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Publicado em NOVA ESCOLA Edição 219, 15 de Janeiro | 2009

Planejamento

Escrita profissional: a
importância dos registros
feitos pelos professores
Do planejamento à avaliação, a documentação é uma
ferramenta indispensável para organizar, analisar e
reavaliar a prática docente
Luiza Andrade

PREVENIR FATOS Maria Cena, de Serra Pelada, identifica as situações


que podem acontecer em sala. Foto: Salviano Machado

Para quem dá aulas, o registro representa muito mais que um roteiro de aula
ou uma enumeração de atividades desenvolvidas com a turma. Escrever
sobre a prática faz pensar e ref letir sobre cada decisão que foi ou será
tomada, permitindo aprimorar o trabalho diário e adequá-lo com frequência
às necessidades dos alunos.

O que não falta no dia a dia do professor são oportunidades para colocar
ideias e ref lexões no papel - ou na tela do computador. Ao fazer o
planejamento, por exemplo, ele pode antecipar o que pretende alcançar em
sala e pensar em como trabalhar com o grupo. "Sem essa ref lexão, o docente
corre o risco de estar sempre improvisando", diz Paula Stella, coordenadora
pedagógica do Centro de Educação e Documentação para Ação Comunitária
(Cedac), em São Paulo.

Leia mais sobre Planejamento na sala de aula

Já ao elaborar registros ou anotações depois das aulas, é possível se


questionar sobre o que aconteceu em classe e identificar as conquistas da
turma e os conteúdos que ainda precisam ser mais bem trabalhados. "Ao
escrever, é inevitável que surjam perguntas sobre se a organização da sala
colaborou ou não para atingir os objetivos desejados. O saldo da avaliação
serve de base para o planejamento de ações futuras", afirma Paula. É preciso,
porém, diferenciar os vários tipos de registro. Segundo o educador espanhol
Miguel Zabalza, "há aqueles com características basicamente burocráticas.
São os que contêm apenas os temas abordados, as presenças e as faltas. Seu
valor é relativo e têm pouco a ver com a qualidade do trabalho docente". Os
mais interessantes são os que se referem às discussões críticas da turma,
apresentam observações sobre o processo de ensino e aprendizagem,
reproduzem frases das crianças e reúnem exemplos da produção. "Ou seja,
são os que permitem construir o círculo da qualidade de ensino: planejar,
realizar, documentar, analisar e replanejar", completa Zabalza.

Criar um ciclo como esse - em que os registros das aulas alimentam novos
planejamentos, dos quais nascem projetos enriquecidos - não é tarefa
simples. De acordo com a educadora Madalena Freire, uma das maiores
dificuldades é inserir essa prática na rotina como uma tarefa indispensável:
"A escrita ref lexiva é uma arma de apuração do pensar. E, para fazê-la, é
preciso reservar tempo". Outro desafio é o uso que se faz dessa
documentação. Ela já é válida por si só, mas ganha outra dimensão quando
compartilhada com o coordenador pedagógico (leia o quadro abaixo).

Em parceria é melhor

Em cada uma das escritas reflexivas feitas pelo professor, há elementos


para que ele cresça como profissional e melhore seu desempenho, desde
que elas sejam compartilhadas com um formador que o oriente. Esta é
uma das mais importantes funções do coordenador pedagógico:
enxergar as conquistas dos membros da equipe e as dificuldades que
cada um enfrenta em sala de aula para escolher a melhor maneira de
orientá-los. É o que relata Regina Scarpa, coordenadora pedagógica da
Fundação Victor Civita (FVC), no livro Era Assim, Agora Não...: "As
intervenções que (eu) realizava (como coordenadora pedagógica) tinham
como objetivo fornecer aos professores novas informações e critérios
para que assim reavaliassem sua prática pedagógica, reinterpretando-a
agora com novos referenciais". Pensando nisso, professores e
coordenadores da EM Dr. Euzébio Dias Bicalho, em São Gonçalo do Rio
Abaixo, a 84 quilômetros de Belo Horizonte, aproveitam reuniões
periódicas para avaliar os registros e colocar melhorias em prática. A
professora Edilene Chaves Conazart faz parte do grupo e conta que
juntos eles percebem conquistas, limites e obstáculos. Em uma ocasião, a
coordenadora pedagógica Arethusa da Costa Carvalho Assis pediu que
ela registrasse mais que os alunos falavam durante as atividades. "Depois
dessa conversa, os relatórios ficaram mais ricos e foi possível dar mais
atenção a conteúdos como a participação das crianças nos grupos e a
cooperação entre elas", conta Edilene. "Senti falta também de relatos
sobre as atividades de História e Geografia", lembra Arethusa. Essa dica
serviu para que a professora desse mais atenção a essas disciplinas, já
que a tendência dela era propor mais trabalhos com Língua Portuguesa.
Juntas elas preparam o gráfico de rendimento dos estudantes e analisam
os avanços da turma.

Os registros podem ser: planejamento (atividade permanente, sequência


didática e projeto didático), de classe (notas, pautas de observação e diários) e
avaliação (relatórios individuais e coletivos). Alguns são mais usados, como os
diários, que, pela sua flexibilidade, permitem cobrir diversos propósitos. "Eles
podem ser documentos pessoais para descarregar as próprias tensões; um
instrumento de observação, que sirva de espaço para documentar as
situações interessantes que ocorrem em classe; um dispositivo que auxilie no
planejamento do trabalho do professor com o projeto educativo em vigor; ou
um recurso de investigação para analisar os dados que se queira estudar",
esclarece Zabalza.

Conheça os vários tipos de registro e a melhor maneira de elaborá-los.

Planejamento

A professora Maria Lima Cena, da 2ª série da EMEF Ângela Bezerra, em Serra


Pelada, a 800 quilômetros de Belém, faz o planejamento de todas as aulas.
"Comecei a programar o que ia falar aos alunos no encaminhamento das
atividades. Enquanto escrevia, previa situações que poderiam acontecer",
conta Maria. De acordo com os objetivos de ensino, é possível prever
diferentes modalidades organizativas dos conteúdos:

ATIVIDADE PERMANENTE

O que é: Trabalho didático realizado regularmente (diária, semanal ou


quinzenalmente), como ler para os alunos, organizar rodas de conversa
e reservar uma aula da semana para a produção de pinturas e desenhos
no ateliê.
Objetivos: Familiarizar a turma com um conteúdo e formar hábitos. Ao
fazer leituras diárias, por exemplo, as crianças aprendem sobre a
linguagem escrita e desenvolvem comportamentos leitores.
Organização: Prever objetivos, conteúdos, duração da atividade,
materiais necessários e como será feita a avaliação.
Como usar: Realizar atividades permanentes não significa fazer sempre
a mesma coisa. A proposta deve ser empregada com regularidade
durante o ano ou um semestre e oferecer novos desafios (rodas de
leitura em que livros cada vez mais difíceis são lidos pelo professor).

SEQUÊNCIA DIDÁTICA

O que é: Série de atividades envolvendo um mesmo conteúdo, com


ordem crescente de dificuldade, planejadas para possibilitar o
desenvolvimento da próxima.
Objetivo: Ensinar conteúdos que exijam tempo para aprender e
aprofundamento gradual, como o reconhecimento das características
de uma paisagem brasileira em Geografia, uma série de experiências
para observar a ação de micro-organismos em Ciências ou a leitura da
obra de um autor em Língua Portuguesa.
Organização: Prever a ordem em que as atividades serão propostas, os
objetivos, os conteúdos, os materiais, as etapas do desenvolvimento, a
duração e a maneira como será feita a avaliação.
Como usar: A maioria dos conteúdos exige tempo para aprender. Por
isso, a sequência didática é a modalidade organizativa mais presente no
planejamento. Escolher os conteúdos mais importantes, organizar a
série, garantindo a continuidade, e distribuí-los durante o ano. O
número de atividades de cada sequência é variado, assim como o
tempo de duração (ambos dependem do objetivo e da resposta da
turma às propostas).
PROJETO DIDÁTICO

O que é: Conjunto de ações para a elaboração de um produto final que


tenha uso pela comunidade escolar. Uma de suas características é
envolver a turma em todas as etapas do planejamento.
Objetivo: Reunir conteúdos abrangentes, atingindo propósitos didáticos
e sociais. Um projeto de leitura e escrita, por exemplo, em que os
estudantes fazem um livro de receitas ensina a ler e escrever e trabalha
com valores nutricionais. Pode ter como meta mostrar à comunidade
como aproveitar as frutas regionais.
Organização: Prever os momentos de planejamento e de discussão em
grupo e os de trabalhos individuais. Colocar justificativas, aprendizagens
desejadas,etapas do desenvolvimento, produção, maneiras de divulgar
o produto final, duração e avaliação final.
Como usar: A duração é variada, mas sempre ocupa dois meses ou
mais. Por isso, o ideal é propor um ou dois por ano para cada turma.
Desenvolve-se o conjunto das atividades do projeto sem abandonar as
atividades permanentes e as sequências didáticas.

Registros de classe

Notas, pautas de observação e diários ajudam a acompanhar o


desenvolvimento dos alunos e são uma fonte de aprendizado para o
professor. Juliana Diamente, que dá aulas para a 1ª série da EE Professor
Flávio Xavier Arantes, em Guarulhos, na Grande São Paulo, elabora pautas de
observação ao menos seis vezes por ano: "Com elas, consigo verificar a
evolução da turma ao longo do ano e ganho dados para fazer avaliações".
Conheça os modelos de registros de classe:

NOTAS

O que são: Anotações curtas feitas nas aulas, como frases, comentários
dos alunos, perguntas e dúvidas levantadas por eles, conteúdos a serem
pesquisados, informações para checagem etc.
Objetivo: Lembrar momentos importantes e não perder dados
significativos do processo de ensino e aprendizagem.
Organização: Deixar sobre a mesa uma prancheta, sulfites e canetas.
Não é preciso se preocupar com a ordem nem com a profundidade dos
apontamentos.
Como usar: Elas serão a base de planejamentos futuros, relatórios mais
detalhados sobre projetos ou atividades e dos relatórios de avaliação
dos alunos.
PAUTAS DE OBSERVAÇÃO

O que são: Tabelas de duas ou mais entradas, nas quais aparecem o


nome dos alunos e os conteúdos didáticos ou atitudinais a ser
observados.
Objetivo: Acompanhar a evolução do aprendizado de um ou mais
conteúdos ao longo do ano.
Organização: Tabular os nomes e os as pectos a serem analisados.
Legendar a tabela com conceitos ou cores referentes a um estágio de
aprendizagem. Preencher durante ou logo após a atividade.
Como usar: De tempos em tempos, é preciso fazer a análise e a
comparação das tabelas. Quanto maior a frequência com que elas
forem preenchidas e analisadas, mais informações se tem sobre o
avanço de cada estudante e mais rápido é possível fazer intervenções.

DIÁRIOS DE AULA

O que são: Narrativas sobre o que aconteceu na sala de aula, tanto em


relação a comentários e produções dos alunos como em relação a si
mesmo (impressões e ref lexões).
Objetivos: Ref letir sobre o planejamento e sua adequação às
necessidades dos alunos, ter pistas sobre os rumos que se pode tomar,
documentar o trabalho feito com a turma e aprofundar ideias para
serem usadas no futuro.
Organização: Ter um caderno reservado para o diário (ou um arquivo
no computador) e escrever nele logo depois da aula, ou nos dias
posteriores, para que os fatos não sejam esquecidos. O mais importante
é registrar o maior número possível de dados, sempre ref letindo e
avaliando a prática pedagógica e não apenas listando as atividades.
Como usar: Uma das principais utilidades é o compartilhamento com o
coordenador pedagógico, que poderá, com base nas ref lexões do
docente, ajudar a reavaliar sua prática pedagógica. O ideal é escrever
com frequência e recorrer aos diários quando planejar e avaliar.

Avaliação

Reunir o material produzido por cada aluno e relembrar as vivências em sala


para fazer um relatório requer dedicação. A professora Simone Figliolino, da
EMEF Zilka Salaberry de Carvalho, em São Paulo, vê nesse documento que
prepara regularmente para mandar aos pais uma forma de relacionar a
teoria com a prática: "Depois de algum tempo, retorno a eles e aprendo com
as situações".

RELATÓRIO

O que é: Avaliação do desempenho de uma criança ou do grupo


durante um determinado período.
Objetivo: Documentar o desempenho dos estudantes para comunicar
às famílias as aprendizagens.
Organização: Pautas de observação, notas e diários são fundamentais
na hora de elaborar os relatórios. Nas escolas onde não há um modelo,
uma dica é começar com um breve relato do que foi trabalhado com a
turma naquele período. Em seguida, para cada aluno, relatar como foi o
avanço global em relação aos objetivos iniciais. Vale lembrar que
elementos como falas e desenhos enriquecem o registro e facilitam o
diálogo com a família. O coordenador pedagógico deve aparecer como
corresponsável pelo documento, com quem o professor compartilha o
material e ref lete sobre ele.
Como usar: Cada escola trabalha com uma periodicidade para enviar a
avaliação aos pais - bimestral, trimestral ou semestralmente. Em todos
os casos, é preciso começar a produção dos relatórios com
antecedência, pois o detalhamento requer tempo e reflexão.

Reportagem sugerida pelas leitoras

CRISTIANE GIULI, São Paulo, SP, e MARIA APARECIDA DA SILVA, Marília,


SP.

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EMEF Zilka Salaberry de Carvalho, R. Antônio da França e Horta, 35,
02652-110, São Paulo, SP, tel. (11) 2258-1001
Madalena Freire, madalenafreire@gmail.com
Miguel Zabalza, zabalza@usc.es
Paula Stella, paula@escolaquevale.org.br

BIBLIOGRAFIA
Diários de Aula - Um Instrumento de Pesquisa e Desenvolvimento
Profissional, Miguel Zabalza, 160 págs., Ed. Artmed, tel. 0800-703-3444,
36 reais
Era Assim, Agora Não..., Regina Scarpa, 128 págs., Ed. Casa do Psicólogo,
tel. (11) 3034-3600 , edição esgotada
NOVA ESCOLA Planejamento, edição especial já à venda nas bancas,
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