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CENTRO UNIVERSITÁRIO DE BELO HORIZONTE (UNI-BH)

GABRIEL BARROS RIBEIRO

DOS CONTADORES DE HISTÓRIA


À NARRATIVA PRAGMÁTICA
Uma análise das mudanças estruturais das notícias sobre
assassinatos durante a evolução do jornal Gazeta de Minas

Belo Horizonte
2010
GABRIEL BARROS RIBEIRO

DOS CONTADORES DE HISTÓRIA


À NARRATIVA PRAGMÁTICA
Uma análise das mudanças estruturais das notícias sobre
assassinatos durante a evolução do jornal Gazeta de Minas

Monografia apresentada ao curso de Jornalismo do


Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH)
como requisito parcial à obtenção de título de bacharel
em Jornalismo.
Orientador: Fabrício Marques

Belo Horizonte
2010
Dedico à minha amada mãe, pelo amor e pelo apoio
incondicional aos estudos sempre. Ao meu pai,
mestre no estrito sentido do termo, cujo exemplo de
ser humano e de profissional eu procuro seguir. Ao
meu irmão e aos meus avós, pela fonte inesgotável
de apoio, amor e compreensão.
Sinceros agradecimentos ao meu orientador
Fabrício Marques, e a professora Érika Savernini,
pela orientação e por aceitar o desafio de me ajudar
neste trabalho.
“A sociedade que aceita qualquer jornalismo não
merece jornalismo melhor”. (Alberto Dines)
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO................................................................................................................... 07
2 PANORAMA HISTÓRICO DA ESTRUTURA DA NOTÍCIA.....................................10
2.1 Breve história da imprensa no mundo e no Brasil..............................................................10
2.1.2 Trajetória das mudanças estruturais da notícia..............................................................18
2.2 COMUNICAÇÃO DE MASSA.......................................................................................20
2.2.1 Valor notícia......................................................................................................................20

3 AS NOVAS TÉCNICAS JORNALÍSTICAS E O SENSACIONALISMO.....................23


3.1 Principais transformações da imprensa e da notícia no século XX....................................23
3.2 Leads e Pirâmides...............................................................................................................26
3.3 Agenda Setting.....................................................................................................................29
3.4 Gatekeeper..........................................................................................................................32
3.5 Newsmaking........................................................................................................................33
3.6 Sensacionalismo e o jornalismo popular.............................................................................34

4 4 PESQUISA, METODOLOGIA E ANÁLISE................................................................39


4.1 Apresentação do tema e do objeto de
pesquisa...................................................................39
4.1.2 Gazeta de Minas...............................................................................................................40

4.2 ANÁLISE DA NOTÍCIA DE 1906..................................................................................42


4.2.1 A construção da notícia e os tipos de leads.....................................................................42
4.2.2 O sensacionalismo na notícia de 1906............................................................................47

4.3 ANÁLISE DA NOTÍCIA DE 1997.................................................................................50


4.3.1 A construção da notícia e os tipos de leads após 1950....................................................50
4.3.2 O sensacionalismo na notícia de 1997............................................................................54

5 CONCLUSÃO.....................................................................................................................56
REFERÊNCIAS.....................................................................................................................58
ANEXOS.................................................................................................................................60
ANEXO A – Primeira página Gazeta de Minas de 1906. Ampliação......................................60
ANEXO B – Primeira página Gazeta de Minas de 1997. Ampliação......................................61
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INTRODUCAO

Diante de um panorama peculiar do início do século XX, o jornalismo no Brasil se


caracterizava pelo excesso de adjetivismo no texto das reportagens, o uso do nariz de
cera para começar a matéria, além do uso das reportagens longas. A formatação e
estruturação das matérias e notícias privilegiavam a utilização da forma narrativa
detalhada, escrita mais em forma de um conto ou história. Como afirma Erbolato
(2004), a programação visual enfatizava o texto longo com pouca imagem. Jornalismo
doutrinário e moralizador era feito com ânimo proselitista a serviço das idéias políticas
e lutas ideológicas. Trata-se de imprensa pouco informativa e cheia de comentários.
Mesmo Erbolato (2004) estabelecendo um esquema conceitual, na realidade, as balizas
são os períodos da história política brasileira, que, certamente, têm forte influxo na
forma e no conteúdo da imprensa. Abreu (2002) lembra que o jornal se transformou em
empresa nos EUA quando se descobriu a publicidade como fonte de capitalização. A
notícia então, a partir daí, tem que se transformar em produto para o público-
consumidor, mas as mudanças nas técnicas de redação, entretanto, só vão mudar na
segunda fase.

Esta monografia se propõe a analisar a notícia em sua estrutura e as representações


sensacionalistas em fatos relacionados a assassinatos, publicadas pelo jornal Gazeta de
Minas, em dois momentos distintos do jornalismo brasileiro. O primeiro no início do
século XX e o segundo no final do mesmo século. A escolha desse objeto se dá a partir
da diferenciação da estrutura da notícia, apontada pelos autores que embasam este
trabalho, apresentada em momentos diferentes da história do jornalismo impresso.

O jornalismo brasileiro passou por diversas transformações de grande envergadura


durante suas décadas de existência. Segundo Abreu (2002), a partir da década de 1950 o
jornalismo brasileiro começou a sofrer mudanças estruturais na notícia, implantando nos
jornais novas técnicas adotadas dos Estados Unidos. As empresas jornalísticas
investiram em novos equipamentos, introduziram novas técnicas e mudaram sua gestão
administrativa. Sodré (1999) afirma que, paralelo a isso, o público consumidor também
se diversificou e passou a ter dimensão nacional. Com o passar dos anos e com a
evolução tecnológica, o jornal escrito perdeu sua posição exclusiva de levar fatos ao
conhecimento do público.
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Os novos formatos jornalísticos surgiram a partir da alfabetização, quando o número de


pessoas que sabiam ler e escrever crescia sem parar. Esses alfabetizados se tornavam
formadores de opinião entre todos que ainda não eram alfabetizados. Como postula
Marcondes Filho (1985), paralelamente a estes fatos, as máquinas de produção
chegavam aos jornais, criando mais possibilidades de difusão, em grande escala, da
notícia escrita entre as pessoas.

No início do século XX, a notícia era publicada sem precedentes lógicos de


estruturação, porém com características sensacionalistas inseridas no intuito de
despertar emoções no leitor. Arbex (2002) afirma que, deixava-se de lado, portanto, a
imparcialidade e neutralidade em detrimento a informação direta e retratada como o fato
realmente ocorreu, sem vínculos opinativos. Uma vez acontecido, o jornalismo julgava
os fatos, assumindo, assim, papéis que seriam capacidades específicas do público que
iria receber a notícia.

Muitas alterações da estrutura da notícia são apontadas pelos autores referenciados nesta
monografia. Mas, como isso está inserido na evolução histórica das páginas do mais
antigo jornal do estado ainda em circulação? Tendo conhecimento de que muita coisa
mudou, pretende-se, neste trabalho, entender como isso se fez presente nas páginas
históricas e atuais do jornal Gazeta de Minas. Por se tratar, ainda, de um jornal com
circulação no interior de Minas Gerais, como ele acompanhou as novas técnicas
jornalísticas adotadas pelos demais veículos de comunicação de massa? Para um estudo
mais detalhado desse tema, cabe analisar as bases das notícias sobre assassinatos
publicadas pelo jornal, durante determinado período, para constatar as mudanças das
técnicas e dos modelos estruturais no periódico no início e no fim do século XX.

No capítulo 1 será abordada a história da imprensa mundial e nacional, no intuito de


entender como surgiram e evoluíram os jornais impressos, além dos demais veículos de
comunicação. No segundo, falar-se-á das novas técnicas jornalísticas adotadas pelos
periódicos no Brasil, abordando ainda, o sensacionalismo na notícia, teorias de agenda-
setting, mass media, gatekeeper e newsmaking. Isso permitirá o maior entendimento
sobre os processos de produção da notícia e as principais transformações da imprensa e
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do texto jornalístico no século XX. Finalmente, no capítulo 3, procede-se à análise das


edições escolhidas e já citadas do Jornal Gazeta de Minas, buscando entender, diante de
um contexto de mudanças nos padrões jornalísticos brasileiros, como o periódico adota
em suas páginas, os novos formatos jornalísticos para a estruturação da notícia. A
análise abordará também os aspectos sensacionalistas encontrados nas páginas do
jornal.
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2 PANORAMA HISTÓRICO DA ESTRUTURA DA NOTÍCIA

2.1 Breve história da imprensa no mundo e no Brasil

A notícia é, desde seus primórdios na sociedade européia moderna, um bem de consumo


essencial para as pessoas. Assim como todas as coisas, a notícia passou, no decorrer dos
anos, por diversas mudanças estruturais que se adequaram as peculiaridades de cada
momento. Esta monografia se foca no panorama de evolução do texto jornalístico
durante o século XX, principalmente nos comparativos entre os velhos e novos formatos
de publicação do texto jornalístico.

Para configurar a evolução da informação, Traquina (2005) analisa a notícia nas


primeiras décadas do século XVII, quando ela era dada através de decretos,
proclamações e nos sermões da igreja. O autor lembra o que foi notícia no início dos
anos de 1600 nos países europeus, e toma como exemplo desse momento a morte o
dramaturgo inglês Willian Shakespeare. Não existiam jornais nos moldes de diversas
editorias nem as publicações periódicas no início desse século. Havia, segundo o autor,
as chamadas folhas volantes, que traziam notícias e avisos moralistas ou interpretações
religiosas. Apesar das primeiras folhas volantes inglesas aparecerem no século XVII, há
registros de circulação desse meio noticioso na cidade de Veneza, no século XVI. Havia
também folhas volantes no Novo Mundo, publicadas no México em 1541. Tais folhas
surgiram com o intuito de satisfazer as necessidades da população sobre os
acontecimentos. Ao todo foram publicadas 25 edições no ano de 1616. Estas folhas
traziam como notícias assassinatos, celebridades e discursos do Rei. Curiosamente, a
morte de Shakespeare não foi relacionada em nenhuma edição deste período. Na época
foram tratadas notícias de milagres, abominações, catástrofes e acontecimentos bizarros,
explica Traquina. “O nascimento de um porco com duas cabeças era notícia, mas visto
como sinal da raiva de Deus contra os pecados do seu povo na Inglaterra”
(TRAQUINA, 2005, p.64). Também eram notícia os heróis, as guerras, trocas
comerciais e nada se falava sobre os acontecimentos locais, já que se tratava de assuntos
acessíveis à população. Para Traquina (2005), um valor-notícia importante era o
insólito, isto é, os acontecimentos que produziam o maior espanto, a mais profunda
maravilha, a maior surpresa.
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O Aviso de Augusberg, Alemanha, é geralmente considerado como sendo o primeiro


jornal publicado em 1609. Pouco tempo depois apareciam outros e geralmente saíam
uma vez por semana. O primeiro jornal publicado em inglês foi publicado em
Amsterdam em 1620 (TRAQUINA, 2005, p.66).

Com a expansão da atividade comercial, a partir do século XVIII, a notícia obteve


caminhos para chegar mais facilmente em diversos lugares do mundo, já que, até então,
ela levava décadas para cruzar a Europa em cantigas e fábulas dos trovadores.

A partir desse momento, outros jornais foram surgindo dentro desta primeira
configuração, como observa Traquina (2005), até que se inicia um novo jornalismo com
o aparecimento das chamadas Penny Press. Destaca-se nos Estados Unidos o jornal
New York Sun, lançado por Benjamin H. Day. Na França, Emile de Girardin lançara o
La Press.

O New York Sun dava ênfase às notícias locais, às histórias de interesse humano, e
apresentava reportagens sensacionalistas de fatos surpreendentes. Day contratou um
repórter para escrever artigos em estilo humorístico sobre os casos que surgiam
diariamente na delegacia local de polícia. Conseguiu assim, redefinir a notícia de
maneira a satisfazer os gostos, os interesses e a capacidade de compreensão das
camadas menos instruídas da sociedade. Até a época da “Penny Press”, as notícias
versavam apenas sobre assuntos políticos e econômicos, e o respectivo comentário
(TRAQUINA, 2005, p.67).

Já no século XIX, como define Lage (1999), era fácil lançar uma folha, na Europa, já
que os investimentos para imprimir um jornal eram pequenos e os consumidores
arcavam com a totalidade dos custos. Com a revolução industrial, o processo de
produção da notícia se tornou ainda mais forte, se livrando da censura. Para o autor, há
três motivos para que essa evolução acontecesse: a) Com a alfabetização, o número de
pessoas que sabiam ler e escrever crescia sem parar. Esses alfabetizados se tornavam
formadores de opinião entre todos que ainda não sabiam ler e escrever; b) As máquinas
de produção chegavam aos jornais. Segundo Lage (1999), a mecanização começou em
1814 com a impressora de Koenig, passou para a rotativa Marinoni e chegou ao seu
auge, em 1867, com a linotipo em linhas de chumbo de Marghentaler. Assim, o
empreendimento jornalístico tornou-se empresarial e baixou seus custos de produção,
eliminando do mercado quem ainda insistisse em produzir jornais manualmente; c) A
publicidade custeou a maior parte dos periódicos e induziu o público à compra de bens
de consumo. Essa promoção do consumo está totalmente ligada aos interesses do
sistema econômico.
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No Brasil, até o início do século XX, não havia linotipos, segundo Sodré (1999). O
autor lembra ainda que o princípio do ano de 1900, assinala o aparecimento de
numerosos jornais, nas capitais e no interior. Neste período a República está
consolidada, porém em suas exterioridades formais.

Sodré (1999) afirma que as finanças do país se relacionavam com a estagnação


econômica, com o país apertado pela carga tributária e pelas restrições à indústria;
estagnação política, com as oligarquias absolutas que geriam Estados como se fossem
fazendas particulares. Porém, a imprensa também de caráter artesanal estava
consolidada. “Subsistia no interior, nas pequenas cidades, nas folhas semanais feitas em
tipografia, pelos velhos processos e servindo as lutas locais, geralmente virulentas”
(SODRÉ, 1999).

A passagem do século assinala ainda a transição da pequena à grande empresa. É o que


ressalta Sodré (1999), já que os jornais menores cedem lugar às empresas jornalísticas
dotadas de equipamento gráfico para o exercício da sua função. Essa mudança afeta
diretamente o modo da circulação dos jornais que alteram as relações com o anunciante,
com a política e com os leitores. Sodré observa ainda que todas as mudanças
empresariais estão ligadas às transformações do país, em seu conjunto, e, nele, à
ascensão burguesa, ao avanço das relações capitalistas.

O jornal será daí por diante, empresa capitalista, de maior ou menor porte. O jornal
como empreendimento individual, como aventura isolada, desaparece nas grandes
cidades. Será relegado ao interior, onde sobreviverá, como tal até nossos dias.
(SODRÉ, 1999, p. 275).

José Marques de Mello (1984) acredita que há, desde o início dos impressos no país no
começo do século XX, um descompasso entre o nível cultural dos jornalistas e o público
leitor dos jornais, onde se produz uma linguagem inacessível ao grande público. Nesse
momento ainda não existiam televisores nas casas das pessoas, que buscavam
informações nos jornais em circulação, como afirma Abreu (2009).

Nas capitais não havia lugar para o modelo artesanal da imprensa; nelas o jornal já se
posicionava na fase industrial, como empresa, grande ou pequena, mas com estrutura
comercial inequívoca. Sodré (1999) postula que nesse momento se vendia informação
como se vende qualquer outra mercadoria, e a sociedade precisava da informação para
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trabalhar e até para se divertir. “A imprensa no início do século havia conquistado o seu
lugar, definido a sua função, provocado a divisão do trabalho em seu setor específico,
atraído capitais” (SODRÉ, 1999, p.323).

A partir de uma evolução das atividades comerciais, a informação começa a ser escrita
por ordem de banqueiros e comerciantes. Porém, este ciclo decaiu com o corte das vias
de comércio com o Oriente, como relata Lage (1999). Restava, então, encontrar outro
caminho entre a Europa e a Ásia. Isso se fez a partir dos burgos da Alemanha.

A ascensão burguesa acompanhou o lento desenvolvimento do capitalismo no país e


passou por um tortuoso processo que não tem nada de harmonioso. Há, segundo Sodré
(1999), o problema do poder, que afeta diretamente a imprensa com aspecto capitalista,
que é forçada a acomodar-se ao poder político que ainda não possui conteúdo
capitalista, pois o Estado ainda serve à estrutura pré-capitalista tradicional. “O traço
burguês da imprensa é facilmente perceptível, aliás, nas campanhas políticas, quando
acompanha as correntes mais avançadas, e em particular nos episódios mais críticos, os
das sucessões” (SODRÉ, 1999).

O problema é complexo, como observa Lage (1999), e se revela na questão política da


sucessão dos chefes de estado, questão que sempre assume aspectos graves com o
passar dos anos, ou seja, no fundo dessa turbulência reside o problema do poder. Há
aspectos que demonstram a realidade do quadro com clareza, já que a imprensa se
relaciona ao mesmo tempo com o aspecto capitalista empresarial e uma posição como
servidor de um poder que corresponde a relações predominantemente pré-capitalistas.

Campos Sales, que presidiu o país na virada do século, buscou estruturar politicamente
as forças pré-capitalistas, não tinham nenhum escrúpulo em comprar a opinião da
imprensa e de confessar essa conduta. Sodré (1999) ressalta que, para o presidente, a
medida de estruturação lhe parecia honesta e necessária. A partir daí, essa compra da
opinião pelo governo torna-se rotina na política. Depois de Campos Sales, outros
presidentes também adotaram o mesmo alvitre para conseguir consolidar os projetos
políticos de cada governo.

Lage (1999) postula que a evolução tecnológica gráfica resultou do comércio asiático, já
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que o papel era fabricado na Espanha, os tipos de metal surgiram na Coréia e os de


cerâmica foram criados na China, e a mão-de-obra negra, da África. Portanto, esse era o
momento favorável para a busca do poder.

Em janeiro de 1904, Sodré (1999) ressalta que as artes gráficas no Brasil já tinham
condições para separarem a fotografia do desenho. Nesse momento, a imprensa, que
ainda não havia encontrado sua linguagem específica, aceitava o suporte da decadente
literatura na fase em que as oligarquias dominavam o país. Os clichês, no início do
século XX, eram caríssimos, as oficinas de gravuras eram poucas e os jornais quase não
os usavam.

A oligarquia, a política de estagnação, a pausa no desenvolvimento do Brasil, traços da


consolidação republicana, em termos em que finda a tormenta do governo de Floriano
Peixoto foram determinadas pelo latifúndio que trouxe uma fase de repouso, de
empobrecimento, de esterilidade em nossas letras, como aponta Sodré (1999). O autor
afirma que literatura e imprensa se confundiam e as repercussões no periodismo eram
inevitáveis, o que lastreava a linguagem de baixa literatice dos jornais. Com as
dificuldades de publicação e financeiras enfrentadas pelos escritores, eles buscavam
encontrar no jornal o que não encontravam no livro: notoriedade, um pouco de dinheiro,
quando havia possibilidade. Essa imprensa - que vivia tanto da literatura, como esta
vivia da imprensa -, estimulava a polêmica.

Erbolato (1991) ressalta para a necessidade de jornalismo escrito, após a Segunda


Guerra Mundial, de se estabelecer como veículo interpretativo. Para o autor, os editores
daquele momento perceberam que o leitor carecia de maior entendimento dos fatos.
Para isso, foi preciso oferecer um complemento do que foi apresentado no rádio e na
televisão. Surgiu então, segundo o autor, o jornalismo interpretativo, a fim de sustentar
os veículos impressos através de características como comentários feitos por
especialistas que analisavam as notícias de acordo com suas próprias visões. Erbolato
(1991) ressalta que tudo isso era feito com o objetivo de ajudar o homem a compreender
melhor o significado do que lê e ouve.
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Entendo por jornalismo interpretativo o que trata de dar significado e sentido ao que
relata, projetando-as em três dimensões: os antecedentes de um fato (nada surge
isoladamente); o respectivo contexto social (o acontecimeto sempre é parte de uma
situação geral) e as conseqüências do que ouve (ERBOLATO, 1991, p.33).

De acordo com Sodré (1999) a generalização de relações capitalistas exigiu alterações


na imprensa, que foram introduzidas lentamente. A partir daí, acentuou-se a tendência
ao declínio do folhetim, substituído pelo colunismo e, pouco a pouco, pela reportagem;
a tendência para a entrevista, substituindo o simples artigo político; o aparecimento de
temas antes tratados como secundários, que ganharam espaço cada dia maior, os
policias, esportivos e também os mundanos.

Lage (1999) relata que, em seus primeiros tempos, a imprensa norte-americana cobria
fatos locais e dava ênfase a histórias sentimentais e crimes. Esse tipo de tratamento da
notícia gerou a imprensa sensacionalista, voltada para a coleta de informações a
qualquer preço, mesmo que mentirosas ou falsas. Para superar o sensacionalismo, os
jornalistas americanos adotaram mais rigor na seleção dos fatos, buscando no espírito
científico o respeito pelos fatos ocorridos e a cautela de noticiar o que realmente era
verdade.

Surgiu aí, segundo Sodré (1999), a idéia de imparcialidade.

Aos homens de letras, a imprensa impõe, agora, que escrevam menos colaborações
assinadas sobre assuntos de interesse restrito do que o esforço para se colocarem em
condições de redigir objetivamente reportagens, entrevistas, notícias. (SODRÉ,
1999, p. 275).

Na morte do escritor B. Lopes, o jornal O País, destacou que, poetas boêmios como ele
não podiam mais existir. Segundo Sodré (1999), as colaborações literárias começaram a
ser separadas das páginas do jornal e passaram a constituir matérias à parte, já que o
veículo não pretende ser, todo ele, literário. Os homens de letras começavam a se
refugiar nas páginas das revistas ilustradas que se proliferaram, vindo a se tornar, nessa
fase, veículos literários.

A partir do governo Vargas (1950-1954), como define Abreu (2002), com o avanço do
processo industrial do Brasil e consequente aumento da capacidade produtiva,
aumentaram ainda mais os investimentos de peso em propagandas, incentivando o
surgimento de agencias de publicidade. Segundo a autora, os jornais passaram a ter 80%
16

do seu faturamento baseado na propaganda. Assim, a imprensa foi se tornando cada vez
menos dependente do setor público. Para os impressos, essa dependência se baseava
também no fornecimento de matéria-prima e papel, como itens fundamentais para
existência dos jornais.

Abreu (2002) descreve as transformações de grande envergadura da imprensa brasileira,


nas três últimas décadas do século XX. Foi nesse período que as empresas jornalísticas
investiram em novos equipamentos, introduziram novas técnicas e mudaram sua gestão
administrativa. Paralelo a isso, o público consumidor também se diversificou e passou a
ter dimensão nacional. Tudo isso se passou diante de um processo de transição política
em que, a partir de 1964, os jornais funcionavam sobre forte pressão da ditadura militar.
Já a partir de 1974, no governo Geisel, essa situação começou a mudar e então a
imprensa voltou a trabalhar em liberdade.

A partir daí, “a formação de grandes redes, estimuladas pelos militares, exigia


investimentos. Foi então que se assistiu à formação dos oligopólios da informação com
recursos obtidos junto ao governo” (ABREU 2002, p.17). Como contraponto do
aparecimento dos grandes jornais, outros impressos não tão grandes e fortes foram
extintos, como o Diário Carioca, Correio da Manhã e do Diário de Notícias. O Última
Hora entrou em decadência. Abreu (2002) relaciona outros jornais que também foram
extintos nos anos 1970. A explicação para tal acontecimento está ligada também à
elevação do custo do papel impulsionada pela crise do petróleo em 1973, que elevou o
custo da matéria prima em 187%. O Brasil importava cerca de 60% do seu consumo de
papel para jornais.

A imprensa, antes dos anos de 1950, era dependente dos favores do Estado e dos
classificados em geral, como afirma Abreu (2002), e poucas vezes da publicidade de
lojas comerciais. A autora relaciona os principais jornais do Brasil, que eram
vespertinos e circulavam no Rio de Janeiro e São Paulo. Até a metade do século XX
quem detinha o poder da informação eram o rádio e o impresso. A TV ainda começava a
dar seus primeiros passos, que se restringiam por conta das deficiências de comunicação
que existiam no Brasil. Dentre elas, a autora relaciona: as deficiências dos correios, as
precárias condições das redes e meios de transporte e ainda os incipientes sistemas de
telecomunicações.
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Abreu (2002) aponta, como uma das marcas dos anos 1950, mais uma vez o forte debate
político que se estabeleceu na imprensa envolvendo os partidos Social Democrático
(PSD) e Trabalhista Brasileiro (PTB) com a União Democrática Nacional (UDN). Até o
final do século XIX o jornalismo de combate, de crítica, de doutrina e de opinião
convivia com o jornal popular.

A partir do regime militar em 1964, instalou-se um forte consentimento civil. Os


proprietários dos principais jornais em circulação encampavam idéias do liberalismo
econômico ligadas à UDN, fator relevante para a deposição do presidente João Goulart.
Antes do golpe de 1964, os jornais já alertavam para o perigo do “estatismo” na
economia e também condenavam a restrição do capital estrangeiro, medida que
impediria o desenvolvimento do Brasil. Diante desses fatores e da pressão popular,
amedrontada por expectativas de um governo comunista, a imprensa aceitou a
centralização do poder nas mãos dos militares.

Poucos foram os jornais contrários a instalação do regime autoritário-militar. Um


deles foi a última hora, que durante o governo Goulart apoiou as chamadas reformas
de base e as reivindicações dos sindicatos e dos movimentos de esquerda (ABREU,
2002, p. 14).

Traquina (2005) reforça a importância das qualidades duradouras da notícia por volta
dos anos 70 do século XX. O autor se baseia num estudo feito por Herbert Gans (1979)
que avalia os telejornais de três diferentes cadeias norte-americanas (CBS, ABC e
NBC), além das revistas Newsweek e Time. O relatório final comprova a estreita
percepção da mudança da notícia nesses quase quatro séculos de história.

É surpreendente que a essência das notícias pareça ter mudado tão pouco? A que
outros assuntos se poderiam as notícias ter dedicado? Podemos imaginar um sistema
de notícia que desdenhasse o insólito em favor do típico, que ignorasse o
proeminente, que dedicasse tanta atenção ao datado como o atual, à paz como à
guerra, ao bem estar como à calamidade e à morte? (STHEPHENS, 1988, citado por
TRAQUINA, 2005, p.34). 1

Depois da subida dos militares ao poder, de acordo com Abreu (2002), a imprensa se viu
diante de repressões à liberdade de expressão e, então, quem praticamente deu força
para a realização do golpe passou a denunciar arbitrariedades que eram cometidas.
Porém, houve uma evolução da intensidade da censura com o passar dos anos, onde
1
STEPHENS, M. (1988): A History of News, New York: Penguin Books.
18

jornais como O Jornal do Brasil e o Correio da Manhã do Rio de Janeiro foram


invadidos e tiveram vários funcionários presos. Diante dessa censura, a autora constata
ainda que os jornais continuaram a luta para denunciar as intensas ações de repressão a
liberdade de imprensa. Houve outra face da relação da ditadura com a imprensa, quando
os militares financiaram a evolução tecnológica dos meios de comunicação, com o
objetivo de melhorar a capacidade de abrangência dos veículos censurados pelo
governo.

A partir de 1974, quando o general Ernesto Geisel assumiu a presidência da República,


Abreu (2002) afirma que o governo precisou reaver o apoio popular, para colocar em
prática um projeto idealizado pelo presidente e por seu principal assessor, o general
Golbery do Couto e Silva, que buscava uma distensão política. Para isso, a imprensa
passou a ter mais liberdade e, segundo a autora, esse período foi marcante para a
história do jornalismo.

A partir daí a censura explícita ou a autocensura dos órgãos de imprensa foi bastante
amenizada, e os jornais e revistas passaram a agir com mais desenvoltura em defesa
da volta à democracia, da anistia e da liberdade de expressão” (ABREU, 2002,
p.25).

Foi durante o governo Geisel que se tornou comum a divulgação de notícias que teriam
como fonte pessoas que ocupavam o centro do poder. Porém, essas autoridades não
podiam ser citadas como fontes, eram informações off-the-record, ou seja, extra-oficiais.
Essa forma de manter fontes em sigilo é comum até hoje na prática do jornalismo, como
observa Abreu (2002), mas, há um lado negativo nessa forma de noticiar, já que as
fontes podem usar os jornalistas para interesses políticos, e ao mesmo tempo não serem
reveladas. Mesmo assim, a autora afirma que os jornalistas consideram o off-the-record
uma ótima forma de obter notícias quentes.

2.1.2 Trajetória das mudanças estruturais da notícia

O contexto do desenvolvimento histórico das técnicas jornalísticas aconteceu de forma


diferente em todas as partes do mundo. Nos Estados Unidos, por exemplo, não houve
censura como nos países europeus. Isso se deve ao fato de que nenhuma força interna se
opunha ao regime de federação. Como afirma Lage (1999), quem tinha motivos para
19

reclamar – escravos e índios -, não dispunha de acesso à palavra escrita.

Abreu (2002) reforça que na década de 1950 surgiram alguns jornais fundamentais na
evolução das técnicas de imprensa brasileiras, destacando o Última Hora, criado em
1951, que introduziu novas técnicas de diagramação até então desconhecidas no país. O
jornal Diário Carioca introduziu, também em 1951, o lead clássico importado dos
jornais norte-americanos. A autora relata que, a partir de 1956, alguns jornais como o
Jornal do Brasil, que era tido como boletim de anúncio, adotaram novas técnicas
inserindo fotografia na primeira página, e outras modificações gráficas. Abreu (2002)
descreve as principais modificações gráficas como a inserção de cadernos que teriam
grande impacto nas subsequentes transformações da imprensa a partir daquele
momento.

Erbolato (2002) postula que o lead surge como forma de trazer no primeiro parágrafo os
fatos principais, a serem narrados com base na pirâmide invertida. Feito isso, cada
assunto será desenvolvido na sequência, mas o lead já deu uma ideia do que houve,
convidando o leitor a seguir adiante.

Somente após a promulgação da nova Constituição, em outubro de 1988, como define


Abreu (2002), a imprensa recuperou suas garantias de expressão e avançou
tecnologicamente, a fim de reduzir custos e agilizar a produção.

A influência do mercado sobre as redações se fez sentir ainda de outras maneiras. Os


jornalistas foram obrigados a produzir textos mais curtos, a escolher títulos
sintéticos, a se preocupar com o uso da imagem. Proliferam as colunas de notas
curtas, que têm um número elevado de leitores (ABREU, 2002, p. 30)

O público foi beneficiado, a partir dos anos de 1980, com o aumento do espaço
destinado às cartas do leitor, às reclamações e aos serviços. Todos esses benefícios se
inseriram, segundo Abreu (2002), dentro de um contexto de um novo jornalismo.
Essa prática se baseia em manter uma relação de interesses entre o público consumidor
e as redações, analisando os interesses do leitor. Além disso, o marketing, por exemplo,
se tornou fundamental para manter os jornais em circulação.

Já a partir da década de 1990, Abreu (2002) frisa que a maneira de trabalhar dos
20

jornalistas se alterou e se firmou cada vez mais como homogênea, já que os


profissionais lêem entre si, ou seja, assistem os mesmos telejornais à noite e cobrem os
mesmos personagens políticos. Isso tornou as informações divulgadas por diversos
meios de comunicação cada vez mais igual.

2.2 COMUNICAÇÃO DE MASSA

2.2.1 Valor notícia

O Valor-notícia é subjetivo na hora de definir quando um fato vai virar notícia. Ou seja,
esse valor determina a importância que um fato ou acontecimento tem para ser
noticiado. Está ligado portanto, com o conceito de critérios de noticiabilidade. Na
prática a decisão acerca do que é ou não notícia é tomada de forma informal por editores
que se baseiam na sua experiência profissional e intuição. Os fatores ou critérios que
dão a um fato certo valor-notícia coincidem na maior parte das redações dos meios de
comunicação social.

Wolf (2002) aponta os efeitos iniciais dos mass media, antes dos novos conceitos de
Schuls (1982, citado por WOLF, 2002),2 que define o paradigma de assimetria dos
processos de comunicação, em que um sujeito reage a estímulos emitidos por outro
sujeito, já que a comunicação é individual e diz respeito a cada indivíduo. No âmbito da
política, o autor postula ainda que a comunicação acontece de forma intencional e visa
um determinado efeito. O que ocorrem também são processos comunicativos episódicos
com base nos limites do tempo. Esse paradigma está atualmente modificado com o
entendimento dos efeitos de longo prazo.

Wolf (2002) refere-se ainda ao abandono dos estudos de casos singulares como as
campanhas eleitorais, para o aprofundamento nos estudos da cobertura global do
sistema mass media. Nesse novo contexto, o autor descreve a influência exercida pelo
meios de comunicação de massa, não apenas baseada no discurso do que os porta-vozes
afirmam, mas também focada em tempos em que os mass media fornecem modelos dos

2
SCHULZ, W.1982. Ausblick am Ende des Holzweges. Eine Übersicht über die Ansatze der neuen
Wirkungsforschung, Publizistik, n.º 1-2, pp. 49-73.
21

candidatos eleitorais e analisam os modelos que serão adotados nas campanhas


estabelecendo perspectivas de temas adotados pelos candidatos, de forma ampla e
equilibrada da realidade de cada competição eleitoral.

Roberts (1972 citado por WOLF, 2002),3 define que os mass media desempenham um
papel de construção da realidade que ajuda a estruturar a imagem da realidade social,
além de formar novas opiniões em um período de tempo maior e com conteúdos mais
aprofundados. Assim os mass media tornam-se estruturadores de um contexto político
real e cumulativo, por se tratar de algo vasto e que se define em um período de tempo
estendido.

“[...] a nova problemática dos efeitos analisa os processos e os modos como os


meios de comunicação de massa estabelecem as condições da nossa experiência do
mundo para lá das esferas de interações em que vivemos” (WOLF, 2002, p.144).

No que se relaciona à notícia, Lage (1999) afirma que ela não deve narrar os fatos, mas
sim expô-los, já que a narrativa está gramaticamente ligada à literatura, assentada no
épico. Nesse aspecto, o autor afirma que a narrativa traz os fatos em sequência, como
no seguinte exemplo: “O bandido entrou na agencia bancária, olhou para todos os lados,
aproximou-se do caixa e disse: 'É um assalto'. O caixa acionou imediatamente o botão
de alarma com o joelho” (LAGE, 1999, p. 16).

Já Traquina (2005) estabelece os valores da notícia como elementos principais que se


inserem na cultura jornalística. A partir daí, pode-se analisar o que é uma notícia. Nesse
aspecto, os jornalistas possuem dois tipos de visões em relação a uma notícia. A
primeira é simplista, já que, de acordo com a ideologia jornalística, o profissional relata,
capta e reproduz. Por outro lado essa visão pode ser também minimalista, onde o fato do
jornalista atuar como mediador representa um papel reduzido, já que os profissionais
reforçam a importância e a influencia da profissão. Ou seja, as notícias possuem um
padrão previsível e com estabilidade.

Isso se baseia na existência dos critérios de noticiabilidade, ou seja, características da


notícia que são consenso entre os jornalistas. Assim, esses valores definem quais

3
ROBERTS, D.1972 The Process and Eflécts of Mass Communication, ed. revista, University of Illinois
Press, Chicago.
22

acontecimentos são ou não merecedores de matéria noticiável. De acordo com Stephens


citado por Traquina (2005, p.34) as notícias representam qualidades duradouras daquilo
que seja extraordinário, insólito, como o exemplo de um homem que morde um cão,
atual, figura proeminente, ilegal, as guerras, a calamidade e também a morte.

“... a humanidade tem permutado uma mistura semelhante de notícias com


consistência através da história e através das culturas que criam interesse nestas
notícias parece inevitável, se não inato” (STHEPHENS, 1988, citado por
TRAQUINA, 2005, p.42).4

Traquina (2005) aponta para as definições sobre a notícia que relata algo ruim, trágico
ou triste como outro valor-notícia. Esse tipo de acontecimento tem um poder de atração
de leitores, maior que notícias positivas e otimistas. As pessoas definem melhor o que é
ruim do que é bom. Isso, segundo o autor, varia pouco em relação às aceitações do que é
bom. “O acontecimento é mais noticiável se for contínuo a acontecimentos prévios, no
sentido em que o repórter é capaz de colocar num enquadramento saliente”
(TRAQUINA, 2005, p.74).

Há também outro valor-notícia. É a infração das leis, a má gestão, o mau


comportamento por parte de um funcionário ou qualquer autoridade responsável, e
mesmo uma sugestão de impropriedade, tem noticiabilidade.

Traquina (2005) define duas divisões de valores-notícia e estabelece a distinção entre os


valores-notícia de seleção e os valores-notícia de construção. O primeiro se relaciona
aos critérios utilizados pelos jornalistas na hora de definir o que é ou não um fato a se
transformar em notícia. Para o autor, “Onde há morte, há jornalistas. A morte é um fator
notícia fundamental para essa comunidade interpretativa” (TRAQUINA, 2005, p.79).
Os valores notícia de construção se referem aos “critérios de seleção dos elementos
dentro do acontecimento dignos de serem incluídos na elaboração da notícia”
(TRAQUINA, 2005, p.91).

3 AS NOVAS TÉCNICAS JORNALÍSTICAS E O SENSACIONALISMO

3.1 Principais transformações da imprensa e da notícia no século XX


4
STEPHENS, M. (1988): A History of News, New York: Penguin Books
23

Praticamente até o início do século XX, os autores relatam que, o texto jornalístico
possuía características literárias, poéticas e densas, diferentes em diversos locais do
mundo. Não havia, portanto, um sistema de estruturação universalizado que norteasse
os profissionais no momento de reportar. Ou seja, ao contrário do que vemos hoje no
século XXI, onde as notícias nos jornais possuem estruturação padronizada, os leitores
se deparavam com narrativas contadas cronologicamente segundo o seu acontecimento,
se baseando no formato de pirâmide normal ou literária. Essas são as principais
referencias encontradas até então. Além disso, outros fatores se inseriam comumente
nas páginas dos periódicos até o início da década de 1900, como por exemplo, os
artifícios sensacionalistas a fim de despertar emoções e atrair o leitor.

Sodré (1999) lembra que no início dos anos de 1900 o noticiário era escrito de forma
difícil, empolada. Os redatores eram literatos o que confundia o jornalismo com
literatura, e no pior sentido. “As chamadas informações sociais – aniversários,
casamentos, festas – aparecem em linguagem melosa e misturam-se com a
correspondência de namorados, desafetos pessoais e a torna catilinária dos a pedidos”.
(SODRÉ, 1999). Segundo o autor, as informações não eram de interesse geral e os fatos
não são apresentados objetivamente.

Até algumas décadas do século XX, como postula Erbolato (1991, as notícias eram
apresentadas com uma pequena entrada feita para atingir o sentimento do leitor. No
início das notas de assassinatos, era comum que se escrevesse a notícia da seguinte
forma (como nariz de cera): “a sociedade foi abalada ontem com um trágico
acontecimento, que envolveu duas famílias das mais destacadas. Ninguém poderia
prever o desfecho de um casamento que já durava mais de vinte e cinco anos”
(ERBOLATO, 1991, p.67). Segundo o autor, essa forma de se estruturar a notícia
oferecia pouca clareza e objetividade ao explicar o que havia acontecido.

Com o passar dos anos as notícias sofreram alterações relevantes em sua estrutura, o
que proporcionou uma nova configuração do padrão técnico para a redação do texto
jornalístico e seu desenvolvimento como um todo. Esta é a definição de Abreu (2009)
que frisa ainda que o novo formato adotado, veio dos Estados Unidos, país onde
começaram a ser utilizados os novos formatos de estruturação da notícia, adotados nas
24

páginas dos periódicos do Brasil, por volta dos anos de 1950.

As notícias podem ser classificadas sob diversos aspectos, como descreve Erbolato
(1991): a) quanto aos elementos que as compõem (sintéticas e analíticas), b) quanto à
ocorrência (previsíveis, imprevisíveis e mistas), c) quanto a oportunidade de publicação
(quentes ou competitivas, ou features) e d) quanto ao local da ocorrência
(internacionais, nacionais e locais).

Com o passar dos anos e a evolução tecnológica, o jornal escrito perdeu sua posição
exclusiva de levar fatos ao conhecimento do público. De acordo com Erbolato (1991),
com a chegada do rádio em 1920 e da televisão entre 1939 e 1945, criou-se uma maior
concorrência entre os veículos de comunicação. Começou a partir daí a era do
jornalismo interpretativo, analítico, avaliador. Ao mesmo tempo mudava-se também o
visual dos jornais que passam a dar informações mais profundas e permanentes.

Os meios de comunicação de massa sofreram mudanças profundas movidas pelas novas


tecnologias. A afirmação é de Erbolato (1991), para quem, o que era tradicional, como o
livro e o jornal, receberam um impacto da televisão, rádio e do cinema. Esses meios,
segundo o autor, afetam a notícia de forma instantânea e imediata e causam um efeito
no jornalismo impresso de aprofundamento do assunto abordado. Ou seja, os veículos
impressos mudaram sua estratégia e passaram a cumprir o papel de exposição mais
aprofundada das notícias, narrando o que os veículos imediatos e rápidos se abstêm de
noticiar, como ocorre cada vez mais nos dias de hoje os veículos impressos.

Vieira (1974) afirma que “o cinema não destruiu o teatro, o rádio não acabou com o
jornal e a televisão coexiste com o rádio e não deverá matar quer os jornais, quer as
revistas e muito menos os livros” (VIEIRA, 1974, citado por ERBOLATO, 1991, p.17).5

Para Erbolato (1991), as evoluções tecnológicas dos meios de comunicação permitem


um bombardeio de informações que devem ser filtradas pelos próprios receptores. A
palavra, segundo o autor, pode derrubar governos, modificar hábitos e impor novas
condições de vida às pessoas.

5
VIEIRA, R. A. Amaral. O Futuro da Comunicação. Rio de Janeiro: Cadernos Didáticos, 1974.
25

Lage (1999) expõe atitudes que um repórter deve focar em três fases do processo de
produção de uma notícia: a primeira na seleção dos eventos. Escolher os momentos que
mais marcaram o fato ocorrido. A segunda se consiste na ordenação dos fatos. Neste
caso atentar-se para o ponto mais importante do acontecimento, deixando-o escrito de
forma decrescente, ou seja, a notícia começa com o momento que possui mais impacto.
Os outros posteriores ou anteriores irão aparecer em ordem determinada pela motivação
do principal. Por fim, o repórter deve se ater à nomeação. Há nessa fase um
compromisso de sutileza ao se referir a alguma coisa.

Um exemplo para este caso, como aponta Lage (1999), é de uma pessoa que morreu. Ao
se referir a ela deve-se pensar no compromisso envolvido. “Corpo seria pouco
específico no contexto; defunto retiraria um tanto da dramaticidade que o cidadão
atônico pretende transmitir” (LAGE, 1999, p.22). É preciso saber usar as palavras para
não desqualificar os envolvidos e nem tirar a realidade da notícia.

Existem diversas características com vantagens e desvantagens do jornalismo impresso.


Para Erbolato (1991), a televisão não se limita a documentar o fato, mas traz imagens e
dispensa o trabalho de imaginação do leitor, facilitando a absorção da notícia.

Enquanto isso, o jornal impresso traz a noticia no mínimo 12 horas depois do televisor e
ainda tem de ser comprado nas bancas, seu manuseio é complicado e o leitor deve
encontrar, diante das inúmeras páginas do jornal, as matérias de seu interesse e
conseguir tempo para ler. A televisão se restringe a um único horário de apresentação do
fato e seu próprio custo não permite o aprofundamento se dedicando ao entretenimento
e à informação instantânea. O autor aponta o tempo como o inimigo do rádio e da TV, já
que o dia possui apenas 24 horas. Por sua vez, o impresso pode aumentar suas páginas e
publicar quantas matérias forem de seu interesse.

De acordo com Erbolato (1991), as três maiores vantagens dos jornais sobre o rádio e a
televisão são: o tempo, espaço e durabilidade, já que o leitor escolhe onde e o quanto
quer ler um conteúdo que representa a continuidade do que a televisão e o rádio já
noticiaram como simples boletins. O autor delimita os recortes mais aprofundados que
devem ser dados ao veículo impresso, já que a TV e o rádio já noticiaram primeiro. Para
26

isso, é preciso entender qual a melhor página para publicar, quais as cores devem ser
utilizadas e ainda quais tipos indicados para o título. Segundo o autor, a pessoa pobre,
com baixíssima renda, não deixa de comprar uma televisão parcelada para assinar um
jornal. Portanto, tal pessoa se engana ao pensar que terá informação gratuita, ao se
esquecer, por exemplo, do consumo de energia a ser pago para se utilizar o aparelho.

3.2 Leads e Pirâmides

Lage (1999) define o lead como o primeiro parágrafo da notícia que deve responder
basicamente as seguintes perguntas sobre o fato: quem fez o que, a quem, quando, onde,
como, por quê e para quê. Para o autor, o verbo central do lead é perfectivo, ou seja,
fica no pretérito perfeito, caso o fato tenha acontecido, ou irá no futuro se a notícia
ainda prevê o que vai acontecer. Por fim, muito raramente é inserido no presente,
mesmo na narrativa concomitante de um repórter de rádio ou televisão.

Existem três formas de apresentação da técnica na redação jornalística: pirâmide


invertida, pirâmide normal e sistema misto. Segundo Erbolato (1991), na pirâmide
invertida a seqüência a ser seguida começa pela entrada ou fatos culminantes, seguida
por fatos importantes ligados à entrada, logo depois se apresenta pormenores
interessantes e por fim os detalhes dispensáveis. Já na pirâmide normal ou forma
literária monta-se o esquema: detalhes da introdução, em seguida os fatos de crescente
importância, fatos culminantes e por fim o desenlace. Por último, o sistema misto se
resume na seguinte ordem: fatos culminantes e depois a narração em ordem
cronológica.

O primeiro parágrafo então serve como índice, resumo ou forma de chamar a atenção do
leitor. Há casos em que o jornalista utiliza a forma de notícia sintética, que apenas
esclarece as perguntas: Quem? Quê? Quando?

De acordo com Erbolato (1991), o lead clássico, contendo as questões primárias de


Kipling, (Quem? Quê? Quando? Onde? Por quê? Como?), avança para buscar
circunstâncias mais profundas. Com a evolução da TV e o rádio, os jornais perdem o
privilégio do furo de reportagem e as edições extras, publicadas em caso de
27

acontecimentos especiais. Para o autor, qualquer notícia deve responder seis perguntas
básicas, as mesmas que a Lage (1999) se refere.

Hoje, novos esquemas são adotados. O recurso foi o de dar ao leitor reportagens que
sejam complemento do que foi ouvido no rádio e na televisão. Adotou-se, para isso,
a pesquisa,tendo como fonte os arquivos dos jornais e as bibliotecas e, ao lado deles,
a obtida através da movimentação de equipes de repórteres, que coliguem dados
secundários ou que ocorreram concomitantemente com o fato principal.
(ERBOLATO, 1991, p.33-31).

A notícia “é o relato de deslocamentos, transformações e enunciações observáveis no


mundo e consideradas de interesse para o público” (LAGE, 1999, p. 30). Entre as
principais características que compõem o lead, Lage (1999) destaca que a notícia deve
começar relacionando o autor principal e que for de maior importância no fato e não
com um verbo logo no início. O autor frisa também que “o lead é o relato do fato
principal de uma série, o que é mais importante ou mais interessante”.

Erbolato (1991) define que a imprensa deve publicar aquilo que traga impacto para o
leitor. Apesar dos fatos que definem a notícia serem esperados, não se sabe onde irão
ocorrer. Para escolher o que será noticiado, os jornalistas devem selecionar
primeiramente fatos de interesse do leitor de cada jornal, ou seja, há, segundo o autor,
um contrato com consumidor que estabelece o que o meio de comunicação irá trazer em
seu conteúdo. Assim, o autor afirma que pode ser escrito o que quiser, porém utilizando
palavras e conteúdos que o leitor esteja preparado para receber. Para o autor, não adianta
usar palavras difíceis se o seu público não possui formação intelectual para receber tal
exposição do fato.

Lage (1999) lembra ainda que os manuais mencionam vários tipos bem raros de leads,
decorrentes do lead clássico. Segundo o autor, a organização da notícia em jornalismo
impresso se fez a partir de contingências gráficas que levaram os jornais brasileiros a
preferirem uma distribuição peculiar da matéria. No caso de algo que acontece em
vários locais, como, por exemplo, uma manifestação, que há, portanto, vários leads em
que dois parágrafos precedem um entre título.

Segundo Lage (1999), a apresentação da notícia em TVs e rádio é menos complicada


sintaticamente. Ela se torna mais coloquial e curta, com o objetivo de trazer a
28

informação não acumulada de detalhes que o ouvinte e telespectador podem perder.

Erbolato (1991) define os diversos tipos de leads, e afirma que existem ainda tantos
outros quanto a imaginação do jornalista permitir. Entre todos os modos de se estruturar
o primeiro parágrafo da notícia, o autor ressalta alguns mais comuns. Entre eles estão:
a) o lead simples, que se refere apenas ao fato principal; b) lead composto, que anuncia
vários fatos importantes abrindo a notícia; c) lead integral, com a fórmula de 3Q + O +
P + C (Quem? Quê? Quando? Onde? Por quê? Como?), que dá a noção completa e
perfeita do fato; d) lead suspense ou dramático, provocando emoções em quem lê; e)
lead flash, quer dizer relâmpago, ou introdução lacônica de uma notícia; f) lead resumo,
que conta praticamente tudo que ocorreu, ou que vai ocorrer, entre outros diferentes
tipos que variam de acordo com os objetivos da notícia. O lead pode ser escrito ainda
valorizando um dos seus seis elementos. Laswell (1977) postula que, o lead informa
quem fez o que, quando, onde, como, por que e para quê. A partir daí, o que segue na
matéria é caracterizado como complemento adicional sobre cada um desses termos.

No que tange as características do lead clássico, Lage (1999) postula que ele não deve
começar pelo verbo e começa-se pelo sintagma nominal ou circunstancial mais
importante. “Se o mais importante ou interessante é o sujeito ou a ação em si, usa-se a
ordem direta, ou seja, começa-se pelo sujeito.

Todos os assuntos que compõem o lead devem constar no desenvolvimento da matéria.


É o que afirma Erbolato (1997), que lembra também que é um índice, resumo ou forma
de chamar a atenção do leitor. Há casos em que o jornalista utiliza a forma de notícia
sintética, que apenas esclarece as perguntas: Quem? Quê? Quando?

Erbolato (1999) descreve outras técnicas de produção da notícia como o suíte, sendo a
sequência que se dá a um assunto nas edições subseqüentes do jornal e a nova redação,
que dá o tratamento diferente no dia seguinte, dando a informação que o jornal não
publicou, por ter sido furado por outro concorrente.
O lead deve obedecer a restrições verbais específicas, como ao que se relaciona ao
aspecto verbal. É o que postula Lage (1999)

O aspecto distingue o evento perfectivo, que terminou ou terá terminado de


29

acontecer, do imperfectivo, aquele que não se sabe se terminou ou terá terminado de


acontecer. Se digo li o livro, ou terei lido o livro, entende-se que terminei ou terei
termindo de ler. Se digo lia o livro, ou estarei lendo o livro, não informo se terminei
ou terei termindo de ler em algum momento (LAGE, 1999, p.28)

Portanto, o presente concomitante que se refere a um acontecimento em curso é sempre


imperfectivo, ou seja, na frase vou ao cinema, pode significar que estou indo ao cinema
como costumo ir ao cinema. Já o futuro simples, se referindo a intenção, probabilidade
ou certeza é considerado perfectivo, ou seja, segundo Lage (1999), irá no pretérito
perfeito, se a notícia é de fato acontecido, irá no futuro ou no futuro próximo se a
notícia anuncia o fato previsto ou muito raramente irá no presente, mesmo na narrativa
concomitante de um repórter de rádio ou televisão.

Formas imperfectivas aparecem, no entanto, como construção eufemística para


evitar uma notícia negativa. Em lugar de dizer que o líder religioso não morreu,
escreve-se que ele continua resistindo. Trata-se, aí, de estratégia superficial na
construção do texto. (LAGE, 1999, p.29)

3.3 Agenda Setting

A teoria do agenda-setting se refere à relevância que os veículos de comunicação dão a


determinado assunto, ou seja, está diretamente ligada ao que vai ou não ser publicado na
imprensa. Portanto, é um tipo de efeito social da mídia que compreende a seleção,
disposição e incidência de notícias sobre os temas que o público falará e discutirá.

Segundo Barros Filho (2001) agenda-setting é “um tipo de efeito social da mídia. É a
hipótese segundo a qual a mídia, pela seleção, disposição e incidência de suas notícias,
vem determinar os temas sobre os quais o público falará e discutirá” (BARROS FILHO,
2001, p. 169).

Wolf (2002) destaca a hipótese do agenda-setting como uma das mais importantes
dentro do novo jornalismo e a define citando o paradigma definido por Shaw (1979
citado por WOLF, 2002),

[...] em consequência da acção dos jornais, da televisão e dos outros meios de


informação, o público sabe ou ignora, presta atenção ou descura, realça ou
30

negligencia elementos específicos dos cenários públicos. As pessoas têm tendência


para incluir ou excluir dos seus próprios conhecimentos aquilo que os mass media
incluem ou excluem do seu próprio conteúdo. Além disso, o público tende a atribuir
àquilo que esse conteúdo inclui uma importância que reflecte de perto a ênfase
atribuída pelos mass media aos acontecimentos, aos problemas, às pessoas (SHAW,
1979, citado por WOLF, 2002 p.150). 6

A partir daí, Wolf (2002) afirma que os mass-media não pretendem persuadir, e sim
apresentar ao receptor, os assuntos que devem ser discutidos e que precisam de uma
opinião. Essa compreensão, fornecida pelos meios de comunicação, tem caráter de
empréstimo. A hipótese de agenda-setting existe mais no nível da enunciação geral que
nas experimentações empíricas, sendo, portanto um “[...] núcleo de temas e de
conhecimentos parciais, susceptível de ser, posteriormente de ser organizado e integrado
numa teoria geral sobre a mediação e sobre os efeitos de realidade exercidos pelos
mass-media (WOLF, 2002, p. 145).

Segundo Wolf (2002) a hipótese de agenda-setting agrega alguns problemas. A


exigência que se faz, a partir de agora nesse setor, é a necessidade de uma estratégia
teórica para substituir o empirismo tático que foi seguido até o momento. Há problemas
conceituais fundamentais. Os mass-media exercem diferentes influências. Portanto, o
problema consiste na observação das agendas dos mass-media que se baseia no critério
de agregar o que serviu de conteúdo para os diferentes emissores. O procedimento é
acompanhado de uma desagregação dos dados, que associa agenda de um mass-media a
agenda dos destinatários consumidores.

Nesse caso, o público é que pauta o que quer receber. Ao se agregar medidas, a
especificidade é anulada. A imprensa e todos os mass-media diferem entre si,
principalmente ao se tratar da escolha do tema específico em destaque.

O agregamento das agendas dos mass-media deveria ser feito apenas quando se
estabelece uma relação muito acentuada entre os diferentes meios de comunicação.
Segundo Wolf (2002), os jornais impressos são os principais promotores da agenda do
público, pois definem seus interesses. Mas não se descarta a força da televisão, que é

6
SHAW, Donald. E.1979. Agenda-Setting and Mass Conimunication Theory, Gazette (International
Journal for Mass Communication Studies), vol. XXV, n.º 2, pp. 96-105.
31

impactante ao gerar agenda de curto prazo. Ainda segundo o autor, o papel principal na
formação de agenda cabe aos jornais impressos, mas a televisão reordena os principais
temas pautados.

Wolf (2002) refere-se aos aspectos de agenda dos mass-media e do público de forma
diferenciada, destacando o aspecto da modalidade de “passagem”, quando há a
transformação de uma agenda noutra agenda. A frequência com que os assuntos
aparecem é importante ao avaliar a relevância dos fatos dentro da análise. Porém,
definir apenas pela frequência em que os fatos são divulgados aparece como forma
insuficiente, necessitando de outros elementos necessários para a sua compreensão.
Publicar matérias sobre um único assunto várias vezes não é embasamento para agregar
importância ao fato, Segundo Wolf (2002), é preciso considerar também que, por se
tratar de um efeito cumulativo de agenda, com um tempo maior, as pessoas passam a ser
menos influenciadas por um mesmo assunto, já que possuiriam uma idéia vasta acerca
deste.

Neste caso, há três tipos de agenda do público de acordo com McLeod, Becker e Byrnes
7
(1974 citado por WOLF, 2002). O primeiro se relaciona com a agenda intrapessoal,
que corresponde a algo que o indivíduo considera os assuntos mais importantes por ele
próprio. Outro tipo seria a agenda interpessoal, ou seja, os temas discutidos entre os
indivíduos possuem uma importância intersubjetiva. Por fim, o terceiro tipo diz respeito
à percepção do sujeito sobre a opinião pública, ou seja, trata-se da importância que a
pessoa pensa que outros dão ao tema. Desses três, Wolf (2002) classifica o primeiro tipo
como o mais usado nas pesquisas por se tratar de um relacionamento direto e pessoal
entre as agendas dos mass media e do público. A hipótese do agenda-setting seria uma
forma de aprofundamento sobre a dinâmica interna de um efeito cumulativo e de
verificação de uma continuidade entre a lógica estabelecida entre a produção dos meios
de comunicação e a recepção dos conhecimentos por parte das pessoas.

3.4 Gatekeeper

7
McLEOD, J.; BECKER, L.; BYRNES, M.1974. Another Look at the Agenda-Setting Function of the
Press, Communication Research, vol. 1, n.º 2, pp. 131-166.
32

De acordo com Wolf (2002) há uma segunda área de pesquisa comunicativa que se
relaciona com o estudo sobre emissores e produtores dos mass media. O autor aponta
para o conceito de gatekeeper que foi elaborado por Kurt Lewin em 1947. Trata-se das
dinâmicas do profissional que seleciona as notícias dentro de um meio de comunicação.
Segundo um estudo feito por White (1950 citado por WOLF, 2002) analisando a rotina
de um jornalista norte-americano com vinte e cinco anos de experiência, noventa por
cento dos releases enviadas por agências são descartadas pelo gatekeeper.

De acordo com Lage (1999), foi nos Estados Unidos que o jornal-empresa atingiu sua
maturidade, com a divisão do trabalho nas redações, incorporando os gatekeepers e a
apuração da informação por parte dos repórteres. As decisões do gatekeeper são
tomadas mais por base em um conjunto de valores com critérios de noticiabilidade em
detrimento de uma avaliação individual acerca do assunto que se torna notícia. É o que
conclui Robison (1981, citado por WOLF, 2002).

Portanto, a maioria das pesquisas já realizadas mostra que as decisões dos gatekeepers
são tomadas de acordo com as “[...] referências implícitas ao grupo de colegas e ao
sistema das fontes, que predominam sobre as referências implícitas ao próprio público”
(WOLF, 2002, p.182).

Boyd Barrett e Palmer (1981, citados por WOLF, 2002)8 descrevem o reforço dos
critérios de noticiabilidade causado com base no papel das agências transnacionais, que
possuem assinantes no mundo todo. Golding e Elliot (1979 citados por WOLF, 2002)
definem que a cobertura jornalística executada pelas agências serve como um primeiro
alerta sobre os fatos que acontecem no planeta, ou seja, os meios de comunicação
conseguem as primeiras informações através das agencias.

A visão de Wolf (2002) sobre a seleção de notícias nos jornais, se baseia em uma das
técnicas dos grandes veículos de comunicação, que é escolher os fatos referidos em pelo
menos duas agências, dando mais importância à pauta. Essas agências também fazem
permuta de material visual entre si, como fotos e vídeos que se referem ao fato.

8
BOYD-BARRETT, O.; PALMER, M.1981Le Trafic des Nouvelles. Les Agences mondiales
d'Information, Moreau, Paris.
33

3.5 Newsmaking

Wolf (2002) define que a cultura profissional dos jornalistas e a organização do trabalho
e dos processos produtivos se tornam o ponto principal da teoria do newsmaking. No
que tange às rotinas produtivas, há três fases básicas da produção informativa: a recolha,
seleção e apresentação, onde já se incluem os gatekeepers e a hipótese do newsmaking.
Wolf (2002) afirma que, quanto à recolha dos materiais de onde vão ser extraídas as
notícias, na maioria dos casos, se trata de material produzido em outro local, que a
redação apenas recebe e estrutura de acordo com suas características e valores internos
da empresa aplicados nos produtos, formatos e o meio de comunicação.

Ao se referir ao momento da escolha da notícia, Wolf ressalta que existe outro critério
que se estabelece na hora da seleção. Essa é a importância do fato, já que o ideal seria
que as notícias fossem novas e atuais, porém por motivos relacionados a organização do
trabalho interno de produção do noticiário, essas notícias são recolhidas horas ou dias
antes de serem veiculadas. Nas TVs, é preciso de certo tempo para que as imagens
sejam feitas e editadas. No rádio é necessário que as gravações sejam executadas, assim
como no impresso que precisa das imagens para se integrar às matérias, entrevistas ou
reportagens. Isso porque as notícias variam dependendo do período do dia.

Cesareo (1981 citado por WOLF, 2002)9 define que as grandes fontes de notícias
nacionais e internacionais são as mais notáveis e importantes de materiais que vão ser
noticiados e não é conveniente que isso seja ignorado, tendo em vista a necessidade e
importância dessas agencias dentro das redações. Wolf (2002) conclui que a utilização
das noticias das agências do mundo inteiro provoca uma homogeneidade e
uniformidade das definições para notícia. Há então, segundo o autor, uma nítida tirania
do reabastecimento imposta pelas agências que dominam esta disponibilização de
matérias vinculadas às notícias.

No corpo da notícia, a utilização de fontes é importante na hora de dar credibilidade e


realidade para a notícia, como afirma Wolf (2002).

9
CESAREO, G.1981Fa notizia. Fonti, processi, tecnologie e soggetti nella macchina dell 'informazione,
Editori Riuniti, Roma.
34

A classificação das fontes é diversificada e varia de acordo com os parâmetros da


notícia. As fontes podem se distinguir entre institucionais, oficiosas ou as estáveis. A
escolha delas não é arbitrária e nem casual.

Wolf (2002) relata que sob o ponto de vista da relação de interesse da fonte em ter
acesso ao jornalismo, são citados quatro fatores importantes: os incentivos, o poder da
fonte, a capacidade de fornecer informações credíveis e a proximidade social e
geográfica em relação aos jornalistas. Já do ponto de vista da oportunidade dos
jornalistas em utilizar uma fonte, o autor define que há também uma relação que se
centra em alguns fatores utilizados para eficiência: a oportunidade antecipadamente
revelada, a produtividade, credibilidade, garantia e respeitabilidade.

3.6 Sensacionalismo e o jornalismo popular

O jornalismo que se dirige às camadas mais populares é chamado por diversos nomes
diferentes e adotou distintas modalidades e características. Além de ser identificado
como ferramenta comunicativa de associações ou agremiações sociais, também é
definido como sinônimo de imprensa de baixa qualidade ou reafirmação de estereótipos.
Para Beltrão (2001), este tipo de prática jornalística está relacionado com
Folkcomunicação, caminhando junto com o conceito de manifestações culturais
populares.

De acordo com Arbex (1957), o jornalismo popular contemporâneo utiliza em suas


diferentes publicações, características gráficas e lingüísticas que chamam a atenção do
leitor para disponibilizar um conteúdo diferenciado. Este fenômeno já se mostra mais
como um padrão jornalístico do que uma mera tendência mercadológica.

O sensacionalismo “corresponde mais à perplexidade com o desenvolvimento da


indústria cultural no âmbito da imprensa do que um conceito capaz de traduzir os
produtos midiáticos populares mais recentes” (AMARAL 2005, p.102). A autora afirma
ainda que a definição de sensacionalismo ficou muito relacionada ao jornalismo que
privilegia a superexposição da violência por intermédio da cobertura policial e da
35

publicação de fotos chocantes, de distorções, de mentiras, e da utilização de uma


linguagem composta por gírias e palavrões.

Com estratégias sensacionalistas, as bases do jornalismo popular se relacionam aos


crimes, sexo e demais escândalos, utilizando-se de mensagens de duplo sentido que
incitavam a curiosidade mórbida, fotos apelativas e exploração da tragédia alheia –
declaradas afrontas à ética jornalística.

Além de ser um conjunto de estratégias mercantis, que fisgam leitores, Angrimani


(1995), frisa que o sensacionalismo revela necessidades psicanalíticas do leitor comum,
como a morbidez, as pulsões de morte e de amor, a atração pelo grotesco.

Marcondes Filho (1989) busca aportes na política e na economia para definir o conceito
se sensacionalismo. O autor postula que esse conceito vai rimar manipulação, com
mercantilização da informação.

Segundo Dias (2003), o discurso do jornalismo sensacional é fonte de violência ao


analisar os textos que a integram ao cotidiano do leitor.

A exposição chocante de fatos, acontecimentos e idéias visando emocionar para


além dos graus normais da tensão psicológica caracteriza a ação mais evidente da
imprensa sensacionalista para potencializar a violência e torná-la banalizada (DIAS,
2003, p.1).

Amaral (2006) afirma que, muitas vezes, o rótulo sensacionalista está ligado aos jornais
e programas que privilegiam a cobertura da violência. Entretanto, o sensacionalismo
pode ocorrer de várias maneiras. A autora considera possível afirmar que todo o jornal é
sensacionalista, porque usaria artifícios de persuasão para atrair leitores e vender mais
jornais. A diferença entre os visivelmente apelativos e os considerados sérios seria
apenas a intensidade com que usam esses artifícios. A autora conclui que os jornais
devem pensar em padrões de qualidade para essa imprensa.

Esse gênero, que tem no apelo emocional sua principal característica, abusa de imagens
sensacionais que sempre retratam violência e flagras do ser humano em atitudes
extremas. Uma fórmula com garantia de sucesso, atestada e aprovada pelo público.
36

O que vai diferenciar um jornal dito ‘sensacionalista’ de outro dito ‘sério’ é somente
o grau. Sensacionalismo é apenas o grau mais radical de mercantilização da
informação: tudo o que se vende é aparência e, na verdade vende-se aquilo que a
informação interna não irá desenvolver melhor do que a manchete. (MARCONDES
FILHO, 1985, p. 66).

Esse estilo jornalístico saiu da literatura para ganhar as páginas dos jornais através dos
fait divers. Segundo Enne (2007), no fim do século XIX o sensacionalismo nos jornais
se espalhou pela Europa e pelos Estados Unidos, chegando ao Brasil no século seguinte.
Tanto um quanto outro gênero tem em comum um elemento importante: o estranho.

Diferentemente do que possa pensar o cidadão brasileiro, acostumado a flagrar notícias


sobre mortes, atentados suicidas, agressões frias e horripilantes, o jornalismo
sensacionalista não é uma novidade que se restringe aos tempos de hoje e tampouco é
invenção dos novos jornalistas. Sua prática data desde os primórdios do próprio
jornalismo moderno.

E é exatamente nos cafés de Londres, no começo do século XVII, que Bil Kovac e
Tom Rosenstiel situam um possível início do que eles chamam de moderno
jornalismo. Lá, os donos dos pubs (casas públicas) estimulavam as conversas com
viajantes, pedindo que contassem o que tinham visto pelo caminho. “Na Inglaterra,
havia cafés especializados em informações específicas. Os primeiros jornais saíram
desses cafés por volta de 1609, quando tipógrafos mais atrevidos começaram a
recolher informações, fofocas e discussões políticas nos próprios cafés, depois
imprimindo tudo” (PENA, 2005, p.25).

Enne (2007) ressalta que o sensacionalismo atual é herdeiro de algumas matrizes


culturais da modernidade. Sensacionalista é a publicação que enfatiza temas criminais
ou extraordinários, enfocando preferencialmente o corpo em suas dimensões
escatológica e sexual. Apresenta marcas da oralidade na construção do texto,
implicando em uma relação de cotidianidade com o leitor. Segundo a autora, estão
presentes ainda uma série de marcas sensoriais espalhadas pelo texto como a utilização
de verbos e expressões corporais (arma “fumegante”, voz “gélida”, “tremer” de terror
etc.), bem como a utilização da prosopopéia como figura de linguagem fundamental
para dar vida aos objetos em cena.

Como estratégias editoriais, as publicações evidenciam o apelo sensacional: manchetes


“garrafais”, muitas vezes seguidas por subtítulos jocosos ou impactantes; presença
constante de ilustrações, como fotos com detalhes do crime ou tragédia, imagens
37

lacrimosas, histórias em quadrinho reconstruindo a história do acontecimento.

A relação entre jornal sensacionalista e seu consumo por camadas de menor poder
aquisitivo, que, por diversas razões, seriam manipuladas e acreditariam estar
consumindo uma imprensa “popular”, quando, no fundo, estariam consumindo um
jornalismo comercial feito para vender e alienar. (ENNE, 2007, p.3).

Amaral (2005) postula que o sensacionalismo corresponde mais à perplexidade com o


desenvolvimento da indústria cultural no âmbito da imprensa do que um conceito capaz
de traduzir os produtos midiáticos populares mais recentes. A autora afirma que a
definição de sensacionalismo ficou muito relacionada ao jornalismo que privilegia a
superexposição da violência por intermédio da cobertura policial e da publicação de
fotos chocantes, de distorções, de mentiras, e da utilização de uma linguagem composta
por gírias e palavrões.

De acordo com Angrimani (1995), em seus estudos pioneiros sobre o sensacionalismo


no Brasil, essa prática vai além da definição do dicionário, que liga o conceito à
exploração das emoções e dos escândalos. O autor define que o veículo sensacionalista
é o que se afasta dos que são considerados sérios, que não têm qualidade, reunindo
características como: imprecisão, erro na apuração, distorção, deturpação, editorial,
agressivo. Todas elas de alguma forma implicam comprometimentos éticos. Como
principal artifício e representação maior desse comprometimento está o uso da
linguagem-clichê, como possibilidade de manipulação das pulsões do leitor.

As técnicas e demais procedimentos para a transformação dos acontecimentos em


notícia são realizados tanto pelos jornais considerados com certo prestígio, quanto pelos
jornais popularescos. A diferença entre eles é a forma e o modo de apresentação da
notícia que se reconhece, na recepção, como sensacionalista.

Todos os jornais são, uns mais outros menos, sensacionalistas. Essa é a definição de
Marcondes Filho (1985) que explica ainda que nenhum veículo foge dessa
determinação. Para o autor, ao transformar um fato em notícia o jornalista o altera, o
dirige e não somente reproduz o que realmente ocorreu.
Segundo Pedroso (1999), no que tange aos aspectos da manchete, é capaz de fazer do
jornal um produto exótico já que pode, flexar o leitor curioso de classe média e alta que
38

olha para a primeira página, compra o exemplar e o transforma em um quadro de parede


(pôster), em um objeto de coleção, de exposição, de admiração. Na recepção, esse tipo
de atitude expõe um enunciado do tipo: olha aqui o que eu trouxe para vocês verem.

O discurso sensacionalista exige do redator criatividade e percepção do novo no fato, da


novidade da palavra (do palavrão, da gíria) e do incomunicável do universo popular. O
impacto precisa ser renovado e mantido a cada edição. A definição é de Pedroso (1999)
que ressalta sobre os aspectos do inusitado e do violento que se repetem diariamente.
Neste caso a decisão é do redator, que transforma a briga de botequim em guerrilha
marginal; precisa inventar a matéria quando não existem bons ingredientes para
despertar emoções e compor um escândalo jornalístico. Para conseguir o sensacional, a
imaginação recobre o dia pobre e escasso em acontecimentos explosivos. Portanto, ao
noticiar o fato, a imprensa com o seu poder de nominalização (subjetivação e
adjetivação) justiceira, julga por si mesma, os autores das ações de violência. Uma vez
noticiado, uma vez julgado.

4 PESQUISA, METODOLOGIA E ANÁLISE


39

4.1 Apresentação do tema e do objeto de pesquisa

Esta monografia se fundamenta em definições de mudanças históricas na imprensa


brasileira e de critérios de noticiabilidade apontados principalmente pelos autores:
Alzira de Abreu (2009), Nilson Lage (1999), Nelson Traquina (2005), Nelson Werneck
Sodré (1999), Mário Erbolato (1991), Mauro Wolf (2002), José Arbez (2002),
Angrimani (1995) e Ciro Marcondes Filho (1995) entre outros.

Pretende-se, a partir de agora, analisar os tipos de leads e pirâmides utilizados pelo


jornal Gazeta de Minas segundo as definições de autores como Mário Erbolato e Nilson
Lage. A partir daí, o objetivo é identificar qual a estrutura presente no periódico, o
destaque dado ao mesmo tema abordado nas notícias, quais as características
sensacionalistas que se inserem nas manchetes, entre outros aspectos constatados entre
imprensa e sensacionalismo. As definições para este tema respaldam-se principalmente
em autores como Angrimani (1995) e José Arbex Jr (2002).

O jornal em análise disponibiliza todo seu acervo de páginas desde o ano de 1887, em
acervo digital para consulta on-line. Assim, pode-se constatar empiricamente a evolução
e incorporação das técnicas jornalísticas que se referem à estruturação da notícia.
Atualmente os novos modelos jornalísticos se apresentam no jornal que acompanha a
estrutura dos grandes impressos nacionais e internacionais. Além disso, pretende-se
observar se existem alguns meios peculiares da Gazeta de Minas para noticiar o fato.

Como evidências empíricas, serão utilizadas duas notícias publicadas jornal escolhido
nos anos de 1906 e 1997 respectivamente, que tratem de assassinatos. Constatando-se a
semelhança entre os fatos selecionados, pretende-se analisar como a notícia é
estruturada nas edições do veículo de comunicação impresso e quais foram as principais
mudanças ocorridas. Esse recorte temático permite maior transparência no
entendimento das diferentes formas estruturais que abrangem as notícias analisadas.

Como exemplos foram adotadas, inicialmente, duas notícias publicadas em momentos


diferentes. O primeiro fato selecionado ocorre em janeiro de 1906 e está exposto na
primeira página da edição do dia primeiro de janeiro. O segundo fato a ser analisado foi
publicado no dia vinte e seis de outubro de 1997, portanto, o texto já está adequado às
40

novas técnicas do jornalismo brasileiro. Em análise comparativa, as duas edições


apresentariam meios peculiares de cada momento histórico para escrever e produzir a
notícia.

Para a maior qualidade e eficácia das conclusões que aqui serão expostas
posteriormente, é necessário verificar historicamente quais são os modelos de noticias
utilizados nos dois momentos diferentes do jornal para se estabelecer as principais
diferenças entre as notícias publicadas nos dois momentos pelo periódico.

Neste trabalho será utilizado o método de análise de conteúdo para uma verificação
concreta da evolução da apresentação da estrutura da notícia das edições recortadas do
jornal Gazeta de Minas. Para efeito disso, foram feitas leituras analíticas das notícias
selecionadas, a fim de observar as alterações em suas estruturas. Sendo assim, a análise
que seguinte é qualitativa e respalda-se em definições dos autores relacionados.

4.1.2 Gazeta de Minas

O jornal Gazeta de Minas é o mais antigo do estado de Minas Gerais ainda em


circulação. Fundado em Oliveira, em 1887, pelo jornalista Antônio Fernal, mostrava-se
no início do século XX como o maior jornal de Minas, em circulação e tamanho e
possuía quatro páginas, em formato maior do que o standard atual. Fernal, natural de
Portugal, veio para o Brasil com objetivos familiares e também para exercer a profissão.
Junto com ele trouxe uma tipografia de seu país e se instalou na cidade de Oliveira,
devido ao maior índice de desenvolvimento daquele município. No início do século XX,
o principal público leitor eram as classes A e B, tendo em vista o alto índice de
analfabetismo entre a população naquele momento. O jornal possuía circulação bastante
expressiva ainda na corte do Rio de Janeiro, por se tratar de um veículo que noticiava
fatos nacionais e internacionais, com curto espaço para acontecimentos locais.

O periódico circula hoje na cidade de Oliveira. De acordo com o censo 2010, a cidade
possui hoje cerca de 40 mil habitantes. Atualmente o editor responsável é o jornalista
João Bosco Ribeiro.

Na sua primeira fase, a Gazeta representava um veículo importante no âmbito da


41

informação que abrangia fatos nacionais e internacionais. Situação que hoje se


modificou, já que o mesmo jornal está focado em noticiar fatos locais e regionais,
deixando que os grandes veículos de comunicação assumam o propósito de expor fatos
de abrangência global. Ao todo, o jornal possui, em média, quatorze páginas e não se
divide em cadernos específicos, apenas em seções como: editorial, cidade, política,
saúde, agenda, coluna social, entretenimento, colunas específicas de colaboradores,
esporte entre outros que são incluídos de acordo com a demanda.

4.2 ANÁLISE DA NOTÍCIA DE 1906


42

4.2.1 A construção da notícia e os tipos de leads

Conforme apresentado nos capítulos teóricos que antecedem esta análise, com o passar
dos anos, houve uma evolução nas técnicas de diagramação e editoração das notícias
dentro dos veículos de comunicação de massa do Brasil. As notícias sofreram alterações
em sua estrutura. Até a metade do século XX, como afirma Abreu (2009), o leitor
encontrava uma notícia narrada e detalhada cronologicamente. Elas eram expostas com
uma pequena entrada, que comentava o ocorrido, com frases estereotipadas e que
visavam atingir os sentimentos do leitor. É o que se pode ler na notícia transcrita a
seguir, onde o jornalista expõe um assassinato, em texto escrito com pré julgamentos
particulares sobre o fato. Nesse momento, ainda não era utilizado o lead clássico como
primeiro parágrafo, ou seja, as seis perguntas principais inseridas atualmente, não eram
respondidas logo no início da notícia. No lugar do lead, o formato adotado é um texto
introdutório, definido como nariz de cera.

A edição analisada do início do século XX, mais precisamente do dia primeiro de


janeiro de 1906, traz a seguinte notícia no centro da sua primeira página:

Fera Humana10

Sob esta epígraphe refere a Notícia, de 14 do mês findo o seguinte:


Há crimes tão horripilantes que, uma vez submetidos à acção enérgica da justiça,
deviam permanecer no discreto silêncio do annaes de delinqüência humana, porque
sua publicidade, sobre ser um incentivo aos degenerados, abala, intensamente, os
nervos de quem lhes encontra a narrativa lacônica embora nos noticiários dos
jornais.
Está neste caso que vamos narrar, ocorrido em S. Manoel, S. Paulo, e premeditado
com uma ferocidade que ultrapassa todos os limites do acreditável.
O italiano Damião Marciano, natural de Caserta, casado em segundas nupcias com
Catharina Del Mastro, tinha de seu primeiro consórcio com Apollinares Foses, duas
filhas e possuía alguns bens de fortuna, que gastou excepto a quantia de 5.000 libras
pertencente à filha sobrevivente, Paschoalina, quantia essa interditada pela justiça da
Itália.
Vindo para o Brasil como imigrante, Damião foi, primeiramente, colono da fazenda
Santa Margarida, e passou se depois para a Fazendinha, ambas no município de S.
Manoel do Paraíso.
Desde que lhe escassearam todos os recursos, e com uma profunda negação pelo
trabalho, o desnaturado pae concebeu o monstruoso plano de por termo a vida da
pobre Paschoallina, de 15 anos de edade, mirando a posse das cinco mil libras.
Começou por cortar a foice os cabelos da infeliz creança espancando-a a todo o
momento e deixava-a exposta ao sol e a chuva, amarrada a um pé de café, em pleno
cafezal, dias seguidos, sem lhe dar de comer, nem de beber. Além disso, a martyr era
todas as manhãs, violentamente arrancada pela madrasta, que a atirava ao chão,
10
Mantida a grafia original.
43

pisava-a no rosto, no peito, e, com um ferro ponteagudo, feria-lhe as pernas.


Paschoallina para fugir do martyrio, buscava as casas de alguns patrícios, onde se
occultava às iras paternas.
Deante desse extremo recurso da pobre martyr, Damião (como isto custa a crer-se!)
munido de uma faca afiada, tirou a parte carnuda dos pés de sua filha, deixando os
ossos à mostra o arrancou-lhe as unhas dos pés.
Em conseqüências desses horríveis tratos, a infeliz creança, caiu n’uma prostração
fácil de se imaginar. Chegando este facto, por intermédio de dois colonos da
Fazendinha, ao conhecimento da autoridade de S. Manoel, esta mandou uma força à
fazenda que prendeu Damião e a mulher, trazendo, n’uma carroça a pobre creança,
que veio a falecer na sala da cadeia.
O pae monstro, a fera humana, interrogado, confessou o crime, com o mais
revoltante cynismo. Sabedor desse horripilante crime, o povo de S. Manoel quis
lynchar o delinqüente, não o conseguindo, porém, por intervenção da polícia.
Damião conta 46 anos e é de constituição fraca. (GAZETA DE MINAS, 1906, p.1)

Existem diversas definições para notícia, mas os teóricos dizem o que ela deve ser e não
deixam claro o que ela realmente é. Portanto, adotamos o conceito de Stanley Johnson e
Julia Harris (1967, p.84), em que a notícia é basicamente “o relato de um fato
recentemente ocorrido” e “é tudo quanto os leitores querem conhecer sobre um fato”.
Em todas elas há um senso geral de sintonia no que tange aos interesses do leitor por
algo recentemente ocorrido. Nas definições, são inalcançáveis as técnicas estruturais de
construção de um texto jornalístico, ponto este abordado por outros autores, que serão
relacionados nesta análise. O leitor já se depara com um julgamento feito pelo próprio
jornal, que condena o sujeito praticante da ação, apontado adjetivos diretamente
relacionados a Damião.

A partir da leitura, encontramos na matéria uma estruturação respaldada nas definições


de Erbolato (1991), sobre pirâmide normal ou literária, onde a notícia começa a ser
narrada em detalhes e se objetiva a contar uma história ao leitor, como descreve o trecho
inicial: “Está nesse caso que vamos narrar, ocorrido em S. Manuel, São Paulo e
premeditado com uma ferocidade que ultrapassa todos os limites do acreditável”
(GAZETA DE MINAS, 1906, p.1).

No que tange aos aspectos do lead, Laswell (1977) postula que, ele deve informar quem
fez o que, quando, onde, como, por que e para quê. Estes parâmetros estão em todo e
qualquer fato e determinam o nível de exatidão de um dado evento. A partir daí, o que
segue na matéria é caracterizado como complemento adicional sobre cada termo.
Os detalhes e o desenvolvimento do crime propriamente dito são expostos depois que o
jornalista já inicia a matéria utilizando-se de um nariz de cera para causar impacto e
44

despertar emoções no leitor.

Há uma introdução para apresentar ao leitor o que realmente vai fazer parte daquela
história a ser contada, mas não é constatado um formato de lead clássico definidos por
Lage (1999), tão pouco ainda de outros tipos de lead que dele, de uma maneira ou de
outra, decorrem, como lead direto, lead resumo e outros não específicados.

Por outro lado, no que tange ao formato jornalístico que se aplicava no Brasil no início
do século XX, Abreu (2009) relembra que as notícias possuíam caráter narrativo com
apresentação detalhada do fato a ser noticiado. Detalhes que não se incluem no lead do
padrão norte-americano, adotado no Brasil por volta dos anos de 1950. Considerando-se
tal definição da autora, o jornal está adequado ao texto peculiar utilizado pelos veículos
impressos daquele início do século XX.

Ao contrário de responder as seis perguntas principais: quem, o quê, quando, onde,


como e por quê, postuladas por Erbolato e Lage (1999), o primeiro parágrafo da notícia
analisada gera dúvidas ao leitor sobre o que está por vir no decorrer da matéria. Ou seja,
se apresenta como um nariz de cera, na maioria das vezes utilizados para expressar
opiniões e introduzir o leitor ao fato seguinte.

Apesar de Lage (1999) apontar a notícia como o relato de deslocamentos,


transformações e enunciações observáveis no mundo e consideradas de interesse para o
público, não se observa também uma estruturação baseada no lead clássico, apontado
pelo mesmo autor. O lead é o primeiro parágrafo da notícia, embora possa haver outros
leads em seu corpo. A notícia deve começar relacionando o autor principal e que for de
maior importância no fato e não com um verbo logo no início, como ocorre neste caso.

Na notícia que se refere ao início do século, o primeiro parágrafo não informa sobre o
que é mais importante no fato, o que seria a morte da menina planejada pelo pai. Não há
valorização de cada um dos elementos da notícia, tanto do sujeito passivo (que pratica a
ação) quanto do passivo, que sofreu a ação. Neste caso estamos diante de um formato
distinto do utilizado tradicionalmente hoje nos jornais do Brasil e do mundo. Tal
valorização, só é percebida no decorrer do texto, quando o jornalista destaca os sujeitos
ativos da ação.
45

Ainda no primeiro parágrafo, há carência de respostas objetivas para as seis principais


perguntas do lead. O texto foi escrito no formato definido por Erbolato (1997), de
Pirâmide normal ou literária, ou seja, baseado no seguinte esquema: a) detalhes da
introdução; b) fatos de crescente importância (visando criar suspense); c)fatos
culminantes; d) desenlance. Esse tipo de introdução está imortalizada no início da
notícia em análise:

Há crimes tão horripilantes que, uma vez submetidos à acção enérgica da justiça,
deviam permanecer no discreto silencio do annaes de delinqüência humana, porque
sua publicidade, sobre ser um incentivo aos degenerados, abala, intensamente, os
nervos de quem lhes encontra a narrativa lacônica embora nos noticiários dos jornais
(GAZETA DE MINAS, 1906, p.1).

Nesta notícia há um enfoque específico na morte da menina, caracterizado por Erbolato


(1997), como um dos elementos do lead simples. Pela leitura desse intróito, pouco se
poderia saber sobre o que ocorreu, a não ser que alguma pessoa, em algum lugar do
mundo foi delinquente ao ponto de abalar a sociedade humana.

No mesmo exemplo citado então, o lead simples, ou aquele que se refere apenas ao fato
principal, poderia ser escrito da seguinte forma, com destaque para o sujeito passivo da
ação:

“Uma garota de 15 anos foi assassinada na última segunda-feira na fazenda onde


morava em S. Manoel, S. Paulo, após ser agredida, durante dias, pelo pai Damião
Marciano e pela madrasta Catharina Del Mastro, que visavam receber uma apólice de
5.000 libras pertencente à menina”.

Portanto, a notícia analítica estaria completa, depois de estar configurada com um lead
na seguinte fórmula apresentada por Erbolato (1997):

Quem – Uma garota de 15 anos


Que - Foi assassinada
Quando – na última segunda-feira
Onde – na fazenda onde morava em S. Manoel, S.Paulo
Como – após ser agredida, durante dias, pelo pai e pela madrasta
46

Por quê – para receberem uma apólice de 5.000 libras pertencente à menina

Estão aí todas as características que definem o lead clássico. Deve ficar claro que, para
Erbolato (1997), todos os assuntos que compõem o lead devem constar no
desenvolvimento da matéria. O primeiro parágrafo então serve como índice, resumo do
ocorrido ou forma de chamar a atenção do leitor.

Após uma introdução detalhada, inicia-se uma narrativa de fatos de crescente


importância, seguidos dos fatos culminantes, e aí sim encontra-se a essência do que
realmente ocorreu:

Vindo para o Brasil como imigrante, Damião foi, primeiramente, colono da fazenda
Santa Margarida, e passou se depois para a Fazendinha, ambas no município de S.
Manoel do Paraíso.
Desde que lhe escassearam todos os recursos, e com uma profunda negação pelo
trabalho, o desnaturado pae concebeu o monstruoso plano de por termo a vida da
pobre Paschoallina, de 15 anos de edade, mirando a posse das cinco mil libras.
Começou por cortar a foice os cabelos da infeliz creança espancando-a a todo
momento , e deixava-a exposta aao sol e a chuva, amarrada a um pé de café, em
pleno cafezal, dias seguidos, sem lhe dar de comer, nem de beber. Além disso, a
martyr era, todas as manhãs, violentamente arrancada pela madrasta, que a atirva ao
chão, pisava-a no rosto, no peito, e, com um ferro ponteagudo, feria-lhe as pernas.
Paschoallina para fugir do martyrio, buscava as casas de alguns patrícios, onde se
occultava às iras paternas.
Deante desse extremo recurso da pobre martyr, Damião (como isto custa a crer-se!)
munido de uma faca afiada, tirou a parte carnuda dos pés de sua filha, deixando os
ossos à mostra o arrancou-lhe as unhas dos pés. (GAZETA DE MINAS, 1906, p.1)

Por fim o desenlace:


Em conseqüências desses horríveis tratos, a infeliz creança, chaiu n’uma prostação
fácil de se imaginar. Chegando este facto, por intermédio de dois colonos da
Fazendinha, ao conhecimento da autoridade de S. Manoel, esta mandou uma força à
fazenda que prendeu Damião e a mulher, trazendo, n’uma carroça a pobre creança,
que veio a falecer na sala da cadeia.
O pae monstro, a fera humana, interrogado, confessou o crime, com o mais
revoltante cynismo.
Sabedor desse horripilante crime, o povo de S. Manoel quis lynchar o delinqüente,
não o conseguindo, porém, por intervenção da polícia.
Damião conta 46 anos e é de constituição fraca. (GAZETA DE MINAS, 1906, p.1)

Tendo conhecimento da existência do sublead (segundo parágrafo da notícia), definido


por Lage (1999), com um dos elementos da notícia, esta edição da Gazeta de Minas não
utiliza deste formato, que traz para a notícia, na maioria das vezes, o segundo evento em
importância. O que vem em seguida do primeiro parágrafo, é a narração detalhada de
um recorte temporal, que inicia a história.
47

Este tipo de notícia é apontada por Erbolato (1997), como imprevisível, já que é um
acontecimento que ocorre sem que ninguém possa prevê-lo. A partir daí o informante
deixou transparecer sua posição psicológica e passou a opinar sobre o fato. Ao contrário
dos jornais modernos, no início do século XX, há excesso de adjetivação e utilização de
palavras que se caracterizam como julgamentos pessoais sobre os envolvidos e com o
caso em si.

A linguagem é densa, e restrita a quem possuí maior capacidade intelectual. Porém,


deve-se deixar entendido, que naquele momento, o público-alvo eram as classes A, B,
C, portanto, as possuidoras de tal capacidade para entendimento do texto jornalístico.

No início do século, a fotografia nos jornais ainda estava em sua fase de implantação e,
por isso, não há encontramos em nenhuma página do jornal. Já nos aspectos gráficos, a
notícia ocupa uma coluna central da primeira página e apesar de existir manchete, ela
não possui grande destaque com relação as demais.

4.2.2 O sensacionalismo na notícia de 1906

No que tange o âmbito de fatos policiais, publicados na edição de janeiro de 1906 no


jornal em análise, o sensacionalismo se torna claro, desde o título da matéria.

O jornal, apesar de não se tratar de um veículo de comunicação popular, pauta uma


notícia que se enquadra nas teorias desenvolvidas por Arbex (2002), ao expor fatos
chocantes, e ao relacionar acontecimentos e idéias visando emocionar para além dos
graus normais da tensão psicológica do leitor. Caracteriza-se como a ação mais evidente
da imprensa sensacionalista para potencializar a violência e torná-la banalizada.

Pedroso (2007) define que a manchete é capaz de fazer do jornal um produto exótico já
que pode flechar o leitor curioso de classe média e alta que olha para a primeira página
e compra o exemplar.

Percebe-se que o jornalista utiliza-se de estratégias editoriais para evidenciar o apelo


sensacional como: manchetes garrafais, marcas da oralidade na construção do texto,
48

implicando em uma relação de cotidianidade com o leitor além do enfoque do corpo em


suas dimensões escatológica e trágica.

Ao contrário do que se espera do jornal, que possui até então, um público alvo referente
as classes A, B e C, o sensacionalismo é associado por Arbex (2002) com o consumo
por camadas de menor poder aquisitivo, que, por diversas razões, seriam manipuladas e
acreditariam estar consumindo uma imprensa popular, quando, no fundo, estariam
consumindo um jornalismo comercial feito para vender e alienar. Portanto, constata-se o
consumo de tal notícia também pelas classes de maior poder aquisitivo.

Nesta notícia, a manchete, “Fera Humana”, vai além da tentativa de simplesmente


destacar o fato. Apesar de não possuir letras com tamanho maiores, para destacar as
palavras, ela se refere a um ser humano como a um animal incapaz de controlar seu
sentimento feroz e raivoso. Neste caso, como ressalta Pedroso (2007), o discurso
sensacionalista exige do redator criatividade e percepção do novo no fato, da novidade
da palavra (do palavrão, da gíria) e do incomunicável do universo popular, o que faz do
jornal um produto pitoresco.

Como afirma Marcondes Filho (1985), o sensacionalismo é apenas o grau mais radical
de mercantilização da informação. O que está sendo apresentado é aquilo que a
informação interna não irá desenvolver melhor do que a manchete. Portanto, o título é a
principal atração inicial para o leitor, que se depara com algo instigante a sua emoção
para entender o que foi que aconteceu com a “fera humana”.

No crime cometido pelo próprio pai, o italiano Damião Marciano, natural de Caserta,
executa a filha Paschoalina de 15 anos. Esse seria a “fera” que a manchete se refere. O
que está exposto, portanto, se relaciona com a definição de Pedroso (...) de que, ao
noticiar o fato, a imprensa com o seu poder de justiceira, julga por si mesma, os autores
das ações de violência. Uma vez noticiado, uma vez julgado.

Como principal artifício e representação maior desse comprometimento com o


sensacionalismo, Angrimani (2005) ressalta que está o uso da linguagem-clichê, como
possibilidade de manipulação das pulsões do leitor. A utilização das palavras fera e
humana tem conotação baseada no clichê, aquilo que todos pensam a priori. O assassino
49

em questão já está julgado com adjetivos coloquiais, e por que não, animalescos. Tudo
feito com discurso justiceiro em nome do povo.

A percepção de uma série de marcas sensoriais espalhadas pelo texto, caracterizam o


aspecto sensacionalista da matéria, como a utilização de verbos e expressões corporais
(crimes, horripilantes, nervos, ferocidade, ossos à mostra).

A mídia assemelha-se a um espelho neutro, sobre o qual a realidade inscreve seus


traços. É o que afirma Arbex (2005). O fato do assassinato de uma criança de 15 anos e
com o agravante de que o autor seja seu próprio pai, aguça a sensibilidade dos
profissionais da comunicação. Ao expor o fato em questão, o jornalista redator, não se
absteve em narrar algo fielmente, como realmente ocorreu, deixando escapar claramente
a parcialidade e o sentimento de revolta diante da ação. Para Arbex (2005), o jornalista
que divaga em torno do fato ou o deturpa toma-o apenas como pretexto, generaliza
facilmente, não é um bom jornalista.

A notícia analisada não é pragmática, já que se desliga de seu objeto. Neste caso, o fato
pautado não pode, segundo Arbex (2005), ser capturado objetivamente e retransmitido
fielmente ao público, tendo em vista a capacidade natural do ser humano de se
emocionar. Portanto, é impossível que uma mesma pessoa escreva estruturalmente uma
notícia de forma igual, já que algo intrínseco e pessoal sempre fará a diferença de um
para o outro. Se outro jornalista escrevesse a notícia “Fera Humana”, ela não seria igual,
em comparação com o mesmo fato redigido por outro informante.

Deve-se deixar claro que, apesar de ter conhecimento sobre essa teoria de Arbex (2005),
o mesmo autor afirma que não significa que o narrador possa manipular a noticia com
total arbitrariedade. Este fato foi pautado, por se tratar de algo espetacular e que está em
posição superior, ou seja, possui uma importância peculiar, dada por ele próprio, diante
da cultura de uma sociedade.

Apesar de esta notícia apresentar traços sensacionalistas, o jornal Gazeta de Minas não
corresponde às definições sensacionalistas na íntegra. O periódico não é sensacionalista,
mas possui traços, em algumas narrativas, que se relacionam a tais aspectos.
50

4.3 ANÁLISE DA NOTÍCIA DE 1997

4.3.1 A construção da notícia e os tipos de leads após 1950

As mudanças da estrutura da notícia nos impressos do Brasil começaram a aparecer, de


acordo com Abreu (2002), a partir da década de 1950, quando surgiram alguns jornais
fundamentais na evolução das técnicas de imprensa brasileiras, que introduziram novos
modelos de diagramação, importados dos Estados Unidos, até então desconhecidos no
país. O lead clássico é uma das mudanças mais significativas no formato da notícia, que
até então era narrada detalhadamente e com aspectos poéticos e sem nenhuma
pragmática, ou seja, carente de um modelo pré-estabelecido, que lastreasse o texto
jornalístico.

Erbolato (2002) postula que o lead surge como forma de trazer no primeiro parágrafo os
fatos principais, a serem narrados com base na pirâmide invertida. Feito isso, cada
assunto será desenvolvido na sequência, mas o lead já deu uma idéia do que houve,
convidando o leitor a seguir adiante.

A notícia, a ser analisada a partir de agora, foi publicada no dia primeiro de janeiro do
ano de 1997, na primeira página do jornal Gazeta de Minas, e narra o seguinte fato:

Empresário é assassinado com 6 tiros

O empresário Amadeu Bueno Godoy foi assassinado a tiros no início da noite de


quarta-feira, dia 22. O crime aconteceu por volta de 20:30, no restaurante rodoporto
Fernão Dias, localizado às margens da Fernão Dias e do qual era proprietário.
Segundo a ocorrência policial, os disparos foram efetuados por Geraldo Magela dos
Santos, funcionário da vítima, no corredor da cozinha do restaurante, onde os dois se
encontravam provavelmente com o objetivo de jantar.

Os 6 tiros partiram de um revolver calibre 32 Caramuru, cano longo. O assassino


fugiu em seguida, em um veículo Ford Versalles 4 portas, cor vinho, placa 3267.
Acionada por volta das 20:40 horas, a Polícia Militar deu início a rastreamento sob
coordenação do capitão Maurício Gonçalves Vieira. Amadeu foi socorrido por
terceiros, tendo chegado com vida ao Hospital São Judas Tadeu, mas não resistindo
aos ferimentos, faleceu minutos após dar entrada naquela casa de saúde. Seu corpo
foi transferido para o Instituto Médico Legal de Divinópolis, onde foi feita necropsia
e em seguida para Mogi Guaçu (SP), onde foi sepultado. A arma foi apreendida e o
local preservado para fins de perícia técnica. Na manhã de quinta-feira os policiais
ainda não tinham pistas do assassino e não sabiam informar sobre os motivos que o
levaram ao ato de violência.
Amadeus Bueno de Godói nasceu em 05-06-47 em Monte Sião (MG) e era cidadão
honorário de Oliveira. Empresário bem sucedido no ramo de alimentação era
51

proprietário ainda do Sítio Chaparral e do Motel Sonho a Dois, além de vários


imóveis no município e em outras cidades.

Qualquer notícia deve responder as seis perguntas clássicas: Quem? Quê? Quando?
Onde? Por quê? Como? Está é afirmação de Erbolato (1999), deixando claro também
que ao utilizar desta fórmula básica, o texto jornalístico, se configura, portanto, como
uma notícia analítica.

Para Lage (1999), no jornalismo moderno, a notícia se define como o relato de uma
série de fatos a partir do aspecto mais importante ou interessante; e de cada fato, a partir
do aspecto mais importante ou interessante. Tendo conhecimento disso, essa notícia,
publicada após a adoção da piramide invertida e do lead, é narrada segundo a definição
apresentada acima. Isso ocorre justamente devido a adoção das novas técnicas de
estruturação norte-americanas.

Como teoria esquematizada por Erbolato (1999), há três sistemas de redação jornalística
no que tange as técnicas de apresentação, que são definidos pelas pirâmides: invertida,
normal ou literária e ainda o sistema misto.

Na primeira notícia analisada, publicada no ano de 1906, foi constatada a utilização da


pirâmide normal ou literária. Após os anos de 1950, com a adoção no país pelas
técnicas de diagramação norte-americanas, o Jornal Gazeta de Minas também se
enquadra nas mudanças apontadas por Abreu (2002) e Erbolato (1999), onde ambos
afirmam que, surge o formato de pirâmide invertida, com objetivos de expor os fatos
principais no primeiro parágrafo do texto jornalístico, em seguida expor o que for
menos importante até ao fim da matéria.

Neste caso específico de notícia em análise, o que se constata é a utilização da forma


invertida da pirâmide, já que, como ressalta o autor, a seqüência a ser seguida começa
pela entrada ou fatos culminantes, seguida por fatos importantes ligados à entrada, logo
depois se apresenta pormenores interessantes e por fim os detalhes dispensáveis.
Não há, portanto, ao contrário da notícia publicada em 1906, o nariz de cera
introdutório, que desperta a emoção do leitor e aguça a sua curiosidade para a história a
ser contada em seguida. O resumo do ocorrido já está inserido logo no início, seguindo
a estrutura classificada por Erbolato (1999) como lead direto. Isso, porque ele anuncia a
52

notícia sem rodeios, indo diretamente ao fato e deixando de citar o porquê do fato
acontecido, como percebe-se no texto a seguir:

O empresário Amadeu Bueno Godoy foi assassinado a tiros no início da noite de


quarta-feira, dia 22. O crime aconteceu por volta de 20:30, no restaurante Rodoporto
Fernão Dias, localizado às margens da Fernão Dias e do qual era proprietário.
(GAZETA DE MINAS, 1997, p.1)

No que se refere aos aspectos opinativos da notícia, o informante ou jornalista não deixa
transparecer sua apreciação pessoal e apaixonada, já que, como afirma Erbolato (1997),
o texto apenas conserva a pureza do fato, evitando o excesso de adjetivação, a fim de
que a narrativa seja condensada.

Se tivesse sido escrito no ano de 1906, nos moldes da pirâmide normal ou literária, o
lead poderia ser construído da seguinte forma:

“A Sociedade local foi abalada na última quarta-feira, dia 22, com um trágico
acontecimento, que envolveu um empresário de destaque na nossa sociedade e seu
grande amigo. Ninguém poderia prever o desfecho de uma amizade que já durava vinte
e cinco anos e que terminou com a morte do empreendedor, varado por tiros de um
revólver, calibre 38, disparados pela pessoa em que mais confiava, dentro de seu próprio
restaurante. Estamos realmente muito mal, com a audácia do assassino, e a cidade
realmente está de luto com a perda irreparável que sofreu, e dificilmente o grande
homem, agora em outra instancia, será esquecido, pois participava ativamente da
economia local e contribuía para o desenvolvimento da cidade de Oliveira”.

Se a notícia começasse desta maneira, pouco se podia entender sobre o caso, muito
menos sobre quem são os sujeitos ativos e passivos, como foi praticada a ação e muito
menos o porquê do assassinato.

Decompondo-se o lead, verifica-se que ele responde apenas 5, das 6 perguntas


tradicionais que compõem o lead simples, ou seja:

Quem - O empresário Amadeu Bueno Godoy


53

Quê - foi assassinado


Quando - no início da noite de quarta-feira, dia 22
Como – a tiros
Onde – no restaurante Rodoporto Fernão Dias, localizado às margens da Fernão Dias e
do qual era proprietário

O porquê, que deveria estar no lead, só aparece no final do segundo parágrafo da


notícia com a explicação de que a polícia ainda não possuía informações sobre o que
motivou a agressão.

O lead apresenta o que será desenvolvido na sequência da reportagem, mas já deu a


idéia do que houve, convidando o leitor para a leitura completa da notícia.

Como afirma Erbolato (1999), há pelo menos dois modos para escrever o lead, com o
objetivo de valorizar cada um dos elementos da notícia. Nesta notícia do jornal Gazeta
de Minas, dois sujeitos foram mencionados: o que matou (sujeito ativo) e o que foi
morto (sujeito passivo). Utilizando-se da mesma decomposição do lead acima podemos
constatar que houve valorização de um sujeito, o passivo. Para Erbolato (1999), o verbo,
no noticiário, deve ser usado normalmente na voz ativa. Mas, há exceções em casos
como esse, em que quem sofre a ação é uma pessoa mais importante do que quem
comete.

Se o assassino fosse um Senador, Governador ou Prefeito e qualquer outro político de


influencia, Erbolato (1999) iria propor outro tipo de lead, que poderia ser:

“O prefeito da cidade de Oliveira, Diogo Gouvêa, matou, a tiros, empresário Amadeu


Bueno Godoy no início da noite de quarta-feira, dia 22. O crime aconteceu por volta de
20:30, no restaurante Rodoporto Fernão Dias, localizado às margens da Fernão Dias e
do qual Godoy era proprietário”.

Tendo conhecimento de que todos os assuntos que compõem o lead devem constar no
desenvolvimento da matéria, o texto destacou os sujeitos principais do evento e em
seguida destrinchou o assunto, abrangendo detalhes e por fim apresentou os assuntos
com menor relevância, fechando a estrutura da pirâmide invertida. O primeiro parágrafo
54

traz o resumo do fato em questão e chama a atenção do leitor para o desdobramento


seguinte, como define Erbolato (1997). Assim como foi analisado na notícia do dia
primeiro de janeiro de 1906, em seguida da introdução, inicia-se uma narrativa de fatos
de crescente importância, seguidos dos fatos culminantes:

Os 6 tiros partiram de um revolver calibre 32 Caramuru, cano longo. O assassino


fugiu em seguida, em um veículo Ford Versalles 4 portas, cor vinho, placa 3267.
Acionada por volta das 20:40 horas, a Polícia Militar deu início a rastreamento sob
coordenação do capitão Maurício Gonçalves Vieira. Amadeu foi socorrido por
terceiros, tendo chegado com vida ao Hospital São Judas Tadeu, mas não resistindo
aos ferimentos, faleceu minutos após dar entrada naquela casa de saúde. Seu corpo
foi transferido para o Instituto Médico Legal de Divinópolis, onde foi feita necropsia
e em seguida para Mogi Guaçu (SP), onde foi sepultado. A arma foi apreendida e o
local preservado para fins de perícia técnica. Na manhã de quinta-feira os policiais
ainda não tinham pistas do assassino e não sabiam informar sobre os motivos que o
levaram ao ato de violência.

4.3.2 O sensacionalismo na notícia de 1997

Ao analisar a segunda notícia, saltando no tempo até o dia 27 de outubro do ano de


1997, o mesmo jornal noticia o assassinato de um empresário cometido por seu amigo.

Neste caso, ao contrário do que afirma Enne (2007), como estratégias editoriais
presentes no novo jornalismo, a edição não apela para algo sensacional, como
manchetes “garrafais”, muitas vezes seguidas por subtítulos jocosos ou impactantes;
presença constante de ilustrações, como fotos com detalhes do crime ou tragédia. O
título da notícia “Empresário é assassinado com 6 tiros”, apesar de tratar de um caso
criminoso, não se atem ao foco sensacionalista, já que o que está estampado em
primeira página, nada mais é do que um resumo do que aconteceu. Ainda na contramão
da primeira manchete analisada, não se constata na segunda, nenhum juízo de valor que
faça um pré-julgamento dos envolvidos.

Assim como a manchete do ano de 1906, a de 1997 também desperta emoções e


compõe um escândalo natural. Como afirma Marcondes Filho, (1985), o que vai
diferenciar um jornal dito ‘sensacionalista’ de outro dito ‘sério’ é somente o grau.
Sensacionalismo é apenas o grau mais radical de mercantilização da informação: tudo o
que se vende é aparência, portanto, todo jornal é sensacionalista, porém, em diferentes
graus.
55

Em contrapartida, o fato possui uma importância que se relaciona indiretamente com o


próprio evento, que neste caso, é um evento inesperado que ocorreu em uma cidade
interiorana, onde os sujeitos possuíam importância para a população de Oliveira.

Nesta notícia analisada, não há percepção de uma série de marcas sensoriais espalhadas
pelo texto, caracterizam o aspecto sensacionalista da matéria como verbos que causam
horror e que possam despertar emoções no leitor como na notícia do início do século.

5 CONCLUSÃO

Conclui-se que a notícia de 1906 do Gazeta de Minas segue os parâmetros da pirâmide


normal ou literária, pois se propunha a narrar o fato em ordem cronológica. Nesse
56

aspecto, os fatos mais importantes eram expostos por último e não se resumiam logo no
primeiro parágrafo, a fim de despertar emoções nos leitores e aguçar a curiosidade do
que ainda estava por vir no decorrer da matéria.

A notícia então, não poupava as adjetivações, comuns nas notícias que sofriam um pré-
julgamento composto por palavras sensacionalistas, e direcionadas aos sujeitos ativos da
ação. A fotografia ainda não era utilizada, devido a escassez da tecnologia existente. As
manchetes, principalmente aos fatos relacionados a acontecimento policiais e tragédias,
possuíam títulos garrafais e sensacionalistas, porém sem destaque em grafias maiores e
no topo da página.

Com a evolução tecnológica e principalmente, com a adoção das novas técnicas


jornalísticas, importadas dos norte-americanos, os padrões jornalísticos se alteram a
partir dos anos de 1950, como postula Abreu (2009). A partir desse momento, os jornais
se lançam verdadeiramente como empresas no mercado na busca pela auto-sustentação
através das publicidades, em detrimento ao lastro financeiro governamental, que apesar
de continuar existindo, não é mais a única forma de sustento dos periódicos.

Para narrar a notícia, os informantes utilizam-se de técnicas jornalísticas para noticiar


pragmaticamente os fatos e acontecimentos. Essa nova forma se caracteriza
principalmente pela inversão de uma pirâmide que se torna ultrapassada, por sua falta de
objetividade na abertura da notícia. Ou seja, é adotada pelos jornais, a pirâmide
invertida, a fim de narrar com mais objetividade, sem nariz de cera, e expor ao leitor a
parte mais importante da notícia, logo no primeiro parágrafo.

Para que isso fosse feito, os periódicos adotam então, o lead, que é definido como o
primeiro parágrafo da notícia. Ele é um resumo inicial dos fatos e pragmaticamente
segue um modelo matemático de estruturação, ao se objetivar a responder seis perguntas
básicas em seu desenvolvimento: O quê, quem, quando, onde, como e por quê. Assim se
estabelece sua fórmula peculiar: 3Q + O + C + P.
Podemos concluir ainda que, não existe apenas um tipo de lead, já que, como o
referencial teórico desta monografia define, ele pode se apresentar de várias maneiras,
inclusive em sua forma simples respondendo as seis perguntas principais. Além disso, o
lead pode destacar também, diversos sujeitos e recortes de tempos presentes na notícia.
57

A notícia evoluiu e continua se adaptando, assim como todas as coisas, as necessidades


humanas. O direito a informação e o interesse em buscar entender novos
acontecimentos, fazem do jornalismo, apesar de seu pragmatismo atual, a arte da busca
pela narrativa isenta e imparcial da natureza dos fatos, o que se torna impossível diante
da capacidade intrínseca das pessoas de se emocionarem.

REFERÊNCIAS

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Jorge Zahar, 2002. 66 p.
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254.

ANEXOS
ANEXO 1 – Primeira página Gazeta de Minas de 1906. Ampliação.
60

ANEXO 2 – Primeira página Gazeta de Minas de 1997. Ampliação.