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De repente a chuva

Natália Agra
De repente a chuva
Natália Agra
De repente a chuva
Natália Agra

1ª reimpressão
Fabiano, Mainha & Nela, o meu primeiro ato para vocês
Para tia Lu e para meu pai (in memoriam)
De repente a chuva
Imagine the clouds dripping.
Dig a hole in your garden to
put them in.
Yoko Ono

há uma gota de chuva na cabeleira abandonada


enquanto o sangue faz naufragar as corolas
Roberto Piva

nuvem cheia da minha chuva


cruza o deserto por mim
Paulo Leminski

Rain falls on everyone


The same old rain
And I’m just trying to walk with you
Between the raindrops
Smashing Pumpkins
Love song

quando você me aperta o coração


cortando da gaivota
o silêncio
da solidão, o frio
aprendo aos poucos os acordes de “La Vie en Rose”
te dou metade da palavra amor
e espero do caminho,
a outra metade

11
Monóculo

tenho um vento a dizer:


o corpo vestido em popeline
quase que em vergonha
subir o vestido pelos cotovelos
sorriso franzido abria-se entre as arestas das mãos
bonita de azul
renda nas pernas sua mais discreta agonia
um origami de estrela
se abrindo

vi o fusca 73
ainda mais azul
trazer um rio
dançando a esquina
onde carros, pessoas
esperam, correm
seguem em frente

tenho um vento soprando os olhos


nessa esquina em que muito esperei
assento praça na paciência
deixo-me inerte onde mais tive sorte
congelado em preto e branco
sorriso fosco
a vi passar em popeline
o retorno azul do vento

12
Mountain blue bird

traduzo o céu com teu nome


mas tua cor me diz outra coisa:
aurora boreal no teu coração
pilotis dos sonhos

da montanha:
o frio cinza
em cima da ponte
jazia nos teus olhos
o mais colorido pôr do sol desta estação

13
Debaixo das nuvens

estamos no inverno e isso é chuva


de repente
às vezes sol
sombra quente enfileirando árvores
no dia em que fui mais feliz, eu o vi
tecia nuvens:
venha e caia sobre mim

e isso se repete
em longas e breves caminhadas
o que exatamente são as nuvens
senão o telhado das casas?
do avião, algodão
em loucura, uma orquestra de mãos dadas
[ no alto da montanha

te esperarei nua
com os últimos pedacinhos de chuva
libélulas no oitavo andar
nenhuma gota de nós
só um sorriso lambia os olhos

14
domingo seríamos a alegria
a surpresa
o sol escancarado no fim do arco-íris
os olhos para o outro
abertos um no outro
como nuvens que rebentam a chuva

nasce o nosso verão de novo


15
In the mood for love

i
como hei de dizer poesia?
o toque fino nas costas
do desenho abstrato
nasce uma orquídea nos dedos

ii
os gatos nos distraem
se distraem
até que pegam no sono por nós quatro

iii
eu gosto é de ficar aqui
com você
e os últimos desejos
namorados das estrelas

iv
a alegria nem sempre alegra
é aí que nos abraçamos e aumentamos o volume pela casa
já é tarde, no outro dia
você diz que meu sorriso desnuda o seu

16
v
decoramos a casa
com os nossos beijos
e muita bagunça na cama

vi
você me deu a sua máquina de poemas
eu te mostrei o meu maior segredo
você se esconde dentro de mim

vii
na rua
espalho a multidão
deixo você passar
e parar quando quiser

caso queira, vejo contigo as vitrinas mudarem de estação


aliás, vemos a chuva, a rua molhada, a luz da noite
[ derramar na chuva a luz da lua
fazemos a chuva parar
e voltamos pra casa

17
viii
do olho mágico
te vejo sair
e te espero voltar

ix
o que me deixa mais feliz?

o fim da noite
quando no teu peito
sinto o teu coração bater
e respondo, noite bem!

x
estamos no segundo inverno
aquietando a chuva
na rosa mais vermelha do coração

18
O grito da montanha
Para Jacques Roubaud

“Quando chega o verão, eu grito


para espantar gente, o ouriço,
o outono, mais calmo,
faz um silêncio irritadiço

No inverno durmo leve em minha toca


enroscada num embrulho de pedras
Na primavera como ervas,
faço sala e de novo grito para alegrar as salamandras”

A marmota tão contente


faz a garganta virar berrante
sobre a montanha
o grito cru, lancinante
( )*

* um verso agudo de grito, bem longo.

19

Para Paulo Leminski

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20
Uma pré-história

sou o ser mais sozinho no mundo


me chamam de feio, gordo,
arrasto canelas curtas,
asas que não me cabem sacudir

tiram dor de mim


sou o ser mais sozinho no mundo
tenham dó de mim

me chamam dodô não por acaso


sou o ser mais sozinho no mundo
e quando eu voltar pra casa
que em mim seja definido o céu
onde me deem a chance de voar

eu cabendo em mim, voando sem milagre pelo pôr do sol


com penas alinhadas,
num pessegueiro
eu deitaria meu sono da sorte:
meu amuleto
– sou um ser no mundo

21
Hombrecillos verdes & pimenta malagueta

sobre peixes falam as redes


dão o prato, a folha de bananeira, a espinha
os olhos:
restos de nada
olham os peixes, arregalados

sobre grises falam os cientistas


dão a forma, o mito, o visco
os discos voadores
olham os grises, superiores

e a pimenta, em passos de tango,


o corpo vermelho de novidade, de suor-batendo,
de não sei dizer
do já dito
do ido
dançando-ardendo – pega fogo

22
A dúvida é o certo
Para minha mãe

eu vivia assim, com um olho fitando futuros


e o outro,
nem passado, nem presente
atravessando a redoma
– o próprio vidro estilhaçado –
a mania de costurar invernos
me preparou para grandes embarcações
troquei o duvidoso pelo certo
e quando achei que acertei
a dúvida já não era minha
já era história:
era onda e barco

eu anelada – cancelando retornos


preparando estoques de tranquilidade
meia dúzia de enlatados

buscando o que o peixe comeu, afoguei silêncios,


juntei os estoques, outros:
lixo atrapalhado – pés que pedem horizontes tantos
noutros pássaros
na dúvida entre o fundo do mar e o alto de:
[ a correnteza ainda levou-me
de tantas águas,

23
O álamo e o baobá (parentes de Zambra)

há livros que são abismos,


mas não era disso que eu queria falar
o quarto também era escuro na fé morta
tateei o som das árvores de Zambra
do baobá, cortei os galhos secos-brutos
do álamo, fiz um vestido longo
comprei um salto alto finíssimo para combinar

desci ao saguão
a festa dançava espaçosa aqui dentro
era sonho demais para acordar
havia uma festa e eu estava vestida de árvore, nessa ordem
a ordem das coisas e bichos soltos
sonhei que o livro era branco feito inverno,
pero el invierno estaba lejos

não permaneci no sonho


fechei o livro que de novo se fez treva
acendi as luzes e podei o manjericão
acho que sonhei isso também e acho que sonhei
que queria escrever para você
ao invés disso, beijei seu pescoço suado de sexta-feira
realizei meu sonho: você

o baobá: uma senhora enrugada


medusa invertida com braços a mais
serpente abatida

24
o álamo: uma moça de vestido longo e salto alto
uma girafa hermosa

zambra: uma árvore que escreve demais


um antílope atravessando nuvens de poeira no deserto

25
O percevejo e Zaratustra

tão curioso, fedendo a fim


Zaratustra falou: e como fede!
pousou frouxo no pescoço que sobrou da última segunda-feira
percevejo é carne, é segunda em pó, implorando domingos
o percevejo dorme no colo do homem que toca o sangue
aqui carregando nomes
o homem sem nome, o nome que diz o que diz do homem:
[ Zaratustra!

após esse encontro, já não eram os mesmos

Zaratustra só era um nome, no corpo do homem que dizia

o percevejo, virou o pó que o vento sopra por aí

26
O adejo dos golfinhos, o nado da gaivota

é bonito de ver
como num passeio improvável
o mar trocou de lugar com o céu:
a gaivota flutuante, o golfinho saltador
e o céu não acaba nunca

acrobacias e encontros
que tem como impulso
o vento, o ar passadiço
e o mar não acaba nunca

27
Troco em balas
Para Angélica Freitas

hoje troco quase tudo por açaí


e tranco a chave
hoje troco a vereda pela exaustão do caminho mais longo
troco a corneta pela flauta doce
hoje troco farpas por gentilezas
e deixo anotado na porta da geladeira
hoje troco quase tudo por bala
troco a dieta por milk shake
troco o reiki por haicais

hoje troco passeios em Vênus por meias voltas pela casa


deixo o vento ser uivo em meus cabelos-redemoinho
hoje troco quase tudo por nada
troco nada por açaí e balas
hoje troco arqueiros por flamingos
e ensino o alvo
troco a Via Láctea por farinha láctea
hoje troco quase tudo
e passo o troco em balas

28
Segunda pele

e a pele às vezes sentia frio


e por horas descascando sob sol
e por dias com equimose: a pele ardia,
sanguessuga presa no muco
pobre pedaço de carne em sôfrego silêncio
no mais absoluto sofrimento

a pele solta
com os pelos louros desabando
a pele, inteira-dor
ainda que matéria
o que mais feria eram as palavras-chave
[ que corroíam até a mais densa pele:
o estômago que a tudo suporta,
a pele tinha até amor demais,
o que lhe trazia ainda mais traumas,
porque a pele
a tudo sofria
e o amor era sentimento inquietante,
isso destruía até o suor que dava água à pele
a pele num deserto,
lá onde o poeta é sol

29
As banhistas cegas da paulisseia ilhada

la vie en close
um livro geral
caligrafias num coquetel molotov
nódoa de uma partilha a fio
num quarteto de corda, de gansos e patos

nunca mais seremos


livres e felizes como agora!

as horas do dia são estilhaços e nós


(iluminuras
artefatos)
ao redor de dez casas
de dez mágoas
casa devastada
pela música possível
de um cemitério

Sidarta, a gata e suas seis propostas para um novo medo


uma novela de Goethe
o palhaço e seus pontos de vista
formam telhados de vidro
gorgulham agulhas

30
as banhistas da paulisseia ilhada são cegas grutas
são um fetiche sob o dia-labirinto
sem direção,

o abismo

31
Os bonobos de Aruanda

que giram em girassol


como bobos, alfaiates da nudez
lobos de bom coração, talvez

que amam em carrossel


como bananas, como papoulas
fumando marijuana em ancas soltas

que destilam paz nas guerras


como hippies e seus escafandros
livres na sacanagem, malandros

que trepam em língua


como lagartos endiabrados, quizumba viva no quadril
no cio farto, o corpo viril

32
Os rinocerontes de Dalí

o sonho desfilava nos fios dos bigodes dos elefantes


[ de perna de pau
– tudo é sonho, dizia Dalí
numa garrafa de vinho vazia

...a ilha deserta dos barcos mortos


conhecida como ilha das nuvens de coalas
onde habita um rinoceronte com sua pele de seda e cacto
que, nas noites de lua, desfila como um unicórnio
num desfiladeiro de pedras e cordas

eu vejo rinocerontes daqui do outro lado da ilha


conduzidos por Baco
– que alegre dourado o horizonte de Figueres!
onde descansam os barcos mortos

33
Eu serei a hiena

– ainda tenho de suportar o meu cadáver,


bombardeado em Persépolis
me conforto numa gargalhada mortal
em desejo de outro corpo vivo
também em gargalhada
aí poderia ser mais uma vez uma hiena, não um cadáver

em Persépolis, a primeira vítima encontra-se sentada


[ numa cadeira elétrica,
num silêncio
como se já não existisse

– ou eu serei a hiena, ou podem rir de mim

34
Onde deitei

se concentra na caminhada

infla o peito de borboletas


alcança o céu que a balança
corta caminho pelas árvores
corre, que vai chover,

a chuva não espera,


o guarda-chuva transparente, espelho do céu
e ela ri fechando os olhos
numa espiral de pássaros,
a primavera desceu com nuvens de girassol

Catarina deitou-se entre as nuvens,


vestiu-se de flores,
como uma louca abraçada a um ramalhete de rosas,
com o fôlego dos peixes,

o gato preto-veludo sorriu


Catarina o abraçou,
o gato banhado das águas de Búzios:
vês a primavera?
Catarina desceu do paraquedas
correu e banhou-se de Iemanjá

desliza
até renascer azul

35
De repente a chuva
Para Emanuella

assisto como memória que rebobina


um episódio da infância em
que pulei do abacateiro ao pé de sombra,
como eu chamava, como eu chamava
também, casa onde eu pegava a chuva,
que fazia convite de manhã cedinho
de um véu da janela:
(ouvir, da madeira, o ronco melancólico, as folhas caindo
o vento-fantasma
e as gotículas descendo pelas arestas
da arquitetura rústica da memória)

(e foi assim que a chuva deixou de ser só água,

era rio

talvez uma lágrima que sempre cai)

de repente

36
Estrela-do-mar
Para Lis

que espetáculo é a palavra crepúsculo!


labirinto-oceano
estrela cadente que valsa céu abaixo
segredos de água-viva
do navio projeto-me em concha, um par de mãos dadas
vieira-vênus:
(explosão da aurora)
que palavra é estrela senão chuva ?

37
Mutum-de-Alagoas
Para Many

quantas são as aves que podem


atravessar a primavera?

mitu
mitu

num assovio ao ouvido de volta à casa


reaprende a jornada de jambos e folhas secas
regressa farto da noite escura

numa manhã,
as cortinas da floresta o esperam
– bem-vindo de volta ao esconderijo dos anjos, cantava o saíra-pintor

além de mim, o segredo,


o regresso,
estampa a moldura no quintal
o estendedouro em clave
diz qual teu nome lá nas trevas infernais
Nada, Ninguém ou Nunca Mais

38
Atenção: trecho sujeito a neblina
Para Renato Russo

e do mar saíam ovelhas


clãs de algas marinhas
porcos purificados
um casal de girafas albinas da Tanzânia

eis a viagem de ópio:

enquanto dos óculos de sol escorriam nuvens


o horizonte coloria com cerejeiras
cavalos dourados
...uma plantação de maconha
e eu ouvia:

cavalos
marinhos

39
O mistério do pavão
Para Kurt Cobain

um misterioso pavão
) cauda aberta em borboleta (

num movimento de bailarina


avança sem grande esforço pela colina
num colorido e vagaroso sui

dio

40
As formigas

as an ai rq as ca
fo da nd ue nã pa
rm me ia so ot tó
ig mf na zi êm ri
as il po nh es as

41
Mundo perfeito
Para Lucas

, e então o bicho, em carne viva,


disputa a carcaça embebida em sais marinhos
onde tigres lançam fogo de dragão
e gritam como o diabo-da-tasmânia
invocando deuses de armadura

o riso do melro faz o sol se pôr mais cedo na varanda


e o bem-te-vi canta quando o silêncio invade a rampa da escada
numa estampa de primavera
nas arestas do jardim de inverno
o meu riso preferido é o barulho do fundo do mar
quando atrita o riso, as cores, a aurora boreal

e então o bicho,
galinha-d’angola, meu orixá
amaloca a ventura na boca do sapo
onde morcegos dormem de cabeça para cima
numa caverna de sangue
e agitam as asas como a libélula
que renasce flor de origami

42
A hora mais triste

quando as pessoas morrem,


o céu inverna
invernam-se também os olhos
como cavernas, pequenas grutas
de areia,
onde vivem outras águas

(morrer rebenta
sinos)

caminho de pedra até o céu


pés são poucos passos
reverso abraço de despedida
lágrimas demais caem no peito
quase sem batimento
cada gota, minha chuva
teu olhar, o dia cinza,
fazia da noite
ainda mais triste,
a tua hora

43
A tempestade
Those are pearls that were his eyes. Look!
T. S. Eliot
saudade
saudade é
saudade é um
saudade é um barco
saudade é um barco à
saudade é um barco à deriva
saudade é um barco à deriva na
saudade é um barco à deriva na tempestade

saudade é um barco à deriva na tempestade


saudade é um barco à deriva na

saudade é um barco à deriva


saudade é um barco à
saudade é um barco
saudade é um
saudade é
saudade

49
A poeira lenta
Para Mariana

vejo os destroços kamikazes de ontem,


lembrar de você, ainda
o riso
a festa no telhado onde se debruçava a chuva
taças de vinho me serviam:
o vento leva,
o corpo espera,
o cair prateado da lua
(cavalos-marinhos são fantasmas)
clareia a lua de Saturno
com o mesmo clarim
que campânula soou:
c’est la vie
a distância, nuvem de redemoinhos
o céu molhado de cinza
no bronzeado primeiro de outono,
aurora e caos
o mesmo chão alaranjado
sobrou-me um domingo inquieto
laranjeiras na sala de estar
meu convidado, a sombra

cantei a chuva:
água-viva

o meu êxtase: um vestido de flores


no fundo da gaveta

50
Lembranças

esquecer do começo, apenas a aurora


vestir de vermelho a mesma lembrança
conseguir voar
esquivar-se do agora

na prateleira
não só poeira
no chão
não só areia
em mim
ainda você
terra vermelha
suspiro
o barulho do nunca

(espaços vazios, meus retratos)

quando amanheço
velha de memória
consigo sentir o caleidoscópio
que esvazia o meu coração
por falta de ar
inclino-me para nadar
não só agora

esqueço de você
que na lembrança é fantasma

51
nenhuma razão para voltar
decreto o silêncio
nesta longa caminhada
onde jamais
pude pisar

52
O trem
Para Torquato Neto

às três da madrugada
penso que o trem se esqueceu
de mim
mão gelada
louca disparada
– seria esse o meu fim?

53
Escuta

esgrima a
órbita dos peixes dourados
o rio quebra fino nas pedras
pequena manifestação
de toques e tankas
o silêncio da saudade
quebra o rio
naquele mesmo dia
de ir embora
quando na verdade
escuta ainda mais
teu beijo frio
azul demais o mundo
teu aceno azul
a seda da pele
a cena única se
apaga a ribalta
cacto você volta
depois de amanhã
o rio corre de novo

54
Star song

tempestade: travessia de estrelas


constelação de águias
a descarga da chuva:
estrela nenhuma
negra nuvem de numiventos

a tempestade nunca cai no escuro


inicia-se a travessa das águas
chuva: pedacinhos de crepúsculo

numa escuridão transitam


as pegadas
só se escuta o silêncio
quando os deuses dormem
pós-sono haloperidol
chuva carregada de loucura
nenhuma estrela

a tempestade nunca cai na escada


atravessei as águas como águia

55
Rasga-mortalha
Para meu pai (in memoriam)

a esta ideia de morte


com sorte permaneceremos vivos
a esta ideia de morte que nos rasga sem delicadeza
canto de rasga-mortalha que estraçalha

– escolho um de vocês, dizia a coruja


e já preparávamos a toada do inverno dentro do peito

as horas seguintes serão das pazes


dos revólveres engatilhados
dos gritos últimos
o pio silenciado em gota d’água
lembraremos chansons
dias felizes
a impaciência incontida nos momentos parcos
a última caminhada pelo abraço íntegro

num instante se deu


às 6 da tarde de um relógio quebrado
num improviso, o gato me apareceu
trouxe-me flores,
eu já sabia
o cigarro havia se apagado no cinzeiro de mármore

56
– por que você já vai?, perguntou a abelha
– porque deu meu tempo, respondeu o carneirinho

o céu não demorou a cair


,

57
Não sei andar na chuva

muito mais que o tempo, dividir um guarda-chuva


atravessar sem medo, queda longe da parede
pega pela mão, a formiga
na outra, carrega-o
– tempo de costas
alguém disse: não sei andar na chuva
sendo um a menos
estampido são os gritos
no ritmo dos passos

alguém repetiu: eles eram muito felizes


ela, quinze anos
ele, os mesmos quinze
dividiam no guarda-chuva
a mesma tempestade
o riso insolente
o silêncio na xícara de café
beija o inverno delicado

não havia mais ninguém na casa


além do talher empoeirado
ainda da última visita
de um marido morto
a música que faz chorar
hoje só esconderijo
impossível viver numa casa onde não faz calor

58
frágua que forja lágrimas
onde a chuva não caminha

como dói a paisagem


quando o olho morre aberto
fica no meio um abismo vermelho da saudade
para entrar no sonho
e esperar que aconteça um milagre

59
Poema do infinito
Para Fabiano

tâmaras maduras em teus quadris


corpo em flor de anis
escapa vivo num torso místico:
todo o profano
Aruanda é aqui
nesta cama

o tempo, naquele instante


um tear
vislumbrando no outro a própria estranheza
(carne e cios duros)
castelã com unhas de gatos
costas arranhadas
hímen e rins como animais em asas

falena volteia erguido libertino


não coma a borboleta
(veneno e lua lambem a mesma boca)
sinédoque doce Shiva
num toque de chuva
abraça vísceras sem palavras

por último, lâmina-lança


bruta serpente calada
(Aruanda, nossa eternidade)
éter, clarim
todos os sentidos

60
chama
e chuva

61
Numa bolha de sabão

desvio do teu olhar


mesmo que enfeitiçada
nas infinitas fitas imaginárias
dentro da bolha de sabão

o meu cais, reporto à escuridão


abrigo baldes de chuva
abraço o vento que ressuscita em mim
– na primeira lua –

golfinhos de vidro
desviam teu olhar
era só imaginação
ou o tato cobrindo meus olhos

talvez sonho, voraz


repetiam os mesmos olhos vermelhos
na cegueira vertical
– na primeira chuva –

62
O carnaval em Gothan
(uma história que ninguém ousou contar)

num inverno de cortar pulsos


Arlequina deixada no altar,
(sorrisos fugazes),
era carnaval

Colombina vagava entre neve e serpentina


deu-se a cara à Arlequina, noivada ainda
o coração fero entre as duas mãos,
o peito costurado em fitas coloridas
ferida adormecida
(cicatrizes de máscaras pelo chão),
ele se foi

no mesmo dia, Colombina um fim pôs à quimera


ainda havendo verdade
vestiu-se de primavera

um frio de cinzas,
Arlequina e Colombina
um baile de olhos

Colombina desfez as fitas


beijou Arlequina
completando um sexo em v
sanguíneo agora
nas cinzas da noite

63
A mesma chuva

palpita um respingo de sangue na tempestade trêmula


ainda assim, ontem, um ensaio da chuva
putas que deslizavam na brasa forte de um cigarro
uma fotografia de Truffaut:
– vous êtes belle nue!

o mesmo passeio de barco que me levou ao beco da saudade


levou-me também ao berro da boca
você ainda nua
desliza na garganta
até os olhos sob a alma vão passando,
mas devagar

palpita um coração que bombeia tempestade


ainda hoje
de repente a chuva
piscadelas de estrelas
nuas

64
Aquela lembrança que esqueci

um corte elétrico
o ponto final,
no chão, um eco de lágrimas
(melodia de chuva)
hoje eu morri mais uma vez lembrando
que você disse:
quando chove, o coração chove também

quando no coração um
corte congelado,
no entanto
nem a treva toma conta do sol
nem o sol se atreve contra a chuva
memória no chão, meu corpo
ainda congelado constrangido
com meu próprio sangue

na escuridão, um quarto
de ponta cabeça,
uma semana,
contra a parede, como se existisse em mim
um castigo batendo
a cabeça os olhos
fervem
não tenho mais medo
jamais te daria a tempestade
mas sei que um raio pode me acertar novamente

65
O flagelador

pérola e mar são ruídos


chuva azul de reticências
num céu de águas muito mornas
desce a chuva pelo infinito tobogã
lacrimeja e cega a tormenta

66
Quarto vazio

um quarto do quarto está vazio


nem lembrança, nem pavio
amadeirado mandarim insone
a cama, só um lençol branco muito envelhecido

já se passaram seis anos


num abraço dolorido contra o travesseiro
gavetas e armários abertos
passa um vento entre os cabides
a camisa de botão desabotoada
marca no peito o vazio

no vai e vem de um quarto ao outro


faço minha mudança
você não mais ali, meu amigo

releio os teus bilhetes datilografados


o teu poema em mim
ressoa o teu pigarro de cigarro e café
eu volto e balanço o lençol
deito e deixo as botas penduradas na cabeceira
ainda escuto tua respiração
ainda friso teu riso,
ainda me apavoro

67
O fim do dia seria lindo

mas sangra um coquetel de uvas brancas


em 3d
vaza pelo elmo a raiz
sangue nu
árbol-espada
cartas na mesa
o equinócio coberto de chuva
sangra pelos montes, os cavalos
freia na brisa o dia mais bonito

vi a lua beijar o sol num encontro de aquários


virgens descalças
nuvens de almofadas
num dia de abril
acordam mil chuvas
íris tristes
aguardam o retorno do unicórnio

68
Humanity’s death

deixo o tempo correr como gente


como quem foge
como quem discute
como quem tem pressa de
e adianta os ponteiros

deixo o tempo estancar como sangue


como quem congela
como quem promete
como quem tem medo de
e atrasa os ponteiros

– aprendi nessa vida,


tenho 103 anos
e já tive 25
e quando tinha 17
jurava que ia morrer aos 38
agora que provei estar errada
provo que vou morrer agora
comovida com a tragédia que nos tornamos

quantos minutos você tem na cabeça?

69
Todo dia o farol

depois de andar de bicicleta


de feliz não disfarçava meu corpo mambembe
nem viu o abismo
a chuva terrível
a mão à sorte
é bom saber que não pedirás mais nada,
pois pede logo o cigarro,
sorriso não tenho

é, meu velho,
I want to wreck my stockings in some juke box dive
onde a felicidade?
te conto a solidão, eu sendo assim
talvez ridícula
os olhos fechados pra você
vermelhos de apertar
o corpo fazendo final feliz
(só um pouco)

farol avermelhado,
sorriso não muito longe dali
lullaby :
a felicidade é como uma pluma?
para isso, o céu

70
uma semana depois,
desenho no frio
com o fino grafite do lápis
o mesmo abismo onde
raindrops keep falling on my head
recosto minha bicicleta
te trouxe um cigarro
vejo-o cair de novo
e saio

71
As últimas palavras

mais tarde eram janelas


num esforço
te escondo na solidão
quase dá pra sentir o adeus em relevo
gelado em tuas mãos

um quarto de mim, um balanço lançado no cetim lilás


o que sobrou da fita, um presente para você
lembro como gosto de te guardar pra nunca te ver perdido
você se lança ainda mais longe
refaço o laço, o presente

deixou-me num frio de vinte andares


e o que mais me incomoda foi ter te visto ir embora
eu
mais uma vez bêbada, meias no joelho de novo
me dizia: vou porque tenho medo
ainda guardo tuas fotografias
bastante desbotadas
talvez o tenha esquecido

72
Despertar

o sol despencava na colina


balas de festim reimaginavam
a ferida,

(celebra o corpo que cai


e regozija saliva)

o sol no limite do céu:


ferido de raios
o inverno:
mão fria
que desliza
inerte

tuas mãos, meu apetite


morta cruzando nuvens
vísceras riscadas a giz num balé geométrico
dança na ferida a água-viva
a mesma valsa sedenta e ensandecida
em que anjos orbitam

ferida aberta tempestade

73
O vento oposto

inversa planura
no céu dos grandes silêncios
revelam-se uivantes soldados
que não voltaram pra casa

carregados pelos ombros,


lírios despetalados nas mãos de sangue
explosões, barulho no coração

o vento dando volta nas encostas


os mesmos soldados
em regresso
na linha reta do uivo

74
Silêncio

aquilo que os grilos descosturam

75
O sonho

o vendaval não deixa em pé a saudade

felino na escuridão
olho de Hórus
bruto objeto do sonho lúcido
o silêncio disso tudo é a boca

venta muito no equinócio de outono


o bonito lamento das árvores

na cidade fantasma
é bom ouvir o vento
abrir de novo a janela

76
Os chuvosos corações partidos

o desespero de ruir as linhas


desobstruir o seio pálido até a morte
nos confins da pele, sangue
carregar pedras, as perdas
descobrir do limite o pensamento perdido
a gota em chamas
o saber voando do querer
sangrar
machucar até morrer
ser o uivo da montanha
a selvagem pele que camufla o medo
o leão agarrado às vísceras
o coração partido que divide a chuva
no limite
o uivo intermitente

77
A tempestade é um tigre
Para Benjamín Prado

numa passagem secreta,


o tigre espreita
os trovões
desmembrando a chuva

devolve o olhar hipnotizado


num círculo rosa-neon
quebrando as pedras
travessia alguma tem o silêncio da hipnose
até o sono

o tigre escala encostas


fatia com as garras afiadíssimas
o céu de outono

78
Cinzas de natal

sempre de luto
um desenho no espelho que não se completa,
rain down, rain down
come on rain down on me
segue o mantra
esquivando-se da neblina

gosto quando o mau humor não é meu


reflete no barquinho de papel a saudade

altas horas vendo a luz


indo embora
enquanto você dormia
tremulo o não
neste inverno

79
Sálvia Pluft

um alce veio me trazer uma carta


num castelo de areia
nas minhas férias com Toddy, a abri
uma onomatopeia veio à tarde: pluft!

a carta que acariciava meus olhos:


queime depois de ler
abrindo em mim
sextos sentidos

voltei pra casa, risquei páginas no rodapé,


abri janelas, venenos e o gatilho
lembrei da carta, liguei o forno

80
Totalidade

i
abrir a porta quieta
ouvir o choro violáceo da viúva
o coro do breu
aqui comigo
uma aliança
a infância revestida inflama
cintila o inconcebível fim
posto que o vento perturba
mexiam também as pétalas
separando-se do botão
diminuída em si a ternura
abro a boca que desde a aurora silencia

trago-o de volta
percebo num instante a demora
em um sonho revela-se
a carta da morte
a totalidade do corpo

ii
a floresta de noite em
compasso
de longe a chuva
quebra gravetos

81
fora de mim, há
pessoas chorando de medo
a hipnose é um veneno
miosótis
há pessoas morrendo lá fora
muitas

iii
o sol quebra por trás dos prédios
desmaiando em cinza inglória
a morte silenciosa

iv
onde estaremos amanhã?

v
deitados
na grama
olhando
a chuva
se aproximar
de repente

82
A água-viva

* O poema já dança na imaginação (onde há um mapa para a gente se perder)

83
Posfácio
Inês Dias
*

Há um programa enunciado neste primeiro livro de Natália


Agra: chuva – rio – lágrima; programa esse que, a bem da verda-
de, deveríamos representar de modo mais circular, algo assim:

chuva

lágrima

rio

O primeiro elemento desse ciclo, a chuva, encontra-se logo pre-


sente no título, e é depois ecoado mais do que uma vez (cf. pp.36
ou 64). É um factor de contacto, de intersecção, que permite
unir céu e terra, à semelhança de outros elementos reiterada-
mente presentes na poesia de Natália Agra, como os anjos ou os
pássaros, cuja capacidade de voar implica também a de pousar,
a de tocar a terra.
Mas é na chuva se cristaliza uma vocação para a queda
aparentemente latente em tudo. Os céus estão feitos para cair:
“(explosão da aurora / que palavra é estrela senão chuva)” (p.37);
e o sujeito poético, sobretudo, está feito para cair, para conhe-
cer o abismo.

87
Trata-se, porém, de uma queda encarada positivamente,
ou não nos fosse dado a ler, a dada altura: “cantei a chuva: / água
viva” (p.50). E torna-se impossível não recordar aqui uma das
mais belas artes poéticas em português, a de Luiza Neto Jorge
neste seu poema:

O poema ensina a cair


sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede

até à queda vinda


da lenta volúpia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma.1

1 In: A Perspectiva da Morte; 20(-2) Poetas Portugueses do Século xx, selecção e prefácio
de Manuel de Freitas, Lisboa: Assírio & Alvim, 2009 [sublinhado nosso].

88
Sublinhe-se o “repentino” do poema de Luiza, que nos re-
mete para o “de repente” de Natália. Trata-se de um “de repente”
a reforçar o pólo positivo da queda (“domingo seríamos a alegria /
a surpresa” – p.15), a valorizar a surpresa e a imprevisibilidade.
É precisamente a positividade atribuída à chuva que lhe
permite assumir, nos poemas de Natália Agra, um carácter de
elemento de passagem, de transformação – a chuva converten-
do-se em rio correndo para um mar, metamorfose paradigma-
ticamente ilustrada no pequeno poema visual dedicado a Paulo
Leminski (cf. p.20).
Consumou-se a queda e o léxico celeste dá lugar a um lé-
xico mais aquático, palavras-anjos-caídos que não deixam de le-
vantar os olhos; registre-se, a título de exemplo, o “cair prateado
da lua” (p.50), ou a “estrela cadente que valsa céu abaixo” e se
converte numa estrela-do-mar (p.37), ou ainda essa “dúvida” que
afinal “era onda e barco” (p.23).
Mas a metamorfose, o ciclo de que falávamos no início,
não se interrompe aí – a chuva que se torna rio, e mar, torna-se
ainda lágrima. No fundo, a queda é a mesma, (o)correndo fora
ou dentro do sujeito poético: “(e foi assim que a chuva deixou
de ser só água, // era rio // talvez uma lágrima que sempre cai)
// de repente” (p.36). O abismo faz parte do seu destino; e ouvi-
mo-lo, em surdina, nas palavras cantadas por Joni Mitchell e
citadas a páginas tantas: “I want to wreck my stockings in some
juke box dive” (p.70).

89
**

A mesma ideia de transformação de sinal positivo está paten-


te na referência quase obsessiva à passagem das estações e do
tempo em geral. De poema para poema sucedem-se o Outono
e o Inverno da morte (“– escolho um de vocês, dizia a coruja e já
preparávamos a toada do inverno dentro do peito” – p.56), a
Primavera e o Verão do renascimento (“nasce o nosso verão de
novo” – p.15), num movimento de aceitação feliz, sem paragens:
“deixo o tempo correr como gente […] // quantos minutos você
tem na cabeça?” (p.69).
Mais precisamente, no que diz respeito ao tempo, o sujei-
to poético encara o passado – essa “saudade” que “é um barco
à deriva na tempestade” (p.49) – antes de mais enquanto lastro
capaz de provocar estagnação, imobilização indesejável, impo-
tência ou apatia pela vida: “o silêncio da saudade / quebra o rio”
(p.54). E a estratégia poética de sobrevivência apresentada neste
livro passa por largar esse lastro (daí que se diga, da memória,
“(espaços vazios, meus retratos)” – p.51), de modo a recuperar o
movimento possibilitador de uma passagem da morte para vida.
A imagem mais emblemática deste modus operandi talvez seja
a descrita no belíssimo poema Quarto vazio: “no vai e vem de um
quarto ao outro / faço minha mudança / você não mais ali, meu
amigo” (p.67), culminando no lapidar (não-)poema que encerra
o livro e em cuja nota se avisa: “* O poema já dança na imagina-
ção (onde há um mapa para a gente se perder)” (p.83).

90
***

Em muitos destes poemas surge um tu, com o qual o eu poético


dialoga, estabelecendo uma relação complementar – chuva e rio
e lágrimas em partilha, pois “dividiam no guarda-chuva / a mes-
ma tempestade” (p.58). E, a haver um momento de abrandamen-
to, de suspensão quase mágica, talvez ele só possa corresponder,
neste livro, ao amor: “fazemos a chuva parar” (p.17).
Contudo, também o amor se afirma aqui essencialmente
como agente de mudança. Mudança física, sentida no corpo que
se veste e despe e dança perante outros olhos (cf. p.12); sentida
nos corpos que, à semelhança do poeta Al Berto e do seu “corpo-
-borboleta-crespuscular” 2, “agitam as asas como a libélula / que
renasce flor de origami” (p.42). Mas também mudança profun-
damente íntima, como no poema “In the mood for love” (p.16),
título que recupera o filme homónimo de Wong Kar-Wai 3. É,
aliás, incontornável a afinidade entre a poética de Natália Agra
e a obra deste cineasta, nomeadamente na coexistência de dois
ritmos, o vertiginoso da vida e da cidade (como nos primeiros
filmes de Kar-Wai) e o ultra-lento de cada paixão (caso, entre
outros, do filme citado).

2 O Medo, Lisboa: Contexto/Círculo de Leitores, 1991.


3 Curiosamente, uma outra poeta, a portuguesa Renata Correia Botelho, par-
te do mesmo filme para escrever o belíssimo poema “Um segredo” (small song,
2ª ed., Lisboa: Alambique, 2015).

91
****

Em De repente a chuva, há ainda um gato, um gato negro que se


passeia pelas suas páginas: “o gato preto-veludo sorriu” (logo
na p.35); e, mais à frente, “num improviso, o gato me apareceu
/ trouxe-me flores, / eu já sabia / o cigarro se havia apagado no
cinzeiro de mármore” (p.56). Também um enorme poeta por-
tuguês, Manuel de Castro, me apresentou o seu gato negro, e
não posso deixar de pensar que estes dois gatos se devem ter
cruzado algures:

Adeus

Envio-te o meu gato negro com um colar de violetas


– Último gesto deste dia de inverno.

Não perturbar os pequenos barcos ao longe


– Meu ir conventual pensar deflores.

Não perturbar o fumo do cigarro


– Pousado no silêncio.4

4 Paralelo W, Sintra: Edição do autor, 1958.

92
Em suma, pode escrever-se sobre um livro brasileiro chamado
De repente a chuva durante um dos Verões mais quentes dos últimos
anos em Portugal, após um dos incêndios mais devastadores que
nos assombrarão a memória, e toda a verdade íntima – a que im-
porta – ser justamente a desse título, a um oceano de distância.
Poesia é também isso.

Lisboa, Julho de 2017


índice
De repente a chuva

11 Love song
12 Monóculo
13 Mountain blue bird
14 Debaixo das nuvens
16 In the mood for love
19 O grito da montanha
20 川
21 Uma pré-história
22 Hombrecillos verdes & pimenta malagueta
23 A dúvida é o certo
24 O álamo e o baobá (parentes de Zambra)
26 O percevejo e Zaratustra
27 O adejo dos golfinhos, o nado da gaivota
28 Troco em balas
29 Segunda pele
30 As banhistas cegas da paulisseia ilhada
32 Os bonobos de Aruanda
33 Os rinocerontes de Dalí
34 Eu serei a hiena
35 Onde deitei
36 De repente a chuva
37 Estrela-do-mar
38 Mutum-de-Alagoas
39 Atenção: trecho sujeito a neblina
40 O mistério do pavão
41 As formigas
42 Mundo perfeito
43 A hora mais triste

A tempestade

49 Saudade
50 A poeira lenta
51 Lembranças
53 O trem
54 Escuta
55 Star song
56 Rasga-mortalha
58 Não sei andar na chuva
60 Poema do infinito
62 Numa bolha de sabão
63 O carnaval em Gothan
64 A mesma chuva
65 Aquela lembrança que esqueci
66 O flagelador
67 Quarto vazio
68 O fim do dia seria lindo
69 Humanity’s death
70 Todo dia o farol
72 As últimas palavras
73 Despertar
74 O vento oposto
75 Silêncio
76 O sonho
77 Os chuvosos corações partidos
78 A tempestade é um tigre
79 Cinzas de natal
80 Sálvia Pluft
81 Totalidade
83 A água-viva
Agradecimentos

Talvez essa seja a única parte tranquila de todo o processo cons-


trutivo de um livro: agradecer aos parceiros de viagem. Agradeço
a todos os amigos que tão lindamente receberam os meus poe-
mas e opinaram com esmero. Esse livro jamais teria existido sem
a força que vocês me deram. Meus queridos Jô, Lis, Gui e Sarinha,
este livro é também para vocês.
Agradeço ao mestre e amigo Nilton Resende, por ter rea-
berto as portas da escrita num momento crucial da vida.
A Inês Dias, pela gentileza, por ter traduzido com o seu
olhar e inteligência o que transborda no livro: amor. E pela sin-
geleza de sua grande poesia. Muito obrigada, minha querida.
A Marília Garcia, pela doçura de sempre e por confiar a
mim palavras tão generosas.
A Tatiana Perdigão, pela delicadeza de imprimir no ins-
tante a sensibilidade e a fragilidade da vida.
Acima de tudo, agradeço ao Fabiano Calixto, meu parcei-
ro em tudo na vida. Obrigada por acreditar na minha poética,
por estimulá-la e, sobretudo, por não deixá-la morrer em si mes-
ma. Agradeço ainda pelos nossos dias, sempre juntos. Amo você.
A minha adorada família, por tudo o que fizeram por
mim. Sou o melhor que posso, graças a vocês.
Aos amigos, aos meus gatos (Panqueca, Bacon Frito, Poups
e Alice), aos parceiros da Corsário-Satã: muito obrigada.
Foto: divulgação

Natália Agra nasceu em Maceió, Alagoas, em 1987.


É poeta e jornalista. De repente a chuva  é seu primeiro livro.
© Corsário-Satã, 2017
© Natália Agra, 2017
1ª edição [2017]
1ª reimpressão [2018]

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)

Agra, Natália, 1987


De repente a chuva – Natália Agra – São Paulo:
Corsário-Satã, 2017. 104 pp.

isbn: 978-85-93979-01-9
1. Poesia brasileira 1. Título

Índice para catálogo sistemático:


1. Poesia: Literatura brasileira 869.91

Corsário-Satã

Editor: Fabiano Calixto


Conselho Corsário: Gabriel Pedrosa, Luciano Ramos Mendes, Natália
Agra, Rodrigo Lobo Damasceno e Tiago Guilherme Pinheiro

Projeto gráfico: Gabriel Pedrosa


Revisão: Fabiano Calixto e Natália Agra
Fotos de capa e contracapa: Tatiana Perdigão
Foto de segunda e terceira capas: Natália Agra
Outros lançamentos da coleção de poesia da Corsário-Satã:

Nominata morfina – Fabiano Calixto


Suite de pièces que l’on peut jouer seul – Manuel de Freitas
Simultâneos pulsando: uma antologia fescenina da poesia brasileira
contemporânea – Orgs. Fabiano Calixto e Natália Agra
Nove poemas de mau gosto – Maíra Mendes Galvão
Botões – Jeanne Callegari

Próximos lançamentos:

Puma – Sergio Mello


Speechless tribes – Dirceu Villa
Fundações – Júlio Bittar
Fliperama – Fabiano Calixto

corsariosata@gmail.com
https://www.facebook.com/corsariosata/
@satacorsario
https://corsariosata.wordpress.com/
Este livro foi composto em Spectrum mt e impresso nas oficinas da
Psi7 em setembro de 2018. Foram utilizados os papéis Pólen Bold 90 g/m2
para o miolo e Cartão Supremo 250 g/m2 para a capa.