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Criatividade e Inteligência Emocional

2 Criatividade e Inteligência Emocional


ÍNDICE

1. CRIATIVIDADE 5

1.1. A NOÇÃO DE CRIATIVIDADE 7


1.2. EXISTE UM POTENCIAL CRIATIVO PARA TODOS ? 11
1.3. OS 4 P´S DA CRIATIVIDADE 12
1.4. BASES FISIOLÓGICAS DA CRIATIVIDADE -
A LATERALIDADE CEREBRAL 20
1.5. J.P. GUILFORD E A PRODUÇÃO CRIATIVA 27
1.6. "MINDMAPPING" / MAPAS MENTAIS - T. BUZAN 31
1.7. A TÉCNICA DA RESOLUÇÃO CRIATIVA DE PROBLEMAS 33
1.8. E. DE BONO E O PENSAMENTO LATERAL 36
1.9. TIRAR O COELHO DA CARTOLA -
A TÉCNICA DOS 6 CHAPÉUS 41

2. INTELIGÊNCIA EMOCIONAL 43

2.1. O BINÓMIO RAZÃO - EMOÇÃO 45


2.2. SIGNIFICADO DE INTELIGÊNCIA EMOCIONAL .

O QUE É A INTELIGÊNCIA EMOCIONAL ? 48


2.3. FACTORES INTRAPESSOAIS DA INTELIGÊNCIA EMOCIONAL 50
2.3.1. Autoconhecimento / consciência
emocional 50
2.3.2. Auto-regulação / controlo emocional
ou autodomínio 54
2.3.3. Auto-motivação 61
2.4. FACTORES INTERPESSOAIS DA INTELIGÊNCIA EMOCIONAL 66
2.4.1. Empatia / reconhecimento das
emoções nos outros 66
2.4.2. Habilidade nos relacionamentos
interpessoais e capacidade para liderar 70

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 73

FICHA TÉCNICA 77

Criatividade e Inteligência Emocional 3


4 Criatividade e Inteligência Emocional
CRIATIVIDADE

Capítulo 1
CRIATIVIDADE

Objectivos

No final do capítulo deverá ser capaz de:


"A mente que se abre a
uma nova ideia jamais ¥ Compreender os princípios básicos para o
voltará ao seu tamanho
original." desenvolvimento do pensamento e da atitude
Albert Einstein criativa;
¥ Tomar consciência de disposições culturais,
perceptuais e emocionais facilitadoras e
dificultadoras;
¥ Dominar globalmente os princípios da produção -
divergente e convergente;
¥ Adquirir princípios práticos para a aplicação de
técnicas de resolução criativa.

A concepção de que o potencial criativo deve ser


desenvolvido é hoje uma ideia amplamente desenvolvida.
Picasso quando instigado Numa sociedade em constante metamorfose, onde cada
a dar uma definição de vez mais se fala do efeito de aceleração dos tempos, as
criatividade respondeu
sem hesitação: pessoas e organizações confrontam-se com desafios e
"Não sei, mas se problemas onde os seus talentos e experiências se
soubesse, não dizia." confirmam como insuficientes para os resolver. Estas
profundas alterações requerem novas abordagens à
ordem instituída, novas habilidades e competências, e
sobretudo, uma capacidade de adaptação bastante
rápida. Os conhecimentos são hoje produtos altamente
perecíveis e tornam-se obsoletos em pouco tempo. Exige-
se, cada vez mais, uma substituição da noção de
estruturas sociais estáticas por uma percepção de
padrões dinâmicos e flexíveis de funcionamento, com
grande capacidade de transformação, o que implica em
termos práticos, a revisão de valores, de ideias, de
perspectivas e de modos de acção. Noutras palavras,
cada vez são mais necessários os chamados "recursos

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CRIATIVIDADE

criativos de protecção".
Reflectir sobre a atitude criativa como manifestação da
inteligência humana ajuda a perspectivar na prática
pessoal e profissional novos problemas, e a "arrumar de
forma diferente a casa", convidando-nos a uma abordagem
mais positiva das pessoas e do seu potencial, permitindo-
nos descortinar em situações complexas soluções
originais, e a avançar com respostas mais luminosas,
inspiradas e ao mesmo tempo adaptadas e produtivas.

1.1. A NOÇÃO DE CRIATIVIDADE

Pensar uma definição de criatividade é difícil, dadas as


múltiplas perspectivas e correntes, e sobretudo se
tivermos em conta a variedade das suas manifestações
na acção humana. Das artes à ciência, da tecnologia ao "Num certo sentido a
história da criatividade
quotidiano, até à forma como organizamos, gerimos e
confunde-se com a
projectamos a nossa vida, são tantas as abordagens história da humanidade."
possíveis que é difícil eleger uma como a mais ilustrativa. Jaoui

Podem ser tantas como as perspectivas dos seus autores,


ou tantas como o enfoque que dela fazemos. Na acepção

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CRIATIVIDADE

mais comum, a criatividade é um atributo que destaca


qualquer coisa pela sua diferença - um produto, uma
manifestação artística, uma corrente, uma ideia, uma
teoria, uma forma de gerir ou de resolver um problema.

A mais antiga concepção sobre criatividade explicava-a


como um dom concedido por entidades divinas e como
resultado da acção de forças superiores que permitiam a
alguns eleitos a inspiração e a descoberta de formas
artísticas, teorias e soluções geniais. Ainda hoje
encontramos em muitos discursos esta ideia herdada da
Antiguidade, emblematicamente caracterizada na figura
do artista, fora do controle de si mesmo, que passa para
o domínio de um poder superior.

Esta perspectiva algo romântica, deu lugar a outras que a


fundamentam do ponto de vista da acção da inteligência e
da fisiologia do funcionamento humano. Podemos limitar
este campo de análise a duas vertentes:

1. Podemos falar de uma "criatividade universal",


como um traço da espécie - traduzida na
capacidade do homem ultrapassar as rotinas
biológicas dos animais e poder intervir sobre o que
o rodeia. A criatividade, segundo este ponto de
vista (J.A.Marina), seria o traço que nos distinguiria
da inteligência cativa dos animais O homem ao ser
um criador de conhecimentos, rompe criativamente
com estas cadeias fixas dos animais e cria um
olhar inteligente, inventa possibilidades. A esse
modo de actuar, que resolve problemas novos e
permite um ajustamento flexível à realidade,
chamamos inteligência. Segundo este autor, a
inteligência não passa de uma convenção

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CRIATIVIDADE

linguística - não há inteligência, o que existe é um


olhar inteligente, um recordar inteligente, um falar
inteligente, um imaginar inteligente, e por aí
adiante... em suma, uma inteligência criadora. "A criatividade desafia
uma definição rigorosa, e
Criar é inventar possibilidades, ou seja, encontrá-
isso não me incomoda
las. "As coisas têm propriedades reais, sobre as nada."
quais inventamos possibilidades livres. Na Paul Torrance
propriedade real do petróleo, que é a de produzir (investigador e pedagogo
na área da criatividade)
energia, o homem descobriu a possibilidade de
voar". (J.A.Marina, 1995).

2. Numa acepção mais específica, relativa ao


indivíduo, podemos falar de uma criatividade
diferencial, porque somos levados a considerar as
condições que conduzem cada indivíduo à acção
criativa, estando estas acções dependentes da
forma como cada um de nós interpreta, explica e
Alguns exemplos de
dá voz ao seu mundo, aos seus conflitos definições:
emocionais e às suas necessidades. Neste caso, a
"Criatividade é o processo
expressão criativa do indivíduo realiza-se pela pelo qual as ideias são
urgência de comunicar e de exprimir a sua visão geradas, desenvolvidas e
transformadas em valor."
única sobre as coisas que o rodeiam e pela
urgência de resolver problemas no ambiente em John Kao (1996)
que se integra. Assim, a criatividade
corresponderia à capacidade de estabelecer, tanto "Criatividade é uma novi-
na arte como na ciência, relações até aí não dade que é útil."
conhecidas, ou seja, de inventar novas relações Stan Gryskiewicz (1996)
com o "sujeito" ou com o "objecto".
A criatividade tem sido investigada e definida de
múltiplas formas consoante as escolas, disciplinas
e correntes que a tomam por objecto - abordagens
filosóficas, biológicas, psicológicas, e dentro
destas, as associativas, as comportamentais, as
gestaltistas, as psicanalíticas, as humanistas, as
psico-educacionais, apenas para dar um quadro da
enorme produção sobre esta área.

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CRIATIVIDADE

Nesta publicação, vamos ocupar-nos da criatividade


focalizada de um ponto de vista cognitivo e prático.
Vamos debruçar-nos sobre a forma como podemos
exercitar um potencial de inteligência que nos permita
desenvolver a flexibilidade e a imaginação na resolução
de novos problemas e abordar questões de forma
diferente da habitual. Seguem-se as ideias centrais que
constituem o denominador comum de muitas das
definições propostas pelos autores:

¥ Criatividade como função e manifestação da


inteligência;

¥ Como capacidade para perspectivar a


realidade segundo múltiplas perspectivas;

¥ Como capacidade para raciocinar sobre


novos dados de forma construtiva e
"Os factos criativos dis- produtiva;
tinguem-se da manifes-
tação criativa nas artes,
pelo seu compromisso ¥ Como capacidade de desconstruir a
com a realidade e os realidade e reestruturá-la de maneiras
resultados."
diferentes;
Predebon

¥ Como capacidade de inovar, desenvolver


novas ideias, elaborar teorias, inventar
instrumentos, criar coisas novas e
diferentes;

¥ Como o acto de unir duas ou mais coisas


que nunca haviam estado unidas e retirar
daí uma "terceira coisa";

¥ Como uma técnica de resolução de


problemas.

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CRIATIVIDADE

1.2. EXISTE UM POTENCIAL CRIATIVO PARA


TODOS?

Ghiselin (1963) falava de Criatividade Primária e de


Criatividade Secundária. Na primeira acontecem "insights"
que mudam intensamente o real, e é característica em
pessoas que dedicam toda uma vida ao trabalho criativo. A
segunda seria comum ao resto da população e implicaria a
extrapolação de algo conhecido para novos domínios.

Também podemos distinguir entre criatividade privada (a


que tem valor para quem cria), de criatividade social (na
Na Perspectiva Human-
qual o valor se estende para além do criador (Harrington, ista:
1990). Outra perspectiva é a de que o pensamento
criativo segue uma distribuição normal, tal como a
inteligência. Deste ponto de vista, todos podem reclamar
o estatuto de criativos, ou o desenvolvimento de atributos "A criatividade é a tendên-
criativos de forma mais ou menos intensa. cia à auto-realização."
Abraham Maslow

Apesar das acesas discussões teóricas, é indiscutível a


existência de um potencial criativo nos indivíduos. Esta
"perspectiva democrática" não deve no entanto iludir
determinados factores que actuam de forma poderosa e
podem inibir, ou mesmo impedir, o seu pleno
desenvolvimento.

São inegáveis as variáveis que podem afectar o seu


desenvolvimento - características pessoais, factores
hereditários incontornáveis ou influência do meio social e
cultural onde o indivíduo se move. No entanto, é
importante referir que este potencial adormecido pode ser
activado e desenvolvido, independentemente da idade,
necessitando apenas de determinadas condições para
que possa emergir como real capacidade.

Criatividade e Inteligência Emocional 11


CRIATIVIDADE

O que hoje se exige não são, em primeira linha, as


habilidades analíticas, mas antes as habilidades para
lidar com factos e dados novos, sem regras
preestabelecidas.

Cabe, portanto, a cada um dos indivíduos ou, num outro


plano, às organizações e empresas, a tomada de
consciência sobre a necessidade de assumir o
desenvolvimento destas potencialidades. Todos nós
possuímos recursos criativos que podem ser orientados
de forma produtiva. Basta apenas desenvolvê-los.

1.3. OS 4 P´S DA CRIATIVIDADE

As várias definições existentes, apesar de múltiplas e


muitas vezes elaboradas segundo princípios diferentes,
não se excluem, mas antes se intersectam e combinam.

Por esta razão foram isolados quatro elementos (os 4 P´s


da Criatividade) que estão sempre presentes na
resolução criativa:

1. PESSOAS;

2. PRODUTOS;

3. PROCESSOS,

4. PRESSÃO.

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CRIATIVIDADE

1º P - ALGUMAS CARACTERÍSTICAS CENTRAIS NAS


PESSOAS CRIATIVAS

Autonomia de atitudes e comportamentos - a


existência de um julgamento independente que orienta
cognições, tomadas de decisão e acções. Nestas pessoas
o pensamento e a acção são orientados por convicções Uma "Grande Chave"
pessoais, e não por critérios de valorização social. Abertura Pessoal
Possuem a característica da auto-suficiência, não estão à
espera de aprovação, ou que os outros lhes digam o que
fazer.

Autoconfiança - confiança nos sentimentos e


percepções. Permite a persistência na tarefa e a
resistência à crítica, à rejeição ou ao insucesso antes da
sua acção ser aceite socialmente.

Tolerância à ambiguidade - no acto criativo é


fundamental considerar nuances, opostos, contradições, "É mais fácil desintegrar
um átomo do que um pre-
dissonâncias entre os dados. A possibilidade de gerar
conceito."
alternativas implica que não se procure de forma
Albert Einstein
impulsiva e precipitada uma solução. Implica saber viver
o problema em aberto e gerir a ansiedade que daí
decorre.

Imaginação - capacidade mental para conceber coisas


não acessíveis aos sentidos, para gerar imagens mentais.

Originalidade - capacidade para produzir ideias


diferentes, estatisticamente pouco frequentes.

Atracção pela complexidade - gostar de problemas, não


só porque eles atraem a descoberta de soluções, mas
pela vivência de todo o processo de trabalho, que se

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CRIATIVIDADE

apresenta como um desafio e que cria uma tensão


perante um problema complicado que necessita de ser
resolvido.

Gosto e facilidade em arriscar - Sternberg e Lubart


(1995), na sua Teoria do Investimento, sugerem que a
aversão ao risco se associa à infrequência de realização
criativa. Para o sujeito criativo a ousadia é importante,
assim como a propensão para o risco nos seus
investimentos. No entanto, convêm sublinhar que este
risco é entendido num sentido probabilístico de
dificuldade e não de impossibilidade.

Curiosidade - que não se traduz pelo interesse comum


pela informação necessária à gestão do quotidiano. Ela
pode ser focalizada numa área específica do
conhecimento, ou orientada para áreas ou interesses
diversos. É traduzida por uma grande abertura a novas
experiências. O exemplo das crianças é precioso:
desmontam brinquedos para ver como funcionam,
dissecam minhocas, perguntam porque é que a lua não
cai, querem saber o porquê de tudo.

"O humor é amigo dos Sentido de humor - possui uma lógica associativa e
inovadores."
apresenta a percepção de uma situação em função de
Grudin duas perspectivas simultâneas, geralmente
incompatíveis. A compreensão dessa incompatibilidade
é o que permite a comicidade. Considera-se que a lógica
interna do humor é semelhante ao pensamento criativo.

Sensibilidade estética - não se resumindo ao domínio


das artes, mas a diversos contextos, como o trabalho. A
percepção do "belo" dissolve a dicotomia vivida pelos
não criativos entre trabalho e prazer. A sensibilidade

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CRIATIVIDADE

estética aplica-se a artistas e cientistas, retirando os


indivíduos uma profunda satisfação estética face às
suas produções.

Persistência, perseverança, capacidade de


concentração prolongada e intensa na tarefa - implica Newton quando interro-
gado sobre a descoberta
trabalho, trabalho, trabalho, atenção concentrada e
da lei da gravitação uni-
intensa na tarefa, e saber lidar com o fracasso e com a versal, respondeu:
frustração. "pensando nela constan-
temente."

Investimento e envolvimento afectivo - Os indivíduos


criativos são apaixonados pelo que fazem e é normal que
o trabalho invada o lazer, o que deriva de uma enorme
motivação intrínseca.

Capacidade crítica - capacidade para julgar com


competência em função de critérios que derivam do
conhecimento e da experiência. Implica também
assertividade e independência (não dependência do
julgamento dos outros).

Procura de auto-realização - capacidade de adaptação


ao meio. Procura de organização contínua da
personalidade.

Bloqueios perceptuais mais frequentes:

¥ Dificuldade de perceber ou de ser sensível a


problemas;

¥ Procura de soluções rápidas e imediatas;

¥ Pensamento rígido;

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CRIATIVIDADE

¥ Dificuldade de ver problemas sob novos enfoques


e pontos de vista;

¥ Dificuldade na suspensão de julgamentos e


críticas.

Bloqueios Pessoais que limitam a capacidade para


reconhecer e trabalhar com novos desafios:

"A vida só pode ser com- ¥ Miopia de recursos;


preendida olhando-se
para trás; mas só pode
ser vivida olhando-se para ¥ Medo do fracasso;
a frente."
Kierkegaard ¥ Tendência ao conformismo;

¥ Necessidade de se limitar às práticas habituais e


/ou familiares;

¥ Imaginação empobrecida;

¥ Dormência emocional e falta de interesse;

¥ Saturação e abordagem indiferente à tarefa;

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CRIATIVIDADE

¥ Entusiasmo excessivo e falta de concentração;

¥ Medo do desconhecido;

¥ Falta de controlo da imaginação, de visão realista.

Bloqueios que impedem a solução de problemas:

¥ Tendência para soluções preestabelecidas;

¥ Julgamentos e avaliações prematuras;

¥ Hábito de adiar novas acções e tendência para a


justificação;

¥ Utilização de abordagens pobres na solução de


problemas - utilização de informação insuficiente
ou incorrecta e fraca definição do problema;

¥ Ausência de esforço disciplinado - falta de


objectividade e efectividade;

¥ Comunicação frágil, passiva, defensiva e pouco


dirigida;

¥ Rigidez nos comportamentos e nos pensamentos -


falta de abertura a novas ideias. A pessoa tende a
funcionar sempre dentro de um quadrado de
soluções. Tem dificuldade na utilização de novas
estratégias.

Criatividade e Inteligência Emocional 17


CRIATIVIDADE

2º P - OS PRODUTOS CRIATIVOS

Constituindo o resultado do processo, são definidos em


função de dois critérios básicos

a) Serem originais, raros, novos, e estatisticamente


pouco frequentes;

b) Serem aceites, valorizados e considerados como


apropriados aos fins a que se destinam, serem
produtivos do ponto de vista social.

3º P - PROCESSOS CRIATIVOS

Relativo à dinâmica da produção, aos vários momentos e


fases do processo criativo. Wallas definiu 4 fases no
trabalho criativo:
Chaves:
1-Motivação e curiosi-
dade; 1ª - Preparação - que consiste num período de
2-Desligar-se do pro-
trabalho consciente e infrutífero sobre o problema
blema. Não fazer círcu- a resolver;
los na procura da
solução;
2ª - Incubação - não se insiste no trabalho a resolver,
3 . D e s f r u ta r d a d e s c o -
berta; mas o problema em termos inconscientes continua
4-Testar a sua validade, a ser alvo de abordagem;
aplicabilidade e inte-
resse.
3ª - Iluminação - percepção súbita e descoberta da
solução (insight);

4ª - Verificação - fase da aplicação e do teste da


solução encontrada.

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CRIATIVIDADE

Outros autores definem as fases do processo criativo de


forma semelhante:

1. Preparação;
2. Produção;
3. Aplicação;
4. Teste.

4º P - PRESSÃO CRIATIVA: O MEIO ENVOLVENTE

São inegáveis:
Os constrangimentos e
obstáculos ao desenvolvi-
mento do potencial cria-
tivo.
As "práticas de rotina"
que adquirimos e interio-
rizamos, e que tendemos
a entender como "ver-
dades absolutas".

É importante:
O ambiente tem um enorme impacto no desenvolvimento Reconhecermos os nos-
da capacidade criativa. Pode funcionar como uma sos padrões mentais e a
importante condicionante, estimulando-a ou pelo nossa inclinação mental,
pa r a m a i s f a c i l m e n t e
contrário, reprimindo-a. s a l ta r m o s pa r a f o r a d a
caixa de soluções e ferra-
O ambiente cultural em sentido lato estabelece, por isso, m e n ta s q u e t e m o s j á
nexos facilitadores ou inibidores da afirmação de organizadas.
qualidades pessoais no domínio da criatividade. Aprendermos a lidar com
a confusão, a desordem e
a insegurança que advêm
Barreiras Culturais:
de lidarmos com situa-
ções desconhecidas ou
Jones (1993), destaca: problemáticas e para as
quais não temos uma
¥ Orientação para a estabilidade; solução pré-fabricada.

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CRIATIVIDADE

¥ Punição ou exclusão por divergência da norma;

¥ Valorização da lógica e descrédito da intuição;

¥ Preferência pela tradição e medo / aversão da


mudança;

¥ Medo de projectar uma imagem social "ridícula" ou


"diferente";

¥ Expectativas quanto ao papel social "típico".

1.4. BASES FISIOLÓGICAS DA CRIATIVIDADE -


A LATERALIDADE CEREBRAL

O cérebro é composto por dois hemisférios, o direito e o


"O cérebro é o meu esquerdo, unidos por vários feixes de fibras de
segundo órgão favorito."
comunicação, sendo o maior de todos denominado de
Woody Allen corpo caloso. Em virtude de uma peculiaridade anatómica
(as fibras de saída e de entrada de um hemisfério cruzam
a linha mediana na altura do tronco cerebral), o
hemisfério direito comanda o lado esquerdo do corpo e o

20 Criatividade e Inteligência Emocional


CRIATIVIDADE

hemisfério esquerdo comanda o lado direito do corpo.

Dos estudos e investigações realizadas sabemos que a


linguagem, o raciocínio lógico, determinados tipos de
memória, o cálculo e a análise são próprios do hemisfério
esquerdo. Funcionando numa outra lógica de processos,
o hemisfério direito não usa palavras, é intuitivo, usa a
imaginação, o sentimento e a síntese. No quadro seguinte
resumem-se algumas características sobre os seus
modos de funcionamento:

Hemisfério Esquerdo Hemisfério Direito

Interpreta literalmente
Compreende por saltos, por
Compreende de forma racional,
cadeias não lineares, tem
lógica, analítica, sequencial e
insights e visão holista
linear
É subjectivo, emocional,
É objectivo
metafórico e imagético
Abstrai-se do tempo - não
Sabe gerir o tempo sabe "gerir", gosta de perder
tempo

Prefere situações seguras Gosta de arriscar

Faz simulações, "representa"


É autêntico
para os outros

Prefere a segurança do
Gosta da aventura, de criar,
conhecido, do socialmente
inventar, e sonhar
aceite

Utiliza o conhecimento de forma Utiliza o conhecimento de forma


dirigida e convergente livre, múltipla, e divergente

Categoriza e separa as funções Vê como um todo


É verbal É não verbal

Criatividade e Inteligência Emocional 21


CRIATIVIDADE

O nosso alfabeto, por ser Embora tenha existido uma tendência para identificar o
silábico, estimula o
hemisfério esquerdo.
hemisfério direito como o criativo, essa abordagem foi
abandonada ao perceber-se que os dois tipos de
Já os ideogramas dos ori-
entais, utilizando símbo- processamento cerebral, o direito e o esquerdo,
los, desenvolvem o contribuem de forma diferente e em etapas diferentes
hemisfério direito.
para a produção criativa (Torrance,1982).
No idioma japonês, onde
são usados símbolos e
sílabas, os dois hemis- Embora o hemisfério direito esteja mais associado às
férios são estimulados no
acto da leitura. actividades criativas, já que é nele que residem as
possibilidades intuitivas, experimentais e não verbais do
cérebro, o uso do "cérebro integrado" é claramente o mais
desejado.

As pedagogias do Cére- As Pedagogias do Cérebro Total, ao mapearem o cérebro


bro Total alertam para as
vantagens do uso inte- nas suas funções e respectivas estratégias de
grado dos hemisférios. desenvolvimento, alertam para a importância da utilização
de técnicas pedagógicas diferenciadas que, combinadas
entre si, permitem um desenvolvimento integrado das
várias potencialidades ao mesmo tempo que servem
diferentes estilos de aprendizagem.

Neste sentido, nenhuma técnica é "má", todas elas


contêm enormes recursos, desde que articuladas numa
dinâmica criativa, desde que não favoreçam o imobilismo,
a previsibilidade das respostas e a estereotipia, e que em
vez disso apresentem problemas cuja resolução possa
constituir um desafio à inteligência e a novas formas de
abordar a realidade.

22 Criatividade e Inteligência Emocional


CRIATIVIDADE

Os Hemisférios e a Resolução Criativa de Problemas A resolução criativa de


p r o b l e m a s a p r e s e n ta
uma perspectiva inte-
gradora e pressupõe o
desenvolvimento dos dois
hemisférios, permitindo
uma actuação numa lógi-
ca complementar.

Segundo esta perspectiva, numa primeira etapa, o Na maior parte das situa-
hemisfério direito teria o papel de perceber os problemas ções de formação, enfa-
de maneira global, intuitiva, emocional, assegurando a tiza-se mais o raciocínio
do tipo hemisfério
flexibilidade na procura de soluções originais. Teria esquerdo.
portanto uma actuação de risco. O raciocínio lógico, crítico
e racional, tem habitual-
mente prioridade em
O hemisfério esquerdo, numa segunda etapa, deverá
relação ao raciocínio intui-
analisar as soluções encontradas, modificando-as, tivo, emocional ou global,
avaliando-as e elaborando-as para uma resolução final. O perdendo-se no caminho
um feixe de capacidades
pensamento criativo decorre, portanto, da integração dos e competências que per-
dois hemisférios cerebrais, e a predominância de um ou manecem tolhidas no seu
outro pode prejudicar a produção criativa. desenvolvimento e que
dificultam de forma subs-
ta n c i a l u m d e s e n v o l v i -
Pessoas com preponderância do hemisfério direito, muito mento harmonioso e
integrado.
sensíveis, emocionais e globais, têm dificuldade em
planear, executar as suas ideias ou realizar projectos. Por
outro lado, indivíduos com predominância do hemisfério
esquerdo prendem-se tanto à lógica e a cadeias de
raciocínio linear que não conseguem sensibilizar-se ou
encarar situações sob ângulos diferentes, tendo portanto
bastante dificuldade em encontrar soluções originais e
verdadeiramente inteligentes para os seus problemas.

Criatividade e Inteligência Emocional 23


CRIATIVIDADE

3 Estilos

Podemos falar de estilos dominantes ou modos preferenciais


de pensar e abordar a realidade e os problemas - o
dominante direito, o dominante esquerdo e ainda o estilo
integrado, sendo este último o que reúne maior número de
competências e maior capacidade de adaptação.

Estratégias de aprendizagem que se realizam no


hemisfério direito:

¥ Definir ideias globais - ideias força - ideias chave


de problemas;

¥ Apreciar intuitivamente factos e situações;

¥ Apreciar a experiência e o contacto directo com


materiais - tocar, ver, ouvir, sentir;

¥ Elaborar pensamentos através de imagens;

¥ Responder a apelos emocionais;

¥ Criar analogias e metáforas;

¥ Sumariar material estudado, fazer roteiros de


conteúdos e mapas mentais;

¥ Evocar e descrever rostos e expressões;

¥ Interpretar a linguagem corporal numa situação


específica;

¥ Fazer exercícios com humor;

24 Criatividade e Inteligência Emocional


CRIATIVIDADE

¥ Improvisar;

¥ Desenhar as próprias ideias;

¥ Sintetizar imagens e outros procedimentos da


mesma natureza.

Estilo Adaptador e Estilo Inovador

Kirton (1987), relacionou estilos cognitivos e criatividade.


Segundo este autor, existem dois estilos: o inovador e o
adaptador.

O estilo inovador aparece nos indivíduos de pensamento


mais global, com ideias originais, diferentes, mas que têm
alguma dificuldade em elaborá-las e colocá-las em
prática.

Ao contrário, o estilo adaptador é típico de pessoas que são


mais detalhistas e que se dedicam mais ao aperfeiçoamento
de produtos já existentes do que à criação de novos
produtos. Algumas das características dos indivíduos com
estes estilos:

Estilo Adaptador

¥ Gosta de precisão, eficiência, prudência e


disciplina.

¥ Preocupa-se mais em resolver problemas do que


em encontrar novos.

¥ É lógico, seguro e dependente.

Criatividade e Inteligência Emocional 25


CRIATIVIDADE

Kirton ¥ Raramente quebra as regras e só o faz com apoio


Salienta a importância de grupal.
identificarmos o nosso
próprio estilo preferencial,
a fim de nos associarmos Estilo Inovador
a pessoas do estilo
oposto, com o objectivo
de alcançarmos melhores ¥ É indisciplinado, gosta de arriscar, e é incon-
resultados. formista.

¥ Gosta de descobrir problemas e novas maneiras


de os solucionar.

¥ É pouco prático e lógico.

¥ Tem pouca consideração por hábitos e padrões


estereotipados.

Kirton indica também a relação encontrada nos seus


estudos entre o estilo adaptador e o hemisfério esquerdo
e estilo inovador e o hemisfério direito.

Naturalmente estes estilos não existem de forma pura. A


possibilidade do indivíduo inovador elaborar as suas
ideias vai depender do seu grau de motivação e
persistência, enquanto que para o indivíduo adaptador, a
capacidade de ter ideias inovadoras vai depender do seu
nível de tolerância às ambiguidades.

Miller (1989) desenvolveu um instrumento para avaliar


quatro tipos de estilo inovador: o modificador, o
explorador, o visionário e o experimentador.

O indivíduo modificador prefere basear-se em


factos e dados para realizar acções que visem
construir ou melhorar o que já existe;

26 Criatividade e Inteligência Emocional


CRIATIVIDADE

O indivíduo explorador utiliza as suas intuições


para encontrar novas maneiras de fazer conexões
e combinações;

O indivíduo visionário faz uso de inspirações e


de factos para realizar acções que visam alcançar
um estado ideal no futuro;

O indivíduo experimentador baseia-se em factos


e experiências concretas para perceber novas
relações entre variáveis a serem comprovadas
através de provas e testes.

1.5. J.P. GUILFORD E A PRODUÇÃO CRIATIVA

Para este autor (1975) o pensamento criativo tem como


base cinco operações intelectuais básicas:

1º Cognição - Processos de raciocínio que envolvem


discernimento, consciência e compreensão, e que
tratam, estruturam e codificam os conteúdos da
informação;

2º Memória - Fixação e arquivo de informação


adquirida;

3º Produção Divergente - Formulação de


alternativas variadas a partir de informação dada,
procura de diferentes soluções para o problema.
Procura o máximo de respostas possível;

4º Produção Convergente - Formulação de


conclusões lógicas a partir de informações,

Criatividade e Inteligência Emocional 27


CRIATIVIDADE

desenvolvendo o foco numa só resposta. Procura


da melhor resposta para o problema;

5º Avaliação - É o julgamento da pertinência da


informação processada. Verifica se ela está de
acordo ou não com os critérios traçados. Implica
julgamento e emissão de juízos a respeito de
qualquer critério.

Este autor estabelece uma distinção fulcral para a


Um clássico da reso-
lução criativa: explicação da manifestação criativa: as operações de
"Quantas utilizações são produção divergente e convergente.
possíveis para uma gar-
rafa de coca-cola?"
(operação de divergência)
PRODUÇÃO / PENSAMENTO DIVERGENTE

Define-se pela formulação de alternativas variadas a


partir de uma informação ou de um problema dado e
implica uma operação de busca de diferentes soluções
para o problema, gerando um continuum de respostas
diferentes.

A riqueza desta operação não está na descoberta da


resposta certa, mas "na quantidade e variedade do
rendimento" (Guilford, 1986). A busca será ampla e com
critérios pouco restritivos, obrigando o sujeito a divergir
para várias soluções. A fase da divergência é a fase
eminentemente criativa, existindo aqui uma relação
entre quantidade e qualidade. Quanto mais numerosas
forem as alternativas encontradas, maior será a
probabilidade de encontrar uma solução original e
adaptada para o problema. Os sujeitos não criativos
podem produzir associações mais rapidamente mas em
menor número e, após evocarem as associações mais

28 Criatividade e Inteligência Emocional


CRIATIVIDADE

esperadas, não conseguem atingir as mais remotas. Pensamento divergente

Segundo Gordon Bonner (e outros autores), uma das


funções do pensamento divergente é procurar no Consciente

inconsciente respostas diferentes, ousadas e ----Barreira----


aparentemente sem lógica, o que não seria possível se o
Inconsciente
acesso se realizasse apenas por via do consciente.

Estabelece que, existindo uma barreira entre o consciente


e inconsciente, esta barreira é directamente proporcional
ao nível de tensão e stress em que a pessoa se encontra. Ainda retomando o
exemplo da garrafa de
coca-cola:
Todo o esforço das técnicas de pensamento criativo ou
Seleccionar as 3 utiliza-
divergente vão no sentido de reduzir esta barreira e ções mais originais resul-
permitir e facilitar o acesso ao inconsciente, onde poderão ta n t e s d a o p e r a ç ã o d e
divergência.
ser encontradas ideias completamente fora dos padrões
(operação de convergên-
habituais. cia com critério de origi-
nalidade)

PRODUÇÃO / PENSAMENTO CONVERGENTE

Envolve a produção de uma única resposta para o


problema, implicando a formulação de conclusões
lógicas a partir de informações ou ideias resultantes da
fase da divergência. Nesta fase, procura-se a melhor
resposta para o problema e há critérios de busca de
informação muito limitados, bem definidos e rigorosos.
Todo o processo de busca deve convergir para uma
única resposta ou um número limitado de respostas.

Criatividade e Inteligência Emocional 29


CRIATIVIDADE

Alex Osborn propõe para o desenvolvimento do


pensamento Criativo (Divergente), e para se obterem
Alerta importante! melhores resultados, alguns procedimentos:
A suspensão da crítica e
do julgamento é mais difí- ¥ Suspensão da crítica e do julgamento;
cil de realizar do que
parece!
¥ Procurar a quantidade de ideias e não a qualidade;
É curioso observar em
actividades de treino e
exercícios o movimento ¥ Combinar ideias e fazer associações.
cego, que exprime a
crítica e a rejeição imedia-
ta d e i d e i a s q u e e s t ã o O pensamento divergente é avaliado em função de quatro
fora da nossa grelha
habitual de leitura.
critérios fundamentais:
O p e r i g o é r e j e i ta r m o s
hipóteses que podem vir a a) Fluência - refere-se à capacidade para gerar
revelar-se perfeitamente grande número de ideias ou quantidade de
adaptadas aos objectivos
que pretendemos pros- informação produzida (nº de respostas) a partir de
seguir. um estímulo - problema;

b) Flexibilidade - significa a mudança no significado


ou na interpretação de algo. Diz respeito à
variedade de informação produzida (categorias
diferentes de resposta);

c) Originalidade - pode ser entendida de três formas:


como critério estatístico (raridade), como
remoticidade da associação e como apreciação
qualitativa de respostas talentosas;

d) Elaboração - habilidade necessária para o


planeamento, organização e aperfeiçoamento.
Refere-se ao enriquecimento da informação e ao
trabalho sobre os detalhes no sentido de se
configurar um produto ou alcançar um objectivo.

30 Criatividade e Inteligência Emocional


CRIATIVIDADE

Critérios para avaliação de produtos criativos

1º Originalidade / Novidade / Transformação de


princípios antigos;

2º Adaptação à realidade / Resolução/ Usos e


aplicações práticas;

3º Elaboração / Atractividade / Elegância da solução /


Acabamento.

1.6. "MINDMAPPING" / M A PA S M E N TA I S -
T. BUZAN

Na ilustração: Exemplo
de um mapa mental elabo-
rado com desenhos.

To d o s n ó s e l a b o r a m o s
associações compostas
de informações fornecidas
pelos sentidos.
A técnica dos mapas mentais parte de três princípios Quando geramos ideias
reguladores do pensamento: sobre as possíveis utiliza-
ções de um objecto, esta-
m o s m e n ta l m e n t e a
1º O nosso pensamento é "radiante", a partir de um visualizar o objecto, mas
associamos ideias com
estímulo qualquer, ele irradia em várias direcções, informações dos sentidos.
encadeando outras informações não previstas. A
radiância é um princípio que se encontra em toda
a natureza. Exemplos: ramos que irradiam a partir

Criatividade e Inteligência Emocional 31


CRIATIVIDADE

de um ponto. Podemos observar em árvores, em


algas, em flores, em estruturas moleculares, na
nossa estrutura neuronal, no desenho dos rios, dos
mares etc;

2º O nosso pensamento é associativo, ou seja, as


ideias e os pensamentos estão ligados ou
associados a outros, e a outros... formando uma
A utilização de palavras- grande rede que se cruza com outras redes;
-chave é essencial para a
criação de ganchos efi-
cazes que potenciam a 3º O nosso pensamento é multisensorial. Se
associação de novas pararmos para analisar o nosso pensamento,
ideias.
verificamos que encadeamos informações
fornecidas pelos sentidos: imagens, cheiros, sons,
sensações tácteis, gustativas, cinestésicas e
viscerais.

Como elaborar Mapas Mentais?

Para que servem os 1º Utilizar uma folha sem pauta, de preferência


mapas mentais?
grande (tamanho A3 ou folha de quadro de papel),
- Analisar um problema; colocada na horizontal (formato paisagem) sobre a
- Planear acções; mesa ou quadro.
- Preparar comunicações;
- Descobrir soluções; 2º Começar o diagrama colocando no centro da folha
- Perceber relações / a representação do tema central do pensamento
conexões;
(exemplo, uma figura e uma palavra daquilo que
- Organizar e conduzir
será o tema central ou problema a resolver).
reuniões e debates;
- Descobrir o potencial de
uma ideia; 3º A partir do tema central, puxar linhas e escrever
- Reflectir sobre um pro- palavras-chave em cima das mesmas, que
blema de forma lúdica; representem as ideias geradas. Não se deve
- Estudar, estruturar uma escrever frases pois elas vão limitar as
assunto, etc...
possibilidades associativas que se seguem.

32 Criatividade e Inteligência Emocional


CRIATIVIDADE

4º Sempre que possível, variar nas cores e agregar


desenhos e símbolos aos ramos que vão sendo
criados, de forma a procurar imitar o pensamento.

1.7. A TÉCNICA DA RESOLUÇÃO CRIATIVA DE


PROBLEMAS

Autores de orientação cognitivista exploram há décadas o


labirinto da resolução de problemas, sendo a resolução
criativa uma área aparte. Os processos cognitivos
envolvidos na resolução criativa de problemas não
diferem dos utilizados na resolução de problemas lógicos
convencionais. Para estes autores não existe diferença
significativa entre realizações altamente criativas e
resoluções criativas nas acções do quotidiano. Afirmam
que a "manifestação criativa implica processos cognitivos
quotidianos utilizados de forma poderosa" (Carey &
Flower, 1989) ou que o processo criativo é um acto da
mente humana que "envolve o uso de processos que
ocorrem em toda a gente na vida diária", sublinhando, no
entanto, que não implica apenas o uso desses
mecanismos, mas que requer também "competências
altamente complexas e exigentes de grande integração"
(Voss & Means, 1989). A T.R.C.P.
Foi criada por uma equipa
A Técnica de Resolução Criativa de Problemas parte do de investigadores de Buf-
pressuposto de "que todo o problema pode ser resolvido", falo (NY) que contou com
o trabalho pioneiro de
um pouco à imagem da afirmação pragmática de que "só Parnes, Noller & Biondi
existem problemas porque existem soluções". A (1977). Os seus mais
dedicados estudiosos
perspectiva desta escola é que tudo depende de um
encontram-se hoje na
factor - da "atitude criativa". Por "Problema" entende-se Creative Education Foun-
qualquer preocupação, desejo ou aspiração, não tendo d a t i o n , d e s ta c a n d o - s e
também os trabalhos de
que envolver necessariamente associações negativas ou I s a k s e n & Tr e ff i n g e r
sentimentos negativos. (1985).

Criatividade e Inteligência Emocional 33


CRIATIVIDADE

"Resolução" possui o sentido de modificação, de


transformação de um estado para outro, de adaptação
activa e positiva de nós mesmos ou de uma situação. O
sentido de resolução é, por isso, análogo ao sentido de
aprendizagem, na medida em que define também a
mudança de comportamentos. Embora o pensamento
divergente, como já vimos, seja normalmente assimilado
ao pensamento criativo, a TRCP enfatiza que este tipo de
pensamento, por si só, não conduz à resolução criativa de
um problema. Ele constitui apenas uma 1ª fase
exploratória, de busca de novas e ideias e possibilidades,
mas deve ser sempre seguido por um modo de
processamento convergente, onde é accionada a análise
orientada por critérios na procura da melhor solução. A
importância de alternar estes dois modos de
processamento na Resolução Criativa de Problemas,
justifica-se tão simplesmente pela esmagadora tendência
em procurarmos imediatamente uma organização finalista,
em encontrar de imediato soluções que constituem as
nossas primeiras respostas aos problemas com que nos
defrontamos. Ou seja, a tendência para aplicar o padrão
habitual de resposta, saltando a fase de investigação sobre
as múltiplas possibilidades que ela mesma pode sugerir.
Os passos da técnica procuram integrar a divergência e a
convergência da forma descrita no diagrama seguinte.

34 Criatividade e Inteligência Emocional


CRIATIVIDADE

Processo Criativo de Resolução de Problemas

A T.R.C.P.
inspira-se na herança
cognitivista (particular-
mente em Guilford) e
recorre aos conceitos fun-
damentais de produção
divergente e produção
convergente, demons-
trando de forma sis-
temática a importância da
d aplicação destes dois
modos de produção nas
v á r i a s e ta pa s d a r e s o -
lução criativa de um pro-
blema.

Novas Questões

Criatividade e Inteligência Emocional 35


CRIATIVIDADE

1.8. E. DE BONO E O PENSAMENTO LATERAL

A expressão "Pensamento Lateral", criada por Edward De


Bono, apresenta uma abordagem sistemática ao
pensamento criativo, fazendo uso de técnicas e
ferramentas baseadas no comportamento do cérebro
humano, mais especificamente no comportamento auto-
organizável das redes neuronais.

A distinção: Pensamento Vertical e Lateral

De Bono distingue o pensamento lateral (que permite a


geração de ideias, a descontinuidade, a fuga aos clichés
"Criatividade não é só e padrões fixos, desafiar suposições, gerar alternativas,
uma maneira de fazer saltar para novas ideias, encontrar novos pontos de
melhor as coisas. Sem
ela, somos incapazes de entrada a partir dos quais se possa seguir em frente na
fazer pleno uso das infor- resolução de problemas aparentemente insolúveis), do
mações e experiências
que já temos disponíveis vertical (contínuo, lógico e orientado para as
e que estão presas a anti- desenvolver). Enquanto o pensamento lateral dá ideias, o
gas estruturas, padrões,
conceitos e percepções."
vertical desenvolve-as.
Edward De Bono
O pensamento vertical está relacionado com o modo de
raciocínio que herdámos dos gregos, Aristóteles,
Sócrates e Platão. É o raciocínio lógico linear e binário.

Aprendemos que existe "UMA" lógica e uma cadeia de


inferências, que as coisas têm um começo, um meio e um
fim, linearmente determinados (princípio da origem e
consequência). Sabemos que, se seguirmos os padrões
da lógica, chegaremos a um resultado. Acontece que isto
é válido para muitas situações, mas não para todas. Se
pensarmos na multiplicidade e imprevisibilidade de dados
que temos de gerir, chegamos rapidamente à conclusão
que este programa é altamente falível em muitas

36 Criatividade e Inteligência Emocional


CRIATIVIDADE

situações. Em substituição podemos criar um "raciocínio


criativo em rede", gerador de alternativas e que rompe
A criação de novas
com as cadeias lineares, um pouco à imagem do ideias só é possível a
pensamento divergente de Guilford, das Inteligências parti r de um comporta-
mento criativo, especula-
Múltiplas de Gardner ou do Pensamento Lateral que De tivo, curioso, cheio de
Bono nos propõe. suposições e hipóteses,
na linha do pensamento
lateral.
Modelo auto-organizável do cérebro e Pensamento
Lateral

O Pensamento Lateral baseia-se na ruptura das


percepções que o modelo auto-organizável do cérebro
desenvolve. De Bono criou uma imagem muito clara para
ilustrar este funcionamento: "Como a chuva que cai e Sabemos que o cérebro
d e s e n v o l v e c o m m u i ta
determina os leitos dos rios, fazendo com que as águas
facilidade o processo de
provenientes de chuvas futuras sigam os caminhos reconhecimento de
definidos pela primeira chuva, o sistema auto-organizável pa d r õ e s . E s ta é a s u a
base de funcionamento.
do cérebro estabelece uma sequência de actividades com
as primeiras informações que chegam e, com o tempo,
essa sequência passa a ser uma espécie de caminho
preferido".

Organizamos a informação que recolhemos pelos


mecanismos da percepção e categorizamos a realidade
em determinados campos, atribuindo-lhes determinados
significados. Para onde quer que olhemos, estamos
prontos para ver o mundo em função das categorias que
temos previamente organizadas conforme esses padrões.

Assim, estamos preparados para ver apenas aquilo que


temos preparado para ser visto, conforme percepções já
consagradas e organizadas pela mente. Os padrões
estabelecidos pelo cérebro são, naturalmente, de grande
utilidade prática, visto que permitem o reconhecimento

Criatividade e Inteligência Emocional 37


CRIATIVIDADE

imediato da realidade que nos cerca. Permitem-nos


intervenções rápidas sobre a realidade, sem termos de
Seria interessante manter
os padrões que nos são reflectir ou desenvolver hipóteses sobre a resolução de
úteis e questionar os ve- problemas de natureza corrente. Mas, por outro lado,
l h o s pa d r õ e s q u e s e
tornaram obsoletos e para- estes padrões, rigidamente estabelecidos, transformam-
lisantes e que travam se muitas vezes numa armadilha que tolha e aprisiona o
novas aberturas ao pensa-
mento.
potencial criativo.

Mudar o "Programa"
A maioria das pessoas
imagina que apenas a
análise de dados permite a Se pensarmos numa cadeira, não necessitamos de
criação de novas ideias.
Para De Bono, essa desenvolver hipóteses para produzir uma imagem mental
c r e n ç a e s t á t o ta l m e n t e de uma cadeira - pensamos num objecto em que nos
errada. A mente só pode
ver aquilo que está podemos sentar com quatro pernas, e depois podemos
preparada para ver. Qual- pensar numa série de atributos - forma, cor, material,
quer análise de dados só
acabamentos, etc.
capacita o analista a selec-
cionar do seu repertório de
antigas ideias, uma que Seguindo os princípios do pensamento lateral,
seja aplicável à situação
desejada. poderíamos introduzir uma provocação ao cérebro e
pensar na hipótese de uma cadeira de três pernas, que
garantisse na mesma estabilidade. Poderíamos pensar
numa cadeira reciclada feita de papel e desperdícios ou,
ainda, numa cadeira de trapos ou de raízes de grama.

Neste caso, estaríamos a contrariar o reconhecimento


convencional de uma cadeira, dado que o
reconhecimento do padrão de quatro pernas e dos
materiais convencionais é quase imediato. Estaríamos a
acrescentar-lhe novos elementos e perspectivas,
provocando no cérebro novas percepções, novos trilhos
de pensamento.

O princípio do "E se... isto funcionasse de outra


maneira?", "E se... não tivesse quatro pernas, mas três

38 Criatividade e Inteligência Emocional


CRIATIVIDADE

pernas apenas?", é na sua base bastante simples e pode


ser aplicado a uma série de problemas com que nos
deparamos no quotidiano. Se nos dispusermos a aplicar Utilizar o Pensamento
este simples princípio, chegamos rapidamente à Lateral significa:

conclusão que muitas das coisas que observamos ao Operar desafios e provo-
cações no cérebro com o
nosso redor, muitos dos problemas com que nos objectivo de provocar
deparamos no quotidiano, poderiam beneficiar de outro novas percepções, deixar
que as ideias fluam por
tipo de soluções, mais adaptadas, criativas e inteligentes. caminhos nunca antes tri-
Isto significa criar alternativas para situações onde, pelo lhados ou experimenta-
dos. Significa, em termos
pensamento lógico, encontraríamos barreiras e
de funcionamento neu-
obstáculos; significa descobrir soluções novas e originais ronal, deixar a auto-
para problemas que muitas vezes parecem insolúveis; estrada (os trilhos
preferenciais) e aventu-
significa ser provocador, paradoxal, metafórico e lúdico rar-se por a ta l h o s ,
com o próprio pensamento, exercitando assim a sua estradas agrícolas ou
secundárias, mesmo que
flexibilidade na procura de melhores opções e melhores estas conduzam aparen-
caminhos para os problemas. temente a becos sem
saída.

A importância do Humor

A boa piada é uma forte expressão de criatividade. Se


pensarmos na experiência que é ouvir uma piada ou uma
anedota que nos provoca o riso e a analisarmos,
verificamos que o cérebro conduz inicialmente os
pensamentos pelo caminho principal. Mas, de repente, o
pensamento é desviado para um caminho lateral e o
clímax do processo é a ruptura da sequência tradicional
de pensar, o que provoca o humor e o riso. Segundo De
Bono, "Quando a sequência é rompida, percebemos que
estivemos presos a uma maneira de pensar, mas que
poderíamos ter pensado de forma diferente". Utilizar a
lateralidade significa ver outras possibilidades e
aventurar-se na criação de novos conceitos, significa
perguntar: "por que não?... "E se... isto funcionasse de
outra maneira?"...

Criatividade e Inteligência Emocional 39


CRIATIVIDADE

Críticas mais frequentes às abordagens criativas

No entusiasmo do pro- Observa-se, às vezes, algum cepticismo em relação à


cesso criativo , muitas
aplicação destes princípios. A crítica mais comum traduz-
vezes, são esquecidas as
fases de desenvolvimento se na ideia de ser inútil pensarmos alternativas que, na
da ideia, de estruturação prática, não apresentam viabilidade, não são exequíveis
e teste em função de
critérios realistas. ou aplicáveis, criam disfunções múltiplas e multiplicam os
disparates e os erros.

A verdade é que esta crença se deve à má utilização


destas técnicas e a uma sacralização das operações
criativas, que gera uma quase obsessão em fazer a
diferença. Não basta, portanto, ter boas ideias ou
apresentar uma perspectiva visionária. Se adoptarmos o
exemplo do pensamento lateral, não basta procurar novas
possibilidades, é imprescindível a utilização do
pensamento vertical para que elas possam transformar-se
em excelentes ideias viáveis. Aplicada às empresas, é
uma técnica que permite aumentar a criatividade nos
processos e pode constituir um recurso estratégico para a
organização. A lateralidade permite criar visão
organizacional, flexibilizar processos cristalizados e
quebrar princípios estabelecidos, que, apesar de se
revelarem repetidamente ineficazes, por força da rigidez e
da inércia continuam a vigorar.

40 Criatividade e Inteligência Emocional


CRIATIVIDADE

1.9. TIRAR O COELHO DA CARTOLA - A TÉCNICA


DOS 6 CHAPÉUS

Cada chapéu representa uma postura comunicacional. De Bono classifica a


forma de pensar e agir
das pessoas em seis
O b r a n c o é neutro, lógico e objectivo. Apresenta factos cores, simbolizadas por
concretos e informações necessárias à análise do chapéus.

assunto.

O vermelho expressa emoções, sentimentos, intuições.


Representa a visão emocional.

O preto é lógico, negativo e sombrio. É o chapéu do


julgamento crítico, destituído de emoções. Tem base
lógica e factual. Vê as desvantagens. É o chapéu das
ameaças.

O amarelo representa o pensamento positivo, a visão


optimista. Destaca o valor ou o potencial das ideias,
procurando benefícios e vantagens. É o chapéu das
oportunidades.

O verde sugere abundância e fertilidade. É o chapéu da

Criatividade e Inteligência Emocional 41


CRIATIVIDADE

criatividade, das novas ideias, das possibilidades e das


alternativas. Implica "provocação" e "movimento". Exige
esforço criativo.

"Quando alguém se dis- O azul é o chapéu que controla o pensamento.


põe a pensar - racioci-
nando, analisando ou
Representa a coordenação. Expressa capacidade de
criando - procura fazê-lo organização e controlo no processo de pensar.
sempre intensamente,
mas sem disciplina.
Acaba por tornar o seu O objectivo da técnica é estabelecer regras de jogo para
pensamento confuso e o pensamento, permitindo a vivência de papéis que
improdutivo.”
representam diversas posturas e modalidades de
Edward De Bono
pensamento. A técnica permite que, na análise de uma
situação ou numa discussão, as pessoas não fiquem
presas a um único tipo de pensamento (por exemplo, à
modalidade do chapéu preto, tão característica do
pensamento bloqueador).

Sugestão: Para teatralizar a técnica, iniciar com o


chapéu branco, depois vermelho, amarelo, preto, verde e
azul.

Contextos de aplicação: Na formação (contexto de


aprendizagem), para análise e discussão de um tema ou
situação; nas empresas, para análise organizacional e
para o aperfeiçoamento de processos; em reuniões, na
mediação de conflitos, na análise de comportamentos,
etc... etc...

42 Criatividade e Inteligência Emocional


INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

Capítulo 2
INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

Objectivos

No final do capítulo deverá ser capaz de:

¥ Desenvolver o autoconhecimento e a reflexão


sobre si na relação com os outros;
¥ Identificar estados internos inibidores da
Inteligência Emocional;
¥ Visualizar e projectar mentalmente acções para a
superação de emoções limitativas.

To d a s a s e m o ç õ e s s ã o
essencialmente impulsos
Desde sempre nos habituámos a pensar na noção de
para agir, conduzem-nos
à acção. Etimologica- inteligência como uma medida de desempenho cognitivo,
mente a palavra "emoção" traduzida em termos comuns como capacidade para
vem do verbo "emovere",
que significa "pôr em raciocinar sobre dados e resolver problemas complexos,
movimento". Podemos aplicando os mecanismos da lógica. Acreditava-se que
dizer que as emoções nos
põem em movimento, que este conjunto de aptidões, ou Quociente de Inteligência
nos fazem agir e fazer, (Q.I.), era herdado geneticamente e portanto dificilmente
em suma, que elas são o
poderia ser modificado pela experiência. Constituiu-se,
motor dos nossos com-
portamentos. assim, uma espécie de estigma a propósito destas
Daniel Chabot aptidões herdadas, marcando - se perfeitamente a divisão
entre um mundo de "inteligentes" e um de "não
inteligentes".

Há, evidentemente, uma relação entre o Q.I. e as


circunstâncias da vida, para os grandes grupos como um
todo: muitas pessoas com um Q.I. baixo acabam por
ocupar funções subalternas e as que têm um Q.I. elevado
são geralmente bem pagas, mas nem sempre. São
numerosas as excepções à regra. Pessoas com um Q.I.
elevado falham ou revelam-se menos competentes onde
outras, com um Q.I. mais modesto, apresentam
resultados surpreendentes.

44 Criatividade e Inteligência Emocional


INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

Ficam, portanto, 80% para a actuação de outro tipo de


forças que aparecem associadas a competências
emocionais. Em conclusão, não basta ter um Q.I. elevado,
são necessárias também outras características de "Estudos demonstram,
que o Q.I. contribui, na
conteúdo emocional, como a capacidade da pessoa se melhor das hipóteses,
motivar a si mesma e persistir a despeito das frustrações, com cerca de 20% para
os factores que determi-
a capacidade de controlar impulsos e adiar a recompensa, nam o êxito na vida e o
a capacidade de regular o seu próprio estado de espírito sucesso na carreira."
e impedir que o desânimo e as emoções negativas a Daniel Goleman
invadam e diminuam a faculdade de pensar, a capacidade
de sentir empatia e relacionar-se de forma positiva e
produtiva com os outros e manter a esperança. Este novo
conceito de Inteligência Emocional vem assim rivalizar
com a poderosa noção de Q.I. com os seus cem anos de
história. De qualquer forma, não obstante as discussões
que se possam levantar à volta deste conceito, não
podemos ignorar a poderosa influência que
manifestamente possui nas nossas vidas, seja no plano
da actuação profissional ou na gestão das nossas vidas
privadas.

2.1. O BINÓMIO RAZÃO - EMOÇÃO

Quando falamos da existência de dois cérebros (um "O cérebro é mais vasto
que o céu."
racional e outro emocional) estamos a referir-nos a uma
Emily Dickinson
especialização funcional, que nos permite compreender,
de forma simples, duas lógicas diferenciadas de
processamento da informação. Esta dicotomia aproxima-
se da distinção tão popular entre "pensar com a cabeça" e
"pensar com o coração". "A vida é uma comédia
para aqueles que pensam
e uma tragédia para aque-
O desenvolvimento da imagem assistida por computador les que sentem."
permite hoje uma visualização dos processos inerentes a Horace Walpole
estes dois modos de funcionamento cerebral.

Criatividade e Inteligência Emocional 45


INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

O cérebro racional funciona por aproximações e


hipóteses, é racionalista, é lógico e pragmático. Percebe
as coisas e integra-as num sistema coerente e
O interesse do desen- estruturado. Quando lhe chega uma nova informação,
volvimento da I.E. é tornar procura situá-la no seu sistema conceptual e no quadro
as emoções menos cegas
e mais inteligentes. das suas convicções. Se a nova informação não encontra
lugar neste sistema, o cérebro racional possui a
capacidade de reflectir, ponderar, questionar-se, formular
hipóteses e de se modificar em função dos novos dados
que acaba de adquirir. Este é o modo de compreensão de
que temos tipicamente consciência.

O cérebro emocional (também designado como sistema


límbico), corresponde a um outro sistema de
conhecimento e obedece a princípios de funcionamento
muito diferentes. É impulsivo e poderoso nos seus
ímpetos, irracional e muitas vezes ilógico. Assume as
suas convicções como verdades absolutas e rejeita
sistematicamente tudo o que o possa contrariar. É por
isso que é muito difícil "chamar à razão" alguém que
O cérebro emocional
d e s e m p e n h a u m pa p e l esteja sob o efeito de uma emoção. Ele justifica a si
essencial na arquitectura próprio a sua emoção através de uma série de
neuronal.
percepções tendenciosas e de provas que fabrica
integralmente com vista a elaborar autojustificações
eficazes.

Quando sentimos intensamente uma emoção, o cérebro


emocional torna-se dominante e ganha o papel de grande
protagonista, abafando a eficácia do cérebro racional que
fica sem poder para se afirmar e trabalhar. A emoção
O córtex cerebral pensa sobrepõe-se a todos os processos e tiraniza as
enquanto o sistema lím- faculdades da mente racional, tornando-se dominante.
bico movimenta acções e
reacções.
Enquanto que o cérebro racional nos permite o

46 Criatividade e Inteligência Emocional


INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

reconhecimento e o estabelecimento de relações entre as


coisas, o cérebro emocional dá-lhes cor, tonalidade e
intensidade emotiva.

Normalmente as duas mentes funcionam em relativa


harmonia e de forma coordenada, combinando entre si
estes dois modos diferentes de saber para nos orientar na
nossa visão sobre as coisas e sobre o mundo que nos
rodeia. Os sentimentos são fundamentais para o
pensamento e o pensamento é fundamental para os
sentimentos. Sem esta colaboração, o sistema
desequilibra-se. No extremo da racionalidade,
encontramos um estilo que encarna a hipótese da mente
estritamente racional, isolada nos seus mecanismos e
"dotada" de um autismo emocional; no outro extremo há
um estilo intensamente sentimental e cego nas suas
emoções, que só consegue ver e sentir o que sente. Se
pensarmos nestes dois sistemas isoladamente,
percebemos rapidamente todas as deficiências e
consequências desastrosas que poderiam decorrer desta
separação.

Estas duas mentes funcionam de forma semi-


independente, possuindo circuitos diferentes que se
entrecruzam no interior do cérebro e que são, para nós, o
garante de algum equilíbrio.

Um outro facto interessante relaciona-se com a evolução


do cérebro. Na sua raíz mais primitiva, os centros
emocionais foram os primeiros a emergir do tronco
cerebral. Só milhões de anos mais tarde surgiu o cérebro
superior - o neocórtex, a sede do pensamento, que
contém os centros que compreendem todas as
capacidades mentais.

Criatividade e Inteligência Emocional 47


INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

Esta nova adição do pensamento ao cérebro permitiu ao


homem, na sua evolução, uma enorme vantagem
competitiva relativamente a outras espécies. Na escala
As áreas emocionais
constituem as raízes a filogenética, o ser humano possui a maior massa de
partir das quais o cérebro neocórtex e um número incomparavelmente maior de
mais recente se desen-
volveu, o que lhes dá um
interligações cerebrais e de circuitos e redes neuronais, e
imenso poder para influ- por isso, é capaz de um repertório de respostas
enciar toda a dinâmica de infinitamente mais variadas relativamente a todas as outras
funcionamento dos nos-
sos pensamentos. espécies. O medo, a ira, a tristeza, o amor e a felicidade
funcionam como lembretes constantes da nossa natureza
animal. Estas emoções evoluem e são moldadas pelas
experiências ao longo de todo o nosso percurso de vida.

2.2. SIGNIFICADO DE INTELIGÊNCIA EMOCIONAL.


O QUE É A INTELIGÊNCIA EMOCIONAL?

O termo Inteligência Emocional foi introduzido por Peter


Salovey e John Mayer em 1990. Estes investigadores
descrevem, genericamente, a Inteligência Emocional
como "um conjunto de competências que envolvem a
habilidade de identificar e monitorizar os seus próprios
O conceito de Inteligên- sentimentos, assim como os dos outros, usando-os para
cia Emocional refere-se orientar o modo de pensar e agir" (Salovey, 1990). Mais
a dois tipos de inteligên-
cia - racional e emo- detalhadamente, subdividem este conceito em
cional.O intelecto não competências que formam quatro ramos:
pode dar o melhor de si
sem a inteligência das
emoções. A- A capacidade de perceber, avaliar e expressar
correctamente a emoção;
"Entenda-se por Inteligên-
cia Emocional o uso inten-
B- A capacidade de aceder e de gerar sentimentos
cional das emoções
agindo a nosso favor, pro- enquanto facilitadores cognitivos;
duzindo assim resultados
positivos."
C- A capacidade de entender informação emocional
Hendrie Weisinger
e utilizar o conhecimento emocional;

48 Criatividade e Inteligência Emocional


INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

D- A capacidade de regular emoções para promover o "A inteligência emocional


crescimento e o bem-estar (Lopes & Salovey, caracteriza a maneira
como as pessoas lidam
2001). com suas emoções e com
as das pessoas ao seu
redor. Esta é uma outra
A tese de Daniel Goleman baseia-se numa síntese maneira de sermos
original, feita a partir de pesquisas e das mais recentes inteligentes, não em ter-
descobertas sobre o funcionamento do cérebro. Ele mos de QI, mas em ter-
mos de qualidades
mostra como a inteligência emocional pode ser humanas do coração."
alimentada e fortalecida em todos nós, principalmente na Daniel Goleman
infância, período no qual toda a estrutura neurológica se
encontra em formação. Goleman explica igualmente que,
entre as características da inteligência emocional,
encontramos as aptidões que nos permitem motivarmo-
nos e nos preservarmos face à frustração, controlarmos
as nossas pulsões e estarmos em condições para adiar as
nossas fontes de gratificação, regularmos o nosso humor
e fazermos com que o stress não nos impeça de pensar,
de sermos empáticos e mantermos a esperança na vida.

Para Goleman a I.E. está relacionada com habilidades,


tais como:

Reconhecer os nossos próprios sentimentos; motivar-nos


a nós próprios e persistir face a frustrações; controlar
impulsos; gerir emoções "negativas e limitativas"; praticar
a empatia nas relações interpessoais; motivar pessoas,
ajudando-as a libertarem os seus melhores talentos, de
forma a conseguirem o seu envolvimento em objectivos e
interesses comuns.

Para Goleman, estas competências da I.E. podem ser


divididas e sistematizadas em dois grupos de factores - os
intrapessoais e os interpessoais.

Criatividade e Inteligência Emocional 49


INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

2.3. FAC TO R E S I N T R A P E S S OA I S DA
INTELIGÊNCIA EMOCIONAL
Consciência Emocional
significa:
Saber aquilo que senti-
mos;
Saber aquilo que os ou-
tros sentem;
Descobrir a causa desses
sentimentos;
Conhecer o efeito
provável dos nossos sen-
timentos nos outros.

2.3.1. Autoconhecimento / Consciência Emocional

Este primeiro factor, considerado como o alicerce de toda


a arquitectura emocional, rende justiça ao velho
imperativo socrático - "conhece-te a ti mesmo". A
Nos extremos encon- capacidade para reconhecer, no plano da consciência, um
tramos pessoas com uma
sentimento enquanto ele ocorre, é a base da inteligência
emocionalidade avassala-
dora, que sentem tudo de emocional.
forma muito intensa e são
i n c a pa z e s d e t o m a r a s
rédeas às emoções e Na verdade, os sentimentos não são tão evidentes, nem
compreendê-las, e no emergem no plano da consciência de forma óbvia. Se
outro, temos pessoas
para as quais parece que fizermos algum esforço de memória, todos nós nos
a emoção quase não conseguimos lembrar de situações em que não tivemos
existe.
uma clara consciência emocional do que vivíamos e só
passado algum tempo nos demos conta do que
verdadeiramente sentíamos. Circunstâncias em que
mergulhámos num caldeirão de emoções e perdemos a
lucidez e a capacidade de análise para investigar de
forma neutral a experiência que estávamos a viver e todo
o cenário de emoções que a acompanhavam.

50 Criatividade e Inteligência Emocional


INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

Há muitas pessoas que não conseguem definir sentimentos


de amor, de vergonha, de orgulho, de raiva ou de
inferioridade, nem conseguem perceber porque razão esses
sentimentos disparam numa dada situação. Têm dificuldade
em avaliar a força das suas emoções e em classificá-las
segundo a sua intensidade (se são subtis, fortes ou
avassaladoras), nem conseguem compreender até que
ponto elas a estão a afectar, tanto a si como aos outros que
a rodeiam.

Para desenvolver esta habilidade é indispensável a Os psicólogos designam


e s ta c a pa c i d a d e c o m o
prática da "auto-observação e da auto-reflexão paralela" "metacognição" e Freud
sobre a forma como as nossas emoções se vão descreveu-a como uma
desenrolando e sobre o seu verdadeiro significado. Isto "atenção discreta e cons-
ta n t e " i n d i s p e n s á v e l à
implica, por parte do sujeito, um certo afastamento da prática da psicanálise.
"experiência a quente", como se nos colocássemos num
posto de vigilância privilegiado para melhor observarmos
e compreendermos o que estamos exactamente a sentir e
qual é o nosso estado mais íntimo. Nas palavras de John
Mayer, a autoconsciência significa "ter consciência tanto
do nosso estado de espírito como dos nossos
pensamentos a respeito desse estado de espírito".

Esta capacidade assume uma enorme importância porque


constitui o primeiro passo para mudar o curso de
sentimentos indesejáveis e para os gerirmos de forma
mais inteligente. Se somos capazes de reconhecer que
temos raiva, mais facilmente conseguimos agir sobre ela.
Ganhamos maior controlo racional sobre a situação. Se
conseguimos identificar claramente o que estamos a A dificuldade em reco-
sentir, criamos em nós próprios a liberdade e a nhecer emoções e senti-
mentos coloca o indivíduo
possibilidade de reflectir sobre as consequências de uma à mercê das suas
acção movida por essa emoção. Permite-nos parar para emoções e impulsos.

ponderar se queremos agir levados por essa emoção ou

Criatividade e Inteligência Emocional 51


INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

se pretendemos livrar-nos dela, porque chegamos à


conclusão que não vale a pena continuarmos fixados
nesse estado emocional, porque não obtemos nenhum
benefício ou compensação sobre essa vivência.

Este primeiro factor abre caminho para o domínio do


segundo factor - o controlo emocional. Se não somos
capazes de reconhecer e identificar as emoções que
sentimos, dificilmente as conseguimos controlar. O mais
provável é serem elas a dominar-nos, não obstante as
consequências desastrosas que daí possam advir.

Pessoas com esta habilidade são melhores "condutoras"


das suas vidas. Esta autoconsciência emocional
desempenha, ainda, um papel crucial no processo de
tomada de decisões. Todos nós sentimos, por vezes,
Os alexitímicos sinais intuitivos sob a forma de impulsos límbicos, que
São um caso particular de nos impelem para uma determinada resposta.
auto-consciência emo-
cional. São pessoas emo-
cionalmente surdas. Não Estes impulsos têm origem no que António Damásio
conseguem perceber nem chama de "marcadores somáticos". Estes marcadores
identificar as suas
emoções e sentimentos, são uma espécie de sinais (representações mentais de
nem interpretar emoções estados corporais) que nos alertam para potenciais
e sentimentos nos outros.
perigos, mas também para oportunidades. Saber
descortinar estas teias de sentidos emocionais
capacitam-nos para um sentido de navegação mais
emocionalmente inteligente.

Segundo Goleman, "a chave para tomar boas decisões


pessoais é ouvir os sentimentos", o que implica
reconhecê-los em primeira-mão.

O nível de autoconsciência sobre os processos


emocionais é variável de indivíduo para indivíduo.

52 Criatividade e Inteligência Emocional


INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

Segundo Mayer podemos encontrar três estilos / tipos:

1. Autoconscientes - Indivíduos conscientes dos


seus estados de espírito à medida que eles ocorrem.
Possuem alguma sofisticação na vida emocional e
clareza na análise das suas próprias emoções. São
autónomos e seguros dos seus próprios limites. Têm
uma boa saúde psicológica e tendem a encarar a
vida de uma maneira positiva. Não ficam obcecados
com estados negativos e são capazes de se libertar
mais facilmente. A sua capacidade de atenção ajuda
no controlo de emoções.

2. Imersos - São pessoas que se deixam, " O s h o m e n s a c r e d i ta m


frequentemente, avassalar pelas emoções e são que são livres, pelo sim-
p l e s f a c t o d e e s ta r e m
incapazes de lhes escapar - como se os seus conscientes das suas
estados de espírito assumissem o comando. São acções e inconscientes
das causas que determi-
instáveis e não muito conscientes dos seus nam essas acções."
próprios sentimentos, de modo que se perdem Baruch Espinosa
neles em vez de manterem alguma perspectiva.
Em consequência disto, pouco fazem para tentar
"Para os seres cons-
escapar aos estados negativos, sentindo que não cientes, existir é mudar;
têm controle sobre a sua vida emocional. Sentem- mudar é amadurecer;
se frequentemente submersas e emocionalmente amadurecer é criar-se
indefinidamente a si
descontroladas. próprio."
H. Bergson
3. Aceitantes - Embora estas pessoas estejam
com frequência claramente conscientes daquilo
que sentem, têm também tendência para aceitar os
estados de espírito e nada fazem para modificá-
los. Existem dois ramos do tipo aceitante: aqueles
que estão normalmente bem dispostos e não
sentem por isso necessidade de mudar, e aqueles
que, apesar de verem claramente o que lhes está a

Criatividade e Inteligência Emocional 53


INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

acontecer, caem frequentemente em estados de


espírito negativos, mas nada fazem para contrariá-
los, aceitando-os passivamente - um padrão que
se encontra, por exemplo, entre as pessoas
deprimidas que se resignaram ao desespero.
(Cit. de Goleman a partir de J. Mayer e Stevens -
Estilos de autoconsciência emocional)

O primeiro passo para o desenvolvimento da I.E. é o


autoconhecimento, conhecer as nossas forças e as
nossas limitações, e sermos capazes de reconhecer um
To d a s a s e m o ç õ e s ,
mesmo as que chamamos sentimento quando ele ocorre, seja ele "positivo" ou
"negativas", cumprem "negativo". A auto consciência emocional constitui o
com uma função no orga-
nismo. O medo serve para
material de base para aceder ao segundo factor da I.E. -
nos protegermos e defen- Controlo Emocional.
dermos do perigo, a raiva
e a revolta para reparar
injustiças, a inveja para A capacidade de controlar os sentimentos a cada
seguirmos modelos e ser- momento é crucial para o discernimento emocional e a
mos ambiciosos, o des-
prezo e a indignação para auto-compreensão. Consequentemente, o segundo
compreendermos o que aspecto é saber lidar com esses sentimentos e
não queremos para nós.
desenvolver a capacidade de nos livrarmos da ansiedade,
da tristeza ou da irritabilidade.

2.3.2. A u t o - R e g u l a ç ã o / C o n t r o l o E m o c i o n a l o u
Autodomínio

Refere-se à habilidade para controlar impulsos, lidar com


os sentimentos e estados de espírito negativos,
aprendendo a gerar estados de equilíbrio em vez de os
tentar suprimir. Numerosos estudos sobre o
funcionamento do cérebro demonstram que em situações
de grande tensão, o sistema límbico impede o trabalho do
centro executivo cerebral, isto é, dos lóbulos pré-frontais,

54 Criatividade e Inteligência Emocional


INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

onde está localizada a memória de trabalho, vital para a


compreensão, entendimento, planificação, tomada de
decisões, raciocínio e aprendizagem. Quando estamos
calmos, este centro executivo funciona na perfeição, mas
se existe uma emergência, um estímulo perturbador, o
cérebro passa para um modo auto-protector e retira todos
os recursos à memória de trabalho, activando outras zonas
para o alerta máximo - todo o organismo se organiza e é
preparado para a defesa. Este sofisticado sistema foi
absolutamente decisivo ao longo da nossa evolução para
assegurar a nossa sobrevivência como espécie. Quando o
nosso cérebro percepciona uma ameaça, o cérebro
emocional toma a dianteira e entra em cena, fazendo
disparar a amígdala - uma estrutura neuronal que se
encontra directamente ligada aos lóbulos pré-frontais. A
amígdala é o nosso banco de memória emocional, onde
estão registados todos os nossos momentos mais
intensamente emocionais - de raiva, de euforia, de medo,
de revolta, de indignação, de frustração, etc.

Goleman ilustra de forma clara a sua função de


"sentinela". O que a amígdala faz é um scanning grosseiro
de todos os dados e informações relativas à situação, e
reage ao mínimo sinal de ameaça ou de potencial Há um equívoco fre-
quente quando se fala de
oportunidade, lançando o alarme neuronal e sacrificando controlo emocional -
neste processo a nossa capacidade para pensar de forma pensa-se, muitas vezes e
de forma errada, que as
clara e lúcida sobre as situações. emoções negativas ou
perturbadoras devem ser
Uma outra forma de colocar a questão, é imaginar que o suprimidas em vez de
controladas. Em termos
cérebro emocional toma de assalto o cérebro racional, práticos é uma impossibi-
reduzindo drasticamente o seu potencial de acção. Os lidade suprimir as
emoções.É impossível
lóbulos pré-frontais possuem neurónios inibidores das
fechar a porta e deixá-las
directivas da amígdala. Se este circuito inibidor funciona em casa.
mal, a pessoa fica entregue aos seus impulsos, e não se
consegue dominar. Isto explica, por exemplo, como em

Criatividade e Inteligência Emocional 55


INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

determinadas condições, uma pessoa pode reagir por


A ansiedade é a resposta disparo agressivo ou de forma descontrolada a um
inicial a uma situação de determinado estímulo que percepciona como ameaçador,
stress, mas se a pessoa
crê que a situação é ou como em situações de stress ou de grande tensão,
incontrolável, a ansiedade pode ocorrer a desorganização mental ou as chamadas
é substituída pela
depressão. "brancas", muito características em exames orais,
comunicações públicas, em situações de formação, em
que a pessoa se sente pressionada pela avaliação dos
outros, ou em situações mais comuns, quando alguém
responde de uma forma inesperadamente indelicada e
não ocorre uma resposta pronta. Só mais tarde, quando
se pensa nisso, é que a pessoa consegue elaborar várias
alternativas de resposta, restando-lhe apenas o sabor
amargo da frustração por não ter conseguido responder
ou estar à altura da situação.

Por outro lado, se reflectirmos um pouco sobre a


possibilidade de uma existência sem paixões, altas
temperaturas e tempestades emocionais, chegamos
rapidamente à conclusão que ela seria certamente
monótona, desértica e sem interesse.

Estas emoções fazem também parte da vida nos seus


altos e baixos e também lhes dão cor. A questão prende-
se mais com a intensidade da sua manifestação (se a sua
expressão é proporcional ao estímulo desencadeador e
apropriada à situação), e com o tempo que estas
emoções negativas perduram, ou ainda, se o baixo
controle dos impulsos é a emoção dominante.

Em situações mais extremas, se estas emoções


perturbadoras invadem de tal forma a pessoa que ela
deixa de sentir bem-estar e de poder vivenciar
experiências emocionais agradáveis, o seu estado geral

56 Criatividade e Inteligência Emocional


INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

normal passa a ser sempre negativo e manifesta-se em


ansiedade crónica ou depressão. "Qualquer um pode ficar
zangado. Isto é fácil. Mas
zangar-se com a pessoa
Se repararmos no nosso dia a dia, constatamos uma série certa, na intensidade cor-
de pequenas acções, muitas vezes inconscientes, que recta, no momento ade-
quado, pelos motivos
nos servem para controlar o nosso estado de espírito - justos e da maneira mais
fazer uma pausa no trabalho para ir até à janela observar apropriada, isto não é
fácil."
o jardim, pôr uma música, falar com um amigo, folhear um
Aristóteles
jornal ou ler um livro, são maneiras que encontramos para
nos sentirmos melhor.

Em conclusão, como diz W. Winnicott, "A arte de nos


acalmarmos a nós mesmos é uma habilidade fundamental
da vida".

Pessoas pobres nesta habilidade afundam-se


constantemente em sentimentos de incerteza ou
descontrolam-se de forma desproporcionada nas mais
variadas situações do quotidiano profissional e familiar.
Vivem em regime de tensão permanente e vão dando
vazão às suas tempestades emocionais, atingindo
normalmente de forma impiedosa quem as rodeia, criando
um clima de desconforto e tensão emocional que afecta
os seus melhores desempenhos.

Está perfeitamente demonstrado que o stress prolongado


provoca o embrutecimento do intelecto e das funções
cognitivas, e que ninguém dá o seu melhor sob tensão.

A grande questão sobre esta componente da Inteligência


Emocional é: podemos controlar os nossos impulsos e os
nossos estados de espírito? A resposta é sim. Com um
acréscimo de auto-vigilância, de vontade e de disciplina.

Criatividade e Inteligência Emocional 57


INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

Algumas sugestões para a prática do controlo


emocional em situações de grande tensão:

"Não são os grandes


problemas que nos levam
ao manicómio, não é a
perda de um amor, mas o
atacador do sapato que
se parte quando o tempo
se esgotou."
Charles Bukowski

1º Estar atento aos sinais corporais e aprender a ler


no corpo indícios subtis de alterações fisiológicas,
que funcionam como mecanismos de previsão
automática. Por exemplo, sentir o rosto quente,
aceleração cardíaca, mãos húmidas, respiração
obstruída, nó na garganta, mãos a tremer, voz
sumida ou com vibração, são sintomas de
perturbação, insegurança, medo ou pânico. O
objectivo desta identificação é antecipar-se à
reacção, de forma a actuar antes do processo
emocional estar completamente instalado.

2º Controlar a respiração - As emoções reflectem-se


no corpo, assim como o estado corporal influencia
o rumo das emoções. Controlando o corpo,
podemos induzir mudanças nos circuitos
emocionais e nos pensamentos. Uma forma eficaz
de o conseguir é concentrar a atenção na
respiração e aos poucos ir aprofundando,
expandindo-a e tornando-a mais lenta, respirando
sempre com o abdómen.

58 Criatividade e Inteligência Emocional


INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

3º Mudar a postura - Uma outra forma de actuar no


corpo. Soltar e descontrair partes tensas do corpo
na postura em que estiver. Endireitar a coluna e os
Resposta de Chogyam
ombros, respirar como quem está no controlo da Trungpa, um professor
situação, assumindo uma posição corporal tibetano, à pergunta sobre
qual a melhor maneira de
correspondente. Corpo e mente estão interligados lidar com a ira:"Não a
e por vezes, apenas uma mudança na disposição s u p r i m i r. M a s n ã o a g i r
postural impulsiona para reacções noutro sentido. levado por ela."

4º Quanto mais cedo uma intervenção racional surgir,


mais eficaz é o controlo do impulso. Para isso, é
necessário enviar informação mitigadora ou
mensagens tranquilizantes ao cérebro, de forma a
facilitar uma reavaliação da situação. Esta acção é
também designada de "diálogo interno" e consiste
na introdução de pensamentos calmantes
indutores de relaxamento. Falar consigo próprio é
uma actividade preciosa e tem o poder de
restabelecer a actuação do pensamento complexo.
Esta acção é particularmente eficaz para níveis
médios de tensão e irritação. Nos níveis mais
elevados de fúria ou ira, acaba por acontecer um
efeito que Zilmann designa de "inabilitação
cognitiva" - a pessoa fica fixa, aprisionada à
emoção que está a sentir e revela-se incapaz de
processar qualquer tipo de informação, fica
incapaz de pensar correctamente, afastando todas
as mensagens e informações tranquilizantes.

5º "Deixar arrefecer" - esta expressão popular tão "O corpo humano é a me-
l h o r r e p r e s e n ta ç ã o d a
comum tem um equivalente preciso em termos
alma."
fisiológicos - quando estamos muito zangados,
L.Wittgenstein
irritados ou furiosos, encontramo-nos num estado
de sobreexcitação, ficamos demasiado "quentes",

Criatividade e Inteligência Emocional 59


INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

tornando-se necessário baixar a temperatura


emocional. Mudar de ambiente, ficar sozinho, dar
uma volta, um pequeno passeio a pé, ou de carro
(se não carregar no acelerador), distrair-se a fazer
qualquer coisa, procurar uma outra situação onde
não existam estímulos provocadores. Em termos
práticos, o que deve acontecer é uma mudança de
contexto e a interrupção de estímulos reforçantes
do estado de tensão.

6º A utilização paralela de técnicas de relaxamento e


meditação revela-se também muito eficaz. Fazer
respiração profunda (já referida no ponto 2) e
procurar o relaxamento muscular faz baixar de
forma bastante significativa os níveis de excitação
fisiológica. Algumas pessoas preferem a utilização
de exercícios e ginásticas activas como forma de
descarga de tensões. São estratégias excelentes
desde que a pessoa não retome a seguir o ciclo de
pensamentos negativos que a conduziu ao estado
de descontrolo.

7º Procurar investigar as verdadeiras causas da


reacção à situação.
"Encontrámos o inimigo, e O autodomínio e a capacidade de controlar
ele é nós."
emoções não implicam asfixia emocional ou
Walt Kelly quebra de espontaneidade. Favorece antes a
possibilidade de optarmos pela forma mais
adequada de exprimirmos as emoções, de
fazermos uma escolha livre e consciente da melhor
resposta, habilitando-nos ao mesmo tempo, para
uma acção mais inteligente. Significa, em última
análise, ficar na posse da nossa pessoa e em
situação de poder determinar qual a melhor forma

60 Criatividade e Inteligência Emocional


INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

de agir, não reagindo apenas ao sabor das


circunstâncias de forma reactiva e cega.
Os hábitos de controlo emocional repetidos vezes
sem conta na infância e na adolescência, ajudam a
moldar estes circuitos. Se estes hábitos não se
verificaram nestas fases, pode-se sempre
reaprender. A única diferença é que um processo
de aprendizagem desta natureza na fase adulta,
exige mais esforço disciplinado para descristalizar
estes "maus hábitos" adquiridos.

2.3.3. Auto-Motivação

Pode ser definida como a capacidade de orientar


emoções na prossecução de um objectivo ou de uma
meta. Goleman define-a como "a tendência emocional que "Nenhum vento sopra a
favor de quem não sabe
nos guia ou facilita no alcance de metas e objectivos".
onde ir."
Séneca
Trata-se de uma componente da I.E. essencial para a
busca da auto-realização e do aperfeiçoamento pessoal.

José António Marina designa-a, de forma inspirada, como


a "inteligência do desejo". Implica habilidade para desejar
coisas positivas para nós mesmos e para gerar energia
interna e força para nos auto induzirmos a estados
positivos, não obstante as dificuldades e os momentos
difíceis, as frustrações e os obstáculos que possam surgir.
Implica optimismo, o bálsamo dos fortes.

Os factores motivacionais dependem fundamentalmente


das características individuais de cada um e, por isso, o "Quando os homens fra-
cassam, o que lhes faltou
desenvolvimento desta capacidade depende directamente não foi inteligência. Foi
dos recursos internos disponíveis no indivíduo. Muitas paixão."
vezes, quando a auto-motivação é bastante baixa, é Struther Burt

Criatividade e Inteligência Emocional 61


INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

necessário levar a cabo um autêntico programa de acção,


que envolve grande disciplina, para a reeducação da
vontade. Isto acontece porque esta força interior,
associada à confiança, é alicerçada na infância. Desde
muito cedo, aprendemos através da educação que
recebemos e dos exemplos que nos rodeiam, a ser
seguros, a enfrentar situações difíceis e a ultrapassá-las,
a desejar alcançar coisas e a estabelecer esforços no
sentido de as atingir.

Se no processo educacional, o acesso aos objectos


desejados é excessivamente facilitado, não existe a
percepção do esforço, nem o sentimento de realização
que deriva da vitória e do prazer da conquista. Criamos
matrizes de funcionamento interno que vão desenhar na
"Toda a emoção parece fase adulta, perfis motivacionais que desembocarão no
obrigatoriamente ligada a
típico pessimista - pouco confiante, e no optimista -
um processo de memo-
rização afectiva de uma seguro e confiante em si mesmo.
experiência passada."
Laborit Somos desenhados desde muito cedo para o pessimismo
ou para o optimismo, para a forma como desafiamos a
vida e as situações mais complexas. Pergunta: Isto
significa que não podemos remediar ou reparar a baixa
motivação? A verdade é que podemos em muitas
situações reaprender novas abordagens, desmantelando
hábitos fixados, evitando o embotamento emocional e
reconstruindo os nossos circuitos para atitudes mais
positivas e realistas.

No discurso corrente sobre os contextos organizacionais,


fala-se muito da importância dos incentivos - nível de
salários, prémios de produtividade, grau de segurança no
emprego, qualidade do ambiente e condições de trabalho,
etc. Na verdade, todos estes factores resultam

62 Criatividade e Inteligência Emocional


INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

insuficientes se a pessoa não gosta nem sente verdadeiro "Estado de fluxo"


prazer no trabalho que realiza, se este não for É o prazer associado ao
percepcionado como algo gratificante, que contribui para trabalho. A motivação e o
envolvimento são chaves
a sua realização como pessoa integral. pa r a s e a t i n g i r e s t e
As pessoas apaixonadas pelo que fazem, que possuem e s ta d o q u e a b r e u m a
janela à abordagem e à
esta capacidade para se auto motivar, fazem a diferença. fluidez criativa.
Pessoas altamente moti-
Conseguem um nível de envolvimento que lhes permite vadas atraem dinâmicas
positivas e enérgicas, e
atingir desempenhos de excelência. São dedicadas,
criam à sua volta ciclos
persistentes, produtivas e eficazes, buscam fortes de produtividade.
constantemente o aperfeiçoamento contínuo e soluções
inovadoras, são bem dispostas e enfrentam os desafios e
as situações complexas como oportunidades. São
pessoas empreendedoras que sabem praticar a
gratificação prorrogada e controlar os impulsos quando
pretendem atingir um objectivo, conseguindo manter o
espírito positivo e não sacrificando a visão realista.

Porque possuem um bom raio de confiança, não


soçobram perante adversidades e derrotas, acreditam na
sua capacidade para influenciar o meio, e por isso,
utilizam sobretudo modelos de comportamento pró-activo,
em vez de modelos reactivos baseados na dependência
dos estímulos externos. Mais uma vez, aqui se comprova
a insuficiência só por si de um Q.I. elevado.

Se esta qualidade da auto-motivação não estiver


desenvolvida, a pessoa mais intelectualmente inteligente
exibe um comportamento desistente.

Criatividade e Inteligência Emocional 63


INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

Algumas características que dificultam o


desenvolvimento da auto-motivação:

¥ Não acreditar no seu potencial;

¥ Ser passivo - "esperar sentado";

É impossível vencer ¥ Pensar que "não vale a pena";


medos e bloqueios sem
autoconfiança, auto
¥ Não ter esperança e ser descrente em relação às
estima e autoconheci-
mento. pessoas;

Os objectivos delinea- ¥ Usar "lentes negativas" - focar apenas os


dos não devem ser nem
problemas e as preocupações;
muito fáceis de atingir,
nem inalcançáveis.
Devem permitir de alguma ¥ Sofrer de miopia de recursos - percepcionar
maneira a ultrapassagem
das balizas habituais que apenas pontos fracos;
normalmente marcamos
para nós próprios.
¥ Criar discursos auto-desqualificantes do tipo - "não
sou capaz", que condicionam a iniciativa e acção;

¥ Ser comodista e optar pelas saídas mais fáceis;

¥ Ceder à preguiça e a distracções quando se tem


objectivos a atingir ou tarefas a realizar;

¥ Sobreavaliar intimamente e de forma insistente a


competência e a acção dos outros;

¥ Protelar decisões importantes;

¥ Temer a avaliação externa e a crítica;

¥ Atribuir os fracassos pessoais a condicionantes


externas.

64 Criatividade e Inteligência Emocional


INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

Sugestões para desenvolvimento de uma atitude


positiva e auto-motivante:

¥ Identificar pontos fortes e limitações (implica: auto-


análise e autoconhecimento);

¥ Projectar objectivos realistas mas um pouco acima


das suas possibilidades, um pouco além da sua
zona de conforto;

¥ Enunciar desejos no presente - "Eu quero" em vez


de "eu queria";

¥ Abandonar verbalizações destrutivas do tipo: "não O pessimismo converte-se


sou capaz", "isto é difícil"; com facilidade numa profe-
cia que se cumpre a si
mesma.
¥ Utilizar a técnica dos 3 P´s - abordar as situações Forma de o ultrapassar:
difíceis utilizando uma abordagem centrada nos Romper com o círculo
vicioso do modelo de dis-
aspectos - positivo, potencial e só depois as curso interior carregado de
preocupações. Seguir esta ordem; emoções tóxicas.

¥ Realizar auto-instruções quando se sentir "em


baixo";

¥ Praticar o auto-reforço - criar narrativas


valorizantes sobre si próprio e a sua acção;

¥ Não sobrevalorizar as derrotas, os insucessos e os


erros;

¥ Atribuir-se prémios - comemorar realizações.

Criatividade e Inteligência Emocional 65


INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

Uma ideia para reflectir:

A forma como perspectivamos coisas simples do


quotidiano, decorrentes das circunstâncias da vida de
cada um, como o emblemático episódio de olhar para um
copo e vê-lo meio cheio ou meio vazio, tem
consequências e implicações mais vastas do que
normalmente estamos habituados a pensar. Na verdade,
vermos o copo meio cheio, pode fazer toda a diferença na
forma como conduzimos os nossos projectos profissionais
e toda a nossa vida.

2.4. FAC TO R E S I N T E R P E S S OA I S DA
INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

Empatia
A pa r t i r do grego
"empatheia", "sentir den-
t r o " , d e s i g n a a c a pa c i -
d a d e pa r a a p r e e n d e r a
experiência subjectiva de
outra pessoa.

2.4.1. Empatia / Reconhecimento das Emoções nos


Outros
"Empatia é ler os senti-
mentos do outro como se É um talento especial para intuir as emoções dos outros e
fosse um livro."
funciona como um radar interno, capaz de captar o que os
Claude Steiner
outros pensam e sentem. Esta habilidade pressupõe a
interpretação de sinais e de reacções subtis, que nos
permitem compreender de forma mais integral o que se

66 Criatividade e Inteligência Emocional


INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

joga na outra pessoa, tanto no plano do pensamento como


no plano das emoções.

Implica grande atenção e sensibilidade na comunicação.

É uma capacidade que envolve algumas operações


fundamentais:

1º Escuta activa - ouvir bem e profundamente


significa ir além do que é dito, significa apreender
dinamicamente uma mensagem, reformulando e
confirmando os sentidos, não se cingindo apenas
ao significado expresso, mas apreendendo a
tonalidade emocional do que é dito de forma a
compreender as reais necessidades do outro;

2º Deslocação do quadro pessoal de referência, para


compreender o que a outra pessoa pensa sobre Comunicação Paradoxal
determinada situação, minimizando projecções e Um caso típico sobre a
preferências interpretativas; forma como percebemos
pistas emocionais:
Quando alguém diz
3º Um profundo contacto com os sentimentos do alguma coisa e a sua
outro, com aquilo que a outra pessoa sente a expressão ou olhar
exprimem uma mensagem
propósito da situação, o que pressupõe "ler" contrária.
estados internos, compreendendo os processos
como se fosse ele próprio, sintonizando-se e
compartilhando o estado da outra pessoa;

4º A leitura atenta de sinais no plano da comunicação "Dissemia"


não verbal. As pessoas empáticas são muito É a incapacidade de inter-
pretar de forma correcta
sensíveis à emissão de sinais não verbais.
os sinais emocionais.
Constituindo o corpo um veículo privilegiado de
sinalização emocional, uma "mapa" das emoções,
pode-se considerar a dificuldade na leitura deste

Criatividade e Inteligência Emocional 67


INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

tipo de sinais, uma diminuição em termos de


aptidão social, uma vez que eles constituem uma
indicação preciosa das necessidades e desejos dos
outros. Raramente as emoções são traduzidas em
palavras, a maior parte das vezes expressam-se de
outras maneiras - pelo silêncio, tom de voz,
alterações posturais, expressão facial, gesto,
tremor subtil, movimentos bruscos, fuga do olhar,
etc.
Quando dizemos que A verdade emocional do que se comunica não está
sentimos empatia com
no que se diz, mas na forma como se diz, em todos
alguém, estamos a dizer
que compreendemos essa os sinais que acompanham a mensagem e que
pessoa profundamente. O registamos, na maior parte das vezes, de forma
que ela pensa e sente faz
uma grande ressonância inconsciente. Deste facto, resulta a estimativa dos
em nós. Sabemos intuiti- investigadores para um peso de cerca de 90% ou
vamente o que está ver-
dadeiramente em jogo e mais para os indicadores emocionais na linguagem
ficamos mais habilitados não verbal;
para comunicar e agir da
forma mais adequada.
5º A Empatia significa compreender e sentir os
sentimentos do outro, não perdendo o foco da
lucidez e objectividade. Implica "destacamento
emocional" e não "fusão emocional". Se esta
condição não é satisfeita, a pessoa não está a
exercer uma empatia construtiva, está a confundir-
-se no universo emocional do outro e corre,
naturalmente, o risco de visão subjectiva, de
enviesamento e confusão emocional.
Se imaginarmos, por exemplo, um formador no seu
desempenho, podemos verificar a importância
desta capacidade, na medida em que ela lhe
permite aceder a informações essenciais na
condução e facilitação do processo de
aprendizagem. No entanto, o seu desempenho e
capacidade de intervenção resultarão sofríveis, se

68 Criatividade e Inteligência Emocional


INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

em vez de manter a objectividade na análise, se


deixar contaminar pela realidade emocional dos
seus formandos.
Caricaturando, se os formandos estão
desmotivados, dispersos e com baixa energia para
dedicarem a atenção necessária à formação, o
formador ficará também contaminado por esse
estado, o que o impedirá de reformular estratégias
para aumentar os níveis de atenção e motivação no
grupo;

6º O desenvolvimento desta capacidade implica o O afecto empático


conhecimento das suas próprias emoções, e só Permite-nos colocar no
ocorre com a produção de um estado relativamente lugar da outra pessoa
para melhor a compreen-
avançado de auto-consciência. Se a pessoa tem dermos.
dificuldade no reconhecimento das suas emoções A empatia é uma janela
e na análise dos motivos que a levam a sentir de pa r a a q u a l i d a d e n a
c o m u n i c a ç ã o e pa r a a
uma determinada maneira, também sentirá a harmonia interactiva.
mesma dificuldade no reconhecimento das
emoções e dos motivos que estão em jogo nos
outros e que os levam a agir de uma certa maneira.

Sugestões de estratégias para o desenvolvimento da


Empatia:

1º Primeiro ouvir, e só depois querer ser ouvido;


Primeiro compreender, e só depois querer ser
compreendido.

2º Desenvolver a escuta dinâmica - centrar a escuta


em dois eixos: a) analítico - no significado do que
se diz; b) no musical - na forma e na tonalidade
emocional do que se diz.

Criatividade e Inteligência Emocional 69


INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

3º Desenvolver a atenção em relação aos sinais não


verbais que compõem o léxico emocional.

2.4.2. H a b i l i d a d e nos Re l a c i o n a m e n to s
Interpessoais e Capacidade para Liderar

Confiança gera confiança. Este factor deriva da empatia e da capacidade de


As emoções são conta- autocontrolo que constituem a base de sustentação da
giosas para o melhor e capacidade para interagir e liderar.
para o pior.
Emoções positivas esti-
mulam as melhores reali- Pessoas com esta habilidade desenvolvida possuem
zações. grande eficiência interpessoal, uma disposição especial
A contribuição de cada na gestão de pessoas, na inspiração e na motivação de
membro do grupo
grupos e em acções de influência. São estrelas sociais e
depende em 1º lugar das
suas qualidades emo- catalisadores poderosos nos grupos, porque
cionais, em 2º lugar da compreendem as particularidades dos seus elementos e
qualidade da liderança
para inspirar acções de sabem como trabalhar estratégias de cooperação
cooperação. potenciando os seus melhores talentos.
Trabalhar em equipa sig-
nifica puxarem todos pela
mesma corda.
Aspectos que se destacam em pessoas com elevada
eficiência interpessoal:

¥ Auto-estima e confiança bem alicerçadas;

¥ Competência comunicacional: assertividade,


capacidade para induzir a pró actividade e
A capacidade de rendi-
mento dos grupos está
afirmatividade nos outros sem jogos de poder,
intimamente relacionada prepotências ou esquemas de desigualdade e
com o seu grau de subserviência;
coesão. Grupos coesos
atingem melhor os seus
objectivos. ¥ Perícia na análise social: um "faro" especial para
Líderes emocionalmente compreender emoções e sentimentos nas outras
i n t e l i g e n t e s f a c i l i ta m e
reforçam esquemas de pessoas, assim como as suas necessidades,
cooperação. desejos e preocupações. Esta percepção certeira

70 Criatividade e Inteligência Emocional


INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

permite-lhes estabelecer com facilidade ligações e


vínculos emocionais;

¥ Capacidade para organizar grupos e liderar:


envolve definição de objectivos, iniciativa,
planificação, motivação e coordenação de esforços
num grupo. Não é o exercício do poder dado pelos
cargos ou pela posição hierárquica, mas a
habilidade para obter do grupo a cooperação
espontânea e as suas melhores realizações;

¥ Mediar conflitos e negociar soluções: implica um


papel de mediador, detectando, prevenindo e
resolvendo conflitos. As características centrais
do mediador são a ética pessoal, a isenção na
análise e a diplomacia. Um bom mediador é
aquele que procura entender diferentes pontos de
vista procurando a convergência de opostos em
pontos comuns, que resultem em benefícios
reconhecidos pelas partes. A sua posição e
convicção interna é "Ganhador-Ganhador",
evitando as situações emocionalmente
descompensadoras do esquema "Vencedor-
Vencido".

Em suma, podemos considerar esta dimensão "Construímos muitos


interpessoal como a síntese e o resultado de um trabalho muros e poucas pontes."

desenvolvido tanto em termos de construção pessoal, Isaac Newton

como de responsabilidade social, na medida em que


concilia aspectos relativos à intimidade do indivíduo e o
coloca numa rede de vivências e responsabilidades
perante os outros.

O desenvolvimento dos dois últimos factores elabora a

Criatividade e Inteligência Emocional 71


INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

integração do indivíduo como sujeito único, investido num


projecto pessoal e em profunda conexão com o meio.

Por último, todas estas questões deveriam servir para


uma reflexão sobre os limites da nossa consciência e
sobre a necessidade da sua expansão, para
questionarmos modelos de relação, sejam eles
profissionais ou pessoais, que assentam em
pressupostos tão cegos e frágeis, que, na maior parte
das vezes, não nos permitem sequer compreender o
que de facto está errado ou certo, ou tão simplesmente
porque razão existem relações que não funcionam. Este
caminho sobre a literacia emocional é "um caminho que
se faz a andar", onde damos hoje um passo, amanhã
outro passo e depois outro passo..., saboreando a cada
passo o caminho que se faz a andar.

"Uma longa viagem começa com um único passo."


Lao-Tsé

72 Criatividade e Inteligência Emocional


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Emoção, Manuais Universitários - Ed. Climepsi,
Lisboa, 1998

76 Criatividade e Inteligência Emocional


FICHA TÉCNICA

Título: Criatividade e Inteligência Emocional

Autoria: Ana Paula Gonçalves

Edição: CECOA

Coordenação: Cristina Dimas

Design e Composição: Altura Data Publishing

Ilustração: T-Raso, Arquitectura, Design e


Publicidade, Lda

Impressão: Ligrate - Atelier Gráfico, Lda

Local de Edição: Lisboa

Data de Edição: Outubro 2005

ISBN: 972-8388-10-1

Depósito Legal: 232907/05

Tiragem: 400 Exemplares

Criatividade e Inteligência Emocional 77


LINHA EDITORIAL CECOA

TÍTULOS DA 1ª COLECÇÃO
Análise Financeira Brasiliano Rabaça

Atendimento Amélia Cascão Arcindo Ferreira Cascão

A Arte de Mostrar Carlos Afonso

Gestão de Espaços Comerciais Pedro Santos Pereira

Gestão de Stocks e Aprovisionamento Octávio Ribeiro

Marketing Maria Clara Almeida

Merchandising Richard Bordone

Negociação Rui Gaspar

Técnicas de Secretariado Maria do Rosário Santa Bárbara

Técnicas de Venda António Silveira Pereira

TÍTULOS DA 2ª COLECÇÃO
Análise Financeira II Rute de Almeida

Comunicação e Imagem na Empresa Daniel Soares de Oliveira

Condução de Reuniões Rosário Lourenço

Consultoria e Gestão da Formação Salomão Vieira

Contabilidade Carlos Mezes

Criatividade e Inteligência Emocional Ana Paula Gonçalves

Dinâmica e Animação de Grupos Carlos Barata

Fiscalidade IRS - IRC Leandro Gustavo Ribeiro

Fiscalidade IVA Leandro Gustavo Ribeiro

Gestão do Tempo e do Stress Natalina Faria

Gestão e Motivação de Equipas Ana Cristina Tralhão

Legislação Laboral Filomena Carias

Planeamento e Controlo de Gestão Álvaro Lopes Dias

Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho Margarida Espiga

Webmarketing Mário Rui Santos

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