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TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

Colégio Recursal - Osasco


Avenida das Flores, 703, Jardim das Flores - CEP 06110-100,
Osasco-SP
Processo nº: 0003140-08.2018.8.26.0068

Registro: 2019.0000042555

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos de Recurso Inominado Cível nº


0003140-08.2018.8.26.0068, da Comarca de Barueri, em que é recorrente TELEFÔNICA
BRASIL S/A, é recorrido ZILAH REGINA CAPELANI DOS SANTOS.

ACORDAM, em sessão permanente e virtual da 3ª Turma Cível do Tribunal de


Justiça de São Paulo, proferir a seguinte decisão:Negaram provimento ao recurso, por V. U., de
conformidade com o voto do relator, que integra este acórdão.

O julgamento teve a participação dos Juizes DENISE INDIG PINHEIRO (Presidente)


e RAUL DE AGUIAR RIBEIRO FILHO.

São Paulo, 23 de abril de 2019

José Maria Alves de Aguiar Junior


Relator
Assinatura Eletrônica

Recurso Inominado Cível nº 0003140-08.2018.8.26.0068


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0003140-08.2018.8.26.0068 - Fórum de Barueri


RecorrenteTelefônica Brasil S/A
RecorridoZilah Regina Capelani dos Santos

Voto

Recurso inominado Aparelho de telefone celular - Vício Relação


de consumo - Responsabilidade solidária e objetiva dos fornecedores
- Devolução dos valores pagos - Danos morais configurados
Manutenção do valor fixado na sentença - Recurso improvido.

Vistos etc.

Trata-se de Recurso Inominado interposto por Telefonica Brasil S/A

irresignada com r. sentença que acolheu a pretensão inicial, condenando, solidariamente, as

empresas demandadas à devolução da importância paga pela recorrida para a aquisição do

aparelho celular mencionado na exordial (R$ 3.388,48) e ao pagamento da importância de R$

2.000,00 (dois mil reais), a título de danos morais.

Recurso contrarrazoado.

Relato do essencial.

Decido.

Recurso Inominado Cível nº 0003140-08.2018.8.26.0068


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Processo nº: 0003140-08.2018.8.26.0068

A r. sentença deve ser mantida por seus próprios e bem lançados

fundamentos.

Consoante se observa da narrativa da inicial, a recorrida adquiriu um

aparelho celular, modelo Xperia M5-DT, no dia 07/02/2017. O valor da aquisição foi embutido

nas parcelas do plano contratado. Além disso, arcou com o valor do contrato de seguro,

totalizando o investimento R$ 3.388,48 (três mil trezentos e oitenta e oito reais e quarenta e

oito centavos).

Porém, poucos dias após a compra, o aparelho apresentou falhas em seu

funcionamento. Por diversas vezes o encaminhou para a assistência técnica, mas, sem sucesso.

Na tentativa de solucionar o problema, a recorrida celebrou acordo com a fabricante do

aparelho, que não foi cumprido. Requereu a devolução da quantia paga e a reparação dos danos

morais suportados.

De se consignar, que a relação havida entre as partes é de consumo e

inteiramente regida pelas disposições do Código de Defesa do Consumidor. A questão

controvertida não pode deixar de ser apreciada, portanto, sob a ótica protetiva do direito do

consumidor.

A recorrente afirma que não deveria integrar o polo passivo da ação,

tampouco responder pelos danos pleiteados pela recorrida, uma vez que inexistiram ilicitude e

culpa em sua conduta, estando ausentes os elementos caracterizadores da responsabilidade

civil.

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Ocorre que, em negócio jurídico submisso aos ditames do Código de

Defesa do Consumidor, todos os fornecedores que atuam na cadeia de consumo são

responsáveis pela reparação integral dos danos causados ao consumidor (art. 7º, p.u, do CDC),

não importando sua relação direta ou indireta, contratual o extracontratual (ANTONIO

HERMAN BENJAMIN e outros, in Manual de Direito do Consumidor, Ed. RT, 5ª ed., p. 117).

Se a solidariedade não se presume, dependendo da vontade do legislador

ou das partes, tratando-se de relação de consumo “tendo mais de um autor a ofensa, todos

responderão solidariamente pela reparação dos danos previstos nas normas de consumo” (art.

7º e 25º).

Assim, a responsabilidade perante o consumidor, ex vi dos artigos 18 e

20 do Código de Defesa do Consumidor, é da cadeia de fornecedores, visto que quando o

legislador usa a expressão “fornecedor” pensa em todos os profissionais da cadeia de

fornecimento.

Nesse diapasão, perante o vulnerável por excelência (CDC, art. 4º, I),

como forma de proteção da facilitação de sua atuação em juízo (6º, VIII, primeira parte) e da

busca do direito subjetivo à reparação integral do dano (6º, inc. VI), havendo defeito ou vício

relativo ao produto ou à prestação do serviço, todos os fornecedores da cadeia de consumo

respondem pelos danos suportados pelo consumidor, sem prejuízo de eventual ação de

regresso para discussão da culpa pelo ato em si entre os fornecedores.

Logo, de acordo com tais premissas, pouco importa a origem do vício de

fabricação no produto, porque todos os fornecedores são solidariamente responsáveis pelos

danos sofridos pelo consumidor.

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No mais, a responsabilidade civil do fornecedor nas relações de consumo

é objetiva, pois prescinde do elemento da culpa para sua caracterização, como regra,

competindo ao fornecedor, para afastar sua responsabilidade, a prova de que o defeito/vício

inexistiu, se ele decorreu exclusivamente da responsabilidade da vítima, por fato de terceiro ou

foi oriundo de fato essencial (caso fortuito ou força maior), o que não se verificou no caso em

tela.

Ao contrário.

Consoante se infere dos autos, a recorrida comprou o aparelho, que

apresentou defeito, o encaminhou diversas vezes para a assistência técnica, celebrou acordo

com a fabricante, que não foi cumprido, suportando danos causados, portanto, exclusivamente,

pelos fornecedores do produto, sendo cabível o ressarcimento pleiteado.

Com efeito, as dificuldades enfrentadas para solução do problema, o

desgosto, a frustração quanto à utilização do celular, aliado ao descaso, caracterizado

especialmente pelo descumprimento do acordo celebrado junto ao PROCON, evidenciam os

transtornos suportados, por culpa exclusiva dos fornecedores, incluindo a recorrente, já que não

agiram com a cautela devida, configurando a hipótese de dano moral indenizável, conforme

reconhecido na sentença recorrida.

Nesse sentido, já decidiu o E. Tribunal de Justiça de São Paulo:

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Compra e venda de bem móvel. Aparelho celular com defeito.

Consumidor que enfrenta verdadeira “via crucis” para ter acesso à

assistência técnica. Contexto fático que releva muito mais do que mero

aborrecimento próprio do cotidiano. Teoria do desvio produtivo. Danos

morais configurados. Indenização majorada para R$ 5.000,00. Recurso

do autor provido, recurso da ré improvido (Apelação nº

1003126-81.2016.8.26.0066, 32ª Câmara de Direito Privado do Tribunal

de Justiça de São Paulo, Des. Relatora MARIA CLÁUDIA BEDOTTI,

data do julgamento 11/04/2019) (destaquei).

Por fim, observa-se que o quantum indenizatório fixado a título de danos

morais (R$2.000,00), merece prevalecer, pois, em hipótese alguma pode ser considerado

exorbitante. Além disso, é legítimo e adequado diante das particularidades do caso, a gravidade

do fato em si, a responsabilidade dos agentes, a condição econômica das partes, tendo sido

observados dos critérios de razoabilidade e proporcionalidade.

Assim, se nos afigura absolutamente correta a sentença, ora mantida em

sua integralidade.

Ante o exposto e, considerando no mais que dos autos consta, pelo meu

voto, NEGO PROVIMENTO ao recurso, condenando a recorrente nas custas e aos honorários

advocatícios, ora fixados em 10% do valor da condenação.

Recurso Inominado Cível nº 0003140-08.2018.8.26.0068


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JOSÉ MARIA ALVES DE AGUIAR JUNIOR

Juiz Relator

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