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INSTITUTO CONCÓRDIA DE SÃO PAULO

Escola Superior de Teologia


Estágio em Teologia - Leitura Programada
Gleisson Roberto Schmidt
Vitória, outubro de 2000.

RECENSÃO

LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. Volume 6: Ética. Comissão Interluterana de Literatura.


São Leopoldo/Porto Alegre: Sinodal/Concórdia. 1996. 557 pp.

Lançado em 1996 pela Comissão Interluterana de Literatura - CIL -, tendo como presidente
e editor-geral respectivamente Joachim H. Fischer e Ilson Kayser, o volume 6 da coleção Obras
Selecionadas de Martinho Lutero relembra os 450 anos da morte do reformador, ao mesmo tempo
em que celebra aquele que foi considerado na Alemanha o "ano de Lutero"1.
Nos escritos do presente volume encontramos os elementos básicos da ética política de
Lutero. E segundo nos informam seus organizadores, nem poderia ser diferente, afinal,
O porta-voz do evangelho de Jesus Cristo e reformador religioso não podia deixar de
ser, ao mesmo tempo, político. Ao ocupar-se com a questão da salvação eterna das
pessoas, jamais se esqueceu de perguntar também por seu bem-estar terreno. É verdade
que são questões distintas. Mas nem na reflexão teológica nem no dia-a-dia da vida das
pessoas podem ser separadas uma da outra. Lutero deixou claro que o mundo precisa
não apenas de pessoas aptas a pregarem o Evangelho, mas também de políticos,
pessoas aptas a conduzirem os negócios do Estado2.

Uma vez que, para Lutero, a política é o esforço racional permanente e paciente de
estabelecer e preservar uma ordem social compatível com os valores do cristianismo, à ética cabe
apresentar às pessoas perspectivas e orientações fundamentais para seu agir, baseada para isso em
valores inequívocos. Também deve ajudá-las a distinguirem entre o Bem o Mal, despertá-las e
instruí-las para que perguntem pelo que é correto e responsável, encorajá-las e fortalecê-las para a
prática do Bem, superando a resistência do comodismo3. Por isso mesmo a ética política deve
buscar seus "valores inequívocos" nos Dez Mandamentos, os quais fornecem as "linhas mestras de
uma ética de alteridade"4, ou seja, que vise a honra de Deus e ao bem-estar do próximo. Em Da
Autoridade Secular Lutero irá chamar essa lei de "lei do amor". Como conseqüência, o poder não

1
P. 7.
2
P. 9. O grifo é meu.
3
Id.
4
P. 10.
2

têm uma finalidade em si mesmo: no que se atribui ao ofício dos governantes, o poder só existe
como serviço em favor das pessoas que estão confiadas a eles.
Um conceito verdadeiramente novo introduzido no pensamento político por Lutero é a
distinção (não separação) dos dois Regimentos (Regimente) de Deus. Em sua opinião, o poder
político não pode ser deduzido do Evangelho e é diferente dele. Mesmo assim, o evangelho admite
o poder político e o confirma. Em adição, Lutero adverte que a este poder (o da "espada") não
compete interferir em questões de fé. Por isso é necessário que haja duas formas de governo
("regimentos" ou "reinos"): "o Regimento da Palavra para os piedosos, e a espada para os maus"5.
Esta distinção perpassa marcadamente todas as obras contidas neste volume, uma vez que Lutero
com freqüência retorna a ela.
Os dois documentos fundamentais para a compreensão da ética política de Lutero, que
encabeçam este sexto volume, são O Magnificat, traduzido e explicado (1521) e Da Autoridade
Secular, até que ponto se lhe deve obediência (1523). Neste dois escritos pode-se notar com clareza
que as formulações teológicas de Lutero são decorrência de sua descoberta da justificação por graça
e fé. No Magnificat, traduzido e explicado, por exemplo, a liberdade na graça de Deus, que não
observa os méritos próprios mas a "nulidade da serva" fez de Maria um modelo da existência cristã
no sentido da justificação só pela fé.
Nessa obra, partindo da necessidade de nos corações dos governantes habitar a graça de
Deus - sem a qual virariam monstros -, Lutero apresenta o Magnificat como aquele cântico que
todos eles deveriam aprender, uma vez que nele se canta "o temor de Deus, que Senhor ele é,
especialmente quais suas obras nas classes superiores e inferiores"6. E é na descrição das seis obras
divinas em seis classes de pessoas diferentes que Lutero desenvolve sua própria teologia da história,
tendo como pano de fundo o agir de Deus na mesma7.
Em Da Autoridade Secular Lutero aborda uma questão cujas respostas foram várias e todas
inconclusivas. A esse respeito imperava, na teologia da época, a confusão entre os mandamentos e
conselhos deixados por Cristo. Por isso, num ensaio em três partes, classificado no gênero de
literatura das "instruções para governantes", Lutero espera "ensinar aos príncipes e à autoridade
secular de tal maneira que continuem sendo cristãos, e Cristo um Senhor, sem necessidade de, por
sua causa, transformar os mandamentos de Cristo em meros conselhos"8. Reitera, portanto, a
distinção clara entre os dois regimentos, e que a autoridade secular tem o respaldo do Evangelho,

5
P. 17.
6
P. 22.
7
Vd. pp. 54-70
8
P. 81.
3

tendo sido ordenada por Deus em textos bastante claros da Escritura, tais como o capítulo 13 da
epístola aos Romanos.
Partindo da fundamentação da ética política do reformador a obra prossegue com a
abordagem de quatro assuntos decorrentes desta. As sessões seguintes, dispondo de 17 obras de
Lutero - cartas, discursos, comentários e ensaios - tratam dos assuntos do Governo, da Guerra dos
Camponeses, da Guerra contra os Turcos e da Paz Social.
As cinco obras que tratam do governo foram escritas num intervalo de tempo de dezoito
anos. Talvez elas sejam as que melhor expressem a jornada do reformador rumo à maturidade
teológica baseada na Escritura. Ainda que o contexto no qual a obra foi escrita não seja totalmente
predominante sobre o seu conteúdo, a verdade é que todas as obras contidas nessa sessão foram
escritas por Lutero em momentos de crise na relação com as autoridades da época, desde a Dieta de
Worms (1531) até a Aliança de Esmalcalde. Questionava-se se, quando e por que os cristãos, que
vivem sob o evangelho de Cristo, poderiam resistir contra uma investida armada das autoridades.
Ou, então, como ocorre em Lutero à Câmara de Danzig (1525), a questão girava em torno da
aplicação da lei mosaica numa sociedade de cristãos. Ainda, no Debate Circular sobre Mt 19.21
(1539) o problema era o da intromissão do papa no ofício próprio do imperador. A todas estas
dúvidas Lutero responde, em suma, que o direito dos cristãos à resistência vale só em situação de
real emergência em que pretensões totalitárias ameaçam a sobrevivência e a salvação das pessoas.
Não sendo este o caso, diz Lutero,
cá está o ensinamento de Cristo: Vai, vende, abandona, cede, entrega tudo, inclusive a
própria vida, pois além do reino deste mundo não há outro reino superior que se
oponha contra esse reino a favor de nós, a não ser aquele eterno reino de Deus (...)
Pois não temos outra autoridade que pudesse proibir o mal dessa autgoridade e sob
cuja autoridade pudéssemos ou devéssemos resistir-lhe9.

Entre os sete documentos que tratam da Guerra dos Camponeses temos aqueles três que dão
o tom definitivo da posição de Lutero sobre o conflito: a Exortação á Paz: Resposta aos Doze
Artigos do Campesinato da Suábia (1525), o Adendo: Contra as hordas Salteadoras e Assassinas
dos Camponeses (1525) e a Carta Aberta a Respeito do Rigoroso Livrinho contra os Camponeses
(1525).
A revolta que iniciou em 1524 na margem sudeste da Floresta Negra, próximo à fronteira
com a Suíça foi o ponto alto de uma série de levantes que vinham acontecendo desde o início da
Baixa Idade Média. Os ideólogos do movimento - Tomás Muntzer e outros - defendiam o caráter
cristão da guerra. Nos Doze Artigos, documento básico do movimento, além de citar-se passagens
claras da Escritura como fomento às reivindicações, o povo exigia uma autonomia maior em
9
Pp. 219-220. O grifo é meu.
4

questões referentes ao dízimo e ao chamado dos párocos. Também listavam, ao final do documento,
uma série de teólogos e autoridades que serviriam de "juízes" para confirmar se seu conteúdo estava
consoante à Bíblia ou não. O nome de Lutero encabeçava a lista. Por isso tudo os partidários da
reforma dividiram-se justamente na questão concernente ao uso ou não da força em favor do
evangelho.
Lutero reagiu, primeiro em tom pastoral, com a Exortação à Paz. Pediu sensatez aos
revoltosos e clemência aos príncipes que haveriam de executar a justiça - os quais também tinham
culpa nesta guerra em vista da exploração dos seus súditos10. Constatando, porém, a discrepância
ente os termos dos Doze Artigos e a revolta que se desenrolava na Turíngia no início de 1525 - que,
segundo conta, havia muito poucos cristãos entre os revoltosos -, Lutero acrescenta à Exortação um
Adendo: Contra as Hordas Salteadoras... Nela, escreve:
Já que esses camponeses e gente miserável se deixam seduzir e agem diferente daquilo
que havia falado, vou ter que, em primeiro lugar, escrever diferente deles e mostrar-lhes
seu pecado, como Deus ordenou a Isaías e Ezequiel, para que, porventura, alguns caiam
em si; em segundo lugar, tenho que instruir a consciência da autoridade secular para
saber que atitude tomar no caso11.

As colocações de Lutero neste último foram duras, uma vez que os camponeses realizavam
uma rebelião contra a autoridade constituída. Pois, rebelando-se contra ela, haveriam de obedecer a
quem? O Adendo, por isso, ganhou uma projeção muito maior que a própria Exortação - o que é
assim até hoje Por isso, na Carta Aberta a Respeito do Rigoroso Livrinho contra os camponeses,
Lutero não mede palavras ao censurar a atitude daqueles que se escandalizam com suas afirmações
sem sequer conhecer o conteúdo do Evangelho - que com certeza não daria respaldo ao que os
camponeses faziam. Pergunta Lutero:
Pois não têm a mínima idéia dele (i.e., do evangelho), apesar de falarem muito a seu
respeito. Pois, como saberiam o que é justiça celestial em Cristo segundo o evangelho,
eles que ainda não sabem o que é justiça mundana sob a autoridade terrena de acordo
com a lei?12.

A guerra contra os turcos, por sua vez, era um assunto recorrente nos escritos do
reformador desde 1517. Fernando da Áustria, irmão do imperador Carlos V, conseguiu convocar
uma segunda Dieta para Espira em 1529, onde tencionava exterminar a ameaça do turcos - sob o
comando de Solimão II - e, junto com ela, a ameaça luterana. Fernando julgava a ameaça turca um
castigo de Deus para a "heresia" luterana. Porém, o que se desenrolava nos bastidores era uma

10
P. 308.
11
P. 332.
12
P. 343.
5

tentativa - bem-sucedida, diga-se - de domínio do papa Clemente VII sobre o próprio imperador.
Aquele pretendia executar uma nova "cruzada" contra o inimigo islâmico.
Como os príncipes luteranos protestassem contra isto (de onde surgiu a denominação
"protestantes"), Lutero redigiu Da Guerra contra os Turcos em 1529. A respeito da formação de
um suposto "exército cristão" contra os turcos ele sumariza: "Isso vai diretamente contra a doutrina
e o nome de Cristo"13. Já na Exortação à Oração contra os Turcos, escrito de data mais avançada
neste compêndio - o ano é 1541-, Lutero apresenta-se como uma testemunha do que se seguiu ao
princípio reformador de duas décadas atrás14. Especialmente testemunha o advento do que chama de
"deus Mâmon": a ganância e a usura do povo.
Diante disso conclui: "Se esse for o jeito de derrotar o turco, provocando previamente de
todas as maneiras a ira de Deus, não podemos ter êxito algum por causa de semelhante e inaudita
atrocidade e maldade"15. Lutero reconhece no turco um possível castigo de Deus contra os pecados
do povo. A solução, porém, está na misericórdia de Deus, que promete ouvir suas orações, e a
esperança em Cristo, aquele que "por nós se assenta à direita do Senhor"16.
A obra encerra com as três breves cartas do reformador que versam sobre o tema da paz
social. Sob uma excelente introdução de Nestor Beck, temos Uma Sincera Exortação de Martinho
Lutero a Todos os Cristãos para se Precaverem de Convulsão e Rebeldia (1522), a Advertência do
Dr. Martinho Lutero a seus Estimados Alemães (1531) e Exortação do Dr. Martinho Lutero a
Todos os Párocos à Oração pela Paz (1539). Lutero, fundamentado sobre a tradição clássica,
jamais separou o trinômio ordem social/bom governo/paz social. Por isso, contra a sedição e a
revolta ele apresenta o consolo do evangelho, defende o direito, a justiça e a clemência por parte
dos governantes e exorta todos a orar sempre por paz. Por isso tem a coragem de expor sua defesa:
Pois bem: quer a coisa vá para a guerra, quer para o tumulto, como disse (...), quero ter
testemunhado com o presente escrito (i.e., Advertência aos Estimados Alemães), perante
Deus e o mundo inteiro, que nós, que somos xingados de luteranos, não aconselhamos
nem concordamos com isso e nem demos motivo par tanto. Pelo contrário, oramos e
clamamos sempre e sem cessar por paz17.

Alguns detalhes deste sexto volume das Obras Selecionadas merecem destaque. Em
primeiro lugar não podemos deixar de redobrar a ênfase sobre a distinção que Lutero faz entre os
dois regimentos ou reinos de Deus. Depois de séculos de confusão e de exegeses truncadas da
Escritura quando tratava do assunto da autoridade secular, finalmente surge uma posição bem
alicerçada na própria Escritura e, em adição a isso, revolucionária por si só.
13
P. 414.
14
Vd. pp. 447s.
15
P. 449.
16
P. 465.
17
P. 487.
6

O reformador, contudo, ainda demonstrou ser um homem de sua época ao escrever a partir
de sua própria realidade. Não só seus escritos tiveram origem nos acontecimentos que viveu
naqueles anos turbulentos do início da reforma, mas seus textos expressam conceitos e formas
correntes na época. Lutero demonstrou isso ao escrever em forma de ensaios - chamados de
"tratados" neste volume -, ao fazer as proposições do Debate Circular sobre Mt 19.21 em
silogismos - característicos do escolasticismo -, e ao basear-se sobre conceitos como a tricotomia de
corpo, alma e espírito (Magnificat), a lei da natureza ou o direito natural, entre outros.
Sua exegese, especialmente no Magnificat - escrito de data bastante recuada -, é inovadora.
Note-se que Lutero já não tolera mais as múltiplas interpretações da teologia medieval - unus
sensus literaris est. E neste ponto podemos observar aquilo que chamamos acima de trajetória
rumo à maturidade teológica: nos escritos mais tardios o uso que Lutero faz da Escritura
(especialmente do Antigo Testamento) torna-se mais diversificado e elucidativo. Junto com isso
aprimora-se também seu estilo. Para comprovar basta que se leia a bela abertura da Exortação à
Oração contra os Turcos.
A edição deste volume merece elogios. Os textos selecionados são bem apropriados ao tema
proposto. As traduções não apresentam dificuldades de leitura e interpretação. As notas são ao
mesmo tempo esclarecedoras e diversificadas. São ferramentas preciosas para a compreensão dos
textos junto com as introduções gerais e as específicas, feitas pelos membros da CIL para cada uma
das obras. Por fim, os índices remissivo e de passagens bíblicas também são ferramentas
importantes para pesquisa, especialmente para trabalhos relacionados ao tema.
Por tudo isso recomendamos a obra não só a pastores e professores que preguem e ensinem
sobre assuntos relativos á ética política de Lutero. Ela também é acessível a leigos e estudantes do
assunto, ou a pessoas apenas "curiosas" a esse respeito. De maneira especial o volume redobra sua
importância quando permite, por sua qualidade, a pesquisa e o debate interdisciplinares em torno de
seu tema específico. Estudantes de ciências humanas - filosofia política, sociologia, antropologia -
podem usa-lo como obra de referência em suas pesquisas acadêmicas. Desta forma o volume 6 das
Obras Selecionadas de Martinho Lutero preenche uma lacuna preciosa no universo do ensino da
ciência política no Brasil e nos demais países de fala portuguesa.

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