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LFG INTENSIVO II

DIREITO CIVIL

fftartuce@uol.com.br 2) infidelidade familiar/conjugal,


i. é, trair o cônjuge. A infidelidade, por
Material de Apoio - Direito Civil - si só, não é ilícito civil, sendo
Flávio Tartuce - 01.pdf necessário um resultado. Sem dano não
Material de Apoio - Direito Civil - haverá ilícito civil. Se traiu o cônjuge e
Flávio Tartuce - Acórdão.pdf este ficou sabendo, a maioria entende
RESPONSABILIDADE que não há dano; se trair com o melhor
CIVIL amigo, também entende-se que não; se
trair por ter outra família, também a
1. Conceitos iniciais. Ato ilícito. Abuso maioria entende-se que não; se trair e
de direito contrair uma doença, há ilícito civil.
Quanto à origem, a Perceba-se que o exemplo se deu em
responsabilidade civil é dividida em escala de gravidade do ato, na tentativa
duas modalidades: de demonstrar a problemática envolvida
a) responsabilidade civil na apuração da existência ou não de
contratual ou negocial – relacionada ao dano.
inadimplemento de uma obrigação, Ainda quanto ao art. 186,
prevista nos artigos 389, 390 e 391; tratando-se de dano moral, esta previsão
b) responsabilidade civil se trata de novidade trazida ao sistema?
extracontratual ou aquiliana – A referência ao dano moral puro,
“aquiliana” decorrente da Lex Aquilia constante do art. 186 do CC, não se
de Damno. Relacionada no CC/2002 ao tratou de novidade no sistema, pois já
ato ilícito (art. 186) e ao abuso de constava na CRFB/88, cf. art. 5º, V e X,
direito (art. 187). que foram responsáveis pelo fim das
“Art. 186. Aquele que, por ação dúvidas da sua existência autônoma, i.
ou omissão voluntária, negligência ou é, independentemente de coexistir outra
imprudência, violar direito e causar dano
a outrem, ainda que exclusivamente
espécie de dano.
moral, comete ato ilícito.” O art. 186 faz menção à ação e
Este art. 186 trata do ato ilícito omissão voluntárias (que significa dolo)
puro. O CC/1916 falava violar direito e à negligência e à imprudência
“ou” causar dano, situação resolvida (modelo culposo de responsabilidade
pelo CC/2002. O ato ilícito civil é a subjetiva).
soma da violação de um direito com o “Art. 187. Também comete ato
ilícito o titular de um direito que, ao
dano. Sem dano não há ilícito civil, nem exercê-lo, excede manifestamente os
dever de indenizar, como está claro no limites impostos pelo seu fim econômico
CC, 927, caput: “Art. 927. Aquele que, ou social, pela boa-fé ou pelos bons
por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar costumes.”
dano a outrem, fica obrigado a repará- Este art. 187 refere-se ao abuso de
lo.” direito, chamado também ilícito impuro
Exemplos: ou equiparado. Trata-se do exercício
1) dirigir bêbado, por si só, não é irregular ou imoderado de um direito,
ilícito civil (pode ser ilícito que tem três parâmetros: função social-
administrativo ou penal). Apenas se econômica, boa-fé e bons costumes. O
atropelar um cachorro ou uma pessoa, abuso de direito vem da máxima “o meu
ou causar um dano patrimonial a outra direito termina onde começa o seu
pessoa, dará causa a responsabilidade direito”, que é a teoria dos direitos
civil (ilícito civil); subjetivos.

1
Conceito de abuso de direito de Quatro elementos:
Rubens Limongi França: “O abuso de - conduta humana;
direito é lícito quanto ao conteúdo e - culpa lato sensu ou em sentido
ilícito quanto às consequências.” amplo;
Segundo Tartuce, a ilicitude está na - nexo de causalidade;
forma de execução do ato como na - dano ou prejuízo.
greve (que é direito) abusiva (forma);
cláusula (direito) abusiva (forma) e 2.1. Conduta humana
assim por diante. A conduta humana pode ser por
Exemplos de abuso de direito: ação (culpa in comittendo) ou por
1) publicidade abusiva – art. 37, § omissão (culpa in omittendo).
2º do CDC (publicidade que viola os Na omissão para que o agente
valores sociais); responda é necessário provar:
2) abuso no processo (artigos 79 a 1) que o ato deveria ser praticado
81 do CPC) – tratam da lide temerária e (omissão genéria);
do assédio processual; 2) omissão em si (omissão
3) abuso no exercício da específica).
propriedade ou ato emulativo Magistratura SP. 2ª Fase. 2011.
(aemulatio), cf. art. 1228, § 1º do CC. Adaptação. Condomínio edilício, em
Excesso de ruídos em apartamento regra, responde por roubo de veículo
perturbando os vizinhos, por exemplo. praticado no seu interior? Resposta:
O abuso de direito exige dano? não, pois não há um dever do
Perceba-se que o art. 187 não trata desse condomínio ou de seus prepostos em
elemento. Contudo, como visto acima, o evitar o fato. Segundo o STJ, o
art. 927 engloba ele junto com o ato condomínio só responde se houver
ilícito. Assim, temos que para os fins de previsão expressa na convenção ou
responsabilidade civil, sim, exige dano, comprometimento implícito, com
cf. art. 927. Para outros fins, não, a segurança especializada. AgRg no Ag.
exemplo de uma tutela inibitória 1102361/RJ, j. 2010.
(exemplo: sabendo-se que haverá um Em regra, a pessoa responde por
abuso no direito de informar – ato próprio. Como exceções, pode
imprensa, requerer-se uma tutela responder também por:
inibitória). - ato de terceiro (art. 932);
O abuso de direito exige culpa? - animal (art. 936);
Mais uma vez, o art. 187 é silente. - fato da coisa (art. 937 e 938);
Conforme a quase totalidade da - produto ou serviço (CDC).
doutrina, não exige, pois o art. 187
adotou o modelo de responsabilidade 2.2. Culpa lato sensu ou culpa em
objetiva, cf. JDC, 37: “A sentido amplo
responsabilidade civil decorrente do Engloba dois conceitos:
abuso de direito independe de culpa, e a) dolo – na responsabilidade
fundamenta-se somente no critério civil, dolo é a intenção de causar
objetivo-finalístico”. Nesse sentido, prejuízo (art. 186: “...por ação ou
temos Tepedino, MHD, Sérgio omissão voluntária...”).
Cavalieri, Venosa, Pablo Stolze e Para o Direito Civil, havendo dolo
Rodolfo Pamplona, CRG, Cristiano ou culpa grave, os efeitos são os
Chaves e Nelson Rosenvald. mesmos, aplicando-se a reparação
integral dos danos (art. 944, caput),
2. Elementos da responsabilidade civil aplicando-se a máxima culpa lata dolus
ou pressupostos do dever de indenizar aequiparatur. São irrelevantes conceitos

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intermediários como preterdolo e dolo com culpa; sem culpa;
eventual, categorias trabalhadas em Se o réu provar que Se o réu provar que não
não teve culpa, não teve culpa, responde
Direito Penal.
responde. ainda assim. Para não
b) culpa strictu sensu ou em responder, deve provar
sentido estrito – trata-se da violação de alguma das excludentes
um dever preexistente, relacionada a de nexo de causalidade.
três padrões de conduta: O CC/1916 tratava da culpa
- imprudência, i. é, falta de presumida em três modalidades:
cuidado com ação; - culpa in vigilando – culpa
- negligência, i. é, falta de presumida na vigilância (ex.: pai pelo
cuidado, com omissão; filho);
- imperícia, cf. art. 951, i. é, falta - culpa in eligendo – culpa
de qualificação em sentido geral para presumida na escolha (ex.: empregador
exercício de uma atribuição. sobre o empregado);
“Art. 951. O disposto nos arts. - culpa in custudiendo – culpa
948, 949 e 950 aplica-se ainda no caso de presumida na custódia de animal.
indenização devida por aquele que, no
exercício de atividade profissional, por
Essas três modalidades foram
negligência, imprudência ou imperícia, banidas pelo CC/2002, sendo tratadas
causar a morte do paciente, agravar-lhe o como responsabilidade objetiva, cf.
mal, causar-lhe lesão, ou inabilitá-lo para artigos 932, 933 e 936.
o trabalho.” “Art. 932. São também
A responsabilidade civil dos responsáveis pela reparação civil:
profissionais na área médica é, em I - os pais, pelos filhos menores
regra, subjetiva (dolo ou culpa). Há uma que estiverem sob sua autoridade e em
sua companhia;
exceção, da tese do jurista francês II - o tutor e o curador, pelos
Demogue que, abandonada na própria pupilos e curatelados, que se acharem
França, ainda é aplicada no Brasil: se o nas mesmas condições;
profissional da área da saúde assumir III - o empregador ou comitente,
obrigação de resultado, terá culpa por seus empregados, serviçais e
prepostos, no exercício do trabalho que
presumida ou responsabilidade objetiva lhes competir, ou em razão dele;
(STJ se refere desta última forma). O IV - os donos de hotéis,
exemplo é o do cirurgião hospedarias, casas ou estabelecimentos
plástico/estético e do ultrassonografista. onde se albergue por dinheiro, mesmo
Cf. sobre a responsabilidade do para fins de educação, pelos seus
hóspedes, moradores e educandos;
ultrassonografista, STJ, AgRg no Ag V - os que gratuitamente
744181/RN, j. 11/11/2008, que tratou houverem participado nos produtos do
como responsabilidade objetiva; já no crime, até a concorrente quantia.
REsp 1180815, foi tratado como Art. 933. As pessoas indicadas
responsabilidade presumida. Os nos incisos I a V do artigo antecedente,
ainda que não haja culpa de sua parte,
julgados mais recentes têm adotado a responderão pelos atos praticados pelos
tese da responsabilidade presumida, i. é, terceiros ali referidos.
presumida. (...)
Mas qual a diferença entre culpa Art. 936. O dono, ou detentor, do
presumida e a responsabilidade animal ressarcirá o dano por este
causado, se não provar culpa da vítima
objetiva? Em comum, nos dois casos, ou força maior.”
inverte-se o ônus da prova, ou seja, o Enunciados das JDC:
autor da ação não precisa provar a culpa “451) Arts. 932 e 933. A
do réu. responsabilidade civil por ato de terceiro
CULPA RESPONSABILIDADE funda-se na responsabilidade objetiva ou
PRESUMIDA OBJETIVA independente de culpa, estando superado
A responsabilidade é A responsabilidade é o modelo de culpa presumida.

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452) A responsabilidade civil do Para ilustrar essa situação, é
dono ou detentor de amial é objetiva, interessante a diferenciação entre o
admitindo-se a excludente do fato
exclusivo de terceiro.”
“surfista” e o “pingente” de trem. No
Há um problema técnico muito caso do pingente, ocorre a culpa
sério na seguinte súmula do STF: concorrente (REsp 226348/SP),
“341. É presumida a culpa do enquanto o surfista tem culpa exclusiva
patrão ou comitente pelo ato culposo do (REsp 160051/RJ).
empregado ou preposto.” Para risco concorrente, cf. REsp
Trata-se de entendimento 1349894/SP, houve redução da
superado, mas que vai causar problemas responsabilidade do banco pois houve
graves, pois pode gerar a inépcia da culpa de prepostos da empresa
petição ou nulidade da sentença que correntista.
contra ela se direcionam. Para a
doutrina majoritária a sumula não mais 2.3. Nexo de causalidade
se aplica, devendo ser cancelada, pois Elemento imaterial da
pela previsão dos artigos 932 e 933 se responsabilidade civil, uma relação de
trata de súmula com teor ilegal. causa e efeito entre a conduta e o dano
Classificação da culpa quanto ao (Aguiar Dias). Cf. desenho do “cano
grau: virtual” no material de apoio.
- culpa lata, ou grave – quase um Na responsabilidade subjetiva, o
dolo. Aplica-se a reparação integral, cf. nexo é formado pela culpa latu sensu;
art. 944 do CC; na responsabilidade objetiva, o nexo é
- culpa leeve, ou intermediária ou formado pela lei ou pela atividade de
média. Gera redução equitativa da risco (cf. art. 927, p. ú do CC).
indenização, cf. art. 944, p. ú; Fatores obstativos do nexo. São as
- culpa levíssima, em menor grau excludentes do nexo, que servem tanto
possível. Redução ainda maior do para a responsabilidade objetiva quanto
quantum debeatur, cf. tb. art. 944, p. ú. para a subjetiva:
“CAPÍTULO II a) culpa ou fato exclusivo da
Da Indenização
Art. 944. A indenização mede-se
vítima – já falamos do surfista, mas
pela extensão do dano. pode ser também o fumante (cf. STJ,
Parágrafo único. Se houver 432);
excessiva desproporção entre a gravidade b) culpa ou fato exclusivo de
da culpa e o dano, poderá o juiz reduzir, terceiro – acidente causado pelo
equitativamente, a indenização.
Art. 945. Se a vítima tiver
criminoso que levou o veículo à mão
concorrido culposamente para o evento armada. O dono do veículo não
danoso, a sua indenização será fixada responde;
tendo-se em conta a gravidade de sua c) caso fortuito e força maior –
culpa em confronto com a do autor do art. 393 do CC. Segundo WBM
dano.”
existiam seis teorias para explicar cada
Ou seja, a redução da indenização um deles. Segundo pontes de Miranda,
também cabe se houver contribuição são sinônimos, os eventos não previstos
causal da vítima (culpa, fato ou risco pelas partes; para Orlando Gomes, caso
concorrente). Esse artigo 945 também fortuito é o evento totalmente
deve ser aplicado para a imprevisível e força maior é o evento
responsabilidade objetiva, cf. JDC, 459: previsível, mas inevitável (seguida por
“A conduta da vítima pode ser fator Tartuce, Cavalieri Filho, Stolze e
atenuante do nexo de causalidade na Pamplona), e esta parece ser a corrente
responsabilidade civil objetiva.” Esse mais forte.
entendimento deriva do art. 1227 do CC
Italiano.

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Na atualidade a jurisprudência do praticada no caixa eletrônico ou
STJ tem aplicado a tese desenvolvida mediante cheque etc.).
originalmente em 1942 por Agostinho TEORIAS QUANTO AO NEXO
Alvim, dividindo os eventos em DE CAUSALIDADE. São elas:
internos e externos, de acordo com o a) teoria do histórico dos
risco do negócio ou do antecedentes (sine qua non). Todos os
empreendimento. Assim, somente são fatos correlatos ao evento, diretos ou
caso fortuito ou força maior os indiretos, geram a responsabilidade
eventos externos, que estão fora do civil. É o mesmo raciocino da teoria do
risco da atividade ou do equivalente dos antecedentes no Direito
empreendimento. Vejamos como o STJ Penal (“até Adão e Eva respondem”).
interpreta o assalto e outros eventos Essa teoria não foi adotada pelo Direito
similares: Privado Brasileiro, pois acaba
Material de Apoio - Direito Civil - ampliando muito o nexo de causalidade;
Flávio Tartuce - 02.1.pdf b) teoria do dano direto e
Material de Apoio - Direito Civil - imediato. É retirada do art. 403 do CC.
Flávio Tartuce - 02.2.pdf Somente são reparáveis os danos que
Material de Apoio - Direito Civil - diretamente resultarem da conduta do
Flávio Tartuce - 02.3.pdf agente, admitindo-se as excludentes de
*Dizer se estamos diante de um evento nexo. Gustavo Tepedino entende que
externo, no Direito Brasileiro, é essa foi a teoria adotada. No STJ,
atividade do Poder Judiciário. Em fazendo menção a essa teoria, o REsp
alguns países, a lei assume essa função. 719738/RS. Ela já estava no CC/1916,
1) assalto a ônibus – transporte 960.
rodoviário ou municipal. Segundo STJ, c) Teoria da causalidade
trata-se de evento externo, ou seja, caso adequada – foi adotada pelos artigos
fortuito e força maior. A empresa de 944 e 945, desenvolvida na Alemanha
ônibus não responde (cf. REsp por von Kries. A responsabilidade civil,
783743/RJ); e a correspondente indenização, devem
2) assalto a banco – evento ser adequadas às condutas dos
interno. O banco responde até o seu envolvidos: agente e vítima. Cf.
estacionamento, conveniado ou não (cf. enunciado JDC, 47 (“O art. 945 do
REsp 1.284.962/MG); novo Código Civil, que não encontra
3) assalto a shopping – evento correspondente no Código Civil de
interno. O shopping, pelo assalto, 1916, não exclui a aplicação da teoria
também responde até o seu da causalidade adequada.”), essa foi a
estacionamento (cf. REsp 1269691/PB); teoria adotada, e no REsp 669258/RS.
4) ataque de psicopata a shopping *Na geração mais nova de civilistas,
(caso Mateus da Costa Meira) – evento essa última teoria é a que prevalece. Na
externo. O shopping não responde (cf. jurisprudência, a duas são muito
REsp 1133731/SP). confundidas.
5) STJ, 579: “As instituições Como diferenciar a teoria do dano
financeiras respondem objetivamente direto e imediato da teoria da
pelos danos gerados por fortuito interno causalidade adequada? A primeira é
relativo a fraudes e delitos praticados mais rígida, trabalhando com o “tudo ou
por terceiros no âmbito de operações nada” (interrupção do nexo causal),
bancárias.” O banco responde por enquanto a segunda é mais flexível
fraudes praticadas por terceiros no (“paga-se proporcionalmente às
âmbito de suas operações (ou seja, pela condutas”). Um exemplo seria o caso do
internet, clonagem do cartão, fraude fumante: pela primeira teoria, a empresa

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não responde (culpa da vítima), da vida da vítima [tabela do IBGE,
enquanto pela segunda a empresa atualmente 74 anos].”
responde proporcionalmente. *Cabe prisão civil do devedor dos
alimentos ressarcitórios? Tartuce e
2.4. Dano ou prejuízo maioria do STJ entende que não. Cf.
É o elemento objetivo da Jornal Carta Forense (Junho/2016). Cf.
responsabilidade civil, devendo ser a forma de cálculo no CPC, 533:
“Art. 533. Quando a
provado, em regra (em alguns casos, o indenização por ato ilícito incluir
dano será presumido). prestação de alimentos, caberá ao
O dano, hoje, tem papel principal executado, a requerimento do
na responsabilidade civil, com afirma na exequente, constituir capital cuja renda
doutrina Anderson Schreiber (houve assegure o pagamento do valor mensal
da pensão.
inversão de papéis com a culpa, que § 1º O capital a que se refere o
antes era o elemento principal). caput, representado por imóveis ou por
O dano, na responsabilidade civil, direitos reais sobre imóveis suscetíveis
é dividido em dois grandes grupos: de alienação, títulos da dívida pública
i) danos clássicos – danos ou aplicações financeiras em banco
oficial, será inalienável e impenhorável
materiais e morais (cf. STJ, 37); enquanto durar a obrigação do
ii) novos danos – estéticos; morais executado, além de constituir-se em
coletivos; sociais ou difusos; e perda da patrimônio de afetação.
chance. § 2º O juiz poderá substituir a
a) danos materiais ou patrimoniais constituição do capital pela inclusão do
exequente em folha de pagamento de
– atingem o patrimônio corpóreo de
pessoa jurídica de notória capacidade
alguém, sendo assim classificados (CC, econômica ou, a requerimento do
art. 402): executado, por fiança bancária ou
a.1) danos emergentes ou danos garantia real, em valor a ser arbitrado
positivos – o que a pessoa efetivamente de imediato pelo juiz.
§ 3º Se sobrevier modificação
perdeu. Exemplo: acidente de trânsito, o
nas condições econômicas, poderá a
estrago no automóvel; parte requerer, conforme as
a.2) lucros cessantes ou danos circunstâncias, redução ou aumento da
negativos – o que a pessoa prestação.
razoavelmente deixou de lucrar. § 4º A prestação alimentícia
Exemplo: acidente de trânsito, bater no poderá ser fixada tomando por base o
salário-mínimo.
carro de um taxista ou motorista do § 5º Finda a obrigação de
UBER (frustração de lucro). prestar alimentos, o juiz mandará
Cf. art. 948 do CC, que prevê liberar o capital, cessar o desconto em
indenizações materiais em casos de folha ou cancelar as garantias
homicídio: prestadas.”
“Art. 948. No caso de homicídio, Segundo o STJ, o cálculo é feito
a indenização consiste, sem excluir da seguinte forma: somatório de 2/3 de
outras reparações: seu salário ou renda média; décimo
I – [danos emergentes] no terceiro; férias (CTPS); e FGTS até o
pagamento das despesas com o
tratamento da vítima [médicas e
limite de vida provável.
hospitalares], seu funeral [enterro, Além disso:
cremação] e o luto da família [missa de - STF, 229: “A indenização
sétimo dia]; acidentária não exclui a do direito
II – [lucros cessantes][alimentos comum, em caso de dolo ou culpa grave
indenizatórios, ressarcitórios ou de ato
do empregador.” Esse final sublinhado é
ilícito] na prestação de alimentos às
pessoas a quem o morto os devia, tido como irrelevante pelo STJ (cf.
levando-se em conta a duração provável REsp 406815/MG), porque se for culpa
leve ou levíssima também está obrigado
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a pagar. Há um projeto de Lei para I) quanto à pessoa atingida:
exonerar o INSS de pagar nesse caso, i) dano moral direto – atinge a
evitando a cumulação das rendas; própria pessoa, a sua honra subjetiva, ou
- STF, 491: “É indenizável o objetiva. Exemplo: crimes contra a
acidente que cause a morte de filho honra
menor, ainda que não exerça trabalho “Art. 953. A indenização por
remunerado.” Os pais pedem injúria, difamação ou calúnia consistirá
na reparação do dano que delas resulte ao
indenização por morte do filho. Quem ofendido.
tem julgado esses casos é o STJ, e Parágrafo único. Se o ofendido
aplica-se para famílias de baixa renda, não puder provar prejuízo material,
havendo uma presunção de lucro caberá ao juiz fixar, eqüitativamente, o
cessantes (apesar de ser mais parecido valor da indenização, na conformidade
das circunstâncias do caso.”
com perda da chance), pois o filho
ii) dano moral indireto ou em
ajudaria nas economias domésticas.
ricochete – atinge a pessoa de forma
Segundo o STJ, o cálculo será feito:
reflexa (chamado em ricochete
- 2/3 de salário mínimo por mês;
derivando da expressão francesa, como
- entre a idade de 14 e 25 anos do
a bala que atinge um local e repercute
menor (14 anos começa a trabalhar
em outro). Exemplos: morte de pessoa
como aprendiz, e com 25 anos
da família (art. 948 “...sem excluir
constituiria a própria família);
outras indenizações...”); perda de objeto
- 1/3 de um salário mínimo por
de estima (art. 952); lesão a direitos da
mês, entre a idade de 26 anos e a vida
personalidade do morto (art. 12, p. ú).
provável dos pais (depois de constituiria
II) quanto à necessidade de prova:
as famílias, continuaria ajudando os
i) dano moral subjetivo –
pais).
necessita ser provado. Exemplo: dano
Em caso de acidente de trânsito, é
moral da pessoa jurídica;
necessário abater o DPVAT? Cf. STJ,
ii) dano moral objetivo ou in re
246: “O valor de seguro obrigatório
ipsa – presumido em algumas situações.
deve ser deduzido da indenização
Exemplos: morte de pessoa da família;
judicialmente fixada.”
uso indevido de imagem com fins
econômicos (STJ, 403); STJ,
b) danos morais – são lesões aos
Jurisprudência em Teses, n. 59, t. 1: “A
direitos da personalidade.
inscrição indevida em cadastro de
Pode se dar contra a pessoa
inadimplentes configura dano moral in
jurídica, mas apenas sobre a sua honra
re ipsa”.
objetiva (reputação), não a sua honra
*a ferramenta Jurisprudência em Teses
subjetiva (auto estima). STJ, 227: “A
do STJ deve ser de conhecimento de
pessoa jurídica pode sofrer dano moral.”
candidatos a concursos públicos.
Não é necessário o dano à honra
Obs. 1: o dano moral não se
subjetiva, sempre, para se caracterizar o
confunde com os meros
dano moral. Vejamos: JDC, 445: “O
“aborrecimentos” que a pessoa sofre no
dano moral indenizável não pressupõe
seu dia-a-dia (JDC, 159: “O dano
necessariamente a verificação de
moral, assim compreendido todo dano
sentimentos humanos desagradáveis
extrapatrimonial, não se caracteriza
como dor ou sofrimento.”, bem como a
quando há mero aborrecimento
STJ, 370: “Caracteriza [pode
inerente a prejuízo material”). Ex.: a
caracterizar] dano moral a
perda de uma frasqueira contendo
apresentação antecipada de cheque
objetos de maquiagem não gera dano
pré-datado.”
moral (STF, RE AgR 387014/SP);
Classificações do dano moral:
encontrar um corpo estranho em um

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produto e não ingeri-lo (cf. STJ, 1ª fase) o julgador deve analisar
Jurisprudência em Teses n. 39, t. 2 e t. grupos de julgados do STJ sobre o tema
3, que demonstram a exitação da (casos correlatos);
jurisprudência (se for ingerido, sem 2ª fase) o julgador deve aplicar os
dúvida, há dano moral). critérios acima, aumentando ou
Parte da doutrina entende a perda diminuindo o valor encontrado na
do tempo útil como componente do primeira fase.
dano moral, ou até como dano
autônomo (Pablo Stolze e Marcos c) danos estéticos – em 2009 o
Dessaune). O STJ aplica parcialmente a STJ definitivamente separou os danos
tese e admite dano moral em caso de estéticos dos danos morais (STJ, 387).
espera prolongada em fila de banco Os argumentos foram: há uma lesão a
(REsp 1218497/MT) e reiteração de mais à pessoa humana; há uma lesão à
problemas em veículos adquiridos em imagem (a CRFB, 5º, V e X, fala em
concessionárias (REsp 1443268/DF). dano moral e dano à imagem
Assim, não seriam casos de mero separadamente).
aborrecimento. Para Teresa Ancona Lopez, o
Obs. 2: tarifação vs. quantificação. dano estético é aquele que causa uma
Tarifação significa tabelamento, que alteração morfológica na pessoa, interna
doutrina e jurisprudência não admitem. ou externa, permanente ou não.
Segundo Maria Celina Bodin, “o dano Exemplos: cortes, cicatrizes,
moral deve ser na medida da pessoa”, e queimaduras, deformações, perda de
o STJ, desde a edição da STJ, 281 (“A órgão ou de função.
indenização por dano moral não está Entende-se que o dano é
sujeita à tarifação prevista na Lei de presumido (in re ipsa).
Imprensa.”). já não admitia tabelas, mas Como não há critérios para sua
parâmetros. quantificação, o que se aplica é a
A quantificação significa a busca repetição do dano moral. Jurisprudência
do quanto debeatur (valor) e, nesse geralmente adota os mesmos critérios
ponto, o STJ tem alguns critérios do dano moral, o que não é muito
(“molduras”). Critérios do STJ para apropriado.
quantificação dos danos morais:
i) extensão do dano (art. 944, d) danos morais coletivos – CDC,
caput). Ex.: número de vítimas; 6º, VI prevê expressamente essa
ii) grau de culpa do agente e modalidade.
contribuição causal da vítima (cf. CC, São os danos que atingem vários
944, p. ú. e 945); direitos da personalidade ao mesmo
iii) condições gerais dos tempo.
envolvidos (econômicas, políticas, Envolvem direitos individuais
sociais, psicológicas etc.); homogêneos ou coletivos em sentido
iv) natureza psicológica, estrito, em que as vítimas são
educativa ou até punitiva da indenização determinadas ou determináveis. Por
(punitive damages); isso, a indenização é destinada para elas
v) vedação do enriquecimento (vítimas). O principal julgado que
sem causa da vítima. admite esta espécie é o REsp 866636/SP
STJ, inf. 470, REsp 959780/ES. (caso das pílulas de farinha).
Ministro Sanseverino. Método bifásico
de quantificação dos danos morais: e) danos sociais ou difusos -
também com previsão no art. 6º, VI do
CDC.

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São os danos que causam um aquela que tem mais de 50% de chance
rebaixamento no nível de vida da de efetivação (doutrina italiana),
coletividade, e que decorrem de enquanto para Peteffi e Carnaúba
condutas socialmente reprováveis rejeitam essa tese de forma matemática
(conceito de Antônio Junqueira de (doutrina francesa).
Azevedo). A jurisprudência do STJ tem
Envolvem interesses difusos, em utilizado o entendimento adotado no
que as vítimas são indetermináveis. Por JDC, 444: “A responsabilidade civil
isso, a indenização é destinada ao fundo pela perda de chance não se limita à
de proteção ou a uma instituição de categoria de danos extrapatrimonais,
caridade a critério do Juiz. pois, conforme as circunstâncias do
Ex.: TJ/SP condenou a AMIL a caso concreto, a chance perdida pode
pagar R$1 milhão de danos sociais ao apresentar também a natureza jurídica
HCUSP por reiteradas negações de de dano. A chance deve ser séria e real,
cobertura (Apelação Cível 0027158- não ficando adstrita a percentuais
41.2010.8.26.0564, com a peculiaridade apriorísticos”.
de se tratar de uma ação individual e O teor inicial do enunciado deixa
condenação por danos sociais de ofício). claro que a perda da chance é uma
Cuidado, pois o STJ já entendeu espécie autônoma. Além disso, o
que não cabe fixação de dano social de período final deixa claro que não se
ofício em sede de Juizados Especiais adotou a teoria italiana, mas a francesa
(RCL 132000/GO). (não matemática).
Em ação coletiva, o STJ entende Exemplos:
que cabe a cumulação de danos morais 1) a jurisprudência tem
coletivos e sociais (REsp 1293606). responsabilizado advogados que perdem
prazos de seus clientes pela perda da
chance de vitória judicial. Cf. STJ,
AgRg no Ag 932446/RS e REsp
1190180/RS. Perceba-se que do último
Material de Apoio - Direito Civil - julgado deve haver referência, na
Flávio Tartuce - 03.pdf decisão, à probabilidade de ganho da
Material de Apoio - Direito Civil - causa;
Flávio Tartuce - Acordão Resp. 2) a jurisprudência tem
1.100.571.pdf responsabilizado médicos por perda de
Material de Apoio - Direito Civil - chance de cura do paciente (estratégia
Flávio Tartuce - Acordão Resp. médica mal utilizada). Cf. STJ, REsp
788.459.pdf 1254141/PR;
3) Caso do “Show do Milhão”,
f) danos por perda de uma chance SBT, REsp 788459/BA. Como não
Teoria francesa que reconhece a havia resposta correta à questão
reparação dos danos que decorrem da proposta, houve a perda da chance de
frustração de uma expectativa ou da ganhar o restante do valor, o que foi
perda de uma oportunidade que reconhecido pela Justiça.
possivelmente ocorreria em
circunstâncias normais. 3. Classificação da responsabilidade
Rafael Peteffi, Sergio Savi e civil quanto à culpa
Daniel Carnaúba, que estudam essa
teoria do Direito Francês, entendem que 3.1. Responsabilidade civil subjetiva
para ser reparável, a chance deve ser É a regra geral o CC/2002,
séria e real. Segundo Savi, chance real é fundada na teoria da culpa, gerando

9
responsabilidade civil lato sensu. Ou subjetiva do art. 7º, XXVIII da CRFB
seja, processualmente falando, o autor (tanto TST quanto STJ). Cf. tb JDC 377
da ação tem o ônus de provar a culpa do (“O art. 7º, inc. XXVIII, Da
réu. Constituição Federal não é
impedimento para a aplicação do
3.2. Responsabilidade civil objetiva disposto no art. 927, parágrafo único,
É exceção no CC/2002, cf. art. do Código Civil quando se tratar de
927, p. ú. Fundada na teoria do risco e atividade de risco.”): motoboy,
gera responsabilidade civil sem culpa. motorista, segurança, trabalhador na
Processualmente, o autor da ação construção civil, caldereiro, vaqueiro;
não tem o ônus de provar a culpa do 2) JDC, 447 – os clubes de futebol
réu, o que se trata de uma posição respondem pelas torcidas organizadas –
facilitada. O réu, para não responder, “As agremiações esportivas são
deve provar uma excludente de nexo objetivamente responsáveis por danos
(culpa ou fato exclusivo da vítima; causados a terceiros pela torcidas
culpa ou fato exclusivo de terceiro; ou organizadas, agindo nessa qualidade,
caso fortuito e força maior). quando, de qualquer modo, as
A responsabilidade objetiva pode financiem ou custeiem, direta ou
ter duas origens (CC, 927, p. ú.): indiretamente, total ou parcialmente.”
i) lei – são exemplos o CDC, cuja Observação. Para parte da
exceção está nos profissionais liberais; doutrina, um dos casos de aplicação do
danos ambientais, cf. art. 14 da Lei n. art. 927, p. ú., 2ª parte, diz respeito a
6938/81; Lei n. 12.846/2013, Lei ambientes virtuais e sites de
Anticorrupção, art. 2º; ou relacionamento, respondendo
ii) de atividade de risco – o que a objetivamente o provedor de conteúdo
doutrina chama de cláusula geral de (inclusive por conta do risco proveito).
responsabilidade objetiva. Por todos, Guilherme Martins. Tartuce
“Atividade” significa soma de atos também entende assim. Vários
coordenados com finalidade específica Tribunais estaduais assim entenderam,
(com reiteração). O ato isolado não é porem para o STJ não se aplica o art.
atividade. 927, p. ú. em caso de sites (cf. REsp
“Risco” significa algo que está 1186616/MG). No mesmo sentido, e
acima da normalidade e abaixo do inclusive aprofundando esse
perigo. Ou seja, temos três situações: a entendimento, o marco civil da internet,
situação normal, a de risco, bem como a previu que o provedor (provedor de
de perigo. conteúdo) somente responde se não
Cf. JDC, 448, para verificação do retirar o conteúdo ofensivo após
risco, o juiz pode utilizar prova técnica, notificação judicial específica, indicado
estatística e máximas de experiência. o local onde a ofensa se localiza (o que
Esse enunciado é de Cláudio Godoy, se mostra virtualmente impossível para
com base na experiência italiana, sobre todos os casos). Cf. art. 18 e 19 da Lei
o art. 2050 do CC Italiano. Enquanto o n. 12965/2011. Assim, teremos uma
CCB trata de risco, o CCI trata de responsabilidade subjetiva agravada, i.
perigo (escala maior de risco); e o CCB é, só há responsabilidade se
adota a responsabilidade objetiva, desobedecer ordem judicial específica.
enquanto o CCI culpa presumida. Principais casos específicos de
Exemplos: responsabilidade objetiva no CC/2002:
1) acidente de trabalho – quando o a) abuso de direito (art. 187) – já
empregado está submetido a risco, tem- estudado (cf. aulas anteriores);
se mitigado a regra da responsabilidade

10
b) responsabilidade civil objetiva companhia. O pai ou a mãe que não
indireta ou por ato de outrem – artigos tenha a guarda do filho responde pelo
932 e 933: ilícito por este praticado fora de sua
“Art. 932. São também companhia? Segundo o JDC, 450:
responsáveis pela reparação civil: “Considerando que a responsabilidade
I - os pais, pelos filhos menores
que estiverem sob sua autoridade e em
dos pais pelos atos danosos praticados
sua companhia; pelos filhos menores é objetiva, e não
II - o tutor e o curador, pelos por culpa presumida, ambos os
pupilos e curatelados, que se acharem genitores no exercício do poder
nas mesmas condições; familiar, são, em regra, solidariamente
III - o empregador ou comitente,
por seus empregados, serviçais [esta
responsáveis por tais atos, ainda que
última expressão em desuso] e prepostos, estejam separados, ressalvado o direito
no exercício do trabalho que lhes de regresso em caso de culpa exclusiva
competir, ou em razão dele [relação de de um dos genitores.” Houve polêmica
pressuposição]; na aprovação desse enunciado. Cf.
IV - os donos de hotéis,
hospedarias, casas ou estabelecimentos
entendimento recente do STJ, no REsp
onde se albergue por dinheiro, mesmo 1232011/SC, inf. 575, não existe esta
para fins de educação, pelos seus responsabilidade.
hóspedes, moradores e educandos; O art. 932, III trata da relação de
V - os que gratuitamente pressuposição. É baseada na confiança,
houverem participado nos produtos do
geralmente de relação contratual, mas
crime, até a concorrente quantia.
Art. 933. As pessoas indicadas pode ser não contratual. Não há
nos incisos I a V do artigo antecedente, necessidade uma relação de emprego.
ainda que não haja culpa de sua parte, Exemplos:
responderão pelos atos praticados pelos 1) STF, 492: prevê que a empresa
terceiros ali referidos.”
locadora de veículos responde pelos
A responsabilidade é objetiva, e danos causados pelos locatários a
não mais por culpa presumida, cf. art. terceiros;
933. 2) JDC, 191: os hospitais privados
Como aponta Álvaro Villaça respondem pelos danos causados pelos
Azevedo, trata-se de responsabilidade médicos integrantes do seu corpo
objetiva impura, pois para que os clínico. No mesmo sentido a
primeiros (pais, empregadores, etc.) jurisprudência: REsp 1145728/MG. Se
respondam é preciso provar a culpa dos o médico apenas alugou o espaço, o
segundos (filhos, empregados etc.). Isso hospital não deve responder;
é reforçado pelo art. 934, pois há direito 3) AgRg no Ag 823567: o
de regresso do responsável contra o comodante de veículo responde pelos
culpado: danos causados a terceiros pelo
“Art. 934. Aquele que ressarcir o
dano causado por outrem pode reaver o comodatário.
que houver pago daquele por quem Segundo o art. 942, p. ú., os casos
pagou, salvo se o causador do dano for do art. 932 são de responsabilidade
descendente seu, absoluta ou solidária e, portanto, haverá a opção de
relativamente incapaz.” demanda, ou seja, a vítima escolhe
Há uma exceção, cf. o dispositivo contra quem promover a ação. Mas há
acima, já que o ascendente não tem o uma exceção: o art. 928 do CC prevê a
direito de regresso contra o descendente responsabilidade subsidiária do incapaz.
incapaz (o legislador considerou que “Art. 928. O incapaz responde
seria imoral o pai entrar com ação de pelos prejuízos que causar, se as pessoas
regresso contra o filho). por ele responsáveis não tiverem
O art. 932, I exige, para obrigação de fazê-lo ou não dispuserem
de meios suficientes.
responsabilidade dos pais, autoridade e
11
Parágrafo único. A indenização fortuito (JDC, 452: “A responsabilidade
prevista neste artigo, que deverá ser civil do dono ou detentor de animal é
eqüitativa, não terá lugar se privar do
necessário o incapaz ou as pessoas que
objetiva, admitindo-se a excludente do
dele dependem.” fato exclusivo de terceiro.”).
O incapaz somente responde se os Não há mais a culpa presumida,
responsáveis por ele não tiver obrigação chamada culpa in custodiendo.
de fazê-lo (sem autoridade ou A responsabilidade pelo animal é
companhia) ou não tiverem condições objetiva pelas seguintes razões:
econômicas. Exemplo: um filho de 1) o CC/2002 não repete a
família pobre com 16 anos que fugiu de excludente do máximo cuidado na
casa e está envolvido com o tráfico de guarda, que constava do art. 1527 do
drogas. CC/1916;
A indenização de qualquer forma 2) ter animais pode se enquadrar
deverá ser equitativa, para não privar o como atividade de risco (canil, apiário
incapaz e seus dependentes do etc.);
patrimônio mínimo. 3) aplicação do CDC em diálogo
Assim, a responsabilidade do das fontes. Exemplos: acidentes
incapaz é subsidiária, excepcional e causados por animais em circos (REsp
equitativa. Deve ser preservado o 1100571/PE) e rodovias em concessão
mínimo vital. (AgRg no Ag 1067391/SP).
JDC, 40: “O incapaz responde
pelos prejuízos que causar de maneira d) responsabilidade civil objetiva
subsidiária ou excepcionalmente como do dono do prédio ou construção por
devedor principal, na hipótese do sua ruína (CC, 937) – a
ressarcimento devido pelos responsabilidade objetiva decorre do
adolescentes que praticarem atos risco criado e pela aplicação do CDC
infracionais nos termos do art. 116 do (TJRJ, caso “Palace II”):
Estatuto da Criança e do Adolescente, “Art. 937. O dono de edifício ou
construção responde pelos danos que
no âmbito das medidas socioeducativas resultarem de sua ruína, se esta provier
ali previstas.” de falta de reparos, cuja necessidade
JDC, 41: “A única hipótese em fosse manifesta.”
que poderá haver responsabilidade Segundo a doutrina majoritária, a
solidária do menor de 18 anos com seus necessidade de reparos manifesta é
pais é ter sido emancipado nos termos irrelevante, o que confirma a
do art. 5º, parágrafo único, inc. I, do responsabilidade objetiva.
novo Código Civil.” JDC, 556: “A responsabilidade
Este último enunciado sofre civil do dono do prédio ou construção
críticas de parte da doutrina, pois a por sua ruína, tratada pelo art. 937 do
emancipação não seria suficiente para CC, é objetiva.”
afastar a responsabilidade
extraordinária. e) responsabilidade objetiva do
habitante do prédio pelas coisas que
c) responsabilidade civil objetiva dele caírem ou forem lançadas em local
do dono ou detentor do animal pelos indevido (art. 938):
danos por este causado (CC, 936) “Art. 938. Aquele que habitar
Neste caso, a lei prevê apenas prédio, ou parte dele, responde pelo dano
proveniente das coisas que dele caírem
como excludente a culpa exclusiva da ou forem lançadas em lugar indevido.”
vítima e a força maior. Também é chamada de
A doutrina acrescenta também a responsabilidade civil por
culpa exclusiva de terceiro e o caso

12
defenestramento, ou do latim effusis et No transporte de pessoas, não se
dejects. admite a excludente da culpa exclusiva
Trata-se de um risco criado, daí a de terceiro (responsabilidade objetiva
responsabilidade objetiva. Se cair de um agravada). Exemplo: acidente da GOL.
condomínio edilício, não sendo possível No transporte de coisas, como no
identificar a unidade, segundo o JDC, roubo de cargas, é uma questão
557, “Nos termos do art. 938 do CC, se polêmica.
a coisa cair ou for lançada de “Art. 736. Não se subordina às
condomínio edilício, não sendo possível normas do contrato de transporte o feito
gratuitamente, por amizade ou cortesia.
identificar de qual unidade, responderá Parágrafo único. Não se considera
o condomínio, assegurado o direito de gratuito o transporte quando, embora
regresso.” feito sem remuneração, o transportador
auferir vantagens indiretas.”
f) responsabilidade civil objetiva No caso da carona, cf. art. 736,
do transportador – CC, 734 (pessoas) e em regra não se aplicam as regras do
750 (coisas). transporte. No transporte
A responsabilidade é objetiva por desinteressado, de simples cortesia, o
três razões: 1) aplicação histórica do DL transportador só será civilmente
n. 2681/1912 sobre estradas de ferro; 2) responsável por danos causados ao
tratar-se de obrigação de resultado, transportado quando incorrer em dolo
assumida a cláusula de incolumidade; e ou culpa grave (STJ, 145).
3) aplicação do CDC, em regra. Porém se aquele que deu a carona
“Art. 734. O transportador auferir vantagens indiretas aplica-se a
responde pelos danos causados às responsabilidade objetiva no transporte.
pessoas transportadas e suas bagagens, Exemplo: UBER, transporte
salvo motivo de força maior, sendo nula
qualquer cláusula excludente da compartilhado e programa de milhagem
responsabilidade. em companhia aérea (JDC, 559:
Parágrafo único. É lícito ao “Observado o Enunciado 369 do CJF,
transportador exigir a declaração do no transporte aéreo, nacional e
valor da bagagem a fim de fixar o limite internacional, a responsabilidade do
da indenização.”
transportador em relação aos
Confirmando a responsabilidade
passageiros gratuitos, que viajarem por
objetiva, o art. 734 prevê que no
cortesia, é objetiva, devendo atender à
transporte de pessoas, é nula a cláusula
integral reparação de danos
de não indenizar.
“Art. 750. A responsabilidade do
patrimoniais e extrapatrimoniais”).
transportador, limitada ao valor constante
do conhecimento, começa no momento Material de Apoio _ Direito Civil_
em que ele, ou seus prepostos, recebem a Pablo Stolze_ Aula 04.pdf
coisa; termina quando é entregue ao Material do Professor - Direito Civil -
destinatário, ou depositada em juízo, se
aquele não for encontrado.”
Pablo Stolze -
Da mesma forma é a CausasExcludentesdeRespCivil.pdf
responsabilidade civil é objetiva no
transporte de coisa, cf. STF, 161: “Em CAUSAS EXCLUDENTES
contrato de transporte, é inoperante a DE
cláusula de não indenizar.”. RESPONSABILIDADE CIVIL
“Art. 735. A responsabilidade
contratual do transportador por acidente
com o passageiro não é elidida por culpa O Direito Brasileiro admite que a
de terceiro, contra o qual tem ação incidência de determinadas causas
regressiva.”

13
exclua a responsabilidade civil e, por Parágrafo único. No caso do
consequência, o dever de indenizar. inciso II, o ato será legítimo somente
quando as circunstâncias o tornarem
Vale dizer, tais causas surgem absolutamente necessário, não
especialmente como argumentos de excedendo os limites do indispensável
defesa do réu. para a remoção do perigo.”
Observação: a responsabilidade “Art. 929. Se a pessoa lesada, ou
pressuposta, tese de Giselda Hironaka, o dono da coisa, no caso do inciso II do
art. 188, não forem culpados do perigo,
sustenta uma regra de imputação de assistir-lhes-á direito à indenização do
responsabilidade, independentemente de prejuízo que sofreram.
culpa, risco ou até mesmo causa Art. 930. No caso do inciso II do
excludente de responsabilidade civil. art. 188, se o perigo ocorrer por culpa de
Todo aquele que vive em sociedade, à terceiro, contra este terá o autor do dano
ação regressiva para haver a importância
luz do princípio da dignidade da pessoa que tiver ressarcido ao lesado.”
humana, é responsável pelo dano injusto
que cause ao outro. A tese não admite B) Exercício regular de direito e
excludente de responsabilidade, estrito cumprimento do dever legal
ressalvado o direito de regresso. Trata- O exercício regular de um direito,
se de tese proveniente do gênio da por óbvio, exclui a responsabilidade
Professora da USP, mas que não é civil (CC, 188, I, 2ª parte).
amplamente admitida em nosso sistema, Na mesma linha, o estrito
especialmente pelo fato de as causas cumprimento do dever legal, porquanto
excludentes serem aplicadas. neste caso, segundo Frederico Marques,
quem atua no cumprimento da Lei está
A) Estado de necessidade e a exercer um direito. Importante
legítima defesa ressaltar esse entendimento porque não
O estado de necessidade e a há no CC a exclusão da
legítima defesa são causas que excluem responsabilidade civil por conta do
a licitude do ato e, por consequência, a estrito cumprimento do dever legal.
responsabilidade civil (art. 188, incisos Geralmente, o exercício regular de
I, 1ª parte e II). um direito encontra-se no Direito
Vale dizer, regra geral, quem atua Privado (exemplos: guarda volumes de
em estado de necessidade ou legítima supermercado; porta giratória em
defesa não tem responsabilidade civil bancos), enquanto do estrito
uma vez que praticou um ato lícito. cumprimento do dever legal é
Observação. Cuidado! À luz dos observado em relações de Direito
artigos 929 e 930, mesmo atuando em Público.
estado de necessidade ou legítima Um bom exemplo do exercício
defesa, se o agente atinge terceiro regular de direito é o uso da porta
inocente, deverá indenizá-lo, cabendo o automática giratória do banco (REsp
direito de regresso em face do 1444573/SP), desde que não haja abuso
verdadeiro culpado. Trata-se de uma do direito.
excepcional hipótese de O estrito cumprimento do dever
responsabilidade civil por ato lícito. legal tem o melhor exemplo no raio X
“Art. 188. Não constituem atos
ilícitos: do aeroporto, mas também do oficial de
I - os praticados em legítima justiça que faz o arrombamento, ou do
defesa ou no exercício regular de um policial que realiza revista pessoal. Cf.
direito reconhecido; STJ, REsp 622365/RJ entendeu que age
II - a deterioração ou destruição em estrito cumprimento do dever legal a
da coisa alheia, ou a lesão a pessoa, a fim
de remover perigo iminente. instituição financeira que, diante de

14
requisição da autoridade fiscal, presta Na mesma linha, o STJ já firmou
informações bancárias à RFB. entendimento no sentido de que o
Por fim, merece referência, pela assalto a ônibus ou coletivo é fortuito
sua peculiaridade, o REsp 164391/RJ, externo, de maneira que a
no qual o STJ não acatou a tese do transportadora o dever de indenizar (v.
exercício regular de direito (vale a pena g. AgRg no AREsp 531739/SP).
conferir). Caso em que a empregada Observação: responsabilidade dos
doméstica, pega em flagrante de crime bancos. Quando for estudar a
de furto, foi presa num dos cômodos do responsabilidade civil dos bancos, ver:
apartamento e acabou morta por cair da STJ, 479 – “As instituições financeiras
janela. respondem objetivamente peos danos
C) Caso fortuito e força maior – gerados por fortuito interno relativo a
em verdade, não há uniformidade fraudes e delitos praticados por terceiros
doutrinária quanto à fixação do conceito no âmbito de operações bancárias.”
de caso fortuito e de força maior (veja- D) Culpa exclusiva da vítima
se MHD, Álvaro Villaça Azevedo e A culpa exclusiva da vitima
Silvio Rodrigues). Em nosso sentir, também tem o condão de excluir a
força maior é o inevitável (v. g., responsabilidade civil por romper o
terremoto), enquanto caso fortuito o nexo jurídico de causalidade.
imprevisivel (v. g., um sequestro Trata-se de uma importante causa
relâmpago). excludente, com especial aplicação no
Com sabedoria o legislador Direito do Consumidor.
deixou para a doutrina essas discussões Vale lembrar que a culpa
acadêmicas. O CC, 393, p. ú., não se exclusiva da vítima não se confunde
preocupa com a distinção conceitual com a denominada culpa concorrente
entre caso fortuito e a força maior, (art. 945 do CC), a qual apenas reduz a
reconhecendo em um ou outro a aptidão indenização devida.
para excluir a responsabilidade civil Exemplo: transeunte que não
(desde que não tenha por ele se utiliza a passarela e atravessa a pista
responsabilizado, como nos contratos de sendo atropelado.
seguro). E) Fato de terceiro
Questão especial: o que se Segundo Silvio Venosa, trata-se
entende por fortuito interno e fortuito de uma causa que carece de um
externo? Autores que trataram bem do específico tratamento legal, embora seja
tema foram Sérgio Cavaliere Filho bem reconhecida e aplicada em nossa
como Carlos Roberto Gonçalves. jurisprudência.
Fortuito interno é aquele que incide A atuação de um terceiro poderá
durante o processo de elaboração do romper o nexo jurídico de causalidade,
produto ou execução do serviço, não afastando a responsabilidade civil.
tendo o condão de excluir a Vale ressaltar o entendimento que,
responsabilidade civil; e o fortuito segundo a STF, 187, “A
externo é, por sua vez, alheio, exterior, responsabilidade contratual do
exógeno ao processo elaborativo de transportador pelo acidente com o
maneira que atua excluindo a passageiro, não é elidida por culpa de
responsabilidade civil. terceiro, contra o qual tem ação
O STJ, julgando o REsp regressiva”.
1440756/RJ, entendeu que a ação Finalmente, indagamos, o que é
criminosa perpetrada por terceiro na teoria do corpo neutro? Trata-se de
porta de acesso ao shopping Center é expressão frequentemente utilizada no
fortuito externo. âmbito da responsabilidade civil em

15
caso de acidente de trânsito. Em Contudo, há uma dura critica a
essencia, cuida-se de uma aplicação do essa visão, a partir do conceito
próprio fato de terceiro, com o objetivo contemporâneo de contrato (ou pós-
de afastar o dever de indenizar por parte moderno, como querem alguns).
daquele que involuntariamente Assim, o contrato é o negócio
participou da cadeia causal de prejuízos. jurídico inter vivos por excelência, não
O exemplo clássico é o “engavetamento se confundindo com os negócios mortis
de veículos”. No REsp 54444/SP, a causa (a exemplo do testamento). Essa
despeito de não se tratar de tema separação consta do art. 426 do CC:
pacífico, corretamente entendeu-se que “Art. 426. Não pode ser objeto de
o sujeito involuntariamente atingido não contra a herança de pessoa viva.”
tem responsabilidade civil. Este dispositivo trata da proibição
***** do pacta corvina ou pacta abutra. Prevê
a nulidade dos pactos sucessórios ou
pacta corvina, pois a lei proíbe a prática
do ato sem cominar sanção (art. 166,
Material de Apoio - Direito Civil - VII, segunda parte do CC). Exemplo: a
Flávio Tartuce - 01 (II).pdf transação que tem por objeto uma
herança ainda não recebida.
TEORIA GERAL Conceito contemporâneo.
DOS CONTRATOS Segundo Paulo Nalin (UFPR), o
(CC, 421 A 480) contrato é uma relação intersubjetiva
(entre pessoas), baseada no
1. Conceito de contrato solidarismo constitucional, e que traz
CC/1916 e CC/2002 não efeitos existenciais e patrimoniais não
conceituaram o contrato, atribuindo essa somente em relação às partes
tarefa à doutrina. contratantes, mas também em relação
Conceito clássico: tem como a terceiros.
inspiração o art. 1.321 do CC italiano, *O professor recomendou a leitura da
sendo seguido por Darcy Bessone, obra do autor, denominado “Do
Álvaro Villaça e MHD. Contrato é um contrato. Conceito Pós-moderno”.
negócio jurídico bilateral ou Assim, o contrato também tem
plurilateral que visa a criação, conteúdo existencial, relacionado à
modificação ou extinção de direitos e tutela da pessoa humana. O próprio STJ,
deveres de cunho patrimonial. temos os contratos patrimoniais
Todo contrato é negócio jurídico puros, como os que estabelecem juros,
pelo menos bilateral, por envolver ao e os contratos existenciais, como os de
menos duas pessoas ou duas vontades. plano de saúde, aquisição da casa
Assim, doação é negócio jurídico própria etc., que envolvem valores
bilateral, apesar de se tratar de contrato constitucionais, (como direitos sociais
unilateral, pois em regra traz deveres CRFB, 6º, por exemplo). Cf. JDC, 411:
“Art. 186. O descumprimento de
para apenas uma das partes. um contrato pode gerar dano moral
O contrato tem sempre conteúdo quando envolver valor fundamental
patrimonial, segundo a visão clássica protegido pela Constituição Federal de
(patrimonialidade). Portanto, seguindo 1988.”
essa visão clássica, o casamento não é Exemplificadamente, os artigos
contrato (segundo o CC, 1511, tem 1º, 3º, 5º, 6º: a negativa de cobertura de
objetivo de comunhão plena de vida, ou plano de saúde sem justo motivo, bem
seja, tem conteúdo existencial). como a entrega do imóvel com atraso.

16
Trata-se da abordagem (visão) civil- gerais fixadas neste Código [outros
constitucional do sistema. princípios e normas de ordem pública]”
Pelo conceito contemporâneo, o Exemplo: contrato de
contrato gera efeitos perante terceiros, estacionamento, que é um contrato
sendo esse um dos aspectos da eficácia atípico misto, resultado de um depósito
externa da função social do contrato. e uma prestação de serviços. No
Vale dizer, o contrato possui contrato de estacionamento é nula a
externalidades. cláusula de não indenizar ou cláusula de
O conceito moderno ainda não irresponsabilidade (geralmente uma
tem aceitação majoritária na placa no estabelecimento), posto que
comunidade jurídica, mas tem viés de se viola o CDC, 51, CC, 424 e 421 (a
tornar o conceito mais difundido em causa do estacionamento é a segurança,
mais ou menos tempo. e a cláusula gera a renúncia à segurança,
não havendo equidade num contrato
2. Princípios contratuais no CC/2002 dessa natureza com tal previsão). Nesse
São cinco princípios: sentido a STJ, 130: “A empresa
1) autonomia privada; responde, perante o cliente, pela
2) função social do contrato; reparação de dano ou furto de veículo
3) força obrigatória do contrato; ocorridos em seu estacionamento.”
4) boa-fé objetiva;
5) relatividade dos efeitos 2.2. Princípio da função social do
contratuais. contrato (CC, 421 e 2.035, p. ú.)
São considerados princípios Segundo Orlando Gomes, função
sociais a autonomia privada, a função social significa: função, i. é, finalidade;
social do contrato e a boa-fé objetiva. social, i. é, coletiva. Daí a finalidade
coletiva do contrato.
2.1. Princípio da autonomia privada Segundo Miguel Reale, o contrato
Esse princípio substituiu o modelo não deve atender apenas aos interesses
liberal puro da autonomia da vontade das partes, mas também a toda a
(Enzo Roppo; Francisco Amaral). São sociedade.
três as razões: Segundo Tartuce, trata-se de um
1º) crise da vontade (a vontade princípio contratual de ordem pública
entrou em crise, pois muitas vezes os (art. 2.035, p. ú.), pelo qual o contrato
contratos são estabelecidos por deve ser, necessariamente, interpretado
impulso); e visualizado de acordo com o contexto
2º) dirigismo contratual da sociedade.
(intervenção do Estado nos contratos); O principal impacto é a
3º) prevalência dos contratos de relativização da força obrigatória do
adesão, com conteúdo imposto por uma contrato (pacta sunt servanda).
das partes. Segundo Enzo Roppo, Decorre então uma dupla eficácia
vivemos o império dos contratos- do contrato:
modelo. i) eficácia interna; entre as partes
Segundo o professor, temos a (cf. JDC, 360: “O princípio da função
seguinte fórmula: autonomia da social do contrato também pode ter
vontade + certa intervenção = eficácia interna entre as partes.”);
autonomia privada, que pode ser ii) eficácia externa – além das
observada no CC, 425: partes (JDC, 21: “A função social do
“Art. 425. É lícito às partes contrato, prevista no art. 421 do novo
estipular contratos atípicos [sem previsão Código Civil, constitui cláusula geral a
legal mínima], observadas as normas impor a revisão do princípio da
relatividade dos efeitos do contrato em
17
relação a terceiros, implicando a tutela se em conta tanto aspectos
externa do crédito”). quantitativos quanto qualitativos.”
a) eficácia interna (entre as 5) proteção da parte vulnerável do
partes). Possui cinco aplicações: contrato.
1) tutela da pessoa humana no O CC/2002 protege o aderente
contrato (JDC, 23: “A função social do contratual, aquele para quem o conteúdo
contrato, prevista no art. 421, não do contrato é imposto (CC, 423 3 424).
elimina o princípio da autonomia O contrato de adesão não
contratual, mas atenua ou reduz o necessariamente é contrato de consumo
alcance desse princípio quando (JDC, 171). Exemplos: locação
presentes interesses metaindividuais ou imobiliária e franquia.
de interesse individual relativo à “Art. 423. Quando houver no
dignidade da pessoa humana.”). contrato de adesão cláusulas ambíguas
ou contraditórias, dever-se-á adotar a
Exemplo: dano moral por lesão a direito interpretação mais favorável ao aderente.
fundamental no contrato; [interpretação pro aderente e contra o
2) nulidade de cláusulas estipulante. Exemplo: havendo dois
antissociais, a exemplo da STJ, 302: em preços, vale o menor]
contrato de plano de saúde, é nula a Art. 424. Nos contratos de adesão,
são nulas as cláusulas que estipulem a
cláusula que limita no tempo a renúncia antecipada do aderente a direito
internação do segurado; resultante da natureza do negócio.” [ex.:
3) vedação da onerosidade em qualquer contrato de adesão é nula
excessiva ou desequilíbrio contratual; cláusula de não indenizar]
4) conservação contratual (JDC, b) eficácia externa – para além
22: “A função social do contrato, das partes. Temos duas aplicações:
prevista no art. 421 do novo Código 1) tutela dos direitos difusos e
Civil, constitui cláusula geral que coletivos. Exemplo: função
reforça o princípio de conservação do socioambiental do contrato (nulidade e
contrato, assegurando trocas úteis e ineficácia);
justas.”). A extinção de um contrato 2) tutela externa do crédito – o
deve ser a última medida. Exemplo: contrato também gera efeitos perante
teoria do adimplemento substancial terceiros. O art. 608, CC prevê a teoria
(quando o contrato for quase cumprido, do terceiro cúmplice.
sendo a mora insignificante, não caberá “Art. 608. Aquele que aliciar
pessoas obrigadas em contrato escrito a
sua extinção, mas apenas outros efeitos prestar serviço a outrem pagará a este a
como a cobrança (no direito inglês é o importância que ao prestador de serviço,
substancial performance; no direito pelo ajuste desfeito, houvesse de caber
italiano, CCI, 1455, que trata da “mora durante dois anos.”
de escassa importância”, que deve ser Aqui seria o caso da cervejaria
analisada dos pontos de vista BRAHMA, Zeca Pagodinho e Nova
quantitativo e qualitativo). Schin, na campanha “experimenta!”,em
*cf. teoria do adimplemento substancial que no meio do contrato o cantor faz
na doutrina e na jurisprudência, texto de propaganda da outra marca. Apesar do
Tartuce publicado no jusbrasil, STJ não ter a ele se referido, seria
inclusive citando o julgado REsp aplicável este dispositivo.
1200105/AM (caso das carretas). O art. 421 possui dois erros
JDC, 586: “Para caracterização técnicos (foi objeto de prova oral da
do adimplemento substancial (tal qual Magistratura Federal):
reconhecido pelo enunciado 361 da IV 1º) o dispositivo não deveria ser
Jornada de Direito Civil – CJF), levam- “liberdade de contratar” (refere-se à

18
parte e ao momento), mas liberdade novo Código Civil, a violação dos
contratual (conteúdo); e deveres anexos constitui espécie de
2º) “função social” não é razão do inadimplemento, independentemente de
contrato, mas limite. A razão do culpa” (gera responsabilidade
contrato é a autonomia privada. objetiva).
Trata-se de uma terceira
2.3. Princípio da força obrigatória do modalidade de inadimplemento, já que
contrato (pacta sunt servanda) 1) pode ocorrer nas fases pré e pós-
Continua em vigor o princípio contratual; e 2) a parte pode cumprir os
pelo qual o contrato faz lei entre as deveres principais e violar um dever
partes. Porém, esse princípio é anexo (ex.: locatário que devolve o
fortemente mitigado pelos princípios imóvel pintado de preto).
sociais (principalmente a função social No CC/2002, a boa-fé objetiva
do contrato e boa-fé objetiva). tem 3 (três) funções:
- função de interpretação (art. 113
2.4. Princípio da boa-fé objetiva (artigos do CC): os contratos devem ser
113, 187 e 422 do CC) interpretados da maneira mais favorável
Trata-se de uma evolução do a quem esteja de boa-fé;
conceito de boa-fé, que saiu do plano - função de controle (art. 187 do
intencional (boa-fé subjetiva) para o CC): aquele que viola a boa-fé objetiva
plano da conduta leal das partes (boa-fé no exercício de um direito comete abuso
objetiva). Cf. Menezes Cordeiro, “Da de direito, que é ilícito. Gera nulidade e
boa-fé no direito civil”. responsabilidade objetiva (cf. JDC, 37);
A boa-fé no Direito Civil: - função de integração (CC, 422):
1) boa-fé subjetiva (guten a boa-fé objetiva deve integrar todas as
Glaubem): boa intenção (estado fases do contrato: pré-contratual,
psicológico). Exemplo: posse, no CC, contratual e pós-contratual.
1201; “Art. 422. Os contratantes são
2) boa-fé objetiva (Treu und obrigados a guardar, assim na conclusão
do contrato [fase contratual], como em
Glauben): boa conduta (agir com sua execução [fase pós-contratual], os
lealdade). Exemplo: contrato, CC, 422. princípios de probidade e boa-fé.”
A boa-fé objetiva é relacionada O dispositivo não faz menção
aos deveres anexos ou laterais de expressa à fase pré-contratual, o que não
conduta, que são deveres inerentes à afasta a sua incidência a essa fase de
qualquer contrato sem a necessidade de negociações preliminares ou das
previsão no instrumento (Staub e tratativas (JDC, 25 e 170).
Larenz):
- dever de cuidado; Material de Apoio - Direito Civil -
- dever de respeito; Flávio Tartuce - 02 (II).pdf
- dever de informação; Material de Apoio - Direito Civil -
- dever de cooperação; Flávio Tartuce - 02 (II) Acórdão REsp.
- dever de lealdade; 1202514.pdf
- dever de transparência;
- dever de confiança;
- dever de agir honestamente. Ex. 1) caso dos tomates (boa-fé na
Se houver quebra de qualquer fase pré-contratual). Caso CICA, TJRS,
desses deveres, ocorre a chamada década de 1990. A empresa CICA
violação positiva do contrato. Cf. JDC, distribuía as sementes dos tomates para
24: “Art. 422: em virtude do princípio os agricultores do Estado do RS. Os
da boa-fé, positivado no art. 422 do agricultores plantavam e entregavam a

19
produção em seus próprios caminhões - exceptio doli;
no local indicado. Estabeleceu-se um - venire contra factum proprium
ciclo de confiança. A CICA non potest;
interrompeu esse ciclo de confiança, - duty to mitigate the loss;
tendo em vista que distribuiu as - Nachfrist.
sementes e depois agiu em ato de abuso a) supressio ou suppressio – é a
de direito. Dessa forma, a empresa foi perda de um direito (supressão) ou de
obrigada a indenizar os agricultores. uma posição jurídica pelo seu não
Ex. 2) boa-fé na fase contratual. exercício no tempo. Renúncia tácita.
STJ, 308: a hipoteca firmada entre a Não se confunde com a prescrição já
construtora e o banco não tem eficácia que não tem prazo;
perante terceiro de boa-fé. Essa súmula b) surrectio – o outro lado da
surgiu pela quebra do mercado moeda, como afirma José Fernando
imobiliário. A ideia é que a boa-fé Simão. É o surgimento de um direito
quebra a hipoteca, que passa a ter por práticas, usos e costumes. Um ótimo
efeitos inter partes (Cf. o desenho feito exemplo está no art. 330 (pagamento
pelo professor no material de apoio para reiteradamente feito em outro local faz
entender a súmula. Mesmo tendo já presumir a renúncia do credor
firmado vários contratos de relativamente ao que constar do
compromisso de compra e venda para contrato). Cf. ainda o REsp 1202514/RS
os compradores dos apartamentos, a em que se aplicou a correção monetária
construtora dá o prédio em garantia – em contrato de honorários;
hipoteca – de algum financiamento). c) tu quoque – quer dizer “até tu”,
Atualmente, o mercado trabalha com a tendo origem no suposto grito de dor do
alienação fiduciária em garantia para Imperador Julio César, ao ver seu filho
fugir desse entendimento decorrente da adotivo Brutus, que participou do
súmula. atentado no Senado. Traduz a regra de
Ex. 3) fase pós-contratual (post ouro da boa-fé: não faça contra o outro
factum finitum). STJ, 548: o credor tem o que você não faria contra si mesmo.
o prazo de 5 dias úteis após o Exemplo: uma parte contratual não
pagamento integral para retirar o nome pode criar uma situação para depois
do devedor de cadastro negativo, sob dela tirar proveito, com foi o caso em
pena de uma responsabilidade pós- que o Banco realizou uma grande
contratual. Exemplo típico de violação campanha publicitária a fim de angariar
positiva do contrato. investidores, sabendo antecipadamente
da ruína próxima da instituição
*Ler o texto sobre o seguro de vida e financeira, e aplicando o dinheiro
suicídio de Marco Aurélio Bezerra de auferido em aplicações “protegidas”;
Melo colocado pelo professor no seu d) exceptio doli: é a defesa contra
site e no Jus Brasil. o dolo alheio. Exemplo: exceção de
contrato não cumprido (em um contrato
Conceitos parcelares da boa-fé bilateral uma parte não pode exigir que
objetivo. Foi desenvolvido a outra cumpra com a sua obrigação se
originalmente pelo jurista português não cumprir com a própria (art. 476 do
Menezes Cordeiro, apesar de já Código Civil);
existirem na decadência do Direito e) venire contra factum proprium
Romano: non potest – é a vedação do
- supressio; comportamento contraditório (i. é, ir
- surrectio; contra um fato próprio não é permitido)
- tu quoque; – “teoria dos atos próprios”. Exemplo:

20
REsp 95539/SP. Um marido vendeu Exemplo: o contrato de seguro de vida,
imóvel sem outorga à esposa que, como em que os efeitos são de dentro para
testemunha em uma ação disse que fora (exógenos);
concordava com a venda ii) promessa de fato de terceiro
(comportamento 1). Anos após, a (cf. artigos 439 e 440) – um contratante
esposa ingressou com a ação de promete ao outro uma conduta alheia
invalidade (comportamento 2). O STJ que se não praticado gera o seu
julgou improcedente pelos inadimplemento. Exemplo: promessa de
comportamentos contraditórios; um show de um cantor que não
f) duty to mitigate the loss - comparece. Os efeitos são de fora para
previsto na Convenção de Viena sobre dentro (endógenos);
Compra e Venda, art. 177, é o “dever de iii) terceira exceção – função
mitigar o prejuízo” que é imposto ao social do contrato na eficácia externa
credor pelo princípio da boa-fé (JDC, (cf. JDC, 21). Exemplo é o art. 608 do
169). Exemplo: vigente um contrato de CC, da chamada “teoria do terceiro
mútuo bancário, o banco não ingressa cúmplice”.
imediatamente com ação de cobrança
para que a dívida cresça como bola de 3. Formação do contrato pelo Código
neve. Como punição ao banco, é Civil
possível substituir os juros contratuais São quatro fases (cf. Pablo Stolze
por juros legais (TJRS, TJMS e TJSP e Rodolfo Pamplona):
possuem julgados adotando essa tese). - fase de negociações preliminares
No STJ, o caso importante de ser citado (puntuação);
é o REsp 758518/PR (compromisso de - proposta, policitação ou oblação;
compra e venda que o vendedor - contrato preliminar; e
demorou muito para iniciar a - contrato definitivo.
reintegração de posse, e o valor do Temos efeitos jurídicos crescentes
aluguel foi reduzido como penalidade). de acordo com as fases na ordem em
g) Nachfrist – “período de que expressas acima.
carência” ou prolongamento de prazo.
Origem: art. 47 da Convenção de Viena. 3.1. Negociações preliminares
O comprador poderá conceder ao Não tem tratamento específico no
vendedor prazo suplementar razoável CC.
para o cumprimento das obrigações. Nesta fase, ocorrem os debates
Nesse prazo concedido, por questão de prévios ou tratativas iniciais, visando o
boa-fé, não pode exigir o cumprimento, contrato futuro.
mas apenas perdas e danos. Esta fase não tem força
vinculativa. Porém se houver quebra da
2.5. Princípio da relatividade dos efeitos boa-fé nesta fase, surgirá uma
contratuais (res inter alios) responsabilidade pré-contratual (abuso
O contrato, em regra, gera efeitos ao não contratar).
entre as partes contratantes. Porém, há A natureza dessa responsabilidade
exceções, pois os contratos também é contratual ou aquiliana? A culpa in
possuem externalidades. contrahiendo (extracontratual) é a tese
Assim, temos três exceções. mais forte no Direito Brasileiro (CMSP,
i) a primeira exceção é estipulação Antônio Junqueira de Azevedo, Carlos
em favor de terceiro (cf. artigos 436 a Roberto Bittar, Cristiano Zanetti).
438 do CC): o contrato gera efeitos para Tartuce, MHD e Stolze entendem que
um terceiro que não é parte, mas que se trata de responsabilidade contratual,
pode exigir o seu cumprimento.

21
bem como no Direito Italiano essa é a para chegar a resposta ao conhecimento
tese mais forte. do proponente;
III - se, feita a pessoa ausente, não
tiver sido expedida a resposta dentro do
3.2. Proposta, policitação ou oblação prazo dado;
CC, 427 a 435. É a fase de IV - se, antes dela, ou
proposta formalizada que vincula aquele simultaneamente, chegar ao
que a formulou, em regra. conhecimento da outra parte a retratação
do proponente.”
As partes dessa fase são:
Deixa de ser obrigatória a
i) proponente, solicitante ou
proposta:
policitante – aquele que formula a
(I) se feita sem prazo a pessoa
proposta estando a ela vinculado;
presente, não foi imediatamente aceita
ii) policitado, solicitado ou oblato
(contrato com declaração consecutiva).
– recebe a proposta e, se com ela
Considera-se presente a pessoa
concordar, torna-se “aceitante”,
que contrata por telefone ou outro meio
formando-se o contrato pelo encontro
semelhante (como a internet).
das vontades.
“Art. 429. A oferta ao público (II) se feita sem prazo para pessoa
equivale a proposta quando encerra os ausente, tiver decorrido tempo
requisitos essenciais ao contrato, salvo se suficiente para chegar a resposta ao
o contrário resultar das circunstâncias ou conhecimento do proponente (contrato
dos usos. com declarações intervaladas);
Parágrafo único. Pode revogar-se
a oferta pela mesma via de sua (III) se feita a pessoa ausente, não
divulgação, desde que ressalvada esta tiver sido expedida a resposta no prazo
faculdade na oferta realizada.” dado;
No CC/2002 o oblato pode ser (IV) se antes dela (resposta) ou
determinável, pois se admite a oferta ao simultaneamente a ela chegar ao
público, que é plenamente revogável. conhecimento da outra parte (oblato) a
Exemplo: uma venda pelo particular retratação do proponente.
feita pela internet. O contrato pode ser formado entre
Cuidado: o CDC também admite presentes ou ausentes:
essa oferta, mas de forma irrevogável e a) contrato formado entre
vinculativa plena (art. 30 da Lei n. presentes (inter praesentes) – o jogo
8.039/1990). pergunta-resposta é rápido, pois as
“Art. 431. A aceitação fora do partes estão no mesmo ambiente
prazo, com adições, restrições, ou (inclusive virtual).
modificações, importará nova proposta.”
O contrato é formado quando o
Este art. 431 trata da
oblato aceita a proposta (encontro das
contraproposta. Se o oblato modifica
vontades).
consideravelmente a proposta
b) contrato entre ausentes (inter
originária, os papéis se invertem
absentes) – as partes não estão no
(contraproposta).
mesmo ambiente. Exemplo: contrato
O art. 428 trata das hipóteses em
epistolar (formado por carta). São duas
que deixa de ser obrigatória a proposta:
“Art. 428. Deixa de ser
teorias:
obrigatória a proposta: b.1) em regra, aplica-se a teoria
I - se, feita sem prazo a pessoa da agnição, pensado no direito francês
presente, não foi imediatamente aceita. para cartas, na subteoria da expedição
Considera-se também presente a pessoa (art. 434, caput). O contrato é formado
que contrata por telefone ou por meio de
comunicação semelhante;
quando o oblato expede a aceitação;
II - se, feita sem prazo a pessoa b.2) por exceção, aplica-se a
ausente, tiver decorrido tempo suficiente teoria da agnição, na subteoria da
recepção (art. 434, I, II e III): o contrato

22
é formado quando o proponente recebe o compromisso, tendo apenas uma
a aceitação. Essa dá mais segurança. Ela opção. Exemplo: promessa de doação.
se aplica principalmente quando for “Art. 466. Se a promessa de
convencionada pelas partes. contrato for unilateral, o credor, sob pena
de ficar a mesma sem efeito, deverá
Para contratos eletrônicos, cf. manifestar-se no prazo nela previsto, ou,
JDC, 173, completa-se com a recepção inexistindo este, no que lhe for
da aceitação pelo proponente. O projeto razoavelmente assinado pelo devedor.”
de lei n. 281/2012 (CDC), propõe adotar b) compromisso bilateral de
a teoria da confirmação (adotado na contrato. As duas partes participam do
Europa como teoria do duplo clique). negócio assumindo o compromisso de
“Art. 435. Reputar-se-á celebrado celebrar o contrato definitivo. Exemplo:
o contrato no lugar em que foi proposto.” compromisso de compra e venda de
Para os contratos nacionais bem móvel ou imóvel.
(celebrados no Brasil), o local do No caso de compromisso de
contrato é o local da proposta (art. 435). compra e venda de imóveis são
Para os contratos internacionais possíveis duas figuras distintas, o que
(celebrados fora do Brasil), o local do depende do registro ou não do contrato
contrato é aquele em que residir o preliminar na matrícula do imóvel.
proponente (LINDB, 9º, § 2º). Art. 463. Concluído o contrato
preliminar, com observância do disposto
3.3. Fase de contrato preliminar no artigo antecedente, e desde que dele
CC, 462 a 466. Nessa fase é não conste cláusula de arrependimento,
qualquer das partes terá o direito de
elaborado um documento ou é feita uma exigir a celebração do definitivo,
declaração, com intuito preparatório, assinando prazo à outra para que o
visando o contrato definitivo no futuro. efetive.
Essa fase tem força vinculativa, com Parágrafo único. O contrato
efeitos maiores do que a fase anterior. preliminar deverá [na verdade, poderá,
segundo a doutrina unânime] ser levado
Por exemplo, os efeitos quanto às ao registro competente.
arras ou sinal (CC, 417 a 420), i. é, da Segundo a JDC, 30, o registro é
coisa dada ou do valor pago como apenas um fator de eficácia perante
antecipação de pagamento para tornar terceiros (não é obrigatório).
definitivo o contrato preliminar. No mesmo sentido, continua
“Seção VIII
Do Contrato Preliminar tendo aplicação a STJ, 239, que prevê
Art. 462. O contrato preliminar, que a adjudicação compulsória entre as
exceto quanto à forma, deve conter todos partes não necessita do registro do
os requisitos essenciais ao contrato a ser compromisso de compra e venda na
celebrado. matrícula.
Exemplo: o compromisso de b.1) compromisso de compra e
compra e venda de imóvel, não venda de imóvel não registrado na
importando o seu valor, não exige matrículo - temos:
escritura pública. - contrato preliminar;
Como aponta MHD, existem duas - com efeitos obrigacionais inter
modalidades de contrato preliminar ou partes;
compromisso de contrato: - gera obrigação de fazer no
a) compromisso unilateral de contrato definitivo.
contrato ou contrato de opção (art. 466). Se o promitente vendedor não
As duas partes participam do negócio celebrar o contrato definitivo e, não
sendo certo que apenas uma delas havendo cláusula de arrependimento, o
assume o compromisso de celebrar o compromissário comprador terá três
contrato definitivo. A outra não assume

23
opções (desde que pague o preço): Orlando Gomes, MHD, José Osório de
artigos 463, 464 ou 465 Azevedo Jr.).
Art. 464. Esgotado o prazo, Nesse compromisso não cabe
poderá o juiz, a pedido do interessado, cláusula de arrependimento (STF, 166).
suprir a vontade da parte inadimplente,
conferindo caráter definitivo ao contrato
Se o promitente vendedor não der a
preliminar, salvo se a isto se opuser a coisa caberá contra ele ou contra
natureza da obrigação. terceiro a ação de adjudicação
Art. 465. Se o estipulante não der compulsória, desde que pago o preço
execução ao contrato preliminar, poderá (CC, 1417 e 1418).
a outra parte considerá-lo desfeito, e
pedir perdas e danos.”
Além do CC, há tratamento em
outras Leis: Decreto-Lei n. 58/1937; Lei
Material de Apoio - Direito Civil - n. 6766/1979. O CC unificou o
Flávio Tartuce - 03 (II).pdf tratamento que já existia nos dois
Material de Apoio - Direito Civil - diplomas.
“TÍTULO IX
Flávio Tartuce - 03 (II) Acórdão REsp. Do Direito do Promitente Comprador
1095882.pdf Art. 1.417. Mediante promessa de
*O professor abriu a aula se compra e venda, em que se não pactuou
manifestando sobre o recente julgado do arrependimento, celebrada por
STF que reconheceu a possibilidade da instrumento público ou particular, e
registrada no Cartório de Registro de
multiparentalidade, tudo indicando que Imóveis, adquire o promitente comprador
de agora em diante serão concomitantes direito real à aquisição do imóvel.
a paternidade biológica e a socioafetiva. Art. 1.418. O promitente
comprador, titular de direito real, pode
(continuação) exigir do promitente vendedor, ou de
terceiros, a quem os direitos deste forem
As opções do compromissário cedidos, a outorga da escritura definitiva
comprador: de compra e venda, conforme o disposto
1ª) ação de obrigação de fazer no instrumento preliminar; e, se houver
(CC, 463). Há discussão se cabe ou não recusa, requerer ao juiz a adjudicação do
fixação de astreintes (Tartuce admite). imóvel.”
O juiz fixa um prazo para que a outra Resumindo:
SEM registro na COM registro na
parte celebre um contrato definitivo; matrícula matrícula
2ª) adjudicação compulsória inter
partes (art. 464 CC e STJ, 239) - 1) efeitos inter partes; 1) efeitos erga omnes;
esgotado esse prazo (CC, 463), o juiz 2) fera obrigação de 2) gera obrigação de
pode suprir a vontade do inadimplente, fazer; dar;
conferindo caráter definitivo ao contrato 3) cabe adjudicação 3) cabe adjudicação
compulsória inter compulsória erga
preliminar; partes; omnes;
3º) pleitear perdas e danos (CC, 4) pode ter cláusula 4) não pode ter
465), se não interessa mais o contrato de arrependimento. cláusula de
definitivo. arrependimento.
b.2) compromisso de compra e
venda registrado na matrícula (CRI) 3.4. Fase de contrato definitivo
Neste caso haverá um direito real Aperfeiçoado o contrato, passa a
de aquisição do promitente/ existir uma responsabilidade civil
compromissário comprador (CC, 1225, contratual nos casos de inadimplemento
VI). (CC, 389, 390 e 391), ou seja, há uma
Os efeitos são erga omnes, e não força vinculativa plena.
geram obrigação de fazer, mas
obrigação de dar (doutrina majoritária: 4. Revisão judicial dos contratos no
CC/2002

24
Segundo a doutrina majoritária (cumprimento periódico, de trato
está tratado nos artigos 317 e 478. Para sucessivo);
Tartuce bem como Paulo Lôbo, está d) o contrato deve ser comutativo:
apenas no 317, e o 478 trata apenas de aqueles com prestações conhecidas
resolução. pelas partes. Em regra, não é possível
A revisão que está tratada é rever contrato aleatório (aquele em que
aquela por fato superveniente ou fato o risco é causa), quanto ao risco
novo. O contrato celebrado em contratado (há exceção cf. JDC, 440, i.
determinada circunstância pode ser é, é possível rever a sua parte
revisado se circunstância nova comutativa, como o prêmio do seguro);
Segundo a corrente majoritária, e) fator imprevisibilidade (motivo
esses dispositivos adotaram a teoria da imprevisível e/ou extraordinário)
imprevisão, de origem francesa, e que Como apontam Villa e Nery, esse
remonta à antiga cláusula rebus sic requisito torna a revisão do contrato
stantibus (Villaça, MHD, Venosa, civil praticamente impossível pois na
Carlos Roberto Gonçalves, Paulo Lôbo, atualidade tudo é previsível (crise,
Tartuce). inflação, desemprego, etc.). Na
*a cláusula rebus sic stantibus e a teoria jurisprudência do STJ, praticamente, na
da imprevisão não são a mesma coisa, há julgados, tendo em vista que não se
pois a primeira não exige que o fato seja supera esse requisito (cf. STJ, REsp
imprevisto. 945166/GO);
“Art. 317. Quando, por motivos f) onerosidade excessiva – é o
imprevisíveis, sobrevier desproporção desequilíbrio contratual que deve ser
manifesta entre o valor da prestação
devida e o do momento de sua
analisado caso a caso (“efeito
execução, poderá o juiz corrigi-lo, a gangorra”).
pedido da parte, de modo que assegure, O art. 478 prevê a “extrema
quanto possível, o valor real da vantagem para a outra parte”.
prestação.” Esse requisito, segundo a doutrina
“Art. 478. Nos contratos de
execução continuada ou diferida, se a
majoritária, não precisa ser provado. Cf.
prestação de uma das partes se tornar JDC, 365: “A extrema vantagem do art.
excessivamente onerosa, com extrema 478 deve ser interpretada como
vantagem para a outra, em virtude de elemento acidental da alteração de
acontecimentos extraordinários e circunstâncias, que comporta a
imprevisíveis, poderá o devedor pedir a
resolução do contrato. Os efeitos da
incidência da resolução ou revisão do
sentença que a decretar retroagirão à negócio por onerosidade excessiva,
data da citação.” independentemente de sua
Requisitos para a revisão dos demonstração plena.”
contratos civis (requisitos tradicionais): Observações:
a) contrato bilateral – ou seja, 1) a jurisprudência do STJ
deve trazer direitos e deveres para recentemente incluiu outros requisitos
ambas as partes de forma proporcional. para a revisão dos contratos:
Mas o contrato deve ser bilateral, - ausência de mora (STJ, 380);
em regra, tendo em vista que como se - alegações verossímeis (exemplo;
estudará o art. 480 do CC possibilita a prova pericial);
revisão de contratos unilaterais; - depósito da parte incontroversa
b) contrato oneroso – aquele que do contrato.
tem prestação e contraprestação; Esse requisitos foram incluídos
c) contrato de execução diferida tanto no CPC/73 (art. 285) e
(cumprimento ocorre de uma vez só no confirmados pelo art. 330 do CPC/2015:
futuro) ou execução continuada “Art. 330. A petição inicial será
indeferida quando:

25
(...) doações onerosas (art. 441, p. ú.), a
§ 2º Nas ações que tenham por exemplo das obrigações modais ou com
objeto a revisão de obrigação decorrente
de empréstimo, de financiamento ou de
encargo (ex.: de Beviláqua: dou-lhe um
alienação de bens, o autor terá de, sob terreno para que construa em parte dele
pena de inépcia, discriminar na petição um asilo).
inicial, dentre as obrigações contratuais, O adquirente prejudicado pelo
aquelas que pretende controverter, além vício redibitório poderá fazer uso das
de quantificar o valor incontroverso do
débito.
ações edilícias, pleiteando:
§ 3º Na hipótese do § 2º, o valor 1º) abatimento proporcional no
incontroverso deverá continuar a ser preço (ação quanti minoris ou
pago no tempo e modo contratados.” estimatória);
2) o CDC não adotou a teoria da 2º) adquirente pode pleitear ação
imprevisão. O art. 6º, V do CDC redibitória – resolução do contrato, mais
adotou a teoria da base objetiva, de devolução das quantias pagas, mais
origem alemã, desenvolvida por Karl despesas contratuais, e mais, havendo
Larez. O CDC não exige que o fato seja má-fé do alienante, perdas e danos.
imprevisível, mas apenas que seja fato “Art. 443. Se o alienante conhecia
novo que tenha causado a onerosidade o vício ou defeito da coisa, restituirá o
excessiva. Cf. art. 6º, V do CDC que recebeu com perdas e danos; se o
não conhecia, tão-somente restituirá o
(exemplo: revisão dos contratos de valor recebido, mais as despesas do
leasing atrelados à variação cambial). contrato.”
Cuidado. A resolução do contrato
5. Vícios redibitórios no CC/2002 cabe mesmo se o alienante não souber
Conceito. São os vícios ocultos do vício.
que atingem a coisa, objeto de um Prazos decadenciais. CC, 445:
contrato civil, desvalorizando-a ou “Art. 445. O adquirente decai do
tornando-a imprópria para seu uso. direito de obter a redibição ou
Não confundir vícios redibitórios abatimento no preço no prazo de trinta
dias se a coisa for móvel, e de um ano
com os vícios do consentimento, se for imóvel, contado da entrega
principalmente o erro e dolo: efetiva; se já estava na posse, o prazo
Vícios Vícios do conta-se da alienação, reduzido à metade.
Redibitórios Consentimento § 1º Quando o vício, por sua
1) Atingem a coisa; 1)Atingem a vontade; natureza, só puder ser conhecido mais
2) Vícios objetivos; 2)Vícios subjetivos; tarde, o prazo contar-se-á do momento
3) Abatimento no 3) Anulação (plano da em que dele tiver ciência, até o prazo
preço ou resolução validade). máximo de cento e oitenta dias, em se
(plano da eficácia). tratando de bens móveis; e de um ano,
Outra diferenciação importante é para os imóveis.
dos vícios redibitórios com vícios do § 2º Tratando-se de venda de
animais, os prazos de garantia por vícios
produto. Ambos são vícios objetivos, ocultos serão os estabelecidos em lei
mas os redibitórios ocorrem nos especial, ou, na falta desta, pelos usos
contratos civis, enquanto vícios os do locais, aplicando-se o disposto no
produto nos contratos de consumo parágrafo antecedente se não houver
(CDC, 26). regras disciplinando a matéria.”
Existe uma garantia legal contra Quanto à conjugação do caput e §
os vícios redibitórios nos contratos: 1º temos duas interpretações:
- bilaterais; 1ª) são duas situações diferentes –
- onerosos; no caput temos vícios que podem ser
- comutativos. percebidos imediatamente. Neste caso
Exemplo típico é a compra e os prazos são de trinta dias para móveis
venda. Essa garantia também atingem as e um ano para imóveis, contados da
entrega efetiva. Se o adquirente já está
26
na posse do bem, os prazos serão administrativo que a atribui a um
reduzidos à metade e contados da terceiro.
alienação. Exemplo: locatário que Não há necessidade de sentença
compra o imóvel terá seis meses da transitada em julgado e cabe nos casos
compra. de apreensão de veículo pelo DETRAN
Quanto ao § 1º, dos vícios que por (cf. REsp 259726/RJ e REsp
sua natureza somente podem ser 1332112/GO).
percebidos mais tarde. O prazo é de 180 Existe uma garantia legal, como
dias para móveis e 1 ano para imóveis. nos vícios redibitórios, contra a evicção,
Tartuce, MHD e CRG assim nos contratos:
entendem, junto com a maioria da - bilaterais;
doutrina; - onerosos;
2ª) Na segunda interpretação, - comutativos.
adotada por Tepedino e em julgado do Exemplo típico é a compra e
STJ (cf. RESp 1095882/SP) cf. JDC, venda.
445, tratam-se de comandos que se Também se aplica a garantia se o
completam: “Em se tratando de vício bem for adquirido em hasta pública
oculto, os adquirentes têm o prazo do (bem arrematado em leilão).
art. 445, caput para obter a redibição *Há discussão doutrinária se o bem
ou abatimento do preço, desde que os adquirido em hasta pública é forma
vícios se revelem nos prazos origináira de aquisição da propriedade.
estabelecidos no parágrafo primeiro, Para Tartuce não é, e deu como
fluindo, entretanto, a partir do exemplo as dívidas condominiais.
conhecimento do defeito.” São partes da evicção:
O art. 446 do CC trata de garantia a) alienante – aquele que
contratual, exemplo de decadência transmitiu a coisa viciada;
convencional. Não correrão os prazos b) adquirente ou evicto ou
da lei na vigência de garantia contratual. evencido – é aquele que perde a coisa;
Porém o adquirente deve denunciar o c) terceiro, evictor ou evencente –
vício ao alienante nos trinta dias aquele que tem a decisão judicial ou a
seguintes ao seu descobrimento, sob apreensão em seu favor.
pena de decadência. Cf. aqui os esquemas feito pelo
“Art. 446. Não correrão os prazos professor no material de apoio.
do artigo antecedente na constância de “Art. 448. Podem as partes
cláusula de garantia; mas o adquirente [alienante e adquirente], por cláusula
deve denunciar o defeito ao alienante nos expressa, reforçar, diminuir ou excluir a
trinta dias seguintes ao seu responsabilidade pela evicção.
descobrimento, sob pena de decadência.” Art. 449. Não obstante a cláusula
A decadência é apenas da garantia que exclui a garantia contra a evicção, se
contratual (como diz MHD) ou tanto da esta se der, tem direito o evicto a receber
garantia contratual quanto da legal o preço que pagou pela coisa evicta, se
não soube do risco da evicção, ou, dele
(Simão)? A segunda interpretação informado, não o assumiu.”
revela uma extrema desvantagem para o O mais comum é a cláusula de
adquirente. Tartuce entende como reforço, e não a diminuição ou exclusão
MHD. (esta mais comum em concursos...).
Uma forma melhor de entender o
4. Evicção (CC, 447 a 457) art. 449: se constar apenas a cláusula
Evincere = ser vencido ou perder. excludente, o adquirente pode pleitear o
Conceito. É a perda da coisa, preço que pagou pela coisa. Para que o
objeto do contrato, diante de uma alienante não tenha qualquer
decisão judicial, ou de um ato responsabilidade, além da cláusula

27
excludente, deve constar uma outra em Art. 451. Subsiste para o alienante
que o adquirente diz que sabia do risco esta obrigação, ainda que a coisa
alienada esteja deteriorada, exceto
ou o assume. Trata-se de cláusula de havendo dolo do adquirente.
origem romana, mantida no CC, mas Art. 452. Se o adquirente tiver
que realmente desdiz o que consta do auferido vantagens das deteriorações, e
art. 448. não tiver sido condenado a indenizá-las,
Ainda explicando o art. 449, o valor das vantagens será deduzido da
quantia que lhe houver de dar o
segundo as fórmulas de Washington de alienante.
Barros Monteiro: Art. 453. As benfeitorias
Cláusula excludente Exclusão da necessárias ou úteis, não abonadas ao
da garantia + cláusula responsabilidade do que sofreu a evicção, serão pagas pelo
de ciência ou alienante. alienante.
assunção do risco Art. 454. Se as benfeitorias
pelo adquirente abonadas ao que sofreu a evicção
Cláusula excludente O alienante responde tiverem sido feitas pelo alienante, o valor
da garantia – cláusula pelo preço da coisa. delas será levado em conta na restituição
de ciência ou devida.”
assunção do risco
pelo adquirente
II) evicção parcial (art. 455) –
Modalidades de evicção. São elas: pode ser de duas montas:
Material de Apoio - Direito Civil - - evicção parcial considerável; e
Flávio Tartuce - 04 (II).pdf - evicção parcial não considerável.
I) evicção total (artigos 450 a 454) A análise é quantitativa e
– o adquirente pode pleitear do qualitativa.
alienante: O adquirente, na considerável,
- o preço que pagou pela coisa, pode optar pela rescisão do contrato ou
levando-se em conta o momento em que indenização pelo desfalque sofrido.
ela se perdeu; Na evicção parcial não
- frutos que tiver sido obrigado a considerável cabe apenas indenização
restituir ao terceiro; pelo desfalque.
- despesas contratuais (escritura e Observação. CC, 456 foi
registro) e perdas e danos; revogado pelo CPC. As finalidades da
- custas judiciais e honorários de revogação foram: 1) concentrar a
advogado; e matéria de denunciação da lide no CPC;
- benfeitorias necessárias e úteis 2) acabar com a denunciação da lide por
na abonadas pelo terceiro. Voluptuárias saltos (per saltum) que estava prevista
não são indenizáveis. no CC, 456, caput; e 3) CPC, 128, II
“Art. 450. Salvo estipulação em
contrário, tem direito o evicto, além da substituiu o CC, 456, p. ú., mas com
restituição integral do preço ou das uniformidade.
quantias que pagou: “Art. 455. Se parcial, mas
I - à indenização dos frutos que considerável, for a evicção, poderá o
tiver sido obrigado a restituir; evicto optar entre a rescisão do contrato e
II - à indenização pelas despesas a restituição da parte do preço
dos contratos e pelos prejuízos que correspondente ao desfalque sofrido. Se
diretamente resultarem da evicção; não for considerável, caberá somente
III - às custas judiciais e aos direito a indenização.”
honorários do advogado por ele
constituído. 7. Extinção dos contratos
Parágrafo único. O preço, seja a
CC, 472 a 480. São quatro
evicção total ou parcial, será o do valor
da coisa, na época em que se evenceu, e modalidades básicas:
proporcional ao desfalque sofrido, no - extinção normal;
caso de evicção parcial.

28
- extinção por fatos anteriores à extinguir o contrato, por uma questão de
celebração; segurança jurídica. Exemplo:
- extinção por fatos posteriores à compromisso de compra e venda (Lei n.
celebração; 6766/79, art. 27 e 32) e leasing (STJ,
- extinção por morte. 369).

7.1. Extinção normal 7.3. Extinção por fatos posteriores à


Ocorre com o cumprimento da(s) celebração
obrigação(ões). São duas situações básicas:
a) resolução – é inadimplemento;
7.2. Extinção por fatos anteriores à b) resilição – exercício de direito
celebração potestativo por uma ou ambas as partes.
São três hipóteses relacionadas a Que é a rescisão? Para doutrina
problemas de formação ou a cláusulas clássica, rescisão seria invalidade
contratuais: (Orlando Gomes e CMSP). Na visão
a) invalidade contratual - contemporânea, hoje majoritária e
abordada pela teoria das nulidades (CC, adotada pelo CC, rescisão é gênero,
166 – nulos; CC, 171 – anuláveis), enquanto resolução e resilição espécies.
como estudo da Parte Geral do CC; “Art. 455. Se parcial, mas
b) cláusula de arrependimento – considerável, for a evicção, poderá o
evicto optar entre a rescisão [resolução]
previsão contratual que dá às partes um do contrato e a restituição da parte do
direito potestativo de extinguir o preço correspondente ao desfalque
negócio. Direito potestativo é aquele sofrido. Se não for considerável, caberá
que se contrapõe ao estado de sujeição, somente direito a indenização.”
i. é, aquele que “encurrala a parte”, que “Art. 607. O contrato de prestação
de serviço acaba com a morte de
fica sem saída. qualquer das partes. Termina, ainda, pelo
O seu exercício não gera perdas e escoamento do prazo, pela conclusão da
danos, salvo abuso de direito. obra, pela rescisão [resilição] do contrato
Cláusula de arrependimento mediante aviso prévio, por
(geralmente bilateral) não se confunde inadimplemento de qualquer das partes
ou pela impossibilidade da continuação
com o direito de arrependimento. A do contrato, motivada por força maior.”
primeira decorre da autonomia privada; a) resolução:
o segundo da Lei (exemplo do prazo de a.1) inadimplemento voluntário,
7 dias quando a venda é realizada fora com dolo ou com culpa – CC, 475, a
do estabelecimento, cf. CDC, 49); parte lesada pelo inadimplemento pode
c) cláusula resolutiva expressa – exigir o cumprimento forçado ou a sua
CC, 474. É a previsão contratual que resolução, nos dois casos com perdas e
associa a extinção do contrato a um danos:
evento futuro e incerto (condição). “Art. 475. A parte lesada pelo
“Art. 474. A cláusula resolutiva inadimplemento pode pedir a resolução
expressa opera de pleno direito [de forma do contrato, se não preferir exigir-lhe o
automática]; a tácita depende de cumprimento, cabendo, em qualquer dos
interpelação judicial.” casos, indenização por perdas e danos.”
Exemplo: compra e venda de a.2) inexecução involuntária –
móvel. “Se até o dia 5/10/2016, o sem dolo, sem culpa. Ocorre resolução
vendedor não entregar a coisa e o sem perdas e danos. Exemplo: caso
comprador não pagar o preço, o fortuito (evento totalmente
contrato estará extinto e resolvido.” imprevisível) e força maior (evento
Cuidado! Em alguns contratos, previsível mas inevitável).
mesmo havendo essa cláusula será
necessário notificar a outra parte para

29
Em alguns casos a parte responde Exemplo: exceção de contrato não
por caso fortuito ou força maior. cumprido (exceptio non adimpleti
Exemplo: devedor em mora (CC, 399). contractus).
a.3) resolução por onerosidade “Art. 476. Nos contratos
excessiva – CC, 478. Trata-se da bilaterais, nenhum dos contratantes,
antes de cumprida a sua obrigação, pode
aplicação da teoria da imprevisão exigir o implemento [cumprimento] da
(origem na cláusula rebus sic stantibus), do outro.”
para extinguir o contrato. Trata-se do efeito resolutivo, i. é,
“Art. 478. Nos contratos de se em um contrato bilateral ambas as
execução continuada ou diferida, se a
prestação de uma das partes se tornar partes não cumprirem as suas
excessivamente onerosa, com extrema obrigações, o contrato estará extinto, se
vantagem para a outra, em virtude de isso for alegado em processo judicial
acontecimentos extraordinários e (ataque ou defesa). Temos aqui o
imprevisíveis, poderá o devedor pedir a descumprimento bilateral.
resolução do contrato. Os efeitos da “Art. 477. Se, depois de concluído
sentença que a decretar retroagirão à data o contrato, sobrevier a uma das partes
da citação.” contratantes diminuição em seu
Os efeitos da sentença da patrimônio capaz de comprometer ou
resolução retroagirão à data da citação tornar duvidosa a prestação pela qual se
(efeitos ex tunc). obrigou, pode a outra recusar-se à
Na ação de resolução, é possível prestação que lhe incumbe, até que
aquela satisfaça a que lhe compete ou dê
rever o contrato, tendo como base os garantia bastante de satisfazê-la.”
artigos 479 e 480 do CC. O art. 477 trata de
“Art. 479. A resolução poderá ser
evitada, oferecendo-se o réu a modificar descumprimento de uma das partes,
eqüitativamente as condições do consagrando a exceptio non rite
contrato. [revisão se dá por oferecimento adimpleti contractus e a quebra
do réu] antecipada do contrato. Se uma parte
Para que haja revisão do contrato, perceber que há risco de que a outra
deve ocorrer concordância do autor (cf. parte não cumpra sua obrigação, pode
JDC, 367) exigir cumprimento antecipado ou
Art. 480. Se no contrato as garantias, sob pena de resolução.
obrigações couberem a apenas uma das
partes, poderá ela pleitear que a sua
Observação. Cláusula solve et
prestação seja reduzida, ou alterado o repete (“paga e depois pede”). Trata-se
modo de executá-la, a fim de evitar a da cláusula de renúncia aos artigos 476
onerosidade excessiva.” e 477. É uma previsão válida? Em
O CC, 480 aplica-se à revisão dos contratos de consumo e de adesão não é
contratos unilaterais, por pedido valida (cf. CDC, 51, IV e CC, 424); em
sucessivo do autor. Exemplo: mútuo contratos civis e paritários, sim (é
oneroso (empréstimo de dinheiro a negociada).
juros)
a.4) cláusula resolutiva tácita – b) resilição (duas modalidades):
CC, 474. É uma previsão legal que b.1) bilateral – as duas partes, de
associa a extinção do contrato a uma comum acordo, querem a extinção do
condição somada ao inadimplemento. contrato, o que se dá pelo distrato.
Depende de interpelação judicial “Art. 472. O distrato faz-se pela
(alegação em processo). mesma forma exigida para o contrato.”
“Art. 474. A cláusula resolutiva
expressa opera de pleno direito; a tácita b.2) unilateral – mediante pedido
depende de interpelação judicial.” de uma das partes, nos casos previstos
em lei de forma expressa ou implícita,
com a notificação judicial ou

30
extrajudicial do devedor. Exemplos: cuidado: a compra e venda por si só não
denúncia vazia na locação e na transmite a propriedade, o que se dá, em
prestação de serviços; a revogação do regra, pela tradição ou pelo registro
mandato pelo mandante; a renúncia ao imobiliário.
mandato pelo mandatário. Quanto à natureza jurídica:
“Art. 473. A resilição unilateral, a) é contrato bilateral ou
nos casos em que a lei expressa ou sinalagmático – direitos e deveres para
implicitamente o permita, opera
mediante denúncia notificada à outra
ambas as partes;
parte. b) contrato oneroso – prestação
Parágrafo único. Se, porém, dada mais contraprestação;
a natureza do contrato, uma das partes c) contrato consensual – tem o
houver feito investimentos consideráveis aperfeiçoamento com a manifestação da
para a sua execução, a denúncia
unilateral só produzirá efeito depois de
vontade das partes (CC, 482);
transcorrido prazo compatível com a d) contrato comutativo, em regra
natureza e o vulto dos investimentos.” – as prestações são conhecidas pelas
Atenção. Prorrogação partes. Como exceção, pode ser
compulsória do contrato. A resilição aleatória, em que o risco é a causa (CC,
unilateral será postergada se uma das 458 e 461).
partes tiver realizado investimentos “Art. 458. Se o contrato for
consideráveis (função social do contrato aleatório, por dizer respeito a coisas ou
fatos futuros, cujo risco de não virem a
e boa-fé objetiva). Exemplo: caso Nokia existir um dos contratantes assuma, terá
(TJ/SP, AI 7148853-4, 2007). o outro direito de receber integralmente o
que lhe foi prometido, desde que de sua
7.4. Extinção por morte parte não tenha havido dolo ou culpa,
Ocorre apenas nos contratos ainda que nada do avençado venha a
existir.
personalíssimos (intuito personae), (...)
sendo denominada de cessação Art. 461. A alienação aleatória a
contratual (Orlando Gomes). Exemplo: que se refere o artigo antecedente poderá
prestação de serviços (cf. CC, 607). ser anulada como dolosa pelo
***** prejudicado, se provar que o outro
contratante não ignorava a consumação
do risco, a que no contrato se
considerava exposta a coisa.”
Neste caso, são duas modalidades:
CONTRATOS EM ESPÉCIE d.1) venda da esperança (emptio
rei) – risco maior quanto à existência e
quanto à quantidade;
d.2) venda de esperança com
COMPRA E VENDA coias esperada (emptio rei speratae) –
(CC, 481 a 532) risco é menor, dizendo respeito à
quantidade (mínimo).
e) quanto às
1. Conceito e natureza jurídica formalidades/solenidades – CC, 107 e
Pela compra e venda, o vendedor 108.
se obriga a transferir ao comprador o “Art. 107. A validade da
domínio de certa coisa, mediante o declaração de vontade não dependerá de
pagamento de uma remuneração forma especial, senão quando a lei
expressamente a exigir.
denominada preço. Art. 108. Não dispondo a lei em
Trata-se de contato translativo, contrário, a escritura pública é essencial
trazendo o comprometimento da à validade dos negócios jurídicos que
transmissão da propriedade. Mas visem à constituição, transferência,

31
modificação ou renúncia de direitos reais venda (CC, 1649) com prazo
sobre imóveis de valor superior a trinta decadencial de dois anos;
vezes o maior salário mínimo vigente no
País.”
2) CC, 496 – é anulável a venda
Não se deve confundir forma com de ascendente para descendente (pai
solenidade. Forma é gênero (qualquer para filho), salvo se houver a
formalidade, como a forma escrita). Já a concordância dos demais descendentes
solenidade é espécie, como o ato e do cônjuge do alienante.
“Art. 496. É anulável a venda de
público (v. g., escritura pública lavrada ascendente a descendente, salvo se os
em tabelionato de notas). outros descendentes e o cônjuge do
A regra é a informalidade. A alienante expressamente houverem
escritura pública somente é necessária consentido.
para a validade das vendas de imóvel Parágrafo único. Em ambos os
casos, dispensa-se o consentimento do
com valor superior a 30 (trinta) salários cônjuge se o regime de bens for o da
mínimos. separação obrigatória.”
Assim: Atenção. JDC, 177: a expressão
- compra e venda de imóvel com em ambos os casos não tem sentido, por
valor superior a 30 s. m.: contrato erro da tramitação legislativa, devendo
solene e formal (há necessidade de ser desconsiderada.
escritura pública); Quanto ao prazo para anulação há
- compra e venda de imóvel com diverência entre a STF, 494 (20 anos) e
valor até 30 s. m.: contrato não solene e o CC, 179 (decadencial de 2 anos).
formal (exige a forma escrita);
- compra e venda de móvel: Material de Apoio - Direito Civil -
contrato não solene e informal (pode ser Flávio Tartuce - 05 (II).pdf
verbal). Tem prevalecido o art. 179, cf.
JDC 368 e REsp 1198907.
2. Elementos constitutivos da compra e Cabe a indagação sobre o que
venda significaria o começo do prazo definido
São três elementos: como “a contar da data da conclusão”.
- partes e consenso (consensus); Seria da escritura dou do registro?
- coisa (res); Segundo Tartuce, Giselda e MHD, seria
- preço (pretium). contado da escritura. Segundo o JDC,
545, o prazo é contado a partir do
2.1. Partes e consenso registro imobiliário, sendo a tese
As partes são vendedor e prevalente.
comprador. Devendo as partes serem
capazes sob pena de nulidade absoluta 2.2. Coisa (res)
ou relativa do contrato. É o objeto da compra e venda,
A sua vontade deve ser livre. devendo ser lícita, possível e
As partes devem ser legitimadas determinável, sob pena de nulidade
(legitimação significa capacidade absoluta do contrato (CC, 166, II).
especial). A coisa pode ser atual ou futura (=
Exemplos: venda sob encomenda, cf. CC, 483).
1) CC, 1647, I – venda de imóvel. “Art. 483. A compra e venda pode
Se casado for o vendedor, com exceção ter por objeto coisa atual ou futura. Neste
do regime da separação absoluta caso [de venda de coisa futura], ficará
sem efeito [ineficaz] o contrato se esta
(separação convencional), há não vier a existir, salvo se a intenção das
necessidade de outorga conjugal (uxória partes era de concluir contrato aleatório
– esposa ou marital – marido). A falta [emptio spei].”
de outorga gera a anulabilidade da

32
Ou seja, aqui seria o caso de se em moeda estrangeira, bem como para
pensar que se trataria de contrato nulo compensar a diferença entre o valor desta
e o da moeda nacional, excetuados os
por objeto impossível, mas a lei definiu casos previstos na legislação especial.”
que se trata de contrato ineficaz (o que é Temos o DL 857/69
uma pegadinha). regulamentando o tema.
Por coisa, entende-se bem Cuidado: o preço não pode ser
corpóreo ou bem material. A cessão expresso em moeda estrangeira ou em
onerosa de bens incorpóreos ou ouro, mas pode ser cotado dessas
imateriais não constitui compra e venda, formas, desde que conste o
mas cessão de direitos. Exemplo: correspondente em reais. Cf. CC, 486 e
contrato de cessão de direitos autorais. 487 – preço por cotação. Exemplo:
Obs.: venda a nom domino (venda constar na escritura de venda do imóvel
por quem não é dono ou venda de coisa o valor em Euros com o correspondente
alheia). Sempre houve polêmica se o valor do dia já em Reais.
caso seria de inexistência, nulidade ou “Art. 486. Também se poderá
ineficácia da venda. A jurisprudência deixar a fixação do preço à taxa de
anterior, seguindo Pontes de Miranda, mercado ou de bolsa, em certo e
entendia pela ineficácia (STJ, REsp determinado dia e lugar.
Art. 487. É lícito às partes fixar o
39110/MG e REsp 94.270/SC). A ideia preço em função de índices ou
de ineficácia foi adotada pelo art. 1268 parâmetros, desde que suscetíveis de
do CC para bens móveis, o que também objetiva determinação.”
deve incidir para os imóveis. Outras modalidades de preço:
“Art. 1.268. Feita por quem não 1) preço por arbitramento ou por
seja proprietário, a tradição [bens avaliação – fixado por um terceiro que
móveis] não aliena a propriedade, exceto
se a coisa, oferecida ao público, em tenha a confiança das partes (CC, 485).
leilão ou estabelecimento comercial, for Se o terceiro não aceitar a incumbência,
transferida em circunstâncias tais que, ao o contrato será ineficaz. Exemplo: preço
adquirente de boa-fé, como a qualquer fixado por um corretor de imóveis;
pessoa, o alienante se afigurar dono. “Art. 485. A fixação do preço
(...)” pode ser deixada ao arbítrio de terceiro,
Nesse sentido, cf. REsp 1473437/ que os contratantes logo designarem ou
GO. prometerem designar. Se o terceiro não
aceitar a incumbência, ficará sem efeito o
contrato, salvo quando acordarem os
2.3. Preço (pretium) contratantes designar outra pessoa.”
É a remuneração do contrato 2) preço tabelado, preço de
(contraprestação). costume e preço médio – CC, 488. É
O preço deve ser expresso em essa a ordem a ser seguida se as partes
moeda nacional corrente (reais) pelo não fixarem o preço (preço oficial;
valor nominal (cf. CC, 315, que dispõe depois preço habitual; depois a média);
o princípio do nominalismo). “Art. 488. Convencionada a
“Art. 315. As dívidas em dinheiro venda sem fixação de preço ou de
deverão ser pagas no vencimento, em critérios para a sua determinação, se não
moeda corrente e pelo valor nominal, houver tabelamento oficial, entende-se
salvo o disposto nos artigos que as partes se sujeitaram ao preço
subseqüentes.” corrente nas vendas habituais do
São nulas as estipulações de vendedor.
pagamento em moeda estrangeira ou em Parágrafo único. Na falta de
ouro, em regra (CC, 318). Exceção tem acordo, por ter havido diversidade de
preço, prevalecerá o termo médio.”
com exemplo a compra e venda
3) preço unilateral – CC, 489. É
internacional.
“Art. 318. São nulas as nula a compra e venda se o preço for
convenções de pagamento em ouro ou deixado ao arbítrio de apenas uma das

33
partes. Não tem muito sentido na - segundo Villaça, trata-se de ação
atualidade, quando prevalecem as adjudicatória.
compra e vendas de adesão (não há A tese mais seguida em concursos
pechincha). Para aproveitar o artigo, o é a tese de MHD. Tartuce concorda com
que se veda é o preço de cartel Villaça.
(Tartuce). O prazo de decadência, de 180
“Art. 489. Nulo é o contrato de dias, conta-se da ciência da venda,
compra e venda, quando se deixa ao segundo MHD e Tartuce (cf. RT
arbítrio exclusivo de uma das partes a
fixação do preço.”
543/144).
Trata-se de uma preferência legal,
3. Regras especiais da compra e venda com efeito real.
Regras especiais não significam o Preferência entre os preferentes:
“Art. 504. (...)
mesmo que cláusulas especiais da Parágrafo único. Sendo muitos os
compra e venda (no Rio de Janeiro condôminos, preferirá o que tiver
denominam estas de pacto adjeto à benfeitorias de maior valor e, na falta de
compra e venda). As regras especiais benfeitorias, o de quinhão maior. Se as
são implícitas, enquanto as cláusulas partes forem iguais, haverão a parte
vendida os comproprietários, que a
especiais devem ser expressas. quiserem, depositando previamente o
preço.”
3.1. Venda de bem condomínio (venda Assim, a preferência se dá:
de coisa comum) 1) condômino que tiver
CC, 504. A lei reconhece um benfeitorias de maior valor;
direito de preempção, preferência ou 2) condômino de maior quinhão;
prelação legal em favor do condômino 3) o condômino que depositar
de coisa indivisível (móvel ou imóvel), previamente o preço.
se o outro condômino pretender vendê-
la a terceiro. Essa preferência é em
igualdade de condições (“tanto por 3.2. Venda por medida, por extensão ou
tanto”). ad mensuram
“Art. 504. Não pode um Regra implícita na venda de
condômino em coisa indivisível vender a
sua parte a estranhos, se outro consorte a imóveis, em que a sua área não é
quiser, tanto por tanto. O condômino, a simplesmente enunciativa, ou seja,
quem não se der conhecimento da venda, trata-se de um fator relevante do
poderá, depositando o preço, haver para negócio. Exemplo: a venda de um
si a parte vendida a estranhos, se o apartamento por metro quadrado.
requerer no prazo de cento e oitenta dias,
sob pena de decadência.”
Há uma importante diferença
A lei menciona coisa indivisível, entre venda ad mensuram, em que a
mas o STJ aplica a regra também para área é relevante, e a venda ad corpus,
bem divisível, que se encontra em em que a área não é relevante
situação de indivisão (REsp (“simplesmente enunciativa”), i. é, o
1207129/MG). imóvel interessa de corpo inteiro.
O condômino que for preterido no Na venda ad mensuram, se faltar
seu direito poderá ingressar em juízo e, área, ou houver excesso, haverá um
depositando o preço da cota, haver a vício redibitório especial:
coisa para si (ação de preferência, que a) se faltar área – a lei considera
tem eficácia real). Sobre essa ação, há como tolerável, em regra, uma variação
duas correntes: de até 1/20 da área, equivalente a 5%. O
- segundo MHD, trata-se de ação STJ já entendeu que a cláusula de
anulatória; variação tolerável é abusiva quando
inserida em larga escala em contratos de

34
adesão e de consumo (REsp comprador o preço da coisa, as despesas
436853/DF). contratuais autorizadas, e as benfeitorias
De qualquer forma, se faltar área, necessárias.
o comprador pode pleitear (opções): Se o comprador não atender a esse
- complementação da área (ação direito, caberá a ação de resgate, que
ex empto); tem eficácia real contra um terceiro
- abatimento proporcional no adquirente.
preço (ação quanti minoris); “Art. 506. Se o comprador se
- resolução do contrato, com recusar a receber as quantias a que faz
jus, o vendedor, para exercer o direito de
devolução das quantias pagas, mais resgate, as depositará judicialmente.
despesas contratuais e perdas e danos Parágrafo único. Verificada a
(ação redibitória); insuficiência do depósito judicial, não
b) se houver excesso de área – o será o vendedor restituído no domínio da
vendedor prejudicado que não sabia da coisa, até e enquanto não for
integralmente pago o comprador.”
variação poderá ingressar em juízo (esta
Na ação de resgate, o vendedor
ação não possui nome próprio). Nessa
deve depositar judicialmente tais
ação, o comprador terá duas opções:
valores.
- completar o preço da área; ou “Art. 507. O direito de retrato,
- devolver o excesso. que é cessível e transmissível a herdeiros
O prazo decadencial para todas as e legatários, poderá ser exercido contra o
ações acima tratadas é de 1 (um) ano, a terceiro adquirente.”
contar do registro do título. Assim, trata-se de ação com
Se o imóvel for invadido, o prazo eficácia real. A cláusula de retrovenda é
será impedido ou suspenso (exceção ao transmissível inter vivos (cessão) e
CC, 207). mortis causa. Assim, não é
personalíssima.
4. Cláusulas especiais da compra e Por fim, como observa José
venda Ozório de Azevedo Jr., na prática a
retrovenda geralmente é utilizada de
4.1. Cláusula de retrovenda, retrato ou forma simulada para esconder negócios
recompra usurários, especialmente agiotagem.
CC, 505 a 508. É a cláusula Nesse caso, há dupla nulidade, tanto
inserida na venda de imóveis que dá ao pelos juros abusivos quanto pela
vendedor um direito potestativo de simulação. Cf. REsp 1076571/SP e
recomprar o bem no prazo máximo REsp 285296/MT.
decadencial de três anos.
“Art. 505. O vendedor de coisa 4.2. Venda a contento (ad gustum) e
imóvel pode reservar-se o direito de venda sujeita a prova
recobrá-la no prazo máximo de CC, 509 a 512. Cláusula inserida
decadência de três anos, restituindo o
preço recebido e reembolsando as na venda de móveis e imóveis que
despesas do comprador, inclusive as que, condiciona a concretização da venda,
durante o período de resgate, se quanto à eficácia à aprovação pelo
efetuaram com a sua autorização escrita, comprador.
ou para a realização de benfeitorias É uma venda sob condição
necessárias.”
suspensiva.
A propriedade do comprador é, “Art. 509. A venda feita a
portanto, resolúvel. Trata-se de uma contento do comprador entende-se
sujeição ao direito potestativo do realizada sob condição suspensiva, ainda
vendedor. que a coisa lhe tenha sido entregue; e não
Para exercer tal direito, o se reputará perfeita, enquanto o
adquirente não manifestar seu agrado.”
vendedor originário deve pagar ao

35
É tratada como cláusula especial vendedor. Na preferência, a iniciativa de
pelo CC. Porém, na prática, revela-se na venda é do comprador.
grande maioria das vezes, como regra O art. 513, p. ú., prevê prazos de
implícita na venda de móveis. extensão/cobertura da venda, contados
Exemplos: vinhos, perfumes, alimentos da data da venda originária.
e automóveis (test drive). Esse prazo não poderá exceder a
Venda a Contento Venda a prova 180 dias tratando-se de bem móvel; e de
Os efeitos são os mesmos, tratando-se de uma 2 (dois) anos se for imóvel. São prazos
venda sob condição suspensiva. São
contados da venda originária!
equiparados ao comodatário.
A coisa ainda não é A coisa já é Os prazos legais não podem ser
conhecida. Exemplo: conhecida. aumentados, apenas diminuídos.
tomar o vinho pela “Art. 516. Inexistindo prazo
primeira vez. estipulado, o direito de preempção
“Art. 512. Não havendo prazo caducará, se a coisa for móvel, não se
estipulado para a declaração do exercendo nos três dias, e, se for imóvel,
comprador, o vendedor terá direito de não se exercendo nos sessenta dias
intimá-lo, judicial ou subseqüentes à data em que o comprador
extrajudicialmente, para que o faça em tiver notificado o vendedor.”
prazo improrrogável.” O art. 516 prevê outros prazos
Se houver prazo para decadenciais, para manifestação do
manifestação e o comprador não o faz, vendedor quanto à preferência, após ser
caberá ação de reintegração de posse notificado pelo comprador:
pelo vendedor (já que há equiparação ao - 3 (três) dias para móveis;
comodato). Não havendo prazo, antes - 60 (sessenta) dias para imóveis.
da ação o vendedor deve notificar o O que se entende é que são prazos
comprador, judicial ou mínimos, que podem ser aumentados (o
extrajudicialmente para que se oposto aos prazos do art. 513).
manifeste em prazo improrrogável Cuidado. Se o vendedor for
(mora ex personae). preterido no seu direito de preferência
convencional? Cf. art. 518, não cabe
4. Cláusula de preempção, preferência adjudicação da coisa, ao contrário do
ou prelação convencional que ocorre na preempção legal. Na
CC, 513 a 520. Cláusula inserida preempção convencional, os efeitos são
na venda de móveis ou imóveis que dá obrigacionais, respondendo o
ao vendedor um direito de preferência, comprador originário e terceiro
em igualdade de condições, se o adquirente de má-fé por perdas e danos.
comprador pretender vender a coisa a “Art. 518. Responderá por perdas
terceiro por determinado tempo. e danos o comprador, se alienar a coisa
“Art. 513. A preempção, ou sem ter dado ao vendedor ciência do
preferência, impõe ao comprador a preço e das vantagens que por ela lhe
obrigação de oferecer ao vendedor a oferecem. Responderá solidariamente o
coisa que aquele vai vender, ou dar em adquirente, se tiver procedido de má-fé.”
pagamento, para que este use de seu Assim, na preempção legal, os
direito de prelação na compra, tanto por efeitos são reais, erga omnes, cabendo
tanto. adjudicação. Quando se trata da
Parágrafo único. O prazo para preempção convencional, os efeitos são
exercer o direito de preferência não
poderá exceder a cento e oitenta dias, se
obrigacionais, inter partes, questão que
a coisa for móvel, ou a dois anos, se se resolve com perdas e danos.
imóvel.” Há polêmica se a cláusula for
Não confundir: na retrovenda registra haverá eficácia erga omnes.
(acima), a iniciativa de recompra é do Tartuce entende que sim, como o
contrato de locação registrado.

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“Art. 520. O direito de preferência Art. 525. O vendedor somente
não se pode ceder nem passa aos poderá executar a cláusula de reserva de
herdeiros.” domínio após constituir o comprador em
Assim, cf. CC, 520, trata-se de mora, mediante protesto do título ou
cláusula personalíssima (intuito interpelação judicial.
Art. 526. Verificada a mora do
personae), intransmissível, enquanto a comprador, poderá o vendedor mover
cláusula de retrovenda do CC, 507, é contra ele a competente ação de cobrança
transmissível (inter vivos e causa das prestações vencidas e vincendas e o
mortis). mais que lhe for devido; ou poderá
recuperar a posse da coisa vendida.
4.4. Cláusula de venda com reserva de Havendo inadimplemento por
domínio parte do comprador, o vendedor terá as
CC, 521 a 528. Cláusula inserida seguintes opções (CC, 526):
na venda de móveis infungíveis pela 1) cobrar as parcelas vencidas e
qual o vendedor mantêm a propriedade vincendas (ação de cobrança em sentido
resolúvel do bem, tendo o comprador amplo);
posse direta. Se o comprador paga 2) recuperar a posse da coisa
integralmente o preço, adquire a vendida.
propriedade plena. No CPC/73, seria a ação de busca
O automóvel é considerado bem e apreensão (artigos 1070 e 1071). Estes
infungível para direito civil por conta do dispositivos não foram repetidos no
número de chassi. CPC atual. Para Didier e Assumpção
“Art. 521. Na venda de coisa Neves, a ação cabível é a de
móvel, pode o vendedor reservar para si procedimento comum sujeita a tutela
a propriedade, até que o preço esteja provisória. Para Tartuce, com base no
integralmente pago. REsp 1056837/RN, cabe reintegração
Art. 522. A cláusula de reserva de
domínio será estipulada por escrito e de posse, sujeita a liminar (a ausência
depende de registro no domicílio do do procedimento especial faz retornar
comprador para valer [na verdade, ter ao gênero das ações possessórias).
eficácia] contra terceiros.
Temos aqui o requisito de Material de Apoio - Direito Civil -
validade: a cláusula deve ser estipulada Flávio Tartuce - 06.pdf
por escrito (formal). O fator de eficácia Material do Professor - Direito Civil -
erga omnes (contra terceiros) é o Flávio Tartuce - Tabela aula 6 (II).pdf
registro no cartório de títulos e Material de Apoio - REsp
documentos do domicílio do 112254SP.pdf
comprador. Material de Apoio - REsp
Art. 523. Não pode ser objeto de 285421SP.pdf
venda com reserva de domínio a coisa
insuscetível de caracterização perfeita,
Observações:
para estremá-la de outras congêneres 1) para exercer tais opções, o
[bem infungível. Exemplo: automóveis]. vendedor deve constituir em mora o
Na dúvida, decide-se a favor do terceiro comprador (mora ex persona), mediante
adquirente de boa-fé. protesto do título ou interpelação
Art. 524. A transferência de
propriedade ao comprador dá-se no
judicial (CC, 525, ou seja, mesmo
momento em que o preço esteja constando cláusula resolutiva expressa).
integralmente pago. Todavia, pelos 2) aplica-se a teoria do
riscos da coisa responde o comprador, a adimplemento substancial, ou seja, se o
partir de quando lhe foi entregue [ou contrato tiver sido quase todo cumprido
seja, é exceção à res perit domini, i. é,
res perit emptoris – “ a coisa perece para
não caberá a ação possessória. Cf. STJ,
o comprador”]. AgRg no Ag 607406/RS, j. 2004;

37
3) no caso de retomada da coisa, é doação das vagas de garagem. Contudo,
facultado ao vendedor reter as há opinião em contrário, que pela
prestações pagas para cobrir a função social da propriedade e de que o
depreciação da coisa, as despesas acessório segue o principal
contratuais e o que mais lhe for devido. (funcionalidade do apartamento),
O excedente será devolvido e o que deveriam fazer parte.
faltar lhe será cobrado nos termos da lei A doação tem dois elementos
processual (CC, 527). essenciais:
É nula a cláusula de perda de - intenção de doar (animus
todas as parcelas pagas (CDC, 53, ou donandi);
CC, 421 – neste último caso, porque - aceitação do donatário. Esta,
viola a função social do contrato). segundo o CC, não precisa ser expressa,
O percentual de retenção é de podendo ser tácita (CC, 539).
25%, mas julgados mais recentes vêm “Art. 539. O doador pode fixar
adotando 10%. prazo ao donatário, para declarar se
Art. 527. Na segunda hipótese do aceita ou não a liberalidade. Desde que o
artigo antecedente, é facultado ao donatário, ciente do prazo, não faça,
vendedor reter as prestações pagas até o dentro dele, a declaração, entender-se-á
necessário para cobrir a depreciação da que aceitou, se a doação não for sujeita
coisa, as despesas feitas e o mais que de a encargo.”
direito lhe for devido. O excedente será Trata-se de uma regra de exceção
devolvido ao comprador; e o que faltar ao CC, 1111, pois aqui, “quem cala
lhe será cobrado, tudo na forma da lei consente”.
processual. Natureza jurídica:
Art. 528. Se o vendedor receber o
pagamento à vista, ou, posteriormente,
a) contrato unilateral, em regra –
mediante financiamento de instituição do traz deveres para apenas uma das partes
mercado de capitais, a esta caberá (doador).
exercer os direitos e ações decorrentes do Exceção há na doação modal ou
contrato, a benefício de qualquer outro. com encargo (“para que”). São duas
A operação financeira e a respectiva
ciência do comprador constarão do
correntes: para alguns, o encargo é
registro do contrato.” ônus; para outros, é dever. No primeiro
***** caso, o contrato seria unilateral
imperfeito (MHD, Stolze, Tartuce); no
segundo caso, acaba se configurando o
contrato bilateral (Nery).
CONTRATO DE DOAÇÃO b) contrato gratuito, em regra –
(CC, 538/564) como exceção, admite-se a doação
onerosa (exemplo: doação modal);
c) contrato consensual – tem
1. Conceito e natureza jurídica aperfeiçoamento com a manifestação de
Pela doação, o doador, por ato de vontade das partes (MHD e Orlando
liberalidade, transfere do seu Gomes);
patrimônio, bens ou vantagens ao d) contrato comutativo – a
donatário, sem qualquer remuneração. prestação já é previamente conhecida
Como ato de liberalidade trata-se pelas partes;
de um contrato benévolo ou benéfico e) quanto às formalidades/
que, como tal, não admite interpretação solenidades (CC, 107, 108 e 541):
extensiva (CC, 114). Exemplo: doação
de um apartamento, cujas vagas de 1
Art. 111. O silêncio importa anuência, quando
garagem possuem matrícula própria. A as circunstâncias ou os usos o autorizarem, e
doação do apartamento não significa a não for necessária a declaração de vontade
expressa.

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“Art. 541. A doação far-se-á por “Art. 540. A doação feita em
escritura pública ou instrumento contemplação do merecimento do
particular. donatário não perde o caráter de
Parágrafo único. A doação verbal liberalidade, como não o perde a doação
será válida, se, versando sobre bens remuneratória, ou a gravada, no
móveis e de pequeno valor, se lhe seguir excedente ao valor dos serviços
incontinenti a tradição.” remunerados ou ao encargo imposto.”
- doação de imóvel com valor Exemplo: dou um carro para Ana
superior a 30 s. m. – trata-se de contrato Carolina pois sou seu fã.
formal e solene (por escritura pública);
- doação de imóvel com valor 2.3. Doação a nascituro (CC, 542)
inferior a 30 s. m. – contrato formal e Nascituro é o concebido mais
não solene; ainda não nascido.
- doação de móvel – contrato Para valer, depende da aceitação
formal e não solene (exige apenas a do seu representante legal.
forma escrita). Observação: só se Para doutrina majoritária, é uma
admite doação verbal (informal) no caso doação condicional pois, para gerar
de bem móvel de pequeno valor se logo efeitos, depende do seu nascimento com
após a declaração ocorrer a entrega do vida (MHD, CRB).
bem (tradição). Essa doação leva o “Art. 542. A doação feita ao
nome de “doação manual” segundo a nascituro valerá, sendo aceita pelo seu
representante legal.”
doutrina.
Para saber o que é bem móvel de
2.4. Doação sob forma de subvenção
pequeno valor, deve-se verificar o
periódica (CC, 545)
patrimônio do doador (antigo
Trata-se de uma doação de rendas
entendimento doutrinário. Cf. tb. STJ,
de trato sucessivo, que não pode
REsp 155240/RJ).
ultrapassar a vida do doador e/ou
donatário.
2. Modalidades de doação e seus efeitos
Exemplo: dou uma renda de
R$5000,00 mensais para o meu amigo
2.1. Doação remuneratória (CC, 540)
Daniel Neves.
Não se trata propriamente de um “Art. 545. A doação em forma de
ato de liberalidade, mas de uma subvenção periódica ao beneficiado
remuneração por um serviço prestado extingue-se morrendo o doador, salvo se
(no máximo, uma doação onerosa). este outra coisa dispuser, mas não poderá
Há liberalidade somente naquilo ultrapassar a vida do donatário.”
que exceder o serviço prestado. O doador pode onerar seus
“Art. 540. A doação feita em herdeiros com a doação de rendas, até
contemplação do merecimento do os limites da herança (exceção à regra
donatário não perde o caráter de do art. 426 do CC). No último caso, é
liberalidade, como não o perde a doação extinta a doação com a morte do
remuneratória, ou a gravada, no
excedente ao valor dos serviços donatário (contrato personalíssimo ou
remunerados ou ao encargo imposto.” intuito personae).
Exemplo: dou um carro para o
médico que salvou meu filho. 2.5. Doação propter nuptias (CC, 546)
Aquela realizada em
2.2. Doação contemplativa ou meritória contemplação de um casamento futuro.
(CC, 540) “Art. 546. A doação feita em
contemplação de casamento futuro com
É realizada em contemplação do certa e determinada pessoa, quer pelos
merecimento do donatário. Essa nubentes entre si, quer por terceiro a um
representa ato de liberalidade (doação deles, a ambos, ou aos filhos que, de
pura). futuro, houverem um do outro, não pode

39
ser impugnada por falta de aceitação, e Apresenta-se com dois ou mais
só ficará sem efeito se o casamento não donatários, havendo presunção relativa
se realizar.”
de divisão igualitária entre eles.
Pode ser entre os cônjuges entre
Em regra, não há direito de
si; de um terceiro para o(s) cônjuge(s);
acrescer entre donatários, salvo se
ou para o filho que nascer da união
forem casados (direito de acrescer
(prole eventual ou concepturo).
legal).
Não se confunde com o presente “Art. 551. Salvo declaração em
de casamento, pois neste há doação pura contrário, a doação em comum a mais de
(primeiro, vem a declaração de uma pessoa entende-se distribuída entre
casamento e, depois a doação). Na elas por igual.
doação propter nuptias, vem primeiro a Parágrafo único. Se os donatários,
em tal caso, forem marido e mulher,
doação e, em segundo, o casamento. subsistirá na totalidade a doação para o
cônjuge sobrevivo.”
2.6. Doação de ascendente para
descendente e doação entre cônjuges 2.9. Doação inoficiosa (CC, 549)
(CC, 544) É aquela que excede a proteção da
Nos dois casos haverá legítima (50% do patrimônio do
adiantamento da herança, da legítima, doador). Haverá nulidade absoluta
que é a cota dos herdeiros necessários. parcial naquilo que exceder os 50%.
Como há adiantamento da Cf. REsp 112254/SP que aplicou
herança, não há necessidade de qualquer essa regra.
autorização. “Art. 549. Nula é também a
Em regra, o bem doado deve ser doação quanto à parte que exceder à de
colacionado pelo donatário quando do que o doador, no momento da
liberalidade, poderia dispor em
falecimento do doador, sob pena de testamento.”
sonegados (perda do direito ao bem). Deve-se levar em conta o
Porém, o doador pode dispensar o momento da doação.
donatário da colação, nos limites da A ação de nulidade é denominada
legítima, beneficiando um herdeiro mais ação de redução, podendo ser proposta
do que outro(s). mesmo quando vivo o doador.
Apesar de ser o caso de nulidade,
2.7. Doação com cláusula de reversão e por isso seria imprescritível (Tartuce),
(CC, 547) o STJ entende que a ação somente pode
“Art. 547. O doador pode
estipular que os bens doados voltem ao ser proposta pelo interessado
seu patrimônio, se sobreviver ao patrimonial no prazo de 10 (dez) anos,
donatário. prazo geral de prescrição (REsp
Parágrafo único. Não prevalece 1321998). Assim, trata-se de uma
cláusula de reversão em favor de nulidade especial, por ser patrimonial.
terceiro.”
O doador pode estipular que os
2.10. Doação universal (CC, 548)
bens voltem ao seu patrimônio se
É nula a doação de todos os bens
sobreviver ao donatário (cláusula de
ser a reserva do mínimo para
retorno).
sobrevivência do doador (nulidade
É uma cláusula personalíssima
absoluta toal). O doador até pode doar
(intuito personae), que não pode ser
tudo o que tenha, desde que faça reserva
estipulada em benefício de terceiro, pela
de usufruto ou de rendas. O objetivo é a
vedação do art. 426 (“doação
proteção do patrimônio mínimo. Cf.
sucessiva”).
REsp 285.421/SP.
“Art. 548. É nula a doação de
2.8. Doação conjuntiva (CC, 551) todos os bens sem reserva de parte, ou

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renda suficiente para a subsistência do - atentado contra a vida ou
doador.” homicídio doloso;
- ofensa física;
2.11. Doação a entidade futura (CC, - injúria grave ou calúnia;
554) - abandono de alimentos.
É o caso de doação de uma pessoa “Art. 557. Podem ser revogadas
jurídica que ainda será constituída. por ingratidão as doações:
Essa doação caduca se, no prazo I - se o donatário atentou contra a
decadencial de 2 (dois) anos a entidade vida do doador ou cometeu crime de
homicídio doloso contra ele;
não for constituída regularmente. II - se cometeu contra ele ofensa
física;
“Art. 554. A doação a entidade III - se o injuriou gravemente ou o
futura caducará se, em dois anos, esta caluniou;
não estiver constituída regularmente.” IV - se, podendo ministrá-los,
recusou ao doador os alimentos de que
2.12. Promessa de doação este necessitava.”
Sempre houve debate sobre a Segundo JDC, 33, este rol é
possibilidade de sua exigência. Temos exemplificativo. “Não há limite para a
duas correntes: ingratidão humana”, cf.
1) favorável – baseada na boa-fé e Stolze/Pamplona.
nas justas expectativas (WBM e STJ – O atentado pode ser contra um
cf. EREsp 125895/SP); familiar do doador (CC, 558).
2) contrária – não se pode obrigar “Art. 558. Pode ocorrer também a
revogação quando o ofendido, nos casos
uma liberalidade (CMSP e STJ – cf. do artigo anterior, for o cônjuge,
REsp 730626/SP). ascendente, descendente, ainda que
Atualmente prevalece a primeira adotivo, ou irmão do doador.”
corrente, inclusive com apoio no JDC, A revogação por ingratidão é
549 “A promessa de doação no âmbito irrenunciável, por envolver ordem
da transação constitui obrigação pública (CC, 556).
positiva e perde o caráter de liberalidade A revogação não pode prejudicar
previsto no art. 538 do Código Civil.” terceiros de boa-fé (resolve-se por
Seu fundamento estaria no CC, 466 perdas e danos).
(promessa unilateral de contrato). Outro “Art. 556. Não se pode renunciar
fundamento constaria do CPC/73, 466- antecipadamente o direito de revogar a
liberalidade por ingratidão do donatário.”
B, mas ela não reproduzida no
Algumas doações são irrevogáveis
CPC/2015.
por ingratidão, diante de sua
onerosidade (CC, 564):
3. Revogação da doação
- remuneratórias;
Revogação é forma de resilição
- com encargo já cumprido;
unilateral (CC, 473). Cabe ao doador
- propter nuptias;
revogar.
- obrigação natural (ex.: gorjetas).
A resilição unilateral possui duas “Art. 564. Não se revogam por
hipóteses (CC, 555): ingratidão:
- ingratidão do donatário; I - as doações puramente
- inexecução do encargo. remuneratórias;
“Art. 555. A doação pode ser II - as oneradas com encargo já
revogada por ingratidão do donatário, ou cumprido;
por inexecução do encargo.” III - as que se fizerem em
cumprimento de obrigação natural;
IV - as feitas para determinado
3.1. Ingratidão do donatário
casamento.”
O art. 557 prevê um rol de atos de
atentado do donatário contra o doador:
41
3.2. Inexecução do encargo qualquer relação de trabalho, cf. art.
Geralmente o contrato prevê um 114, I da CRFB. Essa relação de
prazo para essa execução. trabalho é um conceito mais amplo que
Se não for cumprido, cabe ação de relação de emprego.
revogação de imediato (mora ex re). Boa parte da doutrina trabalhista
Não havendo prazo, o doador entende que a previsão constitucional
deve notificar judicialmente (mora ex abrange os contratos de prestação de
personae) o donatário para que o faça serviço e de empreitada, pois uma parte
em prazo razoável (art. 562). Após isso negocial exerce uma atividade
caberá ação de revogação. laborativa de forma individual (cf., por
Polêmica! Prazo para ingresso da todos, Estevão Mallet, titular da USP).
ação de revogação: Mas esse entendimento não
“Art. 559. A revogação por convenceu o STJ. Vejamos:
qualquer desses motivos deverá ser 1) CC 139818/SP, j. abril/2016
pleiteada dentro de um ano, a contar de
quando chegue ao conhecimento do
(contrato de prestação de serviços entre
doador o fato que a autorizar, e de ter sociedades empresárias não têm os
sido o donatário o seu autor.” requisitos do contrato de trabalho, daí
O prazo se aplica para a ausência de pessoalidade,
ingratidão e, nesse ponto, não há descaracterizando a relação trabalhista.
polêmica. Lide de índole eminentemente civil.
A polêmica está na inexecução do Competência da justiça comum
encargo, havendo duas correntes: estadual);
- na primeira corrente, o encargo é 2) CC 135.775/SP, j. abril/2016
ônus (unilateral imperfeito), gerando (ação de cobrança. Ausência de
um direito potestativo de resolver pessoalidade no cumprimento da
(prazo decadencial de um ano do art. obrigação. Descaracterização da relação
559), opinião de MHD, Tartuce, de trabalho. Competência da justiça
Stolze/Pamplona; comum estadual).
- na segunda corrente, o encargo é 3) CC 135721/RS, j.
dever (bilateral), haveria um direito fevereiro/2015: a justiça estadual deve
subjetivo, aplicando-se o prazo processar e julgar cobrança de
prescricional de dez anos do art. 205 do honorários de profissional liberal –
CC (STJ, 69682/MS; posição do Min. nesse caso o profissional prestava
Sanseverido). Está é provavelmente a serviço de planejamento financeiro.
posição a ser adotada em concurso. Obs.: STJ, 363: “Compete à justiça
estadual processar e julgar a ação de
Material complementar - Direito Civil - cobrança ajuizada por profissional
João Aguirre - Aula 07 (II).pdf liberal contra cliente”. TST: a cobrança
Material de Apoio - Direito Civil - João de honorários advocatícios (relação
Aguirre - Aula 07 (II).pdf advogado/cliente, e não
advogado/empregador) é da
competência da justiça comum estadual
(cf. RR 1110/2007.075.02.00.5, RR
PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS 2098/2007-037-12-00).
Cf. CDC, art. 3º, § 2º, “Serviço é
qualquer atividade fornecida no
1. Competência mercado de consumo, mediante
Com advento da EC n. 45/2004 remuneração, inclusive as de natureza
ampliou-se a competência da Justiça do bancária, financeira, de crédito e
Trabalho para processo e julgamento de securitária, salvo as decorrentes das

42
relações de caráter trabalhista.” Esse gratuita? Entendem que NÃO Roberto
tipo de contrato está fora da Senise Lisboa, Jones Figueiredo e
competência da Justiça do Trabalho. Tartuce (para este último, em primeiro
O critério está previsto no próprio lugar temos a proibição do trabalho
CC: escravo e, depois, se for gratuito deixa
“CAPÍTULO VII de ser prestação de serviço e passa a ser
Da Prestação de Serviço doação). Entendem que SIM Paulo
Art. 593. A prestação de serviço,
que não estiver sujeita às leis trabalhistas
Lobo, César Fiúza, pois seria a
ou a lei especial, reger-se-á pelas faculdade do prestador de serviço. Cf.
disposições deste Capítulo.” JDC, 541, “O contrato de prestação de
A relação de trabalho exige a serviço pode ser gratuito.”
pessoalidade, continuidade, 3) contrato consensual – pois
subordinação, dependência. aperfeiçoa-se com a manifestação da
O exemplo de lei especial é o vontade;
CDC, acima demonstrado. 4) contrato comutativo – as partes
Por fim, vale ressaltar o em sua celebração já tem ciência de
entendimento de Flávio Tartuce, que suas prestações;
elenca como critério o fato do prestador 5) contrato informal e não-solene
de serviço ser pessoa física, ensejando a – não enseja a forma escrita nem a
competência da Justiça do Trabalho, escritura pública. É valido o contrato
enquanto o prestador de serviço pessoa realizado de forma oral.
jurídica gera competência da Justiça
Comum Estadual. Atenção! Cuidado 4. Regras gerais
com a questão do profissional liberal. i) remuneração – é chamada de
preço ou salário. Salário, contudo, é
2. Conceito uma expressão que remete à relação de
É um negocio jurídico pelo qual emprego, mas o CC se utilizada da
uma pessoa compromete-se a realizar expressão salário.
determinada atividade com conteúdo Seu fundamento é a proibição do
lícito, no interesse de outra pessoa e enriquecimento sem causa, injustiça
mediante remuneração. social e nem onerosidade excessiva
Os sujeitos são: (função social do contrato em sua
1) prestador – aquele que se eficácia interna). Cf. JDC, 360: “O
compromete a realizar a atividade; princípio da função social dos
2) tomador – aquele para quem a contratos também pode ter eficácia
atividade será realizada. interna entre as partes contratantes.”
CC, 597: “A retribuição pagar-
3. Natureza jurídica se-á depois de prestado o serviço, se,
1) contrato bilateral – estabelece o por convenção, ou costume, não houver
sinalagma, i. é, obrigações para ambas de ser adiantada, ou paga em
partes, e o prestador exerce a atividade prestações.” Ou seja, a regra é que
– devedor do serviço – enquanto credor remuneração seja paga depois da
da remuneração, com o tomador sendo prestação do serviço.
credor do serviço e devedor da Se a forma de pagamento produzir
remuneração; uma situação injusta o contrato
2) contrato oneroso – cf. art. 594, merecerá revisão por onerosidade
há previsão que o mesmo se dá excessiva.
mediante remuneração. DICA: cf. lembra José Fernando
Controvérsia da doutrina: é Simão temos 1) art. 478, sobre a
possível a prestação de serviços resolução por onerosidade excessiva; e

43
2) art. 317 sobre a revisão. Vale relativa (CC, 164), em que temos dois
lembrar que em Direito Civil, é negócios:
necessário demonstrar que o - negócio jurídico aparente
acontecimento era extraordinário e (simulado), que no nosso exemplo é a
imprevisível, ao contrário do que prestação de serviços, que é nulo; e
ocorre no Direito do Consumidor, - negócio jurídico oculto
onde basta demonstrar a onerosidade (dissimulado), que no nosso exemplo é
excessiva (ou seja, o CC adota a o contrato de trabalho, que produzirá
teoria da imprevisão, já o CDC não a efeitos.
adota).
Atenção! No REsp 1117137/RS 5. Extinção da prestação de serviços
foi expresso que a onerosidade i) contrato por prazo
excessiva deve ser devidamente indeterminado – CC, 599: não havendo
provada. O caso foi de um contrato de prazo estipulado, nem se podendo
prestação de serviços advocatícios que inferir da natureza do contrato, ou do
não envolve relação de trabalho e em costume do lugar, qualquer das partes, a
que não se aplica o CDC. seu arbítrio, mediante prévio aviso,
pode resolver o contrato. Ou seja, é a
ii) prazo – segundo o art. 598, não resilição unilateral, e corresponde a um
se poderá convencionar o contrato por direito potestativo (art. 473). Os prazos
mais de 4 anos. Para MHD, havendo são 8 (oito) dias, se mensalmente pago o
prazo superior a 4 (quatro) anos o salário; 4 (quatro) dias se ajustado por
contrato será reputado extinto apenas semana ou quinzena; na véspera, se
quanto ao excedente (princípio da contratado por menos de 7 (sete) dias.
conservação do negócio jurídico). Observações:
Pergunta-se: esse prazo de 4 1) REsp 1130307/RJ – trata-se de
(quatro) anos aplica-se às pessoas resilição unilateral na prestação de
jurídicas? A maior parte da doutrina serviços;
entende que sim, pois se trata de 2) RMS 50838/RJ – a outorga de
preceito de ordem pública e não pode serviço funerário, de acordo com a
ser afastado pela vontade das partes legislação municipal, foi feita a título de
(Tartuce, MHD). Mas há o permissão, que se expressa pela
entendimento contrário, expresso na precariedade e extinguibilidade
JDCom, 32: “Nos contratos de (resilição unilateral).
prestação de serviços nos quais as 3) REsp 1.541.031/RJ -
partes contratantes são empresários e a precedentes do STJ no sentido de que o
função econômica do contrato está advogado tem direito ao arbitramento
relacionada com a exploração de judicial de honorários na hipótese de
atividade empresarial, as partes podem resilição unilateral do contrato por parte
pactuar prazo superior a quatro anos, do contratante.
dadas as especificidades da natureza do Pergunta. O que acontece se o
serviço a ser prestado, sem constituir prazo para notificação do art. 599, p. ú.,
violação do disposto no art. 598 do não for respeitado? Cabe indenização
Código Civil.” por perdas e danos. Cf. CLT, 487, §§ 1º
É comum a celebração desse e 2º.
contrato com o prestador pessoa jurídica ii) extinção do contrato por prazo
e o prazo superior a 4 (quatro) anos para determinado – se houver justa causa,
mascarar uma relação de trabalho. pode haver resolução por parte do
Nesse caso trata-se de uma simulação tomador ou do prestador.

44
a) extinção pelo prestador de desfeito, houvesse de caber durante
serviços – em regra não pode se dois anos.”
ausentar ou se despedir antes do prazo Os princípios aqui tratados são:
para conclusão da obra (ou seja, não - a tutela externa do crédito, que
cabe a resilição antes do prazo). permite responsabilizar terceiro que
Se o prestador de serviços se desrespeita o contrato, despreza sua
ausentar ou se despedir sem justa causa, existência ou a função social;
terá direito à remuneração vencida, mas - e também o princípio da boa-fé
deve pagar perdas e danos ao tomador; objetiva, porque o terceiro age em
b) extinção pelo tomador de abuso de direito, cf. art. 187 do CC.
serviços – o tomador despede o Cf. STJ:
prestador: 1) REsp 1316419/SP – caso Zeca
1) por justa causa: o prestador terá Pagodinho;
direito à remuneração vencida, mas terá 2) REsp 468062/CE – terceiro
que indenizar o tomador pelas perdas e cúmplice.
danos; “CAPÍTULO VII
b) demissão sem justa causa – o Da Prestação de Serviço
Art. 593. A prestação de serviço,
tomador será obrigado a pagar ao que não estiver sujeita às leis trabalhistas
prestador de serviço a retribuição ou a lei especial, reger-se-á pelas
vencida por inteiro, e por metade o que disposições deste Capítulo.
lhe caberia até o fim do contrato. Cf. Art. 594. Toda a espécie de
art. 603. serviço ou trabalho lícito, material ou
imaterial, pode ser contratada mediante
Cf. JDCom, 33, é possível se fixar retribuição.
uma multa diferente desta estabelecida Art. 595. No contrato de prestação
no art. 603: “Nos contratos de de serviço, quando qualquer das partes
prestação de serviços nos quais as não souber ler, nem escrever, o
partes contratantes são empresários e a instrumento poderá ser assinado a rogo e
subscrito por duas testemunhas.
função econômica do contrato está Art. 596. Não se tendo estipulado,
relacionada coma exploração de nem chegado a acordo as partes, fixar-se-
atividade empresarial, é lícito às partes á por arbitramento a retribuição, segundo
contratantes pactuarem, para a o costume do lugar, o tempo de serviço e
hipóteses de denúncia imotivada do sua qualidade.
Art. 597. A retribuição pagar-se-á
contrato, multas superiores àquelas
depois de prestado o serviço, se, por
previstas no art. 603 do Código Civil.”. convenção, ou costume, não houver de
Obs.: o art. 413 autoriza o juiz reduzir ser adiantada, ou paga em prestações.
equitativamente a multa pactuada em Art. 598. A prestação de serviço
contrato sempre que for excessiva, ou não se poderá convencionar por mais de
quatro anos, embora o contrato tenha
sempre que houver o cumprimento
por causa o pagamento de dívida de
parcial da obrigação. quem o presta, ou se destine à execução
Obs.: utiliza-se a CLT, 482 como de certa e determinada obra. Neste caso,
exemplos de justa causa. decorridos quatro anos, dar-se-á por
findo o contrato, ainda que não concluída
6. Sanção pelo aliciamento a obra.
Art. 599. Não havendo prazo
Cf. CC, 608. Refere-se ao dano estipulado, nem se podendo inferir da
material, não incluindo o dano moral natureza do contrato, ou do costume do
previsto na CRFB, 5º, V e X: “aquele lugar, qualquer das partes, a seu arbítrio,
que aliciar pessoas obrigadas em mediante prévio aviso, pode resolver o
contrato escrito a prestar serviço a contrato.
Parágrafo único. Dar-se-á o aviso:
outrem pagará a este a importância que
ao prestador de serviço, pelo ajuste

45
I - com antecedência de oito dias, proibição da prestação de serviço resultar
se o salário se houver fixado por tempo de lei de ordem pública.
de um mês, ou mais; Art. 607. O contrato de
II - com antecipação de quatro prestação de serviço acaba com a
dias, se o salário se tiver ajustado por morte de qualquer das partes.
semana, ou quinzena; Termina, ainda, pelo escoamento do
III - de véspera, quando se tenha prazo, pela conclusão da obra, pela
contratado por menos de sete dias. rescisão do contrato mediante aviso
Art. 600. Não se conta no prazo prévio, por inadimplemento de
do contrato o tempo em que o prestador qualquer das partes ou pela
de serviço, por culpa sua, deixou de impossibilidade da continuação do
servir. contrato, motivada por força maior.
Art. 601. Não sendo o prestador Art. 608. Aquele que aliciar
de serviço contratado para certo e pessoas obrigadas em contrato escrito a
determinado trabalho, entender-se-á que prestar serviço a outrem pagará a este a
se obrigou a todo e qualquer serviço importância que ao prestador de serviço,
compatível com as suas forças e pelo ajuste desfeito, houvesse de caber
condições. durante dois anos.
Art. 602. O prestador de serviço Art. 609. A alienação do prédio
contratado por tempo certo, ou por obra agrícola, onde a prestação dos serviços se
determinada, não se pode ausentar, ou opera, não importa a rescisão do
despedir, sem justa causa, antes de contrato, salvo ao prestador opção entre
preenchido o tempo, ou concluída a obra. continuá-lo com o adquirente da
Parágrafo único. Se se despedir propriedade ou com o primitivo
sem justa causa, terá direito à retribuição contratante.”
vencida, mas responderá por perdas e *****
danos. O mesmo dar-se-á, se despedido
por justa causa.
Art. 603. Se o prestador de
serviço for despedido sem justa causa, a
outra parte será obrigada a pagar-lhe por EMPREITADA
inteiro a retribuição vencida, e por (cf. material disponibilizado pelo
metade a que lhe tocaria de então ao professor)
termo legal do contrato.
Art. 604. Findo o contrato, o
prestador de serviço tem direito a exigir
da outra parte a declaração de que o Material de Apoio - Direito Civil -
contrato está findo. Igual direito lhe Flavio Tartuce - Aula 01 - Online
cabe, se for despedido sem justa causa, (II).pdf
ou se tiver havido motivo justo para
deixar o serviço.
Material do Professor - Direito Civil -
Art. 605. Nem aquele a quem os Flavio Tartuce - Aula 01 Online.pdf
serviços são prestados, poderá transferir
a outrem o direito aos serviços ajustados, (assistir)
nem o prestador de serviços, sem
aprazimento da outra parte, dar substituto
Material de Apoio - Direito Civil -
que os preste.
Art. 606. Se o serviço for prestado Flávio Tartuce - 08 (II).pdf
por quem não possua título de
habilitação, ou não satisfaça requisitos DIREITO DAS COISAS
outros estabelecidos em lei, não poderá (CC, 1196 a 1510)
quem os prestou cobrar a retribuição
normalmente correspondente ao trabalho
executado. Mas se deste resultar 1. Introdução. Direito das Coisas
benefício para a outra parte, o juiz Alguns autores e instituições se
atribuirá a quem o prestou uma utilizam da expressão direitos reais, que
compensação razoável, desde que tenha não expressa bem o conteúdo da
agido com boa-fé. matéria, já que aqui também se trata da
Parágrafo único. Não se aplica a
segunda parte deste artigo, quando a posse.

46
Direito das Coisas é o ramo do da matéria seria uma relação entre
Direito Civil (Livro do CC/2002) que pessoas, intermediada por uma coisa.
tem por objeto as relações de domínio, Porém, há uma tendência de volta à
fático ou jurídico, que uma pessoa última teoria, através de uma
exerce sobre uma coisa. aproximação entre os direitos reais e os
O que é a relação de domínio? pessoais.
Um sujeito ativo exerce domínio sobre Na doutrina, há autores que se
uma coisa, que pode ser fático (posse) utilizam da expressão “Direito das
ou jurídico (propriedade) e que tem, Coisas” (Beviláqua, MHD, CRG, Paulo
como sujeito passivo, toda a Lobo, WBM, Silvio Rodrigues, Marco
coletividade, ou seja, um sujeito passivo Aurélio Bezerra de Mello, Tartuce etc.).
universal. Resulta que os efeitos dessa Utilizam “Direitos Reais” CMSP,
relação são erga omnes. Essa relação de Orlando Gomes, Venosa e
domínio demonstra a Teoria realista Chaves/Rosenvald. O CC adotou a
ou clássica. organização pela qual o Direito das
O termo coisa significa bem Coisas abrange posse e direitos reais.
corpóreo ou material. Direitos reais significa um
Segundo os civilistas, e pelo que conjunto de institutos relacionados à
consta do CC/2002, não existe posse ou propriedade, plena ou restrita. Os
propriedade sobre bens incorpóreos ou direitos reais podem ser:
imateriais. Assim, não existe - sobre coisa própria: propriedade
“propriedade” intelectual, mas plena (art. 1225);
corretamente, “direitos” intelectuais, a - sobre coisa alheia: direitos reais
exemplo dos direitos de autor. Nesse de gozo ou fruição (superfície,
caso, essa expressão “propriedade servidões, usufruto, uso, habitação,
intelecetual”, corrente em Direito concessão de uso especial para fins de
Empresarial, não tem lugar em Direito moradia, e concessão de direito real de
Civil. uso); direito real de aquisição (direito
* O grande nome nesse campo é José de do promitente comprador do imóvel –
Oliveira Ascensão. Cf. na internet: estudado em contratos como
APDI – Associação Portuguesa de compromisso de compra e venda de
Direito Intelectual imóvel registrado na matrícula do
Assim é que não existe compra e imóvel); e direitos reais de garantia
venda de bens incorpóreos, mas há, sim, (penhor, hipoteca, anticrese).
cessão de direitos de autor. Os dois últimos direitos reais
Nesse sentido, STJ, 228: “É (incisos XI e XII) são concessões
inadmissível o interdito proibitório especiais feitas pelo poder Público. O
para a proteção de direito autoral.” objetivo de sua inclusão no CC/2002 foi
Segundo os precedentes da sumular, não de “regularização” de áreas favelizadas
cabe ação possessória para proteger que, muitas vezes, estão em áreas
direito autoral, pois não existe posse públicas não sujeitas a usucapião,
nesse caso. dentro de programas como PAC.
A matéria de direito autoral é *Sobre os incisos XI e XII o professor
regulada por Lei específica (L9610/98). os tratou como carcaças jurídicas, tendo
No esquema anterior explica a em vista que faziam parte de programas
teoria clássica ou realista ou clássica, governamentais que, depois do
segundo a qual a essência do Direito das impeachment, tendem a cair em desuso,
Coisas é uma relação entre pessoa e pois eram programas relacionados a
coisa. Foi superada a teoria regularização fundiária dentro de
personalista, segundo a qual a essência

47
programas como Minha Casa Minha (CC, 425);
Vida. 4) a coisa responde; 4) o patrimônio
responde;
O rol do art. 1225 do CC é
5) tendem à 5) tendem a ser
taxativo (numerus clausus) ou permanência; transitórios;
exemplificativo (numerus apertus)? Na 6) tidos como 6) relativos (efeitos
visão clássica, que ainda prevalece, o absolutos (efeitos inter partes).
rol é taxativo (princípio da taxatividade erga omnis);
dos direitos reais), cf. Orlando Gomes, Como aponta a doutrina
HMD, Silvio Venosa, Carlos Roberto contemporânea, há uma tendência de
Gonçalves etc. aproximação entre os direitos reais e
Porém, cresce na doutrina a pessoais, a colocar a tabela anterior em
afirmação de que o rol é xeque. Trata-se de um retorno à teoria
exemplificativo. Nessa corrente, temos personalista. Luciando de Camargo
duas posições: Penteado demonstra uma tendência de
- de que não há taxatividade, mas contratualização da matéria (“Contratos
tipicidade (necessidade de previsão em de Direito das Coisas”). Ou seja, a
lei). Tartuce e Tepedino seguem essa divisão expressa nesse quadro é ainda
corrente. Exemplos são: 1) alienação prevalente na doutrina e jurisprudência
fiduciária em garantia (DL 911/69, bens (teoria realista), mas há tendência de
móveis; L9514/97, bens imóveis); 2) aproximação (teoria personalista).
legitimação da posse (L11977/2009, art. Exemplos:
59, que é tido como direito real). 1) para alguns autores, como
Também a legitimação da posse Chaves e Rosenvald o princípio da
agrária é direito real. autonomia privada também é o mais
- não há taxatividade nem relevante dos Direitos Reais, e não mais
tipicidade, ou seja, a autonomia privada o princípio da publicidade;
pode criar novos direitos reais. Posição 2) há uma forte tendência em se
de Cristiano Chaves e Nelson afirmar que o rol dos direitos reais não é
Rosenvald. O exemplo dado pelos taxativo, mas exemplificativo;
autores é o time sharing (ou 3) nem sempre o direito real será
multipropriedade compartilhada), permanente. Exemplos: condomínio
utilizada em empreendimentos de lazer. comum, que ninguém quer manter;
Cf. STJ, REsp 1546165/SP, que tratou penhor, hipoteca e alienação fiduciária
do time sharing como direito real, mas tendem à extinção. Assim, também,
disse que se trata de taxatividade. nem sempre o contrato será transitório,
como no contrato cativo de longa
2. Diferenças entre os direitos reais e os duração (“casamento contratual”, como
direitos pessoais patrimoniais denominados por Claudia Lima
Cf. quadro comparativo a seguir: Marques), como ordinário nos contratos
DIREITOS DIREITOS de plano de saúde e nos contratos de
REAIS PESSOAIS seguro de vida.
(“propriedade”) PATRIMONIAIS 4) nem sempre o direito real gera
(“contrato”)
1) entre sujeito ativo e 1) temos sujeito ativo
efeitos erga omnes. Exemplo: STJ, 308
sujeito passivo (credor) e passivo – a hipoteca firmada entre a construtora
universal temos a (devedor) e o banco não geral efeitos perante
relação de domínio; terceiros adquirentes do imóvel, que
2) princípio da 2) princípio da estejam de boa-fé (a boa-fé objetiva
publicidade (registro autonomia privada é o
vence a hipoteca);
ou tradição) é o mais mais importante;
importante; 5) nem sempre os contratos geram
3) rol taxativo; 3) rol exemplificativo efeitos apenas inter partes. Exemplos:

48
função social do contra e eficácia Fórmula matemática hipotética é (P = C
externa. + AD).
Percebe-se que efeitos estão muito Por essa teoria o locatário, o
aproximados. comodatário e o depositário não são
possuidores, pois lhes faltam o animus
3. Posse domini.
CC, 1196 a 1224. Essa teoria foi adotada em
Portugal e na França. Não foi adotada
3.1. Conceito, natureza jurídica e teorias no CC brasileiro, pois essas pessoas,
justificadoras. Diferença entre posse e acima nomeadas, são possuidores. No
detenção Brasil, esta teoria somente interessa
Conceito. Ihering. A posse é o para a usucapião.
domínio fático, direto ou indireto, que ii) teoria objetiva ou objetivista de
uma pessoa exerce sobre uma coisa. Ihering (teoria simplificada) – a posse
“LIVRO III exige apenas o domínio fático, sem
Do Direito das Coisas intenção de dono. Dentro desse domínio
TÍTULO I
Da posse
fático, há uma intenção, que é de se
CAPÍTULO I explorar a coisa economicamente. Sua
Da Posse e sua Classificação fórmula é P = C, pela qual são
Art. 1.196. Considera-se possuidores o locatário, o comodatário e
possuidor todo aquele que tem de fato o o depositário. Entre as duas teorias
exercício, pleno ou não, de algum dos
poderes inerentes à propriedade.”
clássicas, esta foi a adotada pelo
Os poderes inerentes à CC/2002, bem como pelo CC/1916.
propriedade são quatro: “GRUD” – iii) teoria da posse-social ou da
gozar ou fruir (retirar os frutos); reaver função social da posse (Saleilles, na
(buscar); usar (utilizar); e dispor França; Perozzi, na Itália; e Hernandez
(alienar). Basta ter um atributo para Gil, na Espanha) – a posse exige o
ter posse. domínio fático e o atendimento de sua
Imagine a prova CESPE: “Todo função social. Sem função social, não
proprietário é possuidor” (certo); “Todo há posse. Fórmula: (P = C + FS).
possuidor é proprietário” (errado). O CC/2002 também adota
Assim, posse é posse; propriedade é implicitamente essa teoria, pela
propriedade (Paulo Lôbo). valorização da posse trabalho
(destinação positiva).
Natureza jurídica. Predomina a Cf. art. 1238, p. ú.: o prazo da
tese de Moreira Alves, segundo a qual usucapião extraordinária cai de 15 para
se trata de um fato e um direito, de 10 anos se houver posse-trabalho
natureza especial ou sui generes (não é (moradia + realização de obras ou
direito pessoal nem real). serviços de caráter produtivo). Da
Uma corrente minoritária mesma forma, o art. 1242, p. ú., o prazo
(Beviláqua e MHD) que afirma que da usucapião ordinária cai de 10 para 5
posse é direito real, já que exterioriza a anos se houver posse-trabalho
propriedade. juntamente com o requisito formal.
Além disso, o art. 1228, §§ 4º e 5º
Teoria justificadoras da posse. tratam da desapropriação judicial
São três: privada por posse-trabalho.
i) teoria sujetiva ou subjetivista de Assim, entre as duas teorias
Savigny – a posse teria dois requisitos: clássicas, o CC/2002 adotou aquela
o domínio fático (corpus) e a intenção segunda, de Ihering. Mas
de ser proprietário (animus domini).

49
implicitamente adotou a terceira teoria, Geralmente aquele que tem a
da função-social da posse. posse indireta a tem porque cedeu a
direta para outrem (locador/locatário,
Diferença entre posse e comodante/comodatário, depositante/
detenção.CC, 1196 vs. CC, 1198. Na depositário).
detenção, ou fâmulo da posse, ou “Art. 1.197. A posse direta, de
servidão da posse, o detentor tem a pessoa que tem a coisa em seu poder,
temporariamente, em virtude de direito
coisa em nome alheio, de uma pessoa pessoal, ou real, não anula a indireta, de
com quem tenha relação de quem aquela foi havida, podendo o
dependência, em cumprimento de possuidor direto defender a sua posse
ordens ou instruções suas. contra o indireto.”
Exemplos: Apesar do dispositivo tratar
1) parei meu carro em um apenas da defesa da posse do possuidor
estacionamento. Entreguei as chaves ao direto contra o indireto, mas também
manobrista. A empresa de pode ocorrer o contrário.
estacionamento é possuidora Exemplos: vigente uma locação, o
(depositária), enquanto o manobrista e locatário viaja; no seu retorno, o imóvel
detentor; foi invadido pelo locador. A ação
2) o exemplo típico de detenção é cabível é a de reintegração de posse do
do caseiro em relação a sede da fazenda. locatário contra o locador. O locador em
Porém, quanto a casa que ele mora com sua defesa somente alega que é
a família geralmente há um comodato, proprietário do bem (exceptio
sendo ele possuidor; proprietatis). Como juiz, decida. A ação
3) a jurisprudência do STJ vinha de reintegração de posse será julgada
entendendo que a ocupação irregular de procedente, já que não obsta a
terras públicas não geraria posse, mas reintegração de posse a alegação de
detenção (REsp 556721/DF). O objetivo propriedade. Cf. CC, 1210, § 2º:
dessa forma de julgar é de afastar a “§ 2º Não obsta à manutenção ou
reintegração na posse a alegação de
usucapião. Em 2016, surgiu outro propriedade, ou de outro direito sobre a
julgado, afirmando haver posse, coisa.”
possibilitando ação possessória contra Esse dispositivo separou os juízos
terceiro, mas não a usucapião (cf. inf. possessório (discute posse) e petitório
579 – REsp 1484304/DF). (discute propriedade).

Material de Apoio - Direito Civil - 3.2.2. Quantos aos vícios objetivos (CC,
Flávio Tartuce - 09.pdf 1200)
3.2. Principais classificações da posse e “Art. 1.200. É justa a posse que
seus efeitos. não for violenta, clandestina ou
precária.”
3.2.1. Classificação quanto ao a) posse justa – é a posse “limpa”,
desdobramento ou quanto à relação i. é, sem os vícios objetivos;
pessoa/coisa (CC, 1197) b) posse injusta – aquela que
a) posse direta – presente quando apresenta pelo menos um dos vícios
há um contato imediato e corpóreo entre objetivos. São três modalidades de
a pessoa e a coisa (poder físico vícios objetivos:
imediato); b.1) posse violenta – “vis” ou
b) posse indireta – decorrente de coação; obtida com uso de violência ou
exercício de direito (poder físico pressão. Segundo CRG, é o roubo da
mediato). posse;
b.2) posse clandestina – “clam”;
obtida sem que o possuidor pudesse se
50
defender, “na surdina”; segundo CRG é a) posse de boa-fé – o possuidor
o “furto da posse”; ignora obstáculo para a aquisição da
b.3) posse precária – obtida em propriedade (boa-fé real), ou tem um
abuso de confiança. Seria o “estelionato justo título (boa-fé presumida).
da posse” ou a “apropriação indevida da Exemplos de justo título:
posse”. contratos válidos e eficazes (v. g.,
Observações: locação, comodato, compromisso de
1) pelo que consta do art. 1208 do compra e venda registrado ou não. Essa
CC, a posse violenta e a posse presunção é relativa (ou juris tantum).
clandestina podem “convalidar”, b) posse de má-fé – o possuidor
passando a ser posses justas, depois de sabe que não pode ser o proprietário, e
cessadas a violência ou clandestinidade. não tem o justo título (exemplo: invasor
A posse precária não convalida, já do imóvel).
que não está na lei (majoritário). Observações:
Tartuce, minoritariamente, entendem 1) a presente classificação, apesar
que pode convalidar. de próxima, não se confunde com a
Segundo a corrente que prevalece, anterior.
a posse injusta, violenta ou clandestina, Quem tem posse justa tem posse
passa a ser justa depois de um ano e dia, de boa-fé; quem tem posse injusta, tem
utilizando-se o parâmetro do art. 924 do posse de má-fé (EM REGRA). Mas não
CPC/73 e art. 558 do CPC/2015 (MHC, necessariamente! A pessoa pode ter
casal Néry, Venosa, CRG). posse injusta e de boa-fé (exemplo:
“Art. 1.208. Não induzem posse roubo de celular e, na sequencia, o
os atos de mera permissão ou tolerância ladrão vende o celular para terceiro por
assim como não autorizam a sua
aquisição os atos violentos, ou
valor normal. A posse do terceiro é
clandestinos, senão depois de cessar a injusta – só passa ser justa depois de
violência ou a clandestinidade.” ano e dia –, mas de boa-fé)
2) a classificação da posse em Além disso, quando analisamos a
justa e injusta repercute para usucapião classificação da posse entre justa e
e ações possessórias: injusta, os vícios são objetivos, daí que
- somente quem tem posse justa a convalidação se dá pelo decurso do
adquire o bem por usucapião. Quem tempo. Já quando analisamos a
tem posse injusta, não! classificação da posse entre de boa e
- quem tem posse injusta não tem má-fé, os vícios são subjetivos.
o pleito possessório vitorioso contra o 2) a presente classificação
possuidor justo, mas tem contra também não se confunde com a anterior
terceiro. pois seus efeitos são diferentes.
- quem tem posse justa tem o A classificação da posse de boa e
pleito possessório vitorioso contra o má-fé repercute para os frutos,
possuidor injusto. benfeitorias e responsabilidades por
perda ou deterioração da coisa. Cf. CC,
3.2.3. Quanto aos vícios subjetivos, ou 1214 a 1220. Vejamos na tabela:
quanto a boa-fé subjetiva (CC, 1201)

FRUTOS BENFEITORIAS RESPONSABILIDADE


(saem) (entram)
POSSE DE BOA-FÉ. Sim, menos os frutos Sim, direito às Só responde se a coisa se
Ex.: locatário pendentes. benfeitorias necessárias perde por dolo ou culpa
e úteis (indenização e (responsabilidade
retenção). Além disso subjetiva).
pode levantar as

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voluptuárias, sem
prejuízo da coisa.
POSSE DE MÁ-FÉ. Não. Responde pelos Sim, mas apenas quanto Responde ainda que por
Ex.: invasor colhidos e pelos que às benfeitorias fato acidental.
deixou de colher. necessárias (direito a
indenização, mas não à
retenção).

“Art. 1.214. O possuidor de boa- 1.219 do Código Civil, decorrente da


fé tem direito, enquanto ela durar, aos realização de benfeitorias necessárias e
frutos percebidos.
Parágrafo único. Os frutos
úteis, também se aplica às acessões
pendentes ao tempo em que cessar a (construções e plantações) nas mesmas
boa-fé devem ser restituídos, depois de circunstâncias.”. Cf. também TJSP,
deduzidas as despesas da produção e Apel. Cível 531.997.4/0.2009. Rela.
custeio; devem ser também restituídos Des. Gavião de Almeida.
os frutos colhidos com antecipação.
Art. 1.215. Os frutos naturais e
Quanto ao locatário, pode
industriais reputam-se colhidos e renunciar às benfeitorias por força do
percebidos, logo que são separados; os contrato (art. 35 da Lei n. 8245/91).
civis reputam-se percebidos dia por dia. STJ, 335: “Nos contratos de locação, é
Art. 1.216. O possuidor de má- válida a cláusula de renúncia à
fé responde por todos os frutos
colhidos e percebidos, bem como pelos
indenização das benfeitorias e ao direito
que, por culpa sua, deixou de perceber, de retenção.”. Parte da doutrina,
desde o momento em que se constituiu considera nula essa renúncia se constar
de má-fé; tem direito às despesas da em contrato de adesão, por força do art.
produção e custeio. 424 do CC. Enunciado JDC, 433: “A
Art. 1.217. O possuidor de boa-
cláusula de renúncia antecipada ao
fé não responde pela perda ou
deterioração da coisa, a que não der direito de indenização e retenção por
causa. benfeitorias necessárias é nula em
Art. 1.218. O possuidor de má- contrato de locação de imóvel urbano
fé responde pela perda, ou deterioração feito nos moldes do contrato de
da coisa, ainda que acidentais, salvo se
adesão.”
provar que de igual modo se teriam
dado, estando ela na posse do
reivindicante. 3.2.4. Quanto à presença de título
Art. 1.219. O possuidor de boa- É prevista na doutrina, não na lei.
fé tem direito à indenização das a) posse com título – gera a
benfeitorias necessárias e úteis, bem “posse titulada” ou “causal”, do latim
como, quanto às voluptuárias, se não
lhe forem pagas, a levantá-las, quando jus possidendis. Quando há uma causa
o puder sem detrimento da coisa, e representativa da posse. Exemplo: um
poderá exercer o direito de retenção contrato.
pelo valor das benfeitorias necessárias b) posse sem título – quando não
e úteis. há causa representativa. Exemplo:
Art. 1.220. Ao possuidor de má-
fé serão ressarcidas somente as achado de um tesouro. Temos aqui a
benfeitorias necessárias; não lhe assiste posse autônoma ou natural, do latim jus
o direito de retenção pela importância possessionis.
destas, nem o de levantar as “Seção III
voluptuárias.” Do Achado do Tesouro
Art. 1.264. O depósito antigo de
*As mesmas regras previstas para coisas preciosas, oculto e de cujo dono
não haja memória, será dividido por
benfeitorias aplicam-se às acessões, igual entre o proprietário do prédio e o
construções e plantações. JDC, 81: “O que achar o tesouro casualmente.
direito de retenção previsto no art.
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Art. 1.265. O tesouro pertencerá Dos Efeitos da Posse
por inteiro ao proprietário do prédio, se Art. 1.210. O possuidor tem
for achado por ele, ou em pesquisa que direito a ser mantido na posse em caso de
ordenou, ou por terceiro não autorizado. turbação, restituído no de esbulho, e
Art. 1.266. Achando-se em segurado de violência iminente, se tiver
terreno aforado, o tesouro será dividido justo receio de ser molestado.
por igual entre o descobridor e o § 1º O possuidor turbado, ou
enfiteuta, ou será deste por inteiro esbulhado, poderá manter-se ou restituir-
quando ele mesmo seja o descobridor.” se por sua própria força, contanto que o
faça logo; os atos de defesa, ou de
3.2.5. Quanto ao tempo (CPC, 558; desforço, não podem ir além do
indispensável à manutenção, ou
CPC/73, 924) restituição da posse.
a) posse nova – menos de 1 ano e (...)”
1 dia (até 1 ano); Além das medidas judiciais, a lei
b) posse velha – pelo menos 1 ano admite a legítima defesa da posse em
e 1 dia. caso de ameaça e turbação, e o desforço
Esta classificação repercute para imediato, em caso de esbulho. Essas
fins processuais. Se a ameaça, turbação defesas devem ser proporcionais,
ou esbulho forem “novo”, cabe ação de razoáveis e imediatas (in continenti). O
força nova, i. é, a ação possessória possuidor pode fazer uso da atuação de
segue rito especial e cabe liminar. Se prepostos, inclusive detentores. Os
são “velhos”, cabe ação de força velha e próprios detentores podem fazer uso de
a ação possessória segue o tais medidas. Nesse sentido, JDC, 493:
procedimento comum, e não cabe “O detentor (art. 1.198 do Código
liminar. Eventualmente caberá tutela Civil) pode, no interesse do possuidor,
provisória, cf. tratamento 294 a 311 do exercer a autodefesa do bem sob seu
poder.”
CPC).
3.2.7. Composse ou compossessão (CC,
3.2.6. Quanto aos efeitos (artigos 1210 e
1199)
seguintes)
É o condomínio da posse, ou seja,
a) posse ad usucapionis – é a
duas ou mais pessoas exercem a posse
posse usucapível, que possibilita a
ao mesmo tempo.
aquisição da propriedade, por
São duas modalidades:
usucapião. Seus requisitos são:
a) composse por diviso – é
- ser mansa/pacífica;
possível determinar a “área de posse” de
- ser justa;
cada um (exemplo: uma fazenda).
- ter intenção de dono (Savigny);
b) composse pro indiviso – não é
- ininterrupta;
possível determinar a área de cada um.
- tempo.
Exemplo: um apartamento.
b) posse ad interdicta – possibilita “Art. 1.199. Se duas ou mais
o manejo dos interditos possessórios pessoas possuírem coisa indivisa, poderá
(ações possessórias diretas), que são cada uma exercer sobre ela atos
três: em caso de ameaça, o interdito possessórios, contanto que não excluam
proibitório; em caso de turbação os dos outros compossuidores.”
(atentado momentâneo à posse), de Cada possuidor poderá exercer
manutenção da posse; em caso de sobre a coisa atos possessórios, contanto
esbulho (atentado definitivo), ação que não excluam os dos outros
cabível é a reintegração da posse. compossuidores.
Essas ações são dúplices, Exemplo: REsp 537363/RS
admitindo cumulação com reparação de (qualquer um dos herdeiros poderá
danos e têm fungibilidade total. ingressar com ação possessória contra
“CAPÍTULO III terceiros. Eventualmente, um herdeiro

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também poderá ingressar com ação em nome próprio e agora possui em
possessória contra o outro, que esteja nome alheio. Exemplo: alguém que
atentando contra a sua posse). vende o imóvel e continua nele como
locatário.
4. Formas de aquisição, transmissão e Obs.: para Orlando Gomes seria
perda da posse. tradição simbólica, a ficta; e a ficta seria
consensual.
4.1. Aquisição
Pode ser originária ou derivada: 4.2. Transmissão
- originária: há um contato direto O art. 1203 adota um verdadeiro
entre a pessoa e a coisa. Exemplo: princípio, qual seja o princípio da
apreensão de um bem; continuidade do caráter da posse.
- derivada: há uma intermediação “Art. 1.203. Salvo prova em
pessoal. Exemplo: tradição. contrário, entende-se manter a posse o
“CAPÍTULO II mesmo caráter com que foi adquirida.”
Da Aquisição da Posse Salvo prova em contrário, a posse
Art. 1.204. Adquire-se a posse presume-se manter as mesmas
desde o momento em que se torna características com que foi adquirida
possível o exercício, em nome próprio, (presunção relativa). Essa conclusão
de qualquer dos poderes inerentes à
propriedade.
também é retirada do art. 1206 e 1207.

O CC/2002 adotou um modelo Art. 1.206. A posse transmite-se
aberto de aquisição da posse (exemplo aos herdeiros ou legatários do possuidor
da traditio ou tradição), ao contrário do com os mesmos caracteres.”
art. 493 do CC/1916 que adotou, “Art. 1.207. O sucessor universal
supostamente, um modelo fechado. continua de direito a posse do seu
Art. 1.205. A posse pode ser antecessor; e ao sucessor singular é
adquirida: facultado unir sua posse à do antecessor,
I - pela própria pessoa que a para os efeitos legais.”
pretende ou por seu representante O sucessor universal continua,
[mandatário]; enquanto o singular tem a faculdade de
II - por terceiro sem mandato união.
[=gestor de negócios], dependendo de Em relação ao sucessor universal
ratificação.”
(exemplo: herdeiro legítimo), há
Classificação da tradição segundo
chamada continuidade da posse, o que é
Washington de Barros Monteiro
obrigatório, i. é, não pode renunciar
(seguido por MHD, CRG e Tartuce):
essa continuidade.
a) tradição real (tradio rei)–
Já o sucessor singular (a exemplo
quando há entrega efetiva e material da
de um legado), existe a união de posse,
coisa;
que é facultativa. Cf. JDC, 494: “A
b) tradição simbólica – quando há
faculdade conferida ao sucessor
um ato representativo, a exemplo da
singular de somar ou não o tempo da
entrega das chaves. É o que ocorre na
posse de seu antecessor não significa
traditio longa manu, em que a coisa é
que, ao optar por nova contagem,
disponibilizada para a outra parte;
estará livre do vício objetivo que
c) tradição ficta – decorre de
maculava a posse anterior.”
presunção. Temos duas situações:
c.1) traditio breve manu – a
4.3. Perda da posse
pessoa possuía em nome alheio e agora
O art. 1223, quando trata da perda
possui em nome próprio. Exemplo:
da posse, também adotou um modelo
locatário que compra o imóvel;
aberto. Dispõe que perde-se a posse
c.2) constituto possessório ou
cláusula constituti – a pessoa possuía

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quando cessa, embora contra a vontade Material de Apoio - Direito Civil -
do possuidor, o poder sobre o bem. Flávio Tartuce - 11 (II).pdf
“CAPÍTULO IV
Da Perda da Posse
Art. 1.223. Perde-se a posse
quando cessa, embora contra a vontade
do possuidor, o poder sobre o bem, ao Material de Apoio - Direito Civil -
qual se refere o art. 1.196. Flávio Tartuce - 02 Online (II).pdf
Art. 1.224. Só se considera Material de Apoio - Direito Civil - Resp
perdida a posse para quem não 1247020 Aula 2 on line (II).pdf
presenciou o esbulho, quando, tendo
notícia dele, se abstém de retornar a
Material de Apoio - Direito Civil -
coisa, ou, tentando recuperá-la, é REsp 1365279 Aula 2 on line (II).pdf
violentamente repelido.” Material de Apoio - Direito Civil -
As hipóteses elencadas no art. 520 REsp 689150 Aula 2 on line (II).pdf
do revogado CC/1916 ainda hoje são
utilizadas como exemplos pelos (assistir)
examinadores:
“CAPÍTULO IV Material de Apoio - Direito Civil - João
DA PERDA DA POSSE Aguirre - Aula 03 on line (II).pdf
Art. 520. Perde-se a posse das
coisas:
I - Pelo abandono. [trata-se da (assistir)
coisa abandonada ou res derelictae, que
não se confunde com a res nullius (coisa Material de Apoio - Direito Civil - João
de ninguém) e com a res perdicta (coisa Aguirre - Aula 04 Online (II).pdf
perdida)]
II - Pela tradição.
III - Pela perda, ou destruição (assistir)
delas, ou por serem postas fora de
comércio. [desconsiderar a parte final Material de Apoio - Direito Civil - João
não sublinhada]. Aguirre - Aula 04. 2 On line (II).pdf
IV - Pela posse de outrem, ainda
contra a vontade do possuidor, se este
não foi manutenido, ou reintegrado em (assistir)
tempo competente. [também
desconsiderar] Material de Apoio - Direito Civil - João
V - Pelo constituto possessório. Aguirre - 12 (II).pdf
[cláusula constituti] Material de Apoio - Direito Civil - João
Parágrafo único. Perde-se a posse
dos direitos, em se tornando impossível Aguirre - 12.1 (II).pdf
exerce-los, ou não se exercendo por
tempo, que baste para prescreverem.”

Material de Apoio - Direito Civil -


Flávio Tartuce - 13 (II).pdf
Material de Apoio - Direito Civil - Material de Apoio - Direito Civil -
Flávio Tartuce - 10 (II.1).pdf Flávio Tartuce - 13.1 (II).pdf
Material de Apoio - Direito Civil -
Flávio Tartuce - 10 (II.2).pdf
Material de Apoio - Direito Civil -
Flávio Tartuce - 10 (II.3).pdf Material de Apoio - Direito Civil -
Flávio Tartuce - 14.pdf
(assistir)
(assistir)

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