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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

CENTRO DE BIOCIÊNCIAS
DEPARTAMENTO DE BIOFÍSICA E RADIOBIOLOGIA

Apostila de pHmetria
2020.3

Docentes:
Abel Vieira Neto
Dijanah Cota Machado
Thiago de Salazar e Fernandes

Recife, 2020

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1. INTRODUÇÃO

Os íons hidrogênio (H+) e hidroxila (OH−) possuem propriedades particulares, especialmente


importantes do ponto de vista biológico. Todos os fluidos corporais apresentam em sua composição
grande proporção de água e, portanto, contêm H+ e OH−. Sendo constituintes da água, estes íons
estão presentes em todas as soluções aquosas; determinam a acidez e a alcalinidade das soluções e
exercem profunda influência em um grande número de funções orgânicas.
O caráter ácido, básico ou neutro de uma solução depende das concentrações relativas de H+
e OH− que ela contém. Se a concentração de H+ de uma solução aquosa for maior do que a
concentração de OH−, a solução terá um caráter ácida; se as concentrações de H+ e OH− forem
idênticas, neutro (o caso da água); e quando houver predominância de OH−, a solução será alcalina.

H+ > OH− Caráter Ácido


H+ = OH− Caráter Neutro
H+ < OH− Caráter Alcalino ou Básico

A concentração de H+ de uma solução aquosa pode ser determinada por método


colorimétrico ou potenciométrico (eletrométrico). O resultado da medida é expresso por um
símbolo conhecido como pH.

2. ORIGEM E SIGNIFICADO DO pH

A concentração de H+ nas soluções, geralmente, é muito pequena. Em uma solução neutra,


por exemplo, a concentração de H+ é de aproximadamente 0,0000001 M. Valores desta magnitude
acarretam dificuldade no seu manuseio. Por isso, a notação foi abreviada utilizando-se potências
negativas. Assim, em vez de:

H+ = 0,0000001 M

expressa-se da seguinte forma:

H+ = 10−7 M

Uma forma ainda mais simples para expressar as concentrações de H+ foi proposta pelo
pesquisador dinarmaquês Sören Sörensen em 1909, consistia em utilizar o logaritmo negativo
destas concentrações. O valor assim expresso foi chamado de pH (potencial de hidrogênio ou
potencial hidrogeniônico). Portanto:

pH é o logaritmo negativo da concentração do íon hidrogênio

O símbolo p de pH significa “logaritmo negativo de”, desta forma, matematicamente, o pH


pode ser definido pela equação:

pH = − log H+

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Assim, para uma solução neutra na qual:
H+ = 10−7

pH = − log 10−7
pH = − (− 7)
pH = 7

A escala de pH vai de 0 a 14. Soluções que possuem pH menor que 7 são classificadas como
ácidas (concentração de H+ é maior que a de OH-). Soluções com pH maior que 7 são classificadas
como alcalinas ou básicas (a concentração de H+ é menor que a de OH-) e pH igual a 7 a solução é
dita neutra (Figura 1).

Figura 1. Representação da escala de pH e exemplos de alguns elementos do cotidiano e seus respectivos valores
aproximados de pH. Fonte: Google Imagens.

A escala de pH é logarítmica, e não aritmética. Por conta disso, se duas soluções diferem em
pH por uma 1 unidade, isso significa que uma solução tem dez vezes mais a concentração de íons
H+ que a outra, mas isso não indica a magnitude absoluta da diferença.
Pode-se também determinar a acidez ou alcalinidade de uma solução por meio da medida da
concentração de íons OH- na solução, neste caso calcula-se o pOH (potencial hidroxiliônico) da
solução. Matematicamente, pOH é definido como:

pOH = − log OH-

Igualmente ao pH, a escala de pOH vai de 0 a 14, porém a classificação é invertida, soluções
com pOH menor que 7 são classificadas como básicas; soluções que possuem pOH maior que 7 são
classificadas como ácidas e solução com pOH igual a 7 neutra.
Até Sørensen desenvolver as escalas de pH e pOH, não existia uma maneira amplamente
aceita de expressar as concentrações de íons hidrogênio e hidroxila.

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3. ELETRÓLITOS

Um eletrólito apresenta como característica fundamental a capacidade de, em solução, se


dissociar em partículas portadoras de carga elétrica. Tais partículas, que podem ser um átomo ou
grupo de átomos, são chamadas de íons. Conforme a natureza da carga que portam, os íons podem
ser positivos (+) ou negativos (−). Assim, quando, por exemplo, o NaCl se dissolve numa solução
produz íons Na+ e Cl−.
Introduzindo-se dois eletrodos numa solução contendo íons, e fazendo-se passar uma
corrente elétrica, os íons positivos (cátions) migrarão para o eletrodo negativo (cátodo) e os
negativos (ânions) se dirigirão para o eletrodo positivo (ânodo). Isto ocorre em virtude da atração
entre cargas opostas.
É importante lembrar que íons de cargas opostas existem simultaneamente. Isto é, um íon
positivo está sempre pareado com um íon negativo, com o qual está em equilíbrio. É impossível
preparar uma solução contendo um único tipo de íon. Tanto nas soluções preparadas em laboratório,
como nos líquidos biológicos, a carga positiva total é exatamente equilibrada pela carga negativa
total.

3.1. Teoria de Arrhenius para ácidos e bases

A Teoria de Arrhenius, proposta pelo químico sueco Svante Arrhenius em 1884, define que
ácido é toda espécie química que, em solução aquosa, aumenta a concentração de H+ e base como
uma espécie que, em solução aquosa, aumenta a concentração de OH-.

3.2. Teoria de Bronsted-Lowry para ácidos e bases

Ao reagir com a água, ácidos e bases exibem funções opostas. Enquanto uma molécula de
ácido doa um próton, uma molécula de base recebe um próton de uma molécula de água. Este fato
originou uma ampla definição de ácidos e bases, proposta por J. N. Bronsted e J. M. Lowry, em
1923. Segundo estes autores, um ácido é um doador de prótons, e uma base é um receptor de
prótons; isto ficou conhecido como a definição de Bronsted-Lowry, ou simplesmente de Bronsted.

3.3. Constante de ionização

Todos os compostos eletrolíticos (ácidos, bases e sais) em solução aquosa, ionizam-se até
um certo grau. Cada composto exibe um grau próprio de ionização. Um ácido, por exemplo, em
solução, libera H+; a tendência para a liberação de H+ é uma medida da força de um ácido. Assim,
um ácido forte é aquele que exibe uma forte tendência a doar prótons; analogamente, de acordo com
Bronsted-Lowry, uma base forte é a que possui uma forte tendência a receber prótons.
Um exemplo de ácido forte é ilustrado pelo ácido clorídrico (HCl), que tem grande
facilidade para doar H+; por sua vez, o ácido acético (CH3COOH) constitui um exemplo de ácido
fraco, pois libera H+ em pequena proporção.
Embora as dissociações dos eletrólitos, em geral, sejam reversíveis, o sentido predominante
da reação depende da afinidade dos componentes ionizáveis. Ao se dissolver um ácido em solução
aquosa, há produção de H+ (prótons) e A− (ânions). Quando se trata de um ácido forte, a maior parte

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das moléculas se dissocia, formando os prótons e os ânions correspondentes; se for um ácido fraco,
grande parte das moléculas permanece na forma neutra, não dissociada (HA), sem carga elétrica, e
uma pequena parte se dissocia formando os prótons (H+) e os ânions (A− ) correspondentes.

Exemplo da dissociação do ácido clorídrico (ácido forte):


HCl H+ + Cl−

Exemplo da dissociação do ácido acético (ácido fraco):


CH3COOH CH3COO− + H+

As proporções diferentes em que os ácidos se dissociam dependem de uma qualidade


intrínseca de cada ácido: a constante de ionização.
A dissociação de um ácido pode ser representada pela equação geral:

HA H+ + A−

Segundo a Lei de Ação das Massas, no equilíbrio, a relação entre os produtos das
concentrações de ambos os lados da equação química é constante, para uma determinada
temperatura. Assim:
[H+ ] 𝑥 [A− ]
Keq = [HA]

Esta relação indica que, independente da quantidade da substância presente na solução, a


uma determinada temperatura, o grau de dissociação é constante.

3.4. Ionização da água

Na água também acontece o processo de ionização (dissociação da água). A ionização de


uma molécula de água produz H+ e OH−, representada pela seguinte equação:

H2 O H+ + OH−

A reação é reversível e o grau de ionização da água no equilíbrio é baixo. À 25ºC, na água


pura, a cada 109 moléculas de água, apenas de duas a três moléculas estão ionizadas a cada
momento. Como cada molécula de água se dissocia em um íon H+ e um íon OH−, isto significa que
haverá igual quantidade de H+ e OH−. Aplicando-se a lei de ação das massas, tem-se:

[H+ ] 𝑥 [OH− ]
Keq =
[H2 O]
Como a proporção de moléculas não dissociadas é extraordinariamente grande em relação às
dissociadas, pode-se considerar o valor da [H2O] constante. Na equação acima, aplicando a regra
fundamental das proporções (meio pelos extremos), a constante de equilíbrio da água será dada por:

Keq x [H2O] = [H+] x [OH−]

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Na água pura a 25 ºC, a concentração da água [H2O]1 é 55,55 M e o valor da Keq,
determinado por medidas de condutividade elétrica da água pura, é de 1,8x10-16 M. Deste modo,
este valores podem ser substituídos na equação da constante de equilíbrio. Somando a isso a
informação de que Keq x [H2O] = Kw, a equação fica:

Keq x [H2O] = [H+] x [OH−] (1)

Kw = [H+] x [OH−] (2)

Kw = 1,8x10-16 x 55,55 = [H+] x [OH−] (3)

Kw = [H+] x [OH−] = 10-14 M2 (4)

Kw é o produto iônico da água a 25 °C e representa a base para a escala de pH, e também


de pOH, pois designa as concentrações de H+ e OH- nas soluções aquosas. O valor de Kw, de 10-14
M2, permanece constante, independente das proporções relativas de H+ e OH−. Isto significa que
aumentando a [H+], diminui a de [OH−], de forma que o produto [H+] x [OH−] permanece sempre
igual a 10-14 M2.
Sabendo que no pH neutro as concentrações de H+ e OH- são iguais, por meio do produto
iônico da água podemos encontrar o valor da concentração molar de cada íon:

Kw = [H+] x [OH−] = 10-14 M2

Considerando H+ = OH-, tem-se: Kw = [H+] x [H+] = 10-14 M2

[H+]2 = 10-14 M2

Deslocando o expoente do primeiro membro para segundo membro, transforma-o em raiz quadrada:

[H+] = √10-14 M2

[H+] = [OH−] = 10-7 M

A dissociação da água pura é um exemplo clássico de reação neutra, isto é, [H+] = [OH−].
Embora as concentrações de H+ e OH− estejam intimamente relacionadas, na prática se utiliza a
[H+] para se expressar a alcalinidade ou acidez das soluções, ou seja se aplica a escala de pH. Para a
água pura o pH é o seguinte:

1Considere 1 litro de água pura, a massa de água nele presente é 1000 gramas, pois a densidade da água é igual a 1 g/mL. Sabendo, que massa molar
(M1) da água é 18 g/mol, pode-se calcular a sua concentração molar:
n m 1 1000 g
[H2O] = = ∙ = = 𝟓𝟓, 𝟓𝟓 𝐌
V M1 V 18 g/mol 𝑥 1 L
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pH = - log [H+]

Como [H+] = 10-7 M: pH = - log 10-7

pH = - (-7 log 10)

pH = 7
Analogamente, pOH = 7

Na realidade, o H+ não pode existir no estado livre, encontrando-se, habitualmente,


hidratado, formando o íon hidrônio (H3O+).

H+ + H2 O H3O+

No entanto, para fins práticos, costuma-se usar a forma simplificada H+.

4. SISTEMA TAMPÃO

4.1. Conceito

Algumas soluções são capazes de impedir acentuadas variações de pH. Tais soluções
aquosas, conhecidas como tampão, tendem a resistir a mudanças de pH quando pequenas
quantidades de ácido (H+) ou base (OH-) são adicionadas.
Esta propriedade confere extrema importância às soluções tampão, tanto nos mecanismos
biológicos como nos diversos processos de laboratório. Nestes últimos, os tampões são necessários
em reações que exigem um pH “ótimo”, como ocorre nas reações imunoenzimáticas.
Nos organismos vivos, os sistemas tampão são essenciais para a manutenção da constância
do meio interno, garantindo um pH adequado à realização de muitas funções.

4.2. Capacidade de tamponamento

É a quantidade de ácido ou base que um tampão pode neutralizar antes que o pH da solução
comece a variar a um grau apreciável.
Dependerá da concentração dos compostos utilizados na preparação do tampão. Assim,
tampões mais concentrados apresentam maior grau de tamponamento.

4.3. Mecanismo de ação

As soluções tampão são constituídas por um ácido fraco e um sal deste ácido (base
conjugada) ou por uma base fraca e um sal desta base (ácido conjugado). Um exemplo de tampão
composto por ácido fraco é a mistura de ácido acético e acetato de sódio. Já um exemplo de tampão
composto por base fraca é a mistura de hidróxido de amônio e cloreto de amônio.

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Em uma solução preparada com ácido acético e acetato de sódio ocorre:

1) a total ionização do sal, gerando uma alta concentração de íons acetatos:

CH3COONa Na+ + CH3COOH−


(acetato de sódio) (íon acetato)

2) o ácido acético se dissocia, liberando H+:

CH3COOH CH3COO− + H+
(ácido acético)

3) os íons acetato se combinam com os H+ provenientes da dissociação do ácido acético:

CH3COO− + H+ CH3COOH

4) o resultado final será uma mistura de acetato de sódio totalmente dissociado e ácido
acético muito pouco dissociado.

A adição de um ácido forte, por exemplo HCl, a uma solução tampão, como a formada por
ácido acético/acetato de sódio, produzirá uma variação mínima no pH, pelo seguinte:
O HCl se dissocia, liberando H+:

HCl Cl− + H+

Os H+ liberados pelo HCl se combinam com os íons acetato para formar ácido acético:

H+ + CH3COOH CH3COOH

A equação geral da reação é a seguinte:

HCl + CH3COONa NaCl + CH3COOH

Desta forma, um ácido forte, muito ionizado, é transformado em um ácido fraco, pouco
ionizado. Como os H+ desaparecem, captados pelo acetato, a modificação do pH é mínima.

Quando se adiciona uma base forte, NaOH por exemplo, o processo é semelhante:

NaOH Na+ + OH−

Os OH− provenientes da dissociação da base forte se combinam com os H+ liberados pelo


ácido acético para formar água:

Na+ + OH− + CH3COOH CH3COONa + H2O

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Assim, os OH− que poderiam modificar o pH desaparecem, e o efeito da adição da base será
muito discreto.

4.4. Cálculo do pH de soluções tampão

Como visto anteriormente, um ácido fraco, em solução, se dissocia muito pouco. Esta
dissociação é regida pela equação:
[ H + ][ A − ]
K=
[ HA]

Transformando esta equação em forma logarítmica,

 [ H + ][ A − ] 
log K = log  
 [ HA] 
ou
 [ A− ] 
log K = log[ H + ] + log 
 [ HA] 
Rearranjando a equação
 [ A− ] 
− log[ H + ] = − log K + log  
 [ HA] 

Por definição, − log [H+] = pH. Analogamente, − log K = pK. Assim,

 [ A− ] 
pH = pK + log  
 [ HA] 
Esta expressão é conhecida como equação de Henderson-Hasselbach.
Levando-se em conta que, em uma solução tampão quase todos os íons provêm do sal, que
está totalmente dissociado, pode-se considerar, sem grande erro, que A− = sal; e, como o ácido se
encontra muito pouco dissociado, pode-se considerar HA = ácido. Destarte, a equação pode ser
formulada de outra maneira:

 sal 
pH = pK + log  
 ácido 

5. TAMPÕES BIOLÓGICOS

Nos animais superiores, a regulação do pH dos seus fluidos é feita através de dois
mecanismos: físico-químicos e fisiológicos. Os mecanismos físico-químicos são representados
pelos sistemas tampão e constituem a primeira defesa contra variações do pH.
Dois tampões biológicos especialmente importantes são o sistema fosfato e o bicarbonato. O
tampão fosfato atua no ambiente intracelular. Já o sistema constituído por ácido

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carbônico/bicarbonato (tampão bicarbonato) é o principal responsável pela manutenção do pH
sanguíneo.
O H2CO3 está em equilíbrio com o CO2 dissolvido em água, conforme a seguinte equação:

H2CO3 CO2 + H2O

O tampão bicarbonato está presente no sangue para mantê-lo dentro da faixa de normalidade
de 7,35 a 7,45. Alterações no equilíbrio ácido-base do organismo perturbam o tampão bicarbonato
de modo que o pH sanguíneo pode sair da sua faixa de normalidade e apresentar valores de pH
abaixo de 7,35 ou acima de 7,45, desenvolvendo distúrbios ácido-base denominados acidose (pH <
7,35) e alcalose (pH > 7,45) (Figura 2).

Figura 2. Quando o pH sanguíneo está fora da faixa de normalidade, o organismo sai do equilíbrio ácido-base e
desenvolve os distúrbios ácido-base Acidose (acúmulo de ácido, redução do pH do sangue) e Alcalose (perda de ácido,
aumento do pH). Fonte: Google Imagens.

Basta alterar o ritmo e a profundidade dos movimentos respiratórios para produzir uma
modificação na concentração de H2CO3 e, consequentemente, o pH tenderá a acidez. Uma redução
do CO2, por outro lado, diminuirá a concentração do H2CO3, fazendo o pH se deslocar em direção a
alcalinidade.
Além dos processos físico-químicos, mecanismos fisiológicos, realizados pelos pulmões e
pelos rins, também desempenham um papel importante na regulação do pH do meio interno. Os
detalhes desses mecanismos transcendem aos propósitos deste texto.

6. DETERMINAÇÃO DO pH

Dois métodos são comumente usados para determinar o pH de soluções: o colorimétrico e o


potenciométrico (ou eletrométrico).

6.1. Método colorimétrico

A determinação colorimétrica do pH baseia-se no uso de indicadores ácido-base que são


substâncias que variam de cor em função da [H+]. Constituem-se de ácidos ou bases fracas, cuja
dissociação depende da [H+]. A molécula não dissociada e o íon resultante da dissociação
apresentam cores diferentes. Um indicador constituído por um ácido fraco apresenta a seguinte
dissociação:

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HI H + + I−

onde I− representa o íon resultante da dissociação da molécula do indicador HI.


A característica fundamental de um indicador é que as formas não dissociada (HI) e a
dissociada (I−) apresentam cores diferentes, podendo, inclusive, uma dessas formas ser incolor.
Aplicando-se a lei de ação das massas à equação de dissociação de um indicador, obtém-se:

[H+ ] 𝑥 [I− ]
Ki = [HI]
Onde:
 [ HI ] 
[ H + ] = K i  − 
 [I ] 

Como Ki é constante, a relação cor de HI/cor de I− varia em função da [H+].


Aplicando-se a equação de Henderson-Hasselbach:

 [I − ] 
pH = pK i + log  
 [ HI ] 

Esta expressão indica que diversas cores podem ser assumidas pelo indicador, consequentes
à variação no pH de uma solução. Existem, no entanto, limites na relação I−/HI, que restringem a
utilização de um indicador. Cada indicador só é útil dentro de uma certa faixa de pH (Tabela 1). O
vermelho de fenol, por exemplo, com a forma HI amarela, e a I− vermelha, só pode ser utilizado
para medir variações de pH compreendidas entre 6,4 e 8,4. Abaixo de 6,4 e acima de 8,4 a solução
se apresentará, respectivamente, amarela ou intensamente vermelha, não sendo possível apreciar
diferentes tonalidades.

Tabela 1. Exemplos dos indicadores ácido-base mais usados.


NÃO
INDICADOR DISSOCIADO FAIXA ÚTIL (pH)
DISSOCIADO
Azul de Timol Vermelho Amarelo 1,2 a 2,8
Vermelho de Metila Vermelho Amarelo 4,3 a 6,1
Azul de Bromo Timol Amarelo Azul 6,0 a 7,6
Vermelho de Fenol Amarelo Vermelho 6,4 a 8,4
Fenolftaleína Incolor Vermelho 8,2 a 10,0

Os indicadores podem se encontrar na forma de soluções ou embebidos em papéis. Pelo


método das soluções (Figura 3A), um indicador é adicionado a várias soluções de pH conhecido, de
maneira a formar uma escala de cores; o mesmo indicador é adicionado à solução de pH
desconhecido, e a cor assumida por esta solução é comparada com a escala de cores formada pelas
soluções de pH conhecido.
No caso do papel indicador, conhecido também como fita de pH, a coloração produzida pelo
contato com a solução deve ser comparada com uma escala de cores padrão para que se possa
identificar a cor igual ou a mais parecida (Figura 3B).

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Algumas soluções de substâncias naturais, especialmente originárias de plantas, comportam-
se como soluções de indicadores de pH. Como exemplos temos:
a) Solução aquosa de chá preto: a sua solução aquosa é avermelhada/ amarelada, adquirindo cor
amarelo-pálida em contato com soluções ácidas e cor acastanhada em contato com soluções básicas.
b) Solução aquosa de beterraba: a sua solução aquosa adquire cor vermelha em contato com
soluções ácidas e cor roxa em contato com soluções básicas.
c) Solução aquosa de rabanete: a sua solução aquosa adquire cor vermelha em contato com soluções
ácidas e cor acastanhada em contato com soluções básicas.
d) Solução aquosa da pêra: sua solução aquosa adquire cor vermelha em contato com soluções
ácidas e cor verde-seco em contato com soluções básicas.
e) Solução aquosa de repolho roxo: apresenta cor roxo azulado em pH neutro; rosa/vermelho em pH
àcido; azul em pH alcalino fraco e verde em pH alcalino forte (Figura 3C).

A
B C

Figura 3. Medidas de pH pelo método colorimétrico. (A) Espectro das cores formadas pela adição do indicador ácido-
base vermelho de fenol em soluções com pH compreendido entre 6 e 8. (B) Fita de pH. (C) Espectro das cores formadas
pelo indicador ácido-base natural encontrado no repolho roxo em soluções com pH compreendido entre 2 e 11. Fonte:
Google Imagens.

6.2. Método potenciométrico ou eletrométrico

A determinação potenciométrica (eletrométrica) do pH é feita através de aparelhos


chamados pHmetros ou potenciômetros (Figura 4), constituindo-se em um método mais preciso do
que o colorimétrico.

A B

Figura 4. Tipos de pHmetros. (A) pHmetro portátil. (B) pHmetro de bancada. Fonte: Google Imagens.

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O método potenciométrico baseia-se na formação de potenciais elétricos entre duas soluções
com concentrações (ou atividades) iônicas diferentes. Neste caso em particular, a espécie iônica de
interesse é o H+. Um elemento importante deste método é o eletrodo, que pode ser de vários tipos:
calomelano, de hidrogênio e o de vidro. O mais utilizado é o eletrodo combinado de vidro (Figura
5).

A B

Figura 5. (A) Eletrodo combinado de vidro para medição de pH. (B) Representação de eletrodo de pH com indicação
dos elementos que o compõem. Fonte: Google Imagens.

Basicamente, o eletrodo combinado de vidro é composto pelas seguintes estruturas:


a) eletrodo de medida.
b) eletrodo de referência
c) solução que banha o eletrodo de medida composta por HCl 1M.
d) solução que banha o eletrodo de referência composta por KCl 3M.
e) membrana porosa de vidro seletiva aos íons H+.
f) conector poroso ou vidro poroso.
g) corpo do eletrodo.
h) abertura para troca ou reposição de KCl 3M.

O funcionamento do eletrodo de vidro tem como base a diferença de potencial elétrico (ddp)
entre duas soluções separadas por uma membrana de vidro especial, com concentrações de H +
diferentes. Desta forma, o eletrodo funciona como pilhas de concentração, cuja diferença de
potencial é dada pela equação de Nernst:
 RT   C 
E =  ln  , 
 zF   C 

onde: E = diferença de potencial elétrico


n = valência do íon
F = número de Faraday (96500 Coulomb/mol)
R = constante dos gases perfeitos (8,3143 J/(K.mol)
T = temperatura absoluta (K)
C = concentração de H+ no interior do eletrodo
C= concentração de H+ na solução desconhecida
ln = logaritmo natural ou neperiano

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Substituindo os símbolos pelos valores correspondentes, para um íon monovalente, a 25 C
(298 K), temos:

 8,3143 x 298   C 
E =  ln  , 
 96500   C 

C
E = 0,026 ln  , 
C 

Convertendo ln em log (0,0256 x 2,3):

C
E = 0,059 log  , 
C 

Fazendo C = 1 e substituindo C por [H+]:

 1 
E = 0,059 log + 
H 

 1 
Como log  +  = pH
H 
Então a relação entre o potencial elétrico (E) e o pH se dá através da equação:

E = 0,059 x pH (em volts, V)


ou

E = 59 x pH (em milivolts, mV)

Desta forma, é possível obter o pH a partir do potencial elétrico, e vice-versa. O eletrodo


detecta a diferença de potencial elétrico e o pHmetro (potenciômetro) calcula e converte o valor em
pH. Assim, por exemplo, um pH = 7,0 corresponde a uma ddp = 413 mV, pois:

E = 59 x 7,0

E = 413 mV

Não obstante, alguns aparelhos fornecem os dois valores, facilitando ainda mais a tarefa do
usuário que necessite de ambos.

BIBLIOGRAFIA

BARKER, K. Na Bancada - Manual de Iniciação Científica em Laboratório de Pesquisas Biomédicas. 1a. edição,
Editora Artmed, 2002.
BRACHT, A.; ISHII-IWAMOTO, E.L. Métodos de Laboratório em Bioquímica. 1a. edição, Editora Manole, 2003.
CAMPBELL, J.M.; CAMPBELL, J.B. Matemática de Laboratório. 3a. edição, Editora Roca, São Paulo, 1986.

14
HARGREAVES, A.B. Métodos Físicos de Análises (Fotocolorimetria e pHmetria). Livraria
Atheneu, Rio de Janeiro, 1979.
MARZOCCO, A.; TORRES, B.B. Bioquímica Básica. Guanabara, 1990.
NELSON, D.L.; COX, M.M. Princípios de Bioquímica de Lehninger. 6a. edição, Editora Artmed, 2014.
VIEIRA, E.C.; GAZZINELLI, B.; MARES-GUIA, M. Química Fisiológica. Livraria Atheneu, Rio
de Janeiro, 1979.

Links das figuras

Figura 1: imagem adaptada de https://pt.vecteezy.com/arte-vetorial/292506-uma-escala-de-ph-no-fundo-branco

Figura 2: imagem retirada de http://andreiatorres.com/blog/2020/8/13/ph-sanguineo

Figura 3: a) imagem retirada de https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Phenol_red_pH_6,0_-_8,0.jpg; b) imagem


retirada de https://www.forlabexpress.com.br/tira-de-ph-ph-fix-0-14-c100-tiras-macherey-nagel; c) imagem retirada de
https://quimicaempratica.com/2017/07/06/indicador-acido-base-de-repolho-roxo/

Figura 4: a) imagem retirada de https://br.omega.com/pptst/PHH-7000.html; b) imagem retirada de


https://www.gehaka.com.br/produtos/linha-analitica/phmetro-de-bancada/pg3000

Figura 5: a) imagem retirada de https://www.digimed.ind.br/br/produtos/eletrodo_combinado_de_ph/dme-cv1; b)


imagem adaptada de https://pt.slideshare.net/MrciaAnjos/potenciometria-49287920

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