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Contribuições da psicanálise à análise organizacional

As organizações reproduzem os mesmos mecanismos à estruturação do sujeito nas


instituições. A diferença entre instituição e organização, ao menos no sentido mais
lato, é que à organização os indivíduos aderem quase livremente. Nas instituições,
por seu turno, não há escolhas, à medida que elas antecedem e se impõem ao
sujeito – por exemplo, não há como renunciar à língua, a primeira de todas as
instituições.
 
Pela possibilidade de escolha, a organização aparece, teórica e ideologicamente,
como um conjunto de indivíduos que têm um ou mais interesses e objetivos
comuns. Contudo, esses indivíduos têm uma gama de interesses e principalmente
desejos e pulsões que não são satisfeitos, nem dentro, tampouco fora da
organização, a despeito da tentativa, presente tanto nas instituições quanto nas
organizações, de padronizar necessidades, comportamentos e atitudes.

A organização, por esse prisma, pode ser interpretada como prisão psíquica. Para
construir essa metáfora, Morgan (1996) remonta à célebre alegoria da caverna
presente na República de Platão. A partir da metáfora das organizações como
prisões psíquicas, entende-se como as organizações reproduzem o processo das
instituições. As organizações autonomizam-se, adquirem um poder próprio, criando
um forte grau de controle sobre seus próprio criadores – os seres humanos –,
aprisionando-os em sua teia simbólica de imagens, idéias, pensamentos e ações.
 
Assim, como as instituições, as organizações também aparecem, ao menos para a
comunidade formada por seus integrantes, como comunhão de todos em torno de
um ideal de bem comum, buscando fazer com que seus membros sejam indivíduos
que lhes sejam fiéis e devotos. É desse modo que o fenômeno burocrático [...] é
mais dramático nas organizações. Nessas — mais que nas grandes instituições da
sociedade, família, por exemplo, instaura-se a culpa no sujeito por este atrever- se
a ser criativo – a despeito do discurso em contrário dos programas de
administração contemporâneos.
 
A organização assoma-se como a própria caverna, onde quem consegue enxergar a
realidade existente fora dela é considerado elemento perigoso e os que estão
presos em seu interior agarram-se mais fortemente ainda à realidade habitual.
Nessa medida, a organização constrói verdadeiras armadilhas cognitivas, através do
autoconfinamento, da recusa em deparar-se com a realidade do ambiente maior e
da sociedade que a cerca. A cultura organizacional pode então aparecer como
prisão dos sujeitos que compõem a organização.

[...] O sujeito se estrutura no âmbito das instituições e, conseqüentemente, das


organizações. Cumpre agora fazer um breve arrazoado da concepção de sujeito ao
longo da história do conhecimento, tendo como ponto de partida um sujeito da
razão para atingir a constatação já aduzida nesse espaço de que ele possui uma
dimensão inconsciente e fora do controle de si e, por extensão, das organizações.
 
A alegoria da caverna mostra que já entre os gregos havia a preocupação com o
aprisionamento do sujeito a uma única verdade ou realidade. No entanto,
acreditava-se que o desafio do conhecimento seria resolvido pelo domínio completo
do mundo, pela razão humana. Esse tipo de pensamento tem seu ápice com a
modernidade, expresso na construção teórica de René Descartes. Pode-se, então,
falar em um sujeito cartesiano, como sendo aquele senhor absoluto da Razão e, ato
contínuo, de suas vontades e disposições. No entanto, o sujeito cartesiano visava
somente ao conhecimento do mundo e da realidade exteriores ao indivíduo.
 

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Freud quebra essa concepção, acrescentando ao sujeito da razão uma dimensão
inconsciente, levando-o à necessidade de um saber de si, análogo a um trabalho
arqueológico de reconstrução de sua história de vida, de seu passado. Como
assevera Morgan (1996, p. 210), os seres humanos vivem as suas vidas como
prisioneiros de suas próprias histórias pessoais. Em Freud, à medida que o sujeito
desvela sua história passada, vai libertando-se de seus fantasmas, medos, anseios,
ansiedades, traumas e outros, trazendo à tona um saber de si até então
desconhecido, que não opera pela via da razão.

Portanto, a psicanálise revoluciona o paradigma baseado em um sujeito puramente


cartesiano. Substitui o penso, logo existo pelo sou também onde não penso. Freud
traz à tona a dúvida de si, antes ignorada pela dúvida cartesiana. A dimensão
racional não é mais o poder tudo, ao contrário, é o tudo tem limites, impostos pelo
princípio de realidade. O paradigma de um poder ilimitado pelo desconhecimento do
princípio do prazer é suplantado por um que evidencia a limitação do poder do
sujeito. Nesse ponto, o sujeito vive um conflito entre o que se deseja e o que se
pode.
 
Os conflitos psíquicos são típicos da relação sujeito-organização. Há um conflito
manifesto, por exemplo, entre um desejo e uma exigência moral. Nas organizações,
porém, afigura-se mais importante o conflito latente, expresso em sintomas os
mais diversos, como desordens no comportamento, perturbações de caráter, entre
outros, como no exemplo de uma greve violenta e aparentemente sem motivos
razoáveis, ou de um absenteísmo exagerado, atribuídos a diversos outros fatores
que não psíquicos, tornando difícil, se não impossível, uma saída do impasse.
 
A organização constrói uma farsa, criando necessidades inexistentes no nível do
sujeito e tentando satisfazê-las no nível do simbólico. No caso das empresas,
operando no espaço das carências sociais e emocionais dos empregados, com o
objetivo de proporcionar um pseudo status, ou seja, um acesso momentâneo a
uma posição de igualdade na estrutura de poder e nas relações sociais na empresa,
que, na realidade, não existem e nem se pretende que existam (AGUIAR, 1992, p.
105). Todavia, essa farsa é denunciada no cotidiano pelos próprios sujeitos, que
expressam sua frustração através de manifestações de desinteresse, baixa
produtividade e até mesmo reações agressivas. A organização trai os sentimentos e
as necessidades psicológicas e sociais dos sujeitos.

Um outro problema, apontado por Aguiar (1992), é a confusão presente em muitos


programas de recursos humanos – inclusive os que passam pela gestão
participativa – entre os desejos e as necessidades dos sujeitos. Os desejos são
individuais e indestrutíveis, posto estar no nível do inconsciente. Desse modo, não
há a menor possibilidade de substitui-los ou padronizá-los.
 
Quanto às necessidades individuais, a tentativa de padronizá-las é uma estratégia
das organizações para, ao influenciar os indivíduos, transformá-los em tipos
padronizados, em vez de identificá-los como pessoas. Essa padronização por um
lado, facilita o controle, mas, por outro, diminui e impede o desenvolvimento
mental, o desenvolvimento da consciência crítica – individual –, e a
responsabilidade do indivíduo com ele próprio, com a sociedade e com seu trabalho
na organização (AGUIAR, 1992, p. 106).
 
Reconhecer a dimensão inconsciente do sujeito que compõe a organização é
reconhecer também o excesso de racionalização no tratamento dado às
organizações. O reconhecimento em tela permite a introdução, na análise, de
comportamentos importantes e tidos como irracionais — agressão, inveja, medo,
ódio e desejo sexual —, fortemente presentes no cotidiano das organizações e que,

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a rigor, determinam sua dinâmica com tanto ou mais presença do que seus
aspectos mensuráveis.

Além disso, o reconhecimento da dimensão inconsciente permite vislumbrar


componentes não racionais em comportamentos, atitudes, ações, regramentos e
rotinas, cuja racionalidade não se discute à primeira vista. Como pontua Morgan
(1996, p. 236)...
 
[...] podemos desculpar, racionalizar, punir e controlar o quanto quisermos que não
iremos livrar-nos dessas forças reprimidas que se escondem nas sombras da
racionalidade. Se as idéias de Freud e de outros teóricos estiverem corretas,
racionalidade é freqüentemente irracionalidade disfarçada. Assim, a racionalidade
de um Taylor pode disfarçar tanto uma forma extrema de compulsividade como a
excessiva preocupação de um gerente com alvos e objetivos muito bem
explicitados pode disfarçar uma insegurança básica na vida. Racionalidade e
irracionalidade (um termo para forças humanas que não podemos ordenar e
controlar) parecem ser centrais à condição humana.
 
O problema parece residir na tendência presente nos indivíduos e nas organizações
do medo do desconhecido, do irracional, escondendo-o sob a máscara da razão,
buscando manter o controle sob forças incontroláveis por serem inconscientes e
inacessíveis. O auto-engano da segurança, representado pela racionalização do
irracional, livra os sujeitos do caos, qual ocorre nos ganhos primários e secundários
das neuroses. Contudo, deixa-os na ignorância de si, de seu lado reprimido,
recalcado, com conseqüências vitais para as organizações que reproduzem esse
processo neurótico.

Desconhecer ou ignorar a dimensão inconsciente dos sujeitos é diminuir a


importância do ser humano na vida organizacional. É concordar que, assim como as
grandes instituições da sociedade, a organização tem o papel do pai que protege
sua prole evitando que ela entre em contato com a verdade das relações sociais,
relações de poder que colocam os sujeitos em disputa por objetos tangíveis mas
também por objetos intangíveis relacionados aos desejos.
 
A relação enganosa entre sujeito e organização mostra claramente o infantilismo do
psiquismo humano. A organização age repressivamente através da falsificação da
consciência pela fuga dos problemas, visando à defesa dos indivíduos e dela
própria, porém com os efeitos colaterais já elencados nesse espaço, principalmente
o desconforto do sujeito perante os limites impostos a suas idéias e seus
comportamentos. Assim, pode-se concluir que o reconhecimento da dimensão
inconsciente permite a identificação de barreiras situadas no caminho da inovação e
da mudança, cujo diagnóstico não é realizado pelas teorias organizacionais.
 
Deitar sobre os louros do sucesso [...] ou ainda a diminuição da criatividade nos
ambientes organizacionais pelos próprios sentimentos de inveja e ciúme
endereçados contra quem se destaca são exemplos bastante comuns nas
organizações, para não falar na adoção de modismos administrativos sem qualquer
filtro da crítica apenas pelo receio de pensar diferente em um ambiente
organizacional que tende a uma única verdade.

Por tudo isso, a metáfora da prisão psíquica de Morgan constitui uma importante
ferramenta para análise das organizações contemporâneas, se for complementada
com um aprofundamento nos conceitos psicanalíticos fundamentais, contribuição do
presente artigo.
 

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Recomenda-se às organizações e a seus dirigentes que levem em consideração a
outra dimensão do sujeito que não a racional: seus desejos e temores
inconscientes. Sem considerar tal perspectiva, correm o risco, que não pode ser
desprezado, de pavimentarem o caminho para a crise, seja da organização seja dos
indivíduos.
 
Nesse processo, o sujeito rompe com seu objeto de identificação, por conseguinte
seu objeto de amor, que é a própria organização, à medida que se sente traído
pelos esquemas burocráticos, inumanos e repressivos que cerceiam e embotam a
mente e a criatividade, com os todos prejuízos daí resultantes [...].

Fonte
HOROCHOVSKI, Rodrigo Rossi; TAYLOR, Cristiane Romero. Contribuições da
psicanálise à análise organizacional. In: A estruturação do sujeito nas instituições e
organizações:aspectos inconscientes no cotidiano organizacional. Curitiba: [s.n.]
2001.

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