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Escola de Engenharia da Universidade do Minho

D e p a r t a m e n t o d e E n g e n h a r i a C i v i l

Estruturas de Madeira

Versão 1

Eng. º Jorge Branco


Estruturas de Madeira

ÍNDICE

Verificação da Segurança 4-10

Estados Limite de Utilização 11-14

Lamelados Colados 15-22

Tracção e Compressão 23-25

Flexão 26-31

Corte e Torção 32-37

Colunas 38-43

Disposições Construtivas 45-52

Jorge Branco - DECivil 3


Estruturas de Madeira

Verificação da Segurança

1. Introdução

O regulamento em vigor para a definição e quantificação das acções a considerar na


verificação da segurança das estruturas de edifícios e de pontes é o RSA (Regulamento de
Segurança e Acções para Estruturas de Edifícios e Pontes). No entanto, justifica-se a
necessidade do presente capítulo, pelos aspectos particulares do cálculo de estruturas de
madeira, como é exemplo a influência da duração da carga.

2. Conceitos gerais

Vida útil das construções: corresponde ao período de tempo para o qual se projectou
a estrutura. Corresponde assim, ao período de tempo de referência em relação ao
qual são estabelecidas as condições de segurança e quantificados os valores das
acções. Na Tabela 1, apresentam-se as classificações definidas pelo CEB 1990 [1].

Tabela 1 – Classificação da vida útil, para efeitos de cálculo [1]

Classe Vida útil (Anos) Exemplo

1 1a5 Estruturas provisórias

2 25 Elementos estruturais substituíveis

3 50 Edifícios e estruturas em geral

4 100 Pontes e Obras Públicas

Situações de cálculo: ao longo da vida útil das construções, ocorrem distintas


situações de cálculo, nomeadamente:

Situações persistentes, relativas a condições normais de utilização;

Situações transitórias, relativas a condições provisórias, como por exemplo


durante a fase de construção;

Situações acidentais, relativas a condições excepcionais como incêndios ou


impactos.

Classes de serviço: destinam-se fundamentalmente a definir as propriedades


mecânicas dos materiais e a permitir o cálculo das deformações, em determinadas
condições ambientais. As estruturas devem ser incluídas numa das classes de
serviço indicadas seguidamente:

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Classe de serviço 1, caracterizada por um teor de água dos materiais


correspondentes ao teor de água de equilíbrio para um ambiente caracterizado
por uma temperatura de 20ºC e uma humidade relativa do ar ambiente
excedendo 65% somente durante algumas semanas por ano (locais cobertos e
fechados);

Classe de serviço 2, caracterizada por um teor de água dos materiais


correspondentes ao teor de água de equilíbrio para um ambiente caracterizado
por uma temperatura de 20ºC e uma humidade relativa do ar ambiente
excedendo 85% somente durante algumas semanas por ano (locais cobertos e
piscinas);

Classe de serviço 3, caracterizada por condições climáticas conduzindo a


valores do teor de água dos materiais superiores aos que se verificam na classe
de serviço 2 (locais ao ar livre).

Classificação das acções: esta classificação poderá ser realizada atendendo a


diversos critérios, sendo o mais utilizado, o da variação da magnitude das cargas:

Acções permanentes (G), assumem valores constantes, ou com pequena


variação em torno do seu valor médio, durante toda ou praticamente toda a vida
da estrutura. É exemplo o peso próprio dos elementos estruturais;

Acções variáveis (Q), assumem valores com variação significativa em torno do


seu valor médio durante a vida da estrutura. São exemplos, a acção do vento e
as sobrecargas de utilização;

Acções de acidente, são aquelas que só com muita fraca probabilidade


assumem valores significativos durante a vida da estrutura, cuja quantificação
apenas pode em geral ser feita por meio de valores nominais estrategicamente
escolhidos. São exemplos, as explosões e os choques de veículos.

A classificação das acções de acordo com a sua duração (permanente, longa


duração, média duração e curta duração) têm uma importância especial no caso de
estruturas de madeira, visto ser um material muito mais dependente do factor tempo
que os restantes materiais de construção.

Estados limite: entende-se por estado limite um estado a partir do qual se considera
que a estrutura fica prejudicada total ou parcialmente na sua capacidade para
desempenhar as funções que lhe são atribuídas. Os estados limite a considerar na
verificação da segurança são de dois tipos:

Estados limite últimos (ELU), cuja ocorrência provoca prejuízos muito


severos, são exemplos a rotura e a deformação excessiva;

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Estados limite de utilização (ELS), cuja ocorrência provoca prejuízos


pouco severos, são exemplos a deformação e a vibração.

Combinação das acções: para a verificação da segurança em relação aos diferentes


estados limite devem ser consideradas as combinações das acções cuja actuação
simultânea seja verosímil e que produzam na estrutura os efeitos mais
desfavoráveis. Note-se que as acções permanentes devem figurar em todas as
combinações.

3. Regras de dimensionamento

Deve-se verificar que nenhum estado limite pertinente seja excedido tendo em conta todas
as situações de projecto e casos de carga apropriados. Muitas das vezes, os estados limite
referentes ao processo construtivo são mais severos que os referentes à obra já em
utilização. Para a verificação dos estados limite, (ELU e ELS), geralmente, comprova-se a
validade da desigualdade:
Sd < R d (1)
Em que Sd é o valor de cálculo de um esforço actuante, ou de um conjunto de esforços, e Rd
é o valor de cálculo do esforço resistente correspondente.

3.1. Valores de cálculo das propriedades dos materiais

A madeira perde, sob carregamento de longa duração, até cerca de 40% da sua capacidade
resistente instantânea inicial [2]. É óbvio que esta especificidade deste material exige a
consideração de parâmetros particulares, por forma a atender à influência da duração da
carga. O efeito da duração da carga nas propriedades mecânicas é materializado por um
factor de modificação da resistência kmod. Este traduz igualmente o efeito do teor de água e é
usado como um coeficiente (geralmente redutor) das propriedades mecânicas instantâneas
referidas a um teor em água de 12%.
Assim, o valor de cálculo Xd de uma propriedade de um material vem definido como:
X d = k mod ⋅ X k γ M (2)
kmod – factor de correcção que tem em conta o efeito, parâmetros de resistência dos
materiais, da duração das acções e do teor de água dos materiais (Quadro
3.1.7-EC5).
Xk – valor característico da propriedade do material.

γM – coeficiente parcial de segurança para a propriedade do material, Tabela 2.

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Tabela 2 – Coeficientes parciais de segurança relativos


às propriedades materiais [3]
γM
Estado Limite Últimos

Madeira e derivados da madeira 1.3

Aço usado nos ligadores 1.1

Combinações acidentais 1.0

3.2. Acções
3.2.1. Permanentes

As acções permanentes têm origem nos pesos próprios da estrutura e de todos os seus
elementos que possuam carácter permanente. Os revestimentos, os isolamentos e todo o
género de acabamentos são considerados como cargas permanentes.

Os valores das cargas permanentes calculam-se a partir das dimensões nominais dos
distintos componentes da estrutura utilizando os pesos volúmicos dos materiais que os
constituem. Os pesos volúmicos dos materiais deverão ser fornecidos pelos fabricantes, ou
em caso de dúvida, recorrer-se-á à bibliografia especializada.
No caso da madeira, e desde que se utilize madeira classificada, esses valores estão
descritos na norma europeia EN 338.

Como exemplo o nosso Pinheiro Bravo (pinus pinaster) apresenta um valor característico
para a massa volúmica de 460 ou 490 kg/m3, de acordo com a classe a que pertence, E ou
EE, respectivamente [4].

3.2.2. Sobrecargas de uso

As sobrecargas de uso estão directamente relacionadas com a utilização dos edifícios, como
são as cargas de pessoas, veículos, arquivos, materiais armazenados, etc. De um modo
geral, as sobrecargas de uso estão divididas em quatro classes de acordo com a natureza da
superfície em causa: coberturas, pavimentos, varandas e acessos. Existe ainda uma
distinção em função do uso: público ou privado. Os valores para as sobrecargas de uso,
específicas de edifícios, estão contempladas no capítulo VIII do RSA.

3.2.3. Vento

A acção do vento é variável com o tempo tendo por isso, um efeito estático e outro dinâmico.
A componente dinâmica pode tornar-se significativa em edifícios flexíveis e esbeltos, com
uma altura superior a três vezes a sua largura. Na maioria das estruturas a componente
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dinâmica é desprezável, considerando-se apenas a componente estática. Nos casos


correntes, a determinação dos esforços devidos ao vento é efectuada de forma simplificada,
supondo aplicadas às superfícies da construção pressões estáticas obtidas multiplicando a
pressão dinâmica do vento (art.º 24), por adequados coeficientes aerodinâmicos, coeficientes
de forma (art.º 25) [5].

3.2.4. Neve

A acção da neve pode, em geral, ser considerada como uma carga distribuída cujo valor
característico, por metro quadrado em plano horizontal, Sk, é dado pela expressão:
s k = µ s ok (3)
Em que Sok representa o valor característico, por metro quadrado, da carga da neve ao nível
do solo e µ é um coeficiente que depende da forma da superfície sobre a qual se deposita a
neve [5].

3.3. Estados limite últimos - ELU

As combinações das acções que devem ser consideradas, na verificação dos estados limite
últimos, são de dois tipos:
Combinações Fundamentais, que correspondem a situações de projecto
persistentes transitórias:

∑γ G,j
⋅ GK , j + γ Q1 ⋅ Qk ,1 + ∑γ
i >1
ψ 0 ,i QK ,i
Q ,i (4)

Combinações Acidentais, que correspondem a situações de projecto acidentais:

∑γ GA , j
⋅ GK , j + Ad + ψ 1,1 ⋅ Qk ,1 + ∑ψi >1
2 ,i
QK ,i (5)

Com: Gk,1 - valor característico das acções permanentes;


Qk,1 - valor característico de uma das acções variáveis;
Qk,i - valores característicos das outras acções variáveis;
Ad - valor de cálculo (valor especificado) da acção acidental;
γGj - coeficientes parciais de segurança relativos às acções permanentes;
γGA,j - coeficientes parciais de segurança relativos às acções acidentais;
γQ,i - coeficientes parciais de segurança relativos às acções variáveis;
ψ0, ψ1, ψ2 - coeficientes ψi (RSA).

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3.3.1. Coeficientes parciais de segurança relativos a acções

Os coeficientes parciais de segurança relativos a acções, que devem ser utilizados na


formulação das combinações das acções são os indicados na Tabela 3.

Tabela 3 - Coeficientes parciais de segurança relativos a acções em estruturas de edifícios nos casos
de situações de projecto persistentes e transitórias [3]

Acções variáveis (γQ)


Acções
permanentes (γG) Uma com valor As outras com os
característico valores de combinação

Efeito favorável 1.0* -** -**


Coeficientes
habituais
Efeito desfavorável 1.35* 1.5 1.5

Efeito favorável 1.0 -** -**


Coeficientes
reduzidos
Efeito desfavorável 1.2 1.35 1.35

* ver 2.3.3.1.(3) EC5


** ver o EC1; nos casos correntes de estruturas de edifícios γQ,inf =0

3.4. Estados limite de utilização - ELS

As combinações de acções para a verificação da segurança em relação aos estados limite


de utilização deverão, em princípio ser calculadas pela expressão:

∑G k,j
+ Q k ,1 + ∑ψ
i >1
1 ,i
Q k ,i (6)

Em que os valores dos coeficientes reduzidos ψ1,i estão estabelecidos no RSA.

3.5. Exemplo

Uma viga pertencente a um pórtico, está sujeita, para além da acção do seu peso próprio, à
acção da neve e do vento. Os valores característicos das acções são os seguintes:

Carga psd (kN/m)

Permanente 1.28

Neve 2.56

Vento 1.92

Pretende-se obter os valores de cálculo para a acção solicitante para ELU.

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Resolução:

Aplicando a equação (4) para as combinações possíveis:

i) Combinação com a Neve como acção base:


psd = 1.35 x 1.28 + 1.5 x 2.56 + 1.5 x 0.6 x 1.92 = 7.296 kN/m

ii) Combinação com o Vento como acção base:


psd = 1.35 x 1.28 + 1.5 x 1.92 + 1.5 x 0.6 x 2.56 = 6.912 kN/m

Referências bibliográficas

[1] CEB-FIP Model Code 1990, Comité Euro-International du betón, Thomas Telford Services Ltd.,
Lausanne, Suiça.

[2] Negrão, J. H.: Estruturas de Madeira, Textos de Apoio, Versão 3, D.E.C.-F.C.T.U.C., Coimbra,
2001.

[3] ENV 1995-1-4. 1998. Eurocódigo 5 – Projecto de estruturas de Madeira. IPQ.

[4] NP 4305:1995 – Madeira serrada de Pinheiro Bravo para estruturas – classificação visual.

[5] RSA – Regulamento de Segurança e Acções para Estruturas de Edifícios e Pontes, Dec.-Lei
n.º235/83, 31 de Maio de 1983.

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Estados Limite de Utilização

1. Introdução

O desempenho de uma estrutura deve ser avaliado segundo dois níveis. O primeiro, quanto
à segurança, normalmente expresso em termos de capacidade resistente, e o segundo,
quanto à utilização, referente à capacidade do sistema estrutural e seus elementos de
assegurar satisfatoriamente o seu uso [1].

Enquanto que a violação dos critérios de resistência geralmente, provoca a perda de vidas
humanas, a violação dos requerimentos de utilização raramente provoca vítimas humanas e
usualmente envolve pequenas perdas económicas. No entanto, a maioria das patologias
observadas nas construções são resultado do imcuprimento do estados limite de utilização.
Daí a importância requerida por estes na fase de projecto.

No caso de elementos horizontais de madeira, os estados limite de utilização contemplam a


verificação da deformação e o controlo da vibração, o que muitas das vezes, condiciona o
seu cálculo.

2. Combinações de acções

Tal como já vimos no capítulo anterior, as combinações de acções para a verificação da


segurança para os estados limite de utilização devem ser calculadas pela equação:

∑G k,j + Q k ,1 + ∑ψ
i >1
1,i Q k ,i (1)

Em que:
Gk,j - valor característico das acções permanentes;
Qk,1 - valor característico de uma das acções variáveis;
Qk,i - valores característicos das outras acções variáveis;
ψ1 - coeficiente ψi (RSA).

3. Deformação final

A madeira é um material que dada a sua natureza viscoelástica, apresenta uma fluência
considerável. A sua deformação final, pode atingir o dobro do valor da flecha instantânea, se

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as condições de teor de água, de humidade relativa, e duração da carga assim o


proporcionar (classe de serviço 3).

Na filosofia de dimensionamento segundo o Eurocódigo 5, a quantificação das deformações


sofridas pelos vários elementos, divide-se em deformações instantâneas e finais, e dentro
destas, subdivide-se nas provocadas pelas acções permanents e nas resultantes das acções
variáveis.

Geralmente, calcula-se a deformação em função da deformação instantânea, afectando-a de


um factor que atende à fluência que a madeira apresenta ao longo da sua vida. Assim, a
deformação final, ufin, provocada por uma acção deverá, em princípio, ser calculada por:

ufin = uins ⋅ (1 + kdef ) (2)

Onde kdef é um factor que tem em conta o aumento da deformação ao longo do tempo em
consequência do efeito combinado combinado da fluência e do teor de água. Deverão, em
princípio, ser usados os valores de kdef incluídos na Tabela 1.

Tabela 1 – Valores de kdef para madeira maciça e


madeira lamelada colada [2]

Classe de serviço
Classe de duração das
acções
1 2 3

Permanente 0.6 0.8 2.0

Longa duração 0.5 0.5 1.5

Média duração 0.25 0.25 0.75

Curta duração 0.0 0.0 0.3

4. Flechas máximas admissíveis

As principais razões que justificam a limitação das deformações admissíveis prendem-se


com exigências a nível [1]:

de uso e de aspecto – limitar anomalias visuais evitando ondulação do pavimento;


funcionais – evitar danos em elementos não estruturais tais como paredes divisórias,
portas, janelas, etc.;
equipamentos – garantir o funcionamento apropriado de equipamentos,
canalizações, instalação eléctrica, ar-condicionado, etc..

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Assim sendo, e generalizando para a situação mais frequente em estruturas de madeira,


vigas simplesmente apoiadas, é possível a identificação das várias componentes da
deformação (Figura 1).

u1 uo

unet
u2

Figura 1 – Componentes da flecha numa viga simplesmente apoiada

Cujos símbolos têm o significado seguinte: uo – contraflecha; u1 - flecha devida a acções


permanentes e u2 - flecha devida a acções variáveis.

A flecha aparente (medida em relação à linha definida pelos apoios da viga), unet, é dada por:

unet = u1 + u2 - u0 (3)

Os valores máximos aconselhados pelo Eurocódigo 5, e que salvo situações


convenientemente justificadas, deverão ser os valores a cumprir, são apresentados na
Tabela 2.

Tabela 2 – Flechas máximas admissíveis [2]

Viga Consola

Flecha instantânea u2 L/300 L/150

u2 L/200 L/100
Flecha final
unet L/200 L/100

L é o vão da viga ou o comprimento da consola

5. Vibrações

Os pavimentos de habitações com frequência fundamental não superiores a 8 Hz deverão,


em princípio, ser alvo de análise específica [2]. A frequência fundamental f1 pode ser
calculada de forma aproximada por:

π (EI )long
f1 = (4)
2 m
2l
Em que m é o valor da massa por unidade de área (kg/m2), l é o vão do pavimento (m) e
(EI)long é a rigidez à flexão da placa equivalente ao pavimento segundo um eixo perpendicular
à direcção das vigas (Nm2/m).

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No caso destes pavimentos apresentarem frequências fundamentais superiores a 8 Hz,


deverão respeitar-se as seguintes exigências:
u F ≤ 1. 5 (5)
Onde µ é o valor da flecha máxima provocada por F (mm) e F é o valor de uma força estática
concentrada.
v ≤ 100 (f1 ⋅ξ −1) (6)
Sendo ξ o coeficiente de amortecimento e v o valor inicial máximo da velocidade de vibração
vertical do pavimento (m/s) calculado por:
v = 4 × (0.4 + 0.6 n 40 ) (m ⋅ b ⋅ l + 200 ) (7)
Em que b é a largura do pavimento em metros e n40 é o número de modos de vibração de
1ª ordem com frequências próprias inferiores a 40 Hz, dado por:
0.25
 
40 
2   b  4 (EI )long 
n 40 =    − 1 ×   ×  (8)
  f1   l  (EI )b 
  
Onde (EI)b é a rigidez à flexão da placa equivalente ao pavimento segundo um eixo paralelo
às vigas.

Referências bibliográficas

[1] Thelandersson, S. – Serviceability limit states - Deformations. In BLASS, H. J., AUNE, P., CHOO,
B. S. et al. - Timber Engineering –Step 2, Almere Centrum Hout, 1995, Lecture A17.

[2] ENV 1995-1-4. 1998. Eurocódigo 5 – Projecto de estruturas de Madeira. IPQ.

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Lamelados Colados

1. Introdução

A origem deste tipo de estrutura é atribuída a Otto Hetzer, no início do século XX. Contudo,
já haviam sido criados exemplos de estruturas, utilizando tábuas lado a lado ligadas por
pernos, formando arcos de secção rectangular [1]. A novidade introduzida por Hetzer, que
torna o seu sistema distinto, é o emprego de cola para ligar as superfícies das tábuas em
contacto. Estas estruturas tiveram desde logo uma larga aceitação em toda a Europa,
surgindo vários tipos de elementos, desde vigas de secção rectangular ou em duplo T, até
arcos e pórticos de duas ou três articulações e com inércia variável. A partir de 1909
surgiram várias aplicações, na Suíça e Alemanha, em igrejas, estações de caminho de ferro,
etc., em 1913 na Dinamarca, depois na Noruega em 1918 e no ano seguinte na Suécia, já
como processo industrializado sob a designação de estruturas Toreboda. Curiosamente,
somente em 1935 é que as estruturas lameladas coladas foram introduzidas nos Estados
Unidos. Porém, neste país, este tipo de construção adquiriu, logo de início, um carácter de
maior industrialização, o que contribui para uma maior evolução no sentido de formas
arrojadas e de maior interesse arquitectónico. Na Europa, foi após a 2ª grande guerra que
esta construção sofreu um grande impulso, fruto do aparecimento e desenvolvimento das
resinas sintéticas, em detrimento das colas de caseína, utilizadas até então.

Actualmente, os campos de aplicação destas estruturas são os pavilhões industriais e


desportivos, passadiços e pequenas pontes rodoviárias.

Figura 1 – Exemplos de estruturas de madeira lamelada colada

As estruturas de madeira lamelada colada contribuíram dum modo decisivo para a afirmação
da madeira como um material estrutural, nomeadamente pelo seu emprego em estruturas de
grande vão, algumas delas duma beleza invulgar [2].

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2. Definição Geométrica

Os elementos de madeira lamelada colada, também designados por Glulam, são constituídos
por lamelas de madeira, classificada e seleccionada, justapostas, orientadas com o fio na
direcção longitudinal, e fortemente ligadas por cola apropriada. A justaposição das lamelas
pode ser na vertical, em vigas de inércia variável, ou na horizontal, em lajes de largura
variável e tabuleiros de pequenas pontes.

a) b)

Figura 2 – Sobreposição das lamelas na vertical a) ou na horizontal b)

As lamelas, aplainadas e com uma largura, normalmente, inferior a 20 cm, são sobrepostas e
coladas, orientando sempre o interior dos anéis para cima, à excepção da primeira lamela
que é colocada com orientação inversa (Figura 3).

Figura 3 - Configuração das lamelas para larguras Figura 4 - Configuração das lamelas para larguras
inferiores a 20 cm superiores a 20 cm

É conveniente dispor as lamelas deste modo por forma a reduzir ao mínimo as retracções
provocadas pelas variações climáticas [3]. Quando se pretende larguras superiores aos
20 cm, colocam-se as lamelas lado a lado de forma a obter a largura pretendida. É de notar
que, tal como em alvenaria, a junção lado a lado das lamelas não deverá ser na mesma
vertical, sendo desejável que seja convenientemente alternada (Figura 4).

A ligação de topo entre as várias lamelas, executada por entalhes múltiplos, também
designados finger joints, podem ser de dois tipos (Figura 5), permitindo a obtenção de peças
com um comprimento qualquer. A configuração dos finger joints justifica-se pela necessidade
de transformar as forças de tracção aplicadas à cola, a resistência destas à tracção é muito
pequena, em esforços de corte e de aderência [4].

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Estruturas de Madeira

Estes deverão encontrar-se distribuídos por uma vasta região, salvaguardando que em
situações de incêndio se torne numa zona frágil, dado representarem regiões com maiores
concentrações de cola.

Figura 5 – Soluções habituais para os entalhes múltiplos

A máxima espessura, de acordo com a EN386 “Glued laminated timber – performance


requirements and minimum productions requirements”, admitida para as lamelas é de 45 mm.
No entanto, existem dois parâmetros que podem baixar o valor da espessura máxima
admitida: ambiente de serviço e a curvatura da peça, se existente. Assim, a espessura (e) e
a área da secção transversal (A) de uma lamela não deverão ultrapassar os valores
indicados na Tabela 1, estabelecidos em função do ambiente envolvente.

Tabela 1 – Valores máximos para a espessura e área da secção transversal das lamelas, função do
tipo de madeira e classe de serviço [5].

Classe de Serviço

1 2 3

2
e (mm) A (mm ) e (mm) A (mm2) e (mm) A (mm2)

Resinosas 45 10000 45 9000 35 7000

Folhosas 40 7500 40 7500 35 6000

Já nas peças curvas a espessura das lamelas não deverá exceder o valor obtido pela
seguinte equação:
R  f 
e≤ 1 + m ,k 80  (1)
250  
Em que:
R – raio de curvatura da lamela (mm);
fm,k – resistência característica à flexão da madeira constituinte da lamela (N/mm2).

3. Fabrico

A tecnologia utilizada na produção de lamelados colados, tem sofrido grandes alterações,


como efeito da industrialização que o processo adquiriu. Esta industrialização, não só trouxe
maior rapidez na sua produção, como um maior controlo quer da qualidade do produto final,
quer das várias etapas que constituem o seu fabrico.

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Estruturas de Madeira

Neste processo, podem distinguir-se quatro fases, englobando as seguintes operações:

Preparação das lamelas

Secagem em estufa (w<15% exigido pelas colas);


Aplainamento das lamelas;
Classificação da resistência das lamelas;
Preparação dos topos;
Empilhamento das lamelas.

Este conjunto de operações depende das condições em que é fornecida a madeira.

Execução das lamelas por ligação com juntas denteadas

Execução dos denteados das juntas nos topos das lamelas e neles aplicada
a cola;
As lamelas individuais são unidas topo a topo e a junta fortemente
comprimida por um período mínimo de 2 segundos;
A lamela contínua assim obtida é cortada com o comprimento designado;
Armazenamento das lamelas por 8 ou mais horas, aguardando o
endurecimento da cola das juntas;

Colagem

Regularização das lamelas;


Aplicação da cola;
Colagem das lamelas face a face, por pressão (>0.4 a 1.2 MPa) em guias
rectas ou curvas consoante o tipo de viga pretendido;
As vigas, ainda sob pressão, são mantidas sob condições controladas de
ambiente (20ºC, 65% h.r.).

Acabamento

Aplainamento lateral das vigas, para remoção da cola refluída e desempeno


das faces laterais;
Trabalhos de acabamento (furos para ligação, pinturas protectoras, etc..).

3.1. Controlo do processo de fabrico

As distintas etapas do processo de produção de lamelados colados é alvo de controlo por


normalização específica. Existem normas que regem a qualidade da madeira das lamelas, o
tipo de cola, a execução das ligações, etc..

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Estruturas de Madeira

Quanto à madeira das lamelas: a madeira utilizada na obtenção das lamelas deverá ser
classificada, visualmente (EN518) e mecanicamente (EN519).

Quanto às colas: o principal benefício trazido pela norma EN301 é o de estabelecer a


diferença entre colas com aptidão para aplicações exteriores, como as RF (Resorcinol-
formaldeído) e as FRF (Fenol-resorcinol-formaldeído), e as colas sem ou com limitada
aptidão para aplicações exteriores, como as MUF (Melamina-urea-formaldeído), as UF
(Urea-formaldeído) e a caseína.

Quanto às ligações de entalhes múltiplos (finger joints): é necessário distinguir entre


entalhes para as lamelas individuais (EN385) e entalhes múltiplos para macro-ligações
(EN387). As normas referidas, estabelecem as condições de produção e controlo de
execução.

Quanto à atribuição de uma classe de resistência: a atribuição de uma das classes de


resistência definidas na EN1194, (Tabela 2), a um elemento pode ser levada a cabo por duas
vias:
Ensaios: seguindo a metodologia expressa nas normas EN408 e EN1194,
determinam-se os valores característicos das propriedades mecânicas, os
quais deverão ser não inferiores aos especificados na classe de atribuição.

Cálculos: mediante expressões que permitam deduzir os parâmetros de resistência a


partir das propriedades mecânicas da madeira constituinte das lamelas. A
própria norma EN1194 recorre a este tipo de expressões (2).

fm ,g ,k = 7 + 1.15 ⋅ ft ,0 ,l ,k (2)

Em que:
fm,g,k – resistência característica (k) à flexão (m) do Glulam (g).
ft,0,l,k – resistência característica (k) à tracção (t), segundo a
direcção do fio (0), da lamela (l).

Quanto à integridade da colagem: realização de ensaios de corte (EN392) e de delaminação


(EN391) à escala real sobre exemplares representativos da produção.

Jorge Branco - DECivil 19


Estruturas de Madeira

Tabela 2 – Classes de resistência para Glulam Homogéneo [EC5]

Glulam Homogéneo GL24h GL28h GL32h GL36h

Resistência à flexão (N/mm2) fm,g,k 24 28 32 36

Resistência à tracção Paralela ao fio ft,o,g,k 16.5 19.5 22.5 26


2
(N/mm ) Perpend. ao fio ft,9o,g,k 0.4 0.45 0.5 0.6

Resistência à Paralela ao fio fc,o,g,k 24 26.5 29 31


compressão
(N/mm2) Perpend. ao fio fc,9o,g,k 2.7 3.0 3.3 3.6

Resistência ao corte (N/mm2) fv,g,k 2.7 3.2 3.8 4.3

Paralelo médio E0,g,mean 11600 12600 13700 14700


Módulo de elasticidade
2
Paralelo carac. E0,g,05 9400 10200 11100 11900
(N/mm )
Perpend. médio E90,g,mean 390 420 460 490

Módulo de distorção (N/mm2) Gg,mean 720 780 850 910

Massa volúmica (kg/m3) ρg,k 380 410 430 450

4. Glulam Combinado

Geralmente, nas vigas de Glulam o esforço que condiciona o seu dimensionamento é o da


flexão. Olhando para as tensões desenvolvidas (Figura 6), podemos observar que
necessitámos de maiores resistências nas extremidades das secções. Baseando-se nesta
observação, foram desenvolvidas, vigas de Glulam com lamelas de madeira de resistência
distinta. A colocação criteriosa das lamelas de melhor qualidade nas fibras extremas, ficando
as de material mais fraco ao centro, não só permite obter as resistências desejadas mas
como permite um melhor aproveitamento e exploração mais criteriosa da madeira.

h/6 E1
Nota: No caso de Glulam
Combinado, as lamelas externas
2/3 h E2 terão uma espessura mínima de 1/6
da altura da secção e deverão ser
em número superior a dois.
h/6 E1

E1 > E2

Figura 6 – Diagrama de tensões à flexão aplicado a um Glulam Combinado

Jorge Branco - DECivil 20


Estruturas de Madeira

Tabela 3 – Classes de resistência para Glulam Combinado [EC5]

Glulam Combinado GL24c GL28c GL32c GL36c

Resistência à flexão (N/mm2) fm,g,k 24 28 32 36

Resistência à tracção Paralela ao fio ft,o,g,k 14 16.5 19.5 22.5


2
(N/mm ) Perpend. ao fio ft,9o,g,k 0.35 0.4 0.45 0.5

Resistência à Paralela ao fio fc,o,g,k 21 24 26.5 29


compressão
(N/mm2) Perpend. ao fio fc,9o,g,k 2.4 2.7 3.0 3.3

Resistência ao corte (N/mm2) fv,g,k 2.2 2.7 3.2 3.8

Paralelo médio E0,g,mean 11600 12600 13700 14700


Módulo de elasticidade
2
Paralelo carac. E0,g,05 9400 10200 11100 11900
(N/mm )
Perpend. médio E90,g,mean 320 390 420 460

Módulo de distorção (N/mm2) Gg,mean 590 720 780 850

Massa volúmica (kg/m3) ρg,k 350 380 410 430

No quadro seguinte, extraído da EN1194, exemplificam-se as combinações de madeira (das


lamelas) requeridas para a obtenção de cada classe de glulam (homogéneo ou combinado).

Tabela 4 – Classe das lamelas de acordo com a classe de Glulam pretendida [EN1194]

Classe de Glulam pretendida GL24 GL28 GL32

Glulam Homogéneo C24 C30 C40

Glulam Combinado: exteriores/interiores C24/C18 C30/C24 C40/C30

5. Vantagens

Permite obter grandes comprimentos e grandes secções, impossíveis de obter com madeira
maciça, e se desejável com inércia variável. Teoricamente não existe limite, nas peças
obtidas, quanto às suas dimensões. São as condições de transporte que geralmente limitam
as dimensões das peças.
Como as lamelas têm 45 mm de espessura no máximo, aumenta-se a dispersão dos efeitos,
reduzindo-se ao mínimo os pontos fracos, e que aliado à possibilidade de se empregar
madeiras de melhor qualidade, conduz a peças homogéneas de elevada qualidade e,
possivelmente, com melhores características que as lamelas que as compõem.
Permite obter qualquer forma, o que possibilita aos arquitectos e engenheiros expressarem
melhor a sua criatividade.

Jorge Branco - DECivil 21


Estruturas de Madeira

Referências bibliográficas

[1] Mateus, T. J., Bases para o dimensionamento de estruturas de madeira, memória nº 179, LNEC,
Lisboa, 1961.

[2] Pontífice, P. M., Estruturas de Madeira Lamelada-Colada, Prefabricação Desenvolvimentos


Actuais, Comunicações das 2.as Jornadas de Construções Civis, FEUP, Porto, 1991.

[3] Natterer, J. et al.: Construire en Bois 2, Presses Polytechniques et Universitaires Romandes,


Lausanne, 2ª edição, 1998.

[4] Negrão, J. H.: Estruturas de Madeira, Textos de Apoio, Versão 3, D.E.C.-F.C.T.U.C., Coimbra,
2001.

[5] Alvarez, R. A., Martitegui, F. A.: Estructuras de Madera – Diseño y Calculo, Asociación de
Investigación Técnica de las Industrias de la Madera y Corcho, AITIM, 1996.

Normas consultadas

EC5 ENV 1995-1-4. 1998. Eurocódigo 5 – Projecto de estruturas de Madeira. IPQ

EN301 Adhesives, phenol and amino plastic, for load-bearing timber structures: classification and
performance requirements.

EN385 Finger-jointed structural timber – Performance requirements and minimum production


requirements.

EN386 Glued laminated timber – Performance requirements and minimum productions


requirements.

EN387 Glued laminated timber – Large finger joints. Performance requirements and minimum
product requirements.

EN391 Glued laminated Timber – Delamination test of glue lines.

EN408 Timber structures – Structural timber and glued laminated timber – Determination of some
physical and mechanical properties.

EN518 Structural timber – Grading- Requirements for visual strength grading standards.

EN519 Structural timber – Grading- Requirements for machine strength graded timber and grading
machine.

EN1194 Timber structures. Glued laminated timber. Strength classes and determination of
characteristic values.

Jorge Branco - DECivil 22


Estruturas de Madeira

Tracção e Compressão

1. Introdução

A madeira é um material anisótropico, pelo que apresenta distintas propriedades quando


solicitada em diferentes direcções, nomeadamente, na direcção perpendicular e paralela à
direcção das fibras (Figura 1).

Figura 1 – Curva tensão – extensão, em madeira isenta de defeitos, na direcção das fibras (contínuo) e
na direcção perpendicular às fibras (tracejado) [1]

2. Tracção paralela às fibras

A madeira sem defeitos, quando traccionada na direcção das fibras, apresenta um


comportamento tensão versus deformação como se apresenta na Figura 1. Pela análise da
referida figura, constata-se que a resistência à tracção é elevada atingindo valores superiores
aos verificados para a compressão. O seu comportamento é quase linear até à rotura, sendo
esta frágil. É pelo tipo de rotura frágil que apresenta que se justifica o facto de possuir
coeficientes de segurança extremamente elevados. Para além de ser muito afectada pela
existência de defeitos e anomalias, que aumenta com o seu volume. Daí os valores
característicos da resistência à tracção paralela às fibras variar entre os 8,0 e 42,0 MPa.

3. Tracção perpendicular às fibras

A resistência à tracção na direcção perpendicular à fibra é muito reduzida, 25 a 50 vezes


menor que na direcção paralela. O valor característico da resistência à tracção perpendicular
à fibra é de 0,3 a 0,9 MPa [2].

Jorge Branco - DECivil 23


Estruturas de Madeira

Esta baixa resistência justifica-se pelo escasso número de fibras que a madeira possui na
direccção perpendicular ao eixo das árvores, e consequentemente, pela falta de travamento
transversal das fibras longitudinais. Na prática, e pensando em estruturas correntes, esta
solicitação é crítica unicamente em peças de directriz curva (arcos, vigas curvas, etc.). Outra
situação a ter em conta, são os erros construtivos, nomeadamente nas ligações entre vigas
principais e secundárias.

Figura 2 – Pormenores construtivos onde surgem tensões de tracção perpendicular às fibras [3]

Quanto maior é o volume da peça submetida à tracção menor é a tensão resistente à


tracção, dado haver maiores probabilidades de existir defeitos que conduzam a uma falha
local, e consequentemente, à rotura da peça. O efeito volume, quantificado pelo EC5 através
do coeficiente kh, assume particular importância na madeira lamelada [4].

Concluiu-se que a tracção perpendicular à fibra é um esforço a evitar ou limitar, mediante o


uso de disposições construtivas adequadas.

4. Compressão paralela às fibras

A madeira quando solicitada à compressão na direcção das fibras, revela valores de


resistência que variam entre 16 a 34 MPa. O seu comportamento é quase linear até ao valor
máximo da resistência fc,0 contudo a rotura é dúctil (Figura 1). O modo de rotura é geralmente
a rotura local por encurvadura de algumas fibras que originam um plano de corte.

5. Compressão perpendicular às fibras

A resistência à compressão na direcção perpendicular ao fio depende da distribuição da


carga no provete ou peça. No caso de toda a peça ser comprimida, as fibras são apertadas
entre si, tal como se de um conjunto de tubos se tratasse, até que seja atingida a tensão
correspondente ao esmagamento das fibras. Quando a zona de compressão diminui, a
rigidez é maior, e as alterações no seu valor, que são menos pronunciadas, surgem para
tensões mais elevadas. Isto explica-se, tal como o aumento de resistência evidenciado pela
curva e da Figura 3, pela transferência de carga, pelas fibras, para as zonas descarregadas.

Jorge Branco - DECivil 24


Estruturas de Madeira

Figura 3 – Carregamento versus tensão de compressão perpendicular às fibras [1]

Quando solicitada apenas uma das faces da peça, também a resistência à compressão
perpendicular às fibras aumenta com o incremento da possibilidade de degradação das
tensões pelas fibras não comprimidas (Figura 4).

Figura 4 – Tensão de compressão perpendicular às fibras em função da zona de carregamento


(solicitação apenas numa face) [1]

O Eurocódigo 5 tem em atenção este fenómeno, nomeadamente, na verificação da zona dos


apoios, ao sugerir a determinação da tensão máxima aplicada pela expressão (1).

σ c ,90 ,d ≤ k c ,90 ⋅ fc ,90 ,d (1)

Onde o coeficiente kc,90 é de majoração de acordo com o comprimento de actuação da carga


(ver artº 5.1.5).

Referências bibliográficas

[1] Edlund, B. – Tension and compression. In BLASS, H. J., AUNE, P., CHOO, B. S. et al. - Timber
Engineering –Step 2, Almere Centrum Hout, 1995, Lecture B2.

[2] Negrão, J. H.: Estruturas de Madeira, Textos de Apoio, Versão 3, D.E.C.-F.C.T.U.C., Coimbra,
2001.

[3] Alvarez, R. A., Martitegui, F. A.: Estructuras de Madera – Diseño y Calculo, Asociación de
Investigación Técnica de las Industrias de la Madera y Corcho, AITIM, 1996.

[4] ENV 1995-1-4. 1998. Eurocódigo 5 – Projecto de estruturas de Madeira. IPQ.

Jorge Branco - DECivil 25


Estruturas de Madeira

Flexão

1. Introdução

Fruto das suas características físicas e mecânicas, a madeira exibe uma elevada relação
resistência à flexão versus peso. O seu uso em elementos submetidos à flexão é frequente,
encontrando-se inúmeros exemplos nas aplicações estruturais correntes. Entre estes,
distinguem-se os elementos sujeitos a: flexão simples (vigas de pavimentos); flexão desviada
(vigas de pórticos) e flexão composta (pilares de fachadas).

2. Dimensionamento

O procedimento de cálculo de elementos em madeira submetidas à flexão, onde a direcção


das fibras é paralela ao vão, inclui as seguintes verificações [1]:
Valor máximo da tensão de flexão actuante de cálculo;
Risco de instabilidade lateral-torcional ou bambeamento;
Valor máximo da tensão de corte actuante de cálculo;
Esmagamento transversal nos apoios ou cargas concentradas;
Estado limite de deformação, no caso de vigas;
Estado limite de vibração, no caso de pavimentos.

2.1. Cálculo da tensão resistente

Na quantificação dos valores de cálculo das tensões resistentes, a utilizar na verificação da


segurança da estrutura, dever-se-á, tal como para os restantes valores de cálculo, seguir-se
o Art.º 2.2.3.2. do Eurocódigo 5. Contudo o mesmo regulamento, sugere alterações na
quantificação dos valores de cálculo da tensão resistente em determinadas situações,
nomeadamente:
Para madeira maciça e alturas da secção transversal em flexão ou para larguras em
tracção paralela ao fio, inferiores a 150mm, os valores característicos fm,k e ft,0,k
determinados de acordo com os projectos prEN 338 e prEN 384 podem ser
multiplicados pelo factor kh, onde:
 150 0.2
 
kh = min  h  (1)

1.3
Com h em mm, para a altura em flexão ou a largura em tracção [2].
Em peças de madeira lamelada colada, para alturas da secção transversal em flexão
ou larguras em tracção paralela ao fio, inferiores a 600 mm, os valores

Jorge Branco - DECivil 26


Estruturas de Madeira

característicos fm,k e ft,0,k determinados de acordo com o projecto prEN 1194 podem
ser multiplicados pelo factor kh, onde:

 600 0.2
 
kh = min  h  (2)

1.15

Com h em mm, para a altura em flexão ou a largura em tracção [2].

Assim, os valores de cálculo para a tensão resistente à flexão deverão ser obtidos a partir da
equação (3).
k mod fm ,k
fm ,d = k h (3)
γM
Em que, kh é o coeficiente que tem em conta o efeito de volume, kmod é o coeficiente que
atende ao efeito da duração das acções e do teor de água e γM o coeficiente parcial de
segurança material.

2.2. Capacidade resistente da secção


2.2.1. Flexão simples

Em peças sujeitas a flexão simples, a verificação da segurança de determinada secção


transversal é validada pela seguinte equação:
Msd
σ m ,d =
z ≤ fm ,d (4)
I
Sendo Msd o valor de cálculo do momento flector, I o momento de inércia segundo o eixo do
momento e z a distância na perpendicular desse eixo à fibra.

2.2.2. Flexão desviada

Nas estruturas correntes, é frequente a necessidade de dimensionar peças solicitadas à


flexão desviada. No seu cálculo é exigido que sejam satisfeitas simultaneamente as
seguintes condições:
σ m ,y ,d σ m ,z ,d σ m ,y ,d σ m ,z ,d
km + ≤1 + km ≤1 (5), (6)
f m ,y ,d f m ,z ,d f m ,y ,d f m ,z ,d
Em que σm,y,d e σm,z,d são valores de cálculo das tensões correspondentes aos esforços
actuantes em flexão em torno dos eixos principais, fm,y,d e fm,z,d são valores de cálculo das
tensões correspondentes aos esforços resistentes e km é o factor de resistência à flexão
desviada, que tem em conta as tensões em torno dos dois eixos principais.

Jorge Branco - DECivil 27


Estruturas de Madeira

2.2.3. Flexão composta com tracção paralela ao fio

Muitas vezes, os elementos estruturais de madeira estão submetidos a esforços de distintas


naturezas. Em vigas submetidas a flexão composta com tracção paralela ao fio é necessário
que sejam satisfeitas as seguintes condições:
σ t ,0 ,d σ m ,y ,d σ m ,z ,d σ t ,0 ,d σ m ,y ,d σ m ,z ,d
+ km + ≤1 + + km ≤1 (7), (8)
ft ,0 ,d fm ,y ,d fm ,z ,d ft ,0 ,d fm ,y ,d fm ,z ,d

Em que σt,0,d é o valor de cálculo da tensão correspondente ao esforço actuante à tracção e


ft,0,d é o valor de cálculo da tensão correspondente ao esforço resistente à tracção.

2.2.4. Flexão Composta com Compressão Paralela ao Fio

Mais frequente que a situação do ponto anterior, no cálculo de flexão composta com
compressão paralela ao fio exige-se a satisfação, em simultâneo, das seguintes condições:

2 2
 σ c ,0 ,d  σ σ  σ c ,0 ,d  σ σ
  + k m m ,y ,d + m ,z ,d ≤ 1   + m ,y ,d + k m m ,z ,d ≤ 1 (9), (10)
f  fm ,y ,d fm ,z ,d f  fm ,y ,d fm ,z ,d
 c ,0 ,d   c ,0 ,d 

em que σc,0,d é o valor de cálculo da tensão correspondente ao esforço actuante à


compressão e fc,0,d é o valor de cálculo da tensão correspondente ao esforço resistente à
compressão.

Nestes casos, é necessário averiguar o risco de ocorrência de encurvadura. O Eurocódigo 5


considera existir o risco de encurvadura quando os valores da esbelteza relativa, para as
direcções em que haja a possibilidade de encurvadura, são inferiores a 0,5. Na quantificação
dos valores das esbeltezes relativas, para as diferentes direcções, normalmente, z-z e y-y,
deverá ser utilizada a equação:

fc ,0 ,k
λrel = (11)
σ c ,crit

Sendo fc,0,k o valor característico da tensão correspondente ao esforço resistente à

compressão e σcrit, a tensão crítica de Euler, dada por:

π 2 E0 ,05
σ c ,crit = (12)
λ2

Em que E0,05 é o valor característico do módulo de elasticidade na direcção paralela ao fio e


λ a esbelteza da peça na direcção pretendida.

Jorge Branco - DECivil 28


Estruturas de Madeira

2.3. Instabilidade lateral-torcional (Bambeamento)

Considere-se uma viga com secção rectangular, simplesmente apoiada submetida a flexão
constante M, provocada por dois momentos flectores aplicados nas suas extremidades,
Figura 1(a), denominada viga padrão [3]. Nestas condições, a parte superior da viga está
comprimida enquanto que a parte inferior permanece em tracção. A compressão da zona
superior pode provocar, quando o momento flector atinge um determinado valor Mcrit., um
fenómeno de instabilidade denominado Bambeamento.
Este fenómeno de instabilidade de flexão de vigas, que se manifesta em secções esbeltas
flectidas no seu plano de inércia máxima, consiste basicamente na ocorrência de
encurvadura no plano perpendicular ao do carregamento, Figura 1(b).

Figura 1 – Viga padrão (a) e o fenómeno de Bambeamento (b) [3]

Quando o valor de M é inferior a Mcrit., a viga deforma-se no plano vertical, como


consequência da flexão segundo o eixo perpendicular ao da viga. No entanto, quando atinge
o valor de Mcrit., sofre também deslocamento horizontal por rotação, originado pela
encurvadura da zona comprimida. O momento crítico elástico para uma viga simplesmente
apoiada, sob acção de um momento uniforme é dado por:

π E0 ,05 I zG0 ,05 Itor


Mcrit = (13)
l ef

Em que, Iz é o momento de inércia (eixo fraco), Itor é o momento de inércia torcional, E0,05 é o
valor característico do módulo de elasticidade, G0,05 é o valor característico do módulo de
distorção e lef o comprimento de encurvadura.

Para outros tipos de carregamentos e diferentes condições de apoio, relativamente à viga


padrão, o momento crítico é definido pela divisão da equação (13) pelo factor m dado pelo
Quadro 1.

Jorge Branco - DECivil 29


Estruturas de Madeira

Quadro 1 – Factor m para distintas condições de apoio e carregamento [1]

A tensão crítica correspondente a Mcrit, para uma viga de secção transversal rectangular é
dada por:

π b2 1 − 0.63 b / h
σ m ,crit = E0 ,05G0 ,05 (14)
l ef h 1 − b2 / h2

Em que b e h são os valores da base e da altura da secção transversal da viga,


respectivamente. Os restantes termos têm o significado apresentado anteriormente.

Constata-se que, para a gama de relações base sobre altura mais correntes, 0.1 a 0.7, o
segundo radical varia entre 0.94 e 1.05, pelo que, na prática, reduz-se o valor do segundo
radical a 0.94, o que nos garante que nos encontramos do lado da segurança [4]. Tomando
como valor de módulo de elasticidade o referente à direcção do fio e, assumindo o módulo de
distorção como E/16, a tensão crítica vem dada por:

0.75 E0 ,05 b 2
σ m ,crit = (15)
hl ef

Na prática devem ser tomadas medidas para diminuir a possibilidade de ocorrência de


fenómenos de instabilidade, nomeadamente, o Bambeamento, dado o seu aparecimento
Jorge Branco - DECivil 30
Estruturas de Madeira

diminuir em muito a capacidade resistente do elemento. As medidas que mais se destacam


são:

Reduzir os comprimentos de encurvadura;

Aumentar a rigidez de flexão lateral (EI);

Aumentar a rigidez de torção (GJ) da secção;

Restringir os movimentos de apoio que facilitam o surgimento de


instabilidade.

2.3.1. Metodologia do Eurocódigo 5

A metodologia sugerida pelo Eurocódigo 5 para o dimensionamento à flexão de vigas,


contempla a verificação da condição:
σ m ,d ≤ kcrit fm ,d (16)

em que kcrit é um coeficiente que tem em conta a redução da resistência devida à


encurvadura.

Os valores para o coeficiente kcrit podem ser obtidos através (Art.º 5.2.2.(4)):

1 para λrel ,m ≤ 0.75



kcrit = 1.56 − 0.75 λrel ,m para 0.75 < λrel ,m ≤ 1.4 (17)
 2
1 / λrel ,m para 1.4 < λrel ,m

Nos termos do EC5 (Art.º 5.2.2(5)), poderá considerar-se que kcrit=1 (inexistência de
bambeamento) se estiverem restringidos os deslocamentos transversais do bordo
comprimido e a rotação dos apoios em torno do eixo longitudinal.

Referências bibliográficas

[1] Choo, B. S. – Bending. In BLASS, H. J., AUNE, P., CHOO, B. S. et al. - Timber Engineering –Step
2, Almere Centrum Hout, 1995, Lecture B3.

[2] ENV 1995-1-4. 1998. Eurocódigo 5 – Projecto de estruturas de Madeira. IPQ.

[3] Alvarez, R. A., Martitegui, F. A.: Estructuras de Madera – Diseño y Calculo, Asociación de
Investigación Técnica de las Industrias de la Madera y Corcho, AITIM, 1996.

[4] Negrão, J. H.: Estruturas de Madeira, Textos de Apoio, Versão 3, D.E.C.-F.C.T.U.C., Coimbra,
2001.

Jorge Branco - DECivil 31


Estruturas de Madeira

Corte e Torção

1. Corte

O esforço de corte origina tensões tangenciais que actuam sobre as fibras da madeira
segundo diversos modos. Na figura 1 apresentam-se as distintas formas de tensões
tangenciais que podem ocorrer na madeira, em função, da orientação da fibra em relação ao
esforço de corte.

a) tensões tangenciais de corte: as fibras são cortadas transversalmente por este


esforço. Esta rotura ocorre por esmagamento;
b) tensões tangenciais de deslizamento longitudinal: a rotura é produzida pelo
deslizamento entre as fibras na direcção longitudinal;
c) tensões tangenciais de deslizamento transversal: a rotação das fibras entre si leva à
rotura localizada.

a) b) c)
Figura 1 – Tensões tangenciais que podem ocorrer na madeira. Tensões tangenciais de corte, de
deslizamento e de rotação [1]

Nos elementos submetidos, simultaneamente, à flexão e ao corte, desenvolvem-se tensões


tangenciais quer de corte quer de deslizamento. A rotura ocorre segundo o plano mais fraco,
que é o mesmo que afirmar, que a rotura se dá por deslizamento.

Figura 2 – Tensões tangenciais de corte e de deslizamento [1]

Jorge Branco - DECivil 32


Estruturas de Madeira

Os valores característicos para a resistência ao corte (por deslizamento), para as espécies


normalmente utilizadas na construção, variam entre os 1,7 a 6,0 MPa. As tensões
tangenciais por rotação das fibras apenas se desenvolvem em casos concretos, como são as
ligações coladas entre almas e banzos de vigas, para o caso de secções transversais de
duplo T. O valor para a resistência por rotação ronda os 20 a 30% da resistência por
deslizamento.

1.1. Metodologia do Eurocódigo 5

De acordo com o Eurocódigo 5, a segurança é confirmada pela verificação da equação:


τ sd ≤ fv ,d (1)

Em que τsd é o valor de cálculo da tensão tangencial máxima e fv,d o valor de cálculo da
tensão resistente ao corte.

No cálculo da tensão tangencial máxima, assumem-se como válidas as expressões da


resistência dos materiais, para materiais homogéneos e isótropicos:

Vsd
τ sd = 1.5 (2)
A
Em que Vsd é o valor de cálculo para o esforço transverso actuante e A a área da secção
transversal da viga.

Nas extremidades das vigas, o efeito do esforço de corte total de cargas pontuais, situadas a
uma distância igual ou inferior 2h, isto é, ao dobro da altura da secção transversal da viga,
vem reduzido pela aplicação da seguinte equação:
d
Vsd ,r = Vsd (3)
2h

Em que Vsd,r é o valor reduzido do esforço transverso, obtido pela modificação da sua linha
de influência, de acordo com a Figura 3.
d

2h

Figura 3 – Redução do esforço transverso, de acordo com a linha de influência modificada

Para as dimensões correntes, fixadas, normalmente, pela verificação dos Estados Limite de
Deformação e Rotura por Flexão, o corte não se assume como determinante, salvo em
Jorge Branco - DECivil 33
Estruturas de Madeira

peças de secção variável, em vigas curtas com cargas pontuais elevadas ou vigas com
entalhes nas extremidades.

1.1.1. Vigas com entalhes nas extremidades

No caso específico de vigas com entalhes nas extremidades, coincidentes com as zonas dos
apoios, na obtenção do valor de cálculo para a tensão de corte dever-se-á substituir o valor
da altura (h) pelo valor da altura efectiva da viga (he).

Em vigas com entalhe na face inferior, sobre a qual actua a reacção, deverá atender-se a
efeito da concentração de tensões na zona reentrante do entalhe. Daí, a necessidade de se
verificar:

Vsd
τ sd = 1.5 ≤ kv ⋅ fv ,d (4)
bhe

Sendo kv um factor de penalizador da resistência ao corte, fv,d, em função da concentração


de tensões que se desenvolvem no entalhe. O parâmetro kv toma os valores apresentados
na tabela 1.

Tabela 1 – Valores de kv, para entalhes em vigas

Intradorso Extradorso

he he

x i(h-he) x i(h-he)

 1

  1 .1 ⋅ i 1 .5 
 k n 1 + 
k v = min   h 0 .5  kv = 1

 h 0.5  α (1 − α ) + 0.8 x 1 
−α2 
 h α
  

Em que α é a relação entre a altura efectiva e altura da secção transversal da viga, (he/h), e
onde kn deverá, em princípio, tomar os seguintes valores:
5 para madeira maciça;
6.35 para madeira lamelada colada.
Não é aconselhável a realização de entalhes com mudança rápida de secção, Figura 4a).
Nesta disposição desenvolvem-se tensões de tracção perpendiculares às fibras que podem
originar a rotura da viga por fendilhação horizontal.

Jorge Branco - DECivil 34


Estruturas de Madeira

Figura 4 – Soluções de reforço para zonas de apoios com entalhes no intradorso [1]

Para evitar esta situação pouco favorável para a estabilidade das vigas, recorre-se a
medidas de reforço. Uma das técnicas de reforço passa pela introdução artificial de uma
força de compressão perpendicular, como forma de neutralizar as tracções, mediante uma
barra roscada colocada no eixo da viga, Figura 4b). No entanto, esta solução perde eficácia
perante a contracção transversal que a viga sofre por variação do seu teor em água, o que a
torna pouco recomendável.

Outra possibilidade, consiste na introdução de uma barra, com furação prévia, na viga de
madeira, Figura 4c), obtendo-se uma ligação rígida entre os dois materiais. Contudo,
aquando da diminuição do teor em água, a barra impede a contracção da viga, o que poderá
originar algumas fendas. Se se crava uma chapa metálica contra a viga de madeira, Figura
4d), esta apenas entrará em solicitação após a rotura da madeira.

As soluções mais eficazes consistem na colagem e cravação de placas de contraplacado nas


faces laterais da viga, Figuras 4e) e 4f). Nestes casos, as placas de contraplacado entram
em funções logo após a sua aplicação. Um efeito semelhante poderá ser obtido pelo reforço
utilizando mantas de vidro envolvendo a viga na zona de apoio, Figura 4g).

Estas são as razões que levam à necessidade de executar a variação de secção mediante
um perfil inclinado, Figura 4h).

2. Torção

Apesar de não ser um esforço muito comum nas estruturas correntes de madeira,
apresentam-se os fundamentos que regem o dimensionamento de elementos de madeira
sujeitos à torção, segundo o Eurocódigo em vigor.
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Estruturas de Madeira

Para o estudo deste esforço, assumem-se como válidas as expressões da resistência dos
materiais para materiais homogéneos e isótropicos, nomeadamente, as expressões do
teorema de Saint-Venant. O comportamento da madeira à torção, é condicionado pela sua
resistência à tracção paralela às fibras, que por ser diminuta, dita a sua rotura segundo linhas
de tracção perpendiculares à direcção do fio (das fibras).

2.1. Metodologia do Eurocódigo 5

A metodologia apresentada pelo Eurocódigo 5 para a verificação à torção de elementos de


madeira, baseia-se na exigência da validade da desigualdade:

τ tor ,d ≤ fv ,d (5)

Em que τtor,d é o valor de cálculo da tensão de torção e fv,d o valor de cálculo da tensão
resistente ao corte.

Mais uma vez, se supõem válidas as expressões da resistência dos materiais, empregues
em materiais homogéneos e isótropicos, na quantificação das tensões provocadas pela
torção:
2 ⋅ Mt
Secções circulares: τ tor ,d = (6)
π ⋅ r3

Mt
Secções rectangulares ( h ≥ b ): τ tor ,d = (7)
α ⋅ h ⋅ b2
Em que Mt é o valor do momento torsor, r o valor para o raio da secção transversal, h a

altura da viga, b a base da viga e α a relação entre a altura e base da viga (h/b).

h/b 1.00 1.50 1.75 2.00 2.50 3.00 4.00 6.00 8.00 10.00 ∞
α 0.2.08 0.231 0.239 0.246 0.258 0.267 0.282 0.299 0.307 0.313 0.333

Em determinados casos, podem coincidir tensões tangenciais produzidas por torção com
tensões originadas por corte.

Contudo, trata-se de uma situação pouco estudada pelo Eurocódigo 5, não existindo
qualquer referência a esta situação neste regulamento. Sempre que se acha adequado,
poder-se-á aplicar o critério de Mohler-Hemmer, que apresenta como vantagem, assegurar já
a verificação ao corte e à torção, analisadas isoladamente:
2
τ tor ,d τ 
+  v ,d  ≤1 (8)
ftor ,d f 
 v ,d 

Em que τtor,d é o valor de cálculo da tensão de torção, ftor,d é o valor de cálculo da tensão
resistente à torção, τv,d é o valor de cálculo da tensão de corte e fv,d o valor de cálculo da
tensão resistente ao corte.
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Estruturas de Madeira

Normalmente, como simplificação, e sabendo que o valor de ftor,d é superior ao apresentado


por fv,d, admite-se como valor para o primeiro, o expresso pela EN 338 para a tensão de
cálculo da tensão resistente ao corte (fv,d).

Referências bibliográficas

[1] Edlund, B. – Tension and compression. In BLASS, H. J., AUNE, P., CHOO, B. S. et al. - Timber
Engineering –Step 2, Almere Centrum Hout, 1995, Lecture B2.

[2] Negrão, J. H.: Estruturas de Madeira, Textos de Apoio, Versão 3, D.E.C.-F.C.T.U.C., Coimbra,
2001.

[3] Alvarez, R. A., Martitegui, F. A.: Estructuras de Madera – Diseño y Calculo, Asociación de
Investigación Técnica de las Industrias de la Madera y Corcho, AITIM, 1996.

[4] ENV 1995-1-4. 1998. Eurocódigo 5 – Projecto de estruturas de Madeira. IPQ.

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Estruturas de Madeira

Colunas

1. Introdução

As peças de madeira submetidas a esforços de compressão, normalmente, atribui-se a


designação de colunas. As colunas são frequentes em pórticos, pavilhões industriais,
piscinas, sendo as secções mais comuns apresentadas na figura seguinte.

Figura 1 – Secções transversais mais frequentes para elementos de madeira à compressão: a) toro b)
madeira serrada c) madeira aparelhada d) lamelados colados e) secção composta de toros
f) secção composta de peças serradas g) secção composta por peças descontínuas [1]

Quando uma coluna é comprimida axialmente, existe um tendência para que esta sofra uma
deformação no seu próprio plano, resultado de fenómenos de instabilidade, instabilidade por
flexão. A este tipo de instabilidade denomina-se encurvadura. Desta forma, para além das
resistências à compressão e à flexão também o módulo de elasticidade é uma característica
mecânica que influencia a capacidade de carga das colunas em madeira [2]. As tensões
adicionais provocadas pela encurvadura são domínio da Estabilidade Estrutural [3].

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Estruturas de Madeira

Sendo a encurvadura um fenómeno de instabilidade característica de peças esbeltas sujeitas


à compressão, a sua ocorrência torna a rotura possível para valores inferiores à própria
resistência apresentada pela madeira. Para uma coluna biarticulada com determinada
secção e comprimento, existe um valor para a carga, apelidada de crítica, que quando
superada, a peça encontra-se em equilíbrio instável, se se mantiver recta, ou em equilíbrio
indiferente se adoptar uma directriz curva. Nesta última posição surgem tensões de flexão
que levam à perda de capacidade de carga (Figura 2).

Figura 2 – Encurvadura de uma coluna biarticulada

Existem dois métodos para o dimensionamento de colunas: o primeiro, envolve uma análise
de segunda ordem, análise de estabilidade, a qual requer o estabelecimento de equações de
equilíbrio na configuração deformada da estrutura. O segundo método utiliza curvas de
encurvadura como meio para atender à diminuição de resistência que uma coluna apresenta,
comparando com um elemento sujeito à compressão cuja rigidez à flexão é infinita. A
estabilidade estrutural é transformada numa verificação à compressão, utilizando para isso,
valores modificados para a resistência à compressão [2].

2. Factores que influenciam a resistência de peças comprimidas

Os factores que influenciam a resistência de uma coluna de madeira podem ser divididos em
dois grandes grupos. Ao primeiro grupo pertencem os dados geométricos (secção, vão e
condições de apoio) e as propriedades materiais (classe resistente, condições climáticas e
duração de carga). Os factores pertencentes a este grupo podem ser controlados na fase de
projecto, e em função da experiência do projectista, podem ser “trabalhados” para que certa
capacidade de carga seja alcançada.
O segundo grupo engloba factores como as imperfeições geométricas e materiais e as
variações das propriedades materiais. Dado que uma estrutura nunca é perfeita, tanto em
termos geométricos como materiais, estes factores deverão ser considerados no cálculo de
colunas, podendo a sua influência na resistência revelar-se significativa. Como na fase de
projecto, o projectista não ter qualquer informação sobre estes factores, a sua consideração
tem carácter implícito.

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Estruturas de Madeira

A influência destes factores é tida em conta na filosofia de dimensionamento do Eurocódigo


5. São exemplos de imperfeições e variações a deformação inicial (δ), a inclinação do eixo da
barra e desvios dimensionais das secções.
No capítulo 7 do Eurocódigo 5 são apresentados valores limites para a deformação inicial a
cumprir em montantes e vigas com risco de encurvadura e para elementos de estruturas
articuladas [4]:

Lamelados colados : δ ≤ L 500 (1)

Madeira Maciça: δ ≤ L 300 (2)


Já as tolerâncias das dimensões nominais referentes às secções transversais estão descritas
nas normas EN336 (Tabela 1) e EN390 (Tabela 2) para madeira maciça (wref=20%) e
lamelados colados (wref=12%), respectivamente:

Tabela 1 – Madeira para estruturas – Resinosas – Dimensões e desvios admissíveis [5]

Classe de tolerância B,h ≤ 100 mm B,h > 100 mm

1 -1 a + 3 mm -2 a + 4 mm

2 -1 a + 1 mm -1.5 a + 1.5 mm

Tabela 2 – Madeira lamelada colada – Dimensões - Desvios admissíveis [6]

Tolerâncias

b(qualquer) h ≤ 400 mm h > 400 mm l ≤ 2.0 m 2≤ l ≤20 m l>20.0 m

-2 /+2 mm -2 /+4 mm -0.5 /+1% -2 /+2 mm -0.1/+ 0.1% -20 /+20 mm

Nota : os ângulos da secção transversal não devem diferir do ângulo recto mais do que 1/50

3. Construção das curvas de encurvadura do Eurocódigo 5

As curvas de encurvadura representam a variabilidade da capacidade de carga com a


esbelteza [1]. A sua determinação é obtida a partir de uma análise estatística com base em
simulação numérica, e consiste nos seguintes passos [7]:
Definição do modelo numérico (propriedades e imperfeições) com base na
observação de colunas reais;
Para cada esbelteza e classe resistente, obtenção de uma distribuição da carga de
colapso;
Determinação do valor característico inferior para cada esbelteza;
O par (λ;kc,fc,o,d) constitui um ponto da curva de encurvadura (Figura 3);
Repetição do processo para diferentes valores de esbelteza;
Ajuste de uma curva ao conjunto de pontos obtido (Figura 4).

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Estruturas de Madeira

Figura 3 – Determinação de um ponto [2] Figura 4 – Ajuste da curva aos pontos [2]

A obtenção da carga última através de modelação numérica é baseada numa análise plástica
de segunda ordem. Esta metodologia conduz a cargas de colapso superiores às
determinadas por uma solução elástica, onde a carga é definida quando se atinge o valor
para a capacidade resistente na fibra mais solicitada para a secção crítica. A análise plástica
resulta num melhor desempenho em flexão composta.

A figura 5, apresenta a interacção entre o esforço axial e o momento flector, onde a


interacção linear (traço ponto) é obtida considerando um comportamento elástico e a traço
contínuo se define a resistência obtida por uma análise plástica. A curva a tracejado, curva
de interacção, resulta dos critérios propostos pelo Eurocódigo 5 sendo válida quando se
despreza os efeitos de 2ª ordem ou estes já se encontrem contabilizados nos esforços.

Figura 5 – Curvas de interacção entre o esforço axial e o momento flector [2]

Em elementos submetidos a flexão composta, onde seja permitido a deformação lateral, isto
é, onde é credível o risco de instabilidade, para valores de esbelteza igual ou inferiores a 30,
deve-se utilizar a curva de interacção da figura 5, e nos casos contrários, deve-se utilizar os
valores obtidos por uma interacção linear (curva de análise plástica).

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Estruturas de Madeira

4. Comprimentos de encurvadura

As esbeltezes mecânicas y e z para a Coluna Padrão de Euler, obtêm-se dividindo o vão


teórico, l, da coluna, pelos respectivos raios de giração. Quando as condições de apoio são
diferentes da coluna padrão, os valores para a carga crítica também o são (Figura 6). As
expressões que definem esta carga, de um modo geral, têm o seguinte formato:

π2 ⋅E ⋅I π2 ⋅E ⋅I
Pcrit = = (3)
(β ⋅ l )2 2
lef
Em que:
β - coeficiente que depende das condições de apoio (Figura 6)
lef - comprimento de encurvadura. Este comprimento coincide com a distância entre
os pontos de inflexão da deformada apresentada pela coluna quando se inicia a
encurvadura (Figura 6)

π2 ⋅ E ⋅ I 2π2 ⋅ E ⋅ I 4π2 ⋅ E ⋅ I π2 ⋅ E ⋅ I π2 ⋅ E ⋅ I
Pcrit = Pcrit = Pcrit = Pcrit = Pcrit =
l2 l2 l2 l2 4l 2
Teórico
β = 0.70 β = 0.50 β = 1.00 β = 2.00
β = 1.00
Recomendado
β = 0.85 β = 0.70 β = 1.50 β = 2.50
β = 1.00

Figura 6 – Carga crítica de Euler e comprimento de encurvadura, em função das condições de apoio [8]

Nas estruturas de madeira as ligações são flexíveis, e dificilmente se consegue obter uma
ligação rígida ou um encastramento perfeito. Por esta razão, os coeficientes teóricos,
indicados na figura 6, devem ser alterados. Geralmente, recomendam-se os valores
indicados na última linha da mesma figura.

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Estruturas de Madeira

Referências bibliográficas

[1] Negrão, J. H.: Estruturas de Madeira, Textos de Apoio, Versão 3, D.E.C.-F.C.T.U.C., Coimbra,
2001.

[2] Blass, H. J. – Columns. In BLASS, H. J., AUNE, P., CHOO, B. S. et al. - Timber Engineering –Step
2, Almere Centrum Hout, 1995, Lecture B6.

[3] A.J.Reis, D. Camotim – Estabilidade Estrutural – Mc. Graw Hill, 2000.

[4] ENV 1995-1-4. 1998. Eurocódigo 5 – Projecto de estruturas de Madeira. IPQ.

[5] EN 336 – Structural timber – Coniferous and poplar – Sizes, permissible deviations.

[6] EN 390 – Glued laminated timber – Sizes – Permissible deviations.

[7] Blass, H. J. – Design of Timber Columns. In: Proc. of the CIB W18 Meeting, Dublin, Ireland, Paper
20-2-2.

[8] Alvarez, R. A., Martitegui, F. A.: Estructuras de Madera – Diseño y Calculo, Asociación de
Investigación Técnica de las Industrias de la Madera y Corcho, AITIM, 1996.

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Estruturas de Madeira

Disposições Construtivas

1. Introdução

Neste capítulo reúne-se um conjunto de soluções construtivas dos encontros mais frequentes
nas estruturas de madeira efectuadas com ligações mecânicas. Consultaram-se folhetos de
fornecedores, manuais de construção, páginas de Internet, etc. Mesmo que não seja uma
exposição exaustiva, serve de guia para projecto.
As figuras das ligações apresentadas têm carácter representativo, o número e as dimensões
dos dispositivos de ligação e das chapas deverão resultar do dimensionamento, em função
das solicitações nas peças.

1.1. Aspectos construtivos

Entre as chapas laterais do órgão metálico e a peça de madeira deverá existir uma folga
suficiente que facilite a montagem. Contudo, o espaço remanescente entre a peça de
madeira e as chapas laterais não deverá exceder os 6 mm (Figura 1).

Figura 1 – Folga entre a madeira e o órgão metálico [1]

Deverá preceder-se à colocação da peça de madeira sobre o fundo do órgão metálico antes
da colocação dos ligadores (pregos, cavilhas, pernos, etc.). Como garantia dever-se-á
assegurar que as esquinas do órgão metálico não constituem qualquer impedimento ao
apoio da peça de madeira. Em órgãos metálicos laminados a curvatura das chapas metálicas
poderá impedir o correcto apoio da peça de madeira.

Em órgãos formados por chapas metálicas soldadas o cordão de soldadura poderá provocar
o mesmo efeito (Figura 1).

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Estruturas de Madeira

Se a fixação da peça ocorre sem um adequado apoio desta, quando solicitada, os ligadores
ficariam sujeitos tensões imprevistas, alcançando-se o correcto apoio após a ocorrência de
uma fenda nas proximidades do ligador.
Como solução, poder-se-á suavizar as arestas das faces inferiores da peça de madeira
(Figura 1).

No apoio de vigas não se deve impedir a rotação provocada pela deformação no plano
vertical, pelo que se deve evitar a colocação de ligadores na zona superior. Caso contrário,
produziram-se sobretensões nos ligadores e fendas nessa zona (Figura 2).

Figura 2 – Colocação errada de ligadores impedindo a rotação [1]

A fixação lateral em extremidades de vigas apoiadas pode realizar-se com chapas cravadas
na parede e não na viga de madeira, como se pode ver na (figura 3). Desta forma, permite-se
a rotação num plano vertical, contudo, previne-se a ocorrência de bambeamento.
Acrescidamente, permite-se os movimentos provocados pelas variações do teor em água da
madeira.

Figura 3 – Disposição que previne o bambeamento sem restringir a rotação [1]

1.2. Aspectos resistentes

No dimensionamento da ligação comprovar-se-á a capacidade resistente dos ligadores, as


espessuras das chapas auxiliares e as tracções perpendiculares às fibras na região de
contacto para a transferência da carga.
Na madeira, a resistência à compressão perpendicular à fibra é muito superior à tracção na
mesma direcção. Esta propriedade física da madeira condiciona a solução construtiva a
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Estruturas de Madeira

adoptar. Assim, por exemplo, é aconselhável que no apoio de uma viga sobre um pilar, sobre
uma parede, ou sobre uma outra viga, se realize apoiando ou suspendendo a parte superior
do elemento. Desta forma, a transferência da carga efectua-se por compressão
perpendicular.

Devem-se evitar os apoios representados na (Figura 4), nos quais surgem tracções
perpendiculares que se manifestam sob a forma de fendas.

Figura 4 – Desenvolvimento de tracção perpendicular em apoios incorrectos [1]

1.3. Retracção da madeira

No dimensionamento de ligações é imperativo a aceitar que a madeira sofre variações nas


suas dimensões em consequência das alterações do seu teor de água. Esta retracção é
praticamente negleciável na direcção longitudinal das fibras mas extremamente significativa
na direcção transversal. Os dispositivos que materializam a ligação não devem impedir estes
movimentos, ou, caso impeçam, a sua acção deverá ser minimizada. No caso de madeira
maciça, colocada em obra ainda verde, a importância deste fenómeno vem acrescida, dado a
secagem que ocorrerá, agravar estes movimentos dimensionais.
Estas variações dimensionais tornam inadequadas as ligações entre a madeira e o aço que
envolvam a altura da viga na sua totalidade e que assim, impeçam, através dos ligadores, a
possibilidade de pequenos movimentos. Todas as disposições construtivas presentes neste
capítulo visam a minimização deste fenómeno.

1.4. Protecção ao fogo

A estabilidade de uma estrutura de madeira à acção do fogo pode vir condicionada pelos
elementos metálicos empregues nas ligações. Para melhorar o comportamento ao fogo
destes elementos recorre-se à sua protecção com materiais termicamente isolantes, como
são exemplo as tintas intumescentes, à sua introdução na peça de madeira ou ao aumento
da sua espessura.

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1.5. Durabilidade

A madeira é um material durável quando as disposições construtivas são as correctas [1]. Os


pormenores construtivos deverão ser realizados com materiais duráveis que requerem a
menor manutenção possível. As peças metálicas empregues, deverão ser protegidas contra
a corrosão em função do ambiente de serviço.

Deverá evitar-se o contacto directo da madeira com materiais de construção que possam
acumular ou gerar humidade. Daí, utilizar-se placas de apoio que actuam como barreiras
contra a humidade e se recomendem afastamentos mínimos entre a madeira e a alvenaria,
ou o cimento, como forma de assegurar uma adequada ventilação da madeira.

2. Apoio de colunas

As exigências fundamentais, ao nível da definição do apoio de colunas, consistem em evitar


que a base da coluna entre em contacto directo com o apoio, pelo que se utiliza uma chapa
metálica que serve de base impermeável e que, por vezes, se coloca numa posição mais
elevada relativamente ao solo.

Figura 5 – Coluna sobre uma chapa metálica que actua Figura 6 – Sobreelevação da coluna
como barreira contra a humidade [2] relativamente à fundação [2]

3. Apoio de vigas em paredes de alvenaria ou elementos de betão

Os princípios básicos que devem ser obedecidos no projecto destes elementos, assentam na
necessidade de assegurar uma adequada ventilação da extremidade da viga inserida na
parede. Os elementos metálicos não devem impedir a retracção da madeira nem a rotação
das vigas por deformação no plano vertical.

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Estruturas de Madeira

Figura 7 – Apoio da viga numa parede de alvenaria que envolve a sua extremidade. Dever-se-á
respeitar um afastamento mínimo de 15 mm dispondo-se uma chapa de apoio como barreira
contra a humidade. Fica assim, assegurada a ventilação da madeira afim de evitar o risco
de podridão [1].

Figura 8 – Viga com altura inferior a 60 cm. Proporciona alguma resistência a pequenos esforços
horizontais ou de levantamento [1]

Figura 9 – Ancoragem de vigas para resistir a esforços horizontais e de levantamento [1]

Figura 10 – Apoio de pequena viga sobre parede de alvenaria ou de betão [2]

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Estruturas de Madeira

4. Ligações entre vigas e colunas

Geralmente a viga apoia sobre o topo da coluna com o objectivo de facilitar a transmissão da
carga por compressão perpendicular. É claro que as exigências quanto à retracção da
madeira e rotação da viga se mantêm.

Figura 11 – Apoio de viga sobre coluna [2] Figura 12 – Apoio de pequenas vigas sobre coluna [2]

Figura 13 – Ligação de continuidade entre vigas realizada sobre uma coluna [1]

5. Ligações entre vigas principais e vigas secundárias

Este tipo de ligação, normalmente, recorre à utilização de órgãos metálicos, de aço


galvanizado, pré-fabricados, encontrando-se disponíveis no mercado uma vasta gama de
soluções que cobre a grande maioria das situações.

Figura 14 – Ligação adoptada para cargas pequenas [2]

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Estruturas de Madeira

Figura 15 – Solução que minimiza o impacto visual, ocultando ao máximo o órgão metálico [1]

6. Nós de pórticos e arcos


6.1. Rótulas fictícias

Atribui-se a designação de rótulas fictícias às ligações que permitem a rotação das peças,
ainda que não de forma totalmente livre. Utilizam-se em estruturas de vãos reduzidos sendo
os órgãos metálicos bastante simples.

Figura 16 – Ligação articulada de pórtico ou arco. Deve permitir-se uma ligeira rotação das peças [1]

6.2. Rótulas perfeitas

No caso de arcos ou pórticos com vãos superiores a 30 metros ou quando as forças


resultantes são elevadas, recorre-se a rótulas perfeitas com o seu eixo a ser materializado
por um perno metálico, de modo a permitir a rotação livre.

Figura 17 – Rótula de pórtico ou arco. As forças horizontais transmitem-se directamente entre as peças
através do órgão metálico, e a componente vertical produz uma excentricidade que se
equilibra com os esforços nos ligadores [1]

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Estruturas de Madeira

Figura 18 – Apoios articulados. Na figura descrevem-se duas soluções possíveis: órgão metálico em
forma de caixa aberta - a) e órgão metálico oculto na madeira - b) [1]

6.3. Nós rígidos de extremidade em pórticos

Os nós de extremidade de pórticos ou em estruturas com mudança de directriz, devem ser


realizados com peças curvas, sendo o elemento constituído por uma só peça. Contudo esta
solução implica a necessidade de fabricar e transportar peças de grandes dimensões, o que
muitas vezes é impossível dadas as restrições impostas pelo código da estrada. Como
solução, utilizam-se sistemas estruturais constituídos por tramos rectos em que a mudança
de directriz é efectuada através de ligações rígidas.

Figura 19 – Ligação rígida entre coluna e viga de um pórtico [1]

Esta solução permite a construção de pórticos utilizando apenas peças de directriz plana,
fáceis de montar em obra. No entanto, apresenta inconvenientes derivados dos movimentos
originados pelas variações do teor de água da madeira. É obrigatório ter em mente que as
fibras da coluna e da viga estão dispostas em direcções aproximadamente, perpendiculares,
e que apesar da retracção ser desprezável na direcção longitudinal das fibras é
extremamente importante na direcção transversal. Poderão surgir tensões nos ligadores que
provocarão fendilhação na zona da ligação. Por estas razões se limita a utilização desta
solução a peças com alturas inferiores a 100 cm e em ambientes onde o teor de humidade
não sofra grandes variações.

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Estruturas de Madeira

6.4. Ligações rígidas

Muitas vezes, com o objectivo de facilitar o transporte, é necessário a divisão de um


elemento de grande vão ou uma peça curva com flecha elevada, em dois ou três elementos
mais pequenos. Posteriormente, em obra, proceder-se-á à montagem destes elementos.
Normalmente, tenta-se dividir a estrutura segundo pontos que são articulações, como é o
caso de pórticos e arcos em que a divisão se realiza por rótulas. Contudo, nem sempre é
possível este tipo de divisão, sendo necessário a obtenção de ligações com capacidade de
transmitir momentos flectores. A obtenção destas ligações é uma operação delicada e que se
caracteriza por um elevado grau de dificuldade, nomeadamente, em peças com inércia
variável.

Referências bibliográficas

[1] Alvarez, R. A., Martitegui, F. A.: Estructuras de Madera – Diseño y Calculo, Asociación de
Investigación Técnica de las Industrias de la Madera y Corcho, AITIM, 1996.
[2] http://www.strongtie.com/fr_engineer.html

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