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TEORIA LITERÁRIA II AULA 3 PROFª MARCELLA

A Poética de Aristóteles

1. Das produções miméticas

1.1. Da diferença segundo o meio

“De fato, assim como alguns mimetizam muitas coisas, apresentando-as em imagens por
meio de cores e esquemas (em função da arte ou do hábito); outros o fazem por meio do som, tal
como nas artes aqui mencionadas: todas elas efetuam a mimese por meio do ritmo, da linguagem
e da melodia, quer separadamente ou em combinações. Por exemplo, a aulética e a citarística, e
outras artes que se adaptam à mesma dinâmica, como siríngica, empregam apenas a melodia e o
ritmo; a arte dos dançarinos mimetiza só com o ritmo, sem melodia (pois, com efeito, por meio de
figurações rítmicas mimetizam personagens, afecções e ações).

“A arte que emprega apenas os discursos em prosa, desprovidos de acompanhamento, ou


os versos — estes quer combinando métricas entre si, quer utilizando um único gênero de métrica
—, permanece, até o presente, anônima. De fato, não temos um nome comum para designar os
mimos de Sófron e de Xenarco, e os diálogos socráticos, quanto menos para designar a mimese
elaborada por meio de trímetros, ou de versos elegíacos, ou de quaisquer outros do mesmo
gênero. À exceção daqueles homens que relacionam a composição poética à métrica e assim
nomeiam uns poetas de elegíacos, outros de poetas épicos, designando-os pelo nome comum à
métrica utilizada e não em função da mimese efetuada. De fato, tem-se o costume de nomear
desse modo aqueles que expõem, por meio da métrica utilizada, uma questão médica ou
científica; mas não há nada em comum entre Homero e Empédocles, exceto a métrica; eis por
que designamos, com justiça, um de poeta, o outro de naturalista em vez de poeta.” pp. 39-45

1.2. Da diferença segundo o objeto

“Visto que aqueles que realizam a mimese mimetizam personagens em ação, é necessário
que estes sejam de elevada ou de baixa índole (as personagens seguem quase sempre esses
dois únicos tipos, pois é pelo vício e pela virtude que se diferenciam todos os caracteres), em
verdade ou melhores do que nós, ou piores, ou tais quais — assim como fazem os pintores:
Polignoto retrata personagens melhores; Pauson, piores; Dionísio, semelhantes —, pois é
evidente que cada uma das mimeses mencionadas se apoiará nessas distinções, e será diferente
na medida em que se mimetizam, nesse sentido, objetos diferentes. De fato, essas
dessemelhanças podem se apresentar na dança, na aulética e na citarística; e também no que diz
respeito às obras em prosa e à poesia sem acompanhamento musical: por exemplo, Homero
mimetizou personagens melhores; Cleofão, semelhantes; Hegêmon de Taso, o primeiro a

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escrever paródias, e Nicócares, autor da Delíada, personagens piores. No que tange aos
ditirambos e aos nomos acontece da mesma forma, pois alguém poderia mimetizar como ocorre
com efeito em Timóteo e em Filóxeno em seus Ciclopes. É sob essa mesma diferença que
repousa a distinção entre comédia e tragédia, ou seja, na medida em que uma quer mimetizar
personagens piores e a outra melhores do que de fato são.” pp. 47-51

1.3. Da diferença segundo o modo

“Além dessas, há uma terceira diferença: o modo como alguém poderia mimetizar cada
uma dessas artes. Pois é possível mimetizar com os mesmos meios e com os mesmos objetos,
ou pela via de narrações — tornando-se outro, como faz Homero, ou permanecendo em si mesmo
sem se transformar em personagens —, ou pela via do conjunto das personagens que atuam e
agem mimetizando. Essas são, desde o início, as três diferenças que se aplicam à mimese: os
meios, os objetos e o modo. Assim, Sófocles seria, em certo sentido, o mesmo tipo de artista
mimético que Homero, pois ambos mimetizam personagens nobres; em outro sentido, o mesmo
que Aristófanes, pois ambos mimetizam personagens que agem e dramatizam.” pp. 51-53

2. Da tragédia

“É pois a tragédia a mimese de uma ação de caráter elevado, completa e de certa


extensão, em linguagem ornamentada, com cada uma das espécies de ornamento distintamente
distribuídas em suas partes; mimese que se efetua por meio de ações dramatizadas e não por
meio de uma narração, e que, em função da compaixão e do pavor, realiza a catarse de tais
emoções.” pp. 71-73

2.1. Da importância relativa das seis partes da tragédia

“ A mais importante dessas partes é a trama dos fatos, pois a tragédia é a mimese não de
homens, mas das ações e da vida [a felicidade e a infelicidade se constituem na ação, e o objetivo
visado é uma ação, não uma qualidade; pois, segundo os caracteres, os homens possuem
determinadas qualidades, mas, segundo as ações, eles são felizes ou o contrário. Então, não é
para constituir caracteres que aqueles que atuam se dedicam à mimeses, os caracteres é que são
introduzidos pelas ações. Assim sendo, os fatos e o enredo constituem a finalidade da tragédia, e
a finalidade é, de tudo, o que mais importa.” pp. 79-81

2.2. Da unidade da ação

“Assim, tal como em outras artes miméticas, é necessário que haja mimese de um único
evento, como ocorre com o enredo, que é a mimese de uma ação, ou seja, de uma ação única

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que forma um todo. De fato, aquilo que é acrescido ou suprimido sem que se produza qualquer
consequência apreensível não é parte do todo.

“Também fica evidente, a partir do que foi dito, que a tarefa do poeta não é a de dizer o
que de fato ocorreu, mas o que é possível e poderia ter ocorrido segundo a verossimilhança ou a
necessidade. Com efeito, o historiador e o poeta diferem entre si não por descreverem os eventos
em versos ou em prosa (poder-se-ia apresentar os relatos de Heródoto em versos, pois não
deixariam de ser relatos históricos por se servirem ou não dos recursos da metrificação), mas
porque um se refere aos eventos que de fato ocorreram, enquanto o outro aos que poderiam ter
ocorrido. Eis por que a poesia é mais filosófica e mais nobre do que a história: a poesia se refere,
de preferência, ao universal; a história, ao particular. Universal é o que se apresenta a tal tipo de
homem que fará ou dirá tal tipo de coisa em conformidade com a verossimilhança ou a
necessidade; eis ao que a poesia visa, muito embora atribua nomes às personagens. Particular é
o que fez Alcibíades ou o que lhe aconteceu.”

2.3. Dos caracteres — verossimilhança e necessidade

“Quanto aos caracteres, quatro são os pontos que devem ser visados. O primeiro, e o
principal, é que sejam bons. Como dissemos, terá caráter se sua palavra ou seu ato tornarem
manifesta uma escolha; e o caráter for bom se a escolha for boa. Existe um ‘bom caráter’ para
cada gênero de personagem: com efeito, há um ‘bom caráter’ de mulher e um de escravo, ainda
que, desses, talvez o primeiro pertença a uma classe inferior e o segundo a uma classe
totalmente abjeta. O segundo ponto a se visar é a conveniência; de fato, é possível atribuir
coragem à caracterização da personagem, mas seria inconveniente atribuir coragem ou espírito
destemido a uma mulher. O terceiro ponto é a semelhança, pois, como foi dito, isso é diferente de
atribuir à caracterização da personagem bondade e conveniência. Em quarto lugar vem a
coerência; pois, ainda que a caracterização da personagem seja incoerente em suas ações
mimetizadas, é necessário, ainda assim, ser incoerente coerentemente.” pp. 125-127

“Tanto na caracterização das personagens quanto na trama dos fatos é preciso sempre
procurar o necessário ou o verossímil, de tal modo que tal personagem diga ou faça tais coisas
por necessidade ou por verossimilhança e que isso se realize após aquilo também por
necessidade ou verossimilhança.

“É então evidente que o desenlace do enredo deve surgir do próprio enredo e não da
intervenção do deus ex machina, tal como ocorre na Medeia e na Ilíada, no momento do
desembarque (…).” pp. 129-131

“Uma vez que a tragédia é a mimese de homens melhores que nós, é necessário
mimetizar seguindo o exemplo dos bons retratistas; pois estes, no afã de recuperar a imagem
ideal, embora respeitando as semelhanças, desenham retratos ainda mais belos.” p. 131

Referência bibliográfica: Aristóteles. Poética. Trad. Paulo Pinheiro. São Paulo: Editora 34, 2017.
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