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COSTUMES E DIÁLOGOS – ASSOCIAÇÃO CULTURAL

Bailes
Seis de Fevereiro de mil novecentos e dez.

Domingo solarengo, apesar do frio que se faz sentir.


No Barrocal, aldeia muito próxima da Vila de Pombal, a
azáfama é grande em casa do Ti Joaquim.
Há bailarico combinado para esta tarde. À falta de bancos em
quantidade suficiente para colocar à roda da sala, colocam-se tábuas
de cadeira a cadeira, para que o máximo de pessoas que vierem ao
baile se possam sentar.
Duas candeias já foram penduradas no tecto, para dar uma boa
iluminação. Mãe que se preze não deixa a sua filha frequentar sítios
mal iluminados.
A ideia do baile partiu de um grupo de rapazes. Emprestada a
casa, (o Ti Joaquim sempre foi um homem que gostou muito de
bailaricos), e contratado o músico, oriundo da aldeia do Folgado, a
divulgação foi rápida. As pessoas convidaram-se entre si e ninguém
vai faltar. Os bailes são a única hipótese de divertimento e também
uma boa maneira de falar às moças. Por isso, todos os rapazes se
prezam por dançar bem.
Uns minutos antes do início, já há café feito e sandes prontas
para vender. O café fica ao borralho para não arrefecer e vai sendo
servido conforme o apetite da rapaziada. Também serão servidos
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uns copos de vinho, naturalmente. O garrafão fica a um canto, com


um copo em cima, que serve para todos beberem. A receita da
venda destes produtos serve para pagar ao tocador.
Antigamente, os músicos eram pagos com uma ceia,
normalmente batatas com bacalhau. Agora já querem dinheiro.
Por vezes os bailes são realizados sem músicos. Os pares
dançam ao som do canto de todos os presentes.
Hoje há uma novidade neste baile, em casa do Ti Joaquim.
Vem um tocador de harmónio, por isso espera-se casa cheia. Os
instrumentos mais habituais nos bailaricos têm sido a flauta de
beiços, o pífaro e às vezes a guitarra ou o bandolim.
À hora falada, as pessoas começaram a chegar. Rapazes e
raparigas, em silêncio, ocuparam sítios opostos na sala.
O tocador deu início ao baile.
Ao som do vira-valseado, enleio, estaladinho, verde-gaio, fado
mandado ou fadinho do pião, rapazes e raparigas «enlearam-se»,
dando à sala uma alegria própria de juventude ansiosa de namorico.
Enquanto o harmónio é habilmente tocado, as saias rodam
num frenesim quase de loucura.

«…uma voltinha, tudo ao centro, tudo dentro, bate certo


devagar, muito curto pass’o par, um à frente largadinho, ainda outro
bem curtinho…»

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A voz do mandador, gritada a plenos pulmões, quase que


abafa o harmónio.
As moças com os seus lábios vermelhos, olhos brilhantes, os
peitos roliços saltando ao compasso do sapateado, deixam ávidos de
desejo os rapazes.
Estes vão fazendo as despesas da casa, bebendo uns copitos
de vinho e oferecendo café às pretendidas, contribuindo assim para
que o músico leve alguns trocados no bolso e vontade de voltar.
Em redor, aninhadas, porque os assentos são poucos e as
pernas endurecidas por longas jornadas, as mães controlam,
movimento a movimento, as suas filhas.
Serenamente, as horas passam. Cabeceiam já os velhos.
Ao longe canta o galo e ainda o harmónio vibra numa
derradeira tarefa de entreter um namoro agora começado ou o
desafio de um coração arisco em demasia.
E só madrugada alta é que começa a debandada.

Uns quilómetros mais abaixo, na Vila de Pombal, decorrem


três bailes cuja afluência é determinada pela estratificação social
vigente.
O baile mais «fino e chique» e, por conseguinte, o mais
importante na teia social pombalense, realiza-se na sede da
Associação dos Empregados do Comércio, situada no Largo do
Cardal, junto à casa do Dr João Elói.

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O salão, amplo e espaçoso, tem ao fundo um palco decorado


com um pano habilmente pintado por Aires Mesquita, um jovem
pintor pombalense de grande sensibilidade artística, que mais tarde
se haveria de tornar um pintor português de relevância nacional e
internacional.
Aqui a música não sai das mãos
virtuosas de um tocador de harmónio ou
das «flaitas» de rapazes habilidosos, mas
de uma «troupe de bandolinistas»,
ensaiada superiormente por Ricardo
Augusto da Silva, (um génio musical
pombalense), e que tem neste baile a sua
estreia.
O baile decorre animado. Todos os
presentes estão intimamente
impressionados, não só porque a
orquestra de cordofones toca
magistralmente, mas também pela graça
que o «belo sexo» comunica à festa,
como que devassando o palácio
Jornal O Imparcial, 12 de Maio de 1910
encantado da sensualidade. Aqui as
preocupações da vida não têm entrada.

A orquestra descansa um pouco. Para trás ficaram executadas


as valsas Brise Parfumée (Franceschini) e Amor de Mãe (A.

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Pimenta), a marcha Luso-Bussaco (de autoria do regente Ricardo


Silva) e a polka Primi Passi, (Carosio).
É o momento de funcionar o esmerado serviço de bufete.
Tudo é feito de acordo com os predicados sociais dos participantes.
As queijadas da Ti Maria Rata são a principal atracção. Combinam
muito bem com uma xícara de café bem quentinho. Para alguns
mais afoitos, um copito de vinho serve de repasto principal. E quem
diz um, diz dois…
A orquestra recomeça. As cinco violas, oito bandolins e um
violino voltam a dar ao salão um toque de magia. Com os estômagos
mais saciados, a alegria aumenta de intensidade e a troca de olhares
entre os candidatos ao namorico torna-se mais frequente, apesar do
olhar inquisidor das mães das raparigas.
O baile termina tarde. Já se vislumbra o nascer do dia quando
os últimos participantes abandonam as instalações da Associação
dos Empregados do Comércio.

No antigo teatro da Rua do Rio, (localmente conhecido por


«Teatro do Pé Fresco») sede actual da Associação dos Artistas,
decorre outro baile, animado pela Tuna dos Artistas habilmente
regida pelo senhor João da Fonseca Lopo. Esta Associação é
habitualmente o «rendez-vous» da rapaziada fina da baixa e até da
alta. O baile decorre muito animado. A fina flor do pequename cá
da terra, cujos trajes garridos e omnicolores se casavam festivamente
com o sorriso e com a alegria dos seus rostos encantadores,

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aquecidos ao rubro pelas chamas do coração em brasa, ali bateu o pé


incansavelmente durante toda a noite.
Um quadro perfeito da folgança, do amor e do prazer.
Ninguém assiste a este baile de ânimo frio e impassível, e quem não
quiser deixar enlevar-se no fogo comunicativo da rapaziada nova,
tem por força de fugir daquele ambiente provocante.
Um sol-e-dó excelentemente regido e ensaiado, proporcionava
aos participantes belos trechos de música.
No Celeiro da Quinta da Gramela,
situado na Praça do Comércio, um terceiro
baile decorre, com a mesma alegria e
entusiasmo. A terceira casa de bailarico
pela ordem decrescente da importância
social. Um grupo de artistas locais
improvisou uma pequena orquestra que
toca umas valsas, bem como o verde-gaio,
o lundum ou o baile mandado. Ali tiraram Jornal O imparcial, 27 de Janeiro de
1910
a barriga de misérias, acumuladas durante
meses, muitas e algumas belas pequenas, dançando umas pelas horas
dentro da noite e outras pelas horas fora.
A mesma alegria, a mesma paixão, o mesmo amor ardente,
trocado entre olhares cúmplices e cheios de desejo, o que prova que
os sentimentos mais intensos são propriedade de todos,
independentemente da sua condição social.

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Os bailaricos pombalenses

Sem qualquer tipo de dúvida, podemos afirmar que as gentes


da região de Pombal sempre tiveram um gosto especial pela arte de
bailar. Cronistas antigos referem mesmo que em Pombal se dançava
muito bem a chacota, (dança muito antiga, século XVI, entretanto
desaparecida).
Os bailes tinham por vezes uma origem espontânea. Isso
acontecia quando grupos de rapazes e raparigas se encontravam, por
norma, ao domingo à tarde. Principiavam com cantigas à desgarrada
e se no grupo havia alguém com uma «flaita» de beiços, harmónio
ou um banjolim, era certo o bailarico.
Os bailes espontâneos também se viam durante as Festas do
Bodo. O povo abalava na sexta-feira a pé, vindo da sua aldeia, em
direcção à Vila e por cá ficava, dormindo onde calhava, só
regressando após o fogo de artificio
de domingo à noite.
Traziam os seus tocadores e
era ver estes ranchos de gente, em
cada esquina, a proporcionar
bailaricos espontâneos. Os
namoricos fervilhavam, com os
moços e as moças a querem aquilo
que era sobejamente proibido na Baile espontâneo – Década de cinquenta

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época. Por vezes, os mais afoitos recebiam, como prémio do seu


atrevimento, umas boas pauladas na tola, que naquele tempo as
coisas não se resolviam por menos.
Nas actividades agrícolas, onde se juntavam ranchos de
pessoas, também se organizavam bailes espontâneos, como era o
caso das descamisadas, vindimas, ripadas, no final da apanha da
azeitona, onde davam ao pessoal as «filhoses» e um baile, o corte do
pasto, em que a paga é um baile e uma merenda, a apanha do
centeio e a monda do arroz.
Estes bailes espontâneos surgiam do gosto natural que as
pessoas tinham em conviver, cantar e dançar.
No entanto, a maioria dos bailes eram organizados. Nas
comemorações das festividades ao longo do ano, nomeadamente
durante o Carnaval, Santos Populares, Festas do Bodo e outras
romarias, o baile tinha o seu lugar cativo nos festejos.
Na aldeia, a organização dos bailes cabia, por norma, a um
grupo de rapazes. Realizavam-se em casas de particulares, na
chamada sala de fora. Caso fosse difícil arranjar uma casa,
realizavam-se na estrada ou numa eira.
Se na aldeia não existiam músicos, eram contratados nas
aldeias vizinhas. Os instrumentos usados para acompanhar as
danças começaram por ser o realejo e o pífaro. Mais tarde
apareceram a flauta de beiços (também chamada de flaita), o
harmónio ou uma pequena concertina e os instrumentos de corda
(banjolim, banjo, viola e violino ou rabeca). No caso de não haver

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músicos, os bailes faziam-se ao som do canto dos rapazes e das


raparigas.
Para arranjar dinheiro para pagar aos tocadores, vendiam-se
café, sandes e vinho. O garrafão ficava a um canto da sala. Todos
bebiam pelo mesmo copo. No Outeiro das Galegas era uso oferecer
uma ceia (batatas com bacalhau) aos músicos como pagamento.
Os bailes eram muito concorridos, pois era a única
oportunidade de «falar às moças». E todos os rapazes se esforçavam
por dançar bem, para impressionar as raparigas.
Outrora, as danças usadas nesta região eram o Vira, a Valsa, a
Masurka, o Rodízio, o Fado Batido, o Verde-Gaio, o Malhão
(Louriçal), o Bailarico (Vermoil), o Trevo e a Caninha verde (Abiul),
o Sapateado, o Corridinho (Ramalhais), as Modas Valseadas e à
Roda, com pé á frente e pé atrás (Antões), o Fandango (Mata
Mourisca), o Vira de Dois (Vieirinhos), o Sarilho e a Moda de 2 e 4
passos (Barrosa), o Estaladinho, o Ferrim-Fim-Fim, o Pião, Tacão e
Bico, o Enleio, o Fado e o “Adeus Vila di Pombal” (Pombal), entre
outras. Imperavam sobretudo as muitas danças de roda.
Os bailes na aldeia permaneceram sem grandes alterações até
meados dos anos sessenta do século XX, altura em que por via de
melhores condições económicas, nomeadamente receitas da
emigração, se puderam contratar conjuntos musicais organizados,
que tocavam músicas mais modernas, ao gosto da juventude desse
tempo.

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Mas se na aldeia os bailes poucas alterações sofreram durante a


maior parte do século XX, na Vila de Pombal já não se pode dizer o
mesmo.
No último quarto do século XIX e primeira década do século
XX, pode dizer-se que a Vila de Pombal teve uma dinâmica cultural
intensiva. A criação da Filarmónica Artística Pombalense, (permitiu
a formação musical de forma contínua), por volta dos anos
cinquenta do século XIX, e a proliferação de associações culturais,
contribuíram para o desenvolvimento cultural em Pombal,
nomeadamente ao nível musical.
Pontificavam nomes como os irmãos Cardosos, Augusto
Sousa, Mário Sousa, Albertina, Carlos Oliveira, Aires Mesquita,
entre outros.
Mas a personagem mais marcante e influente, nesta época, foi
o Dr. Manuel Rodrigues Pinto. Não sendo um pombalense nativo,
foi-o sem dúvida de coração. Tendo a medicina como área de
formação e depois de uns anos como médico na Armada, em 1870
veio para Pombal exercer a actividade de médico municipal.
Tinha o condão da popularidade e
mercê dos seus conhecimentos de música,
teatro, pintura, dança, etc., imediatamente a
sua influência e a sua aptidão se
manifestaram em actividades culturais que a
juventude dessa época organizava,

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nomeadamente récitas, concertos, bailes, bandos precatórios, etc.


Sendo um músico por excelência, o Dr. Pinto participou em
diversas orquestras pombalenses, sendo também autor da música de
várias récitas e peças de teatro exibidas em Dr. Pinto Rodrigues Pinto
Pombal.
Cativava a juventude para as actividades culturais e sabia
responder cabalmente aos desafios que iam surgindo.
Nos finais do século XIX (por volta de 1895), um dos muitos
grupos dramáticos que na Vila de Pombal então se constituía,
acabava de levar a efeito, com estrondoso sucesso, uma récita, cuja
parte musical foi dirigida pelo Dr. Pinto. Após essa récita, surgiram
rivalidades com outros grupos cénicos, de que resultou este grupo
ficar sem casa para apresentar os seus espectáculos.
O Dr. Pinto não ficou indeciso por muito tempo. Comprou
uma casa, na Rua do Rio, (hoje Rua Conde Castelo Melhor), que a
seguir pôs à sua disposição do grupo cénico, para nela prosseguir
com as suas actividades culturais. Esta casa passou à história com a
graciosa denominação de “Teatro do Pé Fresco” e em cujo palco o
actor Carlos de Oliveira deu os primeiros passos na sua brilhante
carreira artística.
Em 1893, durante os festejos de S. João e S. Pedro, o Dr.
Pinto, em parceria com Augusto Sousa, dirigiu uma orquestra que
animou os bailes realizados no majestoso pavilhão ornamentado
com balões venezianos, lanternas, bandeiras, etc. Os bailes foram

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muito concorridos e a orquestra mereceu rasgados elogios na


imprensa local desse tempo.
No final do século XIX, estas pequenas orquestras, em que os
instrumentos de cordas eram predominantes, (banjolins, bandolas,
violas e violinos ou rabecas), animavam os bailes que se
organizavam na Vila de Pombal durante todo o ano. São a génese
das Tunas que haveriam de surgir uns anos mais tarde.
Por meados da primeira década do século XX, começaram a
surgir as primeiras tunas organizadas, por norma ligadas a uma
colectividade. Inicialmente apresentaram-se como «Troupe de
Bandolinistas».
Ligada à Associação Artística Pombalense, (também conhecida
como Associação dos Artistas e mais tarde como Associação
Operária), surgiu a Tuna dos Artistas. Funcionava no Teatro Pé
Fresco.
A sua actividade consistia na participação em bandos
precatórios, récitas e bailes, normalmente organizados pela
Associação dos Artistas. O seu regente era habitualmente o regente
da Filarmónica Artística Pombalense. Em 1911 foi regente o Sr.
João da Fonseca Lopo e em 1912 já foi o Sr. José Nunes
d’Ascenção.
No Carnaval de 1910, estreava-se a Tuna dos Empregados do
Comércio (também conhecida por Tuna dos Caixeiros), nos bailes
organizados na sede da Associação dos Empregados do Comércio,
situada no Largo do Cardal, no primeiro andar de um edifício que

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existiu onde hoje se encontra a passagem pedonal entre o Cardal e a


Rua Almirante Reis. Mais tarde, a sede passou para o Largo do
Pelourinho, no primeiro andar do edifício onde estava nessa altura o
Grémio e hoje se encontra a Óptica Lourenço.
O seu primeiro regente foi o Sr. Ricardo Augusto da Silva e
era composta inicialmente por cinco violas, oito bandolins e um
violino. Animavam bailes, acompanhavam récitas e bandos
precatórios, faziam arruadas e tiveram algumas actuações noutras
localidades.
Até 1917 só existiram estas duas tunas na Vila de Pombal,
responsáveis pela maioria das actividades musicais, a par com a
Filarmónica.
Alguns bailaricos, organizados particularmente, contavam com
a participação de músicos independentes, que se juntavam
especificamente para a actividade contratada, não tendo carácter de
continuidade. Eram componentes da Filarmónica, agrupados em
grupo de sete ou oito elementos, cujos instrumentos eram
normalmente o clarinete, saxofone, trompete, tuba (para fazer o
baixo) e caixa de rufo. O reportório era essencialmente constituído
por marchas, valsas, polcas, etc. Mas isso só acontecia nos festejos
mais importantes do calendário, nomeadamente carnaval e santos
populares.
Em 1917 apareceu a Tuna do Dr. Mingueis, assim chamada ao
grupo de cordofones ensaiado pelo Dr. Mingueis.

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Tuna 1º de Maio

Em 1920 surgiu a Tuna Pombalense 1º de Maio. Que


inicialmente foi regida pelo Sr. Gonçalves da Farmácia e
seguidamente pelo Sr. Ricardo Augusto da Silva.
Teve actuações em várias localidades e basicamente fez o
mesmo das anteriores, ou seja, animou bailes, participou em bandos
precatórios e arruadas.
Os bailes, na Vila de Pombal, no final do século XIX e
primeira década do século XX, tiveram como protagonistas
pequenas orquestras de cordofones. Na segunda década do século
XX, foram as tunas musicais que passaram a ter o protagonismo na
animação dos bailaricos.

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Nos finais dos anos 20, (século XX), as tunas começaram a


sentir sinais definitivos de declínio. O mundo já não dançava a valsa,
a marcha… as danças agora chamavam-se fox-trot, tango e
charleston. Era o tempo do jazz-band, de forte inspiração norte-
americana.
Nessa época começavam a surgir por todo o país
agrupamentos musicais conhecidos pelos «jazzes», essencialmente
constituídos por instrumentos de sopro e bateria.

A Vila de Pombal não estava assim tão afastada das modas que
iam surgindo pelo mundo e não ficou indiferente a esta nova moda
musical. Surgiram então na Vila grupos de jazz-band, constituídos
por músicos formados na Filarmónica Pombalense.

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Banda Pombalense de Jazz-Band – finais da década de vinte e principio da


década de trinta (século XX)
SUL-AMERICA JAZZ
Da esquerda para a direita: Joaquim Trino; Joaquim Gomes;
Alfredo da “Xica”; José Oliveira; Aníbal “Trinta”; Jorge
Gonçalves (sapateiro); Carlos “Foguete”; Horácio “Careca”

Os ritmos de inspiração americana começaram a invadir os


salões de baile pombalense. O Teatro do Pé Fresco já estava em
declínio e o Celeiro (hoje o Centro Cultural) começava a assumir o
papel de espaço ideal para o bailarico.
Nos finais dos anos trinta surge a Orquestra Jazz Vitória, na
mesma onda melódica do Jazz-Band, tendo como impulsionador
Carlos Carvalho, que era baterista desse agrupamento musical.
Carlos Carvalho assume nessa época um papel determinante na
criação de vários grupos musicais, tendo sido a Orquestra Jazz
Vitória o primeiro grupo musical liderado por si.

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Banda Pombalense de Jazz-Band – finais da década de trinta (século XX)


ORQUESTRA JAZZ VITÓRIA
Da esquerda para a direita: Manuel Lopes (Soure); Valentim
Buga; João Fernandes da Piedade; Carlos Carvalho; Neves;
Almeida

Este agrupamento musical viria mais tarde a dar origem à


Orquestra Baião, mais tarde designada também por Conjunto Baião.
Foi de facto um dos conjuntos musicais mais importantes, no
século XX, na Vila de Pombal, não só por ter durado bastantes anos
(tendo tido várias formações) como por ser bastante solicitado quer
na Vila de Pombal quer em vários pontos do país.
Durante a construção da Barragem da Bouçã, no rio Zêzere, o
Conjunto Baião ia todos os fins de semana animar os trabalhadores
desse empreendimento.
De início, tinham uma espécie de farda, composta por calça
preta e um blusão amarelo e a sua apresentação fazia lembrar a
banda de Glenn Miller, muito em voga nessa época.

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ORQUESTRA BAIÃO
(principio da década de cinquenta)
Da direita para a esquerda: Carlos Carvalho (Filho) com dez anos; Carlos
Carvalho (Pai); Lopes (Soure); Almeida; João Óscar (de fato e gravata, era
normalmente cantor); Desconhecido (ao lado de João Óscar, também de fato e
gravata); Valentim Buga; Américo “da Chica”; Augusto César Oliveira; Luís
Cacau; Em baixo, Sr. Aguiar.

Jornal O ECO, 25 de Abril


de 1957

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CONJUNTO BAIÃO
(finais da década de cinquenta)
Da direita para a esquerda:x; y; Carlos Carvalho; Almeida;

O Conjunto Baião dura até princípios dos anos sessenta.

Nesse tempo, com o proliferar dos órgãos de comunicação de


massas, sobretudo a rádio, a gravação fonográfica, o cinema e a
televisão, a juventude torna-se uma camada a ter em conta na
sociedade.
O fenómeno do ié-ié percorre todo o país, que começa a
anglo-saxonizar-se através da música.
A Vila de Pombal não iria ficar indiferente a este fenómeno
social.
Em 1965 surgia o primeiro conjunto electrónico pombalense,
o Conjunto Kinzé Varela. Com a ambição de gravar um disco e ir a
um programa de televisão, este agrupamento musical moderno
percorreu toda a região centro do país em actuações, ombreando

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com importantes grupos musicais da época, como a Orquestra de


Shegundo Galarza.

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A era dos instrumentos electrónicos chegava. Os metais e o


acórdeon passaram para segundo plano, nos conjuntos mais
organizados. Esporadicamente, tendo como cenário de fundo os
bailaricos nas aldeias mais remotas, organizaram-se grupos musicais
mistos, ou seja, onde a parte mais moderna convivia com a parte
mais tradicional. Foi o caso, por exemplo, do conjunto musical
«Américo da Xica e Seus Muchachos» , que animavam bailes para se
divertirem, sem grande rigor nem grandes ensaios, apoiando-se na
forte experiência musical dos seus elementos.

Conjunto Musical Américo da Chica e sus Muchachos

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A partir dos anos setenta, a proliferação dos conjuntos


musicais foi uma constante. É nessa altura que aparece o Conjunto
Integrante, liderado pelo saudoso Manuel do Barrocal, que teve
várias formações e que foi sem dúvida um dos grupos musicais de
referência da Vila de Pombal.
Outros grupos surgem. O Quarteto Clave, com o Fernando
Falcão, o Órbita Zero, com o Laureano, o Tozé Aguiar, o Tó
Cordeiro, o Ex-libris, dos manos Carreira, do Tó Leitão, o Conjunto
Os Chamas, pertencente aos Bombeiros Voluntários de Pombal,
entre outros, são o exemplo da grande vitalidade musical que as
gentes de Pombal sempre tiveram.

CONJUNTO INTEGRANTE
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CONJUNTO “OS CHAMAS”


Anos 70 (século XX)

1985
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Portefólio documental e fotográfico

Jornal O Imparcial
1 de Julho de 1909

Anúncio no Jornal Imparcial no ano de 1909

Jornal O Imparcial, 20 de Maio de 1909

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COSTUMES E DIÁLOGOS – ASSOCIAÇÃO CULTURAL

Programa das festas de Santo António de


1909 – Jornal O Imparcial

Jornal O Imparcial,
15 de Julho de 1909

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COSTUMES E DIÁLOGOS – ASSOCIAÇÃO CULTURAL

Jornal O Imparcial, 27
de Janeiro de 1910

Jornal O Imparcial, 12 de Maio de 1910

Jornal O Imparcial, 30 de Outubro de 1910

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COSTUMES E DIÁLOGOS – ASSOCIAÇÃO CULTURAL

Jornal O Imparcial, 19
de Fevereiro de 1911

Jornal O Imparcial, 30 Abril de 1911 Jornal O Imparcial, 23 de Abril de 1911

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COSTUMES E DIÁLOGOS – ASSOCIAÇÃO CULTURAL

Jornal O Imparcial, 25 de Fevereiro de 1912

Jornal O Imparcial, 18 de Fevereiro de 1912

Jornal O Imparcial, 18 de Fevereiro de 1912

Jornal O Imparcial, 14 de Abril de 1912

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COSTUMES E DIÁLOGOS – ASSOCIAÇÃO CULTURAL

Jornal O Imparcial, 20 de Maio de 1917

Jornal O Imparcial
22 de Fevereiro de
1918

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COSTUMES E DIÁLOGOS – ASSOCIAÇÃO CULTURAL

Tuna dos Artistas


(Pé Fresco)

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COSTUMES E DIÁLOGOS – ASSOCIAÇÃO CULTURAL

Conjunto Kinzé Varela

Baile de finalistas do Externato Marquês de Pombal


(No Salão dos Bombeiros Voluntários de Pombal – Antigo Quartel na Avenida Heróis do
Ultramar)

Nas Festas do Bodo, anos sessenta do século XX

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COSTUMES E DIÁLOGOS – ASSOCIAÇÃO CULTURAL

Sr. Amândio de Aguiar, viola baixo do Conjunto


Kinzé Varela, durante uma actuação nas Festas do
Bodo

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COSTUMES E DIÁLOGOS – ASSOCIAÇÃO CULTURAL

Com o Conjunto Shegundo Galarza

Segunda formação do grupo

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COSTUMES E DIÁLOGOS – ASSOCIAÇÃO CULTURAL

Actuação em Leiria, no Teatro José Lúcio

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COSTUMES E DIÁLOGOS – ASSOCIAÇÃO CULTURAL

Quinteto Varela

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COSTUMES E DIÁLOGOS – ASSOCIAÇÃO CULTURAL

Quinteto Varela nas Festas do Bodo


(Finais dos anos 40 - Séc. XX)

Na guitarra portuguesa (1º plano) João "Barbeiro".


Na viola (2ºplano) Abel "Chauffeur".
No Quinteto, da esquerda para a direita:
Maria Madalena Pessoa Varela Pinto, Luís António
Pessoa Varela Pinto, Carlos Manuel Pessoa Varela
Pinto, Maria da Conceição Pessoa Varela Pinto e
António Maria Pessoa Varela

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