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UNIVERSIDADE FEDERAL DE VIÇOSA

MATHEUS MARTINS GROSSI COSTA

ATUAÇÃO DO PROFISSIONAL DE EDUCAÇÃO FÍSICA INSERIDO NO


NÚCLEO AMPLIADO DE SAÚDE DA FAMÍLIA E ATENÇÃO BÁSICA
(NASF-AB): UMA REVISÃO NARRATIVA

VIÇOSA - MINAS GERAIS


2020
MATHEUS MARTINS GROSSI COSTA

ATUAÇÃO DO PROFISSIONAL DE EDUCAÇÃO FÍSICA INSERIDO NO


NÚCLEO AMPLIADO DE SAÚDE DA FAMÍLIA E ATENÇÃO BÁSICA
(NASF-AB): UMA REVISÃO NARRATIVA

Monografia apresentada ao curso de Educação


Física da Universidade Federal de Viçosa,
como parte das exigências para a obtenção do
título de Bacharel em Educação Física.
Orientador: Miguel Araújo Carneiro Júnior

VIÇOSA - MINAS GERAIS


2020

2
MATHEUS MARTINS GROSSI COSTA

ATUAÇÃO DO PROFISSIONAL DE EDUCAÇÃO FÍSICA INSERIDO NO


NÚCLEO AMPLIADO DE SAÚDE DA FAMÍLIA E ATENÇÃO BÁSICA
(NASF-AB): UMA REVISÃO NARRATIVA

Monografia apresentada ao curso de Educação


Física da Universidade Federal de Viçosa,
como parte das exigências para a obtenção do
título de Bacharel em Educação Física.
Orientador: Miguel Araújo Carneiro Júnior

APROVADO: data de aprovação

Prof. Miguel Araújo Carneiro Júnior (UFV)


Orientador

Prof. (UFV)
Avaliador

Prof. Thales Nicolau Prímola Gomes (UFV)


Coordenador da disciplina
RESUMO
Através da criação da Constituição Federal de 1988 a saúde no Brasil passou a
ser reconhecida como um direito de todo cidadão e um dever do Estado. O Sistema
Único de Saúde (SUS) proporcionou o acesso universal ao sistema público de saúde,
com uma atenção integral, inclusiva e não voltada somente aos cuidados assistenciais.
Posteriormente com o lançamento do Núcleo Ampliado de Saúde da Família e Atenção
Básica (NASF-AB), a promoção da saúde na atenção primária passou a ser uma das
questões a serem desenvolvidas no país, tendo em vista os diversos efeitos positivos
sobre aspectos fisiológicos, psicológicos e sociais da população. É nesse cenário que o
profissional de Educação Física vem inserido na composição das equipes NASF-AB, ele
deve ser capaz de promover através das atividades físicas uma ação integral que
estimule o desenvolvimento da saúde do cidadão. Desse modo, o objetivo deste estudo
foi descrever, a partir de evidências científicas, como acontece a atuação do profissional
de Educação Física inserido no NASF-AB dentro de um contexto nacional, a fim de
reconhecer a importância do seu papel na saúde pública. A metodologia adotada
consistiu em uma revisão narrativa através de pesquisas realizadas na literatura,
portarias e diretrizes do Ministério da Saúde e também na busca de artigos científicos
que abordaram as temáticas mencionadas. Estudos apontaram que as ações de promoção
da saúde realizadas pelo profissional de Educação Física no NASF-AB são, em muitos
dos casos, abrangentes e diversificadas, e que em algumas situações são desenvolvidas
em conjunto com a equipe multidisciplinar e comunidade. Destaca-se que grande
parcela dos profissionais de Educação Física fazem atendimento a diferentes faixas
etárias, entre elas a de adultos, jovens, crianças, idosos, indivíduos com comorbidades,
grupos especiais e vulneráveis. Estudos demonstram também, a necessidade de
consolidar o papel do profissional de Educação Física dentro das equipes, a fim de
demonstrar competência e ganhar confiança e fidelidade da comunidade, por meio de
um trabalho contínuo e bem realizado. Apesar dos profissionais de Educação Física
participarem das reuniões matriciais e do planejamento, percebe-se que ainda não há
uma relação interdisciplinar íntegra na sua atuação específica. Sugere-se que os
especialistas da área continuem a fazer uma autorreflexão, quanto ao saber e fazer em
saúde pública, e a manter uma interlocução com as demais áreas, a fim de nortear novos
rumos em sua atuação nos NASF-AB.

Palavras chave: Profissional de Educação Física, NASF-AB, Atenção Primária à


Saúde, SUS.
ABSTRACT
Through the creation of the 1988 Federal Constitution, health in Brazil became a
guaranteed right to all citizens and a responsibility of the government. The Unified
Health System (SUS) allowed the universal access to a public health system with full
inclusive attention that does not focus only on basic care. After the creation of the
Family Health Support Center and Primary Care (NASF-AB), health promotion in
primary care became one of the topics developed in Brazil, focusing on the
physiological, psychological and social benefits for the population. In this scenario,
Physical Education professionals are inserted in the NASF-AB team, where they have to
be able to work through the physical activity in order to develop the health of the
citizen. Thus, the aim of this study is to use scientific evidences to describe the
performance of the Physical Education professional inserted in the NASF-AB in a
countrywide context in order to show its value for the public health. The methodology
of this work was based on a narrative review of the literature, ordinances and guidelines
from the Brazilian Health Ministry, and on scientific papers that are related to the topic.
Studies showed that the health promotion approaches taken by the Physical Education
professionals are, in most cases, comprehensive and diverse, and some of them are
carried out with the participation of the community and multidisciplinary teams.
Furthermore, the majority of the Physical Education professionals serves a broad
spectrum of ages, including adults, young adults, children, elderly, disabled and
vulnerable groups. Studies also show the need to reinforce the role of the Physical
Education professional within these teams in order to show adeptness and gain
confidence and loyalty from the community through continuous and precise work.
Although Physical Education professionals participate in general meetings and
planning, it is clear that built relationship is still not fully solid regarding the role of
those professionals. This data suggests that specialists of this area continue to reflect
about the knowledge and actions in public health, and to maintain a dialogue with other
areas in order to guide new directions of their work in the NASF-AB.

Keywords: Physical Education Professional, NASF-AB, Primary Health Care, SUS.


LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

APS - Atenção Primária à Saúde


eAB - Equipe de Atenção Básica
eCR - Equipe Consultório na Rua
eSF - Equipe Saúde da Família
ESF - Estratégia Saúde da Família
NASF- Núcleo de Apoio à Saúde da Família
NASF-AB - Núcleo Ampliado à Saúde da Família e Atenção Básica
OMS - Organização Mundial de Saúde
PCAF - Práticas Corporais e Atividade
Física PNAB - Política Nacional de Atenção
Básica
PNPS - Política Nacional de Promoção da Saúde
PSF - Programa Saúde da Família
SUS - Sistema Único de Saúde
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO.................................................................................................08
2 METODOLOGIA..............................................................................................12
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO.......................................................................13
3.1 O profissional de Educação Física e a Promoção da Saúde...............................13
3.2 O profissional de Educação Física e suas ações no NASF-AB...........................15
3.1 O profissional de Educação Física e a relação com outras profissões...............18
3.1 O profissional de Educação Física e o matriciamento........................................20
4 CONCLUSÃO....................................................................................................22
5 REFERÊNCIAS.................................................................................................23
1. INTRODUÇÃO
Através da criação da Constituição Federal de 1988 a saúde no Brasil passou a
ser reconhecida como um direito de todo cidadão e um dever do Estado. Anteriormente,
o modelo antigo de saúde apresentava características tecnicistas, hospitalocêntricas,
biologicistas e fragmentadas, porém com a implementação das Leis 8.080 e 8.142 de
1990, reconhecidas como Leis Orgânicas da Saúde, se inicia a transição do modelo
antigo para o atual Sistema Único de Saúde (SUS) (Noronha e colaboradores, 2008).

O SUS proporcionou o acesso universal ao sistema público de saúde, com uma


atenção integral e não somente com cuidados assistenciais, que se inicia desde a
gestação e se prolonga por toda a vida, com foco na saúde com qualidade de vida. Ele
engloba a atenção básica/primária, média/secundária e alta complexidade/terciária, os
serviços de urgência e emergência, a atenção hospitalar, as ações e serviços das
vigilâncias epidemiológica, sanitária, ambiental e assistência farmacêutica.

A Política Nacional de Atenção Básica (PNAB), regulamentada pela Portaria n°


2.488/2011, caracteriza a Atenção Primária como:

[...] um conjunto de ações de saúde, no âmbito individual e coletivo, que


abrange a promoção e a proteção da saúde, a prevenção de agravos, o
diagnóstico, o tratamento, a reabilitação, redução de danos e a manutenção da
saúde com o objetivo de desenvolver uma atenção integral que impacte na
situação de saúde e autonomia das pessoas e nos determinantes e
condicionantes de saúde das coletividades. É desenvolvida por meio do
exercício de práticas de cuidado e gestão, democráticas e participativas, sob
forma de trabalho em equipe, dirigidas a populações de territórios definidos,
pelas quais assume a responsabilidade sanitária, considerando a dinamicidade
existente no território em que vivem essas populações. Utiliza tecnologias de
cuidado complexas e variadas que devem auxiliar no manejo das demandas e
necessidades de saúde de maior frequência e relevância em seu território,
observando critérios de risco, vulnerabilidade, resiliência e o imperativo ético
de que toda demanda, necessidade de saúde ou sofrimento devem ser
acolhidos (BRASIL, 2011).

Dessa maneira, visando reorientar os serviços dentro da Atenção Básica, é criado


em 1993/1994 o Programa Saúde da Família (PSF), posteriormente chamado de
Estratégia Saúde da Família (ESF) através da criação da PNAB em 2006, que tinha
como objetivo a reversão do modelo assistencial (predominando o atendimento
emergencial ao doente, na maioria das vezes dentro de hospitais) para um modelo que
valorize as ações de promoção e proteção da saúde, prevenção das doenças e atenção
integral às pessoas.

Em 24 de janeiro de 2008, por meio da Portaria 154/2008, o Ministério da Saúde


lança o Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF), mais tarde chamado de Núcleo
Ampliado de Saúde da Família e Atenção Básica (NASF-AB), através da Portaria Nº
2.436/2017, que tinha como objetivo apoiar, ampliar, aperfeiçoar a atenção e a gestão da
saúde na Atenção Básica, buscando uma ampliação na resolutividade da ESF.

Dentre as possibilidades profissionais na constituição das equipes NASF-AB,


estão previstas as seguintes especialidades: Assistente Social, Profissional de Educação
Física, Farmacêutico, Fisioterapeuta, Fonoaudiólogo, Profissional com formação em
Arte e Educação (Arte Educador), Nutricionista, Psicólogo, Terapeuta Ocupacional,
Médico Ginecologista/Obstetra, Médico Homeopata, Médico Pediatra, Médico
Veterinário, Médico Psiquiatra, Médico Geriatra, Médico Internista (clínica médica),
Médico do trabalho, Médico Acupunturista e Profissional de saúde sanitária (BRASIL,
2014).

Atualmente, o NASF-AB é composto de três modalidades que permeiam o


número de equipes vinculadas dentro dos municípios e a somatória das cargas horárias a
serem cumpridas semanalmente. Essa composição é definida pelos gestores municipais,
seguindo os critérios de prioridade identificados a partir dos dados epidemiológicos e
das necessidades locais e das equipes de saúde que serão apoiadas.

Quadro 1. Modalidades NASF-AB e suas características:

Modalidades N° de Equipes Vinculadas Somatória das Cargas Horárias


Profissionais

NASF 1 5 a 9 eSF¹ e/ou eAB² para Mínimo de 200 horas semanais.


populações específicas (eCR³, Cada ocupação deve ter, no mínimo
equipe ribeirinha e fluvial). 20h e, no máximo, 80h de carga
horária semanal.

NASF 2 3 a 4 eSF¹ e/ou eAB² para Mínimo de 120 horas semanais.


populações específicas (eCR³, Cada ocupação deve ter, no mínimo
equipe ribeirinha e fluvial). 20h e, no máximo, 40h de carga
horária semanal.
NASF 3 1 a 2 eSF¹ e/ou eAB² para Mínimo de 80 horas semanais. Cada
populações específicas (eCR³, ocupação deve ter, no mínimo 20h
equipe ribeirinha e fluvial). e, no máximo, 40h de carga horária
semanal.
1 Equipe Saúde da Família. 2 Equipe de Atenção Básica. 3 Equipe Consultório na Rua.
Fonte: BRASIL, 2014, p.16 (Cadernos de Atenção Básica nº39).

Através da criação do NASF-AB, a população passa a ter acesso a um


atendimento interdisciplinar, onde profissionais de diferentes áreas atuam em conjunto
com os profissionais das eSF, compartilhando e apoiando práticas em saúde nos
territórios. Esta atuação integrada permite realizar discussões de casos clínicos, além de
atendimentos compartilhados entre profissionais, tanto na Unidade de Saúde como nas
visitas domiciliares e possibilita a construção conjunta de projetos terapêuticos de forma
a ampliar e qualificar as intervenções no território e na saúde de grupos populacionais
(BRASIL, 2010).

É nesse cenário que o profissional de Educação Física vem inserido na


composição das equipes NASF-AB. Ele deve favorecer em seu trabalho a abordagem da
diversidade das manifestações da cultura corporal presentes localmente e as que são
difundidas nacionalmente, procurando fugir do aprisionamento técnico/pedagógico dos
conteúdos clássicos da Educação Física, seja no campo do esporte, das ginásticas e
danças, bem como na ênfase à prática de exercícios físicos atrelados à avaliação
antropométrica e à performance humana (BRASIL, 2010).

Devido a prevalência de baixos níveis de prática de atividade física em países de


diferentes níveis de desenvolvimento, incluindo o Brasil, ter se mostrado elevada nos
últimos anos (BRASIL, 2011) e que baixos níveis de prática de atividade física estão
associados a fatores de risco para doenças crônicas não transmissíveis, como obesidade,
hipertensão, diabetes (OMS, 2009), elevar esses indicadores sociais tornou-se uma
prioridade quando falamos de saúde pública. Assim, a promoção da atividade física na
atenção básica à saúde é essencial, tendo em vista o desenvolvimento de efeitos
positivos sobre aspectos fisiológicos, psicológicos e sociais da população.

As políticas de promoção à saúde vêm acompanhando as mudanças sociais,


econômicas e culturais que estão ocorrendo no cenário mundial e objetivam promover
alterações positivas na sociedade, consequentemente na vida dos cidadãos (BRASIL,
2007). Nesse sentido, a Política Nacional de Promoção da Saúde (PNPS) apresentou
como objetivo geral a promoção da qualidade de vida e a redução da vulnerabilidade e
riscos à saúde relacionados aos seus determinantes e condicionantes – modos de viver,
condições de trabalho, habitação, ambiente, educação, lazer, cultura, acesso a bens e
serviços essenciais (BRASIL, 2006).
Baseado nos princípios do SUS, e na experiência de diversos programas de
promoção à saúde, o Ministério da Saúde definiu diretrizes de Práticas Corporais e
Atividade Física (PCAF), direcionadas não somente aos profissionais de Educação
Física, mas a toda equipe NASF-AB, são elas (BRASIL, 2010, p.128-129):

1. Fortalecer e promover o direito constitucional ao lazer;


2. Desenvolver ações que promovam a inclusão social e que tenham a
intergeracionalidade, a integralidade do sujeito, o cuidado integral e a
abrangência dos ciclos da vida como princípios de organização e fomento das
práticas corporais/atividade física;
3. Desenvolver junto à equipe de Saúde da Família ações intersetoriais pautadas
nas demandas da comunidade;
4. Favorecer o trabalho interdisciplinar amplo e coletivo como expressão da
apropriação conjunta dos instrumentos, espaços e aspectos estruturantes da
produção da saúde e como estratégia de solução de problemas, reforçando os
pressupostos do apoio matricial;
5. Favorecer no processo de trabalho em equipe a organização das práticas de
saúde na Atenção Básica, na perspectiva da prevenção, promoção, tratamento
e reabilitação;
6. Divulgar informações que possam contribuir para adoção de modos de vida
saudáveis por parte da comunidade;
7. Desenvolver ações de educação em saúde reconhecendo o protagonismo dos
sujeitos na produção e apreensão do conhecimento e da importância desse
último como ferramenta para produção da vida;
8. Valorizar a produção cultural local como expressão da identidade
comunitária e reafirmação do direito e possibilidade de criação de novas
formas de expressão e resistência sociais;
9. Primar por intervenções que favoreçam a coletividade mais que os indivíduos
sem excluir a abordagem individual;
10. Conhecer o território na perspectiva de suas nuances sociopolíticas e dos
equipamentos que possam ser potencialmente trabalhados para o fomento das
práticas corporais/ atividade física;
11. Construir e participar do acompanhamento e avaliação dos resultados das
intervenções;
12. Fortalecer o controle social na saúde e a organização comunitária como
princípios de participação políticas nas decisões afetas à comunidade ou
população local.

Essas diretrizes de atuação de profissionais definem se existem campos a ser


identificados e ações que devam ser desenvolvidas como representação do espaço e da
atuação do profissional, mostrando o esforço da aproximação do trabalho desejado e dos
resultados esperados com as demandas e problemáticas na área de atuação.

Contudo, através do novo programa Previne Brasil, lançado no final de 2019,


houve mudanças significativas no modelo de financiamento da Atenção Primária no
SUS que impactaram diversos setores da área da saúde, incluindo o NASF-AB. Através
da Nota Técnica Nº03/2020, publicada em Janeiro de 2020 pelo Departamento de Saúde
da Família, ficou estabelecido que:

Com o novo modelo de financiamento de custeio da Atenção Primária à Saúde


(APS), instituído pelo Programa Previne Brasil por meio da Portaria n° 2.979,
de 12 de novembro de 2019, alguns instrumentos normativos foram revogados,
dentre os quais as normativas que definem os parâmetros e custeio do Núcleo
Ampliado de Saúde da Família e Atenção Básica (NASF-AB). Dessa forma, a
composição de equipes multiprofissionais deixa de estar vinculada às
tipologias de equipes NASF-AB. Com essa desvinculação, o gestor municipal
passa a ter autonomia para compor suas equipes multiprofissionais, definindo
os profissionais, a carga horária e os arranjos de equipe (BRASIL, 2020).

Nesta nova forma de financiamento, o repasse dos recursos federais para os


municípios deixa de ser por número de eSF e NASF-AB credenciadas e implantadas, e
passa a ser: 1) por número de pessoas cadastradas em cada eSF ou eAB; e 2) por
desempenho dessas equipes em indicadores selecionados. Em síntese, não existe mais
valor fixo e regularmente repassado ao município em função da existência de eSF e
NASF-AB. Fica definido então, o fim da obrigatoriedade das equipes multiprofissionais
estarem vinculadas ao NASF-AB, e fica a critério dos gestores municipais compor suas
equipes livremente, não mais dentro dos parâmetros que antes eram estabelecidos dessa
iniciativa criada para ampliar o trabalho conjunto e integrado de profissionais de
diferentes áreas do conhecimento na Saúde da Família.

Considerando que a inserção dos profissionais de Educação Física, dentro de um


contexto de saúde pública no país, aconteceu recentemente, e devido ao fato dos estudos
originais dentro desse âmbito ainda se encontrarem escassos, faz se necessário um
aprofundamento no conhecimento da atuação desses profissionais, com o intuito de
legitimar seu desempenho neste âmbito. Desse modo, o objetivo deste estudo foi
descrever, a partir de evidências científicas, como acontece a atuação do profissional de
Educação Física inserido no NASF-AB dentro de um contexto nacional, a fim de
reconhecer a importância do seu papel na saúde pública.

2. METODOLOGIA

A metodologia adotada consistiu em uma revisão narrativa através de pesquisas


realizadas na literatura, tendo como base o livro “Núcleo de Apoio à Saúde da Família:
Aspectos legais, conceitos e possibilidades para atuação dos Profissionais de Educação
Física” do autor Paulo Sérgio Cardoso da Silva, e também as Portarias publicadas pelo
Ministério da Saúde, incluindo suas diretrizes. Também foram utilizados artigos
científicos, cuja localização das fontes ocorreram em sistemas de banco de dados na
internet, entre elas: Scientific Electronic Library Online (SciELO), Biblioteca Virtual
em Saúde (Ministério da Saúde), Revista Brasileira de Atividade Física e Saúde,
Literatura
Latino-Americana e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde (LILACS) e
Google Acadêmico.

As buscas pelos estudos aconteceram no período de agosto a setembro de 2020.


Foram utilizadas as seguintes palavras-chave: Profissional de Educação Física, NASF-
AB, Atenção Primária à Saúde, SUS. Foram utilizados como critérios de inclusão:
artigos originais, publicados em periódicos nacionais, entre os anos de 2008 a 2020. E
como critérios de exclusão: resumos, monografias, dissertações e teses; publicações
anteriores a 2008 e publicações em língua estrangeira.

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Inicialmente foram identificados na literatura 26 estudos que abordavam a


temática seguindo as combinações de palavras-chave. Após a leitura e revisão dos
periódicos, foram excluídos desta amostra 16 artigos que não se enquadraram nos
critérios de inclusão. Dessa forma, foram selecionados para a revisão narrativa 10
artigos que apresentaram coerência com o objetivo desse estudo.

3.1 O profissional de Educação Física e a Promoção da Saúde


Para que possamos compreender de maneira mais objetiva o trabalho do
profissional de Educação Física dentro das ESF, é importante iniciarmos conceituando o
termo de Promoção à Saúde dentro dos parâmetros de saúde pública num contexto
nacional. Os autores Saporetti e colaboradores (2016), fazem referência à promoção da
saúde que pode ser compreendida como:

[...] vão desde um movimento com início antes da instalação da doença – que
visa ao não adoecimento e à recuperação da saúde do indivíduo e da
coletividade – até a realização de ações na busca por melhor qualidade de
vida e adoção de hábitos saudáveis cotidianos, os quais contribuem para
estimular os aspectos físico, mental, social e espiritual dos indivíduos.

Portanto, podemos considerar que o conceito vai muito além quando abordamos
o tema de saúde pública em conjunto com a saúde do ser humano. Através da promoção
da saúde é possível que haja uma orientação de todos os cidadãos, e não somente os que
já se encontram com a doença instalada, para que seja possível prevenir e controlar,
evitando que se alcance patamares com maiores complexidades. E para que isso
aconteça faz-se necessário uma divulgação em massa dos métodos e ações que sejam
capazes de atingir o contexto em que determinada população se encontra, podendo ser
incluído a
atividade física com orientação, juntamente com bons hábitos alimentares e uma boa
saúde psíquica, a fim de se trabalhar o indivíduo como um todo (Saporetti e
colaboradores, 2016).

A promoção da saúde atribui-se a um ponto de vista amplo do método


saúde/doença e de seus motivadores. Essa ideia está relacionada a uma soma de
princípios, como direito e deveres de cidadão, apoio, vida, bem-estar e dignidade
(Moretti e colaboradores, 2009). Menciona-se além disso, os atos dirigidos a efetivação
de políticas públicas e modernizações, presumindo a comunicação entre campo da
sociedade e o setor sanitário, entre sujeito e seu ambiente, gerando uma teia de
consciência pela satisfação coletiva.

Tais concepções estão também baseadas em autores como Freitas e Mandú


(2010), para os quais, “ao se responsabilizar pela saúde da população territorializada, as
equipes desse âmbito assistencial devem ampliar a prática curativo-preventiva do
modelo biomédico tradicional, buscando promover também, a qualidade de vida”.

Schuh e colaboradores (2015) trazem que a promoção de saúde, como ação


preconizada pelo SUS, marca a atuação do Profissional de Educação Física, que deve
estimular mudanças de atitude e a busca por um estilo de vida mais saudável da
população coberta. Este processo, que sempre considerará o contexto local, deve ser
caracterizado por ações compartilhadas, visando uma intervenção interdisciplinar,
ampliando e fortalecendo as intervenções das ESF.

De acordo com o Conselho Federal de Educação Física (CONFEF), cabe ao


profissional de Educação Física:

[...] orientar a comunidade sobre a importância de hábitos de vida mais


saudáveis, e, ainda, promover e estimular a adoção de um estilo de vida ativo,
contribuindo para minimizar os riscos de doenças crônicas não transmissíveis
e os agravos delas decorrentes. Desta forma, sob a perspectiva do NASF, as
ações devem focar na melhoria da qualidade de vida da população e na
redução dos agravos e danos decorrentes das doenças não transmissíveis,
favorecendo inclusive, a redução do consumo de medicamentos e
fomentando a prevenção e promoção da saúde por meio de práticas corporais
(CONFEF, 2010).

Malta e colaboradores (2009) afirmam que a promoção da saúde está relacionada


com o modo de vida das comunidades e dos indivíduos, bem como com as
transformações advindas dessas realidades. Ainda para esses autores, para que seja
possível pensar a promoção da saúde é necessário se remeter a um número maior de
ações e estratégias que
visam valorizar e aumentar o potencial do indivíduo e da população em busca de um
estilo de vida mais saudável.

Ao tentar se aproximar da noção de promoção da saúde, o artigo de Furtado e


Knuth (2015) procurou levar em consideração, sobretudo, a realidade do contexto a ser
trabalhado. Nele, os autores estiveram preocupados em não se limitar à “simples
execução de uma atividade física”, mas a de “possibilitar vivências de situações que
superem a ação apenas medicamentosa, para que seja uma experiência de se sentir bem
através de uma conversa, da aposta na construção e fortalecimento de vínculos e de uma
intervenção mais integrativa e menos prescritiva”.

Atualmente, o Ministério da Saúde aconselha que as propostas focadas na


promoção da saúde colaborem para a concepção de ações que possibilitem responder às
carências sociais em saúde, isto é, uma maneira de refletir e de agir encadeando as
outras políticas e tecnologias avançadas no processo de saúde brasileiro (MS, 2010). Em
consonância essas propostas, os autores Pelicioni e colaboradores (2011), afirmam que:

O papel da Educação Física na promoção da saúde é fortalecer a ação


individual e coletiva com vistas ao empoderamento e à promoção da
autonomia da comunidade, além do desenvolvimento de habilidades
individuais de modo a contribuir para que sua participação seja efetiva.

O desafio de articular o tema da promoção da saúde se apresenta também na


realidade do NASF-AB para os profissionais de Educação Física. Ainda que seja, de
fato, uma bandeira sustentada com frequência nos espaços onde o núcleo profissional
pode atuar, há de se adotar cautela neste quesito. O modelo de atenção à saúde ainda
não se encontra adaptado ao de promoção da saúde. Podemos perceber que, mesmo com
o passar dos anos, ainda existem incoerências na compreensão da promoção da saúde e
que o tema não se restringe somente aos profissionais de Educação Física (Schuh e
colaboradores, 2015).

3.2 O profissional de Educação Física e suas ações no NASF-AB


Quando nos referimos às diversas possibilidades de ações dentro de uma ESF,
ter compreensão acerca da atuação do profissional de Educação Física no contexto do
NASF- AB é como dar um passo adiante a fim de conquistar um espaço, uma identidade
e, sobretudo, um trabalho valorizado e reconhecido por tratar-se de uma realidade pouco
explorada, tanto pelas outras áreas profissionais, quanto pela gestão e até mesmo pela
rede de colaboradores que exercem tal função.

Para Alcântara (2008), a atuação do professor de Educação Física nos programas


de APS, no caso o NASF-AB, deve buscar promover um estilo de vida saudável através
da atividade física e práticas corporais nas suas diferentes manifestações, formando um
meio efetivo para a construção coletiva da qualidade de vida. Conforme o autor, os
objetivos consistem em planejar e estimular a atividade física nos grupos das unidades
de saúde, visando o exercício como promotor do tratamento através da autoestima,
consciência corporal, autonomia na vida, bem como articular as redes, incluindo a ESF
e o NASF-AB no território, a fim de elaborar projetos e atividades para a promoção de
estilo de vida saudável.

Segundo os autores Furtado e Knuth (2015), a atuação do profissional de


Educação Física ainda é dependente do perfil dos profissionais que estão à frente das
ações, podendo caminhar tanto para a esfera clínica quanto para um cuidado mais
integral e humanizado, tendo o discurso da promoção da saúde como elemento
primordial. Ainda para esses autores:

Cabe ao profissional propor suas atividades, projetos e pensamentos. Se ele


compreender a Educação Física pelo viés esportivista, assim será. Se
entender que a aptidão física é o caminho, da mesma forma. Se enxergar na
Educação Física uma possibilidade de articulação com a cultura local a partir
do movimento, seguirá neste sentido. De acordo com os representantes da
Educação Física, os métodos de trabalho variam muito, dependendo do
profissional. Não teria como traçar um perfil de profissional de Educação
Física do NASF, pois isso está diretamente relacionado ao tipo de formação e
o tipo de percepção que cada profissional tem da relação entre Educação
Física e saúde pública.

Furtado e Knuth (2015) manifestam que existem pontos positivos e negativos


para tal situação. Positivos pelo fato de haver certa “liberdade” no que se refere à
atuação, de acordo com a trajetória do profissional de Educação Física e seu
entendimento de saúde pública, podendo haver ações que podem ser exploradas de
diversas maneiras. E negativos, pois, dada essa “liberdade”, não se tem um ponto de
partida ou uma base na qual se pode buscar uma oferta teórico-prática para apoiar sua
intervenção. Vale ressaltar que independente do campo de ações disponíveis para
atuação do profissional, todo o planejamento deve ser bem estruturado
metodologicamente, objetivando a promoção da saúde por meio do lazer, esporte,
ginástica, etc.
Conforme Ferreira e colaboradores (2016), cabe não somente aos profissionais
de Educação Física, mas toda a equipe NASF-AB, o dever de colaborar com ações e
tarefas que promovam os determinantes e condicionantes de acesso aos serviços
essenciais da saúde e que, simultaneamente, proporcionem hábitos educativos que
considerem o bem estar global do indivíduo, com o propósito de conscientizar os
usuários e a sociedade para condições de vida saudáveis.

O profissional de Educação Física tem de se mostrar qualificado para a função


em grupos multiprofissionais, para os trabalhos de logística, gestão, para enfrentar
políticas de saúde, fora as ações de investigação, planejamento e intervenção específicas
das áreas de atividades físicas e corporais. Para uma atuação ativa e eficaz, ele deve
contribuir e colaborar para as renovações acadêmico-científicas do campo da saúde,
certificando uma atualização de suas técnicas intervencionistas (Scabar e colaboradores,
2012).

Em um de seus estudos, os autores Souza e Loch (2010) fazem referência quanto


aos tipos de ações que estão sendo implementadas e estruturadas no planejamento das
ESF no norte do Paraná, são elas:

Dentre as atividades físicas prescritas pelos profissionais estão: atividades


aeróbicas e exercícios resistidos (realizados com materiais alternativos como,
por exemplo: pesos feitos de garrafa pet com areia ou pedra, cabo de
vassoura dentre outros). Em menor proporção, os profissionais também
referiram prescrever exercícios de alongamento, coordenação motora e
atividades lúdicas. A maioria da população participante em todos os grupos
são mulheres e idosos, normalmente com alguma patologia.

Souza e Loch (2010) também verificaram que os profissionais de Educação


Física inseridos nos NASF-AB trabalham tanto com grupos de atividade física, quanto
com mini palestras temáticas que relacionam a importância da atividade física no dia-a-
dia com a prática dos exercícios oferecidos, o que tem se mostrado essencial quando
estamos tratando de educação para a saúde. Segundo os entrevistados, as palestras com
abordagem de temas diversos são utilizadas por sua capacidade de informar,
conscientizar, divulgar e aconselhar os usuários, de maneira a favorecer a adoção de
hábitos saudáveis.

De acordo com Malta e colaboradores (2009), para se atingir um cuidado


integral em saúde é preciso estruturar um conjunto de estratégias capazes de alcançar
individual e coletivamente os atores envolvidos. A atuação do profissional de Educação
Física tem se mostrado através de uma identidade mais voltada para questões de
sensibilização, no
sentido da escuta, da inserção de atividades com movimento de forma sutil e com uma
contextualização sobre a consciência corporal.

Como princípio orientador da ação dos profissionais de Educação Física,


salienta- se a compreensão e contextualização histórica dos acontecimentos, concepções
e decisões que contornam a prática de atividade física na atualidade, de maneira a
entender pontos de vista predominantes do corpo, e as problematizações referentes à
classe, gênero, participação nos esportes, fases da vida, entre outras, todas sobrepostas
nas relações sociais (Brasil, 2010).

Em um de seus estudos, Rodrigues e colaboradores (2015) apontaram que as


atividades mais desenvolvidas com a população são as de fácil execução, baixo impacto
para os ossos e as articulações, que não necessitem de uma infraestrutura nem de
equipamentos sofisticados. Foi relatado também que os profissionais de Educação
Física fazem atendimento a diferentes faixas etárias entre elas, a de adultos, jovens,
crianças, idosos, indivíduos com comorbidades, grupos específicos, vulneráveis.

As ações dos profissionais de Educação Física podem ser administradas a grupos


específicos, de várias idades, portadores de diferentes condições corporais ou com
necessidades de auxílio especial, junto aos assistentes multiprofissionais que compõe o
NASF-AB (CONFEF, 2002). Além disso, o capacitado deve conhecer as características
do local e da população que lhe é referenciada, para agir conforme suas carências
(Brasil, 2008).

Esses achados estão em consonância com as atividades que devem ser


desenvolvidas pelos profissionais inseridos no NASF-AB, elencadas por Malta e
colaboradores (2009), tais como práticas corporais e atividades físicas, educação
permanente, ampliação e valorização do uso dos espaços públicos, ações
multiprofissionais em reabilitação, atendimento a usuários e familiares em situação de
risco e doença mental, e atenção aos agravos severos em crianças e mulheres.

3.3 O profissional de Educação Física e a relação com as outras profissões


Dentro da perspectiva de que as áreas estratégicas associadas ao NASF-AB não
se remetem à atuação específica e exclusiva de uma categoria profissional, o processo
de trabalho do profissional de Educação Física deve ser caracterizado por ações
compartilhadas, visando uma intervenção interdisciplinar (Carvalho e Freitas, 2006). O
trabalho de interdisciplinaridade no NASF-AB é muito desfrutado e valioso como
afirma o Caderno de Atenção Básica (Brasil, 2009, p.18):

É o trabalho em que as diversas ações, saberes e práticas se complementam.


Disciplinas implicam condutas, valores, crenças, modos de relacionamento
que incluem tanto modos de relacionamento humano quanto de modos de
relação entre sujeito e conhecimento. O prefixo “inter” indica movimento ou
processo instalado tanto “entre” quanto “dentro” das disciplinas. A
interdisciplinaridade envolve relações de interação dinâmica entre saberes.
“No projeto interdisciplinar não se ensina, nem se aprende: vive-se, exerce-
se”. Ela deve ser entendida também como uma atitude de permeabilidade aos
diferentes conhecimentos que podem auxiliar o processo de trabalho e a
efetividade do cuidado num determinado momento e espaço.

Dessa forma, atuando dentro das diretrizes da APS, o NASF-AB deve priorizar o
atendimento compartilhado com troca de saberes, capacitação e responsabilidades
mútuas, possibilitando a construção do conhecimento e de experiências a todos os
envolvidos. Entre as principais metodologias para o desenvolvimento das propostas de
trabalho estão: estudo, discussão de casos e situações, planos terapêuticos, orientações e
atendimento conjunto (Oliveira e Wachs, 2018).

Os autores Rodrigues e colaboradores (2015) constataram, através de entrevistas


realizadas em seu estudo, que a maioria dos profissionais de Educação Física citaram
que eram realizadas algum tipo de trabalho interdisciplinar dentro da ESF, e que
sempre, ou quase sempre, atuam com outros profissionais inseridos no NASF-AB.
Nesse mesmo estudo, o trabalho em conjunto com os profissionais de Enfermagem foi o
mais mencionado, seguido da Nutrição e Fisioterapia. Já em outro artigo, Bonfim
(2012) afirma que os profissionais que melhor contribuíram para a execução do seu
trabalho, foram os agentes comunitários de saúde, seguido dos nutricionistas e
fisioterapeutas.

De acordo com Oliveira e colaboradores (2011) são necessárias discussões mais


aprofundadas nas instituições de formação que oferecem o curso de bacharelado em
Educação Física, sendo possível diferenciar melhor os conceitos de trabalho em equipe
e interdisciplinaridade, a fim de ser ter uma maior efetividade no “saber fazer” em
saúde. É necessário que haja nessas instituições um diálogo mais aberto com outros
cursos da área da saúde, como por exemplo a Fisioterapia, Medicina, Enfermagem e
Nutrição. A partir dessa troca, seja ela através de workshops, palestras, minicursos, ou
qualquer tipo de interação, é possível que exista um planejamento em saúde por
completo da comunidade.
Desse modo, faz-se necessário uma melhor compreensão conceitual acerca do
trabalho interdisciplinar por parte, não só dos profissionais de Educação Física, mais
também de todos os profissionais que compõem a rede, para que ele seja melhor
operacionalizado dentro do âmbito de saúde pública. É de se considerar que seja
inviável atender aos critérios de universalidade, equidade no cuidado e atenção integral
à saúde se não houver trabalho interdisciplinar, multidisciplinar e transdisciplinar,
conforme as Diretrizes do NASF-AB (Santos e colaboradores, 2017).

3.4 O profissional de Educação Física e o matriciamento


Em seu livro, o autor Paulo Sérgio Cardoso da Silva, ressalta a necessidade do
apoio matricial dentro de um campo mais amplo na ESF, incluindo a Educação Física.
Através deste apoio, serão organizadas e estruturadas as ações de clínicas
compartilhadas, intervenções específicas do profissional do NASF-AB com usuários
e/ou famílias, e as ações compartilhadas nos territórios de sua responsabilidade. Com o
apoio matricial, cada equipe poderá construir em conjunto, Projetos Terapêuticos
Singulares, ações de educação permanente, organizar reuniões de alinhamento entre os
colaboradores, discussões de caso, entre outros.

O Caderno de Atenção Básica n.27 recomenda que “o apoio matricial seja


formado por um conjunto de profissionais que não têm, necessariamente, relação direta
e cotidiana com o usuário, mas cujas tarefas serão de prestar apoio às equipes de
referência”, apontando as dimensões de suporte, assistencial e técnico-pedagógica desse
apoio. Trata-se de uma estratégia extremamente essencial pelo fato de dar resolubilidade
e não fragmentar a atenção aos sujeitos. Este tipo de trabalho oferece um suporte tanto
de cunho prático/assistencial quanto de cunho técnico-pedagógico às equipes de
referência (Campos e Domitti, 2007).

Os elementos do apoio matricial recomendados para atuação do profissional de


Educação Física no NASF-AB são destacados pelas normativas da Atenção Básica (MS,
2015). Nestes documentos destaca-se principalmente, quatro componentes fundamentais
do Apoio Matricial, sendo eles, a educação em saúde, a educação permanente, o
controle social e a clínica ampliada. A Política Nacional da Atenção Básica, aponta
exemplos de ações do Apoio Matricial que devem fazer parte do cotidiano de trabalho
em saúde nas equipes do NASF-AB:
São exemplos de ações de apoio desenvolvidas pelos profissionais dos
NASF: discussão de casos, atendimento conjunto ou não, interconsulta,
construção conjunta de projetos terapêuticos, educação permanente,
intervenções no território e na saúde de grupos populacionais e da
coletividade, ações intersetoriais, ações de prevenção e promoção da saúde,
discussão do processo de trabalho das equipes. (BRASIL, 2011)

Nesse sentido, a Educação Física é tida como uma das áreas que fazem o apoio
matricial com base em suas habilidades, através das atividades físicas e práticas
corporais (Campos e Domitti, 2007). Espera-se que, por meio do trabalho integrado com
a saúde da família, o apoiador exerça a ‘‘retaguarda assistencial’’ ao contemplar a
demanda do usuário em atendimento, ao mesmo tempo em que se estabelece um
processo pedagógico, que visa a ampliar a resolutividade da equipe de referência.

Ainda que coletivamente a Educação Física venha colaborando nos


matriciamentos, raramente tem papel central na viabilização de casos ou circunstâncias
de debate que mobilizem todo o grupo de trabalho. Percebe-se que o modelo focado em
doenças, predominante no nível da atenção básica, atravessa também o espaço de
matriciamento e que, quando há atenção para a atuação dos profissionais de Educação
Física, essa é permeada pela atenção clínica do exercício físico para diabéticos e
hipertensos. Diante deste quadro, a Educação Física, quando consegue escapar da
tradição puramente clínica, enfrenta resistências e dificuldades (Furtado e Knuth, 2015).

Um dos pilares para que o profissional de Educação Física desenvolva os


métodos de trabalho na perspectiva do apoio matricial é compreender e dominar a ideia
de integridade, visto que esse conceito está associado ao entendimento matriciamento.
A integridade consegue ser compreendida de acordo com Mattos (2004) como:
‘‘apreensão ampliada das necessidades e a habilidade de reconhecer a adequação da
oferta ao contexto específico da situação no qual se dá o encontro do sujeito com a
equipe de saúde’’. Nisso, pressupõe compreender a particularidade do indivíduo, e não
o limitar a sua condição biológica.

O novo sentido das funções, conforme mencionado através de entrevistas


realizadas com profissionais de Educação Física no estudo de Oliveira e Wachs (2018),
aborda uma sugestão de comportamento dialógico usuário-centrada, no ponto de vista
da corresponsabilização do cuidado. Acredita-se que há necessidade de articulação com
o saber dos outros profissionais, acima de tudo pelo argumento de que o apoio matricial
tem uma dimensão pedagógica que se desenvolve em conjunto com a equipe de
orientação. Assim, atribuir um novo sentido é conceder um conceito para a prática no
rumo de uma sensibilização em relação aos motivadores sociais da saúde, muitas vezes
mal compreendidos diante do padrão de causa e efeito entre a atividade física e saúde.

4. CONCLUSÃO
O SUS do Brasil está em constante transformação, disposto a novos programas e
projetos e, nesse contexto, o novo paradigma de saúde, marcado pela promoção da
saúde, abre um campo para atuação do profissional de Educação Física nos serviços de
saúde pública. Dessa forma, o profissional dessa área inserido no serviço de APS do
SUS deve estimular mudanças de atitude para a adoção de um estilo de vida saudável,
levando em consideração as necessidades da população e o contexto na qual está
inserida.

Estudos apontaram que as ações de promoção da saúde realizadas pelo


profissional de Educação Física no NASF-AB são, em muitos dos casos, abrangentes e
diversificadas, e que em algumas situações são desenvolvidas em conjunto com a
equipe multidisciplinar e comunidade. Nessa lógica, apontam os limites de uma prática
engessada, no que diz respeito ao avanço de programas de atividades físicas/práticas
corporais descontextualizadas do ponto de vista político e sociocultural, da organização
dos serviços e do desejo do usuário.

Destaca-se que grande parcela dos profissionais de Educação Física fazem


atendimento a diferentes faixas etárias, entre elas a de adultos, jovens, crianças, idosos,
indivíduos com comorbidades, grupos específicos, vulneráveis. Tais ações são
desenvolvidas por meio de diversas abordagens como o trabalho em grupos, orientação
aos usuários, realização de avaliação física individual, atendimentos individuais,
diferentes tipos de exercícios e atividades físicas, palestras, intervenções em escolas,
formação de parcerias institucionais, realização de eventos e participação em diferentes
iniciativas institucionais.

Evidencia-se o valor do profissional de Educação Física em favorecer sua


função ao ponto de vista da pluralidade das expressões da cultura corporal vigente na
localidade em que determinada ESF esteja atuando, assim como as difundidas
nacionalmente, buscando escapar do aprisionamento técnico-pedagógico dos temas
tradicionais da Educação Física, pois dessa maneira é possível que os efeitos de adesão
da sociedade possam corresponder com o grau de adaptação das sugestões aos hábitos
locais.
Estudos demonstram também, a necessidade de consolidar o papel do
profissional de Educação Física dentro das equipes, a fim de demonstrar competência e
ganhar confiança e fidelidade da comunidade, por meio de um trabalho contínuo e bem
realizado. Tal realidade evidenciou a necessidade de maior mobilização da categoria no
sentido de estabelecer canais de comunicação com os demais profissionais e com os
gestores.

Apesar dos profissionais de Educação Física participarem das reuniões


matriciais e do planejamento, percebe-se que ainda não há uma relação interdisciplinar
íntegra na sua atuação específica. Sugere-se que os especialistas da área continuem a
fazer uma autorreflexão, quanto ao saber e fazer em saúde pública, e a manter uma
interlocução com as demais áreas, a fim de nortear novos rumos em sua atuação nos
NASF-AB, sobretudo, em como avaliar a efetividade das suas ações e promover uma
atuação fomentada no trabalho interdisciplinar.

Dessa forma, finalizamos reconhecendo que as limitações deste estudo tornam


necessárias a realização de outras pesquisas e abordagens sobre o tema. Contudo,
espera- se que as questões aqui apresentadas possam contribuir para uma melhor
compreensão do profissional de Educação Física enquanto um profissional inserido na
APS, bem como para a discussão acerca do seu papel no desenvolvimento de ações de
promoção à saúde.

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