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Nome do aluno: Ricardo Menezes Barbosa

Nome do Orador: Paulo Eduardo Arantes


Título da Comunicação/ Evento: Benjamin a (?) um minuto do fim
Nome do Colóquio: II Colóquio Internacional Walter Benjamin – Memória e Atualidade
Organizador(es) do evento: Universidade Federal do Paraná
Local: O colóquio foi realizado virtualmente Data: 17/10/2020
Link: https://www.youtube.com/watch?v=-FJXkQcdfio

Qual a Ideia/ tese principal defendida pelo orador:

Ainda é possível realizar uma hermenêutica da atualidade a partir de Walter


Benjamin? Nesse sentido, seria preciso levantar a questão acerca das continuidades e
descontinuidades do nosso tempo em relação a temporalidade vivida por Benjamin (dado que
o autor morreu em 1940).
No que diria respeito às continuidades, o orador busca evidenciar que, assim como
Walter Benjamin, viveriamos na atualidade um conjunto de experiências onde a visão do
mundo manifesta-se enquanto crise, o que em termos benjaminianos significaria a experiência
do tempo em sua forma apocalíptica.
Contudo, não tendo vivido de fato o tempo do fim (que para Paulo Arantes, baseando-
se na “cronologia” fornecida por Gunther Anders, teria como data agosto de 1945, data do
lançamento das bombas sobre Hiroshima e Nagasaki), é evidente que Benjamin não pôde
incorporar seus acontecimentos subsequentes à sua interpretação da história, e que também
não pôde colocar-se na mesma perspectiva dos intérpretes do fim do mundo, como Adorno,
Horkheimer, Marcuse, Anders, etc.
Tal contraditoriedade do caso benjaminiano, tanto de sua filosofia, quanto de sua
posição enquanto personagem de sua época, seria, entretanto, o que de mais importante
poderia nos oferecer. Enquanto filosófo que deixa a vida no limiar da transição que conheceria
os campos de concentração nazistas, o homem soviético e a bomba atômica, Benjamin é ainda
um mestre da interpretação dos sinais oferecidos por um mundo no limite da transformação, o
que o aproxima, portanto, do nosso tempo.

Quais foram os principais pontos da sua argumentação?

1. Apresentação da discussão

 O apocalipse ontem e hoje: o tempo do fim não experenciado por Walter Benjamin
inicia-se em agosto de 1945 com o lançamento da bomba atômica no fim da segunda
guerra mundial
 Tempo do fim: o tempo do fim não implica no fim do mundo. É, na acepção de Gunther
Anders, uma ideia secular. O ocaso pode ocorrer, mas no momento em que ele
inaugura-se pode ser permanente vivido enquanto tempo do fim. Contudo, no tempo
do fim a inauguração de uma nova era torna-se mais complexa devido ao risco da
bomba atômica, que pode decretar o fim do mundo enquanto um todo.

 Apocalipse: Viver o tempo do fim tornou-se banal, há mesmo gêneros literários para o
grande público especializados nisso. A partir da pandemia, pensar o mundo torna-se,
portanto, mais radicalmente pensar a nós mesmos.

 Uma resposta à Rancière: para Jacques Rancière, não vivemos um tempo do fim, pois
o tempo do fim é já o tempo objetivo do curso do mundo (Hegel) ou tempo do mundo
(Braudel). Assim, teríamos uma oportunidade de libertária de viver num tempo
próprio, que não se confunda com o tempo do mundo.

2. Novos tempos apocalípticos – Princípio do Fim

 O tempo vivido pode assumir a dimensão do tempo do mundo em ocasiões


excepcionais. O tempo vivido atual, por exemplo, é experienciado enquanto tempo do
fim em sua forma pandêmica. Assim, experiênciar o tempo vivido enquanto tempo do
mundo inicia-se a partir da Revolução Francesa, encontrando-se presente em gêneros
como o romance histórico, em que há um entrecruzamento entre o tempo individual e
o tempo político/social. Duas situações podem ser exemplificadas, nesse sentido:
Goethe, ao observar a batalha de Valmy, entre o exército revolucionário francês e as
forças da reação, vê no pobre camponês recrutado o exemplo da primeira vez em que
a vida ordinária de um homem comum entrecruza-se com uma revolução mundial.
Franz Kafka, por outro lado, no início da I Guerra Mundial, e justamente no momento
da declaração de guerra do Império Austro-Húngaro à Inglaterra, consegue unificar em
seu diário a banalidade cotidiana de sua ida a natação à entrada de seu país na guerra.

3. Arqueologia do Tédio

 A metafísica da espera, como desenvolvida por Benjamin nas Passagens é uma espécie
de arqueologia da cultura do século XIX assomada da ideia fundamental de tédio.
Conforma-se, portanto, o tédio como um objeto de investigação para diversos autores,
poetas, etc. Sua unidade reside na acobertação que faz da ideia de espera (Bloch): as
pessoas entendiariam-se pois não sabem ao certo o que esperar. Como forma de
experenciar a passagem do tempo e das expectativas, a espera possui diferentes
vertentes: a vertente francesa reflete a experiência direta do tédio, em sua acepção
mais materialista; a vertente alemã, por sua vez, entende o tédio como uma espreita
ao sublime, i.e., uma aspiração à uma ideia absoluta ainda que indefinida. Em suas
manifestações tipológicas, tais vertentes puderam dar forma à tipos como o flâneur e
o revolucionário, por exemplo. No segundo caso, o tédio aparece como uma antesala
para um ato audacioso, como um precursor de uma revolução social.
4. A metafísica da espera

 No tópico em questão o orador tenta traçar as linhas de influência do pensamento


benjaminiano, seriam elas 1) o messianismo judaico, principalmente no diálogo que
estabelece com Gershom Scholem no contexto de um judaísmo radical da Europa
ocidental, efetuando uma reinterpretação laica da mítica judaica; 2) sua amizade com
o filósofo também judeu e alemão Ernst Bloch, as experiências que realizaram com o
ópio, as leituras que Benjamin fez do amigo e, principalmente, a influência que o
conceito de não-contemporaneidade realizou sobre este a partir da obra Erbschaft
dieser Zeit, de 1935; 3) a influência do surrealismo, principalmente do projeto
desenvolvido por André Breton no L’amour fou, de 1937, em que o objetivo a espera é
a própria espera, ou seja, a espera é mais importante do que o objeto a que se espera,
pois sendo assim, o indivíduo pode abrir-se para a surpresa (esta podendo acontecer
também no sonho).

5. Temporização da história

 Baseando-se em Koselleck, a história é concebida por Arantes enquanto uma distância


entre expectativa e experiência, onde quanto maior a distância entre as duas
referências mais a história torna-se uma realidade. Entretanto, trata-se do quê, tal
espera? O tempo da espera constituiria-se do ciclo que vai da Revolução Francesa ao
fim da União Soviética, portanto haveria em seu conteúdo a esperança e o temor da
revolução, a esperança e o temor da guerra e, desde Hiroshima/Nagasaki, a esperança
e o temor do grande acidente.

6. O júbilo da grande esperança

 Na tentativa de desenvolver a pergunta anterior (do que trata-se a espera), o orador


retoma a visão goethiana do homem ordinário a partir da Revolução Francesa, ou seja,
identifica, a partir daí (do que a historiografia tradicional chama de idade
contemporânea), um momento de entrecruzamento da história e da individualidade,
onde o tempo do mundo pulsa nas pessoas comuns. É possível identificar tal
experiência mesmo a partir da literatura, como fez Georges Steiner interpretando os
romances de Balzac, que abundava de personagens exemplares do novo homme du
monde: ex-militares do exército napoleônico exportadores da revolução francesa,
jovens pobres com sede de mudança, etc. Contudo, a Restauração, a partir de 1815,
corta na raiz a espera que inicia-se em 1789, instaurando enfim o tédio, este que é
aqui entendido em sua dualidade imanente, isto é: entendiar-se significava tanto um
conformismo com a ordem social vigente quanto um impulso destrutivo em relação a
mesma, como na postura satanista de alguns poetas franceses do século XIX. Por fim,
vencedor o aspecto destrutivo da espera, mas entendido pelos hommes du monde do
início do século XX enquanto adesão a I Guerra Mundial, o júbilo da grande esperança
torna-se a própria catástrofe em que aderem os mesmos espíritos outrora
revolucionários.

7. Pior que não morrer de fome é morrer de tédio

 Depois do fim da II Guerra Mundial, que buscava esquecer os supostos acidentes da


história evidenciados naquela catástrofe, o tédio assombra outra vez a França em
1968. O wellfare state não conseguiu criar uma sociedade feliz, assim é possível
perceber no tédio da personagem de Anna Karina em Pierrot le fou, de Godard. A tese
de Paulo Arantes é que os conflitos latentes do pós guerra renascem em seu mal estar
característico em 1968.

8. Angelus novus e as políticas de reparação (quando passado e futuro se encontram


no presente)

 A tentativa de esquecer o mal estar no pós II Guerra fez também com que a visão de
Benjamin do mundo enquanto tempo apocalíptico fosse esquecido. Contudo, a partir
dos anos 90, com o fim das ditaduras do cone sul e da Guerra Fria, ele reaparece
enquanto filósofo da reparação. Tudo passa-se como se o anjo da história
benjaminiano tivesse se tornado um anjo humanitário, voltando sua preocupação
restritamente ao passado. O contraponto do orador é de que tal preocupação não diz
respeito necessariamente a Benjamin: em realidade, são as dores do presente que
buscam no passado o desejo de encontrar a nostalgia perdida no futuro, sendo assim,
uma preocupação apenas com a reparação limita a ação e o pensamento a uma
constante repetição do presente.

Que Textos ou Documentos e Autoridades foram referidos e para que argumentos (cf. supra)?

1. Sobre Apresentação, ver:

 Apresentação de Paulo Arantes no Colóquio 80 anos da morte de Walter Benjamin.


Jornada Walter Benjamin 2020. (https://www.youtube.com/watch?v=05WjbORxf9I)

 ANDERS, Gunther. Burning Conscience: the Case of the Hiroshima Pilot, Claude
Eatherly, Told in his letters to Gunther Anders. 1st ed. Monthly Review, 1962.
 ALEKSIÈVITCH, Svetlana. O Fim do Homem Soviético. 1. ed. São Paulo: Companhia das
Letras, 2016.
 DIAZ, Junot. A Covid é um apocalipse. São Paulo: Folha de São Paulo. [Consult.
03/11/2020] Disponível na internet:
<https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/09/a-covid-19-e-um-apocalipse.shtml>
 RANCIÈRE, Jacques. Em qual tempo vivemos? LavraPalavra [Consult. 03/11/2020].
Disponível na Internet: <https://lavrapalavra.com/2017/06/28/em-qual-tempo-nos-
vivemos/>.
________________. A noite proletários. 1. Ed. Lisboa: Antígona, 2012.

2. Sobre Novos tempos apocalípticos – Princípios do fim, ver:

 KAFKA, Franz. Diários 1909-1912. Porto Alegre: L&PM Editores, 2019.


 LUKACS, Gyorgy. O Romance Histórico. São Paulo: Boitempo Editorial, 2011.
 BLOCH, Ernst. The spirit of utopia. Stanford : Stanford University Press, 2000.
___________. Traces. Stanford : Stanford University Press, 2006.
___________. Le principe espérance. Tome I. Paris : Gallimard, 1997.

3. Sobre Arqueologia do Tédio, ver:

 BUCK-MORSS, Susan. Walter Benjamin, escritor revolucionário. 1. Ed. Buenos Aires:


Interzona Editora, 2005.
 BENJAMIN. Walter. As Passagens de Paris. Trad : João Barrento. Lisboa : Assírio &
Alvim, 2019.
 BOYM, Svetlana. The future of nostalgia. New York : Basic Books, 2001.
 KOSELLECK, Reinhart. Estratos do tempo – Estudos sobre história. 1 ed. Rio de Janeiro:
Contraponto, 2000.
 LUKACS, Georg. História e consciência de classe. 1. Ed. São Paulo: Martins Fontes.

4. Sobre A metafísica da espera, ver:

 BENJAMIN, Walter. The correspondence of Walter Benjamin, 1910-1940 – Edited by G.


Scholem & T. Adorno. Chicago: University of Chicago Press, 1994.
________________. Infância berlinense por volta de 1900. In: Obras escolhidas II. São
Paulo: Editora Brasiliense, 1987. p. 71-143.
 BRETON, André. O amor louco. 1. Ed. Lisboa: Antígona, 2019.
 CRARY, Jonathan. 24/7 – O capitalismo tardio e os fins do sono. 1. Ed. Lisboa: Antígona,
2018.
 PROUST, Marcel. À la recherche du temps perdu. Ed. Digital. Québec : La bibliothéque
électronique du Québec (Cette édition numérisée reprend le texte de l’édition
Gallimard, Paris, 1946-47).
 GAGNEBIN, Jeanne Marie. Limiar, aura e rememoração: ensaios sobre Walter
Benjamin. São Paulo: Editora 34, 2014.

5. Sobre a Temporização da história, ver:

 STEINER, Georges. No castelo de Barba Azul – Algumas notas para a redefinição da


cultura. São Paulo: Companhia das letras, 1991.
 BRECHT, Bertold. A vida de galileu. In: Teatro Completo Vol. 6. 3. Ed. São Paulo. Paz e
Terra, 1991.
 VIRILIO, Paul. Velocidade e política. São Paulo: Estação da Liberdade, 1977.

6. Sobre O júbilo da grande esperança, ver:


 ADORNO, Theodor. Minima moralia. Lisboa: Edições 70
 BALZAC, Honoré de. La comédie humaine. Paris : Garnier, 2009.
 BULL, Malcolm. Seeing things hidden – apocalypse, vision and totality. London : Verso
Books, 2000.
 KRAUS, Karl. Os últimos dias da humanidade. Lisboa: Antígona, 2003.
 GUMBRECHT, Hans Ulrich. Uma rápida emergência do “clima de latência”. SciElo
[Consult. 03/11/2020]. Disponível na Internet: https://www.scielo.br/scielo.php?
script=sci_arttext&pid=S2237-101X2010000200303

7. Sobre Pior que não morrer de fome é morrer de tédio, ver:

 LE GOFF, Jacques. Mai 68 – l’héritage impossible. Paris : La découverte, 2006.


 GODARD, Jean-Luc. Pierrot le fou. Films Georges de Beauregard, 1965.

O que achou eficaz na retórica do orador?

Além de evidenciar bem a tese central que pretende tratar, o orador consegue fazer
uma gênese extremamente rica dos conceitos evidenciados, utilizando-se de autores de
diversos campos do saber. O fato de não tratar a bibliografia de forma linear no que diz
respeito a sua cronologia, mostra não só um boa capacidade oratória, sabendo intercalar
momentos de digressão com momentos de ênfase nas ideias centrais, como uma relação
orgânica entre forma e conteúdo, onde a própria tese do entrelaçamento entre tempo vivido e
tempo do mundo é expressa através do discurso do orador em sua não-contemporaneidade,
ou seja, organizando sua conferência em tópicos que expressam momentos singulares da
arqueologia do tédio onde a ideia de uma evolução dá lugar uma convivência entre as diversas
temporalidades na qual a tentativa do pesquisador é interpretar esse tempo que nunca é nos
oferecido na translucidez que supõem os fatos históricos.

O que achou pouco eficaz/ ineficaz na retórica do orador?

A conferência não pretende-se enquanto aula sobre Walter Benjamin. Nesse sentido,
há pouco viés acadêmico ou pedagógico e mais um caráter ensaístico. Assim, é possível que
algumas referências sejam abordadas mais superficialmente que outras. No caso das
referências bibliográficas, tal abordagem dificulta na pesquisa das fontes.