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Poder Judiciário

Justiça do Trabalho
Tribunal Regional do Trabalho da 20ª Região

Dissídio Coletivo de Greve


0000035-45.2021.5.20.0000

Processo Judicial Eletrônico

Data da Autuação: 19/02/2021


Valor da causa: R$ 10.000,00

Partes:
SUSCITANTE: SINDICATO DAS EMP DE TRANSP DE PASS DO MUN DE ARACAJU
ADVOGADO: Ricardo Santana Bispo
SUSCITADO: SINDICATO DOS TRABALHADORES EM TRANSPORTES RODOVIARIOS DE
ARACAJU-SERGIPE
SUSCITADO: ASSOCIACAO DOS TRABALHADORES EM TRANSPORTE RODOVIARIOS
ATIVOS E INATIVOS DO ESTADO DE SERGIPE- ASTTRAIESE
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PODER JUDICIÁRIO
JUSTIÇA DO TRABALHO
TRIBUNAL REGIONAL DO TRABALHO DA 20ª REGIÃO
GABINETE DO PLANTONISTA
DCG 0000035-45.2021.5.20.0000
SUSCITANTE: SINDICATO DAS EMP DE TRANSP DE PASS DO MUN DE
ARACAJU
SUSCITADO: SINDICATO DOS TRABALHADORES EM TRANSPORTES
RODOVIARIOS DE ARACAJU-SERGIPE E OUTROS (2)

AÇÃO/RECURSO: DISSÍDIO COLETIVO DE GREVE COM PEDIDO LIMINAR N°.


0000035-45.2021.5.20.0000
ORIGEM: T.R.T. DA 20ª REGIÃO
PARTES:
SUSCITANTE: SINDICATO DAS EMPRESAS DE TRANSPORTE DE PASSAGEIROS DO
MUNICÍPIO DE ARACAJU - SETRANSP
SUSCITADOS: SINDICATO DOS TRABALHADORES EM TRANSPORTES RODOVIÁRIOS
DE ARACAJU - SINTTRA E ASSOCIAÇÃO DOS TRABALHADORES EM TRANSPORTES
RODOVIÁRIOS ATIVOS E INATIVOS DO ESTADO DE SERGIPE - ASTTRAIESE
DESEMBARGADOR PLANTONISTA: FABIO TÚLIO CORREIA RIBEIRO

Vistos etc.

Cuida-se de DISSÍDIO COLETIVO DE GREVE, com pedido liminar,


ajuizado pelo SINDICATO DAS EMPRESAS DE TRANSPORTE DE PASSAGEIROS
DO MUNICÍPIO DE ARACAJU - SETRANSP, qualificado na peça de
ingresso, insurgindo-se contra o movimento paredista deflagrado por
empregados de empresas de transporte coletivo, sendo suscitados
nesta ação o SINDICATO DOS TRABALHADORES EM TRANSPORTES RODOVIÁRIOS
DE ARACAJU - SINTTRA e a ASSOCIAÇÃO DOS TRABALHADORES EM
TRANSPORTES RODOVIÁRIOS ATIVOS E INATIVOS DO ESTADO DE SERGIPE –
ASTTRAIESE.

Alega o suscitante que se trata de greve ilegal, tendo “a categoria


dos rodoviários, com a aquiescência do sindicato réu, iniciou

Assinado eletronicamente por: FABIO TULIO CORREIA RIBEIRO - Juntado em: 19/02/2021 18:32:54 - a90f0e1
paralização do transporte urbano da capital, impedindo o tráfego
dos ônibus, inclusive com atos de vandalismo a exemplo de sacar o
pneu dos veículos”.

Destaca que “o sindicato dos empregados, demandado nesta ação,


iniciou estado similar ao de greve, com a paralização do transporte
público, sem qualquer comunicação”, acrescentando “que, por mais
que não se tenha utilizado, literalmente, a palavra GREVE, as
atitudes do sindicato réu deixam claro que se trata de paralização
coletiva (greve), quando informou na convocação que decidiram sobe
o esta de greve e, logo após a reunião iniciou-se a paralização que
teve como ponto de partida a sede do sindicato”.

Frisa “que no momento atual de pandemia é necessário manter


o máximo possível do transporte público em funcionamento, a fim de
se evitar aglomerações”.

Com tais razões, a entidade patronal suscitante requer “que


seja deferido o pedido de tutela de urgência, inaudita altera
pars, determinando a suspensão do movimento grevista iniciado na
manhã do dia 19/02/2021, sob pena de multa no valor de R$
100.000,00 (...) ao SINDICATO DOS TRABALHADORES EM TRANSPORTES
RODOVIÁRIOS DO MUNICÍPIO DE ARACAJU –SINTTRA e à ASSOCIAÇÃO DOS
TRABALHADORES EM TRANSPORTES RODOVIÁRIOS ATIVOS E INATIVOS DO
ESTADO DE SERGIPE –ASTTRAIESE para o caso de descumprimento
da decisão, ou, alternativamente, caso não entenda Vossa
Excelência quanto a suspensão, seja determinado que, no mínimo, 80%
do efetivo laboral permaneça prestando os serviços à sociedade, sob
pena de multa diária às rés no valor de R$ 100.000,00”.

A inicial fez-se acompanhar de instrumento procuratório e de vários


documentos, incluindo registros fotográficos e extratos de notícias
veiculadas na mídia local.

Vieram-me os autos conclusos para a apreciação do pedido liminar,


em regime de plantão judiciário, nos termos da SGP.PR n.º 026/2021.

É o sucinto relatório.

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DOS FUNDAMENTOS DA DECISÃO LIMINAR

A concessão de liminar no bojo de ação judicial de dissídio


coletivo de greve é medida que se impõe nas hipóteses em que o
movimento de paralisação da categoria profissional suscitada possa
trazer prejuízos à coletividade, ressaltando-se, contudo, que o
julgamento de legalidade ou de ilegalidade da greve é questão a ser
examinada a posteriori, e não nesta ocasião de análise preambular.

Para o deferimento da medida excepcional, sem a ouvida da parte


contrária, é necessário que os autos já venham com a demonstração
dos elementos essenciais ao seu acatamento, quais sejam, o fumus
boni iuris e o periculum in mora. Basta que um desses requisitos
não se encontre presente para que não se conceda a tutela de
urgência.

Examinando os argumentos expostos pelo sindicato patronal autor,


bem como todos os elementos dos autos, concluo, concessa venia,
que, de fato, razão lhe socorre parcialmente, pelos motivos que
passo a expor.

Assim dispõe o art. 300 do CPC, in verbis:

“Art. 300. A tutela de urgência será concedida quando houver


elementos que evidenciem a probabilidade do direito e o perigo de
dano ou o risco ao resultado útil do processo.
§ 1o Para a concessão da tutela de urgência, o juiz pode, conforme
o caso, exigir caução real ou fidejussória idônea para ressarcir os
danos que a outra parte possa vir a sofrer, podendo a caução ser
dispensada se a parte economicamente hipossuficiente não puder
oferecê-la.
§ 2o A tutela de urgência pode ser concedida liminarmente ou após
justificação prévia.
§ 3o A tutela de urgência de natureza antecipada não será concedida
quando houver perigo de irreversibilidade dos efeitos da decisão”.

Destaco, de logo, que o art. 9º da Constituição Federal, inserto no


capítulo intitulado “Dos Direitos Sociais”, assim dispõe, in verbis:

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“Art. 9º É assegurado o direito de greve, competindo aos
trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os
interesses que devam por meio dele defender.
§ 1º A lei definirá os serviços ou atividades essenciais e disporá
sobre o atendimento das necessidades inadiáveis da comunidade.
§ 2º Os abusos cometidos sujeitam os responsáveis às penas da lei”.

Acerca do tema, igualmente é de se pontuar o que dispõe a Lei n.º


7.783, de 28/06/1989, diploma legal que trata do exercício do
direito de greve. Eis os teores dos seus artigos 9º, 10 e 11, in
litteris:

“Art. 9º Durante a greve, o sindicato ou a comissão de negociação,


mediante acordo com a entidade patronal ou diretamente com o
empregador, manterá em atividade equipes de empregados com o
propósito de assegurar os serviços cuja paralisação resultem em
prejuízo irreparável, pela deterioração irreversível de bens,
máquinas e equipamentos, bem como a manutenção daqueles essenciais
à retomada das atividades da empresa quando da cessação do
movimento.
Parágrafo único. Não havendo acordo, é assegurado ao empregador,
enquanto perdurar a greve, o direito de contratar diretamente os
serviços necessários a que se refere este artigo.
Art. 10 São considerados serviços ou atividades essenciais:
(…).
V - transporte coletivo;
(…).
Art. 11. Nos serviços ou atividades essenciais, os sindicatos, os
empregadores e os trabalhadores ficam obrigados, de comum acordo, a
garantir, durante a greve, a prestação dos serviços indispensáveis
ao atendimento das necessidades inadiáveis da comunidade.
Parágrafo único. São necessidades inadiáveis, da comunidade aquelas
que, não atendidas, coloquem em perigo iminente a sobrevivência, a
saúde ou a segurança da população”.

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Claramente se vê que a classe que se encontra em greve – ou em
parcial paralisação – desenvolve serviços essenciais à coletividade
, uma vez que são trabalhadores de transporte coletivo, consoante
expressa previsão legal.

Desta forma, não se pode admitir um movimento paredista integral


dessa categoria obreira, o que prejudicaria sobremaneira toda a
sociedade, devendo, portanto, ser mantido um quantitativo mínimo de
trabalhadores na ativa, a fim de assegurar a prestação do referido
serviço essencial à coletividade.

A jurisprudência do Colendo TST segue no sentido de que a fixação


do percentual mínimo do efetivo a ser mantido trabalhando deve
seguir o bom senso, a se analisar caso a caso pelo julgador. Na
hipótese em tela, entendo razoável o percentual mínimo de 70%
(setenta por cento) em atividade, mormente em se considerando a
situação atual que vivenciamos de pandemia, que põe em risco o bem-
estar e a saúde da população, bens jurídicos de máxima estatura
constitucional.

Entendo que retirar mais do que 30% da frota dos veículos e do


efetivo de trabalhadores do transporte coletivo urbano pode causar
um dano irreparável consubstanciado no risco de propagação ainda
mais incontrolável do vírus Covid-19, haja vista que tal situação
provavelmente acarretaria uma aglomeração bastante grande nos
veículos (ônibus) em circulação.

É público e notório que a reunião muito próxima de pessoas é uma


das condições mais propícias para a contaminação da doença.

Ressalto que o movimento paredista deve, primordialmente, dirigir-


se ao empregador, e não pode ter o intuito de prejudicar a
coletividade, principalmente na situação atual de crime sanitária
por que passamos.

Assinado eletronicamente por: FABIO TULIO CORREIA RIBEIRO - Juntado em: 19/02/2021 18:32:54 - a90f0e1
Nesse sentido de fixação de percentual semelhante, ou seja, que
pode ser elevado sem pôr em questão o direito constitucional de
greve, apresento precedente do Colendo TST, in verbis:

“A petição inicial indica que a deflagração da greve decorreu do


impasse gerado em decorrência da negociação do acordo coletivo de
trabalho 2020/2021. Desse modo, não há como, em sede liminar e sem
contraditório das entidades sindicais suscitadas, emitir juízo de
valor definitivo da qualificação da greve e a determinação de
retorno de todos os trabalhadores ao serviço. Todavia, emerge que
os serviços prestados pela suscitante são considerados essenciais e
esse elemento pode ser valorado para assegurar a prestação dos
serviços indispensáveis à população, nos termos do art. 12 da Lei
nº 7.783/1989. Desse modo, ainda que a pretensão de que seja
determinada a suspensão da paralisação não mereça guarida, em face
da garantia ao direito de greve prevista constitucionalmente,
mostra-se viável a determinação do contingente de trabalhadores,
para a manutenção, durante a greve, da prestação dos serviços
indispensáveis ao atendimento das necessidades inadiáveis da
comunidade. Assim, defiro de forma parcial, liminarmente, o pedido
sucessivo da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, no
sentido de que a categoria profissional mantenha em atividade,
enquanto perdurar a greve, o contingenciamento mínimo de 70%
(setenta por cento) dos trabalhadores em cada uma das unidades
localizadas nas bases territoriais dos suscitados, na linha de
decisões anteriores em processos similares, calculado sobre o
quantitativo de trabalhadores efetivos que estavam trabalhando
presencialmente no dia 14/08/2020, devendo, também, se abster de
impedir, nas referidas unidades, o livre trânsito de bens, pessoas
e cargas postais. Fixo, ainda, a multa diária no importe de R$
100.000,00 (cem mil reais) em caso de descumprimento das
determinações”. (TST-DCG- 1001203-57.2020.5.00.0000, Relatora
Ministra Kátia Magalhães Arruda, Julg. 01/09/2020).

Por tudo quanto foi exposto, resta caracterizada a “fumaça do bom


direito”, elemento essencial ao deferimento da liminar.

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Quanto ao segundo elemento essencial ao deferimento de liminar,
qual seja, o “perigo na demora”, também se encontra demonstrado,
haja vista a necessidade de definição relativa a serviços
essenciais e a imperiosa urgência de manter serviços de transporte
mínimo para atender as legítimas necessidades da população,
destacadamente em período de grave crise sanitária.

DECISÃO

Ante o exposto, concedo parcialmente a liminar requerida,


determinando que o sindicato e a associação suscitados mantenham o
efetivo mínimo de 70% (setenta por cento) dos trabalhadores na ativa
, por se tratar de serviço essencial, sob pena de pagamento de
multa em favor do sindicato suscitante de R$ 65.000,00 (sessenta e
cinco mil reais) por dia de eventual descumprimento desta decisão,
sem prejuízo da adoção de outras medidas que se fizerem necessárias
ou mesmo sem prejuízo da responsabilização judicial do agente
responsável peloeventual e indesejável descumprimento.

Intimem-se a instituição suscitante, o sindicato e a associação


suscitados e o Ministério Público do Trabalho do inteiro teor da
presente decisão, inclusive de que já fica designada audiência de
tentativa conciliatória relativa ao presente processo para o
próximo dia 22/02/2021 (segunda-feira), às 14 horas, na modalidade
telepresencial. Ainda no próprio dia 22/02/2021 será divulgado para
as partes e para o parquet o link da audiência telepresencial.

Cumpra-se, com urgência, ainda na data presente, ficando o sr.


Oficial de Justiça, desde já, expressamente autorizado a efetuar as
diligências necessárias após as 20:00 horas, com fulcro no art. 212
do CPC, inclusive com requisição de força policial, se necessário
for.

Deverá o meirinho, na ocasião, certificar o horário e a quem foi


comunicada a presente decisão, identificando as respectivas pessoas
intimadas.

Assinado eletronicamente por: FABIO TULIO CORREIA RIBEIRO - Juntado em: 19/02/2021 18:32:54 - a90f0e1
Aracaju, 19 de fevereiro de 2021.

FABIO TÚLIO CORREIA RIBEIRO


Desembargador Plantonista

ARACAJU/SE, 19 de fevereiro de 2021.

FABIO TULIO CORREIA RIBEIRO


Desembargador Federal do Trabalho

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https://pje.trt20.jus.br/pjekz/validacao/21021918174334500000006239179?instancia=2
Número do processo: 0000035-45.2021.5.20.0000
Número do documento: 21021918174334500000006239179

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