütnal rechaçado pelos professores (que já haviam discutido a te- reestruturação da carreira docente, pela negação da proposta gover-
mática em seus centros de ensino). O grupo de estudos da APUFSC, namental de privatizar a Universidade pela via da transformação da
debruçado sobre a questão das fundações, produziu textos analíticos forma autárquica (dominante nacionalmente) em fundações, enfim,
que, ao servirem para municiar as discussõesna UFSC, coram funda- os professores passaram a lutar pela construção da universidade pú-
mentais para a construção da contraproposta do MD. Tais estudos e blica, gratuita e de qualidade,por mais verbas para a educação. Não
a posição da APUFSC circularam amplamente pelo Brasil. 'A nossa havia dúvida de que estavam crescentemente indignados com os ru-
Associação de Professores ganhou uma relevância nacional muito mos da Universidade então existente e tratavam de apontar para a
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grande por causa disso. (...) Conseguimos derrotar aquela proposta UAnV)lUVa

do governo. (.-) nós mostramos que nós queríamos,sim, melhores O MD no interior da UFSC 6oifundamental para a organização
salários, nós queríamos, sim, uma carreira, mas não ao preço de ven- do movimento em âmbito nacional. Os líderes que despontavam des-
der a Universidade"'s. Sem dúvida, esse desfecho só Êoipossível gra- de os primeiros momentos (sobretudo os professoresOsvaldo Maciel
ças à construção do movimento docente nacional. "Foi difícil conven- e Raul Guenther) passaram a assumir posição de destaque no país,
cer as pessoas de que a luta precisava ser nacional. Isso não era uma aquandona linha de frente para a criação da ANDES, articuladora do
obviedade.(...) desenvolveu-seessa luta e obtiveram-se as primeiras movimento nacional, democrática, respeitadora das decisões oriun-
conquistas. AÍ, num processo de mobilização conjunta, capitaneado das das bases. Todas as decisões de entrar em greve e de formação da
pela ANDES, mas dentro dessa visão de unificar a universidade bra- pauta nacional eram amplamente discutidas dentro do MD de cada
sileira, o governo, que propunha transformar as autarquias em fun- Universidade em suas assembleiasgerais. O caminho seguinte da ar-
dações, acabou transformando as fundações em autarquias"". ticulação desses movimentos e de sua organização central na forma
da ANDES foi sua filiaçãoà CU'l:, que entãose constituíana mais
5.4. Importância nacional do movimento docente da UFSC combativa central porque composta por sindicatos de trabalhadores
Como já vimos, a UFSC exerceu o papel de protagonista da Re- formados democraticamente pelas suas respectivas bases''. As ban-
forma Universitária imposta pela ditadura militar. Rudolph Atcon, deiras da CUT também passaram a se fundir num conjunto amplo
que a visitou, considerava que o "sistema administrativo" nela em de reivindicações,acabandopor ultrapassar a luta restrita de cada
vigência, marcadamente centralizador, era "modelar" e deveria ser uma de suas categorias. Nesse processo de luta, no entanto, a classe
implantado nas demais universidades brasileiras. A cúpula da Uni- operária foi perdendo o seu fôlego político, na medida em que a crise
versidade perÊilava-sena linha de frente em defesados princípios económica se abatia sobre ela com mais brutalidade, desempregando
ideológicos norteadores da ditadura militar. mais trabalhadores, reduzindo direitos sociais, perdendo bases im-
No final dos anos 70, mais uma vez, a UFSC será destaque na-
21 "(-.) a transformação da APUFSC em seção sindical da ANDES-SN, através da
cional pelo seu pioneirismo. Desta vez não mais pelo propalado ali- Assembléia Geral Extraordinária Permanente de 22 de novembro de 1990 a 06
nhamento aos ditames da Reforma Universitária da ditadura, mas de dezembro do mesmo ano, bem como sua filiação à CUT abriu espaço para uma
intervenção mais atuante em nível nacional de nossa entidade". Nas urnas postas
18 Idem, ibidem,p. 28. nos diversos centros da UFSC, de um total de 711 professores votantes, 661 se
19 Idem, ibidem,p. 28. manifestaramfavoráveisa tal transformação.Ver NODARI, Eunice S. e/ a4 0p.
20 Idem, ibidem, p. 50. Cit P. les
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Waldir José Rampinelli e Nildo Ouriqties
(OI'ganizadores) Reflexão sobre a universidade contempoi'ânea

portantes com a privatização das estatais e com a migração de líderes última investida do neoliberalismo, irónica por sinal, através de suas
do movimento sindical para a luta política partidária (processo que instituições representativas (FMI, Banco Mundial, Organização
também aconteceu com o movimento docente). Os movimentos so- para a Cooperação e Desenvolvimento Económico -- OCDE e BID)
ciais se arrefeceram na medida em que algumas conquistas, mesmo é a de exigir que os governos do Terceiro Mundo incluam nos seus
que arrevesadas, coram satisfazendo parte das categorias envolvidas planos medidas compensatórias de combate à pobreza e à destruição
e porque certas estratégias nas relações de poder serviram para pro- do meio ambiente,como forma de terem acesso aos recursos dos
vocar acomodaçõesem troca de algumas sobras. fundos dessas instituições. Qual é a ironia? E que o aprofundamento
da pauperização,da miséria dos povos desses países é fortemente
6. Movimento docentelrente à expansão do neoliberalismo. decorrente das injunções neoliberais, incluindo aí as que vêm desde
Os movimentos sociais, entre eles o dos docentes, caminhavam o tempo da ditadura brasileira que, através dos "Chicago boys", re-
na contramão da crise do sistema capitalista e das estratégias do ceberam o nome de monetarismo, combinando medidas antissociais
capital ülnanceiro transnacional, que impunham seus planos, suas com a corte intervençãodo Estado militar nos grandes projetos de
políticas e suas injunções aos governos e sociedadesdo Terceiro infraestrutura e de abertura das fronteiras agropecuárias, para faci-
Mundo, depois de deixa-los totalmente endividados. Desde o final litar a entrada do capital transnacional, das grandes empreiteiras e
dos anos setenta, vários conjuntos de medidas coram a eles (e a n6s) dos fazendeiros nacionais.
impostos. Um primeiro pacote de ajustes forçou cortes nos gastos
sociais para fazer saldo primário, a üim de pagar os juros que coram 7. Mooimento docentena tuta l)elas grandes r(lformas sociais.
deliberadamenteelevadosjustamente quando os projetos megalo- Os movimentos sociais lutavam por conquistas básicas, como
maníacos da ditadura estavam em franco desenvolvimento e deve- as eleições diretas e a reforma agrária, que ganhavam espaço social
riam prosseguir. Exigia-se também para este fim políticas agres- e político com o avanço do Movimento dos Sem Terra - MS'l:, que
sivas de exportação, quando os preços das matérias-primas caíam saía do campo e tomava as cidades, com suas grandes assembleias
rapidamente e com elas os termos de intercâmbio, o que fazia com realizadas em estádios de futebol, sua junção com outros movimen-
que as trocas fossem ainda mais desiguaiscontra nossos países, tos e partidos políticos. O que aconteceu com o tema reforma agrá-
implicando maior transferência de capitais para o setor Hlnanceiro ria dentro da Nova Constituição e dos governos daí em diante? O
internacional, para os países dominantes. Pressões ainda maiores MST continuou sendo reprimido, criminalizado por ocupar terras
vieram com vários outros planos, sob a batuta do "consenso de Wa- até mesmo já destinadas para a reforma agrária, líderes sindicais e
shington", aproveitando a gestão Collor de Meio. Deu-se um verda- religiosos sensíveis ao movimento continuaram sendo mortos, en-
deiro estrago em toda a sociedadebrasileira, menos, é claro, nos seg- quanto a desapropriação de latifúndios improdutivos e de terras de
mentos mais espertos que, com informação privilegiada, puderam grileiros sequer üoiassumida com a devida corça política. Pelo con-
sacar suas poupanças dos bancos e as remeteram para os paraísos trário, estes se fortaleceram politicamente e, com o poder das armas
6lscais.Aprofundam-sea partir daí as privatizaçõesaté o governo e de sua organização, a União Democrática Ruralista - UDR, com o
de FHC e o primeiro mandato de Lula. Continuaram tarübém as aliciamento de juízes, com sua não criminalização e de seus capan-
liberalizações à entrada e à saída do capital estrangeiro, às políticas gas, conseguiram montar suas bases avançadas dentro do próprio
de arrocho salarial e de eliminaçãodos direitos dos trabalhadores. Congresso Nacional e da mídia. Isso resultou na redução da corça
A Nova Constituição começava a ser negada, retalhada, não regu- do Movimento dos Sem Terra e, mais uma vez, a reforma agrária Éoi
lamentada, desconsiderando-se os direitos sociais ali aHirmados.A jogada às traças. Um outro tema que ainda se encontra engasgado
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Waldir José Rampinelli e Nildo Ouriques Crítica à Razão Acadêmica
(Organizadores) Reflexão sobre a universidade contemporânea

na garganta de todos os cidadãos conscientes deste país é a questão 8. Conquistas democráticas e económicas do motim,ente docente.
da enorme dívida, que de externa passou a interna, e de privada Os movimentos sindicais, entre os quais o dos docentes das uni-
passou a pública. Já pagamos cerca de seis vezes o seu valor no início versidades públicas brasileiras, alcançaram conquistas democráticas
dos anos oitenta e, no entanto, continuamos a dever o equivalente l
(umas importantes outras nem tanto) e foram recuperando parte das
a mais dez vezes (agora somente nós a devemos, porque foi torna- perdas salariais, seja na forma negocial ou na judicial. Até hoje pin-
da públicas). Recentemente, o Congresso Nacional 6oi pressionado gam aqui e ali alguns trocados por conta das perdas que tivemos
a realizar uma auditoria da dívida e depois de muitas reuniões re- em todos os planos impostos pelos governos e outras mazelas mais.
solveu engavetá-la, porque há muita falcatrua, há muito rabo preso, Passou a ganhar importância o sindicato jurídico ou advocatício, que
há muito enriquecimentoilícito, há muita dívida privada assumida reivindica, judicialmente, que sejam garantidos os pagamentos de
pelo Estado e jogada sobre nós. O governo Lula, no seu segundo todas as nossas perdas, uma por uma. Na sua maioria tais demandas
mandato, só pede gastar com bolsa família cerca de 0,5% do PIB serão ganhas, algumas consideráveis outras minguadas, após muitos
(que alcançou mais de 12 milhões de unidades familiares) driblando l
anos de rolagem dos processos na justiça.
o Congresso Nacional e sob o desprezo da classe média e da burgue- Nesse movimento de perde e ganha das lutas sindicais, uma das
sia, embora parte desse programa social integre as (irónicas) reco- conquistas que vieram como uma faca de dois gumes coram as gra-
mendaçõesdas instituições financeiras internacionais como medidas tificações por produtividade, como a Gratificação de Estímulo a Do-
compensatórias. Enquanto isso, o pagamento dos juros alcança os 7 cência - GED, que, além de não ser incorporada ao salário base, 6oi
a 8% do PIB, e já esteve muito mais alto. A dívida pública, não se benefícioconcedido aos professores da ativa e não incluiu os aposen-
sabe se porque agora interna, não é mais tema de luta, não é objeto tados. Mais ainda, essa medida abriu caminho para transformar os
de notícia, parece mesmo não mais existir. f professores universitários em máquinas de dar aulas e de procurar
Diante da brutalidade neoliberal, alguns governos dobraram as publicar pedaços de pesquisa em revistas supostamentecientíficas
pernas em meio ao mar de corrupção (Collor) ou rasgaram alguma para conseguir pontos e ganhos de produtividade, transformando as
coisa que sabiam de melhor (FHC) ou coram forçados a participar de universidades em linhas de produção de textos e corrida por veículos
acordos com o capital financeiro para poder governar (Lula); este, reconhecidos para publica-los. Disso acabou resultando mais algu-
contrariando, pelo menos no seu primeiro mandato,os princípios mas lutas judiciais para incorporar as gratificações aos salários dos
e as grandes reformas que eram bandeiras históricas da CUT e do professores, também dos aposentados, que se pode contar como mais
PT. Essas duas organizações, já antes das campanhas presidenciais uma vitória (embora parcial para os aposentados); além da redução
de Lula (iniciadas em 1990), começavam a se descaracterizar; pri- r da animosidade resultante da divisão no seio docente a respeito da
meiro, ao rasgarem a bandeira do socialismo, depois, a das reformas remuneração desigual entre ativos e inativos.
estruturais como a agrária -- e a retirada da luta pelo não paga- No campo da democraciadentro das universidades,o movi-
mento da dívida externa e interna. Assim, a CUT e o p'l', coram se mento docente mudou a forma de representação nos departamentos,
tornando palatáveis para os acordos construídos por cima, com os nos centros e na direção central, conquistando o direito de eleger os
grandes capitais, de modo a segurar e aquietar a base sindical, num seus representantes ou sendo derrotados, como parte dojogo demo-
exercício político que lhes permitissem estabelecer alianças amplas crático. Na verdade, em poucas universidades o movimento docente
para pleitear a disputa presidencial e a de governadores estaduais. conseguiu eleger o seu reitor. Aqui na IJFSC o MD jamais ganhou
J
Neste clima, o processo político Êoicaminhando com rapidez para o uma eleição nas quatro ou cinco vezes em que um candidato do mo-
abaeamentode todo o movimento sindical. vimento entrou para disputar o cargo mais alto e poucos (e em re-
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Waldir José Ralnpinellie Nildo Ouriques Crítica à Razão Acadêmica
(Organizadores) Reflexão sobre a universidade contemporânea

duzidos centros) de seus militantes coram eleitos e, quando o coram, instâncias, além das derrotas consecutivas nas eleições para reitor,
pouco puderam fazer, seja diante das resistências do poder central da reduziram o estímulo e a importância dessa conquista democrática.
Universidade, seja pela composiçãode corçasinternas aos centros, l)e qualquer forma, quando os espaços políticos iam sendo con-
avessa a mudanças, seja pelos limites legais de sua competência para quistados, os militantes do MD deram importantes contribuições
propor as transformações necessárias. Limites estruturais e pessoais para a reforma do ensino nos seus departamentos, ampliando o es-
somam-se na conformação final do quadro. Alguns apoios também pectro de disciplinas e de bibliografias críticas, que provocavam rea-
coram infrutíferos a alguns candidatos que transitaram pelo movi- ções conservadoras de alunos e professores que, ao longo do tempo,
mento ou que buscaram aliança com ele. Mas chegando ao poder a coram boicotando e até mesmo fazendo regredir esses ganhos. Não
coisa muda, o companheiro passa quase sempre a ser o adversário, obstante, muitos avanços coram feitos até a recaída da esquerda, a
pode ser perigoso, um empecilho. As determinações do alto e as do direitização de parte dela e a efetivação de alianças com os conserva-
grupo dominante dentro da Universidade (atrelados aos poderes do dores históricos. Algumas situações se tornaram de tal modo insus-
Estado e do Município), com o envolvimento direto e permanente da tentáveis que muitos professores, assim que cumpriam o tempo de
maçonaria, com a guinada de setores antes enganados no movimento aposentadoria, trataram logo de requerê-la, afastando-se do trabalho
docente, mais as falcatruas, os amedrontamentos e as políticas de cotidiano na Universidade.
favores para aliciar servidores técnico-administrativos, todas as bai-
xadas aprontadas sobretudo nos últimos dias do processo eleitoral, 9. Retração do movimento docente-- nota coma)osiçãodocentee nada
servem para manipular a eleição para reitor e inclusive para direto- conjuntura política, liderançaspoliticamente enviesadas em relação às
res e chefes de departamentos de muitos centros da Universidade". grandes bandeiras.
Houve grande empolgaçãodos militantes no início da amplia- O caminho'que toma o MD, a partir dos anos noventa, está as-
ção das conquistas democráticas no interior da Universidade. Ser sociado a muitos fatores. Alguns deles: parte importante dos profes-
eleito pelos seus pares, mesmo que para chefia de Departamento, era sores militantes e apoiadores do movimento coram se acomodando
motivo de "orgulho democrático", pois se tratava de uma alvissareira com a realização de seus doutoramentos (presença de "ares novos" e
conquista coletiva. Para diretor de Centro, ainda mais. Em alguns muita vaidade a desfilar nos corredores da instituição) e com a par-
centros, onde se concentrava grande número de militantes, foi uma ticipação em linhas de pesquisa em programas de pós-graduação;
sucessão de vitórias, praticamente sem se perder uma eleição sequer, outros saíram do movimento e se integraram em partidos políticos
apesar das composições políticas por vezes esdrúxulas que acabavam (raros, no entanto, conseguiram se eleger); ainda outros foram para
por redundar em pouco ou nenhum avanço. Em outros centros, nunca as burocracias sindicais e a partir delas mantiveram suas relações
se conseguiu tirar o poder administrativo das mãos conservadoras, (por vezes espúrias) com partidos políticos; há os que passaram a
nem mesmo com as alianças mais espúrias. As mudanças de orienta- negar suas convicçõesa partir da quedado muro de Berlim (ao con-
ção política e ideológica dos ex-militantes, as novas alianças internas siderar que o mundo desde então tinha se acabado) ou passaram a
nos departamentos e centros, a perda de empolgação e de interesse dar crédito a Fukuyama, segundo o qual o capitalismo se eternizará,
coletivo para fazer avançar as formas e conteúdos das gestões dessas as classes sociais não mais existem, mesclando-se assim esquerda e
22 Para mais informações sobre os intrincados meandros do poder no interior da direita. O corpo docente mudou profundamente o seu perfil em ti-
UFSC, ver RAMPINELLI, Waldir J. ef aJ(Org.), Universidade: a democracia tulação,em remuneração,no modo de vida e de consumo,não só
ameaçada.São Paulo, Xamã, 2005; e RAMPINELLI, Waldir J.(Org.), O preço do
voto -- Os bastidores de uma eleiçãopara reitor. Segunda edição, Florianópolis, porque passou a ganhar mais (em salário, bolsa de pesquisa e consul-
Insular, 2008. toria), mas também passou a viajar mais, seja para participar de en-
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(Organizador'es) Reflexão sobre a universidade contemporânea

contros internacionais, seja para viagens de férias, de turismo. Trata- tra a Universidade ou então implicar na retomada de um novo ciclo
se agora de uma outra composição social: há mais classe média alta, de po[itização, um outro componente deve ser levado em conta. Está
gente profundamente aburguesada, com grande poder de compra e havendo uma profunda renovação dos quadros docentes em todo o
de diversificaçãode consumo,que se aproxima do comportamento país, com a aposentadoria em massa dos quejá cumpriram o seu tem-
da classe média estadunidense e supera talvez a da Europa. Em tal po de trabalho ou foram além dele e que, historicamente, se consti-
contexto, há pouco lugar para movimento social e para militância tuíram, na sua maioria, em conservadores.Os novos contingentes
enganada.Os tempos são outros: o espaço contemporâneo é atraves- entram já com doutorado, mas sem experiência proülssionale tendo
sado pelo viés cultural, ditado pela presença do pós-modernismo e que enfrentar a linha de produção do ensino, com estágio probatório
do neoliberalismo, mediante uma ideologia profundamente individu- de três anos, com uma planilha Excel de pontuação para medir a
alista e fragmentadora a dominar as ciências sociais e económicas e, produtividade, devendo alcançar os 170 pontos nos dois anos iniciais
no plano político, a entender que a democracia chegou ao seu limite sob pena de perdê-los e ter que voltar à estaca zero e, assim, nos
formal. O fracionamento das ciências e técnicas e por consequência próximos dois anos tentar novamente conseguir chegar ao teto esti-
das próprias pesquisas e a competição por fundos para financia-las, a pulado. Com isso, as questões pedagógicas vão para o espaço, porque
corrida por publicaçãona buscade ganhos de produtividade, mais as o importante é pontuar e pontuar, por aumento de carga de aula e por
frustrações relativas ao desmoronamento do socialismo na sua ver- outras atividades, sejam burocráticas, de extensão ou de pesquisa. O
são soviética, moldam o presente quadro caracterizado pela presença estresse é o estado em que essa juventude docente se encontra des-
do marasmo, da acirrada competição entre pares, da animosidade que de seus primeiros meses no interior da Universidade, associadoao
campeia no ambiente docente, da fragmentação dos grupos de pes- medo permanente de não alcançar a pontuação determinada desde
quisa, da ausência do debate político sobre temas nacionais relevan- cima, sem discussão nos departamentos, nos centros e muito menos
tes, do viés político de tantos e tantos militantes, do reducionismo da no movimento docente. Tal condição no âmbito do trabalho docente
vida sindical ao que interessa mais propriamente ao estomago dos universitário está a expressar a profunda semelhança com a situação
professores através de ações judiciais, da guinada à direita da direção operária na fábrica ou em qualquer outra atividade privada, tal como
da APIJFSC a partir da presidência de Armando de Meio Lisboa e, vinha se delineando em todo o mundo desenvolvido desde o final dos
mais ainda, da gestão atua], a de Carlos Wolowski Mussi. anos setenta, por determinação das injunções neoliberais no sistema
O discurso predominante, hoje, é este: vamos deixar de grandes do ensino"
lutas e rompamos os vínculos com centrais sindicais e com a AN- O movimento docente teve historicamente a capacidade de se
DES. Agora, nossa questão passa a ser local. O resto, vamos deixar organizar, de ter uma ampla aceitação entre os professores nas lutas
sob a responsabilidade de nossos advogados. Afastemos, pois, a his- que se referiam às suas questões mais prementes, mais diretamente
tória de militânciapara lá. Nossa prioridade agora é a comunidade ligadas aos seus interesses -- reajuste salarial e reestruturação da car-
docente da UFSC, a busca de sua identidade destruída pela ação de- reira docente. Sem dúvida, um longo fôlego (por cerca de vinte anos),
letéria de anos e anos do MD politizado. Na gestão de Lisboa, parte apresentado por um movimento em grande medida composto por
da estrutura da APUFSC, inclusive, mudou de endereço, saindo do gente de classe média em ascensão. Sabíamos, no entanto, que o MD
burburinho do campus e indo estabelecer-se em assépticas salas com- 28 ESPÍNDOLA, Célio, "Rumos da educação universitária A reforma no contexto
pradas em um edifício de um shopping center vizinho. do domínio do capital financeiro e do conservadorismo" in RAMPINELLI, W e/
a/zz. IJniversidade: a democracia ameaçada. Xamã, São Paulo, 2005, p. 193-221
Nesse processo de debilitação do movimento docente, que no MANDELL Ernest. Os estudantes, os intelectuais e a luta de classes. Edições
médio prazo pode consolidar a pasmaceira política em que se encon- Antídoto. Lisboa. 1979.

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Waldir José Rampinelli e Nildo Ouriques Ci'ítica à Razão Acadêmica
(OI'ganizadores) Reflexão sobre a universidade contemporânea

tinha/teria fôlego curto para abraçar causas transformadoras mais gada, da mesma forma como a socialização na política, na necessária
profundas, ainda que (e talvez por isso mesmo) numa sociedade vara- militância para a recuperação e a condução de um movimento que
da pela desigualdade, com uma enorme exclusão e segregação sociais, deu frutos em todas as dimensõesda universidade. E que está fa-
um verdadeiro "apartheid" social. Um grande número de professores zendo falta para o levantamento das grandes questões que as várias
6oise doutorar no exterior e mesmodentro do país, o que é uma áreas de conhecimento enfrentam com a quebra de paradigmas, com
necessidade pessoal e para o ensino, a pesquisa e a extensão. O apro- a incapacidadedo sistema capitalistade produzir respostaspara as
fundamento do conhecimento nas várias ciências e nas formações grandes questões da humanidade. Uma ampla temática está à espera
proülssionaisdeveria, a nosso ver, trazer avanços também na visão de uma universidade e de um corpo docente dispostos e organizados
de mundo, no aumento da possibilidade de formulação e aprofunda- para debater e socializar, com conhecimento aprofundado e desvela-
mento da crítica a esta sociedade desigual, na discussão dos rumos da dor, politizando, assim, as visões de mundo que ora estão em disputa.
política que o Brasil precisa tomar, portanto, no envolvimento acerca É fundamental e urgente retirar da ditadura invisível do neolibera-
das grandes questõesda sociedadebrasileira. Porém, os novos ares lá lismo, e de seus correlatos, a disseminação dos desatinos (nos campos
cora (e aqui dentro) eram/são outros, passando a predominar o neo- da teoria e da prática) que vem promovendo a reiteração da condição
liberalismo, o pós-modernismo e outras visões de mundo associadas, de miséria em geral, especialmente a brasileira.
escancarandoo fato de que a luta pela superaçãodo sistema capi-
talista e de sua reiterada produção de nossa subalternização ocorre 10. Divisão, de:iPztiaçãoe direitização do movimento docenü.
também (e, sobretudo, para nós) no plano da teoria. Isto nos desafia A ANDES 6oi transformada em sindicato em 1988,logo após
diretamente, como integrantes que somos dos quadros universitá- a promulgaçãoda Nova Constituição". Sua filiaçãoà CUT parecia
rios públicos de países latino-americanos ou terceiro-mundistas. A representar reforço mútuo e novo fôlego ao movimento sindical. No
entrada de novos doutores, que poderia se constituir num crescente entanto, o movimento vai passar por situações difíceis, até redundar
processo de intelectualizaçãoe, portanto, de aumentode nossa ca- numa profunda crise, a partir de 1998 e durante toda a década se-
pacidade crítica, acabou ganhando outros contornos. Há hoje maior guinte. Os componentes e os fatores dessa crise são vários, alguns
divisão de interesses, grupais ou individuais, fragmentadora da con- vêm de longe e outros são mais recentes.
vivência dentro dos departamentos, que não lutam pela implementa- A desmobilizaçãopolítica dos movimentos sociais com a ação
ção de atividades que deveriam ser, antes de tudo, coletivas, coope- da onda neoliberal,com a derrocadado socialismoe com as frus-
rativas. Ensino, pesquisa e extensão, ciência e técnica, Filosofia e arte
trações da militância daí decorrentes, com a cooptaçãopartidária de
são produções histórico-sociais e devem, portanto, ser socializáveis. um grande número de militantes para a luta eleitoral, provocou o
Quanto maior 6or a especialização necessária para o aprofundamento esvaziamento do movimento docente e de suas greves, daí a perda
do conhecimento,mais necessária se torna a transdisciplinaridade, a crescente de legitimidade frente ao professorado, aos estudantes e à
integração de diversas ciências e de técnicas. Prova disso são as gran- sociedade. O MD como um todo perdeu sua corça política não pela
des transformações científico-tecnológicasda revolução tecnológica justeza de suas reivindicações,mas por não ser um movimentode
em curso, que fazem até mesmo os grandes capitais rivais se associa- massa, com capacidade de negociação condizente com as necessida-
rem para a produção conjunta de um novo conhecimento. Em nossa des históricas da categoria docente e da educação brasileira em geral,
universidade pública, porém, quatro professores de uma mesma área especialmente a universitária.
de conhecimento não conseguem partilhar de uma mesma pesquisa. 24 Por esta razão, daqui em diante, quando tivermos que fazer referência à nossa
A socializaçãoda produção do conhecimento parece estar sendo ne- entidade nacional, a designaremos como o ANDES-SN .
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Waldir José Rampinelli e Nildo Ouriques Crítica à Razão Acadêmica
(Organizado-'es) Reflexão sobre a universidade contempol'ânea

Nesse cenário, ocorre o comportamento pouco recomendável e peso sindical, embora não tosse legalizado, mas sim institucionaliza-
nada democrático do presidente do ANDES-SN durante as negocia- do pela alta burocracia do poder central. Ao mesmo tempo, o ANDES
ções salariais de 1998, ao aceitar, à revelia das decisões maioritárias Hoisendo isolado das negociações com o governo.
das assembleiaslocais, que exigiam reajustes uniformes, a proposta É fundamental não esquecer o caráter e o papel do Estado fren-
divisionista e desagregadora do movimento feita pelo governo de te a qualquer movimento sindical, ainda mais quando este apresenta
não conceder reajustes salariais uniformes para todos os professores dimensão nacional e capacidade de argumentação política, com corte
ativos e inativos das universidades federais e do ensino fundamental relacionamento com a juventude universitária, com a classe média
e médio também federais. Ao contrário, acenou-secom ganhos de do país. Um governo é obviamenteuma representaçãodo Estado,
produtividade (as GEDs) somente para os docentes da atavadas ins- cujas corças políticas, independentementeda orientação que esse
tituições de ensino superior da rede federal. Apenas recentemente, ou aquele governo tenha em relação às funções sociais vinculadas
depois de muita açãojudicial, é que 6oireparada parte da desigualda- à reprodução do trabalho e das classes subalternizadas, acabam por
de de remuneração decorrente daquela negociata. fazer prevalecer o comportamento político, burocrático, ideológi-
Do vazio deixado pelas lideranças políticas que debandaram do co (e as vezes policialesco) de jogar o movimento social contra a
MD e foram cooptadaspelo governo, em especialna primeira ges- sociedade,empurrando com a barriga as discussõese negociações
tão de Lula como presidente da República, e da divisão, expurgo e em pauta. Disso resultam vitórias píÊlasno plano salarial, divisão e
desíiliação que houve dentro do PT por conta das negociaçõescom muito desgaste do movimento frente à população, aos estudantes, no
os partidos (como o PMDB e vários outros), antes negados para interior do próprio movimento docente e de suas lideranças. Foram
qualquer aliança política, mas agora tidos como necessários diante muitas as tentativas governamentais de impor, de cima para baixo,
da nova estratégia de vencer a eleição presidencial a qualquer preço pacotes de medidas danosas aos professores, ao caráter público e à
(e este 6oimuito altos), surge mais essa divisão no seio da esquerda: autonomia da universidade federal. Tais tentativas apontavam para
essas corças divergentes do governo e do PT se associam com as a redução dos gastos com a educação via privatização do ensino pú-
corças mais a esquerda, o Partido Socialista dos Trabalhadores Unifi- blico universitário. Quem não se lembra, por exemplo, das propostas
cado - PSTIJ e outros fragmentos políticos, e formam a Coordenação de orçamento global e de transformação das universidades federais
Nacional de Lutas -- Conlutas, como tentativa de reaglutinar as corças autárquicas em fundacionais? Propostas desse naipe, oriundas tanto
de esquerda tendo em vista buscar assumir a hegemonia política na dos governos militares quanto dos governos de democracia eleito-
luta pelo socialismo. A Conlutas vence a eleição para a diretoria do ral, impuseram o divisionismo nos movimentos sindicais, em nego-
ANDES-SN, em meio a uma tendência desgastante do movimento e ciatas realizadas com sindicalistas irresponsáveis e ilegítimos, mas
do aprofundamentoda divisão política interna. Desse quadro nasce que venciam no jogo da política suja de levar vantagem em acesso
o Fórum de Professores das InstituiçõesFederais de Ensino Supe- a cargos públicos e a polpudos recursos distribuídos por conta de
rior - Proifes, um movimento de setores das ex-esquerdas (PCB, Pc proletos sociais. A culminância dessa prática ilegal, despolitizadora,
do B, PT), alimentados pela alta burocracia do MEC e do Ministério discriminatória e difusora da competiçãoe da divisão política nas
do Trabalho e mais diretamente, inclusive, pelo próprio Palácio do representações e nas bases dos movimentos sociais, üoio que aconte-
Planalto. Algumas das instituições fundadoras do Proifes estavam ceu com o que o representantedo Ministério do Trabalho 6ezcom o
se desfiliando da base do ANDES e várias outras, particulares e fun- ANDES-SN em 2008. Depois de institucionalizar o fórum chamado
dacionais, nunca tiveram qualquer inserção enganadano movimento Proifes (fruto da divisão do MD em relação à direção do ANDES),
docente. Com isso, criou-se um fórum que passou a se apresentar com considerando-o como instância própria e independente do sindicato
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Waldir José Rampinellie Nildo Ottriques Crítica à Razão Acadêmica
(Organizadores) Reflexão sobre a universidade contempol'ânea

nacional docente, o governo passou a rejeitar a participação do AN- sões (económica, política e ideológica) e a derrocada do "socialismo
DES como representante legal nas tratativas concernentes às nego- soviético" impactaram negativamentesobre todos os movimentos
ciações de carreira e outras da categoria docente da rede universitá- sociais, desde o desmoronamento do sonho socialista para muitos, a
ria federal. Pela Portaria n' 1/2008, o Ministério negavao registro debandada das lideranças, a cooptação sindical e pessoal pelas buro-
sindical do ANDES-SN. Em seguida, sai no Diário Oficial da União cracias governamentais e, por âlm, a direitização de amplas orações
e em outros órgãos de imprensa a convocaçãode uma assembleia da ex-esquerda (comunistas, petistas, trotsquistas, solidaristas, auto-
para o dia 6 de setembro daquele ano (2008), a ser realizada em São nomistas e outros que tais). Essa é a questão de fundo que perpassa
Paulo, cuJO objetivo era criar um sindicato nacional de professores todos os movimentos, parte da intelectualidade e grande parte do
do ensino público federal - o chamado PROIFES. Notícia publicada professorado, expressa tanto em seus comportamentos individuais e
no próprio Boletim da APUFSC, trata de divulgar um informe da suas visões de um novo mundo "sem história", quanto em suas ativi-
diretoria do ANDES-SN denunciando, a propósito, a "constituição dades docentes, em cuja bibliografia não pode constar qualquer crí-
artificial de um ente pretensamente sindical na base do ANDES-SN tica ao sistema capitalista, somente a esse ou aquele governo, nada
(Proifes) pelo governo Lula, pela CUT e pelas corças políticas que de discutir exclusão social, miséria, come,exceto quando vem deter-
o apoiam'", representando uma ameaçapara o Sindicato Nacional e minada pelo FMI e pelo Banco Mundial, nada de discutir as grandes
causando uma divisão no movimento sindical ao estilo da ditadura reformas sociais, nada de levantar os problemas da privatização da
militar. Com isso, o ANDES-SN não pede participar da discussão gestão do financiamento público da pesquisa, hoje dominada pelas
sobre a reforma da carreira docente (MP 43 1). Não obstante todas fundações,todas legalmente de caráter privado, porém ocupando
as aberrações legais, algumas seçõessindicais, entre elas o APU- funçõespúblicas (aqui na UFSC e em várias outras instituiçõesdo
FSC, pediram desüiliaçãodo ANDES-SN, considerando-o não mais país, as fundações sofreram a intervenção do Ministério Público e do
representativo do movimento nacional dos docentes e querendo a Tribunal de Contas da União, por graves irregularidadesnas suas
autonomia, o registro como sindicato local. Recentemente, a pró- funções, gestão e orçamento).
pria APUFSC publica no seu Boletim semanal a informação de que A desnlliaçãodos sindicatos em várias universidades como base
o Ministério do Trabalho havia revogadoas medidascastradoras sindical do ANDES têm como fatores determinantes e abrangentes
impostas ao ANDES, reconhecendo a este o direito de representar os arrolados acima, porém, pelo menos no caso particular do sindi-
todas as bases docentes universitárias federais filiadas e não filia- cato APUFSC, vários aspectos internos à UFSC e ao movimento
das". Cabe perguntar à direção da APUFSC e sua base que aceitou docente local contribuíram para acelerar tanto a desíiliação do AN-
a des6lliaçãose isso não 6oiuma manipulação grosseira e rasteira de DES quanto o próprio processo de direitização do movimento e da
um grupo reacionário, fazendo-se de democrático, que se aproveitou direção do sindicato. Uma questão central se refere ao processo de
de um movimento docente completamente esvaziado e já despoliti- intervençãoe interdição de várias fundações em especial,a Fun-
zado para, com base em ates ilegais do governo e em divergências dação de Ensino e Engenharia de Santa Catarina - FEESC -- acu-
políticas internas ao movimento, propor e conseguir a desfiliação da sadas de atuar na gestão privada do dinheiro público que financia
APUFSC de sua representação nacional, o ANDE$SN. os proUetosde pesquisa em universidade pública, muitos deles para
Ao longo de todo este texto temos procurado ser enfáticos a servir interesses privados. Isso causou uma profunda tensão política
respeito de quanto as injunções neoliberais em suas amplas dimen- dentro da Universidade, com reação raivosa e truculenta dos profes-
sores que faziam/fazem parte dessa fundação, a FEESC. Tais pro-
25 Boletim da APUFSC, n. 649, 18-08-08, Florianópolis, p. 5.
26 Boletim da APUFSC, n. 786, 22-11-10, Florianópolis, p. l fessores se articularam com o alto comando da Universidade para
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Waldir José Rampinelli e Nildo Ouriques Crítica à Razão Acadêinica
(Organizadores) Reflexão sobre a universidade contemporânea

ganhar o sindicato APUFSC, aproveitando-se habilmente das divi- pagamentodo endividamentoexterno e interno que, ao longo dos
sões e vazios criados dentro do movimento docente local e nacional anos oitenta e noventa, Éoi se configurando como dívida pública in-
e da visão e comportamentodúbios,para não dizer direitista, da terna, contra o esbanjamentode recursos para os grandes projetos
diretoria da APUFSC. Em pouco tempo mobilizaram várias cente- faraónicos e para o grande capital agrário e industrial de exportação
nas de professores, fazendo a maioria nas assembleias.Propuseram, e pro)etos regionais de colonização agropecuária, contra o profundo
primeiro, a desfiliação do ANDE$SN, depois a reforma do estatuto endividamento decorrente desse esbanjamento e das taxas de juros
da APUFSC, a seguir, venceramas eleiçõespara a diretoria deste elevadas propositalmente pelo governo estadunidense, pelos ban-
sindicato e ato contínuo trataram de mudar a sede de dentro do cam- queiros internacionais e pelo Banco Central do Brasil dominado por
pus da UFSC para o último andar de um edifíciocomercial corado esses interesses.
campus, cqo acesso só é permitido com senha e tendo que se passar Lutamos contra os minguados recursos destinados para as fun-
por uma catraia. Por último (pelo menos até o momentos), reduzi- ções sociais e pela profunda alteração do financiamento público. En-
ram o histórico e denso boletim semanal impresso da APUFSC ao quanto o governo Lula, contra os interesses da burguesia e da classe
registro formal de simples informes e de periodicidade agora quin- média, dedicou somente 0,5% do PIB para o programa Bolsa Família,
zenal e pretendem inclusive substituí-lo por comunicação eletr6ni- mais de 8% coram destinados aos juros da dívida pública e cerca de
ca. Combinam-se, nesse grosso caldo, portanto, a organização e a 280 bilhões de dólares constituíram a soma dos juros e amortizações
mobilização da velha e da nova direita com a direitização de orações desta dívida no ano de golo. Ou seja, não há como aprofundar a
da esquerda, com corça suHlcientepara ganhar nas urnas as eleições implementaçãodos programas sociais sem que o governo e o Con-
não somente da APUFSC, mas também para continuar ganhando a gresso Nacional realizem a auditoria da dívida pública e cessem os
direção da própria UFSC. pagamentos indevidos (porjá terem sido pagos muitas vezesl) e pelas
várias formas ilegítimas de transformar a dívida privada em dívida
11 . Conclusão: resgatando oethas e necessárias lições. pública.
A presente leitura da gênese, desenvolvimento e retração do Lutamos contra os cortes dos gastos públicos, entre eles o in-
movimento docente leva-nos a reafirmar um conjunto de aspectos vestimento produtivo e os gastos sociais em amplos e fundamentais
fundamentais desenvolvidos ao longo do texto e que, pela sua atu- setores (saúde, educação, habitação, saneamento básico, infraestrutu-
alidade e importância, estão a desafiar, como viva lição, o conjunto ra de transporte, etc.); especialmentelutamos contra a redução dos
do MD e, em particular, o movimentoe especialmentea direção do gastos com a educação pública em todos os níveis de ensino, sob o
sindicato dos professores da UFSC, a APUFSC. lema "Educação, direito de todos e dever do Estado"; contra a priva-
Contra o que e contra quem lutamos e devemos continuar lu- tização das empresas e serviços públicos administradas pelo Estado,
tando? em escandalosas entregas do património público ao grande capital
Lutamos contra a ditadura militar, contra as suas mordaças às predominantemente multinacional.
liberdades públicas, aos movimentos sociais, ao livre desenvolvimen- Lutamos contra os prquízos sociais que os vários planos de go-
to do saber, do ensino, da pesquisa e da extensão, pelo envolvimento verno Real, Bresser, Collor, FHC -- impuseram às classes popula-
da Universidade com a sociedade,pelas eleições livres e diretas em res, por injunções do grande capital financeiro transnacional, desde
todos os níveis de governo e dentro das universidades. cora e de dentro do país. Ou sela, lutamos e devemos continuar
Lutamos contra a dependência económica, financeira e política lutando -- para eliminar a influência nefasta, antissocial e ideologica-
ao imperialismo, contra os pacotes de medidas que nos impunham o mente castradora provocada pelo neoliberalismo e por toda e qual-
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Walclir José Rampinelli e Nildo Ouriques Crítica à Razão Acadêmica
(Organizadores) Reflexão sobre a universidade coi)temporâilea

quer ideologia individualista sobre a sociedadee, por consequência, toral e suas reivindicações específicaspassaram da qualidade de luta
sobre os programas de ensino, de pesquisa e de extensão dentro das política para a do campo judicial.
universidades. No interior das universidades,lutamos contra o amordaçamento
Com quem lutamos, isto é, quais as bases e abrangência do movi- da liberdade de pensamento (de ensino, pesquisa e extensão) que se
mento social dentro do qual o movimento docente eclodiu e se desen- relacionasse com a crítica da realidade económica, social e política e
volveu e no que se restringe o movimento atual? Qual é sua compo- militar do país; pelo direito à crítica das teorias económicas,socioló-
sição social e o que mudou dentro do MD? Qual a ideologia que Ihe gicas, políticas e ideológicas que dão sustentação ao sistema capita-
dava suporte e qual a que agora prevalece? Qual era a abrangência lista e suas crises. Lutamos contra a escassez de recursos financeiros
de suas reivindicações e quais as que restam? Quais os rumos que o e, por decorrência, os baixos salários e grande parcela dos profes-
movimento apontava e qual a visão minguada que hoje sobra? sores trabalhando em tempo parcial, a falta de condições adequadas
No plano político, lutamos ao lado dos movimentos sindicais, de trabalho, de biblioteca atualizada e diversificada. Lutamos pela
sociais e políticos com a abrangência e a diversidade de bandeiras e reforma curricular e por eleições livres para as chefias de departa-
programas que a realidade do país estava a exigir, num processo his- mentos, direção de centros e para reitor, na tentativa de democra-
tórico que vinha tomando corpo e se espraiando pela sociedade bra- tizar as universidades que então vinham sendo geridas segundo os
sileira contra a ditadura militar e pela redemocratização do país, mas ditames da ditadura militar. Hoje, é fundamental que se reconquiste,
também contra todos os aspectos mencionados anteriormente (que, por exemplo, a gestão do Hlnanciamentoda pesquisa dentro das pró-
desde a segunda metade dos anos setenta, vão confluir num proces- prias universidades públicas, perdida pela implantação das fundações
so de "ruptura" pelo alto, a partir de uma lenta e segura transição em seu interior, via processo de privatização.
para um regime civil de democraciaeleitoral,com lutas popularese Foi importante o aprendizado democrático dos professores, dos
partidárias, primeiro pela anistia de presos e exilados políticos, de- técnicos-administrativose dos estudantesuniversitários com a or-
pois pela eleição direta em todos os níveis de governo e mais adiante ganizaçãoe a luta dos docentes,tanto no interior do próprio movi-
pela Constituinte, para a elaboração de uma Nova Constituição, a de mento (com discussões e decisões a partir dos centros de ensino até a
1988). Esses movimentos políticos vão se esgotando na medida em assembleiageral) quanto na estrutura da IJniversidade (com eleições
que cumprem os seus objetivos limitados e tendem a se conformar para chefias de departamento, direções de centros e para reitor) e nas
com e na luta eleitoral. Durante os governos FHC e Lula, coram ou relações com o Estado (com representação de cada assembleiageral
reprimidos ou esterilizados, seja pela incorporação de bandeiras que no comando nacional de greve para discutir e negociar a pauta de
não coram cumpridas (como a da reforma agrária) ou foram só par- reivindicações do MD e até mesmo para assumir a liderança na dis-
cialmente cumpridas (como alguns programas sociais -- o bolsa fa- cussão e formulação do Plano Estadual de Educação, como aconteceu
mília e vários outros), seja pela descaracterização ou camuflagem do aqui em Santa Catarina em meados dos anos 1980) e, ainda, na rela-
objeto de luta (trata de pagar o pouco que existia de dívida externa, ção com a sociedade, através de um amplo leque de eventos culturais
mas sobra a grande dívida pública interna, sobre a qual pouco se fala desenvolvidosdentro e cora da Universidade.
e quase nada se faz). A desmobilização, despolitização e cooptação O movimento político é, antes de tudo, um processo com con-
dos movimentos e de seus líderes e a centralização da publicidade tinuidades e descontinuidades, com enfrentamentos antagónicos que
na figura do governante foram as marcas dos dois últimos governos, podem impor-lhe derrotas temporárias, por vezes curtas e outras ve-
porém, com mais méritos para Lula a partir do seu segundo manda- zes longas, mas sempre a ressurgir com seus ideais, seus mártires,
to. Os movimentos sociais aceitaram, no geral, cingir-se à luta elei- ídolos e ideologias que, por sua vez, também podem mudar segundo
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Waldir .rosé Rampinelli e Nildo Ouriques Crítica à Razão Acadêmica
(Organizadores) Reflexão sobre a universidade contemporânea

os novos horizontes, conforme o vergar da vara na relação de corças, Na última década,o quadro passou a ser outro, caracterizado
a partir do ressurgimento das organizações, de novas formas e con- por um descendo de todos os movimentos sociais e políticos, exce-
teúdos e de velhas e novas lutas a confluir numa síntese de corças to o eleitoral. Associam-se a ele o desmoronamento do socialismo
tendentes à universalização. Muitos dos remanescentes ou aprendizes soviético e por conta disso o estresse político de amplos setores da
de uma ou de outra dessas situações históricas coram as sementes que esquerda, sua debandada para outros rumos, inclusive o da direi-
germinaram, após alguns anos de dormência na desertificação política ta; a esterilização e queima de bandeiras políticas, a despolitização,
causada pela ditadura militar e pela opressão civil reacionária e dela- a cooptação política de lideranças e militâncias pelo governo "dos
tora no ambientede trabalho e nas ruas. Muitos outros - seja por prin- trabalhadores", com suas novas estratégias, alianças e planos, seus
cípios democráticos liberais, seja por humanismo ateu ou cristão -, que acordos com os grupos financeiros e suas migalhas, que não deixam
estavam associados ou não aos movimentos de oposição ao regime, de ser importantes para suavizar a come imediata e dar início a uma
coram se enganandoativamente no processo político, surgindo daí vá- série de programas sociais, conquistando, por isso mesmo, uma gran-
rias lideranças ao longo das lutas. Aprendemos a lutar politicamente de popularidade que rendeu ao Lula dois mandatos e a eleição de sua
pelas experiências operárias e pelo voluntarismo estudantil, desde os sucessora. Mas coram poucos os militantes que coram às ruas, até
anos sessenta. Apresentamo-nos como categoria e organização pró- mesmo para comemorar a sua vitória.
prias somente a partir de 1979, quando aprendemos e somamos corças O domínio do neoliberalismo e de teorias correlatas, embora di-
com outros movimentos remanescentes e que passaram a determinar, ferentes em suas concepções,conduzem ao mesmo destino, que é o
em grande parte, o rumo da história brasileira. Forças atuantes como da conformação de uma visão de mundo conservadora e individua-
partidos políticos e organizações sociais e sindicais, destacando-se en- lista dentro da sociedadee especialmentedas instituições de ensino
tre eles a CUT e a ANDES, esta ainda como associação nacional re- superior. O comportamento social daí derivado, na burguesia e nas
presentativa das associações específicas de cada universidade pública, classes médias e nas suas conülguraçõesdentro das universidades,
para a qual coram sejuntando as fundacionais e as particulares. A par- tem assumido tonalidades que beiram ao fascismo. As velhas lições
tir daí, exceto percalços normais dos períodos de luta interna entre deixadas pelo movimento docente, que expusemos resumidamente
os vários segmentos políticos e a partir da transformação de associa- nesta conclusão e mais longamenteem todo o texto, apontam no
ção em sindicato nacional (em 1988), o ANDES - Sindicato Nacional sentido inverso ao que vem acontecendo nas universidades e parti-
passou a ter mais corte presença no quadro político e na participação cularmente nos seus movimentos docentes.No âmbito da UFSC, por
direta em todas as conquistas que teve o movimento docente ao longo exemplo, estamos tendo perdas incomensuráveis no MD pela ação
das décadas de oitenta e de noventa. O MD tinha peso e importância das últimas gestões da APUFSC, com suas direções atabalhoadas,
nacionais, buscava relacionar-se com os demais movimentos e envol- descaracterizadoras e redutoras da histórica amplitude de sentidos e
ver-se com a população. Nada de isolamento, nada de localismo, nada de objetivos que urge ter, entre nós, professores de uma universidade
de luta de uma só universidade, nada de execrar por execrar adversá- pública, um sindicato docente.
rios políticos dentro do movimento, sempre com disputa acirrada mas
no interior do debatepolítico, com militância aguerrida. Havia muitos
professores executando múltiplas tarefas, todas necessárias para se
levar a bom termo as lutas, as greves, para se chegar às vitórias, ainda
que parciais, mesmo que só ganhássemos o aprendizado político e al-
guns meses para a reposição de aulas.
21 1
A DEI.INQUÊNCIA ACADÊMICA
.4ntozio Oza{ da Situa

Em 'A Delinquência Acadêmica", Maurício Tragtenberg anali-


sa a universidade como "instituição dominante ligada à dominação",
uma "universidade antipovo'
A universidade forma os profissionais necessários aos aparatos
estataise privados. Esta formação ocorre, predominantemente,de
acordo com princípios que legitimam a linguagem, os conhecimentos
e os valores dominantes. Reforça, portanto, a ideologia dominante.
Por outro lado, o czz/nPzzs
reproduz as desigualdades sociais e deslegi-
tima a cultura e o saber dos excluídos.
A universidade fornece os .prq#zssores
gere fei cujo trabalho alie-
nado separa concepção e execução, restringindo-se a desempenha-
rem o papel de técnicos que transmitem habilidades e conhecimentos
(tidos como neutros e objetivos) e que adestram alunos, desde a in-
fância, a se submeterem.
Tragtenberg realça o caráter classista da universidade e, simul-
taneamente, sua inserção na sociedade de classes. Portanto, o saber
legitimado em seu interior não é um saber ingênuo, desprovido da
influência das relações de poder.
A universidade, nesta concepção, não constitui uma espécie de
reservatório da razão e do humanismo, na qual, em tese, indivíduos
imbuídos de interesses essencialmente cientíÊlcos exercitam o conhe-
cimento e a polidez nas relações humanas. Tragtenberg critica a con-
cepção predominante que concebe a educação e o sistema de ensino
como neutros. Nesta, o professor fica reduzido a mero instrumento
de transmissão de um saber acumuladoe reconhecido comolegítimo.
Maurício Tragtenberg 6oi "um intelectualcontra o poder
intelectual"'.Ele foi um desestabilizadordo es/aó/ÚÀme
zf universi-
'k Professor da Universidade Estadual de Maringá. Autor de "Maurício Tragtenberg;
Militânciae PedagogiaLibertária", ljuí, Editora daUnjjuí, 2008
iA definição é do professor Aâ'ânio Catani. Ver: CA:l'ANI, AÊrânio Mendes. .4Zazórüzo
7}ugZe/zóezg
um intelectualcontra o poder intelectual(1929-1998).In: Revista
ADUSP, n' 17,jun 1999,p. 88-90.

213
Waldir José Rampinelli e Nildo Ouriques
(Organizadores)

tário. Sua praxis pressupõe uma concepçãocrítica da universidade e


da sociedade e a responsabilização individual diante destas. Tragten-
r Crítica à Razão Acadêmica
Reflexão sobre a universidade contemporânea

tuição de classe .onde as contradições de classe aparecem. Para obs-


curecer esses fatores ela desenvolve uma ideologia, um saber neutro,
berg chama a atenção para o servilismo e a será,zdãoz,oZz /área, cada científico,quer dizer, a neutralidadecultural e o mito de um saber
vez mais presentes no ca7nPzzs. No âmago da sua crítica está a desres- 'objetivo" acima das contradições sociais. Isso se acirrou a partir de
ponsabilização do intelectual, a ideologia da não-ideologia, a busca 1964, quando a Universidade 6oipraticamente apartada da realidade,
das sinecuras burocráticas legitimadas pelo apoliticismo. Tragten- se encastelou. Nesse momento surgiu a figura do intelectual buro-
crata, do funcionário intelectual, que mais reproduz do que produz
berg identi6lcoutais procedimentos como pertinentes à delinquência
conhecimento próprio.
acadêmica. Esta realiza o "Saber é Poder" sem se perguntar sobre a
relação entre os meios e os fins.
Maurício Tragtenberg expressa a crítica a um tipo de produção Fdthe\lm: .41)arentemente ela distribui o saber "objetivo". Mas qual deoe-

academicista, pretensamente científica e voltada para o interior do ria ser ajunção realda universidade?
ca7nPz/s,um academicismo caracterizado por discussões infindáveis Maurício: Hoje a universidade forma a mão de obra destinada a man-
em torno de abstrações desvinculadas do mundo real. Ele usa a pala- ter nas fábricas o despotismo do capital. Nos institutos de pesquisa
vra no sentido sartreano, isto é, sua palavra é comprometida, engana- cria aqueles que deformam dados económicos em detrimento dos as-
da. Assim, ele assume um compromisso social e também uma posição salariados. Nas escolas de Direito forma os aplicadores da legislação
de exceção. Nas escolas de Medicina aqueles que irão convertê-la
política diante dos temas históricos do passado e do presente.
numa medicina do capital ou utiliza-la repressivamentecontra os
Sua crítica não é a crítica pela crítica. Sua percepção do cam-
deserdadosdo sistema. Em suma, trata-se de um "complâ de belas
po aczzdêmzco e do processo de escolarização exprime uma propos- almas" recheadas de títulos acadêmicos, de doutorismo substituindo
ta pedagógica na perspectiva da transformação da escola e da uni-
o bacharelismo, de uma nova pedantocracia, da produção de um ser-
versidade: suas relações internas, com a sociedade, procedimentos viço do saber
político-pedagógicos etc. O ponto de partida é a crítica ao existente,
o desvendamento da realidade aparente. A universidade é o /órzzida
FdVhet\m. Existe gente na Universidade l)reocupada com a reforma uni-
contradição e, portanto, a crítica pode encontrar nela o terreno fértil versitária. Mesmo assim ...
necessário à superação do s/afzzsgôzo.
Maurício: A coisa é feita às cegas. Existe a figura do planejador
tecnocrata, formado pelas faculdades de educação, a quem importa
4 Del,in quência ..4cadêmica' , discutir os meios sem discutir os fins da educação, confeccionar re-
entrevista com Maurício Tragtezberg formas educacionais que são verdadeiras "restaurações". lbrmam o
professor-policial, aquele que supervaloriza o sistema de exames, a
Folhetim: Prl2#essorM2zzzz"ü/o,gzóezózzzz'erszdade
é es/.z? avaliaçãorígida do aluno, seu conformismo ante o saber prohssoral.
Maurício Tragtenberg: A universidadeestá em crise e isso ocorre A pretensa criação do conhecimento é substituída pelo controle so-
porque a sociedadeestá em crise. O tema é amplo, abrangendo a re- bre o parco conhecimento produzido pelas nossas universidades. O
lação entre dominação e saber, a relação entre o intelectual e univer- controle de meio se transforma em fim e o campus universitário cada
sidade como instituição ligada à dominação, ou sqa, a universidade vez mais parece um universo concentracionárioque reúne aqueles
antipovo. A universidade não é uma instituição neutra, é uma insti-
que se originam das classes alta e média, professores e alunos, "her-
deiros" potenciais do poder através de um saber minguada atestado
2 Fonte: Folhetim, Folha de S. Paulo, 3 de dez. 1978 (Entrevista realizadapor Laerte
Ziggiati) por diploma.
215
NValdir José Rampinelli e Nildo Ouriques Crítica à Razão Acadêmica
(Organizador'es)
Reflexão sobre a universidade contemporânea

FoXhe\lm: epal o mecanismoatravésdo qual a Uniuersi(üde manüm sua que possui a empresa em relação ao futuro empregado. Informal-
característica classista?
mente, docilmente, ela "exclui" o candidato. Para o professor há o
Maurício: A Universidade classista se mantém através do poder currículo visível tipo publicações,conferências e atividade didática. e
exercido pela seleção dos estudantes e pelos mecanismos de nomea-
há o currículo invisível, esse de posse da chamada "informação", que
ção para os professores. Na universidade mandarinal do século pas- possui espaço na Universidade, onde o destino está em aberto e tudo
sado o professor cumpria a função de "cão de guarda" do sistema, ou é possível.acontecer. Há os "ratos" das salas privadas, os "ratos" da
sqa, como produtor e reprodutor da ideologia dominante, chefe da Reitoria. É através da nomeação,da cooptação dos mais conãormis-
disciplina do estudantado. Cabia à sua função proeessoral, acima de tas nem sempre os mais produtivos, que a burocracia universitária
tudo, inculcar as normas de passividade, subserviência e docilidade reproduz o canil dos professores.
através da repressão pedagógica. A transformação do professor "cão
de guarda" em "cão pastor" acompanha a passagem da universidade Folhetim: O qzzeé essa de/z/zqz/êzcza acízcamzca?
pretensamente humanística e mandarinesca à universidade tecno- Maurício: Essa "delinquência acadêmica" aparece em nossa época
crática, onde os critérios lucrativos da empresa privada funcionarão longe de seguir os ditames de Kant. Se os estudantes quiserem co-
para a formação das cornadas de "colarinhos brancos" rumo às usi- nhecer os espíritos audazes da nossa época, é cora da Universidade
nas, escritórios e dependências ministeriais. E o mito da assessoria, que irão encontra-los. A bem da verdade, raramente a audácia ca-
do posto público que mobiliza o diplomado universitário. racterizou a profissão acadêmica. É a razão pela qual os Hllósoâos
da revolução francesa se autodenominavam de intelectuais e não de
F(ithetltm: Como o senhor e=1)fica olato de que a Universidade também acadêmicos.Isso ocorria porque na Universidade havia hostilidade
mantém alguns cursos críticos?
ao pensamento crítico avançado. O prqeto de JeHerson para a Uni-
Maurício: Os "cursos críticos" desempenhama função de um tranqui- versidade de Virginia, concebidapara a produção de um pensamento
lizante no meio universitário. Essa apropriação da crítica pelo man- independente da Igreja e do Estado, de caráter crítico, 6oisubstituí-
darinato universitário, mantido o sistema de exames, a conformida-
do por uma universidadeque mascarava a usurpação e monopólio
de ao programa e o controle da docilidade do estudante como alvos da riqueza, de poder. Isso levou os estudantes da época a realizarem
básicos, constitui-be numa farsa. Numa fábrica de boa consciência e
programas extracurriculares onde Emerson se fazia ouvir, .já que o
delinquênciaacadêmica,aquelesque trocam o poder da razão pela obscurantismo da época impedia sua entrada nos prédios universi-
razão do poder. Por isso é necessáriorealizar a crítica da "crítica", tários.
destruir a apropriação da crítica pelo mandarinato universitário. Não
se trata de discutir a apropriação burguesa do saber ou não-burguesa FdVhetÀm. .41ém de pomo audaz parece que a "delinquência acadêmica« se
do saber, e sim a destruição do "saber institucionalizado", do "saber preocul)a mais com o título do que com o ensino.
burocratizado" como único "legítimo' Maurício: E que a política das "panelas" universitárias de corredor e
a publicação a qualquer preço de um texto qualquer se constituem o
Fdthet\m: .Ajunção phn.cipalda Uni'uersidadeseda entãoa de reproduzir metro para medir o sucessouniversitário. Nesse universo não cabe
a ideologia do sistema da dominação?
uma simplespergunta: o conhecimentoa quem serve e para que
Maurício: A Universidade reproduz o modo de produção capitalista servem
dominante não apenas na ideologiaque transmite, mas pelos ser-
vos que ela forma. Por exemplo,o sistema de exames,esse batismo Folhetim: H gozem e.para gzóê?
burocrático do saber. O exame é a parte visível da seleção.A parte Maurício: Em nome do "atendimentoà comunidade"e do "serviço
invisível é a entrevista, que cumpre as mesmas funções de "exclusão'
público", a universidade tende cada vez mais a se adaptar a qualquer
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217
Crítica à Razão Acadêmica
\?ValdirJosé Rampinelli e Nildo Ouriques
(OI'ganizadores) Reflexão sobre a universidade contemporânea

pesquisa a serviço dos interesses económicos hegemânicos. Nesse de crítica à autoridade, aos privilégios e tradições. O serviço público
passo a universidade brasileira oferecerá disciplinas como as exis- prestado por esses filósofos não consistia na aceitação indiscriminada
tentes na Metrópole: cursos de escotismo,defesa contra incêndios, de qualquer prometo,fosse destinado a melhorar colheitas, ao aperfei-
economiadoméstica e datilograHlaem nível de secretariado... (risos) çoamento do genocídio de grupos indígenas a pretexto de "emanci-
pois já existe isso em Cornell, 'Wisconsin e outros estabelecimen- pação" ou políticas de arrocho salarial, que converteram o Brasil no
tos legitimados. A universidade brasileira se prepara para ser uma detentor do triste recorde de primeiro país do mundo em acidentes
multiversidade", isto é, ensina tudo aquilo que o aluno possa pagar. de trabalho, pois a propaganda pela segurança no trabalho emitida
A universidadevista como prestadora de serviços corre o risco de pelas agênciasoficiais não substitui o aumento salarial.
enquadrar-se numa "agência de Poder", especialmente após 68 com
coisas do tipo Operação Rondon. O assistencialismouniversitário F(i\he\\m: O senhorjah no discurso apolítico do académico.Não }tá ne-
não resolve o problema da maioria da população brasileira: o pro' nhum discurso político na Universidade?
blema da terra. Uma universidade que produz pesquisas ou cursos a Maurício: A separaçãoentre fazer e pensar se constitui numa das
quem é apto a paga-los perde o senso da discrição ética e da finalida- doenças que caracteriza a delinquência acadêmica. O falar é às ve-
de social de sua produção. E uma "multiversidade" que se vende no zes muito para trás. Ao analisar a crise de consciência dos intelec-
mercado ao primeiro comprador, sem averiguar o Êlm da encomenda. tuais americanosque deram o aval à escaladano Vietnã, Horwitz
Isso tudo encoberto pela ideologia da neutralidade do conhecimen- notara que a disposição que eles revelaram no planeamento do ge-
to do seu produto. Já na décadade 30, Frederic Lilge, em seu livro nocídio estava vinculada à sua formação, à sua capacidade de meios
Fhe Abuse oJ Learning: The Faiture oÚ German Uniuersity acusava a sem nunca questionar os fins, a transformar os problemas políticos
tradição universitária alemã de neutralidade acadêmicade permitir em problemas técnicos, a desprezar a consulta pública preferindo as
aos universitários alemães a felicidade de um emprego permanente, soluções de gabinete, consumando o que deâiniríamos a traição dos
intelectuais.
escondendo a si próprios a futilidade de suas vidas e seu trabalho.

F($Vhet\m : No i' Seminário de Educação Brasileira a situação parecia ser Folhetim: Como en/ão comia/er o czcademzZzkmo?

outra. Havia bastante gente Preocupada com a real)onsabilidade social do Maurício: Fundamentalmente, a realidade é diabética.A mesma rea-
educador. lidade que cria o academicismo, que cria o saber oficial, que cria a
Maurício: Realmente havia. Mas eu não me aludocom congressos. A ideologia oÊlcial, que se esclerosa e se cristaliza através dos manuais
maioria dos congressos acadêmicos universitários serve de "mercado oficiais e livros didáticos, essa mesma realidade cria também a con.
humano" no qual entram em contato pessoas e cargos acadêmicosa traideologia. Essa mesma realidade cria o seu oposto.
serem preenchidos, parecidos aos encontros entre gerentes de hotel
onde se trocam informações sobre inovações técnicas. Revê-se velhos F(i\het\m: QJml a alternati a l)ara que a Universidade dele de ser, f)ara
amigos e se estabelecemcontatos comerciais. Estritamente falando, zsarf)atauras suas, "um depósitode alunos", ou um "cemitério de Ditos"?
o mundo da realidade concreta é muito generoso com o acadêmico, Maurício: A alternativa é a criação de canais de participação real
pois o título torna-se o passaporte que permite o ingresso nos esca- de professores, estudantes e funcionários no meio universitário que
lões superiores da sociedade: o problema da responsabilidade social é se oponham à esclerose burocrática da instituição. A autogestão pe-
escomoteado. A ideologia do acadêmico é não ter nenhuma ideologia, dagógica teria o mérito de devolver à Universidade um sentido de
ele faz fé de apolítico, servindo assim à política do poder. A filoso- existência, ou seja, um aprendizado baseado numa motivação de par-
fia racionalista do século18 legou uma característica do verdadeiro ticipação e não em decorar determinados "clichês" repetidos semes-
conhecimento:o exercício da cidadania implicava no soberano direito tralmente nas provas que nada provam, nos exames que nada exami-
8 219
Waldir José Rampinelli e Nildo
(Organizadores)
Oul'iques

T
nam. fazendo o aluno sair da universidade com a sensação de estar SOBRE OS AUTORES
mais velho e apenas com um dado a mais: o diploma, que em si perde
valor na medida em que perde sua raridade. A saída é a autogestão.
SÓ que esta solução não se dá no nível interno da Universidade, sen- Célio Espíndola
do uma questão da sociedade global. Não se pode ter uma Escola Professor Adjunto IV do Departamento de Economia da Uni-
para frente com um Estado para trás. versidade Federal de Santa Catarina (IJFSC) de 1971 a 1998. Mes-
tre em Economia pelo Centro de Desenvolvimentoe Planejamento
Folhetim: E/zfão, qzóaZo podem"da U7zlz;erszdade?
Regional da Universidade Federal de Minas Gerais (CEDEPLAR/
Maurício: A Universidade é o reflexo das contradições sociais, ela
não as cria mas reflete. Pelo fato de ser um reflexo, o seu papel não é UFMG). Pesquisador da Superintendência de Planejamento do Mi-
nistério da Agricultura (SUPLAN/MA). Pesquisador do Núcleo de
determinante no corpo social. Não é tendo o poder na Universidade
Política Cientifica e Tecnológica do Conselho Nacional de Pesquisa
que se tem o poder na sociedadeglobal. Isso só pode ser um sonho
de uma noite de verão, não é? O messianismo acadêmicoé uma des- (NPCT/CNPq/UFSC). Pesquisador do Departamento Intersindical
de Estatística e Estudos Socioeconómicos de Santa Catarina (DIE-
graça. Agora, na medidaem que a Universidade reflete contradições,
existem intelectuaiscríticos e intelectuais fascistas na Universidade ESE/SC). Tem publicado sobre os seguintes temas: "lnâormática e
em si, a questão do pensamento crítico na Universidade não se resol- Emprego", "Educação Universitária" e "Crise sistêmica, desemprego
ve internamente e sim no plano político maior, no plano das relações e educação profissional"
de poder. Se no todo social há espaço para as contradições aparece'
rem, se o operário tem o direito de fazer greve, se ele tem direito de CôroTeixeira Correia
organizar o seu sindicato independente da burocracia do Estado e da Geólogo, Professor Associado do Instituto de Geociências da
política, então na Universidade há espaço para a luta. Embora a op' Universidade de São Paulo (USP). Mestre, Doutor e Livre Docente
ção sqa pessoal, se não se juntar a grupos, a associações, a partidos, em Mineralogia e Petrologia. Foi segundo Tesoureiro da Associação
a ação será ineficiente. SÓ que as associações que se criaram nesse dos Docentes da USP -- Adusp Seção Sindical do ANDES-SN ( 1991-
País, os partidos políticos, como dizia o velho Oliveira Vianna, são 1993), Presidente da Adusp (200 1-2003) e do Sindicato Nacional dos
associaçõespúblicas de direito privado, e a última eleição mostrou Docentes das Instituições de Ensino Superior ANDES-SN (2008-
isso fundamentalmente. São meros clãs parentais, meros clãs feudais, 2010)
meros grupos de pressão dos interesses económicos. A formação de
outros agrupamentosdependeda dinâmica social e nem tanto do Elaine Tavares
voluntarismo do segmento acadêmico, que porque leu Marx, leu We-
Jornalista no Instituto de Estudos Latino-Americanos (IELA)
ber, sai na rua e acha que vai formar o partido a, b ou c. Isso também
da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com mestrado
é uma coisa típica do messianismo intelectual. Fundamentalmente,
em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio
depende da dinâmica da organização dos trabalhadores industriais e
Grande do Sul (PUC/RS). Editora da Revista "Pobres & Nojentas'
burocráticos. Agora, apressar pode ser negativo, estar atrás também
e da "Revista Brasileira de Estudos Latino-Americanos". Autora dos
é negativo, mas estar muito à õ'ente é mau porque fica na vanguarda
sem retaguarda. Nós vimos o que Êoi64: excesso de vanguarda sem livros "Jornalismo nas Margens -- uma reflexãosobre comunicação
retaguarda, quer dizer, muito chefe e pouco índio. em comunidades empobrecidas" (Cia. dos Loucos, Florianópolis,
2004) e "Porque é preciso romper as cercas do MST aojornalismo

220 221
Waldir José Ralnpinellie Nildo Ouriques Crítica à Razão Acadênlica
(Organizadores) Reflexão sobre a universidade contempol'ânea

de libertação" (Cia. dos Loucos, Florianópolis, 2009). Dirigente do institucionalização da escola catarinense no período monárquico e
Sindicato dos Trabalhadores da UFSC de 1998 a 2006. Dirigente do na República Velha, no âmbito da formação do Estado brasileiro e
Sindicato dos Jornalistas de 2009 a 201 1. catarinense em particular.

Fábio Lopes da Salva


Doutor em Linguística pela Universidade Estadual de Campi- Nildo Ouriques
nas (Unicamp), com p6s-doutoradoem Literatura Brasileira pela Professor do Departamento de Ciências Económicas da Univer-
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC/RJ). Desde sidade Federal de Santa Catarina (UFSC) com doutorado em Econo-
1994, é professor da Universidade Federal de Santa Catarina. Atual- mia Internacional pela IJniversidade Nacional Autónoma do Méxi-
mente, é coordenador do Programa de Educação Tutorial de Letras co (UNAM). Fundador do Instituto de Estudos Latino-Americanos
(PET) na mesmaUniversidade. Integra o Corpo Editorial da Revis- (IELA) da UFSC e seu primeiro presidente (2008-2010), é co-autor
ta Alfa (Araraquara) e edita o Caderno Cultural Subtrópicos (www- de vários livros, entre eles, "Neoliberalismo, reforma y revolución en
subtropicos.ufsc.br). América Latina" (Editora Nuestro Tiempo, México, 1992);"Chiapas
insurgente" (Editora Txalaparta, Espanha, 1995);'A crise brasileira
Frank Donoghue e o governo FHC" (Editora Xamã, São Paulo, 1997); "No Hioda na-
Professor do Departamento de Inglês da Ohio State Universi- valha: crítica das reformas neoliberais de FHC" (Editora Xamã, São
ty, Columbus, Estados Unidos. M.A. The Johns Hopkins University, Paulo, 1997) e "Os 500 Anos: a conquista interminável" (6' edição,
1984. Ph.D. The Johns Hopkins University. Publicou os seguintes Editora Vozes, Petrópolis, 200 1).
títulos: The Last Professors: The Corporate University and the Fate
of the Humanities (New York: Fordham University Press, 2008) e
The Fame Machine: Book Reviewing and Eighteenth-Century Lit- Waldir José Rampinelli
erary Careers (Stan6ordUniversity Press, 1996).É autor de muitos Professor do Departamento de História da Universidade Fede-
artigos publicado em várias revistas dos Estados Unidos. ral de Santa Catarina (UFSC) com doutorado em Ciências Sociais
pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP). Autor
do livro '%.s duas faces da moeda as contribuições de JK e Gilberto
Marli Auras Freyre ao colonialismoportuguês" (Editora da UFSC, Florianópolis,
Professora Titular, aposentada,do Centro de Ciências da Educa- 2004) e organizador de vários outros, entre eles "Universidade a
ção da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Com douto- democracia ameaçada" (2' edição, Editora Xamã, São Paulo, 2007)
rado em História da Educação pela PontiHcia Universidade Católica e "0 preço do voto -- os bastidores de uma eleiçãopara reitor" (2'
de São Paulo (PUC/SP). Integrou a diretoria da Associação dos Pro- edição,Editora Insular, Florianópolis, 2008). Foi secretário geral da
fessores da UFSC (Apufsc), na gestão ]980-82, sob a presidência de Associação dos Professores da UFSC (Apufsc-Ssind) de 1994 a 1996
OsvaldoMaciel e Raul Guenther. Publicou o livro "Guerra do Con- e presidente do Instituto de Estudos Latino-Americanos (IELA/
testado a organização da irmandade cabocla (Editora da IJFSC, UFSC) de 2010 a 201 1.
Florianópolis, 4 edição, 200 1). Tem capítulos, artigos e resenhas pu-
blicados em livros, revistas e jornais. No Programa de Pós-Gradua-
ção do Centro de Ciências da Educação, orientou pesquisas sobre a
2 223
Autores

CÉUO ESPÍNDOLA

CIRO TEIXEIRA CORREIA

ELAINE TAVARES

FÁBIOLOPESDASILVA
FMNK DONOGHUE

MARÉ AURAS

NiLoo 0URIQUES (organizador)


WALDiK JosÉ RAMPINELLI(organizador)

Este livro Êoi impresso para a


Editor Insular em outubro de 201 1

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