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Revista Brasileira de Nutrição Esportiva


ISSN 1981-9927 versão eletrônica
Periódico do Instituto Brasileiro de Pesquisa e Ensino em Fisiologia do Exercício
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CAFEÍNA: EFEITOS ERGOGÊNICOS NOS EXERCÍCIOS FÍSICOS

Camila Almeida1,2, Daniela Sangiovanni1,3, Rafaela Liberali1

RESUMO ABSTRACT

A ingestão da cafeína data de muitos séculos. Caffeine: ergogenics effects in workout


No entanto, esta substância tem sido
considerada um ergogênico nutricional por Caffeine consumption dates back to many
estar presente em muitos alimentos e bebidas centuries ago. However, this substance has
que consumimos diariamente, como chás, been considered a nutritional ergogenic aid
café, refrigerantes, chocolates, bebidas due to its presence in many foods and
esportivas, também remédios do tipo beverages of daily consumption, such as tea,
analgésicos e inibidores de apetite. O seu uso coffee, sodas, chocolates, sports drinks, as
é bastante comum no meio esportivo devido well as pain killers and appetite suppressants.
seus benefícios ergogênicos que melhoram o Its use is very common in the sport
rendimento. O objetivo deste trabalho foi environment due to its ergogenic benefits,
demonstrar através de uma pesquisa which improve performance. The aim of this
bibliográfica, a relação do uso da cafeína e study was to demonstrate, through a
seu efeito ergogênico em praticantes de bibliographical research, the relation between
exercícios físicos. A administração de caffeine consumption and its ergogenic effects
dosagens elevadas de cafeína pode trazer in people who practiced physical exercises.
inúmeros desconfortos ao usuário. Embora Caffeine consumption in high doses may
muitos estudos mostrem resultados cause several discomforts to users. Although
promissores, ainda existem muitas many studies show promising results, there are
controvérsias com relação às dosagens de still a number of controversies regarding the
cafeína, tipo de exercício físico utilizado, consume of high doses of caffeine, the types of
horário de ingestão, nível de aptidão física e physical exercises used, the time of ingestion,
na tolerância à cafeína nas diferentes the level of physical fitness and the tolerance
modalidades esportivas. A partir dos artigos to caffeine in different kinds of sports. Based
revisados nesse estudo podemos concluir que on the articles reviewed in this study, we can
a utilização da cafeína melhora o desempenho reach the conclusion that caffeine use
físico em atividades máximas e supramáximas improves physical performance in maximum
de curta duração e em atividades de média e and supramaximum activities of short duration
longa duração com intensidade moderada. and in activities of medium and long duration
Esses benefícios são evidenciados nos with moderated intensity. These benefits are
estudos mais recentes devido a um melhor made evident in more recent studies due to a
controle e um maior conhecimento da forma more effective control and to a greater
de ingestão da cafeína. Os mecanismos que knowledge of the way caffeine is ingested.
propiciam essa melhora de desempenho More studies, nevertheless, are needed if we
necessitam de mais estudos para serem want to understand the mechanisms which
compreendidos. allow this improvement in performance to
happen.
Palavras-chave: Cafeína, Efeito Ergogênico,
Exercício físico, Desempenho Físico. Key words: Caffeine, Ergogenic Effect,
Workout, Physical Performance.
1 – Programa de Pós Graduação Lato Sensu
da Universidade Gama Filho em Nutrição
Esportiva. Endereço para correspondência:
2 – Graduada em Nutrição pela Pontifícia nutri_mila@yahoo.com.br
Universidade Católica do Rio Grande do Sul sangiovanni@pop.com.br
(PUCRS).
3 – Graduada em Educação Física pela
Universidade Luterana do Brasil (ULBRA).

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INTRODUÇÃO efeito estimulante no cérebro, a cafeína pode


reduzir fadiga associada a longas seqüências
O uso de cafeína data de muitos de exercícios (Clark, 2006). Em contrapartida,
séculos e atualmente é consumida o consumo de cafeína pode afetar
regularmente por bilhões de pessoas no negativamente o controle motor e a qualidade
mundo, configurando diversas e variadas do sono, bem como causar irritabilidade em
práticas culturais, sendo vital para algumas indivíduos com quadro de ansiedade (De
economias. A cafeína está presente em muitos Maria e Moreira, 2007).
alimentos e bebidas, tais como: café, chás, Sendo assim, o objetivo deste trabalho foi
chocolates, refrigerantes, bebidas esportivas, demonstrar através de uma pesquisa
também nos remédios do tipo analgésicos, bibliográfica, a relação do uso da cafeína e
medicamentos contra gripe e inibidores de seu efeito ergogênico em praticantes de
apetite (Mello e colaboradores, 2007; Pacheco exercícios físicos.
e colaboradores, 2007). A cafeína (1,3,7-
trimetilxantina) é um derivado da xantina, METODOLOGIA
quimicamente relacionadas com outras
xantinas: teofilina (1,3 –dimetilxantina) e Nesta pesquisa foi realizada uma
teobromina (3,7 –dimetilxantina). Elas se revisão bibliográfica com base em estudos a
diferenciam pela potência de suas ações partir de 1978 que abordam os efeitos
farmacológicas sobre o sistema nervoso ergogênicos da cafeína. A pesquisa foi feita
central (SNC), produzindo certo estado de em base de dados, revistas e livros, utilizando
alerta de curta duração (Altimari e termos como cafeína, exercícios físicos,
colaboradores, 2006; Silva, 2003). desempenho físico e efeitos ergogênicos.
A cafeína é o estimulante mais comum Nas bases de dados: Pubmed
atualmente, é barato e facilmente encontrado, (www.pubmed.br), Scielo (www.scielo.br),
o que contribui para seu elevado consumo. No Bireme (www.bireme.com), Google Acadêmico
meio esportivo, a cafeína tem sido (www.google.com.br), Ibpefex (www.ibpefex.
freqüentemente utilizada por atletas na busca com.br), efdeportes (www.efdeportes.com),
de benefícios ergogênicos que possam Brazilian Journal of Biomotricity
melhorar o rendimento em seus respectivos (www.brjb.com.br) e Brazilian Journal of
esportes (Dantas, 2003). Ela contribui para o Pharmaceutical Sciences, J Appl Physiol
desempenho da resistência, aparentemente (www.jap.physiology.org).
em decorrência de sua capacidade de Foi realizado uma revisão de 26
intensificar a mobilização de ácidos graxos e artigos nacionais, 21 internacionais e 3 livros
dessa forma conservar as reservas de dos últimos 31 anos.
glicogênio (Mahan, 2005). A justificativa mais Foram coletados 14 artigos científicos
aceita atualmente no meio científico é que esta de campo, sendo eles nacionais e
mobilização pode ocorrer devido ao aumento internacionais, publicados entre o ano de 1983
na produção de catecolaminas ou que a e 2008, encontrados nas revistas: Brazilian
cafeína age antagonista dos receptores de Journal of Biomotricity, Brazilian Journal of
adenosina, os quais são responsáveis pela Pharmaceutical Sciences, J Appl Physiol,
inibição da oxidação lipídica. Desta forma, a Revista Treinamento Desportivo, Movimento e
cafeína aumentaria a oxidação de gordura e Percepção, Revista Portuguesa de Ciências
conseqüentemente diminuiria a oxidação de do Desporto, Revista Brasileira Ciência e
carboidrato durante o exercício (Mello e Movimento, Revista Brasileira de Nutrição
colaboradores, 2007). Esportiva e Cadernos de Saúde Pública.
Após ingestão indivíduos podem Dos 80 artigos analisados, 50 foram
temporariamente se sentir mais fortes e mais usados para verificar os efeitos ergogênicos
competitivos, acreditando poder realizar uma da cafeína. As palavras chaves para pesquisa
atividade física e mental por um tempo mais na internet foram: Cafeína, Exercícios Físicos,
prolongado antes que se inicie a fadiga Efeito Ergogênico, Café.
(Mendes e Brito, 2007). É mais provável que o E os critérios de inclusão dos artigos
efeito de aumento de energia da cafeína seja foram: assuntos relacionados à cafeína,
relatado por sua capacidade de fazer com que efeitos ergogênicos e as ações da cafeína nos
o exercício pareça mais fácil. Mediante o seu exercícios físicos.

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História da cafeína (origem, descrição), derivados são biologicamente significativos. As


propriedades químicas / físicas e onde se bases deste grupo, que tem importância
encontra farmacêutica, são todos os derivados
metilados da 2,6-dioxipurina (xantina). As
Historicamente, a cafeína proveniente xantinas são substâncias capazes de estimular
de fontes naturais, tem sido consumida e o sistema nervoso, produzindo certo estado de
apreciada desde sempre, sendo o chá a alerta de curta duração (Silva, 2003; George,
bebida mais antiga que contém cafeína. 2000; Altimari e colaboradores, 2006, Pacheco
Alguns antropologistas pensam que o primeiro e colaboradores, 2007).
uso da cafeína, incluída nas plantas, há 600 Nos Estados Unidos da América a
mil anos a.C. (idade da Pedra), no entanto, a média de consumo de cafeína é de
sua descoberta acredita-se ter sido feita na aproximadamente 200mg ou o equivalente a
Etiópia, em torno de 700 a.C. onde a planta dois copos de café por dia, entretanto, 10% da
crescia naturalmente (Soares e Fonseca, população ingere mais que 100mg por dia
2004/05). (Graham, 1978).
Paula Filho e Rodrigues, (1985) Pode-se dizer que 80% da população
acreditam que a cafeína tenha sido descoberta geral fazem uso dessa substância diariamente,
pelo homem na era paleolítica sob diversas embora seja muito difícil quantificar sua
formas de bebidas. O hábito de tomar café foi ingestão (Strain e Griffiths, 2000).
considerado pela ortodoxia islâmica, Seu consumo, visando a efeitos
posteriormente, chegou a ser considerado estimulantes, data de muitos séculos, no
como algo providencial para rezar sem cair em entanto, sua utilização por atletas, com
sonolência e, como um excelente substituto intenção de melhorar o desempenho, tem se
das bebidas alcoólicas (Soares e Fonseca, tornado popular nas últimas décadas, devido
2004/05). aos estudos sobre seus efeitos ergogênicos
Na Europa, o café apareceu no século (Braga e Alves, 2000; Harland, 2000).
XVI, sendo introduzido, principalmente, pelos Atualmente a cafeína pode ser
espanhóis e holandeses, no período das encontrada em diversos alimentos populares,
descobertas. Antes disso, o café era restrito e bebidas e refrigerantes, consumidos
a bebida nobre era o chá. O café encontrou cotidianamente (Spriet, 1995; Williams, 1996).
uma forte oposição em alguns países Além do café, a cafeína é encontrada
protestantes, como a Alemanha, Áustria e em outras bebidas, em proporções menores,
Suíça, nações essas que chegaram mesmo a como aquelas que contêm cacau, cola,
castigar o comércio e o seu consumo (Silva, chocolate, além do chá e de alguns remédios
2003; Soares e Fonseca, 2004/05). do tipo analgésico ou contra gripes
Com o passar do tempo, todas as (Bertazzoni, 2007). Devido à diversidade de
proibições acabaram por desaparecer na produtos que contém cafeína, presente em
Europa e a partir da segunda metade do mais de 60 espécies de plantas do mundo, ela
século XVII, o café converteu-se em sinônimo é, seguramente, a droga psicoativa mais
de bebida intelectual, devido à existência de popular do mundo (Silva, 2003; Harland, 2000;
muitos comércios que ofereciam espaços Strain e Griffiths, 2000).
públicos para consumir, em todas as grandes A cafeína esteve incluída na lista de
cidades. Em 1730, surgem as primeiras substâncias proibidas pela Word Anti Doping
plantações na América Latina, Agency (WADA/2004) na classe de
nomeadamente, em Porto Rico e cerca de 20 estimulantes (A) até o final do ano de 2003.
anos depois era já o principal produto de Recentemente a WADA a retirou da lista de
exportação do país, o que acontece substâncias proibidas incluindo a cafeína em
atualmente (Soares e Fonseca, 2004/05). um programa de monitoramento, o qual será
A cafeína é consumida regularmente feito por meio de acompanhamento na
por bilhões de pessoas no mundo. A cafeína incidência de seu uso pelos atletas (Altimari e
pertence ao grupo de compostos das colaboradores, 2006).
metilxantinas e sua composição química
principal é 1,3,7-trimetilxantina. Ela faz parte Efeitos ergogênicos e colaterais
do grupo de bases da purina. A purina em si No meio esportivo, a cafeína tem sido
não ocorre na natureza, mas inúmeros

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freqüentemente utilizada por atletas na busca prejudicar a estabilidade de membros


de benefícios ergogênicos que possam superiores induzindo-os a trepides e tremor,
melhorar o rendimento em seus respectivos resultando da tensão muscular crônica (Fett,
esportes (Dantas, 2003). 2000).
Seus efeitos ainda não são totalmente A utilização de alguns suplementos
conhecidos, mas sabemos que esta é um nutricionais com potencial ergogênico tem-se
potente agente ergogênico, a ponto de ser mostrado eficiente por protelar o aparecimento
considerado doping pelo Comitê Olímpico da fadiga e aumentar o poder contrátil do
quando consumido acima dos limites músculo esquelético ou cardíaco, otimizando,
permitidos (Graham, 2001). Atualmente o portanto, a capacidade de realizar trabalho
Comitê Olímpico Internacional (COI) classifica físico, ou seja, o desempenho físico (Braga e
a cafeína como uma droga restrita, positiva, Alves, 2000).
em concentração acima de 12mg/L, na urina Os efeitos ergogênicos da cafeína
(Braga e Alves, 2000). durante o exercício físico estão relacionados
Os efeitos da cafeína sobre o principalmente a um aumento na liberação de
comportamento humano: podem catecolaminas e mobilização de ácidos graxos,
temporariamente sentir-se mais fortes e mais conseqüentemente resultando em uma
competitivos, acreditando poder realizar uma diminuída utilização do glicogênio
atividade física e mental por um tempo mais intramuscular como fonte de energia. Esses
prolongado antes que se inicie a fadiga mecanismos fisiológicos de ação da cafeína
(Mendes e Brito, 2007; Kalmar e Cafarelli, poderiam retardar o início da fadiga muscular
1999; Bertazzoni, 2007). periférica, contribuindo para um aumento do
Esses efeitos podem ser descritos como desempenho físico (Vitorino e colaboradores,
aumento da capacidade de alerta e redução 2007; Mello e colaboradores, 2007).
da fadiga, melhora no desempenho de Existem três teorias que podem tentar
exercícios físicos. Em contrapartida, o explicar o efeito ergogênico da cafeína durante
consumo de cafeína pode afetar o exercício físico. A primeira envolve o efeito
negativamente o controle motor e a qualidade direto da cafeína em alguma porção do
do sono, bem como causar irritabilidade em sistema nervoso central, afetando a percepção
indivíduos com quadro de ansiedade (De subjetiva de esforço ou a propagação dos
Maria e Moreira, 2007; Bertazzoni, 2007). sinais neurais entre o cérebro e a junção
A cafeína afeta quase todos os sistemas neuromuscular. A segunda teoria pressupõe o
do organismo, sendo que seus efeitos mais efeito direto da cafeína sobre co-produtos do
óbvios ocorrem no sistema nervoso central músculo esquelético. As possibilidades
(SNC). Quando consumida em baixas incluem: alteração de íons, particularmente
dosagens (2mg/Kg), a cafeína provoca sódio e potássio; inibição da fosfodiesterase
aumento do estado de vigília, diminuição da (PDE), possibilitando um aumento na
sonolência, alivio da fadiga, aumento da concentração de adenosina monofosfato
respiração, aumento na liberação de cíclica (AMPc); efeito direto sobre a regulação
catecolaminas, aumento da freqüência metabólica de enzimas semelhantes às
cardíaca, aumento no metabolismo e diurese. fosforilases (PHOS); e aumento na
Em altas dosagens (15mg/Kg) causa mobilização de cálcio através do retículo
nervosismo, insônia, tremores e desidratação sarcoplasmático, o qual contribui para a
(Braga e colaboradores, 2000; Silva, 2003; potencialização da contração muscular. A
Fett, 2000). terceira teoria diz respeito ao aumento na
A ingestão de altas doses de cafeína oxidação das gorduras e redução de
(10-15 mg/Kg de peso corporal) não é carboidratos (CHO). Acredita-se que a cafeína
recomendada, pois as concentrações gera um aumento na mobilização dos ácidos
plasmáticas de cafeína podem alcançar graxos livres dos tecidos ou nos estoques
valores tóxicos de até 200 mm (Altimari e intramusculares, aumentando a oxidação da
colaboradores, 2001). gordura muscular e reduzindo a oxidação de
Os efeitos colaterais causados pela carboidratos (Spriet, 1995; Altimari e
ingestão de cafeína ocorrem em maior colaboradores, 2005; Mello e colaboradores,
proporção em pessoas suscetíveis e que 2007).
utilizam está substância em excesso, podendo

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Sugere-se que o aumento do potencial No sistema nervoso central, mais


de oxidação das gorduras promova a precisamente, no sistema nervoso autônomo,
economia de glicogênio hepático e muscular, a adenosina, um neurotransmissor natural, ao
levando a um aprimoramento nos exercícios ligar-se aos seus receptores (A¹ e A²), diminui
de endurance. Essa hipótese é conhecida a atividade neuronal, dilata os vasos
como a “teoria poupadora de glicogênio” sanguíneos, reduz a freqüência cardíaca, a
(Mcardle, Katch e Katch, 1998). pressão arterial e a temperatura corporal
O efeito da lipólise na redução da (Soares e Fonseca, 2004/05).
oxidação de glicose seria importante durante o A popularidade da cafeína como droga
exercício intenso para as células musculares, psicoactiva, deve-se as suas propriedades
uma vez que, baixas concentrações de estimulantes, que depende da sua capacidade
glicogênio ou altas concentrações de lactato de diminuir a transmissão de adenosina no
muscular estão diretamente envolvidos com o cérebro. Para a célula nervosa, a cafeína
mecanismo de fadiga muscular. Embora o parece-se com a adenosina. A cafeína, devido
aumento da lipólise induzido artificialmente a esta semelhança, liga-se aos receptores da
pela cafeína ou por outra estratégia como a adenosina. No entanto, não diminui a atividade
infusão de heparina ou ácidos graxos tem das células como a adenosina faz. Então a
confirmado esta hipótese em diferentes célula não pode ver a adenosina porque a
estudos, pouco se conhece a respeito desse cafeína está ocupando o seu receptor, o que
mecanismo durante o exercício intermitente leva a um aumento da atividade celular,
intenso onde a produção de energia oxidativa exercendo um efeito antagônico nos
é esperada para aumentar à medida que o receptores centrais da adenosina (Soares e
exercício é mantido (Silveira e colaboradores, Fonseca, 2004/05; Bertazonni, 2007; Triana,
2004). 2008).
A possibilidade de que a cafeína A cafeína causa a constrição dos
possa exercer algum efeito ergogênico nos vasos sanguíneos da cabeça, pois bloqueia a
exercícios vem sendo investigada por diversos ação dilatadora da adenosina. Outro modo de
pesquisadores desde a década de 70. No ação da cafeína, é pelo bloqueio da enzima
entanto, os resultados destes estudos fosfodiesterase, responsável pelo metabolismo
apresentam algumas controvérsias devido à intracelular do adenosina monofosfato cíclica
falta de padronização das metodologias (tipo (AMPc), ou seja há um aumento da
de exercícios; intensidade e duração dos concentração do adenosina monofosfato
exercícios; dosagens de cafeína; tolerância) cíclica (AMPc) intracelular, produzindo efeitos
utilizadas nos experimentos. Além disso, este que mimetizam os dois mediadores que
tipo de estudo é complicado uma vez que a estimulam a adenilciclase. Assim, os efeitos da
cafeína afeta quase todos os tecidos do corpo adrenalina persistem por mais tempo e com o
dificultando a observação de seus aumento da atividade neuronal, a glândula
mecanismos de ação (Silva, 2003). hipófise age como se de uma situação
Todavia o seu efeito ergogênico é anômala se tratasse e libertando grandes
ainda bastante controverso, visto que quantidades de hormônios que levam a
aparentemente outros mecanismos podem libertação de adrenalina pelas supra-renais
estar associados à sua ação durante aparecendo uma série de efeitos no corpo
diferentes tipos de exercício físico (Maughan, humano, como a taquicardia, dilatação da
2004). pupila, aumento da pressão arterial, abertura
Sendo utilizado dentro dos limites de 3 a dos tubos respiratórios, aumento do
6 mg de cafeína por quilograma de peso metabolismo e contração dos músculos,
corporal, a cafeína parece ser uma substância diminuição da afluência sanguínea ao
efetiva para melhoria do desempenho físico, estomago e aumento da secreção da enzima
podendo ser considerada um ergogênico lípase, uma lipoproteína que mobiliza os
nutricional (Altimari e colaboradores, 2001). depósitos de gordura para utilizá-los como
fonte de energia em vez do glicogênio
Farmacologias: sistema nervoso central, muscular, permitindo assim a aumentar a
sistema cardiovascular, sistema digestivo, resistência à fadiga (Mcardle, Katch e Katch,
sistema endócrino, as tolerâncias e 1998; Soares e Fonseca, 2004/05; Altimari e
dependências

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colaboradores, 2000; Braga e Alves, 2000; emagrecimento de pessoas obesas (Soares e


Altimari e colaboradores, 2006; Triana, 2008). Fonseca, 2004/05).
Em doses muito elevadas, a cafeína O café sem açúcar é uma bebida sem
pode provocar a libertação intracelular de íons calorias e não causa obesidade como
cálcio, desencadeando pequenos tremores refrigerantes, sendo uma bebida naturalmente
involuntários, aumento da pressão arterial e da dietética. O consumo de café por atletas
freqüência cardíaca (Braga e Alves, 2000; treinados aumenta a oxidação de calorias,
Soares e Fonseca, 2004/05; Mendes e Brito, atuando como um agente preventivo contra
2007). obesidade (Lima, 1989).
O comportamento estimulante da Ainda em relação ao Sistema
cafeína e dos seus metabólicos principais, Endócrino, a ingestão de cafeína por uma
como a paraxantina e a teofilina correlaciona- pessoa que a ingira esporadicamente pode
se com a afinidade da ocupação dos levar ao aumento das concentrações de
receptores da adenosina. A paraxantina alguns hormônios, como a renina, as
contribui para a ação farmacológica da catecolaminas, a insulina e o paratormônio.
cafeína, especialmente durante um consumo Estes efeitos, entretanto, como acontecem no
em longo prazo e em altas doses, quando a fenômeno da tolerância, não ocorrem nas
paraxantina se acumula no plasma. As pessoas que fazem uso regular da substância
concentrações plasmáticas produzidas a partir devido a adaptação do organismo a mesma
da cafeína de teofilina são provavelmente tão (Soares e Fonseca, 2004/05).
baixas para exercer qualquer tipo de efeitos A cafeína é uma substância capaz de
farmacológicos adicionais (Soares e Fonseca, excitar ou restaurar as funções cerebrais e
2004/05; Altimari e colaboradores, 2006). bulbares, contudo sem ser considerada uma
A sobrecarga cardiovascular é um dos droga terapêutica, isso por apresentar uma
fatores preocupantes no uso da cafeína e isto baixa capacidade de indução à dependência
vem sendo estudado por vários centros de (Altimari e colaboradores, 2000; Rang e Dale,
pesquisa de forma independente (Barbosa e 1996).
colaboradores, 2008). Muitas pessoas referem “não posso
A probabilidade da pressão arterial sem um café”, e tendem a usar esta expressão
aumentar é maior, juntamente com a tal como se estivessem a dizer que não passa
vasodilatação e também o aumento do fluxo sem comer chocolate, isto demonstra a
sanguíneo para os tecidos em geral, incluindo naturalidade de como é encarado o café na
as artérias coronárias. No entanto, o uso sociedade, isto é, a cafeína no seu todo. A
regular da cafeína pode alterar os efeitos no tolerância a uma droga refere-se a uma
sistema cardiovascular devido ao diminuição da resposta provocada depois de
desenvolvimento de tolerância a substância repetidas exposições a essa droga. Doses de
(Soares e Fonseca, 2004/05; Barbosa e cafeína entre 750-1200 mg/dia durante alguns
colaboradores, 2008). dias produzem o fenômeno de tolerância
A cafeína estimula a secreção gástrica completa, ou seja, os efeitos da cafeína não
de ácido clorídrico e da enzima pepsina no ser estão longe dos efeitos de um placebo embora
humano, em doses a partir de 250 mg, essa não se verifique para todos os aspectos
característica da cafeína é contra indicada em farmacológicos. No entanto, baixas doses de
pacientes com úlcera digestiva. No entanto, cafeína na dieta produzem uma tolerância,
em pessoas que não possuam nenhuma neste caso incompleta (Soares e Fonseca,
patologia digestiva a cafeína não tem sido 2004/05).
associada a um aumento do risco de úlcera A cafeína pode provocar dependência
péptica (Soares e Fonseca, 2004/05). física e psicológica como síndrome de
Um aumento nas concentrações de ansiedade, depressão e até psicoses, estando
ácidos graxos livres no sangue tem sido referenciado que doses maiores que 350 mg
associado à cafeína, portanto esta funcionaria diários de cafeína consumidos durante um
como uma substância capaz de mobilizar as mês podem provocar o aparecimento de
gorduras (Soares e Fonseca, 2004/05; Altimari síndrome de abstinência, pelo que quando
e colaboradores, 2005 Mendes e Brito, 2007). usada com fins terapêuticos, os médicos
Atualmente, existem evidências de devem recomendar a redução gradual do seu
que a cafeína possa ter algum efeito no consumo. Esta síndrome manifesta-se por

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dores de cabeça, irritabilidade, dificuldade na Alguns estudos apontam para um


concentração, náuseas, ansiedade, cansaço, relativo aumento da força muscular
depressão e sonolência. Não é grave e acompanhado de uma maior resistência à
desaparece em poucos dias (Soares e aparição da fadiga muscular após a ingesta de
Fonseca, 2004/05). doses relativamente altas de cafeína (Kalmar e
Cafarelli, 1999). Embora não se saiba de
Cafeína e desempenho físico forma concreta o verdadeiro mecanismo de
ação responsável pelo aumento da força
Para Altimari e colaboradores (2001), muscular (Altimari e colaboradores, 2000).
tem sido amplamente estudada a eficiência Todavia, acredita-se que isso ocorra
ergogênica de inúmeros recursos para em maior intensidade muito mais pela ação
aprimorar o desempenho físico em diferentes direta da cafeína no SNC do que pela sua
tipos de exercícios físicos. ação em nível periférico (Kalmar e Cafarelli,
A cafeína tem mostrado efeito 1999). Com relação aos exercícios máximos e
ergogênico eficiente na promoção do supramáximos de curta duração, a maioria dos
desempenho esportivo (Altimari e colaborado- estudos dessa natureza vem demonstrando
res, 2006; Barbosa e colaboradores, 2008; que a ingestão de cafeína pode melhorar
Triana e colaboradores, 2008). significamente o desempenho físico (Silva,
Os efeitos ergogênicos da cafeína 2003; Altimari e colaboradores, 2008).
começaram a ser difundido pela comunidade Kalmar e Cafarelli (2004), observaram
científica a partir da década de 70, onde Costtil redução significante na fadiga muscular e
e seus colaboradores evidenciaram uma estimativa de fadiga central consideravelmente
melhora no tempo de exercício e na reduzida após ingestão de cafeína (6 mg/Kg).
quantidade de trabalho produzido em Diante desses achados os pesquisadores
atividades de endurance. Estes estudos sugerem que a fadiga central parece contribuir
sugerem que a cafeína aumentou a diretamente para a fadiga neuromuscular.
disponibilidade de AGL para o músculo, O uso de cafeína é relativamente
resultando em maior oxidação de lipídios. A seguro, e não são conhecidos efeitos
quantidade de cafeína ingerida pelos negativos no desempenho físico, nem tão
voluntários foi de aproximadamente 5 mg/Kg pouco causa desidratação significativa ou um
de peso corporal, sendo esta suficiente para desequilíbrio eletrolítico durante o exercício
melhorar o desempenho do grupo testado (Soares e Fonseca, 2004/05).
(Mendes e Brito, 2007).
Na década de 90, muitos estudos Pesquisas de campo envolvendo o uso da
puderam demonstrar aumentos no cafeína nos exercícios físicos
desempenho de endurance, devido à ingestão
da cafeína (Braga e Alves, 2000). Dos 14 estudos avaliados, 13 foram
De Maria e Moreira (2007), descrevem feitos com indivíduos do gênero masculino,
que os efeitos da cafeína sobre o sendo somente 1 deles com indivíduos de
comportamento humano causam aumento na ambos os gêneros. A média de cafeína
capacidade de alerta e redução de fadiga, com utilizada pelos pesquisadores era de
isso melhora o desempenho nos exercícios aproximadamente 400mg ou 5mg/kg, sendo
que requeiram maior vigilância. somente um deles que apresenta a dosagem
Altimari e colaboradores (2000) de 10mg/kg, considerada tóxica por Altimari
constataram que o uso da cafeína em (2001), podendo ainda causar efeitos
exercícios físicos de média e longa duração colaterais.
pode ser capaz de promover uma melhoria na Sete estudos foram realizados com
eficiência metabólica dos sistemas energéticos exercícios máximos e supramáximos de curta
durante o esforço, contribuindo para melhoria duração Altimari e colaboradores (2008);
do desempenho, observaram que a dosagem Anderson e colaboradores (2000), Barbosa e
de cafeína é fator determinante na melhora de colaboradores (2008); Bruce e colaboradores
desempenho, pois o desencadeamento das (2000); Silveira e colaboradores (2004); Triana
respostas fisiológicas e metabólicas parece e colaboradores (2008); Vanakoski e
estar atrelado à quantidade ingerida. colaboradores (1998), enquanto sete estudos
investigaram os efeitos ergogênicos em

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exercícios de media e longa duração com demonstrando melhora alguma na velocidade


intensidades moderadas Alves e colabora- e no tempo do trabalho total.
dores (1995); Azevedo e colaboradores Em contrapartida, Azevedo e
(2004); Bell e colaboradores (1998); Cadarette colaboradores (2004) analisaram 12 atletas
e colaboradores (1983); Kaminsky e colabora- em um teste de 3200 metros. O estudo foi
dores (1998); Tarnopolsky e colaboradores divido em dois testes com o mesmo grupo. O
(1989); Vanakoski e colaboradores (1998). primeiro teste foi feito com abstinência do uso
Altimari e colaboradores (2008), de cafeína, sendo no segundo suplementado
investigaram o efeito da cafeína em um estudo com 5mg/kg de cafeína, com o uso de 200ml
com nove ciclistas treinados, com o propósito de gatorade. Observou-se melhora de
de analisar a fadiga neuromuscular (FNM) dos performance com o uso de cafeína, após uma
músculos superficiais do quadríceps Vasto semana de abstinência dessa substância, da
lateral (VL), Vasto Medial (VM) e Reto Femural ordem de 8 segundos, bastante relevantes em
(RF) e o desempenho físico durante exercício se tratando de testes máximos.
supramáximo no ciclismo, uma vez que os Bruce e colaboradores (2000) e
mecanismos de ação da cafeína neste tipo de Anderson e colaboradores. (2000), verificaram
exercício parecem estar relacionados à maior 8 remadores em um estudo de 2000 metros
propagação dos sinais neurais entre o cérebro com utilização de 6 e 9mg/kg de cafeína.
e a junção neuromuscular (Davis e Observaram efeito ergogênico em ambos
colaboradores, 2003), bem como a ação direta estudos e dosagens de cafeína, pois o tempo
sobre o músculo esquelético potencializando o de prova reduziu significativamente nos
processo de contração muscular (Lopes e primeiros 500 metros, observando melhora
colaboradores., 1983). Desse modo, foi sobre o metabolismo anaeróbio.
constatado que a ingestão de 6mg/kg de Barbosa e colaboradores (2008)
cafeína se mostrou eficaz, pois aumentou em estudaram 36 homens ativos no RAST
15% o tempo de exaustão, mostrando melhora (Running-based Amaerobic Sprint Test) onde
no desempenho físico dos ciclistas estudados, foram divididos dois grupos. Um utilizando
bem como o tempo de início de fadiga 300mg de cafeína, 45 minutos antes do teste e
neuromuscular dos músculos vasto lateral, o outro grupo placebo. Após 10 minutos de
vasto medial e reto femoral. Silveira e aquecimento os sujeitos eram submetidos ao
colaboradores (2004) encontraram resultado RAST, que consiste em 6 corridas de 35
positivo semelhante ao de Altimari e metros na velocidade máxima com 10
colaboradores (2008), analisando 10 ciclistas segundos de intervalo passivo entre as
no cicloergômetro com uma sessão de corridas. Verificou-se melhora significativa na
exercício intermitente a uma intensidade de performance somente no grupo que
30% acima do LA (limiar anaeróbio). Durante o suplementou cafeína. Porém vale ressaltar
exercício foi verificado as concentrações de que foi observado maior exigência do sistema
glicose sanguínea, ácidos graxos livres, lactato cardiovascular com o uso da cafeína
e analisado a percepção subjetiva de esforço independente do exercício.
(PSE). Os resultados sugerem que o aumento
da lipólise induzido pela cafeína pode CONCLUSÃO
contribuir com a performance durante o
exercício intermitente intenso via uma redução A cafeína é uma substância utilizada
na utilização de glicose pelo aumento de há muitos anos por inúmeros atletas de
ácidos graxo livres circulante, com diferentes modalidades esportivas pelo seu
conseqüente aumento do tempo de exaustão. possível efeito ergogênico. A administração
Os valores de PSE foram estatisticamente dessa substância de maneira correta é
significativos apenas no final do exercício determinante para um melhor desempenho
quando as análises foram realizadas dentro de físico. Sendo utilizada dentro dos limites de 3 a
cada grupo isoladamente. 6 mg por quilograma de peso corporal, a
Um dos estudos de Vanakoski e cafeína parece ser uma substância efetiva
colaboradores (1998) analisou 7 homens para a melhora do desempenho físico,
treinados. Foram realizados 3 sprints de 1 podendo em alguns casos, ser considerada
minuto cada, com 5 minutos de intervalo entre um ergogênico nutricional.
eles. Utilizou-se 7mg/kg de cafeína, não

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A administração de dosagens elevadas de A partir dos artigos revisados nesse


cafeína, pode trazer inúmeros desconfortos ao estudo, podemos concluir que, a utilização
usuário. Podemos associar a ação ergogênica controlada da cafeína, melhora o desempenho
da cafeína como estimulador da secreção de físico em atividades máximas e supramáximas
adrenalina, o que resulta na mobilização de de curta duração e em atividades de média e
ácidos graxos livres, poupando assim o longa duração, com intensidade moderada.
glicogênio muscular. Esses benefícios são evidenciados nos
Embora muitos estudos mostrem estudos mais recentes devido a um melhor
resultados promissores, ainda existem muitas controle e um maior conhecimento da forma
controvérsias com relação às dosagens de de ingestão da cafeína. Os mecanismos que
cafeína, tipo de exercício físico utilizado, propiciam essa melhora de desempenho
horário de ingestão, nível de aptidão física e necessitam de mais estudos para serem
na tolerância à cafeína nas diferentes compreendidos.
modalidades esportivas.

Tabela dos Estudos sobre o Efeito Ergogênico da Cafeína em Exercícios Físicos


Investigadores N Gênero Tipo de teste Dose de Efeito Comentários
cafeína ergogê-
nico
Exercício supra- Aumento do tempo de início
Altimari e máximo no ciclismo da fadiga neuromuscular,
colaboradores 9 M a carga constante 6mg/kg Sim bem como melhora de 15%
(2008) do (Wmax) 110% no desempenho físico.
até exaustão.

Alves e 8 M Cicloergômetro a 10mg/kg Não Não se constatou melhora


colaboradores 80% do VO2 máx no desempenho físico.
(1995) até exaustão

Aumento significativo no
Anderson e 8 M Prova de remo 6e Sim tempo de prova. (0,7% e
colaboradores. 2000 metros 9mg/kg 1,3% respectivamente)
(2000) determinadas nos 500
metros iniciais.

Houve uma melhora na


Azevedo e 1 M Teste máximo de 5mg/kg Sim performance com o uso de
colaboradores 2 3200m De peso + cafeína, após 1 semana de
(2004) 200ml abstinência desta
gatorade substância, em 11 dos 12
avaliados, da ordem de 8
seg, bastante relevantes em
se tratando de testes
máximo.

RAST= 6 corridas A performance foi


Barbosa e 3 M de 35m na 300mg Sim significativamente maior no
colaboradores 6 velocidade máxima grupo C somente nos sprints
(2008) com 10s intervalo 4,5 e 6, mostrando efeito
entre cada corrida ergogênico apenas na
diminuição de fadiga e não
no aumento da força e
potência muscular.

Bell e 1 M 85% do VO2 max. 5mg/kg Não Não houve melhora no


colaboradores 2 no cicloergômetro tempo de exaustão.
(1998) até exaustão.

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Bruce e 8 M Prova de remo 6e Sim Aumento significativo no


colaboradores 2000 9mg/kg tempo de prova (1,2%) e na
(2000) potência média (2,7%) em
ambas as doses.

Cadarette e 1 8M 5F Corrida de longa 0; 2,2; 4,4; Sim Houve melhora significativa


colaboradores 3 duração 8,8mg/ no tempo de corrida, quando
(1983) kg. a ingestão foi de 4,4mg/kg

Kaminsky e 1 M Caminhada/corrida 243- Não Não se houve melhora no


colaboradores 4 em esteira a 30%, 330mg desempenho físico.
(1998) 50%, 70% do VO2
máx.

Silveira e 1 M Intermitente intenso 5mg/kg Sim Aumento na utilização de


colaboradores 0 30% acima do LA peso ácidos graxos livres e no
(2004) no cicloergômetro. tempo de exaustão

Não se constatou melhora


Tarnopolsky e 6 M Corrida em esteira 6mg Não na função neuromuscular,
colaboradores a 70% do VO2 máx. na percepção subjetiva de
(1989) durante 90 min. esforço, no VO2 máx,
possívelmente por serem
consumidores habituais de
aproximadamente 200mg de
cafeína.

O limiar de esforço
4 testes de carga percebido (LEP) não foi
Triana e 8 M constante 80%, 6mg/kg Sim alterado com a ingestão de
colaboradores 90%, 100% e 110% cafeína. Portanto a ingestão
(2008) da( W Max) no só se mostrou eficaz para
cicloergômetro prolongar o tempo de
exaustão nas cargas mais
intensas e atenuar a taxa de
aumento da percepção
subjetiva de esforço (PSE)

Vanakoski e 7 M Cicloergômetro a 7mg/kg Não Não se constatou melhora


colaboradores 65% da FC máx. alguma na velocidade e no
(1998) durante 45 minutos tempo do trabalho total. A
FC não foi alterado, nem a
concentração de lactato.

Vanakoski e 7 M 3 sprints de 1 min. 7mg/kg Não Não se constatou melhora


colaboradores em cicloergômetro alguma na velocidade e no
(1998) com intervalo de 5 tempo do trabalho total.
min. entre os
sprints

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