Giovanna de Matos Ribeiro

AS LINGUAGENS DE GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ:
Estudo do emprego de técnicas literárias e jornalísticas em Crônica de uma morte anunciada e Notícia de um seqüestro

Belo Horizonte Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH) 2010

Giovanna de Matos Ribeiro

AS LINGUAGENS DE GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ:
Estudo do emprego de técnicas literárias e jornalísticas em Crônica de uma morte anunciada e Notícia de um seqüestro
Monografia apresentada ao curso de Jornalismo do Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH) como requisito parcial à obtenção do grau de Bacharel em Jornalismo. Orientador: Fabrício Marques

Belo Horizonte Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH) 2010

Dedico este trabalho à minha família, já que ele representa o fim de um ciclo que só consegui completar graças ao apoio incondicional de todos durante os meus estudos. Dedico-o também aos professores Fabrício e Érika, que tanto ajudaram com sua paciência e carinho. E, em especial, à querida amiga Joana, que me foi essencial nesta monografia – desde o momento de gestação do trabalho até a sua conclusão. Espero que todos possam partilhar do orgulho que eu sinto por essas páginas.

Agradeço aos amigos e professores cujo apoio, brincadeiras, ensinamentos e broncas foram primordiais para que estas páginas pudessem ser concluídas. Agradeço à minha família, mais uma vez, pelo apoio incondicional. E reservo um caloroso e especial “muito obrigada” para a colega e amiga Diane Duque. Afinal, ela me mostrou que a minha visão sobre o que o jornalismo realmente representa não era uma ideologia particular e solitária da minha parte; por esse motivo, agradeço-lhe por reacender a minha chama de paixão pelo jornalismo na hora certa.

Cada momento de tempo tem sua eternidade própria. Descobri-la, é o segrêdo do grande jornalista. Alceu Amoroso Lima

SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................07 2 A VIDA DENTRO DAS REDAÇÕES: O TRABALHO JORNALÍSTICO..................10 2.1 O texto do jornalismo.........................................................................................................10 2.1.1 Características do texto...................................................................................................10 2.1.2 Análise dos objetivos do texto jornalístico......................................................................12 2.2 Dificuldades nas técnicas de pesquisa e apuração jornalísticas.........................................13 2.3 A tão sonhada objetividade jornalística..............................................................................15 2.4 Quem ouvir: as fontes do jornalista....................................................................................17 2.5 Complementos: a literatura no jornalismo.........................................................................19 2.5.1 Para todos os efeitos, o livro-reportagem.......................................................................20 3 TÉCNICAS, LINGUAGEM E UTILIZAÇÃO DOS RECURSOS LITERÁRIOS NO JORNALISMO.......................................................................................................................23 3.1 Conceito de literatura.........................................................................................................23 3.1.1 Ficção ou realidade?.......................................................................................................24 3.2 Linguagem literária............................................................................................................25 3.2.1 Para além dos livros........................................................................................................27 3.3 O outro lado: o jornalismo na literatura.............................................................................29 3.3.1 Elementos da linguagem literária no texto jornalístico..................................................32 3.4 A realidade com um toque de mágica................................................................................34 4 GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ: ENTRE O JORNALISMO E LITERATURA NOS LIVROS CRÔNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA E NOTÍCIA DE UM SEQÜESTRO..........................................................................................................................37 4.1 Metodologia........................................................................................................................37 4.2 As histórias de Crônica e Notícia.......................................................................................38 4.3 Gabriel García Márquez, o jornalista.................................................................................39 4.4 As fontes: quem disse o quê?.............................................................................................42 4.5 A presença objetiva............................................................................................................43 4.6 Construindo a realidade: a vez da literatura.......................................................................44 4.6.1 O realismo mágico de García Márquez..........................................................................46 4.7 Técnicas literárias na redação jornalística..........................................................................47 5 CONCLUSÃO.....................................................................................................................51 REFERÊNCIAS.....................................................................................................................54

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1 INTRODUÇÃO O uso de técnicas literárias em textos jornalísticos é uma discussão antiga, que existe desde o século 18, no período conhecido como primeiro jornalismo, segundo classificação de Marcondes Filho (2001). A maneira como esses dois recursos são empregados de forma concomitante é o objeto deste trabalho. Como material empírico, foram escolhidos os livros Crônica de uma morte anunciada (1981) e Notícia de um seqüestro (1996), ambos de autoria de Gabriel García Márquez. O autor tem por formação inicial a profissão de jornalista, mas é reconhecido mundialmente por seus méritos como escritor – García Márquez ganhou o prêmio Nobel da Literatura pelo livro Cem anos de solidão (1967) em 1982. Atualmente, essa obra é tida como uma das mais importantes da história da literatura latino-americana e mundial. As discussões sobre o emprego de técnicas literárias nas produções típicas da imprensa existem desde que os modos de produção jornalística sofreram algumas alterações. Com o passar do tempo, a padronização do texto jornalístico tornou-se uma realidade unânime, com a qual todos os profissionais tiveram que se adaptar. Os principais motivos para isso foram a pressa, elemento que passou a incomodamente integrar o cotidiano das redações; a necessidade de produção de um texto objetivo, sem escapes de opinião do jornalista; e a exigência em abrigar em um mesmo texto, geralmente com pouco espaço de publicação, várias informações que permitam que o leitor compreenda com exatidão o que lhe está sendo noticiado. A peculiaridade que motivou a produção do presente trabalho foi a forma como Gabriel García Márquez trabalha um acontecimento factual em dois livros de propósitos diferentes. Afinal, a leitura de Crônica de uma morte anunciada (1981) e Notícia de um seqüestro (1996) difere totalmente de um livro para outro. Notícia (1996) é conhecido por ser um grande livroreportagem. Mas a leitura de Crônica (1981) é bem mais leve, rápida e fluida. Ao constatar que os dois livros se originam de acontecimentos reais – embora não seja o mesmo fato que norteie a história dos dois livros –, surgiu a questão: o que faz com que um deles seja classificado como livro-reportagem, e o outro como romance de não-ficção? Como a realidade pode ser tratada de formas distintas pelo mesmo autor, e originar trabalhos tão

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diferentes entre si? Além disso, ambos os livros estão publicados em formato de livro: qual o papel da literatura na construção e memória da realidade? A partir dessas perguntas, constata-se que a literatura é mais do que um mero veículo que abriga devaneios ou situações fantasiosas dos autores. Não somente as páginas de jornais abrigam a realidade que circunda o homem. A literatura também é um espaço de reprodução e arquivamento de uma determinada ocasião, dentro de um dado espaço de tempo. Abriga os contextos políticos, sociais e culturais de uma comunidade, mas também permite que os autores dos livros possam ir mais além: adentrar nos sentimentos e pensamentos dos seus entrevistados, e contextualizar ainda melhor o pensamento dos envolvidos em um determinado acontecimento. São esses detalhes de investigação que tornam possível os motivos de um assassinato serem desvendados, ou permitem que uma vítima de sequestro possa compartilhar tudo o que viveu no cárcere, inclusive os bastidores do cotidiano e organização de facções criminosas. São justamente esses dois itens que permeiam os cenários dos livros Crônica de uma morte anunciada (1981) e Notícia de um seqüestro (1996). O primeiro é a reconstituição do dia em que o jovem Santiago Nasar, de 21 anos, foi assassinado. O fato curioso é que todo o pequeno vilarejo de Sucre, onde moravam o narrador e a vítima, sabia do iminente assassinato, mas poucas pessoas se mobilizaram para tentar impedir o crime. Nasar foi acusado de desvirginar Angela Vicário, que se casou com Bayardo San Román, um forasteiro que se instalou na pequena cidade. Na noite de núpcias, Angela foi devolvida a sua família, pois seu marido descobriu que não era mais virgem. Na época, esse tipo de comportamento era inaceitável para mulheres que queriam se casar: a jovem só podia perder a virgindade com seu marido. Demoraram-se 27 anos até que o narrador (no caso, o próprio García Márquez) retornasse ao vilarejo e se propusesse a esclarecer o que aconteceu naquela fatídica manhã de segunda-feira. Nos anos 1990, a Colômbia sofreu com os atentados de facções criminosas, todos incentivados pelo narcotráfico. O livro Notícia de um seqüestro (1996) trata justamente dessa onda de crimes que aconteceram enquanto o chefe do tráfico de drogas era o traficante Pablo Escobar. Particularmente, a obra se foca nos depoimentos dos sequestrados e seus familiares, que puderam dar detalhamentos das suas angústias e bastidores dos crimes. Embora o livro trabalhe também com o retrato dos contextos políticos e sociais da época – para que o leitor entenda qual era o cenário que incentivou todos os crimes –, esses depoimentos de familiares e demais participantes dos acontecimentos concedem um ar de realidade e profundidade nas

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investigações à narrativa, procurando que o leitor se envolva naquela história e entenda a gravidade da situação que foi enfrentada. No primeiro capítulo deste trabalho, são detalhadas as técnicas e características voltadas para o ambiente de trabalho jornalístico – tais como a escolha de fontes, a padronização do texto escrito pelo jornalista, as entraves que incentivam a produção de um trabalho jornalístico mais livre (como o livro-reportagem). Os autores que fundamentaram esses aspectos são Lage (2003 e 2005), Traquina (2005) e Sodré e Ferrari (1986). As particularidades referentes ao livro-reportagem e ao realismo mágico também são detalhadas, pois estão intrinsecamente ligadas ao estilo de escrita de García Márquez e às formas de publicação das quais ele se aproveita para divulgar seus trabalhos. Lima (1995), Herscovitz (2004) e Bernd (1998) embasam essa discussão. Já no segundo capítulo, a definição de literatura, os papéis que ela pode cumprir e as características do texto literário foram esmiuçadas. Para tais circunstâncias, utilizam-se as considerações de Proença Filho (1997), Lajolo (1985) e Moisés (1975). O terceiro capítulo do trabalho é uma análise da relação entre esses dois universos: técnicas jornalísticas e recursos literários, com base nas discussões e considerações feitas pelos autores já citados acima. Para o referencial teórico, além dos mencionados acima, os estudos dos seguintes autores embasaram a construção dos argumentos sustentados neste trabalho: Amaral (1996), Lima (1969), Medel (2002), Pena, 2006, Pound (1997), Resende (2002), Rossi (1981), Vilas-Boas (2010) e Wolfe (2005).

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2 A VIDA DENTRO DAS REDAÇÕES: O TRABALHO JORNALÍSTICO 2.1 O texto do jornalismo 2.1.1 Características do texto As práticas jornalísticas já são regidas por modos de fazer específicos, que são reservados à essa área. Seja em mídia impressa ou audiovisual, o texto é a forma primeira de contato que o leitor/espectador tem com a mídia em questão e o conteúdo que lhe está sendo oferecido. A definição do conceito texto, para Nilson Lage (2005), é a de uma organização que se baseia em uma ordem interna. Baseia-se em uma estrutura mental em que regras e palavras se encaixam, a partir de uma língua materna, resultando em uma “aventura de conhecimento que continua por toda a vida” (LAGE, 2005, p. 37). Sobre as técnicas relativas à construção do texto jornalístico, sabe-se que existem normas que regem essa prática. Os modos rígidos de apuração das informações e expressão da realidade deixam pouco espaço para os repórteres agirem com autonomia. Acabam por seguir e obedecer o manual de jornalismo. Os fatos são enquadrados em elementos básicos universalmente conhecidos, geralmente apresentados no lead – o que, quem, como, onde e por quê. Resta, então, “pouco envolvimento do repórter com os personagens e com os cenários de suas matérias, um foco bastante impessoal, pouco espaço para experimentos de estilo”. (CADERNOS, 2003, p. 9) O início da construção da linguagem jornalística como ela é conhecida surgiu após diversas disputas entre a habilidade técnica do texto de alguns jornalistas e a qualidade das fotos que eram publicadas no jornais (competia-se para descobrir qual veículo era capaz de superar o outro nesses dois aspectos). A partir dessas rixas, criaram-se algumas regras de estilo e conduta para os jornalistas seguirem. Buscar separar a opinião dos fatos noticiados; produzir um texto com o mínimo possível de inserção crítica do repórter naquele assunto; em suma, a criação e o estabelecimento de normas para a produção de conteúdo noticioso. A busca pelo retrato fiel da realidade é uma das afirmativas mais recorrentes de Traquina (2005). O autor cita que o trabalho do repórter já foi considerado uma espécie de ciência. De início, tinha-se a impressão de que a reportagem fornecia uma forma de espelho da realidade. Para assegurar que os relatos dos jornalistas correspondessem o máximo possível com o plano físico que os leitores não acompanhavam de perto, eles “utilizaram novas técnicas no seu trabalho, como a

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descrição das testemunhas e dos cenários. Os repórteres recorrem cada vez mais à técnica de entrevistas pessoais na obtenção dos fatos” (TRAQUINA, 2005, p. 58). Lage (2005) explica os dois principais aspectos que caracterizam o jornalismo. O primeiro é o fato de o conteúdo do material jornalístico ser produzido às pressas, de acordo com as tensões e regras da sociedade. Além disso, também tem por obrigação tornar as informações que veicula compreensíveis para um público de pouca bagagem perceptiva em diversos pontos (cultural, política etc.). Os limites da urgência e restrições informativas são presentes e difíceis de ultrapassar. Outro ponto é a exigência da objetividade, sem que juízos de valor ou espaços para segundas interpretações dos jornalistas possam surgir. Entretanto, no decorrer do trabalho, Lage (2005) revela que a especulação do público a respeito da realidade que o cerca surge a partir das inferências e subjetividades que, de vez em quando, escapam pelas linhas jornalísticas. Cabe ao jornalista se isentar ao máximo de declarações e opiniões pessoais nos seus textos. É importante combinar as técnicas de apuração e redação para que seja desenvolvido um discurso que se atenha somente ao factual e relevante. Lage (2005) recomenda que o correto é deixar as falas dos personagens retratarem aquela época específica e o pensamento vigente da sociedade naquele momento em que foram ouvidos. Nessa declaração, pode-se traçar outro paralelo com o livro-reportagem, que é baseado em declarações de participantes daquele contexto retratado. O relato de todo o ambiente permite recriar a situação, e o detalhamento dessa ocasião resulta, no final das contas, na existência prolongada daquele acontecimento, e impede que, algum dia, ele possa cair em esquecimento. A reportagem, dentro do jornalismo, serve para contextualizar o presente e deixar registrada a marca do passado. De acordo com Sodré e Ferrari (1986), a reportagem cumpre um papel importantíssimo dentro do universo jornalístico, pois é um gênero privilegiado que se utiliza de recursos literários, mas sem deixar de lado a objetividade informativa. Dentro dessa construção de narrativas, existem algumas regras objetivas (SODRÉ; FERRARI, 1986) para que sejam elaborados textos de cunho informativo e jornalístico, mas com recursos interessantes para tornar-se um texto diferenciado – ou, simplesmente, mais atraente para o leitor dos jornais diários. Para que esse objetivo seja alcançado, deve-se atender às características principais da reportagem, que, segundo Sodré e Ferrari (1986) são as seguintes: predominância da forma narrativa;

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humanização do relato; texto de natureza impressionista; e, por último, objetividade dos fatos narrados. 2.1.2 Análise dos objetivos do texto jornalístico Lage (2003) defende que o texto não pretende ser exato, nem deve almejar esse objetivo. A exatidão é desejo da pesquisa científica, não do jornalista.
O jornalismo procura grau distinto de precisão, determinado pela amplitude de seu público, que é extenso e disperso. O texto jornalístico traduz conhecimento científico em informação jornalística científico-tecnológica, procurando tornar conteúdos da ciência compreensíveis e atraentes. Clareza, simplicidade e compreensibilidade são virtudes que se esperam dos jornais e que os fazem ser lidos mesmo por cientistas, que geralmente nada reclamam quando não se trata de assunto de sua especialidade. (LAGE, 2003, p. 123)

O texto (e o tratamento de imagens) jornalístico procura transmitir o conteúdo com o mínimo de esforço da parte do leitor para compreensão. Embora isso não seja fácil e leve tempo, segundo o autor, o feito é alcançável e possível. Ainda sobre as demonstrações de conhecimentos científicos, Lage (2003) cita características para que o texto e suas informações sejam melhor compreendidos. Algumas delas são a ilustração com narrativas históricas e anedóticas e a comparação – em caso de unidades de medidas que não fazem parte do cotidiano do público. O autor observa que associações, relacionamentos e descoberta de conexões são necessárias para facilitar a compreensão do leitor em relação àquele assunto, aproximando-o daquele tema (LAGE, 2003). A notícia se refere apenas ao relato abreviado de um fato. A reportagem cumpre a função de esmiuçar, detalhar e aprofundar os acontecimentos relativos àquele fato e outros fatores relacionados a ele – ambiente, personagens, contexto etc. Sodré e Ferrari sugerem a função distintiva entre o noticiar e o reportar: no segundo caso, a reportagem salienta aspectos inusitados sobre o assunto em questão, ampliando e alumiando os conhecimentos do leitor a respeito daquele tema (SODRÉ; FERRARI, 1986). No caso da notícia, sua importância corre risco de ser menos avaliada devido a motivos de perenidade: os autores chamam a atenção para a tarefa de mero registro dos acontecimentos, a não ser que eles estejam envoltos “em circunstâncias que conduzirão o leitor a um posicionamento crítico, revelando-lhe ângulos insuspeitados, salientando outros apenas entrevistos” (SODRÉ; FERRARI, 1986, p. 36). Isso retoma, então, a diferenciação da reportagem, e as múltiplas possibilidades que são oferecidas por essa forma de trabalho jornalística.

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2.2 Dificuldades nas técnicas de pesquisa e apuração jornalísticas Discutir os obstáculos impostos aos jornalistas no seu espaço de trabalho diariamente serve, a seguir neste trabalho, como uma forma de apontar as motivações que levam o profissional a se dedicar ao livro-reportagem. Sobre a relação entre jornalismo e literatura, Lage (2003) discute que a pressa (elemento corriqueiro no jornalismo entendido como atividade industrial, cuja produção está vinculada a condições de hierarquia e rígida disciplina) não pode existir na literatura. “Literatura apressada é, provavelmente, subliteratura, construída com chavões e conduzindo a conclusões que não passam de lugares-comuns” (LAGE, 2003, p. 142). Urgência e eficácia, pressupostos dos processos de transmissão das informações jornalísticas, quando fortemente presentes na literatura, prejudicam a integridade desse texto. Nelson Traquina (2005) aponta o fator tempo e sua tirania como um dos vários empecilhos do trabalho jornalístico. Com a avalanche de notícias despejada nos leitores diariamente, a realidade se apresenta em fragmentos. Espera-se dos jornalistas, então, que eles possam transmitir as notícias da forma mais rápida, precisa e correta possível. Essa cobrança é explicada por uma exemplificação de uma das funções do jornalismo na sociedade, além de meramente informar: produzir informações que possam ser utilizadas pelo público como uma forma de interação social, criando tópicos de conversas pessoais ou em grupo, e assegurando que elas não estão desatualizadas dos acontecimentos importantes no mundo. Rossi (1981) cita que a transformação do lead nas matérias é um exemplo desse fator tempo. Inicialmente, o primeiro parágrafo do texto tinha a função de conduzir o leitor através da matéria, atraindo a leitura de toda a reportagem. No entanto, passou-se a exigir que as principais informações figurassem no primeiro parágrafo; dessa forma, o lead se tornou um resumo da matéria, “como se o leitor estivesse interessado apenas no início de cada notícia e não no seu conjunto” (ROSSI, 1981, p. 25). Sobre o lead, Rossi (1981) afirma que os jornalistas deixaram de ter domínio do seu estilo pessoal no texto. Tornaram-se especialistas em seguir a técnica do lead, respondendo as seis perguntas básicas (o quê, quem, quando, onde, como por quê), sendo forçados a abandonar seus métodos próprios e particulares de redação do texto. Essa padronização do texto jornalístico acontece devido a fatores temporais. Rossi (1981) argumenta que ninguém mais tem tempo para se dedicar à leitura de 50 ou 60 linhas de matéria nos jornais. As 10 ou 15 linhas que são apresentadas, então, devem conter um resumo das informações logo no primeiro parágrafo.

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Dentro da imprensa diária, o jornalista entende que seu trabalho, antes de ser veiculado para o público, passa por uma rede organizacional. Nesse processo, os superiores hierárquicos têm uma espécie de poder e controle sobre o trabalho do jornalista. É recomendável que o profissional se adiante a essas expectativas e evite que o texto precise ser retocado, além de fugir das reprimendas, que podem influenciar (nem sempre de forma positiva) a carreira profissional. Traquina (2005) observa que, seguindo a teoria organizacional, a organização para a qual o jornalista trabalha influencia o trabalho deste. Além desse outro gargalo, da influência no trabalho pelas partes superiores, há também as mudanças que se estendem para o aspecto econômico, já que os jornalistas perdem espaço nas páginas, por exemplo, por compromissos que a empresa do impresso tem com o anunciante. Toda a situação econômica é resumida: “devido aos custos e à lógica do lucro, são impostos constrangimentos ao trabalho jornalístico pelo orçamento da empresa” (TRAQUINA, 2005, p. 159). O autor explica que os jornalistas preenchem o espaço deixado em aberto pela publicidade. Além desse controle organizacional e percalços de origem hierárquica, Rossi (1981) aponta o risco em tornar o trabalho do jornalista pouco estimulante e automático:
Os repórteres e redatores – que formam o maior contingente de jornalistas, em qualquer redação – se sentem muito pouco responsáveis pelo produto que estão ajudando a confeccionar. E cria-se, então, um certo automatismo característico de linha de montagem industrial, que colide com a visão (ou desejo) de um trabalho intelectual, como o jornalismo deveria ser (ROSSI, 1981, p. 22).

Traquina (2005) defende que, diante da exorbitante quantidade de conhecimentos produzidos atualmente, os jornalistas deixam de ser transmissores das informações e passam a ser “administradores de dados acumulados, processador e analista desses dados”, de acordo com Philip Meyer. Meyer, nos seus estudos, preocupa-se em encontrar e aplicar métodos científicos de investigação social e psicossocial à prática do jornalismo. Acontece que, frente à carga de informações despejadas todos os dias, os jornalistas têm que lidar, muitas vezes, com a sua falta de especialização no assunto específico. O estudo de Gaye Tuchman produzido em 1978, que aponta o esforço das empresas jornalísticas para rotinizar o trabalho do jornalista, é citado por Traquina (2005). Assim, “o conhecimento de formas rotineiras de processar diferentes tipos de ‘estórias’ noticiosas permite aos repórteres trabalhar com maior eficácia” (TRAQUINA, 2005, p. 193). O domínio desses procedimentos pode ser entendido como profissionalismo pelos repórteres e diretores

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da empresa, mas o autor defende estar mais próximo de uma possibilidade de submissão às determinações da profissão e da empresa para a qual se trabalha. 2.3 A tão sonhada objetividade jornalística Para Rossi (1981), o jornalismo é a “fascinante batalha pela conquista das mentes e corações dos seus alvos: leitores, telespectadores ou ouvintes” (ROSSI, 1981, p. 7). Suas armas são a palavra e, no caso da televisão, também as imagens. Juntamente nessa batalha, está um elemento – que o autor classifica como mito – importante e muito presente: a objetividade, diretamente importado dos padrões norte-americanos de imprensa. Segundo essa teoria, a mídia deveria deixar sua opinião dos fatos transparecer somente nas páginas de editorial. A postura dos veículos deveria ser neutra e publicar tudo o que acontece durante o desenvolvimento de uma história, sem selecionar o que entra ou não nas páginas do jornal. Sobre a importância da objetividade dentro do meio jornalístico, Amaral (1996) ressalta que ela “é apontada como uma das principais virtudes da matéria jornalística, qualidade defendida há quase um século pela imprensa americana” (AMARAL, 1996, p. 17). Ainda sobre esse mesmo tema, Lima (1969), afirma que a objetividade é um traço natural do jornalismo enquanto gênero literário. O compromisso em relatar o fato da maneira como ele é guardado na sua essência é uma preocupação constante. O profissional que o deturpa ou o generaliza é um mau jornalista, no julgamento do autor.
O jornalismo é uma atividade pragmatista. Não se pode desprender nunca do seu resultado, nem se desligar do seu objeto. A veracidade, o realismo é sua grande fôrça. O mau jornalista é o sofisticado ou o fanático ou o mal informado, ou o divagante ou o vernaculista. Todos eles perdem de vista o objeto, o fato, a realidade, para se perder apenas no modo de o retratar ou nas suas segundas intenções, mais ou menos ocultas (LIMA, 1969, p. 54).

Lima (1969) reitera o compromisso que o jornalista deve manter com a honestidade e a verdade. Esses dois elementos surgem a partir da concomitância entre suas ações com seu dever de jornalista. A objetividade, juntamente com as qualidade da atualidade e informação, determina as características do estilo de texto jornalístico. A objetividade e seu antônimo, a subjetividade, são problemas de discussão central na filosofia. Os dois conceitos inspiram a batalha entre os chamados realistas e idealistas, e entre as teorias absolutas e relativistas da verdade. Na visão dos realistas, “a verdade deve ser

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interpretada como a correspondência com a verdade (objetividade); para os pragmatistas, a verdade é aquilo que é vantajoso para nós crermos (subjetividade)” (AMARAL, 1996, p. 19). Dentro do ambiente dos jornais, a inclusão do conceito de objetividade como um dos fundamentais que permeiam o trabalho jornalístico surgiu lentamente. Segundo Amaral (1996), começou com a adoção e discussão de dois princípios que se tornaram determinantes para orientar a captação e transmissão de notícias: são eles a imparcialidade e o equilíbrio. A objetividade passou a ser parte essencial da imprensa depois da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Até a primeira metade do século 19, a imprensa era político-partidária. Distribuía ataques aos adversários daqueles que representava, sem se preocupar se a disputa procedia ou não. A mudança da imprensa politizante para a comercializada aconteceu durante os 30 primeiros anos do século 19. “A partir de então, a objetividade [...] passa a se identificar com uma mistura de estilo direto, imparcialidade, factualidade, isenção, neutralidade, distanciamento, alheamento em relação a valores e ideologia” (AMARAL, 1996, p. 26). A partir daí, definiuse que as referências políticas, normas e posicionamentos pessoais do repórter seriam deixados de lado enquanto ele estivesse na função de jornalista. Uma brecha na prática incessante e engessada da objetividade veio com o jornalismo interpretativo. O estilo passou a ganhar fama durante o período da Primeira e Segunda Guerra Mundial. No primeiro conflito, os jornalistas perceberam o poder de persuasão e manipulação da propaganda: a partir dessa percepção, eles mudaram sua postura profissional e passaram a suspeitar dos fatos que lhes eram apresentados. E essa desconfiança tinha uma razão de ser: não se tratava de rixas entre publicitários e jornalistas, já que “quem deu vida aos serviços de propaganda americanos foi justamente o pessoal recrutado entre as melhores cabeças da imprensa na época” (AMARAL, 1996, p. 36). O jornalismo interpretativo surgiu, então, para deixar as notícias mais substanciosas, com mais conteúdo e detalhamento dos contextos e cenários que circundavam aquela situação de guerra. Amaral (1996) esclarece que a postura e busca pela objetividade não deixou de ser uma obrigatoriedade dos jornalistas, mas que eles eram
Livres para relatar e explicar o conflito, atendendo aos interesses do país e às suas simpatias pessoais, os correspondentes [de guerra] não só relataram como interpretaram a seu modo a realidade. Assim agindo, eles abriram mais uma brecha no sistema que continuava exigindo, na retaguarda, uma apreciação rigorosamente objetiva dos fatos (AMARAL, 1996, p. 37).

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Sendo assim, as matérias interpretativas, que tinham a função de clarear o cenário que era relatado no texto, foram aprovadas pela Sociedade Americana de Editores de Jornais em 1935 pelos seguintes termos: cabia aos editores oferecer mais atenção e espaço para as notícias com maior grau de interpretação e explanações. Também deveriam estar apresentados os backgrounds, com o intuito de permitir ao leitor entender com mais clareza o significado dos acontecimentos que eram narrados. Essa necessidade surgiu em decorrência da rápida velocidade com a qual os fatos (nacionais e internacionais) aconteciam, e a complexidade intrínseca dos mesmos. Por trás dessa liberdade adquirida, há uma nota subentendida: a subjetividade do jornalista que relata o acontecimento está implícita nas matérias interpretativas, já que o entendimento das notícias fica por conta daquele que as escreve. O autor indaga: “a questão é saber se é possível, e em que grau, o ser humano descrever as coisas como elas realmente são. Independentemente da relação que temos com elas. É saber se, de fato, a objetividade é um caminho para a verdade e a realidade” (AMARAL, 1996, p. 18). 2.4 Quem ouvir: as fontes do jornalista As fontes, segundo Lage (2003), são “instituições ou personagens que testemunham ou participam de eventos de interesse público” (LAGE, 2003, p. 49). Sobre essas personagens, o autor explica que “entre o fato e a versão jornalísticas que se divulga, há todo um processo de percepção e interpretação que é a essência da atividade dos jornalistas” (LAGE, 2003, p. 53). Cabe à fonte, de acordo com o modelo de comunicação criado por George Gerbner (1956), ser o agente da informação responsável por elaborar uma primeira representação que será levada adiante. A cadeia informativa é construída através do entendimento da realidade que cada personagem envolvido elabora. Nesse aspecto, retoma-se a discussão da subjetividade – dessa vez, aplicado na fonte que participa da apuração. O autor defende que “o resultado de uma consulta à fonte depende, assim, basicamente, da intenção que essa fonte atribui ao repórter” (LAGE, 2003, p. 57). Depois da Guerra Civil, a utilização de fontes múltiplas para contar uma história se tornou uma prática firmada e estabelecida, de acordo com Traquina (2005). A multiplicidade de pontos de vista veio junto da variação e inclusão de fontes. Outras técnicas para obter a

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informação também foram exploradas, sinalizando que os jornalistas estavam se tornando mais agressivos nessa tarefa. Para tal, Traquina (2005) cita o surgimento do jornalismo de investigação, no fim do século 19 e início do século 20, também como uma demonstração do crescimento da imprensa. Traquina discorre sobre algumas técnicas que são típicas do universo jornalístico. Com o bom cumprimento dessas práticas, a matéria, então, caminha para ser elaborada e alcançar a compreensão dos leitores. “Certamente que os saberes dos jornalistas são frequentemente vistos como saberes técnicos: o domínio de técnicas de recolha de informação, de elaboração de estruturas narrativas bem precisas, e de uma linguagem específica – o jornalês” (TRAQUINA, 2005, p. 116). A escolha e captação das fontes é uma das partes importantes desse processo. Segundo a classificação de Lage (2003), cada tipo de fonte pode oferecer um tipo diferente de informação para o jornalista. As fontes podem ser de três tipos: oficiais, oficiosas e independentes; primárias e secundárias; e testemunhas e experts. As do primeiro tipo, oficiais, são aquelas mantidas pelo Estado ou instituições que preservam algum tipo de poder estadual. Também podem ser empresas, organizações, sindicatos, fundações etc. Fontes oficiosas são as que têm ligação com um indivíduo ou instituição, mas não podem falar em nome dele. As declarações desse tipo de fonte podem, se couber numa ocasião posterior, ser desmentidas. Já as fontes independentes não têm nenhuma ligação com relações de poder ou interesse específico a ser alcançado com suas falas. Desses três tipos, as fontes oficiais são as mais confiáveis no fornecimento de números ou pesquisas. No entanto, percebe-se que, em todas as épocas, esse tipo de informante pode usar as informações que provê para deturpar a realidade. Fazem isso em benefício das pessoas ou órgãos que representam. Sobre as fontes oficiosas, Lage (2003) alerta que esse tipo de informante pode gerar informações não-confiáveis, como boatos, em nome do interesse de alguém ou alguma instituição da qual faz parte. As fontes independentes são aquelas vinculadas, normalmente, à organizações não-oficiais, chamadas também de não-governamentais. Defendem com fé cega aquilo que representam, e a veracidade dos dados que for podem ser colocada em xeque no momento da apuração. Mas o grande mérito dessas fontes, que justifica a procura por ela, é pelo fato de serem consideradas agentes espontâneos, sem qualquer interesse vinculado. Tratando-se das fontes primárias, elas são consultadas pelo jornalista para fornecer números e versões da história. As do tipo secundárias oferecem contextos do cenário em questão ou

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embasamento para construção de argumentos ou outras informações que também sustentem a matéria. Por exemplo: condições de plantio de determinado produto agrícola. Os agricultores serão as fontes primárias, pois fornecerão a primeira visão daquela história. Os especialistas agrônomos que entendem daquela cultura de plantação vão embasar as dificuldades daquele solo daquela região específica,o que pode ser feito para melhorar a produção etc. No caso das testemunhas e experts, Lage (2003) explica que as declarações fornecidas pelo primeiro tipo são normalmente compostas “pela emotividade e modificado pela perspectiva” (LAGE, 2003, p. 66). São pessoas que, de alguma forma, participam daquele evento específico e podem fornecer informações mais aprofundadas ou íntimas sobre ele. O autor analisa que o testemunho imediato é o mais confiável de ser aproveitado, porque a mente humana, com o passar do tempo, pode transformar aquele acontecimento em uma narrativa que perde a exatidão dos fatos. Os testemunhos das fontes classificadas como experts (que também se encaixam como fontes secundárias) são aqueles que têm mais embasamento técnico, que, com seu conhecimento aprofundado de um assunto, podem fornecer informações para aumentar a credibilidade e razão de ser dos eventos narrados nas matérias jornalísticas. O autor recomenda que mais de um especialista seja ouvido, para dar à reportagem um trato mais imparcial, deixando que várias pessoas envolvidas naquela área possam se manifestar e oferecer diferentes pontos de vida do assunto. 2.5 Complementos: a literatura no jornalismo A inclusão de traços literários nos textos jornalísticos vem de longa data. Segundo a classificação de Marcondes Filho (2001), a literatura integra o universo dos jornalistas desde o século 18. É especialmente nos períodos entendidos como primeiro jornalismo e segundo jornalismo que essa presença é detectada. O primeiro jornalismo compreende o período de 1789 a 1830. Nas redações dos jornais, havia a presença de escritores, políticos e intelectuais. Dessa forma, o texto era marcado por uma postura crítica, com grande conteúdo literário e político. Já o segundo jornalismo vai de 1830 a 1900. Nessa época, o conceito de imprensa de massa é fortalecido. Alguns recursos – que hoje são particulares e indispensáveis do jornalismo – começaram a ser formulados nesse período, como a criação de reportagens e manchetes. A profissionalização dos jornalistas também começou a ganhar força. Segundo Pena (2006), é justamente nos séculos 18 e 19 que escritores renomados, de prestígio, passaram a colaborar para os jornais, descobrindo a força que o espaço público tem perante a

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sociedade. A participação deles consistia, principalmente, não só em assumir os postos de chefia e comando das redações, mas também em determinar “a linguagem e o conteúdo dos jornais. E um de seus principais instrumentos foi o folhetim, um estilo discursivo que é a marca fundamental da confluência entre jornalismo e literatura” (PENA, 2006, p. 5). No início do segundo jornalismo, o jornalismo popular ganhou força na Grã-Bretanha e da França. Uma das características desse tipo de jornalismo era a publicação de textos que continham fortes traços literários. Essas novas narrativas resultaram em um grande aumento nas vendas de jornais; dessa forma, era possível diminuir nos preços, o que aumentava o número de leitores e assim se seguia o ciclo do jornalismo popular. A prática da combinação entre jornalismo e literatura ganhou mais força por volta dos anos 1960, com o Novo Jornalismo e os diversos autores que aderiram à exploração do gênero (como Tom Wolfe, Truman Capote, Gay Talese, entre outros). Segundo Resende (2002), o período de transformações na sociedade norte-americana favoreceu essa aparição do novo gênero. Ele afirma que “a literatura americana nos anos 60, marcada pelos fatos que emergiam de uma sociedade em processo de mutação, mesmo que paradoxalmente, contribuiu para que a ficção também se tornasse objeto de questionamento por parte dos escritores” (RESENDE, 2002, p. 61). Embora Resende (2002) concorde com a classificação de Marcondes Filho, quando afirma que jornalismo literário era um recurso muito utilizado nos primórdios da imprensa, o autor defende que, com o Novo Jornalismo, “parecia acontecer uma retomada mais consciente e que deixava transparecer um confronto mais diário entre os dois campos [literário e jornalístico]” (RESENDE, 2002, p. 28). 2.5.1 Para todos os efeitos, o livro-reportagem A aproximação dos jornalistas com o campo literário é de antiga data. O Romance, para Wolfe (2005), era considerado o triunfo final do jornalista. Afinal de contas, os escritores de reportagens especiais eram aqueles que podiam, depois de demitir-se da empresa jornalística, “mudar-se para uma cabana em algum lugar, trabalhar dia e noite durante seis meses e iluminar o céu com o triunfo final” (WOLFE, 2005, p. 13). Percebe-se, nessa passagem, que os jornalistas almejavam um lugar no universo literário como à um prêmio, uma forma de explorar a liberdade que um romance de literatura oferece, depois de submissão às regras de um jornal e seus textos padronizados.

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Alguns elementos que permeiam o universo jornalístico não permitem muito espaço para que os repórteres possam aprofundar a pauta da matéria ou mesmo produzir um texto mais elaborado, oferecendo todas as informações derivadas das suas apurações. A busca pelo furo, a pressa para a publicação de trabalhos e a padronização do texto jornalístico (com elementos como o lead, por exemplo) são alguns dos fatores que dificultam a exploração de elementos literários nos textos jornalísticos. Para contornar esses entraves, os jornalistas dispõem de um espaço em que podem oferecer um trabalho diferenciado de apuração e escrita para seus leitores: o livro-reportagem. Lima (1995) explica que o livro-reportagem é visto como um subsistema híbrido que está relacionado ao sistema jornalismo e ao sistema editoração. A faceta na qual ele se concentra em aprofundar no seu livro é aquela conectada ao jornalismo, já que ele considera que “sua função básica, enquanto veículo de comunicação social, atém-se muito à finalidade do jornalismo” (LIMA, 1995, p. 19). O livro-reportagem está atrelado ao modo de produção dos conteúdos jornalísticos – que se desenvolveram, com o passar do tempo, com o objetivo de caracterizar e particularizar as mensagens noticiosas. As explicações do autor sobre o livroreportagem podem ser resumidas no seguinte: “é muitas vezes fruto da inquietude do jornalista que tem algo a dizer, com profundidade, e não encontra espaço para fazê-lo no seu âmbito regular de trabalho, na imprensa cotidiana” (LIMA, 1995, p. 33). Outra possibilidade de aproveitamento do livro-reportagem é a ânsia do jornalista em explorar seu potencial como construtor de narrativas – desejo esse que pode ter espaço dentro do gênero híbrido. De acordo com Sodré e Ferrari (1986), a reportagem cumpre um papel importantíssimo dentro do universo jornalístico, pois é um gênero privilegiado que se utiliza de recursos literários, mas sem deixar de lado a objetividade informativa. Os autores propõem, dentro do universo de classificação da reportagem, que existem subgêneros que misturam elementos da linguagem jornalística com categorias de texto literário. A reportagem-conto, por exemplo, se caracteriza por particularizar determinada ação a partir da escolha de um personagem para participar e ilustrar o acontecimento do qual se pretende fazer o relato. É possível, no entanto, aproveitar-se de informações documentais ao longo do texto, para que se garanta veracidade na narrativa. Outro subgênero da reportagem é a reportagem-crônica. Seu diferencial é apresentar um caráter mais circunstancial e ambiental do que somente a crônica sozinha. Aproxima-se da

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crítica social e guarda em seu âmago opiniões veladas. Na tentativa de diferenciar os dois conceitos (crônica e reportagem), temos que:
A reportagem precise de um fato real, não inventado, e do testemunho deste fato, ainda que isto seja um artifício do narrador. Explicando melhor: o narrador tem que parecer estar presente (mesmo que não esteja). Isso pode ser feito, tanto através do discurso em primeira pessoa, como sob uma narrativa onisciente que crie no leitor a impressão dessa presença. (SODRÉ; FERRARI, 1986, p. 91)

Sodré e Ferrari (1986) também têm suas considerações sobre o livro-reportagem. Eles defendem que esse é um gênero que ilustra o casamento entre jornalismo e literatura no texto. Há duas formas de organizar a publicação de um livro-reportagem. Pode ser com a reunião de textos (inicialmente elaborados para publicação na grande imprensa) em um livro, ou utilizando-se da mistura de técnicas jornalísticas e cuidados literários na linguagem para criar um só trabalho. Rildo Cosson (2002) recomenda que o romance-reportagem seja entendido como um gênero autônomo.
Na efetivação dessa leitura, é preciso compreender que a verdade factual não é um simples empréstimo da reportagem, mas sim a marca da sua dimensão semântica. Nem os padrões narrativos culturalmente determinados e usualmente reconstruídos por meio de processos narrativos realistas são apropriações do romance, mas sim marca da sua dimensão sintática (COSSON, 2002, p. 67-68).

As particularidades de cada gênero, tanto literário quanto jornalístico, complementam um ao outro – ou seja, o trabalho que reúne ambos não é jornalístico ou literário. O romancereportagem, embora tenha uma natureza híbrida, por causa da sua classificação advinda de dois elementos distintos, é um gênero próprio, que serve para classificar os trabalhos publicados nessa linha de produção.

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3 TÉCNICAS, LINGUAGEM E UTILIZAÇÃO DOS RECURSOS LITERÁRIOS NO JORNALISMO 3.1 Conceito de literatura Embora Pound (1997) e Moisés (1975) difiram entre si na definição absoluta do que é literatura, os autores concordam quanto à carga de liberdade que o processo de criação literária permite. Outro aspecto semelhante é a respeito da carga factual contida no texto da literatura – ou seja, um livro, por exemplo, não tem propósitos de mero entretenimento: há conteúdo histórico e, possivelmente, rico valor social nas páginas literárias. Para Ezra Pound (1997), “grande literatura é simplesmente linguagem carregada de significado até o máximo grau possível” (POUND, 1997, p. 32). O autor americano vai além: defende que a utilidade da linguagem é ser usada para a comunicação, e que sua própria criação já foi destinada para atender essa finalidade. Afinal, a linguagem é o principal meio de comunicação humana. Sem ela, legisladores, comandantes, cientistas e até mesmo o povo, não podem cumprir suas designações ou buscar ampliar seus conhecimentos. Além disso, as virtudes e defeitos da linguagem afetam todos os atos e condições de uma sociedade. (p. 33). Ainda referente ao aspecto da comunicação, Massaud Moisés (1975) conceitua a literatura: “a rigor, trata-se de transmissão, de comunicação oral do texto literário escrito ou impresso: depois que este surge, é que se processa a sua manifestação em voz alta” (MOISÉS, 1975, p. 17). A respeito da existência anterior da palavra impressa ao invés da escrita, o autor esclarece seu ponto de vista. Para Moisés (1975), antes da existência do documento escrito ou impresso, toda obra no gênero é considerada mais próxima do Folclore, da Antropologia, e não como arte literária. Segundo o autor, a ficção é entendida como um universo interior. É lá, nessa espécie de esconderijo, que os produtos da percepção sensível e emotiva da realidade ambiente estão armazenados e sofrem transformações. Por causa disso, pode-se afirmar que “Literatura é ficção” (p. 25). Entendendo que o conteúdo da ficção é resultado das “imagens” deformadas e também modificadas do mundo real, é correto afirmar que ficção e imaginação são análogas, e um termo pode até ser usado para equivaler ao outro.
A imaginação é entendida não apenas no sentido da imaginação difluente, ou fantasia desgarradora da realidade formada de sonhos, devaneios, visões, etc., mas também e principalmente a imaginação transfiguradora do real, na medida em que transforma o dado real e organiza-o dentro de novas sínteses e novos sistemas, em resumo, dentro duma nova realidade com suas leis e normas, as leis e normas próprias do mundo estética ou da ficção. (MOISÉS, 1975, p. 26)

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Para Marisa Lajolo (1985), literatura “é a relação que as palavras estabelecem com o contexto, com a situação de produção e leitura que instaura a natureza literária de um texto” (LAJOLO, p. 38, 1985). Sobre a carga de realidade que existe dentro de uma obra literária, Lajolo (1985) define que o mundo representado na literatura, de forma simbólica ou realista, surge da experiência que o escritor tem de uma realidade histórica e social muito bem delimitada. 3.1.1 Ficção ou realidade? Heloiza Golbspan Herscovitz (2004), quando apresenta suas considerações sobre o realismo mágico (estilo pelo qual García Márquez é consagrado), depara-se também com a questão da realidade e da ficção no mesmo objeto de estudo: “realismo mágico é uma narrativa que não distingue o fantástico do real, o mito e a história” (HERSCOVITZ, 2004, p. 177). Quando se referem ao confronto entre o conteúdo imaginário ou factual que existe nas obras literárias, os autores que estudam o tema mantêm a postura de equilíbrio e equivalência entre os dois termos. Domício Proença Filho (1997) destaca que alguns estudiosos entendem a obra literária como uma representação e visão do mundo, além de também ser uma forma de tomada de posição diante dele. Nesse raciocínio, é centralizado o criador da literatura e a imitação da natureza. Lajolo (1985) também retoma a discussão entre conivência da realidade e ficção. “É desse cruzamento do mundo simbolizado pela palavra em estado de literatura com a realidade diária dos homens que a literatura assume seu extremo poder transformador” (LAJOLO, 1985, p. 65). Afinal, autor e leitor compartilham o mesmo universo: a diferença é que o primeiro cria esse espaço, e o segundo recria-o. Como resultado, esse universo é uma síntese – tanto intuitiva ou racional, simbólica ou realista – do que se vive no presente momento. Segundo Moisés (1975), a imaginação não se limita apenas ao significado de fantasia desvinculada da realidade (em formato de sonhos, devaneios, visões etc.). Também pode ser entendida como um tipo de construção transformadora do real, uma vez que essa realidade presente é transfigurada e depois organizada como uma nova realidade, que tem suas próprias normas e leis – particulares do mundo estético físico ou da ficção.

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Zilah Bernd (1998) defende que o escritor assume a condição de cronista maior quando revela os acontecimentos sob um ponto de vista privilegiado. Sendo assim, o processo histórico é acolhido não somente uma fonte informativa para a elaboração do trabalho literário. Mas também como uma possibilidade de reconstrução do imaginário. “Assim os textos passam a ser feitos de entrecruzamentos de sentidos que culminam com a desestabilização do discurso da história” (BERND, 1998, p. 131). Ou seja, a relação de coexistência entre os acontecimentos factuais (que posteriormente se tornam históricos) e o espaço literário é forte o suficiente para que um chegue a complementar o significado e completude do outro. 3.2 Linguagem literária Retomando a discussão de Domício Proença Filho (1997), em que o autor cita a obra literária como uma forma de imitação da natureza, ele se detém na forma com a qual essa relação acontece. A linguagem é a forma de interligar esse esforço de reprodução e criação. Entendese, portanto, que os aspectos principais relacionados à qualidade da obra literária são baseados 1) na originalidade da visão que é expressa e 2) na adequação da linguagem àquilo que está sendo compartilhado pelo texto. Proença Filho (1997) expressa essa afinidade com mais força: “É possível perceber a estreita relação entre a dimensão linguística e a dimensão literária que envolve a significação das palavras quando estas integram o sistema semiótico que é o texto literário” (PROENÇA FILHO, 1997, p. 7). O autor enumera alguns dos aspectos distintivos entre o discurso literário e o discurso comum: - Complexidade: principal característica do discurso literário. A natureza das informações que são transmitidas não se restringe somente ao nível semântico: se transformam em algo impossível de ser apreendido somente através das estruturas elementares do discurso cotidiano. O texto da literatura ultrapassa os limites da simples reprodução de palavras. - Multissignificação: o texto literário difere-se do científico, por exemplo, por fugir da monossignificação. No primeiro caso, os signos linguísticos, frases e sequências de palavras assumem significado variado e múltiplo (p. 38). É por esse motivo que os estudiosos explicam que a literatura se afasta do chamado grau zero da escritura. Esse grau busca atingir a plena clareza de comunicação que do assunto que está sendo expresso, obedecendo as normas usuais da língua.

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A literatura, na verdade, cria significantes e funda significados. Apresenta seus próprios meios de expressão, ainda que se valendo da língua, ponto de partida. Superposto ao da língua, o código literário, em certa medida, caracteriza alterações e mesmo oposições em relação àquele. É um desvio mais ou menos acentuado em relação ao uso linguístico comum. (FILHO, 1997, p. 39)

- Predomínio da conotação: O texto literário é predominantemente conotativo. Isso significa que o arranjo das palavras resulta em um discurso múltiplo, que abre espaço para várias significações. Os signos verbais estão carregados de traços significativos que, por sua vez, estão relacionados ao contexto e processo sócio-cultural aos quais a língua se vincula. O texto pode abrigar elementos significadores de um real particular, quase sempre garantido de verossimilhança. Mas pode também apresentar uma imagem desse real ligada a outros elementos que também compõem o texto. Essa presença, que pode indicar uma dimensão denotativa, não é o traço principal do discurso literário. É o sentido conotativo desse agrupamento de frases e palavras que atende a caracterização do texto literário. - Liberdade na criação: A literatura abre o leque para a criatividade do artista, já que as manifestações literárias permitem ruptura em relação à tradições linguísticas, retóricoestilísticas, técnico-literárias ou temático-literárias. A ininterrupta invenção de novos meios de expressão ou uso de recursos vigentes na época é permitida na elaboração do texto literário. “Na maioria dos casos, é a própria obra que traz em si suas próprias regras. A obra de arte literária se faz, fazendo-se” (PROENÇA FILHO, 1997, p. 41). - Ênfase no significante: O texto não-literário destaca o significado – o plano do conteúdo expresso naquele discurso. O texto literário apoia-se no significado e em especial, no significante. O efeito estético do discurso apresentado pode ser perdido quando há substituições, como sugere Proença Filho (1997). - Variabilidade: O discurso literário está carregado de diversas possibilidades de variação, que influenciam o conteúdo da mensagem e a apreensão desta por parte do leitor: alguns desses aspectos listados por Proença Filho (1997) são o universo sócio-cultural e dimensões ideológicas referentes à obra específica, as mudanças culturais que a língua acompanha, os novos tempos, vontades, pessoas, povos e manifestações culturais. Além disso, há que se lembrar de um princípio básico da literatura, que é a permanente invenção.

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A maciça presença de elementos da realidade nos textos literário é retomada por Lajolo (1985). Segundo a autora, mitos e espaços poéticos não são fruto somente da realidade que cerca leitores e autores, mas também do diálogo com elementos que constituem a tradição literária. “É como se a literatura fosse um constante passar a limpo de textos anteriores, constituindo o conjunto de tudo – passado e presente – o grande texto único da literatura” (LAJOLO, 1985, p. 46). A autora afirma que a linguagem torna-se literária quando instaura um universo através de seu uso, e esse é um espaço de interação de subjetividades (autor e leitor) que escapa ao imediatismo e estereótipo das situações e usos da linguagem que configuram a vida cotidiana. Considerando-se essas relações de dependência, assinala-se o caráter de reinvenção e variabilidade citado anteriormente. 3.2.1 Para além dos livros Moisés (1975) defende que a palavra é atributo exclusivo da Literatura. Ela também é instrumento que constitui o meio mais próprio de comunicação entre os homens. Diante disso, “esse privilégio torna a Literatura a arte por excelência, porquanto a palavra multívoca consegue exprimir, significar, tudo quanto os signos das demais artes (o som, a cor etc.) só alcançam transmitir de modo parcial ou imperfeito” (MOISÉS, 1975, p. 27). Entende-se que o autor atribui às obras literárias a missão de serem um novo espaço, onde o conhecimento de determinado assunto pode ser expandido e até melhor apreendido – uma vez que a palavra é o instrumento infalível para cumprir essa finalidade. Sobre as mudanças que resultaram no surgimento, na literatura, do Romantismo – estilo que teve ligação com o jornalismo –, Lajolo (1985) afirma que tudo começa com a vitória política da burguesia na França em 1789. Dá-se início a um novo ciclo cultural: cria-se uma nova linguagem que redefine a posição que o homem ocupa no mundo e a natureza que circunda esse mundo. É uma visão de mundo bem diferente daquela sustentada previamente, durante os períodos clássicos, medievais e renascentistas. A literatura praticada pelos românticos era muito diferente: ao invés de voltar a produção para um público de berço aristocrático, voltou suas forças na publicação de textos nos jornais: dessa forma, o público consumidor era mais amplo, indiferenciado e sem requintes/pedigree literário. Às lágrimas e sorrisos, os textos românticos foram conquistando cada vez mais admiradores.

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Os leitores se comoviam com o que liam. Mas, acima de se focar em mexer com os sentimentos, imaginação e fantasias do público leitor, o romance é baseado, essencialmente, na liberdade. Manifestada de várias formas: tipo de linguagem empregada, musicalidade dos ritmos, descaso com a razão que cercava todos os lados, a criação de personagens arrebatadas pelas próprias fantasias.
Em certos casos, e por alguns momentos, a literatura como prática e espaço da liberdade possível ao escritor dos começos do século XIX é fecunda: faz o texto assumir, abertamente, a função de denúncia de uma vida social injusta, de reivindicação de uma nova ordem social. Em uma palavra, é a poesia das esquinas e dos comícios, da participação política praticada e vivida nos limites possíveis do sisudo tempo de afirmação da burguesia (LAJOLO, 1985, p. 71).

Proença Filho (1997) salienta a importância da visão crítica dos artistas. O autor cita que no século XIX os românticos acrescentam outro tópico a respeito do entendimento das obras literárias: eles defendiam que cabia ao artista expressar sua visão das coisas de uma forma em que ainda não foram vistas, mas também demonstrar, em profundidade, como elas realmente são. O canal pelo qual eles podem fazer isso, que é a linguagem, atua como uma forma de apreensão do real. Através dos sentidos, o homem apreende a realidade que o cerca, já que está em permanente e complexa interação com este ambiente. Mas é necessário que ele transforme os sinais e informações que a vida lhe envia em signos que permitam comunicarse. Esses sinais e elementos são decodificados em uma forma de linguagem, que permite compreensão dessas informações. Proença Filho (1997) também acrescenta que, por outro lado, a linguagem é uma forma de organizar o mundo que o ser humano tem a sua volta. Zilah Bernd (1998) retoma a discussão sobre a compreensão que o ser humano tem sobre o mundo à sua volta e o papel da literatura nessa questão. Ela toma como exemplo os escritores latino-americanos, que precisaram se desvencilhar de censuras extremas dos regimes rígidos, especialmente entre os anos de 1950 e 1990. A recomposição da memória histórica, quando realizada através de textos literários, acaba desempenhando um papel de recomposição identitária. Isso acontece graças ao processo de resgate da memória histórica. O substrato, obtido por esse procedimento de recuperação, é o fundamento sobre o qual a identidade da comunidade poderá ser construída. A versão oficial de algum acontecimento – que corresponde às explicações e informações que são repassadas através da história – pode atender às exigências e preconceitos de um personagem dominante, considerado como vencedor, naquele determinado período. A literatura, por outro lado, quando abre espaço para

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manifestação de ritos e tradições orais, permite ao escritor resgatar fragmentos da história que não foram contados, mas que existem no subconsciente da comunidade. Esse acesso seria impossível de qualquer outra forma, ressalta Zilah Bernd (1998). Um dos principais atributos da literatura do maravilhoso é a revelação de pontos obscuros da história em questão – no caso, a América Latina. Isso acontece uma vez que a literatura atua “situando-se na fronteira entre tradição popular e letrada, abrigando formas impuras ou híbridas, absorvendo e mesclando a pluralidade dos discursos em circulação na sociedade” (BERND, 1998, p. 132). 3.3 O outro lado: o jornalismo na literatura Segundo Heloiza Herscovitz (2004), a imprensa da maioria dos países latino-americanos seguiu um modelo de jornalismo francês, combinando ativismo político e literatura. Entre jornalismo e literatura, não existia separação delimitada. A descrição da profissão oscilava entre uma forma de arte e/ou missão (p. 179). Manuel Ángel Vázquez Medel (2002) não exclui a aproximação dos dois gêneros (jornalismo e literatura). Embora os modos de produção de cada um variem muito, seguindo rumos nem sempre convergentes, não deixaram de acontecer importantes pontos de convergência e território compartilhado entre os dois campos (p. 17). A relação entre criação literária e exercício jornalístico é marcada por desentendimentos. Existe um a respeito da temporalidade: no processo literário, “sem abandonar a dimensão lúdica e fruitiva, deve encaminhar-se para o essencial humano, bem que encarnado nas inevitáveis coordenadas espaço-temporais que nos constituem” (MEDEL, 2002, p. 18) Sobre os fazeres do jornalista, as suas possibilidades de trabalho se referem ao efêmero, passageiro. O autor entende que a literatura parece ter se orientado para o importante, e que perdura por mais tempo. A informação jornalística, para o urgente. Mesmo apontando essas falhas, o posicionamento do autor não é taxativo: Medel (2002) defende que o cumprimento das restrições impostas pelo ambiente jornalístico nem sempre limita o trabalho do repórter, nem a maioria das criações literárias atuais têm conteúdo que vão perdurar pelos tempos – quem sugere isso é Marcel Proust, no livro No caminho de Swan.

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O autor concorda, no entanto, com Manuel Rivas1 (1998, p. 23): o escritor aponta que a matéria-prima, tanto do jornalismo quanto da literatura, é a palavra.
Quando têm valor, o jornalismo e a literatura servem para o descobrimento da outra verdade, do lado oculto, a partir da investigação e acompanhamento de um acontecimento. Para o escritor jornalista ou o jornalista escritor a imaginação e a vontade de estilo são as asas que dão vôo a esse valor. (MEDEL, 2002, p. 19)

Esse quadro fica ainda mais aparente a partir do momento que os jornalistas perceberem que não existe a tão comentada postura da objetividade – que, teoricamente, deveria reger a profissão. Sérgio Vilas-Boas (2010) entende que os métodos jornalísticos e as técnicas literárias formam um par prolífico. Para o autor, Jornalismo Literário não é ficção ou história baseada apenas em fatos. O bom repórter narrativo é aquele que produz um trabalho durável, que não seja descartável e facilmente perecível. Realiza esse feito através da união de duas qualidades que, inicialmente, podem parecer distantes uma da outra. Afinal, por um lado, é necessário usar o melhor de sua inteligência racional para estudar, levantar informações e, assim, estar apto a compreender e analisar o assunto que tem pela frente com profundidade. De outro, sua inteligência emocional entra para permitir que o repórter seja tocado sensorialmente pelo tema que aborda, pelas características sutis dos cenários por onde circula, com o objetivo de levantar dados objetivos e subjetivos. “O importante é, deveria ser, a busca de conteúdo e forma ancorados no real, mas expressos de maneira tão fascinante quanto a dos melhores textos de ficção”, completa Vilas-Boas (2010, p. 2). Falando especificamente do realismo mágico e sua atuação na América Latina, Bernd (1998) observa que a literatura tem um poder que nenhum outro texto tem: o de abrigar, ser espaço de transformação dos discursos que circulam na sociedade em forma de texto.
Em tempos de regimes de exceção, é a literatura, através de sua linguagem simbólica e imagética, que diz o que não pode ser dito, escapando à severidade da censura. O escritor latino-americano utiliza então de forma astuciosa a convenção de ficcionalidade na tentativa de preservar dizeres desacreditados por serem veiculados oralmente, salvando-os da ameaça de extinção representada pelo desaparecimento dos últimos ‘cantadores’ (conteurs/griots), fiéis depositários do saber popular. (BERND, 1998, p. 132)
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RIVAS, Manuel. El periodismo es um cuento. Madrid, Alfaguara, 1998.

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Nilson Lage (2005) aponta uma diferença entre o jornalismo e a literatura. Esta última, assim como as outras artes (plásticas, dramáticas etc.), traça a realidade a partir de fragmentos dos fatos, ou mesmo compõe a ficção com retalhos de acontecimentos factuais. Segundo a definição do autor, “o jornalismo é sobretudo um relato de aparências” (LAGE, 2005, p. 5), que é construído sob dois principais aspectos: a pressa na produção dos conteúdos noticiados e o esforço para não inferir subjetividades nos textos.De qualquer forma, a preocupação em relatar algo especial, que chamasse a atenção, e singularizar aquele fato, é uma busca constante para os jornalistas. Sobre a narrativa, Lage (2005) explica que ela surgiu com o objetivo de estender a motivação dos leitores em se informar sobre um determinado assunto. O agrupamento dos casos da matéria deveria servir de incentivo para que os próximos pudessem ser revelados. Não é o caso de somente expor os fatos, esperando que somente isso atraia a atenção e interesse dos consumidores da informação. Em resumo: “eventos sucessivos deviam ser alinhados de modo que cada qual despertasse a curiosidade para o seguinte” (LAGE, 2005, p. 10). Nesse contexto, é adequado abordar as utilizações do livro-reportagem. Discorrendo sobre elas, Sodré e Ferrari (1986) discutem a relação entre literatura e jornalismo. É importante que o texto apresente elementos comuns nas narrativas literárias, mas que também servem para complementar as reportagens. São eles a força (que fica constatada se o leitor tem interesse em terminar de ler a reportagem), a clareza (busca pela compreensão imediata através da objetividade narrativa), a condensação (refere-se à síntese de informações, suprimindo aspectos superficiais). Também são citados os elementos tensão (a busca por um clímax e “suspense” na história) e a novidade (relacionada não somente à um acontecimento inédito, mas uma forma inovadora ou diferente de interpretá-lo). O uso dos recursos literários nos trabalhos jornalísticos também é detalhado por Lima (1995). De acordo com o autor, são três as possibilidades dessa incorporação: uma, para os trabalhos ficcionais e puramente imaginários dos autores; outra, as jornalísticas, que se apropriam dos recursos literários para relatar melhor a realidade em questão; e, finalmente, aquelas que misturam tanto a ficção quanto o factual. Ele busca comprovar, assim, que a literatura e o jornalismo estão próximos, e um pode se apropriar de recursos do outro para garantir um texto perene e completo. A ligação entre o compromisso com a verdade e as habilidades literárias fica expresso quando o

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autor explica: “Verossimilhança, é isso que aprenderam os ficcionistas com o jornalismo, um recurso para lhes dar força ao texto do imaginário” (LIMA, 1995, p. 183). Voltando à questão da perenidade das informações, Lage (2005) discute um traço da crônica (outro gênero híbrido de jornalismo e literatura). Os autores mais bem sucedidos nesse tipo de texto, na sua avaliação, são aqueles capazes de construir textos duradouros sobre assuntos de realidades transitórias. É possível se estabelecer uma relação entre essa definição e a função do livro-reportagem. Esse veículo, em sua essência, ocupa-se em retratar detalhadamente e deixar marcado na história um acontecimento importante para determinada sociedade. 3.3.1 Elementos da linguagem literária no texto jornalístico Lima (1995) e Wolfe (2005) enumeram algumas características que integram o texto jornalístico de forma a enriquecer seu conteúdo e apresentação. Os seguintes elementos concedem um teor mais realístico, aproximando mais o leitor da situação que está sendo narrada. Ambos os autores concordam com a utilização de recursos descritivos e transcrição de diálogos para atingir esse objetivo, entre outros particulares do estudo de cada um deles. Lima (1995) cita como parte das técnicas de redação do texto do livro-reportagem os seguintes elementos: narração, descrição, exposição e diálogos. Eles são parte do tratamento da linguagem integral-verbal do livro-reportagem. A narração é composta por três elementos essenciais que norteiam a composição do texto: a situação, a intensidade e o ambiente. O primeiro termo se refere à contextualização do acontecimento – ou seja, o que ocorre, por quais motivos, onde, quem são os participantes, em que época e ocasião. A intensidade serve para identificar a carga emocional que aquela situação narrada desperta no leitor. A descrição do espaço físico ou mental que também estão relacionados com o fato específico fica por conta do ambiente. Há uma espécie de ordem hierárquica da importância desses elementos, segundo Lima (1995). É mais comum no livroreportagem que a situação (ou seja, a ação dada) edifique toda a obra, mas a intensidade é privilegiada em detrimento do ambiente em que a história se passa. O autor defende que o relato que carrega alguma carga emocional é mais substancioso e menos cru do que a mera exposição dos acontecimentos. Portanto, devido à esses aspectos, não é esquecido

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rapidamente pelo leitor. Lima (1995) também ressalta a importância de a narrativa conter traços de força, precisão, clareza e impacto. O uso de diálogos é descrito pelo autor como uma estratégia de “estilo despojado” (p. 114). Lima (1995) argumenta que esse recurso não tira a carga dramática do texto. A descrição é entendida como “a representação particularizada de seres, objetos e ambientes” (LIMA, 1995, p. 115). Quando se utiliza esse recurso, é como se a cena em questão fosse paralisada, como se o tempo ficasse estático e o jornalista pudesse ter tempo para analisar e detalhar os contextos e pormenores relacionados àquele cenário que está sendo descrito. Os três tipos mais comuns de descrição, segundo Gaudêncio Torquato2, são a pictórica, a topográfica e a cinematográfica. No primeiro caso, foca-se na junção dos detalhes, em que o observador, fixamente, analisa a cena e/ou objetos que se propõe a descrever. No modelo topográfico, alguns aspectos observados recebem mais destaque do que outros – como exemplo, o volume e/ou massa do material observado. A descrição cinematográfica se concentra em enfatizar o jogo de luzes ou sombras que incidem no objeto analisado. Outra forma de descrição citada por Lima (1995) é a prosopografia, que trata dos detalhes físicos das pessoas. No livro-reportagem, o autor afirma que esse tipo de descrição enriquece e fortalece a figura do protagonista da história. A cronografia, que descreve épocas ou situações temporais, épicas, é um tipo menos frequente. A técnica da exposição, segundo Lima (1995), “é por via de regra empregada quando o profissional quer discutir uma questão básica e argumentar de modo a tentar convencer o leitor a comungar sua visão do problema” (LIMA, 1995, p. 117). Já Wolfe (2005) explica que, no decorrer dos anos 60, os jornalistas descobrem recursos do realismo dos quais se apropriaram para incluir nos seus textos. Com isso, o romance realista adquiriu seu poder único, “conhecido entre outras coisas como seu ‘imediatismo’, sua ‘realidade concreta’, seu ‘envolvimento emocional’, sua qualidade ‘absorvente’ ou ‘fascinante’” (WOLFE, 2005, p. 53). Essa exclusividade textual originou-se de quatro recursos. São eles a descrição detalhada, cena a cena, da situação narrada; o registro completo dos diálogos; o ponto de vista da terceira

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TORQUATO, Francisco Gaudêncio. Jornalismo empresarial. São Paulo: Summus, 1984.

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pessoa; e, finalmente, o registro dos hábitos, gestos, e demais particularidades dos envolvidos na narração do evento em questão. No primeiro caso, a necessidade de detalhamento servia para recorrer o mínimo possível à simples narrativa linear e cronológica. O segundo recurso, transcrição dos diálogos completos, complementa o primeiro artifício descrito anteriormente. Segundo Wolfe (2005), os jornalistas, da mesma forma que os primeiros romancistas, descobriram que os leitores se envolviam muito mais com o texto quando esse recurso era empregado. A terceira técnica consiste no uso de um personagem particular que apresenta cada cena ao leitor na perspectiva da sua visão, seu entendimento, “dando ao leitor a sensação de estar dentro da cabeça do personagem, experimentando a realidade emocional da cena como o personagem a experimenta” (WOLFE, 2005, p. 54). Para alcançar tal finalidade, é necessário adentrar nas percepções desse participante. Entrevistá-lo a respeito das suas emoções e sentimentos permitem que o repórter possa descrever melhor suas sensações e embasar o ponto de vista da personagem. O quarto recurso busca detalhar os hábitos e gestos com o intuito de posicionar o status social de vida que o participante da narrativa tem. Wolfe (2005) esmiúça: “o registro desses detalhes não é mero bordado em prosa. Ele se coloca junto ao centro de poder do realismo, assim como qualquer outro recurso da literatura” (WOLFE, 2005, p. 55). O autor resume a preocupação em praticar esse tipo de detalhamento:
Fascina-me o fato de pesquisadores da fisiologia do cérebro, essa grande terra incognita das ciências, estarem aparentemente chegando a uma teoria de que a mente humana ou psique não tem existência interna, discreta. [...] A todos os momentos de consciência ela [a mente humana] está ligada diretamente a pistas externas do status da pessoa num sentido social e não apenas físico, e não pode se desenvolver nem sobreviver sem isso (WOLFE, 2005, p. 56).

Com isso, entende-se que Lima (1995) e Wolfe (2005) utilizam esses recursos de aprofundamento dos cenários e psiques das personagens envolvidas no acontecimento narrado para envolver o leitor, fazê-lo se sentir próximo e quase que participante daquela história. 3.4 A realidade com um toque de mágica O estilo que classifica uma grande parte dos textos de García Márquez é o chamado realismo mágico. Segundo Herscovitz (2004), ele começou sua carreira como jornalista seguindo influências da avant-garde europeia, a novela francesa e o modernismo norte-americano.

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Acontece que, na América Latina, não existia a realidade baseada no capitalismo racional e no desenvolvimento progressivo e linear, como era o caso da Europa. A imprensa seguia um padrão de jornalismo francês, que mesclava ativismo político e literatura. Como não existia nenhum tipo de separação definida entre jornalismo e literatura, a profissão do jornalista era classificada como uma arte e/ou missão. No entanto, os escritores latino-americanos tinham para si uma realidade única e extraordinária, diferente da “normalidade” dos países europeus. Herscovitz (2004) explica que “os escritores latino-americanos daquela geração romperam com o realismo tradicional e abraçaram um mundo no qual a fantasia e a realidade fundiramse para formar uma nova esfera chamada realismo mágico” (HERSCOVITZ, 2004, p. 176). Um pouco mais de contextualização do cenário político e social da América Latina torna-se necessário para que se entenda que o realismo mágico não é uma mera fantasia desvinculada da realidade que o escritor adepto do estilo exercita. Herscovitz (2004) explica que:
A mídia registra situações que desafiam o bom senso. Governos autoritários perpetuaram a injustiça social e a brutalidade herdadas do colonialismo. As forças contraditórias de um subdesenvolvimento acelerado e uma modernização compulsiva descritas por Barbero (1988) apanham os habitantes numa armadilha que os leva a responder aos acontecimentos de maneira surpreendente. Quem conhece a América Latina sabe que o realismo mágico não é mera distorção da realidade nem uma simples incursão abstrata a um mundo irracional. Mas anda de braços dados com a crença no sobrenatural herdada dos índios da região e dos escravos africanos, terminando por tornar-se quase uma escolha natural dos povos latino-americanos (HERSCOVITZ, 2004, p. 177-178).

Para uma definição mais específica do que é o realismo mágico, Herscovitz (2004) cita Gerald Martin3: trata-se de “uma narrativa que não distingue o fantástico do real, o mito e a história. É considerado um estilo derivado do movimento surrealista” (HERSCOVITZ, 2004, p. 177). O trabalho de García Márquez realizado entre 1948 e 1955 serviu para definir seu estilo único de reportagem, mas também estabeleceu as bases do seu trabalho literário. Ele, além de seguir o conceito de intérprete dos eventos, também abraçava a defesa de causas sociais. Essa postura originou-se, em parte, do estilo de jornalismo europeu – concomitantemente, vai contra a noção de objetividade do modelo norte-americano. O jornalismo de García Márquez permite que o repórter assuma um papel ativo, participativo, na tarefa de relatar uma cena ou evento ao público. A sequência lógica da realidade não é sua preocupação principal: mais importante é a liberdade em contar as emoções humanas e o impacto que a tecnologia ou a
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MARTIN, G. On ‘magical’ and social realism in Garcia Marquez. In Robin. Fiddian (Ed.), Gabriel Garcia Marquez. London: Longman, 1995.

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crise econômica exerce na vida das pessoas. “Essa é uma tradição do jornalismo latinoamericano, que contrasta com o jornalismo norte-americano, mais interessado em encontrar explicações lógicas e racionais para desvendar o caos, a realidade múltipla e fragmentada” (HERSCOVITZ, 2004, p. 184). Especificamente sobre os textos do colombiano, autor dos livros analisados neste trabalho, Herscovitz cita Sims4 (1992), que defende que as reportagens investigativas de García Márquez misturavam jornalismo com literatura, focando no contexto humano. Os textos do jornalista buscavam, simultaneamente, refletir sobre os fatos apresentados, mas também transcendê-los.

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SIMS, Robert. L. (1992). The First Garcia Marquez, a Study of His Journalistic Writing from 1948 to 1955. New York: University Press of America, 1992.

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4 GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ: ENTRE O JORNALISMO E LITERATURA NOS LIVROS CRÔNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA E NOTÍCIA DE UM SEQÜESTRO 4.1 Metodologia Para material empírico do presente trabalho, foram escolhidos os livros Crônica de uma morte anunciada (de 1981) e Notícia de um seqüestro (1996), ambos escritos pelo colombiano Gabriel García Márquez. Embora escritos em formatos textuais diferentes, ambos foram inspirados em acontecimentos reais (ainda que não tenha sido o mesmo fato que motivou a produção de cada um dos trabalhos). Os dois livros misturam elementos do jornalismo e da literatura em seus textos – traço característico do estilo chamado jornalismo literário. Uma vez que essa é a principal semelhança entre os dois trabalhos, pretende-se analisar quais as diferenças existentes entre os textos de ambos os livros, entre elas: em algum deles predomina um refinamento mais literário, que justifique a classificação do trabalho como “romance”? E houve maior esforço de mesclar as técnicas dos universos jornalístico e literário no outro, que resulte no título desse trabalho específico como “livro-reportagem”? Afinal de contas, qual é o tratamento que as informações (factuais) que inspiraram cada um dos trabalhos recebeu? Outro ponto de análise é a forma como essa diferença na classificação do gênero é influenciada pela linguagem (tanto jornalística quanto literária) e outros elementos referentes a cada um deles (como as características de cada tipo de texto, literário ou jornalístico, ou as técnicas próprias do jornalismo). Para tal, o uso dos seguintes operadores conceituais norteará a discussão: técnicas jornalísticas e técnicas literárias. Diante das particularidades desses dois universos, pretende-se utilizar, nos dois livros, os seguintes critérios de análise para cumprir os objetivos listados acima: a presença de traços do texto jornalístico nas obras; os tipos de fontes utilizadas; a forma como a objetividade escapa, em alguns momentos, da narrativa de Márquez – mas, ao mesmo não deixa de permear o texto. Além desses critérios, de que maneira os trabalhos literários não transparecem somente nas ideias ficcionais dos autores, e até funcionam como uma forma de construção ou retrato de uma realidade; como o realismo mágico, pelo qual García Márquez é consagrado, se faz presente nos trabalhos analisados; e, finalmente, quais características singularizam o texto jornalístico que faz uso de recursos literários, e o efeito que isso tem sobre os leitores.

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Sobre os métodos do universo jornalístico, as características do texto e métodos relativos à produção das reportagens servirão como critérios de análise. Sodré e Ferrari (1986), assim como Lima (1995), tratam das características do livro-reportagem, discussões que serão essenciais para verificar se algum dos trabalhos se enquadra nesse perfil. Além disso, Traquina (2005), Lima (1969) e Lage (2003 e 2005) expõem traços particulares do texto jornalístico, mas também de exemplos em que as linguagens jornalística e literária se encontram. Todos esses mesmos autores também discutem alguns entraves do cotidiano dos jornalistas nas grandes e apressadas redações dos veículos de comunicação. Eles relacionam as frustrações que resultam dessa rotina como um dos incentivos para os jornalistas se dedicarem à execução de um trabalho mais livre – que é o caso do livro-reportagem, como se verá. Propriamente sobre as técnicas literárias, Moisés (1975) e Lajolo (1985) identificam as particularidades referentes a esse meio, ambos tratando também da importância da realidade e seu retrato nas páginas dos livros. Proença Filho (1997) pontua alguns traços próprios e particulares existentes na realização das obras literárias. Na relação entre o imaginário cultural e o cenário da real atualidade, Herscovitz (2004) discute o realismo mágico, estilo pelo qual García Márquez é consagrado, e cujas características permeiam seus textos. Bernd (1998) também discute a quase necessidade que os escritores latino-americanos têm de mesclar a temível realidade e os devaneios da imaginação humana nas suas obras. Outros autores, como Resende (2002), também abordam a relação entre ficção, literatura e espaço de divulgação jornalístico. Amaral (1996) fornecerá a distinção de conceitos como subjetividade o objetividade, de modo que a análise de como esses termos se encaixam – ou não – em cada uma das obras será determinante para tentar classificá-las e entender qual o tipo de linguagem predominou nos livros. 4.2 As histórias de Crônica e Notícia Gabriel García Márquez nasceu em Arataca, Colômbia, em 6 de março de 1928. Ele é consagrado, no meio literário, como um dos maiores escritores da América Latina. Sua escrita é marcada pelo estilo chamado realismo fantástico, que mistura elementos da realidade com divagações da imaginação humana. Várias das histórias retratadas em seus livros têm relação

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com o cotidiano e as lembranças da vida do autor – a exemplo do livro que lhe rendeu o prêmio Nobel de Literatura em 1982, Cem anos de solidão. Nessa obra, a vida de seus avós maternos (que criaram García Márquez até os oito anos de idade) inspiraram os personagens José Arcadio Buendía e Úrsula Iguarán. No caso dos livros que serão analisados neste trabalho, ambos são baseados em acontecimentos reais e contêm elementos que, de alguma forma, estão próximos do cotidiano do autor. Crônica de uma morte anunciada (1981) é a reconstituição do dia em que o jovem Santiago Nasar, de 21 anos, morreu. A peculiaridade é que todo o vilarejo de Sucre, onde moravam o narrador e a vítima, sabia do iminente assassinato, e poucas pessoas se mobilizaram para impedir o crime. Nasar foi acusado de desvirginar Angela Vicário, que se casou com Bayardo San Román, um forasteiro que se instalou na pequena cidade. Na noite de núpcias, Angela foi devolvida a sua família, pois era inaceitável que uma mulher se casasse quando já havia sido “violada”. Santiago Nasar é sobrinho de batismo de Luisa Santiaga, a mãe do narrador – daí surge a relação de proximidade de García Márquez com o enredo da história. Mais de vinte anos depois do assassinato, o narrador retorna ao povoado para entrevistar os envolvidos e tentar entender o que aconteceu na ocasião que resultou no assassinato. Já Notícia de um seqüestro (1996) trata da onda de crimes que aconteceu na Colômbia em 1990, todos relacionados com o narcotráfico que, na época, era comandado pelo traficante Pablo Escobar. A obra trabalha com o retrato dos contextos políticos e sociais da época, mas também permite aprofundamento nos sentimentos dos envolvidos nos dez sequestros que são detalhados por García Márquez. Depoimentos de familiares, figuras políticas demais participantes (diretos ou indiretos) dos acontecimentos permeiam a narrativa e concedem a ela caráter de realidade e profundidade nas investigações. 4.3 Gabriel García Márquez, o jornalista A carreira de García Márquez no jornalismo começou em 1948, aos vinte anos de idade. Os constantes confrontos que a Colômbia, sua terra natal, enfrentou, vão desde a disputa entre partidos políticos de extrema direita e esquerda até controle dos narcotraficantes sobre o país. Esse último fator é um dos inspiradores do livro Notícia de um seqüestro (1996), no qual García Márquez narra uma série de acontecimentos que resultaram na captura e morte de um

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dos maiores criminosos colombianos, Pablo Escobar. Esse é um dos demonstradores que indicam a carga de aproximação que García Márquez mantém com as histórias que relata. É o caso dos dois livros analisados neste trabalho: em Notícia (1996), o autor relata as dificuldades que seu país de origem enfrentou para conseguir se livrar do comando dos comerciantes de drogas. No caso da Crônica (1981), o autor relata os bastidores da (real) história do assassinato de Cayetano Gentile Chimento, um amigo de infância de García Márquez. No livro, ele é apresentado como Santiago Nasar. Nesses dois trabalhos, García Márquez pôde se aproveitar dos seus conhecimentos adquiridos nas redações de jornais. As táticas de apuração e pesquisa, típicas do jornalismo, são essenciais para que o autor pudesse reconstruir as histórias e retratá-las aos leitores, de forma tão detalhista e linear, que eles se sintam parte da história e consigam apreender os significados dos acontecimentos relatados. Logo no início do livro Crônica (1986), García Márquez detalha a percepção do ambiente no qual o crime se passou, na perspectiva dos habitantes do pequeno vilarejo.
As muitas pessoas que ele encontrou desde que saiu de casa às 6h05 até que foi retalhado como um porco, uma hora depois, lembravam-se dele um pouco sonolento mas de bom humor, e com todos comentou de um modo casual que era um dia muito bonito. Ninguém estava certo se ele se referia ao estado do tempo (MÁRQUEZ, 1981, p. 10).

Mesmo permeada de elementos subjetivos, advindos das opiniões dos entrevistados para a produção do livro, a descrição detalhada pode proporcionar ao leitor certo nível de envolvimento na história, já que ele (provavelmente) vai compreender bem o cenário descrito. Em Notícia de um seqüestro (1996), Márquez faz uma contextualização do momento político e social da época. Com isso, procura demonstrar o histórico que resultou na tomada de poder dos narcotraficantes.
A Colômbia não havia tomado consciência de sua importância no tráfico mundial de drogas até que os narcotraficantes entraram na alta política do país pela porta traseira, primeiro com seu crescente poder de corrupção e suborno, e depois com aspirações próprias. [...] O motivo principal dessa guerra era o terror que os narcotraficantes sentiam diante da possibilidade de serem extraditados para os Estados Unidos, onde poderiam ser julgados por delitos ali cometidos e submetidos a penas descomunais (MÁRQUEZ, 1996, p. 27).

Nota-se que, no mesmo momento, García Márquez (1996) dá as explicações para as temeridades dos traficantes (a extradição para os EUA), ao mesmo tempo em que esclarece de que forma os criminosos conseguiram adentrar na política do país. O primeiro caso conta com

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o uso de vários adjetivos, além de contar com a subjetividade dos entrevistados – afinal de contas, são as lembranças pessoais deles que guiam García Márquez pelo relato. Particularmente no segundo caso exemplificado, percebe-se que há menos adjetivos no texto, e que há mais preocupação do autor em contextualizar o momento, usando sua própria voz, do que adentrar nas emoções de personagens e fontes para suprir essa tarefa. Deixa-se, então, no caso do trecho do livro Notícia de um seqüestro (1996), menos espaço para subjetividades, o que cumpre a orientação de Lage (2005) sobre o esforço que o jornalista deve ter para rechear seus textos de constatações objetivas. Traquina (2005) trata da discussão sobre a tirania do fator tempo e a pressa. Nas redações de jornais e demais veículos impressos de delimitada circulação periódica, as informações veiculadas acabam representando uma parte fragmentada da realidade. No caso dos dois livros, García Márquez pôde se livrar desse empecilho. Afinal de contas, há um intervalo de 27 anos entre a morte de Santiago, em 1951, e o retorno do narrador ao vilarejo. Nas palavras do próprio: “Tinha sonhado que atravessava um bosque de grandes figueiras onde caía uma chuva branda [...]. ’Sempre sonhava com árvores’, disse-me sua mãe 27 anos depois, evocando os pormenores daquela segunda-feira ingrata” (MÁRQUEZ, 1981, p. 9). Com o livro Notícia, não é diferente. No prefácio, intitulado Gratidões, o autor fala sobre as constatações de que os nove sequestros que aconteceram paralelamente ao rapto inicial, de Maruja Pachón, não poderiam ser desvinculados de um mesmo fenômeno criminoso. Dito isso, Márquez (1996) explica aos seus leitores:
Esta comprovação tardia nos obrigou a recomeçar com uma estrutura e um fôlego diferentes, para que os protagonistas tivessem sua identidade bem definida e seu próprio cenário. Foi uma solução técnica para uma narração labiríntica que no formato inicial teria sido fragorosa e interminável. Deste modo, porém, o trabalho previsto para um ano se prolongou por quase três [...] (MÁRQUEZ, 1996, p. 5).

A partir dessa percepção, o autor optou por expandir o tempo de entrevistas e pesquisas com os envolvidos no acontecimento dos sequestros. O tempo de produção do livro quase que triplicou, o que demonstra que García Márquez teve grande carga de liberdade temporal para concluir a sua obra. Sendo assim, contata-se que, em pelo menos duas ocasiões da sua carreira, o autor colombiano teve a chance de driblar a corriqueira pressa dos jornais e revistas. Esse tempo é a razão pela qual García Márquez teve a chance de mergulhar no passado e recontar essas histórias – sempre usando a costumeira quantidade de detalhes, tornando o narrador quase que onisciente.

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4.4 As fontes: quem disse o quê? Retomando o raciocínio de Lage (2003), as fontes são “instituições ou personagens que testemunham ou participam de eventos de interesse público” (LAGE, 2003, p. 49). Segundo a classificação exemplificada no item 2.4 deste trabalho, os tipos de fontes mais utilizados por García Márquez nos dois livros analisados são do tipo independentes e testemunhas. De fato, as personagens que se encaixam nesse perfil disponibilizam relatos com poucas chances de deturpação (pelo menos consciente ou intencional), já que, segundo Lage (2003), não revelam suas informações com o intuito de favorecer alguma instituição ou versão da história. No entanto, o envolvimento emocional (característico das fontes tipo testemunhas) dos envolvidos provê o livro de uma grande carga emocional, que pode servir para demonstrar a gravidade dos acontecimentos narrados, e envolver o leitor naquela leitura. O relato emocionado dos envolvidos na situação narrada pelos livros, intermediada pela intervenção narrativa do autor, resultam em parágrafos como o descrito a seguir, em que Plácida Linero, a mãe do falecido Santiago Nasar, dá seu depoimento ao narrador de Crônica de uma morte anunciada (1981):
Logo que apareci no vão da porta confundiu-me com a lembrança de Santiago Nasar. “Estava aí”, disse-me. “Vestia a roupa de linho branco lavada só com água, porque sua pele era tão delicada que não suportava o roçar do engomado.” Ficou bastante tempo sentada na rede, mastigando sementes de mastruço, até que a ilusão de que o filho voltara foi embora. Suspirou então: “Foi o homem da minha vida.” (MÁRQUEZ, 1981, p. 14)

Percebe-se que García Márquez não poupa os detalhes descritivos para relatar a cena da conversa com Plácida Linero: estratégias como descrever o suspiro que a mãe soltou durante o depoimento também enriquecem a carga emocional daquela narrativa. Nesse tipo de parágrafo, vê-se que não há nenhuma informação que solucione o mistério do por que a noiva violada mentiu sobre a sua relação com Santiago, ou nenhuma outra trama da história narrada por Márquez (1981). O autor se preocupa somente em descrever o momento da conversa, e aprofundar suas pesquisas nos sentimentos das fontes, no que elas querem compartilhar – no caso da mãe de um falecido, especialmente nas condições em que ocorreu a morte de Santiago Nasar, era de se esperar que fosse um relato repleto de sentimentos.

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No caso de Notícia de um seqüestro (1996), o autor se dispôs a incluir no livro vários tipos de depoimentos diferentes das fontes. As informações que embasam todo o decorrer do livro são das vítimas ou pessoas próximas delas, mas as falas dos criminosos também constam no trabalho. Ou seja, mesmo que Márquez não tenha ouvido a versão diretamente dos bandidos que participaram dos raptos, eles também têm voz no livro Notícia de um seqüestro. No trecho a seguir, o autor mescla as falas de dois personagens do livro: o marido de Beatriz (uma das primeiras seqüestradas), o político Alberto Villamizar, e uma carta escrita pelo traficante colombiano, Pablo Escobar. A primeira declaração é a do criminoso:
“Não se preocupe por (ter feito) suas declarações à imprensa pedindo que me extraditem. Sei que tudo dará certo e que não me guardará rancores, porque a luta em defesa de sua família não tem objetivos diferentes das que eu travo em defesa da minha.” Villamizar relacionou aquela frase com uma anterior de Escobar, na qual disse sentir-se envergonhado por ter Maruja como refém, pois a briga não era com ela e sim com o marido. Villamizar já tinha dito de outra forma: “Como pode ser que, se a briga é entre nós dois, quem está em seu poder seja a minha mulher?”, e propôs em conseqüência que fosse trocado por Maruja para negociar em pessoa. Escobar não aceitou (MÁRQUEZ, 1996, p. 215).

A mistura de depoimentos das fontes consultadas é proposta por Lage (2003). Embora no exemplo referido no item 2.4 deste trabalho esteja relacionado com o uso das declarações de dois experts (que não é o tipo de fonte escolhida por García Márquez nos seus livros), pode-se afirmar que o objetivo dessa utilização é o mesmo: oferecer pontos de vista diferentes em torno de um mesmo assunto. Essa imparcialidade está relacionada à busca pela objetividade, tão almejada e idealizada pelos jornalistas, segundo Amaral (1996). 4.5 A presença objetiva Rossi (1981) e Amaral (1996) trabalham o conceito de objetividade como um dos propósitos mais importantes a serem alcançados nos textos jornalísticos. Afinal de contas, lembrando a afirmação de Amaral (1996), a objetividade “é apontada como uma das principais virtudes da matéria jornalística, qualidade defendida há quase um século pela imprensa americana” (AMARAL, 1996, p. 17). Rossi (1981) defende que os jornalistas devem manter uma postura neutra, reservando a manifestação de suas opiniões para as páginas destinadas a esse fim. Conforme citado no item 4.4, a multiplicidade de vozes e depoimentos que Márquez (1996) agrega no seu livro pode ser entendido como uma forma de cumprir esse critério da objetividade – ou, pelo menos, tentar alcançá-lo.

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Entretanto, é válido lembrar que todos os depoimentos que constam no livro Notícia de um seqüestro (1996) foram inclusos no trabalho por escolha e seleção do próprio Gabriel García Márquez. O registro das declarações emocionadas, o detalhamento dos sentimentos, medos e anseios dos familiares que sofreram com os sequestros é uma forma de subjetividade do autor, pois entende-se que ele se preocupa mais em demonstrar a angústia que as famílias enfrentaram do que as razões que incentivaram os criminosos a se juntar à vida de bandidos, por exemplo. Durante toda a obra, o autor dá mais ênfase às declarações das vítimas do que às dos bandidos, o que pode ser entendido como uma pista sobre qual lado do muro o autor considera mais importante retratar. Sobre a escolha de quais declarações incluir no livro Crônica de uma morte anunciada (1981), Márquez também escolhe inserir os depoimentos emocionados e entendimentos subjetivos dos participantes. No exemplo a seguir, ele expõe o entendimento que os habitantes de Sucre tiveram do envolvimento dos principais personagens que estavam relacionados ao assassinato de Santiago Nasar:
Para a imensa maioria houve uma única vítima: Bayardo San Román. Imaginavam que os outros protagonistas da tragédia tinham se desincumbido com dignidade, e até certa grandeza, do quinhão de notoriedade que a vida lhes tinha destinado. Santiago Nasar expiara a injúria, os irmãos Vicário provaram sua condição de homens, e a irmã enganada estava outra vez em posse de sua honra. O único que tinha perdido era Bayardo San Román. “O pobre Bayardo”, como foi lembrado durante anos (MÁRQUEZ, 1981, p. 123124).

Com isso, entende-se que, embora Márquez embase o desenvolvimento dos seus trabalhos nos depoimentos de fontes, o simples critério da escolha de quais falas incluir, e o destaque dado por declarações emotivas e cheias de entendimentos subjetivos desses participantes, mostra que o autor não teve que se ater tão fortemente às determinações da objetividade jornalística. 4.6 Construindo a realidade: a vez da literatura Segundo Lajolo (1985), o mundo representado na literatura, de forma simbólica ou realista, surge da experiência que o escritor tem de uma realidade histórica e social muito bem delimitada. Ou seja, a literatura não necessariamente tem que representar os devaneios ficcionais dos seus autores: na verdade, é uma realidade com a qual ele convive que inspira a produção dos trabalhos literários. Sobre a relação entre realidade e literatura, Moisés (1975) afirma que a ficção é entendida como um universo interior. É lá, nessa espécie de esconderijo,

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que os produtos da percepção sensível e emotiva da realidade ambiente estão armazenados e são transformados. Sendo assim, pode-se afirmar que literatura é ficção. Entendendo que o conteúdo da ficção é resultado dessas “imagens” deformadas e também modificadas do mundo real, pode-se afirmar que a ficção e imaginação são equivalentes. O autor resume que a imaginação é entendida como uma “transfiguradora do real, na medida em que transforma o dado real e organiza-o dentro de novas sínteses e novos sistemas, em resumo, dentro duma nova realidade com suas leis e normas” (MOISÉS, 1975, p. 26). No prefácio do livro Notícia de um seqüestro (1996), García Márquez dá pistas de quais os objetivos que almeja alcançar com a sua obra:
Para todos os protagonistas e colaboradores, minha gratidão eterna por terem salvado do esquecimento este drama bestial, que por desgraça é apenas um episódio do holocausto bíblico em que a Colômbia se consome há mais de vinte anos. Dedico este livro a todos eles, e com eles a todos os colombianos – inocentes e culpados – na esperança de que nunca mais este livro nos aconteça (MÁRQUEZ, 1996, p. 6).

Com isso, vê-se que o autor queria, com a produção do livro, manter um registro dos acontecimentos, evitando que eles caíssem no esquecimento dos colombianos – ou, pior, que voltassem a acontecer. Os fatos que inspiraram a obra são reais, e de grande relevância para a história da Colômbia, que por muito tempo sofreu com o domínio dos traficantes de drogas e seus crimes bárbaros. O meio pelo qual García Márquez encontrou os modos de perpetuar esses acontecimentos foi no livro Notícia (1996), construído a partir da sua experiência como jornalista, mas com alguns requintes no decorrer do texto. Os depoimentos colhidos durante o processo de apuração de pessoas próximas de Santiago Nasar – ou que sabiam de algo da morte dele – também conotam à Crônica de uma morte anunciada (1981) um ar de veracidade. O livro foi todo elaborado a partir das lembranças desses envolvidos e das memórias do próprio García Márquez, uma vez que o autor tinha uma relação próxima com o falecido. Mas a relação de amizade não era o único incentivo para investigar a morte de Santiago Nasar. O autor compartilha uma outra informação que pode ter servido de combustível para as investigações: “Minha impressão pessoal é de que [Santiago Nasar] morreu sem entender sua morte” (MÁRQUEZ, 1981, p. 149-150). Dito isso, e levando-se em conta que quase todo o vilarejo sabia da morte iminente de Nasar, mas poucas pessoas fizeram algo para impedi-lo, entende-se que Márquez não era o único sem respostas. Todo o vilarejo queria entender o que havia acontecido naquela manhã, cujo resultado foi a

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violenta morte de Santiago Nasar. Novamente, nas palavras de García Márquez (1981), ele fala em nome da vila de Sucre:
Os galos do amanhecer nos surpreendiam tentando ordenar as numerosas casualidades encadeadas que tornaram possível o absurdo, e era evidente que não o fazíamos por um desejo de esclarecer mistérios, mas porque nenhum de nós podia continuar vivendo sem saber com precisão qual era o espaço e a missão que a fatalidade lhe reservara (MÁRQUEZ, 1981, p. 143).

Essa declaração aponta para a necessidade comum de entender o motivo do ataque contra Santiago Nasar. Novamente, em forma de livro, García Márquez (1981) encontra o meio de imortalizar uma história de grande importância para ele e para o povo daquele pequeno vilarejo onde o misterioso crime bárbaro foi praticado. Da mesma forma que aconteceu com os eventos descritos em Notícia de um seqüestro (1996), a morte de Santiago Nasar não será esquecida. 4.6.1 O realismo mágico de García Márquez Seguindo as definições do realismo mágico, estilo literário pelo qual a escrita de García Márquez é reconhecido, Herscovitz (2004) explica que não se trata de uma distorção completa do real, com base em explorações abstratas em universos irracionais da mente. Mas, sim, “anda de braços dados com a crença no sobrenatural herdada dos índios da região e dos escravos africanos, terminando por tornar-se quase uma escolha natural dos povos latinoamericanos” (HERSCOVITZ, 2004, p. 178). Alguns elementos expostos no decorrer de Crônica de uma morte anunciada (1981) revelam certo misticismo e superstições do povoado de Sucre: começando com pesadelos. É a forma como a história de Santiago Nasar inicia-se: “[...] por um instante foi feliz no sonho, mas ao acordar sentiu-se completamente salpicado de cagada de pássaros” (MÁRQUEZ, 1981, p. 9). Outro aspecto são as relações entre determinados elementos e situações de mau presságio. O próprio Santiago Nasar compartilhou essa opinião com o narrador de Crônica (1981). No trecho a seguir, ele se divertia calculando o provável custo do casamento de Bayardo San Román e Angela Vicário:
Estimou que a decoração floral da igreja custara tanto quanto 14 enterros de primeira classe. Essa avaliação havia de me perseguir durante muitos anos, pois Santiago Nasar me disse muitas vezes que o cheiro das flores em recinto fechado tinha para ele uma relação imediata com a morte, e naquele repetiu ao entrar no templo. “Não quero flores no meu enterro”, disse-me, sem pensar que eu trataria disso no dia seguinte (MÁRQUEZ, 1981, p.63-64).

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Até mesmo a mão do falecido Nasar (enquanto ainda estava vivo) serve para ilustrar a relação entre vida e morte. Quando o narrador a descreve, usa elementos característicos de um cadáver: “[...] se assustara muito mais quando ele [Santiago Nasar] a agarrou pelo pulso com uma mão que sentiu gelada e pétrea, como a mão de um morto” (MÁRQUEZ, 1981, p. 23). Esses elementos, que fazem parte do imaginário ou inconsciente dos entrevistados do jornalista, por mais subjetivos que possam parecer, não deixaram de ser integrados ao livro Crônica de uma morte anunciada (1981). Afinal de contas, ambos se baseiam em memórias das fontes e no que elas escolhem compartilhar com García Márquez. A diferença entre Crônica (1981) e Notícia de um seqüestro (1996) é tênue. O primeiro livro abre mais espaço para devaneios e superstições desses colaboradores, conforme citado acima. Em Notícia (1996), alguns elementos fantásticos também integram o texto, mas são embasados pela memória e experiências pessoais dos entrevistados, e não em crenças populares que são compartilhadas por todo o vilarejo. Um exemplo é de quando uma das sequestradas, Marina Montoya, é morta pelo bando de Pablo Escobar. Na cela que dividia com Maruja Pachón, outra refém, esta se deita na cama em que Marina costumava ocupar e tem um devaneio:
Ficava impressionada por dormir na cama de Marina, coberta com seu cobertor, atormentada pelo seu cheiro, e quando começava a dormir ouvia nas trevas, ao lado dela na mesma cama, seus sussurros de abelha. Uma noite não foi uma alucinação e sim um prodígio da vida real. Marina agarrou-a pelo braço com sua voz de viva, morna e terna, e soprou-lhe ao ouvido com sua voz natural: “Maruja” (MÁRQUEZ, 1996, p. 225).

Mesmo se tratando de uma situação inacreditável, já que narra o encontro de uma pessoa morta com outra viva, esse e outros acontecimentos de viés sobrenatural são contados por García Márquez (1996) a partir das próprias experiências pessoais e empíricas das fontes. Vêse, então, que a delicada separação entre realidade e fantasia, como manda o realismo mágico, faz parte das duas obras. 4.7 Técnicas literárias na redação jornalística Seguindo o raciocínio de incluir um teor mais realístico aos textos jornalísticos, Lima (1995) e Wolfe (2005) enumeram algumas particularidades que garantem esse toque de realidade na escrita. Percebe-se, com as enumerações dessas características comumente literárias, o papel colaborativo que a literatura tem no retrato e perpetuação de um determinado cenário ou contexto da realidade. Conforme descrito na seção 3.3.1, Lima (1995) cita os elementos narração, descrição, exposição e diálogos para cumprir a tarefa de complementar a

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linguagem jornalística do livro-reportagem. Um trecho que exemplifica esses quatro elementos é o que trata da morte de Santiago Nasar. Nas linhas a seguir, García Márquez (1981) descreve os momentos finais de Nasar, usando artifícios extremamente descritivos e detalhistas. Também percebe-se diálogos intercalados com a narrativa. O trecho começa depois que Santiago Nasar é esfaqueado pelos irmãos Vicário.
Caminhou mais de cem metros para dar a volta completa à casa e entrar pela porta da cozinha. Teve ainda bastante lucidez para não seguir pela rua, que era o trajeto mais longo, e entrou na casa contígua. [...] Começavam a tomar café quando viram Santiago Nasar entrar, empapado de sangue, levando nas mãos o cacho de suas entranhas. Poncho Lanao me disse: “Nunca pude esquecer o horrível cheiro de merda.” Mas Argênida Lanao, a filha mais velha, contou que Santiago Nasar caminhava com a altivez de sempre, medindo bem os passos, e seu rosto de sarraceno com os cabelos crespos desalinhados estava mais belo que nunca. Ao passar diante da mesa sorriu-lhes e caminhou pelos quartos até a saída dos fundos. “Ficamos paralisados de susto”, disse-me Argênida Lanao. Minha tia Wenefrida Márquez estava escamando um sável no pátio de sua casa, do outro lado do rio, e o viu descer as escadas do molhe antigo, procurando, com passo firme, o caminho de sua casa. – Santiago, filho – gritou-lhe – que houve com você? Santiago Nasar reconheceu-a. – Me mataram, querida Wene – disse. Tropeçou no último degrau, mas se levantou imediatamente. “Teve até o cuidado de sacudir com a mão a terra que ficou em suas tripas”, disse-me tia Wene (MÁRQUEZ, 1981, p. 176177).

O recurso da exposição, em que o autor busca convencer o leitor a dividir uma mesma opinião que a sua, existe na medida em que os detalhes do assassinato, assim como a postura que Santiago Nasar manteve, glorificam-no, mostrando que sua morte havia sido injusta. García Márquez (1981), usando esses recursos descritos acima, coloca o protagonista como vítima, como alguém que não pôde fugir das fatalidades do destino. Também no livro Notícia de um seqüestro (1996) esses traços podem ser identificados. O narrador descreve as crenças e gostos dos sequestradores de Maruja e Beatriz, também intercalando frases literais dos personagens com a narrativa.
Viviam aferrados ao mesmo Menino Jesus e à mesma Maria Auxiliadora de seus seqüestrados. Rezavam todos os dias para implorar a proteção e a misericórdia deles, com uma devoção pervertida, pois ofereciam despachos e sacrifícios para que ajudassem no êxito de seus crimes. Depois de sua devoção pelos santos, tinham devoção pelo Rohypnol, um tranqüilizante que lhes permitia cometer na vida real as proezas do cinema. “Misturado com uma cerveja dá logo uma onda legal – explicava um vigia. – Então alguém me empresta um trezoitão e eu roubo um carro para passear. O gostinho é a cara de terror deles quando entregam as chaves.” Odiavam todo o resto: os políticos, o governo, o Estado, a justiça, a polícia, a sociedade inteira. A vida, diziam, era uma merda (MÁRQUEZ, 1996, p. 68).

Da mesma forma que Lima (1995), Wolfe (2005) agrupa quatro traços que enriquecem o texto jornalístico, fornecendo leveza e fluidez nos textos. São eles a descrição detalhada da

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situação narrada; os diálogos completamente registrados; o ponto de vista da terceira pessoa; e, por último, o registro dos hábitos e gestos dos personagens envolvidos na narração do evento em questão. Um exemplo que abrange esses dois primeiros elementos está no segundo capítulo de Notícia de um seqüestro (1996): o marido de Beatriz Villamizar, o doutor Pedro Guerrero, fica sabendo que ela foi sequestrada. O trecho mostra a conversa entre ele e um policial:
Foi interrompido por um telefonema de um oficial da polícia que perguntou com um estilo profissional se ele conhecia Beatriz Villamizar. “Claro – respondeu o doutor Guerrero. – É a minha mulher.” O policial fez um breve silêncio e disse num tom mais humano: “Bem, não fique aflito.” [...] – Mas o que foi que aconteceu com ela? – perguntou. – Um chofer foi assassinado na esquina da Quinta Avenida com a rua 85 – disse o oficial. – É um Renault 21 cinza-claro, com placas de Bogotá PS-2034. O senhor identifica o número? – Não tenho a menor idéia – disse o doutor Guerrero, impaciente. – Mas diga logo o que aconteceu com Beatriz. – A única coisa que por enquanto podemos dizer ao senhor é que está desaparecida – disse o oficial. Encontramos sua bolsa no banco do carro, e uma agenda onde estava escrito que ligassem para o senhor em caso de emergência (MÁRQUEZ, 1996, p. 21-22).

Com isso, identificam-se elementos de tensão na narrativa, como a descrição do tom de voz usado pelo oficial de polícia e do próprio doutor Guerrero. Os diálogos procuram provocar a sensação de proximidade do leitor com a trama que está começando a se desencadear. O narrador de Notícia de um seqüestro (1996) ocupa uma posição onisciente, já que descreve com tantos detalhes o cotidiano e sensações íntimas dos envolvidos na história. O texto é construído com a voz narrativa na terceira pessoa, também para cumprir esse papel de onisciência. Quando o narrador expõe o dia-a-dia das reféns no cativeiro, descreve detalhes da rotina que deveriam ser obrigatoriamente cumpridos. Esses dois aspectos correspondem aos outros dois elementos citados por Wolfe (2005): o ponto de vista na terceira pessoa e o registro de hábitos e gestos.
Os guardiães também pareciam seqüestrados. Não podiam se mover pelo resto da casa e dormiam durante suas horas de descanso em outro quarto, trancado com cadeado para que não fugissem. [...] Sem nenhuma regularidade apareciam chefes encapuzados e mais bemvestidos, que recebiam relatórios e distribuíam instruções. Suas decisões eram imprevisíveis e as seqüestradas e os guardiães, na mesma proporção, estavam à mercê. [...] O café da manhã das reféns chegava quando menos se esperava: café com leite e uma broa com uma salsicha em cima. Almoçavam feijão ou lentilha numa água cinzenta; pedacinhos de carne em poças de gordura, uma colher de arroz e um refrigerante. Tinham de comer sentadas no colchão, pois não havia nenhuma cadeira no quarto, e só de colher, pois garfos

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e facas estavam proibidos pelas normas de segurança. O jantar era improvisado com os feijões requentados e outras sobras do almoço.

Em Crônica de uma morte anunciada (1981), identifica-se outro trecho em que García Márquez utiliza-se dos recursos citados por Wolfe (2005). No parágrafo a seguir, encontramse transcrições de diálogos, a exposição de rotinas e detalhes íntimos dos sentimentos e comportamentos dos personagens envolvidos, tudo pela voz de um narrador na terceira pessoa. A cena passa-se depois que Margot, a irmã do narrador, descobre que Santiago Nasar, seu primo, está jurado de morte:
Minha irmã voltou a casa mordendo-se por dentro para não chorar. Encontrou minha mãe na sala de jantar, com um vestido dominical de flores azuis que vestira para a eventualidade do bispo vir nos cumprimentar, e estava cantando o fado do amor invisível enquanto arrumava a mesa. Minha irmã notou que havia um lugar a mais que de costume. – É para Santiago Nasar – disse-lhe minha mãe. – Me disseram que você o convidou para tomar café. – Tire-o – disse minha irmã. Então lhe contou. “Mas foi como se já o soubesse”, disse-me. “O mesmo de sempre,quando a gente começa a lhe contar alguma coisa, e antes que a história chegue à metade, ela já sabe como termina.” Aquela má notícia era um código cifrado para minha mãe. Santiago Nasar tinha esse nome por causa do nome dela, e ela era, além disso, sua madrinha de batismo [...]. Ainda não acabara de ouvir a notícia e já estava com os sapatos de salto e a mantilha de igreja que só usava, então, para as visitas de pêsames. Meu pai, que ouvira tudo da cama, apareceu de pijama na sala de jantar e lhe perguntou assustado aonde ia. – Prevenir minha comadre Plácida – respondeu ela. – Não é justo que todo mundo saiba que vão matar seu filho, e seja ela a única que não sabe. – Temos tantos vínculos com ela como com os Vicário – disse meu pai. – A gente deve sempre estar do lado do morto – disse ela (MÁRQUEZ, 1981, p. 36-37).

Vê-se, portanto, que existem nas duas obras elementos típicos da linguagem literária – tanto os propostos por Lima (1995) quanto por Wolfe (2005). Ambos os autores concordam que, com a inclusão desses recursos, o leitor tem uma relação mais próxima com a história que está sendo narrada. Com um nível de envolvimento maior, as informações podem ser melhor apreendidas, e a mensagem que se pretende transmitir não é facilmente esquecida.

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5 CONCLUSÃO Este trabalho se propôs a analisar as similaridades e diferenças entre os livros Crônica de uma morte anunciada (1981) e Notícia de um seqüestro (1995). Sabe-se, primeiramente, que o uso de elementos próprios do texto literário é comum às duas obras. Essa particularidade é ressaltada porque ambos os trabalhos são de autoria do colombiano Gabriel García Márquez – que tem, como sua principal formação, o trabalho de jornalista – portanto, técnicas como apuração, entrevistas e seleção de fontes fizeram parte do processo de produção das duas obras. Embora também seja consagrado como autor de muitos outros livros de ficção, é arriscado dizer que suas obras são inspiradas exclusivamente a partir de devaneios da imaginação: um elemento importante que sempre esteve presente nas suas obras é a realidade, conforme descrito no item 3.4, que trata sobre as características do realismo mágico citadas por Herscovitz (2004). Da mesma forma aconteceu com os dois livros que serviram de material empírico para este trabalho. Ambos são inspirados em acontecimentos reais e foram escritos por um jornalista, mas o que se tem quando os livros são lidos não é uma notícia de jornal ou uma mera reportagem. Embora os textos guardem muitas semelhanças entre si quanto à existência de traços característicos da literatura, a leitura desses trabalhos demonstra o quanto as duas obras se distinguem. As diferenças começam na classificação dos dois livros: um, Crônica de uma morte anunciada (1981), é lido como um romance de não-ficção e Notícia de um seqüestro (1996) se encaixa no perfil do livro-reportagem. Sobre a distinção desses dois gêneros, Lima (1995) defende que o livro-reportagem “é muitas vezes fruto da inquietude do jornalista que tem algo a dizer, com profundidade, e não encontra espaço para fazê-lo no seu âmbito regular de trabalho, na imprensa cotidiana” (LIMA, 1995, p. 33). Seguindo o princípio da falta de espaço o qual o jornalista tem que enfrentar diariamente, surge uma das primeiras diferenças na elaboração dos dois livros. No prefácio de Notícia de um seqüestro (1996), o próprio García Márquez explica que a proposta do trabalho de produção do livro surgiu por sugestão de Maruja e seu marido, Alberto – que queria compartilhar com todo o mundo o drama que Maruja enfrentou, e expor as relações que isso tinha com todo um cenário político. Inicialmente, o trabalho deveria durar um ano, mas as apurações fizeram com que esse tempo quase que triplicasse. O fato de o autor ter tido essa

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liberdade temporal, mesmo se tratando de um trabalho com propósitos jornalísticos, é um dos indicativos de que se trata de um livro-reportagem. Além desse, pode-se citar o tema de abrangência como outro diferencial entre os livros. O tema de Notícia (1996) está relacionado com todo um cenário político e social de interesse nacional. No caso de Crônica (1981), embora o crime tenha mudado a vida das famílias envolvidas na devolução de Angela Vicário e na morte de Santiago Nasar, o número de pessoas que sofreu com esses acontecimentos é consideravelmente menor do que no caso de Notícia de um seqüestro (1996). As situações narradas no livro Crônica de uma morte anunciada (1981) concernem muito mais às pessoas do pequeno vilarejo de Sucre, mesmo que sejam bastante inusitadas – afinal, um homem inocente vai de encontro com a morte e poucas pessoas tentam impedi-lo, embora todos saibam do iminente assassinato. Já no caso do livro Notícia (1996), todo o país se comoveu com os raptos, e a política nacional se mobilizou para que fosse colocado um fim nos conflitos e as vítimas pudessem voltar às suas casas. Entende-se, em primeiro lugar, que é inegável a presença dos elementos da literatura nas duas obras analisadas de Gabriel García Márquez. Mais do que isso, comprovou-se que a literatura não é fruto de devaneios ou situações advindas somente do imaginário do autor: por meio dela, fazem-se registros históricos, e seu papel como veículo de transmissão dessas histórias e riquezas sociais é explicitado no decorrer deste trabalho. Em segundo lugar, comprova-se que Notícia de um seqüestro (1996), pelos critérios de abrangência, tempo e objetivo de produção, pode ser classificado como um livro-reportagem, por implementar em maior escala os elementos típicos do jornalismo nas suas páginas – especialmente no que concerne ao papel que García Márquez destina ao trabalho, e que está no prefácio do mesmo. Já no caso de Crônica de uma morte anunciada (1981), verifica-se que os critérios de incentivo para a produção do livro devem-se ao fato de se tratar de um acontecimento inusitado e o esclarecimento para os moradores da vila, e demais envolvidos (direta ou indiretamente) na morte da Santiago, mesmo que essa resposta tenha demorado 27 anos. Embora as técnicas jornalísticas de pesquisa, apuração e entrevistas também, certamente, norteiem a produção desse trabalho, a inclusão de depoimentos emocionados, sensações fantasiosas e vários folclores típicos da região dão ao livro um ar mais “leve”. Além desses

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elementos, a linguagem utilizada é bem mais recheada de técnicas próprias da literatura, o que permite que o trabalho seja enquadrado como um romance de não-ficção, muito mais próximo do universo literário do que do jornalístico, como é o caso do outro livro que serviu de material empírico para este trabalho.

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