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LÓGICA (Apontamentos)

"Toda a gente considera "claras" as ideias que possuem


o mesmo grau de confusão que as suas".
Marcel Proust

A lógica como estudo das condições de coerência do pensamento e do discurso

 O homem normal estrutura o seu pensar e o seu falar segundo critérios, regras, leis ou
princípios. São estes que tornam o pensamento e o discurso coerentes, lógicos. Essas leis e
princípios são, pois, condições sem as quais o ser humano não consegue articular, relacionar,
organizar o que pensa, o que diz e o que faz.
 Ao pensar e ao falar utilizamos palavras, construímos frases, fazemos interrogações,
exclamações e pedidos, damos ordens, expressamos desejos, etc.. Mas, sobretudo, fazemos
afirmações. Relacionamos as palavras, as ideias, as afirmações, os factos, os acontecimentos,
etc., e argumentamos construindo um discurso.
 É com um discurso organizado e lógico que transmitimos e expressamos aos outros os
nossos saberes e as nossas experiências. É falando que argumentamos em defesa de uma tese
ou contra ela, é argumentando que defendemos as nossas ideias, ou mostramos a falta de
fundamento ou coerência de opiniões diferentes das nossas. Argumentamos para defender ou
refutar determinadas opiniões, teorias, posições, verdades, crenças ou atitudes.

Há que distinguir entre pensamento e pensar. Enquanto que o primeiro é um produto, o


pensar é uma actividade e um processo. Torna-se pois necessário esclarecer que em todo o
pensamento:
há uma pessoa que pensa  aquele que produz o pensamento
há um objecto pensado  o que se pensa, a matéria, o conteúdo
há o acto/actividade  o pensar
há o produto/resultado  o pensamento
há a forma  a estrutura
há a expressão  a palavra, o enunciado, a proposição
há a situação  as diferentes circunstâncias e contextos.

A Lógica não se interessa por todos estes aspectos; a sua preocupação essencial é a
validade e a correcção dos pensamentos. A Lógica é o estudo das condições de validade do
raciocínio e do pensamento; é o estudo dos métodos e princípios usados para distinguir um
raciocínio correcto de um raciocínio incorrecto.

Validade e Verdade

Lógica Formal  distingue raciocínios válidos de raciocínios inválidos (ou formalmente


incorrectos).

A validade é independente do conteúdo das proposições; a validade é função unicamente


da forma, ou da estrutura das relações que são estabelecidas entre os juízos/proposições (que
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são tomados como ponto de partida  premissas) e a conclusão (que deles decorre
necessariamente). Vejamos um exemplo:
"Se todos os A são B" e "se todos os B são C", daí resulta necessariamente que "todos os
A são C". Esta inferência (ou raciocínio dedutivo) é válida, seja qual for a verdade ou a
falsidade das premissas; trata-se de um raciocínio formal, pois é válido seja qual for o conteúdo
dos termos A, B ou C.

Outro exemplo:
"Se todos os homens são mortais" e "Pedro é homem", então "Pedro é mortal". Se se
substituir Pedro por João ou por Maria, ou se se substituir os termos por símbolos ("Se todos os
X são Y" e "Z é X", então "Z é Y"), mantenho a mesma forma. A validade lógica do raciocínio
depende deste encadeamento formal do raciocínio, independentemente dos conteúdos atribuídos
aos símbolos utilizados.

Reparemos agora:

"Se todos os homens têm asas" e


"Pedro é homem", então
"Pedro tem asas".

Duas observações:
a)O raciocínio obedece à mesma estrutura formal; por isso, do ponto de vista da validade
formal, é válido.
b) A conclusão é materialmente falsa, ou seja, no confronto com a realidade, verificamos
que a proposição "Pedro tem asas" é falsa. Isto aconteceu porque, apesar da conclusão decorrer
necessariamente das premissas, parte da premissa falsa "Todos os homens têm asas".

Conclusão:

Há que distinguir entre validade formal e verdade material de um raciocínio. Esta última
avalia-se no confronto entre o que é afirmado ou negado sobre o sujeito lógico (do juízo) e a
realidade. Há raciocínios correctos sem que as premissas sejam verdadeiras, daí que a dedução
correcta (formalmente válida) não seja garantia da veracidade duma conclusão. A conformidade
com as regras lógicas é uma condição necessária, mas não suficiente, para garantir que se
atinjam conhecimentos verdadeiros. É preciso ainda que se parta de premissas verdadeiras.

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Princípios lógicos (leis fundamentais do pensamento).

Quando surge um problema, o homem, através do pensamento, começa por procurara


resposta nas suas experiências passadas e nos saberes já adquiridos. Nesta busca surgem
armadilhas e erros. Torna-se então necessário prestar atenção à correcção e validade do seu
pensar e, simultaneamente, evitar as falácias, os erros de raciocínio.

 Isto quer dizer que o pensamento terá sempre de ser coerente, i.é, não pode ser auto-
contraditório.

" Tudo o que é verdadeiro deve estar, de modo completo, em acordo consigo mesmo."
Aristóteles
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 São os princípios lógicos que estruturam a coerência do pensamento.

A) Princípio de Identidade

Formulação ontológica  "O ser é, o não ser não é" = " Toda a coisa é igual a si mesma"

Formulação Lógica  "A=A" = "Todo o A é A".

O princípio de identidade exprime a exigência de conservar a mesma significação dos


termos, a sua invariância, no decurso de um raciocínio ou de uma demonstração.

B) Princípio de (não) contradição

Formulação ontológica ― " é impossível que o mesmo atributo pertença e não pertença,
ao mesmo tempo, ao mesmo sujeito e sobre a mesma relação" = "a mesma coisa não pode
simultaneamente ser e não ser" = "é impossível simultaneamente ser e não ser".

Formulação lógica ― "é impossível que a afirmação e a negação sejam verdadeiras ao


mesmo tempo" = "as proposições contraditórias não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo"
= "é impossível afirmar e negar ao mesmo tempo" = " nada pode ser A e não A."

C) Princípio de terceiro excluído

Formulação ontológica ― "uma coisa deve ser, ou então não ser, não há terceira
possibilidade".

Formulação lógica ― "não é possível que haja qualquer intermediário entre enunciados
contraditórios" = "uma proposição é verdadeira ou falsa, não há outra possibilidade".

D) Dictum de omni et nullo

Enunciado: "tudo o que tem valor relativamente a todos, tem igualmente valor
relativamente a alguns ou particulares, e tudo o que não tem valor em relação a algum, também
não tem valor relativamente a alguns nem relativamente a particulares".

E) Princípio da razão suficiente

Enunciado: "nenhum facto é verdadeiro ou existente, nenhum enunciado é verdadeiro,


sem que haja uma razão suficiente para que seja assim e não de outro modo" = "nada acontece
sem que tenha uma causa ou pelo menos uma razão determinante".

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