Você está na página 1de 8

O MÉDICO CAMPONÊS ou A PRINCESA ENGASGADA

PERSONAGENS:
Camponesa / Camponês / Mensageiro / Rei
Princesa / Camponês / Mensageiro / Rei

ABERTURA

Música. Todos entram e, num ritual, arrumam o cenário


coreograficamente diante do público, como uma "cirurgia"
cênica, dissecando cada parte do contexto teatral (figurinos,
adereços e cenário que serão usados ao longo da história). A
música vai se modificando de moderna para medieval,
transportando para a época da peça. O casal dança e pára.

CENA 1

Casal de camponeses ricos, afetuosamente abraçados.


Símbolo de um casal feliz.

Mulher - (Para a platéia.) Pensam que foi sempre assim? Hum. (Suspira.)
Camponês - É claro que não. (Tirando as jóias da mulher.)
Mulher - E você também não era assim. (Tira uma jóia dele.)
Camponês - Espevitou-se?!
Mulher - Espevitei-me.
Camponês - Quando casamos não tinhas sequer dote.
Mulher - Mas era bela, digna e filha de distinto e nobre cavaleiro.
Camponês - Ah! Ah! Ah! Nobre! (À parte.) E sem nenhum tostão.
Mulher - Não vá recomeça! Não esqueça que fui eu que te dei o teu diploma e a tua
ciência.
Camponês - (Atingido.) Lá isso é verdade. (Dirige-se à platéia para contar sua história.)
Nobres senhores, doutores colegas, é preciso que saibam dos tortuosos caminhos que
percorri para hoje ser o médico mais respeitado do reino. Era eu um próspero camponês,
que levava minha vida em paz, quando, por insistência de amigos, decidi me casar.

Mise-en-scéne de casamento: o casal de costas para o


público, como se no altar.

Mulher - Sim. (Vira-se de frente e, cortando, chora farsescamente.) Ai, por que eu não
disse não?
Camponês - (Com porrete na mão, fala com a platéia.) Não importa porque estou batendo,
mas ela com certeza sabe porque está apanhando.
Mulher - De manhã me bate e à noite me traz flores. Não entendo.
Camponês - Com os olhos vermelhos e a cara inchada, quem vai olhar duas vezes? Nem
mesmo o padre.
Mulher - Ai, minha mãe, o que será que eu fiz? Eu não mereço, eu juro que não.
Camponês - Não posso afrouxar o laço: se ela não chorar o dia inteiro, acabo ganhando um
galhaço.
Mulher - Ele não sabe o que é levar uma surra. Com certeza nunca apanhou, mas um dia
ele verá.
Camponês - E, assim, dia após dia a cena se repetia e a minha honra garantia. Era só o galo
cantar...
Mulher - (Faz o canto do galo e volta a chorar.) De novo não. (Repete-se 4 vezes ritmado
com a música; na última, desmonta o personagem e volta.) Por favor, não me bata mais.
Camponês - (Pausa, olha para ele e desiste.) Tá bem, vou trabalhar.

CENA 2

Música.

Mulher - (Chora enquanto varre; ajeitando-se, assoa o nariz e faz o relincho do cavalo.)
Vem alguém aí.
Mensageiro - Bela tarde esta para uma bela dama olhar. Se fitas tivesse eu cá as daria para
te enfeitar. Se és donzela ou senhora com respeito hei de falar: em nome do Rei lhe peço
pão, vinho, queijo e um lugar para descansar.
Mulher - Com muito prazer, senhor, aqui terás o pouco que posso ofertar. Se vens em
nome do Rei, o que estás a buscar? Se é que posso perguntar?
Mensageiro - Caminhos já percorri e outros terei que trilhar. Certamente que por aqui
médico não hei de achar.
Mulher - Um médico, senhor?!
Mensageiro - Sim, e tenho logo que encontrar.
Mulher - Então a coisa é séria!
Mensageiro - Há 8 dias que a filha do Rei não come nem bebe nada: uma espinha de peixe
lhe fecha a garganta.
Mulher - Para tanta urgência, muito tempo não podes levar.
Mensageiro - Exatamente.
Mulher - Mas os bons médicos não estão todos tão longe.
Mensageiro - Como assim?
Mulher - Meu marido.
Mensageiro - O que?!!!
Mulher - Meu marido é especialista em humores.
Mensageiro - Um homem tão sábio por aqui?
Mulher - Tão sábio quanto Hipócrates.
Mensageiro - A senhora está brincando?
Mulher - Não faria graça neste momento... A verdade é que ele é estranho, vou logo lhe
prevenindo. É tão preguiçoso que, para conseguir alguma coisa dele, é preciso lhe dar uma
boa surra.
Mensageiro - Não diga!!...
Mulher - É por isso que a sua fama não corre o mundo.
Mensageiro - Nossa!
Mulher - É o que lhe digo. É preciso bater-lhe para que ele aceite tratar.
Mensageiro - Mas como isso é curioso...
Mulher - É curioso sim, mas ao mesmo tempo é cômodo. Ele cura muito bem seus doentes
quando apanha.
Mensageiro - Bem... Não irei esquecer. Que seja. Pode me dizer onde ele está neste
momento?
Mulher - (Mostrando astúcia.) No campo.

Vinheta musical. Trocam personagens.

CENA 3

Camponês, depois de trabalhar, descansa escorando no cabo


da enxada, com o olhar vago para o horizonte.

Mensageiro - Bela tarde esta para o horizonte contemplar. Se estás fazendo a sesta, não
quero atrapalhar.
Camponês - Hum?!!
Mensageiro - Te saúda o que pouco sabe, esperando a graça do teu muito saber.
Camponês - O quê?!!
Mensageiro - Não ocultais, nobre doutor, as artes do teu labor.
Camponês - (À parte.) Deus me ajude se entendo!
Mensageiro - Senhor, a situação é delicada.
Camponês - Ah, deixe-me em paz.
Mensageiro - Em nome do Rei lhe peço, me acompanhe ao Palácio.
Camponês - Ao Palácio?! Rei?!
Mensageiro - Há 8 dias que a filha do Rei não come nem bebe nada: uma espinha de peixe
lhe fecha a garganta.
Camponês - E o que posso fazer?!
Mensageiro - Usar sua sabedoria e medicina. Por favor, abra uma exceção.
Camponês - Ah, me esqueça.
Mensageiro - Doutor, sabes bem que temos que resolver a situação.
Camponês - Quê? Doutor?!
Mensageiro - Quanto mais o tempo passa, pior as coisas vão ficar.
Camponês - Chega! Daqui eu não saio.
Mensageiro - (À platéia.) Bem que ela avisou. O sujeito é estranho mesmo. (Para o
Camponês.) Com sua licença, doutor. (Bate nele com um bastão.)
Camponês - Mas o que é isso? (Apanhando e tentando falar, impedido pelo Mensageiro.)
Mas, eu não sou... Ai, minha mãe, o que será que eu fiz? Eu não mereço, eu juro que não.
Mensageiro - Ora, cale-se; já perdi a paciência. (Segue batendo.)
Camponês - Por favor, não me bata mais. (Leva uma chave de braço. Para a platéia.) Por
que eu não disse sim? Está bem, eu vou, eu vou.

CENA 4

No Palácio. Vinheta musical. Mudança de personagens:


Mensageiro troca com Camponês, resta o chapéu deste que é
jogado ao chão; o que antes era Mensageiro passa a ser Rei,
e o que antes era mensageiro passa a ser Rei, e o que era
Camponês vira Mensageiro.

Rei - Então, acharam alguém?


Mensageiro - Ei-lo aqui, Majestade. (Aponta para o lugar onde o Camponês foi jogado.)
Rei - E quem é ele?
Mensageiro - Apesar de grande Doutor, esconde de todos sua Ciência. É homem de
estranho humor que nos faz perder a paciência. A grande preguiça é seu mal que causa
horror. Mas, para curar, o tal, só batendo com fervor.
Rei - Jamais ouvi falar de médico assim. Mas, vamos logo experimentar: que batam nele.
Mensageiro - Estou pronto.
Rei - Espere, você é muito apressado. Bater num Doutor, me causa muito horror. Vou
primeiro lhe oferecer pagamento.
Mensageiro - Sinto dizer que nada vai adiantar. Deixo-lhe aqui o bastão, caso venha a
precisar. Com licença. (Em cena, tira a roupa de Mensageiro, desvira o chapéu e volta a
ser camponês, repetindo.) Com licença.
Rei - (Apontando para a platéia.) Eis aqui, Mestre, o que tenho a lhe oferecer. Desejo que
minha filha fique boa. Mas, diga, quanto quer para salvá-la?
Camponês - Senhor, pelo Cristo que jamais mentiu, eu não sou médico, eu juro. Não sei
nada de medicina, não posso curá-la.
Rei - Ora, vamos, todos têm seu preço. Peça-me o que quiser.
Camponês - (Em desespero.) Eu quero ir embora.
Rei - Perdão, Doutor, mas não vejo outra solução. Lá vai o bastão. (Bate.)
Camponês - (Apanhando e se esquivando.) Oh não, de novo não. Não bata mais. Eu vou
curá-la.

Essas três falas são ritmadas, entremeadas com vinheta


musical.

Rei - Em boa hora. Vou chamá-la.

CENA 5

Vinheta musical.

Camponês - (Percebe-se sozinho e, em apuros, pede ajuda à platéia.) E agora? O que vou
fazer? Se ao menos tivesse um médico por aqui pra me aconselhar... Nas horas em que a
gente mais precisa, não tem nenhum por perto. Tem algum médico na platéia? Tem algum
por aqui? O senhor, o senhor é médico? O senhor, Doutor, já esteve em alguma situação
assim, difícil, sem saber o que fazer? (seguem brincadeiras com a platéia no intuito de
aproximá-la do drama do personagem.) Pensem comigo. A espinha está na garganta. Sim
ou não?... Portanto, não está no corpo, lá embaixo, na barriga. Sim ou não? Está perto da
boca e é por lá que terá que sair. Sim ou não? E se eu puxar com um palitinho? O senhor,
Doutor, acha que consigo? Sim ou não? Não, não diga mais nada, senão atrapalha meu
pensamento, e eu tenho que pensar rápido. Aí, meu Deus, lá vem ela. Que todos os santos
me ajudem. (Rei, que entrou no dossel da Princesa, já é ela mesma que, doente, sem
respirar direito, geme.) Princesa! (Chamando.) Princesinha, (Meio infantil, bobo.) deixe-me
ver sua boquinha. (Princesa abre seu cortinado e revela somente o rosto com o leque. Por
enquanto não se vê a espinha. Ela tenta dizer algo, ele tenta traduzi-lo.) Não se entende
nada que a coitada diz. Aliás, nem consegue dizê-lo. (Tentam ainda conversar, com ele
traduzindo para o público. Que ela está muda, com fome, com sede, cansada... Até que ela
sai do dossel com a espinha atravessada, o que causa grande nervoso no Camponês, que
reage aflito. Vinheta musical. Camponês, com a mão na garganta.) Ai, que aflição! Que
horror! Eu não vou conseguir. Tenho que continuar. Fale, fale mais. Princesa, conte-me
sobre a sua infância. Que doenças já teve?
Princesa - (Com esforço, fala as palavras pela metade, com voz fanha.) ...pora
Camponês - Foi almoçar fora?!
Princesa - ...pora
Camponês - Sim, sim, já entendi. O que mais?
Princesa - ...tite
Camponês - Ficava triste?
Princesa - ...tite
Camponês - Ficava triste quando ia almoçar fora.
Princesa - ...ão!
Camponês - Cão. Ah, não podia levar o cão.
Princesa - ...ampo
Camponês - Então ia para o campo.
Princesa - (Rindo.) ...ampo
Camponês - (Tentando adivinhar e ela cada vez ri mais.) Levava um grampo.
Princesa - (Rindo.) ...ão ...ampo
Camponês - Ficou rouca. (Princesa e Camponês riem. Camponês pega o leque, abana a
Princesa que sente cócegas e espira, cuspindo a espinha. Vinheta musical.) Vejam, saiu.
Consegui, eu consegui... Aplausos pra mim. Viva! Vejam!
Princesa - (Com a voz fanha.) Obrigada.
Camponês - Oh, coitadinha, arranhou a gargantinha.
Princesa - (Fanha.) Não, eu falo assim mesmo.
Camponês - Ah, ainda bem. Vá, vá mostrar ao seu pai.
Princesa - (Dando pulinhos e voltinhas, com a voz fanha.) Papai, papaizinho me dê um
docinho...

Sai, passa pelo cenário e volta como Camponês. Cria-se o


conflito das duas estarem de camponês.

CENA 6

Camponês - (As duas, ao mesmo tempo, repetem três vezes com diferentes intenções, até
aquela que voltou mandar a outra se retirar na intenção da fala "livrei".) Ufa, finalmente
me livrei. Agora, voltar pra casa, voltar, voltar...
Rei - Voltar pra casa? Agora? De jeito nenhum.
Camponês - A princesa já está curada, Majestade, não tenho mais nada a fazer.
Rei - Como não? Você é a minha solução!
Camponês - Eu?!!
Rei - Com a situação da Saúde do jeito que está.
Camponês - E eu com isso?!
Rei - Você, me rapaz, conseguiu o que muitos não conseguiram.
Camponês -Tá bem, obrigado pelo elogio. Com licença.
Rei - Espere, não vá saindo assim não. Você não calcula a infinidade de reclamações que
recebo... E as filas? São tantas que chega a ser absurdo. Outro dia, chegaram a montar
tendas, barracas. Imagine a confusão, a bagunça que se estabeleceu! Tive até que botar uma
força especial, acabei logo com aquele barulho. Peça, peça o que você quiser.
Camponês - Senhor, só ir embora.
Rei - Daqui não sai, daqui ninguém lhe tira. Já mandei preparar uma confortável cama com
dossel... dourada! Gosta de frisos dourados? Tapetes no chão... no chão só, não! Nas
paredes! Tapeçarias flamengas. Já mandei construir uma sala de banhos. Banhos turcos!
Mas não exagera que faz mal à saúde.
Camponês - Não, mas meu senhor não...
Rei - Não gostou, não tem problema: a gente troca. Um cavalo branco...
Camponês - Cavalo branco?! Mas...
Rei - Branco não? Então preto, marrom. Os três... três cavalos! Um assistente terás toda a
ajuda que precisar. Um laboratório...
Camponês - Mas, eu não...
Rei - Não! Ervas estranhas, não! Cuidado com bruxarias, não venha me comprometer com
o Papa. Aqui, meu amigo, você terá tudo o que precisar.
Camponês - Senhor, o meu trabalho... o campo... tô sem farinha em casa, o trigo precisa
ser batido...
Rei - Ah! Batido. (Pega o bastão. Vinheta.) Lá vai o bastão.
Camponês - Pare, senhor! Eu fico, eu fico.
Rei - (À parte.) Porque um homem tão sábio me obriga a usar de tanta ignorância? Não
entendo! Vá, cure essa boa gente. (Aponta para o público.)
Camponês - Mas, eles são muitos!!
Rei - (Levantando o bastão.) Fora preguiça! Lá vai o...
Camponês - Não, não, vou curá-los todos, se Deus quiser. (À parte.) E o Diabo não
atrapalhar.
Rei - Em boa hora. (Sai.)

CENA 7

Camponês - (Sozinho com o público, agoniando, tenta pensar em algo.) Que situação!
Pelo Deus que me criou, não posso curá-los a todos. Bem, deixe-me ver... Nossa, que caras
terríveis, vocês estão péssimos. (Para uma pessoa de óculos.) O Senhor... percebo que você
sofre... (com ar de descoberta.) Da visão! E a senhora... (Fala algo que não se entende.)
Sofre de... surdez. (Para outro.) Tosse. (Imperativo.) Tosse! (Afirmativo.) Tosse é o seu
mal. Bem, vejo que estão todos realmente muito mal. Sá vejo uma solução: aqueles que
estiverem piores virão aqui para frente. (No palco.) Vou lhes ensinar uma dança energética,
purificadora: a dança do Copérnico. (Demonstra.) Então, vamos lá... dois a dois, cada um
olhe para o companheiro do lado e diga qual está pior, dedurem. Vamos lá: olhem pro
companheiro do lado, esqueçam as brigas e desavenças, é uma questão de vida ou morte...
Como? Ninguém?! Todos já ficaram bons? Nenhum doente? Maravilha! Bem, amigos, sei
que estão loucos para me agradecer por tão rápida cura. Então, prestem atenção. Quando o
Rei voltar, vai querer saber como vocês estão; fará perguntas que vocês responderão de
acordo com o que eu vou ensinar pra vocês agora. (Pega três lenços, amarelo, vermelho e
verde.) Quando eu acenar com o lenço vermelho vocês dirão NÃO, com o verde dirão SIM
e, com o amarelo, vocês aplaudirão - A de amarelo é de aplausos. (Á parte.) Isso no futuro
servirá pra alguma coisa... Ok? Vamos lá, vamos ensaiar. Verde - Sim, Vermelho - Não,
Amarelo - Aplausos. (3 vezes.)
Rei - (Entra lisonjeado.) Obrigado, obrigado. Pronto? Seu tempo terminou.
Camponês - Já estão todos bem, Majestade.
Rei - Já?! Mestre, mestre, como pode agir tão rápido, meu doce mestre?!
Camponês - Às vezes é nas coisas simples que estão as grandes soluções.
Rei - (À parte, alusão à formação do médico medieval.) Virou filósofo. Ótimo, vou testar
sua ciência. Vocês estão bem?

Camponês acena com lenço verde.

Todos - sim!
Rei - Com saúde?
Todos - Sim!
Rei - Tem algum doente entre vocês?
Todos - Não!
Rei - Ele é um bom médico?
Todos - sim!
Rei - Vocês têm algo a me dizer? (Lenço amarelo, todos aplaudem.) Obrigado, obrigado.
(Muda o tom para mistério.) Ele usou bruxarias?
Todos - Não!
Rei - Ervas?
Todos - Não!
Rei - Mas curou?
Todos - Sim!
Rei - Vocês querem que ele fique conosco?
Todos - Não!
Rei - Não?!!
Todos - Sim!
Rei - Que fique?
Todos - Não!
Rei - Sim ou Não?
Todos - Não!
Rei - Não entendo! (Vira-se para o Camponês e quase o flagra com os lenços.)
Camponês - Eu explico, majestade. É que a minha mulher está me esperando... (Acena
com o lenço amarelo. Todos aplaudem.)
Rei - Ora, porque não disse antes? Ajoelhe-se, Mestre. (Repete com o bastão e faz o som do
ritmo das pancadas, pom, pom, pom, pom pororonpompom.) Doutor, você terá tudo que
precisa: dinheiro, cavalos, tropas e... também minha amizade, se você quiser. Eu o
condecoro o Médico mais Nobre do Reino. (Coloca-lhe o medalhão.)
Camponês - (Já seguro de si.) Meu Deus, jamais sonhei com tal acontecimento!
Rei - Em boa hora. (Com voz doce, segreda.) Mas, amigo, só lhe peço uma coisa.
Camponês - Por favor, Majestade, o que é desta vez?
Rei - Não me obrigues mais a Ter que convencê-lo com pauladas. Tenho escrúpulos de
bater numa pessoa tão sábia quanto você.
Camponês - Senhor, senhor, obrigado por tudo, e lhe juro que não terá mais necessidade
disso. Sou todo seu, agora, e o serei pelo resto da minha vida: creio que jamais esquecerei o
que se deve fazer.

FINAL

Camponês - (Chegando em casa a cavalo, com um colar para a sua mulher, chama em
tom ameaçador.) Mulher!
Mulher - Aí, não.
Camponês - Mulher! Venha cá.
Mulher - Não vou, não posso.
Camponês - Venha logo.
Mulher - Tô na cozinha.
Camponês - Mulher!!!
Mulher - (Vem correndo e ajoelha-se.) Ai perdão, eu não queria...
Camponês - (Interrompe-a, mostrando-lhe o colar. Ela fica maravilhada; ele o coloca
nela e voltam à pose final.) E assim, senhores, temos vivido na mais santa paz do Senhor.
Eu, de minha parte, não preciso mais ir para o campo e, portanto, estou sempre ao lado da
minha mulher. E com isso não preciso mais surrá-la para que ninguém com ela queira falar.
Mulher - E eu, de minha parte, consegui uma vida melhor e mais tranqüila. E, de certo
modo, mostrei ao meu marido o que são dores de uma boa surra. Porém, jamais poderia
imaginar que ele se tornasse o mais sábio Doutor da região... "Atirei no que vi e acertei no
que não vi".

FIM

Você também pode gostar