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XI Escola de Verão
Brasília/DF – Janeiro de 1990

Radha Burnier

Conferência sobre o livro


“Luz no Caminho”

Revista
O TEOSOFISTA

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O TEOSOFISTA
Órgão Oficial da Sociedade Teosófica no Brasil
Fundado em maio de 1911 no Rio de Janeiro
EDITOR RESPONSÁVEL Ulisses Riedel de Resende
EDITOR CHEFE Ísis Maria Resende Alves

EDITORIAL

A edição deste número de "O Teosofista" foi dedicada à publicação dos comentários
expostos pela nossa Presidente Internacional, Sra. Radha Burnier, à obra Luz no Caminho na
XI Escola de Verão - Brasília - Janeiro de 1990. Todavia, estão aqui publicados somente os
comentários à primeira parte da obra. Os referentes à segunda parte, que ela expôs em
Porto Alegre, poderão ser publicados noutra oportunidade.
Essa clássica obra do ocultismo, atribuída a certos Mestres de Sabedoria, e transcrita
por Mabel Collins, é geralmente considerada difícil ou enigmática pelo leigo, na medida que
foi escrita em forma de aforismos paradoxais. Cabe ao leitor meditar sobre o conteúdo e
desenvolvendo seu próprio discernimento, encontrar o ponto justo de equilíbrio entre cada
par de opostos.
Da mesma forma a sabedoria não pode ser transmitida como uma informação ou uma
receita, ela depende do desenvolvimento de uma sensibilidade inteligente que descubra a
proporção justa e equilibrada em cada circunstância da vida. Por isso, sabedoria em latim
provém de SAPERE, verbo que refere tanto a saber quanto a sabor. A sabedoria é uma
forma de sensibilidade, não se ensina apenas pelo intelecto.
Similarmente, não podemos ensinar ninguém a andar de bicicleta, cabe a cada um, pela
própria experiência desenvolver aquela sensibilidade que encontra a justa proporção no
movimento da direção que permite à bicicleta manter-se em equilíbrio.
Assim, mais vale a meditação sobre o que se leu do que a leitura em si mesma.
Blavatsky sugeria que para cada dez minutos de leitura deveria haver duas horas de
reflexão sobre o conteúdo.
Possa o conteúdo desta edição ser útil ao leitor nesta reflexiva tarefa de exercício do
discernimento.

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XI Escola de Verão
Conferência da Sra. Radha Burnier sobre o Livro Luz no Caminho

Luz no Caminho é uma expressão muito antiga dada àqueles que querem trilhar o
Caminho. Na introdução ao livro, C. W. Leadbeater cita que ele foi traduzido para o grego,
há muito tempo, por um dos Mestres de Sabedoria, o qual deu algumas explicações para
aquelas regras que eram as instruções originais. A essas instruções originais foram
adicionadas mais notas por outro Adepto que as ditou em inglês. O livro, como nós o
conhecemos, contém todos esses três elementos, que são: as regras simples, porém
difíceis; as explicações de um dos Adeptos e as notas posteriores de- outro Adepto.
No inicio, foi escrito para aqueles que ignoram a Sabedoria Oriental, pois as regras
originais eram usadas por discípulos do Caminho, no Oriente. Era uma prática muito
comum no Oriente dar instruções através de sentenças muito curtas, visto não ser proposta
do Mestre acumular na cabeça do discípulo instruções e informações, mas, sim, sugerir
alguns pontos sobre os quais ele próprio poderia ponderar, porque o discípulo deve
despertar nele mesmo a percepção espiritual. E isto não surge, de forma alguma, através
do recebimento de instruções, de palavras do Mestre e da repetição delas, mas sim, através
da penetração profunda no significado das palavras. Isso exige um esforço muito grande da
parte do discípulo. E o primeiro esforço é o de escutar com o coração totalmente dedicado.
A maior parte de nós não escuta coisa alguma. Os nossos ouvidos escutam alguns sons,
mas nossa alma, por assim dizer, não recebe o conteúdo desses sons. Quando estamos
escutando com apenas uma parte da nossa consciência, a outra parte está pensando a
respeito de outra coisa e por isso é um escutar muito parcial. O discípulo deve aprender a
escutar sem nada que distraia sua mente.
Será que vocês podem escutar as palavras de Luz no Caminho dessa forma? Essa é uma
disciplina que todo aquele que é sério sobre o Caminho deve adquirir. E depois de escutar,
ele tem de fazer um esforço para ver um significado em todos os seus aspectos.
Com frequência, olhamos para alguma coisa sob um ângulo apenas. Não com relação
aos ensinamentos, mas com relação a tudo. Imaginem que contatemos uma outra pessoa e
olhemos um lado dessa pessoa. Mas a pessoa pode ser muito diferente daquilo que nós
vemos, pois existem nela muitos elementos ocultos. Quando olhamos apenas para um lado,
nunca entenderemos a realidade completa da pessoa Por isso uma outra parte dessa
disciplina é aprender a olhar de todos os ângulos. Quando dizemos todos os ângulos,
também queremos dizer a profundidade daquilo que está diante de nós, pois em toda parte
da vida existe um lado oculto. Se olharmos para uma folha, lá fora, o que vemos com
nossos olhos não é apenas a folha. Existe algo oculto lá, também. Mas quando pensamos
que já conhecemos a folha porque vimos uma parte dela, caímos na ilusão de que já a
conhecemos; o que, então, nos fecha a porta para a verdade que existe sobre essa folha.
Isso é verdadeiro para qualquer ensinamento. Quando o instrutor fala podemos pensar
que sabemos. Mas não devemos cair nesse erro. Não podemos saber o que o instrutor diz
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ou o que ele sabe porque a sua consciência está num nível diferente. Por isso temos que
manter a mente aberta para penetrar cada vez mais no sentido. Tudo isso é parte do esforço
que o discípulo deve fazer. E quando ele passa a fazê-lo, começa a ver com o olho interno da
intuição.
A intuição significa a mente purificada; a mente iluminada sobre toda auto-ilusão e
engano. A mente purificada significa uma mente harmônica, que está em harmonia com
toda a vida. A intuição ou olho interno envolve isso e muito mais do que isso. E, portanto, a
intenção do Mestre é despertar a intuição ou a percepção interna do discípulo. Eis por que
ele não dá instruções longas, mas sim poucas sentenças; e é trabalho do discípulo fazer o
esforço para descobrir o imenso significado de cada sentença.
Encontramos o mesmo método adotado nos Sutras de Patanjali, na Ioga e outros
similares. As sentenças, cada frase, podem ser difíceis de ser entendidas ou talvez pareçam
muito simples. E elas podem ser simples, mas são muito ricas em significado. E o discípulo é
chamado a fazer o máximo para encontrar o significado total da sentença.
As regras em Luz no Caminho são desse tipo. E mesmo as explicações e notas dos outros
dois Adeptos não dizem tudo a respeito das regras. Nós temos de descobrir. Se vocês leram
essas notas, esse livro, também notaram que existem muitos paradoxos nelas. Existe um
paradoxo nas primeiras três sentenças. Por exemplo: a primeira diz "Mata a ambição". Mas
é seguida pela explicação "Trabalha como trabalham os que são ambiciosos". As outras
duas sentenças também são dessa forma. E aí podemos encontrar, por exemplo, sentenças
como "Mata a ambição", "Mata o desejo de viver", e assim por diante. Mas essas sentenças
são seguidas por outras que dizem "Deseja unicamente o que está em ti", ou seja, são
seguidas por outra sentença que começa com a palavra "deseja". Aí está um outro
paradoxo, porque a ambição é um desejo forte. Num lugar é dito que você deve matar a
ambição, no outro que deve desejar. Mas todos os paradoxos apontam para uma verdade
importante que está subjacente. Por exemplo: no que diz respeito à questão da ambição,
nós temos que entender que uma grande energia é necessária para que se percorra a
Senda.
Se vocês lerem A Voz do Silêncio, existe lá uma lista de qualificações necessárias para se
percorrer o Caminho. Uma delas é "vírya", que H. P. B. traduz como energia indomável. É
dito que uma pessoa que percorre o Caminho deve ser como um alpinista, que diz: "eu
atinjo o topo da montanha ou, então, morrerei". O Caminho é árduo e muito inclinado. Ele
pode ser rochoso e perigoso. Mas ele tem a forte. determinação de seguir adiante. Por isso
deve haver essa grande determinação e energia Mas não deve haver nenhuma ambição
nessa energia Ambição significa dizer "eu quero isso para mim; eu quero atingir o topo; eu
quero alcançar; eu quero tornar-me algo". Será que pode haver energia sem esse "eu"?
O paradoxo aponta para o fato de que essa energia existe e o discípulo deve encontrá-
la. Sendo assim, existem alguns paradoxos em Luz no Caminho. E o paradoxo não pode ser
resolvido pela mente inferior. A mente inferior só poderá ver contradição em tudo isso.
Mas a percepção interna da qual nós falamos, e que chamamos intuição, pode entender
que não existe contradição no paradoxo.
Tudo o que eu disse é apenas preliminar para mostrar que aquele que quer estudar Luz
no Caminho, aquele que quer entender as verdadeiras instruções em Luz no Caminho deve
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procurar acumular toda a energia dentro dele mesmo; tem de trabalhar muito.
H. P. B. diz que Teosofia, no verdadeiro sentido da palavra, não é para pessoas
preguiçosas e, certamente que o Caminho também não o é. Existem descobertas
maravilhosas a serem feitas nesse Caminho, porém elas não vêm para aquelas pessoas que
estão agarrando-se a coisas menores. Elas têm que abandonar o menor para alcançar o
maior, sem fazer qualquer condição, sem pedir nenhuma vez por recompensa. E esse é um
outro paradoxo no Caminho, ou seja, de que a pessoa que não pede recompensa para si
mesma é altamente recompensada. Mas aquela que busca para si mesma descobre que
não tem nada nas mãos.
Depois disso, vamos nos voltar para aquilo que é dito no livro.
Ele começa dizendo: "Estas regras foram escritas para todos os discípulos: Segue-as."
Essa é uma sentença muito importante (ela é um pouco diferente em inglês: "presta
atenção a elas; dedica-te às regras"). E isso diz respeito àquilo que estávamos falando no
começo. Essa frase "Presta atenção às regras" significa: recebe essas regras completamente
no teu coração, não apenas em algum cantinho do teu cérebro. Recebê-las e se demorar
um pouco considerando o que foi dito. Olhar para elas cuidadosamente, de todos os pontos
de vista. Tentar descobrir o que está subjacente e não apenas na superfície.
Krishnamurti usou um exemplo muito bonito; ele disse: "Suponha que você tenha uma
joia muito bela e preciosa no seu bolso. Se você apenas a mantém no bolso, ela não tem
qualquer valor, você poderia também manter ali uma pedra qualquer. É preciso que você
pegue a joia e olhe para ela; veja sua beleza; veja que cores maravilhosas brilham daquela
joia! Então, depois que você olhou e absorveu algo dela, ai sim você pode colocá-la de volta
no bolso. Depois de algum tempo você tem que tirar de novo a pedra e sentir a beleza
dela."
Quando você tem um ensinamento valioso é a mesma coisa que essa joia. Você tem
que recebê-lo, olhar para ele e ver o que ele tem para lhe mostrar. E quando dizemos
"atente, preste atenção, considere as regras", significa tudo isso. A importância disso torna-
se ainda mais clara porque o mesmo acontece em algumas páginas do livro.
Na primeira regra: "Mata a ambição", a explicação diz: "Mesmo quando essa primeira
regra pareça tão fácil e singela, não a considereis levianamente." Se você passar por ela
rapidamente deterá apenas o significado superficial. Essa sentença é como aquela joia
maravilhosa - você tem de mantê-la e considerá-la de vez em quando.
Novamente na outra página se diz, a respeito das duas próximas regras: "Fixa a tua
atenção nelas e não te deixes enganar facilmente pelo teu próprio coração... " E mais
adiante, na regra 17, que é: "Busque o Caminho", não passe para a frente rapidamente.
Pare e considere por um tempo." Portanto, muitas vezes isso é dito aqui. Mas vamos ver o
que acontece conosco. Nós escutamos alguma coisa que é de grande valor do ponto de
vista espiritual. Nós nos demoramos sobre ele? Nós damos uma pausa para meditar, para
pensar? Nós vemos, com frequência, quando alguma coisa é dita num grupo, logo depois
outra pessoa já tem algo muito diferente para dizer. Rápido demais para fazer uma outra
pergunta. Rápido demais para prosseguir em outra direção. Isso significa que não
observamos direito o que foi dito primeiro. Não consideramos propriamente aquilo;
imediatamente já estamos falando, considerando, murmurando sobre uma outra coisa. E
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isso não vai ajudar nesse tipo de trabalho. Por isso, antes de prosseguir vamos prestar
atenção, considerar bem o que o Mestre quer dizer com essa expressão “Atenta, presta
atenção, considera essas regras”.
No livro Aos Pés do Mestre, que a maior parte de vocês deve conhecer, se diz que o
Mestre nunca fala duas vezes. Ele dá uma instrução ou uma sugestão, e se você não recebe
essa instrução está perdida. Não que ele não seja amável, e sim que ele não quer
simplesmente lhe empurrar ideia alguma. A menos que você esteja naquele estado de
mente e de coração que percebe e que olha, caso contrário o que Ele diz não será de
nenhuma ajuda. E, portanto, ele não vai repetir a instrução e sim esperar até que você
tenha produzido, trabalhado aquelas condições dentro de você. Portanto não vamos dizer:
"sim, eu estou considerando essas regras". Talvez devemos considerar bem, pensar bem,
tentar entender o que significa “prestar atenção à regra”.
Devo dizer que se eu continuar neste ritmo não vou conseguir cobrir muito
do livro. Mas é muito importante para nós estudarmos da forma correta, ao invés de
simplesmente passar por muitas páginas.
Na parte preliminar existem quatro sentenças. Cada uma delas requer bastante
atenção. Porém juntas elas apontam para aquele estado de recepção que foi mencionado
anteriormente. A primeira sentença diz "Antes que os olho possam ver, devem ser
incapazes de lágrimas". Aqui também há um paradoxo. Isso não significa que nós devemos
ter um coração duro, incapaz de derramar lágrimas por aqueles que sofrem. Mas o fato é
que a maior parte de nós nunca derrama lágrimas pelos que sofrem. Podemos pensar que o
fazemos, mas, com frequência, as lágrimas são por nós mesmos. Quando alguém próximo
de nós está sofrendo, sentimos pena. Podemos sentir dor porque a outra pessoa sofre e
acreditamos que nos solidarizamos e sentimos compaixão por ela. Mas nós derramamos
lágrimas apenas porque aquela outra pessoa nos é próxima.
Todo o mundo está sofrendo. Existe grande dor em toda parte. E nós nem sequer
pensamos a respeito. Estamos, simplesmente, perdidos em nossa pequena vida de coisas
pessoais, sentindo pena de nossos problemas feitos por nós mesmos. Portanto, não
derramamos lágrimas pelo sofrimento de outro; é apenas quando alguém está relacionado
a nós, alguém que está próximo de nós, alguém de quem gostamos, que nós sentimos dor.
Porém quando se trata de alguém distante, em alguma parte do mundo, então não
sentimos nada. Portanto, de uma certa forma, de uma forma mais sutil, estamos chorando
por nós mesmos.
Por que sou assim? Por que não tenho mais alegria? Por que não posso receber mais
afeição? Por que a minha saúde não está melhor? Portanto, existe esta autopreocupação.
Mas o discípulo que é receptivo aos ensinamentos deve começar a se liberar desse tipo de
restrição. Ele deve aprender a não derramar lágrimas por si mesmo, e a escutar o chamado
do mundo inteiro, que está em dor, que está em sofrimento. Não como uma teoria, não
como uma insatisfação emocional e ocasional, mas de uma forma real, embasada em sua
própria mente.
Suponho que vocês leram algo a respeito da vida de Buda. Buda significa "o Iluminado",
"o Desperto". Existem muitas dúvidas se a sua vida é histórica mesmo, pelo menos em
todos os seus detalhes. Mas ela mostra a alegoria de um homem. A história diz que Buda
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viveu em um palácio muito belo, rodeado de jardins maravilhosos. Ele tinha tudo que um
príncipe podia ter: uma família muito bonita; todos os confortos; todo mundo era agradável
com ele e ele viveu dessa forma por muitos anos. Mas, então, o vento trouxe a ele um som.
E nesse som ele ouviu algo a respeito da dor. E ele se tornou perturbado com aquilo. Mas
continuou a viver dentro do palácio, rodeado por jardins. Outra vez veio o chamado, e ele
começou a escutar que o mundo inteiro estava chorando. Então ele abandonou o palácio e
foi buscar sabedoria. Simplificando a história, existe a condição humana: o palácio e os
jardins são as nossas preocupações pessoais, o nosso estado de esquecimento, onde as
coisas que interessam são o nosso próprio conforto e prazer, a afeição que nós recebemos
e daí por diante. Então vivemos esquecidos de tudo o mais. Ocasionalmente podemos
escutar o choro de dor que vem de fora. Muitas vezes podemos chorar porque o nosso
próprio conforto está perturbado, que pode ser tanto o conforto físico quanto o
psicológico. Um dia chega a hora em que escutamos algo vindo do mundo, de fora Porém,
logo depois nos afundamos de novo em nossas próprias preocupações. Portanto, ser
incapaz de lágrimas significa se levantar acima desse estado de esquecimento, estado onde
tudo o que interessa, o que importa é a nossa própria felicidade, o nosso próprio bem-estar
e satisfação. Mesmo se pensarmos a respeito de outra coisa, acabamos voltando para esse
estado. Mas nós temos que sair dessa condição.
A outra sentença que segue fala de algo que é similar. Como eu disse, se formos
analisar cada uma em detalhes não passaremos de sete páginas nesses sete dias, ou talvez
nem mesmo isso. Nós temos que examinar essas sentenças em nossas casas, quando
formos embora depois.
"Antes que o ouvido possa ouvir, deve ter perdido a sensibilidade", diz a próxima
sentença Aqui também temos que entender de forma correta; isso não significa que não
devemos escutar de forma apropriada. Por outro lado, temos que escutar com muita
atenção. Mas existe um tipo de sensibilidade que surge da autopreocupação. Por exemplo:
suponha que uma pessoa esteja um pouco cansada e naquela hora ela nos diz alguma coisa
dura ou desagradável. Por quanto tempo essas palavras se repetem em nossa mente?
Escutamos essas palavras repetidamente e interpretamos de forma que repitam a dor que
tivemos ao escutá-las. Tentamos descobrir qual motivo a pessoa teve para dizer aquilo e,
neste caso, muita energia é desperdiçada neste tipo de escutar, ou de prestar atenção a
coisas inúteis. Alguém conta uma história sobre outra pessoa e nós recebemos avidamente
aquilo; repetimos, passando a história para outras pessoas. Ou seja, muito do que
escutamos é inútil ou danoso, e coloca a nossa própria mente em contusão. Mas
acreditamos que tudo isso é atividade normal.
Perder a sensibilidade à maledicência Ele deve tornar-se insensível aos insultos que
machucam, pois essas coisas não têm importância Krishnamurti costumava dizer: "pode
você viver sem um único sofrimento, uma mágoa?" Alguém diz algo: "Por que é necessário
levar adiante isso? Prosseguir causando mágoas á outras pessoas através da repetição
eterna disso?" Portanto, será que nossos ouvidos podem parar de escutar esse tipo de
coisa? E se os ouvidos se tornam insensíveis a isso, eles se tornam altamente sensíveis a
outras coisas e isso também é um paradoxo. Porque dentro da consciência não existe nada
que seja inútil, não existe confusão, não existe torvelinho de pensamentos; existe claridade,
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existe espaço, pois se estamos em contusão não podemos ser receptivos. Se a mente está o
tempo todo dizendo todo tipo de coisas, como ela pode escutar? E, portanto, antes que o
ouvido possa ouvir, deve ter perdido a sensibilidade.
Igualmente, na próxima frase: "Antes que a voz possa falar em presença dos Mestres,
deve ter perdido a possibilidade de ferir." Eu gostaria de analisar isso, mas as pessoas
devem fazer isso por si mesmas.
"Antes que a alma possa erguer-se na presença dos Mestres, é necessário que seus pés
tenham sido lavados no sangue do coração." Essa é uma sentença difícil de ser entendida.
Talvez ela signifique que a personalidade, deve começar a se desintegrar. A personalidade
foi cultuada, foi construída através de muitas encarnações. A personalidade é a natureza
exterior do homem, portanto, ela é como os pés e ela deve ter um fim. É a mesma coisa do
que dizer que ela deve ser lavada no sangue do coração. É apenas quando o discípulo
começa a se purificar dessa forma que ele dá sua atenção completa aos ensinamentos. Isso
não significa que as pessoas se tornaram perfeitas assim, pois se você tivesse se tornado
perfeito não haveria necessidade de qualquer ensinamento. Mas você deve começar a
purificar a sua visão, sua audição e a sua natureza completa - isso foi dito em muitas
tradições espirituais. Na tradição Vedanta da Índia se diz: “Antes que a pessoa possa ir a um
Mestre espiritual, ele deve preparar-se." E como é que se faz isso? Faz-se adquirindo as
qualificações que são dadas no livro Aos Pés do Mestre. Isso não significa que ele atinja uma
perfeita "viveka", uma perfeita "varagya", Mas ele deve ter feito já algum começo antes de
procurar o Mestre, pois ele compreende a importância dessas coisas. Portanto, o início
deve partir do discípulo, depois o Mestre pode ajudar. Porém a maior parte das pessoas
não quer fazer esse começo. Queremos viver dentro do nosso mundo, da nossa auto-
satisfação; queremos que algum Mestre espiritual ou guru venha e comece o trabalho, mas
isso não pode ocorrer. Temos que aprender de um forma dolorosa, se não começarmos a
fazer um esforço agora? Estudaremos isso quando chegarmos a primeira regra: "Mata a
ambição."

Pergunta: O que significa "Falar na presença dos Mestres"?


Resposta: "Falar na presença dos Mestres" pode significar começar a se comunicar com
eles. Uma pessoa pode estar em frente a um grande Instrutor espiritual e ainda assim não
estar em presença daquela pessoa, pois a pessoa sábia não é só aquele corpo físico; ela não
é a sua aparência exterior, mas, sim, o seu estado de consciência no qual existe a
Sabedoria. E claro que, externamente, pode-se falar o que quiser na frente de um homem
sábio. Possivelmente é o que faria a maior parte de nós. Suponhamos que, agora mesmo,
encontrássemos uma pessoa iluminada. Talvez não pudéssemos lucrar nada com isso.
Provavelmente faríamos algum comentário comum e superficial, assim como fazemos entre
nós. Podemos não ser capazes de fazer uma pergunta que realmente valha a pena, pois o
nosso próprio modo de vida tem sido tão superficial! Mas se essas sentenças são
entendidas e nós já começamos a purificar a nossa natureza interna, então estamos mais
em contato e afinados com ele.
O que significa o poder de ferir da voz? É a personalidade que é tão forte, que é cheia

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de orgulho e, por isso, fere os outros. Ou, então, é ambiciosa, quer algo e, por isso, fere
alguém. Enquanto o eu, o self, é tão forte ele fere. O Mestre é uma pessoa onde esse tipo
de coisa não existe mais. E, por isso, não podemos nos comunicar com ele; podemos estar
na frente dele e não estar em sua presença, o que é uma coisa diferente. Mas, quando a
personalidade começa a se tornar subordinada, o que é o mesmo que dizer que quando
existe pureza crescendo internamente, aí se pode falar com o Mestre e comunicar-se pelo
menos um pouco.
Em todos esses ensinamentos podem existir outros, ainda. C. W. Leadbeater diz na
introdução que o livro pode conter instruções mesmo num estado muito avançado. Ou
seja, pode haver muito mais relacionado do que se tentou aqui explicar. O que se está
dizendo é apenas um entendimento particular do livro. Se você meditar a respeito de tudo
isso poderá, possivelmente, encontrar significados posteriores.

Pergunta: Poderia desenvolver mais sobre "os pés tenham sido lavados no sangue do
coração"?
Resposta: Como eu disse, essas sentenças podem ter muitas camadas de significado. Já
dissemos o que significaria, o que é a presença do Mestre. Estar na presença do Mestre não
é a mesma coisa do que encontrá-lo fisicamente, ou astralmente, com seus corpos físico ou
astral, se é que ele tem tais corpos; isso significa estar consciente de algo da sua natureza
e, apenas então, você está em sua presença, sob a sua influência. Aí você compreende algo
dessa divindade, que é parte de sua natureza.
Existe uma pequena diferença entre o que está na frase anterior e nesta, pois na frase
anterior é dito: "Antes que a voz possa falar em presença dos Mestres" e na outra frase:
"Antes que a alma possa erguer-se na presença dos Mestres". Talvez o que se queira dizer é
que deve haver um contato mais estreito, mais íntimo. É possível estar na presença,
vislumbrar algo daquela natureza e depois se afastar dela. Porém, erguer-se na presença
dos Mestre significa um relacionamento mais estável. (É porque em Português a palavra é
erguer-se, mas deveria ser "permanecer”, “chegar e ficar lá”). Par tal ocorrer, os pés devem
ter sido lavados no sangue do coração.
Esta é um frase muito difícil de ser entendida. Já foi dito que talvez ela queira dizer
que a personalidade deve começar a se desintegrar. Quando a personalidade começa a ser
morta causa na pessoa uma série de sofrimentos. Tente fazer de uma forma menor e você
perceberá. Sentimos orgulho surgindo dentre de nós, e percebemos que ele pertence à
personalidade e não à natureza real, que é a natureza divina dentro de nós. Coloque esse
orgulho de lado e verá que tal atitude requer uma luta. E é sobre isto que o Baghavad Gita
começa tratando.
A Dra. Besant explica na sua introdução que: Arjuna é o discípulo e Krisnha é a sua
natureza superior, o Instrutor. Não existe diferença entre o Instrutor e a nossa própria
natureza interna, natureza de Cristo dentro de nós. Arjuna tem que lutar contra todas
aquelas pessoas com as quais ele estava intimamente ligado. O livro diz de forma poética
que ele teve que lutar contra seus primos, tios, professores ou instrutores. Ele achou tão
difícil que, em certo ponto, disse que não iria lutar. Quem são os tios, primos e todos esses?
Todos eles são os hábitos, as tendências, as características da personalidade que nós
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construímos. Suponha que eu tenha construído o orgulho dentro de mim; deste modo eu
me torno familiar comigo mesmo e com o meu orgulho. Eu acho que o orgulho é parte de
mim mesmo. E o pior disso é que a maior parte das pessoas diz: "eu sou assim e não posso
fazer nada". Portanto, é muito difícil lutar contra aquilo a que nós já nos acostumamos,
com aquilo que já nos tornamos apegados. Posso ter-me tornado apegado a minha própria
imagem; posso pensar que pertenço a uma família muito boa. E sem essa imagem eu sinto
que não sou a mesma. Mas o que é a família nessa atual encarnação? Ninguém se torna
mais virtuoso por causa da família na qual nasceu.
Portanto, lutar contra esse apego a tudo quanto é familiar é muito difícil. Como Arjuna,
podemos desistir e dizer que abandonamos a luta. Mas, é preciso lutar e derramar sangue.
Não fisicamente, não como uma forma de agressão, mas é a luta contra todas as ilusões
que existem na personalidade. Porque a luta é dura, traz então esse tipo de dor, de mágoa,
de sofrimento, que dá origem a esse tipo de frase como "lavado no sangue do coração".

Pergunta: O livro diz que as regras são dirigidas a discípulos. Os comentários que a Sra
Radha Burnier fez na Escola de Verão da Argentina, há alguns anos atrás, enfatizou que o
discípulo é aquele que aprende? Em um texto budista antigo, é dito que bodhicitta, a reta
motivação, é a única coisa que conduz à Senda Aprender a aprender é aprender que nós
não somos um eu, um ego separado dos outros?
Resposta: Diz-se que etimologicamente as palavras discípulo, assim·como disciplina, tem
o significado de aprendizado, aprender. Aprender é uma coisa muito difícil. Eu não quero
dizer aprender matemática ou aprender francês ou algo deste gênero, mas aprender sobre
a vida. A vida é muito misteriosa, muito profunda, sem limites, e contém extraordinários
significados. O seu coração é a paz. Como descobrir tudo isso? O propósito que está na
vida? Um dos Adeptos diz que tudo na existência individual, assim como na existência
global, tem um significado latente e um propósito oculto. Ele está lá num pequeno inseto;
está na pessoa de quem nós não gostamos. Talvez esteja nas próprias circunstâncias pelas
quais nós somos compelidos a viver. Este significado e este propósito estão em toda parte,
no movimento da vida. E é preciso aprender a respeito disto. Mas com frequência
pensamos que já o descobrimos. Devemos converter a vida, transformá-la em alguma outra
coisa. Também pensamos que devemos converter a nós mesmos em uma outra coisa, ao
invés de tentar descobrir aquele significado e aquele propósito dentro de nós mesmos,
dentro da nossa própria natureza. E ficamos satisfeitos sem tentar aprender. E é isso que eu
quis dizer quando falei em aprender a aprender. Aprenda que existe algo para ser
aprendido. De fato, há alguma coisa muito importante, grande, para ser aprendida que é o
sentido completo e natureza da vida. O bodhicitta é conectado com isso. Bodhi é similar a
Buda; é um estado de consciência no qual existe compreensão, no qual existe consciência,
percepção do significado, da beleza do que estávamos falando. Portanto, esse Bodhicitta só
pode vir quando a mente está aberta, se ela está aprendendo, se ela tem a humildade de
tentar perceber o que está na vida, e não está cheia de autovontades como "eu quero fazer
isso, eu quero tornar-me algo, eu quero converter outras pessoas de acordo com as minhas
ideias". E é, portanto, esse estado de mente que é chamado Bodhicitta, que é um estado
sensível de mente, cheio de harmonia e compreensão, que vem dessa abordagem que
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podemos chamar de aprender.

Pergunta: Basicamente, tenho observado algumas dificuldades que as pessoas


encontram em trilhar uma busca espiritual. Algumas pessoas, por exemplo, julgam que a
evolução espiritual é uma coisa inatingível e dizem: "vou deixar para uma outra vida".
Outras pessoas, ao contrário, começam a enfrentar o sofrimento decorrente da tomada de
consciência de estar consciente da dificuldade, e nesse estado parecem que se identificam
com o sofrimento e não conseguem transcender ou cessar o sofrimento. Outras pessoas,
por outro lado, oscilam entre esses dois extremos. A Sra. Radha Burnier teria alguma ideia,
alguma sugestão para cada tipo de abordagem?
Resposta: Não se pode resolver os problemas de outra pessoa. Se uma outra pessoa está
oscilando entre isso ou aquilo, você não pode faer nada a respeito. Nós podemos ver o que está
acontecendo e isso é tudo. Mas o importante é descobrir o que está acontecendo dentro de uma
alma, dentro de uma mente. E, talvez, isso também esteja acontecendo dentro de uma alma,
dentro de uma mente. E, talvez, isso também esteja acontecendo dentro da mente daquele que
olha. Então, comece aí. Se você não puder resolver dentro de sua própria mente, então não poderá
ajudar a outra pessoa. Não é verdade que as pessoas vejam e digam: "eu não posso fazê-lo". Não é
verdade que elas querem fazer, mas não podem fazer. Uma pessoa que realmente quer mudar,
muda. Uma pessoa que, realmente, quer parar de fumar, para de fumar. Eu ouvi vários médicos
dizendo isso. Existem pessoas que dizem que fumar é ruim, causa câncer, etc, e portanto, vão
tentar parar de fumar. Isso significa que a mente está num estado de incerteza, ela não vê com
clareza que é danoso fumar. A mente diz: "é perigoso, faz mal, mas, também, há prazer associado e
eu não sei o que prefiro". As pessoas que veem, com clareza, que é perigoso, que faz mal, então
decidem e param. E é isso que estávamos falando no nosso estudo. E é isso, também, que
estávamos tentando olhar na nossa meditação da manhã.
Se vemos que o egoísmo é a raiz do sofrimento, não o meu egoísmo ou o seu egoísmo, mas o
egoísmo, e o egoísmo como tal é a causa do sofrimento. Se nós vemos isso, então comecemos a
trabalhar nisso. Mas, se nós não vemos que existe sofrimento, ai dizemos: "sim, existe sofrimento,
mas eu também tenho prazer, afinal de contas o mundo é muito bonito". Então, nós não queremos
ver o outro lado. Então, não queremos ver que, por séculos e milênios, a humanidade tem vivido de
uma forma trágica. E, se vemos isso, começamos a perguntar qual é a causa. E vemos que a causa
se encontra no estado da mente. Se vemos isso, fazemos algo a respeito. De outra forma nós
estamos em dúvida. Dai uma pessoa dizer que: "eu vejo isso". É por isso que é necessário ponderar
e meditar bastante, para converter o que podemos estar pensando a respeito e ver realmente o
real. Transformar meras ideias em convicções, tudo isso deve ser trazido para dentro de nós
mesmos. E não importa o que as outras pessoas são, sob esse ponto de vista.

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Segunda Conferência da Sra. Radha Burnier

Nós nos aproximamos da primeira das regras que diz: "Mata a ambição". Existem muitas
pessoas no mundo lutando amargamente pelo poder, lutando pelo sucesso, competindo pelo
dinheiro, querendo supremacia. Se você' disserem para elas: "Mata a ambição", isso não vai ter
significado algum. Nós não podemos estar nessa categoria. A nossa vida, por muito tempo, tem sido
uma vida de ambição, numa pequena escala, talvez. E se é dito: "você não deve ter ambição", nós
podemos também não entender. Alguns podem dizer: "eu tenho o propósito de substituir uma
ambição por uma outra melhor. É bom se desejar coisas superiores e não inferiores". Mas esta
regra diz categoricamente: "Mata a ambição". Para ser capaz de entender o seu significado é
necessário uma preparação e é sobre isso que nós estávamos falando ontem.
A não ser que uma pessoa tenha, até um certo ponto, se observado a si própria e observado
que o seu poder de percepção foi reduzido, em vista da sua autopreocupação, que o seu poder de
ouvir e extrair o significado está obstruído pela sua insensibilidade; que a sua personalidade é
muito forte para que possa entender o significado da vida. A não ser que tenha chegado ao ponto
de poder ver isso, pelo menos, numa pequena escala, a não ser que consiga, pelo menos, ter
começado a erradicar essas preocupações pessoais, esta regra, assim como aquelas que a seguem,
não conseguirá traduzir o seu verdadeiro significado.
Antes que seja possível escutar o ensinamento espiritual, cada pessoa deve preparar a si
própria até um certo ponto, ao menos. Nós não estamos dizendo que é preciso tornar-se um
indivíduo perfeito. Ontem à noite, alguém veio até a mim e perguntou: "isso quer dizer que 24
horas por dia eu devo viver sem o 'eu'?" Não estamos querendo dizer isso, mas nós devemos ter
começado a dar um passo ou dois na direção correta. À medida em que começamos passo a passo,
a nossa compreensão dos ensinamentos cresce. À medida em que tentamos praticar aquilo que nós
já entendemos, a capacidade de conhecer mais torna-se ainda maior e é isso que é dito na
introdução. A introdução diz que a não ser que ele seja capaz de viver os ensinamentos, ele não
será capaz de compreendê-los. Se ele não pratica o livro, então será como um livro selado para ele.
Ele achará que o livro é não-prático e sem utilidade. Isso acontece com a maior parte das pessoas
que ouvem as palavras "Mata a ambição". Elas irão verificar que a expressão não é prática,
portanto, inútil. Como é possível viver sem ambição num mundo onde todos estão competindo?
Um grupo de estudantes perguntou a Krishnamurti justamente essa questão: "se eu seguir esse
ensinamento não conseguirei sobreviver". E Krishnamurti disse: "Não sobreviva, então." Porque o
que nós queremos dizer com sobreviver? Significa ter um pouco mais, mais dinheiro, melhor
posição e assim por diante. Mas, se nós não dermos importância a essas coisas, não morreremos.
Talvez tenhamos um pouco menos de dinheiro que teríamos de outra forma Talvez tenhamos que
viver uma vida mais simples, mas podemos crescer de uma maneira melhor, internamente. Então, é
um erro pensar que não é possível viver sem ambição. A Bíblia diz "aquele que perder a sua vida,
encontra a vida eterna. "Então esse tipo de sobrevivência quer dizer que nós morremos
espiritualmente, mas nós não aguentamos viver dessa maneira, através da ambição, competição,
etc. Nós podemos encontrar uma nova vida, que é mais gloriosa e mais feliz.
Vamos seguir para a nota que existe sobre esta regra. "A ambição é o primeiro defeito, a
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grande tentadora do homem, que se eleva acima de seus semelhantes. É a forma mais simples de
procurar a recompensa. É ela que, continuamente, desvia o homem de suas possibilidades superio-
res. Entretanto, é um instrutor necessário. Os seus resultados convertem-se em pó e cinza na boca;
como a morte e o retraimento, demonstra, finalmente, ao homem, que trabalhar para si é trabalhar
para uma decepção inevitável. Porém, mesmo quando esta primeira regra pareça tão fácil e singela,
não a considereis levianamente, porque estes vícios do homem ordinário sofrem uma
transformação sutil e reaparecem sob outro aspecto no coração do discípulo." É um instrutor
necessário, significa que durante um longo período de vida é parte da vida de todas as pessoas.
Madame Blavatsky menciona em A Doutrina Secreta que toda pessoa tem dentro de si o homem-
animal e o homem-divino. Parte da pessoa a chama para as coisas materiais, cegando-a com as
ilusões da vida material. Mas existe uma outra parte que a leva para a vida superior; não a deixa
descansar até que ela tenha encontrado algo superior e eterno. A vida humana é a luta entre os
dois.
Ontem nós mencionamos que o Baghavad Gita faz uma alegoria dessa luta. O que é esse
homem-animal? E aquilo que herdamos do nosso sistema físico, e a mente que se desenvolveu
através da vida no corpo físico, através de várias eras, através de encarnações.
Se olharmos para a vida de um animal médio - não aquele animal que foi colocado numa jaula
para satisfazer o homem; estas pequenas criaturas que são aprisionadas pelo homem não têm
nenhuma chance, os seres humanos estão prejudicando estes animais, não só fisicamente, mas no
seu crescimento natural. Mas os animais, os pássaros, etc., que crescem sob condições naturais têm
que desenvolver certos instintos. Vamos imaginar, por exemplo, um pequeno veado na floresta
Quando nasce ele é inocente, não conhece nada. Mas ele aprende com sua mãe quem é o inimigo;
qual o cheiro do inimigo; de que direção o vento pode trazer aquele cheiro. Ele aprende que pode
viver calmamente quando existe um animal amigo. Aprende a separar o amigo do inimigo. Ele tem
de sobreviver, então demarca seu território. Vocês sabem que um animal não deve entrar no
território de outro animal, sem que haja uma disputa sobre isso. Eles têm suas próprias regras.
Como vimos, várias tendências são desenvolvidas desde aquele estágio primário, no sistema físico.
O desejo da sobrevivência significa obter a comida a todo custo, dominando o que existe ao redor,
distinguindo o amigo do inimigo. Tudo isso faz parte do nosso cérebro, porque ele tem um passado
biológico.
Krishnamurti comumente dizia que o cérebro tem uma idade milenar. E esse é o cérebro
animal, com todas as tendências, tornadas ainda piores pelos nossos poderes mentais, porque o
animal faz tudo isto inocentemente, instintivamente, quando é necessário para a sua sobrevivência.
Mas o ser humano carrega esta mesma tendência, esta mesma ação mecânica no seu cérebro. Mas
ele a colocou a serviço do seu pensamento.
Superar o semelhante é algo que vem de um passado muito longínquo, uma tendência já
cultivada. Isso significa não dar importância ao que ocorre aos outros. Na vida humana, ele tem de
aprender que essa não é a maneira a ser seguida. Ele tem de deixar para trás a sua herança animal.
O cérebro velho tem de morrer. O melhor da mente tem de entrar no coração do ser humano. No
início o ser humano não aprende isto através da inteligência, mas pelo processo inevitável do
carma. Então ele tem a ambição de conseguir mais que as outras pessoas. E isto é comumente algo
sem sentido. Nós sabemos de pessoas como o Sr. Ferdinando Marcos, que tinha sapatos para usar
todos os dias, por sete anos. Mas esse desejo de ter sempre mais é algo totalmente irracional; é
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uma busca mecânica que nós deixamos que viesse a crescer.
Nas pessoas, essa busca mecânica existe num grau menor ou maior. Nós talvez
venhamos a coletar uma série de objetos que não precisamos e colocamos no nosso
quarto. Talvez venhamos a acumular uma série de ideias e informações e carregamos nosso
cérebro com todas estas informações. Talvez nós tentemos recolher a apreciação de todos,
reconhecimento de todos e concordando com todos. Algumas pessoas concordam com a
pessoa "A" que fala uma coisa e com a pessoa "B" que diz o oposto, porque querem a
aprovação de ambos. Assim existe ambição por coisas mais diversas. Pela aprovação,
apreciação, por dinheiro, por informação. Existe uma ganância contínua e nós nos
apegamos a uma variedade de coisas, a pessoas, a certas condições, a objetos e assim por
diante. E o que o carma ensina é que tudo isto transforma-se em poeira e cinza. A pessoa
segue buscando poder ou dinheiro, e sua ambição a torna muito bem sucedida. Mas de
repente ela percebe que com todo esse dinheiro e poder, ela está só; ninguém liga para ela,
porque ela é daquela forma; ela não tem amigos; as pessoas às quais ela se apega morrem.
Essas coisas acontecem na realidade. Então, de alguma forma, na sua consciência, uma
pequena mudança ocorre. Ela descobre que aquele poder e dinheiro não trouxeram, na
realidade, felicidade, nem mesmo o verdadeiro sentimento de segurança. Porém, mesmo
assim ela continua buscando dinheiro e poder, e novamente o mesmo ocorre. E através
desse processo doloroso, ela finalmente descobre que essas coisas não têm valor.
Talvez nós tenhamos percebido que o dinheiro e o poder não têm muito significado,
mas aquela busca, aquele impulso pode continuar a existir dentro de nós. Nós desfrutamos
um certo poder sobre os nossos filhos ou sobre algumas pessoas que vivem próximas de
nós. Nós podemos ainda estar apegados a pequenos objetos que possuímos. Se isto existe
de um modo pequeno, como uma semente, pode, de repente, crescer para algo muito
grande, quando a oportunidade aparece.
Muitos de nós acreditamos que a tentação está do lado de fora Quando aparece uma
mulher muito bonita, o homem é tentando a agir errado. Quando existem objetos
tentadores, bonitos, busca-se mais e mais deles. Se existe um bolo maravilhoso, nós somos
tentados a comê-lo, mas a tentação não está nos objetos, no bolo ou na mulher, está,
apenas, na mente. Se aquele desejo de obter está na mente, se existe o desejo de obter
sensação, excitação, sempre aparecerão objetos e circunstâncias para oferecer uma
tentação. Assim nunca é possível escapar da tentação. O que pode ser feito é esvaziar a
mente do desejo. Isto é o que o processo do carma ensina.
A Dra Besant foi, por longo tempo, presidente mundial da ST e também uma pessoa
muito sábia Ela indicava o seguinte: existem experiências típicas que todos têm que passar.
Por exemplo, a experiência da perda. Se uma pessoa perde dinheiro, talvez na Bolsa de
Valores, dai ela diz: "é preciso aprender ser mais astuto na Bolsa de Valores. Se uma pessoa
perde algumas coisas porque o ladrão entrou em casa, então, ela diz: "Preciso tornar a
minha residência mais segura". Uma pessoa perde a afeição de outro indivíduo, então ela
diz: "Buscarei outra pessoa que possa substituir essa afeição". E ela perde a afeição pela
segunda vez: "Então eu tentarei esquecer buscando algum tipo de distração". Nós.
pensamos que todas estas experiências são diferentes e que nós precisamos buscar soluções
diferentes para cada uma delas. No caso, tornamos a casa mais segura, no outro caso
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buscamos uma distração e assim por diante. Nós todos passamos pela mesma experiência:
a experiência da perda de alguma coisa: perder afeição, perder dinheiro, perder reputação
etc. a carma vai trazer de volta esta experiência numa variedade muito grande de formas,
até que a pessoa perceba que o apego é a causa da dor e não mais se torne apegada a
nada, que não é a mesma coisa que não ter afeição ou amor, é justamente o contrário,
porque uma pessoa que está apegada exige atenção, exige reciprocidade e muitas outras
coisas. Quando existe verdadeira afeição ou amor, não existe nenhuma exigência. É o dar
puro. Assim a pessoa que está apegada não pode ter amor. a amor é muito maior e muito
mais feliz do que o apego. Então, o carma ensina que as pessoas devem se livrar desse
apego e devem desenvolver uma nova mente onde o amor possa florescer.
O carma, por um novo processo, ensina às pessoas a não serem ambiciosas para obter
as coisas. É um processo doloroso. A pessoa não quer aprender de uma forma inteligente e
rápida, mas chega um momento em que a pessoa já refletiu sobre isto. A beleza da vida
humana é que nós podemos entender observando a vida a nossa volta. Não precisamos
tornar-nos pessoas drogadas para descobrir que isso é muito ruim. Nem precisamos ver os
drogados; lemos sobre isso e nunca vamos aproximar-nos da droga.
Se fossemos inteligentes, perceberíamos que a ambição não traz nada que valha
realmente a pena, que seja verdadeiro. Este é o caminho para a verdadeira felicidade. As
pessoas que se tornam apegadas sofrem. As pessoas bem-sucedidas são muitas vezes
tristes, miseráveis.
Então, vamos colocar de lado todo tipo de ambição. E o carma traz a pessoa até este
ponto e este é o único da Senda. Não que o seio da ambição tenha sido varrido
completamente do interior da pessoa. Mas a sua mente já lhe mostrou que o mais razoável
a se fazer é colocar de lado a ambição.
"Porém, mesmo quando esta primeira regra pareça tão fácil e singela, não a considereis
levianamente, porque estes vícios do homem ordinário sofrem uma transformação sutil e
reaparecem sob outro aspecto do coração do discípulo. E fácil dizer: "Não serei ambicioso",
mas não o é tanto dizer: "Quando o Mestre ler meu coração encontrá-lo-á limpo de toda
mancha". O artista puro, que trabalha por amor a sua obra, está algumas vezes mais
firmemente colocado no verdadeiro Caminho, do que o ocultista que Imagina haver
apartado de si o interesse próprio, porém, na realidade apenas alargou os limites da
experiência do desejo e transferiu seus interesses a coisas relacionadas com a sua maior
expansão de vida."
Talvez alguns de nós não tenhamos chegado ainda a esse ponto, porque ainda somos
ambiciosos por coisas comuns, ainda apegados a objetos sem sentido e temporais. As
pessoas físicas que nós vemos também são objetos temporais, mas, pelo menos,
visualizamos a direção. E à medida em que prosseguimos, talvez a ambição não tenha
formas tão densas, ela se torna mais sutil. Pode haver ambição pelas experiências
espirituais, que leva um número muito grande de pessoas a falsos gurus, para finalmente
perceberem que não receberam nada Pode haver ambição de se obter algum tipo diferente
de experiência, no plano espiritual. Pode haver ambição de ser diferente de outras pessoas,
se colocando num nível espiritual superior. E também o desejo de obter favores do
instrutor. Assim a ambição pode tornar-se diferente, mas, na sua substância, a ambição
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pode permanecer a mesma. Pode haver um nível muito alto de decepção em tudo isso. A
pessoa pode dizer: "eu não tenho ambição por nada, eu estou trabalhando por uma causa,
por uma organização." Ela transforma a causa ou a organização em uma projeção da sua
ambição. Então, no final, tudo é a mesma coisa. É necessário aprender essas formas mais
sutis de ambição que chegam até nós.
Está dito que o artista puro, que trabalha pelo amor da sua obra está no caminho
correto mais que o assim-chamado ocultista. Existem: muito poucos artistas que assim o
fazem, a maior parte deles são mundanos e ambiciosos, cheios de seu próprio eu. Mas nós
podemos compreender o que está dito aqui. Pode haver amor a obra pela própria obra. É
possível se amar alguma coisa pela própria beleza que está nela embutida não porque
aquilo precisa ser feito e não porque vai trazer alguma recompensa, uma recompensa no
nível material ou no nível psicológico. Esse é um dos ensinamentos mais importantes do
Baghavad Gita, aprender a agir sem buscar o fruto da ação, e sim porque a ação é correta e
aquele trabalho precisa ser feito. Um estado de coração e mente, onde não existe nada
pessoal, nenhuma busca egoísta, tanto no nível sutil como no nível mais óbvio.
Vamos refletir sobre essas regras. Está dito: "não te deixes enganar facilmente pelo teu
próprio coração". Se a pessoa não estiver determinada a ser totalmente honesta consigo
própria, encarando a si própria cara a cara, é impossível se prosseguir no Caminho, na
Senda Porque vai apenas parecer que ela está progredindo, mas o egoísmo e a ambição
dentro de si permanecerá e quando a oportunidade aparecer isto fará com que ela caia. E
isto é demonstrado nas vidas de Jesus e Buda, que eu acho que podem ser alegóricas.
Dizem que o primo de Buda - Devadata - era um dos monges que ficava a sua volta. Ele
parecia estar recebendo os ensinamentos de Buda. Mas quando Buda se tornou mais velho,
Devadata disse-lhe: "Você já está muito velho, você deve, então, se aposentar e deixe que
eu tome seu lugar". Então a sua ambição tomou conta de si e arruinou o trabalho que vinha
sendo feito. Como pode ocorrer o fato de Judas estar tão próximo de Cristo? Ele tinha que
estar tão diluído, de alguma forma, senão não estaria tão próximo de Cristo. Mas o mal que
estava oculto dentro dele subitamente surgiu. Este é o aviso alegórico que eu mencionava e
existem muitos outros exemplos como este.
Aquele que quer seguir a Senda não se deve enganar; deve observar a si próprio com
muito cuidado, com muita honestidade. Existe segurança na conscientização de que o
egoísmo pode sempre aparecer como uma erva daninha. Você tem uma certa porção de
terreno e remove com todo cuidado as ervas daninhas, mas sempre novas ervas surgem. Se
você não estiver continuamente removendo as novas ervas, outras virão. Assim, as
sementes da ambição estão na mente, e é necessário estar continuamente atento, para
remover estas ervas na medida em que elas apareçam. Preferencialmente antes que elas se
tornem maiores. É por isso que está dito: "... pois agora, no linear, um erro pode remediar-
se. Mas, se o levas contigo, crescerá e dará seus frutos (Isto provavelmente será uma planta
e uma fruta ruim), e então terás que sofrer amargamente ao destruí-lo." Algo similar está
dito em A Voz do Silêncio, também. O espelho de sua mente deve ser mantido limpo,
constantemente, deve-se remover a poeira que é recolhida no vidro. À medida em que a
poeira se acumula, você deve Iimpá-la. Se você não limpar a casa durante alguns meses, ela se
torna tão suja que fica muito difícil de ser limpa. Mas, se você regularmente estiver limpando,
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torna-se muito mais fácil. Se você mantiver a atenção constante sobre o seu ser, não vai criar poeira
no espelho da mente, é muito mais fácil do que se você apenas a olha ocasionalmente, porque,
então, você não saberá o que fazer.
Vamos seguir para as próximas duas regras e apenas lê-las, porque não haverá tempo
suficiente para nos aprofundarmos nelas.
"Mata o desejo de viver." Mas "Respeita a vida como fazem os que a desejam." "Mata o desejo
de conforto". Mas "Sê tão feliz como os que vivem para a felicidade."
A isto está relacionada uma explicação que é paralela ao que nós já lemos. "Procura em teu
coração a raiz do mal e arranca-a Esta raiz vive no coração do discípulo fervoroso, tanto quanto no
do homem de desejos. Somente o forte pode destruí-Ia. O fraco tem que esperar o seu
crescimento, sua frutificação e sua morte. É esta planta que vive e se desenvolve através das
idades. Floresce quando o homem acumulou em si existências inumeráveis. Aquele que quiser
entrar na senda do poder, deve arrancá-la de seu coração. E então do coração brotará sangue, e a
vida toda do homem parecerá dissipar-se por completo."
O coração tem que sangrar nesse sentido, ou seja, que essa ambição, esse sentido do eu tem
que ser arrancado. Mas é melhor não deixá-lo crescer dessa forma, mas começar o trabalho
imediatamente. Temos que nos livrar de todos estes pequenos galhos e depois cortarmos todo o
resto e ganharmos força para poder arrancar a raiz. Este trabalho está implícito na ideia "Mata o
desejo de viver," "Mata o desejo pelo conforto." Porque este é o sentimento do eu presente, que
tenta manter-se de todas as formas. Nós não podemos cometer suicídio, não é isso que está sendo
dito. E correto se manter num estado de saúde neste sentido o desejo pela vida é natural.
No entanto, o que nós pensamos que é a vida, na realidade, não é a vida. Por exemplo,
pensamos que se não existe nenhuma excitação, não existe Vida. Muitas pessoas têm um número
muito grande de ideias e pensam que se abandonarem essas ideias estarão perdendo a sua vida.
Então, as pessoas dão a si próprias uma certa identidade e, sem esta Identidade, acham que a vida
não tem sentido.
Similarmente nós nos identificamos com o nosso conforto - pode ser um conforto mental, não
apenas um conforto físico. Se nos apegamos a uma Ideologia, nos apegamos ao grupo que propaga
tal ideologia e isso nos dá uma satisfação mental, no sentido de segurança de pertencer a este
grupo. Mas esta ideologia pode ser estúpida, por isso que uma pessoa que nasce num país
muçulmano adota a ideologia muçulmana; se nasce num país católico adota a ideologia católica;
num país comunista se torna um comunista ardente. É o que há de mais fácil de se fazer: cair no
padrão que está a nossa volta, sem examiná-lo. Isso dá um conforto psicológico e nós queremos
que aquilo que nos dá uma certa segurança psicológica seja a verdade.

Perguntas: Ontem foi dito sobre aquela determinação de chegar lá, fazendo analogia com o
alpinista, ou até de morrer, se for o caso. Como esta determinação, para nós, pode ser ou não ser
ambição?
Resposta: Essa é uma questão importante, porque se nós não conseguirmos ver a diferença,
vamos cair na decepção. Eis uma questão que foi tratada por várias escolas e instrutores espirituais.
No Caminho óctuplo do Budismo, um dos elementos é o reto esforço. É o esforço ambição? O que é
que o esforço significa? "Eu quero alcançar algo; eu quero ver um certo resultado do meu esforço".
Mas, será que Buda estava ensinando algo errado? Krishnamurti, por exemplo, condenou o esforço
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e não foi o único, porque na Vedanta não se fala sobre esforço. Fala-se sobre a compreensão, sobre
o conhecer. Mas existem trabalhos da Vedanta que dizem que nada pode ser alcançado no campo
espiritual se não houver um esforço pessoal. Existe o uso da energia que vem através da
compreensão. No livro Aos Pés do Mestre está dito que a primeira qualificação é o discernimento
espiritual. Isto é viveka, é tentar verificar se aquilo que nós entendemos como verdadeiro, que vale
a pena, se realmente é assim.
Eu alcancei aqui muitas ideias, por exemplo. Eu tenho que examinar qual o valor que existe
nestas ideias. Será que vale a pena eu me tornar apegada a elas? Muito em breve terei que me
afastar de todas. Porque, então, eu me coloco num estado de dependência em relação a elas? Isso
não quer dizer que nós devemos renunciar a todas as coisas, mas, internamente, temos que
reconhecer a relatividade de todas as coisas, dos objetos, do nosso estado mental, de nossas
buscas. A partir deste examinar, não casualmente, a consequência natural é se abandonar todas
essas coisas quando se percebe que elas não têm valor. E este estado que é descrito como segunda
qualificação - Vairagya - que significa o não-apego.
Se você se afastar das coisas um pouco só, isto aumenta seu poder de discernimento, porque
o apego é algo que obstrui, obscurece a mente e se você exerce o seu discernimento, vai
cada vez mais se descartando dessas coisas inúteis. E isto coloca em movimento algo que
vai numa direção nova. Então, a ambição decresce até ao processo de se perceber o que é
real do que é irreal. Como real quero dizer algo que é duradouro, eterno, algo que vai trazer
verdadeira paz e felicidade. Por outro lado, nós passamos a observar a vida.
Ontem alguém me perguntou: "Você fala do sofrimento, e existe também a alegria?
Não existe também beleza em toda parte?" É claro que existe a beleza e a alegria em tudo
que existe a nossa volta, e esta beleza pertence a algo que é eterno. Não é a beleza do
objeto, mas a beleza do eterno que se revela através do objeto. Se nós vemos desta forma
não nos apegaremos no objeto, mas seremos atraídos por aquilo que está por trás do
objeto e que é eterno.
Então essa determinação, que pode ser inclusive uma palavra errada, é uma clareza
sobre a direção que estamos tomando. Nós deixamos de lado tudo aquilo que não tem
valor supremo. Krishnamurti fala do estado onde não há escolha, porque, em sua
linguagem, onde existe escolha, existe confusão. A mente diz: "Existe dinheiro, existe
satisfação de todo tipo. Eu gosto de tudo isto. Estou apegado a isto. Se me afasto de tudo
isto, tenho medo do que me acontecerá. Mas tudo ainda não me satisfaz. Estou frustrado;
estou num processo doloroso. As pessoas dizem que existe algo mais. Ocasionalmente
também sinto que existe algo diferente, um tipo diferente de felicidade, um novo
relacionamento com a vida. E, talvez, isto me traga uma satisfação ainda maior do que
essas coisas me trazem. Então me pergunto: devo escolher isso ou aquilo? Mas estou
atraído por ambos. Eu quero ambos".
Krishnamurti então diz: "Isso é estado de confusão, de indecisão e não determinação".
Mas quando a sua mente se tornou totalmente clara, através da observação e do uso da
inteligência, todas essas coisas passam a ser vistas como sem sentido, sem uso, temporais e
relativas. A verdadeira beleza, a verdadeira alegria, o verdadeiro significado está em outro
lugar. Não existe escolha, a pessoa simplesmente segue naquela direção. A analogia do
alpinista é interessante porque a montanha é algo tão sublime, tão supremo! Quando você
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vê o topo da montanha não há como escolher e você acaba seguindo aquele caminho. A
diferença é que, no caso, o eu está trabalhando: "Eu quero isso. Isso me dá segurança". No
outro caso, o homem é que está mais em ação: apenas a beleza, a grandiosidade do que
está na minha frente é que está me atraindo.
Está dito no livro que deve ser o eterno que atrai pela sua beleza, não o desejo de
crescimento. É muito importante refletir sobre o que vale a pena e o que não vale a pena; o
que é relativo e se existe algo que não é relativo; o que é transitório e o que não é
transitório, porém eterno.

Pergunta: Existe uma passagem no texto que é particularmente interessante porque


parece um pouco fatalista; é dito: "Somente o forte pode destruí-Ia (a raiz do mal). O fraco
tem que esperar seu crescimento, sua frutificação e sua morte".
Resposta: Como nós dissemos ontem, essas sentenças podem ter várias camadas de
significados, mas se nós tomarmos o seu significado em seu sentido mais simples, a pessoa
que está mergulhada na vida, que está fazendo com que o processo mecânico do carma
extinga alguma coisa em si, está esperando que esta coisa cresça e pelas batalhas do carma
faz com que gradualmente ela morra. Não é necessário seguir esperando mais sofrimento e
mais agonia. Nós podemos começar a refletir e esta reflexão já é em si o movimento em
uma nova direção. Isto requer uma certa quantidade de força, de energia. Daí porque é tão
difícil estudarmos algo que é de natureza mais profunda. Como é difícil onde se penetra
mais profundamente, onde se leva mais tempo em cima de certos conceitos! E como é
difícil traduzir em vivência aquelas coisas que nós compreendemos! Nós temos que reunir
nossa força e fazê-lo, e se nós o fizermos seremos capazes de modificar o curso do carma e
o curso da própria vida.
As pessoas dizem: "Se as circunstâncias fossem diferentes eu poderia levar outro tipo
de vida", essas pessoas não entendem. Mas o forte diz: "Eu começarei a levar um novo tipo
de vida e as circunstâncias começarão a mudar, porque assim estaremos usufruindo de
nossas verdadeiras forças espirituais e isso faz com as circunstâncias mudem. O carma não
é algo inalterável e fatalista. Podemos começar a liberar forças que modifiquem esse carma
e se assim não o fizermos ele tomará o seu curso mecânico.

Pergunta: Eu só queria fazer um desdobramento da pergunta anterior que é o seguinte:


é dito que essa planta da ambição nasce no coração e floresce através das idades e que só o
forte pode combatê-la, e mais adiante que a ambição é um instrutor necessário. No
esquema evolutivo, a ambição, o desejo, é algo inevitável?
Resposta: Alguns de vocês devem já ter ouvido sobre o Caminho da Ida e o Caminho do
Retorno. Mesmo que vocês não tenham escutado sobre estes dois caminhos, devem ter
escutado a história do filho pródigo, que saiu caminhando por toda parte, porém um dia
decidiu voltar para a casa do Pai. É a mesma coisa: o caminho da descida, o caminho da
saída, da exteriorização é sempre no sentido das coisas mais materiais. O envolvimento
cada vez maior com as coisas do mundo - eis onde a ambição tem o seu lugar - é o instrutor
necessário neste sentido, porque através da ambição existe o despertar da mente.
De acordo com os ensinamentos espirituais, a vida existe em toda parte. A pedra não é
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algo inanimado, é algo vivo. Cada átomo de matéria é vida, mas a vida está adormecida; a
consciência que acompanha a vida está em latência. Existe um sufi famoso que diz: "A vida
está dormindo no mineral, sonha no vegetal, desperta no animal e chega à plenitude no
homem".
Na primeira fase da evolução humana, a ambição faz com que o ser busque a
experiência e a variedade de experiências estimula as suas respostas, isto significa que a
consciência, gradualmente, vai despertando do seu estado dormente. Mas está
respondendo apenas às coisas materiais, o que leva um período muito longo. É claro que o
tempo é uma ilusão, mas isto é um outro assunto.
Porém, chegando no ponto final, ele tem que retornar. E este retorno não tem nada a
ver com a resposta às coisas externas; a resposta puramente às coisas materiais, mas sim
responder à verdade que existe naquela natureza - este é o caminho de retorno. Retornar à
verdade da qual tudo surgiu como manifestação. Eis uma guinada completa, um retomo de
180 graus.
Então qual é o sentido da ida, se nós temos que abandonar tudo isso e retornar outra
vez? A ambição pode ser necessária na obtenção deste objetivo, mas o caminho real
começa com o retorno. Nós temos que, gradualmente, nos livrarmos desta ambição que foi
necessária no passado, mas que não é mais e isto tem que ser feito constante e
persistentemente.

Pergunta: Somente quando a pessoa estiver sozinha e tiver passado por uma série de
atribuições, estiver no silêncio e na solidão é que ela é capaz de perceber que já conseguiu
superar a ambição?
Resposta: Nós podemos não estar sós quando pensamos que estamos. Nós podemos
não estar longe da guerra quando nos encontramos no estado em que não estamos
lutando. Eu não digo que nós devamos procurar a guerra, mas nós não podemos nos
enrolar simplesmente nos abstendo de certas coisas. Podemos estar fisicamente só e, no
entanto, muitos pensamentos podem estar surgindo internamente; pode haver um
torvelinho de muitos desejos. Pode ser que não estejamos lutando externamente, mas
haja, no nosso interior, agressão. Nós, então não podemos imaginar que estamos livres
apenas porque superficialmente não existe sinal de aprisionamento. Não existe, pois,
sentido em nos isolarmos desta maneira Nós temos que ver nossa ambição manifestando-
se à medida que nós nos relacionamos com as pessoas e com as coisas. Como já dissemos,
a tentação não está do lado de fora; a tentação é um estado mental - a mente é que está
repleta de desejos. Podemos estar no meio de várias pessoas drogadas e não sermos
tentados pelas drogas; podemos estar próximo de diversos objetos e não estarmos atraídos
ou apegados a estes objetos. Isto não quer dizer que devamos nos colocar no meio destas
várias tentações, mas sim que nas circunstâncias em que nós nos encontramos vamos estar
atentos às nossas próprias respostas.
Quando a ambição está operando, existe um desejo de conforto ou de algo mais. E se
nós não estivermos relacionados com as coisas externamente, nós podemos não ter a
oportunidade de observar o que Jaz dentro de nós. Então, o melhor é não procurar a fuga
Existem relatos de vidas dentro de claustros, o que deve ser interessante. Pois vemos que
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nesses lugares não existe nenhum tipo de tentação. Mesmo assim, há o mesmo tipo de luta
como ciúmes; alguém querendo ser favorito da pessoa que está liderando;
descontentamento com uma série de coisas, ou seja, não importa onde a pessoa esteja, o
que importa é como a pessoa responde.

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Terceira Conferência da Sra. Radha Burnier sobre Luz no Caminho

Ontem nós tocamos, levemente, na segunda regra: "Mata o desejo de viver." Nós
dissemos que isto não se refere a uma condição patológica. É uma coisa normal o nosso
desejo de viver, já que fomos colocados no corpo físico. Sendo que é correto cuidar do
corpo físico até ao ponto razoável. Seria uma visão imbecil se expor a uma situação de
perigo, a, não ser que houvesse uma razão muito forte para tal.
O desejo de viver é o de se manter como nós estamos no presente, da maneira que nós
conhecemos a nós próprios. Cada um de nós tem um conceito de si, seja homem ou
mulher, e isto é que nós achamos que é viver. Assim, nós não gostamos de estar
divorciados desta imagem de nós próprios. Podemos gostar de uma versão modificada de
nós projetada no futuro, mas, mesmo assim, enquanto de acordo com os nossos próprios
conceitos.
Essa imagem que temos de nós não é uma imagem real. O desejo de continuar a ser o
que nós somos, mesmo que de uma forma modificada, é uma obstrução a uma mudança
total. Isto também está referido nos Yoga Sutras de Patanjali, como abinyvesha, o desejo de
ser. É o desejo de permanecer como uma entidade separada o que nos faz sentir como
sendo indivíduos e que temos uma identidade própria, em grande parte baseados no corpo
físico, embora a consciência inteligente do ser possa reconhecer que o corpo físico é um
instrumento que ela utiliza - "eu não sou apenas um corpo". Inconscientemente, o corpo
estabelece uma identidade do que nós consideramos ser nós mesmos. Quando sentimos
dor dizemos "eu estou com dor"; quando o corpo está mais idoso, e isto é uma coisa
inevitável, começamos a ficar insatisfeitos. Se o corpo nasce num determinado país, numa
determinada raça, nós nos identificamos com aquele país e com aquela raça, embora o
corpo tenha uma existência puramente temporal. De maneira errada, nós nos apegamos a
uma identidade que pertence somente ao corpo e às características do corpo. Da mesma
forma, nós nos identificamos com sensações, emoções e pensamentos. A totalidade disto é
que nós chamamos de experiência. Assim, a experiência dá uma Identidade ao que nós
denominamos de eu.
Eu me lembro do que me aconteceu alguns dias atrás ou ontem; lembro se foi uma
sensação de prazer, de dor ou qualquer outra. As reações e as experiências fazem com que
nós construamos uma descrição. Assim podemos dizer: “Sou uma pessoa inteligente", ou
então, "sou uma pessoa que sofre muito". E todos estes conceitos e pensamentos
colocados juntos são "a minha identidade, o meu ser - isto que eu chamo a minha vida, e eu
gosto de manter tudo dentro de uma proporção razoável. Se eu sofro, quero modificar tal
condição sem modificar o meu conceito de pessoa que está sofrendo. Se eu tenho o
conceito de ser inteligente, quero modificar este conceito pensando que sou ainda mais
inteligente ou ainda mais reconhecida como uma pessoa inteligente."
Quando a pessoa fala de sua vida existem muitas identificações que estão apegadas a
este conceito, e o desejo de continuar com uma identidade que tem continuidade, não
apenas nesta vida, mas nas vidas futuras. As pessoas imaginam-se no futuro, no céu e
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pensam a respeito de si próprias como elas são. E as religiões também divulgam esta ideia,
as pessoas sentadas numa nuvem com uma harpa. Talvez o céu seja algo completamente
diferente. Mas a ideia desta continuidade é muito satisfatória, e o mesmo ocorre com a
reencarnação.
A reencarnação pode ser um fato: até que se tenha aprendido todas as lições que se
têm de aprender, pode-se precisar retornar ao mundo, sem se manter apegado a nada, mas
aprendendo o significado de tudo. No nível fenomenal isto pode continuar, embora a
reencarnação possa ser verdadeira neste sentido, nós usamos o querer para dar uma
continuidade a esta própria mente, para nos colocarmos numa posição confortável em que
não deixaríamos de existir e continuaríamos numa próxima reencarnação ainda, talvez,
desfrutando melhor da vida.
Tudo isso é um tipo de ilusão. A vida pode ser algo muito diferente dessa identidade
conceitual, porque tudo isso é parte de um mundo temporal ou os nossos conceitos de
experiência desaparecerão. Dessa forma, a auto-identidade tem de ser descartada E nós
podemos perguntar. "E o que virá depois disso?" Não podemos imaginar o que virá depois,
porque qualquer coisa que pensarmos será apenas um pensamento a mais na mente. É pelo
fato de não sabermos o que ocorrerá se abandonarmos a identidade que temos medo de
fazê-lo.
Essa questão já foi explicada através de várias analogias. Dizem que é como um
pequeno passarinho que tem de aprender a voar: se ele se apega ao galho onde ele está e
tem medo de sair de lá, ele nunca voará. Se ele diz: "como vou voar se nunca voei antes?",
ele ficará preso àquele galho. Ele precisa libertar-se e então, de repente, ele se sente no ar.
Assim é o que consideramos a vida e a nós próprios. E a limitação que deve terminar.
Esta frase tem um significado muito profundo: "Não vivas no presente nem no futuro,
mas sim no eterno". Isso parece uma contradição do ensinamento que é dado em outra
parte, onde é dito que se deve viver apenas no presente. Mas, de fato, não há contradição.
É apenas um uso diferenciado das palavras, porque nunca vivemos absolutamente no
presente. Aquele que nós chamamos o presente tem em si todas as memórias do passado e
tem várias projeções do futuro. Nem o passado, nem o futuro existem na realidade. Nós
podemos ter experimentado algo no passado, mas isso já passou, já caiu no esquecimento.
O que nós consideramos como passado existe apenas na memória de nossa mente, como
memória, como uma impressão ou como uma tendência. Da mesma forma, o outro não
existe, pois quando se chega ao futuro, ele já se tornou presente, exceto aquilo que existe
na mente, como imaginação a respeito do futuro. Assim o passado é memória ou
impressão, o futuro é fantasia e imaginação. E tudo isto está preenchendo a nossa mente
no presente. Nós nunca, então, entramos em contato com o presente como tal. Somente
quando a mente está vazia dessas memórias, das suas projeções e fantasias é que há o
contato imediato com o presente. Dessa forma não há continuidade no presente, nem
pode haver, porque a continuidade é criada apenas na mente.
“Vejo uma árvore" e aí percebemos que há dois anos atrás ela era menor e que agora
ela cresceu. Ou então se diz: "Agora é inverno. A primavera chegará e a árvore mudará".
Tudo isso está acontecendo apenas na nossa mente, porque a mente relacionou o que ela
estava vendo anteriormente e o que ela está vendo agora. Está querendo reunir a memória
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com a realidade presente, está, portanto, comparando. Então se diz: "Ela está mais velha,
está mais alta". Mas na realidade, no presente, ela não existe. Apenas aquilo que é existe
no presente. Ela não é nem mais velha, nem mais nova; não é primavera nem inverno. O
que existe é apenas o que é.
É interessante que naquela maravilhosa língua que é o sânscrito a palavra que significa
verdade é táttva e a sua tradução literal é "a natureza do que é, o estado de ser". E isto é
que é o presente. De acordo com certos ensinamentos budistas, cada momento se mantém
por si próprio, não existe continuidade entre momentos, a não ser no nosso pensamento.
Já que nós criamos continuidade dentro de nossas próprias cabeças, nós não vemos o que,
na realidade, existe ali. No estado de ser do momento, aquele momento que não tem
dimensão, não tem tempo, o eterno existe; mas no presente, onde existem as memórias do
passado, as comparações que vêm do passado, as imaginações a respeito do futuro e o
futuro em relação com o presente, neste tipo de presente obscuro, o terno não existe.
Assim está dito: "Não vivas no presente nem no futuro, mas sim no eterno". Ali não pode
florescer esta erva gigantesca; a própria atmosfera do pensamento eterno apaga esta
mancha da existência.
Esta erva daninha representa o egoísmo, a identidade separatista. E nós já analisamos
em que consiste esta identidade. Essas são coisas pequenas e transitórias, as identidades
são criadas de experiências que retemos na memória. Por exemplo: se nosso corpo é
amarelo, branco, negro; se pensamos a respeito de nós próprios como pessoas educadas
ou não educadas. Tudo isso são como sombras que passam, e aquilo que é passageiro não
pode manter-se quando o eterno é aquilo que se deseja contatar. Quando nós percebemos
que tudo isso é de natureza relativa e temporal, irreais, como as nuvens que vêm e vão,
então esta erva que é o egoísmo, no sentido da separatividade, começa a secar e a cair.
Esta regra está relacionada com a regra seguinte: "Mata todo sentimento de
separatividade". Em primeiro lugar, nós temos que estar atentos para o fato de que nós
operamos com esse sentimento de separatividade, porque nós não temos a estrutura total
da identidade. Nós não a examinamos com atenção. Nós repetimos sobre o quão irreal ela
é, a natureza relativa da sua existência, a sua pouca importância, porque nós não
dedicamos atenção suficiente. Então nós podemos dizer que acreditamos na unidade e
cooperação, na harmonia e na fraternidade, mas as nossas palavras e os nossos atos
tornam-se uma negativa disto. Nós não vemos essa erva como tal e não fazemos o trabalho
necessário para mata-lá. Esse sentimento de separatividade é a razão de muita miséria e
decepção. A maior parte dos problemas que as pessoas experimentam vêm do seu próprio
sentimento de separatividade. Vamos supor que alguém não nos dá alguma coisa, que nós
esperávamos receber. Ao invés de pensar: "Por que ela não está me dando isso?" Por que,
então, essa outra pessoa não faz algo diferente? como tentar, então, refletir sobre o fato:
"Ela não é diferente de mim". Assim não importa o que está sendo dado, pois como pode
uma unidade dar para outra unidade? Não importa se o que está sendo dado está com ela
ou está comigo. E se pensarmos com cuidado sobre isto, reduz o nosso sentimento de
desgosto.
Se existe solidão é porque nos sentimos separados dos demais. Se existe um
sentimento de unidade com tudo que existe, com as pessoas, com a natureza, nós somos
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parte desta unidade e não existe diferença entre as coisas externas e nós próprios. Não
pode existir um sentimento de solidão. Toda solidão é um sentimento de separatividade.
Toda forma de autopiedade é separatividade. Na base disto tudo está o conceito de que
"eu sou dessa forma" "Por que eu preciso ser dessa forma?" Assim, o sentimento de
separatividade, que é criado pelo pensamento - o pensamento que se identifica com uma
série de coisas transitórias e pequenas, que são todas reunidas e descritas como sendo o eu
- é responsável pelo nosso sofrimento. Isto é algo muito difícil de ser compreendido, a não
ser que nos trabalhemos sobre isto. Mas é como se fosse um mantra mágico, porque se nós
conseguirmos tratar este problema, nós nos tornamos totalmente independentes de
qualquer coisa externa para atingir a felicidade.
Tanto a nossa felicidade quanto a nossa infelicidade são criadas por nós mesmos. E
tornar-se capaz de ser infeliz é um tipo de escravidão, de apego. Todo tipo de dependência
é escravidão. Neste sentido nós somos todos escravos. Quando nós somos livres não
dependemos de nada mais. Isto não é um estado de arrogância, de superioridade, pelo
contrário, é a total inexistência daquele eu que é a fonte de tudo isto.
Vamos seguir para a nota a respeito dessa regra "Não imagines que podes separar-te do
homem malvado ou do insensato. Eles são tu mesmo, se bem que em menor grau do que o
teu amigo ou teu Mestre. Mas, se deixas arraigar-se em ti a ideia de separação de qualquer
coisa ou pessoa má, ao agires assim, crias carma que te ligará àquela coisa ou pessoa, até
que a tua alma reconheça que não pode estar isolada."
Nós não percebemos que a vida neste mundo denso e material existe para que nós
possamos aprender algo maravilhoso. Essa magnífica realização pode ser descrita de
formas diversas, podemos dizer que é harmonia, unidade, beleza, paz, amor e, até que a
lição seja totalmente compreendida, sem dúvidas e sem retorno, em toda a sua
profundidade, nós temos que continuar experimentando.
Ontem nós já falamos como é que o carma dá continuidade às experiências, porque o
carma é o instrutor. Se o estudante não aprendeu as lições da forma apropriada, ele tem
que estudá-las de forma diferente. O bom professor pode colocar a lição um pouco
diferente, dando um novo tipo de ilustração. Mas a essência da lição será a mesma É algo
assim que o carma faz. E se nós nos desviamos do homem mal ou do homem bobo, é
porque nós não conhecemos a maravilha da unidade. Experiências virão até nós que nos
farão perceber a grandiosidade da unidade. E assim que o carma nos mantém presos
àquela pessoa ou coisa que nós desaprovamos, e de tudo que nós nos desviamos.
Ontem nós dissemos que quando existe um determinado tipo de circunstância - aquilo
que nós intitulamos perda - não tentamos aprender o que essa experiência está nos
mostrando, pelo contrário, tentamos jogá-la no futuro. Então fugimos para uma outra
experiência procurando satisfação que venha a substituí-la, e nós fazemos tudo, menos
aprender a lição. Assim, também no futuro, nós perderemos as coisas e, como dissemos, a
lição poderá vir de uma forma diferente. Pode-se perder objetos, pode-se perder afeição,
pode-se perder reputação, da mesma forma, se nós nos desviamos de certas pessoas, física
ou inteiramente, se certas pessoas são repugnantes para nós, ao longo de muitas vidas nós
seremos colocados ao lado dessa pessoa ou pessoas similares, até que venhamos a
perceber que aquilo que a pessoa é externamente, independente disso, ela compartilha da
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vida interna conosco. Nós somos ela e ela é nós. Então, porque chamar essa outra pessoa
de uma pessoa ruim ou boba?
Krishnamurti dizia: "Como é que você sabe que você é uma pessoa lenta mentalmente?
Como você pode reconhecer que você é inteligente? Só porque você compara. Você criou
urna escala artificial na sociedade ou na sua própria mente. Você mede as pessoas baseado
nas suas ideias bobas." Então nós denominamos uma pessoa ignorante e outra inteligente,
e que o outro é ignorante e nós somos inteligentes. De uma certa forma nos sentimos
vaidosos e quando vemos alguém melhor que nós sentimos inveja. De qualquer modo isto
é um rotulo que inventamos dentro de nós. Na realidade, cada pessoa é o que é. Eu não
quero dizer que não existam valores morais, porque os valores morais dependem das
realizações espirituais da qual nós já falamos.
Uma das facetas da realização espiritual é a realização da unidade. Logo, o pensamento
baseado no sentimento da unidade é correto, quando não é baseado neste conceito, ele é
errado. Ferir alguma coisa ou criar qualquer dano a alguma coisa, matando seja animal ou
homem, é errado dentro desta perspectiva de unidade. Como já foi dito, nós podemos
reconhecer o pecado sem deixar de gostar do pecador, porque a pessoa que mata ou fere
não é um animal, mas é um homem cego. Nós também somos cegos quando nós agimos
fora do sentido de unidade. Pode ser apenas uma questão de grau. Num determinado
momento nós fazemos de uma forma e no outro momento fazemos exatamente da outra
forma. Então, se nós sentimos o ato dentro desta sensação de unidade, existe uma
percepção correta. Mas se nós assistirmos um ato com repugnância no nosso interior, nós
vivemos de uma forma distorcida. E o processo do carma nos trará essa experiência,
ajudando-nos a descobrir o sentido da unidade em todas as circunstâncias.
Ontem nós participamos de uma entrevista na TV e a entrevistadora perguntou a
respeito da paz. Não é possível que haja paz a não ser que haja essa percepção da unidade,
porque sempre que nós agimos a partir de um sentimento de separatividade, nós fazemos
coisas que perturbam a paz. Então, refletindo a respeito de tudo isso, nós aceleramos o
progresso na senda, se não nós seguimos naquele ritmo lento, aprendendo através das
experiências e do carma, "Relembra que o pecado e o opróbio do mundo são o teu pecado
e o teu opróbio".
Nós compartilhamos o que outras pessoas experimentaram, ou talvez o pecado esteja
apenas tomando uma forma diferente dentro de nós, ou, talvez, uma cor diferente. A isto
se soma o nosso sentido de ego, o sentido de separatividade do eu. Outra pessoa pode ser
desagradável, mas não quer dizer que é uma pessoa ruim. Mas nós somos ciumentos ou
invejosos, então essa outra pessoa nos diz que nós somos ruins. Não existe muita diferença
entre os dois. O sentido de separatividade se manifesta como ser desagradável, no caso
daquela pessoa, e como inveja no nosso caso. Mas ambas compartilham do mesmo pecado:
todos sentimos esta separatividade. É por isso que Krishnamurti dizia que enquanto nós
estivermos na corrente do mundano (ele não usou a palavra mundano, mas eu estou
usando como uma explicação, que significa o amor ao poder e a tudo que é mundano: o
orgulho e o egoísmo de toda forma), enquanto nós estivermos nessa corrente não seremos
diferentes, não seremos indivíduos, porque tanto o pecado como a vergonha são comuns a
todos nós. Somente a pessoa que conseguiu sair da correnteza e que se libertou, somente
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esta pessoa é um verdadeiro indivíduo.
É bom lembrar que o pecado e a vergonha do mundo são o nosso pecado e a nossa
vergonha, nós somos parte dele. Nós vamos dizer que nós não somos egoístas, mas que
outra pessoa é. Mas isso é uma pequena satisfação. Porque, como nós dissemos ontem,
uma vez que a semente esteja lá, ela certamente brotará e crescerá. Nós podemos notar
isso em muitos casos. Por exemplo, uma pessoa que parece decente quando chega a uma
posição de poder se torna corrupta e terrível. Isso é explicado pelo fato de aquele amor
pelo poder estava oculto. Pois, dentro de nós, todo tipo dessas sementes podem estar
presentes. Sendo assim, nós não podemos dizer que somos melhores. Nós não poderemos
ser melhores se não existirem as circunstâncias que extrairão de nós estas sementes. "E
antes que tenhas obtido o conhecimento, é preciso que hajas passado por todos os lugares,
tanto imundos como puros. Portanto, tem presente que o vestuário manchado, cujo
contato te repugna hoje, pode ter sido o teu de ontem, ou talvez o seja amanhã E se,
horrorizado, dele apartas o olhar, um vez lançado sobre teus ombros, mais aderirá a ti."
A primeira frase não quer dizer que nós devemos nos dirigir a todo tipo de lugares
sujos, mas significa que em todas as circunstâncias precisamos aprender a não sermos
tocados, como a fábula da folha de lótus que mesmo colocada na água não fica úmida
Assim nós temos que passar por vários tipos de experiência, sem sentir o sentimento de
separação entre os outros e nós próprios. "Abstém-te, não para permaneceres limpo, mas
porque abster-te é um dever."

Pergunta: Eu gostaria que a Sra comentasse a frase "Mata o deseo de conforto".


Resposta: Eu havia passado esse aforismo porque temos pouco tempo, poucos dias e
seria impossível cobrir todo o livro. E nós tocamos neste assunto rapidamente ontem.
Porque buscamos o conforto? Tem a ver com o sentido, a vontade de ter uma vida em
separado. Nós dissemos que o desejo de viver é um desejo de viver em separado. Porém o
desejo de ser separado é algo não natural, podemos dizer, porque a Verdade real e
subjacente é a Unidade. Nós estamos indo contra essa Verdade absoluta quando tentamos
nos manter separados. Nós temos que trabalhar continuamente, de forma a não ter esta
identidade. Num certo sentido, o eu é muito quebradiço, e noutro ele é muito persistente,
difícil de se descartar, porque não é natural. Em vista das verdades supremas ele não pode-
se manter para sempre. Devemos continuar mantendo a nossa identidade com o eu.
Nos sentimos confortáveis quando alguém nos diz que somos uma pessoa boa, quando
fazemos um bom trabalho, quando somos espertos. Por que nós queremos que outras
pessoas nos digam isto? Porque existe muita incerteza a respeito de tudo dentro de nós.
Nós sabemos que o eu não é tão bom assim. Alguma coisa dentro de nós diz que este
sentido de separatividade não é correto. Isto é verdade dentro de nós, aquilo queima e por
isto queremos a todo custo manter essa noção a respeito de nós mesmos. Nós sabemos
que o eu criado pela mente é algo de duração limitada, pode até ter duração longa, mas é
limitada. Logo, existe um sentido básico de insegurança em todas as pessoas. Não nos
sentimos seguros de podermos nos manter como somos, da maneira que somos, e
passamos a buscar segurança em muitas outras coisas.
Algum instrutor chegará e dirá: "Você está muito bem. Farei tudo para que você tenha
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boas experiências agora e nas vidas futuras, contanto que você me pague o suficiente." Ou
então alguém produz uma ideologia e um número enorme de pessoas se apega a essa
ideologia e nós achamos que poderíamos nos unir a esse grupo. Ou então sentimos
segurança nos apegando a um indivíduo em particular, e pensamos: "eu sinto que todo
mundo está me ameaçando psicologicamente e o meu namorado, ou seja lá quem for, faz-
me sentir um pouco mais seguro: Este é o tipo de conforto que a mente está buscando. Ela
não está buscando uma verdadeira mudança, o que é chamada de mudança revolucionária.
Ela gosta de permanecer onde está, com o seu próprio conceito a respeito de si, verificado
somente até o ponto de não perder o sentido de continuidade. O desejo de continuidade é
relativo à continuidade do corpo físico, ou no nível psicológico, o sentido básico de
insegurança.
Enquanto nós estivermos apegados a ideia do eu, estaremos sujeitos à insegurança.
Não haverá fim ao conforto que buscamos, porque qualquer conforto que buscamos
desaparecerá um dia, porque o conforto é de natureza fútil. Então, a mente precisa
perceber que está buscando o conforto - uma panacéia para a sua existência incerta. Mas
se ela percebe a natureza da sua própria estrutura, as coisas voláteis que ela criou para si
própria, toda esta casa entra em colapso. E é isso que o Buda disse (Nós não sabemos se ele
disse de verdade, mas, pelo menos, a tradição afirma que ele assim disse): "Muitas casas
foram construídas por mim e eu fiz dessas casas prisões, mas, finalmente, eu vi a Luz, e
toda a estrutura entrou em colapso." Ou seja, todo aquele desejo de construir segurança,
de se manter separado entrou em colapso.
Essas regras são partes de uma totalidade, e portanto estão relacionadas entre si.
Porque o problema da vida é um todo. E quanto mais refletirmos sobre ela, mais
aprenderemos a respeito da nossa própria natureza e mais claramente se apresentará a
saída. Realmente o livro trata da Luz no Caminho.

Pergunta: A Sra. falou que o sentido de solidão é decorrente da percepção de


separatividade em relação a tudo e a todos. Com isso a Sra. está querendo dizer que nesse
nosso processo, deveríamos, gradualmente, ir percebendo a irrealidade do eu como
entidade separada?
Resposta: Sim. A irrealidade ou realidade relativa do eu tem que ser percebida. Falo da
realidade relativa porque no tempo presente ele parece muito verdadeiro. Da mesma
forma que o sonho parece verdadeiro enquanto ele dura, e só quando se acorda é que se
percebe que o sonho era irreal. Assim, se você desperta para o sentido de unidade, mesmo
que seja de vez em quando, mesmo que seja de uma forma limitada, nesse momento o
sonho é percebido como uma fantasia A única ressalva é que eu não daria ênfase à gradual
idade, porque se nós acreditamos na gradualidade nós não colocamos a nossa energia
nesse processo.

Pergunta: Ao longo do processo educacional, as pessoas têm um ego que não está bem
estruturado. Devido a certas falhas educacionais, nosso ego não é muito bem construído. É
possível transcender o ego que não está bem estruturado ou é necessário estruturá-lo
primeiro para, depois, transcendê-lo?
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Resposta: Não devemos nos preocupar com a formação do ego, porque da maneira que
ele é hoje, para todos, já está muito cheio de si próprio. Todas as pessoas nascem já com o
ego muito forte. Como nós já abordamos antes, já nascemos com o ego que foi fortalecido
ao longo de muitas encarnações. Uma criança pequena tem uma mente ainda não
desenvolvida. Já que a mente é um pouco vaga, ela não consegue expressar plenamente o
egoísmo. Infelizmente uma série de doutrinas psicológicas nos ensinam a cultivar o ego.
Como verdadeira educação, deveriam preocupar-se em mostrar que existe apenas uma
única existência, uma única vida, que o nosso bem está relacionado com o bem de todas as
pessoas. É lamentável que a educação se preocupe em aumentar mais o egocentrismo
daquelas pessoas que já têm o ego muito expandido.
As crianças que não desenvolveram muito a sua mente têm uma sensibilidade natural,
um sentido instintivo de simpatia, na maior parte dos casos. Vocês podem reparar como
uma criança pequena se relaciona ao encontrar uma outra criança - as ideias mentais ainda
não se desenvolveram. Elas parecem muito contentes ao brincar, embora briguem de vez
em quando, mas não é uma briga séria, não se preocupam se a outra criança é pobre ou
rica, se tem a pele escura ou clara. Elas têm um sentimento natural em relação aos animais
e por muitas coisas. E nós ajudamos a desenvolver o sentido de separatividade, a pensar
que nós somos americanos, ou isso ou aquilo. A tendência moderna é ensiná-las a sentir a
sua própria identidade.
A educação não é o que se poderia designar como boa educação, do ponto de vista
espiritual. Existe um lindo drama escrito por um poeta sânscrito mamado Kalidasa; ele
descreve um ashram, um centro espiritual de um sábio e, em termos poéticos, ele mostra
como as pessoas que viviam nesse ashram encaravam todas as árvores como amigas. E não
queriam beber antes que as árvores tivessem também a sua bebida. As garotas gostavam
de se enfeitar, mas elas não gostavam de retirar as flores das plantas, porque elas sentiam
que as plantas eram uma delas. Então elas só pegavam aquelas flores que caíam no chão, a
sua volta. Elas sentiam que os passarinhos falavam para elas. Toda a descrição é assim. E
nesse caso, a educação que foi dada às crianças era de uma ordem totalmente diferente:
não uma educação voltada para o estabelecimento do ego, mas voltada para a eliminação
do ego.

Pergunta: Quando nós tomamos contato com ensinamentos genuinamente espirituais,


somos convidados e exortados a compreender a irrealidade do eu. Mas a mente, por assim
dizer, em processo talvez de autodefesa, começa a criar o "eu superior". Nós até
compreendemos que a nível da personalidade a egocentricidade, ainda mais aflorada, deve
realmente morrer. Mas imediatamente nós criamos um refúgio que é o "eu superior". Não
existe um "eu personalidade", mas existe um "eu superior" que é o eterno. Com relação a
isto, o que é essencialmente o "eu" e se é real esse processo do "eu superior" e qual é a sua
essência?
Resposta: A verdade está em toda parte, em mim, em cada átomo, em cada parte, mas
a verdade não tem nada a ver com o que a mente inventa, tanto a minha quanto a sua. Se
você cria na sua mente a ideia do eu inferior, eu superior ou qualquer outra coisa, tudo isto
é uma projeção mental - a verdade do ser, a verdade da vida não tem a ver com isto.
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Pergunta: Se as filosofias em geral, as profundas, enfatizam a irrealidade, ou que o eu é
um conceito, é curioso que ainda hoje vemos vários e vários livros editados pela TTH, onde
estão reforçando, do início ao fim, o ego. E fecha à mente a possibilidade de uma nova
perspectiva. Por que essa outra ênfase - de que o ego não existe, de que o eu superior não
existe ou de que o eu espiritual também não existe - é difícil de ser encentrada na literatura
teosófica tradicional?
Resposta: Eu não acho que a literatura teosófica enfatize o eu como uma realidade.
Existem meios de percepção que chegam até à mente quando ela está livre. Ver se existe
alguma verdade que possa vir através daquela apresentação, depende de mantermos a
nossa mente livre, à medida em que olharmos para essas coisas, estando preocupados.
apenas em encontrar a verdade a qualquer nível. Desta forma não encontraremos confusão
ou contradição. Existe muita coisa na literatura escrita por H. P. B. que diz que o eu, o selt,
como nós percebemos, tem que ser destruído. Se você ler mais adiante, como Os Mestres e
a Senda, o mesmo está sendo indicado. Pode ser a verdade em diferentes níveis, como nós
Já dissemos.
Existe este nível da existência fenomenal, e nós podemos descartar tudo isso dizendo
que é apenas ilusão, pois é um fato dentro de um certo nível. E a este nível fenomenal
pertence a reencarnação e, também, o ego, no sentido teosófico, que reencarna. Aprender
alguma coisa a respeito disto tudo tem de ter a sua utilidade, pode ter tido um propósito
bem definido, no momento em que este ensinamento nos foi dado.
Alguns de nós estávamos falando sobre a questão da reencarnação ontem e foi
mencionado que Krishnamurti nunca falou sobre a reencarnação. Alguém perguntou, certa
vez, a Krishnamurti se a reencarnação era verdadeira ou não, e ele respondeu que a
reencarnação é "um fato mas não é verdade". Isso quer dizer que no nível fenomenal
existe, mas do ponto de vista transcendente tudo que está no mundo fenomenal é irreal.
Os budistas e os hindus sempre falaram em termos de duas realidades, inclusive eles
falaram da realidade empírica e da realidade transcendente. No nível empírico, do ponto de
vista funcional, nós temos que aceitar certas coisas e temos que comentar a respeito dessas
coisas e temos que, talvez, entender a lógica por trás delas. É algo como a Física de Newton
e a Física de Einstein, que tem uma lógica no seu próprio nível. Mas nós não podemos
estacionar nesta compreensão do mundo no nível puramente fenomenal; nós temos que
penetrar e chegar até um outro nível. E, talvez, nós precisamos dessa literatura teosófica a
qual apresenta as coisas de um ponto de vista diferente. Sendo assim, não recomendo que
coloquem de lado essa literatura, mas que prossigamos a partir daí.

31
Quarta Conferência da Sra. Radha Burnier

Nós chegamos à sexta regra que diz: "Mata o desejo de sensação." E a regra 8 é um
comentário que diz: "Estuda a sensação e observa-a, porque unicamente assim podes
começar a ciência do conhecimento próprio e colocar o pé no primeiro degrau da escada."
É importante notar que a regra diz: "Mata o desejo de sensação" e não diz "mata a
sensação". A sensação é natural e se nós não a sentíssemos estaríamos mortos no plano
físico. Os sentidos são os meios através dos quais constatamos a vida, e pelos quais
podemos observar todas as formas, movimentos e a beleza da vida Ser capaz de sentir cada
vez mais e de forma cada vez mais sutil é parte do processo evolutivo. Mas o desejo de
sensação já é diferente, pois nos coloca num estado de apego com uma sensação especifica
Como sabemos, existem os cinco sentidos através dos quais contatamos a vida. Mas
quando existe desejo por uma sensação em particular, então fechamos a porta para
contatos posteriores, contatos maiores. E, também, fechamos a porta para os contatos que
vêm através de outros sentidos. Existe, neste caso, um apego a um tipo particular de
sensação.
Podemos pensar em muitos exemplos desse tipo. Suponha que exista, por exemplo,
desejo de sensação do paladar, o que talvez seja uma das sensações mais primitivas, a
menos que o tato seja mais primitivo ainda Então, como dissemos, é natural provar algo
doce, salgado, ou azedo. Porém, quando nos tornamos apegados a um tipo particular de
paladar e o desejo para repetir esse paladar se torna forte, aí nos tornamos insensíveis para
qualquer outro tipo de paladar. Existem países onde as pessoas comem com muito
tempero. E é onde, naturalmente, existe um maior desejo para o paladar forte desses
temperos, e como consequência tais pessoas se tornam insensíveis a paladares mais
refinados.
O mesmo pode acontecer com relação a todos os outros sentidos. Se nós nos tornamos
apegados a formas rudimentares de som, sons altos, estimuladores, é como se
fechássemos a porta para contatos posteriores e mais sutis de audição. Torna-se difícil estar
consciente de sons mais sutis e à beleza de nuances mais sutis. Logo, o apego à sensação é
uma forma de se limitar, colocando-se apegado a um tipo especial de experiência, o que
significa fechar-se para todo o resto do mundo. É assim que acontece com a maior parte
das pessoas, se tornam escravas de sensações limitadas. Só uma pessoa que não tem um
desejo forte por nenhum tipo de sensação, aquela que se permite contatar com o mundo a
partir de qualquer direção, só esta é capaz de ter a experiência mais ampla possível.
Inclusive, talvez, alguma coisa que esteja além das próprias sensações.
Como já foi dito, a primeira verdade dita pelo Buda foi em relação ao sofrimento. Por
milhares de séculos, em todas as partes, tem existido sofrimento. E o Buda disse: "Observe
isso! Observe como o ser humano torna a sua vida infeliz, não só a sua própria, mas a da
humanidade como um todo. Examine a causa disso." Bem, existem muitas pessoas que
diriam imediatamente: "também não existe a beleza e o prazer na vida? Por que você só
fala a respeito do sofrimento?" E isso é particularmente verdadeiro no Ocidente, que é uma
32
sociedade orientada na direção do prazer. É claro que existe beleza em todas as partes.
Toda vida na natureza é maravilhosamente bela. Mas a pergunta é esta: "Será que nós
realmente nos permitimos entrar em contato com essa beleza?" Eu receio que não fazemos
isso, pois, imediatamente, personalizamos tudo. Constatamos a beleza, digamos, com os
nossos olhos e, prontamente, nós sentimos, temos sensações e nos apegamos a ela. Existe
um arrepio de prazer porque sentimos que "eu estou gostando disto, e me dá um grande
impulso". E, portanto, não é a verdadeira beleza que contatamos; o que contatamos está
corrompido pela experiência da visão, e isso é uma forma de apego à sensação.
Acho que todos que observarem com atenção verão que é assim, que o fato de se
aproveitar, gostar da beleza, se torna mais importante que a própria beleza. E então
passamos a buscar a repetição da experiência ou de algo parecido. A vida se torna, dessa
forma, uma busca por prazer, felicidade e daí por diante. Mas uma mente que tem esse
tipo de desejo não vê a beleza e nem mesmo se torna consciente do sofrimento. Na
verdade, o prazer se torna uma barreira para se ver o que realmente existe, pois na
natureza há uma grande beleza, e um grande mistério. E na vida humana existe um grande
sofrimento, mesmo quando pensamos que estamos bem, o sofrimento está logo por ali e a
mente não quer ver, pois ela tem a intenção de escapar do sofrimento e de aproveitar e de
gostar das coisas. Por isso que se diz que há sofrimento, o qual é resistência a isso, mas
preferimos ver outra coisa e nos apegarmos a ela Porém a mente deve estar internamente
livre para ver o que for que exista de fato, para contatar a vida como ela é, para receber a
mensagem da vida Assim é preciso aprender com a sensação, o que é contatar a vida com
toda a forma em que ela se apresenta. É preciso que se aprenda a partir da observação
calma, e a observação só pode existir quando não se está tentando pegar, alcançar, alguma
coisa. Pode-se observar que a mente tem esse hábito de pegar. E se observarmos a
sensação e a nossa resposta à sensação, começaremos a aprender sobre nós mesmos, e
iniciaremos a ciência do autoconhecimento - é este o primeiro degrau da escada.
A próxima regra, número sete, diz: "Mata a sede de crescimento. Cresce como cresce a
flor, inconscientemente, mas ardendo em ânsias do entreabrir sua alma à brisa. Assim é
como deves avançar: abrindo a tua alma ao eterno. Mas há de ser o eterno o que deve
desenvolver a tua força e a tua beleza e não o desejo de crescimento."
Como dissemos ontem, essas regras estão interconectadas entre si. Se aprendermos a
usar os nossos sentidos corretamente, então não apenas veremos formas de beleza,
ouviremos belos sons ou entraremos em contato com as maravilhas da natureza, mas,
tanto mais calmamente nos comunicarmos, mais começaremos a perceber que a beleza da
forma é perecível. Ela é meramente um símbolo, algo que aponta para uma beleza que é
eterna A beleza, ela própria, não pertence a forma alguma. Ela está na própria natureza da
verdade eterna. Ela se manifesta em muitas formas diferentes e as formas têm importância
relativa e temporárias, e se tornar apegado às formas é uma tolice, porém perceber além
da forma, a beleza sem forma, a verdade eterna que se expressa através da beleza, isso,
sim, é sabedoria.
É esse eterno que deve empurrar alguém para frente e oferecer a mensagem a nossa
alma Por isso que o comentário diz: "Mas há de ser o eterno que deve desenvolver a tua
força e tua beleza". Quando vemos algo maravilhoso, somos naturalmente atraídos para
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aquilo - isso não é ambição nem desejo de crescimento. Existe uma máxima oculta antiga
que diz: "semelhante atrai semelhante", "o divino que está dentro é atraído para o divino
que está fora". Portanto, é uma percepção clarificada que cria este movimento que é
crescimento, mas não é ambição. É o que se diz aqui no livro: "Porque, no primeiro caso,
florescerás com a louçania da pureza, e no outro te endurecerás com a avassaladora paixão
da importância pessoal." Cada uma dessas regras requer uma grande quantidade de
meditação e de consideração. Todos nós podemos abordá-las em profundidade muito
maior. Mas isto não poderá ser feito agora, de forma que prosseguiremos com as outras
três regras.
As próximas regras são: 9 - "Deseja unicamente o que está em ti." 10 - "Deseja
unicamente o que está fora do teu alcance." 11 - "Deseja unicamente o que é inatingível: 12
- "Porque em ti está a luz do mundo, a única luz que pode ser projetada sobre o caminho.
Se és incapaz de percebê-la dentro de ti, é inútil que a procures noutra parte. Está fora do
teu alcance, porque, quando chegares a ela, já não te encontrarás a ti mesmo. É inatingível,
porque retrocede sempre. Estarás no seio da luz, mas nunca tocarás a chama."
"Deseja unicamente o que está em ti, pois em ti está a luz no caminho, a única luz que
pode ser projetada sobre o caminho." Nestas regras, a palavra "deseja" deve ser
compreendida corretamente, ela significa: veja a importância disso, a beleza e a verdade
disso. Pois como dissemos, podemos ver essa verdade e essa beleza, mesmo que em
pequena proporção, e neste estado será sempre em pequena proporção. Se vemos a beleza
da vida interior, da vida espiritual, aí não ficaremos apartados dela.
As pessoas que estão lutando e acham que não podem percorrer o caminho são
aquelas que não tiveram nem mesmo um vislumbre dele. Portanto, se entendermos que a
luz está apenas dentro de nós, então não estaremos a buscá-la sempre em várias partes.
Isso é novamente um paradoxo, pois a luz está em todas as partes, em todas as coisas, mas
só se pode encontrá-la através da luz interior.
O que é a luz? Não devemos pensar em algo do tipo da luz física. A luz significa algo que
revela para nós as coisas. Suponhamos que esta sala esteja completamente escura, à meia-
noite, com todas essas pessoas aqui e as máquinas também. Mas talvez uma pessoa não
veja que tudo isso está aqui, pois está tudo escuro. Então, quando se acende a luz, veremos
que está tudo aqui. Tudo já existia, mas não existia para nós enquanto estava escuro.
Portanto, a luz é aquilo que revela as coisas para nós, ou seja, é apenas a nossa própria
consciência.
Consciência significa a faculdade de estar consciente, de estar desperto. Nesta acepção,
a consciência está restrita a um nível muito pequeno. Na medida em que esta faculdade de
estar desperto cresce, as pessoas se tornam conscientes de mais coisas. H. P. S. deu uma
ilustração muito bela em A Doutrina Secreta - não vou repetir as palavras exatas, mas o
sentido do que foi dito. "Imaginem que existe um quadro, uma pintura muito bela, uma
obra-prima de arte e a mente de um selvagem está olhando para essa obra; porque essa
mente ainda não está desenvolvida, ela nem vê que existe uma pintura. Ela não vê o
desenho, ou seja, o relacionamento entre todas as cores e linhas, e por parecer-lhe
simplesmente algo sem sentido, tinta atirada ao acaso sobre a tela O selvagem pensa que
talvez seja melhor pegar aquele quadro e colocá-lo no chão para sentar nele. Mas se essa
34
mente se tornar mais desperta, mais sensível, ela começará a ver que existe um padrão ali,
existe um desenho, e que todas as luzes e cores são componentes desse quadro, desse
desenho. Então o ser dirá: "Sim, aqui há uma árvore, uma vaca". Mas isso é tudo que ele vê,
não há mais nada para ele ali. Porém, quando a mente se desenvolver um pouco mais, se
tornar mais cultivada, elaborada, ai ela verá não apenas um desenho, um quadro, mas
também a beleza sugerida por aquele quadro.
No entanto, a beleza pode ser sentida em níveis diferentes. E mesmo a pessoa que vê a
beleza pode vê-la de forma superficial. Mas a consciência se torna depois ainda mais
desperta, se torna consciente da beleza em profundidade. E essas coisas não podem ser
descritas de uma pessoa para outra. Suponhamos que tentemos dizer à mente do selvagem
que existe beleza ali. Isso não significa nada para ele que não a vê. Se dissermos a uma
pessoa pouco desenvolvida que existe sabedoria nas palavras de um homem sábio, ela não
entenderá o que isso quer dizer. Se existe uma pessoa muito materialista e dizemos a ela
que é importante entender a expressão "Mata a ambição", ela dirá: "Não fale bobagem
para mim." Portanto, a menos que a própria consciência da pessoa se desabroche, ela não
poderá ver. Essa é a única luz que nós ternos,
Para uma pessoa que tenha uma consciência adormecida, pouco lúcida, embotada,
ninguém pode expor conceitos sutis. Sendo assim, essa qualidade da mente tem de ser
mudada. É por isso que um dos Mahatmas disse em uma de suas cartas: "A iluminação tem
que vir de dentro". Se não fosse assim, seria muito fácil tornar as pessoas sábias. Se
distribuíssemos um panfleto, todas se tornariam virtuosas, por exemplo. Porém não
acontece assim, pois cada um tem de perceber e entender por si mesmo. E não existe fim
para aquilo que a consciência pode revelar, como toda a profundidade e beleza da vida, em
toda parte. Ou seja, não existe limite de crescimento, pode-se crescer ilimitadamente. Que
beleza, que paz e verdade pode-se receber!
Se olharmos no final desta seção do livro, na página 27, ali se fala das três Verdades da
Teosofia A primeira Verdade diz: "A alma do homem é imortal e o seu futuro é o de algo
cujo crescimento e esplendor não têm limites." É isso que significa se tornar um Buda. Se
vocês lerem um livro maravilhoso chamado A Luz da Ásia, ali existe uma descrição da
iluminação e de como todas as coisas do universo se revelaram à consciência de Buda. E
aqui se diz: "Se és incapaz de perceber a luz dentro de ti, é inútil que a procures noutra
parte."
É motivada pela ignorância essa busca aqui e ali para encontrar um Mestre que traga
essa luz para nós. Temos dito, aqui, que para receber a Verdade de um Mestre é preciso
que antes se esteja preparado. Isso significa que devemos antes despertar a nossa própria
consciência, purificá-la de todos os elementos que a obstruem. É por isso que o caráter da
pessoa é de tão grande importância.
Conhecemos a frase: "O ódio cega". Acredito que todas as pessoas sabem que isso é
verdade. Se nos permitimos ter raiva a toda hora, significa que estamos colocando um
impedimento sobre nossa própria percepção. Aqueles chamados sábios são todos dessa
forma. Onde existe ciúme, orgulho etc., então, para nosso próprio bem, senão para outro
fim qualquer, é preciso nos livrar de todo esse mal. H. P. B. disse que qualquer sentimento
de mau-afeto e malícia serão de grande impedimento. Ou seja, todos os sentimentos que
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estão baseados no ódio são obstrutivos. E todos os sentimentos relativos ao amor são úteis.
No livro A Voz do Silêncio existe a sentença: "Antes que a alma possa ver, deve ser
conseguida a harmonia interior..." Se sofremos, temos inveja, malícia, então não existe
harmonia dentro de nós. Portanto, é muito importante dar atenção às coisas que estão
dentro da nossa consciência ou estado de mente, para limpá-la de todos os elementos que
a obstruem, para torná-la capaz de maior clareza.
Krishnamurti diz: "Aprende a observar, aprende a escutar, aprende a aprender." Se, de
fato, experimentarmos esses níveis, mesmo que por um breve momento, passa existir
clareza dentro da consciência. Ao invés de falarmos muito, vamos supor que, por um
instante, passemos a escutar calmamente, quietamente. Escutar não significa estar
escutando aparentemente e por dentro estar pensando em várias coisas. Quando estamos
realmente escutando, não existe pensamento na mente. Portanto, escutar ou aprender são
formas de tornar nossa consciência mais sensitiva e mais desperta. E na medida em que a
consciência se torna mais pura, mais clara, mais sensível, mais capaz de compreender em
profundidade as sutilezas ela é como uma luz que revela a natureza da vida e não apenas a
aparência das coisas, porém o significado e o propósito de tudo, sua beleza e sua verdade.
A outra frase diz: "Deseja unicamente o que está fora de teu alcance (...). Está fora de
teu alcance, porque, quando chegares a ela, já não te encontrarás a ti mesmo." E como foi
dito, nós começamos a perceber através do que é temporal. Se podemos ver a beleza
imperecível através da forma perecível, naquele momento, então, não estaremos mais lá.
Talvez cada um de nós já tenha tido alguma pequena experiência deste tipo: uma
experiência de uma beleza inesperada É quando a mente se torna completamente calma e
parada e não existe nenhum pensamento sobre o "eu estou aqui e eu estou vendo a
beleza" - naquele momento o eu se retirou. E isso é apenas um pequeno vislumbre do que
pode ocorrer. A pessoa que se torna consciente daquilo que está fora, do que está além,
não é uma pessoa, ela deixa de ser, no sentido de que o "eu" como nós o conhecemos não
existe mais.
"Deseja unicamente o que é inatingível. (...) É inatingível porque retrocede sempre.
Entrarás no seio da luz, mas nunca tocarás a chama." Krishnamurti disse uma vez: "Onde o
eu está o outro não está." Ele usou a palavra outro para aquilo que está além, que é eterno
- o imensurável, como ele disse. E onde o imensurável está não pode haver o eu pessoal
inferior.
Existe um santo cristão que falou a respeito da jornada para Deus e ai, então, a jornada
em Deus, porque as profundezas dessa realidade eterna podem ser tais que a totalidade
dela talvez nunca possa ser conhecida. E também porque não há ninguém para conhecê-la,
é claro. Esses são os mistérios últimos que nós podemos até nos debruçar sobre eles, mas,
no momento, não poderemos compreender.
Há no livro três regras que começam com a palavra "desejo". "Deseja ardentemente o
poder. Deseja ardentemente a paz. Deseja as possessões acima de tudo." E o comentário
que se segue deixa claro que as palavras possessões e poder não têm o significado usual e
ordinário do termo. Pode-se então perguntar por que usar a palavra possessão? Em
primeiro lugar, essa é uma tradução de um termo muito antigo. É dito que foi traduzido
primeiro para o grego e depois para o inglês. Seja como for, nós podemos examinar esta
36
palavra: possessão.
As coisas que possuímos são todas materiais, coisas que foram colocadas juntas. Se
pegamos um objeto qualquer, ele é feito de vários elementos e tudo aquilo que foi
construído, um dia será destruído. As montanhas podem parecer estar lá por muitos
séculos, mas elas não são permanentes, pois elas são compostas, são construídas. Os
filósofos falam a respeito do termo composto, que tudo aquilo que é composto pode ser
decomposto. No entanto, nós pensamos que possuímos alguma coisa, que podemos
mantê-la conosco - o nosso próprio corpo, o de outra pessoa, dinheiro, enfim coisas
materiais; mas nenhuma dessas coisas podem ser mantidas e, portanto, não são possessões
reais. Mesmo que se mantenha o dinheiro no banco para o resto da vida, quando o corpo
desintegrar as possessões se vão e as únicas coisas que podem permanecer são aquelas
que pertencem à esfera do eterno. E, portanto, estas são as únicas possessões que podem
haver. E não são possessões no sentido ordinário do termo, pois elas não podem ser
mantidas por nenhum indivíduo.
Existe essa beleza da vida sobre a qual falamos, e ela é a possessão de todas as almas
puras que existem, pois todos aqueles que são internamente puros podem experimentar a
beleza, igualmente qualquer outra pessoa. E, no entanto, ninguém pode possuí-Ia para si
mesmo. Por isso se diz: "Anula as possessões próprias da alma pura, a fim de que possas
acumular riquezas para aquele espírito comum de vida, que é o teu único ser verdadeiro."
Da mesma forma, a palavra poder está empregada aqui de uma forma incomum. "É esse
o poder que deve aspirar o discípulo, o poder que o fará aparecer como nada aos olhos dos
homens." Para os olhos do mundo, o homem poderoso é um homem importante e todas as
pessoas olham para ele. Porém esse poder também é de uma natureza irreal e aflitiva, é
uma realidade passageira. O verdadeiro poder existe apenas quando toda a irrealidade está
terminada, está extinta Esse "eu" de que falamos, esse "eu" que se sente separado, é a
fonte de todas as ilusões, a grande erva daninha, como foi chamado. É apenas quando isso
cessa de existir, quando a consciência está pura, só então ela pode descobrir a natureza do
poder. E esse poder não tem nada a ver com a dominação, não tem nada a ver com o fazer
a sua vontade ser sentida em outra parte, pois a consciência pura é una com a consciência
universal e ela descobre que existe apenas uma vontade, que é a vontade divina. E esta
vontade funciona de acordo com o seu extraordinário poder e inteligência. O poder que
está associado à vontade pessoal é pequeno e infrutífero. E dai o único poder que deve ser
buscado é aquele que se torna um com toda a vida e trabalha de acordo com a vontade da
vida.
Esta regra "Deseja ardentemente a paz" acredito que seja bem mais fácil de ser
entendida. Existe uma paz que nada pode perturbar e esta paz vem quando não se busca
nada do que está fora. É a paz que vem da consciência que é buscada da forma como
falamos, pois então se descobre a verdadeira e completa natureza da vida e a verdade
sobre a vida. No coração da vida existe a paz. A paz que não pode ser descrita, mas apenas
pode ser conhecida em profundidade dentro de nossa própria consciência.
E agora vamos para às perguntas.

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Pergunta: Eu não entendi bem as regras 10 e 11. "Deseja unicamente o que está fora de
teu alcance" e Deseja unicamente o que é inatingível."
Resposta: A regra anterior diz: "Deseja unicamente o que está em ti." A menos que a
sua própria consciência esteja na condição de ver, ela não poderá ver. Pode haver um belo
pôr-do-sol, porém ele não existe para uma pessoa que não tenha uma visão correta No
entanto, se essa consciência que está interna floresce... Quando dizemos floresce,
queremos dizer que sua capacidade se alarga. O que é a capacidade da consciência? Estar
consciente? E nós estamos conscientes de que? Já somos conscientes de algumas coisas e
em algum nível. Eu estou consciente de vocês e vocês de mim. Ou melhor dizendo, eu estou
consciente de como vocês se parecem e vocês estão conscientes de como eu pareço.
Estamos também conscientes de outras coisas que estão aqui. Mas será que essa forma de
aparecer é tudo? Ou será que existe muito mais sobre a vida? Na vida de vocês, na minha,
na vida de todo mundo, na vida como um todo? Eu não estou falando meramente do plano
astral ou algo como isso. E sim de algo além, no sentido de um propósito bem grande ou
significados ocultos - a verdade.
Além das formas tudo pode ser parte de um mistério. O que esta regra está dizendo é
que existe. Não devemos assumir como certo que aquilo que conhecemos é o que de fato
existe. Se encontramos muitas coisas sem sentido e caóticas na vida e pensamos que é tudo
o que há, talvez até mesmo esse caos sem sentido seja parte de um sentido maior, mais
amplo. A dor e o sofrimento desta vida podem ser parte de algo maior que não é
sofrimento e dor. Mais tarde, na segunda parte do livro, existe uma afirmação que diz:
"Escuta o canto da vida. (...) Em todo coração humano existe uma natural melodia, uma
obscura fonte. Pode estar coberta oculta e silenciosa por completo; porém ali está." E toda
a vida não é apenas um choro de dor. É um canto. Escutar esse som não é apenas prazer. É
algo muito mais maravilhoso, indescritivelmente maravilhoso. Apenas fragmentos desta
grande canção vem aos nossos ouvidos enquanto somos apenas homens. Mas com o
tempo podemos começar a escutar mais desta canção. "E esta linguagem não é um grito,
como poderias supor tu que és surdo, mas um canto."
Quando dizemos que está além, tudo isso está incluído na expressão, todo o mistério e
o significado da vida E devemos aspirar compreender essas coisas, aprender a entender o
que quer se dizer "Deseja unicamente o que está fora de teu alcance." Krishnamurti diz que
nós nos tornamos apegados, limitados pelo que é conhecido, pelo que conhecemos e por
aquilo que pensamos possível ser conhecido. Isto parece para nós ser a única realidade.
Aquilo que pensamos que pode ser conhecido é baseado apenas no que já conhecemos,
mas o desconhecido pode estar além de tudo, na profundidade da experiência que nós,
talvez, não tenhamos tocado de forma alguma E esta profundidade não tem limite, embora
a palavra profundidade não pareça ser tão boa, pois sugere apenas uma dimensão. O
desconhecido não é algo que se possa medir e, por isso, é inatingível.
(Comentário do tradutor: A tradução seria melhor assim "Deseja apenas o que está
além de você" e não "fora de teu alcance".)

Pergunta: Eu gostaria de emitir um comentário sobre a regra número 6: "Mata o desejo

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de sensação". Krishnamurti diz que quando uma pessoa busca o prazer ela já sofre, ela já
tem ansiedade. E por outro lado, se a pessoa consegue abraçar a dor, como ele diz na
Canção da vida, surge uma certa alegria.
Resposta: Acho que nós já abordamos um pouco essa questão. Todas as pessoas estão
buscando ser felizes. Mesmo quando estamos buscando aquilo que pensamos que seja a
vida espiritual, existe provavelmente na nossa mente consciente ou inconsciente aquilo que
pode trazer uma felicidade mais estável, mais permanente. Pois a vida aqui é difícil, de uma
forma ou de outra, portanto existe essa busca de felicidade. E quando o "eu" está buscando
a felicidade, como se falou, é como se estivéssemos indo sempre numa trilha única e não
víssemos as outras coisas. Estamos preocupados em descobrir essa coisa para nós mesmos.
E existe o sofrimento que está em toda parte e esse sofrimento vem logo atrás da pessoa
que está buscando felicidade, e pode, inclusive, alcançá-la, ou então vir logo depois da
curva.
Talvez o que Krishnamurti queira dizer seja: "ao invés de estar buscando felicidade,
permaneça bem onde você está. Se o sofrimento vier, encontre-o e descubra o que ele tem
para lhe ensinar". Pois se o que vem até nós - seja felicidade ou tristeza - nos encontrar sem
resistência, de uma forma receptiva, sem buscar nada, talvez, então, descubramos toda
uma mensagem de riqueza.

Pergunta: Se uma pessoa tem consciência de que abraçando a dor ela encontra alegria,
isso não pode tornar-se masoquismo? E quanto à linguagem, ela está muito alta, não tão
acessível.
Resposta: Talvez a linguagem usada seja um tanto elevada e não se pode fazer muito a
respeito, pois estamos estudando um livro que tem ensinamentos muito profundos e se
está profundo demais, sempre podemos começar, com um outro livro talvez mais simples,
alguma coisa mais acessível, como o livro Aos Pés do Mestre, que é mais simples de ser
entendido, mas não mais simples de ser praticado. Talvez, se nós começarmos tentando
entender coisas mais simples, mas praticá-las, de fato, talvez, então, essa prática nos
permita compreender coisas mais difíceis. Eu acredito que isso é uma verdade absoluta.
Não é preciso que nos sintamos desconfortáveis se não podemos entender algo que está
elevado demais; o importante é começar de onde se está e seguir adiante, pois pode-se
começar de um nível muito elevado e, depois, se estagnar lá e isso não traz bem nenhum.
Isto não quer dizer que devamos estar sempre rodando em torno do que é confortável para
nós, sem tentar seguir adiante; como os americanos dizem: "Forcem, exercitem a sua
mente."
Quanto à questão de se tornar masoquista no abraçar a dor, acredito que palavras
deste tipo não devem ser tomadas literalmente, mas no espírito em que foram usada. Se
nós literalmente abraçarmos a dor, isso é masoquismo, mas olhemos de outra forma: Nós
dizemos que não devemos gostar da dor, não devemos ser masoquistas, e seguimos
adiante até encontrar algo que seja prazeroso, porém tudo que encontramos de prazeroso
tem um outro lado, o qual é um lado de dor. Podemos, por exemplo, achar que é um prazer
nos ligar a alguma pessoa, e depois de algum tempo essa pessoa não nos querer mais - o

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que parece ser algo comum neste país! Veja, portanto como o sofrimento se torna dor.
É como se deitar numa cama e dizer: "Como é gostoso estar deitado". E se a pessoa
permanecer por muito tempo deitada, aquilo se torna doloroso. Como visto, a busca do
prazer é um convite à dor. E portanto a busca da dor, talvez, não seja menos masoquismo
do que a outra coisa que foi mencionada. A busca do prazer talvez seja também uma forma
de masoquismo. Talvez seja uma coisa mais sábia não sair atrás do prazer. Não estamos
aconselhando que devemos querer a dor, no entanto, o que for que venha de dor ou de
prazer que nós tentemos aceitar e compreender. O importante é a compreensão.
Se existe dor, então qual é a fonte da dor? Ela está na situação ou está dentro de nós?
Se permanecermos com a dor, então poderemos entendê-la e talvez nos tornar totalmente
livre dela. Mas estamos tentando escapar da dor talvez nunca venhamos a entendê-la.
Escapar significa ir para algum outro lugar, tentar disfarçar a situação e fingir que não é o
que é; encontrar outras pessoas para dizer que agora está bem e dai por diante. Se fazemos
isso, não permitimos então à dor que nos diga a que veio. Krisnhamurti, com frequência,
diz: "Deixem que as coisas floresçam e se mostrem para vocês e aí elas se afastarão." Com
frequência é difícil se entender as palavras de Krishnamurti. Se permitirmos que o ciúme
floresça, significa que vamos nos tornar cada vez mais ciumentos? Não foi isto que ele quis
dizer, e sim: "Olhe para o ciúme, não tente acobertá-lo." Se surge o ciúme, dizemos: "As
pessoas não gostam de ciúme, então deixe-me fingir que não sou ciumento." Não
tenhamos o ciúme como um segredo para nós mesmos, encaremo-no firmemente e
vejamos todas suas implicações! É isso que se quer dizer com: "permita que o ciúme
floresça."
Um botão está fechado e quando ele floresce toda a flor se abre e se pode ver sua
natureza completa. Então, quando vemos a natureza completa do ciúme ou seja lá do que
for - suas origens, as suas implicações, o dano que ele produz - quando se vê tudo isso,
então ele chega a um fim. Mas se nos recusarmos a olhar a totalidade do que está
acontecendo e pretendermos fingir que somos virtuosos, ele surge de novo. Muitos de nós,
acredito, gostamos de pensar que somos virtuosos, não gostamos de olhar para os nossos
pecados e defeitos. Entretanto, é extremamente útil olhar de forma completa para esses
defeitos. Isso não é nenhuma espécie de masoquismo, mas sim uma forma de aprendizado.
E "abraçar a dor" é uma frase que quer dizer algo desse gênero.
Se um filho de vocês morre, então vocês têm dor; não tente escapar da dor, mas tente
entender qual é o sentido da dor, a causa da dor, o que está na sua própria mente que faz
com que você sofra. Este aprendizado é muito importante.

Pergunta: Esta frase: "Está fora do teu alcance, porque, quando chegares a ela já não te
encontrarás a ti mesmo" ela se relaciona com a ideia de que quando alcançar a luz já não
haverá o "eu"?
Resposta: Não se pode colocar de uma forma sequencial: "quando você alcançar, então
seu ego deixa de existir". Ou será que é da outra forma?: Quando seu ego deixa de existir,
então, aí, você percebe a luz? Acho que não se pode analisar e colocar dessa forma. Existe
um processo completo que é aquilo que se quer dizer com a jornada Nesse processo, aos
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poucos, o sentido de ego é aparado, é podado. E dentro de poucos anos, se alguém é muito
observador, honesto consigo mesmo e não simplesmente tenta encontrar escapatórias, é
possível podar bastante (esse podar no sentido positivo, de se fazer, se consertar). Quando
o ego está subjugado e não agressivo, então se começa a ver um pouco mais, um pouco
mais de verdade, e se estar um pouco menos apegado a irrealidades. E na medida que o
poder de percepção da pessoa cresce, ele permite que a pessoa veja os movimentos do ego
de uma forma melhor. E, por isso, quando chega ao ponto em que se pode ver aquilo que
está além, neste ponto o ego está bastante subjugado e, de tempos em tempos, ele pode
ainda surgir.
Como já foi dito, mesmo muito antes desse estágio, com um vislumbre, alguma
experiência, pode acontecer do ego dar uma desaparecida. Pode-se viajar, por exemplo, e ir
ver os Himalaias. É uma visão maravilhosa e, por um momento, esquecemos de nós
mesmos, naquela beleza, naquela grandeza. Por ser uma pequena experiência do "eu" não
estar lá. Porém, só na medida em que trabalharmos em nossa vida e o "eu" se tornar cada
vez menos insistente, a ponto de ter perdido toda a sua agressividade.
Esses são os momentos em que começamos a ter um vislumbre maior sobre a natureza
interna das coisas. E por que sentimos que existe algo dentro ou algo além, passamos a
aspirar naquela direção. Por isso que a regra diz: "Deseja unicamente o que está fora de teu
alcance." Se o "eu" está completamente perdido, o que está além ainda está lá. E então a
questão relativa ao desejar não existe mais. Mas é nesse estágio, quando se compreende
que há algo além - intuitivamente se está, pelo menos, um pouquinho consciente de que
ele está lá - é nessa altura que você começa a aspirar em direção ao que está além.

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Quinta Conferência da Sra. Radha Burnier

A regra 17 diz: "Procura o caminho" e é seguida imediatamente por uma nota: "O
discípulo dirá - Estudaria eu estes pensamentos, se não procurasse o caminho? - E não te
apresses a passar adiante, Detém-te. e medita um pouco. É realmente o caminho que
desejas, ou é que a tua fantasia te oferece uma vaga perspectiva de elevadas alturas para
escalar, ou um grande futuro para abarcar? Tem presente a advertência. O caminho há de
ser buscado por ser o caminho, e sem ter em conta os teus pés que o devem percorrer".
A advertência é nunca assumir que a nossa atitude - ou desejos - está certa, ou seja,
tomá-la por correta e pronto. A maior parte de nós reluta em ver o que está dentro de nós
mesmos. Por exemplo: se temos uma diferença com outra pessoa podemos dizer que não
temos nenhum tipo de falta de fraternidade para com a outra pessoa e sim que ela é uma
pessoa difícil e por isso existe o atrito.
Nunca devemos chegar a conclusões rápidas como essa, mas estar sempre preparado
para se reexaminar calmamente, com cuidado. E mesmo assim, ainda poderemos não
perceber direito o que está na nossa própria mente, pois aquilo que não queremos ver a
fundo no nosso inconsciente (no subconsciente) parece que, pelo menos no momento, não
existe. É necessário, portanto, prestar atenção permanente, pois o que não existe, por
algum período de tempo, pode surgir quando se está prestando atenção. E a pergunta que
fazemos aqui é: será que estamos buscando realmente o caminho? Ou existem motivos de
interesse pessoal? Ou estamos buscando alguma experiência de tipo refinado? Ou
tentando escapar das dificuldades e dos nossos problemas? Ou nos imaginamos num nível
mais elevado? Esse tipo de motivação pode permanecer oculto no subconsciente, nos
levando a nos enganar e pensar que o que buscamos é de fato o caminho espiritual. Então,
devemos olhar e nos perguntar constantemente: o que é que estamos realmente
buscando?
Aqueles de vocês que leram o livro sobre Krishnamurti talvez se lembrarão. Ele diz em
algum lugar que está vigiando, assim como um gato vigia um rato. O rato sabe que o gato
está olhando. E aí ele tenta se mover sem ser notado. Mas o gato observa com tanto
cuidado, que vê o menor movimento. De forma similar, o auto-interesse não quer ser
notado e pode tentar trabalhar sem que seja percebido. E devemos ser muito vigilantes
para que possamos notá-lo.
A meditação também pode ser uma forma de auto-interesse. Se existe um motivo do
"eu" para meditação, ela nunca pode ser bem sucedida. E com frequência, a meditação é
feita com o objetivo de se alcançar algo. O que pode provar, em última análise, ser contra-
producente.
A busca do caminho é também bem similar. Se permitirmos que a automotivação
exista, por algum tempo, talvez até por um período longo pode parecer que estamos
fazendo progresso. Mas, em algum momento, sem que nós percebamos, ela nos alcançará
e trará uma queda. Por isso esse aviso é dado. Não passe sobre esta questão rapidamente.
Não conclua assim: "eu estou seguindo o caminho porque não estou buscando nada para
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mim mesmo." E não só agora, mas repetidamente nós temos que olhar com atenção e
fazer-nos essa pergunta. O caminho deve ser buscado porque ele é correto.
Nós vemos, como foi dito, que a vida humana é cheia de tumulto, não apenas a vida de
uma pessoa, mas a vida humana em geral. Como diz o livro A Voz do Silêncio, em cada flor
existe uma serpente enrolada na haste. E para cada satisfação, para cada prazer, existe algo
mais ali. E percebendo tudo isso, logo o caminho é buscado, pois a própria humanidade,
como um todo, precisa de um caminho diferente. A pessoa que percebe de que deve haver
um fim para a ansiedade da alma humana: para os seus medos, esperanças,
desapontamentos e dificuldades vindas de várias direções, Aqueles que refletiram ou
meditaram podem também ter um vislumbre de que existe uma possibilidade diferente para
o ser humano.
Nós lemos a respeito da vida de homens santos, seres humanos nos quais parece não
haver tumulto e sim um profundo sentimento de paz, pessoas nas quais não existem
barreiras, mas, sim, o amor abundante, inexorável, não escolhendo qual o objeto do amor.
Existem seres humanos que são amplamente puros por dentro, em quem não existe sinal
de egoísmo. Talvez nós tenhamos lido a respeito da vida dessas pessoas santas. E com um
pouco de sorte, talvez até já tenhamos encontrado algum deles ou alguém que está a
caminho de atingir isso. Portanto, direta ou indiretamente, se nós tivermos um vislumbre
de um outro tipo de viver, um outro tipo de ser, tal beleza nos diz, então, qual é o caminho
e nos atrai a trilhar esse caminho. E também neste caso a questão não é do "eu" estar
trilhando o caminho, do "eu" estar alcançando alguma coisa ou algum lugar. O caminho é
percorrido por que se percebe, pelo menos em algum nível, o que a vida humana não
precisa ser e o que ela pode ser: a tragédia do ser humano médio e a glória do homem
aperfeiçoado. Em ambos os casos existe a inspiração da energia usada para trilhar o
caminho, o que não tem nada a ver com o fato de querer algo para nós mesmos.
Diz-se que existem muitas batalhas a serem travadas antes que a pessoa possa chegar
ao fim desse caminho. O caminho, a senda, somos nós mesmos e a transformação que deve
tomar lugar dentro de nós. Não é algo de fora. A dificuldade relacionada com o uso das
palavras, como caminho, estar percorrendo o caminho, é que sempre parece algo que está
fora de nós. Mas, o caminho na verdade significa a mudança das qualidades da mente, da
consciência, como o ser da pessoa.
Como dissemos ontem, existe o sentimento da existência como um ser em separado,
um ser individual, o qual é a fonte de toda a imoralidade. Não existe nenhuma imoralidade
que não seja produto do sentido do "eu", do ego. A pessoa que está tentando percorrer a
senda, não está preocupada com as meras convenções sociais, pois as convenções sociais
podem dizer que algo é moral, quando é, na verdade, imoral ou então fazer o oposto,
declarar como imoral algo que não tem nada de imoral. Por outro lado, aquele que é sério a
respeito do trilhar essa senda, não pode negligenciar a busca do que é realmente uma ética
e uma moralidade verdadeira.
H. P. B. diz que a ética é a alma da Teosofia. Em todas as tradições religiosas existe um
ensinamento básico relacionado com a ética. O mandamento cristão diz: "Não matarás". É
claro que ninguém se importa com isso. E mesmo que se importe, talvez pense que a regra
signifique: não mate o ser humano. A não ser que o Estado mande você ir lutar na guerra,
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ou então que a igreja diga a você para fazer uma guerra santa. Mas o mandamento não
aborda nenhuma destas qualificações. Ele diz a mesma coisa que diz a Ioga, sobre arimsa, a
qual vai um pouco mais adiante, não dizendo apenas "não matarás" mas, também, não
provocarás dor. E existem outros conselhos similares.
Em todas as verdadeiras tradições religiosas e espirituais, essas regras não são sugeridas
para serem obedecidas cegamente, no entanto, com relação a algumas coisas
fundamentais, é melhor obedecer cegamente do que fazer o contrário. Para o nosso
próprio bem, senão para o bem de todos.
Vamos compreender essa questão a respeito do matar ou de provocar dor. Talvez
digamos que "não. queremos que a religião ou qualquer pessoa nos diga o que fazer e o
que não fazer, eu faço o que eu quero." Mas se fazemos assim nos tornamos insensíveis à
dor e à vida de outros seres humanos e a de outros seres vivos, sejam humanos ou sejam
não-humanos, animal ou planta, inseto ou peixe. Esse tipo de insensibilidade é muito
danoso para se percorrer o caminho, visto que esse caminho é exatamente um crescimento
da sensibilidade. Nós nos tornamos cada vez mais unificados com uma e todas as formas de
vida. Portanto, se em nome da liberdade nós nos tornamos calejados, insensíveis,
poderemos assim provocar um dano enorme a nós mesmos. Sendo assim, é melhor, neste
caso, obedecer mesmo que seja a uma regra tradicional, como "Não matarás". Porém seria
ainda melhor se percebêssemos o porque disto.
E como decorrência dessa compreensão, da inteligência, da consciência do fato, aí
então não fazermos. Na verdade, quando existe a compreensão, não se realiza o ato;
quando entendemos, então, que toda a vida é una, que outra forma de vida é tão preciosa
quanto a nossa e o crescimento de outra é tão importante quanto o nosso crescimento,
então tratamos essa outra forma com respeito e reverência. Quando fazemos isso,
tornamos, então, a qualidade de nossa própria consciência mais sensível, pois agindo assim,
reduzimos o sentido de separatividade, o do "eu", que é a fonte de todos os problemas
ocorridos no caminho. Não se pode, no entanto, ignorar a questão da moralidade, o que
significa o verdadeiro viver ético, pois toda a virtude está baseada na unidade, no sentido
de não-separatividade e toda a imoralidade resulta do sentido de "eu", do sentido de
separatividade.
Tudo isso deve ser observado pelo candidato ao caminho. Em cada passo, é necessário,
como diz o livro, parar e considerar bem "o que "eu" estou fazendo, qual a validade das
minhas ações" e ação aqui significa também pensamentos, reações emocionais, palavras,
além de ações físicas. "Ou é o mesmo impulso animal que trabalha dentro de mim, incapaz
de uma reflexão ou de inteligência? Ou será a minha consciência que permite a si mesma se
expandir porque eu estou observando com inteligência.?"
É portanto essa transformação interna que se pode chamar de transformação do
sentido do "eu" para a virtude - que é o caminho. Não devemos imaginá-lo como sendo
algo fora de nós mesmos, algo que possa ser feito em nosso nome por outra pessoa. Num
famoso trabalho de uma ordem de sancaracharya, chamado Viveka Shudamanya - A Joia
Suprema da Sabedoria, ele diz que algumas coisas podem ser feitas em seu nome por outra
pessoa. Se nós assumimos alguma dívida, alguém pode pagar a nossa dívida, mas se nós
estamos doentes, uma outra pessoa não pode tomar remédio em nosso lugar.
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De forma similar, ninguém pode percorrer o caminho por nós, ninguém pode nos levar
desse lugar para aquele outro. Cada pessoa tem que caminhar por si mesma, pois o
caminho é essa mudança da própria consciência. Como foi dito, é a mudança do estado de
egoísmo e separatividade, para o estado de virtude, que é a unidade e harmonia. Cada
homem é para si mesmo o caminho absoluto, a verdade e a vida. (Isto está na regra 20.)
Porque ele é o caminho, a verdade está lá dentro de sua própria consciência; a vida é dele
mesmo, e não a vida de outra pessoa.
Como vimos, está tudo dentro de nós, como consequência da mudança do egoísmo à
pureza total. E se começarmos o caminho visando conseguir algo para nós mesmos, existirá
aí uma contradição óbvia. Logo, o caminho deve ser buscado por si mesmo, o que requer
uma grande dose de reflexão, de auto-exame, de honestidade e inteligência.
As duas regras seguintes dizem: "Busca o caminho, retirando-te para o interior". "Busca
o caminho, avançando resolutamente para o exterior." Na medida em que a pessoa
continua a experimentar e a praticar - e por experimentar não quero dizer "fazer o que se
quer", mas sim testar os ensinamentos, trabalhando-os em sua própria vida - então ela
descobrirá que o dentro e fora são a mesma coisa. Mas, no começo, parece que existe o
interior e o exterior; que a pessoa que está vendo é algo diferente daquilo que está sendo
visto, porém, mais tarde essa diferença some.
A regra 20 diz: "Busca-o, mas não em uma direção única. Para cada temperamento
existe uma via que parece a mais desejável." Infelizmente, isso se torna causa de atrito
entre as pessoas, mesmo entre aqueles que são razoavelmente sinceros quanto ao trilhar
esse caminho, porque pensam que o melhor caminho para si deve também ser o melhor
para os outros. No entanto, não é isso que acontece, porque cada pessoa está em seu
próprio lugar e em sua própria situação dentro da evolução. Diz-se que apenas um Buda
pode saber o que é correto para cada pessoa, em seu próprio estágio, e qual ensinamento
pode levar aquela pessoa um pouco mais adiante, a partir do ponto onde está. Mas nós não
somos Budas e não devemos imaginar que sabemos o que serve para os outros.
O caminho tem muitos aspectos que são mencionados aqui: devoção, contemplação
religiosa, ardor de progresso - que é bastante difícil de ser entendido - laborioso sacrifício
de si mesmo e estudiosa observação da vida. "Nenhuma destas coisas por si só faz adiantar
ao discípulo mais que um passo. Todos os degraus são necessários para subir a escada: A
pessoa deve florescer em todos os seus aspectos, simultaneamente. Todos esses aspectos
mencionados são como se fossem pétalas de uma flor. E quando a flor se abre, existe
perfeição total.
Em um homem perfeito não existe, digamos, apenas perfeição de sabedoria, pois não
existe sabedoria onde não existe compaixão e amor. A pessoa que é perfeita em sabedoria
deve ser perfeita em amor também e não pode haver amor sem pureza, ou seja, uma
completa ausência de auto-interesse. De fato, a questão do auto-interesse não surge
porque não existe o "eu" da forma como nós o conhecemos. A sabedoria perfeita significa o
amor perfeito, a pureza perfeita. E quando não existe o "eu" então existe a paz completa -
todas essas coisas são únicas, o que é a perfeição. E quando a alma desabrocha, floresce,
ela mostra todas estas características de perfeição.
Seria um erro imaginar que alguém pode desenvolver-se apenas em uma direção.
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Pegue como exemplo a devoção que é mencionada aqui. Nós podemos ter um certo
conceito a respeito de devoção que faz ela parecer algo diferente da contemplação
religiosa, diferente da observação estudiosa. Mas a devoção que não traz junto essas outras
coisas, não é a verdadeira devoção. A verdadeira devoção significa a total auto-entrega,
rendição total do "eu". Não é uma questão da pessoa permanecer em frente a algo do qual
ela quer receber graças. Não é uma satisfação emocional. Mas um desistir completo de si,
abrir mão de tudo que se quer, da auto-existência. Desistir disto para o universal.
E como é que esta devoção pode acontecer se não existir contemplação, observação? A
menos que se esteja observando, tentando ver se o "eu" permanece na busca de
sobrevivência, então não se pode abrir mão de tudo isso completamente. No Baghavad
Gita se diz que existem tipos diferentes de devotos: aqueles que querem sabedoria,
aqueles que querem ser salvos do sofrimento e aqueles que querem outra coisa, como
bênçãos. Mas o verdadeiro devoto é aquele que não pede coisa alguma, aquele que tem
uma confiança total na vida, para usar as palavras de Clara Cood, e na sabedoria e na
bondade desse poder que é a vida. Esse tipo de devoção não é fácil e requer muito
trabalho. Daí a expressão "o laborioso sacrifício de si mesmo" está relacionado na devoção.
Como o livro diz: Todos os degraus são necessários para subir a escada. Os vicios dos
homens se convertem em degraus da escada, um a um à proporção que vão sendo
dominados" Pois todos os vícios ou defeitos que temos são desafios. Não é algo que deve
ser protegido e mantido, mas algo que está nos desafiando a ser dominado.
Se temos a força para dominar o vício, então existe progresso. Porque, nesse caso, o
espírito dentro de nós, o Atma, começa a funcionar. A palavra Átma é uma palavra que
abrange muito, ela significa a inteligência espiritual mais elevada, a natureza mais refinada
da consciência aquilo que é uno com toda a existência. Portanto, é a transcendência dos
vícios dentro de nós mesmos. É uma conquista do espírito, pois o vício é uma expressão da
natureza material e vencer um vício significa que a natureza mais elevada está em
funcionamento. Daí se diz que a natureza completa do homem deve ser usada com
sabedoria. A individualidade completa deve ser abarcada com firmeza.
Ambas, individualidade ou personalidade, foram criadas através das eras. Já discutimos
que isso tem um certo propósito, o qual está mencionado aqui. Pois é através do
desenvolvimento dessa individualidade que existe o crescimento gradual da inteligência - a
inteligência para alcançar a Vida que está além da individualidade.
A mente se desenvolve através do crescimento da individualidade ou da personalidade.
A mente aprende a distinguir entre as coisas, a ser aguda, exata, clara, mas ela só é capaz
de trabalhar em um certo campo, em uma certa esfera e não está ainda inspirada pela
inteligência superior. Mas, como dissemos, com a ajuda do processo cármico, a mente
começa a não apenas distinguir entre as características das coisas materiais, mas também
tem a inteligência para discernir entre o que é material e mecânico, e o que é espiritual e
criativo. Então, nós compreendemos que é com esse objetivo que toda a vida sobre esta
Terra existe, encarnação após encarnação. Ou seja, é para que essa inteligência superior
desenvolva a si mesma e para que ela domine as inclinações da mente e do corpo.
A advertência aqui diz: "Busca-o submergindo-te nas misteriosas e esplêndidas
profundidades do mais íntimo do teu ser." Pois esse tipo de inteligência espiritual não vem
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sob a forma de informação que está nos livros, mas é uma questão de saber o que tem
valor. No pensamento hindu se diz que a realidade última que se chama Brahma é o valor
mais elevado, um valor absoluto. Mas nós tomamos várias outras coisas como sendo
também de valor. E o discernimento espiritual faz justamente com que nós rejeitemos as
coisas que têm menos valor, e caminhemos na direção daquilo que tem duração mais
prolongada. Esse poder de discernimento está dentro de nós e não está no nível da mente,
pois a mente não é capaz de entender o valor verdadeiro. Ela é dirigida pelo ambiente,
condicionada pelo que a circunda, caindo em ilusão no que tange ao real valor. Portanto, é
preciso ir mais profundo do que a mente a fim de encontrar a fonte do discernimento
verdadeiro.
Para usar a terminologia teosófica, é a natureza de Buddhi que é capaz de tal
discernimento. Buddhi, algumas vezes, é traduzido como intuição, mas a palavra intuição
pode ser muito mal interpretada. Pois se existe algum tipo de desejo inconsciente nós
podemos imaginar que é uma forma de intuição. Mas a percepção verdadeira não é
nenhum tipo desses desejos ocultos - é uma clareza a respeito daquilo que é realmente
duradouro e valioso. E para se atingi-Ia é preciso que se vá bem fundo dentro de nós
mesmos. O Bhagavad Gita diz algo que é bem parecido com o que Krishnamurti disse,
embora numa linguagem diferente: "quando existem muitas escolhas que a mente pode
perceber então existe confusão na mente e a mente está sempre vendo muitas escolhas."
O Gita diz que a mente tem muitas ramificações, mas Buddhi não tem nenhuma escolha.
Ele vê que apenas o eterno tem valor, apenas a verdade deve ser seguida. E, por isso,
Buddhi não tem escolha e nenhuma necessidade de escolha apenas tão-somente clareza de
percepção.
Na medida em que prosseguimos nesse caminho, temos que testar as nossas
experiências, nossas reações e pensamentos. Testá-las sob a luz da inteligência espiritual -
que pode discernir o que é valor verdadeiro. Se tentarmos com seriedade, ficaremos
conscientes dos problemas e das dificuldades, da decepção, das trevas, e aí sentiremos
simpatia em relação a outros que também estão lutando. E a própria luta tem a sua beleza,
pois tudo isso é parte do curso natural das coisas: o desenvolvimento da personalidade, a
sua luta e a transcendência dessa personalidade. É esta a vida humana, com suas tristezas e,
finalmente, suas recompensas. E vemos a beleza de tudo isso mesmo quando outros estão
lutando.
Um outro conselho é dado: "Busca-o estudando as leis do ser, as leis da natureza, as leis
do sobrenatural: e busca-o prosternando a tua alma ante a pequena estrela que arde no
interior. Enquanto vigias e adoras com perseverança, a sua luz irá sendo cada vez mais
brilhante." Na tradição do Oriente, fala-se a respeito de um pedinte pobre: ele acha que
não tem coisa alguma e deve caminhar vagando e conseguir alguma coisa. Ele vai pedindo
as coisas para as pessoas, vai roubar coisas. E, no geral, ele é miserável. Mas se o pedinte
compreender que não é um pedinte, então ele se torna um rei. Por alguma razão, ele
colocou a roupa de pedinte, mas ele compreende que tem tudo. Não é preciso pedir nem
tirar coisa alguma. É esta a condição de todos os seres humanos.
Identificamos a nós mesmos com essa pequena e medíocre personalidade, a mente
externa e miserável, que sente que precisa pegar isso, conseguir aquilo. Mas se podemos
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prestar atenção e olhar com profundidade dentro de nós, vamos descobrir aquela natureza
real, aquela que não precisa de nada porque já tem tudo. Então, através de olhar, de
considerar, podemos ter um vislumbre de tudo. E o livro diz: "Vigias e adoras". E não é um
tipo de autoglorificação, mas a consciência de que dentro de nós existe a presença divina.
De fato, se descobrirmos essa presença divina dentro, descobriremos que está em toda
parte. As pessoas têm falado a respeito da consciência de Deus e isso é a descoberta da
essência de todas as coisas. E isso deve começar através de compreender a essência dentro
de nós mesmos. Quando então saberemos que encontramos o começo do caminho. Mas,
se tivermos dúvida sobre a nossa própria natureza, duvidarmos que existe uma grande
riqueza espiritual dentro de nós, aí teremos muitos problemas.

Pergunta: Quando se descobre a lei simples que comanda todas as outras leis, é o
próprio princípio que quer ser dito aqui: "é inatingível porque retrocede sempre."? Esse
retroceder é por que encontramos a lei simples, que é a origem, que comanda todas as
outras leis?
Resposta: Não entendo exatamente a pergunta. Eu não vejo como uma lei pode estar
retrocedendo. O que é inatingível é o ser absoluto. E porque nesse ser absoluto existe
profundeza sem fim, então não podemos nunca tocar o fundo; quanto mais caminhamos,
mais adiante está o final. Quando o ser absoluto se manifesta, existem leis funcionando
nessa manifestação. As leis são uma expressão dessa realidade. Mas eu não vejo como as
leis possam retroceder. É verdade que existe uma lei das leis, que poderíamos chamar de
Lei simples. O Mahatma diz que essa Lei Una é a Lei da Harmonia. Porém, não devemos nos
enganar, dizendo que compreendemos que existe apenas uma Lei simples. Nós não
compreendemos isso de forma alguma. Apenas temos um conceito de que deve haver uma
única regra simples. Para entender isso, precisaríamos estar uno com esta única Lei, estar
uno com essa harmonia, que não é a harmonia só dentro de uma pessoa, mas a harmonia
da manifestação completa.

Pergunta: Foi dito que para se iniciar o caminho se faz necessário uma energia. Eu tenho
a dificuldade de saber que tipo de energia é essa, se essa energia é do interior, se essa
energia é do exterior ou se é uma energia só. Se é uma coisa só, interior e exterior.
Resposta: Acho que já falamos sobre isso. Existe apenas uma energia, que é a energia
verdadeira. Ela não está dentro ou fora. É a energia da própria vida, no sentido mais amplo
do termo. Mas nós não permitimos a essa energia que funcione, pois estamos colocando
obstáculos a essa energia da vida. Esse obstáculo está embutido no conceito de que "eu sou
diferente do resto". É como se fosse uma grande pedra que está impedindo o fluxo das
águas da vida. Pois quando nós dizemos "eu sou" estamos negando a própria vida, estamos
nos separando da vida Mas a energia da vida é tão forte que ela não vai permitir nem
mesmo a essa grande pedra permanecer lá, para sempre ,e está sempre empurrando essa
pedra para fora do caminho. Mas se nos ajudarmos, o fluxo virá muito mais rápido.

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Pergunta: Há alguém que não come carne por tentar alcançar o desenvolvimento, mas,
por outro lado, deseja, é claro, como corpo emocional, comer carne. Esse conflito da
repressão de não comer carne e do desejo de comê-la, como podemos entender?
Resposta: Não é só essa pessoa que está em conflito. Todo mundo está em conflito,
querendo e, ao mesmo tempo, não querendo as coisas. Eu tenho certeza que é uma
questão certa Como também serve para todos nós, pois veremos o que acontece com a
mente: ela quer estar sempre vagando de um lado para o outro. Mas quando ela vaga
dessa forma, nós nos cansamos e então queremos a paz. E quando estamos em paz e
quietos por um tempo, ficamos aborrecidos. Queremos, então, outras atrações para que a
mente continue vagando.
Esse conflito não é algo comum? Existe esse conflito em todas as pessoas. E a forma de
resolvê-lo é através da reflexão. A compreensão do que diz respeito a tudo isso. Se uma
pessoa quer comer carne, mas ela também sente que não deveria comê-la, talvez se ela
refletir um pouco sobre o assunto, ela poderá compreender que não existe razão para fazê-
lo. O corpo não precisa disso, e sim a mente que se tornou apegada a um sabor particular
ou acostumada a um hábito particular que está puxando nessa direção.
A reflexão também mostrará que a mente que está desejando uma coisa como essa, ou
qualquer outra, reduz a liberdade da pessoa. Adotando costumes impensados, ficando
induzida a caminhar numa certa direção, faz com que a pessoa se torne insensível, como foi
dito.
Vocês sabem como é a produção de carne, atualmente? Os animais não são mortos
rapidamente. Desde o momento em que eles nascem, eles são mantidos em condições
terríveis e miseráveis. Uma das técnicas usadas é não permitir que o animal ou pássaro se
mova, ele tem que ficar parado. Ele fica confinado numa pequena jaula ou caixa, pois ele se
torna mais gordo, rapidamente, quando não é permitido mover-se. E aí o empresário
economiza um pouquinho de dinheiro com cada um dos animais, possivelmente muito
dinheiro com muitos animais. Portanto, milhões de animais são mantidos em miséria, do
nascimento até a morte. E a mente se torna indiferente a esse sofrimento.
Se eu ficar contando para vocês todo o sofrimento que passam os animais, gastaria a
manhã toda. Mas devemos estar conscientes disso, sabendo o que acontece. Portanto, se
você quer agradar a sua mente ou sua língua a esse preço, significa que a mente se permite
tornar-se bastante insensível. Nós estamos causando muita miséria a essas criaturas e
muitos danos a nós mesmos. A reflexão deveria nos mostrar tudo isso, e se uma pessoa
acredita no carma ou se sente convencida de que deve haver uma lei desse tipo - o que
corresponde a outro tipo de lei, no mundo físico - então ela compreende que não existe
arbitrariedade na existência da manifestação e todas as coisas trabalham de acordo com a
Lei, tanto no nível físico como no moral as causas e os efeitos estão relacionados, e,
portanto, não pode fazer nenhum bem para a humanidade causar tanto sofrimento aos
animais.
Quanto mais a pessoa refletir sobre o assunto, mais claramente verá que não há razão
para comer carne. Se refletir ainda mais profundamente, não poderá mais fazê-lo. Esse
conflito, assim como qualquer outro, pode ser resolvido somente através da reflexão.
Teillard Chardin diz em um de seus livros que a verdadeira qualidade da mente humana é a
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reflexão, e se a reflexão não existe, então a pessoa não está levando uma vida humana,
está levando algo que é menos do que uma vida humana.
Além da questão da carne, existem também outros conflitos. Não existe conflito
quando nós estamos em atrito com outra pessoa? na família, com os amigos, com os
colegas. Nos sentimos mal e miseráveis. E podemos tentar disfarçar esse sentimento,
dizendo que a outra pessoa é muito ruim. O próprio fato de dizermos que "ele está errado",
mostra que já nos sentimos desconfortável. E nós vamos tentar justificar esse desconforto
de muitas formas, porque existe uma parte de nós mesmos, de nosso "eu" real, que sabe
que harmonia é uma lei da natureza, e ele sabe isso por si mesmo, dentro de si, e não na
cabeça. E é por isso que quando existe desarmonia, nos sentimos desconfortável, nos
sentimos pouco a vontade. Mas existe também um outro lado que diz: "o meu orgulho não
me permitirá conversar com essa pessoa. Eu não vou dar o primeiro passo. Eu respeito a
minha posição dando ótimos argumentos. Eu faço isso para o bem do trabalho." Todo tipo
de desculpa.
Nós podemos fazer coisa diferente para o bem do trabalho, em nome do trabalho, e
não sentir desarmonia. Pode haver diferença e, no entanto, afeição. Por que não? É apenas
o conflito entre o orgulho e a personalidade, e o desejo instintivo pela harmonia. Esse
conflito cria tal tipo de problema. E é um conflito experimentado por todos e todos devem
resolvê-lo. Caso contrário, nos sentiremos cada vez mais desconfortáveis.
Um dia vai haver uma explosão, uma crise e aí nos sentiremos forçados a fazer algo. E,
se somos inteligentes, devemos refletir sobre o problema e resolvê-lo aqui e agora.
Portanto, o conflito, de muitas formas, existe na mente humana, que é parte do desafio
que enfrentamos no estágio humano, pois é esse o estágio no qual o homem-animal está
lutando contra o homem-divino. Nós estamos todos no campo de batalha de Kurukshetra.

Pergunta: Jung afirma que o crescimento espiritual começa com o trabalho de


desenvolvimento da identidade da individualidade. Como a Sra. vê essa questão? Gostaria
que a Sra. desse uma definição correta do "eu".
Resposta: A resposta é muito simples. Eu não conheço bastante bem a psicologia de
Jung para responder essa pergunta. Eu não sei se o que ele disse foi colocado num contexto
correto, quais são as palavras que ele usou. Portanto, você deve trabalhar na resposta por
si mesma ou então conversar com alguém que conheça Jung.

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Sexta Conferência da Sra. Radha Burnier

Eu vou tentar terminar a primeira parte do livro esta manhã, o que significa que nós
vamos precisar correr um pouco para terminar o que falta.
Ontem nós estudamos que a individualidade tem que ser reconhecida não como algo
em si. Durante várias encarnações ela foi construída de modo que a inteligência pudesse
desenvolver-se - a inteligência que ajudará a transcender a individualidade, e encontrar
uma vida de uma natureza diferente. O que parece ser um período de luta e de
dificuldades, na realidade é um meio maravilhoso através do qual essa transcendência pode
ocorrer.
O livro diz: "Busca-o submergindo-te nas misteriosas e esplêndidas profundidades do
mais íntimo do teu ser. Busca-o provando toda a experiência". E a nota a respeito dessa
regra nos lembra que testar a experiência não significa ceder à sedução da experiência; ir
atrás da experiência não é a mesma coisa que testar a experiência. Talvez se não
colocarmos de forma diferente se tornará mais claro: testar a experiência significa utilizar
cada experiência como um teste da sua própria inteligência. A palavra inteligência estou
dando o significado de inteligência espiritual, e não a inteligência mais material, mundana.
Está dito que: "Antes de converter-te em ocultista, podes fazê-lo, porém não depois.
Uma vez que tenhas escolhido o caminho e nele penetrado, já não podes, sem receio, ceder
a tais seduções." Porque se nos tornarmos vítima da sedução, cairemos numa desilusão.
Existe uma passagem bem conhecida no Bhagavad Gita, que fala sobre isso: que o contacto
com os sentidos produz os desejos, e o desejo leva à raiva, e a raiva leva à desilusão, e a
desilusão leva a total perda de orientação. (Estou simplificando esta passagem por
conveniência). A não ser que se queira perder a própria direção, a direção sendo a Senda,
não se pode ceder à desilusão quando se está levando a sério o caminho.
"Mas, não condenes o homem que cede (...) Tem presente - ó discípulo! - que, por
grande que seja o abismo que existe entre o homem virtuoso e o pecador, é ainda maior
entre o homem virtuoso e aquele que obteve o conhecimento;" Uma pessoa ignorante
quando é comparada conosco, nos parece uma pessoa boba. Nós não podemos
compreender por que ela é como é. Então existe um sentimento de intolerância e
superioridade; nós sentimos que ela deveria ser diferente, mas se nós nos vemos em
comparação com pessoas iluminadas, aos seus olhos talvez nós sejamos ainda mais
ignorantes, ainda mais bobos. Porém, pelo fato deles serem iluminados, essa diferença não
os faz intolerantes. Por outro lado eles têm o desejo ainda mais forte de poder ajudar. Está
sendo apontado que esta deveria ser a nossa atitude em relação àqueles que estão
cedendo à sedução.
"Estende-lhe a mão como a um teu irmão peregrino..." Esse sentimento de
superioridade em termos de virtude é por si só um sinal de ignorância. Uma pessoa
realmente realizada espiritualmente não sente a diferença entre o instrutor e o aluno, ela
vive no sentimento da unidade, mesmo com o pecador e com o homem miserável. Mas
quando estamos no estado de ignorância, com ausência de luz, é aí que esse tipo de
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intolerância surge na mente; nós pensamos como as outras pessoas deveriam ser e isso é
uma confirmação do nosso sentimento de superioridade, pela maneira como nós medimos
as pessoas. Todo ato de se medir é ignorância, é ilusão. "Portanto, guarda-te de imaginar,
antes do tempo, que és alguma coisa distinta da massa."
Eu acho que esse é um aviso muito importante, porque inconscientemente sempre
encontramos desculpas para nos sentirmos melhor do que os outros. Ou nós achamos que
nós compreendemos mais, ou que nós somos mais fraternos, ou mais virtuosos, ou que nós
agimos de maneira mais correta. Todo esse tipo de sentimento deve ser observado. O
verdadeiro estado da sabedoria é não ter sentimento quanto a ser inferior ou superior,
porque existe uma essência divina em todas as pessoas. E quando nós perdemos a visão
disto, nós estamos imersos na ignorância.
Está dito: "Não os censures nem te apartes deles; antes pelo contrário, procura aliviar
algum tanto o pesado carma que o mundo oprime; presta a tua ajuda aos poucos braços
vigorosos que impedem as potências das trevas de obter uma completa vitória." Como nós
podemos ajudar a levantar, mesmo que seja uma pouco, o pesado carma do mundo? já que
nós participamos do carma de todo mundo, de nossa nação, das pessoas com as quais
vivemos - nós estamos inextricavelmente ligados a todos. A não ser que nós estejamos
presos no canto do carma, enquanto não estivermos totalmente livres internamente, nós
compartilhamos do carma da totalidade.
Portanto, somente quando mudamos a nós próprios, até ao máximo que conseguirmos
fazê-lo, nós levantamos um pouco este carma do mundo. Porque nós estamos afetando o
carma total através de nossas emoções, de nossos pensamentos e de nossa maneira de ser.
E também estamos sendo afetados por esse carma total, nós não podemos fugir nem ficar
de lado. A questão é a seguinte: o que nós somos está tornando esse carma mais leve ou
não?
A frase: "presta a tua ajuda aos poucos braços vigorosos que impedem as potências das
trevas de obter uma completa vitória", também tem que ser compreendida dentro desse
contexto, porque se as trevas penetram na nossa mente, nós estamos ajudando a que elas
venham a envolver a humanidade. Como Krishnamurti já indicou várias vezes: "nós somos o
mundo, o mundo somos nós." A nossa mente é a mente total. Se as trevas não estão na
nossa mente, até ao ponto que for possível, nós estamos contribuindo para que elas não
penetrem na mente global. A grande fraternidade dos seres iluminados está trabalhando
continuamente para ajudar aqueles que querem ajudar a si próprios. Essas são as poucas
mãos fortes que conseguem manter afastadas as trevas, inspirando toda inclinação boa,
encorajando toda luta na direção da luz. E se nós temos a boa vontade para cooperar nesse
sentido, então existe um grande sentimento de alegria. "Agindo desta forma, começarás a
participar da felicidade, que, em verdade, acarreta um terrível trabalho e uma tristeza
profunda, porém que é também um manancial de delícias sem fim."
Essa frase parece um pouco mistificadora - se é um companheirismo de satisfação, de
amor, por que atrairia a tristeza e o sofrimento? Por que quando conseguimos dominar a
nós próprios aceleramos o nosso progresso. Como já dissemos, existe um progresso lento
que vai desenrolando-se através das idades. E a pessoa até acredita que pode direcionar a
sua própria evolução e ajudar também toda humanidade, porque ela está consciente da
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direção que é esse caminho, essa senda. Isso dá uma força adicional para trilhar o caminho,
já que existe essa aceleração, todas as consequências cármicas ocorrerão mais
rapidamente. Talvez tenha-se então que suportar muitas dificuldades, de fato tão mais
rapidamente a pessoa evolui, mais rapidamente ela terá que assumir as consequências das
vidas anteriores.
Às vezes as pessoas perguntam: "Por que será que as pessoas boas sofrem, enquanto o
pecador parece se livrar muito bem de tudo?" Existe uma certa lógica nisso, porque o
carma é o instrutor. A pessoa dita má é uma pessoa ignorante ou pouco desenvolvida - essa
é a pessoa que cria bastante carma negativo. Se tudo chegasse a ela de retorno
imediatamente, ela não lucraria nada com isso. Em tudo que retorna existe algo a ser
aprendido. Então a lição é dada dentro da medida correta, o carma chega até a pessoa
quando ela já está pronta para suportá-lo, ou aprender com ele. Quanto mais inteligente a
pessoa se torna, mais ela pode aprender, e mais lições ela estará aprendendo. E quando se
está definitivamente na Senda, há a necessidade de se trabalhar tudo que ficou pendente.
Então pode haver sofrimento e turbulências mas a pessoa sabe como ir de encontro a isso
tudo, e junto com isso existe uma satisfação que é crescente.
Nós sabemos que a maior parte do sofrimento a que o ser humano está submetido se
encontra na sua psique. Vamos pensar no que ocorre, por exemplo, com o corpo físico: a
dor física não é tão ruim, nós já observamos com certeza um animal ferido - ele apenas
deita pacientemente, de forma quieta, ele tenta fazer com que a dor adormeça. Nós não
fazemos isso, nós lutamos contra ela mentalmente, nós pensamos: por que será que
aconteceu isso? o que ocorrerá no futuro? por que deveria ter acontecido comigo? e assim
por diante. Mesmo se o trem se atrasa, não se pode fazer nada quanto a isso. Mas a mente
continua a dizer: "por que ele chegou atrasado?" E nós olhamos no relógio a cada meio
minuto. Veja o que a mente faz a si própria! A mente tem que aprender a se colocar na
posição correta, em relação a tudo que lhe vem de experiência. Isso é inteligência. E assim
ela aprende a partir dessa experiência, ela cresce em virtude, em capacidade, em
faculdades. A partir de cada dor existe um lucro.
Vamos seguir para a próxima regra.
"Busca a flor que desabrocha durante o silêncio que segue à tormenta... " Essa
tormenta é o transcender da personalidade, quando toda natureza cedeu para o ser
superior, então a flor floresce. A nota diz que: "O desabrochar da flor é o glorioso momento
em que a percepção se desperta." Que percepção é essa? Nós todos pensamos que
estamos percebendo, talvez seja muito difícil descrever o que é.
Nós tentamos noutro dia, através da análise que foi trazida por H. P. B., perceber que
pode existir uma visão num nível diferente. Uma pessoa pode olhar um quadro sem
perceber que aquilo ali é um quadro. Ela pode perceber que é um quadro, mas não estar
desperta para sua beleza, para passar para uma nova dimensão de significado. Isto é a
percepção: um tipo de despertar que ocorre na consciência. Consciência implica estar
consciente - vemos uma flor mas não estamos despertos para sua beleza. Quando estamos
atentos a sua beleza, o que ocorre? A flor não mudou, ela ainda é a mesma, mas alguma
coisa na consciência, que não estava sensível anteriormente, agora se tornou sensível.
Alguma área da sua consciência se abriu. Então a percepção é este tipo de estar desperto, e
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quando existe esse despertar para um novo nível de significado, começa-se a perceber o
todo da vida de maneira totalmente diferente, e com ela vem consciência, sabedoria e
confiança. E começa-se a compreender qual é o significado da vida.
E existe nesse momento um grande estado de estar maravilhado e uma grande
percepção de calma. Um silêncio profundo, diz o livro, que prova que o caminho foi
encontrado. "Podes chamá-lo como quiseres; é uma voz que fala onde não há ninguém que
fale; é um mensageiro que. vem, mensageiro sem forma nem substância, ou antes é a flor
da alma que se abriu. Não há metáfora que possa descrevê-lo" visto que, obviamente, é
uma experiência.
Certas pessoas temporariamente tiveram o que se chama uma expansão de
consciência, não através de drogas, mas naturalmente. Por alguns instantes a pessoa
subitamente está desperta para a totalidade da existência. E existem livros que descrevem
o que essas pessoas sentiram até ao ponto em que é possível descrever. Todos eles dizem:
"não é possível descrever". Todos dizem que surge uma nova energia no corpo. Ele pode
ser sentido e procurado, mas não descrito. Está dito: "O silêncio pode durar apenas um
momento, ou pode prolongar-se por milhares de anos, porém, terá fim. Contudo, reterás
contigo a sua força. Uma e outra vez terás que dar e ganhar a batalha", porque o despertar
do ser superior não é o mesmo que atingir a completa liberação.
No Yoga Sutra menciona-se um estado irreversível de iluminação, este é o estágio final,
mas antes disso existe um outro tipo de despertar. Esse despertar pode desaparecer, mas
alguma coisa permanece com o discípulo, isso permite que ele prossiga melhor e permite
que ele carregue uma força maior consigo. E repetidamente a batalha tem de ser lutada e
novamente vencida, porque a personalidade ainda não foi totalmente subjugada. Mas
quando tal percepção desperta no indivíduo, então tal pessoa, é dito: "é capaz de entrar no
Templo do Saber, onde encontrará sempre o seu Mestre." O mestre pode não ser uma
pessoa, pode ser a sua própria voz interna, mas ele será capaz de ouvi-Ia.
Aqueles que estudaram A Voz do Silêncio não devem confundir o significado que está
sendo dado aqui neste livro, Luz no Caminho, e em A Voz do Silêncio: a luz na terra que é ao
mesmo tempo a fala da instrução. Aqui está implícito o significado do local onde se pode
realmente aprender, e isto está descrito nos próximos parágrafos.
"Os que pedem, obterão." Até que a percepção desperte, as pessoas nem sabem como
buscar, como perguntar realmente. Porque o homem ordinário está sempre pedindo,
continuamente. Mas ele está pedindo apenas com a sua mente. E a mente pode ser
escutada apenas no plano onde atua. Se nós pedirmos com uma parte da nossa mente, por
sabedoria ou mesmo com a totalidade da nossa mente, mas num nível puramente
intelectual, isso não trará como resultado uma resposta, a não ser no seu próprio nível - nós
encontraremos respostas intelectuais, informações no nível mental. E tudo isso é estéril, o
livro então diz: "Pedir e sentir a fome interna, o desejo da aspiração espiritual." O pedir
mental e ambição, porém esse anseio, esse pedir do ser como um todo não é ambição e
sim a energia do ser interior tentando quebrar a concha que está cercando a si próprio.
Esse anseio é como o anseio de uma pessoa que está imerso dentro d'água e anseia
pelo ar, com todo o seu ser ele anseia pelo ar. A razão pela qual nós não temos essa
aspiração interna, é porque as coisas comuns nos parecem muito reais. Mas uma vez que a
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percepção tenha despertado - mesmo que por um período curto de tempo - não é que as
coisas comuns desapareçam, todas elas estão lá mas com significados novos então nós não
mais teremos dúvidas se queremos isso ou se queremos aquilo. A percepção espiritual é
algo muito mais belo, muito mais significativo. Essa aspiração é de todo o coração.
O livro diz: "Ler, no sentido oculto, é ler com os olhos do espírito. (...) Ser capaz de ler,
significa ter obtido, em grau mínimo, o poder de satisfazer esta fome." Porque, nesse caso,
se percebe que essa fome não pode ser satisfeita apenas querendo-se mais e mais, num
nível externo. Vejam o que a maioria das pessoas entendem por obtenção do nível
espiritual: nós queremos sempre mais e mais palavras, mais livros, mais informação, mais
coisas do mesmo nível no qual estamos funcionando. Não é um novo nível de significado
que nós estamos buscando receber e perceber. "A mente pode reconhecer a verdade, mas
o espírito não a pode receber." Se sabe a conhecida frase: "A letra mata." Nós podemos
conhecer literalmente tantas coisas, as palavras de A Luz no Caminho, por exemplo, mas
qual é o significado profundo do que está sendo dito? Isto não pode ser apreendido pelo
pensamento, só o espírito, o ser Interno pode recebê-lo totalmente. "Porém, é-lhe
impossível aprender, enquanto não tiver ganho a primeira grande batalha." As mesmas
coisas estão ditas mais adiante, como sendo do Templo do Saber: "Os que pedem, obterão.
Os que desejam ler, lerão. Os que desejam aprender, aprenderão." É nesse estágio que o
Mestre pode dizer: "A paz seja contigo."
O livro diz que essa frase não pode ser pronunciada pelo Mestre, a não ser para
discípulos que são como ele. É claro que o discípulo não pode ser idêntico ao Mestre, o que
se quer dizer é que o discípulo deve estar sintonizado com o Mestre. Porque se não existe
essa sintonia, não existe possibilidade de comunicação, as suas vibrações não alcançarão o
outro, por assim dizer.
Seguem então as três verdades que são ditas imortais, são verdades que são absolutas
e não podem ser perdidas, que são partes da existência, da manifestação. Podem existir
eras em que não há ninguém para pronunciar essas verdades, mas mesmo que elas não
sejam pronunciadas elas lá estarão.
As três verdades:
I - "A alma do homem é imortal e o seu futuro é de algo cujo crescimento e esplendor
não têm limites.
II - O princípio que dá vida mora em nós e fora de nós; é imortal e eternamente
benéfico; não é ouvido, nem visto, nem apreendido pelo olfato, mas pode ser percebido
pelo homem desejoso de o perceber.
III - Cada homem é o seu absoluto legislador, o dispensador da glória ou das trevas para
si próprio; é o decretador de sua vida, recompensa e punição.
Estas Verdades, grandes como a própria vida, são simples como a mente do mais
simples dos homens. Alimentai com elas os famintos."
Porém, existem profundidades onde mesmo o pé do gigante não pode alcançar o
fundo. E as verdades que são a essência da Teosofia são desse tipo. Já foi mencionada
alguma coisa sobre a primeira verdade, ontem. "A alma do homem é imortal", o que
Significa que o essencial nele não tem começo nem fim. Tudo que tem um início tem que
ter um fim. Mas nós pensamos que tivemos um começo com o nosso nascimento, que é
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apenas o nascimento desse corpo em particular, porque nós pensamos ser apenas isto,
então nós também temos medo do fim do corpo. Mas a pessoa que está totalmente
consciente desta verdade não tem medo. A natureza da vida é eterna. Como o Bhagavad
Gita diz: o corpo é como vestes que nós colocamos, que jogamos fora quando estão gastas,
não tem nenhuma importância, a não ser como algo para ser usado no tempo presente.
Nós também imaginamos que nós somos pessoas pequenas e mesquinhas. Nós também
queremos futuros pequenos para nós próprios; nós precisamos nos dedicar a trabalhar esse
futuro, mas quando se percebe a verdadeira natureza do ser humano - que a sua realidade
é a alma, a consciência interna - percebe-se então que não existe limite para o futuro.
Porque não existe limite para o estado de despertar que há nessa consciência. Sendo único
toda vida, e sendo a vida ilimitada, o seu crescimento e esplendor não têm limites.
"O princípio que dá a vida mora em nós e fora de nós; é imortal e eternamente
benéfico; não é ouvido, nem visto, nem apreendido pelo olfato..." Como está dito aqui, não
é a vida no sentido particular, mas a vida sobre a qual não podemos falar a não ser como
principio, ou talvez como uma energia desconhecida e intangível. Mas pode ser percebida
por aquele que deseja a percepção, porém não com a mente ou com os sentidos, e sim com
a faculdade de percepção que pertence à natureza interna.
A terceira verdade fala sobre qual é a natureza essencial do ser humano, que todo o
poder para trazer à tona o seu crescimento está dentro de si próprio. E não é uma criatura
pobre e dependente - esta é a beleza do ser humano. Infelizmente imaginamos a nós
próprios como sendo pessoas miseráveis e dependentes, mas aquele que percebe que o
seu futuro depende de si, descobre o segredo da paz e da felicidade. Toda pessoa tem essa
opção de realizar tudo aquilo que é bom para si, ou, em alguns casos mais raros, de se
arruinar. A possibilidade de se arruinar totalmente é muito rara porque vai contra o sentido
de evolução. Mas a literatura oculta se refere a esses casos em que existe um contínuo
crescimento do egoísmo, até que a pessoa seja a personificação do mal, então a natureza
acaba destruindo-a. Mas existem muitas forças que trabalharão para evitar que isso possa
ocorrer. O caminho normal é o crescimento dentro da bondade. É claro que não me refiro à
bondade no sentido comum do termo, mas à suprema bondade que está associada ao
princípio que dá a vida, que é eternamente beneficente.
No pensamento hindu se fala desse poder eternamente beneficente como Shiva; a
própria palavra Shiva tem esse significado, e ela se refere à única verdade que existe, ao
futuro da pessoa que torna a sua Vida em suas próprias mãos. É a glória de realizar aquilo
que é eternamente beneficente. Nós paramos aqui. Não é possível agora ou em qualquer
tempo chegar-se a compreender o total significado desse livro. Nós deveremos estar
satisfeitos se tivermos um pequeno impulso de seguir adiante, para refletir e meditar mais.
Ver o que está por dentro das palavras, e não meramente o som externo.

Pergunta: O que são os poderes das trevas? Estão implícitos nos conjuntos dos
dualismos ou são algo inerente ao próprio desenvolvimento da Manifestação?
Resposta: Na Carta dos Mahatmas está dito que não existe mal na natureza. Alguns
acham que a manifestação e a matéria são coisas más; não existe mal nelas, e sim
limitações. É claro que se considerando limitação como uma forma de escuridão, de trevas.
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Porém o verdadeiro mal está apenas na mente humana. O poder das trevas pode ser o
acúmulo de todos os pensamentos egoístas da humanidade, o que é um grande poder.
Muitas vezes as pessoas são levadas a fazer aquilo que elas não querem fazer, porque a
atmosfera está carregada de todo tipo de pensamentos obscuros. E nós devemos ser muito
cuidadosos para não sermos Influenciados por eles. E pode ser que exista indivíduos que se
deixaram levar muito por esses pensamentos negativos, que acreditam no egoísmo, que de
certa forma personificam essas trevas totais. Como nós dissemos ontem, ou nós estamos
adicionando um pouco mais a essas trevas, ou tentamos clareá-las um pouco. Dependendo
do grau de separatividade que os nossos pensamentos contêm. Até um certo ponto nós
estamos do lado dos poderes das trevas, nós somos aliados deles. Mas purificando ao
máximo que nós conseguirmos a nossa natureza interna, nós estamos evitando que esses
poderes possam dominar.

Pergunta: O Evangelho Cristão diz que não cai um fio de cabelo da cabeça sem que
Deus saiba. Os poderes das trevas existem como mal necessário à evolução? E eles estão
em parte por trás da violência do mundo, como droga, violência armada, destruição do
planeta, egoísmo, medo desenfreado, etc. O trabalho da Sociedade Teosófica, como outros
sérios, freiam a vitória das trevas, não é mesmo?!
Resposta: Se você quiser pensar assim, nós poderemos imaginar que o trabalho da
Sociedade Teosófica está colocando um freio às trevas.
Quanto à pergunta referente à necessidade das trevas para a evolução, é difícil dizer se
as trevas existem como um mal necessário à evolução. Nós sabemos que no nível humano
de evolução é que uma ação consciente deve ocorrer. É por isso que se descreve que no
início havia uma percepção inconsciente.
Ao seu modo, cada criatura vive dentro da sua própria perfeição. Existe o estágio do
homem que está consciente da imperfeição. O homem é capaz de estar consciente do que
ele faz. Mas essa percepção vem através da luta. E, enquanto isso, ele faz todo tipo de
ações tolas. E ele aprende a lição e se direciona no sentido da perfeição consciente, que é o
estágio do ser humano perfeito. Nesse estágio intermediário de consciência de ser
imperfeito, qual é a natureza da sua queda? Essa inabilidade de desenvolver a sua
capacidade mental sem distorcer essa capacidade.
O desenvolvimento da personalidade, basicamente o da mente, ocorre através de várias
encarnações. Pode esse desenvolvimento ocorrer sem o desenvolvimento do sentido da
separatividade? Até a nossa evolução atual isto não ocorreu. E nós observamos um
tremendo desenvolvimento intelectual e todo mal que a mente tem feito, que são as
trevas. Eu não posso responder a pergunta se seria possível desenvolver a mente sem, ao
mesmo tempo, desenvolver o sentido de separatividade. Vocês podem perguntar ao
Dhyan-Chohan se alguma vez vocês o encontrarem. Mas o fato é que existe esse mal que os
seres humanos criaram, o mal do egoísmo. O egoísmo cria a crueldade, a maldade. Como
nós poderemos libertar a humanidade disto? Que é o mesmo que perguntar como nós
poderemos libertar a nós próprios desse estágio infeliz. Não será esse o trabalho da
Sociedade Teosófica? Certamente o é. Porque nós estamos falando a respeito dessa

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mudança interior, que é a mudança do egoísmo para o altruísmo. O altruísmo que não é
para objetos em particular, mas que é universal.

Pergunta: As regras numeradas são para explicar as regras não-numeradas? E qual é a


menos importante dessas regras?
Resposta: Eu acho que todas são importantes. Não se pode dizer que uma é mais
importante que a outra. Quando tal pergunta é feita, nós não podemos assumir que exista
uma resposta determinada, que ela está guardada e que eu possa trazê-la até vocês. Todas
as pessoas devem tentar ler o texto com os olhos da intuição, e não apenas com os olhos da
mente, mas recebendo o significado com o espírito. Não importa se você numera de uma
forma ou de outra, se as vinte e uma regras são comentários sobre as quatro primeiras ou
não.
Suponhamos que haja um erro na numeração de todos os números quando nós
editarmos novamente o livro, será que isso faz diferença? Isso não é nada importante. O
importante é conseguir captar o seu significado. E pode não ser o que eu estou dizendo,
visto que cada pessoa deve perceber o significado por si própria. E se nós refletirmos sobre
isso vamos verificar que o significado que extraímos hoje pode ser diferente do significado
que extrairemos daqui a dois anos. Já que se espera que nesse período a sensibilidade
tenha crescido, tenha-se desenvolvido, e nós sejamos capazes de extrairmos um significado
mais rico.

Pergunta: Poderia explicar o significado de perceber ou percepção?


Resposta: Eu acho que nós já tratamos esse assunto, mas eu vou tentar falar um pouco
mais. O que nós normalmente entendemos por percepção? Perceber significa ver. Ver o
que? Nós vemos como certa-coisa parece. Nós vemos as cores, as texturas, todas as
características de uma coisa.
Algumas vezes existe uma visão que não se faz através dos olhos físicos. O cientista vê a
conexão entre duas coisas. Newton percebeu quando lhe caiu uma maçã na cabeça, os
olhos físicos viram a maçã caindo. E nós já vimos muitas coisas caindo, mas Newton
percebeu algo mais: ele percebeu a relação que havia entre a maçã que foi desalojada e a
Terra. Essa relação não é visível para os sentidos físicos, mas pode ser uma realidade. Pode
ser uma realidade ainda maior que a dos objetos físicos, porque a maçã apodrece e deixa
de ser uma maçã. Algum dia pode ser que a Terra deixe de existir, porém esta relação pode
continuar existindo na natureza, a relação de massas de tipos diferentes.
Perceber significa poder ver em níveis diferentes. Em alguns casos é ver os objetos
físicos e ver a relação invisível entre esses objetos. Vamos supor que nós consigamos ver a
relação entre as leis através da evolução, através do crescimento da natureza. Qual o
significado disto? É algo bastante intangível, e no entanto é claro como a luz do dia para a
pessoa que pode percebê-lo. Então a percepção é o ver que pode ocorrer em diferentes
níveis. A percepção espiritual é a capacidade de ver o que ocorre nos níveis mais profundos.

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Pergunta: A questão do "não matar", que foi mencionada anteriormente, deveria ser
estendida também não só ao vegetarianismo como também ao fato de não se utilizar
objetos de couro, como sapatos, bolsas ou qualquer outro objeto de origem animal. E se o
"não matar" refere-se também ao não ferir, por que mesmo pessoas na Senda são
obrigadas a ferir outras pessoas, mesmo que não o desejem, como por exemplo Gautama
Buda, que feriu a sua esposa e as pessoas que ali ficaram?
Resposta: A ideia "não matar" deriva do princípio de que a vida é um todo. A Ora.
Besant diz que a essência da espiritualidade é a percepção dessa unidade fundamental. Isto
também foi dito pelos budistas e outros. Se nós agimos de maneira a violar essa unidade,
nós apenas ferimos ou matamos outras pessoas, o que é a mesma coisa, mas nós também
nos ferimos, porque tornamos a nossa consciência obtusa e insensível. E isto cria uma
obstrução à possibilidade de progresso.
Nós não precisamos fazer essa diferenciação sutil entre ferir e matar, porque é uma
questão de grau. O ponto é, se nós queremos estar dentro desse caminho espiritual
deveremos reduzir todo tipo de ofensa ao mínimo, ou seja, ao limite razoável. Quando nós
estamos caminhando podemos eventualmente matar formigas, será que deveremos andar
tendo sempre uma lente para examinar onde vamos pisar?! Isso é um absurdo. Mas não
quer dizer que deveremos sair por aí causando ofensas às coisas. Então, tem que haver um
bom senso para diminuirmos o mal que fazemos.
Se usamos materiais derivados de animal, e se estamos preocupados com a questão de
arimsa - o que significa estar voltado para a verdade absoluta da vida - devemos verificar
como é que certos materiais são produzidos. Não podemos dar uma resposta sobre poder
usar ou não poder usar. Gandhi incentivou as pessoas a usarem sandálias de couro de
animais que haviam morrido de morte natural, isso não quer dizer que vocês não devam
usar esse material. Porém, como é que o produto é obtido? Muitas pessoas hoje usam
cosméticos, e isso não é considerado um produto animai, mas é fruto de um cruel
sofrimento de animais, porque são feitos utilizando animais como cobaias. Vocês já
verificaram, por exemplo, que coelhos são colocados em cativeiros e diversos produtos são
postos nos seus olhos para serem testados? Dessa forma, o xampu que usamos pode não
ser um produto animal, mas pode ser um produto da crueldade. Então é preferível usar a
sandália que Gandhi recomendou, de animais que morreram naturalmente, do que o
xampu que não é feito de produto animal.
Se vocês estão interessados podem obter produtos similares que não são resultados de
crueldades. As pessoas devem verificar o quanto elas podem diminuir o grau de ofensa que
fazem à natureza, a todos os seres, e diminuí-lo ao mínimo.
Certa vez fizeram a pergunta a Dra. lanthe Hoskins que é atualmente presidente da
Seção Inglesa, e é uma pessoa muito conhecida: na sede da Seção Inglesa existe um aviso
que diz "não fumar" e uma pessoa chegou e disse: "H. P. B. fumava, por que eu não posso
fumar aqui?". E a Sra. Hoskins disse: se você fizer tudo que H. P. B. fez aí eu vou considerar
a sua questão.
Se você é um Buda, a questão de deixar sua família e ir em busca de iluminação tem um
significado totalmente diferente. Os grandes instrutores estão preocupados com o bem
espiritual. Algumas vezes a pessoa pode se sentir ferida mentalmente. Se um instrutor
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coloca para alguém alguns fatos desagradáveis, que podem ser necessários, a sua
personalidade pode se sentir ferida, mas isso pode ser útil para o seu bem espiritual. E o
instrutor dentro de sua sabedoria sabe como fazê-lo.

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