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CENTRO UNIVERSITÁRIO DE BELO HORIZONTE (UNI-BH)

ANTONIO DE PAULO SILVA JUNIOR

ANÁLISE DA COBERTURA JORNANÍSTICA DA CHACINA

DE PONTE NOVA

BELO HORIZONTE

2010
ANTONIO DE PAULO SILVA JUNIOR

ANÁLISE DA COBERTURA JORNALÍSTICA DA CHACINA

DE PONTE NOVA

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado


ao Curso de Jornalismo do Centro
Universitário de Belo Horizonte (Uni-BH),
como requisito parcial para a obtenção do
título de Bacharel em Jornalismo.

Orientador: Prof. Murilo Marques Gontijo

BELO HORIZONTE

2010
“Há no país uma legenda,
que ladrão se mata com tiro.”

(Carlos Drummond de Andrade, em: “Morte do Leiteiro”)


AGRADECIMENTOS

Ao mestre Murilo, pela dedicação e paciência ao me orientar, apesar da minha


deficiência para redigir conforme o discurso científico.
Ao professor Luis Ademir, pela confiança que depositou em mim, mesmo com todos
os problemas que surgiram durante toda a jornada. Por sinal, meu caro, a culpa de qualquer
inconveniente jamais foi sua!
A todos os meus outros bons professores: Nísio Teixeira, JJ, Maurício, Leo, Lorena,
Ana Rosa, Fabrício, Odila, Giza, Diulara, Edmundo, Abel, Luis Henrique e Adélia. Sem
vocês, a base que sustenta o Uni-BH, de nada servirá o meu diploma! Verdadeiros exemplos
na arte de conciliar conhecimento com humildade, muitos educadores deveriam buscar
inspiração em vocês antes de pensar em entrar numa sala de aula.
Aos meus atuais professores, Aída Lopes, Luciane Santiago, Celso Martins, Ney
Rubens e Virgílio Abranches. Sem vocês, não haveria paixão em acordar de madrugada e ir
trabalhar.
A todos da Record Minas. Aos atuais e antigos colegas de trabalho. Aos estagiários
que estão e já estiveram conosco. Aos plantões de finais de semana, aos de feriados, aos dias
de eleições e à dona Maria da Graça, do bairro Tijuca. Amo muito tudo isso!
Finalmente, à minha mãe. Essa vitória é pra você!
RESUMO

Esta monografia pretende analisar a cobertura de três telejornais sobre o acontecimento


conhecido como Chacina de Ponte Nova, crime no qual 25 detentos morreram em um
incêndio na cadeia municipal da cidade. A proposta é revisar os fundamentos e teorias do
jornalismo, além de discutir a construção do conceito de violência e como o telespectador se
identifica com a mensagem do personagem noticiado.

Palavras-chave: Televisão. Violência. Chacina de Ponte Nova.


SUMÁRIO

INTRODUÇÃO...............................................................................................................7

1 JORNALISMO.............................................................................................................8
1.1 O acontecimento e a notícia.........................................................................................8
1.2 O discurso jornalístico.................................................................................................9
1.3 A teoria do Espelho...................................................................................................11
1.4 A teoria do Newsmaking...........................................................................................12
1.4.1 Critérios de noticiabilidade.....................................................................................13
1.5 Espetacularização da notícia......................................................................................15
1.6 Telejornalismo...........................................................................................................17

2 VIOLÊNCIA...............................................................................................................20
2.1 Definição de violência...............................................................................................20
2.2 A impossibilidade de contextualizar historicamente a violência...............................21
2.3 A violência na personalidade humana.......................................................................22
2.4 A identificação do público com os personagens estereotipados da mídia.................25

3 ANÁLISE SOBRE A COBERTURA DA CHACINA DE PONTE NOVA..........29


3.1 Análise dos telejornais...............................................................................................31
3.1.1 Personagens............................................................................................................32
3.2 MG Record................................................................................................................34
3.2.1 Estrutura e abordagem dos VTs e Notas................................................................34
3.2.2 Construção da cobertura sobre a chacina...............................................................35
3.3 MG TV 2ª Edição.......................................................................................................36
3.3.1 Estrutura e abordagem dos VTs e Notas................................................................36
3.3.2 Construção da cobertura sobre a chacina ..............................................................37
3.4 Jornal Minas 2ª Edição............................................................................................ 38

4 CONCLUSÃO.............................................................................................................40

REFERÊNCIAS.............................................................................................................42
INTRODUÇÃO

O tema desta monografia é jornalismo e violência; e o objeto de estudo é a


cobertura jornalística de três telejornais sobre a Chacina de Ponte Nova. O objetivo deste
trabalho é a conclusão do curso de jornalismo do Centro Universitário de Belo Horizonte
(Uni-BH).
De acordo com a Polícia Civil, o incêndio começou na madrugada do dia 23 de
agosto de 2007, quinta-feira, dentro da Cadeia Pública da cidade. Havia 25 detentos no
interior da cela incendiada. Nenhum sobreviveu. Os acusados de serem os responsáveis pelo
crime foram detentos de celas vizinhas, que, após um motim, incendiaram a parte do
complexo onde as vítimas estavam confinadas. A disputa pelo controle do tráfico de drogas
em um aglomerado da região teria motivado o crime. Ainda de acordo com a polícia, um
agente carcerário teria facilitado o princípio de rebelião. O presídio possuía a capacidade de
abrigar 87 presos, mas, na ocasião da chacina, comportava 173. Após a conclusão do
inquérito da Corregedoria Geral da Polícia Civil, mais de 20 detentos e um agente
penitenciário foram indiciados, acusados pelos crimes de homicídio qualificado e associação
com o tráfico de drogas e, também, corrupção passiva (no caso do funcionário).
A partir da questão principal, que é “Como os telejornais MG Record, MG TV 2ª
Edição e Jornal Minas 2ª Edição construíram a cobertura da Chacina de Ponte Nova?”. A
monografia presente tem como objetivo analisar a construção das notícias relacionadas à
chacina, a partir do espaço disponibilizado para cada entrevistado e da estrutura de cada
reportagem, durante o período de 23 a 30 de agosto de 2007, com um enfoque teórico sobre
jornalístico e a violência.
Para a realização dessa decupagem, foram colhidos na íntegra os três telejornais,
dentro do período do corte temporal, sendo selecionadas apenas as notícias que continham
informações acerca do crime. Em consonância com objetivo geral, que é a análise de como foi
construída cada cobertura, serão investigados o tempo total da repercussão de cada telejornal
e o formato das notícias.
O primeiro capítulo da monografia discute as teorias e práticas do jornalismo,
abordando, também, a rotina de trabalho e características do telejornalismo. O segundo
capítulo apresenta o conceito de violência e sua relação com o indivíduo. Já o terceiro
capítulo faz uma analise quantitativa da cobertura dos telejornais sobre a Chacina de Ponte
Nova, tanto comparando a estrutura das reportagens quanto o espaço disponibilizado para
cada grupo de entrevistados.
1 JORNALISMO

O jornalismo é o tema abordado, agora, no primeiro capítulo. Essa disciplina foi


escolhida, já que o objeto deste estudo é a cobertura jornalística de três emissoras de televisão
sobre a Chacina de Ponte Nova. Os principais assuntos discutidos no capítulo 1 são: o
conceito de notícia, a Teoria do Newsmaking, os critérios de noticiabilidade, a
espetacularização da notícia e o telejornalismo. A partir desse referencial teórico, há a
construção dos critérios de análise para a comparação dos materiais coletados.

1.1 O acontecimento e a notícia

O acontecimento é um fato que nasce na realidade da percepção humana. Assim


explica Adriano Duarte Rodrigues (1999) quando define o surgimento de uma notícia.
Da mesma forma, quando explica o que é a notícia, Nelson Traquina (1999) vê o
acontecimento como a matéria-prima da produção jornalística. “As notícias são o resultado de
um processo de produção, definido como a percepção, seleção e transformação de uma
matéria-prima (o acontecimento) num produto (as notícias)” (TRAQUINA, 1999, p. 169).
Infinitos são os acontecimentos “que irrompem na superfície lisa da história”
(RODRIGUES, 1999, p. 27). O que difere o acontecimento jornalístico, noticioso, do
comum, cotidiano, é sua natureza especial; ou seja, aquilo que o torna único em comparação à
“ordem ditada pela lei da probabilidade” (RODRIGUES, 1999, p. 27). É como explica:

O acontecimento jornalístico é, por conseguinte, um acontecimento de


natureza especial, distinguindo-se do número indeterminado dos
acontecimentos possíveis em função de uma classificação ou de uma ordem
ditada pela lei das probabilidades, sendo inversamente proporcional à
probabilidade da ocorrência. Neste sentido, faz parte de um conjunto
relativamente restrito que pertence a um universo muito vasto. Todos os
fatos regidos por causalidades facilmente determináveis ficam fora do seu
alcance, ao passo que o acontecimento jornalístico irrompe sem nexo
aparente nem causa conhecida e é, por isso notável, digno de ser registrado
na memória (RODRIGUES, 1999, p. 27 – 28).
1.2 O discurso jornalístico

Mas não é só em conteúdo que se difere a notícia de um acontecimento casual.


Durante a produção jornalística, o discurso utilizado na narração do fato sofre algumas
modificações. Há, por exemplo, a quebra da ordem cronológica do fato previsível, ou seja,
“da sucessão monótona das causas” (RODRIGUES, 1999, p. 29), transformando o relato
tradicional em discurso jornalístico. Assim diz Rodrigues (1999):

O discurso do acontecimento é uma anti-história, o relato das marcas da


dissolução da identidade das coisas. Pertence, por conseguinte, ao mundo
do acidente, que deixa vestígios e altera a substância do mundo das coisas,
das pessoas, das instituições. O nascimento e a morte são por isso os
acidentes-limite em relação aos quais todas as outras ocorrências se
posicionam e se referem. Para o nascimento e para a morte não há
explicação plausível porque não há sentido racional que os compreenda
numa lógica casual, num antes e num depois. Por isso, a notícia é no mundo
moderno o negativo da racionalidade, no sentido fotográfico deste termo
(RODRIGUES, 1999, p. 29).

No lugar do esperado “começo, meio e fim”, o discurso jornalístico introduz de


maneira objetiva uma síntese do clímax, ou seja, a parte mais improvável da história. Um dos
métodos utilizados no processo da construção do discurso jornalístico, para extrair esse
resumo objetivo do acontecimento noticioso, é o lead.
Lead, de acordo com o professor Felipe Pena (2010), é o “relato sintético do
acontecimento logo no começo do texto, respondendo às perguntas básicas do leitor: o quê?
quem? como? onde? quando? e por quê?” (PENA, 2010, p. 42).
Já na definição do Manual de Redação da Folha de São Paulo, a função do lead é
despertar o interesse do leitor, de uma maneira útil e dinâmica. O Manual explica como deve
ser o lead:

Se os fatos são urgentes e fortes, eles tendem a impor ao lead um estilo mais
direto e descritivo, respondendo às questões principais em torno do
acontecimento (o quê, quem, quando como, onde, por quê; não
necessariamente nesta ordem). É o que ocorre quando da morte de
personagens famosos ou da revelação de um escândalo político (MANUAL
da Redação, 2001, p. 29).

Antes do lead, Pena (2010) explica que os textos jornalísticos eram


essencialmente opinativos. Não havia a intenção de esconder a carga panfletária do jornal no
texto da reportagem. “Era comum que um jornal oposicionista, por exemplo, utilizasse os
primeiros parágrafos da narrativa sobre um assassinato para criticar a política de segurança
pública. Só depois que o leitor descobria quem e onde” (PENA, 2010, p. 41). Assim, a criação
do lead surgiu como uma revolução nas redações, trazendo a objetividade ao jornalismo.
As principais funções exercidas pelo lead no relato são:

Apontar a singularidade da história, informar o que se sabe de mais novo no


acontecimento, apresentar lugares e pessoas de importância para
entendimento dos fatos, oferecer o contexto em que ocorreu o evento,
provocar no leitor o desejo de ler o restante da matéria, articular de forma
racional os diversos elementos constitutivos do acontecimento e resumir a
história, da forma mais compacta possível, sem perder a articulação (PENA,
2010, p. 43).

Seguindo o mesmo raciocínio de Rodrigues (1999) - da desconstrução da ordem


racional do fato ou da anti-história -, outra estrutura narrativa descrita por Pena (2010),
fundamental no que concerne à construção do discurso jornalístico, é a pirâmide invertida. O
relato “prioriza não a seqüência cronológica dos fatos, mas a escala em ordem decrescente dos
elementos mais importantes, essenciais, em uma montagem que os hierarquiza de modo a
apresentar inicialmente os fatos mais atraentes” (PENA, 2010, p. 48). O autor explica:

O nome 'pirâmide' foi usado por associação com as pirâmides egípcias,


monumentos funerários destinados às autoridades supremas, especialmente
os faraós. Na base eram sepultados os restos mortais dessas autoridades e
suas riquezas pessoais – algumas vezes até escravos acompanhavam os
senhores naquela viagem para o além. A pirâmide é 'invertida' porque, no
jornalismo, a base não fica no sopé, mas no topo; e o que seria apenas um
arremate nas pirâmides originais, no relato jornalístico, apresenta dados que
complementam os essenciais, os clássicos 'detalhes' que compõem a
matéria. Tudo em ordem decrescente, a ponto de o último parágrafo poder
ser eliminado, sem prejuízo do entendimento da matéria, por alguma
decisão ligada à diagramação da página (PENA, 2010, p. 48).

Pode parecer ser fácil transformar um acontecimento em fato noticioso, devido à


infinidade de casos no campo da realidade, mas, como afirma a socióloga Gaye Tuchman
(apud PENA, 2010), vários são os processos na produção jornalística que determinam um
acontecimento em notícia.
Com a evolução do jornalismo, muitos estudiosos do campo das Ciências
Humanas tentaram responder o porquê de as notícias serem como são. O objetivo desses
estudos é compreender e esclarecer o processo de produção da notícia, a fim de descobrir de
que forma ela interage com a sociedade.

1.3 A Teoria do Espelho

Segundo Pena (2010), a primeira metodologia utilizada na tentativa de


compreender a notícia é a Teoria do Espelho. Ela surgiu ainda no século XIX e defende a
idéia de que o jornalismo reflete a realidade. “Ou seja, as notícias são do jeito que as
conhecemos porque a realidade assim as determina. A imprensa funciona como um espelho
do real, apresentando um reflexo claro dos acontecimentos do cotidiano” (PENA, 2010, p.
125).
A Teoria do Espelho deposita no jornalista a credibilidade e a legitimidade
necessárias para fazer a cobertura noticiosa dos fatos, o premiando, quase gratuitamente, com
a imparcialidade para a construção da matéria. Assim, todo profissional capacitado para
exercer o jornalismo pode tornar-se um mediador desinteressado, com a única missão de
acompanhar a realidade e descrevê-la de forma equilibrada e honesta. É o que explana o
autor:

Até hoje, a comunidade jornalística defende a Teoria do Espelho com base


na crença de que as notícias refletem a realidade. Isso aconteceu porque ela
dá legitimidade e credibilidade aos jornalistas, tornando-os como
imparciais, limitados por procedimentos profissionais e dotados de um
saber de narração baseado em método científico que garante o relato
objetivo dos fatos. A metáfora do espelho é bastante limitada (PENA, 2010,
p. 126).

Como o próprio autor diz, a Teoria do Espelho se limita dentro do próprio


conceito. Quando ela surgiu, condizia com o modo de enxergar a notícia através da ótica de
um ideal jornalístico em busca de objetividade. Naquela época, “os fatos substituíam os
comentários e assim acreditava-se que a palavra podia refletir a realidade. Nas palavras de
Walter Lippman, eles trariam rigor do método científico aos jornalistas, evitando a
subjetividade” (PENA, 2010, p. 126).
1.4 A Teoria do Newsmaking

O jornalismo como o espelho da realidade contrapõe-se ao modelo teórico do


Newsmaking. Na definição de Mauro Wolf (2001), a imprensa não reflete a realidade, mas,
sim, ajuda a construí-la.
Na hora de dar exemplos de como fazer a construção dessa nova realidade
construída pelo jornalismo, o autor traz uma citação da socióloga Gaye Tuchman, sobre as
três etapas básicas durante a produção de um noticiário. São elas:

Tornar possível o reconhecimento de um fato desconhecido como


acontecimento notável; elaborar formas de relatar os acontecimentos que
não tenham a pretensão de dar a cada fato ocorrido um tratamento
idiossincrático; organizar, temporal e especialmente, o trabalho de modo
que os acontecimentos noticiáveis possam influir e ser trabalhados de forma
planificada (apud PENA, 2010, p. 129).

O fato de a notícia não refletir com plenitude a realidade não significa que ela seja
inventada ou uma obra da ficção. Para Pena (2010), “o método construtivista apenas enfatiza
o caráter convencional das notícias, admitindo que elas informem e tenham referência na
realidade” (PENA, 2010, p. 129).
A idéia proposta pela Teoria do Espelho simplifica a produção jornalística, dando
a entender que o processo da construção de um acontecimento em notícia é simples e fácil.
Mas, como diz a socióloga Gaye Tuchman (apud PENA, 2010), fazer notícia é uma atividade
complexa. Para descobrir porque as notícias são como são. Faz-se necessário definir todo o
processo da prática jornalística, da matéria-prima (acontecimento) até o produto (notícia).
Conforme Felipe Pena (2010):

Diante da imprevisibilidade dos acontecimentos, as empresas jornalísticas


precisam colocar ordem no tempo e no espaço. Para isso, estabelecem
determinadas práticas unificadas para a produção das notícias. É dessas
práticas que se ocupa a Teoria do Newsmaking (PENA, 2010, p. 130).

Logo, o Newsmaking é o estudo de toda prática jornalística, com o objetivo de


descobrir o porquê de as notícias serem como são. Entre as suas principais práticas estão: a
noticiabilidade, os valores-notícia, os constrangimentos organizacionais, a construção da
audiência e a rotina de produção. Segundo Wolf (2001), essas são as séries de operações e
pressões sociais no trabalho da enunciação dos jornalistas, que surgem dentro e fora das
redações durante o trabalho de produção da notícia.

1.4.1 Critérios de noticiabilidade

Como vimos, quanto mais provável for um acontecimento, mais difícil dele ser
noticiado. Mauro Wolf (2001) exemplifica três critérios na busca pelo improvável dentro do
campo dos incontáveis acontecimentos. O primeiro é o substantivo: o grau e nível hierárquico
dos indivíduos envolvidos no acontecimento noticiável; o impacto sobre a nação e o interesse
nacional; a quantidade de pessoas envolvidas; a relevância do acontecimento quanto à
evolução dele. Depois, o produto, ou seja, a qualidade da história, algo relativo ao meio de
comunicação, ao público. O último é o relacionado à concorrência, ou seja, a produção da
notícia leva em consideração o que o concorrente noticia.
Rodrigues (1999) lembra, ainda, que, em se tratando de analisar o acontecimento,
três fatores irão destacá-lo e torná-lo noticiável. São eles: o excesso, a falha e a inversão.
No excesso, segundo o autor, estão os acontecimentos nos quais há a “irrupção do
funcionamento normal do corpo, seja ele individual, coletivo ou institucional”
(RODRIGUES, 1999, p. 28). Ou seja, todo o acontecimento destacado pela própria grandeza.
Uma chacina com várias vítimas ou um acidente automobilístico envolvendo um grande
número de carros, por exemplo.
Na falha, está o acontecimento surgido daquele fato que “procede por defeito, por
insuficiência no funcionamento normal e regular dos corpos” (RODRIGUES, 1999, p. 28). É
o caso do buraco na rodovia que causou um grave acidente ou o elevador que, por defeito
mecânico, despencou ferindo várias pessoas.
Por último, na inversão, os corpos trocam de papéis dentro de um acontecimento
cotidiano. Trata-se da vítima que prendeu o bandido ou o policial cobrando propina para
libertar um suspeito.
Um exemplo citado pelo autor é o mais que conhecido caso do cão e do homem.
“Quando um cão morde um homem não é um fato jornalístico, mas, se um homem morder um
cão, então estaremos perante um fato suscetível de se tornar notícia” (RODRIGUES, 1999, p.
27).
Por definirem ferramentas utilizadas na seleção dos acontecimentos, os exemplos
citados por Rodrigues (1999) e Mauro Wolf (2001) nada mais são do que critérios de
noticiabilidade. Traquina (1999) explica:

Os acontecimentos constituem um imenso universo de matéria-prima; a


estratificação deste recurso consiste na seleção do que irá ser tratado, ou
seja, na escolha do que se julga ser matéria-prima digna de adquirir a
existência pública de notícia, numa palavra – noticiável (newsworthy).
Aliás, a questão central do campo jornalístico é precisamente esta: o que é
notícia? Ou seja, quais são os critérios e os fatores que determinam a
noticiabilidade (newsworthiness) dos acontecimentos? (TRAQUINA, 1999,
p. 169 – 170).

A seleção de notícias é um procedimento que acontece em todo o setor da


produção jornalística. Ela funciona quase como uma negociação entre os profissionais do
jornalismo, dentro da sistematização de cada veículo. Felipe Pena (2010) fala sobre o assunto:

Como conceito, posso dizer que noticiabilidade é um conjunto de critérios,


operações e instrumentos para escolher entre inúmeros fatos uma
quantidade limitada de notícias. Ela é negociada por repórteres, editores,
diretores e outros atores do processo produtivo na redação. Sua aplicação
baseia-se nos valores-notícia, que são os tais critérios e operações usados
para definir quais acontecimentos são significativos e interessantes para
serem transformados em notícia. Por exemplo, a importância do envolvido é
um valor-notícia. Quanto mais famoso for o personagem do fato, mais
chance este tem de virar notícia (PENA, 2010, p. 130 – 131).

Cada veículo possui sua sistematização, a divisão de tarefas dentro da redação: há


o pauteiro, o apurador, os repórteres e os editores. Todos eles têm suas funções específicas,
apesar de serem interligadas. É com base nesse processo produtivo que Pena (2010) esclarece
os valores-notícia:

Os próprios valores-notícia são usados para sistematizar o trabalho na


redação. Eles são contextualizados no processo produtivo, adquirem
significado e função, e tornam-se dados evidentes para os profissionais
envolvidos no processo: o chamado senso comum das redações. Ou seja,
qualquer jornalista sabe dizer o que é notícia e o que não é de acordo com
esse senso comum (PENA, 2010, p. 131).

O valor-notícia que interliga os jornalistas de uma redação, quando incluído no


acontecimento noticioso, serve tanto para selecionar e destacar um fato significativo como,
também, omitir certos dados. Ele está presente na prática jornalística durante sua produção.
Wolf (2001) define:

Os valores-notícia utilizam-se de duas maneiras. São critérios de seleção


dos elementos dignos de serem incluídos no produto final, desde o material
disponível até a redação. Em segundo lugar, funcionam como linhas – guias
para a apresentação do material, sugerindo o que deve ser realçado, o que
deve ser omitido, o que deve ser prioritário na preparação das notícias a
apresentar ao público. Os valores-notícias são, portanto, regras práticas que
abrangem um corpus de conhecimentos profissionais que, implicitamente, e
muitas vezes explicitamente, explicam e guiam os procedimentos operativos
retactoriais. Não é verdade que estejam para além da compreensão dos
jornalistas, que não seriam capazes de os articular. Na realidade, os valores-
notícia estão continuamente presentes na interações cotidianas dos
jornalistas na sua cooperação profissional (WOLF, 2001, p. 196).

Assim, de acordo com a Teoria do Newsmaking, abordada por Wolf (2001) e


Pena (2010), a notícia é a construção de uma nova realidade com base em um acontecimento
de destaque, e ela é assim por causa da pressão exercida durante o processo de produção,
principalmente pelo valor-notícia. E, de acordo com Wolf (2001), vai se destacar o jornalista
que for mais ágil na escolha da notícia entre os infinitos acontecimentos.

1.5 Espetacularização da notícia

José Arbex Júnior (2001) atribuiu à televisão o papel de um novo palco


contemporâneo, onde é contracenado o espetáculo. Nesse show da mídia, cada quadro da
grade televisiva, inclusive o jornalismo, enfoca a preocupação com a reprodução da imagem
durante toda a sua produção. Logo, o autor afirma:

O que importa, nos atuais programas de telejornalismo, é o impacto da


imagem, assim como o ritmo de sua transmissão. No caso do noticiário, as
imagens reiteram uma certa percepção do mundo. Mulheres com véu no
Islã, negros famintos na África, 'bandidos' negros, etc. O que fixa, na
memória do telespectador, são flashes (ARBEX, 2001, p. 52).

É dessa overdose das imagens estereotipadas que os meios de comunicação


partem para atingir o público com a espetacularização da notícia. Arbex (2001) cita os
argumentos de vários filósofos, como Theodor Adorno, Guy Debord e Marshall McLuhan,
para explicar a teoria da espetacularização da notícia. O autor define espetáculo como:
Debord afirmava que a 'sociedade de consumo', apoiando-se nos meios de
comunicação de massa, torna-se a forma de ser a 'sociedade do espetáculo',
ou melhor, o espetáculo torna-se a forma de ser da sociedade de consumo.
O espetáculo – diz Debord – consiste na multiplicação de ícones e imagens,
principalmente através dos meios de comunicação de massa, mas também
dos rituais políticos, religiosos, hábitos de consumo, de tudo aquilo que
falta à vida real do homem comum: celebridades, atores, políticos,
personagens, gurus, mensagem publicitárias – tudo transmite uma sensação
de permanente aventura, felicidade, grandiosidade e ousadia (ARBEX,
2001, p. 69).

E, dessa transformação, da sociedade de consumo em uma sociedade do


espetáculo, a mídia transforma a contemporaneidade em uma única aldeia global,
contextualiza essa nova sociedade do espetáculo criada pela mídia:

A aparência que confere integridade e sentido a uma sociedade esfacelada e


dividida. É a forma mais elaborada de uma sociedade que desenvolveu ao
extremo o 'fetichismo da mercadoria' (felicidade identifica-se a consumo).
Os meios de comunicação de massa – diz Debord – são apenas 'a
manifestação superficial mais esmagadora' da sociedade do espetáculo, que
faz o indivíduo um ser infeliz, anônimo e solitário em meio à massa de
consumidores (ARBEX, 2001, p. 79).

Outro autor que define a teoria da espetacularização é Wilson Gomes (2004). De


acordo com o autor, com o surgimento dos grandes conglomerados empresariais, donos de
vários veículos de comunicação, a mídia acabou se transformando em um enorme balcão de
negócios, eficiente para a venda de produtos, mercadorias e serviços, graças à habilidade dos
meios comunicativos com a arte da representação e do espetáculo.
A arte da representação, de acordo com Gomes (2004), tem como objetivo seduzir
o telespectador, fazendo com que os objetos produzidos sejam mostrados e propostos a
consumidores em potencial, sobreviventes da sociedade do tardo-capitalismo. Assim, “nos
mass media, pelos mass media e com os mass media” (GOMES, 2004, p. 3), um conjunto de
valores é oferecido ao telespectador. Valores praticamente idênticos em qualquer sociedade
do mundo. Essa padronização valoral é parte da representação de uma “cultura” midiática.
Sobre entretenimento, Gomes (2004) explana:

Praticamente tudo se torna, então, entretenimento, distração, diversão, que


nos segura o suficiente (e quanto melhor) para que a vitrine massmediática
entre em ação. E, quando a vitrine publicitária é acionada, ainda assim nos
entretemos, porque tudo é preparado para nos agradar, divertir. As
necessidades de um sistema, a publicidade, tornam-se as necessidades de
todos os outros sistemas, estamos diante da lógica do entretenimento
(GOMES, 2004, p. 5).

As necessidades, diz o autor, são transformadas em desejos. Afinal, a necessidade


esgota-se, mas o desejo é infinito. De desejos também vive o mass media. O sonho de
consumo dele é capturar a atenção e a memória do telespectador. Desse modo, nasce a busca
pelo inédito, a lógica da ruptura. Arbex (2001) explica que “divertir-se é voltar-se do
quotidiano para o novo, sobrevivendo através da superfície lúdica, da beleza, da simplicidade,
das imagens em profusão e, sobretudo, pelo enfraquecimento de qualquer responsabilidade e
cobrança” (ARBEX, 2001, p. 6).
O mass media é expressão da necessidade de des-realizar o real, encenando a
realidade em ficção. Por isso, é necessário que sejam criadas técnicas de construção de
enredo, personagens, personalidades e dos meios, promovendo um efeito “dramático” sobre o
destinatário. “Assim, como a lógica da ruptura implica uma lógica da diversão, esta última
contém e se apóia numa lógica dramática” (GOMES, 2004, p. 7).

1.6 Telejornalismo

Os principais meios de comunicação utilizados pelo jornalismo atualmente são o


rádio, o jornal impresso, a televisão e a internet. Cada mídia possui suas próprias
características. A principal característica da televisão, meio comunicativo sobre o qual se situa
o estudo, é a imagem em movimento. É por meio da imagem que ela tenta causar impacto.
João Elias da Cruz Neto (2008) atribui ao jornalismo a pretensão de causar um impacto sobre
várias pessoas.
Neto (2008) apresenta outras características para a televisão. Ele a define como
um veículo de comunicação em massa intimista, instantâneo, dispersivo e seletivo. Intimista,
já que trata o telespectador com se fosse um conhecido; instantâneo, graças à capacidade de
transmitir o acontecimento ao vivo, no momento em que dura o acontecimento; dispersivo,
porque, quando se vê televisão, qualquer ruído na comunicação pode desviar a atenção do
telespectador; e seletivo, devido aos critérios utilizados para selecionar o que vai ser
noticiado, sobretudo por causa do limite no tempo definido em cada telejornal.
Na televisão, o discurso jornalístico deve ser próprio para essa mídia. Sem abrir
mão da objetividade e da clareza, características essenciais do texto jornalístico, o discurso na
televisão deve estar associado às imagens que são transmitidas. Neto (2008) revela:

Antes de fazer o texto para a reportagem da televisão, deve-se levar em


conta, antes de qualquer coisa, que será um texto acompanhado por
imagens. As imagens, por si sós já trazem significação e o texto não deve,
de maneira alguma, descrever o que a imagem já mostra, mas deve explicá-
la (NETO, 2008, p. 48 – 49).

Por sua velocidade, cada reportagem televisiva deve construída atentando-se para
a clareza e compreensão imediata do telespectador.

O texto em uma reportagem de televisão, geralmente, deve ser mais direto


que o impresso, porque uma reportagem de telejornal diário dificilmente
ultrapassa dois minutos. Então, deve-se empregar as palavras exatas para
que as pessoas entendam. E, enquanto em uma reportagem impressa pode-
se voltar e reler o que não ficou claro na primeira leitura, em televisão, o
telespectador não pode voltar a fita para entender o que foi dito, ele tem que
entender imediatamente. Se o repórter, ao escrever um texto, achá-lo
confuso, com certeza, o telespectador também não vai entender o que está
sendo dito. É necessário, então, reescrevê-lo. O texto em televisão é escrito
para ser ouvido, então, não se deve usar certas palavras que, quando faladas,
não soam bem. E deve-se, também, evitar os cacófatos, sons desagradáveis
provenientes da união das sílabas finais de uma palavra com a seguinte
(NETO, 2008, p. 49).

Outra diferença no texto jornalístico televisivo frente aos veículos impressos está
na exclusão do lead, uma vez que as principais informações da matéria são ditas pelo
apresentador antes da entrada da reportagem. João Elias da Cruz Neto (2008) exemplifica
como deve ser o começo de um texto de uma reportagem:

Já em televisão não existe lead, uma vez que as principais informações


devem vir na cabeça. Um problema ao começar um texto é que, muitas
vezes, o repórter inicia com informações que deveriam ser colocadas na
cabeça da matéria. É recomendável que, antes de fazer o off, o repórter
pense em uma cabeça para aquela matéria. Com certeza, quando se tem a
noção exata da cabeça (onde vai estar o principal conteúdo da matéria), o
off vai ser muito mais fácil de ser escrito (NETO, 2008, p. 52).

Além do texto jornalístico, a característica visual-auditiva da televisão impõe


outras modificações na estrutura do texto da reportagem.
Em reportagem de televisão, o texto é utilizado no off (texto lido por
repórter e coberto com imagens); passagem (texto falado pelo repórter no
momento em que ele aparece na matéria); cabeça (texto lido pelo
apresentador para chamar a matéria); e, também, nota-pé (texto lido pelo
apresentador depois da exibição da matéria para complementar com alguma
informação) (NETO, 2008, p. 48).

Fora a reportagem, existem cinco formas de construir uma notícia na televisão.


São elas: o stand-up, o roda VT-OFF (ou loc off), áudio-tape, nota-coberta e o registro.
Stand-up é quando o repórter está no local do acontecimento e grava as
informações apenas com a sua presença no vídeo. Geralmente, são acontecimentos de última
hora em que, mesmo sem imagens, as informações transmitidas pelo repórter valem a entrada
da matéria no telejornal.
O roda VT-OFF é, também, utilizado para registrar acontecimentos de última
hora, mas, ao contrário do stand-up, não há passagens do repórter. Geralmente, ele chega ao
local, grava as imagens e passa as informações por telefone para o editor na redação fazer o
texto.
Áudio-tape é a informação passada pelo repórter que, geralmente, foi enviado a
outra cidade para cobrir o fato e não chegou a tempo na redação com o material da
reportagem para veiculá-la no telejornal. Então, coloca-se a foto do repórter no vídeo, gravada
anteriormente, com um mapa mostrando a localização da cidade onde ele se encontra e a
gravação de sua voz é feita por telefone.
Nota-coberta é a reedição realizada de uma matéria que já foi exibida em um
telejornal anterior da emissora. O ideal é colocar outras entrevistas, outras imagens,
acrescentar informações e, ainda, que o apresentador leia o texto.
Registro, como o próprio nome diz, é uma matéria pequena com poucas sonoras,
texto curto, o qual serve apenas para registrar a presença do telejornal no acontecimento.
Mesmo inseridas na estrutura do discurso jornalístico da televisão, cada forma
citada por Neto (2008) possui suas especificidades para adequar a cobertura do acontecimento
dentro dos limites temporais, espaciais e estruturais da empresa. Segundo o autor, às vezes, a
rapidez na hora de produzir o acontecimento deve-se ao principal objetivo de toda equipe de
reportagem: a exibição da matéria no telejornal. “Matéria boa é matéria que vai ao ar. Não
adianta fazer uma matéria ótima, longa, se não houver tempo de editá-la para ser exibida”
(NETO, 2008, p. 52).
2 VIOLÊNCIA

A violência é o tema do segundo capítulo desta monografia. Essa discussão foi


escolhida por causa do objeto de estudo: a cobertura jornalística de três emissoras de televisão
sobre a Chacina na cadeia pública de Ponte Nova. Entre os assuntos abordados, está a
construção do conceito de violência, o surgimento dela na personalidade e como o público se
identifica com a reportagem violenta. Esse referencial teórico será utilizado como base para a
construção dos critérios de análise concernentes ao estudo aqui proposto.

2.1 Definição de violência

Violência é uma palavra que tem sua origem no Latim. De acordo com a pesquisa
de Philippe Joron (2006), o termo violentia deriva do verbo violare, que significa o uso da
força. Dependendo do contexto em que é aplicado, violare também pode adquirir a conotação
de poder ou dominação, mas, em geral, define uma ação como uma agressão, transgressão ou
até profanação. É o uso da força por intermédio de vias proibidas com o objetivo de agredir
alguém. Violentus é seu adjetivo; aquele que se utiliza de comportamento violento, um
esforço causado pelo uso do vigor, de maneira excessiva, exercendo autoridade no outro, de
modo a atingir sua integridade.
Joron (2006) define o ato violento como uma necessidade imediata, fruto de um
desejo intolerável, de mudar determinada situação por intermédio da força.

A violência (...) indica uma referência à transgressão, à profanação, ao uso


de vias proibidas. Comunicar pela violência ou resolver a troca na
possibilidade de um aniquilamento: isso supõe forçar o dédalo da alteridade
e da diferença. Um forçamento individual ou coletivo, físico ou psicológico,
natural ou cultural, justificado ou não, cuja prática permite expressar um
estado, satisfazer uma necessidade imediata, mudar uma situação julgada
intolerável, ou manter e controlar arranjos percebidos como satisfatórios. A
violência desdobra-se como um vetor de comunicação social, uma
linguagem ou uma metalinguagem que explora um cuidado ou uma negação
de si jogada sobre os outros (JORON, 2006, p. 17).

Partindo dessa definição, vários pensadores e estudiosos discutem o que é a


violência, além de levantarem outras questões.
Orlando Vilela (1977) também sai em busca de um conceito sobre o que é a
violência. Para conseguir tal objetivo, o autor vale-se de duas citações, uma do historiador
francês René Rémond, outra do filósofo, também francês, Francis Jeanson.

Para René Rémond, 'violência é toda iniciativa que procura exercer coação
sobre a liberdade de alguém, que tenta impedir-lhe a liberdade de reflexão,
de julgamento, de decisão e, sobretudo, que termina por rebaixar alguém ao
nível de meio ou instrumento num projeto que o absorve e engloba, sem
tratá-lo como parceiro livre e igual'. A mesma coisa diz Francis Jeanson:
'Violência é (...) uma tentativa de diminuir alguém, de constranger alguém a
renegar-se a si mesmo, a resignar-se à situação que lhe é proposta, a
renunciar (VILELA, 1977, p. 21).

Assim, conforme Vilela (1977), violência é a ação que ataca o psiquismo de um


indivíduo. Ela priva o próximo do domínio dos próprios atos, subtraindo dele o controle de
seu livre arbítrio. O autor afirma que “violência é um atentado direto contra a liberdade
pessoal do indivíduo”. (VILELA, 1977, p. 21).
Essa liberdade, ainda segundo Vilela (1977), é o controle do indivíduo no sentido
de governar a própria vida. Carlos Ranson Rogers (apud VILELA, 1977) completa que
“liberdade é a presença de uma força espontânea no interior do organismo” (VILELA, 1977,
pág. 17), que faz do homem um ser livre para agir conforme bem o desejar.
Quando alvo da violência, o indivíduo perde a capacidade de seu livre arbítrio,
sendo obrigado a adequar-se a uma determinada imposição, modificando seu modus operanti.
Logo, Vilela (1977) caracteriza a liberdade como um bem imensurável da natureza humana,
“do indivíduo distinto dos demais seres, vivo, um ser livre, um ser dono de si mesmo, que se
governa a si mesmo e que dispõe de si mesmo” (VILELA, 1977, pag. 18).

2.2 A impossibilidade de contextualizar historicamente a violência

Um dos grandes questionamentos levantados por Alba Zaluar (1996) é sobre


quando surgiu a violência na história da humanidade. Ao contrário do que o senso comum
defende, a autora refuta a idéia de um surgimento coincidente com o começo da escravidão,
das grandes guerras ou da miséria. Para ela, tal agressividade sempre existiu na trajetória
humana.
A violência não surge na história dos homens com a exploração, a
dominação ou a miséria que conhecemos nas sociedades modernas. A
violência não surge na história. Sempre esteve dentro dos homens. Em todas
as sociedades, em todas as épocas, em todos os recantos do mundo, existem
manifestações de agressividade potencial dos homens contra seus
semelhantes. Desde os tempos imemoriais, os homens têm a capacidade de
destruir-se mutuamente por meio da violência. O mal que resulta da
violência sempre existiu e sempre foi, portanto, em todas as épocas, em
todos os lugares, contido e entendido em maior ou menor grau de diferentes
maneiras simbólicas (ZALUAR, 1996, p. 9).

A autora lembra que, mesmo nas sociedades tribais, também havia registros de
violência. Naquela época, ainda que sem “a exploração do homem pelo homem”, “cada um
detinha da força para fazer justiça pelas próprias mãos quando se sentia lesado” (ZALUAR,
1996, p. 9). Tudo isso bem antes da divisão das classes sociais ou exploração trabalhista com
o objetivo de lucro a partir do esforço alheio. Como conclui a antropóloga, a ausência do
Estado obrigava o indivíduo tribal a, através da força, defender aquilo que ele julgava ser seu
por direito. É lógico que esse julgamento estava implícito entre os valores e laços culturais de
uma tribo. Já que a força não era delegada a nenhuma entidade governamental, cabia ao
indivíduo agir para fazer justiça.

2.3 A violência na personalidade humana

Se a violência “sempre esteve dentro dos homens” (ZALUAR, 1996, p. 9), ela é,
então, independente do grau evolutivo da humanidade, uma constante natural em toda a
história. A pergunta que deve ser feita, desse modo, não é sobre quando surgiu a violência.
Ela acompanha o homem historicamente. Deve-se, pois, indagar a respeito de como ela surge
dentro do indivíduo.
Um dos maiores investigadores da mente humana e de seu funcionamento foi
Sigmund Freud. Ele criou a Teoria da Personalidade, a base dos estudos do ramo da
Psicanálise. O jornalista Danilo Angrimani (1995) explica essa teoria freudiana, destacando
principalmente o nascer do pensamento agressivo numa pessoa. Quais são as suas causas? E
suas reações?
Para Angrimani (1995), o objetivo da teoria psicanalítica de Freud era redesenhar
o aparelho psíquico do homem, indo além do inconsciente, pré-consciente e consciente.
Freud dividiu a personalidade humana em três instâncias: o ego, o id e o superego.
Angrimani (1995) explica que o ego é a parte da personalidade capaz de perceber
os instintos. Ele é responsável pelas mais variadas atividades mentais, tanto conscientes
quanto inconscientes, como o controle da coordenação motora, percepção, antecipação,
distinção do real, ordenação temporal das coisas, do pensamento racional e autodefesa, entre
outros. “O ego está submetido a uma tríplice servidão, sofrendo ameaças de três espécies de
perigo: o que provém do mundo exterior, o da libido do id, e o da severidade do superego”.
(ANGRIMANI, 1995, p. 43).
Ao contrário do ego, o id já é totalmente inconsciente. Ele se constitui como a
fonte das pulsões do indivíduo. Angrimani (1995) fala sobre ambos:

Para ilustrar sua teoria, Freud dá o exemplo de um cavaleiro tentando


dominar sua montaria. O ego seria o cavaleiro que conduz e refreia a força
de uma cavalgada, superior à sua, mas, assim como o cavaleiro que se vê
obrigado algumas vezes a deixar-se conduzir por sua cavalgadura, também
o ego se mostra forçado, em algumas ocasiões, a transformar em ação a
vontade do id como se fosse a sua própria (ANGRIMANI, 1995, p. 43).

Este é o dilema do ego: ora controlar os impulsos e desejos, ora acatá-los.


Angrimani (1995) compara a situação do ego com uma balança de peso. Em busca de
equilíbrio emocional, se vê pressionado a achar o meio termo entre as vontades, representadas
pelo id, e a responsabilidade, simbolizada pelo superego. Angrimani (1995) define o
superego:

Freud acentua que 'o id é totalmente amoral, o ego se esforça em ser moral e
o superego pode ser hipermoral'. O conceito de superego foi empregado por
Freud para designar a introjeção das normas morais, adquirida pelo ego nos
primeiros anos de infância. São normas que visam inibir os impulsos
instintivos. O superego é também o resultado de dissolução do complexo de
Édipo. O herdeiro mesmo dessa dissolução, o superego tem as funções da
consciência moral, auto observação e estabelecimento de ideais. Assim, do
ponto de vista tópico, o ego se encontra numa situação de conflito
permanente, numa encruzilhada, precisando atender as reivindicações do id
e ao mesmo tempo prestando contas aos imperativos do superego e das
exigências do real (ANGRIMANI, 1995, p. 44 – 45).

Como exemplo, Angrimani (1995) utiliza-se de uma ilustração freudiana sobre o


funcionamento de toda essa pressão que o superego exerce nas demais personalidades. “Da
mesma forma que a criança se acha submetida aos seus pais e obrigada a obedecê-los, o ego
se submete ao imperativo categórico de seu superego” (ANGRIMANI, 1995, p. 45). A citação
abaixo completa a ideia ilustrativa:
Fenichel vai se referir aos estágios iniciais do superego, onde 'as proibições
estabelecidas pelos pais continuam a vigorar mesmo com eles ausentes'. (...)
Ferenczi denominou: 'uma expressão, diz Fenichel, que acentua a
importância de que tem a aprendizagem de hábitos higiênicos no
desenvolvimento desta pré-conciência. Solicitada a evacuar os intestinos
somente em certas condições, a criança experimenta o conflito entre o que
deve e gostaria. (ANGRIMANI, 1995, p. 46).

Logo, o que determina se a criança irá acatar a decisão do adulto ou “ceder aos
seus próprios impulsos” (ANGRIMANI, 1995, p. 46) é o respeito que ela tem para com o
adulto que a reprime. Vale lembrar: quanto maior for a restrição ao impulso,
proporcionalmente aumentará a possibilidade de a criança buscar outro modo para suprir esse
desejo. O mesmo acontece no surgimento da violência dentro do indivíduo. Fruto de uma
ânsia do subconsciente (fome, ciúme, insatisfação, etc.), o id pressiona o ego para acatá-lo.
Também influenciam nesse processo o superego (ideologia) e o mundo circundante. A falta
de respeito que a pessoa tiver para com o superego (nesse caso, a educação dos pais, o
superego exteriorizado no Estado maior, ou até mesmo na polícia), influenciará inversamente
na hora de exercer a pressão ao ego. Freud (apud ANGRINAMI, 1995) fala sobre a ação e
reação que o instinto violento exerce no indivíduo:

A quais recursos apela a cultura para berrar a violência que lhe é


antagônica, para torná-la inofensiva e talvez para eliminá-la? Já
conhecemos alguns desses métodos, mas seguramente ainda ignoramos
aquilo que parece ser o mais importante. Podemos estudá-lo na história
evolutiva do indivíduo? O que sucedeu para que seus desejos agressivos
tornassem inócuos? Algo sumamente curioso, que nunca havíamos
suspeitado e que, por outro lado, é muito natural. A agressão é introjetada,
internalizada, devolvida em realidade ao lugar de onde procede; e dirigida
contra o próprio ego, incorporando-se a uma parte deste, que na qualidade
de superego se opõe à parte restante e assumindo a função de consciência
moral, deslocada para frente ao ego a mesma dura agressividade que o ego,
de bom grado teria lançado em indivíduos estranhos. (apud ANGRIMANI,
1995, p. 44).

De acordo com o Angrimani (1995), é do atrito entre o ego e o superego que


surge o sentimento de culpa, que se manifesta no consciente do indivíduo sob forma de
castigo. Logo, ainda segundo o autor, essa culpa seria uma necessidade da consciência moral,
para aliviar uma situação conflituosa, aumentando o choque entre o ego e superego.
2.4 A identificação do público com os personagens estereotipados da mídia

De acordo com Angrimani (1995), essa identificação com o personagem acontece


em relação a quaisquer temas abordados, inclusive os policiais, nos mais variados produtos da
mídia. Para tanto, são dois os tipos de projeções: o superego acessório e o id personalizado.
Conforme Angrimani (1995), munido das palavras do psicanalista Otto Fenichel,
superego acessório é o conceito da projeção do superego nas “figuras autoritárias de
aparecimento recente” (ANGRIMANI, 1995, p. 45). A facilidade dessa projeção, ou seja, o
fato de ela ser mais maleável, a difere do id personalizado. Freud cita como as imagens dos
pais funcionam na exteriorização do superego acessório:

No curso da evolução infantil, que separa paulatinamente o sujeito de seus


pais, vai se apagando a importância pessoal dos mesmos para o superego. Às
imagens deles restantes se agregam logo as influências dos professores do
sujeito e das autoridades por ele admiradas, dos heróis eleitos por ele, como
modelos, pessoas que não necessitam já ser introjetadas pelo ego, já mais
resistente (ANGRIMANI, 1995, p. 45).

Um exemplo da projeção em foco é quando se pendura o retrato dos pais em um


quadro na parede da sala. A imagem projetada dos pais representa o superego, fazendo que o
filho desse casal se identifique com o ideal, “pelo fato de que o incorpora com os olhos,
tornando-se incapaz de fazer o que for de mau (...), tanto como fonte de ameaças e castigos
quanto de proteção e doador de amor reconfortante” (ANGRIMANI, 1995, p. 46-47).
Nessa ilustração, utilizamos as figuras paterna e materna como autoridades
primárias na projeção do superego acessório, já que os ensinamentos dos pais são as
primeiras experiências ideológicas e educacionais no processo do amadurecimento infantil, de
uma maneira repressiva.

O superego reprojetado assume também a forma de imagem, com o qual o


ego mantém um relacionamento fechado, imerso em uma linguagem própria.
Segundo Fenichel, a imagem (uma fotografia, por exemplo) tem poder
repressivo sobre o sujeito (ANGRIMANI, 1995, p. 47).

Entretanto, no nível de autoridade, é lógico que existem outras maneiras de


reproduzir o superego de um indivíduo. Como os pais, o superego também se projeta em mais
formas autoritárias a policial, a judiciária e a legislativa.
De acordo com Angrimani (1995), dentro da indústria cinematográfica, um
exemplo de produto midiático que mexe com o imaginário do superego acessório é o filme
“Robocop”.

Em 'Robocop' (refiro-me ao primeiro exemplar da série), um policial vive em


uma cidade violenta, onde existe uma guerrilha urbana entre policiais e
contraventores. É montada uma cena de felicidade-clichê do policial com sua
família em contraposição aos caos na cidade. Durante uma ronda, esse mesmo
policial cai em uma cilada e é fuzilado. Essa execução é mostrada em vários
ângulos. Parece até existir uma intenção de colocar o espectador em primeiro
plano, como se ele estivesse praticando a execução. De qualquer maneira, fica
evidente que os assassinos do policial são reflexos de impulsos homicidas que
precisam ser domesticados. Em outra cena, os contraventores se sentem
imbatíveis, poderosos e passam a destruir a cidade, lançando granadas
incendiárias em lojas, destruindo carros, a ordem, a cultura. Nesse momento,
depois de uma reconstrução cibernética, o policial ressurge como o Robocop
(reconstruído em aço, superego encouraçado), que vai destruir os
transgressores e restituir a ordem (ANGRIMANI, 1995, p. 38 – 39).

Assim como o superego, o id também pode ser projetado. Ao contrário do


superego acessório, essa transposição do inconsciente não acontece, de forma maleável, em
figuras detentoras de autoridade (a polícia, por exemplo). A projeção do id, denominada de id
personalizado, é uma resposta ao instinto inconsciente, primeiramente reprimido no ponto de
vista individual, mas vivido em uma outra situação, por outrem. Angrimani (1995) explica:

Na vida cotidiana, a recusa de satisfações ou de exigências pulsionais, vai


criar uma abstinência que leva o indivíduo a buscar alternativas para aliviar
suas frustrações. 'Se outra pessoa faz alguma coisa (ou se supõe haja feito)
que o indivíduo desejava, inconscientemente fazer, mas não fez inibido por
sentimento de culpa, isso é capaz de provocar admiração e o alívio: - Já que
os outros fazem, não pode ser tão mau, afinal de contas.' [Fenichel] Para as
personalidades carregadas de culpa, os outros não são, enfim, mais do que
tentadores ou punidores, personalificações do id ou do superego
(ANGRIMANI, 1995, p. 47–48).

A afirmação de Angrimani pode ser confirmada, por exemplo, na relação do


público com o artista. Quando um ídolo (cantor) entra no palco, os fãs não admiram apenas a
capacidade dele de interpretar a obra artística ou cantar de forma especial uma composição.
Segundo Fenichel (apud ANGRIMANI, 1995), o artista é admirado “porque ousa exprimir
aquilo que ele, o público, reprime, por esta forma aliviando-o dos seus sentimentos de culpa”
(ANGRIMANI, 1995, p.48).
Mas não é apenas dos sonhos que se alimenta o id personalizado. De acordo com
o filósofo Edgar Morin (apud ANGRIMANI, 1995) tanto nossos desejos quanto os medos são
alvos da personalização do subconsciente. Ou seja, reproduzimos as vontades do id do artista
que encanta e do monstro que apavora.

Edgar Morin, ao discorrer sobre o imaginário, o define como aquilo que 'dá
aparência não somente aos nossos desejos, nossas aspirações, nossas
necessidades, mas também às nossas angustias e temores. Ele libera, não
somente nossos sonhos de perfeição e felicidade, mas também nossos
monstros interiores, que violam os tabus e a lei. Portam a destruição, a
loucura ou o horror. Ele pode ser tímido ou audacioso, seja decolando a custo
do real, ousando a custo de reprimir as primeiras censuras; seja se envolvendo
na embriaguez dos instintos e do sonho (ANGRIMANI, 1995, p.48).

Da mesma forma que o superego acessório, é possível demonstrar a projeção do


id personalizado nas obras da indústria cinematográfica. Angrimani (1995) ilustra a
personalização do subconsciente com o filme “O Exterminador do Futuro”.

Em 'O Exterminador do Futuro' (refiro-me ao primeiro filme), não é o


superego que é indestrutível e blindado, mas o id. Caberá ao ego (um homem
e uma mulher 'normais') destruí-lo, ou 'neutralizá-lo'. O personagem principal
é um robô-exterminador que vem do futuro para matar uma mulher. Também
do futuro vem um guardião, um homem 'comum', que será o anjo da guarda
da mulher e vai protegê-la para que ela consiga ter o filho que vai salvar a
humanidade. Maria e José fugindo para o Egito. O Exterminador joga
constantemente com fantasias de onipotência, segurança, desrespeito de
valores, destruição da ordem, questionamento da autoridade, insubmissão,
inconformismo, indestrutibilidade. O espectador vê seu id 'projetado'. Há
algumas cenas onde esses pontos parecem bastante nítidos, exemplos: 1) o
Exterminador entra em uma loja. O vendedor o atende e exibe uma série de
armas. O Exterminador compra todas. E, além de não pagá-las, faz melhor:
fuzila o vendedor; 2) o Exterminador 'enxerga' no escuro, atira em multidões,
em carros, até em delegacias. E ainda: mata mais de uma dezena de policiais.
A delegacia (a ordem) e os policiais (superego nuclearizado) não são capazes
de detê-los. Id privilegiado, sem a intermediação de um ego comedido e
desprovido de instância moral, o Exterminador pode matar e destruir à
vontade. Ele é o inimigo da civilização descrito por Freud (ANGRIMANI,
1995, p. 39).

A identificação do público com o estereótipo do personagem acontece graças ao


linguajar clichê-fantasioso da mídia sensacionalista. O sensacionalismo, conforme Pedroso
(apud ANGRIMANI, 1995), é um discurso da informação da atualidade, produzido por
“critérios de intensificação e exagero gráfico, temático, lingüístico e semântico, contendo em
si valores e elementos desproporcionais, destacados, acrescentados ou subtraídos no contexto
de representação ou reprodução do real social” (ANGRIMANI, 1995, p.14). Marcondes Filho
(apud ANGRIMANI, 1995), por sua vez, descreve a prática do sensacionalismo assim:
“nutriente psíquico, desviante ideológico e descarga de pulsões instintivas como o grau mais
radical da mercantilização da informação” (ANGRIMANI, 1995, p. 15).
Revelando mais preocupação em satisfazer as necessidades instintivas do público
do que necessariamente em informá-lo, a linguagem utilizada pela mídia sensacionalista
rompe a delimitação do ego em relação ao signo do objeto, que serve como um mecanismo de
defesa para ajudar o ego a diferenciar o real do fictício. Assim, segundo Angrimani (1995), o
produto midiático é transformado em uma fantasia vivida pelo inconsciente do público, graças
ao clichê. Prokop (apud ANGRIMANI 1995) define o clichê como:

Se possuímos, no caso da formação de signos como forma de fantasia, uma


necessária separação entre o sujeito e o objeto, outro princípio de defesa
(clichê) caracteriza-se então em essência, por meio de uma fusão
inconsciente, de um amoldar-se mútuo entre ego e objeto. Aquilo que é
recalcado nos clichês inconscientes tenta retornar, procura conseguir acesso à
consciência e expressar-se no agir cênico sempre igual. Surge uma fantasia
determinada por clichê (ANGRIMANI, 1995, p. 35).

Logo, o linguajar clichê-fantasioso nada mais é, para Prokop (apud


ANGRIMANI, 1995), do que uma construção sígnica das representações inconscientes (os
clichês), ultrapassando a barreira de defesa do ego na distinção entre o real e a ficção, o
envolvendo com o objeto, tornando-o vítima da obra produzida pela mídia sensacionalista. É
assim que, segundo Marcondes Filho, o público “se entrega à estória, sente emoção, se
entristece, chora, sente saudade, vive com a personagem” (apud ANGRIMANI, 1995, p. 38).
3 ANÁLISE SOBRE A COBERTURA DA CHACINA DE PONTE NOVA

Quinta, dia 23 de agosto de 2007. 25 presos da Cadeia Pública de Ponte Nova,


cidade que fica na Zona da Mata, foram assassinados em uma rebelião que começou durante a
madrugada. De acordo com o laudo da Polícia Civil local, um preso da cela número 8, armado
de um revólver calibre 38, rendeu os demais presos da cela e baleou os detentos da cela
vizinha, a 9, enquanto dormiam. Assustados, os presos sobreviventes ao tiroteio tentaram se
esconder no fundo da cela, mas morreram carbonizados em um incêndio. 1 Os presos da cela 8
jogaram um líquido inflamável no colchão dos presidiários da cela 9 e atearam fogo. O laudo
indiciou 23 presos e um agente penitenciário, suspeito de facilitar a rebelião. 2
Durante o tumulto, os policias militares que tentaram controlar a rebelião foram
recebidos a tiros. A falta de uma unidade do Corpo de Bombeiros na cidade de Ponte Nova
prejudicou o trabalho de controle às chamas. O fogo teve que ser controlado por uma equipe
da Defesa Civil Municipal. Os familiares dos presos que estavam na cadeia realizaram vários
protestos, principalmente pela falta de informação, e tentaram invadir o presídio. De acordo
com a Defesa Civil, havia 174 presos na cadeia na hora da chacina, mas o presídio tem
capacidade apenas para 79.
Essa foi a décima quinta rebelião da história do presídio de Ponte Nova,
construído em 1984. O motivo do crime, batizado como Chacina de Ponte Nova, estaria na
disputa pelo tráfico de drogas. Duas das três facções criminosas da cidade, que são aliadas,
planejaram o crime com o objetivo de simular uma rebelião e, durante a confusão, executar 7
rivais da cela vizinha.
Além da disputa pelo tráfico de drogas na cidade, uma garota de apenas 12 anos
teria sido o pivô da briga entre as gangues. Segundo o que foi noticiado pela imprensa, a
adolescente teria acabado o namoro com um dos líderes do tráfico para ficar com o rival dele.
A mãe da jovem nega o triângulo amoroso e diz que a filha era ameaçada por ambas as
quadrilhas.
A Chacina de Ponte Nova aconteceu no mesmo dia em que foi instaurada em
Brasília a CPI do Cárcere. A Comissão Parlamentar de Inquérito foi formada com o objetivo

1
http://www.hojeemdia.com.br/v2/busca/index.php?data_edicao_anterior=2007-08-24. Acesso em: 17 nov. 2007.
2
http://www.otempo.com.br/otempo/noticias/?
IdEdicao=660&IdCanal=6&IdSubCanal=&IdNoticia=55594&IdTipoNoticia=1 Acesso em: 17 nov. 2007.
de investigar a realidade do Sistema Carcerário do Brasil, enfatizando a superlotação nos
presídios. Membros da Comissão visitaram a Cadeia Municipal de Ponte Nova na semana
seguinte à chacina. Eles interrogaram presos, agentes penitenciários, familiares e os
responsáveis pela segurança pública da cidade e do estado.3
De acordo com o jornal O Tempo, uma carta escrita por um dos detentos mortos
foi investigada pela Comissão. Nela, o detento denunciou o plano para executar presos rivais
da mesma carceragem. Além dessa correspondência, membros das comissões de Direitos
Humanos e Segurança Pública da Assembléia Legislativa da cidade já haviam enviado ao
Governo do estado relatórios informando sobre a situação de risco na Cadeia Pública de Ponte
Nova. No início do ano, a Prefeitura, a Câmara Municipal e empresários da região recolheram
700 assinaturas em um abaixo assinado exigindo do governo estadual a contratação de 30
agentes penitenciários para a cadeia. Até a Justiça da cidade já teria solicitado a transferência
de 21 presos e uma vaga para cumprimento de medida de segurança. Nada foi feito.4
A Chacina de Ponte Nova teve repercussão nacional e internacional. A maioria
dos grandes veículos de comunicação enviou correspondentes especiais para cobrir a tragédia.
As matérias produzidas tiveram espaço nas capas dos jornais e na escalada dos telejornais.
Para a análise, foram coletados materiais sobre a cobertura dessa tragédia nos
telejornais locais de três emissoras: Rede Minas, Rede Globo e Rede Record.
A Rede Minas é uma emissora de televisão fundada em 1984. Ela é pública e está
integrada à Secretaria de Estado de Cultura do Governo de Minas Gerais. A escolha por essa
emissora intenciona investigar o que foi noticiado por ela sobre a chacina, analisando, assim,
a abordagem da falha no Sistema Carcerário, que é de responsabilidade do governo do estado.
A Rede Globo é uma emissora de TV criada em 1965 e, atualmente, possui a
maior cadeia de filiais em toda a América Latina. É a quarta maior emissora comercial do
mundo. Em Minas Gerais, a acoplada à Rede Globo é a Globo Minas. A GM foi fundada em
1968, em Juiz de Fora. Hoje, a sua sede é em Belo Horizonte. A Globo é a emissora mineira
com a maior fatia do mercado publicitário.
A Rede Record foi fundada em 1953 e, em 1989, comprada pelo empresário Edir
Macedo, dono da Igreja Universal do Reino de Deus. A filiada à Rede Record em Belo

3
<http://www2.camara.gov.br/comissoes/temporarias53/cpi/cpicarce/> Acesso em: 17 nov. 2007.

4
<http://busca.folha.uol.com.br/search?site=online&q=%22briga+de+presos%22&src=redacao/> Acesso em: 17
nov. 2007.
Horizonte é a TV Record Minas, inaugurada em 1992.
Dessas três emissoras, foram selecionados os seguintes telejornais: MG TV 2ª
Edição, Jornal Minas 2ª Edição e MG Record. Todos eles são transmitidos no período da
noite e fazem uma cobertura diária (exceto aos domingos) dos acontecimentos noticiosos que
surgem no estado de Minas Gerais.
No período do corte temporal, foi coletada a cobertura sobre a Chacina de
Ponte Nova dos três noticiários selecionados. Esse material foi decupado e cronometrado.
Quantitativamente, analisou-se o tempo da cobertura de cada telejornal e os personagens
entrevistados. O recorte temporal para a coleta do material foi de 7 dias. Nesse período, foram
analisados as principais ocorrências relacionadas à Chacina de Ponte Nova, como as
investigações da Polícia Civil e dos deputados federais da CPI do Sistema Penitenciário, o
reconhecimento dos corpos dos 25 detentos assassinados e o enterro deles.

3.1 Análise dos telejornais

Dos três telejornais, o MG Record foi o que fez a cobertura mais prolongada sobre
a Chacina de Ponte Nova. Ao todo, dentro do corte temporal desta monografia, o telejornal
repercutiu a morte dos 25 presos por 22 minutos e 46 segundos.
Dos sete noticiários exibidos pelo MG Record durante o período analisado, em
apenas um dia (28) nenhuma informação sobre a chacina foi divulgada. Em média, a Chacina
de Ponte Nova foi noticiada pela Record, 3 minutos e 47 segundos por noticiário. A matéria
com maior duração foi veiculada na sexta-feira, dia 24, um dia após a tragédia. Ela durou 6
minutos e 33 segundos. Esse tempo corresponde a 60% de toda a cobertura do MG TV 2ª
Edição sobre o tema.
Já no telejornal MG TV 2ª Edição, o tempo utilizado para a cobertura da chacina
foi de 10 minutos e 29 segundos. Como aconteceu com o noticiário da Rede Record, o dia em
que o MG TV 2ª Edição mais se dedicou para noticiar a chacina foi a sexta-feira, 24. Nessa
data, o telejornal da Globo passou 4 minutos e 35 segundos divulgando o tema desta
monografia. Dos sete noticiários exibidos pela Globo, quatro (23, 24, 25 e 30) divulgaram
informações sobre a chacina. Cada divulgação do tema no noticiário global durou, em média,
2 minutos e 51 segundos.
O Jornal Minas 2ª Edição foi o telejornal que menos repercutiu a Chacina de
Ponte Nova. Durante todo o período analisado, o noticiário da Rede Minas utilizou 1 minuto e
25 segundos cobrindo o tema. Apenas nos dois primeiros dias (23 e 24) o Jornal Minas
divulgou informações sobre o acontecimento. Em média, cada informação durou 42 segundos.

Data MG Record MG TV 2ª Edição Jornal Minas


23 05:59 03:26 00:45
24 06:33 04:35 00:40
25 04:56 01:52 -
27 03:26 - -
28 - - -
29 00:29 - -
30 01:33 00:36 -
Total 22:56 10:29 01:25

Analisando a tabela acima, nota-se a diferença da cobertura do Jornal Minas 2ª


Edição a Chacina de Ponte Nova das demais concorrentes. Ao todo, a repercussão do caso no
telejornal da Rede Minas equivale a 13% da cobertura do MG TV 2ª Edição e 6% da cobertura
do MG Record. Comparando os telejornais da Rede Globo e Rede Record, a repercussão sobre
a tragédia no noticiário da Record é mais do que o dobro do tempo do telejornal global. Toda
a cobertura do MG TV 2ª Edição é menor do que a divulgação nos dois primeiros telejornais
da Rede Record. Em média, o MG Record ficou um minuto e 58 segundos, por dia, noticiando
o evento a mais do que o MG TV 2ª Edição.

3.1.1 Personagens

Vinte e cinco personagens foram entrevistados durante a cobertura do MG


Record. A grande maioria das entrevistas realizadas pela Record foi com os familiares das
vítimas da tragédia. Ao todo foram 19, o que dá mais de 75% entre todos os personagens que
gravaram com a emissora. O personagem mais vezes entrevistado foi o deputado federal
Neucimar Fraga, o presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito do Sistema Carcerário.
Ele apareceu na cobertura três vezes. Inclusive, na primeira gravação com a emissora, no dia
24, o nome dele saiu errado no gerador de caracteres, nomeando-o como “Nelcimar Soares”.
Já o secretário estadual de Defesa Social, Maurício Campos, foi entrevistado duas vezes.
Além deles, foram entrevistados o deputado federal Raul Jungmann, o deputado estadual
Durval Ângelo, da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa, o coordenador
da Defesa Civil de Ponte Nova, Cícero Gomides, e o chefe da Polícia Civil de Minas Gerais,
Marco Antonio Monteiro.
Já o MG TV 2ª Edição, ouviu nove personagens. Entre os quais, quatro eram
familiares de vítimas da tragédia e cinco eram de órgãos oficiais do estado e da federação. Os
personagens que mais participaram das reportagens do MG TV 2ª Edição foram o deputado
federal Neucimar Fraga e o vereador Antonio Cesário, da Câmara Municipal de Ponte Nova.
Ambos apareceram nas matérias duas vezes. Os outros entrevistados foram o secretário
estadual de Defesa Social, Maurício Campos, o subsecretário (da mesma Secretaria), Genílson
Zeferino, além do delegado de Ponte Nova, Luis Carlos Chartouni.
O Jornal Minas 2ª Edição não mostrou entrevistas com personagens na cobertura
sobre o crime. As notícias foram dadas por meio de notas. Porém, ao citar os presidiários
mortos, os parentes, a polícia e a corregedoria geral, o Jornal Minas está também utilizando
os personagens, para formular o noticiário.
Neucimar Fraga foi o personagem que mais teve sua imagem divulgada na
cobertura dos telejornais. Ao todo, ele foi entrevistado cinco vezes. Maurício Campos,
personagem que representava a secretaria estadual de Defesa Social, órgão responsável pelo
Sistema Penitenciário mineiro, também teve destaque na cobertura do acontecimento,
aparecendo em três matérias. Entre os familiares, pelo menos dois deram entrevista tanto pelo
MG TV 2ª Edição quanto pelo MG Record. Dos quatro familiares entrevistados pelo
noticiário da Globo, apenas um (Érica Cesário) foi identificado no gerador de caracteres. Ela
não deu entrevista à Record. Dois deles tiveram o primeiro nome citado na locução (OFF) do
repórter do MG TV 2ª Edição. São Marcelo Vitorino e Sebastião Custódio, que também
cederam entrevista ao MG Record. Os dois, juntamente com mais um familiar, não foram
identificados pelo gerador de caracteres no MG TV 2ª Edição, já que participaram de uma
sonora que durou menos de 5 segundos. No MG Record, por sua vez, todos os familiares
abordados, independente da duração da entrevista, obtiveram identificação pelo gerador de
caracteres.

Entrevistas MG TV 2ª Edição MG Record Jornal Minas 2ª Edição


23 4 11 Não entrevistou
24 6 9 Não entrevistou
25 1 4 Não noticiou
27 Não noticiou 3 Não noticiou
28 Não noticiou Não noticiou Não noticiou
29 Não noticiou Não entrevistou Não noticiou
30 Não entrevistou 1 Não noticiou
TOTAL 11 28 0
Então, os personagens que aparecem foram representantes oficiais da polícia, justiça,

legislativo, familiares e os próprios presos mortos.


3.2 MG Record

3.2.1 Estrutura e abordagem dos VTs e notas

O MG Record, o noticiário que mais repercutiu o tema desta monografia, fez a


cobertura da Chacina de Ponte Nova com sete matérias, cinco reportagens, um roda VT-OFF.
Uma única nota apareceu em toda a cobertura. A estrutura adotada pelo editor-chefe
responsável por fechar o telejornal foi noticiar a chacina prolongadamente em um único dia,
mas dividindo as abordagens sobre o tema em formatos de VTs distintos.
No primeiro dia, 23, o mesmo em que os presos foram assassinados, o MG
Record abriu o telejornal com uma matéria relatando o acontecimento. Depois veiculou uma
reportagem com uma sonora envolvendo o secretário de Defesa Social Maurício Campos,
responsável pelo Sistema Penitenciário de Minas Gerais. Por fim, divulgou outra reportagem,
mostrando a repercussão do ocorrido nos sites dos principais jornais impressos do Brasil e do
mundo.
No dia 24, o telejornal começou a cobertura com a reportagem da coletiva da
Polícia Civil de Minas Gerais, com a fala do delegado-chefe Marco Antonio Monteiro.
Nenhum outro personagem falou tanto em uma única matéria durante toda a cobertura do MG
Record. Depois, foi veiculada outra reportagem com os familiares das vítimas do incêndio, no
Instituto Médico Legal de Belo Horizonte, pela manhã. Em seguida, o repórter chamou,
dentro da própria reportagem, uma matéria com a movimentação à tarde no IML. Por fim,
uma reportagem sobre a chegada dos deputados federais que compõem a CPI do Cárcere
chegou a Ponte Nova para apurar os fatos.
No dia 25, o MG Record cobriu a visita dos deputados federais aos familiares das
vítimas no IML de Belo Horizonte. Depois, fechou a cobertura do dia com o enterro de uma
parte dos detentos mortos, no cemitério de Ponte Nova.
No dia 27, o telejornal começou a cobertura com uma matéria sobre a
identificação dos corpos de alguma das vítimas no IML de Belo Horizonte. Logo em seguida,
uma nova matéria foi ao ar com uma denúncia dos familiares dos detentos de que os
deputados estaduais da Comissão dos Direitos Humanos sabiam da calamidade na cadeia de
Ponte Nova, mas nada fizeram. Uma nota concluiu essa matéria sobre os deputados,
afirmando a posição deles. Essa foi a única nota utilizada durante a cobertura.
No dia 29, uma matéria foi divulgada pelo MG Record sobre a identificação de
mais corpos de vítimas da chacina. No dia 30, ocorreu uma matéria com deputados federais da
CPI do Cárcere visitando a cidade de Ipaba, onde foram ouvir presos que estavam na cadeia
no dia da chacina e foram transferidos.

3.2.2 Construção da cobertura sobre a Chacina

Os familiares dos vinte e cinco detentos mortos no incêndio na cadeia pública de


Ponte Nova foram os que mais predominaram nas matérias do MG Record sobre a Chacina.
Dos 19 familiares entrevistados, o que teve mais espaço na cobertura foi Maria Gomides,
vizinha de uma das vítimas. Metade do tempo das reportagens dedicou-se à exibição das
imagens dos parentes cobrindo o texto do repórter. A imagem mais explorada dos familiares
foi no cemitério de Ponte Nova seguida pela espera dos parentes no IML de Belo Horizonte e,
depois, eles aguardando informações em frente à cadeia de Ponte Nova, tanto no dia do crime
quanto durante a transferência dos presos.
O presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito do Sistema Carcerário, o
deputado federal Neucimar Fraga, também teve destaque na cobertura do MG Record. Além
de ser o entrevistado que mais apareceu durante toda a reportagem, ele também foi quem mais
deu entrevista.
O governo do estado, representado pela Secretaria Estadual de Defesa Social de
Minas Gerais também foi personagem nas matérias. O secretário Maurício Campos foi o
segundo personagem que mais apareceu falando no MG Record.
Vários recursos do telejornalismo foram utilizados nas reportagens durante a
cobertura da Chacina de Ponte Nova. Entre eles, o sobe som, a arte e o teaser. A arte foi o
recurso mais explorado (duas vezes). Uma para ilustrar para onde foram transferidos os presos
da chacina, outra para apresentar ao público a repercussão que o evento criminoso teve nos
jornais nacionais e internacionais. A imagem da cadeia pública de Ponte Nova foi veiculada
durante os noticiários do MG Record que mostrou a movimentação da Polícia Militar em
frente ao presídio.
Espaço aos persnagens no MG Record

Familiares
SecretariaDe Defesa Social
CPI
Outrosorgãos oficiais
Outroscivis

Gráfico 1 – Estatística do tempo reservado para cada personagem na cobertura do MG Record

3.3 MG TV 2ª Edição

3.3.1 Estrutura e abordagem dos VTs e notas

O MG TV 2ª Edição repercutiu a Chacina de Ponte Nova de uma forma mais


contida, padronizando o acontecimento dentro do formato dinâmico da reportagem na
televisão. Como afirma Neto (2008), a notícia de um telejornal diário geralmente não deve
passar de 2 minutos, priorizando a objetividade. Logo, em toda a cobertura do MG TV 2ª
Edição, nota-se a preocupação em noticiar a chacina de uma forma direta e dinâmica,
utilizando-se apenas os recursos já presentes no telejornal, como a escalada, a arte e o sobe
som, para destacar o acontecimento sem ter que abrir mão do espaço do noticiário.
A cobertura do MG TV 2ª Edição foi composta por três matérias, uma reportagem
e uma nota seca. Todos os quatro vídeos veiculados pelo telejornal foram acompanhados por
notas-pé.
No primeiro dia, 23, o MG TV 2ª Edição repercutiu a chacina com uma matéria
composta por uma arte que simulava a ação dos detentos os quais atearam fogo na cela
vizinha. Foi à única arte produzida em toda a cobertura.
O dia seguinte, 24, foi o único em que o MG TV 2ª Edição veiculou dois vídeos-
tape sobre o crime. Houve uma matéria com os familiares das vítimas no Instituto Médico
Legal de Belo Horizonte, seguida, ainda, de uma reportagem com os deputados federais, da
Comissão Parlamentar de Inquérito do Sistema Carcerário, visitando a cidade de Ponte Nova.
No dia 25, o MG TV 2ª Edição divulgou uma matéria com a visita dos deputados
federais da CPI do Cárcere aos familiares das vítimas no IML de Belo Horizonte, seguida de
uma nota-pé. Essa data corresponde ao dia em que os primeiros corpos identificados pela
necropsia do IML foram enterrados em Ponte Nova. O MG TV não incluiu essa informação na
cobertura.
No dia 30, o último do corte temporal, o MG TV 2ª Edição divulgou uma nota
seca sobre os depoimentos dos 13 presos, sobreviventes, transferidos para a cadeia da cidade
de Ipaba, fornecidos aos deputados federais.

3.3.2 Construção da cobertura sobre a Chacina

Os discursos dos membros da secretaria estadual de Defesa Social e do


parlamentar que preside a CPI do Cárcere foram os que predominaram na construção da
Chacina de Ponte Nova pela cobertura jornalística do telejornal MG TV 2ª Edição.
Apesar de pouco abordado nas reportagens veiculadas, o espaço destinado às
notas-pé fez da secretaria estadual de Defesa Social, o órgão que mais teve espaço na
cobertura do noticiário, incluindo o texto coberto com imagens de Maurício Campos, o
secretário responsável.
Houve também, o espaço destinado ao deputado federal Neucimar Fraga, que
preside a CPI do Cárcere, tornando-o o personagem que mais apareceu dando entrevistas na
cobertura.
Tanto o membro da Comissão Parlamentar quanto o secretário de Defesa são de
órgãos que representam o Estado. Excluindo os elementos que fazem parte da composição da
matéria, como a cabeça e a passagem, o discurso de órgãos estatais ocupou 80% do espaço na
cobertura do MG TV 2ª Edição, enquanto os familiares ocuparam apenas 14%. O restante foi
coberto repercutindo a Chacina de Ponte Nova com as imagens da cadeia. Outro dado
interessante é que o tempo destinado às entrevistas com o deputado Neucimar Fraga
corresponde ao triplo do que os familiares tiveram.
Espaço aos persoangens no MG TV 2ª Edição

SecretariaEstadual de Defesa
Social * incluindo nota pé
CPI do Cárcere

Familiares e amigos das


vítimas
Outrosorgãos oficiais

Gráfico 2 – Estatística do tempo reservado para cada personagem na cobertura do MG TV 2ª Edição.

3.4 Jornal Minas 2ª Edição

Durante o corte temporal desta monografia, o Jornal Minas 2ª Edição cobriu a


Chacina de Ponte Nova apenas com uma nota coberta e uma nota seca, veiculadas nos dois
primeiros dias do telejornal.
No dia 23, o telejornal descreveu o acontecimento por meio de uma nota coberta
pelas imagens cedidas da TV Bandeirantes. As imagens mostram a cadeia pública, alguns
presos sobreviventes da tragédia gesticulando, deixando evidente a superlotação do presídio,
além da movimentação policial na área externa. A reportagem abordou a morte dos 25 presos,
ilustrando a informação com imagens externas da cadeia de Ponte Nova.
No dia 24, o Jornal Minas 2ª Edição limitou-se a informar sobre o início das
investigações pela Corregedoria da Polícia Civil e o apoio do governo de Minas Gerais aos
familiares da tragédia. Vale ressaltar que a Rede Minas é uma emissora integrada à secretaria
de cultura do governo do estado de Minas Gerais.
Nessa construção da Chacina de Ponte Nova, a única fonte que teve espaço foi a
secretaria de Defesa Social. O restante da cobertura comportou elementos jornalísticos.
Em nenhum momento, parentes das vítimas, testemunhas ou órgãos responsáveis
pela investigação do crime participaram de entrevistas na cobertura do telejornal. Quando
citados na reportagem, personagens como os familiares, vítimas do crime, corregedoria, foram
apenas abordados por meio do posicionamento da secretaria estadual de Defesa Social, no
texto jornalístico das notas veiculadas.
CONCLUSÃO

Para os telejornais que noticiaram a Chacina de Ponte Nova, a cobertura desse


acontecimento se tornou um grande desafio. Como um noticiário conseguiria repercutir um
grande incêndio sem registrar o momento em que o fogo consome tudo? Como iria
sensibilizar o telespectador da morte de dezenas de pessoas, sem sequer ter acesso ao local do
crime? Como entrevistar o sobrevivente dessa tragédia, se ele estava inacessível no sistema
prisional brasileiro?
Para piorar, Ponte Nova fica a 180 quilômetros de Belo Horizonte, sede das
principais emissoras mineiras, e a única televisão da cidade é ligada à emissora que vincula-se
a uma secretaria do governo do estado. Além do mais, o incêndio começou durante a
madrugada e, nesse horário, a maioria das emissoras estava em esquema de plantão.
Assim, cada emissora selecionada teve que se virar como pode para construir o
discurso jornalístico sobre a Chacina de Ponte Nova. O MG Record encontrou nos parentes e
amigos a base para estender a repercussão desse acontecimento. Noticiou o enterro das
vítimas, os familiares no IML e até a Passeata da Paz organizada pelos moradores da cidade,
tornando a Chacina um evento diferenciado, merecedor de uma abordagem especial.
Já o MG TV 2ª Edição preferiu adotar uma postura mais centrada, enquadrando a
Chacina de Ponte Nova dentro dos acontecimentos que compõem a agenda de seu noticiário.
Em um único momento, o telejornal passou mais de 4 minutos repercutindo o tema, num só
dia. Devido à falta de imagens do acontecimento, a opção do telejornal foi construir a
Chacina de acordo com as versões oficiais dos fatos, como a investigação parlamentar do
deputado federal Neucimar Fraga e a posição da secretaria estadual de Defesa Social.
O Jornal Minas 2ª Edição poderia ter sido o único telejornal a registrar o exato
momento do incêndio no presídio, já que a emissora filial da Rede Minas, a TV Educar, ficava
a poucos quarteirões da cadeia da cidade. Mas, provavelmente pelo vínculo da emissora com
o governo do estado, preferiu não enviar uma equipe de reportagem para o local. Mesmo
estando próxima da localidade do acontecimento, a emissora pediu para a Rede Bandeirantes
as imagens, creditadas, da cadeia de Ponte Nova. Assim, o Jornal Minas 2ª Edição limitou
sua cobertura a uma simples nota coberta e outra seca, ambas com espaço reservado para a
posição da secretaria estadual de Defesa Social.
O tempo gasto em notas pelo MG TV 2ª Edição também se destacou nessa análise.
Ao todo, 25% de toda a cobertura global foram utilizados somente de espaço para os órgãos
oficiais, como a secretaria estadual de Defesa Social. A opção utilizada pelo MG Record para
evitar essa overdose de notas foi aproveitar ao máximo as entrevistas coletivas,
transformando-as em reportagens, intercalando a sonora do personagem oficial com o texto
do repórter, ambos cobertos por imagens.
Concluiu-se que os telejornais da TV Record e da TV Globo conseguiram construir
uma repercussão distinta do acontecimento em Ponte Nova. O MG Record, com uma
cobertura mais denunciante, e o MG TV 2ª Edição, uma cobertura mais técnica. Independente
dos extremos, os dois telejornais conseguiram noticiar os principais destaques do
acontecimento de forma compreensiva ao telespectador. O telejornal da Record, mais extenso
e coberto de imagens, e o da Globo, padronizado e objetivo. Já no Jornal Minas 2ª Edição,
com pouco tempo destinado à divulgação da Chacina limitou-se a cobertura do telejornal,
privando o telespectador de boa parte das informações do acontecimento. Logo, seja por
carência estrutural ou dependência governamental, a cobertura do Jornal Minas 2ª Edição
tornou-se insuficiente para quem procurasse novidades sobre a Chacina de Ponte Nova, se
comparada com as demais concorrentes.
Enfim, coube ao telespectador encaminhar-se para o tipo de perfil jornalístico
que mais lhe despertasse a atenção e o proporcionasse credibilidade.
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