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MAURO DEMIAN BUCK SILVA

A INTERTEXTUALIDADE EM ERA NO TEMPO DO REI

Monografia apresentada como


requisito para a obtenção do título
de Bacharel em Letras –Estudos
Literários – do Curso de Letras do
Setor de Ciências Humanas ,
Letras e Artes da Universidade
Federal do Paraná .
Orientadora : Professora Doutora
Marilene Weinhardt

CURITIBA
2008
SUMÁRIO

Resumo.........................................................................................................................4
1) Introdução...............................................................................................................5
2) O discurso histórico e o ficcional...........................................................................6
3) O romance histórico...............................................................................................8
4) Memórias de um sargento de milícias....................................................................9
5) Era no tempo do rei.................................................................................................10
6) Considerações finais...............................................................................................15
7) Referencias bibliográficas .....................................................................................16

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Resumo

Neste trabalho é feita, inicialmente, uma comparação entre o discurso histórico e o


ficcional, mostrando as diferenças e semelhanças entre os dois. A seguir é mostrado como
os dois discursos se relacionam na forma romance. Nos outros dois capítulos é feita uma
análise do diálogo intertextual, com a história e com a literatura, na composição do
romance histórico Era no Tempo do Rei de Ruy Castro. Nas considerações finais, mostram-
se os possíveis motivos que levam parcela significativa da produção ficcional
contemporânea brasileira a realizar um diálogo com a história literária.

Palavras-chave: ficção histórica; Ruy Castro.

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1) Introdução
Parcela significativa da produção ficcional contemporânea enquadra-se na
modalidade que se pode denominar como ficção histórica. Entendemos como ficção
histórica aquela que ficcionaliza o passado, apropriando-se de personagens e
acontecimentos históricos. Desta parcela, uma parte opta por dialogar com a própria
história literária. É nessa encruzilhada que se situa o romance Era no tempo do rei(2007),
de Ruy Castro, que mantém um diálogo com o passado histórico, visto que situa os
acontecimentos narrados no tempo da chegada da família real ao Brasil, bem como com a
história literária, já que faz conviverem personagens que tem referência empírica com
personagens apropriados de Memórias de um sargento de Milícias(1854), de Manuel
Antônio de Almeida, evocado já no título, que é extraído das conhecidíssimas palavras de
abertura do romance do século XIX.
Este trabalho se propõe analisar essa dupla intertextualidade, a saber, com o
discurso histórico e com discurso ficcional preexistente. A intertextualidade não é uma
novidade, bem como não é prerrogativa da ficção histórica. Vários pensadores e mesmo
criadores da modernidade fazem referência a esse processo como uma constante na criação
literária. Ducrot e Todorov ensinam que o discurso “ longe de ser uma unidade fechada[...],
é trabalhado pelos outros textos -, todo o texto é absorção e transformação de uma
multiplicidade de outros textos‟-, atravessado pelo suplemento sem reserva e a oposição
vencida da intertextualidade. ”(DUCROT & TODOROV, 1973,p.422)
O diálogo da literatura com sua própria história também não é uma inovação. Na
ficção brasileira contemporânea, observa-se a exacerbação desse processo. Publicam-se
romances que ficcionalizam escritores, que se apropriam de personagens ficcionais, que
recriam situações ficcionais, que fazem falar o eu lírico, e inclusive que fazem conviver
essas diferentes situações A particularidade que se buscará evidenciar é como se produz
esse duplo movimento intertextual anunciado acima.
A referência ao discurso histórico, como se fosse uma unidade fechada, é um
recurso analítico, já que este também é multifacetado. O que se tomou aqui para a operação
contrastiva é o título de Laurentino Gomes, 1808(2007), até por ter sido publicado no
mesmo ano. Não interessam a esta análise as discussões sobre suas qualidades ou defeitos ,

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do ponto de vista dos historiadores. Entretanto, um breve percurso acompanhando as
diferentes concepções de história auxiliará na compreensão das apropriações.

2) O discurso histórico e o ficcional

Para entender a ficção histórica é necessário fazer algumas considerações sobre as


diferenças e as semelhanças entre os discursos ficcional e histórico. Walter Mignolo
mostra, no texto “Lógica das diferenças e política das semelhanças (Da literatura que
parece história ou antropologia, e vice versa.)”, que literatura e história não são categorias
universais. As idéias sobre o que se entende ser literatura e história mudam ao longo do
tempo e do espaço. Para explicar a lógica das diferenças o autor utiliza duas linhas de
argumentação. Na primeira é traçada a cronologia dos marcos discursivos construídos no
ocidente. Inicia-se com a distinção formal feita por Aristóteles entre poesia e história no
livro Poética. A história construía-se a partir do informe de testemunhas oculares. Já a
poesia apresentava a idéia de imitação das coisas (mimese). Com a cultura latina esses
conceitos se alteram. Poesia se transforma em literatura, que passa a significar discurso
escrito associado com a idéia de beleza e arte. História se transforma em disciplina que
serve para instruir e orientar os homens .Vira um conhecimento acumulado que precisa ser
repassado às novas gerações.
Durante o séc. XVIII a história deixa de ser um saber enciclopédico e começa a se
aproximar da ciência. No começo do séc. XIX a história era entendida como uma sucessão
de fatos, o que ficou reconhecido posteriormente como história factual. Em meados do séc.
XIX, com o positivismo, a história se aproxima mais ainda das ciências e busca as causas e
efeitos para os fatos. Nesse tempo os historiadores concentravam seus esforços nos estudos
da história política, econômica e social.No final do século XIX e no sécXX, os
historiadores de orientação marxista tentam compreender a história dialeticamente,
buscando alcançar a síntese na contraposição da tese e da antítese. Nas últimas décadas do
séc. XX a história se separa definitivamente da ciência dura, cujo paradigma são as ciências
exatas e naturais, e se aproxima das humanidades, abrindo novos caminhos bastante
promissores: História da vida privada, história das sensibilidades, história cultural etc.

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A literatura, por sua vez, permaneceu até os nossos dias no campo da arte. Mignolo
compara esse percurso feito pelo ocidente com culturas indígenas da América Central e
afirma que entre os povos indígenas do México também existiam diferentes formas de
expressar e preservar as suas culturas. Formas essas totalmente distintas das empregadas
pela cultura do ocidente. O autor conclui:
1)As comunidades humanas necessitam conservar e transmitir o passado. As maneiras pelas
quais suprem essa necessidade, e as formas de concebê-la e conceituá-la, dependem das
condições sociais e da tecnologia empregada para satisfazer tal necessidade. No ocidente
essas atividades giram em torno do conceito de história. Na sociedade mexica, em torno do
conceito de tlatollotl; entre os chamulas , das palavras puras.

2) As comunidades humanas necessitam projetar sua energia criativa em diferentes formas e


também o fazem através da linguagem oral e dos diversos sistemas de escritura. No
Ocidente, a conceituação dessas práticas girou em torno do conceito de poesia e de
literatura. Entre os méxicos, em torno do conceito de cuicatl :entre os chamulas , das
palavras pronunciadas com o coração quente. (MIGNOLO, W.1993 p.121)

Na segunda linha de argumentação o autor analisa as diferenças entre os discursos


pela lógica das convenções de veracidade e de ficcionalidade. A idéia de convenção esta
diretamente associada à existência de uma comunidade lingüística que participe e faça valer
a convenção estabelecida. Os produtores e receptores de textos e idéias têm que concordar
com o estatuto para o acordo funcionar. È interessante notar que esse estatuto não esta
escrito em nenhum lugar. É isso que possibilita, por exemplo, o pacto ficcional.
O discurso histórico está comprometido com a convenção de veracidade. Os
participantes dessa comunidade têm um compromisso com a verdade. Eles podem, ou não,
mentir, pois existe a possibilidade de existir a verdade e a mentira. O mesmo não acontece
com o discurso ficcional.
Com as mudanças nas formas de se compreender a história ocorre uma mudança no
discurso histórico que se aproxima muito da forma de ser do discurso literário. As
fronteiras entre os discursos se tornam difusas. O historiador passa a ter consciência de que
o passado só é acessível pelos discursos, que o seu é mais um discurso entre os outros. A
despeito da proximidade e dos cruzamentos , há marcos discursivos que preservam a
identidade dos dois discursos.
A ficção histórica, desde sempre, promoveu a aproximação das duas áreas do saber
sem o compromisso com a veracidade. Usa para isso, principalmente, o romance que
permite a imitação de qualquer tipo de discurso imaginável na sua composição.

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3) O romance histórico

O pensador marxista George Lukács faz, no livro O romance histórico, um extenso


estudo sobre a incorporação da história pela literatura. Para Lukács o romance histórico
surge no começo do séc. XIX, com o escritor inglês Walter Scott. A Revolução Francesa e
as Guerras Napoleônicas, entre os anos 1789 e 1814, ocasionaram profundas
transformações na forma do homem entender o mundo. As guerras deixaram de ser uma
atividade praticada somente por militares. Os combates deixaram de ocorrer longe dos
olhos das pessoas e passaram a invadir as cidades.Grande parte da população foi obrigada,
pela necessidade, a pegar em armas, surgindo assim um forte sentimento de nacionalidade e
coletividade. A crença na existência dos grandes heróis de guerra perde força no imaginário
das massas. A real experiência com a guerra mostra o vigor do homem comum agindo
numa situação crítica. O homem se descobre como um protagonista da história com
capacidade para transformar a sociedade. Começa a haver uma valorização do indivíduo
comum. Os personagens dos romances históricos de Scott são representados por homens
comuns. Não há a tentativa de se cultuar e venerar excessivamente as personagens
reconhecidas da história da Inglaterra .
O romance histórico, assim como a forma romance, também se modifica ao longo
do tempo. Os livros de Scott foram classificados por Lukács como o romance histórico
clássico. São narrativas lineares e extensas que buscam reavivar literariamente os seres
humanos que viveram no passado.
A ficção histórica contemporânea apresenta características que não existiam no
modelo clássico. Nota-se a presença da intertextualidade com as mais variadas formas de
discurso. Surgem obras que dialogam com a história oficial e com a história da literatura.
Personagens empíricos e literários são apropriados pelo discurso ficcional e ganham uma
nova vida. Observa-se uma distorção consciente da história com o uso de anacronismos e
exageros interpretativos, que acabam produzindo livros picarescos. O pastiche também é
uma das características marcantes do romance histórico contemporâneo. Quanto à
abrangência temporal, percebe-se a apropriação do passado distante e do passado recente.

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4) Memórias de um Sargento de Milícias

O livro Memórias de um Sargento de Milícias, lançado em 1854, entra para o


cânone brasileiro como uma obra de difícil enquadramento em qualquer uma das escolas
literárias do seu tempo. Não é um romance indianista, não apresenta pompa de estilo, não é
nacionalista e não cultua de forma alguma o sofrimento. Não é um livro romântico, realista
e muito menos naturalista. O livro apresenta algumas características de todas essas escolas,
mas não pertence a nenhuma delas.
A ação ocorre num tempo passado e começa com a seguinte frase: “Era no tempo do
rei”.O recurso ao passado não demonstra qualquer intenção de reconstruir a vida como ela
era. Durante toda a narrativa são empregados marcadores de expressão que denotam o
pretérito: “era o costume daquele tempo”, “assim se falava antigamente”, “no tempo em
que se passavam as cenas que estamos narrando” etc. Esse uso empresta à narrativa um tom
de seriedade que contrasta com o tom humorístico que marca a vivência das personagens .
O narrador se transforma num contador de histórias.
Antonio Candido, no ensaio “Dialética da malandragem” (1993), mostra que a obra
é marcada pela tensão cômica entre a ordem e a desordem. De um lado a presença do
primeiro grande malandro da literatura brasileira: Leonardo. Ele é filho de um casal de
portugueses, Leonardo (pai) e Maria, que se conheceram num navio vindo para o Brasil. Do
outro uma personagem empírica que migrou para o mundo da ficção: O Major Vidigal. Os
personagens que compõem a trama pertencem todos a uma classe econômica que hoje
chamaríamos de média. Não se nota a presença dos negros e nem de figuras das classes
economicamente abastadas. É um romance que não exprime a visão da classe dominante,
diferentemente da maior parte da produção do seu tempo.
O Rio de Janeiro é o cenário no qual o Major Vidigal é um dos responsáveis por
tentar manter a ordem, perseguindo e prendendo todo tipo de malfeitores e malandros.
Malandro é o sujeito que, por causa das adversidades sociais e econômicas em que é criado,
se torna meio marginal à sociedade em que vive. É um ser que pode ser simpático e
engraçado. É diferente do criminoso e do malfeitor, que causam sérios danos ao próximo.
Com a chegada da corte portuguesa, a cidade quase dobrou o seu número de habitantes. Em
1808 eram 60000 pessoas. Em 1821 a população chegava a 120000.(GOMES,2007, p 228)

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A conseqüência disso foi um aumento generalizado da criminalidade. Era necessário,
portanto, fortalecer a força policial. O Major Miguel Nunes Vidigal é o principal
representante da ofensiva promovida pela corte para combater a criminalidade. O bom
humor presente nas Memórias de um Sargento de Milícias provém, em parte, da súbita
tentativa de se criar uma cidade civilizada em pouco tempo. De forma abrupta o Brasil, um
país com a maior parte da população composta de escravos negros, recebe uma corte inteira
que chega tentando impor a ordem. É, sem dúvida, um acontecimento tragicômico. De um
lado uma corte educada nas melhores escolas da Europa, do outro uma população em
estado semi-selvagem.
As instituições que procuravam ordenar e policiar a comunidade como a igreja e as
milícias policiais, por exemplo, não eram muito sólidas se comparadas com os países da
Europa. Esse fato reflete no livro de Manuel A. de Almeida. Nesse sentido Antonio
Candido escreve o seguinte:
Nisto e por tudo isto, as Memórias de um sargento de milícias contrastam com a ficção
brasileira do tempo. Uma sociedade jovem, que procura disciplinar a irregularidade de sua
seiva para se equiparar às velhas sociedades que lhe servem de modelo, desenvolve
normalmente certos mecanismos ideais de contenção, que aparecem em todos os setores. no
campo jurídico, normas rígidas e impecavelmente formuladas criando a aparência e a ilusão
de uma ordem regular que não existe e por isso mesmo constitui o alvo ideal.(CÂNDIDO,
1993, p.49).

7) Era no tempo do rei

No livro de Ruy Castro, Era no tempo do rei (2007), nota-se que toda a ação ocorre
num espaço geográfico bem definido: A cidade do Rio de Janeiro no começo do séc. XIX.
O autor presta uma homenagem: “Aos velhos alfarrabistas do Rio que ajudaram os
historiadores a conservar a memória da cidade”, e se revela sob a inspiração de Machado de
Assis, João do Rio, Lima Barreto, Orestes Barbosa, Noel Rosa, Marques Rebelo, Sergio
Porto, Millôr Fernandes, Carlos Heitor Cony, Ivan lessa, e Aldir Blanc. Pessoas que
tiveram suas vidas e obras influenciadas pela cidade. Há inclusive um mapa mostrando
com bastante clareza as principais ruas, morros, praias e demais localidades que aparecem
ao longo do texto e que servem como cenário para o desenvolvimento da
narrativa.(Anexo1). No livro O Nome da Rosa de Umberto Eco esse recurso também é
utilizado para ajudar o leitor a se situar dentro do espaço com o desenho do plano da

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abadia. No romance de Ruy Castro os nomes dos logradouros não são inventados, e se
encontram listados no fim do livro com os nomes que tinham antigamente e que tem hoje.
A Rua do Hospício é chamada atualmente Buenos Aires, a Rua da Cadeia virou a Rua da
Assembléia, a Rua do Piolho se transforma na Rua da Carioca etc..Nesse ponto o autor se
mostra fiel à história oficial. A vinda da Família Real transformou a face do Rio. A cidade
tomou um banho de civilização e se transformou num canteiro de obras:
Viana parecia picado pelo bicho carpinteiro. Começou por obrigar os proprietários a
derrubar as gelosias de suas janelas (platibandas de treliça que isolavam as casas do que se
passava na rua e contribuíam para o ar abafado e doentio das habitações). No que as janelas
se escancararam, o sol entrou pela primeira vez em suas salas e revelou, inclusive, as belas
mulheres que elas escondiam. Dali, Viana desandou a demolir casebres, alargar ruas,
alinhar calçadas, levantar pontes de madeira, construir chafarizes. E aterrar os mangues,
para acabar com os gazes pestíferos que emanavam deles e faziam com que muitos
cariocas cheirassem rapé dia e noite para bloquear a fedentina.(CASTRO, 2007,
p.45)

O livro de Castro é um romance histórico porque os acontecimentos e personagens


históricos são determinantes para o desenvolvimento da narrativa. O subtítulo é indicativo
dessa proposta: “ Um romance da chegada da corte”. A vinda da corte portuguesa para o
Brasil foi causada pelo avanço das tropas napoleônicas que pretendiam dominar toda a
Europa. Em nenhum outro momento da história se observou o transplante de uma corte
inteira para outro lugar. Isso ocorre num momento de enfraquecimento de todas as
monarquias européias. Os ideais republicanos vinham se fortalecendo desde a revolução
francesa. Na França não foram poucos os nobres que foram parar na guilhotina. A vinda
para o Brasil deu à corte portuguesa uma sobrevida bastante produtiva. No livro os grandes
acontecimentos históricos influenciam a ação dos personagens. O discurso histórico se faz
presente em vários momentos:
O fato de o Brasil ser agora a metrópole e Portugal, a colônia, provocara uma reviravolta
no comércio marítimo internacional, com a abertura de um gigantesco palco de operações
no novo mundo e com o qual, em primeira instância, um país ficaria mais rico e
poderoso do que nunca: justamente a Inglaterra . (CASTRO, 2007, p. 98).

Os acontecimentos históricos extratextuais são ficcionalizados para compor uma das


duas linhas que compõem a trama. A outra linha é feita pela apropriação dos personagens
vindos do livro Memórias de um Sargento de Milícias. De um lado o universo da corte e da
elite portuguesa com suas intrigas e arranjos. Do outro a aventura de dois adolescentes,

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Leonardo e Pedro (o príncipe), percorrendo as ruas da cidade e se relacionando com
pessoas que não fazem parte da classe dominante.
Boa parte das nacionalidades e povos que compunham a sociedade brasileira
daquele tempo estão presentes no romance. Os ingleses são os vilões e oportunistas. Estão
intimamente ligados à corte. São negociantes e pessoas pertencentes à marinha. A figura
deste conjunto com maior destaque é um personagem empírico: Sir Sidney Smith, chefe da
esquadra inglesa no Rio. As embarcações portuguesas, que transportaram a corte, vieram
escoltadas pela Real Marinha Inglesa. Os franceses estão representados pelas prostitutas
que aparecem em grande número. Nos dois livros em questão observam-se os ciganos
vivendo de maneira bastante dissoluta. Aparecem cometendo furtos e pequenas
ilegalidades. A caracterização de algumas dessas personagens aparecerá adiante.
O narrador conta, em terceira pessoa, uma história ocorrida num tempo passado
sem usar linguagem arcaica. O passado é mostrado com a linguagem e com o olhar de hoje.
Não se nota o pastiche que é um traço bastante comum na ficção histórica contemporânea.
Não há a tentativa de se modificar muito o que se conhece dos personagens históricos e
literários. Os personagens se revelam muito semelhantes ao modo como a tradição os
retratou. Ruy Castro é um reconhecido autor de biografias. No livro nota-se que é feita uma
pequena biografia de todos os personagens principais. O conhecimento do tempo em
questão é de fundamental importância para a composição do texto. Tome-se, como
exemplo, o discurso biográfico na caracterização dos personagens Dom João e Carlota
Joaquina, facilmente confundido com o discurso histórico:

O casamento de D.João e dona Carlota, por exemplo, em 1785, fora algo quase indecente:
no dia das núpcias, o príncipe de Portugal tinha 18 anos, e a infanta de Espanha, 10. Era
um arranjo entre as casas de Bragança e de Bourbon para estreitar os laços entre as
Coroas portuguesa e espanhola e, para isso, não importava que a noiva ainda tivesse
dentes de leite.(CASTRO, 2007, p.81).

Em matéria de temperamento, os dois não podiam ser mais distintos. D.João exalava um tal
ar de bondade, simpatia e humildade, de alguém que se comprazia em benfazer, que isso o
redimia e o tornava amado.Mas Carlota, voluntariosa, petulante e impertinente, estava além
de qualquer possibilidade de redenção. (CASTRO, 2007, p. 83)

O Personagem D.João é caracterizado em dois planos distintos: O homem público e


o homem privado. No plano privado ele é mostrado como um homem de pouco asseio,
glutão e tranqüilo.No plano público demonstra ser um governante dedicado e atuante nos

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problemas que envolvem a Coroa portuguesa. Aparece cercado por um séqüito de
colaboradores e de aproveitadores.
Carlota Joaquina se revela uma personagem ativa, inteligente, maquiavélica e
infeliz. É uma mulher com grande ambição política. Faz todo o tipo de conchavo para
tentar conquistar algum poder sobre os territórios conquistado pelos espanhóis nas
Américas.Para alcançar seus objetivos chega a tentar trair politicamente D. João. A
tentativa de golpe é descoberta e o casal passa a viver separadamente.
A infidelidade conjugal é outra característica marcante desta personagem. Entre os
seus amantes estão vários indivíduos. Vão desde empregados e escravos até nobres
ingleses. Teve nove filhos e, nesse ponto, cumpriu a sua parte no acordo feito entre as
Coroas, gerando os possíveis futuros herdeiros em tempos em que a ciência não estava apta
dirimir dúvidas sobre paternidade.
A imagem de Carlota Joaquina mostrada no livro de Castro pode ser estendida às
demais personagens femininas. O comportamento das mulheres se mostra transgressor ao
que se supunha ser o normal.A personagem Maria, mãe de Leonardo, se apresenta como
uma mulher que possui vários amantes e é pouco dedicada a maternidade. É uma saloia
portuguesa (pessoa que vive no campo) que migrou para o Brasil. No navio conheceu
Leonardo Pataca. Pouco tempo depois de desembarcar percebeu que estava grávida porém,
logo descobre que não serve para a maternidade:“ „Sai, desgraçado! Some da minha vida e
deixa-me com minhas intimidades, que tenho mais a fazer do que estar a parir putos.‟ ”
(CASTRO,2007,p 35). Maria deixa o filho aos cuidados do pai e retorna para Portugal
amasiada com um homem da marinha. O pai também não fica com o filho e o deixa para o
padrinho que cuida e cria o menino. Nota-se nos dois livros, Era no tempo do rei e
Memórias de um Sargento de Milícias, uma franca liberdade de costumes. As normas
repressivas religiosas parecem não afetar o comportamento dos personagens. As classes
populares e a nobreza vivem numa certa licenciosidade amorosa. Nesse ponto elas têm
muito em comum.
Outras personagens femininas que aparecem com um comportamento considerado
leviano para os padrões supostamente vigentes são as belas ciganas Moira e Esmeralda.
São duas moças de 16 anos. Elas surgem no texto no momento em que ocorre uma festa
promovida pela corte em comemoração a um casamento. Pedro e Leonardo participam da

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festa e acabam conhecendo as duas moças. Os dois ficam enfeitiçados pela beleza das
meninas que demonstram uma certa intenção em seduzir os rapazes. Os jovens são levados,
ou se deixam levar, para o acampamento dos ciganos e lá ocorre o seqüestro de Pedro
comandado pelo inglês e vilão Jeremy Blood. Infere-se que o inglês contratou as duas
moças para seduzir os rapazes e levá-los até o acampamento.
O elemento feminino aparece na figura de Sua Alteza Real, dona Maria I, mãe de D.
João. É uma mulher louca que vive dando gritos e tendo visões. O Pão de Açúcar se
transformava num imenso diabo de 400 metros de altura na visão afetada pela loucura desta
personagem. Há, ainda, a prostituta decadente Bárbara dos Prazeres. Fora amante de D.João
no tempo passado e acaba vindo para o Brasil. Contaminada pela sífilis, acaba vivendo o
resto de seus dias num quarto escuro. A única personagem bondosa é a negra doceira Mãe
Benta. Leonardo acaba conquistando a simpatia da doceira ao evitar que garotos roubem os
deliciosos quitutes feitos por ela.
Os ingleses são personagens de comportamento ambíguo. Aparecem intrometidos
em todos os negócios possíveis. Eles se relacionam com todas as esferas do poder e têm
interesses comerciais com a Coroa portuguesa e com a Coroa espanhola. Participam
ativamente da conspiração de Carlota Joaquina contra D. João. Conspiração esta que tinha
como pano de fundo a disputa pelo poder na América espanhola. Os vilões da narrativa são
os ingleses, Carlota Joaquina, os ciganos e os capoeiras. Para combater os atos infracionais
temos o Major Vidigal e seus granadeiros. O Major é o representante da força policial
repressora. Sua personalidade é a de um homem rígido e, ao mesmo tempo, humano e
sensual. Sua presença causa medo e respeito. A pequena marginalidade o teme e o toma
como uma figura, ao mesmo tempo, amada e odiada. Nas festas de malhação de Judas
aparece sempre um boneco à imagem e semelhança do Major Vidigal.
Há, portanto, duas esferas de vilania que se comunicam: A alta vilania representada
por personagens de origem nobre e a baixa vilania, cujos representantes são pessoas que
vivem a margem da sociedade.O principal vilão é o inglês Jeremy Blood, que tem a sua
biografia mostrada da seguinte forma:
O mercador Blood era descendente direto de Peter Blood, um jovem médico inglês nas
Caraíbas que, pouco mais de cem anos antes, em 1690, se convertera à pirataria contra o
odioso reinado de Jaime II. No começo Peter Blood era um patriota, um homem valente,
honesto e pobre, que usava a pirataria para o bem. Mas logo descobriu que, destemido

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como era, hábil na espada e cercado tão-somente de patetas, ser corsário tout court trar-
lhe-ia fama e poder. (CASTRO, 2007 ,p.23).

Esse vilão representa toda a alta vilania. Ele comanda os impostores menores que
apenas recebem ordens. Do outro lado estão os bons moços representados por D. João,
Pedro, Leonardo e o Major Vidigal. Nesse duplo movimento pode-se localizar a visada
crítica do escritor . Em nenhum dos dois planos há heróis.

7) Considerações finais

A fronteira entre o discurso histórico e o literário tem se tornado bastante tênue na


contemporaneidade. Muitos textos históricos podem ser lidos como literários e vice versa.
Entender o que se passava na cabeça das pessoas que viveram no passado é uma
curiosidade impossível de ser resolvida pela experiência. O discurso ficcional se apropria
desse filão e dá voz a seres que já não existem mais.
O leitor tem a sua disposição um grande número de publicações que tematizam o
passado histórico. São romances muito diferentes daqueles conhecidos como o romance
histórico clássico caracterizado por Lukács. A forma de concebê-los não obedece a nenhum
padrão pré-estabelecido. As possibilidades de apropriações e os efeitos alcançados são
muito promissores. O pastiche, o humor, a irreverência com alguns toques de realismo
mágico são marcas recorrentes.
A apropriação da história literária pela literatura tem se mostrado como um foco de
resistência da atividade literária. Criam-se livros relativamente complexos que exigem um
leitor experimentado na tradição literária. A literatura de qualidade e criativa, demarca seu
espaço e permanece fora das leis do mercado. Por outro lado, o filão é explorado pela
industria cultural, multiplicando-se os títulos que encenam o passado pelo que pode ter de
exótico e pelo potencial de criação. Entre um e outro , cria-se um espaço intermediário ,
cujo pioneiro talvez tenha sido O Nome da Rosa, de Umberto Eco, aberto ao leitor que tem
preferência pelo romance policial, ao interessado nos estudos medievais , bem como ao
investigador que pretende discutir sistemas semióticos.
O livro de Ruy Castro é um exemplo de realização que se apropria dos mais
variados tipos de discurso e personagens.Apropria-se, inclusive, do ritmo de outra obra. A
leveza e o bom humor na linguagem, presentes no livro de Manuel A. de Almeida, também

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são visíveis no livro de Castro. Seu leitor pode ser o que vem na esteira do atual interesse
despertado pela mídia pela época representada , como pode ser aquele interessado no
processo intertextual.
O diálogo com a história é um recurso recorrente na produção literária latino-
americana contemporânea. A busca de uma identidade cultural encontra no passado
histórico um sólido esteio.

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8) Referências bibliográficas
ALMEIDA, Manuel Antonio de. Memórias de um sargento de milícias .São
Paulo Publhifolha, 1997.

CÂNDIDO, Antonio. Dialética da malandragem. In: O discurso e a cidade .São


Paulo: Livraria Duas Cidades. 1993. p.. 19-55.

CASTRO, Ruy. Era no tempo do rei.Rio de Janeiro: Alfaguara ,2007.

DUCROT, Oswaldo & TODOROV, Tzvetan. Dicionário das ciências da


linguagem. Lisboa: Dom Quixote, 1973.
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São Paulo 2003.

GOMES, Laurentino .1808. Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma
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São Paulo. Editora Planeta do Brasil, 2007.

LUKÁCS, Georg. The historical novel. New York: Peguin Books. 1969.

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