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Adalberto Barreto

Jean Pierre Boyer

O ÍNDIO QUE VIVE EM MIM


itinerário de um psiquiatra brasileiro

2ª Edição - 2009
O Índio que Vive em Mim é a narrativa romanceada da vida de
Adalberto Barreto, filho do sertão, professor de medicina
social, psiquiatra, teólogo e antropólogo.
Jean Pierre Boyer, seu colega e amigo de Grenoble, construiu
este livro como um tecido reatando e religando os fios do s
acontecimentos.
A história de uma família, de um povo perseguido pela
miséria e seca, de uma tribo de índios deserdados, de uma
comunidade de excluídos vivendo na favela, universo de
pobreza e dificuldades, mas também de amor e esperança.
A obra nos conduz particularmente, no interior de um vasto
projeto de saúde mental comunitária, inovador e apaixonante
que associa psiquiatras, psicólogos, médiuns, sacerdotes e
curandeiros. nas sessões de terapia comunitária conduzidas
por Adalberto, a ciência da medicina ocidental está conjugada
aos rituais afro-brasileiros. esta forma e processo terapêutico
permite que cada favelado sofrido encontre nele mesmo e com
os outros o caminho de sua própria cura.
Jean Pierre Boyer acompanhou e ouviu Adalberto Barreto, por
longos períodos, e nos oferece uma obra extraordinária, que
nos revela o encontro entre dois mundos e duas culturas.
Copyright © 2009 Adalberto Barreto, Jean-Pierre Boyer
2a edição revisada
Direção editorial:
Liana Maria Sálvia Trindade
Editoração eletrônica:
Terceira Margem Editora
Revisão da 2 a edição:
Flávia Delgado
Título original (Francês): L’Indien qui est en moi
Itinéraire d’un psychiatre brésilien
Collection: Les Passeurs de frontières
Fondation pour lé Progrès de 1'Homme
Ed. DESCARTES & CIE, Paris, France.
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação
(CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Barreto, Adalberto
O Índio que Vive em Mim: itinerário de um psiquiatra
brasileiro / Adalberto Barreto, Jean-Pierre Boyer; [tradutor
Liana Maria SaLvia Trindade, prefácio de Leonardo Boff]. —
2 a edição revisada — São Paulo :
Terceira Margem, 2009 - 157p.
ISBN 978-85-87769-49-9
Título original: L’ indien qui est en moi
1. Barreto, Adalberto 2. Boyer, Jean-Pierre
3. Psiquiatras - Brasil - Biografia I. Boyer, jean-Pierre
I. Título
03.1337 CDD.
616.890092
Índice para catálogo sistemático
1. Psiquiatras : Biografia e obra
Sumário

Prefácio ..................................................................................... 6

Uma Árvore, uma Mulher, um Padrinho ............................... 10

Canindé, Terra de Adoção...................................................... 17

De Cariús a Pirambu............................................................... 24

A Referência Paterna .............................................................. 30

Impossível Banir o Índio que Vive em Mim ......................... 43

Da Desconstrução Material à Construção dos Vínculos ...... 55

Todos os Caminhos Levam a Roma ...................................... 61

Revelação da Cidade Eterna .................................................. 78

Da Psiquiatria à Cultura Brasileira ........................................ 89

A Incontornável Passagem por Canindé ............................. 100

Quatro Varas: da Exclusão à Inclusão. Junho de 1992 ...... 116

Hoje e Amanhã. Abril de 1995 ............................................ 139

Posfácio ................................................................................. 153


Prefácio
Uma Nova Santidade Política
Um certo número de intelectuais latino-americanos vê-se,
cada vez mais, em confronto com um terrível desafio: como
colocar a sua inteligência crítica a serviço da grande maioria
da população que sofre de uma atroz miséria? Normalmente,
as universidades servem de “coberturas” para os quadros das
classes dominantes. Elas formam os dirigentes das grandes
empresas, os advogados que vão defender seus interesses, os
tecnocratas que ocuparão os postos elevados da burocracia
oficial. Estes são os que frequentam a escola do “Faraó”, que
aprendem a lógica da dominação.
Mas, a partir dos anos 60, toda a América Latina assistiu ao
aparecimento de um pensamento universitário em rebelião: o
protesto contra a herança da exclusão que caracteriza as
sociedades, outrora colonizadas e atualmente neocolonizad as,
e a luta para liberar as cadeias que nos ligam às grandes
metrópoles estrangeiras, onde se decide aquilo que nós
devemos produzir ou consumir, exportar e importar, pensar
ou não pensar, e onde se decide sobretudo sobre o papel
subalterno que nós precisamos desempenhar no mercado
mundial.
Estes intelectuais nos deram uma nova leitura política e social
da realidade latino-americana. Eles se lançaram nas práticas
de libertação e foram desde o engajamento nos partidos
políticos de esquerda até as ações de guerrilha; a insurreição
armada, do final dos anos 60 à metade dos anos 70. Houve
prisões, sequestros, torturas e assassinatos nos sótãos dos
órgãos da Segurança Nacional que, bem entendido, serviam
também à segurança do capital. Mas, outros intelectuais têm
procurado inscrever-se em um processo de libertação menos
violento. Inserindo-se nos meios populares, utilizam o diálogo
e a interação com a cultura dos sem posses, em um caminho
de ida e volta de trocas de saber - acadêmico e popular -, tendo
como objetivo criar uma consciência de liberdade e esboçar
um novo sonho de democracia social. Importantes setores da
Igreja estão engajados nesta dinâmica. Daí nasce uma pastoral
de libertação que serviu de base à teologia da libertação,
primeira tentativa de teologia autoelaborada no terceiro
mundo.
Neste contexto é que se inserem a vida e a trajetória de
Adalberto e de seu irmão Aírton Barreto. Eles representam a
nova tendência dos intelectuais latino-americanos, de caráter
popular, libertária e democrática, impregnados de uma forte
espiritualidade que os fazem ir ao encontro de Deus, pelas
faces dilaceradas dos oprimidos: negros, índios, habitantes
das favelas, enfim, das vítimas da ordem vigente.
O presente livro – O índio que Vive em Mim –, escrito na
primeira pessoa por Adalberto e seu amigo e colaborador Jean
Pierre Boyer, é um testemunho biográfico, de primeira
importância, sobre o itinerário de milhares de aliados das
populações marginalizadas e oprimidas que têm
concretamente defendido a causa da Libertação.
Adalberto vem de um meio popular, mas ele ascendeu a todos
os graus da evolução cultural até a escala mais avançada da
crítica e do pensamento científico europeu, sem , entretanto,
perder ou renegar suas origens. Nele descobrimos um
microcosmo de dimensão difícil de encontrar em um
intelectual do “primeiro mundo”.
Sua vida é uma biblioteca. Sua formação em teologia
forneceu-lhe a provisão para sonhar sobre a construção de um
mundo feito a partir da dignidade dos oprimidos. Diplomado,
também, em Antropologia, aprendeu as diversas relações que
os seres humanos tecem com a natureza, com os seus sonhos,
com os outros e com o divino; todas elas igualmente valiosas
e constitutivas de representações do mundo e de seu mistério.
Doutor em Psiquiatria, aprendeu as interações entre a doença
e a cura, sociedade e ambiente, e os diversos caminhos
descobertos pelos homens para curar suas chagas corporais,
mentais e espirituais.
Mas, em nenhum momento de sua formação universitária ele
esqueceu o seu ser interior, Caboclo e Sertanejo, ao contrário,
fez das situações históricas sociais por ele vividas uma fonte
de aprendizagem, de questionamento de outros paradigmas,
contrários às raízes de sua realidade humana e cósmica. Com
grande empatia, introduziu-se na escola dos rezadores e
curadores, e aprendeu a sabedoria centenária de seus
terapeutas populares, sabendo articulá-las na ciência
moderna. O movimento integrado de Quatro Varas, em
Fortaleza, reúne as farmácias vivas, a casa de curas e muitos
outros lugares, mostra a fecundidade destes laboratórios de
paradigmas terapêuticos, para benefício do povo, respeitado
em sua cultura, crenças, valores e sonhos de um mundo
melhor.
Adalberto Barreto não traiu as suas raízes cristãs. Estas raízes
são mostradas nas forças místicas que inspiram os
engajamentos que vão além de qualquer lógica de interesse
pessoal ou de autopromoção. Se há santos que descem ao
inferno, Adalberto é um destes. Não se trata de canonizá -lo
nem de recuperá-lo na Igreja Grande-Instituição. Trata-se
objetivamente de conhecer um outro tipo de santidade, em
certo ponto ausente na história da Igreja e tantas vezes
encontrada nos caminhos das igrejas, nas comunidades de
bases, nas pastorais sociais e nos numerosos engajamentos de
leigos, homens e mulheres e que encontra em Adalberto uma
feliz expressão: a santidade política. É esta santidade que faz
do cristianismo um importante fator de libertação político -
social, e, aberta para uma plenitude, somente atingida no
Reino de Deus, ela começa nas relações conflitantes da
sociedade. Encarna-se em milhões de pobres e humildes, está
atenta para livrar o menor resquício de existência que ainda
resista à dominação e que procure a sua liberdade e a sua
plenitude.
Sem falsa modéstia, este livro é edificante. Ele nos faz
acreditar que nem tudo está perdido no interior das igrejas,
das universidades, dos meios intelectuais. Tudo pode se
articular para defender a vida daqueles que estão condenados
a morrer antes da hora. Tudo pode ser um instrumento de
liberdade e de liberação para estes. Como também para os
outros: existe no caboclo, no universitário, no sertanejo, no
devoto do Padre Cícero, e em um apaixonado de Cristo como
Adalberto Barreto, o fogo interior que conduz à compaixão
pelos sofrimentos do povo, ternura pelos humildes, cól era
sagrada contra as injustiças sociais e paixão pela vida e
liberdade. Este livro testemunha que tudo pode ser encontrado
no itinerário humano e espiritual de um psiquiatra do
Nordeste que permitiu que o índio nele pudesse nascer
totalmente, unindo o seu destino ao dos pobres de seu povo.
LEONARDO BOFF
Rio de Janeiro, dia da festa de Todos os Santos, 1995.
Uma Árvore, uma Mulher, um Padrinho
Qual o objetivo de extrair a história de uma pessoa; o
fragmento da saga de uma família; o momento de aventura de
um povo? Onde, quando, como e com quem começar a
narrativa romanesca de um homem em busca de sua
identidade?
Decidi começar por um episódio de minha família, como
reveladora das profundas raízes que me prendem à terra do
Sertão; a cultura nordestina constitui um referencial rico de
sentido, em minha ação cotidiana.
Estamos em meados do verão de 1891. Um vento de liberdade,
de emancipação, de modernidade sopra sobre o Brasil rico do
Sul: a escravidão foi abolida em 1888 pela princesa Isabel; a
República decretada no ano seguinte. O desenvolvimento
econômico e industrial decola o seu voo. Mesmo a pequena
vila perdida da caatinga sertaneja, berço da minha família
paterna, parece agora atingida por estas mudanças. A
esperança de encontrar trabalho na cidade ou no Sul, liberta
de ameaças das secas, fornece para alguns a coragem de partir.
Nesta noite, Maria das Graças descobre, como se o visse pela
primeira vez, o juazeiro, ou a árvore do juá, situada na entrada
da vila aonde ela vai furtivamente se colocar ao abrigo dos
olhares indiscretos. Todavia, ela sempre conheceu esta
árvore, amiga de todos, abrigando no meio do dia, em sua
sombra benfeitora, os tropeiros e vaqueiros. Quando o sol
equatorial é como chumbo, antes do Angelus, a ár vore é sede
de numerosas transações de questões familiares ou
comerciais, cobertas pelos cantos das aves; as suas folhagens,
ao cair da tarde, são cúmplices das confidências amorosas.
Maria das Graças espera José, o rapaz que ela ama, e sabe que
este dia ficará sempre gravado em sua memória. Tomou
conhecimento de que seu pai lhe havia encontrado um bom
marido, um bom partido, honesto, trabalhador e com a
reputação de ser um bom rapaz. Esta novidade lhe traz horror,
como se, ante o perigo todo, o seu ser estivesse se colocado
em estado de alerta. Com o olhar fixo, estendido para o
interior de si mesma, com os gestos medidos de uma pessoa
revestida e movida por uma determinação à toda prova, ela se
aproxima da grande árvore. Em contato com a sua casca
rugosa, ela sai do estado de tensão quase doloroso em que se
encontrava como enclausurada. A presença familiar do
juazeiro a reanima, e ela se põe a olhar com interesse as suas
folhas verdes, sombras armadas de espinhos que protegem os
ninhos das aves, suas frutas amarelas, “laranjas de vaqueiros”,
que tiram a sede, porém são insípidas. Ao examinar a árvore,
as suas lembranças desfilam, como se a árvore libertasse os
vestígios, as marcas deixadas nestes 15 anos passados na vila.
Esta quimera a enternece. Ela já sabe que uma página foi
virada e que estes instantes estão entre os últimos que passará
nestes lugares. Refletindo novamente sobre esta árvore
original do Sertão, ela retira de sua imagem forças e
reconforto ao contemplá-la. Nesta árvore, ela encontra o
símbolo da resistência à adversidade, pois é a única árvore do
Nordeste que permanece verde, qualquer que seja a estação
ou a pior das secas, graças às suas raízes muito profundas. Ela
fará desta árvore o seu modelo: não é no mais profundo de si
mesmo onde encontrará recursos para resistir à vontade de seu
pai, defender a sua vida, sua escolha, seu amor por José?
Isto foi dito e decidido nesta noite de 6 de janeiro, Dia dos
Reis. Isto teria podido fazer arrepiar a grande árvore, da cop a
às raízes, como ocorre no momento do equinócio, quando
sopra o vento do norte carregado de sal e iodo.
Maria nada disse a seus pais, não deixou transparecer de
qualquer forma as suas intenções; isto de nada serviria. Nesta
época, eram os pais que decidiam e arranjavam entre eles, o
casamento de seus filhos, levando em conta o interesse de
todos. Passados seis meses, Maria recebeu de sua família os
festejos de seus 15 anos, conforme a tradição nordestina,
cercada de faustos dignos de coroamento de uma princesa. Ela
deveria agora aceitar como esposo a pessoa escolhida pelo seu
pai. Sendo a mais velha de 12 irmãos e irmãs, deveria ser a
primeira a se casar.
O dia do casamento foi marcado e os preparativos
encaminhados. As duas famílias encomendaram os violeiros
para tocarem durante o banquete e dois sanfoneiros para
tocarem no baile que seguiria. Cada pessoa prepara com
alegria suas roupas para o casamento. Apenas Maria parecia
ausente, um pouco triste. Acreditavam que ela estivesse
preocupada com a confecção de seu vestido, que sua mãe e tia
costuravam, ou estivesse entristecida com a ideia de deixar a
sua vila e sua família para ir viver com seus futuros sogros em
outro vilarejo, mais ao norte. Na véspera das núpcias,
enquanto os homens sacrificavam uma vaca para as refeições
do dia seguinte, as mulheres faziam os preparativos na
cozinha para a feitura de doces e o indispensável alua, bebida
indígena, que marca as grandes ocasiões. Durante a noite,
Maria e José se encontraram pela última vez sob as folhagens
do juazeiro. Cada um trazia uma sacola cheia de alimentos
para a viagem e lamparinas para se guiarem na escuridão.
No caminho, voltaram-se pela última vez para olhar, nas
primeiras luzes do dia, a grande árvore verde cercada por
pequenas casas brancas, com telhas vermelhas imersas nas
névoas acinzentadas de um fim de verão sem chuvas.
Enfeitado com um chapéu de couro, rosado, com as bordas
estreitas de vaqueiro e vestindo a sua roupa mais bonita, José,
com expressão grave e olhar iluminado pela felicidade que o
esperava, conduz o jumento que lavará a sua Maria vestida de
noiva para um outro juazeiro. Eles escolheram, para se casar
e se instalar, a vila do Sertão que traz o nome de sua árvore
fetiche.
No início da manhã seguinte, quando descobriram o
desaparecimento da noiva, a família e todos da vila ficaram
abalados. O vigário da paróquia, o noivo acompanhado de
seus pais, assim como os padrinhos e as testemunhas,
chegavam: “Nós não vamos transformar um dia de alegria em
um dia de tragédia e tristeza”, declara decidido o pai de Maria;
dirigindo-se para o seu compadre, e acrescenta: “Eu lhe
prometi que o seu filho se casaria com uma das minhas filhas;
a mais velha fugiu e, portanto, não honrará o meu
compromisso. Proponho que a Anita, minha segunda filha,
case com o seu rapaz”.
Assim, teve lugar o casamento. Anita e seu marido foram
muito felizes e tiveram muitos filhos.
Maria das Graças nunca mais retornou à sua vila natal e nunca
mais reviu os seus pais. Com 15 anos, havia decidido a sua
vida e sabia agora qual era o preço de sua liberdade, de sua
emancipação: voltar as costas para a sua vila, para a sua
família, deixar para o passado esta parte de sua história, para
atingir o futuro que escolheu.
Ao chegarem a Juazeiro, antes mesmo de visitar o primo
irmão de José, em cuja casa eles pretendiam se hospedar,
dirigiram-se para a igreja de Nossa Senhora do Socorro.
Encontrando o Padre Cícero, pediram que ele consagrasse a
sua união: ser casado por este padre representava a promessa
garantida de felicidade futura. Ambos já haviam muito ouvido
falar deste padre legendário, que escolheram para ser a gora a
sua família. Eles, que não tinham mais conselheiro, protetor,
em suma, tutor, para se apoiarem e se manterem. Nunca
pensaram ou imaginaram que ele se apresentaria ante seus
olhos. Não é que tivessem se decepcionado com esta sorte,
mas, ao contrário, ficaram surpresos. Imaginamos sempre os
grandes homens como belos, de porte altivo e orgulhoso. O
indivíduo que os acolhe com simplicidade e terna
compreensão era de pequena estrutura e corcunda, o seu corpo
musculoso e espesso sem ser gordo, testemunhava uma força
e vivacidade pouco comum, através de sua batina amassada,
com manchas e remendos. O que impressionou mais os dois
noivos, foi o rosto deste homem: dir-se-ia que fora talhado em
uma árvore do pomar tanto os vínculos de alegria como os de
esforços marcavam o seu rosto cansado, queimado pelo sol
como se fosse veios de certas plantas. Colocada entre os
ombros, a sua cabeça sem pescoço, difundia uma doce
expressão de plenitude; a boca carnuda e gulosa; as palavras
emitidas com voz vibrante como proveniente das rochas,
transmitem força ao receptor. Quanto ao seu olhar e as suas
mãos, Maria nunca experimentara ou imaginara que pudesse
haver tanta manifestação de amor, determinação e calor. A
força interior que reside neste homem a teria certamente
inquietado se ela não tivesse percebido que estava
inteiramente a serviço de uma grande generosidade.
Não havia dúvidas, este homem que eles adotaram como
padrinho, ou mais como se apenas ele fosse toda a sua família,
é um ser excepcional, um “santo vivo”, como as pessoas da
vila e de todo o Nordeste o designam.
Com efeito, o padre Cícero Romão Batista, até hoje
denominado “Padim” ou “Padrinho Ciço”, é considerado
como santo protetor dos fracos e oprimidos, o padrinho dos
pobres do Nordeste. Mito vivo, ele é tão conhecido no Brasil
como o célebre cangaceiro Lampião.
Ele permanece, também, no pensamento coletivo como um
verdadeiro cangaceiro que luta, tendo apenas como armas a
sua fé e tenacidade, símbolo da resistência do povo contra os
poderosos com dinheiro e grandes fazendas e contra as
autoridades políticas ou religiosas. O início de seu renome
deve-se ao conflito que lhe opôs há alguns anos ao bispo de
Fortaleza, tornando-o um verdadeiro herói, objeto de
peregrinação, responsável por curas miraculosas.
Na missa dominical, no momento da comunhão, uma de suas
fiéis, a beata Mocinha, vê assim como, todas as pessoas
presentes, o sangue conter da hóstia que o padre lhe iria
oferecer. Todos gritaram “milagre”, nos domingos seguintes,
assistiu-se o mesmo fenômeno. A novidade abalou o país
como um tremor de terra. Os curiosos, estudiosos, e
jornalistas afluíram de todas as partes, vindo se misturar aos
fiéis para testemunhar a ação divina. Ante estes
acontecimentos, Juazeiro tornou-se o lugar onde o sangue de
Cristo havia sido vertido, uma terra de milagres. As
autoridades eclesiásticas foram pedir ao Padre para declarar
que tudo o que se passara havia sido um embuste; arguiam que
seria impossível o sangue de Cristo verter para os analfabetos
do campo. Devido a sua recusa em obedecer, foi suspenso e
posto como renegado pela Igreja. Diante disto, todos os seus
atos aumentaram de importância aos olhos do povo: ele
passou a ser o seu representante, expressão e modelo.
A legenda e os numerosos cânticos dos peregrinos que lhe são
consagrados relatam os múltiplos milagres, dos quais o autor
e todas as ações por ele empreendidas em favor do povo. Diz -
se mesmo que o Padrinho está sempre vivo e que ele
simplesmente se ausentou por algum tempo de Juazeiro.
Retornemos ao episódio de Maria e José. No final de seu
primeiro encontro, Padim Ciço lhe dá a sua benção
desenhando, com o polegar, o sinal da cruz, nas suas fontes.
Ele os casará: a cerimônia ocorrerá dois dias depois, tendo
como testemunhas o sacristão e o primo de José. Desta u nião,
nasceram três filhos, João, Pedro e Maria. Um ano após o
nascimento de sua pequena Maria, José foi vítima de um grave
acidente na cooperativa de algodão na qual trabalhou desde a
sua chegada a Juazeiro. Morreu alguns dias depois destes
ferimentos, deixando Maria das Graças, sua esposa, só,
desamparada, com três filhos. A seca foi violenta. Impossível
encontrar um emprego. Assim, desamparada, sem recursos,
ela vai acompanhada pelos seus três filhos e pedir conselho
ao Padre Cícero. Após relatar a morte de José e as dificuldades
que encontra para alimentar os seus filhos, expõe o seu desejo
de ir morar em Canindé, cidade de peregrinação, consagrada
a São Francisco de Assis, o santo que acolhe as pessoas
pobres. A presença apenas do Padre já lhe traz conf orto. Ele
se aproxima das crianças, olha-as, depois pegando a pequena
menina em seus braços, e com a voz ao mesmo tempo calorosa
e com rigor, dirige-se à mãe da criança: “Maria você é forte e
corajosa, mas o que há em você de melhor, o que me
impressionou desde o primeiro instante em que lhe vi, com o
seu José, é a brava determinação que lhe reside para defender
aquilo que tem valor para os seus olhos. Parta, tome o
caminho com os seus filhos. Eu não tenho qualquer
preocupação com vocês. Pois é mesmo em Canindé que você
será feliz e que sua família criará raízes”. Depois, colocando
docemente a mão sobre a cabeça da pequena, acrescenta:
“Esta aqui, a Virgem Maria tem necessidade dela no Paraíso.
Não me espantará se ela lhe deixar antes mesmo da sua
partida”.
As predições do Padim se realizaram: a pequena Maria foi
tomada de febre e convulsões, e, no dia seguinte e este
encontro, ela morre sem que nada nem ninguém pudesse fazer
qualquer coisa que fosse por ela. Alguns dias mais tarde, a
família Barreto, enlutada, instala-se em Canindé, em um
hotel, onde Maria, logo que chegou, encontra trabalho. Os
anos passam, os meninos crescem. João tem agora 18 anos.
Ele participa à sua mãe, o seu projeto de partir para fazer
fortuna na Amazônia; sonho de muitos jovens desta época.
Fala-se muito sobre a borracha e minas de ouro existentes a
céu aberto. Ele ficou dois anos lá, dois anos de pesadelos,
trabalho extenuante, doenças, febres, violência e sem
oportunidade de encontrar uma companheira para fundar uma
família. Em seu retorno a Canindé, encontra Sinhá, casam-se
alguns meses mais tarde. João e Sinhá tiveram seis filhos, o
segundo chamar-se-á Hercílio, meu pai.
Esta história me foi contada inúmeras vezes, durante a minha
infância. Ela representa para mim, como para toda a família,
uma legenda, um mito, uma espécie de referência cultural
familiar. Ser um Barreto é, em suma, ter sido feito com esta
matéria particular que caracteriza o Padim, o Juazeiro e minha
bisavó: aquela que resiste às prisões do ambiente, tenaz, por
vezes teimosa, para defender sem fraquejar, como guerreiros
armados, seus únicos valores, seu povo e a sua liberdade.
Canindé, Terra de Adoção
Fazia um ano que Isa e Hercílio estavam casados e habitando
esta pequena casa branca, na entrada de Canindé, lugar onde
pela primeira vez eles se encontraram, na travessia do rio,
quase sempre seco, que margeia a cidade. Com efeito, já se
passara um ano que estavam casados. Algumas semanas após
as núpcias, Isa, seguindo a tradição do Sertão, espera seu
primeiro filho. Calculou que ele deveria nascer antes de seu
aniversário de 19 anos. A gravidez se passa sem transtornos.
Período este que foi para ela de grande felicidade, ocupada
em enfeitar a sua casa e em fazer o enxoval do bebê e também
em sonhar com esta criança que viria nascer, escolher o nome
da criança e os padrinhos e madrinhas de batismo. Em suma,
um tempo em que, com seus sonhos, ela se prepara p ara ser
mãe. Com a ajuda de sua mãe, de Lúcia e da vizinha (que era
rezadeira e na ocasião exercia o ofício de parteira), pôs no
mundo um menino denominado Absalão. Uma bela criança,
viva, sólida, de cabelos negros como os de seu pai. Cinco dias
após o nascimento, a criança passa a sentir cólicas e acaba
morrendo, apesar dos esforços de todos; as preces da família,
os passes rituais de Lúcia e mesmo os medicamentos dados
pelo farmaceuta local.
Após ter sofrido três dias de diarreia e de crises incessantes,
a criança morre de desidratação aguda, como muitos
pequeninos nordestinos, sem que a fatalidade lhe sirva para
grande coisa.
Isa e Hercílio não compreendem porque Deus lhes deu esta
provação, tão duramente. Ante este golpe, Isa acreditava que
ficaria louca, de tanto que sente pena, revolta e ódio face a
natureza ingrata do Sertão e a injustiça que os atingiu. Sem
sua fé e ajuda de seu marido, não teria sobrevivido à sua
infelicidade.
Eis que 10 dias após seu filho ser enterrado, Isa retornou a
seus hábitos de sair, de se sentar em frente à casa antes do cair
da noite. Espera seu marido, no momento em que o sol e o
vento, fatigados por terem durante o dia inteiro fustigado a
terra, a pele e a boca dos homens, deixam um pouco de aragem
para se respirar antes da noite.
Nesta tarde, Hercílio chegou mais cedo do que de costume, de
seu trabalho no Departamento Nacional de Obras contra as
Secas (DNOCS); de tanto que estava inquieto para rever a sua
mulher que, presa pelo desespero, perde o apetite e o sono.
Ambos aproveitam silenciosamente o momento de calma; ela
se senta em um tamborete de madeira, defronte à porta; ele se
balançava, ligeiramente apoiado sobre a rede suspensa, em
frente à janela, mordendo seus bigodes, cada um com seus
pensamentos. Eles se olharam por um momento, procurando
um e outro, na face do ser amado, um sinal, um conforto. Isa
sente uma profunda ternura misturada de desespero,
lembrando que foram estes seus cabelos negros ondulados e
seus olhos brilhantes que fizeram bater seu coração, da
primeira vez que ela o viu na missa dominical. Ele também se
recordou dessa primeira vez. Ela parecia tão doce, tão terna,
com a pele tão branca, tão delicada, com seu escapulário
dobrado e trazendo a grande medalha das filhas de Maria.
Nunca ele havia sentido tanta intimidade, sua garganta estava
apertada como se tivesse medo: ele se sentia dominado e
apaixonado. O latido de seu cão lhes reconduz ao presente:
uma nuvem de poeira chama a sua atenção, pois era raro ver
qualquer movimento que seja, a esta hora, quando todo o ser
ou toda a coisa parece estar em suspense, em repouso. Um
jumento magro, conduzido por uma jovem mulata,
visivelmente esgotada, dirige-se ao local.
O asno traz sobre o dorso duas cestas. Chegando diante da
casa, a mulher pede um pouco de água fresca para ela e suas
duas filhas. Ela estava vestida com a tradicional roupa dos
peregrinos franciscanos. Vestido marrom, cerzido com
retalhos ovais, na maior parte de cores brancas, rosas e verdes,
retalhos remendando a vestimenta que ela decidiu trajar
durante um ano como expressão de seus votos. Isa e Hercílio
puderam então perceber as crianças. Cada uma delas,
encolhida em uma cesta, estava pesadamente adormecida, sem
dúvida mais pelo calor do que pelo embalo do animal.
Após se restabelecer, a mãe das duas filhas encontra forças
para falar. De imediato, a negrura de sua pele reteve a atenção
de Isa. A fronte talhada pelas rugas, o rosto e os cabelos
embranquecidos de poeira, os olhos brilhantes, ela se
apresenta: “Eu me chamo Maria, venho de muito longe. Faz
seis meses que eu não tenho notícias de meu marido. Ele
deixou a nossa vila para fugir da seca. Ele havia me prometido
vir nos buscar, logo que encontrasse trabalho. Mas, já perdi a
esperança de que ele retome um dia. Encontrando-me só,
abandonada,
sem meios de existência, decidi também fugir com meus
filhos para encontrar como viver. Graças ao meu protetor, São
Francisco de Chagas de Canindé”. Acentua fechando em suas
mãos o rosário: “Já faz duas semanas que procuro tra balho,
mas com as crianças torna-se muito difícil. Querem me
empregar, mas não com os meus filhos. Por esta razão eu
decidi confiá-los para pessoas de bem que possam alimentá-
los e lhes dar uma boa educação, coisa que eu não poderia
fazer”!
Depois, detendo-se um instante de falar, para tomar fôlego e
também um pouco de água, olha com atenção e ardor Isa e
Hercílio e lhes pede com uma súplica no olhar se eles aceitam
ficar com uma de suas filhas. Isa é tocada pelas lágrimas. Diz
que compreende e que não pode aceitar esta proposta, porque
ainda não estava restabelecida da infelicidade de ter perdido
o seu filho. Uma longa conversa se trava no meio da qual Isa
acaba sendo convencida por seu marido, mas principalmente
por Maria e pelo rosto enternecido da criança mais jovem, em
adotar esta pequena menina, de oito meses chamada
Raimunda. Mas no momento de se separar, as duas irmãs se
põem a chorar, recusando a se largar. Terezinha, a irmã mais
velha, dois anos, de Raimunda, aperta bem forte a caçula em
seus braços. Ante esta cena pungente, meus pais têm a ideia
de propor à minha avó materna, que morava na casa ao lado,
de adotar Terezinha.
Assim, a irmã da minha irmã mais velha tornou-se a tia e por
consequência minha tia também.
Após a Raimunda, meus pais começaram uma série de nomes
em “A”, interrompida, após Absalão, com a adoção de minha
irmã. Assim, segundo a tradição do Sertão que quer que os
nomes das crianças tenham um ar de família, começando ou
terminando da mesma maneira, vieram ao mundo
sucessivamente e em cada ano, pontualmente 10 crianças:
Antônio, o militar; Adalberto, vosso servidor, nascido em 3
de junho de 1949 em Salão, perto de Canindé; em função das
peregrinações profissionais de meu pai, nas diferentes vilas
do Sertão, para construir uma grande barragem de água,
nascem em seguida. Airton, advogado da Associação dos
Direitos Humanos, que mora na favela de Pirambu; Armando,
especialista em próteses dentárias; Abelardo, engenheiro;
Aldeíde, secretária do Centro de Estudos da Família; Alice,
nutricionista; Aurélio, cineasta e, enfim, Anchieta,
cabeleireiro e Augusto, o caçula, que é funcionário público.
A história destes dois últimos irmãos, falsos gêmeos, porém
nascidos apenas com um mês de distância entre um e outro, é
singular. Meus pais haviam voltado a morar em Canindé e
minha mãe estava para dar à luz: a Anchieta.
Meu pai, uma tarde foi comprar uns remédios para as crianças,
quando percebeu que uma jovem mulher grávida, de maneira
evidente, com mais de seis meses de gravidez, estava a pedir
com insistência e com a força do desespero, um veneno
abortivo para terminar esta gravidez indesejável, que ela
chamava de forma crua: “esta m...”. Acrescentava, para
convencer ao farmacêutico e a assistente, que ela vivia da
prostituição e não podia oferecer a esta criança uma vida
digna. Uma viva discussão se segue na qual meu pai participa
com fortes argumentos, aparentemente sem resultados. Em
desespero de causa, movido por esta cena, não suportando a
ideia de que ela pudesse fazer uma besteira para chegar a seus
fins, meu pai promete cuidar do bebê desde que ele nascesse.
E apresenta o seu endereço em um cartão. Isa, alguns dias
após o nascimento de seu filho (que eles haviam combinado
que seria o último), aprova sem reservas a atitude do marido,
pensando como ele, que esta criança ficaria apenas alguns dias
com eles, o tempo de encontrar uma família capaz de os
acolher. Isa, como o resto da família, apega-se a esta criança,
tão loira e branca como Raimunda era morena. Esta última,
pela sua adoção, iniciara a irmandade e, por sua vez,
terminava. Pode-se então compreender porque Canindé é para
a nossa família, e para mim mesmo, o símbolo da terra da
adoção.
Detenho nesta imagem, ontem, hoje, todas estas lembranças
que bruscamente me retomam. Em uma quinta-feira, à tarde,
durante a sessão de terapia comunitária da favela “Quatro
Varas”, Maria das Chagas, uma mulher alta, magra, trazendo
uma camisa florida e um avental quadricular, bem novo,
começa a contar a sua infelicidade:
“Eu me sinto muito só, sem amigos. As pessoas fogem de
mim; meu marido me bate quando bebe, eu não tenho a
impressão de ser uma mãe má, porém, às vezes, tenho o
sentimento de que meus filhos não me amam. Eu nunca soube
o que é ser uma mãe. Penso que isto ocorre porque minha mãe
morreu algumas semanas após meu nascimento e eu nunca
conheci meu pai. Minha tia-avó que me recolheu sempre se
recusou a falar sobre meus pais”. Ante as lágrimas que
acompanhavam este depoimento, outros participantes evocam
a sua própria história.
Francisco José, um homem baixo, com ventre arredondado,
como são a maioria dos nordestinos, pede o microfone: “Eu
compreendo o seu sofrimento, mas não estou certo de que ele
é causado apenas pelo fato de você não ter conhecido os seus
pais. Eu vou falar enquanto pai adotivo: encontrei a minha
filha aqui presente, que tem agora, 14 anos, em uma lixeira no
meio dos ratos. Ela teria todas as razões lógicas para se sentir
infeliz. Porém, ela é a alegria de toda a família e eu não acho
que ela se sinta triste ou perturbada por este fato, e não são na
verdade os amigos que lhe fazem falta”. Depois, dirigindo -se
à sua filha: “Diga o que pensa, eu não estou na sua pele,
dificilmente posso dizer as coisas que você pensa”. Maria de
Lurdes, uma morena bonita, sorridente, prossegue: “É
verdade, eu nunca me senti desprezada ou um lixo porque
meus pais verdadeiros me jogaram na lixeira, isto é problema
deles, não meu. Para mim, meus pais são aqueles que me
amaram e me reconheceram verdadeiramente como eu sou. Eu
adoro meu pai e minha mãe, por nada deste mundo eu queria
mudar”.
Antonieta pede então a palavra: “Eu sei o que é se sentir
abandonada. Eu nunca me senti tão desesperada e só no
mundo, quando da morte de minha mãe; justamente no
momento em que a gente iria chegar na favela. Eu tinha 12
anos, meu irmãozinho tinha apenas três anos; eu não conhecia
ninguém e nem tinha coragem de pedir água e um pedaço de
pão para alguém, de tal modo que eu me sentia infeliz e com
vergonha de estar sem pais. Mas, tudo mudou quando a lguém
nos perguntou sobre quem nos havia trazido, e como eu disse
que só tinha meu irmão como família, ele me perguntou se eu
aceitava agora fazer parte de sua família, de morar junto e
tudo dividir. A partir deste momento, foi inacreditável o que
eu senti, minha tristeza se transformou em grande alegria, nós
não estávamos mais abandonados, nem a sós com a nossa
tristeza de termos perdido mamãe, nós tínhamos de novo uma
verdadeira família”. Ela prosseguiu dirigindo-se a Airton: “Eu
me lembro, como se fosse ontem do momento de nosso
encontro. Você vestia uma velha calça azul, descosturada e
uma camisa branca. Olhou para as bolhas dos pés de meu
irmão, ocasionadas pelos bichos-de-pé, e nos disse sorrindo:
Você vê seus pés, estas pequenas bolhas rosas, se você não
cuidar, elas vão florir e fazer de seus pés um verdadeiro
jardim”.
Ouvindo esta sucessão particular de histórias me veio a ideia
de reuni-los. Eu pedi então a meu vizinho para me ajudar a
transportar a mesa, que servia para se escrever os ofícios dos
trabalhos da Associação dos Direitos do Homem, e para
colocá-la no meio da palhoça onde ocorria a reunião.
Indicando com a mão que esta mesa representava o barco do
abandono, pedi a todos que se sentiam ou estão se sentindo
abandonados que se aproximassem da mesa. Uma dezena de
pessoas levantaram-se, juntaram-se e estenderam-se as mãos.
Esta encenação designa a dimensão do abandono.
Representações gestuais que revelam a dimensão mais ampla
do fenômeno do abandono. Cada um, ajudando a religar sua
história com a dos outros, embarcaram todos na mesma barca.
Foi então que Pedro Pequeno, conhecido na favela como
“Profeta do Sertão”, ativo participante destas reuniões,
interveio, tirando as mãos do bolso de sua velha calça, para
retirar o cachimbo da boca: “Vocês não estão sós para se
sentirem abandonados neste mundo. Nós todos, habitantes de
favela, fomos de certo modo abandonados pela sociedade.
Nós vivemos rejeitados, excluídos, fechados na miséria desta
lata de lixo, tratados como sujeiras”.
Eis aí o verdadeiro problema do abandono. As histórias
pessoais não são senão ilustrações deste problema social. É
preciso fazer alguma coisa para sair disto. Mas eu peço a
vocês, não façam como Noé na Bíblia que, após ter construído
seu barco, escolheu os animais que queria salvar e abandonou
os outros. Este risco é maior do que aqueles que se acreditam;
escolhidos por Deus eles constroem seus pequenos barcos,
resolvem seus problemas e abandonam seus irmãos.
No decorrer desta sessão terapêutica, revendo a mim mesmo,
o que havia sucedido com a história da minha família, pude
melhor extrair a importância de ser adotado, reconhecido por
mim mesmo e como pertencente a uma família, a um grupo. E
também soube que uma adoção só é verdadeiramente bem
sucedida se houver reciprocidade de sentimentos.
Do mesmo modo que a nutrição é ativa no processo de adoção,
através da magia das ligações que isto suscita e tece entre o
adotado e sua família, do mesmo modo, todo o ser humano
deve reconhecer seu grupo e deve adotá-lo para ser aceito por
ele, participar ativamente em seu funcionamento para dele
fazer verdadeiramente parte.
Não foi por acaso que escolhi me formar em terapia familiar,
pois o essencial da minha ação consiste no que ela traz para
as relações do indivíduo com um grupo, sobre a importância
da organização solidária do coletivo, como apoio essencial do
homem.
Desta maneira, coloco-lhes uma das bases de “minha
religião”.
De Cariús a Pirambu
Muitas vezes, no decurso das sessões de terapia comunitária,
vêm as lembranças de minha infância. Em uma tarde de
quinta-feira, às 14 horas, conforme ocorre há 22 anos, as
pessoas se reúnem neste horário para participarem das rodas
de terapia comunitária. Nesta ocasião, reúnem-se 50 pessoas
sob uma grande palhoça: as pessoas mais velhas tricoteiam
em cadência, uma dezena de mães de família; um bebê no
braço e três ou quatro crianças sentam-se aos pés dos adultos;
juntam os adolescentes do grupo de arteterapia. O presidente
da Associação Quatro Varas com a sua filha mais jov em,
sentada em seus joelhos, trava uma grande conversa com um
grupo de habitantes da comunidade, agrupado ou sentado no
chão, em torno dele. Alguns estudantes de medicina ou
psicologia prolongaram seus estágios obrigatórios na favela.
Meu antigo Jean Michel, que chegara no dia anterior de Paris,
meu irmão Aírton e os dois técnicos foram encarregados de
registrar todas as sessões.
Como na maioria das vezes, a primeira pessoa que exprime
uma dificuldade, apresenta para o conjunto de participantes
um tema de reflexão e de transformação, ao mesmo tempo
individual e coletivo.
Hoje, a primeira a apresentar foi uma mulher de uns 40 anos,
denominada Socorro, abre a reunião. Cabocla, com olhar
orgulhoso, trazendo firmemente no colo o seu jovem filho,
magro, os cabelos embaraçados e os olhos vermelhos do sol.
Com sua voz rouca, carregada de emoção, com o microfone
na mão, ela interrompe o “blá-blá-blá” das conversações me
interpelando: “Doutor, eu estou muito preocupada com a
atitude de meu filho. Ontem à noite ele me disse chorando de
raiva que era a última vez que dormiria sem comer, e que iria
agir como os outros. Ele também iria roubar para ter certeza
de ter alguma coisa na barriga antes de dormir. Eu não sei
mais o que fazer, você se dá conta que ele tem sete anos ”.
Depois ela acrescenta: “Eu não suportaria ter um ladrão em
casa. Prefiro que ele morra”.
O apelo desta mãe revela que, apesar da miséria terrível que
atravessa com a sua família, ela permanece presa a seus
valores. Isto lembrou-me dois acontecimentos, ocorrido na
época em que eu tinha 7 anos.
O Nordeste do Brasil sofria, então, de um período de muita
seca, a natureza vestia cinza, não expressava senão tristeza e
desolamento; o verde, como cor e símbolo da vida, havia
totalmente desaparecido da superfície de nosso horizonte.
Para a maior parte das pessoas, a busca de água e alimentação
havia se tornado uma verdadeira obsessão. Nós habitávamos
em Cariús, uma pequena cidade situada no próprio coração do
Sertão. Em Cariús, como em todas as cidades do Nordeste, o
governo, para evitar o êxodo massivo das populações, havia
organizado aquilo que se chamava então frente de serviço
encarregado de construir as estradas e as barragens. Em toda
parte, viam-se centenas de homens e mulheres trabalhando na
terra árida e seca, para obter o suficiente para não morrer de
fome. Meu pai exercia a responsabilidade de inscrever as
pessoas em dificuldades que podiam se beneficiar deste tipo
de trabalho de interesse público.
Nós éramos, então, cinco crianças em casa, e logo seriam seis.
Apesar do emprego de meu pai, a situação era muito precária.
Um alto funcionário do governo encarregado de supervisionar
o conjunto dos trabalhos hospedava-se em casa. Uma noite,
no momento da refeição, constatando nossas dificuldades, ele
convida meu pai para inscrever Raimunda na lista de frente
de serviços, assim como as duas outras crianças.
“Vocês sabem, é preciso ser astucioso para ganhar dinheiro.
Inscreva-os, você está muito bem colocado para fazê-lo,
ninguém saberá de nada, você pode estar certo de minha
discrição”.
Achei logo esta ideia formidável e, persuadido de que meu pai
iria seguir judicialmente o conselho, já imaginava uma
refeição de festa, como outrora, com frutas, legumes, mas,
sem demora, meu pai responde: “Se agisse assim, eu destruiria
em mim toda a autoridade e toda a possibilidade de exigir dos
outros que agissem de maneira correta. E, também, como
poderia encarar o fato de ter tornado meus filhos cúmplices
de uma mentira? O meu dever é educá-los no caminho direito
da justiça. Prefiro continuar pobre, mas com dignidade do que
rico, sem nenhuma dignidade”.
Inicialmente, não compreendi a atitude de meu pai; sua recusa
em melhorar a nossa condição de vida. Não custava nada
acrescentar os nossos nomes na lista e ganhar dinheiro para
que no final do mês pudéssemos escapar aos sofrimentos da
miséria, não foi senão muito mais tarde que eu pude
compreender as razões de sua recusa categórica. Eram sua
liberdade e sua integridade que ele defendia. Sua liberdade de
falar, escolher e defender os seus valores mais caros. A
experiência me tem levado progressivamente a recordar de
que quaisquer que sejam as circunstâncias ou as dificuldades
que cada um possa encontrar, é sempre possível fazer uma
escolha. E poder escolher é um modo de provar sua liberdade
de sentir seu poder ou de exercer seu livre arbítrio em relação
aos acontecimentos ou às situações críticas.
Algum tempo após este episódio, vendo a inquietude de meus
pais perante a situação da família que vinha se agravando, eu
me senti preocupado. Procurava um meio de poder ajudar os
meus familiares. Neste mesmo dia, como eu gostava de ir ao
mercado, minha mãe me pediu para acompanhá-la. Eu a
ajudaria trazer as provisões. Percebendo uma forma
arredondada em um canto sombrio, larguei a mão de minha
mãe, esperando encontrar ali um tesouro que nos libertasse de
nossos pesares. “O que você está fazendo? O que você
procura?”, ela me perguntou.
Eu olhava para todos os lados, talvez pudesse encontrar uma
bolsa cheia de dinheiro.
Ouvindo estas palavras, ela parou, colocou seu cesto no chão,
ajoelhou-se para que pudesse me olhar na mesma altura de seu
rosto e me explicou ternamente: “Meu filho, para que você a
encontre, é preciso que alguém tenha perdido. Não faça nunca
da sua felicidade a infelicidade do outro, verifique sempre
quando você se alegrar por alguma coisa se sua alegria não
foi levada pelo sofrimento de um outro”.
As palavras de minha mãe me tocaram e aumentaram a
vontade de fazer este tipo maravilhoso de trabalho que
resolveria os nossos problemas familiares. O que ela me disse
naquele momento ficou gravado no espírito porque me serviu
para uma outra busca que não tocava a materialidade das
coisas ou a busca de soluções individuais, mas a descoberta
do sentido escondido e as respostas coletivas para sair da
miséria, do sofrimento, sem a exploração e exclusão de
ninguém.
Após a evocação destas lembranças de infância, livremente
relatadas, numerosas pessoas utilizaram o microfone. E o
debate voltou a partir da experiência de cada um , em torno da
importância dos valores, das crenças naquilo que constitui a
identidade de um indivíduo e do risco que há em renegar ou
renunciar a eles sob a pressão dos acontecimentos, de perder
sua “alma” ou mais concretamente sua própria autoestima, seu
amor próprio, sua vontade de falar... Em seguida,
progressivamente, foi posto em evidência, que desta maneira,
em uma comunidade como aquela de “Quatro Varas” todos
devem defender seus valores culturais, morais e de
solidariedade, necessários ao grupo e a cada um de seus
membros. Depois, como é muitas vezes o caso no final da
reunião, todos juntos cantamos uma canção popular do
Nordeste. Todos se puseram de pé e deram-se as mãos. O filho
de Socorro, como os outros, estava com a cabeça levantada
agora, visivelmente reconfortada pelas palavras que ouviu e
pelo que sentiu durante estas duas horas.
Saindo desta reunião, estive com a responsável da farmácia
viva (local de vendas de plantas medicinais produzidas na
favela), que veio ao meu encontro para falar das dificuldades
do momento. Antes de levar Jean Michel para a casa dos seus
amigos, precisei passar na casa de meus pais para felicitá -los
pelo seu aniversário de casamento.
Minha mãe estava particularmente em forma: ofereceu -nos
bebida e nos convidou para o café. Como Jean Michel se
espantasse que ninguém da minha família tomasse café, eu lhe
expus a questão que sempre se opôs aos meus pais e animou
numerosas discussões na família durante a minha juventude.
Desde muito tempo, lembro-me de que minha mãe sempre
preparava pela manhã um grande bule de café, mas em casa
ninguém bebia. Este café era sempre moído e confeccionado
para todas as pessoas do quarteirão, que desejavam se sentar
à nossa mesa, movidas pela necessidade ou pelo prazer do
convívio. No decorrer dos anos, minha mãe mantinha a mão
aberta aos indigentes de todos os tipos, qualquer que fosse a
situação financeira de nossa família. Isto tem sido sempre
tema de irritação para meu pai. Não que ele seja menos
generoso ou hospitaleiro que a minha mãe, mas gostaria de
colocar algumas moedas de lado para seus dias de velhice,
enquanto minha mãe parecia se empenhar em oferecer tudo a
todos aqueles que tivessem mais necessidade do que nós.
Enquanto a ouvíamos contar estas lembranças, ela olhou para
mim e meu amigo com olhar malicioso e, depois de aguardar,
voltou- se para seu marido para repetir ainda mais uma vez o
ditado que já ouvi, talvez um milhão de vezes: “Em uma casa,
quando o dinheiro entra por uma porta, Deus sai pela outra”.
Começando a cantarolar, ela me perguntou se eu me lembrava
desta pequena canção por ela inventada sobre este assunto
delicado. E nós, então, ante meu amigo surpreso e Ayrton que
chegava, meu pai, minha mãe e eu entoamos em casa.
Não é só eu
Não é só eu, tem tu também
Ele vem, ele quer ganhar também
Reparte teu pão, reparte teu café
Reparta com o teu irmão
Metade de tua fé
Parta e reparta, torne a
Repartir com o irmão que sofre
Ensine ele a sorrir
Após rir muito, Jean Michel perguntou à minha mãe sobre os
grupos religiosos da favela, assunto que lhe interessa
particularmente, e sobre sua participação na Associação, para
a renovação carismática. Colocando o fio na agulha, ela
explicou como vê a sua fé e como compreende a função
espiritual rememorando uma cena dela aos 10 anos de idade:
“Uma noite meu pai me pediu para encher de água o balde, no
poço que ficava a uns 100 metros de casa. Era uma noite de
lua cheia. Logo que saí de casa, eu me senti ofuscada, por uma
luz forte vinda do lixo. Fechei os olhos e recuei, piscando as
pálpebras, olhei de novo na direção da luz, que encandeava,
para perceber que aquilo vinha efetivamente da lata de lixo.
Aproximei-me, pensando que deveria se tratar de um
diamante que luzia muito e que se perde nestes lugares e
terminei por descobrir que o raio de luz que tinha me
encandeado, vinha de um caco de vidro, que no meio do lixo
refletia os raios da lua. Confiante nesta descoberta, eu fui
encher meu balde para depois ir me deitar. Não é que uns dias
mais tarde, lembrando-me desta cena, eu me pus a pensar que
o ser humano é como um caco de vidro; sua função é de
receber e transmitir a luz de Deus para clarear a consciência
do mundo. Quanto mais o homem for transparente, mais está
propício a deixar passar e difundir a luz recebida, qualquer
que seja o lugar onde se encontre; sobre uma lata de lixo, em
uma favela ou em qualquer parte.”
Ela cantou:
Sou caco de vidro na escuridão
Foi a luz de Cristo que me fez brilhar
Sem Cristo sou cinza sempre a virar
Que o vento leva para lá e para cá
Com Cristo sou
Luz sempre a brilhar
Mostrando o caminho para onde passar
Que paradoxo: é em um mundo hostil, seco e árido,
simbolizando a perda, a miséria e a morte, e é da boca de meus
pais que eu fiz as minhas primeiras universidades descobrindo
e integrando os grandes princípios que, desde então,
conduzem a minha vida.
No espaço de uma tarde, pela via de uma pergunta expressa
por minha mãe, desamparada, e, de uma conversação em torno
de uma mesa familiar, a magia criadora da memória
reatualizou e reordenou força e vitalidade aos valores que são
o núcleo de minha identidade e iluminam o sentido e o espírito
de meu engajamento.
A Referência Paterna
Recentemente, acompanhei amigos franceses na visita ao
bairro João XXIII, local muito pobre de Fortaleza, para
reencontrarmos a criança que eles iam adotar. Desde a nossa
chegada, a enfermeira que cuidava da criança, os vizinhos e
todas as pessoas da vizinhança não tinham senão uma palavra
na boca: “Olha seu pai”, gritavam para o bebê; “É o pai
dele...”, comentavam outros. “Pai... pai...pai”, repetia a
assistência com uma emoção misturada de inveja. O pequeno
parecia deslumbrado pela repetição da palavra e chorava de
felicidade, fixando seus olhos negros em meu amigo, seu pai,
já adotado pela comunidade. Pouco caso era dado para a mãe
adotiva; como se a sorte que havia tido de ser adotado -
encontrado - um pai muito mais do que pais ou uma família.
Este exemplo tumultuado mostra, além da dimensão afetiva e
teatral, que emocionou profundamente meus amigos, o lugar
essencial do “pai” em nossa cultura brasileira. Cada uma de
nossas três raízes culturais, indígena, africana e portuguesa
destaca a sua maneira, a importância da função paterna. Todo
o homem importante é qualificado de “pai”, quer se trate de
um chefe, de um espírito, de um Orixá, de um sacerdote, de
um sábio.
Expressão do machismo sul-americano, efeito do patriarcado
brasileiro? Aqui pouco importa a análise que disto se possa
fazer.
O fato está aí. Para nós, brasileiros, um pai para a família é ao
mesmo tempo o teto e os muros da casa, onde a mãe
asseguraria as fundações. De fato, procura-se no pai a
proteção, apoio, quadros e limites a serem dados para cada um
dos membros da família, pela sua presença e autoridade. A
miséria, tal como se pode viver em uma favela, está marcada
pela ausência do pai ou da referência paterna. Causa e/ou
consequência de uma perda econômica, fazendo com que o
pai não possa assumir suas responsabilidades ou aquilo que
consideram seus fracassos pessoais, fugindo de suas casas ou
procurando um refúgio ilusório no alcoolismo. Pai
desconhecido, desaparecido, “viajando”, em todos os casos,
trata-se da sua ausência física ou moral, esta é a situação de
três quartos das famílias residentes da favela Quatro Varas.
Estas famílias se assemelham às cabanas onde vivem: frágeis,
vulneráveis, abertas aos ataques exteriores, como aos
desmoronamentos interiores, feitas de objetos deteriorados e
sem pilar central, sustentando o conjunto da construção. Meu
peito aperta ainda hoje, diante dos efeitos dan osos,
desestruturantes da ausência do referencial paterno: droga,
roubo, delinquência, crianças das ruas livres e entregues a si
mesmas. Esta realidade confere para a presença de Airton,
Aluísio, o presidente da Associação da Comunidade e para
mim mesmo, uma importância imaginária que ultrapassa a
simples consequência de nossas ações. Nós somos de fato os
modelos, os exemplos, muito investidos pelas crianças,
especialmente pelos meninos, em busca de homens para se
identificar. Esta situação me faz sempre refletir sobre os
diferentes níveis de nossos empreendimentos na favela.
Destaco a importância que nós atribuímos nas rodas de terapia
comunitária, a ideia de família extensa, aos laços de
solidariedade. Isto me leva inevitavelmente a lembrar de
minha própria família e dos personagens masculinos que
influenciaram a minha juventude, construindo a minha
identidade, orientando minhas escolhas, auxiliando a
reconhecer aquilo que constitui minhas qualidades e minhas
faltas. Eles preencheram minha memória de imagen s, relatos
e referências.
Minha mãe, decidindo casar-se com o meu pai, havia
renunciado de fato ao exercício de sua profissão de
magistério. Ela guardou um interesse marcante pelo ensino,
não escondia o desejo de que seus filhos tivessem sucesso nos
seus estudos e de que conquistassem uma situação
conveniente. Meu pai era menos exigente sobre esta questão;
considerava que a atração pelos livros e pela escola era algo
pessoal, concernia ao indivíduo, cada um poderia, seguindo a
sua vontade, seguir ou não os estudos. Para ele, os sucessos
de sua vida não tinham nada a ver com ter ou não estudado.
Este ponto de vista, convenhamos, tem o mérito de sair das
premissas ele encontrava os argumentos em sua própria
experiência.
Após ter aprendido o essencial na escola — escrever, ler e
cantar - ele se pôs à solta, preferindo, muito jovem, trabalhar
na pensão da família que seus pais tinham em Canindé, à
margem do rio, ajudando-os ou alugando seus serviços aos
comerciantes da cidade. Foi curioso o modo pelo qual
encontrou seu emprego no Departamento Nacional de Obras
contra as Secas (DNOCS). Sempre meu pai nutriu uma paixão
sem limites pelas aves. Ele herdou este gosto, como muitas
outras particularidades de seu pai, que havia contraído esta
“loucura” durante sua estadia na Amazônia. Assim, na sala de
refeições da pensão que ocupava o lugar de albergue, podiam -
se admirar aves magníficas, cuidadas pelo meu pai. Aves em
gaiolas ou poleiros. Animais para concurso ou de estimação.
Um cliente de passagem deteve-se fascinado diante do
espetáculo de uma esplêndida graúna negra, com plumagem
brilhante e um porte elegante que era um dos orgulhos de meu
pai. Todos os dias, o cliente não tinha olhos senão para a ave
e sua conversação só concernia a este animal, sobre sua
alimentação, hábitos e qualidades. Ele nunca encurtava as
suas perguntas. Durante as refeições, o cliente se instalava
frente à ave e estabelecia com ela uma espécie de diálogo.
Após alguns dias, a ligação do homem com ave era de tal
maneira que meu pai ficou comovido com esta paixão
nascente, da qual reconhecia os sintomas, pois ele mesmo já
havia provado da sua intensidade e exigência. Um tal desejo
de posse pedia satisfações. O homem deveria partir com a sua
graúna. Isto lhe pareceu evidente, seria uma obrigação
dolorosa, porém imperativa. O cliente despediu-se, partindo
com esta nova companhia, e ficou perturbado tanto pela
felicidade da aquisição como pela gratuidade, a generosidade
do gesto deste jovem homem. Entretanto, ele se sentia
incomodado, não sabia como exprimir sua gratidão ao jovem
rapaz que lhe fazia este presente inestimável, mesmo sendo
um desconhecido.
Três meses mais tarde, o homem aparece. Após lhe ter dado
notícias de sua companheira de plumas, propõe para o meu
pai o emprego que ele seguiu ocupando em toda a sua vida
profissional: o Departamento Nacional de Obras contra as
Secas (DNOCS).
A sua própria experiência incentivou meu pai a deixar os seus
filhos escolherem livremente as suas próprias profissões.
Considerava que o caráter, a coragem, o gosto pelo trabalho,
o desejo de ser útil e a coletividade não se aprendiam em
bancos escolares.
Ele zombava do ditado nordestino que definia como ideal,
para os pais, que seus filhos fossem: sacerdote, médico e
advogado. Ele não via a escolha profissional desta maneira.
Porém, o seu terceiro filho, Airton, é advogado, o segundo,
este que lhes conta a história, é médico, quanto ao mais velho,
embora não sendo padre, estabelece relações no céu
oficiando-as como controlador de voos.
Bizarramente, quando eu lembro de minha infância, as
pessoas mais marcantes que me vêm ao espírito são os meus
avós. Meu pai era, sem dúvida, muito próximo ou muito
envolvido no cotidiano familiar para poder se destacar na
memória vivida de minha própria existência. E, por este fato
eu não tenho medidas para assinalar aquilo que me levasse ou
me reservasse a ser semelhante a ele.
Os meus dois avós eram entre si tão diferentes, contraditórios
como complementares: um era o que o outro não era; eles me
ofereciam dois estilos, duas maneiras de ser homem. Se meu
avô paterno, João Neco, era forte, enérgico, pragmático,
autoritário e lacônico; meu avô materno, José Luiz de Paula,
era falador, brincalhão, frágil, essencialmente ligado às coisas
do espírito.
Tudo me levava a amar e temer João Neco, o filho de Maria
das Graças, o aventureiro da Amazônia, participante da
epopeia da borracha, da procura do ouro, que havia voltado
para o Canindé para se instalar. Resgatou a pensão onde sua
mãe e seu irmão permaneciam empregados com a força de seu
trabalho, paciência e determinação.
Eu me reconhecia neste homem revestido de desejo de criar,
construir. O seu interesse pelo concreto, o seu gosto pela
eficácia e ação, organizavam o seu pensamento e seu modo de
viver. Ele era baixo e gordo, o seu busto podia se encostar na
clássica barriga redonda de nordestino, pesando sobre as suas
pernas curtas.
Os traços de seu rosto sublinhavam o lado enérgico e rigoroso
de sua personalidade. Olhando mais de perto, ele parecia um
javali, sem dúvida, por causa de seu nariz achatado e, apesar
disto, proeminente. Os seus cabelos negros, repicados e duros
no alto da cabeça e suas sobrancelhas grossas e embaraçadas,
moderavam um pouco o ardor do olhar que ele
propositalmente fixava nos olhos do seu interlocutor,
revelando uma grande força interior.
Ele inspirava respeito e também um certo temor entre os
jovens. Avaro de palavras, poderia se pensar que ele apenas
se exprimia para dar ordens. Seu lado algoz causava mal estar
e desajeitado com as crianças. Se sabia se mostrar afetuoso
com as meninas, era facilmente brutal com os meni nos; mal
controlando a sua força. Assim, tanto eu como meus irmãos
havíamos aprendido a nos manter à distância. Porém, ele
gostava de companhia, sabia acolher seus hóspedes, colocava -
os à vontade e ouvia-os com uma atenção sincera, e não
faltavam nunca pessoas em sua mesa.
Na pensão de meus avós, a sala de refeições, à noite, era
removida para ocupar as calçadas, que davam para o leito do
rio; este, muitas vezes reduzido a um fino fio de água. As
mesas postas de ponta a ponta formavam uma grande mesa de
reunião, coberta com toalhas bordadas pela minha avó, onde
a família, os clientes e os empregados instalavam -se,
misturando-se, constituindo assim, uma espécie de família
extensiva. Os vizinhos vinham muitas vezes se reunir a nós
para brincar, conversar ou contar histórias, tomando um
cafezinho, chá ou suco de maracujá. Meus irmãos e eu
fazíamos de tudo para sermos esquecidos e assim retardar a
hora de nos deitarmos, porque nós adorávamos escutar, em
tardes inteiras, as histórias dos peregrinos vindos de todo o
país ou observar os clientes estrangeiros.
Lembro-me da primeira vez que ouvi a fala em francês, eu
tinha uns 10 anos. Como sempre, a vinda de pessoas
estrangeiras constituía um acontecimento, uma atração, que
por nada deste mundo nós queríamos perder. E les eram
quatro, vestidos de modo especial, com roupas em tons pastel.
Eu não podia deixar de olhar na única mulher do grupo. Ela
usava um lenço de seda negro, amarrado como um turbante,
que lhe escondia os cabelos e ressaltava a brancura leitosa de
sua pele. Ela era alta, bela, falava e fumava muito.
O francês falado pela sua boca pareceu-me ser uma língua
magnífica, cantante e encantada. Ela tinha o jeito de que se
interessava por aves, porque muitas vezes voltava no meio da
conversa o nome corrupião, ave de canto magnífico, que meu
avô guardava na gaiola da sala de refeições. Ria muito, com
os seus companheiros, deformando o nome do animal,
chamando-o de croupio. Eu soube mais tarde que esta mulher
se chamava Simone de Beauvoir, por quem eu havia ficado
muito impressionado, como que hipnotizado pelo seu encanto,
sua presença e sua voz quente e grave. Este meu encontro com
ela teria favorecido meu gosto pelo francês? Talvez, por um
lado, porque, muito tempo depois, a lembrança da passagem
destes franceses me retomava como a chave abrindo os sonhos
para aventura, viagens em países desconhecidos.
Eu amava meu avô. Ele para mim representava uma abertura
para o mundo. Ele tinha, por outro lado, um modo de ser, de
avançar, que me dava segurança; os seus pés fortemente
presos na terra e o pensamento bem preso à materialidade das
coisas. Para arredondar as suas rendas, ele aceitou administrar
a fazenda de um coronel de Fortaleza para onde se dirigia,
duas vezes por semana, no frescor da noite. Uma tarde, para
minha surpresa, ele me convidou para acompanhá-lo em sua
expedição noturna. Nós então partimos em sua velha
camioneta que me deixou ter o prazer de destravar a manivela.
A algumas centenas de metros de nosso destino, uma silhueta
com braço estendido, barra o nosso caminho. Meu avô
reconheceu. Era Antônio, o curandeiro da vila, homem baixo,
magro e corcunda, quase se aproximando da porta do
motorista, pergunta se nós teríamos uma bomba de ar, porque
ele necessitava para tentar salvar a vida de um homem. Sem
mais explicação, uma vez em posse deste material desejado,
ele desaparece no escuro com a promessa de nos devolver este
estranho instrumento de cura logo que sua tarefa fosse
cumprida. Duas horas mais tarde, retorna molhado de suor
mas radiante. Ele nos explica, estourando de rir, como pela
primeira vez em sua vida, havia exercido sua arte de curar,
graças a um instrumento de ar da camioneta. Um de seus
vizinhos, operário agrícola, estava acamado há cinco dias,
com violentas dores de ventre; não ia mais no banhei ro, não
soltava os gazes e começava a vomitar. A explicação era
evidente para este homem experiente: um dos intestinos do
doente havia se desviado, torcendo sobre si mesmo. E,
percebendo ao longe, as luzes dos faróis movendo -se na
estrada, que lhe veio a ideia de utilizar a bomba de encher as
câmaras de ar do carro para salvar o seu vizinho. Começamos
a entender o uso não habitual que ele teve de fazer do
engenho, fomos tomados pelo riso. Assim, foi com
dificuldade que ele terminou de nos explicar a delicad a
manobra que teve de efetuar, representando com alguns gestos
precavidos como havia podido introduzir a ponta do tubo,
para encher muito lentamente a barriga do doente torcido de
dores, para livrar os gases. Eu nunca havia visto até então meu
avô rir tanto; e nem assistido a uma tal risada geral.
Meu avô, João Neco, tinha um dom, que ele exercia
gratuitamente para aliviar as pessoas da região, que lhe valeu
em toda a região a sólida reputação de “curador de engasgos”.
Lembro-me do olhar suplicante e ansioso das pessoas que o
procuravam para curar uma inflamação ou engasgo causado
por um espinho de peixe, um osso de galinha; após ter
desobstruído a garganta, ele colocava o indicador e o polegar
da mão direita através da garganta no local dolorido e
murmurava uma espécie de encantação incompreensível que
se tratava, conforme aprendi mais tarde, de uma prece dirigida
a São Pedro e anunciava ao pobre diabo: “Você pode engolir
agora”. Isto era executado com uma certa apreensão que logo
cedia lugar à gratidão e às lágrimas de alívio.
Meu outro avô, José Luiz de Paula, chamado de Zé Caruca,
tinha também um dom e, como João Neco, esta
particularidade refletia a sua maneira, a originalidade de sua
personalidade. Se um estava ligado à materialidade das coisas,
a eficácia dos gestos, o outro se interessava apenas pela
essência das coisas, no espírito que os anima ou lhes dá
sentido. Seu dom era de poder ler o caráter e os traços de
personalidade de um indivíduo, simplesmente, segurando a
sua mão ou olhando a sua foto. Este talento de médium
acompanhava a temível capacidade de pressentir a morte um
ou dois dias antes que ela atingisse alguém. Esta característica
era, entretanto, mais perturbadora, a sensação da morte que o
invadia era tão súbita, tão brutal, que o meu avô, muitas vezes,
mal continha sua emoção e em consequência a revelação que
lhe era feita. Um dia, chegando de uma festa dançante na qual
havia sido convidado junto com os seus familiares, ele se
detém no limiar da porta, subjugado pelo espetáculo de um
casal que dançava e lhe interrogava em voz alta, as pessoas
que o rodeavam: “Desde quando se deixam dançar os
mortos?” Soube-se no dia seguinte que a dançarina em
questão havia morrido brutalmente à noite.
Ele frequentemente previa a morte iminente de animais. Mas,
fora desta originalidade inquietante, Zé Caruca era um homem
extremamente querido pela sua gentileza, humor e pela sua
doçura. Homem baixo, franzino, esguio, de aparência frágil,
ele era extremamente ágil. Quando andava, dizia-se que ele
dançava, tanto era sua leveza e agidez. Ele tinha a pele clara,
olhos brilhantes e a boca risonha. Duas mechas de cabelos
brancos jogadas de cada lado, sobre as orelhas rodeavam um
crânio liso e estreito; poder-se-ia dizer precisamente que se
tratava de um travesso. Trabalhava no serviço ambulante dos
Correios. Seu trabalho consistia em transportar as cartas e os
pacotes nos centros recuados da montanha, nas proxi midades
de Canindé, onde era impossível fazê-lo em carros
motorizados. Para fazer suas caminhadas, partia no final do
dia e viajava à noite, atravessando o campo e a mata, muitas
vezes só, por vezes acompanhado de um jumento quando a
carga postal exigia; outras vezes um colega fazia a rota com
ele e caçava em sua companhia no amanhecer. Destas
andanças, ele trazia histórias extraordinárias de animais e
espíritos encontrados no caminho: alguns dialogavam com
ele, prevenindo-o dos perigos que se arriscava a encontrar,
outros passavam diante dele sob a forma de bola de fogo,
fazendo um alarido apavorante. Para ele, toda a coisa, todo o
ser possuía algo de maravilhoso; o menor pretexto, a menor
ocasião propiciava-lhe uma história, um canto, um sonho.
Assim, todos os seus netos sentavam-se em círculo, em torno
dele, para o escutar, brincar sonhar e rir, sobretudo rir, porque
muitas vezes nos dizia que uma das coisas mais importantes
para ele era fazer os outros rirem e aliviar assim o peso da
vida e dos sofrimentos.
Ao contrário do vovô João Neco, que frequentava muito
pouco a igreja, vovô Zé Caruca era muito piedoso. Sua fé
guiava seus gestos e seus pensamentos. Ele era considerado
pela sua honestidade quase que doentia e preferia por
exemplo, deixar no chão um objeto encontrado, se não
pudesse determinar quem fosse o proprietário, com medo de
criar prejuízo se mudasse de lugar o objeto.
Se eu guardo do pai de meu pai o prazer de criar, de realizar
concretamente os projetos, eu lhe devo igualmente o interesse
pela descoberta do mundo e a noção de família extensiva, tal
como eu pude vivê-la durante dois anos, quando meus avós
me abrigaram na casa deles, em sua pensão, para que eu
pudesse continuar meus estudos, porque, nesta época, na vila
onde habitavam meus pais, não havia escola para mim. Do pai
de minha mãe eu conservo o gosto pela brincadeira, o prazer
de jogar com as palavras, de falar, contar histórias, a
necessidade de rir e ficar aberto ao mundo dos espíritos,
cuidando sempre de ligar o espírito à materialidade das coisas.
Ele me soube transmitir a fé no homem e em Deus.
Um avô fez-me viver e apreciar a terra e o fogo pelo seu
pragmatismo e seu caráter enérgico e apaixonado; o outro fez -
me sentir a sutileza do ar e a afetividade ligada ao elemento
água. E, juntos, eles me ajudaram a formar o projeto de
estabelecer um equilíbrio, uma harmonia entre estes quatro
elementos, desenvolvendo as qualidades humanas que
representam.
Entre as referências paternas, está a de Deus, Pai, que banhou
toda a minha infância. De fato, Deus nunca foi para mim uma
resposta, nem uma solução, simplesmente uma evidência.
Uma presença, um modo de ver, sentir o mundo, relacionar -
me com os outros, uma atmosfera, uma qualidade de ar que se
respira, que se aspira. Um elemento familiar indispensável, a
vida que lhe dá força, gosto e sentido. Indispensável, isto quer
dizer que me era impossível pensar a vida, minha vida, a de
minha família, sem Deus; tanto sua presença impregnava e
impregna ainda hoje nossos pensamentos, nossas ações e
organiza nossas relações.
Comecei desde pequeno a falar de Deus; mais exatamente
Jesus ou São Francisco a quem eu me dirigia e confiava. Era
como se eu tivesse dois padrinhos, dois companheiros, dois
guardas da alma que eu considerava sem cessar as minhas
costas. Eu fazia apelo a Deus em todas as circunstâncias
repetindo “graças a Deus”, em sinal de contentamento ou
“valha meu Deus”, para pedir seu socorro quando eu arriscava
de ser apreendido no meio da brincadeira de rua, sem
autorização ou para escapar a uma punição. Nossa vida era
ritmada pelas preces, missas e festas religiosas, notadamente
aquelas no mês de maio, marcadas pela procissão levando a
Virgem Maria para uma estadia em cada casa diferente. A
presença entre nós da mãe de Jesus dava lugar a grandes
sessões de preces reunindo os vizinhos e amigos, o que
aumentava a felicidade de estar entre as famílias eleitas. Nós
íamos à missa tantas vezes quanto fosse possível.
Infelizmente, por causa das remoções de meu pai, nós, por
vezes, ficávamos em lugares tão recuados que o sacerdote
vinha rezar a missa apenas um domingo por mês. Todas as
tardes na hora do Angelus, nós nos reuníamos em tomo de
nossa mãe, para orar o rosário; meu pai raramente se reunia a
nós. Em casa, ele chegava muitas vezes a cantar cantigas ou
canções populares, falando de Deus. Nós cantávamos muitas
vezes. A atmosfera me agradava e as palavras me faziam
evocar todos os momentos maravilhosos que eu devia a Deus.
Foi Deus
Que deu voz ao vento
Luz ao firmamento
E deu o azul às ondas do mar
Deu as flores à primavera
Ai, e deu a mim esta voz
Esta atmosfera me faz sempre remontar de modo
embaralhado, como por reflexo, os momentos em que a
presença de Deus e seu espírito se manifestaram para mim
mais nitidamente, deixando um traço em minha memória.
Eu me revejo de joelhos ao lado de minha mãe, vovó Sinhá,
minha avó paterna, na pequena igreja de Canindé, onde eu a
acompanhava cada manhã, durante dois anos, que eu fiquei na
casa de meus avós. A recordação destas missas matinais me
faz sentir, cada vez que ocorre uma sensação de frescor, de
paz, de leveza e de plenitude interior: como se o tempo dos
homens, fora da igreja, estivesse suspenso para permitir a
alma respirar, abrir-se ao sopro do alto. Eu revejo também
certas festas de família, núpcias, comunhões etc... ocasiões
para se reunir e sentir a felicidade de estar junto. Deus era por
mim sempre representado como um membro da família,
presente em espírito, ao qual a gente se refere com
permanência; minhas relações com Deus eram nesta época
idílicas: para mim havia sempre uma confusão entre Ele e o
Papai Noel. Ele era evocado em todas as ocasiões e
compreendido para justificar as razões e a forma das punições.
A propósito de punição, lembro-me do dia em que meu irmão
Antônio e eu havíamos deixado cair a lata de água, na calçada
da porta de casa. Era em Aracatiaçu; o açude encontrava -se a
menos de 300 metros da nossa casa.
O pai nos havia despertado ao mesmo tempo que ele e,
enquanto ele tratava a vaca, os meninos deveriam moer o
milho no moinho, para que a mamãe pudesse preparar os pães
para o café da manhã, e trazer uma lata cheia de água da
barragem. Nesta manhã, era a vez de Ayrton moer o milho e
Antônio e eu trazermos a água para encher os três potes de
barro necessários para a jornada. Como de hábit o, eu me
banhei ao chegar na beira d’água, a maneira mais agradável
do mundo para se despertar; de repente, nós deveríamos
apertar o passo de volta para não deixar o restante da família
a espera. Eu andava na frente. A lata de ferro parecia mais
pesada devido ao comprimento do caminho e o modo com que
nós impúnhamos o retorno. O cabo da enxada que nós
tínhamos sobre os ombros curvava-se sob o peso da água e
nos feria a pele. Chegando em casa, Antônio em vez de
curvar- se para colocar no chão a lata, deslocou-se para o lado
e, “tibum”, eu não pude segurar a ponta do cabo que me torcia
a mão; tudo caiu na soleira da porta. Evidentemente, nós
brigamos e começamos a nos bater. Mamãe já nos havia
ameaçado na véspera de nos punir se voltássemos a brigar.
Ela estava vermelha de raiva, mais pela nossa atitude do que
pela água perdida. “Eu não punirei vocês agora porque Deus
não gosta que seja a raiva que decida. Isto vos dará tempo para
refletir sobre o amor fraternal e de escolher na floresta a vara
que corrigirá vocês amanhã. Agora abracem-se”. Nós não
tínhamos em casa a palmatória, utilizada geralmente no
Sertão, para corrigir as crianças; nós devíamos, a cada vez que
precisasse, escolher nós mesmos o instrumento de castigo. No
dia seguinte, não houve o castigo corporal; o que se passou,
passou. Em vez disto, ficamos privados da sobremesa e
encarregados do penoso trabalho de cortar lenha durante
muitos dias, porque nós dois transgredimos a regra mais
importante para a minha mãe: havíamos brigado, e não nos
falávamos mais, então que o perdão fosse imperativo,
obrigatório, e que era absolutamente proibido não mais se
falar.
O desejo de se tornar sacerdote veio naturalmente. Eu
compartilhava este sonho com Aírton que, como eu, estava
muito voltado para a ambição de servir a Deus e ter o
privilégio de estar mais perto Dele. Certamente, eu tinha a
vontade sincera e profunda de ajudar as almas e também de
salvar o meu próximo da miséria. Mas, eu queria, sobretudo,
se Deus quisesse me aceitar para servi-lo, tornar-me um padre
como Frei Teodoro, tão gentil e serviçal com os pobres e não,
como o Frei Policarpo, padre alemão que eu tinha visto
expulsar com vassouradas e insultos os mendigos sentados
nos degraus da basílica São Francisco. De fato, nesta época
eu deveria ter uns 10 anos e em todas as minhas preces eu
pedia para Jesus e São Francisco, para interceder junto ao
Senhor para que ele me velasse. De tanto ouvir meu avô falar
de seus encontros e seus diálogos com os espíritos, e de
escutar na pensão de meus avós, as histórias dos peregrinos
dizerem que tinham visto Cristo, falado com a Virgem Maria
ou encontrado São Francisco, eu me sentia muito frustrado.
Eu falava com Deus, com Maria e São Francisco e não
compreendia por que eles não me respondiam. Certamente,
em meu coração, em minha cabeça, eu tinha o sentimento de
uma proximidade, de uma espécie de diálogo íntimo, mas, no
exterior, eles não falavam e não se mostravam nunca a mim
como uma outra pessoa. Era isto uma deficiência perceptiva
que eu tivesse, ou mais grave, uma falta de mérito? Eu
terminei falando sobre isto com Airton, que, como eu,
ressentia duramente da frustração de não estar entre os
privilegiados que podiam se corresponder com Jesus e os
santos. Em todo o caso, eu estava intimamente convencido de
que o status de sacerdote permitia estas trocas “corriqueiras”.
Quando nós soubemos que, em Portugal, crianças pequenas
haviam podido, com muita frequência, ver e falar com a
Virgem de Fátima, decidimos, Airton e eu, construir um altar
secreto na floresta para rezar e evocar a Maria. Associado a
isto, formas de penitência bem draconianos para chegar a
merecer a visita da mãe de Jesus.
As semanas passaram. O santuário estava sempre florido e as
punições refinadas e, em particular, estávamos ressentidos,
mas tudo em vão. Assim, no final de alguns meses, nós
tínhamos renunciado a querer forçar a mão do céu e
compreendi que nisto havia a vaidade e o pecado do orgulho.
O projeto “louco”, de poder, um dia, entrar no seminário
continuava a residir em mim com muito ardor e determinação.
Projeto “louco” porque era improvável, difícil de realizar
financeiramente...
Impossível Banir o Índio que Vive em Mim
O tempo estava bonito no dia 3 de junho de 1961. Após ter
passado por muitos vilarejos do Sertão, as mudanças
ocasionais nos levaram a permanecer algum tempo nas
proximidades da pequena cidade de Santo Antônio do
Aracatiaçu. Meu pai voltara de Sobral, grande metrópole do
Sertão, situada a 40 quilômetros, onde ficou três dias devido
ao seu trabalho. Neste dia, festejava-se o aniversário de meus
12 anos. Meus pais reuniram para a refeição os vizinhos e a
família. Minha mãe preparou os pratos que eu preferia: doces
de milho, palmito, feijoada e no momento de cortar o bolo,
meu pai se levantou e, batendo no copo com a sua faca, pediu
silêncio e um pouco de atenção; o que nele não era habitual;
já que era pouco inclinado a fazer discursos. Ele me olhou e
anunciou com a voz embargada de emoção: “Eu tenho uma
grande novidade para lhe dar, meu filho. Ontem, encontrei em
Sobral, o padre responsável por vocações sacerdotais
pertencente ao grande seminário dos padres diocesanos. Eu
consegui que ele lhe inscrevesse no seminário. Você deve
entrar neste seminário exatamente em um mês. Este é o seu
presente de aniversário”. Minha mãe se aproximou e me
abraçando, disse: “Você sabe, Adalberto, ninguém perde por
lutar para realizar seu sonho, o importante é mantê-lo vivo.
Sempre você quis seguir o caminho religioso; o destino nos
conduziu para Sobral, nisto eu vejo a cumplicidade de Deus.
Agora o caminho está aberto para você tomar sua vida nas
mãos”.
Era o dia mais belo de minha vida: como isto tinha podido se
realizar? As semanas seguintes foram consagradas a juntar o
meu enxoval para o seminário. Sobretudo para proceder às
numerosas sessões, para experimentar minha batina que
minha mãe e minha irmã mais velha faziam sob medida. Eu
era, nesta época, muito pequeno para a minha idade, e se o
fato de me ver tão frágil na batina divertia muito meus irmãos,
para mim, apenas o fato de experimentar a roupa estimulava
a minha imaginação. Eu me via padre de uma grande igreja
celebrando a missa, conduzindo seu rebanho, como São
Francisco de Chagas, muito dedicado aos mais pobres e
infelizes.
O tempo dos preparativos me tornava às vezes exaltado -
outras vezes triste: eu me dei conta de que durante seis meses
eu não voltaria para a minha família, não poderia brincar, ou
brigar, como antes, com meus irmãos, me confiar à minha
mãe, nem me banhar nas cascatas ou nas águas dos açudes.
Alguns dias antes da minha partida, meu pai, como costumava
fazer regularmente, pôs-se a cortar nosso cabelo, com ajuda
de sua pequena navalha, deixando curtos os cabelos acima;
operação que nós denominamos “a pelada da cabeça dos
meninos”.
Nós passávamos uns após outros entre suas mãos experientes.
Quando foi a minha vez, senti que seus movimentos,
geralmente vivos e precoces, se detinham em torno das
minhas orelhas; seus gestos manifestavam um embaraço,
como uma hesitação: por duas vezes ele espreitou a lâmina
colocada sobre o couro de sua cinta, por fim ele fecha sua
navalha e se senta à minha frente para me falar. Era a primeira
vez que ele se dirigia a mim sem testemunha. Não havia
ninguém entre nós dois: “Você vai ser um homem de bem,
cercado de meninos de boa família. Seu futuro está
assegurado. Você sabe que isto é um empenho para a sua
família”. Felizmente, no seminário, aceitaram dar -lhe uma
bolsa devido a seus resultados escolares e eu pagarei uma
parte de sua pensão com sacos cheios de peixes pescados no
tempo das grandes chuvas. Você deve fazer um esforço
semelhante ao nosso; não esqueça que seus irmãos não terão
forçosamente a mesma chance que você teve. Eu, por vezes,
tenho sido severo, saiba que eu sempre vos amei e que é
sempre para o bem de vocês que eu tenha lhes castigado, seus
irmãos e você mesmo. Talvez compreendas mais tarde,
quando cresceres.
De fato, eu não compreendia muito bem o que me acontec ia.
Meu pai fazia-me recomendações, olhava-me de outra
maneira. Meu projeto tinha importância, eu era reconhecido;
pela primeira vez eu senti que o pai de família era também
meu pai, que ele me falava dirigindo-se a mim, Adalberto, e
para mim. Porque antes, eu tinha impressão de ser apenas um
dos meninos que incomodava seu pai, fazendo barulho, ou que
era chamado, indiferentemente dos outros, para efetuar um
árduo trabalho.
No dia de minha partida, nós havíamos passado o dia em
Canindé, meus avós maternos tinham vindo nos encontrar na
pensão do vovô João Neco para esta ocasião.
Vendo toda a família reunida em torno de mim, meu sorriso
de vencedor, de conquistador, a ponto de realizar o que
esperava há muito tempo, transformou-se em lágrimas de
tristeza. Eu me pus a chorar no momento de dizer adeus a meu
vovô, João Neco. Incomodado por me ver neste estado na hora
de partir, ele me abraçou e propôs: “Se você não quer ir, diga -
me, e eu pedirei a seu pai para não levá-lo mais ao seminário”.
Eu protestei, com o rosto em lágrimas: “Não, não: eu quero
absolutamente ir para lá. Então, se é isto que você quer,
enxugue as suas lágrimas, e parta sem hesitar”. Por sua vez,
meu outro avô me confiou no momento da partida: “Você
sabe, meu pequeno, você tem apenas 12 anos, mas é preciso
que aprenda que toda opção implica uma partida e um
abandono”.
Durante minha viagem de carro, olhando desfilar as paisagens
verdejantes do inverno, repassei em minha cabeça as palavras
de meu avô materno: opção - partida - abandono. Eu não
compreendia a ligação que parecia existir entre estes três
termos. Eu podia responder facilmente sobre o sentido de
opção. Minha escolha era clara: consagrar minha existência
aos mais pobres e para isto eu deveria estudar muito para
poder ser padre. A partida era o preço a pagar para realizar
este projeto. Eu precisava ser forte, minhas lágrimas não
deveriam ser o sinal de remorso ou de pesar. Mas por que a
palavra abandono? Abandonar o quê, abandonar quem? Eu me
repetia que uma coisa era certa: nunca eu abando naria minha
família, os meus, meu povo. Eu retornaria como padre
justamente para trabalhar perto dos relegados, dos excluídos
de meu país.
Cheguei ao seminário cheio de ânimo, orgulhoso por trazer a
batina, de aproximar-me dos futuros padres, de ter sido
escolhido, aceito pela igreja. Fiz rapidamente amizades; havia
um menino chamado Aluísio que era como eu, o menor,
sempre a meu lado quando estávamos na fila. As partidas de
futebol de batina me faziam rir, porque nós precisávamos
levantar nossas batinas para poder correr e chutar a bola sem
cair. Aprendi com entusiasmo as matérias ensinadas,
notadamente o estudo da Bíblia e dos Evangelhos. Descobri
com paixão este mundo desconhecido, este universo muito
diferente de minha família e de minha cidade. Tudo é
organizado, estruturado, pontuado. Deveria seguir as regras,
muito estritas, estabelecidas pelos superiores. Entretanto,
progressivamente, senti instalar-se um mal-estar.
Eu aceito o rigor da disciplina como necessária para aprender
as boas maneiras de ser e de pensar, para corrigir os meus
erros, abandonar os maus hábitos, educar o meu espírito
controlando meu corpo, abafar meus desejos e desta forma me
tornar digno do privilégio de poder mais tarde servir a Deus.
Ao mesmo tempo em que nos educam para uma boa causa,
nos educam também contra os valores da educação de nossa
família, contra nossas origens. O objetivo era eliminar tudo o
que era considerado como nefasto e vulgar na educação, e não
conforme o modelo ideal de um eleito de Deus.
Éramos sempre repreendidos e tratados como se fôssemos
índios selvagens que precisavam ser educados: “Sentem -se
corretamente. Aqui não é uma tribo de índios. Tirem as mãos
do bolso e parem de assobiar. Parecem que são bororos.
Alguns de vocês não sabem nem o que é um banheir o, mijam
na natureza como selvagens”. Todas estas alusões
humilhantes e condenatórias aos índios; no início, achava até
engraçado e chegava a rir. Depois passou a me incomodar, a
sentir raiva e vergonha de minhas origens.
Me dei conta, após alguns meses, que já começava a assimilar
estes ensinamentos e passei a considerar todos os aspectos
negativos, não muito católicos de minha família, sobretudo;
de meu pai e meu avô João Neco, que não eram muito
católicos e, por isso, não frequentavam as missas e ainda
tinham uma paixão pecaminosa por pássaros e brigas de galo
e canário. Começava a desconfiar que os dons de mediunidade
e capacidade de cura dos meus dois avós revelavam muito
mais de magia negra, paga ou bruxaria, do que o dom de Deus.
Passava a ficar incomodado de receber visitas no seminário
de familiares e primos morenos. Evitava apresentá-los aos
meus colegas seminaristas ou saudá-los em público. Passava
a valorizar a brancura da pele como se houvesse uma relação
entre a cor da pele e a pureza da alma. Ora, as imagens e os
quadros pintados nas igrejas só representavam Jesus, a
Virgem Maria e os Apóstolos como pessoas de pele branca e
olhos azuis. Passei a ter vergonha, de ter correndo em minha s
veias, sangue de índio e de negro. Comecei a pensar na árvore
genealógica de minha família reconstituída por um primo,
relatando a história de nossos antepassados que deu origem a
família Barreto.
Há três séculos, um jovem português foi aprisionado quando
estava só, aventurando-se na floresta para caçar com seu fuzil
novo flamejante. Sentindo-se em perigo, cercado por
guerreiros ameaçadores, ele abate uma ave em seu pleno voo.
Os índios desta tribo não tendo nunca visto uma arma de fogo
prostraram-se diante dele, chamando- o de caramuru. Em
língua tupi este nome significa “homem de fogo” ou “filho do
trovão”. Após este tiro de fogo, ele não pode voltar entre os
seus, morou muitos anos nesta tribo, teve uma mulher, uma
jovem índia e fundou uma família: a família Barreto.
Esta história tinha sido para mim, como para a m inha família,
um motivo de orgulho. Eu fiquei dilacerado, preso em conflito
interior. Eu, amo meus pais, minha família e tudo que eu
compreendo, que no seminário me ensinam a desprezar. Eu
assimilei, “incorporei”, como se diz entre nós, os valores, a
mística deste universo religioso, a formação; a educação que
me oferecem, visa a branquear minha vida, me inculcando
para o meu bem, os valores e os gestos dos colonizadores. Por
um momento, eu tive um sentimento de superioridade em
relação aos outros, de estar entre os eleitos por Deus. Para
mim, tudo estava claro em minha cabeça: havia os bons e os
maus. Nossa função, enquanto soldados da verdade, é de
transformar os homens, de torná-los melhores, de controlar
pela fé aqueles que tentam escapar das normas soci ais, ao
conservar sua originalidade. Apesar destas certezas de
combater pela boa causa e para o bem de todos, em meu corpo,
no fundo do meu ser, uma parte de mim mesmo resiste e me
fecha dolorosamente: eu não cheguei a banir o índio que está
em mim. Após 6 anos fora do Brasil, voltei para a casa da
minha família. Uma manhã, na hora do café, dois ou três dias
após o meu retorno, minha mãe conta o sonho que teve: “Eu
lhe via em meus sonhos falando para uma Assembleia com
muitas pessoas presentes que lhe ouviam com atenção. Eu
estava diante de você, que me via mas não me reconhecia. Eu
me perguntava completamente desamparada o que é que tinha
acontecido para que você não reconhecesse mais a sua mãe”.
A narrativa deste sonho me transtornou profundamente, ele
me deu o impulso necessário para tombar o castelo de cartas
ou de pirâmide. Eu compreendo agora o sentido da palavra
“abandonado” na qual me falou meu avô, no dia da minha
partida para o seminário. É como se a minha formação no
seminário devesse se traduzir em abandonar a minha família,
na ruptura dos vínculos de identificação a um povo, a uma
cultura. Renunciar de alguma forma a mim mesmo e àquilo
que constitui a essência, o centro de minha pessoa. Eu
conhecia de cor a história dos santos, os evangelhos, a Bíblia
e eu não reconhecia mais a minha mãe. O seu sonho permitiu -
me reconsiderar o meu. Passei a ter uma espécie de
desconfiança, de vigilância frente a todos, às formas de
ensinamentos e de educação religiosa ou universitária, cujo
objetivo compreende sempre a uma fase importante de
demolição, de luta contra o inato, de renúncia àquilo que se
sabe contra sua cultura, sua experiência age como se os
saberes, os conhecimentos diferentes, fossem incompatíveis e
implicassem, não em um processo de integração mas de
exclusão. Eu me dei conta de que muitas vezes esta atitude de
excluir os conhecimentos consiste em retornar à tentativa de
exercer um poder sobre o outro. Atitude de possessão, um
encosto de um modo de pensamento que foi adquirido através
da formação exclusiva de toda uma outra referência ou lógica.
Assim me pareceu que apenas as posições marginais da
loucura ou da revolta empreendida pudessem permitir
conservar uma originalidade e um certo recuo frente a estas
intrusões, posições, para desviar dos atentados desta
“possessão do pensamento”. Por que querer impor à força um
único modelo cultural para todos? Por que não respeitar a
diversidade das formas de ser e de pensar e as riquezas que
trazem estas diferenças?
A vergonha de pertencer a um meio social desvalorizando
selvagem, indígena, “não muito católico”, transformou -se
sem sentimentos de dívida com a minha família, com a
necessidade de redescobrir e apreciar aquilo que me vem dos
meus, de minha cultura. As certezas não deixam lugar para as
dúvidas e para uma primeira posição de distância crítica em
relação à Igreja.
Concluí muito mais tarde, que uma parte da Igreja do terceiro
mundo e do Brasil, em particular, continua a desenvolver os
preconceitos dos primeiros colonos frente aos indígenas e
alimenta o modo de pensamento “colorista” para não dizer
racista, porque o critério de exclusão não é a raça mas o
“degradado”, os coloridos. Este é o modo de pensamento que
organiza as relações sociais no Brasil. Todos os brasileiros
dizem que querem muito entender como em suas veias correm
o sangue indígena africano e europeu. Esta é uma maneira de
reivindicar a cultura sincrética brasileira, suas raízes e
pertences na história do país. Entretanto, é evidente que todo
mundo valoriza tudo que é referido ao branco. Cada um fica
atento à cor de pele do seu interlocutor. A prova disto é que o
primeiro elemento distintivo para descrever um indivíduo é
sua cor, depois a forma ou os signos de seu tipo de
mestiçagem (caboclo, cafuso, mameluco, etc.). Como se a
escala dos valores fosse do mais escuro para o mais claro.
Entretanto, neste primeiro ano no seminário, eu percebi que
apenas um único padre tinha uma forma de ser diferente dos
outros: o Padre João Stolker. Ele era professor de religião e
de francês. Alto, magro, com os dentes de coelho que lhe fazia
sibilar os “s”. Era muito gentil, como são geralmente os
tímidos, e me levava para tocar órgão na Igreja durante o
intervalo do meio dia. Um dia, no meio do curso de religião,
apontando o dedo para mim, ele declara que Jesus não era
loiro de olhos azuis e a pele leitosa como muita gente pensa,
mas deveria ter a pele morena das pessoas do Oriente Médio
e se assemelhar a um bom nordestino como Adalberto.
Todas estas lembranças, estas reflexões, estas emoções se
encontraram de repente e foram despertadas no início de uma
reunião de terapia comunitária, quando eu vi um índio, de
pequeno porte, levantar-se para reclamar o microfone. Era a
primeira vez que a reunião de quinta-feira ocorria sob a
palhoça que nós estávamos para terminar.
Para todos os presentes era um grande dia: nós temos, enfim,
um lugar suficientemente grande para nos reunir e acolher
todos aqueles que quisessem. Eu nunca havia visto aquele
homem que tomou a palavra, tremendo de emoção. Como
todas as pessoas que se exprimem pela primeira vez, diante de
uma assembleia, ele repetia muitas vezes a mesma coisa para
ter certeza de ser compreendido. Via-se logo que se tratava de
um índio, com mais ou menos 60 anos. Ele trazia um pequeno
chapéu, com a aba estreita, no alto da cabeça. Notava -se, em
seu rosto e olhos negros, escrita a sua inquietude e revolta.
Sua pele cor de cobre, vermelha-escura, tem incisões sobre as
faces com duas pregas profundas, reunidas de forma crescente
de sua papada. Parecia um caju muito murcho, assim como
seu nariz comprido de ave, com a forma e a cor mais amarela
da noz do caju. Ele vinha da aldeia dos índios Tremembé no
interior das terras situadas, a cinco horas da estrada da capital.
Soube pelo seu primo que mora na favela, que nas quintas-
feiras as pessoas que têm dificuldades podem se exprimir e
pedir ajuda: eis aí porque ele pediu o microfone. Em sua tribo
há problemas muito graves. Os grandes proprietários de terra
querem se apropriar de suas terras sob o pretexto de não
possuírem nenhum título legal do território que eles ocupam
desde a noite dos tempos.
Recentemente, uma notícia publicada no jornal da cidade
próxima desta tribo, anunciava a data limite para regularizar
administrativamente ti posse das terras. Como ninguém entre
eles lia o jornal, a data passou e suas terras foram vendidas ou
reivindicadas para indústrias e pelos ricos proprietários.
O homem marca sua emoção, forçando o tom, o que fazia o
alto-falante soprar, tornando difícil entender aquilo que ele
tentava nos dizer. Acrescenta, entretanto, em um sopro: “Há
muita violência entre nós e nossos filhos estão doentes”. No
final de seu monólogo, que durou mais de meia hora, ele se
sentou visivelmente esgotado e aliviado de tanto falar, e olhou
a assistência com ar constrangido e interrogador. A discussão
que se segue desemboca na ideia de irmos ao local para
refletirmos com o conjunto da aldeia sobre o que ele queria
nos dizer e sobre a ajuda possível que lhes poderíamos trazer.
Alguns dias mais tarde, nós saímos de madrugada para evitar
subir durante o dia, com muito calor, o trajeto. Nós estávamos
em 30 pessoas: os habitantes da favela, os membros da
associação e alguns estudantes de medicina, em busca de
temas para a sua dissertação em medicina social. A campanha
deles justificou o uso de um grande ônibus da universidade
para a viagem. Nosso índio do pequeno chapéu na cabeça não
nos tinha enganado.
Era preciso cinco horas de carro pela estrada para chegar a
aldeia: três horas na estrada nacional, uma hora na estrada
secundária, depois uma hora de caminho de terra e areia.
Neste período de seca, eu fico ainda, uma vez mais, abalado
ao ver ao longo da viagem, a paisagem cinzenta, quadro
uniforme, monótono, somente manchado de verde nos raros
bosques de Jurema ou de Juazeiro. Antes de chegar da aldeia,
nós andamos à beira de uma barragem quase seca, onde
subsistiam grandes cachoeiras d’água, cujas bordas se
destacam através das moitas de ervas. Porto de frescor, onde
um bando de crianças brincava alegremente, próximos a um
grupo de mulheres alinhadas batendo suas roupas em
cadência.
Nas proximidades das primeiras palhoças, fomos acolhidos
pelos latidos de alguns cães muito magros e por grupos de
crianças gritando, tentando se agarrar nas janelas do ônibus.
Sob o alpendre da primeira casa, na entrada da aldeia, um
bando de gente à espera com refrescos de frutas e café.
Enquanto o Aírton se entretém, junto aos dois patriarcas, com
questões jurídicas que preocupam a comunidade, formando
pequenos grupos, vamos visitar diferentes famílias que
compõem a tribo. Ficamos três dias nesta aldeia, três dias de
encontros, discussões e também de festas. De fato, para os
índios Tremembé, a vinda de amigos estrangeiros constitui
um acontecimento, uma esperança, um sopro de ar fresco,
para respirar, falar, cantar, reviver. As pessoas da favela
ficaram como nós, impressionadas com a terrível miséria que
golpeavam nossos hospedeiros: miséria material certamente,
mas um pouco diferente daquela de Quatro Var as, havia
sobretudo miséria moral e afetiva.
Cada família parecia viver voltada para si mesma. A aldeia
está fragmentada em centenas de casebres espalhados na
mata, distantes muitas centenas de metros, umas das outras,
no meio das árvores de caju. Não há nem centro, nem lugar de
reunião ou de encontro. Não há escola, nem a ação de se reunir
para ir à aldeia mais próxima, a 20km pela estrada nacional.
Embora um certo número de adultos saiba ler, escrever e
cantar, nenhuma criança se beneficia desta instrução.
Percebe-se rapidamente a existência de rivalidades, conflitos
e divisões que enfraquecem e tornam vulnerável esta
comunidade fragmentada, desprovida de organização,
deixando cada família se defender sozinha frente aos apetites
dos ricos proprietários de terra e exploradas pelos industriais
exportadores de castanha de caju, fruta que representa a única
riqueza da tribo.
Na segunda noite, a nosso pedido, eles aceitam dançar e cantar
o Torém, manifestação tradicional que marcava outrora, fim
da colheita do caju. Enquanto os da aldeia se preparam, nós
nos dispusemos em círculo. Colocou-se ao meu lado Dona
Rosa, senhora de 95 primaveras, considerada como a
matriarca que parecia encantada por poder assistir de novo a
dança do Torém. Como eu lhe pedi que desse o recado que
gostaria de transmitir à sua tribo, ela endireitou a cabeça,
varreu o horizonte com um olhar, firmando sua bengala no
solo de areia cinza, constelado de manchas amarelas, marrons
ou negras deixadas pelos pedaços do caju. Ela repetia muitas
vezes, opinando o chefe: “Não deixe nunca a terra, não deixe
nunca a terra”. Eu só compreendi o sentido desta frase no final
do espetáculo. O Torém coloca em cena todas as espécies de
animais familiares. Cada animal é imitado através de um
gesto, uma música, uma mensagem. Chega a dança da aranha.
Cada um estende a mão para o outro e pede para a aranha tecer
a sua teia: “Teça, teça, aranha, teça, teça, a sua teia, as mais
velhas no ar e as novas em baixo”. Vendo estas jovens
dançando em volta, de mãos dadas, escutando este refrão, eu
compreendi de súbito, a importância da mensagem
comunicada através do Torém e repetida muitas vezes por
Dona Rosa. É a teia que nutre a aranha, que lhe permite se
deslocar, trabalhar e viver. Destruí-la é eliminar suas
possibilidades de autonomia e de vida. A aranha sem a teia é
como o índio sem a terra, uma comunidade sem a
solidariedade.
Eu me dei conta de que a dança da aranha contém uma
mensagem que a tribo não chegou a decifrar. Estes rituais,
exortando a tecer a teia das ligações entre eles, evocando o
respeito às tradições: “As velhas no ar e as novas embaixo”.
Cada geração é chamada para fazer a sua teia, seguindo com
isto o exemplo dos ancestrais.
Durante a viagem de volta e no decorrer das reuniões que se
seguiram, estávamos preocupados com duas coisas: de um
lado, preparamos mais rápido, para evitar a expulsão das
famílias, de outro lado, ajudar a comunidade a compreender o
sentido profundo da mensagem transmitida pela tradição
através do símbolo da teia de aranha.
As manifestações de apoio aos índios Tremembé foram
organizadas, numerosos artigos publicados, entrevistas
concedidas. Isto tudo criou um movimento de opinião,
permitindo que Airton levasse a ação para a Justiça até obter
o reconhecimento dos direitos de propriedade dos membros
da tribo.
Assim, na reunião de avaliação da comunidade de Quatro
Varas, Dona Terezinha, a presidente da associação das
pessoas de idade, sugeriu convidar os principais responsáveis
da tribo para a inauguração da casa dos anciões da favela. Esta
seria uma boa ocasião para reuni-los fora de seu espaço
conflitual. Um mês mais tarde, a comunidade de Quatro Varas
recebe uns 30 chefes indígenas.
Nós nos empenhamos para reunir estas duas comunidades
marginalizadas: uma a tradição (Tremembé), a outra pe la
modernidade (a favela). Elas têm em comum as grandes
dificuldades, mas cada uma parece possuir aquilo que falta à
outra: de um lado, a tradição, uma identidade cultural, de
outro lado, a solidariedade e a experiência de luta.
Eu fiquei muito entusiasmado. Via neste encontro a
possibilidade de uma troca de ajuda entre a favela e a tribo.
Minhas esperanças foram coroadas de sucesso. Inicialmente,
nossos hospedeiros tiveram uma surpresa que os abalou
profundamente. No meio da festa, no momento da
inauguração da casa das pessoas de idade, na qual foram
convidados os eleitos da cidade, eles constituíram diante de
seus olhos uma teia de aranha humana na qual estavam presos.
Cada pessoa era convidada a dar a mão ao seu vizinho.
Depois, os jovens estendem entre as árvores e as estacas um
entrelaço de cordas representando igualmente, adiante, a
famosa teia de aranha. Isto porque a comunidade Quatro
Varas, após ter visitado a aldeia, adotou esta imagem como
símbolo da solidariedade comunitária.
Os índios Tremembé partiram com as camisetas impressas,
com seu nome “Tremembé”, sob o desenho de uma aranha no
meio de sua teia, realizado por um grupo de pessoas da favela
que fazem desenhos.
Nas semanas seguintes, dezenas de pessoas da associação da
favela foram convidadas para ajudar a aldeia para dar lugar à
sua própria associação. Desde então, as trocas permaneceram
numerosas e variadas. Dezenas de jovens toxicômanos foram
acolhidas pela tribo para um período de desintoxicação.
Quantidades importantes de palha de carnaúba foram
compradas regularmente pela associação de Quatro Varas
para a realização de artesanatos, feitos pelas pessoas de idade,
notadamente para confeccionar cestas que serviam para a
venda de plantas medicinais.
Finalmente, a associação da favela comprou a produção de
castanha de caju da tribo Tremembé e se encarregou, em
seguida, de vendê-la em Fortaleza, para ajudar os índios a
lutarem contra a exploração das empresas que impunham
tarifas.
A aranha se tornou o símbolo vivo das relações de
solidariedade na favela. A farmácia viva, assim como o
movimento integrado de saúde mental comunitária, adquirir
esta imagem e a da teia como emblema representativo do
espírito de sua ação.
Este animal habitualmente pouco apreciado fez a sua tarefa:
estendeu os fios entre a favela e os índios, e, em mim mesmo
ela despertou o índio que morava em mim e que a
universidade queria senão banir, pelo menos abafar.
Da Desconstrução Material à Construção dos Vínculos
O dia ainda não havia se levantado, quando fomos despertad os
em sobressalto. Era um verdadeiro pesadelo. Os cães
puseram-se a latir, depois ficaram calados tanto estavam
aterrorizados com o barulho de trovão que não parava e que
se tomava cada vez mais ensurdecedor, tornando-se mais e
mais próximos a nós. A terra se pôs a tremer. Acreditava que
era o fim do mundo, as crianças gritavam, todo mundo saiu
para a soleira da porta. Foi então que eu compreendi o que se
passava: viam-se os policiais gritarem e conduzindo os seus
tanques com a luz acesa de seus faróis e pr ojetores. Era
horrível, terrificante. Maria aproxima-se dos carros para falar
com os homens que se aproximavam para derrubar as nossas
casas; como resposta recebeu um golpe de baioneta que lhe
abriu a fronte. Diante desta violência, todos se juntaram para
se assegurarem, depois avança-se para fazer uma muralha de
nossos corpos a fim de proteger as crianças e as nossas casas.
Terezinha com os olhos cheios d’água parou para retomar a
respiração.
José Armando correu atrás, com a voz carregada de raiva e
desespero: “Não vão conseguir nos deter”. O meu barraco foi
o primeiro a ser esmagado. Tentamos de tudo conversar,
suplicar, chegamos até a cantar o Hino Nacional, mas nada
adiantou. Continuaram a avançar sobre nós e teriam esmagado
sem emoção as mulheres e as crianças que recusavam a deixar
as suas casas. Entre os policiais, eu reconheci um jovem cujos
pais habitavam na favela, em um local mais antigo, mesmo ao
lado do nosso. Ele chorava de vergonha, de raiva ou de
impotência. Em todo o caso, virou as costas e depressa se
afastou quando eu o chamei. Por um momento, a máquina da
frente encalhou na areia. O condutor ligou o motor até que
este se pôs a urrar como um monstro ferido, para finalmente
fazer silêncio e se calar: foi o momento que, em um único
movimento, todos nós nos pusemos de joelhos e começamos
a cantar e a rezar para Deus.
Seu Teixeira avançou e tomou o microfone: “Deus nos ouviu”.
No raiar do dia, vimos Aírton parar a sua velha moto em frente
do trator quebrado. Ele se apresentou como advogado e pediu
para falar com o responsável por aquela operação policial. A
discussão foi animada. Airton levantava os braços e agitava
em sua mão um pequeno livro verde que cada um de nós
conhecia bem, como sua única arma eficaz: o texto da Lei da
Constituição Brasileira, que proíbe destruir um teto qualquer
que seja e no lugar que esteja sem o procedimento judiciário.
Neste dia 15 de maio de 1987, havíamos decidido, levando em
conta as circunstâncias que as nossas rodas de terapia
comunitária seriam feitas no meio das casas em ruínas, no
mesmo lugar onde ocorrera o drama vivido quatro dias antes.
Eu tomei a palavrar “Proponho que cada um de nós fale de
sua casa interior, invisível, aquela que sofre, que se sujeitou
aos desgastes, talvez tão importante quanto a casa exterior. O
ditado brasileiro diz: ‘Tudo aquilo que se guarda, apodrece.
Que cada um se exprima e diga aquilo que viveu e sentiu’”.
Francisco começa: “O que é mais doloroso para mim é ver
nestas pedras e nestes pedaços de telha, todos os meus
esforços, todas as minhas economias e todas as minhas
esperanças. Eu não consigo entender”. Maria de Lurdes
declara: “Meu marido está traumatizado. Ele não pode voltar
a este lugar. Diante dos escombros da casa queimada sob os
nossos olhos pela máquina, ele se desvaneceu com o choque:
como se ele estivesse sido esmagado ao mesmo tempo do que
a sua casa, pela violência das emoções sentidas. Desde então,
ele não é mais o mesmo; ele não dorme, não diz nada, eu vejo
somente em seus olhos uma luz de ódio, fria que me assusta.
Quanto a mim, eu estou igual a um zumbi, eu vivo, mas não
vivo mais em mim. Só a força de Deus me faz ficar em pé”.
Duzentas pessoas vieram; muitas testemunhas deste desastre
e as infelicidades que as golpeara. Era preciso ultrapassar este
sofrimento, sentir a força e a esperança que se extraía desta
reunião. Eu peço o microfone e pergunto: “O que me toca e
mais me surpreende é a energia que eu sinto em tudo aquilo
que foi dito e que fizeram vocês estarem lá, hoje e a
resistência de vocês ante a violência sofrida”. “De onde vem
esta força?” “Foi a presença de meus filhos que me impediu
de fazer uma besteira.”
Uma velha avó, toda de preto, aproxima-se do microfone:
“Foi o fato de não ser a única atingida por esta infelicidade e
por me sentir apoiada por aqueles cuja casa foi salva pela
intervenção de Airton e que me acolheram, agora que eu estou
sem teto, isso me dá esperança e a força para continuar a
viver”.
“É verdade, Dona Angélica tem razão”, interveio com voz
determinada, o presidente da associação comunitária. Hoje
nós somos mais de 200 pessoas, certamente há a força de
Deus, mas se nós não juntarmos a nossa força não iremos
muito longe. Nós todos podemos, sobre as ruínas da
destruição policial, construir entre nós uma solidariedade que
será muito mais resistente aos ataques exteriores do que
qualquer muro individualmente construído.”
Como em cada sessão, as pessoas presentes davam -se as
mãos, constituindo, assim, uma grande corrente humana. Eu
peço que juntos, em formas de prece, para repetirem: “Meu
Deus, foram destruídas nossas casas de argila, papelão e
palha, mas não destruíram a nossa casa interior, nossa
esperança. O momento chegou de reconstruí-las e para isto é
preciso mais do que argila, cimento e pedras. É necessário,
com a benção de Deus, acreditar na força de nossa união. A
salvação de cada um de nós está no mutirão”. Com estas
palavras a multidão se dispersou, aguardando o encontro no
dia seguinte para manifestação em frente do Palácio da
Justiça, a fim de apoiar a ação engajada por Airton e pela
Associação dos Direitos do Homem para que houvesse a
condenação da ação ilegal da polícia e obter a reparação do
prejuízo sofrido. Neste momento também solicitamos o
comparecimento da mídia; houve muitas notícias de jornais,
artigos, reportagens de rádio e televisão, atingido pela
indignação e raiva que me tinham invadido, escrevi um artigo
no jornal O Povo de Fortaleza, intitulado “Despejo nunca
mais”.
Além disto, reunimos as crianças que cantavam depois de
desenharem o que elas haviam vivido. Todos os desenhos
foram agrupados para serem expostos em cada manifestação.
De fato, os desenhos ilustram melhor aquilo que qualquer
discurso passou e como foi sentida a violência da ação
policial. Encarreguei, no final, os estudantes de psiquiatria de
escreverem, no âmbito de sua formação, a história das
famílias traumatizadas.
Estas diversas ações comuns permitiram obter da
administração governamental um terreno e o material
necessário para a construção das casas, segundo a prática
tradicional do mutirão.
Eu vim a esta roda de terapia comunitária, com o meu amigo
e antigo professor de etnologia, François Laplantine,
acompanhado de uma amiga psicóloga. Eu os havia convidado
para virem ver aquilo que nós fazíamos em Quatro Varas e
aproveitara a sua passagem para participar da reunião de
quinta-feira à tarde. Visitaram o terreno e viram o ocorrido.
Nunca pensei que seríamos destruídos a este ponto.
Laplantine e sua amiga pareciam seriamente emocionados.
Eles olhavam tudo ao redor do campo de batalhas: p unhados
de areia, tábuas, papelões, telhas, sacos de plástico. Poder -se-
ia reconhecer nesta quantidade de materiais heteróclitos, uma
lâmpada de cabeceira dourada, um espelho quebrado, uma
boneca estripada, um velho rádio curiosamente pendurado
pelo seu fio elétrico em uma tábua, que havia resistido a esta
maré, a este tremor de terra.
Não nos damos conta a que ponto vivemos em um mundo
protegido, longe da violência, da agressão, da insegurança, do
medo permanente do instante, do outro instante, do depois de
amanhã. Estávamos chocados, perturbados pelo espetáculo de
desolação. Nós não conseguíamos extrair o sentido desta
selvageria. Nós precisamos ouvir as numerosas testemunhas
para compreender o que havia ferido profundamente as
vítimas dos tratores. Os objetos destruídos, esmagados pelas
correntes do carro, não tinham nenhum valor de mercado;
objetos recuperados ou encontrados em despejos, tinham um
valor afetivo: haviam sido presentes de um amigo, do patrão,
da mãe... Estas eram as suas únicas posses, suas únicas
riquezas, traços ou lembranças de breves instantes de
felicidade, reunidos em alguns metros quadrados de
intimidade, de propriedade, marcas de suas existências. Todas
estas pessoas nos falaram de uma violação coletiva. Pouco
acostumado a uma violência emocional compartilhada e
ampliada pelo efeito da quantidade: nós havíamos sido
tragados. Cada um reagiu a seu modo: Laplantine estava com
os olhos brilhando, o olhar fixo, respirando muito forte e
secando o suor da fronte e do rosto. A sua amiga não p arava
no lugar: visivelmente revoltada, dizia: “Isto não é possível,
estou sonhando... não é possível”. Quanto a mim, sob a
pressão e os efeitos da adrenalina, meu espírito explodia por
todas as formas possíveis. Eu sentia imperiosamente a
necessidade de reparar, reconstruir, curar as chagas do
coração, unir todas as capacidades de recriar, construir,
edificar juntas. Uma ideia se impunha: o mutirão.
O mutirão é um processo de ajuda mútua, quando todos os
homens de uma comunidade oferecem à coletividade um certo
número de horas de trabalho, para construir as casas. Cada
família, desta maneira, é beneficiada desta solidariedade, que
permite edificar as habitações e também tecer as ligações e as
relações sociais, que se solidificam no decorrer do tempo
passado juntos no trabalho.
Tive a oportunidade, anteriormente, de viver esta experiência,
com meu pai e meus irmãos. Nós havíamos chegado a
Fortaleza. Alguns meses após nossa instalação mais do que
precária, foi proposto a meu pai que ficasse com o crédito de
mutirão deixado por uma família. Esta iria se mudar para o
novo quarteirão da favela de Pirambu, denominada Japão.
Tratava-se de um programa de construção de alojamentos,
conduzido pelo governo, com o apoio financeiro da “Aliança
para o Progresso”, do governo norte-americano. Todos os
materiais necessários eram fornecidos e as construções
deveriam se realizar sob o regime de mutirão. Meu pai aceitou
o contrato. Nós devíamos 300 horas de trabalho. Estando em
férias do seminário, eu me reuni todas as tardes com a equipe
familiar. Esta incluía, além de meu pai, Antônio, Aírton e dois
primos que estavam em férias na minha casa.
Ao final de 15 dias, havíamos largamente pago a nossa dívida.
Fizemos muitos amigos e praticamente terminamos a casa em
que atualmente vivem meus pais, e que está situada a algumas
centenas de metros de Quatro Varas.
Esta experiência me deixou um precioso ensinamento: aprendi
a importância da ajuda mútua e da solidariedade em torno de
uma ação concreta de construção. Ela permitiu a
materialização de um projeto cuja importância vem ao espírito
daqueles que a realizam. Em outras palavras, o símbolo da
união de meus avós.
Evidentemente, tudo o que construímos a seguir em Quatro
Varas foi em mutirão: a casa para crianças, para pessoas de
idade, para xerografia, as duas palhoças de reunião, o
laboratório de plantas medicinais da farmácia viva.
Finalmente, o atelier de arteterapia para os jovens, filhos de
alcoólatras.
Construir no universo da precariedade, do efêmero, do
inseguro, do provisório, que é o da favela, é sair da
sobrevivência dia a dia e introduzir a ideia de duração do
sólido, da esperança.
Todos os Caminhos Levam a Roma
Fiquei apenas um ano no seminário de Sobral. Havia trajado
somente um ano de batina. Em seguida, de fato, no seminário
de Fortaleza, sustentado pelos padres holandeses do Sagrado
Coração de Jesus, o “uniforme civil” era, a rigor, uma
vestimenta com as cores da instituição. Fui para Fortaleza
devido às mudanças paternas. Assim, no final do terceiro ano,
como todos os meus colegas nordestinos, migrei para o
Recife, com a finalidade de terminar meus estudos. Éramos
apenas quatro do Ceará; os outros vinham de diferentes
Estados do Nordeste: Bahia, Pernambuco, Maranhão. As
brincadeiras eram comuns entre nós, caricaturando as
particularidades ou enfatizando pejorativamente a reputação
de uns e outros, segundo a sua proveniência. Assim, os
cearenses eram denominados de “agrestes”, cujo espírito
estava tão próximo da terra que pairava o rés do solo ou
devido ao fato de o jovem originário do Ceará utilizar pouca
água quando toma banho. Ao banhar-se, ele fecha a torneira
para se ensaboar, e só abre para se lavar do sabão. Este é um
hábito de economia de água, relacionado à penúria de água
que é frequente em nosso país. Enfim, para citar apenas os
termos principais de nossos rótulos, éramos qualificados
como viradores, com referência à pobreza de nosso povo,
obrigando a cada um a arranjar-se com pedaços de barbantes.
Como se pode constatar, o seminário não era poupado de
“chauvinismo” de divisões ou oposições regionais vizinhas.
Excetuando estes momentos de tensão entre grupos, que,
apesar de tudo, reforçavam o sentimento de presença de uma
comunidade, de uma cultura, eu seguia com prazer e confiança
o curso escolar que me conduzia, com orgulho, para o
sacerdócio.
Meu encontro com o Padre Reginaldo Veloso foi, para mim,
o primeiro revés importante de minha escolaridade que abalou
minha tranquilidade, minhas certezas, minhas convicções
religiosas, obrigando-me, intimamente a me defender, a
escolher o meu caminho.
Nós estávamos em 1968, e ouvíamos falar dos movimentos
contestatórios da juventude que agitavam e desestabilizavam
a Europa e os Estados Unidos mas, as informações de que
dispúnhamos eram “avaliadas” pela junta de coron éis no
poder desde 1963 e apresentadas de tal maneira que tínhamos
a impressão de que se tratavam de notícias vindas de outro
planeta. Quando o padre Reginaldo começou a fazer uma
análise crítica da ação da Igreja, mostrando que esta reforçava
um processo de neocolonização e colocava-se ao lado dos
ricos e poderosos, vivendo nas costas dos fiéis, acentuando
assim a sua miséria, eu me senti sufocado e profundamente
indignado. Como era possível criticar, assim, nossa madre
Igreja? Senti em meu íntimo uma violência feita de
agressividade e de medo. Eu nunca havia sentido, até então,
uma emoção tão intensa. Estava revoltado, queria calar, punir
este indivíduo sem pudor que ousava o impensável: atacar o
instrumento de Deus, nossa grande família espiritual.
O Padre Reginaldo era alto, delgado, emagrecido, com as
feições macilentas. Ele tinha o perfil de uma águia, com seu
nariz curvo como pinça, sua fronte alta e seus cabelos negros,
cuidadosamente alisados e puxados para traz. Uma leve
exoftalmia acentuava esta impressão de uma grande ave
predadora, trazendo em seu olhar um brilho e uma tensão
permanente. Temos que convir que ele “se impunha” tanto
fisicamente como falava sem nunca procurar suas palavras ou
ideias. Ele solicitava voluntariamente controvérsias, tinh a
resposta para tudo e não parecia embaraçado com qualquer
questão. Esta segurança tinha qualquer coisa de arrogante, de
provocador, que me arrepiava. Eu tinha medo de meus
sentimentos de inveja, de meus desejos destruidores, mas
também do fato de que tudo o que ele dizia me tocava e me
desorientava. Progressivamente meus sentimentos evoluíram;
os argumentos desenvolvidos pelo Padre Reginaldo, cada vez
mais, faziam eco dentro de mim. Não somente compreendia
que ele avançava cada vez mais, como em meu foro í ntimo eu
o aprovava. Eu me sentia dilacerado, porque efetivamente não
podia aderir a seus propósitos iconoclastas, que me
desestabilizavam. Estava consciente de que estes propósitos
representavam um risco para as minhas convicções e para as
bases de meu engajamento, mas, sobretudo, para a unidade e
força da Igreja.
“A religião é o ópio do povo se ela serve à ilusão de que para
tudo é necessário a espera de Deus. Convidando assim a se
adotar uma posição passiva, de resignação face à infelicidade
e a miséria do
mundo. A palavra de Deus deve dar ao homem a confiança em
si mesmo, em sua capacidade de lutar, de se realizar e de
ajudar a encontrar soluções para seus problemas.”
Acrescentava, com uma certa exaltação que nos excitava e nos
estremecia: “Vocês vivem – na – redoma protetora da Igreja,
persuadidos de que seguem o caminho da verdade. Vocês têm
o sentimento de que fazem parte de um exército, mas não
sabem muito bem se na verdade este exército é do bem ou do
mal. Vocês querem ser sacerdotes que ajudam a transf ormar
as coisas, lutando contra a pobreza e a injustiça ao lado dos
fiéis, ou estar essencialmente e unicamente ligados aos rituais
e ao sacerdócio?”
Era a primeira vez que eu ouvia semelhante coisa. Eu estava,
como que, na encruzilhada dos caminhos. Descobria que
havia dois lados, duas maneiras de encarar a fé e a ação no
interior da Igreja ou, simplesmente, a ação cristã.
Compreendia que precisava escolher, mesmo que o momento
de fazê-lo não tivesse ainda vindo para mim. Eu não podia
servir a dois mestres ao mesmo tempo: ao Diabo e ao Bom
Deus; aos ricos e aos pobres; à Igreja conservadora ou àquela
da mudança.
Evidentemente, o Padre Reginaldo não tardou a ser afastado
de suas funções de ensino. Acusado se loucura por uns, de ter
perdido a fé por outros, ou de ser manipulado por grupelhos
comunistas, foi rejeitado pelo conjunto da congregação. Após
a sua partida. Foi acolhido pela equipe do Dom Hélder
Câmara, sem ter de se preocupar com as autoridades políticas,
porque em 1968 não se ousava ainda prender os padres.
Mas o germe estava lá. A dúvida e a suspeita tornavam -se os
motores de uma nova dinâmica. Após a expulsão do Padre
Reginaldo, eu fiquei mais crítico, mais atento, até mesmo
desconfiado, frente às contradições ou às incoerências de
comportamentos de certos sacerdotes. No final deste
penúltimo ano do segundo ciclo, tive uma alteração muito
banal com um “seminarista” que se formava como professor
da congregação. O reitor do seminário me chamou para que
eu me explicasse sobre a pequena discórdia que me opunha ao
confrade. Em seguida, ele disse que compreendia, mas que,
entretanto, me infligiria uma leve punição. Eu lhe pedi para
que revisse, apenas para poder extrair o sentido da sanção que
me parecia ser uma injustiça ou uma contradição. “Se o senhor
me compreende, se eu não cometi
nenhuma falta, então por que me pune?” Depois, citando São
Paulo, argumentei: “O homem condena somente aquilo que
não compreende”. Era o meu primeiro confronto com a
autoridade religiosa. Este incidente precedia quase o final dos
cursos e, precisamente quando anunciou, antes de partir em
férias, que precisaria fazer durante os feriados o pedido de
inscrição para o ano seguinte.
Quinze dias antes do retorno, recebi uma correspondência do
reitor, que lamentava, mas que não poderia me aceitar neste
ano na classe de término do seminário, porque não havia tido
inscrições suficientes em minha seção para se formar uma
classe. O golpe foi terrível para mim. Eu não ousaria contar
para os meus pais, mas não podia ficar sem reação. Assim,
dirigi uma carta de resposta ao reitor. Este processo seria sem
dúvida, em vão, mas para mim era importante expressar meu
sentimento sobre esta manobra grosseira e hipócrita,
empregada para me excluir e mostrar, assim, que eu não era
tolo. Deplorei, então, ser afastado desta forma. Reconhecia
que eu tinha o meu lado exigente e, por vezes, exasperante
para com os meus professores, mas era preciso que fosse vista
a manifestação do meu interesse, de meu engajamento na
missão evangélica, à qual eu me destinava. Considerei,
portanto, esta medida de afastamento como gravíssima. Não
levara em conta a minha vocação.
O seminário, para mim, representava um espaço de
construção, de diferença, no qual eu dava o melhor de mim
mesmo. Eu mal podia compreender como se pode despachar
alguém porque incomoda, sem lhe dar mais explicações.
Terminei a carta pedindo que tivessem a honestidade de me
precisar as razões exatas de meu banimento.
Não houve verdadeiramente consolo nesta correspondência e,
sem ilusão sobre as consequências que seriam dadas, passei
momentos difíceis. Eu havia feito a ideia de que Deus, o bom
pai, me apoiaria neste momento baseado na passagem do
Evangelho: “Se tu pedes pão a Deus, Ele não te dará pedras”.
Intimamente, refletia: “Se este envio camuflado não é de
pedras, de que será?” Ante esta adversidade, longe de
renunciar a meu projeto de me tornar padre, fui ver Dom
Delgado, bispo de Fortaleza. Este, após ter ouvido a minha
história, prometeu-me que me inscreveria num seminário
maior, de mentalidade nova, que estava em vias de ser
montado.
Este homem enérgico tinha ideias “rígidas” como a imagem
de suas mãos e a de suas feições empertigadas. Desde a nossa
primeira entrevista, ele não tinha papas na língua; ia direto ao
assunto: “Você quer participar de uma experiência nova,
então, tome consciência de que o mundo atual é um mundo
técnico. Não é justo, em um país pobre, viver com o pouco
dinheiro que ganham os fiéis. Romper com a tradição e a
condição de se criar outras. Um padre moderno deve aprender
uma profissão técnica e a exercer em meio período para
ganhar a sua vida: ajudar a comunidade e não depender dela
financeiramente”.
Eu estava totalmente embaraçado com estas propostas. Havia
imaginado as coisas de outro modo. Pensava em me consagrar
essencialmente ao seminário, ao estudo da liturgia, dos
sacramentos e dos textos bíblicos para estar pronto para
exercer minha missão sacerdotal. Em lugar disto, propunha -
me a escolha de outra profissão. Qual? Eu nunca havia
pensado nisso. “A que você quiser, aquela que lhe parecer
adequar melhor com o seu caráter ou estar mais de acordo com
o seu modo de encarar o ofício de padre. Você tem um ano
para refletir durante seu último ano escolar, que você deve
fazer fora do seminário”.
Eu decidi rapidamente seguir a profissão de medicina: servir,
trabalhar para os outros, cuidar de corpos, salvar vidas.
Parecia-me que completava o projeto de salvar as almas.
Então prestei um vestibular; muito difícil para ser admitido na
Faculdade de Medicina, e entrar no seminário com a outra
corda indispensável para o meu arco de futuro padre.
Vivi quatro anos extraordinários, extremamente densos e
laboriosos, no decurso do qual travei novos conhecimentos.
Durante o dia, seguia os meus estudos de medicina entre a
universidade e o hospital; à noite aprendia Filosofia e
Teologia. Mas, se agora isto me parece um tempo de louco,
naquela época minha sede de aprender, de saber, era tal que
eu não temia nem a fadiga do trabalho nem a sobrecarga. Eu
verificava, ao contrário, que a filosofia me dava instrumentos
para refletir e retroceder em relação a tudo aquilo que a
Faculdade de Medicina me requeria assimilar. Quanto à
teologia, suas relações com os demais estudos eram
indispensáveis, porque não esquecíamos que a minha vocação
permanecia essencialmente sacerdotal e a aprendizagem de
medicina somente secundária, assessoria, dizíamos, e não o
inverso. Entretanto, no final de dois anos, eu comecei a sentir
um profundo mal-estar.
Durante toda a minha infância, eu havia sido testemunha de
um modo de viver, de cuidar dos doentes e infelizes, fazendo
apelo ao poder de curar dos santos protetores e dos
curandeiros com suas preces mágicas. Os raizeiros com suas
raízes e cascas de árvores, os médiuns espíritas e os
umbandistas com seus espíritos, seus rituais, seus transes.
Com os estudos de medicina, fazia sentir angústia sobre o
futuro, à medida que descobria a sua riqueza e complexidade.
A percepção da doença e do sofrimento humano estava em
oposição com a de minha própria cultura nordestina.
Progressivamente, eu me dei conta de que o mundo acadêmico
exigia de mim uma renúncia total às minhas crenças
anteriores. Tudo se passava como se, para tornar -se um
homem de ciência, eu devesse renunciar à minha própria
cultura.
Eu não podia mais exprimir minhas crenças sem me expor às
críticas de meus colegas. Eu me sentia desarmado. Como
responder às exigências de uma ciência baseada na
materialidade das coisas, se o que me animava pertencia a
uma outra dimensão da vida, o mundo invisível na qual a
ciência não poderia aceitar?
Muitas vezes eu me perguntava o que restaria de um homem
se lhe tiram suas crenças e convicções que fazem dele um
nordestino, um sertanejo? Eu temia ser devorado pelas
“certezas” científicas. Passei a me mostrar desconfiado frente
às grandes certezas. Elas são muitas vezes a arma mortal
daqueles que querem minar o espírito das pessoas perdidas em
suas dúvidas e caminhos libertadores.
Entretanto, estes dois universos me apaixonavam. Cada um
deles tinha o seu lado sedutor. Meu primeiro universo cultural
nutria em mim este gosto pelas coisas maravilhosas, mágicas,
onde o homem, para sobreviver, deveria levar em conta o lado
invisível das coisas. Eu havia aprendido que o essencial é
invisível e que se deve viver com os pés na terra, a cabeç a nas
estrelas e o olhar voltado para o infinito. Se o primeiro mundo
vivia da verdade mítica onde o imaginário desempenhava um
papel principal e reduzia a realidade material a uma espécie
de miragem, sem importância, o mundo científico privilegiava
a realidade material, ignorando, e até mesmo combatendo, o
imaginário, o irracional. Este novo mundo exigia a morte de
meu universo cultural para poder reinar como senhor
absoluto. Ele quer ser a única medida, aconteça o que
acontecer.
Esta foi uma das minhas primeiras batalhas interiores. Eu
sabia que precisava enfrentar e que a única origem possível
desta luta passava por um diálogo entre aquilo que eu era e
aquilo que eu me tornava. Neste estado de guerra interior,
aprendi a não rejeitar nada sem antes ter examinado,
questionado.
O grande temor que me habitava era me encontrar esvaziado
dos elementos que constituíam a base de minha existência, de
minha identidade cultural. Eu não podia conceber uma vida
sem autonomia criadora.
Assim, um projeto, uma ambição, tomaram forma: queira me
tomar um homem de saber, um cientista que acreditava em
São Francisco e no Padim Ciço e ficar ligado à minha cultura
de origem. Aliar tradição e modernidade.
Encontrava, sob uma outra forma, a oposição de modelos
propostos pelos meus avós. Meu desejo, mais do que nunca,
impelia-me a encontrar um equilíbrio, uma harmonia, uma
complementaridade entre a terra e o ar, entre o espírito e a
matéria.
Tudo isto explica por que após ter passado seis anos na
Europa, meu primeiro trabalho de pesquisa universitária foi
sobre a peregrinação de Canindé.
Estávamos, agora, nos anos de 1972-73, o seminário criado
por Dom Delgado havia sido o que prometera, mostrando -se
amplamente aberto ao mundo moderno, tanto aquele das
técnicas como o das ideias e das novas experiências. Eu me
sentia como um peixe na água. O seminário convidava
regularmente conferencistas. Eu não perdi nenhuma ocasião
para me enriquecer, discutir ou aprender. Certos debates
ficaram em minha memória. Penso, em particular, naqueles
debates em que nós tivemos a ocasião de estar com Dom
Hélder, com Leonardo Boff, quando ele esboçava apenas o
contorno sobre a sua concepção de Teologia da Libertação.
Recebemos, além do mais, padres estrangeiros, vindos de
passagem dos países vizinhos da América Latina ou da
Europa. Um deles, o Padre Daniel Jouffre, originário de Saint -
Brieuc, teve mesmo uma carga de ensino no seminário. Ele
era meu diretor. As ligações que eu tive com ele ultrapassaram
o quadro do papel institucional. Ele era para mim um
confidente, um amigo, uma referência. Passávamos as tardes
inteiras a discutir em francês. O prazer de falar esta língua
misturava-se à descoberta de mundos, de experiências e de
maneiras de ver completamente diferentes para mim: a vida
no velho continente, aquilo que pode ser considerado como
miséria em um país rico, a noção de climas, de estações, de
ritmos diferentes. Aprendi com ele a conhecer as diferenças,
aceitá-las e apreciá-las.
Por exemplo: era incompreensível e chocante para mim um
nordestino vivendo em uma região equatorial, que as pessoas
pudessem sofrer e morrer de frio em um país rico como a
França. Ele falava muitas vezes da condição operária e de sua
experiência como padre, trabalhando em uma fábrica e
exercendo o seu sacerdócio em uma cidade operária. Este
passado lhe proporcionou ser nomeado como responsável
pelos Padres operários da América Latina e pelos
intercâmbios com a França.
Vivíamos um período fecundo, no meio de uma formidável
conspiração de ideias, abalando profundamente no interior da
Igreja, as suas representações e modelos habituais. Se, até
então, o jugo da censura e do controle da ditadura militar
havia poupado os meios religiosos, sentia-se nitidamente que
a situação modificava-se rapidamente. Os representantes da
polícia assistiam, por vezes, aos cursos, e muitos de nós
suspeitávamos que espiões estivessem infiltrados no
seminário. As ameaças pairavam. A menor crítica ao regime
traduzia-se infalivelmente por uma convocação ao
comissariado. De uma só vez, os acontecimentos se
precipitaram, encadeando-se uns nos outros, colocando-nos
brutalmente frente às realidades políticas relacionais e
pessoais muito difíceis para se compreender e superar.
Acredito ter vivido este episódio da minha vida como uma
sucessão de tremores de terra, deixando-me transtornado,
abalado, profundamente colocado em questão: tive a
impressão de ter envelhecido, em algumas semanas, cem anos.
Mas o tempo deforma e remaneja as lembranças, sobretudo
quando elas são traumatizantes. Então, é preferível dar a
palavra ao jovem seminarista que eu era na época, para contar
com a emoção do momento o que exatamente se passou.
“Tudo começou em uma bela manhã, com a prisão do Padre
Daniel Jouffre. Como com boa fé ele protestou, as coisas
tomaram um rumo mais brutal. O tom de voz sobe, e, ao meio
de grandes empurrões, dezenas de policiais levaram
firmemente o padre, com tudo o que foi encontrado em seu
quarto. Os espíritos estavam esquentados, o seminário em
ebulição. Assinam-se petições, imaginam-se possíveis
intervenções diplomáticas de nossos superiores ou de
políticos junto às autoridades policiais. Em suma, é o pânico,
a confusão do combate ao mesmo tempo. Ante o golpe, fiquei
imóvel, fulminado como alguém que, colidindo frente a uma
vitrine transparente, toma consciência de sua existência após
ter quebrado o seu nariz. Não cheguei a compreender, a
realizar tudo aquilo que se passou, tanto estava persuadido
que a polícia política não ousaria nunca atacar os responsáveis
religiosos”.
Durante a madrugada do dia seguinte, eles vieram para me
buscar. Três policiais civis, entraram em meu quarto, levaram
alguns livros e fotocópias, selecionando em particular os
livros de capas vermelhas. Depois eles me mandaram que os
seguisse para ser interrogado no comissariado. Antes de
acompanhá-los, pedi a um superior do seminário para me
acompanhar, servindo-me como testemunha e advogado.
Em minha chegada ao comissariado, recompus um pouco meu
ânimo; mas eram muitos males para serem acalmados, o medo
e a cólera que me invadiam, me davam náuseas. Os dois
inspetores que nos fizeram entrar em um pequeno escritório
empoeirado, repleto de papeladas, deram-me a ideia de tratar-
se de um pesadelo de que eu despertaria. O interrogatório
durou o dia inteiro; regularmente, ofereciam-nos, ao padre
superior e a mim, sanduíches e café.
Eles vistoriaram, minuciosamente, toda a minha vida: as
questões pareciam saltar de “pato para ganso”, mas, na
realidade, nenhum detalhe era negligenciado. Sem distinção
eles passam tudo em revista; certamente minhas r elações com
o padre Daniel Jouffre e também com os meus amigos de
infância, minha família, o seminário de Recife, minhas
leituras, ideias, convicções, o que eu pensava sobre Che
Guevara, Lênine, Trotsky e sobre o papel dos sacerdotes na
sociedade.
Para terminar, eles me interrogaram longamente sobre as
minhas responsabilidades de coordenador do grupo pastoral
da juventude de Fortaleza, que reuniu no final de semana um
certo número de jovens para refletirem sobre o papel do
cristianismo. Apesar da fadiga e de numerosas provocações,
terminei por enfrentar e responder e desviar dos ataques e
peças que eles me estendiam. Eu retornei me sentindo vazio,
sem forças, extenuando com esta prova, mas, no final das
contas, eles me deixaram partir.
Eu não pude impedir a pequena satisfação de sair às custas de
uma grande emoção e de um quarto bagunçado. Pensei em
Daniel Jouffre. A experiência pela qual havia passado deixou -
me ainda mais inquieto, em relação a ele.
Nos dias que se seguiram, as notícias que nos chegaram sobr e
a sorte do Padre Jouffre não eram boas. Os militares queriam
utilizá-lo como “exemplo”. No seminário as coisas pareciam
retomar bem ou mal seu curso habitual.
Entretanto, eu progressivamente notava que a atitude de meus
colegas, assim como a dos padres que frequentavam o
seminário, havia mudado a meu respeito. Alguns me evitavam
ou não mais me dirigiam a palavra; outros, que eu pouco
conheci, ao contrário, vinham falar comigo, tentando com
evidência colocar-se bem comigo ou parecendo querer se
justificar a meus olhos. Mas por que isso? Comecei a sentir
um mal-estar cada vez mais opressivo. Perguntava-me se as
minhas impressões tinham mesmo fundamento, ou se em
decorrência do abalo dos acontecimentos recentes e da
ausência do Padre Jouffre, cujo apoio fazia-me cruelmente
falta nestas circunstâncias; eu perdera a orientação e entrara
numa paranoia. Foi um dos meus colegas do Ceará, que,
rompendo o silêncio, respondeu às minhas dúvidas: “todos
estão persuadidos de que você é um ‘dedo-duro’” da Polícia
Federal. Ele fez esta menção no momento em que eu lhe
comunicava as minhas impressões.
Parecia que a terra desabava sob os meus pés. Perdi o
controle, o tecido da realidade, a minha realidade, aquela que
eu acreditava ingenuamente compartilhar com os outros, se
rasga. Senti-me só, acusado injustamente. Após ter passado
um longo tempo em meu quarto, torturado por mil questões
que me assaltaram de todos os lados, dirigi-me resolutamente
para o escritório do chefe hierárquico do seminário, decidido
a dar um fim a estas calúnias. Participei a este superior que eu
recebia acusações e exprimia a ele toda a minha estupefação:
“Não compreendo como isto seja possível? Vivemos todos
juntos, cada um sabe bem como eu vivo, o que eu penso, o
que digo e faço”. Após ter me olhado com gravidade e
simpatia, ele apontou uma pasta de papéis colocada sobre sua
escrivaninha. “Tenho, efetivamente, recebido uma dezena de
acusações a seu respeito: alguns acham que você faz o jogo
da polícia, outros imaginam que você seja espião ou delator.
Não acredito em nada disto, mas saiba; primeiro, que a
conjectura não lhe é favorável; segundo, todos os argumentos
ou provas que você adiante sobre o que tem feito, a sua boa
vontade, a sua posição... voltam-se contra você mesmo. Vou
ser mais preciso, porque você parece mal perceber o que eu
falo. Algumas cartas fazem notar que você era o único que
nunca faltava nas conferências e que para tudo colocava
questões. As suas relações próximas com o Padre Jouffre
também lhe acusam: quem era o melhor colocado e o melhor
instrutor de nosso colega senão você? Por que a polícia lhe
liberou, enquanto o Padre Daniel continua na prisão?
Mostrou-se à vista de todas as aparências formais dos seus
depoimentos na polícia para dar a versão e ficar encoberto. Eu
sei que não é nada disso, porque eu tive ocasião de conversar
com colegas que lhe acompanharam, porém todos estes
elementos se encaixam tão bem uns com os outros, que
adquirem a força de provas. Enfim, além disto, eu tenho dados
que alguns consideram prova material de sua traição, ou seja,
um extrato bancário de sua conta, que sobe a um montante que
a categoria social de sua família ou o simples curso que você
ministrava não podem explicar esta quantia. Na lógica de seus
detratores, esta pequena fortuna não seria senão o fruto da
culpa, o dinheiro dado pela polícia a judas".
Respondi, sem convicção, que acreditassem sobre o a origem
deste fundo bancário. Este fundo pertencia a um grupo de
estudantes de Medicina, de minha turma. Estes pensaram que
seria mais certo confiar a um seminarista o dinheiro que servia
para pagar a festa e a saída tradicional do final de ano. Eu
sabia que daqui em diante o assunto estava encerrado e que
nada serviria para eu continuar a me justificar sem ter fim.
Finalmente, eu me conscientizei que foi minha sinceridade,
meu engajamento excessivo que foram condenados.
Completamente desamparado, não sabia a qual santo me
devotar. E, nestas circunstâncias, a prece e o recolhimento não
eram suficientes.
Pedi para me encontrar com Dom Delgado, o bispo que me
havia acolhido neste novo seminário. Eu lhe tracei a situação
em poucas palavras: “A polícia me acusa de ser de esquerda;
no seminário, dizem que eu sou da direita ou policial
infiltrado, no momento em que eu mais necessito do apoio da
Igreja. Eu fui rejeitado, acusado, banido. Onde está a
fraternidade cristã?”.
Pela primeira vez neste caos, neste pesadelo que eu estava
vivendo, recebi uma ajuda, um conforto, as palavras que me
ajudaram a retomar o pé na realidade. “Vivemos um momento
histórico em que é normal haver suspeitas, questionamentos
sobre as pessoas que nos cercam. Se você não compreende
isto, é porque é estúpido, completamente fora da realidade.
Além disto, é preciso levar em conta que, as acusações visam
aquilo que você representa, os valores que traz consigo neste
momento histórico, o projetor está mais voltado sobre você,
de um lado ou de outro”. Após a série de eletrochoques que
eu havia sofrido, estas palavras deram enfim um sentido
àquilo que eu passava.
A meu pedido, Dom Delgado autorizou-me que interrompesse
meus estudos, no seminário, por dois anos - o tempo
necessário para que eu terminasse meus estudos em Medicina
e fizesse uma pausa para refletir sobre o que me ocorrera,
antes de enfrentar o retorno.
“Então, Adalberto, o seminarista, o que é que você aprendeu
com tudo isso?”
Nada de muito alegre ou muito determinante. Eu estive muito
mal antes de sair de minha decepção, de meu estresse e de
certa forma de meu rancor.
Eu não conseguia traduzir as etapas deste pequeno caminho
de sofrimentos, senão como vítima de uma justa intriga.
Tomei, dolorosamente, a consciência da importância de
pertencer a uma família biológica, religiosa... ou a um gr upo;
isto porque considero impossível viver em uma comunidade,
sem fraternidade, sem solidariedade. Ficara realmente
traumatizado por ter sido rejeitado pelos meus colegas, no
momento em que tivera mais necessidade de seu apoio.
Compreendo que, em certos momentos, há necessidade de
tratar as chagas e restabelecer-se antes de poder pensar sobre
estas chagas e disto tirar o ensinamento que elas contêm.
Muitas vezes refleti sobre este período da minha vida e sobre
minha atitude. Foi preciso tempo para extrair toda a minha
responsabilidade neste estrago. Uma coisa pareceu -me
claramente: se me encontrei sozinho neste sofrimento é
porque eu estava só, em minha caminhada. Os pecados de
orgulho são piores, porque são os mais difíceis de se
reconhecer.
Portanto, é preciso antes confessar que a minha ambição era
solitária e exclusiva. Toda a minha energia, todos os meus
atos e pensamentos eram dirigidos para Deus. O sucesso de
meu projeto consistia em vir a ser um de seus melhores
servidores.
Não cessei de desenvolver esta ligação egoísta com o céu em
detrimento das relações com os meus irmãos.
Pensei muitas vezes nesta história do peregrino fiel de São
Francisco: ele foi, um “belo dia”, vítima, como todos os
habitantes da região, de uma inundação diluviana. A água não
parava de subir. Uma canoa parou diante de nosso homem que
declinou a da oferta que lhe era feita de levá-lo, alegando
esperar que São Francisco viesse salvá-lo. A água continuava
subindo. O peregrino sujeita-se a subir em um coqueiro para
se proteger. Ele vê organizar-se diante dele um êxodo geral.
Entre os barcos que fugiam da catástrofe, um parou para trazê -
lo; ele recusa repetindo: “Eu confio em São Francisco, ele virá
me salvar”. A maior parte das pessoas partiram. Uma lancha
a motor, depois um helicóptero vieram para salvá-lo. O
homem, teimoso, mantinha firme a sua posição. Finalmente,
nosso herói encontrou-se no céu diante de São Francisco;
porque, logicamente, a água acabou por submergir o coqueiro
e afogou o peregrino. “Por que você não me salvou?”,
perguntou o peregrino a seu padrinho. O santo patrono
responde furioso: “Enviei, para lhe salvar, um carro, um
barco, uma lancha a motor e mesmo um helicóptero. Do que
é que você precisava mais?”
A relação com Deus passa por outros, é através das ligações
humanas que a gente pode se transformar e transformar o
mundo.
Penso muitas vezes no jovem homem arrebatado e apaixonado
que eu fui e que continua ainda vivendo em mim. A lição foi
muito cruel, seu preço muito elevado nos trouxe
consequências indispensáveis. Infelizmente, a humildade só é
aprendida nas provações.
Retornei, assim, mais uma vez para a vida civil. Abria -se uma
nova fase de minha história. Estava como que em
convalescença, revigorado, animado, por uma formidável
necessidade de amar e de me sentir amado.
Ensinei, algumas horas, no curso de religião e ciências
naturais, em uma escola próxima da casa dos meus pais, para
poder pagar meus estudos e transportes.
Saindo deste estabelecimento de ensino, vi Angélica, pela
primeira vez. Ela vinha regularmente buscar sua irmã e seu
irmão na saída das aulas.
Tendo estabelecido meu compromisso, meu projeto de me
tornar padre, evitava prestar atenção às jovens moças.
Deixava as questões referentes ao amor e à sexualidade na
categoria de fantasmas e testava as pulsões, as tentações que
me assaltavam, como podia, com a ajuda de Deus, ante este
desconforto moral e desgostoso.
Um dia eu a encontrei na saída da escola; ela queria falar
comigo sobre as dificuldades escolares de sua irmã. Antes de
ela mesmo pronunciar a primeira palavra, cruzando nossos
olhares, fui invadido por uma sensação de doçura e de calor
no peito, deixando as minhas pernas bambas, a emoção na
garganta e o medo de que o rubor que eu sentia subir às faces
me tomasse ridículo. Por um instante, acreditei que não
poderia tirar os olhos de seu rosto, onde havia posto todo o
meu ser emocionado.
Ela parecia igualmente perturbada, mal conseguia engolir a
saliva e procurava, de forma manifesta, nas palavras, os meios
de recompor a sua emoção. Nós nos enamoramos.
Curiosamente, não senti nem vergonha, nem culpa; decidi
viver este amor com sinceridade. Depois, eu ainda não havia
pronunciado meus votos e este encontro me oferecia a
alternativa que eu não queria e não teria que encarar até então.
Todos estes questionamentos, estas dúvidas, concernentes às
minhas escolhas, haviam sido regularmente discutidas entre
nós.
Angélica era muito bonita, delgada, cativante. Tinha o andar
aéreo das dançarinas, deslizando ou roçando o solo; seus
gestos eram desprovidos de peso, como se tivesse conseguido
escapar da ação da gravidade. Seu nome, Angélica, refletia a
impressão deixada pelo seu rosto e mãos: delicadeza, fineza,
doçura. Seus cabelos, cor-de-mel, trançados, levantados
acima da nuca, descobriam o seu pescoço e sua fronte de tez
cor de pêssego destacando a chama de seus olhos negros e o
brilho de seu sorriso.
Eu nunca havia sentido tanta ligação, envolvimento, que faz
a ausência de outrem ser dolorosa e o pensamento ficar
concentrado na existência de um outro ser. Ela era muito beia;
este retrato pode parecer muito excessivo, idílico, mas é
preciso ver a autêntica apreciação de um enamorado
romântico.
Tendo deixado o seminário para seguir como “louco”, meus
estudos de Medicina, nós dispúnhamos de tempo para no s
amar, passear, fazer projetos. Ela havia decidido mudar de
carreira, interromper os seus estudos no Magistério, para
adotar a formação de Enfermagem. “Isto será bom”, dizia -me,
“estaremos também unidos e em harmonia na atividade
profissional”.
Terminei meus estudos de Medicina. Havia escolhido fazer o
meu último estágio no Hospital de Canindé, mantido por uma
congregação religiosa, conforme ocorre muitas vezes no
Brasil. Uma vez mais, eu passava por esta cidade; ponto de
partida para uma nova volta da espiral.
Frequentemente, esta congregação recebia a visita de
autoridades religiosas, que aproveitavam a sua estadia na
cidade para se encontrarem com os doentes e médicos.
Ora, um dia, o visitante esperado calhou de ser o bispo
substituto de Dom Delgado, o Cardeal Lorscheider, presidente
da conferência episcopal da América Latina. Uma vez feita a
apresentação pelo diretor do hospital, Dom Aluísio
perguntou-me sobre o meu trabalho e a entrevista durou duas
horas. Como eu lhe participei a minha intenção de ir p ara São
Paulo, especializar-me em Teologia e Filosofia, ele me
interrompeu: “Teu lugar é em Roma; lá você poderá terminar
os seus estudos e encontrar os interlocutores que lhe ajudarão
a encontrar o seu caminho. Reflita e venha me encontrar, se
você aceita a minha proposta”.
Discuti muitas vezes e longamente com Angélica sobre a
proposta que me foi feita. Finalmente, fui dizer a Monsenhor
Lorscheider que havia aceito a proposta de bolsa para Roma,
mas, que precisava ser honesto com ele, eu não podia mais
comprometer-me em me tornar padre, quando retornasse ao
Brasil, porque eu não sabia mais se era isto que desejava, no
momento. “Parta sem embaraços e temores. O importante não
é que você venha a ser padre, mas que utilize aquilo que tem
aprendido para servir a seu próximo; não existe apenas uma
maneira de servir a Deus”.
Quando anunciei a novidade para Angélica, ela me olhou com
tristeza e certa gravidade. Ela sabia desde o nosso primeiro
encontro que os nossos caminhos podiam se afastar. Pegou de
dentro de sua bolsa uma caneta tipo Bic e escreveu em um
guardanapo de papel vermelho, do pequeno restaurante que
costumávamos frequentar, as palavras: AMOR-ROMA.
Depois eia se levantou e me mostrou que ROMA era o
anagrama de AMOR. Estas foram as suas últimas palavras.
Ela sabia e sentia como eu, com o coração partido, que a nossa
história de amor acabava ali. Este jogo de palavras era um
signo, uma espécie de presságio? Fiquei só, o coração pesado.
Compreendi que de fato eu renunciava a construir uma
família. O caminho que se impunha para mim requeria colocar
minha vida privada num plano secundário, meu projeto
comprometia-me publicamente servir a uma comunidade.
Revelação da Cidade Eterna
Roma! Roma? Roma... Eu não tinha senão este nome na boca
e na cabeça no percurso da viagem; eu o repeti, como que
fosse para tornar este nome real, realizá-lo impregnando-me
dele, como fazem os monges tibetanos com seu mantra, da
força, sentido e ressonância que este nome traz. Roma: a
cidade eterna, a cidade de São Pedro, a Santa Capela, a
morada de São Pedro. Lembrei-me das palavras do
Monsenhor Lorscheider: “Lá encontrará as pessoas que
responderão às suas questões e lhe ajudarão a encontrar seu
caminho espiritual e a forma de seu engajamento neste
mundo”.
Foi a primeira vez que eu tomei um avião. A primeira vez que
me separei da família e que eu saía do Nordeste. Porém, eu
não tinha apreensões: estava todo excitado, impaciente para
viver uma experiência extraordinária; tão esperada. Com
efeito, esperei muito desta viagem. Curiosamente eu me dei
conta, através de conversas que precederam minha partida, de
que eu não tinha a impressão de estar a ponto de tomar o voo
para a Europa, mas somente o sentimento de ir para Roma,
lugar tornado familiar, não obstante desconhecido. Os fatos,
as imagens, os livros deste lugar não são a sua realidade.
Refleti sobre o fato que peregrinagem, na língua portuguesa,
quer dizer romaria. Constatei que o meu projeto era mesmo
de efetuar uma peregrinação, uma espécie de viagem
iniciativa, as fontes da cristandade e encontrar a luz que
dissiparia as minhas dúvidas, expulsaria os rancores e
ressentimentos sentidos neste ano, em suma, apagaria os
momentos sofridos que eu vivera.
Preparei esta viagem com entusiasmo. Estudei assiduamente
a língua italiana por diferentes métodos. Consultei as revistas
de agências de viagem e os guias sobre a cidade eterna, até
decorar as descrições dos diferentes monumentos da Igreja:
notadamente, a Basílica de São Pedro, a Capela Sistina e o
Vaticano.
Cem vezes imaginei o desenrolar de minha estadia, sonhava a
noite e pensava nisso durante o dia. Assim, não era de
espantar que a realidade me parecesse tão desbotada, tão
decepcionante comparada a meus sonhos. Esta experiência me
ensinou que preparar e imaginar
muito uma viagem priva-nos da surpresa, do maravilhar-se da
descoberta, nós apenas nos decepcionamos com as nossas
expectativas.
Uma multidão de familiares me acompanhou até o aeroporto:
choros, abraços, últimas recomendações. Neste momento, eu
pude verdadeiramente medir a importância de minha família,
que me aparece calorosa, gigantesca, inumerável no momento
de me encontrar só.
No avião, não cheguei a fechar os olhos, passei meu tempo
entre meu livro de assimilação da língua italiana e a
lembrança comovente dos últimos instantes antes do
embarque, que me fixou no espírito.
Foi em um nevoeiro interior, mas também hibernal, que
descobri uma Roma fria, chuvosa, cinzenta. Em todo o trajeto
que me levou do aeroporto Leonardo da Vinci ao Seminário
Pio Brasileiro, via Aurélia, eu não cheguei a acreditar que era
mesmo aquela Roma de minhas leituras e de minha
imaginação. A visão longínqua do que parecia ser um
merengue gelado, erigido em homenagem de glória a Victor
Emmanuel, que os Romanos denominam “a máquina de
escrever” e da cúpula em forma de mitra da Basílica São
Pedro me assegurou, em meu coração a garantia, de que eu
havia mesmo chegado.
Instalei-me, comprei vestimentas de lá, bem quentes, e
comecei os procedimentos para a minha inscrição em
Psiquiatria e terminar minha formação teológica. Uma
primeira decepção me esperava: era para mim impossível
seguir um ensinamento teórico ou prático em psiquiatria pelo
fato da desorganização total do sistema. A lei italiana estava
com efeito da decretação do fechamento dos hospitais
públicos, sob a ação do movimento da antipsiquiatria ou d a
psiquiatria democrática dirigida pelo professor Basaglia de
Triestre. Esta revolução, que obteve em um primeiro
momento o aspecto de um desafio, levando a uma desordem
sem nome em toda a península, traduziu para mim na
impossibilidade de fazer a minha especialidade. Decidi então
consagrar todo o meu tempo e energia ao ensinamento
proposto pela Igreja e escolhi me inscrever na Universidade
São Tomás de Aquino, considerada mais aberta e menos
dogmática que a Universidade Gregoriana. Assisti a todos os
seminários. Desejava participar de todas as grandes
discussões, descobrir as contradições, desvendar o sentido
escondido das coisas. Meu objetivo não era mais
“incorporar”, como se diz no Brasil, as verdades, mas melhor
reter o processo de liberação, aprender a pensar, a refletir, a
despertar minha consciência para melhor servir, em meu
retorno, às pessoas do Sertão.
Paralelamente, visitei Roma em todos os sentidos. Amei esta
cidade, amei passear nas bordas do Tibre ao longo do castelo
Santo Ângelo e andar da praça do tribunal até a ponte Cavour.
Perder-me no meio das instalações do mercado Campo dei
Fiori. Ou perambular ao acaso nas ruelas para me extasiar
ainda mais uma vez, (eu, que sou nativo de uma região de
seca) diante das inumeráveis fontes ou me sentar para
escrever no terraço de um café na Piazza Novana ou Vila
Medicis. Algumas vezes eu partia para seguir as mensagens
do passado, através dos lugares, das pedras, das obras de arte,
esperava impregnar-me da experiência ou do sentido exalado
por estes traços deixados pela fé dos homens.
Na realidade, esta curiosidade turístico-espiritual me
engendrava cada vez um sentimento de contrariedade de
revolta crescente. Eu ficava chocado ao encontrar no Vaticano
os padres turísticos que exerciam o ofício de guias para obter
as dádivas, pensar que nós tínhamos necessidade de
sacerdotes no terceiro mundo para ajudar os pobres, e,
encontrava aqui, em um país rico, em vias de ganhar ou antes
de perder suas vidas deste modo. Quando não se é estendendo
a mão, mendigando - não temos medo das palavras -, para
exercer as vocações sacerdotais. Este espetáculo enervava -me
e me escandalizava.
Visitando o Coliseu, não cheguei a sentir a presença, a
lembrança do martírio dos primeiros cristãos, como também a
visita ao santuário de Maria Goretti deixou-me indiferente,
incomodado. Constatei que a evocação da vida desta santa
servia para reviver o comércio, às custas da radiação
espiritual, deste ser excepcional.
A Pietá de Miguelangelo, representando Jesus nos braços de
Maria, que parecia ter a mesma idade dele, deixou-me
estupefato com uma impressão penosa da ambiguidade
inadequada.
Mas foi, sobretudo, na Capela Sistina, ante o fresco
desenhando o último julgamento que representou a emoção
mais intensa e o momento mais determinante de minhas
descobertas. Eu fiquei muito impressionado e profundamente
comovido com esta obra-prima de Miguelangelo. Levantando
a cabeça para este painel de pedras gigantesco, sentia -me
pequeno, frágil, tímido, esmagado pela beleza e a força que
se desprendia do movimento tumultuoso de corpos atléticos
desnudos, em torno da terrível figura do Cristo-juiz. Eu não
podia tirar meu olhar desta obra, fascinado, fixado, incapaz
de mover, de pensar, hipnotizado, como um coelho frente a
serpente. Foi apenas ao final de uma hora, com o pescoço
dolorido de tanto olhar o céu da capela, que comecei a
compreender, deixando meus olhos percorrerem as diferentes
partes desta obra monumental, o que ela queria representar,
minha emoção, então, longe de se dissipar, não fez senão
aumentar mudando de natureza. Senti a revolta que subia em
mim e me invadia, revelando-me a mim mesmo minha própria
visão do mundo e de salvação do homem. Sentia-me
profundamente em desacordo com a concepção maniqueista
de Miguelangelo, figurando os santos sacramentos, como os
únicos recursos de salvação para o homem, única passagem
do inferno para o céu.
Esta representação fere violentamente minha fé, no processo
de liberação acessível a todo homem, quaisquer que sejam a
sua convicção, religião, cor de pele ou origem. Senti com
cólera aquilo que já havia começado a perceber: há muitos
modos de encarar ou de interpretar o ensinamento de Cristo.
A mensagem de exclusão do “último julgamento”, afirmando
que fora da Igreja católica e romana, de seus rituais e
sacramentos, não haveria salvação, lembrava-me as exclusões
as quais eu já havia experimentado, rejeitado no interesse da
Igreja, porque pensava diferente. Na capela, antes de sair,
fechei os olhos, rezei pensando em São Francisco e em Cristo
da Basílica de Canindé e fiz a promessa de que nunca seria
soldado de um exército que excluía os outros, mesmo se o
Papa a dirigisse.
Se, em Fortaleza, eu devia dar cursos e fazer pequenos
trabalhos para pagar meus estudos, em Roma, minha bolsa
permitia-me viver confortavelmente, sem nenhuma
preocupação material isto que obtinha aqui, lá nunca havia
atingido. No seminário, tive um status particular: eu sou
médico. Com este título pude encontrar frequentemente os
bispos e os cardeais brasileiros, que vinham me pedir
conselhos sobre suas saúdes. Além disso, eu fazia parte dos
estudantes, sem ser, entretanto, verdadeiramente seminarista.
Esta situação, que me oferecia a possibilidade de frequentar
os seminaristas e também os prelados, fazia com que
descobrisse em volta de mim as contradições que me
incomodavam. A Igreja parecia insensível à dimensão
horizontal, relacional. Ela parecia se interessar apenas pelas
suas próprias ideias, seus dogmas, seus valores, privilegiando
o espiritual, a verticalidade, em detrimento do interesse pelo
outro. Muitos exemplos retinham minha atenção, entre os
quais, um exemplo que, desde a minha chegada, foi objeto de
muitas discussões. Residia em um seminário confortável, em
que apenas 80 dos 250 quartos estavam ocupados, enquanto,
mesmo face a numerosos estudantes do terceiro mundo,
tiveram que renunciar a seus estudos por falta de lugar para
os acolher em suas residências lotadas.
Outro exemplo, revelador daquilo que eu acreditava ser uma
contradição no interior da Igreja e a qual assinala que sou eu
que estou em contradição, em desacordo com a ideologia
dominante, que parece reinar no Vaticano e que nos propõe
adotar nos ensinamentos, do seminário: com um colega
brasileiro, decidimos fazer uma exposição sobre a noção de
pecado social avançada e desenvolvida por Dom Hélder
Câmara, arcebispo de Recife. Preparamos este trabalho com
entusiasmo, citando os inúmeros textos e terminando a
exposição com extratos do credo escrito por Dom Hélder:
“Creio em Deus, que é pai de todos os homens... Não creio no
direito do mais forte, na linguagem das armas, no poder dos
poderosos.
Não creio que a guerra e a fome sejam inevitáveis... que todo
o sofrimento seja em vão... que o sonho do homem permaneça
um sonho e que a morte seja o fim. Mas, eu ouso crer no sonho
do próprio Deus: um novo céu, uma nova terra onde a justiça
reinará”.
No final da exposição, recebemos uma verdadeira ducha fria.
As críticas e posições defensivas choviam de todos os lados:
“É preciso saber separar religião de política, atenção às
despistas, aos desvios, às manipulações, às recuperações
marxistas, atenção para não confundir o espiritual co m o
social...”.
Porém, todos os bispos que eu tive ocasião de encontrar e que
trabalhavam no Vaticano só falavam de política ou de
negócios, mas para lá, tratava-se dos interesses da Santa Sé e
não questões sobre os miseráveis.
Eu me dei conta, após esta experiência sancionada por uma
nota baixa, de que eu estava cada vez mais deslocado nos
debates e “grandes discussões” das quais eu participava.
Encontrei-me, como Monsenhor Lorsheider me havia
previsto, com numerosas preladas e teólogos reputados. Mas,
em vez de encontrar a luz, a claridade, a paz no coração e
espírito, eu estava cada vez mais perturbado. Os discursos
eram brilhantes, todos os conferencistas davam provas de
inteligência e sutileza: fiquei ainda mais admirado com o
vazio que sentia. Não obtinha nenhuma resposta às minhas
interrogações: as grandes ideias enunciadas, o estudo dos
dogmas e dos valores espirituais não avançavam em nada. Eu
não via o que isto tudo poderia me ajudar para o trabalho que
me esperava no Brasil.
Tive uma impressão de irrealidade, tratava com os religiosos
de sangue frio. Percebia seus gestos, seus modos de falar
desencarnados. Seus propósitos sem alma, sem vida, seus
pensamentos sem ligações concretas com o cotidiano, sem
relações com a condição humana. A questão era apenas salvar
as almas, sem levar em conta suas misérias materiais. Seus
sofrimentos morais ou físicos.
Estes fatos me fizeram lembrar das longas filas de peregrinos
levando os ex-votos para a casa dos milagres de Canindé, a
fim de que Deus, por intermédio de São Francisco, curasse
tanto os seus corpos como as suas almas.
Pode-se facilmente ler nestas palavras o relevo de minha
decepção!
Abrigava estas ideias sombrias, subindo a via Vitorio Veneto.
O dia estava bonito neste início da primavera. O ar doce
vibrante e a luz tão característica de Roma faziam brilhar
ainda mais a beleza e a riqueza da cidade. Atravessei a Piazza
del Brasile e continuei com os meus pensamentos nas
alamedas da Villa Borghese. Parei. Era-me impossível, nesta
cidade, formar-me em Psiquiatria. O ensinamento religioso e
teológico por mais brilhante que fosse não respondia às
minhas expectativas mais concretas, mais pragmáticas.
Lembrava-me em vários momentos de meu professor de
teologia moral que me havia mostrado a função construtiva do
pecado, que, nos dando a consciência de sair do bom caminho,
nos fazia lembrar o sentido e o interesse deste caminho. Da
mesma maneira que se diz classicamente que o pecado separa
o homem de Deus, eu me dei conta de que estava em pecado
comigo mesmo, e que progressivamente eu me afastava de
meu projeto: formar-me, aprender as técnicas para ser capaz
de ajudar meu povo como médico, psiquiatra e, quem sabe,
talvez como sacerdote.
Agora, eu sabia entreter-me nas noites, apreciar uma boa
refeição, escolher um cigarro, degustar um vinho com boas
maneiras. Aprendi o idioma italiano, mas nada fez melhorar a
forma de me expressar, para me fazer compreender junto às
pessoas do Nordeste. Em que esta formação da burguesia iria
me servir para o meu retorno ao meu país? Sentia-me em
desacordo comigo mesmo, minha chama se apagava; abafada.
Sentia-me cada vez menos criativo, não sabia o que escrever
para a minha família. Esta vida confortável parecia-me vazia.
Sentei-me embaixo de uma grande árvore, encostei-me nela.
Este contato me tranquilizou e me ajudou a sentir minhas
próprias raízes, a exigência de minha fé, de meu engajamento.
Devia liberar-me do impasse no qual eu havia perdido de
vista. Decidi então pôr um término em minha experiência
romana, qualquer que fosse o custo. Isto significava,
explicou-me o monsenhor Lorscheider, renunciar à bolsa, pois
era impossível transferi-la para que pudesse estudar em outro
país.
Vendo-me resoluto, meu protetor, para não dizer meu
mecenas, me propôs trabalhar como psiquiatra residente em
uma clínica na Alemanha, mantida por uma comunidade
franciscana, dirigida por uma de suas primas.
“Esta experiência, disse-me é como uma pedra de três toques:
você teria tempo para refletir; aprendera no próprio terreno os
rudimentos da Psiquiatria e poderá guardar um pouco de
dinheiro para ir a Lyon, seguir os estudos de Teologia e se
formar em Psiquiatria.
Na semana seguinte, cheguei na Clínica Santo Antônio Haus,
em Waldbreitbach, situada na floresta, perto de Coblence.
Esta casa de saúde encontra-se em um lugar que me fazia
pensar na ideia de que tinha do paraíso, quando era pequeno.
Estávamos arrodeados de prados verdes, foscos, com as vacas
bem gordas, os chalés floridos, espalhados no horizonte, os
rios, riachos e as florestas de pinheiros verdes a perder de
vista. Eu nunca havia visto os pinos, apenas com Papai Noel,
nas imagens de livros. Não faltava quase nada senão as renas
e um trenó cheio de presentes para completar o quadro.
Assisti às sessões terapêuticas de uma psiquiatra chilena, na
qual eu me comunicava em “portunhol”. Cuidávamos de
cinquentenas de mulheres, vindas de todas as regiões do
mundo e apresentavam todas as espécies de perturbações
psíquicas; no final de dois meses, a saudade pesou -me
fortemente no peito, a melancolia enchia-me a cabeça.
O que me faltava? O calor humano, os contatos corporais, os
risos, as brincadeiras, a ternura. Meu coração fechou -se. Tudo
parecia igualmente sério, frio. Eu tinha necessidade de
expressar amor, afeto. Eu me senti mal. Tive a oportunidade
de colocar um fim a esta falta. Desejava sair, ir para Colonha,
encontrar artificialmente os brasileiros nessa grande cidade.
Mas antes de fugir desta prova de solidão que se impunha,
decidi superar o desafio, aceitando o isolamento, a
consciência íntima de mim mesmo, o diálogo interior
prolongado. Foi a primeira vez em que eu me senti só, sem
ligações nem contato afetivos. Filho de uma família
numerosa, Cresci e estudei em coletividade. Havia sempre
considerado os raros momentos em que me encontrava só, na
prece, no retiro, como um luxo, uma recompensa, espécie de
porto de paz, que me possibilitava respirar, me posicionar, me
reencontrar.
Agora, fora do contexto familiar, arrodeado por pessoas que
falavam outra língua, originárias de uma outra cultura, eu
tinha tempo para mim. Eu que tivera sempre impressão de
fazer falta, a solidão de súbito, não me pareceu ser mais um
presente, uma felicidade furtiva que se rouba do tempo
coletivo.
Evidentemente, o fato de ficar só fazia-me revisitar todas as
minhas relações passadas, minhas escolhas, minhas
necessidades, meus desejos, meus projetos. Eu tentei
reencontrar as lembranças felizes e os aspectos positivos de
minha história. Preguei, acima de meu leito, uma dezena de
fotos que eu tive a boa ideia de trazer comigo.
Espantei-me com a minha imagem que achei pouco mudada
com o tempo: eu havia envelhecido, no íntimo, crescido;
evidentemente eu havia mudado, mas minha aparência
exterior, meu envelope, não parecia ter mudado. Mantive esta
cabeça redonda do pequeno seminarista de batina. A foto
estava fixada em uma moldura no meio de seus camaradas,
com as pequenas maçãs de rosto altas sobre as quais apoi avam
os óculos espessos de míope; a pele cobreada, herança de
meus ascendentes indígenas, os cabelos sempre finos, negros
e ralos no alto da cabeça achatada. Lembrei-me de que meu
avô “o brincalhão” alegrava-se em dizer que os nordestinos
tinham a cabeça chata porque, desde bem pequenos, todas as
pessoas lhes repetiam batendo-lhe na cabeça: “Pobre
pequeno, quando você crescer, precisará partir para o Sul,
trabalhar em São Paulo”.
Escrevia muito para a minha família e meus amigos, para
todos aqueles que me faltavam, procurando assim verificar a
solidez e a qualidade das ligações que nos uniam. Enviei
mesmo, com um momento de dúvida, uma carta para
Angélica. Eu me familiarizava com dificuldade e certa
angústia com períodos de falsa tranquilidade a este novo
modo de vida.
Era preciso muitas semanas para poder apreciar o ritmo mais
lento, o estilo aparentemente mais passivo, o repouso, sem
procurar enganar o tédio, para concluir o que havia
programado. Retornar aos tempos que eu não via mais como
tempos mortos, vazios, quiméricos, mas como tempos livres,
disponíveis. Não relutava mais com as longas discussões
necessárias para desmanchar os conflitos, resolver as
contradições, ter sucesso nas negociações entre as diferentes
partes de mim mesmo; necessidades e desejos precisavam
estar em acordo.
Eu havia me dado conta de que aprendi a viver, sem nunca até
então ter sido solitário. Disse a mim mesmo que os dois
momentos essenciais da existência, o nascimento e a morte,
são vividos a sós. Tudo o que se passa entre estes momentos
é efêmero e imprevisível. Não pude deixar de considerar o
meu projeto de ser um homem público a serviço de meu povo,
o que me fez romper o noivado, como uma ambição
orgulhosa, pretensiosa. Porém, este desejo não me deixou: de
fato foi este desejo que organizou as minhas escolhas, minha
maneira de viver, meu itinerário.
Tomei consciência de ser constituído de um fio de esperança.
Sem muito perceber, estabeleci uma ética pessoal nas relações
com o mundo e as pessoas, que visava preservar minha
liberdade de palavras e ações. Eu me sinto ligado às pessoas
ou a certas instituições, mas nunca fiquei constrangido ou
obrigado em relação a elas. Assim, organizei a minha vida
sem depender dos outros. Isto não significa que eu recuse
aquilo que os outros podem me trazer ou oferecer, mas não
nutri o sentimento de que alguém estivesse a meu serviço. Eu
nada fiz sem que tivesse os meios próprios de fazê-lo. Não
devo nada a ninguém. Tenho como princípio não contrair
nenhuma dívida, nem qualquer dever do engajamen to ou
dependência.
Desconfiei dos modelos, das teorias, dos dogmas que
rompiam a imaginação, a criatividade, em vez de os
liberarem, fechados neles mesmos, os quais os aderiam,
excluindo os outros.
Todas estas reflexões que iriam iluminar o meu futuro, tudo
isto parecia desiludir a profissão de fé de um velho rapaz
misantropo, libertário e egoísta querendo de maneira ávida
sua independência, sua pequena vida solitária e tranquila. Mas
isto resultava em esquecer o objetivo: servir uma comunidade
participando e a incorporando para seguir meu processo de
liberação, agindo como instrumento de transformação.
As semanas passavam seguindo o seu curso rotineiro:
trabalhava entre 8h e l6h30, seguido de passeios silenciosos,
repletos de sonhos e meditações. No final da tarde, recebia a
visita de meu colega e amigo Mourão, com o qual eu fizera
meus estudos em Medicina. Ele vinha acompanhado de sua
mulher e de seu filho, meu afilhado de seis meses que eu vi
pela primeira vez. Sua vinda me tirou do torpor de meu
pequeno mundo pseudo-eremita. Dei-me conta de que não
havia tido tempo para visitar o país. Eu os levei a um lugar
maravilhoso para passarmos o fim de semana. Estava muito
feliz por reencontrar o meu amigo que modificou e conturbou
meus hábitos, a regularidade de minha vida. Era o tempo de
eu descer ao convívio entre os homens, eu, que vivia recluso,
cercado apenas por mulheres.
A presença amiga de Mourão e sua família despertaram a
minha necessidade de ter contatos corporais calorosos e
lúdicos que agora obtinha para preencher a lacuna destes
últimos meses. Percebi que lhe dava muitas vezes vigorosos
abraços, batia-lhe fraternalmente em suas mãos e colocava o
meu braço em torno de seu ombro para lhe falar. Domingo,
durante o nosso passeio, duas cenas, uma após a outra, nos
provocaram acessos de risos que retornavam, reativados pela
incompreensão e olhares interrogativos das pessoas presentes.
Nas margens de um belo lago, nós nos aproximamos
intrigados com a atitude de um grupo de idosos que jogavam
pedaços de pão na água. Vimos que era para alimentar
enormes carpas, caímos na risada enquanto eles nos olhavam
estupefatos.
Caímos, novamente, na risada quando fomos surpreendidos na
praça de Waldbreitbach com a cena de crianças jogando
migalhas de pão para gordos pombos.
Para nós, brasileiros, terceiros mundistas, isto era o mundo ao
inverso. Mourão, hilário, zombava: “Eu lhe vi salivar, grande
guloso, você já via a carpa bem grelhada, uma delícia de peixe
no seu prato e os pombos como uma galinha ao molho pardo”.
Da Psiquiatria à Cultura Brasileira
Mudança de cenário! Lyon, o Rhône, uma grande cidade.
Vivia o prazer de falar francês, enfim os recursos para a minha
formação.
Fui aceito como interno no departamento de psiquiatria, com
verba da categoria de estrangeiro. Eu não teria, portanto,
preocupação com dinheiro. Por acaso, tive a sorte de me
encontrar junto a um grupo de seminaristas e de educadores
apaixonados pela Teologia da Libertação e de residir ao lado
das moradias universitárias dos seminaristas e estudante s
vindos do terceiro mundo, ou de regiões onde os povos viviam
na miséria, guerra ou opressão: palestinos, libaneses,
indianos, do Malgaches, que, como eu, estavam de passagem
antes de retornarem para seus países.
Estes contatos me fizeram aprender muito. Aprendi a escutar,
compreender e aceitar a riqueza de nossas diferenças, a amar
e acreditar no futuro, “a esperança é um risco a se correr, ela
é mesmo o risco dos riscos”, conforme escrevera Bernanos.
Eu estava lendo este autor naquele momento ao mesmo te mpo
em que lia os textos de Leonardo Boff.
Em uma manhã, durante a refeição matinal, eu vi Max chegar
afobado, com as mãos sujas de graxa. Max era um estudante
de Madagascar, apreciado por todos devido a sua gentileza,
sua disponibilidade para ajudar e seus dons para os serviços
de mecânica. Estava sempre pronto para consertar ou reparar
os velhos carros dos colegas. Naquele dia era ele que tinha
necessidade de ajuda: seu carro havia quebrado, e já estava
atrasado para um importante exame que se realizaria do outro
lado de Lyon, precisava da ajuda de braços para empurrar o
seu velho carro. Fomos ver o seu carro, mas naquele instante
o sino da capela tocou, soando a hora da prece da manhã. Os
seminaristas pararam embaraçados e pediram desculpas para
Max dizendo que não poderiam ajudá-lo porque precisavam
retornar para irem a prece. Encontrei-me sozinho para
empurrar a velha carroça. Fiquei revoltado com a atitude de
meus colegas. E, para demonstrar o meu protesto contra esta
maneira de viver, um engajamento na fé, durante três dias,
recusei participar com eles das preces. Eles disseram que
estavam espantados com a minha atitude. Não compreendiam
a minha ausência da partilha eucarística. A reação deles me
obrigou a reconhecer a distância que me separa de uma
espiritualidade desencarnada, afastada da realidade e fez com
que me opusesse a isso. Perguntei a eles: “O que é uma
prece?”. Aparentemente a minha questão deixou -os
perturbados e a minha resposta ainda mais; “Não é um ato de
amor, união, que reforça a aliança com Deus, para se colocar
a serviço do outro? Então o que significa dar as costas a um
amigo em dificuldade para ir rezar? O apelo dos sinos seria
maior do que aquele dos homens?”
Descobri com paixão a Psiquiatria e me dei conta de que a
riqueza e a facilidade material não protegem as pessoas contra
a loucura, mesmo sabendo que a miséria possa, de outro lado,
favorecer a sua eclosão ou ser um componente para o
desequilíbrio psíquico. Aprendi com entusiasmo os diferentes
modos de tratamento. Foi uma alegria verificar ser possível
ajudar verdadeiramente as pessoas quando estas estão em
plena confusão, angústia, presos de alucinações apavorantes.
Que satisfação descobrir os tratamentos que aliviam seus
sofrimentos e lhes permite encontrar um sentido à sua
existência; o prazer de viver.
Estando interno no hospital de Vinatier, participei dos
seminários de estudos de casos clínicos e de leitura de textos
organizados pelo professor Guyotat e sua equipe.
Como muitos de meus colegas, fiquei fascinado pela
abordagem psicanalítica, mas meu entusiasmo durou pouco.
A beleza das construções teóricas, a finura das interpretações,
as explicações brilhantes, lembraram-me logo de minha
experiência romana. Eu não compreendia como o paciente
poderia se beneficiar, no final das contas, com os efeitos de
sentidos dados pelo médico às suas perturbações em função
de suas histórias.
Parecia-me que, em seus encontros de sábios, o paciente
servia apenas de pretexto para elaboração de afiná-la à teoria.
Como se este trabalho intelectual de compreensão do caso
pudesse trazer riqueza, apenas para os curadores. Outra vez,
sentia-me frustrado pela ausência do concreto, do tangível: as
ligações entre o espírito e a matéria, entre a inteligência e a
ação, pareciam muito tênues, incertas, por vezes,
improváveis.
Após algumas semanas de trabalho, uma coisa me intrigou:
um certo número de pacientes recaíam, pouco após o retorno
às suas famílias. Estas se mostravam impacientes ao
reencontrá-los.
Durante o seminário, um professor favoreceu-me a chave que
me abriu para a importância das interações entre uma pessoa
e o grupo da qual faz parte. Ele falou sobre o fato de que o
paciente não é em certos casos o que mais sofre e que o pedido
de ajuda é muitas vezes levado por um terceiro interlocutor.
Explica sobre o princípio organizador da manutenção do
equilíbrio homeostático de uma família, sobre a
responsabilidade de cada um de seus membros para este
equilíbrio e compreendido sobre o viés da doença. Fiquei
fascinado com estas propostas que destacam a importância da
família. Naquela época, sentia que as relações com a minha
família haviam sido cortadas. Lembrei-me da família de meu
pai; na questão da família nuclear ou ampla, o lugar que cada
irmão ocupava em nossa família, as dificuldades que meus
pais tiveram com o meu irmão mais novo e a função destes
transtornos na evolução da estrutura familiar.
Após este encontro, as minhas leituras de Leonardo Boff e de
outros escritores cristãos progressistas vieram a ser
acrescentadas às leituras dos pioneiros da abordagem familiar
sistêmica: George Bateson, Jay Halley, Paul Watzlawick,
Mara Selvini.
Agora sensibilizado pela dimensão do papel da família nas
perturbações referentes à Psiquiatria, até então, eu não
compreendera nada sobre as razões destas recaídas,
reconsiderei minha posição de curador, frente a Michele, uma
das minhas primeiras pacientes que cuidara e cujo número de
recaídas me desesperava.
Comecei a olhar a sua mãe de outro modo. Abandonei a
imagem caricatural da mãe do esquizofrênico que eu havia
projetado nela. Descobri uma mulher que sofre e que tem
necessidade de uma ajuda pessoal para ela mesma. Percebi
também que o pai de minha paciente ficou doente desde
quando ela começou a melhorar. Resolvi então trabalhar com
toda a, família, aventura apaixonante de que Michele e seus
pais tiraram tantos benefícios como eu próprio.
Meu interesse pela abordagem sistêmica me levou à
elaboração de minha dissertação de especialização sobre a
temática da comunicação na família do esquizofrênico, com a
intenção de continuar a minha formação de terapêutico
familiar.
Contava aproveitar ao máximo as possibilidades que me
ofereciam para refletir, aprender as técnicas, informar -me
sobre os métodos eficazes, na moda. Isto é, colocar mais
cordas em meu arco para que ajudasse a cumprir a minha
tarefa, quando retornasse ao país. Aliás, a ideia de retorno
estava presente permanentemente. Era esta ideia que
orientava as minhas escolhas, leituras e pesquisas.
Um seminário muito caro sobre as novas terapias em voga nos
Estados Unidos foi-nos proposto por um psiquiatra de
Vinatier que veio passar um ano na Califórnia. O preço caro
e o número limitado de vagas fizeram-nos pensar que “sai
mais caro a mecha que o sebo 1”. Não recuei diante da despesa
e me inscrevi com entusiasmo a estas iniciações, as novas
técnicas: gestalt terapia, bioenergia, biodança.
No primeiro dia, achei o trabalho interessante, mas, no final
da segunda semana, espantei-me ao constatar que o essencial
deste estágio consistia em se tocar, abraçar, dançar e em
seguida falar do que se passou com cada uma dessas
experiências. No Brasil, estes modos de expressão são
espontâneos, habituais, banais. Não era preciso participar de
seminários em psicoterapia para que as pessoas vivam as suas
emoções, alegrias, medos, cóleras, ternura ou fraternidade.
Compreendi que este estilo de iniciação era o sintoma de uma
sociedade doente, que perdeu o sentido de tocar, de sentir o
calor humano, que esqueceu o prazer de cantar, dançar,
festejar.
Eu vim para o velho continente para aprender as técnicas mais
modernas e agora me dei conta do que estava em voga
remetiam as maneiras de ser que eram naturais em meu país.
Assim, nós somos ricos naquilo que os países ocidentais são

1 N.T.:Expressão da língua francesa para designar que não vale a pena tanto custo para pouca
coisa.
pobres e vice-versa. Percebi, então o perigo de que estes usos
e costumes, maneiras de ser e de viver nas relações sociais,
venham a se perder sob golpes de bastão, sob a ideia de
progresso que rejeita a tradição e exclui o homem de sua
historicidade.
Mas que coisa! Foi preciso partir para longe da minha casa,
atravessar o oceano, para descobrir a riqueza de meu país,
seus valores culturais desconhecidos. Estas reflexões
remeteram-me a lembrança de uma fábula que ouvira quando
era criança, da boca de um velho contador do Sertão que meu
pai convidava para o nosso maior prazer, em certas noites de
lua cheia. Esta fábula conta a história de um homem chamado
José que morava em uma pequena aldeia de pescadores perto
de Fortaleza. Uma manhã, todo excitado, anuncia a seus
amigos que recebeu em sonho a mensagem de uma alma que
não pode encontrar a paz e deixar este mundo dos vivos, por
não ter conseguido transmitir aquilo que o retém na terra: uma
ideia, a necessidade de reparar uma injustiça ou de revelar o
lugar onde se escondera seu tesouro. Este último teria sido a
causa desta circunstância.
Seus amigos lhe perguntaram se o seu sonho se repetiu três
vezes em seguida, porque todo mundo sabe que só uma
mensagem transmitida três noites consecutivas vem do
espírito de um defunto.
Nosso homem, confirma e conta: “Em meus sonhos, um velho
homem me aparece, pede para que eu retorne ao Rio de
Janeiro e vá para a plataforma número 5 às 18h30. Lá a
fortuna me esperava”.
José, após ter longamente refletido e conversado com os seus
amigos, decidiu retornar ao Rio, logo que vendeu o seu
rebanho de cabras e a sua casa para poder pagar a sua viagem.
Após 15 dias de preparação, ele vai ao encontro. Em vão, a
fortuna não lhe sorri, nem de um modo nem de outro.
Desesperado, ele se dirige para as praias ao longo do cais, e,
como tinha necessidade de falar com alguém, ele se senta
perto de um pescador e lhe relata a sua triste aventura.
Escutando atentamente a história de José, o velho pescador,
que não deixava de olhar fixamente para a sua linha de pesca,
vira-se, olha surpreso e divertido e lhe abre a sua experiência
na matéria. Ele explica que também teve a visão de uma alma
pernada, que lhe pareceu três vezes em seguida, em seu sonho,
para lhe descrever o lugar em que lhe havia escondido o seu
tesouro. Tratava-se de um pequeno porto perto de Fortaleza.
Neste lugar havia uma minúscula ilha com uma grande árvore
sob a qual as cabras gostavam de repousar. O tesouro fora
escondido pelos grandes proprietários, temerosos de serem
roubados pelo justiceiro Lampião, e, encontra-se entre as
raízes da árvore. Em seguida ele declara rindo e apontando
com a sua vara de pesca, com um movimento de sacudir os
ombros, indicava que não tinha nenhum desejo de mudar a sua
vida e que também não acreditava em todas estas histórias;
mas se agrada a José ir e ver, ele ficaria encantado.
José estava estupefato pelo que ouvia: este pescador
tranquilamente vem lhe descrever o pequeno pedaço de terra
que herdara de seus pais e onde pastavam as suas cabras.
O tesouro e a riqueza, esperavam por ele, mas era preciso que
ele fizesse esta viagem, esta volta que partisse para longe para
descobri-lo.
Eu estava justamente neste estado de espírito: devia deixar o
Brasil, partir para a Europa, estudar, para me dar conta, graç as
a este desvio, que a riqueza, o sucesso de minha vida, “a
fortuna”, esperando-me em meu país, perto dos meus, o
Sertão. E esta fortuna se chama minha cultura, sincretismo
complexo que associa ao Nordeste a experiência, a história,
as crenças, as metas e lendas dos índios, dos escravos
africanos e dos colonos portugueses. Isto constitui a cultura
original que valoriza a riqueza como produto desta mistura
étnica. Cada brasileiro reivindica simbolicamente esta
riqueza; seja ele loiro de olhos azuis ou negro ébano, ambos
afirmam ter um pouco de sangue das três cores.
Esta descoberta me levou a me interessar pela antropol ogia,
etnologia, a encontrar François Laplantine e, para terminar,
por realizar o projeto após ter passado três anos em Lyon, de
ter subido a Paris como um provinciano cheio de ambições
para seguir o seminário de etnopsiquiatria de Georges
Devereux. Meu amigo Laplantine falou-me dele com paixão.
Desejava compreender as relações entre o psiquismo e a
cultura pensando particularmente nos curandeiros e nos
profetas tão numerosos no Nordeste.
Para ser admitido a participar deste seminário, do Instituto de
Altos Estudos, cada interessado é convidado a ir à casa do
mestre, para se submeter a testes projetivos e conversar com
ele. Era preciso então ser agradável, cooptado por este
professor para poder seguir seu ensinamento.
Eu bati então uma manhã na porta de Georges Devereux,
divertindo-me, mas inquieto, com este ritual pouco comum.
Ele abriu a porta e me acolheu afável e familiar, tratando -me
por “tu”. Senti, entretanto, uma certa rudeza no primeiro
contato: a palavra como o olhar é direto, preciso, sem
concessão, encontrei, entretanto, na voz quente e rouca, uma
ponta de acento estrangeiro, que, bizarramente me
tranquilizou. Eu soube previamente o que viria: o
empreendimento estava longe de ser ganho. Coloquei -lhe
meus trabalhos e projetos.
sentei-me, conforme fui convidado, diante da mesa do célebre
professor, para enfrentar a prova dos testes. Estava rodeado
por livros: os muros e mesmo o chão eram cobertos por
pequenos montes de uma espécie de estalagmite, para saber
colocá-los, isto é, aquilo, nunca acreditaria que em uma
particular simples coisa pudesse haver tantas exigências.
Reparei com curiosidade que uma série de estantes guardavam
objetos artesanais, heteróclitos, vindos, imagino, de locais
distintos. Entramos, em seguida, em uma sala ao lado; George
Devereux ofereceu-me para sentar-me na poltrona e uma
bebida enquanto que eu examinava as minhas respostas às
suas inumeráveis questões. No final de alguns minutos,
ritmado pelo barulho das folhas que me arrodeavam, ele
voltou a cabeça embranquecida pelo tempo, fixou o seu olhar
no meu e me perguntou, descontente, com um olhar
interrogativo: "Por que você quer tanto seguir o meu
seminário? Você não está de acordo comigo nem com as
minhas ideias, os testes projetivos mostram muito claramente
que você não gosta do que faço, nem de mim”.
Respondi contrariado e um pouco penalizado: “Não é o
senhor, enquanto pessoa, que me interessa, eu não o conheço,
mas li suas pesquisas, estudei seus livros e artigos, suas
ideias, a sua maneira de abordar as questões que me
interessam muito, elas me interpelam e me ajudam a refletir.
Eu vim para Paris com a finalidade de seguir seus
ensinamentos e não para que a minha cabeça e o meu corpo
armazenassem e adotassem passivamente as ideias do outro.
Em meu país existe uma noção de ‘encosto’ que significa ser
possuído, habitado pelo espírito de outro. Eu me recuso ser
‘encostado’ pelo espírito de alguém, mesmo de grandes
mestres”.
Esta resposta me surpreendeu e me colocou em uma “porta
sem saída”. Ela foi despejada de dentro de mim como
resultado de uma reflexão que vem à consciência, ao mesmo
tempo que exprime.
“Tu não serás meu aluno. Não vejo como poderia aceitar como
discípulo e dirigir o teu trabalho de pesquisa”; ele conclui,
deixando cair no chão o maço de papéis. Apesar deste
propósito, pelo menos categórico e definitivo, eu obtive
forças para importunar: “Eu peço ao senhor, somente, a
autorização para assistir aos cursos”. “De acordo. Mas você
nunca será meu discípulo e não terá o direito de apresentar
seus trabalhos durante o seminário”, declarou, aumentando o
tom.
Aliviado por ter chegado a este compromisso, estendi ao meu
interlocutor um presente, conforme o costume do Nordeste de
levar um pequeno presente a todas as pessoas que nos recebem
em casa.
Georges Devereux alegrou-se, tirou da embalagem uma
pequena escultura artesanal em madeira, representando um
“retirante”, personagem célebre do Nordeste, fugindo da s eca
e trazendo sobre um dos ombros uma trouxa na ponta de uma
vara e no outro, um papagaio. Eu lhe expliquei o que
representa esta estatueta, acrescentando que, no Brasil, o
melhor amigo do homem não é nem o cão, nem o gato, mas a
ave, especialmente o papagaio, porque é um companheiro com
quem se pode falar. Estas poucas palavras pareceram intrigar
meu hospedeiro, que, de repente, mudou de atitude, colocou -
me questões, mostrando-se muito interessado pelas
particularidades da cultura brasileira. Ele terminou por
confessar-me, com uma gargalhada, seu engano. Minha recusa
durante o teste de escrever uma pequena história que tivesse
um cão ou um gato lhe havia feito crer que houvesse uma
hostilidade de minha parte em relação a ele. De fato, este
célebre etnólogo e psicanalista havia feito uma teoria sobre os
povos e as culturas que preferem os cães, como no Ocidente,
e aqueles que apreciavam mais os gatos, como é o caso do
Oriente: o mundo era para ele dividido em dois campos. O
teste projetivo exigia uma escolha. Foi apenas através do
presente que a minha recusa teve para ele um outro sentido.
Após ter estudado Antropologia na Universidade de Lyon
durante três anos, eu tive muito prazer e interesse em seguir o
seminário deste professor, que me surpreende como
rapidamente lhe tratava por “você” e eu o chamava pelo seu
primeiro nome, como faziam naturalmente os outros, devido
a sua gentileza, simplicidade que levava à afeição e abolia as
barreiras da convenção. No final da manhã, após o seminário,
alguns de nós seguimos com ele, para os terraços de café do
Boulevard Raspail, intermináveis debates suscitados pelos
seus ensinamentos ou simplesmente para refazer o mundo.
Reconhecia-se em Georges, espontaneamente, dois traços
destacáveis em seu forte caráter, que provinha, segundo ele,
de sua origem eslava: ele era essencialmente e
apaixonadamente anticomunista e profundamente apreciador
do belo sexo. Eu aprendi muito com ele. Uma manhã, o
estudante que devia apresentar o resultado de suas pesquisas
faltou; esta situação deixou Georges colérico. Após ter
manifestado seu mau humor, perguntou se entre os assistentes
alguém seria suscetível de substituir o imprudente. Como
ninguém respondesse, pedi para Georges se ele me autorizava
a expor o estado de minha pesquisa que eu tr azia, justamente
comigo. Minha abordagem, etnopsiquiatra de discurso tratava
de um curandeiro do sertão que se dizia profeta, instrumento
de Deus em diálogo permanente com ele.
Esta apresentação provocou um rico debate e encontrei no
mestre um vivo interesse pelo trabalho. Ele, após me ter
felicitado, foi informado sobre o número de páginas de meu
manuscrito e me propôs publicá-lo no próximo número da
revista Ethno psiquiátrica. Foi com satisfação compartilhada
que a partir deste dia eu entrei no círculo fechado de seus
discípulos.
Georges Deveraux foi a primeira personagem importante que
eu encontrei. Eu me dei conta também quando tive
oportunidade de conhecer os professores: Yves Pelicier, Paul
Sivadon, Alexandre Minkowski... e outras pessoas de valor,
que possuíam como Georges, a simplicidade, humanidade e
abertura de espírito das pessoas que sabem que o importante
se encontra em tudo aquilo que lhe resta para aprender e
descobrir na vida e não no que eles já sabiam.
Em Paris, eu me formei, conforme prometera a mim mesmo
em terapia familiar. Esta experiência me fez aprender muito
sobre mim e sobre as relações no interior da minha família. A
grade de leituras completava, harmoniosamente, a abordagem
antropológica com a etnopsiquiatria, propiciando extrair as
influências e implicações sobre o equilíbrio do indivíduo, do
ambiente cultural e da cultura familiar com seus valores e suas
leis próprias. Quanto mais eu avançava em meus
conhecimentos mais eu me interessava em descobrir aquilo
que me constituía, minha identidade cultural.
Assim, em meu último semestre como interno em psiquiatria,
encontrei uma paciente que havia cuidado no hospital dia no
ano passado. Eu a recebia todos os dias em consulta. Esta
empregada do correio havia retomado seu trabalho após sete
anos de depressão grave, mediadas por tentativas de suicídio.
Após quatro meses de tratamento no hospital dia, ela havia
saído deste estado, sem que se soubesse precisamente o que
havia sido determinante para que esta paciente que eu
denominara familiarmente como “dama de lágrimas negras”,
pois deixava secar suas lágrimas misturadas com rímel,
traçando sobre as suas faces os “i” lúgubres, suspensos nas
pálpebras. Em cada consulta colocava sobre a escrivaninha
uma bolsa bordada que mal se lia a palavra tristeza.
Em minha viagem de volta, senti uma certa apreensão que ela
logo dissipou com um sorriso amigável.
“Veja”, disse ela, “estou sempre bem, e isto é em parte graças
a você”. Eu tinha de agradecê-lo, antes de sua partida para o
Brasil estendeu-me uma caixa de chocolates e prosseguiu: “Eu
vou dizer algumas coisas que podem lhe servir no decorrer de
sua carreira. O senhor sabe por que eu estou curada?”.
“Em minha opinião é porque a senhora seguiu bem. O
programa de tratamento com Anafranil e Tranxène”.
Sorrindo, ela retifica: “Durante sete anos, todos os médicos
que me atenderam prescreveram este mesmo tratamento.
Aliás, eu falhei ao lhe deter quando eu vi que o senhor também
o propôs, e depois eu disse a mim mesmo que isto não era
essencial. O que verdadeiramente ajudou-me a mudar é que
eu senti no senhor confiança, não em sua competência, porque
o senhor era jovem e modesto, mas em mim, na minha
capacidade de sair do estado em que me encontrava. O senhor
acreditou em mim e isto me ajudou a acreditar também. Eu
não posso lhe dizer como esta mensagem foi transmitida, o
que eu sei é que a sua fé em mim representou um apoio
formidável”.
Que presente! Que lição magistral! Além de satisfação egoísta
de ter sido eficaz, “a dama das lágrimas negras” levou -me ao
principal ensinamento no meu estágio na Europa acreditar no
homem, e o outro, em si mesmo é acreditar em Deus. Esta é
uma alavanca formidável, capaz de transformar o mundo com
a força do desejo, do espírito, do Espírito Santo, que cada um
traz em si.
Parti do velho continente armado de diplomas - Teologia,
Antropologia, Psiquiatria - e a cabeça repleta de lembranças,
experiências, conhecimentos. Assim, instrumentos que longe
de me fazer perder o fio de meu projeto foram colocados a
serviço do encontro com o outro. Portanto, de mim mesmo,
nesta busca de identidade que até hoje me habita e baliza o
conjunto de minhas ações.
A Incontornável Passagem por Canindé
1982
Após tantos anos de separação, a volta do filho pródigo. Que
felicidade reencontrar a doce humildade das noites
equatoriais, a música do falar brasileiro, os risos, as canções,
o sol, as praias, a feijoada, os maracujás, os abacaxis... Enfim,
tudo aquilo que, através dos sentidos, despertou minhas
lembranças e todo o meu ser, colocando-me novamente em
harmonia com o meu ambiente. Sem contar a acolhida de
minha família, minha mãe em prantos, meu pai visivelmente
muito comovido. Ele se afastou para me observar com
detalhe, reconhecer-me, reparar no que eu havia mudado,
depois, como que tranquilizado, abraçou-me de novo. Eu senti
desde os primeiros instantes que se esperava muito de mim.
Compartilhei o quarto com Airton, onde passei a noite inteira
conversando.
Durante a minha ausência, ele havia mudado muito; não era
mais o rapaz magro e tímido que eu conhecera, nem o
adolescente que desabrochava, que se colava junto a mim para
tentar descobrir em minha esteira o mundo dos adultos.
Agora estava maior do que eu, com seu rosto magro, seus
cabelos longos, suas barbas como ervas emaranhadas;
lembrava Jesus Cristo.
Tendo terminado seus estudos em direito, ele se dedicou
completamente à Associação dos Direitos do Homem e passou
a melhor parte de seu tempo na favela de Pirambu, situado nas
dunas às margens do mar. Discutimos sobre nosso futuro.
Contou-me sobre a luta cotidiana de cada indivíduo, assim
como de toda a comunidade, contra a miséria e a insegurança:
os ataques da polícia ou das milícias pagos pelos que os
promoviam, ou seja, os ricos proprietários; as redes de
traficantes; as agressões; os assassinatos; a droga; o álcool; a
prostituição; as crianças abandonadas e as famílias destruídas.
“Aqui em casa as coisas são difíceis”, confessou Airton,
“Mamãe me diz para seguir o meu coração, mas os seus olhos
dizem outra coisa, quanto a papai; ele não esconde a sua
desaprovação. Eles têm medo e eu fico triste por colocá -los
neste estado. Eu devo partir.
Felizmente, Leonardo Boff tem me visitado muitas vezes. Ele
agora não é somente um apoio essencial ajudando-me através
de suas reflexões e suas observações, como também é um
verdadeiro amigo. Entretanto, em sua última visita teve a má
ideia de confiar a mamãe que eu lhe havia mostrado o
encontro com as profundezas do inferno. Porém, o fato dele
vir me ver tranquilizou um pouco papai. Graças à sua ajuda,
acredito que possa logo deixar a casa. Ele vai logo que for
possível, enviar-me 100 dólares, necessários para comprar o
velho casebre de pescador que eu espreito há seis meses”.
Inacreditável, Leonardo Boff, o teólogo da libertação, o
homem que nutriu o meu pensamento de impaciência para
retornar ao Brasil, para participar da resistência contra a
miséria. O padre que desconsertou e fez estremecer os bispos
da América Latina, como intermediário nas assembleias
eclesiais. Os bispos reclamavam dele por se unir na ação aos
homens de todas as confissões: o marxista de batina, o
comunista disfarçado em padre como “o grande lobo mau
disfarçado em avó”. Estas eram as denominações e denúncias
de seus detratores. Este homem, então, é amigo de meu irmão
e além do mais teve a modéstia de reconhecer seus limites. A
este propósito, relatou-me Ayrton uma cena ocorrida na
favela, que perturbou Leonardo.
Os dois conversavam com uma família, bebendo Coca-Cola e
cafezinho, quando em dado momento Leonardo foi jogado em
um canto da parede, por uma velha mulher desdentada, que se
pôs a lhe acariciar o braço, a lhe tocar a barba, tremendo de
emoção com os olhos cheios de lágrimas, cochichando, com
medo de ser ouvida: “Como você é belo, tão branco, tão loiro,
tome-me em seus braços”. Depois, ante o seu embaraço, ela
levanta em sua frente o seu vestido, suplicando: “Faça -me
amor, eu lhe peço, eu tenho de tal modo necessidade de sentir
sobre o meu corpo o calor de um homem”.
“Você precisava ter visto a cara dele, quando ele se salvou e
veio se reunir a mim.” O meu irmão disse-me que ele estava
lívido e em seguida havia lhe confessado: “Eu me senti
envergonhado, triste e revoltado. Eu não queria fazer nada. Se
eu fosse um santo, teria honrado esta mulher, teria feito amor
como ela pedira”.
Assim, Airton, “meu pequeno irmão”, conduziu uma ação
com o apoio concreto de Leonardo Boff. Eu lhe invejei, mas
resisti às pressões para que o seguisse. Meu tempo ainda não
chegara.
Precisamente, antes de entrar em casa, encontrei no corredor
meu pai, que me participou da sua inquietude ante o caminho
escolhido pelo meu irmão. Este já havia sido ameaçado de
morte e muitas vezes fora agredido. “Desde que seu irmão
passou a ocupar o seu tempo na favela de Pirambu que nós
vivemos angustiados, nós somos regularmente despertados, à
noite, pelas pessoas da favela que vêm procurar Airton para
as ‘urgências’”. Enquanto, de um lado, meus pais me
pressionavam todos os dias para que eu os ajudasse a colocar
o meu irmão “no caminho certo”: instalado como advogado,
com uma posição social confortável, antes que ele fosse
conduzido a levar uma vida miserável, esfarrapado na favela,
tornando-se ainda mais miserável do que as pessoas pobres a
quem oferecia ajuda. Arriscava a sua vida, sem levar em co nta
as advertências e ameaças de morte que chegavam em casa.
De outro lado, meu irmão me exortava a seguir seus passos:
“Tenho necessidade de você em Pirambu”, dizia, “Se você
visse a miséria moral e material e o sofrimento que estas
pessoas são obrigadas a aturar, você teria menos vontade de
se tornar burguês”.
Ter estudado no estrangeiro oferece um valor mercantil aos
diplomas. Eu me dei conta disto, desde o meu retorno. Do sul
do país, chegavam-me propostas para ser professor, assim
como convites para trabalhar em ricas clínicas do Rio e São
Paulo. Eu também, a meu modo, inquietava meus pais,
recusando todas estas possibilidades. Tenho talvez a cabeça
chata, como dizia meu avô, mas não iria trabalhar em São
Paulo, como quer o ditado. Não voltei da Europa para
transformar o saber e os diplomas trazidos de lá em dinheiro
e em benefícios pessoais. Pensei, durante o percurso de toda
minha estada europeia, com saudades de tudo aquilo que eu
gostaria de fazer quando retornasse. A questão agora era:
como servir o meu povo? como conseguir isto? para qual
objetivo? com qual estatuto? Após ter estabelecido minha
identidade profissional, desejava encontrar minha identidade
cultural. Para isto eu necessitava ir a campo e realizar a
pesquisa que havia pensado durante a minha estadia na
França, sobre os sistemas de crenças e práticas médicas no
Nordeste do Brasil. No plano universitário, este trabalho se
traduzira, em 1985, pelo doutoramento do terceiro ciclo, em
Ciências Sociais. No plano humano, era o meio de encontrar
o Sertão e o Nordeste dentro de mim. Seria o meio de sentir,
viver, de novo, e, ainda com mais força, fragmentos do meu
ser que necessitara de maneira vital adormecer, durante o
tempo de minha estadia, além-mar. Seguindo, mais uma vez,
os preciosos conselhos do Cardeal Lorscheider, eu me dei
tempo, dois anos, para decidir a minha inscrição ou o meu
engajamento nos quadros da Igreja. Em todo caso, se
decidisse ser padre, não seria um padre “made in France” ou
“made in Europa”.
Esta escolha de retomar o estatuto precário de estudante
parecia-me incontornável. Eu não queria me engajar
profissionalmente por razões materiais, tanto que não sabia
ainda claramente como organizaria minha vida, minha ação.
Eu não queria pôr o carro na frente dos bois, o engajamento e
a ação antes da reflexão. Entretanto, devia reconhecer que esta
decisão não me facilitaria a vida. Eu me dei conta de que
estava longe de ter escolhido o caminho da facilidade, do
conforto material e existencial. Eu, que havia me habituado a
viver de meu trabalho, de maneira independente, sentia-me
constrangido, que agora com mais de 30 anos, vivia sem
recursos na casa de meus pais. Eu fazia por dia quatro horas
de viagem de carro, ida e volta, para Canindé, onde prosseguia
com a minha pesquisa. No final de algumas semanas, o tempo
perdido, a fadiga e o estado de minhas finanças me levaram a
ficar durante a semana em Canindé, na casa dos franciscanos,
para somente voltar a Fortaleza no final da semana. Estava
claro para mim que este trabalho de pesquisa era um pretexto:
sua realização não era um fim em si mesmo, seu desenrolar
era um meio de colocar em obras as ações, de lançar os
projetos concretos. A questão não era retardarem as minhas
pesquisas teóricas ou intelectuais. Necessitava que o espírito,
a reflexão, tivessem corpo, que meus projetos não fossem
desencarnados, mas que se inscrevessem com eficácia no
cotidiano de uma comunidade. Certamente, eu tinha em mente
os problemas da mortalidade infantil, cuja taxa era
dramaticamente alta, nesta região equatorial do Nordeste: na
metade das casas, ocorre devido à diarreia causada pela
desidratação.
Através das consultas que assisti no hospital do Canindé,
observei, certa vez, o itinerário dos pacientes, não como
médico, mas como sociólogo e antropólogo, e descobri a
imensidade das carências sanitárias. A região de Canindé
dispõe de um hospital de 200 leitos gerenciados pelos
franciscanos, onde trabalhavam quatro médicos que
encontraram apenas o hospital onde exerciam o ofício em
tempo integral. A ajuda e os cuidados de primeira urgência,
são, de fato, assegurados por 200 curadores. Esta situação
comum nas regiões rurais do Nordeste propicia um lugar
privilegiado às mulheres. Todas as famílias que chegavam ao
hospital haviam inicialmente passado por uma benzedeir a.
Lembrei-me que meus pais me haviam contado sobre as
circunstâncias nas quais seu primeiro filho recém -nascido
havia morrido. Trinta anos depois, milhares de crianças
continuavam a morrer da mesma maneira. Acreditar que o
tempo parou, que a ciência, as descobertas médicas, não
podiam ser acessíveis aos habitantes desta região recuada nos
arredores de Canindé. Esta cidade, entretanto, é considerada
a Lourdes do Brasil, recebendo mais de um milhão de
peregrinos por ano.
Decidi então ir ao encontro destas “curandeiras tradicionais”,
como se denomina em etnologia. Junto às benzedeiras,
descobri as representações culturais da doença e da cura. Tive
a impressão de retornar aos bancos da escola; eu me tornava
aluno no domínio de minha própria cultura e meus professores
eram as velhas mulheres. Eu sou doutor onde elas são
analfabetas e elas são doutoras onde eu me demonstro
ignorante.
Foi Dona dos Anjos, uma pequena índia reconhecida com 65
anos de idade, olhos claros, que me ensinou, ou melhor,
reaprendi a encarar o mundo e as relações entre as pessoas a
partir do dom que cada um tem em si mesmo. Ela me recebia
sempre com um bom chá e tapioca. Ficava lisonjeada, mas,
sobretudo, divertia-se com as visitas do doutor, que, se
espantava: “Escreve tudo o que eu digo e tudo o que eu faço”.
Sua casa, junto à colina, domina o Vale do Canindé. A sua
casa é um pequeno cubo de pedras de alvenaria, coberta com
uma telha ondulada, cercada por horta fechada com uma
mureta; ao longo desta, cresciam as sementes do “peão roxo”,
planta que protege contra o mal olhado. Dona dos Anjos
acolhe gratuitamente todos aqueles que precisam dela, em
uma única peça de sua moradia, mobiliada com uma esteira,
três cadeiras remendadas e uma mesa de fórmica. Na casa
havia, ao canto, perto de uma única janela, invadida até meia
altura do muro, as trepadeiras do jardim; acima, sobre uma
estante pregada na parede, um minúsculo altar coberto com
uma toalha branca bordada com fios de botões de ouro.
Neste altar, encontravam-se uma vela branca acesa, um copo
de água, um crucifixo de madeira encostado no muro e
cercado por um ramo seco de arbusto e, finalmente, pendurada
por um prego, a imagem amarelada da Virgem Maria. Diante
deste altar, Dona dos Anjos oficia e repete os seus gestos
rituais com a ajuda de folhas de arbustos colhidos em seu
jardim. Estas formas de passes mágicos são heranças de seus
ancestrais indígenas que ela efetua evocando os santos e
recitando as preces entrecortadas por encantações na língua
tupi. Ela completa a sua ajuda aconselhando aos que lhe
procuram o uso de chás ou de preparações de plantas, cascas
ou ervas.
O que aprendi com a Dona dos Anjos e seus colegas me
desconsertou. O ensinamento dos curandeiros, dirigido para
pessoas, na maioria iletradas, não está contido em seus
discursos; mas em suas práticas. Uma parte importante
daquilo que havia aprendido na Universidade foi colocado em
causa. Os curadores não pediam dinheiro, tudo mais
aceitavam, agradecendo pelos doces ou bombons. Os
tratamentos para a cura são então gratuitos. A disponibilidade
deles e também o seu sentimento de responsabilidade frente a
tudo aquilo que se passa na comunidade são integrais. Além
disto, não é preciso fazer uma enunciação clara do pedido para
receber a ajuda esperada. O fato de ter ido vê-los é em si
mesmo suficiente. Assim, as noções clássicas que eu havia
aprendido referentes a dinheiro, o pagamento do ato, o
trabalho, o tempo de trabalho, a disponibilidade, a
benevolência, a neutralidade ou implicações afetivas frente à
vida cotidiana da comunidade, o pedido formulado
precedendo a toda oferta ou ato de tratamento, todos estes
princípios foram fortemente questionados. Isto me levou a
interrogar se os estudos, a educação, não serviriam para
afastar o homem de sua cultura. Eles servem para conformar
ou salvaguardar um poder? uma posição social? Envergonhei -
me por ter tantas medalhas universitárias e me sentir incapaz
de exercer um papel social efetivo na comunidade, como
tinham estas mulheres.
As nossas pesquisas nos mostraram que as famílias após
consultarem uma benzedeira, sobre diarreia de seu bebê, se
não houver melhoras, esperam em média quatro dias antes de
irem a um hospital com o seu bebê eles só vão em um estado
de desespero.
O hiato que existe entre as medicinas científicas, hospitalares,
sofisticadas, e as necessidades cotidianas de uma população
às quais as benzedeiras tentam responder através de um
trabalho ritual cotidiano e gratuito é da mesma ordem que o
hiato que se pode observar ao nível religioso, entre uma
espiritualidade desencarnada e uma religiosidade popular e
material. Assim como o hiato que existe entre Jesus, filho de
Deus, ao qual o clero se refere para salvar as almas dos
pecadores e São Francisco das Chagas, espécie de duplo de
Cristo que o povo vem ver, trazendo oferendas ou os ex-votos,
para obter aquilo que lhe falta para viver: a saúde, uma
moradia, um trabalho.
Tenho a impressão de que se tratam de dois universos
completamente estranhos, desconhecidos, separados. Há um
mundo entre eles, aquele do sofrimento, da indiferença, dos
preconceitos, ignorância.
Como não se revoltar, não passar para a ação?
Em um país onde as separações de níveis sociais são
dramáticas, a ausência da dimensão social em um curso
universitário faz com que o diploma de médico permita que o
indivíduo se ocupe consigo mesmo: dedique-se à sua família,
queira apenas enriquecer, aumentar o seu patrimônio para
transmitir aos seus herdeiros, sem que tenha de se colocar
problemas de consciência. Graças à dupla legitimação do
diploma e da função de auxiliar o outro, era preciso achar
normal que a miséria e o sofrimento de uns sejam a causa da
riqueza e da glória dos outros.
Da mesma forma, a Igreja brasileira, como a sua irmã mais
velha, a irmã romana, parecem insensíveis à miséria dos fiéis.
O povo vai mal, mas aqueles que os governam vivem na
opulência. Os lugares de culto são luxuosos, cobertos de ouro
e de esplêndidas decorações, enquanto os fiéis habitam em
casebres ou barrocas.
Ante esta constatação, eu fiz o voto de reunir as pessoas de
boa vontade, para conjugar esforços e energias em torno de
projetos precisos, ações concretas. Isto significa: estabelecer
as ligações entre o hospital e os curandeiros, entre a igreja e
as necessidades do povo.
No final do primeiro ano, os fatos vieram modificar minha
situação e de repente oferecer mais possibilidades à ação que
eu conduzia. Meu amigo Mourão me propôs abrir com ele, em
Fortaleza, o Centro de Família, que devia reunir muitos
terapeutas desejosos de organizar um conjunto de ações
preventivas de formação e de praticar consultas individuais e
terapias familiares. Aceitei esta proposta, mas limitei minha
atividade liberal a um meio período por semana. Este tempo
seria suficiente para poder atender às minhas necessidades
materiais, deixando-me mais disponível para os meus projetos
de pesquisa — ação sobre Canindé.
A providência, ou o tempo necessário para que as coisas
amadurecessem e se colocassem no lugar, fez com que, neste
mesmo momento, a Faculdade de Medicina do Ceará, abrisse
o concurso para o posto de professor de Medicina Social.
Minha passagem prolongada na Europa, minha formação
antropológica e minha pesquisa atual designaram -me muito
naturalmente para ocupá-lo. Esta mudança de situação
modificou consideravelmente os dados do trabalho em curso.
Decidi, desde o início, enviar para pesquisa de campo os
estudantes que iriam seguir o seminário de Medicina Social;
era um modo como o outro de responder ao projeto de
preencher o hiato existente entre a Medicina moderna e a
tradição.
Minha situação financeira agora estava saneada, pus-me à
busca de um pequeno “carro”, para realizar meus numerosos
deslocamentos. Um detalhe significativo: muitos vendedores
de carros recusavam a me vender o pequeno Volkswagem
usado que eu desejava adquirir, consideravam que um médico,
além do mais professor, deveria rodar em um carro de marca
Del Rey ou Cadillac. Eu fui então obrigado a esconder a
minha identidade social para poder comprar o carro que
desejava.
O segundo ano de meu trabalho em Canindé tomou um novo
rumo. Para cada estudante de Medicina, foi confiada uma
tarefa na qual eles deveriam fazer uma dissertação. Alguns
foram encarregados de se encontrarem cada semana com as
benzedeiras para retirarem todos os casos problemáticos que
encontrassem. Estas mulheres agora são convidadas para as
reuniões regulares dentro do hospital, ao lado dos estudantes
de Medicina para seguirem o curso sobre as regras de higiene
de base e sobre as atitudes ou as prescrições simples para a
prevenção de certos distúrbios agudos. Por exemplo, diante
de um bebê em estado de desidratação aguda, consequência
de uma diarreia, elas saberiam, além do mais, fazer o
diagnóstico e prescrever, após seu ritual, um chá especial, que
compreenderia notadamente um sal de cozinha ou uma ampola
de clorato de sódio, cuja provisão era remetida para cada uma
obter efeito. Estas disposições, assim como a confiança que
progressivamente tratava-se entre o hospital, os médicos e
estas terapeutas populares fizeram com que fossem autênticas
auxiliares de saúde. Estas terapeutas se sentiam autorizadas a
encaminhar as pessoas que atendiam para o hospital, agora
que sabiam reparar os signos da desidratação precoce. Quanto
ao hospital, admitia sem reticências os pacientes que elas
enviavam.
Dada à pobreza da população e ao custo dos medicamentos, a
ideia que tínhamos, ante este fato, era favorecer a utilização
das plantas medicinais, cujos efeitos são conhecidos desde
sempre no Nordeste do Brasil. Esta ideia levou a reunir as
competências e os esforços dos conhecedores de plantas
medicinais, tradicionais, dos botânicos, farmacêuticos da
Universidade, assim como os estudantes de Medicina que
seguiam os meus ensinamentos. Este trabalho desembocou na
publicação regular do: suplemento semanal, Universidade
Aberta do cotidiano, O Povo, o France Soir do Nordeste, com
quatro páginas destacáveis, sobre medicina popular e plantas
medicinais. Uma centena destas plantas foram assim
apresentadas e estudadas sob esta forma de ensinamento
popular.
Esta informação visava a valorizar o capital cultural, junto ao
grande público. Encontrava-se na emissão de uma rádio
regional e duas rádios locais que revezavam, retomando os
mesmos dados. Progressivamente, passo a passo, trabalhamos
para a aproximação da municipalidade do hospital franciscano
e os curandeiros. Este trabalho de formiga, de intermediário,
realizado sob a cobertura da Universidade, terminou, no final
de dois anos, por trazer seus frutos: uma farmácia viva criou -
se no Hospital de Canindé.
A comunidade dos franciscanos que gerou o hospital oferece
o terreno à municipalidade. Esta última destacou dois de seus
empregados para cultivar as plantas preparadas pela
Universidade, a fim de que sua produção sirva à ação dos
curandeiros, agora reconhecidos pela sua utilidade. Graças à
formação de base fornecida pela faculdade. A realização deste
projeto levou tempo, paciência e perseverança para aproximar
as duas partes, dissipar os preconceitos, as reticências, e poder
finalizar as negociações no interesse da população.
A peregrinação a Canindé reunia 600 mil pessoas em alguns
dias, oferecia a possibilidade, com a cumplicidade das
autoridades religiosas, de realizar as ações de prevenção em
grande proporção. Organizamos, a partir do segundo ano, um
colóquio de reflexão, reunindo especialistas em Medicina
Social, antropólogos, psiquiatras e membros do clero, sobre
os temas em torno da tradição modernidade, tratamento
cultural e espiritual. Estes colóquios eram acompanhados pela
colocação de stands e de tendas de cura e prevenção onde
reuniam em um mesmo espaço: curandeiros, dentistas,
especialistas em plantas medicinais e médicos.
Durante este período, os violeiros contribuíram para fazer
passar as mensagens de educação sanitária sobre cinco temas
abordados em vista de nossas pesquisas prioritárias para a
região: as diarreias, as sarnas, os vermes, a água potável e o
futuro dos marginalizados. Estes violeiros, guitarristas, meio
trovadores, meio cancioneiros, gozavam de uma viva simpatia
e atraíam um numeroso público quando se apresentavam nas
ruas. Estas representações ocorriam há muito tempo, até a
chegada massiva das estações de rádio e da televisão, estes
violeiros eram os principais meio de informação popular
ambulante, pelas suas canções improvisadas e pelas notícias
que divulgavam sobre o mundo. Decidimos apelar para este
meio de comunicação tradicional. Esta associação entre
tradição e modernidade demonstrava ser um grande sucesso.
Um pequeno número de estudantes de Medicina encarregou -
se de “resumir” as questões. Eles lhes forneceriam todas as
informações úteis concernentes ás doenças e verificariam a
validade das mensagens difundidas pelos violeiros, pois estes
davam ao texto de suas canções o tom poético e humorístico
característico de seu estilo. Assim, podia-se ouvir cantar
sobre os sinais e riscos da diarreia que conduz à desidratação
como uma doença muito grave para o organismo, assim como
a diarreia social que seca as terras do Sertão, fazendo-a perder
a sua força viva. O refrão, repetido em coro pelo público,
destaca a importância da reidratação com sal, a única coisa
capaz de ajudar o corpo a conservar a água. Este tratamento
para o corpo social se chama reforma agrária. Apenas esta
reforma pode permitir retomar o gosto do sal da terra e manter
as forças vivas do país.
Outras canções comparam as desagregações causadas p elos
micróbios da sarna que destroem os tecidos, levando as
coceiras e aqueles causados pelos homens políticos,
corrompidos e demagógicos que destroem o corpo social. O
refrão lembra a responsabilidade que cada pessoa tem de
limpar e sanear tanto ao plano da higiene corporal como
naquele da higiene social, através do ato e de seu
engajamento.
O número impressionante de crianças que são levadas às ruas
mendigando ou abandonadas nos impulsionou a abrir durante
o período de peregrinação o ateliê que denominamo s:
“recreação pela recreação”. Cada criança se apresenta, explica
quem é, o que encontrou de bom em sua cidade e também os
problemas que nela existem. As trocas que ocorrem entre as
crianças são valorizadas, assim como todos os modos de
expressão, desenhos, modelagens, cantos e danças. Nestes
ateliês, os violeiros e os estudantes de Medicina informam
sobre as perturbações frequentes que são encontradas entre as
crianças, a maneira de prevenir ou de remediá-las. Estas
informações suscitam discussões animadas.
A enquete e as entrevistas junto aos peregrinos são
conduzidas pelos futuros médicos, no momento da
peregrinação de setembro, a fim de melhor compreender o
itinerário terapêutico das pessoas do Sertão, no qual a
peregrinação e as promessas feitas a São Francisco ocupam
um lugar que não deve ser negligenciado.
Alguns as interrogam em frente ao pátio da basílica, outros,
na casa dos milagres, onde são recebidos os melhores ex -
votos, a cada ano. Eles se propõem a examinar a história dos
peregrinos, as suas doenças, seus votos, oferendas e
promessas feitas a São Francisco. O sentido e a natureza do
ex-voto que eles talharam a evolução de suas perturbações...
Todas estas informações passam por triagem, são catalogadas
e analisadas. Elas se tornam objeto de numerosas sessões de
estudos pluridisciplinares sobre o lugar e a importância da
cultura e da fé nos processos de cura e sobre os fenômenos
dos “milagres”.
Estas questões estão certamente no centro mesmo de meus
ensinamentos. Elas se tornaram agora objeto de colóquios
internacionais que nós organizamos regularmente sobre a
situação de Canindé.
Estas numerosas manifestações e os diversos projetos
engajados nesta região, particularmente deserdada, levaram a
atenção das mídias e das instituições. As informações
circulam, os ideais se propagam. Cada vez mais as pessoas se
interessam pelo que se passa em Canindé e procuram
participar das ações que estão em decurso. Foi neste momento
que recebemos o apoio moral, financeiro e técnico de
Alexandre Minkovski, célebre professor parisiense de
pediatria e “neonatologia”. Em cada uma de suas estadias no
Brasil, dizia ter grande prazer em ir a Canindé para ensinar as
benzedeiras e aos estudantes de Medicina. Sua associação “A
Armé” tem nos trazido uma ajuda material muito preciosa.
O meu objetivo, nosso objetivo, nunca foi de nos instalarmos
em Canindé, nem de tomar o encargo do destino sanitário
desta região, mas antes oferecer os meios para que os agentes
que atuam no terreno possam ultrapassar suas divisões, seus
preconceitos, para que juntos possam encontrar soluções aos
seus problemas, respostas às suas necessidades, isto a partir
de seus próprios recursos. Está sempre presente em nosso
espírito que a responsabilidade da ação deve, no final das
contas, retornar aos próprios interessados. Certamente,
ficamos muito tocados, muito comovidos no dia da
inauguração do terreno da farmácia-viva, no momento em que
frente à imprensa e à televisão, as primeiras plantas foram
colocadas na terra. Este dia significou o sucesso de uma ação
coletiva e solidária, assim como o início de nosso progressivo
afastamento. Se no primeiro ano, 80% da dinâmica do
processo; dependia de nós, no ano seguinte poder -se-ia
estimar que a nossa responsabilidade era 50% e que terminaria
por ser mais um apoio simbólico e afetivo no final do quarto
ano. Teria uma presença limitada nos períodos das
peregrinações, momento privilegiado para a realização do
congresso anual de Canindé.
A experiência de Canindé foi para mim de uma riqueza
incrível. Foi nesta experiência que aprendi a utilizar antigos
continentes para novos conteúdos e associar os
conhecimentos ancestrais ao saber moderno. Foi aí também
que aprendi a importância vital que é para mim estar em ação.
Quando o espírito, o verbo toma forma, talhamos a matéria
quando os projetos avançam eu me sinto então vivo, em
movimento, em transformação. Uma dinâmica está a caminho:
o real alimento, o imaginário, o concreto retoma meu
pensamento, alimenta a minha reflexão. Mas logo, um novo
lugar me chama e se faz que seja engajado, exigido e
imperativo. Airton, aproveitando a abertura de minhas
consultas liberais de psiquiatria, mostra-me a problemática
complexa, que me insere, pede que eu atenda um bom número
de doentes residentes em Quatro Varas.
Trabalhando hoje neste lugar de exclusão, repenso muitas
vezes no período dos projetos de Canindé, principalmente
quando recebo na favela pessoas que antes conhecera em
Canindé.
Eu me recordo, em especial, da história de Deusdeth, que
conheci em 1990, no Canindé, durante a peregrinação.
Um dos estudantes encarregados de examinar a casa dos
milagres, no estudo sobre os ex-votos procurou-me para
ajudar o vigário franciscano, Frei Joãozinho, a resolver uma
história que lhe parecia ser a mais demente.
Um homem denominado Sebastião tendo uns 40 anos de
idade, nascido em Taperuaba, local situado a 55 km de
Canindé, desejava transportar seu irmão Deusdeth, dois anos
mais velho do que ele, em um caixão até a nova basílica de
São Francisco no momento das cerimônias da peregrinação.
Frei Joãozinho tenta dissuadi-lo mas sem sucesso.
Para compreender esta história extravagante é preciso
remontar para mais de 30 anos atrás. Estamos em 1958.
Deusdeth foi levado pelos seus pais, ao santuário de São
Francisco para fazer a sua primeira comunhão, para cumprir a
promessa que haviam feito a São Francisco, antes de seu
nascimento, se chegassem a ter filho. Deusdeth foi conduzido
ao confessionário.
O confessor, um franciscano de origem alemã, pediu para que
ele contasse seus pecados. Ante a questão: “Quais são os seus
pecados?”, colocada brutalmente pelo confessor, o jovem
garoto, de nove anos, atrapalhado, não sabia o que era um
pecado. Esta confissão irritou o franciscano, que pôs um
término a seu ofício, declarando: “Por que você quer se
confessar se não sabe o que é pecado? Você só retorna quando
souber!”. Logo que saiu da obscuridade do confessionário, o
jovem, completamente desorientado pelo que lhe aconteceu,
foi pego pela mão por uma senhora, que, o vendo perdido ao
sair do confessionário, o conduz ante o altar onde ele
receberia a comunhão. No momento em que ele recebe a
hóstia, ele levanta a cabeça e uma voz lhe acusa de cometer o
sacrilégio de ter comungado sem ter se confessado,
acrescentando que seria lançado ao fogo dos infernos. Ele
sente então seu corpo se tornar cada vez mais quente, como
se fosse queimar. Atormentado por essa sensação, ele se
levanta do banco e se precipita para cuspir a hóstia sagrada
fora do santuário, gesto que choca gravemente a assistência.
Em consequência, no decurso do tempo, Deusdeth não pode
apagar essa lembrança, nem esquecer o castigo anunciado. Ele
se casa e tem filhos. Aos 40 anos, torna-se um louco e declara
um dia desesperado: “Como de qualquer modo eu devo acabar
no inferno, portanto irei para lá em seguida, nada pode ser
pior do que esta espera”. Aparentemente influenciado pelos
espíritos, ele vai para o alto da montanha para terminar com
esta vida de espera que o tortura. É salvo graças à intervenção
in extremis dos parentes próximos.
Considerado como louco, é levado para um psiquiatra de
Sobral. Um tratamento é prescrito que ele recusa fazê -lo.
Desde então, a família vive um verdadeiro pesadelo. Ele não
pode ser deixado só: os familiares são obrigados mesmo a
confiná-lo dentro de casa, tanto é a sua determinação em
colocar termo aos seus dias. Os vizinhos amigos vêm para vê -
lo e o ajudar. Tudo é tentado para convencê-lo a ter
sentimentos mais razoáveis, mas se tem a impressão de não
haver qualquer efeito sobre ele. Um dia, entretanto, o seu
vizinho marceneiro lhe pergunta: “Você é um bom cristão e
acredita no todo poder de Deus?”. Deusdeth confirma. Com
isto, o marceneiro prossegue: “Você somente pede ao Bom
Deus para lhe perdoar pelas suas faltas?”.
Notando o sinal negativo assinalado com a cabeça, ele lhe
afirma: “Peça perdão e você será salvo”. Deusdeth segue o
conselho do vizinho. Este procedimento o abre para o
aparecimento de visões. Ele vê os anjos, o Espírito Santo e a
Virgem Maria, todos lhe dizem: “Deus lhe perdoa, mas você
deve construir um ‘mistério’, isto é, um caixão. E você deve
ser nele transportado até Canindé durante o período da
peregrinação. Só um franciscano deve abrir o ‘mistério’ para
lhe libertar e lhe receber em confissão. Assim, você se tornará
eterno".
No momento da discussão e negociação entre o seu irmão e
Frei Joãozinho, já havia feito quase um ano que Deusdeth se
preparara, deitando frequentemente no caixão, especialmente
planejado pelo seu vizinho, com numerosos pequenos buracos
na tampa para que não lhe faltasse ar quando ele fosse
transportado para o Canindé. Ouvindo esta narrativa eu extraí
os significados do ritual prescrito.
As pessoas do Nordeste falam em imagens. Quando se escuta,
vê-se. Aliás, as frases são muitas vezes pontuadas de “você
viu” para assegurar que o interlocutor segue o que foi dito.
Expliquei, então, ao vigário, que Deusdeth havia sido
assassinado ao ser expulso do confessionário e ao tomar a
hóstia quando se acreditava ainda impuro. Condenado ao
inferno, aos nove anos, ele não vive mais enquanto morto, ele
deve se apresentar para retornar à vida e ser reabilitado por
um franciscano, pois foi de um franciscano que ele teve a
desgraça e o pior castigo.
Este ritual parece o meio simbolicamente mais apropriado
para se reconciliar com os valores de sua cultura. Retornar ao
seu lugar entre os vivos e se tornar eterno. Esta é a maneira
de significar que enfim ele saiu vitorioso da morte simbólica
que o golpeou no dia de sua primeira comunhão. Este drama
de Deusdeth lembra aquele de numerosos nordestinos que
vivem do fato da seca, com um pé na cova. Após ter -me
ouvido, o franciscano aceita receber Deusdeth e sua família e
propõe que a cerimônia se desenrole a uma hora quando a
basílica fica deserta, a fim, diz ele, “de que não sejamos
atrapalhados pelos importunos”.
Dois dias mais tarde, Deusdeth dentro de seu caixão, entra na
basílica conduzido por 12 fiéis acompanhantes. Foi acolhido
por Frei Joãozinho, que o recebe em confissão após tê-lo
libertado de maneira apropriada. Após esse ocorrido,
Deusdeth pôde retomar a sua vida de agricultor e encontrar o
seu lugar no interior de sua comunidade. Ele se diz sempre
imortal. Acredito, aliás, que ele não mais retornará a esta
morte, aquela que retira um vivo de seu grupo através do
sentimento de que ele não é mais digno de fazer parte. Casou -
se pela segunda vez com uma moça de 16 anos. Ele vem
muitas vezes nos visitar, em Quatro Varas, para curtas
estadas. Uma ocasião, no ano passado, com as grandes secas,
ficou seis meses e sua cooperação nos tem sido preciosa, para
o cultivo do jardim consagrado às plantas medicinais. Com as
primeiras chuvas, partiu para a sua região, onde reencontraria
a sua família e seus velhos pais perto de Taperuaba.
Quatro Varas: da Exclusão à Inclusão. Junho de 1992
Estação de Lyon, 19 h, Jean Pierre e eu descemos prontamente
do TGV vindo de Grenoble. Correndo, nós trouxemos juntos,
cada um pegando em uma alça, minha grande sacola lotada de
objetos artesanais e de cartas postais desenhadas pelos jovens
da favela. Durante o trajeto não tínhamos descansado.
Passamos em revista os diferentes episódios de minha vida e
resultados para concluir o plano detalhado de meu livro que
devíamos escrever sobre a minha vida. No dia seguinte,
tivemos um encontro no F.P.H. com Michel Sauquet e Annick
Ollitraut Bernard para tratar sobre a realização deste livro.
Por um instante, o tempo urge. Devíamos retornar para a sala
paroquial perto de Denfert. Rochereau, onde meu irmão
Aírton e o padre Henri Le Boussicaud teriam, a partir de
19h30, uma conferência- debate, sobre a ação realizada em
Quatro Varas. No momento em que chegávamos, o Padre
Henri explicava como havia encontrado Airton pela primeira
vez.
Era 1983, eu havia passado dois meses no Brasil quando
cheguei a Fortaleza. Soube pelos jornais que estavam
ocorrendo distúrbios sérios com as forças da ordem. Estes
distúrbios estavam localizados, nas imediações da favela de
Pirambu. Tratavam-se, de famílias expulsas de seus vilarejos,
devido à seca, que tentavam se instalar. Aqueles que me
conheciam, sabiam que eu já havia permanecido seis meses
com estas pessoas. Seis meses a combater, seis meses a
construir, seis meses para amar estas famílias, seis meses para
aprender junto a Aírton, o que é a miséria e o que quer dizer
a caridade cotidiana e a ação cristã de liberação. O que era
muito divertido nesta história é que eu tive a impressão de que
me encontrava com o Abbé Pierre, durante o inverno de 1954.
Pois sentia o mesmo fervor, o mesmo entusiasmo, o mesmo
desejo, a mesma fé e solidariedade, com uma única diferença
mais de detalhe externo: a temperatura exterior, porque o
calor humano era igual.
O Padre Boussicaud levanta-se, sua voz fica mais firme, em
grande parte, por pessoas idosas e religiosas, e aponta o dedo
no ar, e como um tribuno exulta: “Deus não está lá no alto do
céu, porém se há de
esperar que ele venha descer. Deus está em cada um de nós, e
pede apenas para se exprimir para que possa se abrir como
uma flor. Despertai-vos”. Inicialmente, nos conventos, a ação
que Deus espera de nós e junto aos pobres, daqueles que
sofrem, como faz Aírton e como nós temos feito e
continuamos a fazer com o Abbé Pierre. Não é por acaso que
hoje, Ayrton, antes de construir uma comunidade de
companheiro de Emmaus, em Quatro Varas, solicitou os meus
serviços para visitar a França e a Europa e aprender a não
cometer os mesmos erros que nós.
O Padre Le Boussicaud senta-se e explica por que ele se sente
um pouco padrinho desta comunidade: era na época em que a
fábrica de couro fechou definitivamente a sua porta, para as
famílias, vindas do terreno, discórdias. Houve histórias com
as autoridades e a direção da fábrica. As violências e os
ataques perpetrados pela polícia se multiplicaram para forçar
estas famílias a esvaziar a plataforma. Aírton foi chamado,
desde o início, para defender no plano legal estes novos
habitantes da favela e obter o reconhecimento de sua
implantação. Neste momento, os residentes puseram -se a
organizar para resistir, procuraram um nome para o seu novo
bairro. Houve numerosas propostas, mas foi a minha que
recebeu a concordância de todos. Quatro Varas, que significa
“quatro bastonetes”. Esta expressão vem de uma história que
um velho homem me contou em um vilarejo do Sertão. A
história faz parte do patrimônio cultural do Nordeste e se
encontra sob formas muito semelhantes em numerosas
regiões.
Um homem sentia que a sua vida estava no fim e se
preocupava com o futuro de sua família. Reúne na cabeceira
da cama seus quatro filhos, que estavam sempre se
disputando. Ele dá uma vara para que cada um, a seu pedido,
quebre sem dificuldade. Depois o velho homem pega quatro
outras varas, reúne-os e amarra-os em seu conjunto, e propõe
a seus filhos que, um após outro, tentem rompê-los. Isto
ninguém conseguiu fazer.
“Eis aí”, termina por dizer o velho, “a única mensagem que
eu tenho para vos deixar antes de deixar esta vida: estando
unidos, ligados uns aos outros, vocês serão fortes e poderão
resistir lá; indo sozinhos não poderão fazê-lo”.
Quando eu terminei de contar esta lenda aos primeiros
residentes, a escolha do nome Quatro Varas tornou -se
evidente para todo mundo, que este nome simbolizava a força
da união e da solidariedade.
“Mas vocês não vieram aqui para me ouvir”, e, voltando-se
para Airton, estende-lhe o microfone e o apresenta como
advogado da associação dos direitos do Homem, na
comunidade Quatro Varas.
Em primeiro lugar, Airton expõe a situação econômica e
social do Brasil: a inflação e a organização injusta da
sociedade brasileira que fazem com que apenas uma minoria
de brasileiros super ricos aumentem regularmente seu
patrimônio, enquanto o número de pessoas pobres aumenta, a
ponto de atualmente somar mais de 10 milhões de brasileiros
que vivem abaixo do nível da miséria. Ele expõe, em seguida,
o caso particular do Nordeste, notadamente do Sertão,
sofrendo as ondas de secas apavorantes, levando a grandes
deslocamentos da população para o centro urbano, com o
afluxo de famílias completamente desnutridas, que vêm
aumentar as favelas das grandes cidades. Airton, continua a
exposição, contando: “Foi assim que, com as grandes secas de
1983, muitas famílias de uma mesma fazenda vieram a se
refugiar nas periferias de Fortaleza. Procurando lugar para
viverem, eles se instalaram com bagagem, mulheres e filhos
em um terreno abandonado pela inspetoria, que impede o
acesso de uma usina de couro. O terreno estava situado atrás
da primeira duna, no prolongamento da favela de Pirambu,
que na época já contava com 200 mil habitantes. Eis, portanto,
o início da história. Em seguida, outros migrantes e excluídos
de todas as espécies vieram se reunir a eles. Rapidamente, este
grupo de ‘moradores’ pediu que eu os ajudasse, sabendo que
eu já havia dado uma mão forte aos residentes de um bairro
vizinho. Estas famílias procuravam os meios de lutar para
ficarem, para não se tornarem os nômades que ninguém quer,
recusando a ideia de ver se sucederem as expulsões e
desarrumações. Era preciso defender palmo a palmo
fisicamente, mas também juridicamente, esta instalação;
resistir às pressões, às ameaças e agressões”.
Ele conta, com a sua voz doce e tranquila, sobre a violência
econômica, violência material: a questão de higiene, doenças,
epidemias, os tratamentos. A violência da insegurança: os
roubos, o alcoolismo, as drogas, a prostituição, os
rompimentos das famílias.
Enfim, a violência afetiva e moral, da perda de confiança e
autoestima, de não entrever nenhuma saída para si e nenhum
futuro digno deste nome para seus filhos:
“O importante tem sido fazer com que as autoridades políticas
e jurídicas reconheçam a existência destes homens, destas
mulheres e destas crianças, seu direito de viver em qualquer
parte, de ter um teto. Portanto, o mínimo de meios de
existência: água potável, eletricidade, esgotos, encanamentos,
escolas. Cada etapa significava uma vitória, aquel a da união
que cria a solidariedade, a fraternidade. Foi assim que, de
batalha em batalha, foi constituída a associação da
comunidade. Obtivemos, recentemente, que a municipalidade,
próximo às eleições, decida a forrar as ruelas de areia e
calçamento na favela, mudando consideravelmente a
paisagem, como também modificar a organização e o modo de
viver na comunidade. Concretamente, mas também
simbolicamente, isto criou um vínculo, um cimento entre
nossas diferentes moradias. O fato de ter verdadeiras ruas em
lugar de caminhos de duna, abriu-nos ao mundo exterior a
circulação entre as pessoas, as bicicletas, carros, caminhões.
O fato de sentir sob meus pés um solo firme deu-me um
sentimento de confiança.
De uma só vez, havia realizado o que tanto queria que fo sse
possível. Era o primeiro sinal tangível do que podia existir de
sólido, de permanente, que permitia sair do sentimento de
precariedade, insegurança de uma vida instalada sobre o
provisório, aparando-se sobre a areia. Isto introduz na
coletividade a ideia de tempo, de duração, opondo-se a uma
maneira de viver estritamente no momento presente.
Enfim, pude começar a encarar a existência da comunidade
em perspectiva, com uma história, um futuro.
Para que vocês possam compreender como as coisas se
passam na favela, vou citar um exemplo de uma luta recente
que nós travamos para fazer respeitar os direitos e a dignidade
dos favelados como pessoas íntegras.
Vocês poderão ver a importância de poder abordar os
problemas no plano comunitário, levando em conta todas as
implicações sociais, jurídicas, como também relacionais,
afetivas. Isto que nos é agora possível foi graças a ajuda
trazida pelo meu irmão Adalberto, psiquiatra, aqui presente e
seus colegas do Centro de Estudos da Família.
Uma noite, Mariazinha, uma jovem vizinha de 20 anos, veio
me procurar, transtornada e aterrorizada. Eu notei que seu
rosto estava inflamado e que seu nariz sangrava. Ela me
contou que, tendo ido dar queixa na polícia pelas atitudes de
uma vizinha, foi agredida verbalmente, depois molestada
violentamente pelos oficiais da polícia presentes, que depois
a prenderam, sem que ela soubesse os motivos. Quando eles
enfim a libertaram, a ameaçaram de matá-la, se contasse
qualquer coisa que fosse.
Imediatamente, decidimos trazer um plano de ação. No dia
seguinte, durante a sessão de terapia comunitária coordenada
por Adalberto, o problema foi evocado.
De imediato, a coragem de Mariazinha liberou as falas. As
outras pessoas da comunidade, que haviam guardado em
segredo, as mesmas humilhações policiais que haviam sido
objeto se puseram a falar. Mariazinha pôde sentir que não
estava sozinha na prova que teria de enfrentar. Ela se deu
conta de que testemunhando no momento do processo, seria
para o conjunto da comunidade que falaria. Todas as pesso as
se propuseram, em seguida, a ajudá-la a se preparar. Seis
outras pessoas decidiram a se constituir a parte civil a suas
custas. Estes atos de justiça levaram a um formidável
movimento de solidariedade. Toda a comunidade viera para
apoiar suas testemunhas e minha defesa jurídica foi para uma
sessão pública da Assembleia Legislativa, reunida
especialmente para debater as violências policiais. A
imprensa integrou-se, numerosos artigos foram publicados
sobre a atitude da polícia nos bairros pobres. Meu irmão,
professor da Universidade, fez pronunciamentos na televisão
e no rádio, para denunciar as violências e defender a
dignidade e os direitos dos miseráveis. Os policiais
finalmente foram condenados, e, durante algum tempo,
Quatro Varas encontrou uma certa tranquilidade.
Ele explicou, em seguida, os princípios, os valores que o
animavam e organizavam o seu engajamento. Falou da
libertação, da noção de pecado social, da ação cristã reunindo,
no campo das pessoas de boa vontade, qualquer que fosse a
sua confissão, uma resistência ecumênica de alguma forma, à
miséria e à decadência. Falou das ligações interdependentes
que cada indivíduo deve estabelecer para seu equilíbrio com
sua comunidade e a sua cultura.
Nosso projeto não é aquele dos missionários ou dos colo nos
vindos do Brasil para tomar o poder e trazer suas verdades,
suas crenças, sua cultura e, portanto, as suas soluções para os
problemas das populações dominadas. Mas, ao contrário, a
nossa participação consiste em colocar em evidência os
recursos e os meios com que eles próprios possam resolver os
problemas e as necessidades que se apresentam.
Acreditamos que cada indivíduo, família, comunidade, possui
em si mesmo os meios de responder às suas próprias
necessidades, recursos muitas vezes esquecidos ou
menosprezados que vêm de sua cultura, da experiência de seus
pais ou de antepassados. Estas experiências sociais e culturais
podem ser valorizadas, sobretudo, nas situações de exclusão
em que as pessoas perderam a sua identidade e o orgulho de
ser o que são”.
Guardo uma lembrança muito precisa dessa conferência, em
que Aírton definiu melhor do que eu saberia fazer o essencial
de nosso projeto. Tenho a impressão que se passou um século,
desde a primeira vez em que eu ouvi falar de Quatro Varas.
Foi justamente em meu retorno ao Brasil, Aírton nos falava
com os olhos em chamas, sua excitação e seu entusiasmo eram
tais, que a sua família e seus amigos estavam realmente com
razão por estarem preocupados por ele. Ele havia encontrado
o campo de seu compromisso e alegria.
Recordo-me dos primeiros pacientes de Quatro Varas que
comecei a atender desde que ele soube que eu havia aberto um
consultório para o Centro de Estudos da Família, junto ao
hospital universitário. Nesta época meu espírito estava
essencialmente ocupado pelos projetos de Canindé.
Entretanto, ante o afluxo dos pedidos, decidi, em acordo com
Aírton, que esperava por isto há muito tempo, ou seja, ir ao
local e encarar as modalidades de ajuda terapêutica adaptadas
às necessidades da comunidade.
De fato, todos os pacientes que encontrei apresentavam
dificuldades, distúrbios de identidade que estavam referidos à
sua condição de vida material comum, assim como as relações
que se estabeleciam entre eles no contexto particular da
favela. Assim, antes de isolar cada um com suas perturbações
e seus tratamentos individuais, a ideia que me veio,
naturalmente, foi de oferecer a estas famílias de excluídos o
meio de regular os problemas no interior da coletividade,
apelando para os seus próprios recursos.
Foi assim que eu propus coordenar a cada quinta-feira à tarde
uma sessão de terapia comunitária. A primeira ocorreu na
pequena casa da associação dos Direitos do Homem,
compreendendo uma e única sala de 15 metros quadrados
onde se apertavam umas 20 pessoas, enquanto as outras
pessoas, apesar de calar, assistiam ao acontecimento, se
amontoando nas ruelas em volta das janelas.
Fiquei um pouco inquieto ao ver como as coisas se passavam.
Certamente, eu não estava totalmente em terreno
desconhecido, havia Airton, e eu conhecia o rosto das pessoas
que vinham me ver no centro da família ou na consulta do
hospital universitário. Dona Geralda é uma pessoa muito
conhecida na favela. Ela foi uma das primeiras pessoas que se
instalaram na comunidade.
Ela se levantou pequena, toda vestida de negro. Trazia uma
expressão grave sobre sua visão, totalmente marcada pelo
tempo e as preocupações parecendo uma fruta seca. Os seus
cabelos crespos e embranquecidos estavam puxados no alto
da cabeça e presos juntos por dois grossos elásticos
vermelhos. Em seguida, tomou a palavra para falar de seu
filho Dedé. Este, sentado ao lado dela, coberto de
esparadrapo, o rosto inflamado, com gazes sobre as orelhas,
dava-lhe a aparência de um extraterrestre. Como eu não
conhecia esta senhora, ela me explicou que com a ajuda de
seus vizinhos acolheu Dedé quando ele tinha apenas três dias,
tirando-o das mãos do pai que ia jogá-lo no mar. Dedé deveria
ter 20 anos e era o rapaz mais servil do que normalmente seria.
Ontem à noite, ele entrou em casa com um ferimen to perto do
pescoço, procurando em toda casa uma grande faca de cozinha
para ir matar todos os seus agressores que o haviam ameaçado
e ferido para lhe tirarem o dinheiro. Eu me coloquei através
da porta para impedi-lo de fazer besteira, mas ele estava de
tal modo excitado, fora de si, que me empurrou e, caindo eu
fiquei acuado no canto da mesa. De repente, ele acreditou que
eu estava morta. Desesperado, derramou o querosene sobre o
seu corpo e vestimenta e acendeu um fósforo. Felizmente, os
vizinhos, atraídos pelos seus gritos, depressa cobriram-no
com cobertas apagando a tocha viva que estava se tornando
ante seus olhos. Eu tinha necessidade de ajuda, não sabia o
que fazer! Estou muito velha e muito fraca para ajudá -lo a se
tornar um homem e tenho muito medo de que ele venha a fazer
novamente coisas como esta. Dedé, escutando
a sua mãe adotiva, abaixa a cabeça e chora docemente:
“Portanto, é por ter de falar e dizer a verdade é que eu fui
tentar duas vezes a morte, eu posso confessar aquilo que eu
sempre neguei: eu uso drogas”. Vendo Dona Geralda
acabrunhada, as pessoas presentes tomaram a palavra, umas
após outras, para testemunharem a sua afeição por Dedé e
sobre a importância que ela tem para a comunidade. A gente
sempre está segura de poder contar com ela, quando se
precisa, afirma uma velha senhora. Outras pessoas
participaram das dificuldades comparáveis que eles têm ou
têm tido em sua família e os meios que eles utilizaram para
saírem da crise e seus filhos, da droga.
Uma pessoa fez notar que toda a vida de Dedé, assim como
seus comportamentos na comunidade, são marcados pelo
gesto da ajuda mútua, indispensável para a vida. Múltiplas
propostas foram dirigidas para integrar Dedé no grupo dos
jovens de sua idade. Ele recebeu inúmeros convites para jantar
ou sair na cidade. A partir destas diferentes intervenções, uma
reflexão foi conduzida sobre a importância das ligações no
interior da comunidade. Alguém propôs que, antes de se
separar, cantassem juntos um canto de fraternidade dando -se
as mãos para constituir uma corrente.
Esta primeira sessão serviria de modelo, todas as reuniões
terapêuticas comunitárias se desenrolaram da mesma maneira.
Uma “situação-problema” é mencionada por uma pessoa, uma
família ou um grupo, como os Tremembé. Cada pessoa
sentada ao ser referida por ter vivido uma situação semelhante
é chamada para se exprimir, para expor a sua experiência,
“seu saber”, que pode oferecer uma grande variedade de
soluções possíveis para o problema levantado. Em seguida,
uma reflexão é levada ao nível da comunidade sobre os meios
que ela tem para poder arcar com estas dificuldades. Enfim, a
sessão termina infalivelmente com o ritual da corrente: dando -
se as mãos ou abraçados, rezam-se e cantam todos juntos para
que cada um sinta a corrente de solidariedade e de ajuda
mútua que nos une.
Em cada reunião de quinta-feira, os problemas da comunidade
uns após outros são abordados, refletidos e tratados com os
recursos que se revelam muito mais importantes que se
poderia imaginar. Inicialmente, limitava-se a estar presente
nas sessões das quintas-feiras à tarde. Com o tempo, mais
rapidamente, eu me sentia tomado pela formidável dinâmica
criada por esta forma de reunião, pela palavra e ajuda mútua.
Assim, uma das primeiras questões por insistência da
comunidade, foi a medida de tratamento dada à questão dos
meninos de ma. Foi colocado evidentemente, o problema, de
como se organizava uma escolaridade, a abertura de creches,
a criação de asilos, em lugares que pareciam ser o fim do
mundo; de outro lado, as crianças deixadas ao abandono,
livres, passeando com canivetes no bolso para se defenderem
ou ameaçarem alguém, com propósitos de obterem um pedaço
de pão ou um par de tênis.
Com alguns colegas do Centro da Família, organizamos as
tardes de expressão educativa e pedagógica. Paralelamente, os
jovens da favela colocavam-se juntos, para aprenderem como
ensinar as crianças na idade escolar a ler e escrever.
Um certo número de jovens, filhos e filhas de alcóolicos,
encontravam-se regularmente em grandes dificuldades.
Durante as noites ou nos finais de semana, a presença de seus
pais alcoólicos e violentos impeliam-nos a deixarem suas
casas, com o risco conhecido, porque frequentemente
passavam a se drogar, se prostituir ou a se envolver em seitas
religiosas. Para estes jovens, um grupo de arteterapia foi
criado com a palavra de ordem emblemática: “a arte constrói
o que a miséria destrói.” Este recurso permitiu que uns 20
jovens desenvolvessem a sua capacidade artística e criativa.
Eles puderam exprimir, através do desenho e discussões, sua
problemática, e também progressivamente se identificar com
suas qualidades artísticas reconhecidas e valorizadas, que
viam em seus familiares antes do que, com a imagem
degradante que eles tinham de seus pais. Este grupo de jovens
conseguiu rapidamente vender os seus cartões postais que
desenharam. Viram que de repente passaram a lhes dar valores
materiais, comparáveis a seu trabalho de criação. Outros
exemplos poderiam ser citados (com o risco de entediar o
leitor): o atelier de serigrafia, o grupo de pessoas idosas, o
grupo das mulheres. Na comunicação de boca, o ouvido, a
experiência, de Quatro Varas começou a ser conhecido: o
rumor atravessou o oceano. Foi da França que recebemos os
primeiros apoios, tanto ao nível da reflexão quanto ao nível
material.
Lembramos da cadeira de solidariedade, os primeiros fios
tecidos pela “teia de aranha”. Então, em suas passagens em
Canindé, Alexandre Minkowaski veio, muitas vezes
repetidas, visitar-nos, em
Quatro Varas. Cada vez, ele partia muito impressionado pelo
que via e se mostrava muito impressionado pelo nosso
projeto. Assim, não foi surpreendente que tenha mencionado
nossa experiência ante seus alunos. Foi assim que meu colega,
o psiquiatra Michel Boussat falou de Quatro Varas, com seu
filho, segundo ouvira de Minkowski. Assim, informado de
nossa ação, Michel Boussat entrou em contato conosco e
chegou a Fortaleza. Entusiasmou-se pelo nosso projeto de
aliar tradição e modernidade, ajudando a comunidade a se
organizar, a desenvolver seus recursos, a ter confiança nela,
reforçando as ligações identificáveis de cada um com a sua
própria cultura. Para ele, que trabalhou muitos anos em Dakar
ao lado do professor Collomb, este refrão lhe trazia
lembranças. Em sua passagem seguinte a Fortaleza, ele me
convidou para participar do colóquio que organizou em
Toulon intitulado “Poder e Possessão”. Foi nesta ocasião que
eu encontrei o meu amigo Jean Pierre Boyer.
Desde os primeiros encontros, senti a corrente passar entre
nós. Simpatizamo-nos porque nós percebemos, tanto um como
outro, suficiente espontaneidade, confiança e implicações
para tornar nossas reflexões fecundas. Curiosamente, não
tivemos necessidade de passar por sofridas preliminares, estes
rituais de “pouco caso” entre colegas, visando a apreciá -lo
para depois assegurar o reconhecimento mútuo. Em conjunto,
meu trabalho encontrou nele um interesse comparável aquele
que me inspirou sua experiência clínica, com os recém -
nascidos ou sua pesquisa sobre as formas de ajuda
terapêuticas da Umbanda.
A seguir desse colóquio de 1987, Michel Boussat retorna a
Fortaleza e, levando em conta a pobreza de nossos meios,
decide oferecer, em nome da Associação de Psiquiatria Sem
Fronteiras, o montante necessário à aquisição de um terreno
situado entre a primeira e a segunda duna. Este gesto generoso
proporcionou à coletividade, um lugar comunitário a ela, um
local para se reunir.
Sobre este terreno, a sombra do cajueiro substitui o local
exíguo da Associação dos Direitos do Homem, serve como a
árvore da palavra na África (a árvore como local que reúne os
homens em sua volta), o local de reunião, os troncos dos
coqueiros dispostos em torno, dando lugar a cadeiras para os
participantes.
A partir desse momento, nós pudemos construir neste terreno
e, assim, instalar os símbolos de duração, de continuidade: a
casa das crianças, a casa da serigrafia e a casa para o grupo
de arteterapia dos jovens. Todas estas casas solicitaram
tempo, porque, evidentemente, estas casas diferentes foram
feitas em mutirão, ocasião para construir, durante o trabalho
em comum, os vínculos tão sólidos como as casas.
Pouco tempo depois, tive o prazer e também a surpresa -
porque algumas vezes os encontros de circunstâncias
terminam em trocas de endereços sem retornos - de acolher
Jean Pierre Boyer e a sua família, que, no curso de seu circuito
turístico, parou alguns dias na casa de uns amigos em
Fortaleza. Eu o levei justamente ao terreno, em Canindé, e à
favela. Ele se mostrou logo apaixonado por estas visitas,
fazendo, como tem hábito, notas, sugestões, chamando a
atenção sobre tal ou tal perigo.
Foi ele que, desde aquele momento, falou-me da F.P.H.
(Fundação para o Progresso do Homem) e, que apoiaria nos
meses seguintes, o pedido de financiamento para a pesquisa -
ação que conduzimos e que depois, ele conduziria conosco.
Eu lhe repeti muitas vezes, brincando, que era o meu porta -
felicidade. O fato é este: a partir do momento em que nós nos
encontramos, a sorte começou a sorrir e a ação, a tomar um
rumo diferente. O apoio material da Fundação para o
Progresso do Homem, as discussões e as reflexões que suscita
e a difusão que fornece, permitem multiplicar os contatos com
as equipes trabalhando na mesma direção que nós.
A experiência de Quatro Varas começou a ser conhecida no
Brasil, mas também no estrangeiro: numerosas pessoas vêm
nos visitar. Os grupos de cristãos informados pelo “telefone
árabe” interessaram-se pela nossa ação e propuseram sua
cooperação. Penso particularmente no grupo de Grenoble que,
após a visita de Christiane Fénéon, retornou embalado por
aquilo que havia visto, consegui coletar uma soma de dinheiro
importante. Desde então, estas diversas ajudas financeiras
permitiram aumentar o “patrimônio” da comunidade pela
compra do terreno adjacente àquele que já tínhamos.
Pudemos, agora, engajar na aventura da Farmácia Viva,
utilizando a experiência de Canindé, mas, desta vez, são as
pessoas da comunidade que cultivam o terreno, plantando as
ervas medicinais, depois levando-as a secar, para fazer os
xaropes ou as preparações, sob a direção de Abreu Matos,
professor da Faculdade de Farmácia que veio se reunir à nossa
ação. Nossa ideia, o espírito do projeto, é utilizar esta terra
como forma de reunir entre eles as pessoas da comunidade em
uma prática que os reatam à tradição cultural. Além de eles
reatarem com a cultura tradicional, as plantas medicinais, para
muitos rejeitados ou esquecidos, marcam como ação coletiva
para cada participante o símbolo de se enraizar. Assim como
de um respeito à vida que se ajuda a impulsionar, a crescer e
ampliar todas as formas de identificação que lhe permita
encontrar neste modelo. Cultivando esta terra comum, cada
um cultiva também a sua terra interior, redescobrindo seus
recursos, suas possibilidades, exercendo-as. Muitas destas
tarefas são confiadas às crianças. Estas são aquelas que há
pouco tempo antes roubavam na rua e que agora aprendem a
cuidar das plantas.
Vestidas com roupas novas, escritas em suas camisetas e seus
casquetes a frase “Agente de saúde criança, farmácia-viva",
vendem os produtos daquilo que é agora uma pequena
empresa comunitária.
Fomos levados a construir duas palhoças para realizar as
reuniões de diferentes grupos e a pequena construção
necessária para preparações e ou estocagem das plantas
medicinais. Na mesma época, como eu havia feito em
Canindé, pedi aos estudantes de Medicina para seguirem os
seus cursos e fazerem os seus estágios em Medicina Social
sobre o terreno, participando de maneira ativa, nas p esquisas
e ações engajadas em Quatro Varas. Tanto nos jardins de
infância como escolas, junto aos curandeiros e à farmácia -
viva.
Pouco tempo depois, os futuros sacerdotes vieram também
para a favela para a sua formação em Psicologia e Sociologia
das religiões.
Eu sou cada vez mais solicitado a participar em colóquios e
congressos nos quais as malas cheias de produções da favela
e cartões postais do grupo de arteterapia. Estas viagens me
permitem o recolhimento para a reflexão. A fim de evitar -me
fechar no “fazer” e que a ação não ultrapasse o espírito.
Todas estas mudanças se fizeram com dificuldades e
questionamentos. Muitas coisas chegam através de meu
intermédio, o que reforça a ideia de patrão, chefe, daquele que
tem poder. Numerosas responsabilidades e tarefas caem nas
minhas costas, o que arrisca muito. Nestes termos, a ir contra
o nosso projeto de liberação, inspirado em Leonardo Boff, ao
qual nós atemos mais do que nunca.
Assim, parece-me que um tipo de organização deve vir à luz
para gerar formas mais adaptadas à etapa atual de nosso
projeto.
Foi assim que surgiu nos debates comunitários a ideia de criar
um movimento integrado de saúde mental comunitária,
independente das associações da favela e do Centro de
Estudos da Família, na qual sou diretor.
Se me alegrava considerar Michel Boussat, Jean Pierre Boyer,
Christiene Fénéon e Kris Mestas como os anjos-da-guarda,
padrinhos e madrinhas ou reis magos de Quatro Varas, como
eu poderia tornar-me o pequeno patrão da favela.
Todas estas visitas, realizações, congressos e artigos que dão
conta das ações conduzidas na favela me proporcionaram uma
certa notoriedade, que se manifesta pelo afluxo de pedidos
para consultas que recuso responder, propondo-me a apenas
dois dias de meio período para essa atividade. Assim como a
proposta de fazer um programa diário de cinco minutos no
rádio e uma emissão semanal de meia hora na televisão.
Durante estas emissões, todos os assuntos abordados, que
tratavam de prevenção para as crianças sobre adoção, droga,
delinquência ou qualquer outra questão da atualidade,
levavam-me a fazer referências à minha experiência de Quatro
Varas. Pediram-me muitas vezes para que eu escrevesse
artigos em revistas especializadas ou no jornal O Povo, que
solicita, aliás, regularmente, os “dossiês” para o seu
suplemento semanal Universidade Aberta.
Recentemente, publicamos neste suplemento uma série de seis
números especiais sobre a formação de líderes comunitários.
Como o efeito de uma bola de neve, recebemos uma avalanche
de pedidos para entrevistar equipes europeias vieram realizar
filmes sobre Quatro Varas. Os jornais L'Humanité Dimanche
e La Croix publicam reportagens sobre a nossa experiência.
France Culture convidou-me em Paris para fazer uma série de
emissões e decide fazer um livro a partir disso.
Esta celebridade me impõe mais trabalho e a tendência para
me dispersar. Mas ela apresenta a vantagem de dar peso aos
pedidos da comunidade e assim obter mais facilmente das
autoridades a que a gente tem se batido há anos: água potável,
eletricidade, rede de esgotos e verbas para pagar os
instrutores, terminam finalmente por chegar.
Sucessivamente, com o tempo, nas reuniões das quintas-
feiras, notadamente, eu me dei conta de que muitas pessoas
que habitavam na favela, participavam dos rituais afro-
brasileiros ou eram adeptos de outras práticas espirituais.
Tendo perdido a confiança nas instituições e não podendo
apelar para as autoridades e ao espírito de justiça dos vivos,
será aos espíritos dos mortos ou aos deuses que eles se
dirigem para explicar suas doenças, seus sofrimentos,
encontrar uma ajuda, um conforto, uma esperança para o
futuro. Cada cerimônia representa um recurso, um apoio
existencial, um recurso eficaz. O fato de ter sido aceito, em
um grupo, de ser identificado a uma filiação divina que remete
as qualidades humanas, precisa ser reconhecido como filho ou
filha de Xangô, de Ogum, de Oxóssi; ajuda indiscutivelmente
a viver, a conservar uma identidade, uma certa autoestima.
Sem contar as mensagens de amor, os conselhos dados pelos
espíritos que se podem consultar sem temor e sem dificuldade
em cada sessão.
Progressivamente, comecei a me familiarizar com estas
diferentes formas de terapia familiar e de expressão cultural
da fé. Já Jean Pierre Boyer me havia colocado com a pulga
atrás da orelha, insistindo sobre o fato de que estas formas de
terapias populares oferecidas pelos rituais de Umbanda eram
de fato interessantes e dignos de atenção do mesmo modo de
que outros universos simbólicos, pertencentes à cultura
brasileira. Devo, entretanto, confessar que tenho mais
facilidade em entrar em contato com os rezadores do Canindé,
os curandeiros, especialistas em ervas, ou com os profetas do
Sertão, do que com estas formas rituais organizadas. Devido
à minha educação cristã, tenho menos facilidade em ter
contato com as cerimônias pagãs, com as práticas arcaicas da
magia negra, perigosas, baseadas no medo e na superstição.
Um pai-de-santo participava ativamente do trabalho
comunitário, e intervinha muitas vezes de maneira muito
interessante nas reuniões de terapia das quintas-feiras. Como
eu estava muito preocupado com uma de minhas pacientes que
frequentava o seu terreiro, queria falar com ele sobre essa
pessoa. Foi a partir deste encontro que eu descobri as pessoas
formidáveis, verdadeiros agentes sociais, anjos- guardiães da
comunidade. Eu me dei conta de que, quando havia um
falecimento na família, eles se encarregavam do transporte do
caixão, acompanhavam os doentes para o hospital e efetuavam
os procedimentos importantes dessas situações.
Fui convidado para participar dos rituais chamados giras. Jean
Pierre em razão da sua pesquisa, já havia um pouco se
debruçado nesta floresta. Mas, foi entrando neste universo e
tentando compreendê-lo, que pude apreciar toda a sua riqueza.
No decorrer da primeira gira que assisti, o pai -de-santo me
autorizou a ficar perto dele para seguir o desenrolar das
consultas.
Eu estava situado à direita, em frente ao altar, à esquerda, três
Ogãs, com as costas nuas traziam a força de seus colares,
atuavam com convicção com seus tambores marcando um
tempo sustenido e andante.
Sobre o altar, reparei que através havia um arranjo de velas
acesas de diferentes cores formando uma cortina de luzes.
Copos cheios de mel serviam de oferendas para os espíritos.
Vasos esmaltados ou estatuetas de barro pintadas figuravam
as entidades invocadas durante as cerimônias e que
representavam as influências das três culturas espirituais do
Brasil.
Entre as figuras misturadas e confusas, distingo: Jesus Cristo
e Virgem Maria, São Jorge com a sua espada e o seu casquete
romano, um guerreiro ameríndio enfeitado de plumas e um
preto velho com cachimbo e chapéu de palha.
Após um tempo preparatório com cantos, danças, defumações,
o pai-de-santo entra em transe e incorpora o espírito de um
velho africano, denominado Pai Cibamba. Ele ficou sentado,
todo curvado e fumando um velho cachimbo aceso. A sua voz,
que emprestava ao preto velho (espírito de velho negro)
tornara-se rouca, falava cochichando e mastigando o final das
palavras. Uma jovem de 20 anos se aproxima. Tratava-se de
uma jovem morena com cabelos crespos jogados para trás,
amarrados na forma de rabo de cavalo: “Pai” ela diz, “eu
tenho uma coisa para lhe pedir. Minha vizinha tornou a minha
vida infernal, ela já me tirou dois noivos, ela me detesta, o seu
coração está cheio de ódio e inveja em relação a mim. Eu
gostava que você fizesse alguma coisa contra ela para puni -
la”.
O Pai Cibamba escuta, com o cachimbo na mão. Depois que
ela falou, fez os passes mágicos, circunscrevend o os
contornos do corpo da jovem, a umas dezenas de centímetros,
dando a impressão, de mergulhar no espaço que a rodeia,
buscando e expulsando um monte de más coisas invisíveis.
Depois de ter desenhado com as suas mãos vários círculos
acima da cabeça dela, olha-a docemente, diretamente nos
olhos e diz: “Que diria sobre você a sua vizinha se ela
estivesse aqui presente?” “Absolutamente nada, ela não tem
nada a dizer sobre mim, eu não lhe fiz nunca nada.”
Ele insiste gentilmente, coloca novas questões, que
permanecem sem efeito sobre as convicções da consulente.
Ela foi vítima de uma mulher malvada, para a qual pede à
entidade espiritual que seja lançada uma sorte que a castigue.
Diante desta insistência e incapacidade de colocá-la em
questão, o Pai coloca a mão sobre a cabeça dela e lhe anuncia:
“Eu vou lhe colocar três vezes a mesma questão”. “Porque
três vezes, Pai?” Ela se inquieta. Simplesmente para lhe dar
tempo, para responder Sinceramente a si mesma: “Você está
certa de que a sua vizinha merece a punição que você quer que
lhe seja dada? E é que você não tem nada para se reprovar?
Porque se tal for o caso, a sanção cairá sobre você mesma”.
Reflita bem e volte para me ver e dar a sua resposta. Parta,
minha filha, com as bênçãos do Pai Cibamba e dos Orixás.
Após 15 dias, a jovem retorna acompanhada de outra jovem
mulher que parecia ser a sua irmã: “Pai eu queria lhe
agradecer pela sua ajuda dada na última vez que estive aqui.
Veja, esta é a vizinha de que lhe falei. Eu contei para ela o
que havia se passado e ela quis muito encontrar o senhor.
Agora nós somos amigas. Decidimos parar de ficarmos
procurando aborrecimentos e nos ajudar mutuamente”. O Pai
Cibamba coloca a mão sobre as cabeças das duas jovens em
sinal de bênçãos e lembra eternamente e afetuosamente todos
os valores exigidos para uma amizade duradoura: confiança,
paciência e sinceridade.
Eu saio destas sessões muito comovido com o cerimonial: os
cantos, os ritmos, os odores do incenso e também muito
tocado com o amor, o calor que vinha do espírito incorporado
pelos médiuns em transe.
Entretanto, o que mais me impressionou foi o requinte clínico
da “entidade” que me deu um curso prático de terapia
sistêmica. O pai-de-santo que é inculto e nunca ouviu falar de
todas estas coisas deu- me em curso prático sobre causalidade
circular. Ele assinalou a responsabilidade compartilhada no
conflito, cuja resolução pede que cada um reconheça o seu
papel, a sua parte neste conflito. Não podendo convencer a
consulente, ele utiliza a dúvida e a confusão para favorecer a
reflexão e o processo de mudança na jovem moça. Que
revelação! Durante seis anos, estudei e me dediquei a
abordagem sistêmica, e assisti, agora, à mais bela
demonstração de terapia breve, simples, eficaz, exemplar.
Jean Pierre tem razão: as modalidades de ajuda trazidas pelos
médiuns, por estes terapeutas populares, são muito
interessantes. A experiência me confirmará isso, numerosas
vezes. Aprendi lendo os artigos dos colegas sobre a Umbanda
que mais de 50 milhões de brasileiros frequentam com
regularidade os terreiros e mais de 6 mil estão na cidade de
Fortaleza.
Com a Universidade Federal do Ceará, nós decidi mos engajar
uma pesquisa-ação prevenção sobre Aids, com a ajuda de
quatro pais e mães-de-santo das favelas. Um filme e revistas
com desenhos foram os frutos desta colaboração que recebera
o acordo e o apoio do Ministério da Saúde e uma difusão na
mídia de grande amplidão.
Gostei de colher estes frutos; sentir concreta e fisicamente as
ideias tomarem forma. As boas ideias se tornam realmente
geniais quando elas adquirem um lugar na vida cotidiana e
dão oportunidade para uma criação coletiva: o mutirão.
Curiosamente, foi cometido um roubo em meu apartamento,
que levou a prosseguir em minha abertura aos domínios
espirituais não convencionais e às terapias culturais.
Na volta de um final-de-semana de reflexão que reuniu os
responsáveis dos diferentes grupos da comunidade, verifiquei
que o meu apartamento havia sido visitado, os móveis foram
mudados de lugar e os papéis estavam em desordem.
Examinando um pouco mais, constatei que o pouco dinheiro
que havia deixado em minha casa e um talão de cheques
haviam desaparecido. Levei a queixa à polícia, que veio ao
local e interrogou-me longamente, procurou as impressões e,
sem sucesso, apelou para eventuais testemunhas no imóvel.
O meu irmão, tendo sido avisado do ocorrido, entrou em uma
ruela de Quatro Varas. Dona Maria, uma avó mestiça,
enfeitada com um xale preto olhou-o diretamente nos olhos e
lhe perguntou por que ele estava contrariado. Airton lhe
explicou o que me acontecera levando Dona Maria a propor
seus préstimos: “Diga a seu irmão para que venha ver, e eu
tentarei lhe dizer quem foi que deu o golpe”. Efetivamente,
algumas horas mais tarde, pegando-me as mãos e olhando,
com um ar vago, acima de minha cabeça, descreveu três
pessoas que disse terem vindo da favela e que eu conhecia
bem: uma moça e dois rapazes, um deles é magro com a pele
muito negra e com uma cicatriz do tamanho de uma mão na
perna esquerda.
No dia seguinte, os amigos vieram em casa acompanhados por
uma mulher chamada Fátima, uma senhora pequena, gorda,
jovial, loira com a pele branca, que nos foi apresentada como
médium. Sabendo o que se passara, perguntou-me sobre quais
foram os objetos, móveis que tinham sido desarranjados.
Aproximou-se de uma estátua da Virgem Maria, que os
ladrões haviam deslocado durante a sua desordem. Ela a roça,
com a ponta dos dedos, e a leva, em seguida, a seu nariz, para
os sentir longamente.
Após ter terminado esta exploração, faz uma descrição
idêntica àquela que Dona Maria havia feito na véspera. E,
quando eu lhe perguntei como estas pessoas haviam entrado
em casa sem quebrar a fechadura, nem a porta, esta mulher,
que nunca me havia encontrado e nunca ouvira falar de Quatro
Varas, disse que fechando os olhos via, no decurso de uma
grande reunião, as minhas chaves colocadas ao meu lado
serem roubadas, no espaço de alguns minutos, para terem as
suas impressões tiradas no sabão.
As precisões com que foram dadas sobre as pessoas e
suspeitas foram logo confirmadas. Airton reparou no jovem
que trazia uma cicatriz na perna esquerda. Pediu -lhe para que
no dia seguinte retornasse à minha casa para testemunhar a
confrontação. Após essa entrevista, o rapaz sumiu e nunca
mais foi visto na comunidade.
Uma vez mais, fiquei muito impressionado com as
ocorrências: duas mulheres, de condições sociais muito
diferentes, uma vidente e outra espírita, obtiveram muito mais
observações sobre o caso do que os meios sofisticados de que
a polícia dispõe.
Lembro muitas vezes deste caso com Fátima, que assumiu, até
1997, o posto de vice-presidente do movimento integrado de
saúde mental comunitária. Pouco tempo depois, fez o seguinte
comentário sobre esta ocorrência: “É preciso um choque, uma
agressão que te atinja pessoalmente na tua intimidade para
que nós nos encontremos e também para que tu te abras para
outras representações do mundo e para a dimensão dos
espíritos”.
Estes encontros obrigaram-me a considerar a realidade
cultural dessas abordagens, mesmo que elas não sejam as
minhas. Mas como integrá-los em meu sistema de
representação como reconhecê-los, dar-lhes um lugar no
movimento integrado de saúde mental comunitário?
Estas questões me ajudaram a reconsiderar os modelos que
utilizo, a relativizar a sua pertinência a um contexto, a um
momento dado, a uma cultura dada e assim colocar em
questão o seu estatuto de verdade absoluta ou de saber
definitivo desqualificando os outros modelos. Eu me tornei,
assim, mais tolerante e mais aberto a outro modo de ver a vida
e as relações com o mundo.
A metáfora dos três cegos que tentavam definir um elefante a
partir da experiência que tinham, o lugar onde se
encontravam, consiste, de fato, a minha posição atual: aquele
que pensa deter a verdade afirmando que o elefante é como
uma grossa serpente. Acreditam nisso porque ele se encontra
do lado da tromba. Mas é também pertinente que os outros
que o definiram como um tronco polido sem folhas ou como
um grande balão murcho que flutua a 1,50 m de altura,
segundo eles se encontram atrás ou ao lado do animal.
Considero agora que existem diferentes modos de perceber o
mundo e de compreendê-lo.
Em uma dada situação, em que o médium vira, sentira, a
presença de uma entidade ou de um espírito parasita, nós
enquanto psiquiatras reparamos uma lembrança traumática,
um luto difícil para viver, enfrentar. Do mesmo modo que um
pintor, um músico, poeta ou dançarino nos dará uma
representação bem diferente, de inteligência sensível, que tem
da mesma realidade.
Maurício é um jovem de 20 anos. Seus cabelos crespos
apareciam sobre o seu casquete de baseball' o rosto queimado
escondido pelos óculos escuros Ray-ban, o corpo delgado.
Pegou o microfone, em uma quinta-feira à tarde, e falou de
seu problema de epilepsia. Foi acompanhado por um
neurologista e foi visto recentemente por um curador que lhe
disse que tinha um encosto, um espírito que o dominava que
lhe “tomava a cabeça” de alguma forma: “É o espírito do meu
tio José Armando que me domina”, precisa assim Maurício.
Sua irmã, sentada perto dele, protesta: “Você sabe muito bem
que isso não tem nada a ver, pois as suas crises começaram
bem antes da morte de nosso tio”. Eu lhe pedi, en tão, para que
falasse desse tio.
Ele conta: “Meu tio veio do Rio para morar em nossa casa
quando eu tinha oito anos. Um dia, encontrei-me sozinho em
casa com ele. Ele fechou a porta e a janela e me pegou para
fazer... para fazer... coisas maldosas de sexo. Após isto, ele
me proibiu que eu contasse e ameaçou de me bater, se eu
falasse”.
Ele recomeçou até o dia em que, eu tendo crescido, tive
coragem. Eu lhe disse que contaria tudo para minha mãe.
Então ele suplicou para que eu calasse e me deu dinheiro. Ao
falar de seu tio, Maurício começou a tremer, cada vez mais
forte, estirou-se em sua cadeira e teve uma crise, semelhante
a uma convulsão epiléptica. Após um momento de silêncio em
que a assembleia parecia hipnotizada, como que atraída por
este espetáculo impressionante, uma velha interveio: “Pode
ser que seja epilepsia, mas há uma outra coisa, há um
espírito”. Como ela me falou que sabia como tratar, eu lhe
convidei para agir à sua maneira. Ela se dirigiu ao espírito que
parecia ver, ao lado do Maurício, e pediu para que ele partisse:
“Tu tiveste a tua vida, ele tem a sua, mesmo que queiras
reparar o mal que tu fizestes, é preciso, agora, deixar este
rapaz viver em paz”.
Maurício parou as suas convulsões e pediu para falar comigo
em particular. Aceitei, e afastamos um pouco do local da
reunião. “Doutor Adalberto, dê-me um pouco de dinheiro!”
Diante deste pedido, repeti, temendo ter compreendido mal.
“De dinheiro?” Vendo-me pronunciar estas palavras,
Maurício parecia perplexo, estupefato. “De dinheiro, eu lhe
pedi dinheiro? Eu não compreendo, eu não compreendo”. Era
como se ele despertasse. Retornamos à sessão de terapia
comunitária e reconstruímos juntos a história de Maurício,
que a reviveu. Atualizou- a diante de nós e, comigo, a cena
que havia passado com o seu tio. Estas crises encontraram um
sentido e expressão “encosto”, dado pelos curadores e toda a
sua pertinência. Maurício foi possuído pelo espírito de seu
tio? Pela lembrança traumática de ter sido submetido ao
desejo de outro? Possuído, com os pensamentos ocupados,
obscurecidos pelas mensagens, não seriam as traduções de
sentimentos, deixados em sofrimento? Em todo o caso, sua
doença, suas convulsões manifestavam a ligação “energética”
ou “simbólica”, o espírito deste tio, tanto que um meio de
libertação não pôde ser encontrado. A velha médium, falando
com o espírito, havia dado a chave que abria ao diálogo
salvador, havia reconhecido, apoiado sem criticar o possuído.
Em minha prática liberal, aconteceu, agora, de associar o
talento e a competência de um médium como a Fátima, em
certas circunstâncias clínicas em que há a questão do espírito,
do encosto.
Abri igualmente minha prática comunitária a esta dimensão
espiritual que faz apelo à inteligência sensível: o toque, o
sentido, a imagem, a emoção.
No terreno de Quatro Varas, construímos uma pequena casa
para o ritual de Umbanda e a casa de cura, que parecem
grandes choupanas indígenas, divididas em muitas peças,
onde terapeutas, médium- espíritas e curadores de todas as
tendências, utilizando a argila, as plantas ou cristais
oferecendo gratuitamente as modalidades de ajuda, as
mensagens, em particular, contra o estresse.
Nós, aliás, abrimos, no quadro do departamento de saúde
comunitária, uma formação de abordagem corporal
terapêutica compreendendo 350 horas de curso e fornecendo
um diploma de capacidade profissional aos curandeiros
tradicionais que seguem este curso. Além do certificado
oficial de reconhecimento, o objetivo claramente definido é
que estes terapeutas populares tenham acesso, não somente ao
saber médico e psicológico, mas também àquele de outros
“colegas”. A formação não tem como finalidade convertê -los
à outras práticas, mas de torná-los mais responsáveis, mais
competentes e mais conscientes de suas possibilidades e
limites.
O fato de estar progressivamente aberto ou melhor, reaberto
ao mundo dos espíritos, e de associar ao cotidiano da favela,
mas também em minhas práticas profissionais, à lógica
cartesiana e científica às abordagens culturais mais sensíveis
representa para mim uma etapa de evolução importante. Eu
me sinto mais de acordo comigo mesmo; encontrei um
equilíbrio entre a minha identidade cultural e profissional,
entre tradição e modernidade. Além disso, encontrei as
minhas origens, reconciliei com meus avós, o médium e o
curador.
Hoje e Amanhã. Abril de 1995
Se hoje eu posso dizer que tenho prazer em ir a Quatro Varas,
isto era raro até então. Era, portanto, uma atitude masoquista
de minha parte ir semanalmente, depois, quase todos os dias,
procurar minha dose de sofrimento na favela?
Verdadeiramente, não creio. O que me ajudava em minha ação
e me permitia ligar-me a ela, apesar das dificuldades, era o
interesse pelo trabalho que a cada dia acrescentava -me
alguma coisa. Tinha a certeza de evoluir no futuro, à medida
que o projeto avançava e que a comunidade se transformava.
Isto não era feito sem dor.
Foi uma sucessão de conflitos, de dúvidas, de reposições, que
colocava em questão. Para se ter a noção do processo de
mudanças pelo qual me libertei, penso muitas vezes no caroço
da amêndoa, que, para germinar na terra, precisa amolecer,
depois apodrecer a casca dura que protege seu núcleo, para
que esta parte central e tenra possa se despertar e assim ir
revelando seu potencial criativo. Como o caroço da amêndoa,
aprofundando-me cada vez mais no mundo da favela, deixar
apodrecer minha carapaça de preconceitos, de ideias feitas, de
crenças ou falsas verdades, enfim, de tudo aquilo que
constitua as minhas defesas, minhas proteções sólidas e
eficazes, para me tornar operacional, criativo e revelar a mim
mesmo as qualidades e possibilidades impensáveis até então.
Travado pelo grande discurso, tudo isto significava que,
rapidamente, o bom doutor tenha o dever de responder a certas
questões a granel: o que é que você faz aqui? você não tem a
sua casa, o que é que procura? você quer se servir de nós como
cobaias para obter dinheiro às nossas custas?
Diante destas questões, não era possível desviar ou tentar sair
com teorias, grandes frases ou bons sentimentos, tais como
amor, solidariedade. Estas questões tocavam o meu íntimo e
apelavam para questões pessoais: o que é que você procura
para você mesmo, nada que seja somente para você?
Precisamente, porque, se você vem por caridade cristã e
piedade, todos estarão de acordo com a sua oferta, tanto
quanto você possa nos dar, para compensar a sua
culpabilidade, porque a tua culpa é a nossa salvação, é uma
verdadeira renda para a nossa sobrevivência.
Minha resposta demorou um pouco. Inicialmente, embarquei
em Quatro Varas sem tomar consciência daquilo que me
levara para lá. Depois, eu me dei conta de que não era nem
mais nem menos do que o prolongamento de minha pesquisa
que havia se iniciado no Canindé: a busca de minhas raízes,
do que me constituía, e o desafio renovado de ser, ao mesm o
tempo, um universitário, um cientista e um homem do sertão.
Assim, em uma quinta à tarde, a frase deu o estalo: “Eu não
estou aqui para resolver os seus problemas, mas para resolver
os meus. Vindo aqui eu dou o meu tempo e a minha
competência, desejo que nossas trocas e nossos encontros lhes
ajudem e lhes ensinem tanto quanto eles me ensinam sobre
mim mesmo”. Eu me senti, de repente, aliviado. As coisas
estavam claramente colocadas, eu havia me engajado, levado
pela aventura e não unicamente pela vontade de dar. Penso
que esta declaração tenha dado maior segurança e aberto para
relações de confiança.
Eu havia associado à ação conduzida no interior da
comunidade para o interesse pessoal. Não poderia encontrar
melhor garantia de engajamento, de ligação.
Eu deveria revisar um bom número de pontos de vista, e de
ideias recebidas. Não era fácil para mim relativizar os
modelos nos quais podia me apoiar, persuadido de que fossem
compartilhados por todos.
Imaginem que o modo de pensar, de viver, de se arranjar na
existência é, de toda forma, específico, quando se vive na
precariedade e incerteza do amanhã. É como se os habitantes
da favela, para sobreviver e resistir à violência de sua
situação, tivessem desenvolvido uma cultura original, bem
diferente de sua cultura de origem. A percepção do tempo não
é a mesma, apenas os atos são importantes, as palavras não
contam ou são vividas como perigosas, o dinheiro não deve
ser guardado, mas gasto no mesmo dia, devido ao medo de ser
roubado, a lei é a do mais forte e a do medo, do temor, da
violência que os condicionam a cada instante.
É preciso aceitar a diferença, as diferenças com toda a riqueza
de revelação que isto representa para si mesmo; aceitar
também navegar pela vida, guardando no espírito o objetivo
fixado. Nosso projeto que está longe de ser evidente, quando
a vida e as relações estão essencialmente marcadas pelo
imprevisto, imprevisível. Tanto eu não percebi que esta
dimensão de surpresa, de incerteza, de insegurança, oferece
também um espaço de liberdade, de improvisação, de criação,
que este clima me era de fato insuportável.
Não posso aqui abordar todas as dificuldades pessoais e os
limites que eu tive de enfrentar, provar e, muitas vezes,
superar.
Eles se relacionam também a minha profissão de psiquiatra,
cujo papel concreto e as responsabilidades eu devia assumir
apenas durante um certo tempo na favela. Esta situação
oferecia numerosas facetas ou telas para projetar fantasmas e
problemáticas individuais, em uma relação de transferência,
onde a imagem do patrão, do colono, estava, sem cessar,
presente no espírito. Devo, permanentemente, levar em conta
estas dimensões. Cada tomada de consciência implicou uma
mudança de atitude de minha parte; a compreensão em si não
poderia ser suficiente. Por exemplo, eu recebia muita
agressividade; numerosos foram aqueles que se mostraram
invejosos, aqueles que me tornaram infeliz e com mal -estar
— até o momento em que um sonho me deu a explicação e a
solução. Neste sonho eu lia em um livro alemão, autor
desconhecido, a seguinte frase: “Se eles se mostram
agressivos e ciumentos, é porque eles desejariam participar ou
porque eles temem ser excluídos”.
O fato é que são as pessoas mais agressivas que em seguida,
mostraram mais ardor e interesse no trabalho comunitári o.
Repetidas vezes, minhas impaciências para ver as coisas
serem concluídas, meus desejos de ir mais depressa, mais
longe, tomavam a forma daquilo que eu chamava a tentação
do colonizador ou do missionário, que é aquele de tomar o
poder ou de forçar as coisas para que elas se realizem; decidir,
organizar, impor.
Tomei assim a consciência de que eu não podia ser o
responsável por tudo, apenas pela minha parte na realização
de um projeto. O resultado dependia da relação com os outros
e da forma como cada um cumpria a sua tarefa. Isto pode
parecer evidente, isto obriga ao respeito por si mesmo e seus
limites, tanto quanto ao respeito do outro e de suas diferenças.
O desejo de mudar os outros, de transformá-los, sem mudar a
si mesmo, procede em nome da eficácia e do interesse geral,
da mesma tentação que a colonização ou a ação missionária.
Não é fácil aceitar que não se pode mudar as pessoas, mas
somente lhes dar oportunidade, espaço, o meio de mudar.
Nas relações com os jovens, suas necessidades de segurança
eram expressas pelas múltiplas provocações, levando -me
repetidas vezes a tomar atitudes autoritárias. Dizer não com
tranquilidade não se improvisa em um instante, é também um
processo de mudança em que é preciso pagar pessoalmente.
Muitas vezes, quando aparecia um desacordo, este era
dramatizado, conflitualizado. Em outras palavras, preferia
romper, cortar, deter o diálogo vivido como perigoso
ameaçando partir, excluir-se, antes do que arriscar a ser
excluído. Tomar a palavra de improviso, assumir uma
oposição, afrontar um conflito, provar que uma diferença não
implica necessariamente tornar-se um inimigo ou
envergonhar-se. Assim foi que, juntos, evoluímos na
comunidade. Fatigante, por vezes, mesmo esgotante.
As degradações, os roubos, a transgressão dos limites são as
moedas correntes em uma favela, com a justificação de que se
trata de uma necessidade vital imperativa: “criança doente’,
“não ter o que dar para comer em casa”. Todas estas questões
eram levantadas sob a forma de provocação que punha à prova
a resistência de uma comunidade e de seus mais ativos
defensores, até o momento em que, ante o desafio, dizia -se:
“Por que é que você se mete, não é o dono? Não sou, mas sou
corresponsável pelo bem coletivo da comunidade.” Enfim, as
dificuldades ou obstáculos encontrados no caminho eram
concernentes a pessoas exteriores ao projeto que não podiam
compreender ou aceitar o que nosso engajamento implicava.
Este foi o caso de meu pai, que não pôde aceitar o fato de que
eu procurava ter um carro, e, ao comprar outro carro, preferi
antes dar o meu antigo automóvel, dentro dos quadros de um
projeto, para um responsável da comunidade, a dar a ele.
Mesmo que eu tivesse citado o Evangelho, quando Jesus dizia:
“Minha família são as pessoas que caminham ao meu l ado e
seguem o mesmo caminho”, ele não teria compreendido e
pensaria que eu estava zombando dele.
A projeção que teve Quatro Varas, através das mídias - devido
ao interesse crescente suscitado pela nossa experiência
conferiu-me logo como porta-voz, embaixador da
comunidade, uma notoriedade indubitável. Tive de pagar o
rancor de uma glória não procurada a título pessoal.
Este sucesso me tem valido crítica, ataques pessoais,
acusações de todos os gêneros. Fui objeto de inveja, ciúme,
de rivalidades estéreis, remexendo dolorosamente as minhas
relações afetivas: rupturas, conflitos, afastamentos. Senti -me
ferido, magoado, infeliz, em repetidas ocasiões. Percebi
nestas circunstâncias a importância do apoio da família
comunitária. Minhas viagens me ajudaram a colocar um
afastamento. Tive também necessidade de me isolar em certos
finais de semana, nas aldeias dos pescadores ou afundar -me
no Sertão, para me recuperar, encontrar-me, ganhar forças.
Eu não praticava a psiquiatria no ambiente filtrado de um
gabinete, mundo de um divã ou de uma poltrona confortável.
Meu trabalho se limitava apenas às sessões das quintas-feiras,
respeitando uma unidade de tempo e de lugar. Meu cliente, a
comunidade da qual eu faço parte, é também o contexto de
minhas práticas. O tempo de escuta não se detém ao termo de
uma consulta ou de uma reunião, mas no momento em que eu
deixo Quatro Varas. Isto complica consideravelmente as
coisas e requer a cada instante, de minha parte, uma
vigilância. Porque o meu serviço refere-se tanto às pessoas em
particular como as mudanças da comunidade. Devo
permanentemente manter a cabeça nestas duas referências.
Minhas intervenções, prescrições, meus engajamentos devem
levar em conta tanto a dinâmica do sujeito, como também um
caso ocorrido, o que dá a ideia do trabalho de funâmbulo a
que tenho por vezes de me prestar.
Domingos tem 45 anos, chegou na favela com a sua mulher e
seus cinco filhos. Trabalhou ao lado de um padre pentecostal,
responsável por um grupo de renovação carismática. Pareceu
ter sido vítima dos excessos espirituais, místicos desta
comunidade. Apresentava no decorrer de nossos encontros,
manifestações miraculosas, evocando facilmente as
revelações divinas e as aparições da Virgem. Entretanto, no
dia em que ele se declarou profeta, filho de Deus eterno, e
falou de suas visões, foi impiedosamente banido e rejeitado
como louco. Sua mulher chamou-me para ajudá-la, pouco
tempo depois de sua chegada. Domingos não dormia, não
comia, não pensava em fazer amor ou em bater na mulher e
nos filhos. Não suportando mais o inferno pelo qual ele fazia
a sua família passar, ela pediu-me para convencê-lo a fazer
um tratamento. Domingos é um dos frequentadores mais
assíduos das reuniões das quintas-feiras. No final da sessão,
eu tive uma longa discussão com ele que terminou por lhe
prescrever um neuroléptico, de ação prolongada, a qual
aceitou tomar todos os meses.
Graças a esta medicação, Domingos retomou a sua vida,
ocupou- se de novo com seus filhos, reencontrou a sua calma,
a paz em casa e uma pequena atividade lucrativa.
Alguns meses mais tarde, ele me interpelou durante uma
reunião ele quinta-feira e me anunciou que Deus lhe havia
visitado e dito que deveria parar de tomar estas injeções.
Conhecendo os benefícios que tiveram, ele e sua família, com
este tratamento, perguntei-lhe quando precisamente ele
estivera com o Senhor. Ele me respondeu que isto se passara
no domingo; eu lhe anunciei então que Deus havia estado
comigo no dia seguinte e que havia se enganado de ficha, dizia
que Domingos deveria continuar a tomar as injeções.
Eis, portanto, os exercícios de “rédeas curtas”. A dinâmica
relacional de mudança e introduzida pela consulta individual
prossegue na reunião para se expandir o caso, atingindo o
percurso de um encontro improvisado sobre a duna em uma
estrada arenosa.
Um sentimento de revolta vigiada se instala em mim senti
algumas vezes cólera, outras vezes, medo, lassidão ou
abatimento. O sentimento de decepção lembra-me muitas
vezes a exigência de meu desejo. Nunca tive a tentação de me
deixar ser tomado. Meu lugar é lá, e foi lá (na favela) que eu
fiz o meu processo de realização. A dinâmica de
transformação, de liberação de uma comunidade abatida,
remete em questão a cada um de seus membros; eu mesmo,
como os outros, a partir de numerosos temas abord ados
coletivamente. Para não citar senão alguns: a
responsabilidade, o respeito, a autoridade, a lei, os limites, o
dinheiro, a propriedade individual e coletiva, a família, a fé.
Cada vez que eu me sinto perdido, desesperado, preso da
dúvida, não sabendo a qual santo me dirigir, lembro-me da
primeira história do Sertão, que eu ouvi de meu avô materno.
É a história de uma pequena menina de sete anos que se
perdeu na Floresta Amazônica. Seus pais saíram em vão para
procurá-la. Após três dias, desesperados, eles voltaram para o
Canindé e suplicaram para São Francisco encontrar sua filha.
No retorno, sua filha esperava-os em companhia do monge,
que a recolheu, cuidou e a conduziu para casa. Retornando a
Canindé para agradecer ao santo patrono na companhia de
seus pais, a menina reconhece, nas imagens pintadas da
Basílica de São Francisco, o monge que a salvou. Como esta
família, quando eu estou em grande dificuldade, tenho
necessidade de apelar para a minha fé e a minha cultura para
me encontrar, reencontrando os meus “espíritos”.
O trabalho de mudanças ao qual eu me dediquei semanas a
fio, sob os golpes de bastonetes da atualidade da favela, tem
um pouco de processo analítico. É preciso ouvir meus
sentimentos, minhas reações para ultrapassar minhas
contradições, regular minhas contra- atitudes, minha
contratransferência, estabelecendo as ligações com a minha
história. A mudança se fazia a este preço, porque exigia
restabelecer um espaço relacional de criação, liberada de
todas tensões.
Agora, repito, muitas vezes, eu tenho prazer em ir a Quatro
Varas e sinto que a amendoeira, deveria dizer, as amendoeiras
representam o projeto e figuram a minha evolução. Elas
(como eu) estão saindo da terra e começando a dar os seus
frutos. Estes frutos são numerosos e seu gosto é agradável.
Quando o meu olhar se detém sobre o caso das verduras que
preenchem as ruelas entre as dunas, minha respiração se faz
mais livre, sinto-me logo mais leve, mais alegre. Este local
tornou-se o centro social da favela, um lugar de encontro, de
discussões, de curas, um lugar de recursos. Você deve
considerar o que este espetáculo representa para as pessoas do
Sertão; a água corre permanentemente, ela nutre as plantas e
refresca os homens, sem contar que graças à irrigação
automática alimentada pelo lençol freático.
A visão das construções lembra-me o caminho percorrido, as
etapas enfrentadas desde a aquisição do primeiro terreno até
a conclusão recente da pequena cabana que acolhe os
visitantes ou as pessoas que têm necessidade de repouso ou
isolamento.
A Associação dos Direitos Humanos deu origem a uma
comunidade dos Companheiros de Emmaus. As crianças que
reúnem, brincam, trabalhando, aprendem a viver, a amar, a
falar e a respeitar sua própria pessoa.
De fato, a palavra mudou de status, no decorrer das sessões
de terapia comunitária e do funcionamento de reuniões. Ela
permite a compreensão e parece mesmo por isso mais eficaz
que as surras ou a violência.
Há muito tempo considerada como instrumento de poder dos
ricos, dos instruídos, dos patrões, como perigosa, categórica
e autoritária, a palavra está agora domesticada e serve para se
liberar, se conhecer, para mudar e sonhar. Pode-se construir
com as palavras, as frases, e se fazer ações, projetos,
realizações. As trocas, as discussões e diálogos de t odos os
tipos têm tecido a trama da comunidade, colocando suas bases
e seus limites, escrevendo sua história e organizando sua
memória. Atualmente, as palavras são engajadas, defensoras
e também respeitadas.
A história escreve-se, desenha-se, conta-se. Uma casa da
memória edifica-se agora no terreno, onde se encontram, ao
lado dos antigos, livros e reportagens sobre a favela. O
conjunto das sessões terapêuticas das quintas-feiras
registradas em vídeo que cada um pode descobrir ou
revisionar.
O trabalho do Movimento Integrado de Saúde Mental
Comunitário (MISMEC) é agora conhecido pelas autoridades
e governos que a nomeiam, devido à sua experiência
considerada como piloto para o Ceará.
Eles nos pedem para sensibilizar os futuros policiais aos
problemas de exclusão para organizar os ciclos de formação
de líderes comunitários. Somos solicitados a estabelecer um
programa para se instalar outras farmácias-vivas, montar
outras casas de cura em outros lugares de exclusão. Melhor
ainda, a coordenação da Pastoral da Criança da CNBB, que
supervisiona a ação de 80 mil núcleos comunitários no Brasil,
pede que formemos os responsáveis destas comunidades,
segundo a nossa forma de terapia comunitária, como também
as massagens antiestresse praticadas na favela.
No plano financeiro, a comunidade é agora autossuficiente. A
farmácia-viva, como o grupo de jovens, se autofinancia, sem
necessidade de apoio financeiro externo. Além disso, eles
asseguram o salário mínimo de 40 pessoas e 150 famílias se
beneficiam das bases econômicas destas “indústrias”
artesanais, através das atividades anexas como a confecção
pelo grupo das pessoas idosas de cestas para as plantas
medicinais, ou a fabricação de objetos artesanais em palha de
carnaúba.
Ilustramos, para terminar a questão sobre a evolução da
comunidade com um acontecimento que veio a ocorrer. Como
em todas as manhãs de quinta-feira, os responsáveis do
MISMEC encontram-se sob a palhoça, agora protegida de
ventos e barulhos externos por uma espécie de paliçada com
frestas, feita de cipós, traçadas, que ligam a borda do teto de
colmo até o chão de terra batida.
No programa, foi previsto discutir as relações econômicas do
grupo de arteterapia com o resto da comunidade e também
escolher quais seriam os investimentos que os jovens
desejariam fazer com os dois mil dólares que iriam receber do
Banco do Estado do Ceará, relativo aos quatro mil cartões
postais que estes jovens venderam para as festas do final do
ano.
Porém, sob o efeito dos acontecimentos recentes, o caso de
Dedé foi imediatamente lembrado. Zequinha, responsável
pela gestão do MISMEC, começou: “Já faz três meses que
Dedé ‘afunda o nosso banco’”, perturbando perigosamente a
comunidade. Ontem ele foi à escola e, diante das crianças
aterrorizadas, ameaçou a professora com uma faca. Sua mãe
Dona Geralda, prossegue: “Ele diz que não se droga, mas isso,
se vê logo, quando ele toma as suas porcarias Ele me ameaça,
para me tirar dinheiro, tornando-se violento; ele faz sujeira
com todo o mundo”. Tomei a palavra para resumir: “Cada vez
que ameaçamos chamar a polícia ou levá-lo para o hospital,
ele promete tudo o que a gente quer. Ele para durante 15 dias
e depois recomeça como antes. Nós já tivemos quatro reuniões
com ele e nada foi resolvido”.
De duas uma, se ele for doente, ele vai se curar em um
hospital, se ele não for doente, seus atos devem então ser
considerados como atos de delinquência e a polícia deve
atuar. Como por acaso, neste momento, um coronel de po lícia
entra na palhoça. Ele tira o seu casquete coberto de estrelas
para saudar a assistência. O que nos impressionou ao olhá -lo
foi a expressão de bonomia que se podia ler em seu rosto. Era
difícil ignorar a sua semelhança com o sargento Garcia dos
filmes do Zorro. Tinha a mesma aparência: a pança, o andar,
o bigode e o sorriso. Sentou-se entre nós e escutou com
atenção tudo o que foi dito. Foi convidado para nos dar uma
ajuda, a maneira de se quitar uma dívida ou antes de marcar
seu reconhecimento. Muito interessado em visitar o nosso
trabalho, pediu para que um de nós participasse de uma
reunião dos responsáveis pela polícia do Ceará para se refletir
sobre a formação dos policiais e também para sensibilizar os
novos recrutas sobre os problemas da exclusão.
Decretamos de maneira unânime que não se podia
humanamente deixar Dedé se destruir ou arriscar de fazer uma
grande besteira, que seria uma prova de amor e não de
indiferença decidir dar hoje uma saída para a crise: hospital
ou prisão. Dois jovens propuseram-se a procurar Dedé para
lhe participar a nossa posição. Para a nossa surpresa, ele vem
se reunir a nós e se instala perto do coronel.
Após nos ter ouvido, ele se lança em um grande discurso sobre
a liberdade, seu desejo de sair desta situação. Recusa a
alternativa proposta, até o momento em que o coronel da
polícia, curvando-se sobre ele, coloca com afeto, somente a
mão em seus ombros e lhe diz: “Dedé, mesmo que você se
considere o último dos últimos, saiba que Deus lhe ama e não
lhe abandonará”.
Se você for para o hospital, a sua vida vai mudar. Tenho visto
rapazes bem mais atingidos que você pela droga, cuja vida foi
transformada através da desintoxicação, você poderá, em
seguida, retornar à comunidade, ser o orgulho das pessoas que
o amam e cuidar da sua mãe. Não esqueça nunca que Deus
pensa em você. Deus o ama e não o abandonará.
Desde quando Dedé sentiu o contato da mão do coronel,
baixou a cabeça e depois escutando as suas palavras, se pôs a
chorar.
No final, ambos levantaram-se, o coronel calorosamente
segurando-o pelos ombros, depois encaminharam-se para o
centro do círculo formado pelas pessoas presentes que se
levantaram. Nós todos, juntos, rezamos o Padre-Nosso e
cantamos um canto popular de solidariedade. Em seguida,
cada um de nós veio felicitar Dedé, abraçando-o e prometendo
ir visitá-lo no hospital. Dedé partiu, acompanhado pelo oficial
de polícia e pela sua mãe, para o hospital.
A coincidência fez com que nos reencontrássemos, como na
primeira sessão de terapia comunitária, Dedé e sua mãe, D ona
Geralda. É preciso dizer que Dedé participou regularmente da
terapia, durante estes dois anos. No primeiro, pelo seu
casamento, seu divórcio, no segundo ano, ao se drogar de
novo.
Habitando perto do terreno comunitário, ele está muito ligado
ao projeto, suas dificuldades parecem acompanhar e colocar
em evidência as mudanças da comunidade. De fato, que
evolução. Recuando um pouco, não se pode imaginar isso.
Quando a cena se desenrolou diante de meus olhos, acreditei
que sonhava. Primeiro, a coletividade comunitária se sentia
suficientemente sólida para tomar uma decisão em nome do
interesse coletivo e dos limites transgredidos.
A polícia de uniforme foi não somente acolhida como também
não rejeitada. Isto não teria, ainda não muito tempo, sido o
caso, mas além disso, ela foi convidada. Então? Isto
significaria traição, compromisso com o inimigo que
havíamos combatido, denunciando, ainda recentemente, as
suas exaltações, a violência e os abusos, ou o reconhecimento
das leis, dos limites, de seus próprios limites, da importância
e do interesse de entrar no mundo, na cultura dos não -
excluídos.
Acreditava estar de ponta-cabeça, ao constatar que o coronel
era, de longe, a pessoa mais afetuosa e compassiva e que além
do mais, tinha a aparência de se sentir na favela como um
peixe n’água.
Não farei a exegese desta história. Simplesmente quero que
vocês compreendam que eu senti que havia um ar de mudança
em Quatro Varas e que eu experimentava agora o prazer de
estar nessa comunidade. Este refrão pode surpreender: poder-
se-ia ver a expressão de uma autossatisfação, um sentimento
de felicidade, o signo de má realização.
O livro se iniciou com a descrição das profundas raízes
extraídas da terra do Sertão e longe, em minhas ascendências,
as forças que nutrem minha ação e minha evolução. A árvore
não é estéril e me pareceu natural, antes de ramificar o buquê,
dando tempo de se apreciar os frutos.
Os ciclos e as estações marcaram seu crescimento e sua
renovação; mas, não nos enganemos, nosso projeto não é de
fornecer um emprego, lucros, ou de ajudar aos favelados a
refazer sua vida e ter sucesso em Quatro Varas.
Estes resultados não são negligenciados, aliás, são as
consequências materiais do processo, mas não o objetivo
proposto. Nossa ambição, com efeito, é outra, concerne
naquilo que pomposamente denomina uma ecologia do
espírito. Isto é, liberar o homem do “pecado social”; de seu
isolamento, de sua exclusão, de seus sentimentos de vergonha,
de medo, de ódio, de angústia. Para que ele venha de novo,
acreditar nele mesmo, encontrar a sua dignidade, sua
identidade, sua consciência, liberando sua palavra, suas
riquezas e potencialidades curadoras, apoiando-se sobre as
ligações de solidariedade comunitária e sobre os seus recursos
culturais.
Saindo desta reunião, Fátima, minha amiga médium, que
assumia a coordenação da Casa de Cura, veio me importunar,
como gosta de fazer com os seus vizinhos.
Segundo ela, eu fui sucessivamente nas vidas anteriores a
filha de Jean Pierre, que era então uma duquesa inglesa,
depois fui seu filho, quando ele era um negociante italiano,
isto há dois ou mais séculos atrás.
Devo confessar que esta ideia me divertiu muito assim mostra
bem a simplicidade e a familiaridade de nossas relações desde
que nós nos conhecemos, como também o lado ao mesmo
tempo protetor e atencioso que ela tem a meu respeito.
Ela insiste também, porque isto lhe contenta, sobre o fato de
que eu tenho o espírito, o caráter e as vibrações espirituais de
um velho padre teimoso e obstinado que sempre quer fazer
construções, igrejas, capelas. Estes traços me vieram do Padre
Cruz, padre da mesma têmpera que a do Padrinho Ciço, que
eu o teria encarnado no final do século XIX. Ela fala como se
eu tivesse desempenhado este papel em uma peça de teatro.
É verdade que construir, sobre o terreno da comunidade, o
sólido, o durável, me tranquiliza, mas são, sobretudo, as
ligações que se nutrem na ação realizada em conjunto que me
interessam. Nosso objetivo é antes desenvolver uma
psiquiatria das relações e não dos espaços.
Há muito tempo, eu pensei realizar meu ideal, servir a Deus e
aos homens me tornando padre. Esta ideia me acompanhou até
ao meu retorno a Canindé. Agindo sobre o terreno de meu
projeto, fez-me renunciar ao sacerdócio, a me fechar em uma
capela, em uma igreja. Porque as religiões, que estão
destinadas a ajudar aos homens a se religarem a Deus, os
impelem a se excluir, a se separar, a se combater, em nome da
fé. Para mim, a fé em Deus deve servir todos os homens; a
reunião para ajudar Dedé foi, a este respeito, um modelo de
ecumenismo, e podia-se contar: um evangelista, o coronel,
dois protestantes, seis católicos, dois umbandistas, uma
kardecista e três cristãos não evidentes, dos quais eu faço
parte. Minha posição pareceu-me ser a única compatível com
aquilo que me apresentou como meu fim, minha missão,
minha pulsão.
Estabelecer os traços de união entre os homens, mas também
entre o saber popular e o científico entre a Europa e o Brasil...
entre o passado e o futuro. Este é ao mesmo tempo o meu
projeto e a minha busca pessoal de universitário caboclo do
Sertão, harmonizar e unir estes elementos em mim mesmo e
no mundo: pelos fios da teia de aranha.
Meu caminho continua, as surpresas esperam-me. Terei de
olhar de frente a outras manifestações de minha cultura, a qual
necessitarei me integrar, assimilar, como eu fiz descobrindo
as benzedeiras, os umbandistas. Cada vez é uma questão a ser
tratada, a busca de uma outra harmonia, de um novo equilíbrio
entre os diferentes elementos que me constituem. Minha
busca de identidade não pode se satisfazer com uma sutil
dosagem, e se anunciar como a receita do bolo de limão Picon
- composta por César na peça teatral de Pagnol — uma metade
indígena, uma metade europeia, um pouco universitário, um
quarto sertanejo; o todo salpicado de fé... Não, eu tinha de
assumir plenamente cada uma destas identidades, para ser as
partes inteiras caboclas, universitárias e sertanejas. Tudo isto
é um programa de vida!
Quanto à referência lisonjeira, ao Padim Ciço, dificilmente
posso recusar; porque esta identificação está relacionada à
minha cultura do Sertão, a meus antepassados, a meus valores
familiares.
Ao final, de todas as nossas reuniões, cantamos de mãos
dadas.
Também agora eu lhe proponho, antes de nos separarmos,
para você sentir esta ligação de solidariedade, este espírito de
fraternidade, entrar conosco na roda, sob o ritmo de um
samba; que cantemos juntos:
Deus nos chama para um novo momento.
Para caminhar junto com o seu povo
É hora de transformar o que não dá mais
Sozinho, isolado, ninguém é capaz.
Por isso vem, entra na roda com a gente também
Você é muito importante, vem (bis).
A força que hoje faz brotar a vida
Atua em nós pela tua graça.
É Deus que nos convida a trabalhar,
O amor repartir e as forças juntar (refrão).
Posfácio
Este livro tem uma história. A aventura na qual Adalberto e
eu nos encontramos começou há sete anos.
Encontramo-nos pela primeira vez em 1988, durante o
colóquio realizado pela Associação Psiquiatras Sem
Fronteiras, intitulado “Poder e Possessão”. Impressionei-me
com a sua exposição sobre um profeta do sertão; no momento
de suas intervenções e ante o fascínio que ele exercia sobre o
auditório, suscitando um élan de simpatia e uma atenção que
era mais do que benevolência.
Suas propostas rompiam com o discurso teórico da moda dos
falatórios e sutilezas de raciocínio finamente elaboradas. Ele
manejava a metáfora e a anedota, tocava mais a imaginação e
o coração do que a inteligência lógica, fria e polida, própria
dos discursos universitários. Foi então apresentado a todos
nós como professor da Faculdade de Medicina do Ceará -UFC,
em Fortaleza.
Durante a refeição, encontramo-nos face a face. À primeira
vista, notava-se a sua aparência frágil, a pequena tez de cobre,
os olhos cintilantes, maliciosos, as maçãs do rosto altas, os
cabelos lisos e negros. Ele não precisava reivindicar sua
origem brasileira e sua ascendência indígena. Logo em
seguida, senti passar uma corrente de simpatia. O entusiasmo
e a confiança comunicativa com os quais ele falav a do seu
trabalho, de suas convicções, de seu povo, me havia intrigado
e depois seduzido.
Ao escutá-lo, a gente punha-se a acreditar na humanidade e a
ter esperança. Quem poderia resistir a tanta energia colocada
a serviço de tão justas causas?
A conversação entabulava-se entre nós, como se já nos
conhecêssemos desde muito tempo e ele se mostrava tão
interessado pelas minhas pesquisas e questões, quanto eu pela
originalidade de seu engajamento.
Prometemos calorosamente de nos visitarmos. Propostas de
circunstâncias, pensei eu; no momento mal havíamos nos
conhecido.
Aproveitando as ocasiões, nós nos vimos frequentemente. Um
pequeno ponto havia sido lançado sobre o Atlântico. Assim,
em minha primeira passagem por Fortaleza, ele me mostrou o
trabalho que havia realizado em Canindé; depois ele me levou
para a comunidade de Quatro Varas, em meio de uma enorme
favela, Pirambu.
Ele me havia falado várias vezes da forma de Terapia
Comunitária que conduzia neste lugar de exclusão; deixando -
me cada vez mais ansioso. Desejava muito ver como ele se
conduzia para animar e dar sentido às trocas que ele suscitava
no interior de uma assembleia de 80 pessoas.
Isto eu obtive às minhas custas. A alquimia comunitária à qual
ele se entregava, todos os dias, não consistia em um saber
apenas, um saber fazer as técnicas transmissíveis e
transportáveis a outros lugares ou circunstâncias.
Fui surpreendido pela simplicidade do desenrolar destas
sessões e pela familiaridade existente nas relações
interpessoais. Estava curioso para compreender os recursos da
dinâmica coletiva. O essencial residia na força de sua
implicação e no espírito que animava essas reuniões,
consistindo, portanto, em: oferecer um espaço para a fala;
favorecer, a partir de uma situação difícil vivida por alguém,
a relação com a experiência que fora vivida por outros
participantes. Com isto, extraía o sentido e os meios
comunitários para responder a estas dificuldades, reforçando
assim, os vínculos de solidariedade.
Eu descobria, assim, que sua ação terapêutica era mais de
ordem relacional do que técnica. Seu exemplo e seu modo de
viver reativaram questões sobre mim mesmo. Em que eu s ou
útil? Qual o sentido de minha vida, quais são os meus
engajamentos, meus valores? O contato com ele era
subversivo e, sem suscitar culpabilidade ou má consciência,
despertava inveja, desejo de fazer alguma coisa, de também
fazer mais. Sente-se em sua presença, como uma evidência
constante e, portanto, tão facilmente esquecida, que todo ser
humano tem como missão ajudar a outro, assim, ele mesmo,
pois disto decorrem a sua sobrevivência, a sua dignidade e a
sua realização.
Ele oferece com acuidade o sentimento de ser e de ter uma
parte da humanidade, de ser contável e de ser uma parte
relevante da evolução desta humanidade.
Tive o prazer de escutá-lo, de segui-lo e o acompanhar em
suas ações e reflexões.
Professor de Medicina Social na Universidade Federal do
Ceará, em Fortaleza, Psiquiatra, Teólogo, Doutor em
Antropologia; Adalberto de Paula Barreto, isto, passa para
todos, não o que se chama comumente um intelectual. Não
que ele não pense ou não tenha nada a dizer; ele fala todos os
dias, na rádio regional. Aparece na televisão todas as sextas-
feiras, escreve regularmente numerosos artigos. Escreve tanto
no amplo Jornal do Nordeste, como na imprensa
especializada. E não sabe como recusar os múltiplos convites
para participar de congressos. Somente, eis, portanto, a causa,
pelo fato de que o principal para ele, antes de qualquer outra
coisa, é a ação. O pensamento está claramente a serviço do
concreto: ao formalizar o agir, ao dar sentido ao ato. Trata -se
continuamente de ajustar o ato ao espírito que inspira a refletir
sobre suas consequências e prolongamentos.
Assim, ele faz com que seus alunos de Medicina vão a campo.
Não aceita ensinar aos futuros sacerdotes do Nordeste ou aos
estudantes de Psicologia de uma universidade americana, se
não for com a única condição de que o ensino ocorra no local
de seu atual engajamento.
A sua pedagogia faz-se de forma ativa. Ela se baseia no
compromisso e participação de cada estudante a uma ação
ligada a uma reflexão pessoal e às suas múltiplas incidências.
Os estudantes prestaram suas cooperações para a prevenção
de certas infecções infantis, na organização de grupos,
integrando as crianças de rua no projeto de plantas
medicinais, ou na realização de um filme sobre a prevenção
de AIDS. Isto se faz com a colaboração de curandeiros e de
casas espíritas de Umbanda. Pode-se extrair através de alguns
exemplos de pretextos pedagógicos, que os objetivos seguidos
por Adalberto Barreto vão além da simples aquisição ou
transmissão de um saber. O caráter destes objetivos é mais do
que um trabalho iniciático de integração de valores, de
mudanças de estado de espírito, nas relações de cada um com
o outro e com o mundo.
Quando a gente fala com ele sobre a sua ação, ele emprega
espontaneamente o “nós” não um “nós” de majestade ou
visando diluir a sua responsabilidade, mas um verdadeiro
“nós”. Ele quer colocar a sua liberdade e disponibilidade a
serviço da ação coletiva, com as numerosas famílias que o
reconhecem e que ele reconhece como sua.
Assim, sua família de nascimento, que conta muito e se
encontra muito presente em seu pensamento ação, sua equipe
do Centro de Família, mas também seus familiares de coração,
seu povo do Nordeste, seja favelado, índio tremembé ou
peregrino de Canindé. Enfim, sobre a teia de areia, os vínculos
do coração e da afinidade espiritual que tece sem afrouxar,
sempre mais longe, seus numerosos amigos.
Apaixonado e entusiasta, desde a minha primeira estadia, pelo
projeto de criação de um movimento integrado de saúde
mental comunitário, em Quatro Varas, eu o convida va
constantemente para que redigisse este projeto, sob a forma
de uma pesquisa-ação. Engajando-me para interceder em seu
favor, junto à Fundação para o Progresso do Homem (onde eu
estabelecera ligações de confiança e simpatia), para obter um
apoio material e moral, pensava que minha função se limitaria
a esta intermediação, colocando os interessados em contato.
Fui surpreendido, comovido, mas também fiquei inquieto ao
me encontrar engajado no contrato de ajuda estabelecido entre
a Fundação para o Progresso do Homem e meu amigo,
condição acordada entre as duas partes para que a ajuda
solicitada viesse. Estava estipulado neste acordo que eu
deveria efetuar um acompanhamento do projeto e participar
na redação de um livro sobre a vida e a experiência do meu
colega.
Desde então, nossas relações tornaram-se mais estreitas, com
encontros mais frequentes. Eu estava fazendo parte integrante
do Projeto Quatro Varas, membro exterior ativo da
comunidade. Escrever a dois, um texto na primeira pessoa,
retraçando os contornos da história de um deles, tal era a
aposta que nós quiséramos ter, o desafio que nós
consideramos relevante.
Como em toda a aventura, o entusiasmo e o interesse comum
que nós partilhamos para o sucesso da empresa, mascarava a
realidade do engajamento necessário para o término destas
tarefas. O fato de ir de surpresa em surpresa nos assegurava
sobre o caráter dinâmico do projeto, tudo isso insinuando os
temores e dúvidas diante da complexidade das questões a
resolver. As dificuldades foram numerosas, dada a distância
que nos separava: distância geográfica, linguística, cultural.
A amizade que nos ligava e o bom domínio do francês, por
Adalberto, nos convidavam a negligenciar a distância, como
se o desejo de nos compreender implicasse apagar nossas
diferenças de ritmo, de maneira de viver, o modo de conceber
a vida e as relações com o outro. Era preciso, após a tentativa
de diferentes métodos, nos render à evidência: tínhamos
necessidade de tempo.
O envio de disquetes, depois de fitas cassetes, substituído pe la
troca de fax, não resolvia a questão principal, aquela da
confiança e do conhecimento. De fato, não era suficiente se
conhecer um pouco, mas muito, para ficarmos inteirados
sobre o itinerário da vida de um homem. E o significado de
que a evolução deste homem, sua presença no mundo, pode
ser compreendida por alguém, o outro, o leitor dessa
ocorrência. Nós logo nos inteiramos de que meu trabalho não
podia reduzir-se a transcrever as ideias, os textos ou os
acontecimentos. Nem seria suficiente registrar, coletar as
informações, para descobrir o sentido, a mensagem contida
nas experiências sociais da existência narrada.
Devíamos, para responder à nossa ambição, ir além, ou
melhor, verificar mais em profundidade os fatos, as
realizações, as ideologias, para escrever a história de um
homem.
Em um primeiro momento, havíamos acreditado que
pudéssemos escapar a esta evidência, tentando articular
cronologicamente a sucessão de fatos, de encontros, de
projetos, de sucessos deixando ao leitor a tarefa de descobrir
a originalidade deste personagem principal, impressões
deixadas na ação, no decurso do tempo por ele vivido.
Colocar o projetor sobre o próprio Adalberto obrigava a
passar da informação à confidência de uma narrativa, que quer
ser objetiva, sobre um destino na descoberta de sua
subjetividade. A rememoração de sua história de vida e
revisitar os momentos de sua vida tão distante quanto ele
possa se lembrar. Evitar a repetição das palavras e frases,
tornando de novo, vivos, os significados e os valores nelas
inscritos.
Este trabalho, que é preciso ser qualificado como analítico, no
sentido etimológico de desprender, remontando-o no tempo,
nos fatos, foi particularmente criativo. Isto explica quem a
despeito das dificuldades de nossas resistências não
renunciamos à tarefa.
Para Adalberto, o trabalho de criação, recriação, traria uma
nova perspectiva, para ambos, sobre a sua vida. Para mim,
consistia em um trabalho de criação, interpretação.
Interpretação do ator que coloca o seu talento, seu estilo, a
sua subjetividade a serviço de uma obra e do personagem que
ele deseja encarnar. Interpretação analítica, portadora de
sentido, expressando uma outra coisa do que aquilo que o
próprio Adalberto, sozinho, não poderia dizer ou escrever
sobre ele mesmo. Análise que permite ir o mais próximo
possível daquilo que ele transmite sobre a sua origem.
Se este trabalho revelou, em certos aspectos, embaraços e
dificuldades, confesso ter tido regalias para anotar as
observações, recolher as informações, procurar documen tos,
registrar anedotas e testemunhas.
Depois, para deixar infundir, mover, ligar -se, transformar-se,
transmutar em mim todos os elementos referentes ao meu
amigo, para dar, através da escrita de sua história, minha
versão sobre a sua presença e de seu impacto no mundo.
Trata-se, para mim, de um trabalho pessoal, de um
engajamento que ultrapassa a satisfação de participar em uma
obra útil, em um combate geral a essencial. Eu me senti a parte
beneficiada, porque estava interessado, por minha própria
conta, em trabalhar os numerosos temas que o itinerário de
meu amigo brasileiro oferece a reflexão: a solidão, a fé, o
engajamento, a família, a memória, a cultura, dando -me a
ocasião de me distinguir, de precisar minha diferença.
Assim, o projeto inicial, ajudar Adalberto a escrever um livro
sobre a sua vida e experiência, foi transformado rápida e
certamente em uma espécie de “exa-autobiografia”, gênero
pouco corrente que me pareceu, entretanto, ser a melhor
maneira para tornar legível e interessante o texto.
Escrevi a história de Adalberto na primeira pessoa. A
expressão que me vinha então a público, é que eu lhe servi de
“negro” (isto é escravo). Reivindiquei inteiramente a escrita
do livro, sua concepção, sua forma, o estilo.
Por causa disto, escolhi escrever, tecer a história de meu
amigo, como um tapete: a trama é romanesca, sobre ela passa
e repassa a roda viva, que puxa o fio do passado ao presente,
depois, do presente ao passado, deixando com o tempo, de
capitulo em capítulo, aparecer os contornos e as core s de uma
existência, de um destino.
Este livro é, bem entendido, o fruto de um diálogo, o reflexo
de uma relação, de sua dinâmica. Todo encontro autêntico
gera uma transformação se o risco for assumido. O emprego
da metáfora de gestação e parto justifica-se para a escrita de
um livro, sobretudo quando ele é feito a dois. Porém, “os pais”
encontram-se mudados, e eu transformado: eu não sou mais o
mesmo. Adalberto não é mais o mesmo.
Nossa ambição e voto são para que este processo de
transformação ofereça ao leitor a oportunidade de que ocorra
com ele este mesmo processo, ao entrar em contato com esta
história.
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