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culturaepensamento

AS CIDADES E O SAGRADO
DOS POVOS TRADICIONAIS:
COL EÇÃO

TERRITÓRIO, IDENTIDADES
E PRÁTICAS CULTURAIS

com ÂNGELA MARIA DA SILVA GOMES,


AVELIN BUNIACÁ KAMBIWÁ,
CARLOS FELIPE HORTA,
CLEONICE MARIA DA SILVA,
FÁBIO PEDRO S. DE F. BANDEIRA,
FLÁVIO HENRIQUE DE OLIVEIRA SANTOS,
GABRIEL RICARDO DE MOURA,
GERALDO ANDRÉ DA SILVA – TAT’ETU JALABO (PAI GERALDO),
ISAKA HUNI KUIN,
JAQUELINE EVANGELISTA DIAS,
JOANA MUNDURUKU,
MAKOTA CELINHA GONÇALVES,
MAKOTA KISANDEMBU,
MAMETU OIACIBELECY (MÃE RITA),
MAYÔWEYNEHY PATAXÓ,
NÁDIA AKAWÃ TUPINAMBÁ,
ODAIR PATAXÓ,
PAI RICARDO DE MOURA,
ROSANE PRUDENTE THIOUNE,
SIDNEY TI ODÈ
SUELI CONCEIÇÃO,
TIAGO PAULINO SALES (IBÃ HUNI KUIN),
VANDA MACHADO E
YONE MARIA GONZAGA.

DEZ / 2019

ANO 1 1
#2
Foto RICARDO LAF

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Alison Barbosa de Souza - CRB6/2571)

C568 As Cidades e o Sagrado dos Povos Tradicionais: territórios, identidades


e práticas culturais.-- Belo Horizonte : Fundação Municipal de Cultura de
Belo Horizonte, 2019.
112p. -- (Cultura e pensamento ) --

ISBN 978-85-60151-07-3

1. Cultura. 2. Patrimônio Imaterial. 3. Manifestação de matrizes


africanas e indígenas. I. Secretaria Municipal de Cultura (Belo
Horizonte, MG).

CDD: 306.086

EXPEDIENTE
Prefeitura de Belo Horizonte
Secretária Municipal de Cultura: Fabíola Moulin
Secretário-adjunto Municipal de Cultura: Gabriel Portela
Presidenta Interina da Fundação Municipal de Cultura: Fabíola Moulin

Coleção Programa Cultura e Pensamento

Conselho Editorial: Karime Cajazeiro e Lena Cunha (Coordenação), Álan Pires,


Fabíola Moulin, Françoise Jean de Oliveira Souza, Ananias José Freitas, Gabriel
Portela, João Pontes, Leonardo Beltrão, Marcelo Bones
Produção Editorial: Voltz Design
Projeto Gráfico: Alessandra Maria Soares, Cláudio Santos, Ivan de Castro
Revisão: Cláudia Campos
Foto da Capa: Ricardo Laf
Créditos de fotos: Ricardo Laf, Adão Souza, Leonardo Almeida, Ruth Landes
Contato: gab.smc@pbh.gov.br

Permitida a reprodução total ou parcial, desde que citada a fonte.


As opiniões aqui expressas são de responsabilidade dos autores e não refletem,
2 necessariamente, a visão da Secretaria Municipal de Cultura e da Fundação 3
Municipal de Cultura de Belo Horizonte sobre o assunto.
te rri tó rio, i den ti dad es
dos Povo s Tr a di cio nais :
As Cidades e o Sagrado

e pr áticas c u ltu rais


A Coleção Cultura e Pensamento Tendo como premissa a integração observar que alguns textos que
inaugura uma política editorial e a confluência entre os saberes compõem esta edição são registros
voltada a divulgar e disponibilizar acadêmicos, científicos e tradicionais, ricos em oralidade. Mais do que “ler”,
reflexões produzidas a partir de esta publicação convida a reflexões nestes textos é possível “escutar” o
iniciativas promovidas pela Prefeitura basilares para a salvaguarda dos agente principal da prática cultural
de Belo Horizonte, por meio da saberes tradicionais, sobretudo tradicional.
Secretaria Municipal de Cultura e indígenas e de terreiro, no
da Fundação Municipal de Cultura meio urbano. A partir do olhar O conteúdo destas publicações,
de Belo Horizonte. Um de seus especializado de atores com seja proveniente da realização de
propósitos é tornar periodicamente experiência e/ou vivência nas eventos, de encontros internacionais
pública a sua produção de tradições indígenas e de terreiro, ou seminários, deve sempre
conhecimento de modo a ampliar o evidencia-se a dimensão intersetorial resultar das discussões e debates
debate sobre questões afins. da política de salvaguarda do de âmbito nacional e internacional
patrimônio imaterial. Política em permanente diálogo com a
Essa coleção nasce do desejo de essa que, muitas vezes, reforça cidade, em todas as suas dimensões
promover reflexões e debates sobre a mobilização das comunidades materiais e intelectuais ao longo de
temas relevantes para a compreensão tradicionais pela garantia dos sua história.
do Brasil e do mundo contemporâneo direitos da cidadania: por meio do
no âmbito do Programa Cultura e exercício de suas práticas culturais, se A criação da Coleção Cultura e
Pensamento. reconhecerem e serem reconhecidas Pensamento é um compromisso de
na cidade. fortalecer uma política pública para
Nesta edição, apresentamos as a cultura que tenha como um de seus
DEZ / 2019 reflexões construídas no Seminário Com esta publicação, registra-se pilares a disponibilização gratuita
As cidades e o sagrado dos Povos o olhar “de dentro” do agente da e a democratização do acesso ao
ANO 1 Tradicionais: território, identidades prática cultural. Trata-se de uma conhecimento. Daí seu caráter de
#2 e práticas culturais, realizado no
âmbito do projeto “Jardins do
construção processual, na qual o
membro da cultura tradicional é o
projeto especial e permanente.

Sagrado, cultivando insabas que protagonista na implementação das


curam”, dentro da programação do X ações para a salvaguarda dos saberes
4 Festival de Arte Negra (FAN). indígenas e de terreiro na cidade. 5
Nessa construção, é interessante
1 2 3
20 Os povos tradicionais e
o contexto urbano
30 Vivência: tradição que
alimenta
38 As cidades, as práticas
do sagrado e suas
relações
4 5 6
62 Os saberes científicos,
acadêmicos e
tradicionais:
78 Experiências de
implantação e gestão de
espaços de cultivo de
104 Pisada de
Caboclo

confluências para plantas sagradas dos


a construção de povos de tradição no
conhecimento Brasil
21 A vida no contexto urbano: 31 Tradição que alimenta 39 Do índio favela ao Toré 63 Os saberes científicos, 79 Onã Ewé: o caminho e a vida 105 Pisada de Caboclo 2019
ilusão ou realidade para o Rede de Intercâmbio de no asfalto: as cidades, as acadêmicos e tradicionais multiespécie das folhas nas Pai Ricardo de Moura
indígena? Tecnologias Alternativas, práticas do sagrado e suas Cleonice Maria da Silva (Toá roças de matriz africana da
Joana Munduruku Mametu Oiacibelecy (Mãe Rita), relações Kãnynã Pankararu) RMBH
Mayôweynehy Pataxó, Odair Avelin Buniacá Kambiwá Flávio Henrique de Oliveira
25 Os povos tradicionais e o Pataxó 66 Produção de conhecimentos Santos
contexto urbano 43 “Jardins do Sagrado… Oh, por raizeiras do Cerrado:
Makota Celinha Gonçalves 32 Significados para a REDE Sagrado Segredo!” políticas da vida e o direito 82 Ciclo das Insabas, a semente
Geraldo André da Silva – Tat’etu de praticar a medicina que garante a colheita
33 Significados para Mayô Jalabo (Pai Geraldo) tradicional Gabriel Ricardo de Moura
Pataxó Jaqueline Evangelista Dias
47 Medicinas sagradas 84 Políticas públicas e
34 Comidas tradicionais do Vale Isaka Huni Kuin 70 Epistemologias iorubanas: territórios sagrados
do Rio Doce educação e saberes Makota Kisandembu 108 SEMINÁRIO AS CIDADES
49 Políticas públicas e ancestrais E O SAGRADO DOS POVOS
35 Significados para Mametu preservação do patrimônio Vanda Machado 87 Fazendo memória,
Oiacibelecy (Mãe Rita) biocultural das comunidades construindo o Bem Viver TRADICIONAIS: TERRITÓRIO,
negras de religião de 72 Os saberes científicos, Nádia Akawã Tupinambá IDENTIDADES E PRÁTICAS
matriz africana nas urbes acadêmicos e
brasileiras tradicionais: confluências 90 Ilé Wopo Olojukan: o ritual CULTURAIS
Fábio Pedro S. de F. Bandeira para a construção das folhas (PROGRAMAÇÃO COMPLETA)
de conhecimentos Sidney Ti Odè
53 Biodiversidade e diversidade emancipatórios
cultural: territorializar Yone Maria Gonzaga 92 Parque Txaná Banê
as tradições do sagrado Tiago Paulino Sales (Ibã Huni
indígena e de matriz Kuin)
africana na gestão
ambiental 95 Wérénjéjé: Salvador e as
Ângela Maria da Silva Gomes ações ambientais em uma
comunidade de matriz Ketu
58 Estudos reconhecem o valor – uma APC na Mata Atlântica
das plantas Rosane Prudente Thioune
Carlos Felipe Horta
98 Projeto de Rede de Hortos
de Plantas Medicinais e
Litúrgicas (RHOL)
Sueli Conceição

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Foto RICARDO LAF
AO LEITOR
A promoção do patrimônio cultural mentos materiais, nas práticas da mundo. As folhas, por essa perspec- sitem pela região Metropolitana de um importante componente do pro- reiro quanto as práticas indígenas
conformado pelos modos de vida benzeção, na medicina popular ou tiva, possuem especificidades cultu- Belo Horizonte entre 5 mil e 7 mil jeto Jardins do Sagrado, pois contou possuem estreita relação com o lu-
dos povos tradicionais afro-brasilei- na vivência do sagrado. No campo rais em seu manejo e sua utilização. indígenas, sendo que destes, aproxi- com a participação de 26 convidados gar, com o território, com as formas
ros e indígenas, sobretudo em sua da cultura de terreiro, um levanta- A folha é investida de conteúdo sim- madamente 3 mil na cidade de Belo e convidadas que dedicaram atenção e conteúdos da natureza, sendo im-
relação com as plantas, constitui o mento realizado nos anos 2000, por bólico, podendo se diferenciar em Horizonte. O modo de vida indígena também sobre o caráter etnobotâni- possível dissociar esses elementos de
fio condutor do projeto Jardins do meio de uma parceria entre a então função, por exemplo, dos ciclos da relaciona-se umbilicalmente com a co do projeto. As discussões contri- seus modos de vida. Prática cultural,
Sagrado: cultivando insabas que Secretaria de Políticas de Promoção lua, da maneira e do horário em que natureza, figurando como um siste- buíram, a partir desse campo, para a território e natureza são, para estes
curam. da Igualdade Racial da PBH, o extinto é colhida. ma de cura que o sustenta. Questões convergência de saberes científicos e povos tradicionais, elementos de
Ministério do Desenvolvimento So- basilares da prática da vida indígena tradicionais na construção de conhe- uma mesma cosmogonia.
Este projeto é estruturado no âmbi- cial e Combate à Fome e a UNESCO, Assim como nas demais áreas urba- têm, no meio urbano, sua efetivação cimento e propiciaram apontamen-
to da política de proteção ao patri- foram mapeados e catalogados 353 nas do país, nas quais as áreas ver- comprometida, já que, na cidade, a tos para ações de salvaguarda. Nessas comunidades sobreviveram e
mônio cultural do município e cons- terreiros na Região Metropolitana des são cada vez mais escassas, em relação com a natureza se dá com o sobrevivem saberes e práticas cultu-
titui-se uma ação de salvaguarda de Belo Horizonte. Essas centenas Belo Horizonte são poucas, senão estabelecimento de regramentos so- Pensar na dimensão das disputas rais ancorados, em larga medida, nos
dos bens culturais de matriz africa- de espaços de culto à ancestralidade raras, as possibilidades de acesso ciais e institucionais que, via de regra, e identidades das práticas culturais símbolos e conteúdos da natureza.
na e indígena, reconhecidos como têm, assim como qualquer terreiro, às plantas utilizadas na umbanda foram construídos apartados das par- dessas comunidades no meio urbano A correlação cultura-natureza é ele-
patrimônio imaterial pelo Conselho suas bases de existência vinculadas e no candomblé. A escassez de er- ticularidades daquele modo de vida. requer avaliar e refletir sobre a forma mento central da vivência cotidiana
Deliberativo do Patrimônio Cultu- às plantas, às folhas, cujos saberes vas compromete a realização de que a cidade e as construções socio- desses grupos e constitui o fio condu-
ral do Município de Belo Horizonte, para os manejos e usos resultam da determinados ritos e, consequen- A natureza, suas terras, suas plan- culturais que ela abarca influenciam e tor dos ritos, celebrações e constru-
a saber: os quilombos Mangueiras, confluência entre antepassados ne- temente, tende a comprometer a tas, seus rios, seus animais, constitui são influenciadas por essas diversida- ções identitárias. Portanto, a reflexão
Luízes, Manzo Ngunzo Kaiango; a gros e indígenas. existência de aspectos fundamen- entidade sagrada para os indígenas des. Significa, sobretudo, promover colocada no Seminário aponta para a
Irmandade Nossa Senhora do Rosá- tais dessas práticas culturais. Nesse e para as comunidades de terreiro. o diálogo entre os diversos grupos identificação dos mecanismos neces-
rio do Jatobá; o terreiro de candom- Segundo Ângela Maria da Silva Go- cenário, a transmissão de saberes é Como praticar, portanto, esses sagra- sociais que dão aos territórios senti- sários para a promoção dos modos de
blé Ilê Wopo Olojukan e as Festas mes (2009), os saberes etnobo- comprometida, em função de fato- dos, esses modos de vida, no meio dos e apropriações diversas: espaço vida, sobremaneira para a vivência do
de Pretos Velhos e Iemanjá. Nesse tânicos praticados nos terreiros res externos que dificultam o acesso urbano? público que é lido, ocupado, significa- sagrado, desses povos no meio urba-
projeto, as práticas culturais rela- configuraram novos processos de a elementos essenciais para a ma- do e ressignificado de modo distinto no. Por meio de diálogos entre poder
cionadas aos saberes no manejo e territorialização e possibilitaram a nutenção da vitalidade da tradição. Frente a essas colocações, a dinâmica, pelos diferentes agentes. público, especialistas e comunidade,
uso cultural das plantas assumem formação de padrões identitários Com a materialidade comprometi- as disputas e as identidades associa- buscou-se mapear os caminhos para
papel central para a estruturação de em terreiros de candomblé, quilom- da, fica prejudicada também a per- das à prática e à vivência dos saberes No campo da construção das políti- se chegar a essas respostas.
ações que fomentem a manutenção bos e quintais. A autora destaca que petuação dos conteúdos simbólicos tradicionais indígenas, da umban- cas públicas de patrimônio cultural,
desses saberes que permeiam esses o tráfico de africanos significou o vinculados a essas práticas culturais, da e do candomblé no meio urbano trata-se de mapear os conteúdos Secretaria Municipal de Cultura e Fun-
bens culturais da cidade. traslado de culturas e suas plantas, a esses modos de vida. constituíram os elementos analíticos simbólicos que particularizam as prá- dação Municipal de Cultura de Belo Ho-
de um sistema de correlação cultu- centrais do Seminário As Cidades e o ticas indígenas e de terreiro no meio rizonte
A confluência afro-indígena também ra-natureza, no qual a relação ho- No que se refere às práticas indí- sagrado dos povos tradicionais: terri- urbano e de identificar como estes
8 marca a identidade cultural de Belo mem-sistema vegetal é mediada por genas, de acordo com o Censo de tório, identidades e práticas culturais. conteúdos se relacionam na cidade. 9
Horizonte, quer seja em seus ele- simbologias e representações de 2010, estima-se que vivam e tran- Essa atividade de rica reflexão foi (e é) Isso porque tanto as práticas de ter-
COLABORADORES
ÂNGELA MARIA DA AVELIN BUNIACÁ CARLOS FELIPE CLEONICE MARIA DA FÁBIO PEDRO S.
SILVA GOMES KAMBIWÁ HORTA SILVA (TOÁ KÃNYNÃ DE F. BANDEIRA
PANKARARU)
Engenheira Florestal, doutora Indígena pertencente à etnia Formado em Filosofia e Sociologia Graduada em Ciências Biológicas Bacharel em Ciências Biológicas
em Etnobotânica Negro-Africana Kambiwá, socióloga, professora e Política. Professor da PUC- pela Universidade Estadual – Modalidade Ecologia pela
pela UFMG e mestre em Controle especialista em gênero, raça e MG. Jornalista com atuação nas de Minas Gerais e especialista Universidade Federal da Bahia
de Contaminação Ambiental estudos religiosos, palestrante rádios Itatiaia, Guarani, Mineira, em Sociobiodiversidade pelo (1992) e Doutor em Ciências
pela Universidade Politécnica de e também fundadora do Comitê Universidade e Inconfidência. Centro de Estudo do Cerrado (Ecologia/Etnoecologia), pela
Madri. Coordenadora Nacional Mineiro de Apoio às Causas Atuou nos jornais Binômio, Última da Chapada dos Veadeiros, Universidad Nacional Autónoma
do Movimento Negro Unificado Indígenas e colaboradora frequente Hora, Diário de Minas, Estado de da Universidade de Brasília de México (2002). Professor
para Assuntos Internacionais. do núcleo étnico-racial do Instituto Minas, Jornal da Cidade e Diário (UnB). Em sua especialização, e Coordenador do Núcleo
Foi consultora da ONU na Imersão Latina. Atua na luta pelos da Tarde; nas televisões Itacolomi pesquisou “O desaparecimento de Pesquisa em Ambiente,
Guatemala, trabalhando com Direitos Indígenas em situação e Alterosa. É folclorista, ex- das plantas medicinais do Cerrado: Sociedade e Sustentabilidade
mulheres refugiadas indígenas urbana, pelos direitos da Mãe Terra presidente da Comissão Mineira as implicações nas práticas (NUPAS) e professor do Programa
Maya. Foi Representante e propõe a “indianização da cidade”. de Folclore. Conselheiro do Centro de cura dos(as) raizeiros(as), de Mestrado Profissional em
das Mulheres Socialistas na de Tradições Mineiras, diretor do benzedores(as), curandeiros(as) e Planejamento Territorial, do
Comunidade Europeia. É membro Centro de Referências da Cachaça pajés das comunidades indígenas Departamento de Ciências
do coletivo feminista Emakume no Brasil e Capitão Honorário Pankararu-Pataxó e Aranã”. É Biológicas da Universidade Estadual
Internacionalista da Espanha. É das Guardas de Nossa Senhora técnica de enfermagem no Polo de Feira de Santana (UEFS). Tem
professora universitária e Diretora do Rosário do Estado de Minas de Saúde Indígena do Distrito mais de vinte anos de experiência
do Sindicato dos Professores Gerais. Foi integrante e presidente Sanitário Especial Indígena, onde em pesquisa com povos indígenas
SINPRO-Minas, leciona nos do Conselho Deliberativo da atende comunidades indígenas no Brasil, no México e na Bolívia,
cursos de Engenharia Ambiental Federação Espírita Umbandista de dos estados de Minas Gerais e do em comunidades afro-brasileiras,
e Geografia e possui 4 livros Minas Gerais (1970-2010) e editor Espírito Santo. de pescadores artesanais, dentre
publicados. Ya Ewe do Ilê de do jornal A Tribuna de Xangô. Um outras comunidades tradicionais no
Oxaguian, é a eco-feminista negra dos organizadores das festas de Brasil.
que denunciou o trabalho escravo Preto Velho e Iemanjá, tendo sido
em monoculturas de eucalipto em o seu apresentador por mais de 30
Minas Gerais nos anos 1990 e hoje anos. Foi um dos coordenadores
dedica-se à luta contra o racismo do Primeiro Seminário sobre
ambiental e em defesa do legado Medicina Popular e Plantas
eco-africano e feminino presentes (1970), promovido pela UFMG, da
nos terreiros de candomblé. Comissão Mineira de Folclore e
Federação Espírita e Umbandista do
Estado de Minas Gerais, e de outros
seminários subsequentes, com a
participação de representantes
de setores científicos, culturais e
religiosos.

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COLABORADORES
FLÁVIO HENRIQUE DE GABRIEL RICARDO GERALDO ANDRÉ DA ISAKA HUNI JAQUELINE
OLIVEIRA SANTOS DE MOURA SILVA (PAI GERADO) KUIN EVANGELISTA DIAS

Licenciado em Ciências Biológicas Gabriel Ricardo de Moura, jovem Presidente da Casa de Cultura e Professor na aldeia São Joaquim, Graduada em Agronomia
pelo Centro Universitário Izabela de terreiro de umbanda, negro, Assistência Social e dos Cultos no Centro de Memórias, na Terra pela Universidade Federal de
Hendrix. Especialista em Gestão herdeiro dos costumes e das Afro-Brasileiros Ogum Lodé e Oxum Indígena Kaxinawá do Baixo Rio Viçosa. Mestre em Agronomia
Escolar e Educação Ambiental práticas dos cultos de matriz afro- Apara em Santa Luzia (MG). Foi Jordão. Presidente do Coletivo de (etnobotânica) pela Universidade
pela Faculdade de Administração, brasileira na Casa de Caridade presidente da Congregação Mineira Produções Audiovisuais Beya Xinã Estadual Paulista. Doutoranda
Ciências, Educação e Letras (FACEL). Pai Jacob do Oriente. Neto dos de Candomblé, realizou várias Bena e coordenador indígena do em Desenvolvimento Rural
Atualmente, pesquisa “Etnoecologia fundadores e mantenedores dessa conferências discutindo as práticas projeto do videogame Huni Kuin: na Universidade Federal do
e seu potencial educativo: um tradição, atua na comunidade culturais afro-brasileiras no Brasil Yube Baitana (Os caminhos da jiboia). Rio Grande do Sul. Organizou
estudo em narrativas Pataxó” em da Vila Senhor dos Passos- e em Luanda (Angola). É autor de Coautor de Una Isi Kayawa: livro diversas pesquisas junto a povos
seu Mestrado pela Universidade Complexo da Pedreira Padro “Crianças e adolescentes versos (sic) da cura do povo Huni Kuin do rio e comunidades tradicionais, com
do Estado de Minas Gerais, onde Lopes como gestor, produtor, Vídeogames e fliperamas” (Editora Jordão, livro pioneiro que reúne destaque para a Farmacopeia
também participa do projeto Onã mediador cultural e promotor de Mazarello) e “Coisas da Mãe África”, o profundo conhecimento das Popular do Cerrado; o Ofício das
Ewê, que busca compreender o vivências dos projetos culturais publicado no 4º caderno de Palavra plantas e das práticas medicinais Raizeiras e Raizeiros do Cerrado;
caminho das folhas nos terreiros desenvolvidos pela Associação e Imagem: “Da Arte de Contar do povo indígena Huni Kuin. Dirigiu e os Povos e Comunidades
da Região Metropolitana de Belo da Resistência Cultural Afro- História”, da Secretaria de Estado o filme Txirin, o batismo do gavião e Tradicionais do Pampa. Possui
Horizonte (RMBH). Integra o Brasileira Casa de Caridade da Educação. Autor do projeto participou da equipe de fotografia experiência no desenvolvimento
KAIPORA: Laboratório de Estudos Pai Jacob do Oriente (CCPJO). “Escola de Graduados em Tradição, de Shuku Shukuwe: a vida é para de cadeias de valor de produtos da
Bioculturais, pesquisa povos Participa de atividades culturais Cultura e Cultos dos Orixás”, em sempre. Atualmente vem estudando sociobiodiversidade.
e comunidades tradicionais e que confluem para reoxigenar as parceria com o Axé Ile Oba (SP). as plantas medicinais nativas.
é integrante da comunidade práticas e os costumes dos viveres Graduado em Administração de
tradicional o Ilé Omiojúàrò, no Rio em comunidades tradicionais. Empresas pela Universidade de
de Janeiro. Coordenador do projeto Ciclo das Brasília, em Homeopatia pela
Insabas e membro da Associação Universidade Federal de Viçosa
de Resistência Cultural Afro- e Pós-Graduado em Gestão de
brasileira Casa de Caridade Pai Pequenas e Médias Empresas pela
Jacob do Oriente (CCPJO). Filho do Fundação Getúlio Vargas-SP. Eleito
pai de santo e mestre Ricardo de vice-presidente da COMCAN, gestão
Moura, tem dado continuidade de 1992-1994. Eleito presidente na
à prática cultural de matriz afro- gestão 1094-1998, criada para a
brasileira, atuando cotidianamente melhoria da qualidade do culto das
nas atividades do terreiro. Sua religiões de matriz africana em todo
função dentro da casa de tradição território de Minas Gerais.
abarca também a transmissão do
ensino da cultura e história afro-
brasileira a partir das referências
ritualística da casa de tradição, por
meio de formações que envolvem a
musicalidade e o manejo de ervas.

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COLABORADORES
JOANA MAKOTA CELINHA MAKOTA MAMETU MAYÔWEYNEHY
MUNDURUKU GONÇALVES KISANDEMBU OIACIBELECY PATAXÓ
(MÃE RITA)
Licenciada e Bacharel em História Makota Celinha é liderança junto Com formação em Moda, é Rainha de Congado, benzedeira, Perfil profissional e experiências em
pela Universidade Federal de às comunidades tradicionais Educadora em Direitos Humanos parteira e raizeira. Iniciada na Agroecologia e Etnogastronomia
Mato Grosso (UFMT). Bacharel em de terreiro, jornalista e e Promoção de Igualdade Tenda Espírita São Bartolomeu Indígena: Maria Eliana, também
Teologia com ênfase em Música empreendedora social da Rede Racial. Possui formação em (Omolocô). Coordenadora na Rede reconhecida por seu nome
Sacra pelo Seminário Teológico Ashoka. Formada em Comunicação Desenvolvimento, Gestão e RENAFRO-MG; Coordenadora de indígena Mayôweynehy Pataxó,
de Belém. Professora Mestra em Social, pós-graduada em Gestão Produção Cultural pela Fundação Mulheres no FONSANPOTMA-MG. possui Graduação em Pedagogia
História do Brasil, com ênfase Estratégica pela UFMG, atua João Pinheiro, Políticas Públicas de Coordenadora de Mulheres de AXÉ pela Universidade Vale do Rio
em História Regional e Memória na coordenação nacional do Gênero e Raça e Políticas Públicas DO BRASIL – Região Metropolitana Doce (Univale), Especialização
pela Universidade Federal de Centro Nacional de Africanidade pelo Legislativo Municipal. Residiu de Belo Horizonte-MG; Suplente em Terapia Comunitária pela
Pernambuco (UFPE), com a e Resistência Afro-Brasileira em vários estados do Brasil, no Comitê Estadual de Diversidade Universidade Federal do Ceará e
dissertação O cotidiano e o trabalho (CENARAB). Faz parte do conselho sempre pesquisando a cultura de Religiosa; Membro da Comissão Pós-Graduação em Educação do
em Taquarussu (1940-1960). Membro editorial e colunista do jornal Matriz Africana. Notório Saberes e Estadual de Povos e Comunidades Campo pela Universidade Federal
indígena do povo Munduruku. eletrônico Brasil de Fato. Foi Fazeres em Cultura Afro-brasileira. Tradicionais do Estado de Minas de Minas Gerais. Além disso, fez
Implantou o Departamento do conselheira do Conselho Nacional Ativista do Movimento Negro Gerais (CEPCT-MG); Representante cursos de Formação Holística
Patrimônio Histórico e Cultural e foi de Promoção da Igualdade Racial desde a década de 1980. Atuou e da Matriz Africana do interior de Base, Terapia Tradicional dos
membro da Comissão que criou o (CNPIR) e suplente no Conselho atua junto a vários movimentos, de Minas Gerais; e Membro do Sonhos e Ecologia Integral pela
Espaço Cultural, ambos da cidade Estadual de Promoção da Igualdade em caráter nacional e estadual, Comitê de Saúde da População Universidade Internacional da
de Palmas, em Tocantins. Gerente Racial (CONEPIR-MG). Atuou como o Movimento da Nação Negra. Conselheira nos Conselhos Paz, e outros diversos cursos
de Educação Escolar Indígena na também na Coordenação Nacional Bantu (MONABANTU), o Fórum Municipais de Direitos da Mulher, nas áreas de terapias holísticas,
Secretaria da Educação, Juventude do Coletivo de Entidades Negras Nacional de Segurança Alimentar e de Igualdade Racial (COMPIR), de agrobiodiversidade, teatro e
e Esportes do Estado do Tocantins (CONEN). Nutricional dos Povos Tradicionais e Saúde e de Segurança Alimentar. danças tradicionais. Ministrou
(SEDUC-TO), foi quem implantou de Matriz Africana (FONSANPOTMA) Participante do Projeto Onã Ewê vários cursos e oficinas como
o Ensino Médio e o curso de e a Associação Nacional da Moda “O caminho das folhas no terreiro terapeuta holística, cursos e
Magistério Indígena e realizou o 1º Afro-Brasileira (ANAMAB). Desde das Religiões de Matriz Africana oficinas de agroecologia, oficinas
Inventário Sociocultural dos Povos 2017, atua como Diretora de na Região Metropolitana de de benzeção, comidas tradicionais
Indígenas desse estado. Hoje, Políticas para a Igualdade Racial da Belo Horizonte”. Palestrante na e exerce a função de Coordenadora
trabalha na Federação do Povo Secretaria Municipal de Assistência Oficina de Agroecologia Saberes Pedagógica na Majú Escola dos
Huni Kui do Estado do Acre. Social, Segurança Alimentar e Tradicionais: Ciência, Técnica e Saberes Tradicionais e Terapias
Cidadania da Prefeitura de Belo Tecnologia 2018. Palestrante no Holísticas, no Núcleo de Estudos
Horizonte. Ciclo de Encontro: Saberes do em Agroecologia Oca Tokma Kahap,
Quintal 2019. na Associação de Terapeutas
das Culturas Tradicionais. Tem
ampla experiência em Educação
Intercultural, Educação do Campo,
Educação Popular e Educação
Ambiental, com enfoque em
metodologias participativas
voltadas para a sensibilização e o
resgate de práticas terapêuticas
tradicionais.

14 15
COLABORADORES
NÁDIA AKAWÃ ODAIR PAI RICARDO ROSANE PRUDENTE SIDNEY TI ODÈ
TUPINAMBÁ PATAXÓ DE MOURA THIOUNE (PAI SIDNEY)

Pedagoga autodidata, Mbo’esara Perfil profissional e experiências em Mestre Ricardo de Moura coordena Mestranda em Cultura e Graduado em Filosofia, é Babalorixá
(educadora indígena), mulher Agroecologia e Produção Orgânica: a Associação de Resistência Sociedade no Pós-Cultura pela Sidney de Oxossi, do terreiro Ilê
medicina, conselheira espiritual e Odair Pataxó possui formação em Cultural Afro-Brasileira Casa de Universidade Federal da Bahia e Wopo Olojukan, no bairro Aarão
militante do movimento Indígena. Holística de Base, Ecologia Integral Caridade Pai Jacob do Oriente licenciada em Língua Portuguesa Reis, em Belo Horizonte. Fundado
Conduz rituais de cura, vivências pela Universidade Internacional (CCPJO), que atua desde 1966 e Literaturas, pela Universidade por Carlos Olojukan, em 1964, foi o
xamânicas, retiros espirituais e da Paz e outros diversos cursos no complexo da Pedreira Prado Estadual da Bahia. Atua com primeiro terreiro a ser reconhecido
círculos sagrados para mulheres. nas áreas de Terapias Holísticas, Lopes, em Belo Horizonte (MG). É educação, arte, cultura e memória, como Patrimônio Cultural do
É Membro da Comissão Executiva Agrobiodiversidade e Agroecologia. Rei Congo da Guarda de São Jorge priorizando os temas “migração” e Município, em 1995. Homenageado
do Fórum Estadual em Educação É especialista em Espiral de Ervas de Nossa Senhora do Rosário, no “estudos culturais e linguísticos”. na “Quilombos urbanos, fé e
Escolar Indígena (Forumeiba) e Sagradas. Ministrou vários cursos bairro Concórdia (BH-MG). Atua Ministra aulas de letramento cultura: Mostra CineAfroBH
da Comissão de implantação da e oficinas como guardião da na diretoria do Centro Nacional pedagógico, literário e cultural homenageia mestres populares”,
Proposta Curricular da Licenciatura semente crioula e de construção de Africanidade e Resistência em escolas de ensino básico, em 2019. Em diversas palestras
Intercultural em Educação Escolar de espiral de ervas agroecológico. Afro-Brasileira (CENARAB), médio e universitário. Como proferidas em várias partes do
Indígena, na Universidade Estadual É da equipe de coordenação do instituição parceira da Secretaria produtora cultural, prioriza as Brasil, aborda especificidades
da Bahia, onde é Licenciada em Núcleo de Estudos em Agroecologia de Políticas de Promoção da áreas de música, dança, artes históricas, filosóficas e culturais da
Artes e Linguagens. Atualmente Oca Tokma Kahap. É membro Igualdade Racial (SEPPIR) que cênicas e visuais focadas nas religião do Candomblé.
contribui na formação de da equipe de coordenação do visa fortalecer as comunidades culturas brasileiras. Participa do
professores no projeto Saberes Centro Agroecológico Tamanduá. tradicionais e combater o racismo planejamento da ação cultural,
Indígenas nas Escolas Indígenas. Participa da elaboração de comidas e a intolerância religiosa. É também educativa e de direitos humanos da
sagradas, tem ampla experiência presidente do Comitê Gestor Casa das Culturas do Senegal.
em Educação Intercultural, Estadual responsável pela Ação
Educação do Campo, Educação de Distribuição de Alimentos para
Popular e Educação Ambiental. Povos e Comunidades Tradicionais
de Matriz Africana (ADA). No
Conselho Municipal da Promoção
da Igualdade Racial (COMPIR),
Pai Ricardo é representante da
Umbanda. Mestre professor do
Curso de Formação Transversal
em Saberes Tradicionais da
Universidade Federal de Minas
Gerais (UFMG), ministrou um dos
módulos da disciplina “Catar folhas:
saberes e fazeres do povo de axé”
nos anos de 2016 e 2017.

16 17
COLABORADORES
SUELI TIAGO PAULINO SALES VANDA YONE MARIA
CONCEIÇÃO (IBÃ HUNI KUIN) MACHADO GONZAGA

Graduada em Ciências Biológicas Morador da aldeia Novo Natal, Graduada em História pela Graduada em Letras, Mestre
com especialização em Gestão localizada na Terra Indígena Universidade Católica do Salvador, e Doutora em Educação pela
Ambiental pela Universidade Kaxinawá do Rio Jordão, no Mestre e Doutora em Educação Universidade Federal de Minas
Católica do Salvador. Mestre em Estado do Acre. Gestor do Parque pela Universidade Federal da Bahia. Gerais. Foi Superintendente de
Estudos Étnicos e Africanos pela de Medicinas Txaná Banê e Sua trajetória acadêmica é dedicada Políticas Afirmativas e Articulação
Universidade Federal da Bahia e pesquisador das medicinas da à Educação Etnicorraciais, currículo Institucional da Secretaria de
Doutora em Desenvolvimento e floresta e psicologia da floresta. e cultura. Criadora e coordenadora Estado de Direitos Humanos,
Meio Ambiente pela Universidade Embora muito jovem, atua como do Projeto Político Pedagógico Irê Participação Social e Cidadania.
Estadual de Santa Cruz. Coordenou pajé na Aldeia Novo Natal. Em Ayó, na Escola Eugenia Anna dos Com extensa experiência na
o projeto RHOL – Rede de Hortos 2014, deu início a um trabalho de Santos, no Ilê Axé Opô Afonjá, e em área de Educação, tem atuado
de Plantas Medicinais e litúrgicas. coordenação dos jovens pajés na outras comunidades quilombolas. na discussão de temas como
Atuou, em 2012, como Consultora Terra Indígena. Destaca-se também Criou e coordenou, também, o “gestão”, “relações e diversidade
do Programa das Nações Unidas sua participação na autoria Projeto Capoeira Educação para a étnico-raciais”, “políticas públicas”
para o Desenvolvimento (PNUD) indígena coletiva no projeto Una Paz – Formação para Capoeiristas e “Direitos Humanos”. Atualmente
no Brasil, executando o Projeto Shubu Hiwea: Livro Escola Viva Educadores (Lei 10.639/03), no vem atuando no debate sobre o
de mapeamento de áreas do povo Huni Kuin do rio Jordão, Forte de Santo Antônio Além do impacto das políticas de afirmação
com potencial produtivo para próximo à fronteira com o Peru. Carmo, Instituto do Patrimônio na entrada e permanência de
cultivo de plantas medicinais e Esse projeto, de transmissão e Artístico e Cultural, Secretaria de negras e negros nas universidades.
litúrgicas das religiões de matriz fortalecimento da cultura Huni Estado de Cultura e Turismo (IPAC/ Atua como Consultora de Relações
africana em territórios na Região Kuin, envolve 3 mil pessoas das 36 SECULT). Étnico-Raciais e de Gênero,
Metropolitana de Salvador. Foi aldeias nos rios Jordão e Tarauacá desenvolvendo formação para
responsável pela elaboração do e já se estendeu a outras terras gestores, docentes, movimentos
Plano Socioambiental e Sustentável indígenas Huni Kuin do Acre. sociais e empresas corporativas.
(PLANSES), de 14 comunidades
quilombolas da Chapada
Diamantina. Coordenou o Projeto
de Agentes Voluntários das Águas
(AVA), em comunidades indígenas
Pataxós no Extremo Sul da Bahia.
Coordenou o Projeto de Extensão
Pedagógica Band’Erê, da Associação
cultural e Bloco Carnavalesco Ilê
Aiyê.

18 19
1
Os povos tradicionais e o contexto urbano
A VIDA NO CONTEXTO URBANO – ILUSÃO OU 1
REALIDADE PARA O INDÍGENA?
JOANA MUNDURUKU

As cidades invadiram nossos Quantos sonhos e inverdades estão teresses político-econômicos, pelos
territórios, e aos poucos fomos inclusos nessa frase, que reflete o quais se expressam claramente o

Os povos tradicionais
empurrados para o interior das pensamento de muitos indígenas, preconceito, o racismo e o desejo de
matas, e agora a cidade, a “casa de mesmo sem generalizar. A cidade integrar o indígena a uma sociedade
vidro”, se tornou a ilha da fantasia, se torna um polo de atração e de cujo lema predominante é o de uma
oferecendo melhores “condições expulsão de suas aldeias. Atraídos, “cultura patriota sem identidade”, a

e o contexto urbano e melhoria de vida”, gerando uma


falsa ilusão no imaginário indígena.
iludidos, somando-se a essas outras
razões, eles deixam seus territórios
e migram para a cidade, a “casa de
qual, claramente, desconhece os va-
lores que humanizam e promovem
a empatia social. O termo “integra-
Joana Munduruku vidro”, onde passam a viver invisí- ção” não cabe mais no pensamento
veis, social e politicamente falando. indígena, pois ele já foi abolido pela
Realidade essa que requer atenção atual Constituição Brasileira. Palavra
e debate, por parte dos órgãos go- com significado de “tornar o indíge-
vernamentais e não governamen- na assimilado pela sociedade do
tais, propondo uma reelaboração não indígena”, desconsiderando os
das políticas públicas que contem- povos que já estavam aqui quando
ple os indígenas que estão no con- o conquistador chegou trazendo e
texto urbano. impondo uma nova forma de vida
e nem sequer perguntando aos ha-
Este texto propõe partilhar a visão bitantes do lugar se queriam fazer
que os indígenas têm da cidade, parte de tal processo. Procedimento
que os atrai e gera ilusões de po- que continua a ser utilizado, com o
Tema abrangente a partir do qual se derem construir um novo plano de discurso de “dar oportunidade” aos
pretende refletir sobre a dinâmica, as vida, com moradia própria, saúde e povos de destruírem as florestas e
disputas e as identidades associadas à educação. De pensar que, por onde serem grandes produtores, e quem
prática e à vivência dos saberes tradi- passaram, os povos indígenas, os se opõe a isso tem seus territórios
cionais no meio urbano. negros trazidos de outro continente invadidos, é morto e enfrenta di-
e realidade e as comunidades tradi- versas formas de represálias, para,
cionais contribuíram com sua his- assim, desistir de tudo o que repre-
tória, seus conhecimentos e cons- senta e até de sua identidade.
truíram o patrimônio cultural e a
memória histórica desse país. Na década de 1940, a história bra-
sileira registra um grande movimen-
Partimos do princípio de que a Cons- to de migração do Nordeste para
tituição Brasileira de 1988 reconhe- o Sul, que sutilmente foi direciona-
ce e garante aos povos indígenas o do aos chamados “espaços vagos”
direito de serem reconhecidos nas das regiões do Centro-Oeste e da
suas formas de organização social, Amazônia. Pensamento alimentado
na sua forma de vida, e o direito pelo discurso getulista do vazio de-
aos territórios que ocupam. Direitos mográfico e que incentivava a ex-
20 esses que hoje estão sendo desres- ploração extrativista da floresta e a 21
peitados e anulados diante dos in- mineração, numa ação sutil e disfar-
Foto RICARDO LAF

Os povos tradicionais e o contexto urbano


çada que hoje claramente demons- origem. Claramente se nota a influ- e quantitativos referentes aos que mos indígenas, que passam a convi- genas, atraídos pelas cores e os de-
tra o interesse real dos governantes ência dos nawa (não indígenas), seja vivem nas cidades. Por outro lado, a ver com o conflito de identidade e o senhos (grafismos), que identificam
brasileiros de empurrar para longe na forma de falar, seja nas atitudes presença de indígenas no contexto questionamento de pertencimento sua visão do meio em que vivem.
dos grandes centros populações e formas de ver o outro. urbano contribui também para aflo- ou não a esse ou aquele lugar, ao Nesse ambiente em que o canto, a
que “geravam pobreza”. Os povos rar, no imaginário social não indíge- espaço urbano ou a um território ét- dança, a caça, o plantar e todas as
indígenas e tradicionais que viviam De acordo com Albuquerque (AL- na, a ideia de que nas aldeias eles nico, um assunto que ainda requer ações realizadas têm razão de ser,
nesses vazios eram “invisíveis”. No BUQUERQUE, 2011) e Nakashima estariam mais seguros e com mais discussão referente à identidade e nada é aleatório. Assim, como histó-
entanto, somente nos anos de 1960, (NAKASHIMA, 2009), que estudam garantia de qualidade de vida, rea- ao pertencimento a um lugar. ria de sua origem e trajetória, elas se
as migrações indígenas da aldeia a situação dos indígenas que vivem lidade que esconde a situação que explicam numa conjuntura espiritu-
para as cidades ficaram mais visíveis nas cidades, a expressão “índios de- paira como ameaça velada sobre Os indígenas que decidem sair de al que as tornam sagradas.
e passaram a chamar a atenção de saldeados” não pode ser conside- essas populações e seus territórios. sua comunidade e migram para a
pesquisadores, que se debruçaram rada, por não ter fundamentação A falta de segurança nas aldeias, cidade levam consigo um território A política pública direcionada a
em estudar as razões que levaram a comprovada para explicar as razões consideradas um espaço geográfico pessoal, as memórias onde estão promover a salvaguarda dos bens
acontecer esse movimento, embora dessa questão, a qual consideram protegido pela União, sob a tutela do depositados todos os conhecimen- patrimoniais, materiais e imateriais
nos registros históricos dos povos complexa e que são necessárias órgão indigenista criado para esse tos acumulados e as suas práticas ainda demanda uma metodologia
sempre tenham ocorrido essas mo- mais pesquisas a respeito dela. A ci- fim (a Funai), mas que hoje perdeu tradicionais. Patrimônio coletivo cul- específica que entenda e atenda o 1
vimentações. dade nega aos indígenas os seus di- sua autonomia, influencia na busca tural imaterial que abrange todas as pensar do patrimônio cultural in-
reitos como cidadãos, definindo que de um lugar mais seguro. formas de expressão de cada cultu- dígena. Uma metodologia que pro-
Em suas pesquisas, Cardoso de Oli- a casa de vidro não é seu território, ra considerando a diferença de cada porcione compreender com mais
veira (CARDOSO DE OLIVEIRA, 1968) pois o poder pertence a outros e, No entanto, somente na Consti- um e sua realidade, cujos valores e clareza o que é “patrimônio cultu-
aponta que a presença de popula- nesse contexto do imaginário social, tuição de 1988 é que os indígenas, saberes são resultado de um legado ral” e “salvaguarda”. Como aplicar
ções indígenas vivendo no espaço se reflete claramente a posição de representados por seus líderes, coletivo herdado ao longo de sua esse instrumento de proteção aos
da cidade pode ser registrada desde poder e dominação dos que negam tiveram a autonomia de estabele- vida, o qual, intrinsicamente, funda- conhecimentos tradicionais dos po-
o ano de 1920. Ressaltando como aos indígenas seu direito a ocupar cer prerrogativas que garantissem menta a sua identidade cultural. vos indígenas, povos tradicionais,
motivo o fato de buscarem oportu- esse território. o direito de proteção territorial no afrodescendentes e de terreiros, se
nidades de trabalho e possibilitarem decorrer da elaboração desse docu- Falar em bens culturais dos povos na cosmovisão de cada uma dessas
a seus filhos a escolarização, ou seja, O fato de não existirem políticas pú- mento oficial. Apesar disso, no con- indígenas e demais povos e comu- culturas não existe a dissociação do
que pudessem estudar em “boas es- blicas que amparem as populações texto político brasileiro, tudo isso se nidades tradicionais é considerar espiritual dos outros aspectos da
colas”, uma ideia que foge à realida- indígenas no contexto urbano pode tornou apenas palavras escritas no como estes se organizam como so- vida (da ordem do corpo, da alma,
de do que consideram como “boas”, ser entendido como uma estratégia papel e que não encontram eco na ciedade, a maneira como expressam dos pensamentos, atitudes e senti-
comparando com a escola da aldeia, para manter esses povos invisíveis sociedade brasileira. Esses direitos a cosmovisão de sua origem e vivên- mentos)? Portanto, vejo como ur-
que acreditam que não oferece essa e de alguma forma silenciados; visí- não estão sendo cumpridos pelo Go- cia. De serem respeitados como de- gente a necessidade da construção
possibilidade, assunto em discussão veis no contexto urbano e rural ape- verno Federal, que em seu discurso tentores dos conhecimentos e guar- de práticas que permitam que esses
contínua quando se trata de educa- nas no decorrer do período eleito- coloca os territórios e seus habitan- diões e sabedores do manejo e uso povos sejam, de fato, os protagonis-
ção escolar indígena, que ainda não ral ou quando precisam de vitrines tes como alvos de ataques e motiva das plantas medicinais existentes tas, como proponentes, pesquisado-
conseguiu avançar, em decorrência culturais étnicas, de acordo com os a invasão e dizimação dos povos in- na floresta, de sua utilização com res e produtores dos conhecimen-
da visão e desconsideração por par- seus interesses sociais e políticos. dígenas e das florestas. Fator esse sabedoria pelos pajés responsáveis tos e documentos necessários para
te dos que estão à frente desse pro- Na sociedade da casa de vidro, os que também provoca esse desloca- em cuidar da espiritualidade da co- o processo de salvaguarda dos seus
cesso nesse Brasil de muitos brasis. indígenas têm apenas o direito de mento para fora de suas aldeias. munidade para que não se percam bens culturais, e não, simplesmente,
buscar sua autonomia. Autonomia esses conhecimentos. Entender que aqueles que se adequam a um mo-
As cidades para os indígenas são essa que lhes concede o direito de A princípio, os indígenas são vistos nessa realidade está definido o pa- delo pré-existente.
comparadas a uma casa de vidro, escolher e direcionar sua trajetória como problema populacional e so- pel de cada ator, como o das mulhe-
porque mostram, como uma vitri- de vida: retornar às suas origens, ca- cial de pobreza, sem capacidade su- res, reconhecidas como as mestras O Instituto do Patrimônio Histórico
ne, inúmeras oportunidades que os minhar na trilha dos seus ancestrais, ficiente para serem absorvidos pelo e agentes culturais que transmitem e Artístico Nacional (IPHAN), órgão
atrai, fazendo-os acreditarem que recuperando as antigas práticas cul- mercado de trabalho de alto padrão, no cotidiano o saber fazer a arte de responsável em incentivar a salva-
são bem-vindos e serão imediata- turais, ou continuar a viver na cida- por serem caracterizados como “pre- tecer os fios, formando os panos, os guarda do patrimônio cultural, tem
mente inseridos nessa nova realida- de, na permanente adaptação para guiçosos e indolentes”, visão que se cestos; manipular o barro, transfor- voltado seu interesse em ajudar os
de. Porém, aos poucos se dão conta garantir a sobrevivência. Na casa de tornou um estigma na memória so- mando-o em peças de cerâmicas; povos indígenas e demais comuni-
de que a realidade é diferente do vidro, as ideias de homogeneização, cial não indígena, favorecendo que fazer as coletas e o manejo das se- dades tradicionais a identificarem o
que pensavam: não são acolhidos subalternização e uniformização sejam considerados apenas mão de mentes e miçangas que vão sendo patrimônio que consideram neces-
como parte dessa sociedade, come- impostas pela colonialidade são obra de serviços braçais e de pouco transformadas em “semijoias” in- sário ser protegido. Essa iniciativa
çando pela moradia, que os impele marcadas pelas relações de saber e valor. Os que permanecem nos ter- dígenas, apreciadas pelos não indí- do IPHAN tem despertado o interes-
a morar nas periferias, em precárias poder. ritórios e na floresta também já es-
condições e má qualidade de vida, tão sendo considerados como “im-
expostos a todo tipo de violência, Ainda compondo e fortalecendo a pedimento” ao desenvolvimento do
e, de maneira jocosa, são identifica- relação de dominação está a ques- chamado “agronegócio”, proposta
dos como índios urbanos, índios da tão do censo, realizado pelo IBGE, que ultimamente está soando como
cidade, índios NA cidade e, recente- que a partir de 1961 passou a utili- o canto da Iara (lenda amazônica da As memórias, os conhecimentos e o espiritual são um patrimônio imaterial
mente, “desaldeados” (sem aldeia). zar a palavra “indígena”, incluída no Mãe d’água) nos ouvidos de alguns indissociável e pessoal. Esse é um jardim que cada pessoa traz consigo e que
Termo que infelizmente já está sen- censo populacional como identifica- povos dispostos a aderir à novida- para se manter vivo precisa ser útil aos outros, porque, do contrário, perderá
do adotado pelos outros indígenas, ção de cor e raça. Desde então, os de, embalados pela ilusão de se- a razão de ser, pois, dessa maneira, se acaba a alma, o espírito fenece e o
que passam a considerar os que sa- indígenas aparecem no resultado rem iguais e terem o mesmo poder sagrado desaparece.
22 íram para a cidade como não mais do censo, mesmo que deixem dúvi- de aquisição que os não indígenas, 23
participante de sua comunidade de das quanto à veracidade dos dados possibilidade oferecida a pouquíssi- Joana Munduruku
Os povos tradicionais e o contexto urbano
OS POVOS TRADICIONAIS 1
E O CONTEXTO URBANO
MAKOTA CELINHA GONÇALVES

se dos indígenas e demais grupos e (...) sabemos que nossos passos vêm Belo Horizonte (BH), como a maio- nos, antes desenhados, ficaram per-
comunidades tradicionais de refle- de longe, e onde pisamos, sabemos, ria das cidades do nosso país, sofre didos nos traçados de sua periferia,
tirem sobre a importância de eles REFERÊNCIAS já foi pisado. E pisado por alguém as consequências do crescimento nos bairros não planejados.
protegerem seu patrimônio cultural. que generosamente dividiu conosco desordenado, de uma arquitetu-
Considerando-se ser um assunto seus saberes, sua tradição, e nos ra que não leva em consideração E nessa confusão de geografias, ar-
muito recente, é imprescindível criar ensinou a ser resistentes, resilientes, os espaços comuns. E nada é mais quiteturas e assimetrias modernas,
uma metodologia que os informe, e a nos reinventarmos, e a “re- perverso para a tradição popular esvaíram-se os espaços de convi-
os sensibilize e promova a conscien- rezar”. Alguém que nos deixou a fé. do que se ver espremida entre ar- vência coletiva, de parques e jardins.
tização, respeitando-se a realidade ranha-céus, sem espaço para suas A poesia das periferias dá lugar à so-
cultural de cada um, de maneira que CARDOSO DE OLIVEIRA, Roberto. Makota Celinha Gonçalves práticas populares. lidão da vida na cidade grande. BH
se assumam primeiramente como Urbanização e tribalismo: a perdeu seu ar de cidade interiorana,
os principais protetores de seus integração dos índios Terena numa Pensar a noção de território, de da roça grande de nossas infâncias.
bens culturais e detentores do po- sociedade de classe. Rio de Janeiro: identidades e práticas culturais em E nesse emaranhado de reconstru-
der de identificar e definir os bens Jorge Zahar, 1968. cidades como Belo Horizonte é de- ções sociais e urbanas, também se
que devem ser patrimonializados, safiante, pois BH é uma metrópole foram os espaços de nossos jardins,
levando em conta sua representati- ALBUQUERQUE, Marcos Alexandre que, mesmo tendo sido planejada de nossas hortas, das flores que co-
vidade para o seu povo. dos Santos. O regime imagético em sua fundação, perdeu esse pla- loriram nossas andanças juvenis.
Pankararu: tradução intercultural nejamento no crescimento de sua Resgatar esses espaços é funda-
Observando acuradamente os espa- na cidade de São Paulo. 2011. 422 f. urbanidade, no seu aumento popu- mental para pensarmos nossas vi-
ços físicos da cidade, é perceptível a Tese (Doutorado em Antropologia) lacional. Além do que, ao pensar a das e vivências coletivas.
presença dos patrimônios culturais – Centro de Filosofia e Ciências cidade, seus planejadores e futuros
deixados pelos povos indígenas e Humanas, Universidade Federal de construtores não levaram em con- Os povos tradicionais tiveram e
comunidades tradicionais que vive- Santa Catarina, Florianópolis, 2011. sideração que, já naquela época, a têm uma relação com a noção de
ram, e muitos ainda vivem, nesses cidade era portadora de vasta diver- território visceralmente ligado com
lugares, onde ainda estão presen- NAKASHIMA, Edson Yukio. Reatando sidade populacional, social e econô- o próprio viver. E nas construções
tes, mas sem valorização, por falta as pontas da rama: a inserção dos mica. Em seu modelo higienista, “es- sociais modernas essa relação nun-
de conhecimento, marcas e memó- alunos da etnia indígena Pankararu queceram” de prever local para que ca foi levada em consideração. Os
rias, como as das plantas, desde as em uma escola pública na cidade de os trabalhadores que construíram a indígenas tiveram seus territórios
usadas para a alimentação, a cura, São Paulo. 2009. 246 f. Dissertação capital de Minas Gerais pudessem delimitados e planejados por quem
até as relacionadas à energia espi- (Mestrado em Educação) – Faculdade morar, restando a eles a formação nestes nunca viveram, foram re-
ritual que mantém o elo com o eu de Educação, Universidade de São de aglomerados, vilas e favelas para duzidos a pequenas aldeias, numa
interior em permanente comunica- Paulo, São Paulo, 2009. ali residirem. BH foi planejada para inversão total da noção que esses
ção com o Ser divino. As memórias, excluir a diversidade e a cultura, povos têm da relação diária com
os conhecimentos e o espiritual são principalmente quando se planeja seus territórios, e ainda vivem ame-
um patrimônio imaterial indissociá- a supressão do Curral Del Rey, com açados por invasões e depredações
vel e pessoal. Esse é um jardim que seus traços e referências identitá- de seus territórios.
cada pessoa traz consigo e que para rias e culturais do povo negro, que
se manter vivo precisa ser útil aos ali resistiam ao tempo. E os espaços Os negros, esses nem mesmo aces-
outros, porque, do contrário, perde- antes pensados como espaços co- so à terra tiveram. E hoje vivem aglo-
rá a razão de ser, pois, dessa manei- muns foram se perdendo em meio merados em comunidades, vilas e
24 ra, se acaba a alma, o espírito fenece ao cimento armado e ao concreto favelas país afora. Seus territórios 25
e o sagrado desaparece. de seus arranha-céus. E seus contor- sagrados praticamente inexistem,
Os povos tradicionais e o contexto urbano
mas conosco veio esta teimosa ma- e experimentar a vida a partir da adaptar a essa cidade de concreto
nia de resistir, de se refazer, de se nossa compreensão de mundo, que armado, que teima em fingir que
reinventar para continuar a rezar. realmente é muito própria da nossa não existimos aqui.
E esse rezar exige de nós, todos os tradição herdada da África. E quan-
dias, novos e instigantes desafios e, do nascemos nesta tradição apren- As adversidades encontradas no pe-
o mais complexo destes, o de orga- demos formas de ver, viver e lidar ríodo colonialista e escravocrata em
nizar nosso sagrado, respeitando cotidianamente com nossa huma- nosso país nos forjaram e nos lega-
nossas limitações físicas e geográ- nidade, de um jeito todo próprio de ram essa forma toda nossa de cul-
ficas em centros urbanos que não ser africanos na diáspora. Uma tra- tuar o sagrado. Se na África havia os
nos reconhecem. Que não enten- dição em que nunca se está pronto, rios sagrados, as florestas encanta-
dem nossas formas peculiares de sempre há algo a se aprender, pois das, nas escuras e fétidas senzalas,
celebrar e reverenciar. E que, ainda o todo é muito. Assim como a verda- a prática religiosa dos escravizados
assim, nas brumas da ignorância, de não é única, mas se encontra em teve que se adaptar para continuar
optam pelo caminho mais fácil de cada pedaço do espelho da verdade a existir. Para nós, praticantes dessa
nos discriminar. espalhado pelo mundo. religião ancestral e milenar, a rela-
ção com a natureza e o que ela en- 1
Mas mesmo assim mantemos viva a E por sermos assim é que sabemos cerra é a nossa garantia de vida. O
ideia de quais sejam nossos territó- que nossos passos vêm de longe, e que para muitos pode parecer sem
rios, ainda que em condições adver- onde pisamos, sabemos, já foi pi- nexo, banal, excentricidade, para
sas. E sobre essa nossa relação com sado. E pisado por alguém que ge- nós significa a integração entre o
nosso território, tenho a dizer que, nerosamente dividiu conosco seus homem e o sagrado.
em nossa tradição de matriz africa- saberes, sua tradição, e nos ensinou
na, entendemos como territórios e a ser resistentes, resilientes, e a nos De uma folha, de um pote com
espaços sagrados os locais onde nos reinventarmos, e a “re-rezar”. Al- água, de uma imposição das mãos,
organizamos e rezamos, cantamos guém que nos deixou a fé. retiramos uma lição, uma sauda-
e comemos, celebramos e reveren- ção, uma bendição. Somos dife-
ciamos um modo particular de ver E quando falo em ensinar a re-rezar, rentes, sim; todos nós o somos em Foto RICARDO LAF
e viver a vida. Onde nossa identida- falo de “ressignificar”, na adversida- nossa humanidade única, própria
de se faz presente nos mais simples de da diáspora, um sagrado, uma de filho dileto de um ser superior.
símbolos, espaços que representam filosofia, uma cosmovisão, uma fé, O que nos diferencia é a forma de existe uma única metade de nada, Nesses espaços, nossos olhos e co-
nossa história de resistência, de bus- uma tradição. Que se em África ti- louvar, de rezar, de encarar e de mas duas metades de um todo que, rações são únicos e parte de um
ca pelo direito inalienável de que se nha uma organização, uma forma perceber o outro como um todo, o quando juntas, formam um todo todo ancestral. Um não existe sem o
respeite nosso direito constitucional de se dar, na senzala ela precisou que não dá direito a quem quer que complexo e perfeito. outro, pois o olhar ancestral e o co-
à liberdade religiosa. ser ressignificada para não se per- seja de nos discriminar. ração palpitam juntos, na busca pela
der no vão do espaço geográfico Nossos quintais, nossos Terreiros, preservação do sagrado. Nossas fo-
Nossas comunidades são a mais fiel causado pela viagem transatlântica. Em nossos templos, o significado são espaços sagrados e de muito lhas, nossas ervas, nosso verde fa-
expressão de uma realidade perver- E hoje somos nós os herdeiros des- de cada canto, de cada artefato, de significado. Nesses espaços, que zem parte de nosso todo. E é preciso
sa que nos acompanha em nossa sa sabedoria única de se reinventar cada enfeite ali colocado é um pe- tanto significam para nós, há vida, fazer a cidade entender que nossa
trajetória de homens e mulheres para viver e resistir. daço de nosso saber ancestral. São há energia, há saúde e espirituali- existência enquanto tradição depen-
negros na diáspora brasileira. Nos- elos de um conhecimento, de uma dade. Nossos jardins sagrados têm de da natureza, que para nós não
sos Terreiros são espaços onde se E com o passar dos anos, cá esta- tradição. Onde muitos não veem ló- neles, plantadas, vida, energia, fon- foi, não é e nunca será mercadoria.
estabelece um templo de matriz mos, resilientes, resistentes, ten- gica, vemos vida, vemos a natureza te de saúde e de uma relação pró- Belo Horizonte dá um passo à frente
africana, que encerra em si formas e tando conviver com uma prática re- que explode em miríades de possi- pria de fé. Ali, há vida que se disse- nesse reconhecimento, pensando a
modos de se ver e se viver a concep- ligiosa como a nossa, que, no meio bilidades; possibilidades de compre- mina em milhares de outras vidas, construção de espaços alternativos
ção de matriz africana com toda sua urbano, não é fácil. Porque a cidade ensão de que a natureza nos dá a de outras possibilidades. Por isso a onde se pode cultivar vida e saúde, a
cosmovisão; onde a prática religiosa nos expulsa, com suas tecnologias solução de tudo, de todos os males, importância de se resgatar, na cida- partir de um olhar sensível de quem
é o reflexo de um modo próprio de modernas, com sua arquitetura que de todas as dores, e também nos de, espaços onde possamos ressig- sabe que, sem esse conceito de va-
ver o mundo e suas relações que se não nos considera, com seu Plano fornece a felicidade, a alegria de ser- nificar a nossa cosmovisão de mun- lorização e resgate da natureza, do
estendem para um todo, ainda que Diretor que não nos reconhece. E vi- mos partes de um todo. do, centrado e entremeado com a sagrado, há uma ameaça real à vida
dicotomizado em função de uma re- ver isso cotidianamente é desuma- natureza. objetiva e subjetiva de centenas de
alidade histórica que tem na coloni- nizante, pois nos nega em essência, Nos significantes e significados pre- pessoas. Afinal, se se mata a folha,
zação e na escravidão de homens e em subjetividade. sentes no templo de natureza afri- Na concepção de mundo que defen- se mata um Orixá.
mulheres arrancados do continente cana, onde muitos verão apenas do e vivencio, nada somos se não re-
africano sua principal causa e efeito. Oxalá nossas casas tivessem a co- coisas desconexas, vemos o prin- conhecemos o que nos antecedeu, o
bertura da copa das árvores, nos- cípio fundante de nossa tradição. que nos é atual e o que nos será le-
Nossa relação com o sagrado, ali, sos quintais espaços para plantar Ali há vida, há morte, há saúde, há gado por gerações futuras. Por isso,
se faz de forma completa, e quando o sagrado, local onde nossas er- doença, há paz, há guerra, há ale- nossa compreensão de sagrado vai
digo sagrado, faço-o com a tranqui- vas pudessem crescer e alimentar gria, há choro, há diversas humani- além do olhado, do visto e do sen-
lidade de alguém que tem, em sua o corpo e a alma. Onde pudésse- dades e, em toda essa diversidade, tido. Espaço sagrado é todo espaço
fé, uma forma toda própria de ver mos bebericar nossos chás, tomar há muitas possibilidades. Não en- onde nos organizamos e rezamos,
e perceber o mundo a sua volta, o nossos banhos de ervas frescas e caramos a encruzilhada como um cantamos e comemos, celebramos e
que, aliás, todos fazem, indepen- saudáveis. Mas não, nossa cidade fim em si mesmo, mas como pos- reverenciamos de um modo particu-
26 dentemente e a partir de sua fé. não compreende nossa tradição. E sibilidade de caminhos e alternati- lar nosso jeito de ver e viver a vida. 27
Nós temos nossa forma de vivenciar nós precisamos todos os dias nos vas. Em nossa visão de mundo, não
Os povos tradicionais e o contexto urbano
1
A comida tradicional nos evoca a
memória histórica dos ancestrais,
que produziam as comidas
ligadas ao Sagrado; assim, eles
nos deixaram de presente: o
fogão de lenha, o forno de lenha,
a casa de farinha. Fazer comida
é um movimento em espiral
que provoca uma revolução
cultural, pois a comida é a maior
necessidade dos seres humanos
no mundo.

MAYÔ PATAXÓ
Foto RICARDO LAF

28 29
V i v ê n c i a : t r a d i ç ã o q u e a l i m e n ta
TRADIÇÃO QUE 2
ALIMENTA
REDE DE INTERCÂMBIO DE TECNOLOGIAS ALTERNATIVAS,1
MAMETU OIACIBELECY (MÃE RITA),
MAYÔWEYNEHY PATAXÓ,
ODAIR PATAXÓ

A vivência “Tradição que alimenta” A continuidade da vivência no terri- uma energia vital positiva que se-
foi tecida a partir do diálogo entre tório do Seminário foi iniciada por rão oferecidos às entidades e com
a Secretaria Municipal de Cultura, a uma benção aos alimentos e pela os quais os iniciados entrarão em

Vivência:
Rede de Intercâmbio de Tecnologias manifestação cantada e falada das contato, somente são encontrados
Alternativas (REDE), Mayô Pataxó e etnias indígenas e de representan- na rede econômica e social gerada
Mametu Oiacibelecy (Mãe Rita). Ela tes dos povos de terreiro. Foi desta- em torno do povo de santo. A esta
teve por objetivo afirmar o alimento cada a dimensão sagrada do alimen- rede viva, intensa, personalizada e

Tradição que Alimenta e as comidas tradicionais como fun-


damentais na reprodução cultural e
dos costumes dos povos indígenas e
to, que nutre corpo e alma e cria
um elo com as forças da natureza,
os encantados, guias e orixás. Tam-
em plena expansão denominamos
“economia do axé”. Toda essa gigan-
tesca economia é simultaneamente
de terreiro, e como direito sagrado. bém foi pontuada a necessidade de troca e também monetarizada,
de salvaguardar os conhecimentos porém estimulando sempre, em to-
A vivência consistiu na confluência e tradicionais, a cultura alimentar e dos os casos, a relação direta, face a
na partilha de saberes e sabores, de conservar a biodiversidade. Em se- face, entre produtor e consumidor,
costumes e de ritos no preparo das guida, as comidas foram servidas e entre fornecedor e povo de santo.
comidas tradicionais. As comidas compartilhadas ao som dos toques Essa economia rica e complexa, de
oferecidas às/aos participantes do dos atabaques, maracás e cantos. escala nacional, valoriza a diversi-
Seminário foram feitas e consagra- dade das ocupações tradicionais,
das na casa da Mãe Rita, território Tainá Marajoara, em entrevista ce- dos ofícios, das artes, dos saberes,
sagrado, de forma compartilhada dida ao Brasil de Fato, fala sobre as da agricultura, do extrativismo e da
entre Mayô Pataxó, Mametu Oiaci- diversas dimensões a serem consi- pecuária familiares. Estimula, além
belecy (Mãe Rita), Nádia Tupinambá, deradas na perspectiva da cultura disso, a articulação da produção em
Odair Pataxó, Cleonice Pankararu, alimentar, e diz que ela “é o saber dinâmicas de circulação plasmadas
Isaka Huni Kuin, Tiago Huni Kuin, fazer os ritos, a ancestralidade, a em feiras e mercados não indus-
Ataíde, Clara, Cláudio e Laura. territorialidade, essa relação sensí- triais (BRASIL, 2011).
Partilha de alimentos, de saberes fala- vel com [o] alimento, seja ele na pro-
dos, tocados e cantados. Confluência Foram preparados o acaçá e o aluá, dução, no preparo, na plantação, na
entre os saberes e os sabores de po- comida e bebida tradicionais dos transmissão dessa memória alimen-
vos de terreiro e indígenas por meio povos de axé; a mandioca de sete tar, na identidade” (TAVEIRA, 2019).
de suas comidas tradicionais. Preten- ervas, o caldo de mandioca de sete
de-se afirmar o alimento como direito ervas com ora-pro-nóbis e a paço- Para a pesquisa “Alimento: direi-
sagrado desses povos e visibilizar que ca de jatobá, comidas sagradas do to sagrado”, os alimentos com axé,
seus costumes e modos de vida resis- povo indígena Pataxó. ou seja, os alimentos que possuem
tem à homogeneização das práticas
produtivas e dos hábitos alimentares,
ao empobrecimento e à industriali-
zação da comida. Diariamente, esses
povos, por meio de suas práticas cul-
turais, alimentam o sagrado, o corpo
e a alma, e colaboram no combate à 1
Aqui representada pelas colaboradoras/autoras Lorena Anahi Fernandes (formada em Ecologia, ativista da agroecologia e amante da terra, das
30 fome e na manutenção de territórios águas e do ar) e Laura Barroso Gomes (bióloga e técnica em meio ambiente que atua na Rede com a promoção da agroecologia e a defesa da 31
do “Bem Viver”. sociobiodiversidade).
V i v ê n c i a : t r a d i ç ã o q u e a l i m e n ta
SIGNIFICADOS PARA SIGNIFICADOS PARA
A REDE MAYÔ PATAXÓ
A Rede de Intercâmbio de Tecnolo-
gias Alternativas (REDE) é uma or-
A comida tradicional nos evoca a
memória histórica dos ancestrais,
culturais dos povos tradicionais. A
comida propicia empoderamento
A cozinha é o espaço que une a teia
da vida. Comida, sabores, cheiros,
2
ganização da sociedade civil, sem que produziam as comidas ligadas cultural, pois está ligada à diversida- temperos, prazer, alegria, partilha.
fins lucrativos, criada em 1986, que ao Sagrado; assim, eles nos deixa- de da convivência na sociedade. As- Isto não foi apenas uma vivência de
atua na construção da agroecolo- ram de presente: o fogão de lenha, sim, as comidas tradicionais passam comidas tradicionais, mas um ato
gia no campo e na cidade. Tem por o forno de lenha, a casa de farinha. a ser atos políticos, sociais e cultu- político para mostrarmos ao mundo
objetivo colaborar com o fortaleci- Fazer comida é um movimento em rais, nos impulsionando a sermos que estamos vivos, que temos uma
mento de iniciativas agroecológicas, espiral que provoca uma revolução corresponsáveis pela rede do siste- cultura alimentar muito viva e com-
principalmente nas dimensões da cultural, pois a comida é a maior ma alimentar. Dito de outro modo, prometida com a agroecologia e o
produção, da construção social de necessidade dos seres humanos a cozinha nos traz o fortalecimento Bem Viver dos povos tradicionais.
mercados e da organização popu- no mundo. Nesse sentido, quando de laços afetivos para salvaguardar
lar. Sua ação acontece junto a agri- comemos alimentos agroecológi- o território sagrado. Por meio de muitas mãos que plan-
cultoras(es) familiares e urbanas(os) cos da agricultura familiar, esta- taram, colheram e prepararam os
da região metropolitana de Belo mos fortalecendo a rede do Bem Nossa escolha alimentar demons- alimentos, nasce uma arte linda das
Horizonte e arredores e do Leste Viver dos povos tradicionais e o cui- tra nossa evolução cultural, no sen- comidas sagradas para comparti-
de Minas Gerais. A REDE afirma seu dado com o planeta Terra, ou seja, tido da ecologia individual, social e lhar vínculos de amor pela Terra,
compromisso com a luta dos povos com os sistemas agroalimentares ambiental. Na cultura ocidental, a que representam os laços de afeto e
e pela garantia de direitos que colo- tradicionais fortalecendo a rede da alimentação se torna mercadoria gratidão que temos por ela. A oferta
cam a reprodução da vida e o cuida- cultura alimentar. do capitalismo, se come para man- desses alimentos valoriza a agricul-
do com os bens comuns sempre à ter-se corpo. Tudo vira fast food tura familiar agroecológica, que car-
frente dos interesses econômicos e Segundo Célio Turino, no prefácio à (comida rápida) no processo de de- rega memórias históricas de vários
da exploração da natureza. versão brasileira da obra de Alberto pressão coletiva, pois não há tempo povos indígenas, quilombolas e de
Acosta (2011), para se preparar o alimento, já que terreiro. Essa construção coletiva
A REDE assumiu a articulação e o o mercado tem pressa. Perde-se o resulta em uma mesa com comidas
diálogo com as partes envolvidas […] o Bem Viver é uma filoso- afeto das relações de amizade na tradicionais indígenas e de terrei-
na construção da vivência, colabo- fia em construção, e universal, partilha dos alimentos. A industriali- ros e, portanto, numa diversidade
rou na promoção dos encontros, que parte da cosmologia e do zação dos alimentos e o intenso uso agroecológica. Ao vincular comida
na dinâmica e na aquisição de pro- modo de vida ameríndio, mas de agrotóxicos adoecem as pesso- com Jardim do Sagrado, estamos
dutos agroecológicos provenientes que está presente nas mais as e as desanimam de preparar os comunicando que nossa existência
da agricultura familiar e da agricul- diversas culturas. Está entre alimentos. Contudo, torna-se emer- perpassa complexos sistemas agro-
tura urbana. Assim, a maior parte nós, no Brasil, com o teko porã gente reinventar a agroecologia pelo alimentares de povos tradicionais.
dos alimentos utilizados na vivên- dos guaranis. Está também na viés da cozinha, onde os alimentos
cia tinha essas características e foi ética e na filosofia africana do agroecológicos são cuidados com o
ofertada por parceiras(os) da REDE, ubuntu – “eu sou porque nós toque dos campos das energias su-
da região metropolitana de Belo somos” (ACOSTA, 2011, p. 14). tis da afetividade.
Horizonte e do Leste de Minas. Foi
oferecida uma diversidade de pro- Ao pensar a história da cultura ali- A vivência trouxe a visibilidade da
dutos: mandioca, milho verde, ba- mentar dos povos tradicionais, é cozinha como território de encontro
nana, jatobá, manga, ervas frescas, emergente a partilha de saberes com nossas raízes ancestrais, como
alho, açafrão da terra, rapadura e numa dimensão simbólica dos ritos lugar de aconchego, alegria, parti-
farinha de mandioca. e rituais da comida das tradições. lha, encontro e afeto na corporeida-
Toda comida tradicional é carrega- de do preparo dos alimentos. Ela foi
da de rituais, mitos, símbolos, his- um espaço de empoderamento dos
tórias, narrativas culturais de povos nossos corpos e também de reco-
e comunidades tradicionais, me- nhecimento cultural. É um reconhe-
diante os seus costumes alimenta- cimento feito em mutirão na cozi-
res. Comer é ritual de cura por meio nha, no fogão a lenha. A panela de
do alimento sagrado, é momento barro sente a força do fogo sagrado
de profunda partilha de saberes, nos convidando a voltar às comidas
sabores e afeto. das tradições, purificando os corpos
em constante luta pelos direitos pri-
32 A cultura alimentar está intrinsi- mordiais, o direito à cultura e à so- 33
Fotos RICARDO LAF camente ligada às manifestações berania alimentar.
V i v ê n c i a : t r a d i ç ã o q u e a l i m e n ta
COMIDAS TRADICIONAIS DO SIGNIFICADOS PARA
VALE DO RIO DOCE MAMETU OIÁCIBELECY (MÃE RITA)
A mandioca sete ervas e o caldo de
mandioca com sete ervas e ora-pro-
cer as(os) guerreiras(os) para irem
para luta. No Vale do Rio Doce,
culturas indígenas e dos povos do
terreiro, cuja cosmologia ancestral é
A vivência realizada no âmbito do
Festival de Arte Negra (FAN) foi de
mental, físico e espiritual. nipulação de alimentos. Temos mé-
todos de esterilização tradicionais,
2
-nóbis são consagrados pelos povos preparamos várias comidas tradi- relatada como um alimento sagrado extrema importância para quebrar Nós temos horários para tudo e no modo de fazer a manipulação e
indígenas como “Mãe Oca”, a Mãe cionais para curar as doenças cau- aprendido por meio da tradição oral. a intolerância religiosa e o racismo, temos nossos cultos antes de ma- de servir esse alimento. Portanto,
que nos alimenta e cuida de nós sadas pela contaminação por me- As comidas tradicionais nos convo- pois as pessoas estão acostuma- nipular o alimento. Dentro da ma- em 2017, lançamos em Minas Gerais
através do ritual de cura sagrada. tais pesados em consequência do cam, chamam, para a formação de das a comer certas receitas, como triz africana, nós temos que estar a campanha “Tradição alimenta não
crime da Barragem de Mariana e educadores populares na cultura o angu e o mugunzá, mas não co- com nosso corpo físico, mental e violenta”, no Fórum Nacional de Se-
O ora-pro-nóbis é chamado por de Brumadinho, que levou à mor- alimentar e demais multiplicadores nhecem o fundamento daquelas espiritual limpo para manipular e gurança Alimentar e Nutricional dos
muitos povos tradicionais do Vale te do rio Watú e do rio Paraopeba. da filosofia do Bem Viver e da etno- comidas. compartilhar o alimento sagrado. A Povos Tradicionais de Matriz Africa-
do Rio Doce de “folha encantada Nesse contexto histórico, percebe- gastronomia, numa rede de fortale- gente tem que escolher o lugar e o na, com a presença da coordenação
que produz o ano todo, dá força e mos que as comidas sagradas que cimento das práticas de salvaguarda Nessa vivência, ofertamos o acaçá horário para pegar essas folhas, sa- de Segurança Alimentar de Belo Ho-
sangue forte”. Esta comida é símbo- curavam os escravos das doenças do patrimônio cultural das comidas e o aluá. O acaçá é feito de farinha ber o modo de tratar essas folhas e rizonte e representantes de povos
lo da união do povo Indígena e Afro- dos que trabalhavam nas minas de tradicionais. Além disso, reforçam a de canjica branca e é um alimento fazer a manipulação desse alimen- de matriz africana e quilombola.
-brasileiro, e carrega a memória da ouro hoje curam os atingidos pelo necessidade da construção partici- que serve a todos os inquices, vo- to. Também temos o cuidado com
nossa história, transmitida oralmen- rompimento dessas barragens. pativa de políticas públicas, protoco- duns e encantados. Ele alimenta e a criação dos animais e das plantas
te pelos nossos antepassados. Nas Gratidão aos nossos ancestrais por los comunitários bioculturais, junto nutre o Sagrado junto com nosso que depois ofertarmos com os in-
senzalas onde se fazia mineração salvaguardar as comidas sagradas! às comunidades tradicionais, com corpo físico. O aluá é uma bebida quices, para depois também com-
em Minas Gerais, morriam muitos A partilha da paçoca do jatobá nos seus conhecimentos e práticas ali- para purificar, que restaura nossas partilharmos com nosso corpo físi-
povos que vinham da África e indí- leva a refletir sobre a importância mentares ancestrais. energias físicas e espirituais, hidra- co e espiritual. Os povos de matriz
genas com tuberculose, pneumonia da cultura alimentar do povo Pata- ta e dá energia. africana também contribuem para o
e febres. Assim, essa comida ajuda- xó, para quem a farinha do jatobá Consagramos a mandioca! Consagra- comércio local, uma vez que, quan-
va a curar as doenças dessas pesso- evoca o cuidado da Terra com seus mos o ora-pro-nóbis! Consagramos o As pessoas precisam entender que do damos uma festa, compramos
as nas minas do ouro. filhos. O jatobá carrega em si a for- jatobá! Consagramos o milho! nós, povos de matriz africana, ofer- alimentos na/da nossa região.
ça da ancestralidade pela cura com tamos os alimentos aos inquices,
A paçoca de jatobá, comida indíge- suas folhas, cascas e frutos. Consagramos a cultura alimentar dos voduns e orixás, compartilhamos Os povos tradicionais de matriz afri-
na pataxó que quer dizer “paçoca povos tradicionais! esses alimentos entre nós, e eles, cana tiveram a preocupação de ter
da cura”, é um preparo de jatobá, Durante o preparo das comidas inquices, voduns e orixás, nos dão o um Fórum que nos atendesse, pois
banana e coco, sendo também tradicionais, realizamos a partilha retorno da cura, da saúde, do equi- já foram questionados a respeito
uma comida sagrada para fortale- de saberes sobre os alimentos das líbrio, da união, do fortalecimento dos seus métodos de higiene na ma-

REFERÊNCIAS

ACOSTA, Alberto. O Bem Viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos. Trad. Tadeu Breda. São Paulo:
Editora Elefante, 2011.

BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Alimento: direito sagrado. Pesquisa socioeconômica
e cultural de povos e comunidades tradicionais de terreiros. Organização de Luana Lazzeri Arantes e Monica
Rodrigues. Brasília: MDS; Secretaria de Avaliação e Gestão da Informação, 2011. Disponível em: <http://www4.
planalto.gov.br/consea/publicacoes/comportamento-e-cultura-alimentar/alimento-direito-sagrado-2013-pesquisa-
socioeconomica-e-cultural-de-povos-e-comunidades-tradicionais-de-terreiros/3-alimento-direito-sagrado-2013-
-pesquisa-socioeconomica-e-cultural-de-povos-e-comunidades-tradicionais-de-terreiros.pdf>. Acesso em: 13 dez.
2019.

TAVEIRA, Vitor. Iacitatá: mais que um restaurante, um ponto de cultura alimentar. Brasil de Fato, Momento
34 Agroecológico, 24 jun. 2019. Disponível em: < https://www.brasildefato.com.br/2019/06/24/iacitata-mais-que-um- 35
Fotos RICARDO LAF restaurante-um-ponto-de-cultura-alimentar/>. Acesso em: 13 dez. 2019.
V i v ê n c i a : t r a d i ç ã o q u e a l i m e n ta
2

Somos essas flores, sementes,


raízes, flores e frutos. Somos o
jardim sagrado de Nhandesy
(Grande Mãe). Cultivados e
guardados por Ela, para curar
uma nação adoecida pela falta de
identidade e pelos parasitas que
historicamente tentaram destruí-la.

“Deixa o meu povo passar!!!”


- Kuekaturete

AVELIN BUNIACÁ KAMBIWÁ


Foto RICARDO LAF

36 37
A S C I D A D E S , A S P R ÁT I C A S D O S A G R A D O E S U A S R E L A Ç Õ E S
DO ÍNDIO FAVELA AO TORÉ NO ASFALTO: AS CIDADES,
AS PRÁTICAS DO SAGRADO E SUAS RELAÇÕES. 3
AVELIN BUNIACÁ KAMBIWÁ

Meu caboclo índio, o que é Sou Avelin Buniacá Kambiwá, mu- perimentam taxas desproporcio-
que anda fazendo aqui? lher indígena do povo Kambiwá, mo- nalmente altas de tráfico humano

AS CIDADES, AS PRÁTICAS
radora de Belo Horizonte de família e outras formas de violência, jovens
Meu caboclo índio, o que é migrante. História comum compar- indígenas migrantes se deparam
que anda fazendo aqui? tilhada por 38% dos indígenas bra- com questões complexas sobre
sileiros que hoje vivem em contexto identidade e valores, o que faz com

DO SAGRADO E SUAS – Eu venho de terra alheia,


corrigindo a nossa aldeia,
Meu caboclo índio...
urbano, de acordo com os dados do
Censo IBGE 2010.
que haja negação de pertencimento,
depressão, envolvimento com abu-
so de substâncias tóxicas. Existem,

RELAÇÕES
É impossível iniciar essa conversa inclusive, casos em que a migração
Toante Kambiwá sem fazer um recorte sobre a mi- provoca a completa desintegração e
gração indígena e sem adentrar na o desaparecimento das formas tra-
minha história pessoal. dicionais de vida e cultura.

Migrar nunca é um processo sim- Nossas bagagens étnicas também


ples, apesar de haver um imaginário encontraram na Região Centro-Sul
de que o nomadismo é uma cons- o preconceito social e o racismo em
tante na tradição indígena. Migração decorrência da nossa cor da pele,
e nomadismo são aspectos diferen- considerados mulatos ou “acabo-
tes, já que o nomadismo pressupõe clados” e também por sermos, na
que a comunidade ou família não maioria, analfabetos ou semianal-
tem um ponto fixo de moradia, o fabetos. Impossível não me emocio-
As práticas culturais indígenas e de que não era a nossa realidade. nar ao recordar as dificuldades da
terreiro têm no exercício do sagrado minha mãe para ler um número do
seu ponto central de estruturação. Um migrante é qualquer pessoa que transporte público ou acionar algum
Esse sagrado, por sua vez, encontra- está se movimentando, ou já se mo- serviço, público ou privado.
-se umbilicalmente vinculado com os vimentou, através de uma fronteira
elementos da natureza. Plantas, rios, internacional ou dentro de um Esta- Não encontramos, na nossa chega-
mares, pedras, animais, terra, flores- do, saindo do seu lugar habitual de da, nenhuma referência aos povos
ta são elementos essenciais para os residência, independentemente da indígenas que pudesse nos orien-
processos sagrados desses povos. Em razão. Mas ser um migrante indíge- tar, nem de forma jurídica, social,
meio urbano, o acesso a ambientes na tem suas especificidades. nem de fortalecimento de nossa
que ofertem, em certa medida, con- cultura, por isso é latente em mim
tato com esses elementos é mediado Dentre os diversos desafios de ser o desejo da criação do Centro de
pelo estabelecimento de regramentos um indígena migrante é estarmos Referência Indígena na capital mi-
sociais e institucionais construídos de particularmente expostos a situ- neira, que, mais que um desejo, é
maneira apartada das particularida- ações de vulnerabilidade, como a uma demanda de reparação histó-
des do modo de vida dessas comu- extrema pobreza, o risco ambiental rica urgente. Mas isso é ponto para
nidades. Refletir sobre os problemas e as dificuldades para conservar e outra conversa.
e as possibilidades da prática do sa- exercer nossas identidades e cultu-
38 grado na cidade constitui, portanto, o ras. Dentro do recorte de gênero, Em específico, a migração da minha 39
tema principal deste capítulo. mulheres e meninas indígenas ex- família do sertão pernambucano,
A S C I D A D E S , A S P R ÁT I C A S D O S A G R A D O E S U A S R E L A Ç Õ E S
na década de 1980, para a capital sagrado. Meu pai, enquanto “peão tradição do Toré, com a devoção à
mineira se deu pela busca de me- de obra”, e minha mãe, fazendo pe- Força Encantada, o uso dos chás e
lhores perspectivas de emprego e quenos “bicos”, desde vender doces, banhos, a prática dos toantes. Fa-
de renda. Com as condições des- roupas, fazer faxinas e o que mais zendo um movimento de reunir in-
favoráveis encontradas na cidade, aparecesse para complementar a dígenas de várias etnias, que estão
é muito difícil preservar as práti- renda familiar. residentes na capital para o forta-
cas sagradas originais, sendo que lecimento de uma luta indígena re-
restou, a nós migrantes indígenas, Com o passar dos anos de nossa gional, na qual atuamos na busca de
ocupar as áreas pobres e de peri- vida na cidade e idas cada vez mais políticas públicas e do Bem Viver, na
feria dos centros urbanos, onde escassas para o sertão, deixamos luta antirracista, no letramento ra-
prevalecem, majoritariamente, as também de frequentar os cultos e cial e na perpetuação das práticas
igrejas evangélicas pentecostais. missas e eu me debruçava cada vez tradicionais.
Foi onde nos tornamos o que eu mais no precipício de uma existên-
chamo particularmente de “Índio cia em um “não lugar”. Problemas A partir dos fatos relatados acima
favela”, um fenômeno crescente. decorrentes desse apagamento e da experiência vivida, acredito
identitário começaram a surgir na que a questão da espiritualidade
No que tange às nossas práticas do forma de comportamentos auto- indígena em meio urbano seja mais
sagrado, esse desaparecimento é destrutivos, o que inclusive motivou complexa que as demais, visto que,
ainda mais evidente e violento. Não a conversão dos meus pais, anos dentro dessa teia de relações so- Foto 3 - Retorno a Serra Negra com as matriarcas (Terra Sagrada para o povo Kambiwá) 3
apenas pelo óbvio aspecto urbano mais tarde, a uma igreja evangélica ciais em que se formam e se for- Foto ARQUIVO PESSOAL
da vida sem contato com a nature- local, na esperança de que eu não talecem as identidades e a cultura,
za, as roças, as ervas para o feitio sucumbisse. E assim, alimentados existem fatores já citados que fragi-
dos chás, pomadas e remédios, mas pelo medo do que a cidade e seus lizam a nossa permanência física e
também por uma pressão social males poderiam gerar em suas fi- espiritual na cidade e não apenas a
para que isso aconteça. Participar lhas e pela falta de referência cultu- correlação cultura-natureza é sufi-
dos ritos do colonizador camufla o ral, desenvolveram um “evangelica- ciente para justificar a perda identi-
racismo e nos dá uma falsa sensa- lismo” à moda deles mesmos. Minha tária ou salvaguardar nossos ritos e
ção de pertencimento. mãe frequentava os cultos, contudo, tradições. Se assim fosse, não have-
ainda acreditava nos benzimentos, ria um crescimento assustador do
Assim, nos tornamos alvo de dispu- temia os maus espíritos e tratava de fundamentalismo religioso dentro
tas catequistas e evangelizadoras. nos blindar com todas as práticas dos territórios indígenas.
Parece haver no brasileiro comum de todas as religiões possíveis, mas Foto 1 - Mãe, eu e parente no território
uma necessidade de “colonizar” e existia também um caráter de acei- Foto ARQUIVO PESSOAL Existe todo um roteiro de desmonte
repetir no “diferente” a secular prá- tação muito grande, um desejo de das práticas existenciais e culturais
tica assimilacionista. Pude vivenciar ascender socialmente e participar indígenas, que parte de um projeto
essa imposição da religião cristã de algum coletivo, seja lá qual fosse, de país que contava com a total eli-
e essa violência religiosa logo em e que os faz ainda hoje frequentar minação da presença dos povos in-
meus primeiros anos como morado- essa igreja. Mesmo com suas práti- dígenas já na década de 1970.
ra de uma das regiões periféricas da cas sincréticas, meus pais se decla-
cidade de Belo Horizonte. Vizinhos raram evangélicos. Uma estrutura social forjada desde a
católicos e evangélicos se reveza- invasão para a demonização de nos- Foto 4 - Meus pais na cidade (vindos de um culto evangélico e com práticas sincréticas)
vam em seu processo de converter Participei também de uma igreja sas práticas, o empobrecimento, a Foto ARQUIVO PESSOAL
aquela família “diferente” e pagã às evangélica de “malucos”, pessoas al- migração, a falta de referências nas
suas “crenças”. Desde aqueles mais ternativas que teoricamente não se cidades, o isolamento, o assimilacio-
sutis, que nos convidavam para con- enquadravam nos padrões sociais. nismo, a evangelização sistemática,
fraternizações, àqueles mais invasi- O que para a minha identidade em a autonegação, a heteronegação da
vos, que em certa ocasião chegaram conflito foi muito benéfico, já que identidade reforçada pelo estere-
a quebrar objetos na minha casa na ausência de outros indígenas, ótipo de “purismo”, o preconceito
sob o pretexto de serem do “diabo”. essas pessoas deslocadas da socie- reproduzido por alguns indígenas
dade se tornaram um refúgio. Hoje contra aqueles que estão em con-
Nessa saga missionária, eles até ti- entendo como a Força Encantada texto urbano, o racismo, estrutural,
veram algum êxito: minha irmã mais de meus ancestrais nunca deixou de ambiental, institucional e religioso, e
velha, por um período, participou de agir, mesmo em meio ao mais abso- a falta de políticas públicas culturais
encontros da juventude da Igreja Lu- luto caos e apagamento identitário. que promovam o fortalecimento da
terana. Eu fui a algumas missas ca- Foi quando, através dessa igreja de cultura indígena.
tólicas com uma vizinha, mas me in- “malucos”, conheci uma “missão”
comodava o fato da “roupa de anjo” no Norte do país que trabalhava na O quadro de destruição das práti-
não me cair bem, situação que me evangelização de comunidades indí- cas da espiritualidade indígena está
deixava muito constrangida, já que genas, com linguística e tradução de posto, e, graças aos nossos ances-
a minha pele escura não existia nas textos bíblicos, para onde fui estu- trais e à Força Encantada, nada está
figuras aladas que eu via desenhada dar e viver. E, assombrosamente, foi encoberto de nossos olhos, e vemos
naquele lugar. Nesse meio tempo, lá que a minha identidade indígena Foto 2 - Encontro de sagrados com clareza a doença para que pos-
40 meus pais estavam muito ocupa- renasceu. E hoje na minha família (Pisada de Caboclo, 2018) samos fazer o remédio e trazer a Foto 5 - Ritual dos Praiá (sagrado Kambiwá) 41
dos em sobreviver para evocar o apenas eu me dedico às práticas da Foto ARQUIVO PESSOAL cura. Existe um grande desafio que Foto ARQUIVO PESSOAL
A S C I D A D E S , A S P R ÁT I C A S D O S A G R A D O E S U A S R E L A Ç Õ E S
“JARDINS DO SAGRADO... OH, SAGRADO SEGREDO!” 1

GERALDO ANDRÉ DA SILVA - TAT’ETU JALABO (PAI GERALDO)


3
RESUMO

No momento que os afrodescendentes vivem as maiores discriminações, nomeadamente aquelas de natureza afro-
-religiosa, tendo suas roças depredadas, destruídas, apedrejadas sem nenhuma razão, e suas práticas no meio
ambiente (matas, rios etc.) tolhidas indiscriminadamente pelos membros das igrejas pentecostais, surge, do que
podemos chamar de providência do IMATERIAL, contrariando (mas na forma da lei) toda uma lógica institucional no
que tange aos Três Poderes que regem uma democracia, mais uma vez, uma ação concreta e legal do Poder Exe-
cutivo Municipal (a nossa Prefeitura): a criação, dentro de um dos seus equipamentos, o Parque da Lagoa do Nado,
do projeto “Jardins do Sagrado”.

Tantos foram os gestores públicos que passaram por nossa Prefeitura, e todos deram seus contributos, valorizando
a cultura afro-brasileira. Mas, desde as comemorações do tricentenário da morte do nosso líder maior, Kzumbi de
Palmares,2 não tivemos a voz a que temos direito, e que hoje se materializa nesse projeto.

Foto 6 - Toré no asfalto E agora essa administração, lançando mão de competentes e sensitivos gestores e gestoras que compõem essa
Foto ARQUIVO PESSOAL Secretaria de Cultura, que nos oferece essa grandeza de projeto.

Podem acreditar senhores e senhoras, nós os utilizaremos, e desses JARDINS haveremos de cuidar, como já o uti-
está colocado em nossas mãos, e os povos de tradição de matriz afri- mento ao qual fomos submetidos. lizávamos e cuidávamos dos espaços que até aqui utilizamos. Ao contrário da visão dessa administração, sempre
dependerá da autonomia e do pro- cana do que se imagina, e isso se dá Mas, feito árvore enraizada dentro fomos perseguidos, discriminados e até presos por estarmos cultuando nossas Divindades, com a única intenção de
tagonismo dos povos indígenas para de uma forma espiritual, não sendo da montanha, nossas raízes estão ajudar a quem de nós necessitar.
nos alinharmos às forças políticas, necessário que tenhamos que nos bem firmadas, e é mais do que hora
sociais e religiosas do meio urbano adequar a conceitos da academia ou de que nossas flores e frutos sejam Mas nós, os afrodescendentes, sabemos muito bem quais foram os agentes “invisíveis” que atuaram nesse fenô-
que possam somar para fortalecer, dos movimentos, sejam estes “euro- conhecidos por todos que forem ca- meno,3 e é o que pretendo neste texto lançar como reflexão para a relação entre a prática do sagrado pelos povos
e não, mais uma vez, nos colonizar. centrados” ou “afrocentrados”. pazes de respeitá-los. Em sua bele- tradicionais e a vida deles nas cidades.
za, sua força e seus poderes.
Entendemos a gravidade do mo- A cultura indígena pede passagem Palavras chaves: Folhas. Sagrado. Jardim. Prefeitura. Ecologia. Decolonialidade.
mento histórico, político e social que para existir, nessa outra forma de Somos essas flores, sementes, raí-
estamos vivendo, com a supressão ver o mundo. Livre das imposições zes, flores e frutos. Somos o jardim
de direitos adquiridos e a crescente que combatemos desde a invasão. sagrado de Nhandesy (Grande Mãe).
onda de racismo religioso, de ódio Cultivados e guardados por Ela, para
às minorias e da violência orques- A escuta ativa é um mecanismo de curar uma nação adoecida pela falta
trada pelos fundamentalistas. Assim aprendizado e de transformação, de identidade e pelos parasitas que
sendo, encontros, debates, seminá- por meio da educação, da alfabetiza- historicamente tentaram destruí-la.
rios e formações são fundamentais. ção antirracista, em um processo de
Com relação aos saberes indígenas, contracolonização e indigenização,
é preciso um “letramento racial” para estruturar os instrumentos de
para gestores culturais, poder públi- cultura da cidade e os saberes que a
co e comunidades, para que a con- constituem. Temos ciência que não Deixa o meu povo passar! 1
Premonição do IMATERIAL que se realiza em nome da nossa cultura tradicional.
fluência de saberes se dê de forma estamos partindo de um mesmo lu- Kuekaturete 2
Kzumbi é o nome dado em Angola ao espírito que vive como se fosse morto vivo.
respeitosa. Até porque entendemos gar de equidade na manifestação e 3
Aluvaiá, Apavenã, Bionatã, Dundo Salunga, Nkuyu, (espírito) Tibiriri, Mpambu Njila (Injila significa sabedoria, cabaça, pássaro e encruzilhada), Mavambu,
que, apesar do desconhecimento e compartilhamento de nossos sabe- Malele, Mavile, Mavilutango, Kinjanjá, Mani Njila, Kakurukaia (feminimo), Manakó (feminimo), Nganganjila, Njila Kinã, Njila Lôdo, Malungo, Nganga
42 da neblina que encobre a cultura in- res em relação às outras tradições. Burunganji, Nzelele (kikongo) Jujuku, Karakosi, Ture Zande, Kitungueiro, Pambu Njila (essas mesmas divindades existem também nas demais nações: 43
dígena, temos mais em comum com Devido a todo o processo de apaga- Efã; Jeje; Ketu) e ainda para banhos para aquecer os Minkisi das estradas. (Autor desconhecido).
A S C I D A D E S , A S P R ÁT I C A S D O S A G R A D O E S U A S R E L A Ç Õ E S
Desde a descoberta das riquezas na- cada nas práticas emancipatórias. a ousadia de açoitar-se com um ríodo menstrual de uma mulher,
turais em África pelos europeus, os A marcha das mulheres negras ramo de urtigas. que obedece a um ciclo conhecido
entendimentos dos procedimentos conclama por um novo pacto civili- como “ciclo menstrual” e que é re-
tradicionais tiveram suas razões e zatório com vistas à decolonização Enquanto as demais administrações gido pelas fases da lua. As estações
identidades deturpadas. O renoma- das mentes. deixaram no ostracismo as práticas do ano também são verdadeiras
do historiador Elika M’Bokolo (2009, afrodescentes e seus mistérios, hoje orientações para a vida. Por elas
tomo I), 4 em sua obra África negra, Hoje, as práticas culturais de terrei- já não podemos dizer o mesmo. Até e pelo ciclo da lua, eu sei quando
já nos revelava as proteções dos ro têm uma ligação com o sagrado mesmo nos desenvolvimentos dos plantar, quando colher, e até o que
jinkisi. Eles foram utilizados como que, por vezes, aqueles que têm a projetos, os técnicos fizeram uma comer, tudo em função delas, entre
objeto de troca pelos oportunistas arte de fazê-las perpetuar na histó- parceria muito salutar com aque- outros sinais da natureza.
durante as descobertas das rique- ria não conseguem perceber. Digo, les que conhecem dos mistérios do
zas que brotavam a céu aberto, que por exemplo, Urtica dioica L., que IMATERIAL, os VIVENCIADORES das Os fenômenos naturais, como os
para os nativos de nada ou pouco tem como sinonímia popular os práticas e dos mistérios, exatamen- solstícios, que é o momento em o
valia. nomes de “urtigão”, “urtiga-maior”, te na contramão do que se via até sol, durante seu movimento apa-
“cansanção”, “queimadeira”, mas aqui. E isso nos deixou em êxtase, rente na esfera celeste, atinge a
Essa colonização no campo do sa- que cientificamente é chamada de por termos a oportunidade de sair maior inclinação angular do Equa-
ber coloca o africano dentro de Urtica galeopsifolia Wierzb. ex Opiz, do ostracismo, onde não tínhamos dor, que ocorrem no inverno, de 21
um processo de colonialidade que da Família das Urticaceae. Nós an- nem a chance de praticar os verda- a 23 de junho, e no de verão, de 21
3
Foto ARQUIVO PESSOAL
continuou reproduzindo as lógicas damos atrás dessa erva para várias deiros atos e sentidos do IMATERIAL a 23 de dezembro, promovem ver-
econômicas, políticas e cognitivas aplicações terapêuticas, pois ela é que existem nessas práticas, que dadeiras alterações nos costumes
da resistência da relação do homem hemostática, diurética, depurativa, são exatamente a razão do viver de de todos nós, mas do que os afro- te como Jacques Brosse em sua obra Portanto, o equipamento que a Pre-
com a natureza. Esse tema está bem uricosúrica (provoca a eliminação todos os descendentes das crenças descendentes sabem muito bem As plantas e sua magia,8 que traz à feitura está colocando à disposição
dissertado por Castro-Gomez; Gos- do ácido úrico pela urina), colagoga ancestrais. No exercício do sagrado, como tirar proveito. baila uma série de lendas e histórias do sagrado, tais como, riachos que
froguel, 2007; Maldonado Torres, (excita a secreção biliar), reminera- temos sempre que levar em con- das plantas medicinais, mas havere- correm dentro do parque, as pe-
2006; Walsh, 2009, 2013. lizante e tem ainda as seguintes in- ta algumas diretrizes para garantir Todos esses cuidados estão inseri- mos de levar em conta os vários fa- dras, os animais, que o compõem,
dicações terapêuticas para: artrite, minimamente algumas nuances ad- dos nas ações dos afrodescenden- tores do intangível imaginário e con- serão, sem nenhuma dúvida, o me-
Devido a essa colonialidade, desde gota, furunculose, úlceras, sarampo, vindas dessas práticas. Tais como a tes, mesmo que seja de forma empí- seguir tê-los dentro de um conceito lhor tratado sob o ponto de vista do
o período tribal, viviam os negros hemorroidas, resfriados, inflama- de nos perguntarmos: “O que vem rica. Esses são alguns detalhes que academicamente aceito, e também, respeito e da preservação daquele
de origem Bantu sob a orientação ções da garganta, auxiliar no funcio- a ser rito?” No nosso caso, trata-se devem ser observados ao se falar e acima de tudo, de forma organi- que os bons costumes ecológicos
religiosa fundamentada no cristia- namento do fígado, vesícula biliar e das práticas africanas. “E ritual?” É a das culturas afro-brasileiras. zada, de maneira que cumpram seu traduzem, uma vez que esse nada
nismo. Entretanto, são inegáveis os intestinos, queda de cabelo e caspa, maneira de procedermos na trans- papel ritualístico, para, não só em- mais são do que os próprios ORIXAS,
componentes que herdamos das hiperplasia benigna de próstata. O missão do nosso saber. E para tal, Logo, no tocante às plantas sagra- belezar o ambiente, mas também JINKISI, VODUN que todos nós jura-
religiões de matriz africana. Tais mesmo podemos dizer da folha de utilizamos as linguagens (o som) e das, que é o nosso objeto de estudo responder aos aspectos simbólicos, mos amar, por serem eles a razão
componentes sempre fizeram parte louro (Nome científico: Laurus no- os símbolos, que são as figuras re- e análise, teremos que levar em con- ritualísticos, para atender o nosso maior do nosso viver. Esse é o modo
de todos os contextos litúrgicos do bilis L. Família: Lauraceae). Mas nós presentativas utilizadas a partir de ta essas observações para conseguir rito, que é a aplicação das plantas, de vida das nossas comunidades.
povo brasileiro. não temos a liberdade de pegá-las material palpável. Também utiliza- separar os poderes curativos de er- ervas e árvores medicinais, funda-
nas matas, porque estaríamos de- mos os adereços, que são as roupas vas como a arruda (ruta graveolens), mentais à luz das culturas africanas Agradecemos infinitamente à Secre-
Desde então, surge o processo de predando o meio ambiente. Já aqui em toda a sua plenitude,6 e, por fim, por exemplo, e o seu poder mágico, em toda sua plenitude. taria Municipal de Cultura e toda sua
decolonialidade, lançando práticas “nos nossos” JARDINS DO SAGRADO, a liturgia, que é a forma de realizar- quase sempre ligado aos efeitos in- competente equipe que, de forma
efetivas rumo à conquista da liber- poderemos coletá-las sem nenhu- mos nossas festas, segundo algu- descritíveis da magia desde a Anti- Haverá de ser um lugar não só sa- incansável, dedicou suas economias
dade plena. Nesse contexto, esse ma perturbação, além de podermos mas sequências imutáveis, uma vez guidade delegada a ela e dos quais grado, mas, acima de tudo, orga- rumo à efetivação desse projeto JAR-
processo chega aos nossos dias, por aplicá-la em nossos fundamentos que elas irão mostrar para todos, de todos têm ciência. nizado, com horários de visitações DINS DO SAGRADO e tantos outros
exemplo, com a introdução da de- nas funções dos seguintes Jinkisi forma exotérica, a parte esotérica controladas, e com um aplicado mo- que ainda virão, tenho certeza.
colonialidade e o pensamento afro- (vide Nota 3). da nossa cultura. Daí afirmarmos que, pelo menos no delo de preservação e planejamento
diaspórico, sendo que a colonialida- que diz respeito as ervas sagradas, de reposição e segurança. A ligação Novembro, 2019.
de e a decolonialidade surgem com Historicamente, a urtiga foi usada Aliam-se a tudo isso as fases da teremos, sim, a oportunidade de po- que existe entre o “verde” e as práti-
uma análise de dimensões básicas, desde o século I d.C. pelos gregos lua. Quantas vezes já se ouviu fa- der cultivá-las e colhê-las, sem ter cas afro-brasileiras é como a ligação
tais como a antropologia filosófica, a para urticação (ou flagelação), que lar que o comportamento humano, que ficar a olhar pelos lados porque que há entre uma mãe e seu filho
raça e a privatização que os direitos consistia em esfregar urtigas fres- em sua fisiologia e na manifesta- a qualquer momento podemos so- ainda no ventre. Isto é, são sempre
políticos apregoam. cas no baixo ventre e nádegas de ção dos seus instintos básicos e frer alguma forma de retaliação. o mesmo. Um sem o outro não vive.
homens que queriam ter sua virili- psicossomáticos, sofre alterações E os dois fazem parte dos próprios
A epistemiologia feminista negra,5 dade aumentada. Beneficiava tam- em conformidade com as fases da Haveremos de, ao conceber os JAR- elementos da natureza.
por exemplo, veio dar uma alavan- bém os reumáticos que tivessem lua?7 Vejam, por exemplo, o pe- DINS DO SAGRADO, não tão somen-

4
Elikia M’Bokolo nasceu em 23 de dezembro de 1944 em Leopoldville (Kinshasa, na atual República Democrática do Congo), e é um historiador 7
18 mitos sobre a Lua. Disponível em: <https://int.search.tb.ask.com/search/GGmain.jhtml?ct=ARS&n=7858e04f&p2=%5ECPC%5Echr999%5ETTA
congolês especialista em história social, política e intelectual africana. Disponível em: <https://www.wook.pt/autor/elikia-m-bokolo/43933>. Acesso em: B03%5E&pg=GGmain&pn=1&ptb=92DDC718-9BBC-44F2-9C91-9BE91CDAA385&qs=&si=&ss=sub&st=sb&searchfor=18+Mitos+Sobre+a+Lua
15 dez. 2019. &feedurl=ars%252Ffeedback%253ForiginalQuery%253Dsupersti%2525C3%2525A7%2525C3%2525B5es%252Bda%252Bfase%252Bda%252Blu
5
Vide Anais do 31º Congresso Internacional de Teologia e Ciência das Religiões da PUC-MINAS, 2019. a%2526relatedQuery%253D18%252Bmitos%252Bsobre%252Ba%252Blua&tpr=jre10&ots=1569676192471&ots=1569676192621>. Acesso em: 16
6
A Prof. Dra. Maria Odete da Costa Soares Semedo é uma “Phd” em panos da Guiné Bissau. Ver: <http://www.biblioteca.pucminas.br/teses/Letras_ dez. 2019.
SemedoMO_1.pdf>. Acesso em: 16 dez. 2019. 8
Coleção Arco do Tempo, da Rocco.

44 45
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MEDICINAS
SAGRADAS 3
REFERÊNCIAS ISAKA HUNI KUIN

As plantas conectam com a nature- sa. E levar também o conhecimento


za; não falam, mas estão vivas. As pras pessoas conhecerem nossa re-
florestas estão vivas. As medicinas alidade, que nós aprendemos com
estão vivas, mas têm conexão com a nossa ancestralidade, com nossos
CASTRO-GOMEZ, Santiago; GOSFROGUEL, Ramón (Comp). El giro decolonial: natureza, com o Sol, com a Lua, com velhos. Isso é a minha preocupação,
reflexiones para una diversidad epistémica más allá del capitalismo global. as estrelas, com a água, com a Ter- que venho pesquisando pra ter essa
Bogotá: Universidad Javeriana; Instituto Pensar; Universidad Central-IESCO; Siglo ra. Tudo são os planetas se conec- beleza, cada um de nós pra humani-
del Hombre, 2007. tando. Então, eu acho que as medi- dade. Xina Bena pensa também no
cinas não falam com a gente, mas futuro. Variedades, conhecimento,
CLYDE, W. Ford. O herói com rosto africano. Mitos da África. [s.L.]: Editora Selo quando precisamos, nós pegamos produção, valorizando nosso conhe-
Negro, 1999. as medicinas e temos que pedir as cimento, nossa tradição.
forças do Shibú, o dono das plantas.
M’BOKOLO, Elikia. África negra: história das civilizações. Salvador: Edufba; São As plantas que curam a gente que Nós só aprendemos dentro da es-
Paulo: Casa das Áfricas, 2009. tomo I (até século XVIII), p. 175-192. precisa. As plantas servem para nós cola e, ao mesmo tempo, temos
os seres humanos que estamos pre- que aprender a realidade das plan-
MUNANGA, Kabengele Arte afro-brasileira: o que é afinal? Afro-Brazilian art: what cisando. Ajudam muito para as do- tas e das medicinas sagradas dos
is it, after all? In: MUNANGA, Kabengele (Org.). Mostra do Descobrimento. São enças que curam. Nosso futuro, nós Huni Kuin. Também nós trabalha-
Paulo: Associação Brasil 500 anos Artes Visuais, 2000. queríamos mais organizado, nós mos com a planta, destilando, ti-
queríamos estar praticando mais os rando os óleos essenciais, as águas
MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional nossos conhecimentos tradicionais. de cheiro, que nós chamamos de
versus identidade negra. Petrópolis: Editora Vozes, 1999. Então, desse nosso conhecimento “hidrolado”. Esse hidrolado (sic),
de planta da floresta, nós ainda cui- essa essência da floresta, eu acho
RIBAS, Oscar (1951). Uanga (Feitiço): romance folclórico angolano. 3. ed. Luanda; damos muito bem, porque os pajés muito importante, porque cura o
Lisboa: União dos Escritores Angolanos; Edições. 70, 1981. mais velhos já fizeram três livros nosso pensamento. Folhas e forças
para os jovens aprenderem dentro da medicina, que curam o mau es-
SOROMENHO, Fernando Monteiro de Castro. [1949]. Terra morta. Luanda: União da escola. pírito, erva que traz cura pra nós,
dos Escritores Angolanos, [19..?]. que nos ajuda. Cura dor de cabeça,
No tempo de maloca, vivíamos na cura febre, cura gripe, cura dor. To-
VERGER, Pierre. Ewé: o uso das plantas na sociedade Iorubá. Apresentação Jorge maloca mais de 400 famílias. Tinha das as doenças quem cura são as
Amado, ilustração Carybé. São Paulo, Companhia das Letras, 1995. um cacique que dirigia as famílias. medicinas sagradas. É muito impor-
Reunia. Trabalhava, plantava. Res- tante pra mim, é muito sagrado, as
Vídeo de um exemplo de transmissão oral (do kimbundu “sunguilar”). Disponível gatando suas tradições, mitos, his- nossas medicinas. Então eu acho
em: <https://www.youtube.com/watch?time_continue=11&v=xgw5s1sowc4>. tórias e cultura. E depois do contato, importante tudo isso hoje.
[Não disponível em: 21 dez. 2019.] viemos a conhecer sobre a escola, a
leitura etc. E aí, começamos a resga- Nós fizemos livros. O livro de cura
WALSH, Catherine (Ed.). Pedagogías decoloniales: prácticas insurgentes de resistir, tar e valorizar mais conhecimento e Huni Kuin foi meu pai que fez, um
(re)existir y (re)vivir. Tomo I. Quito, Ecuador: Ediciones Abya-Yala, 2013. 553 p. pesquisar e aprofundar mais. livro de cura que nós vínhamos for-
talecendo, e esses são os nossos
WALSH, Catherine. Interculturalidade crítica e educação intercultural. 2009. Xina Bena, levamos medicina pra ci- conhecimentos e a nossa identida-
(Conferência apresentada no Seminário “Interculturalidad y Educación dade pra curar a humanidade. Não de. E também começamos a traba-
46 Intercultural”, Instituto Internacional de Integración del Convenio Andrés Bello, pensamos só “no nosso”, pensamos lhar sobre a destilação das plantas, 47
La Paz). em ajudar a humanidade que preci- do nosso próprio conhecimento,
Foto RICARDO LAF

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da erva perfumosa, sobre óleos es-
senciais, e também valorizando o
nosso conhecimento das ervas me-
dicinais, das plantas, dos nativos, a
medicina sagrada nossa. E fazer o
banho, a defumação, e curar todas
as doenças através desse sagrado e
da medicina. Então, sempre seguin-
do esses caminhos de vir resgatan-
do e curando para o nosso povo e
para a humanidade. Sempre traba-
lhando, aprendendo, e continuan-
do a pesquisar.

Sobre a medicina sagrada, a medici-


na tem segredo, tem seu sagrado, a POLÍTICAS PÚBLICAS E PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO BIOCULTURAL DAS
medicina não fala com as pessoas,
mas conecta, pela mãe Terra, pela COMUNIDADES NEGRAS DE RELIGIÃO DE MATRIZ AFRICANA NAS URBES BRASILEIRAS 3
mãe água, conecta pelo reino uni-
versal, com sol, com a Lua. A medici- FÁBIO PEDRO S. DE F. BANDEIRA
na pode trazer a cura para a huma-
nidade, através da sua proteção, da
natureza. Também a medicina tem No Brasil, o Instituto do Patrimô- visibilizados, segmentos sociais per- centrados na periferia e nos bair-
a potência para a libertação, para a nio Histórico e Artístico Nacional tencentes a comunidades negras de ros mais pobres da cidade, um uso
harmonia, e [a potência] de curar. (IPHAN), ao adotar o conceito de religião afro-brasileira desenvolvem sociorreligioso do espaço que não
“paisagem cultural”, proporcionou suas práticas simbólicas e ritualís- pode ser desconsiderado pelo po-
Enquanto você acreditar na me- um avanço significativo para o en- ticas nos assim denominados “ter- der público. Salta à vista que uma
dicina, ela pode libertar e pode te tendimento do conjunto de bens reiros”. Tais unidades territoriais simples análise visual da sobrepo-
curar, e principalmente nós, povos que constituem o patrimônio cul- reconhecíveis e identificáveis no es- sição desse mapeamento dos ter-
indígenas, povos originários, que tural e biocultural (ainda que este paço urbano, portanto, que se cons- reiros com o mapa da cobertura
nós venhamos trazendo nossos co- termo não seja utilizado explicita- tituem em referências culturais para vegetal de Salvador (ROCHA, 2011)
nhecimentos milenares, dos nossos mente), pois superou o tratamento esses segmentos, também desen- demonstra que há uma tendência
velhos, nossa identidade, o conhe- compartimentado entre o patrimô- volveram modelos de gestão desse de sobreposição com os terreiros.
cimento da mãe natureza. Sempre nio natural e cultural, material e espaço, a partir de uma cosmologia Ademais, a maioria dos parques
nós aprendemos com a natureza, imaterial, entendendo-os como um que integra natureza e cultura, dan- municipais e estaduais da Cidade
nós cuidamos dela e ela cuida de todo vivo e dinâmico em estreita do significado aos elementos ecos- de Salvador, como o Parque Zoo-
nós, então por isso nós respeitamos interdependência com as materiali- sistêmicos por meio de sua sacrali- botânico, o Metropolitano de Pitu-
muito a mãe natureza e a nossa me- dades produzidas e as dinâmicas da zação. Esse processo sociocultural e açu, o São Bartolomeu, constituem-
dicina sagrada, que sempre estamos natureza (SCIFONI, 2016). religioso de gestão leva à proteção -se também referências culturais
vivendo, na floresta viva, na escola e conservação desses elementos, relevantes para membros dessas
viva, conhecendo mais e aprenden- O IPHAN elaborou em 2009 a regula- já que eles passam a integrar o mi- comunidades de terreiro, ou seja,
do, aprendendo com ela e com os mentação da Chancela da Paisagem crocosmo simbólico que constituem são territórios sagrados, fenômeno
velhos também, através de pesqui- Cultural estabelecida pela Portaria esses terreiros. Como há, no univer- este que se repete em outras ur-
sas. Então, para mim é isso, eu me nº 127, de 30 de abril de 2009. A so das religiões afro-brasileiras, o bes metropolitanas no Brasil, ainda
sinto muito feliz de encontrar todos portaria definiu a paisagem cultural imperativo de conservação ambien- que os estudos sobre o tema sejam
os povos que trabalham na medici- brasileira como “uma porção pecu- tal, os terreiros também podem ser escassos. Desse modo, podemos
na, unir essa força, unir essas ideias liar do território nacional, represen- considerados socioecossistemas. definir os territórios negros nas ci-
pra criar essa união através dos en- tativa do processo de interação do O conceito de socioecossistema é dades, como Salvador, como uma
contros dos Jardins do Sagrado. homem com o meio natural, à qual fundamental para enfrentar a rea- rede de territórios sagrados que
a vida e a ciência humana imprimi- lidade contemporânea das cidades incluem não apenas os terreiros,
Então, isso é um fortalecimento de ram marcas ou atribuíram valores.” e do mundo de deterioro ambiental mas também áreas protegidas pelo
cada um, dos nossos pesquisado- A chancela “é uma espécie de selo e de mudanças climáticas globais, estado (parques, APAs etc.), bem
res, da UFMG. E queria também de qualidade, um instrumento de pois reconhece que o ser humano como árvores sagradas dispersas
agradecer a toda a comissão orga- reconhecimento do valor cultural de emerge, depende e é parte integral no espaço urbano (Figura 1), o que
nizadora que trouxe vários povos, uma porção definida do território dos ecossistemas naturais, um valor demonstra a complexidade, abran-
de diversos lugares, para unir essa nacional, que possui características por si só inerente às práticas rituais gência e relevância desses territó-
força, para conhecer, compartilhar e especiais na interação entre o ho- nos terreiros. rios nas cidades.
ouvir cada um. mem e o meio ambiente”.
Um inventário dos terreiros de Can-
No espaço urbano de muitas cida- domblé realizado pelo CEAO/UFBA
des brasileiras, paisagens culturais (2008) contabilizou mais de mil e
únicas se inscrevem nessa noção duzentas casas de santo na cidade
48 de patrimônio biocultural. Nesses de Salvador, distribuídas por todo 49
espaços, a maioria segregados e in- o espaço urbano, ainda que con-
A S C I D A D E S , A S P R ÁT I C A S D O S A G R A D O E S U A S R E L A Ç Õ E S
3

Figuras 1 - “territorialidades negras se esforçam em manter seus jardins sagrados” Figura 2 e 3 - “árvores sagradas dispersas no espaço urbano”

O patrimônio biocultural das comu- como um sistema completo, em tem e se adaptam à dinâmica de se- Uma proposta de Cartografia So- 3- Desenvolver processos de coin- 7- Desenvolver ações transversais
nidades de terreiro não se limita aos que, por exemplo, nos terreiros gregação socioespacial das cidades, cial de Territórios Negros de Reli- vestigação e de aprendizagem mú- de educação patrimonial entre as
territórios sagrados e aos serviços nagôs, à perda significativa de áreas verdes gião de Matriz Africana nas Cida- tuas, permitindo lições a serem diversas Secretarias do município
ecosssistêmicos que eles prestam à no espaço urbano, isto porque a ci- des brasileiras compartilhadas com as comuni- (Cultura, Educação, Planejamento,
cidade (manutenção do microclima, [a] lógica do sistema etno- dade é tratada cada vez mais como dades que enfrentam desafios se- Meio Ambiente, sobretudo).
conservação de espécies silvestres, botânico do candomblé tem mercadoria, e menos como espaço Uma estratégia para abordar a melhantes, como os indígenas que
redução da poluição, recarga de fundamento num culto que público para o exercício da cidada- questão de uma política de preser- vivem nas cidades, os quilombolas,
aquíferos etc.), mas vai, em parti- associa à prática religiosa um nia por todos. É nesse contexto ad- vação do patrimônio biocultural das entre outras;
cular, ao acervo de conhecimentos esforço terapêutico, voltado verso que territorialidades negras, comunidades de terreiro deve con-
e saberes sobre as plantas que são para a restauração, conserva- contra-hegemônicas, se esforçam siderar os seguintes pontos chaves: 4- Promover o mapeamento parti-
fundamentais para o Povo de San- ção ou promoção da saúde e em manter seus jardins sagrados, e cipativo (BANDEIRA et al., 2018) dos
to. As “folhas”, como são chamadas do bem-estar dos iniciados, onde outras epistemologias, outras 1- Definir estratégias adequadas territórios negros sacralizados, das
as plantas de maneira genérica nos adeptos e clientes. Nesse con- cosmogonias dos terreiros se reafir- para promover a integração em ma- áreas verdes e das árvores sagradas
terreiros, são centrais nas práticas texto, tem papel de destaque mam e fazem circular saberes e prá- croescala do crescente movimento para as comunidades de terreiro;
litúrgicas, rituais e etnomédicas. uma liturgia das folhas, itens ticas simbólicas e de cura com base de conservação comunitária, lide-
Desse modo, vegetais que funcionam como nas plantas (Figuras 2 e 3). rado por terreiros de candomblé, 5- Desenvolver instrumentos legais
elementos de um código sa- povos indígenas, quilombolas, pes- (legislação municipal específica)
os especialistas do candomblé cramental e como fármacos. Como o poder público pode valo- cadores artesanais e centenas de que trate da preservação desse pa-
entendem a terapia de uma A classificação das folhas só rizar e potencializar essa diversi- outros povos e comunidades tradi- trimônio biocultural dos povos de
forma abrangente: a cura com pode compreender-se à luz dade biocultural que persiste no cionais, Organizações da Sociedade santo, de modo a possibilitar que
emprego de vegetais pode de referências a uma ordem tempo e, cada vez menos, no espa- Civil (OSC), Instituições de Pesqui- os terreiros que ainda mantêm es-
ser obtida, segundo admitem, mais abrangente. Para eluci- ço urbano? De onde se deve partir sa e Desenvolvimento Tecnológico paços verdes significativos possam
pela operação simbólica dos dá-la, há que fazer referência para traçar uma política pública (IDT) e o Poder Público; ter o reconhecimento da prefeitura
ritos e/ou pelo efeito “medi- às bases religiosas do sistema que reforce de maneira efetiva as dessas áreas como de conservação
cinal” das plantas. Eles distin- (Ibdem). estratégias de conservação biocul- 2- Desenvolver métodos de pes- comunitária;
guem de forma explícita entre tural das comunidades de terreiro? quisa inovadores que gerem novos
o valor terapêutico-simbólico Com base na constatação de que o A proposta desse Seminário dos conhecimentos sobre as estraté- 6- Implementar ações e programas
e o correspondente à eficácia patrimônio biocultural das comu- Jardins do Sagrado promovido pela gias de conservação comunitária e de conservação de plantas sagradas
física dos itens, mas servem- nidades negras de religião de ma- Secretaria Municipal de Cultura de o entendimento de como elas estão para as comunidades de terreiro, a
-se dos parâmetros litúrgicos triz africana nas cidades brasileiras Belo Horizonte é um bom começo. relacionadas com as estratégias de partir da criação de um jardim etno-
para ordenar seus conheci- apresenta uma muldimensionalida- Escutar as próprias comunidades, ocupação do espaço urbano e de botânico pelo Poder Público, o que
mentos farmacológicos (SER- de e complexidade, na qual as re- seus anseios e perspectivas, é al- conservação das áreas verdes sa- já está em curso na atual gestão da
RA et al., 2000). ferências culturais se constroem e vissareiro. Sugerimos, para dar se- gradas e do acervo de plantas das Prefeitura de BH;
se configuram desde os territórios guimento, que seja realizado um comunidades de terreiro;
O sistema de saberes botânicos sagrados, mas também nos acervos mapeamento participativo dessas
50 mantidos pelos especialistas tradi- etnobotânicos mantidos nessas co- comunidades, como pontuaremos 51
cionais nos terreiros se configura munidades. Comunidades que resis- a seguir:
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Considerações finais

A relação de pertencimento e iden- REFERÊNCIAS


tidade dos territórios negros de re-
ligião de matriz africana tem cons-
truído nas cidades brasileiras, onde
se fazem presentes, paisagens cul-
turais de extrema relevância am-
biental (pelos serviços ecológicos
que prestam às cidades e aos seus BANDEIRA, F.P.S. de F. et al. Trajetos, trilhas e movimentos:
habitantes) e cultural (pelo patrimô- métodos de mapeamento participativo da paisagem e análise
nio biocultural que mantêm), pois dos conflitos ambientais. Feira de Santana: UEFS Editora, 2018.
esses territórios possuem uma re-
lação dialógica com essa paisagem, BRASIL, 2009. Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
ao tempo em que são testemunhas Nacional (IPHAN). Portaria nº 127, de 30 de abril de 2009.
e agentes das modificações socioes- Estabelece a chancela da Paisagem Cultural Brasileira. Diário BIODIVERSIDADE E DIVERSIDADE CULTURAL:
paciais sofridas nas últimas décadas Oficial da União, seção 1, n. 83, 5 maio 2009. Disponível em:
nas urbes. <http://portal.iphan.gov.br/uploads/legislacao/Portaria_127_ TERRITORIALIZAR AS TRADIÇÕES DO SAGRADO 3
de_30_de_Abril_de_2009.pdf>. Acesso em: 20 dez. 2019.
A partir da cartografia social dos ter- INDÍGENA E DE MATRIZ AFRICANO
ritórios negros sagrados nas cida- MAPEAMENTO de terreiros em Salvador. Disponível em:
des, se espera que os sujeitos se co- <www.terreiros.ceao.ufba.br>. Acesso: a partir de 2008. NA GESTÃO AMBIENTAL
loquem como protagonistas nessa
proposta, uma vez que os mesmos ROCHA, J. Situação atual de Salvador do ponto de vista ÂNGELA MARIA DA SILVA GOMES
terão um espaço político para ex- ambiental e de uso do solo. 2011. Disponível em: <www.
pressarem suas preocupações com terreiros.ceao.ufba.br>. Acesso em: 15 dez. 2019.
a preservação de seus marcos his- RESUMO
tóricos, conhecimentos e tradições SCIFONI, Simone. Paisagem cultural. In: GRIECO, Bettina;
ameaçados pelos interesses econô- TEIXEIRA, Luciano; THOMPSON, Analucia (Org.). Dicionário O Brasil também é conhecido como um país de metadiversidade e palco da
micos de grupos locais e externos IPHAN de Patrimônio Cultural. 2. ed. rev. ampl. Rio de Janeiro, diversidade cultural, sendo o país que mais recebeu população escravizada
de maior poder que, na maioria das Brasília: IPHAN; DAF; Copedoc, 2016. (verbete). africana do mundo. Analisa-se a biodiversidade e suas significações ecoló-
vezes, conflitam com a ideia de sal- gicas, políticas e de direito ao uso. As comunidades africanas na diáspora e
vaguarda do patrimônio biocultural SERRA, O. J. T.; VELOZO, E.; BANDEIRA, F. P.; PACHECO, L. (Org.). de países pobres criaram uma forma de saber e pesquisaram maneiras de
das comunidades negras religiosas O mundo das folhas. Salvador: UEFS Editora; Edufba, 2002. 237 tirar seu sustento da diversidade da natureza, tanto em sua vertente silves-
de matriz africana. Espera-se tam- p. tre quanto a aclimatada e mística. Os processos de territorialização através
bém com essa cartografia social que dos saberes e migrações das plantas africanas, em especial pela etnobotâ-
os resultados obtidos permitam a SERRA, O. J. T. et al. Farmácia e cosmologia: a etnobotânica do nica, confirma que o tráfico de africanos foi seletivo de saberes, e algumas
construção de um instrumento de candomblé na Bahia. Etnoecológica, v. 4, n. 6, p. 11-32, 2000. plantas que estão presentes atualmente em terreiros, quilombos e quintais
planejamento territorial que evi- revelam um passado escravista, no qual o seu comércio se confundia com o
dencie e legitime o valor histórico, comércio dos seres humanos da África. Por outro lado, o processo de des-
simbólico e dinâmico da paisagem territorialização promovido pelo eurocentrismo, o etnocentrismo na ciência
cultural formada pelos territórios e o próprio capitalismo vem comprometendo a autogestão da biodiversida-
negros das cidades, cujo potencial e de pelos povos tradicionais de matriz africana na diáspora. A complexidade
efetividade para a gestão e o plane- alcançada pelos conflitos relativos a apropriações intelectuais e territoriais
jamento territorial participativo de- tem como linha de união questões relacionadas aos direitos étnico-raciais e
vem ser avaliados ao longo do tem- aos direitos ambientais.
po de maneira dialógica, tanto pelo
poder público, mas sobretudo pelas Palavras chaves: Biodiversidade. Diversidade cultural. Saberes africanos.
próprias comunidades de terreiro. Botânica africana. Escravidão brasileira.

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1. O desafio da biodiversidade e nocentrismo, de homogeneização das savanas: Sacharum sp. (cana- na agricultura ecológica, na gas- 1.2 A quem pertence à biodiversi- presença de plantas africanas ou
da diversidade cultural cultural e ecológica, e assim, mono- -de-açúcar), Nicotiana tabacum (ta- tronomia, revolucionaram práticas dade? domesticadas por africanos, como o
cultura da mente e monocultura de baco) – reconfigura a distribuição sociais no Novo Continente. Atual- saião (Kalonche sp), o algodão (Gos-
O conceito de biodiversidade abar- plantas formam estratégias funda- e os usos das plantas e dos terri- mente, por exemplo, no caso bra- O Brasil foi um dos últimos países sypium hirsutum), quiabo (Abelmos-
ca toda a variedade de vida, que mentais para a colonização e, hoje, tórios na diáspora. Algumas plan- sileiro, a alimentação e os cultivos a assinar o fim da escravidão, em chus esculentus), entre outras. Estão
pode ser compreendida em termos para o avanço do racismo. Muitas tas têm seus usos ampliados para agrícolas, principalmente oriundos 1888, e também foi o maior recep- cultivadas em policultivos, onde se
de diversidade de ecossistemas, di- unidades de conservação, como os além do uso medicinal, como é o da agricultura familiar, têm se sus- tor de escravos negros do mundo misturam plantas medicinais com
versidade de espécies e diversidade parques nacionais ou municipais, se exemplo do café. tentado na etnobotânica afro-indí- durante o período da migração for- plantas condimentares, alimentares
genética. Proteger e definir a biodi- encontram na categoria de uso de gena e em seu beneficiamento, ou çada pelo Atlântico Negro. Outro e belas plantas ornamentais. Não se
versidade implica reconhecer a sua proteção integral, com fortes limita- Carney e Marin (2004) relatam que seja, no conhecimento complexo dado importante é o fato de que o encontrou nenhuma monocultura e
complexidade e sua interdependên- ções para a presença de humanos a dispersão de sementes de plan- da biodiversidade. Os saberes das Brasil é o país com maior população raramente o uso de agrotóxico. Um
cia com a diversidade de significa- dentro delas, tanto para residência, tas africanas pelo mundo significou plantas pelos povos africanos no negra fora do continente africano e número importante dessas plantas
ções e usos pelas culturas humanas. como para a coleta e outras formas a migração de saberes africanos, Atlântico Negro, apesar de ainda o segundo país com maior popula- (90%) foi, atualmente, estudado pela
A diversidade cultural e a diversida- de manejo. Dessa forma, muitos po- de técnicas de plantio e beneficia- pouco estudados pela ciência mo- ção negra do mundo, só perdendo ciência farmacêutica, confirmando,
de biológica andam de mãos dadas. vos tradicionais ficam sem acesso mento. Do século XV ao XVIII, esse derna, já aparecem reconhecidos para a Nigéria. Observa-se, então, assim, seus princípios ativos, suas
aos parques para aceder aos recur- domínio de saberes fez da África em sua devida importância por au- que a escravidão é algo recente e propriedades medicinais. Apesar
As comunidades tradicionais afri- sos de sua sobrevivência, como o Ocidental um importante centro tores como Carney (2001) e Thor- muito presente no imaginário da de serem saberes complementares,
canas na diáspora, os indígenas, as extrativismo ou até mesmo para a de trocas comerciais para a sus- nton (2004). Assim, a maioria dos sociedade brasileira. Até a presente o da etnomedicina e o da medicina
populações de países pobres cria- prática de rituais sagrados. tentabilidade das novas formas de brasileiros dificilmente sabe que data, domina o imaginário nas insti- moderna, quando utilizados nos 3
ram uma forma de saber e desco- produção que se implantavam. O as plantas que compõem sua die- tuições de ensino uma série de mi- rituais do candomblé, esses sabe-
briram maneiras de tirar seu sus- Ao contrário da crença biocêntrica, conhecimento de plantas com fins ta básica – arroz com feijão – têm tos racistas em relação aos negros res se ampliam na medida em que
tento das dádivas da diversidade alicerçada no mito da natureza in- de subsistência – que compreendia origem na savana africana e que no Brasil e à escravidão. Um deles é a planta é também empregada em
da natureza, tanto em sua vertente tocada, indígenas e povos do Cerra- não só técnicas de plantio, cultivo foram domesticadas pelos povos que o processo escravagista se deu rezas, banhos e, da folha macerada
silvestre quanto na aclimatada e do ou Savana brasileira habitam es- e colheita em zonas intertropicais, banto. apenas para atender à demanda de em água fria, é extraído o seu poder
mística. Sob essa lógica, a ciência ses biomas, há mais de 18 mil anos, como tecnologia de beneficiamen- mão de obra, quando se sabe que terapêutico mágico. As experimen-
ocidental moderna capitalista cons- sem destruí-los, por trabalharem to e usos terapêuticos de vegetais O conhecimento da fitoterapia, a houve uma seleção de comunidades tações de benzedeiras, babalorisá,
truiu sua compreensão de biodiver- dentro da capacidade de regenera- – teve importante papel na seleção partir das plantas tropicais, não só e etnias segundo os “saberes” que yalorisá sempre resultam em sa-
sidade incompleta e, por seu cará- ção natural do sistema. Esses povos de mão de obra escrava no perío- garantiu a vida da população afri- seriam exitosos para o colonialismo. beres para o uso coletivo, seja ele
ter reducionista e neocolonialista, migraram para os centros urbanos do colonial. Gomes (2009) afirma cana e indígena escravizada, como terapêutico, alimentar ou ritualísti-
substitui-se a ideia de diversidade e trouxeram esses princípios. En- que as rotas do tráfico seguiam os também abasteceu de alimentos as No ano de 2009, numa pesquisa re- co. Em contraposição, a ciência far-
pela ideia de homogeneidade e fon- quanto o mundo industrializado e caminhos dos saberes dos grupos Américas. Segundo Carney (2001), alizada no Brasil (GOMES, 2009), em macêutica utiliza a pesquisa com o
te de matéria prima e lucro. Assim, as sociedades afluentes deram as étnicos africanos. Saberes sobre os povos africanos na diáspora, Minas Gerais, na cidade de Belo Ho- objetivo de monopolizar o saber. À
o debate sobre a biodiversidade no costas à biodiversidade, os pobres cuidados, cultivos e beneficiamen- através de seus saberes e seu tra- rizonte, em espaços de terreiros de ideia do pesquisador descobridor
Brasil e países pobres em geral re- no Terceiro Mundo dependem con- to de plantas, assim como sobre balho, terminaram influenciando a candomblé, casas de quilombolas e se inserem os mesmos princípios
mete à análise da apropriação da tinuamente dos recursos biológicos sistemas de cura, como a da etno- organização produtiva rural e ur- quintais urbanos de moradores de de neocolonização dos saberes não
natureza e do conhecimento. para obter comida, cuidar da saúde, medicina dos iorubas da Nigéria, bana, apesar da ocultação pela ci- vilas e favelas, foi possível confirmar europeus. Assim se construiu a ideia
extrair energia e fibras, construir hoje presente em terreiros de can- ência ocidental do valor desses sa- que o tráfico de africanos no Atlânti- do saber descobridor enquanto
A biodiversidade foi sempre um re- moradias e praticar seus rituais re- domblé no Brasil. beres. Diversas plantas de origem co representou não só o traslado de mercadoria.
curso local comunitário, e assim, ligiosos e místicos. africana são classificadas como do pessoas, mas também de saberes
povos foram reconhecidos por seus Judith Carney (2001) menciona as Oriente, como é o caso do arroz. que promovem o intercâmbio entre 2. Construindo novas territoriali-
ecossistemas: povos do cerrado, A complexidade alcançada pelos trocas ecológicas dos africanos, As plantações de arroz africano culturas e plantas na diáspora. Sa- dades: Jardins do sagrado
povos da floresta, ou o produto re- conflitos relativos a apropriações in- cujo amplo domínio de técnicas de (conhecido como arroz vermelho, beres etnobotânicos e práticas so-
conhecido pelos seus cultivadores, telectuais e territoriais tem como li- domesticação de plantas permitiu arroz quilombola) – cultivado pe- ciais diversas que se manifestam no Iniciativas governamentais que
como o arroz quilombola. A diversi- nha de união questões relacionadas a ampliação da agricultura pelo las populações negro-africanas transcurso da história do Atlântico apoiam atividades de valorização
dade biológica enquanto recurso é aos direitos humanos e direitos am- mundo. No Brasil, a gastronomia nos estados do Pará, Maranhão e Negro, seja na fitoterapia, na agro- das tradições e identidades dos po-
de propriedade comunitária quan- bientais. Resguardar a biodiversida- e a medicina são a representação Amapá, produzindo safras impor- ecologia ou nas expressões de reli- vos tradicionais de matriz africana
do existem sistemas sociais que o de não garante ter o acesso a ela no viva dessa migração de saberes e tantes no período colonial – reve- giosidade de matriz africana, como e indígena têm sido um marco im-
utilizam segundo princípios de jus- futuro. Também não dá garantias de plantas. A domesticação do Oryza lam a importância dos sistemas o candomblé. portante para o Brasil no reconhe-
tiça e sustentabilidade. Isso envol- que os saberes conservacionistas de glaberrima (arroz), do Phaseolus de conhecimento dos africanos cimento do valor que tais povos ti-
ve a combinação de direitos e res- indígenas, negros e pobres diluam a vulgaris (feijão), do Abelmoschus no Brasil. Essas áreas de plantio Quintais, terreiros e quilombos se veram na construção da sociedade
ponsabilidades entre os usuários, a injustiça racial e a xenofobia religio- esculentus (quiabo), da Manihot es- serviram também como palco de tornaram o refúgio, o lugar do possí- brasileira. As ações executadas pelo
combinação de uso e conservação, sa a que se expõem os produtores culenta (mandioca) são alguns dos experimentação para a aclimata- vel da valorização da biodiversidade ICMBio1 estão pautadas em prote-
um sentido de coprodução com a da cultura negro-africana. inúmeros exemplos da migração ção de novas plantas. Esse sistema e da diversidade cultural. As plantas ger o patrimônio natural e promover
natureza, de dádiva e solidariedade de plantas africanas e dos usos e de conhecimento não se limitava reconhecidas na pesquisa de Go- o desenvolvimento socioambiental,
entre os membros da comunidade 1.1 Plantas, saberes e migrações manejos delas por parte dos povos somente ao plantio, se estendia mes (2009), no Brasil, na metrópole por meio do cumprimento de inú-
(SHIVA, 2003). africanas migrados forçadamente da África. também ao beneficiamento, como de Belo Horizonte, que aparecem meras finalidades, dentre as quais, a
As tradições da etnobotânica afri- o uso do pilão para limpar o arroz com maior frequência nas comu- título de respaldo legal, “executar as
Negar o valor e o acesso à biodi- No período mercantilista, a mi- cana banto e ioruba, presente em – instrumento africano de trabalho nidades de terreiros, quilombos e políticas relativas ao uso sustentável
versidade por povos tradicionais gração de plantas autóctones do terreiros de candomblé e umban- que requer técnica para retirar as quintais são tropicais, de savanas, dos recursos naturais renováveis e
faz parte do mesmo discurso de et- continente africano – em especial da, manifestada na etnomedicina, cascas sem romper os grãos. campos e florestas tropicais com ao apoio ao extrativismo e às popu-

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1
Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade.
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lações tradicionais nas unidades de É primordial atuar focado em um
conservação de uso sustentável, ins- diálogo de saberes agroecológicos
tituídas pela união”. da biodiversidade com a diversidade REFERÊNCIAS
cultural, tendo como eixo o conhe-
Dentre os objetivos do Sistema Na- cimento da etnobotânica dos povos
cional de Unidades de Conservação tradicionais indígenas e dos terreiros
da Natureza (SNUC), destaca-se o de de matriz africana na diáspora e os
“proteger os recursos naturais neces- mecanismos necessários para a ga-
sários à subsistência de populações rantia da reprodução da tradição das
tradicionais, respeitando e valorizan- jinsaba/ewe (folhas). ALVES, Kenneri Cezarini Hernandes et al. Etnobotânica de plantas ritualísticas na prática religiosa de matriz africana em Ituiutaba
do seu conhecimento e sua cultura - MG. Disponível em: <http://www.ethnoscientia.com/index.php/revista/article/view/239>. Acesso em: 16 dez. 2019.
e promovendo-as social e economi- O universo florístico-simbólico per-
camente”. Observando as diretrizes tencente aos povos de terreiros de ANDRADE, Renan Vieira; ARANTES, Priscila Almeida Cunha. Associar, dissimular e zelar: estratégias de (re)existência na formação
a serem seguidas na formação e no candomblé e umbanda, indígenas e da objetuária sacra afro-brasileira. DATJournal, v. 4, n. 2, 10 abr. 2019.
funcionamento dos Conselhos Con- suas tradições, contém sábio conhe-
sultivos de unidade de conservação, cimento que subsidia a produção de ARAÚJO, Edmilson Menezes de. Justiça ambiental: usos do vetiver e da moringa para descontaminação em Santo Amaro da
do artigo 4º da Instrução Normativa mudas de plantas numa cadência Purificação. 2017. 34 f. Trabalho de Conclusão de Curso (TCC – Bacharelado em Humanidades) – Instituto de Humanidades e
11/10 – ICMBio, observa-se, no item equilibrada com uma sofisticação Letras, Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira, São Francisco do Conde, 2017.
XI, que a formação e funcionamento ecológica humanamente inalcan- 3
dos Conselhos Consultivos de uni- çável. Estes saberes dão suporte à BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: Senado Federal; Centro Gráfico, 1988. 292 p.
dade de conservação devem “reco- produção de mudas para os territó-
nhecer, valorizar e respeitar a diver- rios indígenas e de terreiros, à orga- CARDOSO, Marcos. O movimento negro em Belo Horizonte 1978-1998. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2002.
sidade socioambiental e cultural das nização de um herbário de matriz
populações tradicionais e de outras africana e indígena e à spermoteca CARNEIRO, Edison. Os candomblés da Bahia. Salvador: Editora do Museu do Estado da Bahia, 1948.
populações locais em condições de (coleção de sementes), essencial ao
vulnerabilidade socioambiental”. mosaico cultural pertencente aos CARNEY, Judith; MARIN, Rosa A. Saberes agrícolas dos escravos africanos no Novo Mundo. Revista de divulgação científica, São
Jardins do Sagrado. Junta está se Paulo, SBPC, v. 35, n. 205, jun. 2004.
A Reserva Pataxó da Jaqueira (RPJ) desenvolvendo um projeto arquite-
demonstra um importante exemplo tônico-paisagístico a ser implantado CARNEY, Judith. Navegando contra a corrente: o papel dos escravos e da flora africana na botânica do período colonial. Revista de
de reprodução de mudas relevantes dentro do Parque Municipal da La- Estudos Africanos, São Paulo, 22-23; 25-47, 1999/2000/2001.
para a tradição da aldeia, aliando- goa do Nado, ainda dentro do muni-
-se à demanda de educação socio- cípio de Belo Horizonte. GRANDI, Telma. Tratado das plantas medicinais mineiras, nativas e cultivadas. Belo Horizonte: Adequatio Estúdio, 2014.
ambiental por meio de visita guiada
promovida pelos índios Pataxós. A Assim, esses projetos contemplam a GOMES, Ângela Maria da Silva. Rotas e diálogos de saberes da etnobotânica transatlântica negro-africana: terreiros, quilombos,
RPJ faz parte da Área de Preserva- demanda de povos de matriz africa- quintais da Grande BH. 2009. 220 f. Tese (Doutorado em Geografia: Organização do Espaço) – Faculdade de Geografia, Universidade
ção Ambiental (APA) de Coroa Ver- na e indígena nas suas áreas ritua- Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2009.
melha, no município de Santa Cruz lísticas. Buscam uma reforma urba-
de Cabrália. A reserva possui um na inclusiva da cultura do sagrado ICMBIO – INSTITUTO CHICO MENDES DE CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE. Plano de Manejo para o Parque Nacional da Tijuca.
viveiro de mudas de espécies nati- indígena, invisibilizada, e de matriz Brasília, 2008. Disponível em: <http://www.icmbio.gov.br/portal/images/stories/docs-planos-de-manejo/parna_tijuca_pm.pdf>.
vas usadas em diversas atividades: africana, segregada, além de garan- Acesso em: 16 dez. 2019.
rituais tradicionais da etnia, reflo- tir o acesso à biodiversidade e aos
restamento da Mata Atlântica, tra- territórios de reprodução cultural. IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Dossiê de Candidatura da Serra da Barriga, Parte Mais Alcantilada –
tamento de saúde, confecção de Esses territórios do saber e fazer-se Quilombo dos Palmares a Patrimônio Cultural do Mercosul. São Carlos: Editora Cubo, 2017. Disponível em: <http://portal.iphan.gov.
artesanato, entre outras. O visitante indígena africano na diáspora são br/uploads/ckfinder/arquivos/Dossie_serra-da-barriga.pdf>. Acesso em: 16 dez. 2019.
tem a oportunidade de conhecer o essências para a construção de um
Kijeme do Pajé, local onde há a pos- projeto político para o povo indígena RIBEIRO, D. B. et al. A trilha da Reserva Pataxó da Jaqueira como instrumento de educação socioambiental para estudantes de
sibilidade de conhecer mais sobre e negro dentro da metrópole moder- nível médio. Revista Educação Ambiental em Ação, n. 65, Ano XVII.
a importância das ervas medicinais na que os excluiu.
usadas pelos Pataxós em rituais tra- SANTOS, S. B.; PEDRALLI, G.; MEYER, S. T. Aspectos da fenologia e ecologia de Hedychium coronarium (Zingiberaceae) na estação
dicionais (RIBEIRO et al., 2019). Dessa forma, nessas territorialidades ecológica do Tripuí, Ouro Preto-MG. Planta daninha, Viçosa, v. 23, n. 2, p. 175-180, jun. 2005.
urbanas do sagrado serão revelados
Merece destaque a iniciativa desen- os paradigmas, promovendo ruptu- SENRA, Júlia Benfica. Epitáfio: a floresta se despede da cidade? 2018. 183 f. Dissertação (Mestrado em Geografia) – Instituto de
volvida pela Secretaria Municipal ras marcadas por batidas de tambo- Geociências, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2018.
de Cultura da Prefeitura de Belo res que ressoam pautas ancestrais
Horizonte, através da Fundação de indígenas e de matrizes africanas, SHIVA, Vandana. Monoculturas da mente: perspectivas da biodiversidade e biotecnologia. São Paulo: Gaia, 2003.
Parques Municipais e Zoobotânica, despejando um bálsamo de lucidez
denominada Projeto “Jardins do Sa- antirracista, onde ciência, magia e
grado: cultivando Jinsaba”, dentro do direitos socioambientais possam se
município de Belo Horizonte. Neste entrelaçar e se interrogar: a quem
projeto, consolida-se o resgate da pertence à biodiversidade e o direito
tradição da etnobotânica e a amplia- à vida na América Pré-colombiana e
ção dos seus territórios dentro dos no Atlântico Negro?
56 espaços públicos, terreiros de ma- 57
triz africana e territórios indígenas.
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Os igis, ofumons e kekerés ultrapas- cinco maiores sistemas de crença, do desaparecimento e da destrui-
ESTUDOS RECONHECEM sam o seu valor natural para se às quais se acrescentaram outros, ção de reservas de plantas das quais
tornarem a base da ligação do ser posteriormente, sugerindo a todas precisam para sua missão.
O VALOR DAS PLANTAS humano com a divindade. Isso ficou elas uma postura clara e realista
3
mais do que claro no Seminário. Es- diante da crise ambiental. Isso exi- Congadeiro desde os quatro anos
CARLOS FELIPE HORTA tudiosos, pais e mães de santo, bió- ge visões diferentes do mundo e de idade, neto de uma parteira, re-
logos, botânicos, pajés e sábios indí- devem levar a um reexame das so- zadeira e benzedeira num peque-
genas, praticantes e não praticantes ciedades industrializadas, que en- no arraial sem médico, procurei ao
A realização do Seminário “As ci- to ou objeto, mas, muito mais do Para os povos que têm nas plantas de religiões afro-indígenas deram o xergam a natureza como um objeto longo de minha vida estudar pro-
dades e o sagrado dos povos tra- que isso, como algo que abre para um fundamento primordial, entre primeiro passo numa estrada que a ser explorado, principalmente e fundamente a questão das plantas,
dicionais: território, identidades e eles um universo muito maior, eles, os de raízes africanas e indíge- ainda tem retas e encruzilhadas a tão somente no aspecto econômico, em todos os seus aspectos, dentro
práticas culturais” é um marco im- para o mundo não físico… nas, a destruição e o aproveitamento serem palmilhadas e caminhadas. sem a adoção de medidas que impe- de cada religião, principalmente as
portante no sentido de abrir espa- meramente econômico do ecossiste- çam o seu fim. existentes no Brasil. Há algumas
ços para valores tradicionais, qua- Conscientes deste fato, povos de ma atingem o cerne de suas religiões. Foi um primeiro passo, e os promo- semanas, promovi um encontro de
se sempre esquecidos em tempos raízes africanas dizem, com abso- tores (à frente o Secretário Munici- Nesse sentido, o “Seminário As cida- benzedores e rezadores em minhas
de dominação tecnológica e des- luta consciência, que “não há ori- A liturgia e os rituais religiosos neces- pal de Cultural, Juca Ferreira, que des e o sagrado dos povos tradicio- casa e lhes prometi que tocaria no
truição dos recursos naturais. xás sem plantas”. Em síntese, sem sitam de plantas, colhidas e tratadas abraçou imediatamente a ideia), nais: território, identidades e práti- assunto durante o Seminário, o que
plantas, a própria essência de sua dentro de padrões tradicionais. O desde a Festa de Iemanjá, na Lagoa cas culturais”, mesmo debatendo os não foi possível, em razão da exi-
Entre esses valores, estão as plan- fé e sua religião desaparece. seu desaparecimento e as dificulda- da Pampulha, em 2018, sabiam e sa- seus temas dentro de uma visão do guidade de tempo, como colocarei
tas, elemento fundamental de vá- des de sua sobrevivência corroem as bem que há desafios maiores, e que “sagrado”, foi além, para, assim, dar mais adiante. Cumpro a promessa,
rias crenças e religiões, tais como Isso foi colocado de maneira cla- bases da crença e da fé. estes não se limitam à constituição um passo importante no exame e na agora, neste texto.
as de raízes afro-indígenas. ra no “Primeiro Seminário sobre de um primeiro jardim no Parque discussão de algo que afeta toda a
Plantas Medicinais”, realizado em Isso ficou muito claro nas palestras Municipal da Lagoa do Nado. humanidade, não só os praticantes Nos seminários da década de 1970,
Povos e etnias, desde o princípio Belo Horizonte em 1971, com a e debates realizados por dois dias das religiões de raízes afro-brasilei- isso também aconteceu. Nos encon-
da humanidade, tiveram e têm, participação de pais de santo, inteiros, reafirmando, com mais Há, por exemplo, que se estabelecer ras, como todos os seres humanos, tros subsequentes, integrantes de
ainda hoje, nas plantas, um ele- cientistas, rezadores, benzedores, firmeza, conhecimento e realismo, uma união maior entre os grupos de não importando sua fé e sua crença. outros credos religiosos se fizeram
mento de sobrevivência e de co- médicos e membros de vários cre- o que foi iniciado há quarenta e raízes africanas com os de origem presentes e isso foi de grande im-
municação e integração com suas dos religiosos. tantos anos. indígena, bem como reavivar os ri- As palestras, debates e discussões portância.
divindades. tuais, liturgias e tradições que fun- acontecidas no Centro Cultural da
A este Primeiro Seminário, três A união da Fundação Municipal de damentam a convivência entre os UFMG demonstraram e demons- Como temos a certeza de que ou-
Como diz um ditado milenar hin- outros deram sequência, e o que Cultura (FMC) com a Fundação de humanos e as plantas. tram que o primeiro passo dado tros seminários e estudos irão
du, “A terra é nossa mãe, e nós so- era apenas um estudo do fator Parques e Zoobotânica, a Secreta- deve ser prosseguido. E que apren- acontecer, a presença deles será de
mos seus filhos. A terra alimenta, medicinal das plantas tornou-se ria Municipal de Cultura (SMC) e a Torna-se igualmente necessário um damos mais no reconhecimento, na grande valia e acrescentará muito
abriga e veste. Sem ela não é pos- também uma discussão sobre o Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), aprimoramento dos debates e dis- valorização, nos estudos e no apro- a esta nova visão do sagrado das
sível sobreviver”… seu aspecto religioso e ambiental. junto com a Universidade Federal cussões sobre o próprio meio am- veitamento da natureza como vital plantas. Ainda mais porque habita-
de Minas Gerais (UFMG), dentro do biente, pois não adianta falar em para o ser humano e para a sua pró- mos todos esta Terra, que merece e
Os celtas têm no carvalho, os afri- O documento sobre os encontros projeto maior dos “Jardins do Sagra- uso de plantas se elas estão desapa- pria elevação mística e espiritual. precisa ser salva e, com ela, a pró-
canos têm no baobá ou na ga- relevava a importância fundamen- do, cultivando as insabas que curam”, recendo, bem como se não se expli- pria humanidade…
meleira, e indígenas têm em pal- tal de evitar a destruição do meio está criando condições que vão mui- cita a sua importância em todos os Foi um grande primeiro passo, de-
meiras e outras árvores, ilações ambiente, englobando todos os to além da própria instalação de um sentidos da vivência humana. monstrando, porém, que a cami- No final, o nosso agradecimento,
místicas e poderosas que vão mui- seus elementos, como a própria a “jardim sagrado” de plantas. nhada pode ser mais fácil e tranquila honesto e sincero, a todos os que se
to além do fator físico. terra, o ar, as plantas, a água e o “A adaptação dos ensinamentos re- com a adoção de algumas medidas… empenharam e estão se empenhan-
ecossistema. Muito mais do que isso, o tema está ligiosos para reavaliar a natureza e Por exemplo, foi sentida a ausência do na realização dos estudos e da
Não por simples acaso, povos de sendo estudado no que tem de mais minimizar a sua destruição pode de benzedores e rezadores que têm constituição dos Jardins do Sagrado.
raízes africanas possuem até uma O tempo passou e o que se viu e o profundo: o valor fundamental da marcar uma nova fase do pensa- nas plantas também um elemento O presente já lhes dá o mérito, mas
divindade que conhece os segre- que se vê é exatamente o contrá- planta, não só no sentido biológico, mento religioso”, escreveu o ecoteó- fundamental. será o futuro o grande prêmio do
dos das plantas, o que represen- rio. O mundo, como um todo, e o medicinal ou alimentar, mas, princi- logo Thomas Berry, morto em 2009. seu trabalho.
tam e o que podem fazer pelos Brasil, em particular, assiste a um palmente, indo ao âmago da ques- Antes dele, em 1986, em Assis, na Os Jardins do Sagrado a serem cons-
58 humanos, desde que tratadas por ataque violento ao meio ambiente tão, o seu sentido espiritual, de fé e Itália, foi lançado um documento, tituídos lhes devem ser abertos, 59
eles não como um simples alimen- e a tudo que o integra. de crença. assinado por representantes dos pois eles igualmente se ressentem
A S C I D A D E S , A S P R ÁT I C A S D O S A G R A D O E S U A S R E L A Ç Õ E S
3

(...) o tráfico de africanos no


Atlântico representou não só o
traslado de pessoas, mas também
de saberes que promovem o
intercâmbio entre culturas e
plantas na diáspora. Saberes
etnobotânicos e práticas sociais
diversas que se manifestam no
transcurso da história do Atlântico
Negro, seja na fitoterapia, na
agroecologia ou nas expressões de
religiosidade de matriz africana,
como o candomblé.

ÂNGELA MARIA DA SILVA GOMES


Foto RICARDO LAF

60 61
O s s a b e r e s c i e n t í f i c o s , a c a d ê m i c o s e t r a d i c i o n a i s : c o n f l u ê n c i a s pa r a a c o n s t r u ç ã o d e c o n h e c i m e n t o
OS SABERES CIENTÍFICOS, ACADÊMICOS
Os saberes científicos, E TRADICIONAIS
acadêmicos e tradicionais: CLEONICE MARIA DA SILVA (TOÁ KÃNYNÃ PANKARARU)

confluências para Meu caboco índio, o que é que


anda fazendo aqui?
INTRODUÇÃO

A história dos Povos Originários e ligiosa, ancestral e econômica, utili-

A construção de Ô meu caboco índio, o que é que


anda fazendo aqui?
das Comunidades Tradicionais é
carregada de resistência, determi-
nação e fé, no que se refere à terri-
zando conhecimentos, inovações e
práticas gerados e transmitidos pela
tradição.

conhecimento Eu ando por terras alheias,


procurando minhas
Ciências...
torialidade como espaço de práticas
culturais onde sempre defenderam
e defendem suas identidades e co-
É importante destacar os vários be-
nefícios que os Povos e Comunida-
nhecimentos ancestrais. des Tradicionais promovem para
- Canto Sagrado dos a coletividade nacional e mineira,
Pankararu Os povos originários, chamados de
índios pelos europeus, e atualmente
abrangendo modo próprio de vida,
relações territoriais, preservação
4
pelos brasileiros, seguiram um ciclo da memória, história e patrimônio
perverso: “eram guerreiros donos cultural material e imaterial, sabe-
das terras, passaram a inimigos do res tradicionais no uso de recursos
Estado, escravos, agregados ou pos- naturais, entre outros. Seu reconhe-
seiros, trabalhadores rurais sem- cimento formal e a promoção dos
-terra, artesãos, moradores de peri- seus direitos contribuem para a re-
ferias das cidades” (SOARES, 2015). dução da desigualdade e para a pro-
moção da justiça social.
O artigo 3º, do Decreto nº 6040, de
7/02/2007, da Constituição1 define
povos e comunidades tradicionais
como sendo grupos culturalmente
diferenciados e que se reconhecem
como tais, que possuem formas
próprias de organização social, que
ocupam e usam territórios e recur-
sos naturais como condição para
sua reprodução cultural, social, re-
No campo da política de patrimônio cultural, um dos desafios que se coloca é a implementação de medidas de salvaguarda.
Construídas a partir da identificação dos processos estruturantes das práticas culturais e do diagnóstico das fragilidades
internas e externas que as afetam, as medidas de salvaguarda devem ser construídas, via de regra, pelo entrecruzamento
de campos distintos do conhecimento. Promover, divulgar, difundir, transmitir, fomentar constituem linhas de atuação
para a salvaguarda que se efetivam a partir de uma abordagem intersetorial. Salvaguardar, no contexto da política de
proteção ao patrimônio dito imaterial, exige uma articulação concatenada dos distintos saberes, dado que seu campo de
atuação constitui produto que não é estático; ele se faz e se refaz no diálogo e nas interações sociais. Partindo, então, da
necessidade da confluência de conhecimentos para a implementação de medidas de salvaguarda eficazes, toma-se como
referência temática deste capítulo a discussão sobre as potencialidades e o relato de experiências de entrecruzamento
62 dos saberes científicos, acadêmicos e tradicionais como fio condutor de processos de salvaguarda das práticas culturais 1
Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2007/decreto/d6040.htm>. 63
indígenas e de terreiro. Acesso em: 15 dez. 2019.
O s s a b e r e s c i e n t í f i c o s , a c a d ê m i c o s e t r a d i c i o n a i s : c o n f l u ê n c i a s pa r a a c o n s t r u ç ã o d e c o n h e c i m e n t o
Cartilha “Direitos dos Povos e Co- Pankararu-Pataxó Os encantados e os Praiás Conclusão A plenitude da vida está conectada
munidades Tradicionais”, elabora- ao Sagrado. Onde está o Sagrado?
da pela Coordenadoria de Inclusão A etnociência pode ser uma via im- O povo Pankararu, apesar das per- Refletindo sobre a ciência moder- Para o povo Pankararu, o Sagrado REFERÊNCIAS
e Mobilização Sociais (CIMOS) – Mi- portante e necessária para o entre- das culturais sofridas nesses cinco na, contemporânea, no âmbito das está em tudo que a natureza ofere-
nistério Público de Minas Gerais cruzamento de campos distintos do séculos de contato com outras cren- discussões epistemológicas, ten- ce. Ou seja, a água, o solo (terra), o
conhecimento, como as experiên- ças, outras formas de se organizar, de-se a desconsiderar as diversida- fogo, o ar (vento). Estes que são co-
ETNOCIÊNCIAS cias apresentadas na Aldeia Cinta de pensar, de ser, ainda mantém des das ciências, dos conhecimen- nhecidos como os quatros elemen-
Vermelha de Jundiba, formada por fortes alguns elementos essenciais tos existentes, manipulando-se os tos da natureza.
Os caminhos da Etnociências e da dois grupos indígenas, dos Panka- para a sua existência. Os Encanta- espaços acadêmicos, conduzindo- CIMI. Povos indígenas, território e bioma.
Etnoconservação dos Territórios raru e dos Pataxó, que se estabele- dos e os Praiás (Fig. 2) são os princi- -se a um monopólio “científico” da Este texto foi iniciado destacando e Revista Porantim, 2017. As revistas desse
ceram no nordeste de Minas Gerais, pais elos identitários dos Pankararu. “ciência colonizadora”, “monociên- referendando a letra de um canto ano estão disponíveis em: <https://cimi.
É perceptível que alguns cientistas, formando novas aldeias em defesa cia” ou “necrociência”. Muitas tec- de celebração do povo Pankararu. org.br/2017/04/39406/>. Acesso em:
estudiosos e pesquisadores estão das práticas ancestrais. Os Encantados são representantes nologias de ponta, muitas pesqui- Ele traz uma reflexão imediata, com nov.-dez. 2019.
empenhados em descobrir novos centrais da cosmologia Pankararu. sas de ponta. Espaços como a Lua, destaque para as frases: “ando por
caminhos dentro das ciências, reco- São “índios vivos que se encanta- Marte e outros planetas já estão terras alheias” (território, espaço, RIBEIRO, Rosemary Machado. O mundo
nhecendo que, no domínio científi- ram” por algum motivo, de forma sendo colonizados. lugar), “procurando minhas ciên- encantado Pankararu. 122f. Dissertação
co, a etnociência tem ganhado for- voluntária ou involuntária. Ocupam cias” (identidade, saberes, conheci- (Mestrado em Antropologia) –
ça em seus vários ramos, como por espaços sagrados, invisíveis aos Essa ciência respeita o Sagrado? mento, práticas culturais). E com a Universidade Federal de Pernambuco,
exemplo: etnobiologia, etnobotâni- olhos comuns. Habitam as serras, Para o povo Pankararu, quando o letra de um canto de celebração do 1992.
ca, etnozoologia, etnofarmacologia, grutas, matas, e principalmente as Sagrado não é considerado têm-se povo Pataxó, conclui-se este texto,
dentre outros. Dentro desse domí- nascentes e cachoeiras. Caminham exemplos desastrosos. O mais re- refletindo sobre a necessidade da SOARES, Geralda Chaves. Entrevista de
nio, os povos indígenas e as comu- flutuando um “palmo” acima do cente exemplo para essa reflexão confluência de conhecimentos e de Nayá Fernandes. Diário de Minas. 2015.
nidades tradicionais desempenham solo. Para os Pankararu, eles não é de um feito científico-tecnológi- salvaguarda das práticas culturais e
papel fundamental. são mortos, por isso, o culto a eles co, de alta complexidade, alto custo saberes dos ancestrais.
Figura 1 - Símbolo da Aldeia é diferente do culto aos mortos, monetário, que se rompeu e matou
Em busca de novos conhecimen- Cinta Vermelha-Jundiba pois, segundo a crença desse povo, centenas de seres humanos: a bar-
tos, as ciências procuram apoio Foto ARQUIVO PESSOAL eles possuem “sangue real”, ou seja, ragem de Brumadinho. É provável
em diferentes fontes de saberes, “sangue vivo”. A forma dos encan- que tenha causado a extinção de
fazeres dos povos indígenas que O símbolo da aldeia (Fig. 1) é com- tamentos é envolta em mistérios e uma gama de seres vivos, aquáticos Na minha aldeia tem beleza sem
têm nos biomas os seus territórios posto por inúmeras figuras que re- segredos que não podem ser reve- e terrestres, muitos vegetais, que ali contar,
ancestrais. Assim, os Pankararu-Pa- presentam elementos cosmológicos lados a qualquer um. permaneciam há milhares de anos.
taxó da Aldeia Cinta Vermelha de importantes e significativos para os eu tenho arco, eu tenho flecha e raiz
Jundiba, município de Araçuaí, Minas Pankararu e os Pataxó. Território é patrimônio material e para curar.
Gerais, têm muito a contribuir com
suas ciências às sociedades presen- Maracá: som, ritmo, movimento.
imaterial, que são indissociáveis. Es-
paço de organização social, religio- Viva Tupã! Viva Tupã, que traz sem-
4
tes. sa, educacional, da saúde e do lazer. pre o raiô!
Kampiô (cachimbo cônico de ma- O Território não é apenas uma área
Etnoconservação deira): fumaça do equilíbrio, benzi- de moradia, um lugar, é, principal- Canto de celebração do povo Pataxó
mentos, sagrado. mente, onde a vida e a ancestralida-
Dentre os inúmeros problemas en- de se perpetuam. Onde se promove Aldeia Cinta Vermelha-Jundiba
frentados pelos povos indígenas e Cuia de coité: partilha, divisão, soli- a vida em plenitude. Araçuaí –MG, outubro de 2019
comunidades tradicionais, o pior dariedade.
deles é a invasão e predação de
seus territórios, afetando assim os Árvore Jundiba: proteção, abrigo,
conhecimentos tradicionais sobre a libertação.
preservação e conservação da biodi-
versidade. Água: vida infinita, alimentação,
saúde. Figura 2 - Praiá
Nesse contexto, a abordagem sobre Foto ARQUIVO PESSOAL
o conceito de “etnoconservação” Solo: sustentação, firmamento, dire-
contribui para uma percepção de ção. Em sonho, os Encantados solicitam
que existem formas diferentes de vi- uma vestimenta, confeccionada de
são de mundo. Praiá: protetor encantado, guia, ser fibra de caroá ou croá (planta da fa-
com poderes sobrenaturais. mília das bromeliáceas). Essa vesti-
Nas sociedades indígenas, há uma menta, composta de saia, máscara,
interligação orgânica entre o mundo A cobra sucuri: força, coragem, de- penacho e um acessório, chamado
natural, o sobrenatural e a organiza- terminação. de cinta, serve para encobrir a per-
ção social. Desse modo, pode-se afir- sonalidade do índio que a veste sob
mar que “não há quem melhor pro- Mussum: libertação, liberdade. determinadas prescrições, configu-
teja um bioma do que o povo que rando-se no “Praiá”, que é a mate-
nele vive de forma integrada com as rialização do próprio Encantado (Fig.
diversas formas de vida ali presen- 2). O Praiá é a conjunção em ato, do
64 tes” (CIMI, 2017). Encantado, do dançador e da roupa 65
Etnoconhecimento dos e máscara de croá (RIBEIRO, 1992). Foto RICARDO LAF
O s s a b e r e s c i e n t í f i c o s , a c a d ê m i c o s e t r a d i c i o n a i s : c o n f l u ê n c i a s pa r a a c o n s t r u ç ã o d e c o n h e c i m e n t o
para garantir o acesso das raizeiras ção Pacari, a elaboração do protoco-
aos seus territórios tradicionais de lo comunitário foi um processo de
coleta de plantas do Cerrado. construção da identidade social das
raizeiras, como atores sociais que
O processo de elaboração da Far- reivindicam seus direitos perante o
macopeia Popular do Cerrado tam- poder público.
bém suscitou elementos para a
solicitação, ao Instituto do Patrimô- A identidade social das raizeiras ex-
nio Histórico e Artístico Nacional pressa no protocolo comunitário se
(IPHAN), do reconhecimento do ofí- situa no contexto de múltiplas iden-
cio das raizeiras e raizeiros do Cerra- tidades que possuem as mulheres
do como “bem cultural imaterial do que praticam a medicina tradicional.
Brasil”. Essa solicitação foi um dos As raizeiras também se identificam
encaminhamentos do 4º Encontro como agricultoras urbanas, campo-
das Parteiras, Benzedeiras e Raizei- nesas, quilombolas, indígenas, ben-
PRODUÇÃO DE CONHECIMENTOS POR RAIZEIRAS DO CERRADO: ras do Cerrado, ocorrido em 2004, zedeiras, mães de santo, agentes
na cidade de Goiás Velho (GO). A de pastoral, agentes comunitárias
POLÍTICAS DA VIDA E O DIREITO DE PRATICAR A MEDICINA TRADICIONAL importância do reconhecimento do de saúde, quebradeiras de coco ba-
ofício pelo IPHAN se justifica pela baçu, pescadoras, apanhadoras de
JAQUELINE EVANGELISTA DIAS busca de apoio, principalmente do sempre viva, catadoras de manga-
poder público, para a implemen- ba, ribeirinhas e assim por diante.
tação de ações de salvaguarda da Porém, no momento de se autode-
À procura de uma planta, a raizei- e polvilho. As formas dos remédios de coleta de plantas medicinais; a transmissão dos conhecimentos terminar como raizeira, se reconhe-
ra sabe andar pelo Cerrado, distin- podem ser garrafadas, xaropes, pí- autonomia sobre a gestão de seus tradicionais, considerando-se que ce como aquela mulher que possui a
gue seus ambientes, reconhece as lulas, chás, entre outras, utilizan- conhecimentos; e a comercialização o funcionamento de farmacinhas ancestralidade do dom da cura, que
plantas guias do caminho e, quando do-se técnicas tradicionais seme- de remédios caseiros. são espaços estratégicos para essa se prepara espiritualmente para
encontra a planta desejada – reve- lhantes ao preparo de alimentos. A transmissão, enquanto “laborató- exercer o seu ofício, que conhece
rencia respeito e agradecimento. Ela aquisição do remédio caseiro é feita Uma das estratégias adotadas para rios culturais”, onde se produzem e protege o Cerrado, que conhece
sabe o tempo certo da coleta: algu- de forma direta, entre a raizeira e esse enfrentamento é a participa- remédios caseiros. Acredita-se que e respeita o poder das plantas, que
mas plantas só são coletadas após quem precisa, sendo comercializa- ção de representantes das raizeiras a conquista desse reconhecimento sabe coletar as plantas, que possui
as primeiras chuvas, para outras, es- do a preços acessíveis ou doado a na elaboração e implementação de terá um impacto relacional junto a muita responsabilidade na hora de
pera-se o fruto e a disseminação das quem não pode pagar. políticas públicas relacionadas, des- outras políticas públicas, expondo a fazer e indicar um remédio caseiro,
sementes. Na lua certa, se precisar tacando-se: a Política Nacional de necessidade premente de flexibiliza- e que se compromete com a aces-
coletar casca ou entrecasca, prefe-
re cortar um galho a tirá-la do tron-
Porém, a legislação brasileira inter-
preta como ilegal o preparo e co-
Plantas Medicinais e Fitoterápicos,
instituída em 2006 (BRASIL, 2006); a
ção da criminalização da prática da
medicina tradicional imposta pela
sibilidade econômica das pessoas à
medicina tradicional.
4
co; se for raiz, arranca uma parte e mercialização de remédios caseiros, Política Nacional de Desenvolvimen- atual legislação.
deixa outra para a planta rebrotar. amparada pelo Código Penal Bra- to Sustentável de Povos e Comuni- O protocolo comunitário também
O uso da parte da planta coletada sileiro, que, em seu art. 273, consi- dades Tradicionais, instituída em Ainda no contexto de inserção em descreve a identidade social das
também tem seus segredos, tem dera crime disponibilizar produto 2007 (BRASIL, 2007); a Lei 13.123, de políticas públicas, a Articulação Pa- raizeiras por meio de suas relações
planta que só pode ser usada depois terapêutico sem registro no Minis- 2015, que dispõe sobre o acesso ao cari trabalha para a implementação sociais, pelos caminhos que elas per-
que murcha ou seca, precisa tirar a tério da Saúde (BRASIL, 1940). Essa patrimônio genético, sobre a pro- da Convenção da Diversidade Bio- correm no seu dia a dia, o que de-
nódoa, a baba, o “veneno”. interpretação da legislação, que teção e o acesso ao conhecimento lógica (CDB) no Brasil. Entre outras marca uma territorialidade de cura.
considera remédio caseiro similar tradicional associado e sobre a re- ações, a CDB orienta os países parte Essa territorialidade se inicia com a
O preparo do remédio caseiro tem a produto terapêutico, coloca as partição de benefícios para a con- a reconhecerem “protocolos comu- transmissão de conhecimentos tra-
muita ciência, cada remédio tem raizeiras em situação de criminali- servação e o uso sustentável da bio- nitários” elaborados por povos e dicionais, em relações familiares,
sua história, que vem da tradição e dade e vulnerabilidade e, legitima a diversidade (BRASIL, 2015). comunidades tradicionais. Os pro- passados de geração em geração, ou
da experiência da raizeira, dos tes- ação da vigilância sanitária para fe- tocolos comunitários são acordos, por meio da escuta junto às pessoas
temunhos de cura de quem o usou. char farmacinhas comunitárias e/ou A participação nesses espaços de procedimentos, regras e práticas mais sábias e vividas. O aprendiza-
O remédio pode ser preparado recolher os remédios caseiros das inserção em políticas públicas de- desenvolvidos por povos e comuni- do é complementado e enriqueci-
na cozinha da casa da raizeira, em raizeiras, principalmente em feiras. mandou, para as raizeiras, a elabo- dades tradicionais sobre seu conhe- do com a participação das raizeiras
farmacinhas caseiras, ou ainda em Nesse contexto, de impacto negati- ração de documentos referência cimento tradicional, territórios, bens em cursos, encontros, intercâmbios
farmacinhas comunitárias, que são vo à dinâmica e salvaguarda da me- sobre o seu ofício. Assim, em 2009, naturais e outros. Eles se baseiam e pesquisas populares. O conheci-
espaços próprios nas comunidades dicina tradicional brasileira, a partir a Articulação Pacari publicou o livro na diversidade de leis costumeiras mento apreendido pelas raizeiras
abertos ao público. A raizeira tem de um trabalho realizado pela Rede “Farmacopeia Popular do Cerrado”, e seus direitos, acordos e modos é transmitido para outras pessoas,
uma relação forte de escuta com as de Intercâmbio de Tecnologias Al- com autoria de 262 raizeiras e rai- de vida tradicional que as comuni- num fluxo continuo, seja em con-
pessoas, sabe diagnosticar as doen- ternativas (REDE), nasce, em 1999, a zeiros (DIAS; LAUREANO, 2009). O dades praticam há muitas gerações versas informais na convivência em
ças que ocorrem localmente, indica Articulação Pacari – uma rede de rai- livro contém a relação das plantas (JUKIC; COLLINGS, 2014). Em 2014, a comunidade, seja nos atendimentos
dietas e remédios caseiros, como zeiras, benzedeiras e parteiras dos medicinais prioritárias para a medi- Articulação Pacari elaborou o “Pro- de saúde realizados, seja porque são
também pode benzer e fazer uma estados de Minas, Goiás, Tocantins e cina tradicional do Cerrado e o es- tocolo Comunitário Biocultural das convidadas a ministrarem cursos ou
oração. Os remédios caseiros são Maranhão. A Articulação Pacari tem tudo aprofundado de nove dessas Raizeiras do Cerrado: direito con- palestras em escolas, universidades,
preparações que utilizam plantas como seus objetivos principais: a plantas, assim como traz acordos suetudinário de praticar a medici- encontros etc. Outra marca de sua
medicinais e diversos outros pro- defesa dos direitos das raizeiras de coletivos para a proteção dos co- na tradicional” (DIAS; LAUREANO, territorialidade é a teia de atendi-
66 dutos da agricultura familiar, como praticarem a medicina tradicional; nhecimentos tradicionais de apro- 2014). Além de conter as propostas mentos de saúde que se forma, te- 67
mel, rapadura, óleos, cachaça, vinho o acesso aos territórios tradicionais priações indevidas e estratégias políticas defendidas pela Articula- cida pelo fluxo das pessoas que pro-
O s s a b e r e s c i e n t í f i c o s , a c a d ê m i c o s e t r a d i c i o n a i s : c o n f l u ê n c i a s pa r a a c o n s t r u ç ã o d e c o n h e c i m e n t o
curam as farmacinhas; pelas visitas rado da vitalidade do corpo e da Na continuidade, a mulher tem a
domiciliares que as raizeiras fazem territorialidade da mulher raizeira. destreza e a força para buscar e ra-
às pessoas doentes; pela participa- Essa dimensão política do corpo, na char lenha, pois precisa alimentar o REFERÊNCIAS
ção das raizeiras em feiras; pela for- constituição do conhecimento e da fogo que faz o óleo emergir da mas-
mação de grupos de whatsApp; pe- territorialidade incorporados ao re- sa de castanhas que foi socada no
los atendimentos por celular; e pelo médio caseiro, traz a seguinte ques- pilão. A mulher que sabe apurar o
envio dos remédios caseiros por tão: qual é a vida vivida pelo corpo óleo que ferve na panela, também
correio para quem mora longe. Essa da mulher raizeira? respira fumaça e traz a quentura do
territorialidade também se estende fogão em seu corpo.
a espaços organizativos, com a par- É com essa questão que a Articula- BRASIL. Presidência da República. Casa Civil. Decreto-Lei Nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Código Penal. Disponível em:
ticipação das raizeiras em grupos, ção Pacari, em 2019, elaborou o li- Esse olhar para a mulher raizeira, <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848.htm>. Acesso em 03 dez. 2019.
associações, sindicatos, coletivos e
redes, que se fazem representar em
vro Corpo-Território Mulher Kalunga
(DIAS; LAUREANO, 2019). A publica-
para o seu corpo, para o remédio in-
corporado de conhecimentos e ter- BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos, Departamento de Assistência Farmacêutica.
4
conselhos municipais de saúde e ção traz a ideia do corpo da mulher ritorialidades, coloca a Articulação Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos. Brasília: Ministério da Saúde, 2006.
assistência social; em fóruns e con- quilombola Kalunga como extensão Pacari em causa diante das políticas
selhos estaduais de segurança ali- de um território provedor, onde ela, da vida. Nessa perspectiva, desde BRASIL. Presidência da República. Casa Civil. Decreto Nº 6.040, de 7 de Fevereiro de 2007. Institui a Política Nacional de
mentar ou de povos e comunidades como caminhante desse território, 2018, participa da construção da Co- Desenvolvimento Sustentável de Povos e Comunidades Tradicionais. Brasília: Casa Civil, 2007.
tradicionais; e em comitês e conse- sabe colher os seus oferecimentos. letiva Embaúba, junto a outras orga-
lhos nacionais, como o já extinto Co- Como exemplo, a mulher Kalunga, nizações e pessoas da região metro- BRASIL. Presidência da República. Secretaria Geral. Lei Nº 13.123, de 20 de Maio de 2015. Dispõe sobre o acesso ao patrimônio
mitê Nacional de Plantas Medicinais entre tantos outros oferecimen- politana de Belo Horizonte (MG). A genético, sobre a proteção e o acesso ao conhecimento tradicional associado e sobre a repartição de benefícios para conservação
e Fitoterápicos. tos do território, sempre produziu Coletiva Embaúba busca a garantia e uso sustentável da biodiversidade. Brasília: Presidência da república, 2015.
o óleo de coco indaiá, usado como dos direitos das raizeiras, benzedei-
A partir de 2016, a Articulação Paca- alimento e remédio caseiro. Para ras e parteiras para exercerem seus DIAS, J. E.; LAUREANO, L. C. (Org). Farmacopeia Popular do Cerrado. Goiás: Articulação Pacari, 2009.
ri, além de continuar a fortalecer e preparar o óleo, ela conhece os ca- ofícios, principalmente no dia a dia,
dar visibilidade à identidade social e minhos para encontrar o coco, mas diante da necessidade de enfrenta- DIAS, J. E.; LAUREANO, L. C. (Org). Protocolo Comunitário Biocultural das Raizeiras do Cerrado: direito consuetudinário de praticar a
às relações sociais das raizeiras, ini- nessa caminhada, também corre o mento ao racismo, ao machismo, à medicina tradicional. Turmalina: Articulação Pacari, 2014.
cia um processo para compreender risco de encontrar com uma onça, LGBTQI+fobia e à intolerância reli-
a dimensão política do corpo da mu- com a rodilha de uma cobra, com giosa. A primeira ação prevista pela DIAS, J. E.; LAUREANO, L. C. Corpo-Território Mulher Kalunga. Cavalcante: Articulação Pacari, 2019.
lher raizeira e sua relação com a me- uma casa de maribondos. Após a Coletiva Embaúba é a construção de
dicina tradicional. Essa dimensão, coleta, ela possui o equilíbrio para um protocolo comunitário biocultu- JUKIC, E.; COLLINGS, N. Community Protocols for Environmental Sustainability: a guide for policymakers. Nairob: UNEP, 2014.
trazida pelas ideias do feminismo carregar um saco de cocos na cabe- ral, que proporcione um processo
comunitário, considera o compro- ça por longas distâncias, mas sente de articulação entre as organizações
misso que a raizeira faz com o seu a dor de todo esse peso nas costas. e pessoas envolvidas, um material
território de cura, sendo o seu cor- Para retirar as castanhas do coco, a didático destinado a escolas e um
po extensão desse território. Assim, mulher Kalunga quebra o coco com instrumento político de visibilidade
os seus conhecimentos e práticas uma pedra de aproximadamente da (re)existência da medicina tradi-
são resultantes dos movimentos do dois quilos, e no final do dia, a mão, cional brasileira.
seu corpo e do seu corpo em movi- de tão inchada, nem fecha. Para ex-
mento pelo território. Ao considerar trair o óleo, as castanhas precisam
essa perspectiva, o conhecimento ser socadas no pilão, trabalho pe-
68 deixa de ser apenas uma informa- sado, que faz a mulher sentir que o 69
ção e torna-se um ente incorpo- seu “peito abriu” de tanto esforço.
O s s a b e r e s c i e n t í f i c o s , a c a d ê m i c o s e t r a d i c i o n a i s : c o n f l u ê n c i a s pa r a a c o n s t r u ç ã o d e c o n h e c i m e n t o
que poderia ser inspirada no pensa- Saiu de porta em porta chamando as intencional, podendo atuar juntas
mento junguiano, caso ela o conhe- mulheres e as crianças. Juntou toda ou separadamente, criam elos como
cesse ou pelo menos tivesse notícia sua gente da aldeia e foram cantando um processo sempre aberto. Assim,
de suas teorias. Mas, na verdade, e dançando até o palácio do rei e lá ao partilhar do discurso candomb-
tratava-se de uma pessoa que se fizeram um xirê, uma festa com toda lecista ou da experiência mística do
autorizava a dizer verdades revesti- gente junta formando uma grande terreiro, ou quem sabe até de am-
das da sabedoria, herança de cinco roda e começaram a cantar: Iyalode! bos, aquele que anteriormente foi
gerações da grande família Afonjá. Ô Iyalode Iya, ô Iyalode Iya, ô Iyalode considerado “de fora” pode, então,
Mãe Stella foi a quinta Iyalorixá do Iya. Dançando sempre em círculo e re- ser incluído no terreiro, não mais
Ilê Axé Opo Afonjá. Os antigos ensi- petindo a mesma cantiga, o xirê durou como um elemento estranho, mas
naram modos de ser e de convivên- dias, até que o rei ordenou: – Entre- como parte integrante. A busca da
cia a seus filhos e filhas através de ga tudo que Dona Oxum está pedin- consulta aos búzios e as partilhas
histórias míticas e do mundo tan- do. Afinal, tudo que ela quer, mesmo, que se realizam durante encontros
gível, penetrando numa realidade é para ajudar o seu povo. Foi deste que parecem transitórios, a pre-
que não incluía, necessariamente, o modo que a altiva senhora passou a sença nos toques podem ou não
EPISTEMOLOGIAS IORUBANAS: EDUCAÇÃO E aspecto religioso, mas tão somente ser conhecida como aquela que distri- ter relação com as crenças nas en-
formas de um exercício dialógico e bui riquezas. tidades e divindades do candomblé,
SABERES ANCESTRAIS um ensinamento na vida. Tia Deti- mas são representativas do anseio
nha pede à iniciada mais jovem que Por muitos anos, Tia Detinha não in- humano de encontro com aquilo
VANDA MACHADO se aproxime. terrompeu a sua missão de ensinar, que transcende o mundo físico. Foi
retirando da sua arte sentimentos assim que cada palavra e cada ges-
– Você é de Oxum, não é? Respondeu que afetaram as nossas identida- to de Tia Detinha desde então são
RESUMO Da varanda, era possível distinguir, que sim. É bom você saber como é o des, a nossa convivência e as nossas para mim como miçangas preciosas,
sobre a mesa de jantar, retalhos seu orixá, a dona de sua cabeça e de aprendizagens rituais. O encontro, que fui juntando até se transformar
O texto ora apresentado tem como de tecidos coloridos, galões, cola, sua vida. Parte de sua vida carrega a aparentemente acidental, fazia par- num colar de contas consagradas
pretensão expressar a singularida- tesoura, agulhas, botões, material energia de Oxum, que é vaidosa, de- te do que seria o rito da iniciação e a Oxum. Contas que carrego perto
de e o legado de negras e negros metalizado, dourados e prateados, licada, não gosta de escândalos nem fundamental para a compreensão e do coração, porque é o que me dá
escravizados e deve ser compre- linhas, arame, contas, elástico, fitas, maledicência. É a senhora das águas a convivência comunitária, que ten- identidade, compõe meu jeito de
endido para além de um relato rendas, tesoura, alicate, galões e bo- doces. Sua dança é leve como um ven- de a durar a vida inteira. Entende-se, ser-sendo na minha comunidade e
de vitimação ou da submissão no necas pretas inacabadas. Na ponta to embalando as águas tranquilas do assim, que o logos, como a academia no mundo.
contexto vivencial. O processo de da mesa, uma boneca a ser vesti- rio. defende, é eficiente e racional, mas
escravidão não nos aniquilou, ao da. Restava saber, quem trabalhava não consegue realizar a experiência Salvador, 3 de dezembro de 2019.
contrário, nos fortaleceu e continua naquela mesa produzindo bonecas Em seguida, põe uma saia amarela de nos tornar pessoas religiosas e
a nos revelar caminhos de ânimo e,
como tal, nos planta no presente
vestidas como orixás? de tecido dourado na boneca negra.
Põe colares, anéis brincos e enfeites
inteiramente humanas. A mitologia,
ao contrário, é uma forma de arte
4
com os olhos no futuro. Este ensaio Sem muita demora, entra pela va- de bicos e renda. que invade nosso ser, espalhando
discute o sentido da convivência da randa uma simpática senhora ne- emoções como partículas da sabe-
família ancestral no terreiro, os en- gra, de cabelos bem curtos, quase – Oxum é Ayabá, é orixá feminino, doria ancestral. Ou, como diria Le-
sinamentos das mais velhas e dos todo branquinho, calçando chinelos mãe de todas as pessoas do mundo. opold Senghor: “Eu sinto o outro,
mais velhos como ato político de fechados e com óculos muito for- Gosta de joias e de tudo que é boni- então eu sou”.
criatividade e resistência. tes. Um vestido largo, estampado to. Oxum cuida das crianças desde a
com flores vermelhas, lhe imprimia sua concepção até quando aprende a As bonecas de Tia Detinha contam
Palavras chaves: Criatividade. Re- a aparência de uma antepassada falar. É neste momento que se apre- histórias que são tecidas com a ale-
sistência. Consciência histórica. In- de volta à vida presente, cheia de senta o orixá que vai cuidar dessa gria que dá sustentação a uma re-
submissão. sabedoria, intuição, poesia e narra- criança toda a vida. Oxum é proteto- ligião que, além de humanizante, é
tivas que podem ser consideradas ra das famílias e das grávidas. Oxum interdependente, na qual, cuidar,
A primeira vez que visitei o terreiro verdadeiros passeios filosóficos. Es- é a maternidade encantada. ser cuidado, dar e receber é a regra.
Ilê Axé Opo Afonjá foi só encanta- tou falando de Tia Detinha de Xan-
mento. A manhã ainda estava che- gô. Ela entra silenciosa no quarto – Sabe por que Oxum usa este espe- Com o tempo, pude perceber que
gando quando atravessei a porteira de Mãe Stela, pede-lhe a benção, lho chamado “abebé”? O espelho não no diálogo que se estabelece entre
parcimoniosamente e logo me senti volta e nos cumprimenta. Senta-se é para ficar admirando a sua própria o povo de santo e os indivíduos,
acolhida por cada árvore que agita- em frente à mesa, retomando seu beleza. O espelho serve como instru- candomblecistas ou não, a experi-
va seus galhos e folhas com a ale- trabalho com gestos lentos que pa- mento de iluminação para que Oxum ência e o afeto reivindicam um có-
gria de um convite para entrar na reciam ritualizar uma agradável ta- veja tudo que está a sua volta e defen- digo epistemológico, igualmente
casa de paredes brancas e portas refa a ser concluída. da a vida de seus filhos em qualquer legítimo em relação à conexão dis-
vermelhas, a casa de Xangô. Algu- situação. Oxum é líder. Conta-se que cursiva, que aproxima respeitando
mas pessoas sentadas nos largos Jovens iaôs e abians se aproximam certa vez, percebendo a dificuldade os limites do seu ser e a ordem dos
sofás forrados de vermelho esta- de sua mais velha em silêncio com de seu povo, ela foi ao rei pedir pro- fatos. Estando ambas presentes no
vam à espera da Iya Stela, mãe e o corpo ligeiramente curvado numa vidências. Lá, começa a clamar, per- terreiro, na cidade e naqueles que
gestora da comunidade, para soli- reverencia cheia de significados. Ela guntando ao rei se era justo ele viver circulam nesses espaços, essas duas
citar o jogo de búzios. Eu não en- começa a vestir uma boneca preta, entre tantas riquezas e seu povo viver categorias de comunicação com o
trei logo. Era minha primeira vez, contando mais uma das suas his- tão mal? O rei não se importou e man- sobrenatural, uma verbal, baseada
70 e, para a entrada em um terreiro, tórias de orixás. Sua fala tranquila dou Oxum ir para a casa. Oxum voltou nos preceitos e na doutrina mítica, 71
toda sobriedade é pouca. se assemelhava a uma explicação para a sua aldeia, mas não desistiu. outra não verbal, involuntária e não
O s s a b e r e s c i e n t í f i c o s , a c a d ê m i c o s e t r a d i c i o n a i s : c o n f l u ê n c i a s pa r a a c o n s t r u ç ã o d e c o n h e c i m e n t o
O racismo como determinante As pesquisas sobre o sequencia- na pirâmide social, sendo as mulhe-
das políticas mento do genoma comprovaram a res negras as maiores vítimas.
inexistência de diferenças biológicas
Os modos de produção de conheci- que justifiquem tratamentos discri- No que tange às religiões, Távora et
mentos no Brasil ainda se encontram minatórios entre os seres humanos. al. (2019)1 informam que “a intole-
assentados no ideário eurocentrado Mas, como essas diferenças têm ca- rância religiosa no Brasil tem gênero
de ciência. Mas, nos últimos tempos, ráter ideológico, na perspectiva so- e raça. De 2011 ao primeiro semes-
ascende um grupo de intelectuais cial e estatal, elas permanecem de- tre de 2018, 59% das vítimas eram
negras e negros comprometido com lineando os modos relacionais e de negras e 53%, mulheres, segundo
as temáticas racial e de gênero e que funcionamento da gestão pública. denúncias recebidas pelo Disque
vem produzindo um arcabouço teó- 100”.2
rico capaz de auxiliar na conciliação De acordo com o pesquisador Silvio
dos saberes científicos, acadêmicos de Almeida (2019), o racismo pode A título de ilustração sobre a persis-
e profissionais. Uma vez que, para ser compreendido como “uma for- tência das desigualdades raciais na
superarmos esse desafio, precisa- ma sistemática de discriminação vida das mulheres negras e do ra-
OS SABERES CIENTÍFICOS, ACADÊMICOS E mos refletir sobre os processos his- que tem a raça como fundamento cismo religioso, de modo especial,
tórico-cultural e político da coloniza- e se manifesta por meio de práticas apresento um texto elaborado por
TRADICIONAIS: CONFLUÊNCIAS PARA ção e escravização, considerando a conscientes ou inconscientes, que mim, a partir de um diálogo com
presença do racismo na raiz da so- culminam em desvantagens ou pri- educandas da Educação de Jovens
A CONSTRUÇÃO DE CONHECIMENTOS ciedade e do Estado brasileiro. vilégios para indivíduos, a depender e Adultos (EJA), em uma escola da
do grupo racial ao qual pertençam Região Metropolitana de Belo Hori-
EMANCIPATÓRIOS O Colonialismo entendido como um (ALMEIDA, 2019, p. 32). zonte, durante o Mês da Consciência
conjunto de práticas políticas, eco- Negra, 2017.
YONE MARIA GONZAGA nômicas e militares visava à incorpo- Além de conferir desvantagens no
ração dos territórios “descobertos” e usufruto de direitos e bens social- Feitiço
“conquistados” pelos colonizadores, mente construídos, o racismo, cria-
A realização do Seminário “Jardins afirmar que a realização desse Semi- significou, sobretudo, uma articu- do e defendido majoritariamente - Professora, a senhora acredita em
do Sagrado” dentro da programa- nário Jardins do Sagrado é oportuna lação discursiva que tinha a Europa pelo grupo constituído pelas pesso- feitiço?
ção do X Festival de Arte Negra de e necessária e, por isso, apresento e seus habitantes como parâmetro as fenotipicamente brancas, pode
Belo Horizonte é um marco e deve algumas contribuições para que a de civilidade, beleza, competência se evidenciar também em discri- A questão me foi formulada por
ser destacada por vários motivos. sabedoria institucional se concilie moral e intelectual. Assim, o homem minações referenciadas nos traços uma mulher negra estudante da EJA,
Primeiro, porque é fruto da capaci- ao conhecimento ancestral que tem branco foi entendido como mode- fenotípicos (cor da pele, textura do após uma palestra sobre a reeduca-
dade de agência dos Movimentos sido protegido e praticado, espe- lo universal e todos os “Outros”, aí cabelo, espessura dos lábios) e nas ção para as relações étnico-raciais
Negros e das Negras e Negros em
movimentos na cidade, que insis-
cialmente pelas comunidades tradi-
cionais indígenas, quilombolas e de
incluídos africanos escravizados e
seus descendentes, foram classifica-
características étnico-culturais que
remetem à origem africana.
em uma escola da Região Metropoli-
tana de Belo Horizonte.
4
tem em pautar temáticas até então matriz africana, à custa de uma ex- dos como “não humanos” ou “raça
“desconhecidas” pela gestão públi- traordinária resistência ao racismo. inferior”. O Brasil, último país a abolir formal- Tive vontade de lhe responder, mas
ca. Segundo, porque revela a infle- mente a escravatura, em 1888, não resolvi saber a razão daquele ques-
xão do poder público municipal às Considerando a complexidade da A racialização implicou o estabeleci- garantiu aos africanos libertos e a tionamento, e Júlia me contou parte
demandas do Povo de Terreiro, nes- estruturação das cidades, especifi- mento de uma hierarquia de raça e seus descendentes nenhuma polí- de sua história.
se tempo obscuro em que o racismo camente, a de Belo Horizonte, e as classe para o sustento e legitimação tica reparatória pelos quase quatro
religioso tenta se impor. E, terceiro, clivagens sociorraciais advindas do do caráter eurocentrado padrão de séculos de trabalho forçado. Em Disse-me que havia trabalhado
porque o Estado laico deve garantir modelo de formação do Estado bra- poder material, simbólico e inter- contrapartida, para erigir o Estado como empregada doméstica por 20
o direito das cidadãs e cidadãos ao sileiro, direciono o meu diálogo par- subjetivo. Essa visão eurocêntrica moderno e as elites da época, pri- anos na casa de uma família bran-
culto do que é considerado sagrado tindo das seguintes questões: ganhou um caráter científico com as vilegiaram e custearam a vinda de ca e rica. Ajudou a educar os três
em sua cosmovisão. teorias raciais que passaram a ser pessoas europeias para o país, as filhos, ninou, ensinou cantigas, co-
1ª) É possível articular os saberes produzidas no século XIX. A dissemi- quais tiveram acesso a terra, crédi- brou a realização dos deveres es-
“Jardins do Sagrado” é o nome atribu- científicos, acadêmicos e tradicionais nação dessas pseudoteorias ocorreu to agrícola, moradia e possibilidade colares, levou-os à escola e ofere-
ído à área reservada dentro do Cen- para que sustentem a implementa- mais intensamente nos países colo- de ocupar os postos de trabalho ceu-lhes afeto e chazinhos, quando
tro de Referência da Cultura Popular ção dos Jardins do Sagrado enquan- nizados e alcançou a contempora- gerados a partir da industrialização doentes. Também foi a única acom-
e Tradicional da Lagoa do Nado para to política pública? neidade, regulando todos os cam- emergente. panhante da mãe do patrão em seu
que os povos tradicionais (de matriz pos de produção de conhecimento, leito de morte.
africana e indígenas) possam cultivar 2ª) É possível pensar em confluência inclusive, os cursos de formação do- A ação discricionária do Estado re-
suas plantas sagradas e realizar al- de conhecimentos/saberes sem con- cente e profissional ofertados pelas sultou em desigualdades que aco- Algumas vezes, pedia à patroa para
gumas atividades religiosas. siderar o racismo estrutural que per- Instituições de Ensino Superior pú- metem, ainda hoje, a população ne- que assinasse a sua carteira de tra-
passa a história dos povos indígenas blicas e privadas. gra que ocupa os piores indicadores balho, mas a senhora alegava que
E, enquanto mulher negra, pesquisa- e a população negra?
dora das relações étnico-raciais, co-
nhecedora da história do Curral Del
Rey e dos processos de desumani- 1
“Terreiros são alvo de intolerância religiosa e racismo no Brasil”. Matéria publicada originalmente no site Gênero e Número com o título “Terreiros na
zação e gentrificação que empurrou mira”. A autoria é de Fernanda Távora, Jordan Sousa, Pedro Lira e Vitória Régia da Silva. Disponível em: <https://portal.aprendiz.uol.com.br/2019/07/17/
os homens e mulheres negros, cons- terreiros-sao-alvo-de-intolerancia-religiosa-e-racismo-brasil/>. Acesso em: 8 dez 2019.
72 trutores desta cidade, para fora das 2
“Disque 100” é um canal para denúncias de violação de Direitos Humanos, criado em 2011 pela então Secretaria de Direitos Humanos da Presidência 73
linhas da Avenida do Contorno, ouso da República.
O s s a b e r e s c i e n t í f i c o s , a c a d ê m i c o s e t r a d i c i o n a i s : c o n f l u ê n c i a s pa r a a c o n s t r u ç ã o d e c o n h e c i m e n t o
estavam vivendo tempos difíceis, e res negros, ainda preservam essas Considerando o racismo estrutural que foram invisibilizados pelas tra- da cidade de BH, poderão usufruir
ficava por isso mesmo, o que a fazia concepções em sua atividade profis- e epistêmico que garante à maioria mas do racismo. É importante que do seu direito à cidade, expresso na
chorar escondido no seu quartinho sional, tal qual a “patroa”. E, em fun- das pessoas fenotipicamente bran- os/as gestores/as deixem negritado existência de um espaço/território REFERÊNCIAS
de empregada. ção de seus títulos acadêmicos e da cas os cargos de poder e decisão que ao investirem em políticas pú- localizado dentro de um equipa-
forma como se estruturou o Estado nos serviços públicos; considerando blicas afirmativas visando à garantia mento público municipal, como o
Embora estivesse diariamente den- brasileiro, muitos desses profissio- os achados da minha pesquisa que do direito a sujeitos historicamen- Parque Municipal Lagoa do Nado,
tro daquela casa, a empregada me- nais assumiram/assumem cargos e/ revelam as tensões e resistências te excluídos o fazem por compro- para cultivarem as “insabas que
dia atos e palavras, porque aquela ou funções públicas e passaram/pas- provocadas dentro das instituições misso ético e moral, mas também curam”. Para a academia/universi-
família professava uma fé que nega- sam a gestar e implementar as polí- (inclusive das universidades), quan- para cumprirem tratados interna- dade, que terá a oportunidade de ALMEIDA, Silvio Luiz de. Racismo
va as religiões de matriz africana. E ticas públicas pautados no ideário do da proposição de políticas que cionais dos quais o Brasil é signa- dialogar e aprender com as Mestras estrutural. São Paulo: Sueli Carneiro;
permaneceu assim por anos, até que de supremacia branca, desconside- contemplam sujeitos negros e indí- tário e legislações nacionais, como e Mestres outras formas de conhe- Pólen, 2019.
um dia, não se cabendo de felicida- rando os aspectos históricos e polí- genas; considerando os Jardins do a Lei 12.288/2010, conhecida como cimento. Para os/as munícipes que,
de, mostrou à patroa algumas fotos ticos que relegavam/relegam os ho- Sagrado uma política afirmativa, im- Estatuto da Igualdade Racial, que ao estabelecer contatos com os/ BRASIL. Presidência da República. Lei
da festinha que havia organizado mens negros e as mulheres negras plementada pela atual gestão muni- garantem o direito da não discrimi- as guardiões/guardiãs do sagrado 12.288, de 20 de julho de 2010. Institui o
para celebrar a formatura de uma (a maioria da população brasileira) à cipal de Belo Horizonte, penso que nação por causa de raça/cor, origem afro-brasileiro e indígena, poderão Estatuto da Igualdade Racial.
das sobrinhas. Além da grande famí- posição de inferioridade social. o poder público deverá adotar algu- étnica e instam os poderes públicos aprender, na prática, que é possível
lia negra reunida, as imagens tam- mas estratégias para garantir que a a criarem políticas de promoção da a coexistência de religiões diversas. GONZAGA, Yone Maria. Gestão
bém revelaram alguns quadros dos Em minha pesquisa de Doutorado proposta crie raízes. À guisa de con- igualdade racial, como se observa Universitária, diversidade étnico-racial e
orixás e vasos de sete ervas planta- defendida em 2017, no Programa tribuição, sugiro: no Art.2º. Acredito que a articulação dos sabe- políticas afirmativas: o caso da UFMG.
das na entrada da casa. de Pós-Graduação em Educação da res científicos e tradicionais de for- Tese (Doutorado em Educação) –
UFMG, intitulada Gestão universitá- 1. Investimento na divulgação da É dever do Estado e da socie- ma respeitosa e não hierarquizada Universidade Federal de Minas Gerais,
Depois daquele dia, a patroa come- ria, diversidade étnico-racial e as po- política com vistas à ampliação dade garantir a igualdade de é que poderá gerar a confluência 2017.
çou a tratá-la de um jeito diferente. líticas afirmativas: o caso da UFMG, da sua capilaridade: é preciso que oportunidades, reconhecen- para a elaboração de conhecimen-
Até que numa segunda-feira, quan- ficou evidenciado que as políticas os pressupostos que embasam a do a todo cidadão brasileiro, tos emancipatórios.
do retornou para o trabalho, Júlia institucionais começam a mudar a política dos Jardins do Sagrado se- independentemente da etnia
foi informada pela governanta de partir das reivindicações dos Movi- jam divulgados amplamente den- ou da cor da pele, o direito à E quando a confluência for uma re-
que não precisava “pegar” o servi- mentos Sociais Negros e pela pre- tro de todos os órgãos municipais, participação na comunidade, alidade, discursos como o que foi
ço, porque outra pessoa assumira a sença de um maior número de estu- visando à ampliação da visibilidade especialmente nas atividades proferido pelo estudante Arthur, de
sua função. A patroa havia manda- dantes negros e negras ingressantes e capilaridade da política, para que políticas, econômicas, empre- 10 anos de idade, durante uma aula
do avisar a ela que ali era uma casa por meio das políticas afirmativas se torne política de Estado e não de sariais, educacionais e espor- sobre a Lei 10.639/2003, que obriga
de família e que seus membros, no espaço universitário. governo. Sabemos que há um risco tivas, defendendo sua digni- a implementação da história e cultu-
todos cidadãos de bem, não pode- de descontinuidade das políticas im- dade e seus valores religiosos ra africana e afro-brasileira nos cur-
riam conviver com uma mulher que Como resultado dessa presença ne- plementadas, ocasionado ao final e culturais (BRASIL, 2010). rículos, serão menos dolorosos, por-
faz feitiços. gra e de outros povos tradicionais
no contexto dessa universidade,
de cada gestão, gerando prejuízos
materiais e simbólicos. Avalio que o investimento em for-
que a sua religião será respeitada. 4
A partir da leitura do texto, é possí- desde 2013, a UFMG vem imple- mação dos/as gestores/as e agentes Disse-me ele:
vel constatar a exploração do traba- mentando o Programa de Forma- 2. Realização de cursos de forma- públicos, principalmente dos/as que
lho da mulher negra (a maioria das ção Transversal, que inclui as dis- ção/capacitação para gestores/ trabalham no CRCP/Lagoa do Nado, - Professora, o dia que eu chegar à
trabalhadoras domésticas é negra e ciplinas de Saberes Tradicionais, as as e agentes públicos (Letramento deve se dar de forma continuada, África, a primeira coisa que eu vou
não tem registro em carteira) e tam- quais trazem para o ambiente aca- Racial) para que compreendam as uma vez que a ação profissional co- fazer vai ser tirar meus sapatos e
bém os atravessamentos do racismo dêmico as experivivências de Mes- implicações do racismo na forma- tidiana é que possibilitará o enraiza- pisar aquele chão, porque lá eu vou
religioso. Mas podemos nos pergun- tras e Mestres dos Saberes Tradi- ção do Estado, a sua reverberação mento da política. me sentir como me sinto no meu Ilê.
tar: Em que sentido esse texto dialo- cionais. E, em 2019, o Conselho de na definição das políticas públicas e
ga com essa nossa temática? Pesquisa, Ensino e Extensão (CEPE) as implicações na vida dos cidadãos A existência dos Jardins do Sagrado - E como você se sente no Ilê, Arthur?
da UFMG aprovou a Resolução que e das cidadãs. dentro de um parque do município
Como dito anteriormente, muitos torna possível a atribuição de No- poderá provocar muitos desloca- - Gente, professora. Lá, eu me sinto
pesquisadores e docentes universi- tório Saber a Mestres e Mestras Ao fazer o tombamento de patrimô- mentos e funcionar como ação edu- gente! Eu me sinto pleno!
tários brasileiros formados a partir indígenas, afro-brasileiros, quilom- nios afro-brasileiros, o poder públi- cativa para toda a sociedade. Para
da matriz eurocêntrica, que negava/ bolas, das culturas populares e de co mostra à cidade que há outras os/as Povos de Terreiro, que, rom-
nega a humanidade e os conheci- povos tradicionais no Brasil, título formas de existências para além pendo com os modelos segregado-
mentos dos homens e das mulhe- equivalente a um doutorado. das hegemônicas e que há saberes res impostos quando da construção

74 75
O s s a b e r e s c i e n t í f i c o s , a c a d ê m i c o s e t r a d i c i o n a i s : c o n f l u ê n c i a s pa r a a c o n s t r u ç ã o d e c o n h e c i m e n t o
Existe um grande desafio que
está colocado em nossas mãos,
e dependerá da autonomia e do
protagonismo dos povos indígenas
para nos alinharmos às forças
políticas, sociais e religiosas do
meio urbano que possam somar
para fortalecer, e não, mais uma
vez, nos colonizar.

AVELIN BUNIACÁ KAMBIWÁ

4
Foto LEONARDO ALMEIDA

76 77
E x p e r i ê n c i a s d e i m p l a n ta ç ã o e g e s tã o d e e s pa ç o s d e c u lt i v o d e p l a n ta s s a g r a d a s d o s p o v o s d e t r a d i ç ã o n o B r a s i l
Experiências de
implantação e gestão ONÃ EWÉ: O CAMINHO E A VIDA MULTIESPÉCIE DAS
FOLHAS NAS ROÇAS DE MATRIZ AFRICANA DA RMBH
de espaços de cultivo FLÁVIO HENRIQUE DE OLIVEIRA SANTOS

de plantas sagradas Povos e comunidades tradicionais


de matriz africana carregam em sua
O complexo universo das plantas
transcende as dimensões físicas

dos povos de tradição


sociabilidade a pertença aos ele- de território nas Unidades Territo-
mentos que compõem o ambiente. riais Tradicionais (UTTs); espaços
Para além do olhar biológico, a es- para os quais, nesta nota, utilizarei
treita ligação com a natureza nos re- a terminologia de “roça”. É notória

no Brasil
mete às suas divindades presentes a presença de ewé – folha – desde
no culto ancestral, sinônimo de re- o portão de entrada das roças, na
sistência. O manejo desses elemen- decoração dos espaços, na alimen-
tos corrobora para o que denomina- tação ritualística e da comunidade,
mos “conhecimento ancestral”, que ocupando um locus determinante
perpassa pelas práticas e os saberes de importância para o povo de ma-
associados a elas. Tendo em vis- triz africana. Segundo Pai Euclides
ta que a ancestralidade é a gênese – Talabyan Fesunkiré (2003, p. 33),
do povo de matriz africana, recorro “os terreiros não sobrevivem sem a
à narrativa de minha Iyá Nlá Beata
de Yemonjá (Beatriz Moreira Costa)
vegetação”; diversos fatores circun-
dam as roças que cotidianamente
5
fundadora do Ilê Omiojuaro (A casa ocupam áreas urbanas. A ausência
das águas dos olhos de Ósòssi) no de espaços para cultivo de ervas,
estado do Rio de Janeiro, que afir- acesso a matas e uso do solo vem
ma, do seu lugar de Iyalorisá, a ne- ocupando as agendas de luta para
cessidade de dialogarmos sobre as o povo de matriz africana. Segun-
Considerando-se que a escassez de pautas de nossas comunidades: “[...] do Júnior (2014), para nosso povo o
áreas verdes compromete a manu- falar, comunicar, expandir conheci- significado de território denota uma
tenção dos modos de vida dos Povos mento. Sobretudo numa realidade abordagem ampla. Assim, “Terri-
Tradicionais, conhecer e divulgar ex- em que as religiões de matriz afri- torializar não é meramente ocupar
periências de acesso à natureza para cana, não sendo hegemônicas, são um espaço físico, mas assentar axé,
práticas sagradas e de cultivo de plan- discriminadas. A fala é decerto um conectando espaço e tempo (ances-
tas litúrgicas em plena cidade torna-se instrumento de defesa. Uma arma tral), físico e simbólico”.
necessário. É objeto deste capítulo re- que repercute vozes que outrora
fletir sobre as possibilidades e desafios foram silenciadas” (YEMONJÁ apud Podemos inferir que os saberes e
do desenvolvimento, no meio urbano, SILVA, 2008, p. 79). fazeres dos povos de matriz africa-
de ações capazes de nutrir os modos na, perpetuados geracionalmente
de vida dos povos de tradição em Recorro ao verbete a seguir, rogan- e constantemente atualizados e
suas relações com a natureza. Nesse do à minha ancestralidade para transformados, são instrumentos
contexto, cabe refletir também sobre que cada palavra e expressão desta de etnoconservação. Partindo dessa
os possíveis desdobramentos dessas tessitura seja para fomentar a va- perspectiva, nasce o projeto Onã Ewé
experiências para a cidade, para além lorização dos saberes e fazeres de (caminho das folhas), desenvolvido
do culto à ancestralidade. nosso povo. pelo Laboratório de Estudos Biocul-
turais da Universidade do Estado de
78 Ewé wá sá, erú èjé!! Minas Gerais, Unidade Ibirité, em 79
(Venham, acordem as folhas!) parceria com o Fórum Nacional de
E x p e r i ê n c i a s d e i m p l a n ta ç ã o e g e s tã o d e e s pa ç o s d e c u lt i v o d e p l a n ta s s a g r a d a s d o s p o v o s d e t r a d i ç ã o n o B r a s i l
Segurança Alimentar e Nutricional sileiras e saúde, organizado pelo ao orisá, nkise ou vodun, pois dentro urbanização são, portanto, percebi-
dos Povos Tradicionais de Matriz saudoso Ogan José Marmo da Silva, das roças estes elementos são parte dos por todos: plantas, humanos e
Africana (FONSANPOTMA). As ações um trecho me chama atenção: “Para de momentos míticos que atribuem orixás. REFERÊNCIAS
do referido projeto partem da pers- que se possa colher as ervas, as se- restabelecimento físico/espiritual.
pectiva de compreender as redes mentes, as raízes etc., antes de tudo, Assim é comum a troca de espécies Todas nossas pesquisas e ações de-
de circulação das espécies de plan- o colhedor de folhas babalossayin1 entre as roças visando garantir com senvolvidas, seja pelos povos de ter-
tas associadas às práticas religiosas deve estar purificado [...]”. Assim integridade o sentido de família de reiro, universidades ou poder públi-
em terreiros de matriz africana na também nos narra Mametu Tabala- asé ou ngunzo. co, devem estar atentas a essa vida
Região Metropolitana de Belo Ho- cy (Mãe Nádia de Nkosi): multiespécie das roças. É preciso re- BRASIL. Lei n. 13.123, de 20 de maio de 2015. Dispõe sobre o
rizonte (MG). O projeto tem como Saindo das narrativas das zeladoras conhecer que a cidade é uma gran- acesso ao patrimônio genético, sobre a proteção e o acesso
estratégia metodológica a coleta de Você deve pedir licença para e dos zeladores das roças de matriz de roça (a Roça Grande, já anun- ao conhecimento tradicional associado e sobre a repartição
entrevistas semiestruturadas e vi- entrar - na mata - para aten- africana, o projeto Onã Ewé identifi- ciada no seminário que o Kaipora de benefícios para conservação e uso sustentável da
sitas in loco nas UTTs, iniciadas em der a Ósànyìn, ele é o dono! cou a necessidade de ocupar os es- organizou em 2018, em parceria biodiversidade. Brasília, DF, 2015. Disponível em: <http://www.
agosto de 2019. Até o momento, fo- Do nosso sangue, porque as paços da academia para a discussão com diversas comunidades tradicio- planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13123.
ram realizadas entrevistas com seis folhas são nosso sangue, a das pautas oriundas desses territó- nais e grupos populares), habitada e htm>. Acesso em: 12 nov. 2019.
(6) zeladoras(es) de roças de um- gente tem que pedir licença, rios imersos de sua sociobiodiversi- sabida pelas folhas e seus axés.
banda e candomblé de nação An- para colher as folhas. Tem as dade. Integrando as ações Kaipora, FESUNKIRÉ, Talabyan. Os terreiros e a saúde. In. SILVA, José
gola/Ketu. Cabe ressaltar que todas folhas certas, aquela que se realizamos o encontro “Comidas de Ósànyìn vai á frente Marmo da. Religiões afro-brasileiras e saúde. São Luís: CCN-MA,
as entrevistas atendem as diretrizes pode colher, a quantidade de santo: cosmologia, saberes e memó- 2003.
dos Awô (segredo) de cada roça e os folha que pode colher. Você ria”.2 Esse espaço de sabores e sa- Nesse contexto, o Onã Ewé tem como
pressupostos da Lei da Biodiversi- não deve chegar e colher to- beres tem como intuito pautar que missão defender, ouvir as nossas vo- JÚNIOR, R. L. S. O terreiro e a cidade: ancestralidade e
dade nº 13.125/15 quanto ao conhe- das as folhas, porque depois o povo de matriz africana, através zes muitas vezes silenciadas e pro- territorialidade nas políticas de ação afirmativa. Est. Soc. [on-
cimento tradicional associado (BRA- você não tem mais. da sua alimentação ritualística, re- jetar para que nossos corpos sejam line], v. 2, n. 20, 2014.
SIL, 2015). constrói identidade e descontrói as respeitados. O projeto conta com o
Corroborando com tal narrativa, perspectivas oriundas do racismo. apoio do Programa Institucional de SILVA, Glória Cecília de Souza. Os Fios de Contos de Mãe Beata
As narrativas cedidas pelos zelado- nos aponta Mametu Oyassimbe- O primeiro momento, realizado em Apoio à Pesquisa (PAPq/UEMG), em de Yemonjá: mitologia afro-brasileira e educação. 2008.
res e zeladoras entrevistados(as) lecy (Mãe Rita de Matamba): “Can- agosto de 2019, na Universidade do parceria com o Fórum Nacional de Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Federal
– em processo de tratamento dos domblé sem erva não existe; você Estado de Minas Gerais (UEMG), Uni- Segurança Alimentar e Nutricional do Rio de Janeiro, 2008.
dados – transcorrem por esta nota, precisa de uma folha para chá, para dade Ibirité, recebeu em média 30 dos Povos Tradicionais e de Matriz
em que estes afirmam a necessida- limpeza do organismo. Precisa da pessoas que, mediados pelo conhe- Africana (FONSANPOTMA). A equi-
de das plantas no território do povo erva para purificar seu corpo físico cimento tradicional das Mametu’s pe do projeto é composta por: um
de matriz africana. Segundo o Baba- e espiritual, né? Tudo depende da de Nkise, vivenciaram a partilha do coordenador (com mestrado); um
lorisá Everton de Yemonjá (Ilê Omi folha. Sem folha nós não somos ngunzo de Ndandalunda e Katendê. pesquisador (com doutorado); dois
Ogodo, Contagem-MG): “Em todo nada!”. Na gênese da matriz africa- bolsistas (com graduação em anda-
terreiro é bom que tenha um espaço na, em uma perspectiva de um uni- Vale ressaltar que nossa pesquisa é mento no PAPq). Os resultados do
Ewé Ibó, ou seja, o espaço mato”; é verso que se reconstrói em terras uma pesquisa com as plantas e com estudo serão veiculados por meio
sabido que a garantia de tal espaço distantes a cosmovisão do territó- as roças e seus zeladores. A partir de artigos científicos em revistas
em comunidades com sede em área
urbana é notoriamente difícil. Cabe
rio africano, a tradição deste povo
prevalece nas vivências. Segundo
de uma perspectiva da antropologia
multiespécie, nossos olhares estão
especializadas e/ou em encontros
científicos e congressos; com a rea-
5
destacar que nas roças nas quais Babá Everton de Yemonjá: “o can- atentos ao que nos dizem os huma- lização de congressos/seminários e
nosso estudo vem sendo realizado domblé, que é uma ‘religião’ que nos, mas também as folhas, os ori- instrumentos que fomentam salva-
é possível perceber quão presentes vive de suas tradições, sobrevive xás e os inkises. Afinal, não há um sa- guardar o patrimônio biocultural de
são as plantas cultivadas, muitas das em suas tradições, não vive de, mas ber SOBRE as folhas. Na roça, todos povos e comunidades tradicionais
vezes em espaços físicos diminutos, sobrevive em suas tradições”. sabem. Os zeladores sabem [sobre] de matriz africana.
como nos narra Mametu Tabalacy: as folhas e estas também SABEM
“Como somos urbanos, muito pou- As roças buscam estratégias para [sobre] os zeladores. As folhas en- EQUIPE
co a gente tem. Não tem como plan- que suas práticas ritualísticas sejam sinam sobre suas vidas, e também
tar e ter em casa todas as ervas”. garantidas; a presença de espécies sobre as nossas. As plantas não são Pesquisador: Prof. Dr. Emmanuel
de gameleira branca, dendezeiro, USADAS na alimentação ou em ritu- Duarte Almada
A cosmologia do povo de matriz guiné, saião e arruda são comuns ais, mas compõem a vida multies- Coordenação: Mestrando Flávio
africana reforça a necessidade das nesses espaços. As plantas são culti- pecífica dos terreiros. Os desafios Henrique de Oliveira Santos
ervas para a manutenção de suas vadas em espaços específicos, mui- representados pelo processo de es- Bolsistas: Breno Moreira e Lucas Ra-
práticas; no livro Religiões Afro-bra- tas das vezes no território destinado peculação imobiliária e o avanço da fael Germano

1
“Bàbálòsanyin é o nome de um posto dado somente a um filho do Orixá Osanyin (sic) que tenha
vasto conhecimento do uso litúrgico e medicinal das ervas/folhas (ewé)”. Disponível em: <https://
80 ask.fm/garciaworld/answers/133387952314>. Acesso em: 22 dez. 2019. 81
2
Ação em parceria com a campanha “Tradição Alimenta, Não Violenta” do FONSANPOTMA-MG.
E x p e r i ê n c i a s d e i m p l a n ta ç ã o e g e s tã o d e e s pa ç o s d e c u lt i v o d e p l a n ta s s a g r a d a s d o s p o v o s d e t r a d i ç ã o n o B r a s i l
nossos terreiros. Esse espaço ter- uma questão de necessidades e li- O Ciclo das Insabas está envolvi-
reiro, na maioria das vezes é o prin- cenças, por isso, estar em contato do com a sustentabilidade, onde
cipal espaço de praticar a tradição com toda essa espiritualidade é uma os plantios conscientes começam
e religiosidade afro-brasileira. No intensa e ininterrupta comunicação na inspiração. A primeira etapa do
CICLO DAS INSABAS , A SEMENTE contexto da ocupação territorial das de nosso material com o sagrado. É projeto acontece na Vila Senhor dos
cidades, essas comunidades quase nesse espaço que aprendemos que Passos no quintal da Associação da
QUE GARANTE A COLHEITA sempre estão localizadas nas par- há vida em tudo, e que só devemos Resistência Cultural Afro-brasileira
tes periféricas da cidade. Graças a fazer qualquer alteração no ambien- Casa de Caridade Pai Jacob do Orien-
GABRIEL RICARDO DE MOURA forma de organização colonizadora te caso ele permita. É nessa escola te, que, rememorando, lembra-se
arraigada nas cabeças dos não par- que fui apresentado as folhas, fiquei de jardins e terra, para plantar e
ticipantes ou entendentes (sic) des- íntimo, me tornei parente delas, colher. Com a urbanização o con-
Somos povos descendentes de Nossa territorialidade está para sas religiões. De certa forma, para aprendi a real importância das fo- creto substituiu a terra, impermea-
uma tradição na qual tudo que é além de nossa extensão material. os espaços de cultivo acaba sendo lhas, mas não só as verdes, mas as bilizando a transmissão saberes. E
vivo e também não vivo é sagrado A ancestralidade de nosso povo se um dos menores problemas, pois se que secaram, e as virão a nascer. É a solução pelo ciclo foi aproveitar
Olha o meu balainho de fulô para nós. Principalmente com tudo encontra onde o saber afro-brasilei- tem uma coisa que o povo negro de nesse lugar que tenho certeza que materiais descartados pela comuni-
Olha o meu balainho de de fulô aquilo que nos permite estar em ro está vivo. Eternizada em nossos tradição sabe, é reconhecer, ressig- serei um eterno aprendiz. dade como: geladeiras, tanquinhos
Plantei semente nasceu flor contato direto com nossa ancestra- costumes, com a força da herança nificar e adequar o seu sagrado no e caixas. Assim fazendo um sistema
Plantei semente nasceu flor. lidade e nossa essência, a base de ancestral. Que carrega no sangue espaço que está, sonho de consumo de irrigação por capilaridade, in-
nossos alicerces e o fundamento de as criações, subjetividades, tecnolo- seria estar diretamente ligado com fluenciando na economia da água,
nossa crença, o acreditar para além gias, tradições e práticas de vida em o meio ambiente, o habitat natu- preservando os espaços de plantio
do material. comunidade. Pois, é junto a todos ral dos animais e flora, estar perto Eu nasci nas folhas, nas folhas eu e transmissão saberes em meio a ci-
A semente garante a colheita. que o conhecimento é repassado e sem fronteiras de rios, nascentes me criei, se a folha virou eu tam- dade. Com o objetivo de promover
Nossa tradição é um solo fértil e rico pela vivência em coletivo, em que, d’água, as matas, cachoeiras e etc. bém virei. a retomada e a melhoria de siste-
(sabedoria de tradição do em força ancestral, que nos enraí- nesse momento se reúne os mais Mas na contemporaneidade é só (sabedoria de tradição de umbanda) mas agroecológicos em territórios
Preto Velho Pai Josias de Luanda) za em bases profundas onde corre velhos, anciões, griots, mestres e sonho, mas não por isso deixarmos afro e indígenas urbanos e rurais da
a água limpa e cristalina, que nos entendedores dos saberes que pre- de sonhar e de tentar nos aproximar Ciclo das Insabas é um projeto que RMBH (quilombos e terreiros) para
transforma em árvores, cuja sombra
oferece a todas e todos possibilida-
servam a singularidade bruta desse
conhecimento que foi incrementado
e trazer para perto de nós o mato e
tudo que ele carrega, toda sua for-
articula e conflui os conhecimentos
das comunidades tradicionais com o
garantir sua segurança alimentar
(especialmente no que se refere à
5
de de vivenciar e experiênciar suas a cada vez que transmitido pela ora- ça e ancestralidade. Toda vida que saber técnico acadêmico, para con- qualidade nutricional) e uma revita-
estações percorridas gerando frutos lidade. Reforçando a importância o acompanha trazendo de volta os seguir de maneira orgânica o me- lização de sua medicina tradicional
majestosos e poderosos que cami- das imaginações que fervilham para ciclos orgânicos para os centros ur- lhor aproveitamento dos espaços (baseada em folhas, ervas, cascas e
nham junto ao tempo até a hora de novas melhoras e reoxigenações banos, principalmente onde estão reduzidos de plantio nas cidades, raízes), fortalecendo suas condições
dar vida a uma nova semente. Sen- dos saberes que acompanham o localizados os terreiros. e reoxigenar as práticas e saberes materiais e imateriais de existência,
do estas sementes a possibilidade tempo, flexibiliza, mas não muda, se contidos nas comunidades. e promover processos de formação
de transformação real para outras adapta. Tudo isso graças aos mais Minha experiência de implantação e em agroecologia urbana, incentivan-
primaveras possam existir. jovens, que por sua vez são respon- vivência de espaços férteis e de cul- O projeto busca envolver a capa- do que as pessoas implementem
sáveis para que essa tradição de tivo das insabas, plantas sagradas, cidade de agir para a melhoria do sistemas agroecológicos em suas
modos de vida permaneça eterna. começa dentro de meu terreiro, o nosso modo de viver e conviver na residências.
qual faço parte, a Casa Pai Jacob do cidade, agindo pedagogicamente,
Oriente. Lá é o lugar onde aprendo ensinando aos jovens participan-
Ai que saudades que eu tenho, é da a interagir com as sabedorias que tes que terreiros e quilombos são
aldeia em que nasci, vejo o céu tão os métodos convencionais de edu- fonte de tecnologia social susten-
estrelado... A nossa história, diferentemente cação e ensino jamais darão conta. tável, e também relembrar aos
(sabedoria de tradição de umbanda) dos outros povos, não foram escri- As formas de aprendizagem e de mais velhos que sua sabedoria é,
tas em páginas de papel, e sim nas ensino são bem simples, é pela ora- sim, tecnológica e avançada, de tal
Território é uma palavra sem fron- nervuras de cada folha! lidade, uma escuta atenta, observa- modo que o mundo inteiro tem se
teiras para nós povos de terreiro. ção paciente e a prática atemporal. voltado aos saberes tradicionais
Quando pensamos em nossa exten- Historicamente todo o conhecimen- Aprendi a respeitar o tempo, enten- como fonte de investigação cien-
são, nos deslocamos para todos os to dessa tradição está geralmente dê-lo e caminhar junto a ele, aprendi tífica para a solução da crise am-
espaços ou pessoas, que confluem onde nossas mãos, braços e pés al- que para tudo relacionado as folhas biental. Assim, podemos valorizar
de forma direta e indireta para que cançam, as vezes está na horta ou- e ervas de terreiro temos que com- devidamente os detentores desses
82 a prática da tradição esteja em cons- tras vezes no quintal de casa, mas preender todo território e energias conhecimentos e saberes tradicio- 83
tante movimento. o termo que mais usamos, são os confluentes com ele, e que tudo é nais.
E x p e r i ê n c i a s d e i m p l a n ta ç ã o e g e s tã o d e e s pa ç o s d e c u lt i v o d e p l a n ta s s a g r a d a s d o s p o v o s d e t r a d i ç ã o n o B r a s i l
o início da recuperação histórica e ceito e o entendimento de quem de ou de referência sagrada. Em
patrimonial de um território identi- são esses povos tradicionais de ma- Belo Horizonte isto acontece junto
tário importante de nossa história. triz africana, como se organizam no ao espaço verde dos parques ou nos
território, como se alimentam, como cemitérios.
Mencionei esses pontos porque cultuam suas divindades, configu-
quero tratar aqui de duas experiên- rou-se em um conjunto de desafios. Dentre as experiências políticas vi-
cias de governo que tem ligação com venciadas por mim, como perten-
movimentos identitários negros e O primeiro deles foi de criar uma cente a povos tradicionais foi a que
indígenas e a minha experiência de capacitação para servidores da se- vivi junto ao FONSANPOTMA, quan-
ser uma mulher preta e de tradição gurança pública com vista ao aten- do da elaboração do Plano Nacional
de matriz africana na gestão da po- dimento dos povos e comunidades de Desenvolvimento Sustentável
lítica de promoção de igualdade ra- tradicionais em Belo Horizonte. In- dos Povos Tradicionais de Matriz
cial, no Governo de Belo Horizonte. serir na percepção de cidadania, do Africana, realizada pela Secretaria
Considera-se para isto a minha ex- conhecimento e do entendimento Especial para a Promoção da Igual-
periência dos movimentos sociais destes servidores do que é seu dever dade Racial (SEPPIR), em 2013. Parti-
POLÍTICAS PÚBLICAS E dentre eles, em especial o Fórum como tal. O decreto federal n° 6040, cipei todas as reuniões e oficinas de
Nacional de Segurança Alimentar e de 7 de fevereiro de 2007, serviu de capacitação nas quais o conceito de
TERRITÓRIOS SAGRADOS Nutricional dos Povos Tradicionais base para aquela formação. O mes- povos tradicionais de matriz africa-
de Matriz Africana (FONSANPOTMA). mo embasou a Política Nacional de na foi elaborado. Essa experiência
MAKOTA KISANDEMBU Desenvolvimento Sustentável dos foi primordial para a minha pers-
Belo Horizonte possui uma políti- Povos e Comunidades Tradicionais. pectiva de gestão da política pública
ca de promoção de igualdade ra- Definem em seus artigos, povos tra- considerando a realidade palpável
As cidades são espaços ‘praticados’ negras e indígenas frente às outras cial que completa em 2019 seus 21 dicionais pelo auto reconhecimento, desse conceito.
socialmente, onde relações de po- existentes no Brasil. Belo Horizonte, anos. Pioneira nesta política, Belo detentores de direito a viverem sua
der estão colocadas no mesmo ní- em termos de políticas para igualda- Horizonte viu boa parte do país be- diferença e reconhecendo nesta di- No ano de 2018, a DPIR foi parcei-
vel das relações identitárias entre de racial, é um exemplo que precisa- ber e até os dias atuais consultar ferença o desenvolvimento susten- ra do FONSANPOTMA de Belo Ho-
grupos de pessoas. O poder pode mos verificar bem de perto. esse pioneirismo. Mesmo em cená- tável por eles preservado como per- rizonte para a campanha “Tradição
ser entendido na forma de governo. rios caóticos, em especial este no manência identitária a ser seguida Alimenta, Não Violenta”, campanha
Compreende em termos políticos, o Construída sobre um passado colo- qual vivemos nacionalmente, a ca- como pela sociedade brasileira. essa que aconteceu em parceria,
arbítrio, a autoridade, a direção, o nial de um arraial que existia esti- pital mineira continua a avançar. O também, com a Subsecretaria de
domínio e a força, entre outros. ma-se que desde o século XVII, onde Jardim Sagrado diz muito sobre isso De início, as capacitações para a Segurança Alimentar e Nutricional
a produção cultural era grande tan- Guarda Municipal, causaram incô- (SUSAN) e a Superintendência de
O poder pode também ser percebi- to quanto a sua influência política, Ser uma mulher de tradição de ma- modo que consideramos positivo, Limpeza Urbana (SLU). Essa campa-
do nas relações sociais, entre indiví- após a inauguração a cidade passa a triz africana com nome e estética na pois, tornaram nítidas para a Se- nha, por esse esforço conjunto, tor-
duos e grupos, para além da forma negar este passado e considera seu gestão da política de promoção de cretaria Municipal de Segurança nou-se ação no Plano Municipal de
de seu exercício como elemento do ano de inauguração como o seu ano igualdade racial em uma cidade que Prevenção (SMSP) a necessidade de Segurança Alimentar e Nutricional.
ato de governar. 1. Com isto busca desligar-se do seu tenta tornar invisíveis esses povos criação de um setor de ação liga-

A ancestralidade, por exemplo, tem


passado possivelmente incômodo
do ponto de vista identitário de co-
tradicionais, apesar de ter um mape-
amento do governo federal 386 ter-
do aos direitos e cidadania. Como
houve a identificação de que alguns
Outra ação iniciada em 2018 pela SU-
SAN através de uma provocação da
5
poder junto àqueles que a reveren- munidade imaginada. Mas, o que a reiros, cinco mil pessoas indígenas guardas municipais possuíam atua- DPIR foi implantação do programa
ciam, agrega valor de identidade, negação do passado colonial pode (declaração dos povos indígenas) e 4 ção e pertencimento na temática, foi territórios sustentáveis no Kilombu
congrega gerações vigentes com estar escondendo nesta negação? kilombu(s) é um desafio. Mas posso criado em 2018 por meio de Decre- Mangueiras, com previsão de conclu-
outras passadas, constitui-se em Possivelmente algo que estivesse considerar que a experiência de ser to Municipal o Núcleo de Mediação são no ano de 2020. Essa ação con-
um cantinho no qual vai acumu- mais para as relações sociais do que uma das fundadoras e participante Prevenção e Cidadania da SMPS. siste em, dentro as ações do progra-
lando memórias, conhecimentos e para o governo colonial em si. do Fonsanpotma me trouxe a baga- ma território sustentável no Kilombu
ações que preservam tradição, lu- gem e as condições políticas para Dando sequência às formações de dos Mangueiras, a formação de uma
gares e saberes. As culturas nas áreas rurais eram li- pensar e articular a política pública servidores pela Diretoria de Políti- rede de criação, venda, troca para
gadas por relações comerciais com para as comunidades e povos tradi- cas de Igualdade Racial – DPIR, foi subsistência das comunidades e po-
Apesar de sua importância, dificil- os núcleos urbanos onde se insta- cionais na cidade de Belo Horizonte, criado o programa de capacitação vos tradicionais da cidade, tais como
mente o poder da ancestralidade, lavam os governos. Recentemente, como prioridade de gestão. Pensar de servidores da Prefeitura de Belo o plantio de ervas, criação de aves
representada na tradição, vivencia- em Belo Horizonte, grupos tradicio- como ter pertencimento de povos Horizonte (PBH), em uma parceria e animais para serem sacralizados,
da em territórios identitários de ne- nais e membros de universidades tradicionais de matriz africana em entre SMSP, a Fundação de Parques plantio de grãos e hortaliças etc.
gros e indígenas, no Brasil, é tratada realizaram um primeiro ato de re- área urbana nos traz dificuldades Zoobotânica (FPZ) e a Superinten-
em pé de igualdade com outras tra- verência à Igreja do Rosário, de Pre- e um cotidiano de enfrentamento dência de Limpeza Urbana (SLU) Todas essas ações vêm sendo pen-
dições com que conviveram na ante- tos, que existia no então arraial do aos racismos. Entretanto, ser e per- para atendimento às comunidades sadas, organizadas e realizadas a
rioridade do Brasil como nação. Na século XVII, que antecedeu a capi- tencer à matriz africana nos conduz e povos tradicionais na cidade de partir da sensibilização, formação e
verdade, a busca por este respeito tal. Esse monumento arquitetônico, a reflexões e ações a partir de um Belo Horizonte. capacitação de servidores da PBH
faz parte da luta cotidiana das e co- construído por irmandade de Pretos ponto de vista diferenciado e mais para enfrentamento ao racismo
munidades e povos tradicionais do realizava festas relativas à cultura democrático em torno dos direitos, Por essas formações, buscou-se im- institucional. Esses servidores vêm
país, ainda neste nosso tempo. negra na cidade e continha em seu saberes e fazeres que constituem plementar a cultura do respeito ao conhecendo as comunidades de
átrio um cemitério. A realização des- o todo social a ser governado com sagrado e as formas de viver o sa- kilombu(s) e povos tradicionais de
Por outro lado, há que se considerar ta espécie de desagravo ao passado equidade de direitos. grado que é próprio das matrizes matriz africana, como forma de res-
84 diferenças e contradições no pro- de Belo Horizonte, pode ser consi- africanas. Elas por vezes precisam peito às diferenças bem como dos 85
cesso de valorização das culturas derado uma marcação e, espera-se, Trazer para dentro da gestão o con- realizar o seu sagrado em área ver- direitos de acesso, participação e
E x p e r i ê n c i a s d e i m p l a n ta ç ã o e g e s tã o d e e s pa ç o s d e c u lt i v o d e p l a n ta s s a g r a d a s d o s p o v o s d e t r a d i ç ã o n o B r a s i l
vida na cidade, do uso do solo, das ,
ruas e vielas. Muitos dos capacita-
dos já compreenderam que o es-
paço sagrado não está somente no
local onde vivem e residem essas
comunidades e povos tradicionais

Temos um projeto aprovado pela


DPIR, no Fundo Municipal do Idoso,
foi aprovado recentemente e visa a
troca de saberes medicinais entre as
comunidades e povos tradicionais
da cidade de Belo Horizonte com
formação de uma rede.

Em 2018 aprovamos no Sistema FAZENDO MEMÓRIA, CONSTRUINDO


Nacional de Promoção da Igualda-
de Racial (SINAPIR), em 1° lugar, um O BEM VIVER
projeto voltado ao desenvolvimento
sustentável dos Povos Tradicionais NÁDIA AKAWÃ TUPINAMBÁ
de Matriz Africana. Junto também a
este órgão federal, apresentamos no
2º semestre de 2019 o projeto que Enekaaruka! Sou Nádia Akawã Tu- e convivi com essas mulheres, que preceitos, dos resguardos, precisa
visa desenvolvimento econômico e pinambá, educadora e formadora me inspiraram e, quando eu tive de se conectar com as avós, bisas, ta-
sustentável dos povos e comunida- dos professores(as) indígenas, na cuidar de pessoas, tive que fazer taras, é preciso caminhar com nossa
des tradicionais, projeto do Kilombu formação continuada e na Ação Sa- memória, lembrar os passo a pas- ancestralidade, rezar pra todas elas,
Manzo Ngunzo Kaiango, e este foi beres Indígenas nas Escolas, mestra sos daquilo que é oralidade e, jun- cuidar do alimento, que alimenta
aprovado, também em 1º lugar. da tradição oral, facilitadora das ro- to a esses feitios na minha mente, não só o físico, mas, também cura o
das de cura do sagrado feminino e também vinham os ensinamentos espirito e ainda pode ser sustentá-
Posso dizer com certeza e com base masculino, trabalho com a manipu- de criança, quando minha vó me vel, fortalecer ações, costumes que
na atuação na gestão da política lação das ervas de cura no feitio das rezava, as palavras, as ervas, a for- relacionam o alimento à saúde, tra-
pública de igualdade racial que os pomadas, tinturas, águas de cheiro ma de me pegar nos braços quando dição e forma de vida cultural dos
desafios a serem alcançados desde e óleos essenciais, orientadora das eu me machucava, mas tudo isso só povos e comunidades tradicionais,
o início da referida gestão foi o de plantas de poder utilizadas antes, foi aflorando quando eu comecei a fomentando os saberes e fazeres
denunciar e retirar do conjunto das durante e depois do parto, conse- caminhar com as medicinas das flo- tradicionais desses povos dentro e
ações da política de governo a ideia lheira espiritual, condutora da ceri- restas, das matas e da terra e, após fora do ambiente escolar.
de demonização as comunidades e mônia do sopro sagrado e da ben- estar nessa caminhada, comecei
povos tradicionais e fazer com que
tanto servidores como população
ção do templo (útero) das mulheres
pra a cura Ancestral, e do tabaco
a fazer os preparos das medicinas
pra rituais, e a minha mãe me en-
O Nosso movimento Indígena Tu-
pinambá de Olivença inicia-se com
5
entenda que o sagrado não é só o rezado e cantado com a memória sinou a fazer o primeiro rapé, com uma dinâmica pedagógica, envol-
que é meu, cada pessoa ou grupo das avós. Membro da Comissão Na- a forma básica e ervas conhecidas, vendo a comunidade escolar e a luta
tem direito de viver o seu sagrado cional de Mestres e Mestras Griô da além do tabaco (fumo). Então, criei pelos direitos à educação diferen-
no respeito ao sagrado do outro. tradição oral, Autodidata da Pedago- um jardim sagrado dentro de mim, ciada, construindo material didático
gia da Terra, do Arco, Flecha e Mara- sabia exatamente quais ervas pre- específico, diferenciado e bilíngue,
E porque kilombu com “k”? Kilom- cá, cuidadora e guardiã dos saberes cisava pra fazer uso nos rituais, do para a afirmação da nossa identida-
bu é uma palavra da língua kibum- ancestrais imateriais. Aprendi a prá- sagrado feminino e masculino, bem de e o avançar no processo do reco-
du-Bantu que quer dizer “capital”, tica na oralidade, convivendo e ob- como os cuidados específicos para nhecimento étnico, que se consoli-
“povoação”, “união”. E a formação servando a minha mãe manipular as o aconselhamento espiritual, antes dou no ano seguinte, após o grande
de kilombu(s) no Brasil é uma carac- ervas no preparo e no cuidado das de indicar qualquer uso manipulado encontro, em abril de 2000, na virada
terística do povo Bantu que vieram pessoas, que, junto aos grupos de por mim, tanto do uso tópico ou uso do século, que se chamou “A marcha
escravizados no período da coloni- mulheres da Pastoral da Saúde, visi- oral. Essas medicinas já me levaram dos 500 Anos - Resistência Negra, Ín-
zação. Portanto utilizar a palavra ki- tavam doentes nas terças, na quinta há muitos lugares onde pessoas es- dia e Popular”, numa grande plená-
lombu é recuperar um dos aspectos colhiam as ervas e preparavam cada tão nesse caminho de busca de cura ria em Coroa Vermelha-Cabrália, no
identitários da cidade. especificidade e no sábado levavam e de conhecer como fazer o uso das Extremo Sul da Bahia, onde reuniu a
os preparados a cada pessoa que vi- ervas. O mais importante de tudo maior Conferência dos Povos Indíge-
O cuidado com a natureza é dever sitaram durante a semana. Um ato isso é não perder suas raízes, sem- nas de todo o território nacional. No
de todos nós, e as formas de se re- de amor de que eu dizia que era a pre agradecer aos mais velhos, as ano seguinte, em 2001, aconteceu,
lacionar com ele também precisam verdadeira evangelização, eram mu- anciãs detentoras do conhecimen- no último domingo de setembro, a
Foto RICARDO LAF

ser consideradas e admitidas. O en- lheres que, por muitas vezes, não só to tradicional, valorizando, cada vez I Peregrinação Tupinambá em Me-
frentamento ao racismo, tão bem desenvolviam a cura, mas também mais, a tradição oral de cada conse- mória dos Mártires que Morreram
estruturado na população brasileira, a autoestima, a esperança e uma lheiro(a) espiritual que eu já tive a no Massacre do Rio Cururupe. Um
é dever de toda a sociedade, posto nova chance de vida a pessoas sim- honra de encontrar nesse caminho. ato político, que direcionou a nossa
86 que ela é “humana” e, por isso, di- ples das aldeias, periferias e assen- Quem se compromete com esses luta e mostrou a esses municípios 87
versa, porém, não pode ser desigual. tados(a). Durante muitos anos, vi conhecimentos precisa cuidar dos que aqui estamos, não fomos “ex-
E x p e r i ê n c i a s d e i m p l a n ta ç ã o e g e s tã o d e e s pa ç o s d e c u lt i v o d e p l a n ta s s a g r a d a s d o s p o v o s d e t r a d i ç ã o n o B r a s i l
tintos”, como diz o livro didático, indígena pela Demarcação dos Nos- sem essa terra, pois somos guardiãs crenças, os rituais e as místicas que logia da Bahia, em 2012, no Assen- po e o Espírito, além da socialização
editado pelo MEC, onde se lê que o sos Territórios, a permanência da e guardiões, preservamos, reflores- norteiam a vida humana. As memó- tamento Terra Vista, com o papel e manutenção da identidade cultu-
autor dessa barbárie, ocorrida em nossa história, nossa cultura, nossa tamos, limpamos e rezamos pela rias representam os valores e as di- de traçar a agenda de ações anuais ral, nossas raízes, nossos pescados,
1559, o português Mem de Sá, é tra- identidade étnica e tradição oral. permanência de nossa cultura, pe- nâmicas que norteiam o processo: que auxiliam no desenvolvimento, nossas caças, as comidas típicas do
tado como um herói da Batalha dos los nossos anciãos, que ainda se fa- as práticas de nossas avós, referen- empoderamento e emancipação nosso povo ou dos Povos e comuni-
Nadadores. Eu afirmo que aqui não Por isso é fundamental envolver as zem presentes, e por aqueles que já dadas e reproduzidas e transmitidas das comunidades integradoras: dades tradicionais.
houve batalha e sim um massacre escolas pela oralidade, trazer nos- se encantaram e por todos os cuida- por nossas mães, as iguarias que povos indígenas; quilombolas; ter-
e, após o crime, divulgaram a notí- sos mestres e mestras, para serem dos deixados por nossas avós, bisas nos remetem a lembranças de uten- reiros de matriz africana; assenta- Hoje se faz presente, na Caminhada
cia da dizimação do Povo Tupinam- os contadores dessas e de outras e tataras, donas dos conhecimentos sílios, que se manifestam na nossa mentos e acampamentos de área Tupinambá, além do povo das águas
bá, mas muitos indígenas que não histórias que nosso povo precisa sa- ancestrais das ervas medicinais, das cultura, nossas paisagens, no chei- de reforma agrária; estudantes; e da Mata Atlântica, também o ca-
correram para o mar se embrenha- ber e principalmente a comunidade plantas de cura de poder, dos rituais ro e nos sabores. Como seriam, por agricultores(as); pescadoras(es); ruru da pedagoginga (sic) da casa
ram na mata e sumiram aos olhos escolar (alunos, professores, pais, sagrados o nosso Poracim (ritual sa- exemplo, nossas avós no período da professoras(es); pesquisadores(as); do boneco, e a festa do terreiro de
dos assassinos, e lá nosso povo se funções afins...). Trazer nessa me- grado do Povo Tupinambá). Por isso lua? Quais ervas, alimentos, podiam coletivos da agricultura urbana. To- Caxuté de Valença. Esses saberes
fez sempre presente como únicos mória uma fala que desmistifique o é importante trazer a escola, onde beber e comer? Quais seriam os pre- dos, em seus espaços educativos, e fazeres se dão na escola, através
e verdadeiros Guardiões de tudo 19 de abril e a invasão desse país, fa- tudo que fazemos deve ser referên- ceitos? E como trazer tais informa- fazem uma escola orgânica aconte- das oficinas de produção de mate-
que hoje ainda é preservado, nos- lar como resistimos e por que é im- cia, exemplo para a formação políti- ções, senão vivenciando em rituais cer de dentro pra fora e no idealis- rial didático específico, como a cons-
sas matas, nosso Território sagrado, portante não fortalecer essas datas, ca e de guerreiros e guerreiras, hon- do sagrado feminino e masculino? mo se materializando, primeiro no trução do primeiro livro: Memória
nossas nascentes, a única fonte de desconstruir as informações errône- rando nossa ancestralidade, nossos Trazendo e valorizando a tradição corpo, dos mestres e mestras que viva do Povo Tupinambá de Olivença.
água mineral, cristalina no Brasil, ao as ainda reeditadas no livro didático mais velhos, na luta por quem não oral junto aos povos e nas escolas. atuarão como professores oficiais Oficina de alimentação na escola,
lado do mar ainda, com propriedade pelo Ministério da Educação. se faz mais presente neste plano Revitalizando práticas de sistemas desses espaços educativos. com intuito de despertar e modifi-
medicinal testada e catalogada por material. Orientando nossos guer- florestais, agroecológicas e orgâni- car a merenda escolar imposta pelo
jesuítas da França, quando criaram Com cada tema discutido e aprofun- reiros a cuidar melhor das cunhãs cas de se viver e de se cuidar do bem Todos esses atores estão com lutas Estado, sempre de forma interdisci-
o Aldeamento jesuítico e houve a ca- dado nas palestras dos mais velhos, e jokanas, cuidando e honrando os viver, tirar o veneno da mesa, fazer convergentes na defesa dos seus plinar, envolvendo desde a história,
tequização, tentativa de dizimação, no momento da oralidade na escola, templos sagrados, memória ances- uma revitalização orgânica, amoro- territórios, de trazer a pedagogia das perpassando a nossa língua ances-
mais uma vez, agora pelos doentes fazemos de fato a educação indíge- tral das nossas avós que roçavam, sa, fértil e sustentável. águas, para dialogar, conceituar a tral, apresentada em um espaço ge-
que vinham das cidades, das qua- na com suas características diferen- limpavam, plantavam e cuidavam importância da água não, só pra nós, ográfico, fortalecendo a nossa luta
rentenas, se banhavam nas águas ciadas, intercultural, bilíngue, comu- dos nossos Jardins sagrados, de Transformar as aulas diferenciadas mas, para o mundo, possibilitando de resistência e permanência da
sagradas da Aldeia de Olivença, e as nitária e de qualidade. Cada um dos nossas luas, dos preceitos e cui- em vivências, rodas de conversas, a auto-organização dos povos das nossa cultura e nosso território já
roupas dos leprosos e tuberculosos temas acima vai dialogar com essas dados que devemos ainda ter com envolvendo essas e outras temáti- águas. Pedagogia da Floresta, do ca- reconhecido, onde aguardamos pela
eram doadas aos índios Tupinambá, características, pois quando se trata nossos dias, onde temos a honra e o cas, como, por exemplo, a tradição cau e do chocolate, pra dar continui- portaria declaratória desde 2009,
então muitos morreram infectados. da caminhada envolvemos outros privilégio de sangrar o que temos de culinária desses povos, incluindo dade ao sistema cabruca; através da quando se deu a última contestação
Essa situação gerou um outro mo- atores dos povos e comunidades mais puro e sagrado dentro de nós. algumas receitas, compreendidas floresta e da cultura do bioma Mata e que o MJ afirmou estar apto pra
vimento que se chamou Revolta do tradicionais, sociedade civil, as uni- Orientar nossos guerreiros pra dar como memória e identidade, bem Atlântica, para a sua preservação, e ser demarcado e homologado. Com
Caboclo Marcelino, o qual lutou, em versidades, os terreiros de candom- o resguardo a suas mulheres e seus material e imaterial, como aquelas da prática da agroecologia, com o os ensinamentos dos mais velhos,
1929, pela não construção da pon- blés, assentamentos, quilombos, ri- templos sagrados nesse período, dos preceitos que cito acima, re- objetivo de construir e fortalecer a em nossas rodas, nas práticas cole-
te que ligaria Olivença a Ilhéus; por beirinhos, pescadores, os Povos das como nossas avós faziam, não an- pensando a merenda escolar, que economia que liga a floresta ao ca- tivas, mutirões, seguimos com paci-
essa luta inconstante, o nosso Guer- Matas, das Águas e da Terra. Aqui dar descalça, não molhar a cabeça, precisa retomar essa culinária sau- cau. Por meio da pedagogia do Arco ência e orientações dos encantados
reiro Marcelino foi caçado, preso,
torturado até a sua fuga, quando
no Sul da Bahia temos essa riqueza
de representações a que damos o
não comer certos alimentos, álcool,
não ter relações sexuais, não sair no
dável de ervas, frutos e raízes que
alimenta não só o corpo mais o es-
e flecha e do Maracá, pra garantir a
transmissão do conhecimento e das
e ancestrais na luta pelos direitos
garantidos na Carta Magna, nos ar-
5
desapareceu e se encantou dentro nome de “Teia dos Povos”, um espa- sereno e se sair usar um torço ou pírito. Fazer essas rodas juntos a culturas ancestrais na Caminhada tigos 231 e 232. “Somos sementes, e
das malocas das pedras. Marcelino ço de discussões das políticas espe- lenço, fazer banhos de assentos e outros atores que comungam desse Tupinambá: Resistência e luta Tupi- guardiãs desse patrimônio genético
deixou pinturas rupestres por onde cíficas para cada povo e comunidade defumação. Nós usamos o cachim- bem viver, que está nessa conexão nambá que reconta nossa história, dos povos e da humanidade, e atra-
passou. Quando relembramos e fa- tradicional que está nesse coletivo, bo nesses e outros momentos pra com a terra, lutando por territórios fortalece rituais sagrados, produz vés de nós mulheres tradicionais e
zemos o ato da nossa Caminhada onde nos fortalecemos e nos aju- elevar a fumaça ao universo, num sagrados, que já construíram seus materiais didáticos específicos; revi- da rede de sementes, garantimos o
em Memória dos Mártires que Mor- damos em termos de articulações e profundo rezo de conexão com nos- jardins internos e agora se juntam taliza a língua materna; o respeito à alimento para as futuras gerações”.
reram no Massacre do Rio Cururupe, mobilizações para o enfrentamento sa ancestralidade, assim curamos as para ações de reflorestamentos, sabedoria dos anciões etc.
relembramos a luta de Marcelino. político, na luta contra esse governo dores que nossas mulheres indíge- criação de roças orgânicas, na pro- Enquanto houver oralidade, a expe-
E agradecemos ao Grande Espírito homofóbico, racista, fascista, que nas e Negras sofreram com o abuso dução do próprio alimento e na luta Se perguntarmos na comunidade o riência cotidiana será nosso melhor
ainda hoje, na 19ª Caminhada, fa- nos atinge diretamente no retroces- dos europeus na invasão de 1.519 constante contra o agronegócio. Se que é alimentação, certamente ou- aprendizado. Nossos anciões(ãs),
zendo memória aos nossos Mártires so, cometendo um crime atrás do anos atrás. Assim curamos o nosso juntando aos atores da Teia dos Po- viremos respostas como: “é a fonte os troncos. Nossos jovens, flores
e nossos encantados das florestas e outro, na tentativa de nos dizimar e sagrado, nosso templo e o templo vos que hoje levantam essa bandei- de vida, de saúde”, ou seja, vem do e frutos, e nossas crianças, as que
da mata bruta, e a cada ano aumen- tirar de circulação. Nós incomodan- de onde saímos, sejam homens ou ra e direcionam o tema, envolvendo Sagrado, é a Natureza (considerada lançarão as sementes da esperança
ta a participação de parentes de ou- do, e a cada movimentação perde- mulheres, somos todos sagrados. as comunidades tradicionais. A Teia sagrada) que concede o alimento, plantadas pelas guardiãs Guaimbim,
tras etnias dos outros povos e das mos indígenas, lideranças na luta surge dos debates contínuos e das a vida, a saúde. O que seria, então, nossas avós.
comunidades tradicionais, dos ami- pela conquista do território, mos- O processo cultural evidencia tam- articulações de povos e comunida- uma alimentação saudável para nós,
gos e simpatizantes da causa da luta trando que nós não podemos ficar bém, as tradições, as celebrações, as des a partir da I Jornada de Agroeco- indígenas? É aquela que nutre o cor-

88 89
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ILÉ WOPO OLOJUKAN :
O RITUAL DAS FOLHAS
SIDNEY TI ODÈ I - as formas de expressão; de reminiscências históricas dos an- rios etnobotânicos, segundo os pa-
tigos quilombos”. drões originários das cosmovisões
II - os modos de criar, fazer e africanas, que é o que a Prefeitura
Òsányin, òrìsà das folhas, conhecido Na cultura do candomblé, religião de aos quatro elementos da natureza: viver; Posteriormente, o Decreto Federal de Belo Horizonte está nos propor-
como Bàbá Ewé matriz africana, as folhas possuem terra, água, fogo e ar. nº 6.040 de 2007 instituiu a Política cionando aqui.
importantes contribuições para a III - as criações científicas, ar- Nacional de Desenvolvimento Sus-
Òsányin – Ewé ó!!! Ewé àsá!!! sociedade, no tocante ao seu uso, Entre 1890 e 1940, as religiões de tísticas e tecnológicas; tentável dos Povos e Comunidades E mesmo que as políticas públicas
ao cultivo e à proteção ambiental. matriz africana, em diversas re- Tradicionais, dentre as quais estão para os povos de terreiro não se-
Òsányin, nosso sacerdote, faça-nos giões do país, se afastaram dos IV - as obras, objetos, docu- as comunidades de Candomblé, jam determinantes absolutas para a
um encanto, O òrìsà Òsányin é um sustentáculo centros urbanos; hoje, com o fe- mentos, edificações e demais quando afirma compreender, em manutenção de áreas verdes, tanto
da nossa religião, porque as ervas nômeno da globalização, a espe- espaços destinados às mani- seu inciso I do art. 3º, que “Povos e nos espaços públicos como nos ter-
Ó, òrìsà das folhas que nos traga são a base para as praticas ritua- culação imobiliária, os terreiros se festações artístico-culturais; Comunidades Tradicionais” reiros, existe uma persistência na
boa sorte. lísticas e ligam o mundo ao mundo concentram em regiões rodeadas manutenção das florestas por parte
espiritual e sagrado, por meio do por grandes edifícios e sem espa- V - os conjuntos urbanos e sí- são grupos culturalmente di- das comunidades de candomblé –
Ó, òrìsà das folhas que chamamos de sangue vegetal, ços próximos para a busca de suas tios de valor histórico, paisa- ferenciados e que se reconhe- uma vez que nós as consideramos
extraído das folhas e sacralizado em ervas, tão essenciais para a sua li- gístico, artístico, arqueológico, cem como tais, que possuem como elemento essencial á nossa
Kosi Ewé, Kosi Òrìsà – sem folha, rituais apropriados. turgia, sem contar que não temos paleontológico, ecológico e formas próprias de organi- sobrevivência.
não há òrìsà – as folhas detêm mais rios, lagoas e nascentes lim- científico. zação social, que ocupam e
propriedades medicinais e míticas. Da mesma forma que o meio am-
biente é importante para a sobrevi-
pas para a prática do ritual.
Destaco o § 1º: “O poder público,
usam territórios e recursos
naturais como condição para
Objetivando a guarda e proteção de
seus ecossistemas, como patrimô-
5
vência humana no mundo, a manu- A cada dia mais, os Ilé Àse têm se com a colaboração da comunida- sua reprodução cultural, so- nio inalienáveis e de importância vi-
tenção e sustentabilidade ambiental instalado distantes dos centros ur- de, promoverá e protegerá o patri- cial, religiosa, ancestral e eco- tal para a sociedade, e garantir o de-
é de vital importância para a valori- banos ou tendo que fazer um longo mônio cultural brasileiro, por meio nômica, utilizando conheci- senvolvimento do plantio de árvores
zação e proteção das diferentes ex- deslocamento até as áreas de flo- de inventários, registros, vigilância, mentos, inovações e práticas sagradas e a produção de folhas e
pressões de cultura, entre as quais restas, e a principal justificativa dis- tombamento e desapropriação, e gerados e transmitidos pela ervas de uso medicinal e sagrado é
inclui-se a cultura de matriz africana. so é a falta de espaço em seus ter- de outras formas de acautelamento tradição. o que estamos vendo em Belo Hori-
ritórios particulares, principalmente e preservação”; zonte, numa ação de reconhecimen-
A importância do meio ambiente nas grandes cidades. Conceber a sacralidade da natureza to das comunidades de Candomblé
como forma de proteger a vida e as No § 2º, lemos: “Cabem à adminis- para o candomblé é compreender por parte do poder público.
conexões culturais é debate cons- Dos diversos conceitos de patrimô- tração pública, na forma da lei, a que os sujeitos se organizam e de-
tante no âmbito da conservação do nio, nossa concepção mais segura gestão da documentação governa- senvolvem suas ações produzindo Eu, como sacerdote do Candomblé,
ecossistema e da biodiversidade; da está expressa na Constituição Fede- mental e as providências para fran- e se apropriando dos espaços geo- reconheço e parabenizo aos ideali-
configuração territorial e do espaço ral de 1988: quear sua consulta a quantos dela gráficos de forma a constituir seus zadores, aos executores da ação, e
político; do território de disputas; necessitem”; territórios. Alguns terreiros elegem me coloco à disposição para juntos
bem como da imaterialidade vincu- Art. 216. Constituem patrimô- locais de cultivo de ervas e árvores fazermos dessa proposta uma práti-
lada à sacralização do território pelo nio cultural brasileiro os bens No § 3º: “A lei estabelecerá incen- sagradas em outras propriedades. ca de vanguarda a ser replicada em
candomblé. de natureza material e imate- tivos para a produção e o conheci- todo território nacional. Se nós cul-
rial, tomados individualmente mento de bens e valores culturais”; Sobre a Conferência Nacional de tuamos os òrìsà, que são elementos
A tradição de matriz africana é con- ou em conjunto, portadores Promoção da Igualdade Racial 2005, da natureza, deixaremos de ter uma
tra a filosofia da dominação propa- de referência à identidade, à No § 4º “Os danos e ameaças ao pa- há que se destacar uma delibera- religião, uma prática de fé, e não
gada pela sociedade ocidental, na ação, à memória dos diferen- trimônio cultural serão punidos, na ção importante no que se refere ao realizaremos nenhum ritual se não
qual o homem subjuga a natureza tes grupos formadores da so- forma da lei”; nosso tema: Promover políticas que tivermos um meio ambiente onde
apenas para servir-se dela, pois en- ciedade brasileira, nos quais assegurem a criação de estabeleci- haja possibilidade de vida.
90 tendemos que nossas divindades se incluem: E no § 5º: “Ficam tombados todos os mento e a manutenção de reservas 91
òrìsà estão de forma vital vinculadas documentos e os sítios detentores ambientais, rurais, urbanas e herbá- Novembro de 2019.
E x p e r i ê n c i a s d e i m p l a n ta ç ã o e g e s tã o d e e s pa ç o s d e c u lt i v o d e p l a n ta s s a g r a d a s d o s p o v o s d e t r a d i ç ã o n o B r a s i l
PARQUE
XANÁ BANÊ
TIAGO PAULINO SALES (IBÃ HUNI KUIN)

Eu sou Tiago Paulino Sales, ou Ibã produz óleos essenciais, e eu já tra- do meu avô. Para seguir esse cami- na comunidade, já canta ou já pode pesquisar. Eu, junto com meu pajé
Huni Kuin. Eu moro na Morada das balho bastante cuidando do meu nho profundamente, para resgatar imitar alguns tipos de música. Pássa- mais velho, trabalhamos bastante.
Aldeias, Novo Natal, Central Grupo povo, curando com meus próprios a nossa cultura tradicional de medi- ro encantado. Também mora junto Fomos pra floresta plantar dentro
3, terra indígena Alto Rio Jordão, produtos. Trabalho também como cina sagrada. Quando tinha 25 anos da comunidade. Família grande. Imi- do parque. Quando precisamos,
município de Jordão, Acre, entre a integrante do coletivo de produção de idade, meu vovô pesquisava bas- ta várias músicas da floresta sagra- pegamos medicina que protege, e
fronteira de Peru e Bolívia. Traba- audiovisual “guiaxinam bana”, Gru- tante, junto com o pai dele. O nome da. Então, também é sagrado. já socorremos várias pessoas com
lho e pesquiso Medicina Tradicio- po 3, Central Novo Natal, e trabalho do pai, em português, é Francisco plantas sagradas.
nal dos povos Huni Kuin. Também com várias atividades para valorizar Sales. De apelido, a gente chama Banê
trabalho como gestor do parque de a cultura dos povos Huni Kuin. “Chico Kurumi”. Foi ele que ensinou Nixipaã também plantamos e cuida-
“medicinais” sagrados, pesquisan- as medicinas sagradas dos povos Nome das pessoas mais antigas da mos bem; verdadeiro sagrado mes-
do a medicina da floresta, a psico- Também nós, povos Huni Kuin, ain- Huni Kuin. Hoje em dia, eu apren- família, como conhecedores das mo. Nixi (cipó) paã, muito forte, essa
logia da floresta. da cuidamos da nossa tradição, ain- do junto com o meu pai. O meu pai ervas sagradas da floresta. É im- medicina é sagrada porque, quando
da falamos ‘com’ a nossa língua, nós aprendeu junto com o pai dele. O portante não esquecer o nome das você precisa, prepara junto com a
Em 2014, se iniciou o trabalho de im- usamos bastante a nossa comida meu pai, ele me explica sobre as er- pessoas mais antigas. Fortalecer kawa rainha. Mistura os dois e faz a
plantação de ervas medicinais sagra- típica, ainda cuidamos da nossa flo- vas medicinais sagradas dos povos medicinas ancestrais do povo Huni preparação. Primeiro pega nixipaã e
das, e eu segui o caminho do meu pai
e do meu avô, cultivando importan-
resta, ‘caçamos’ peixes, [fazemos]
nossas festas tradicionais, nossa mú-
tradicionais da nossa origem Huni
Kuin, me mostra cada espécie de
Kuin para ensinar das ervas sagra-
das da floresta.
depois kawa, lava kawa, daí pode pe-
gar nixipaã para cozinhar junto. De-
5
tes medicinais sagrados para manter sica de cantoria, nossa reza. [Neste erva, e explica cada erva que cura pois pode beber como um chá. Na
os conhecimentos para nosso povo momento o áudio começa a falhar, e cada doença, e também nós cui- Dentro do parque tem uma árvore verdade é sagrado mesmo, quando
tradicional, porque vários conhece- de forma que as falas ficam incom- damos ainda muito bem das ervas grande, sagrada, chamada “chunu”, chega a força você pode se firmar
dores das medicinas, os pajés mais preensíveis]. Tomando ayahuasca, tradicionais dos povos Huni Kuin. que cuida das ervas sagradas, go- pra se entregar e fazer a purificação.
velhos, [os] levaram pro outro mun- ‘tomando’ rapé. A nossa pintura tam- Cuidamos bem para nós, alimentan- verna a medicina sagrada. Porque Pode descobrir três tipos de passa-
do, então eu acho importante me bém, pintura com jenipapo, pintura do, plantando dentro do parque da chunu tem a natureza mais gigan- gem: descobrir passado, presente e
responsabilizar pelo cuidado com o com urucum, muito importante pra medicina tradicional dos povos Huni te que existe, o espírito sagrado futuro.
parque de ervas medicinais sagra- nossa tradição, da que nós cuidamos Kuin. Então, eu acho importante pra (nome em português, “samaúma”).
das da floresta, valorizando o nosso ainda. Os jovens estão crescendo, e mim, hoje em dia. Eu sou um jovem Também embaixo da samaúma tem Considero professores para ensinar
conhecimento de nossos medicinais nós mesmos temos que dar aulas pesquisador das ervas de medicina muita medicina sagrada da floresta, dentro da ‘miração’, quando você
tradicionais. pros nossos jovens, para aprender a dos povos tradicionais Huni Kuin, tudo medicina é sagrado (sic). utiliza nixipaã, depois precisa de erva
fortalecer o conhecimento tradicio- pesquisando cada erva que tava sagrada para fazer o banho e fazer a
Hoje em dia, muitos jovens ainda nal dos povos Huni Kuin. curando. Eu tava pesquisando as er- Dentro do parque, plantamos lim- limpeza. Tudo conectado com a for-
vão crescer e precisar aprender, en- vas que não tem dentro do parque. pamos e cuidamos e já plantamos ça da natureza.
tão, o parque de medicinais sagra- Eu vou contar uma história do pro- Tem que ir lá buscar as espécies várias espécies medicinais sagra-
dos e nossas escolas de medicinais fundo. Essa história é do meu avô. das ervas para trazer e ir plantando das junto com a comunidade. Cada Também cultivamos vários legumes
é onde eles podem aprender e onde Desde 1940, foi o primeiro pesqui- onde nós plantamos. Então, hoje em nome das ervas que estamos plan- sagrados, porque [o] alimento é sa-
nós podemos fortalecer nossas sador das ervas medicinais sagra- dia a gente trabalha com plantas, as tando... vários tipos de legumes grado. Quando a gente precisa de
medicinas ancestrais. Além disso, das dos povos Huni Kuin, meu vovô plantas que são sagradas. sagrados… alimento, precisa comer pra ficar
nós cuidamos de nossas medicinas ta (sic) conhecendo primeiro, junto alimentado e sentir alegria. Pessoa
dentro do nosso parque, plantando com os parentes mais velhos, paren- Txaná Acho importante para mim, para que não se alimenta não tem alegria,
medicinais sagrados, cuidando bem, tes mais antigos. Meu vovô, o nome fortalecer junto com a comuni- então, legume é [o] sagrado que pro-
como vocês estão cuidando bem do português dele é Romão Sales. Eu Pássaro mais inteligente como um dade, alunos e pajés mais velhos, tege a pessoa pra sentir alegria. Nós
92 nosso Jardim do Sagrado. Também considero muito, para me fortale- tipo de gravador, o txaná grava den- para conhecer essas ervas e me- plantamos aqui e dentro da floresta 93
o trabalho com plantas da floresta cer, essa pesquisa dele, a pesquisa tro da memória dele. Quando chega dicinas sagradas, para conhecer e esse legume sagrado.
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WÉRÉNJÉJÉ : SALVADOR E AS AÇÕES
AMBIENTAIS EM UMA COMUNIDADE DE
MATRIZ KETU – UMA APC NA MATA ATLÂNTICA
ROSANE PRUDENTE THIOUNE

RESUMO

O relato sobre a ação ambiental Wérénjéjé1 pontua as ligações das comuni-


dades de matriz africana, nucleadas basicamente nas tradições Ketu, Gege
e Angola, de Salvador, com a natureza em suas práticas religiosas, sociocul-
turais e curativas. O racismo ambiental e a gentrificação que reconfiguram
os espaços urbanos da Cidade, fundamentados pela segregação étnico-ra-
cial, são validados pela fragilidade da titularidade da terra das comunidades
afro-brasileiras e a ocupação imobiliária desordenada, o que gera tensões
quanto à posse e ao uso das áreas verdes ou matas dessas comunidades.
A Lei nº 3515/85, que regulamentou o Ilé Axé Opô Afonjá como uma APC2
deixou lacunas quanto à preservação da sua floresta, sugerindo que estas
fossem preenchidas por uma ação que atuasse com práticas de recupera-
ção das espécies endêmicas da Mata Atlântica, associadas à introdução de
vegetações exóticas oriundas de outros biomas brasileiros e da África Oci-
5
dental. Dessa forma, a preservação ambiental é um desafio imbricado à pró-
pria sobrevivência destas comunidades.

Palavras chaves: Plantas sagradas. Preservação ambiental. Comunidade


Mãe Stella. Mata Atlântica.

1
Wérénjéjé. Seu nome científico é Abrus precatorius L. Em Salvador, o seu nome popular é “olho-
de-pombo”; já na Nigéria a chamam de “Ojú Ológbò”. Espécie recorrente no Brasil, Caribe e África.
Nomeia uma ação ambiental focada na recuperação da floresta, no tratamento paisagístico, na
recuperação de recursos hídricos e desenvolvimento sustentável na comunidade do Ilé Asé Opò
Afonjá (Salvador) realizada por Mãe Stella entre o período de 2000 e 2007, com a participação de
Dare Rose (Rosane Prudente Thioune, colaboradora da comunidade desde 1983 e membro desta
a partir de 1990) e da Onda Azul.
2
APCP – Área de Preservação Cultural e Paisagística – a Lei n° 3.515, de 22 de julho de 1985, incluiu
94 o Ilê Axé Opô Afonjá na normativa municipal. 95
Fotos ARQUIVO PESSOAL
E x p e r i ê n c i a s d e i m p l a n ta ç ã o e g e s tã o d e e s pa ç o s d e c u lt i v o d e p l a n ta s s a g r a d a s d o s p o v o s d e t r a d i ç ã o n o B r a s i l
Os sons, tons, cores e sabores de Sal- sica, dança etc. como artes intrinsi- trificação’, com ciclos que tiveram
vador são narrativas que expressam camente ligadas à integração ho- como ápice a Revolta dos Malês, no
a transposição para o cenário sote- mem-natureza. Sobrevivendo com século XIX, e suas requalificações REFERÊNCIAS
ropolitano do discurso de matrizes uma maior potência conceitual nas para a abertura de avenidas, no sé-
africanas com a formação de seus comunidades afro-baianas religio- culo XX. A fuga dos controles étnicos,
modos de ser e viver, pois ligadas sas, os Terreiros de Candomblé, ou econômicos, religiosos e culturais
aos mitos fundantes de suas civili- entidades de matriz africana, têm exercidos pelo governo colonial e
zações, metaforizam os ciclos de co- marcado a ressignificação parental republicano ocasionaram o deslo-
lheita, a totemização de caçadores e dos povos negros da cidade, desde camento das comunidades negras RAMOS, Arthur. As culturas negras no
protetores das intempéries naturais, o século XVII. Terreiros como o Bo- para fora do que era Salvador para Novo Mundo. Bahia; São Paulo; Minas
a busca humana pela explicação dos gum,3 o Alaketu,4 a Casa Branca,5 o regiões litorâneas e de mata. Desde Gerais: Companhia Editora Nacional,
pilares da vida e da morte, da origem Gantois,6 o Opo Afonjá,7 o Bate Fo- então, a ocupação de áreas da flo- 1946.
de nossa humanidade. Valores que lha8 realizam, através de suas ações resta atlântica, reservadas à forma-
na diacronia da história africana – a de realinhamento comunitário, uma ção de quilombos colônias, originou SANTOS, Maria Stella de Azevedo;
partir do paleolítico e neolítico, em- inserção em áreas onde a preserva- a formação de quilombos urbanos PEIXOTO, Graziela Domini. O que as
barcaram na proto-história, idade do ção ambiental é uma constante. contemporâneos, comunidades de folhas cantam (para quem canta folha).
ferro ou período pré-colonial para a Terreiros e/ou afro-baianas. Isso Brasília: Instituto Nacional de Ciência
diáspora nos porões dos navios ne- Assim, a cidade mais populosa do concretizou uma adequação (e res- e Tecnologia de Inclusão no Ensino
greiros, transformando-se em parâ- Nordeste e terceira do país, Salva- significação) dos usos e práticas uti- Superior e Pesquisa, 2014.
metros das culturas atlânticas. dor, é considerada o coração da lizados nas florestas equatoriais e Figura 1 - Casa de Sângó Opô Afonjá em 1938
“sétima região africana”,9 pois tem savanas africanas ao contexto atlân- Foto RUTH LANDES10 SANTOS, Milton; SILVEIRA, Maíra Laura.
A resistência e embates dos africa- na sua identidade um panorama tico, numa integração tematizada O Brasil: território e sociedade no início
nos e seus descendentes contra a com prerrogativa das culturas de com as iconografias e representa- Durante a gestão de Mãe Stella, fo- como as utiliza ou as interdita. Nes- do século XXI. Rio de Janeiro; São Paulo:
escravização cultural e identitária povos da África que a distingue no ções de uma memória coletiva mar- ram efetuadas ações de paisagismo sa perspectiva, no panteão Ketu, as Editora Record, 2006.
construíram bens da cultura mate- Brasil pela relevância das culturas cantes da ressocialização na nova e de reflorestamento, que objetiva- principais espécies estão ligadas à
rial e imaterial soteropolitana, de- afro-baianas. Fundada em 1549, foi floresta, com seus recursos hídricos, vam a intensificação da introdução potencialização das suas proprie-
marcando-a pelas características constituída pela migração forçada de fauna e flora, ou seja uma união de espécies exóticas oriundas da dades com os mitos ligados às suas
das nações que dominaram seu ou voluntária de povos africanos, das famílias religiosas com as famí- África Ocidental, com árvores e plan- relações com as divindades e ativida-
contexto. O alinhamento entre os europeus, judeus, ciganos e árabes, lias das plantas. tas utilizadas em cerimônias religio- des religiosas e socioculturais, pois
paradigmas socioculturais e a his- que criaram comunidades que re- sas. Wérénjéjé, “a planta que vence as utilizadas ou restritas nas aproxima-
toricidade dos percursos da escravi- lacionaram os seus saberes com as O Ilé Asé Opô Afonjá, entidade afro- lutas sem o uso da violência” (SAN- ções dos deuses com os humanos,
zação desses povos definiram as co- possibilidades de desenvolvimento -religiosa de matriz Ketu fundada por TOS, 2014, p. 61), nomeou uma des- para efeitos de cura de doenças físi-
munidades étnicas soteropolitanas econômico-sociocultural. Os seus Eugênia Anna dos Santos, é dirigido sas ações, já que, preocupada com a cas e espirituais, alimentação, estéti-
em Gege, Angola e Ketu. 692,818 quilômetros quadrados es- por mulheres. Depois de Mãe Ani- releitura da salvaguarda ambiental ca, confecção de instrumentos musi-
tão situados entre a Baía de Todos nha, o dirigiram Mãe Bada, Mãe Se- e a relação da comunidade religiosa cais e/ou nas atividades de iniciação
[…] os negros eram captura- os Santos, o mar e a floresta atlân- nhora, Mãe Ondina e Mãe Stella, to- com a população que invadiu a flo- religiosa ponderam o equilíbrio da
dos em qualquer região, mes- tica, o que motivou o planejamento das com um profundo envolvimento resta do Terreiro, essa ação tentou nossa humanidade.
mo no profundo interior, sem
descriminação (sic) de proce-
de sua formação territorial inicial
nas escarpas dos altiplanos de sua
com ações de preservação e difusão
das culturas africanas ligadas a reli-
uma diluição das disputas pelo ter-
ritório. Desta forma, a comunidade A preservação ambiental é um desa-
5
dência e embarcados em por- localização. A UNESCO tombou o giosidades iorubanas. Fixado desde realizou uma parceria com a Onda fio imbricado à própria sobrevivên-
tos da costa, que reuniam as- Centro Histórico de Salvador como 1909 em São Gonçalo, o Terreiro Azul para a sistematização das suas cia dessas comunidades, pois, con-
sim escravos de várias tribos Patrimônio da Humanidade, por tem a maior área de Mata Atlântica ações de reflorestamento, preserva- siderando-se os Terreiros territórios
e de várias regiões muito dife- agregar o maior conjunto arquitetô- particular de Salvador. Através da ção ambiental e de sustentabilidade. de uso (SANTOS; SILVEIRA, 2006), as
rentes às vezes; os nomes que nico barroco das Américas; agraciou Lei nº 3515/85, o município tentou suas relações ancestrais com a natu-
traziam eram quase sempre Salvador com o título de Cidade da a preservação do seu patrimônio Na cerimônia do Sàsànyìn, a comu- reza constituem a sua essência. En-
destes portos de procedência Música em 2015; declarou o Samba material, imobiliário, dos recursos nidade religiosa invoca, por meio de fim, uma singularidade que ancora a
[…] (RAMOS, 1946, p. 81). de Roda do Recôncavo Baiano Patri- hídricos e florestais. Insuficiente às mais de 60 cânticos, o “poder das preocupação universal contemporâ-
mônio Imaterial da Humanidade em suas lacunas quanto a um plano de folhas para que sirvam de remédio nea com o futuro do Planeta.
Consideradas marcantes, as cultu- 2008 e a Capoeira em 2014. gestão, fiscalização, reflorestamento para o corpo e para o espírito” (SAN-
ras iorubanas têm destaque nos di- e ações educativas, a invasão imobi- TOS, 2014), motivo pelo qual Mãe
versos momentos das celebrações O Centro Histórico, ao qual muitas liária e a degradação ambiental con- Stella declarava que todas as plan-
socioculturais da cidade, pois estão comunidades negras estavam agre- tinuaram. tas são sagradas. O seu uso sacro
presentes na culinária, estética, mú- gadas, sofreu uma progressiva ‘gen- depende da sabedoria de quem e

3
Bogum ou Zoogodô Bogum Malê Rundó, fundado em 1620, em tombamento pelo IPHAN e IPAC.
4
Alaketu ou Ilé Maroialaji Alaketu, fundado em 1636 (1818), tombado pelo IPHAN.
5
Casa Branca ou Ilê Axé Iyá Nassô Oká, fundada em 1830 (1789), tombada pelo IPHAN.
6
Gantois ou Ilê Iyá Omin Axé Iyá Massê, fundado em 1849, tombado pelo IPHAN.
7
Terreiro do Ilê Axé Opó Afonjá, fundado em 1910 (1885), tombado pelo IPHAN. Disponível em <https://museuafrodigital.ufba.
10

96
8
Terreiro Bate Folha ou Mansu Banduquenqué, fundado em 1916, tombado pelo IPHAN. br/ruth-landes-outubro-1938-afonj%C3%A1>. 97
9
A Organização da Unidade Africana instituiu a diáspora africana como a sua “sétima região”. Acesso em: 26 set. 2019.
E x p e r i ê n c i a s d e i m p l a n ta ç ã o e g e s tã o d e e s pa ç o s d e c u lt i v o d e p l a n ta s s a g r a d a s d o s p o v o s d e t r a d i ç ã o n o B r a s i l
PROJETO DE REDE DE HORTOS DE PLANTAS
MEDICINAIS E LITÚRGICAS – RHOL
SUELI CONCEIÇÃO

Apresentação iniciam-se com a utilização das O público beneficiado diretamen- formação em Empreendedorismo e Yê Tempo – Nação Bantu; Terreiro
plantas. Tais práticas vêm sendo te pelo Projeto RHOL foi, portanto, Cooperativismo, em parceria com o Kaiongo Angola Paketao – Nação
Ao longo da existência das Religi- ameaçadas por causa da dificulda- composto por cerca de 60 famílias Centro Público de Economia Solidá- Bantu; Sufician Unde – Nação Jeje),
ões de Matriz Africana no Brasil, a de de se encontrar matéria-prima – integrantes das Comunidades Tradi- ria (CESOL 3). Camaçari (Terreiro Leci – Nação
perda dos espaços verdes nos seus plantas/ervas – disponíveis nos es- cionais de Terreiros de Candomblé Bantu; Terreiro Aretum – Nação
territórios é um problema recor- paços naturais, o que promove, em envolvidas nas ações do projeto. A geração de renda foi possível de- Bantu).
rente. A grande diversidade des- primeiro plano, a busca dos religio- Embora as atividades do projeto vido à diversidade do que foi pro-
ses templos sagrados encontrados sos por esse importante elemento tenham, em sua maior parte, carac- duzido, o que implicou em tipos Os terreiros, em cada município,
no Estado da Bahia é constante- nos centros de abastecimentos e terísticas do campo, boa parte do diferentes de consumidores re- receberam hortos agroecológicos
mente submetida a um processo feiras livres e, a partir daí, as con- público-alvo é composta de famílias gulares e, consequentemente, na com 100m² para cultivo das espé-
de degradação ambiental, típica sequentes mudanças nos rituais li- urbanas, o que promoveu o resgate sustentabilidade do projeto. Tais cies selecionadas. A escolha desses
dos espaços urbanos e periurba- túrgicos. das atividades campesinas, intima- grupos específicos de consumido- terreiros obedeceu a critérios técni-
nos, determinada por relações so- mente ligadas ao caráter ecológico res são: os adeptos do Candomblé, cos, que dizem respeito principal-
ciais desarmônicas e excludentes Para dirimir a problemática que das religiões de matriz africana. Esse que utilizam regularmente, tanto as mente à viabilidade hídrica (a exis-
(CONCEIÇÃO, 2008). O que há em atinge os terreiros de Candomblé, resgate também teve sua importân- plantas medicinais e litúrgicas em tência de rios, fontes ou poços em
comum à diversidade dessas religi-
ões é a utilização e veneração dos
propõe-se a implantação de uma
Rede de Hortos para a produção
cia para as famílias das Comunida-
des de Terreiros residentes na área
seu estado bruto, quanto os seus
derivados; o grupo dos naturalistas,
sua área) e ao potencial produtivo
do terreno (ser plano, sem declive
5
espaços naturais – matas, lagoas, e o beneficiamento de plantas menos urbanizada da Região Metro- não adeptos, que utilizam as plantas acentuado e com solo apropriado
rios, manguezais –, áreas que, de de usos medicinais e litúrgicos, a politana de Salvador, uma vez que a medicinais e seus derivados; os não para o cultivo).
uma forma geral, se apresentam RHOL, em municípios do Território falta de opções de renda com ativi- adeptos simpatizantes, que utilizam
cada dia mais escassas nas gran- de Identidade da Região Metropoli- dades campesinas impele os adul- eventualmente as plantas medici- Para o cultivo, foram selecionadas
des e pequenas cidades. tana de Salvador, em terreiros que tos em idade produtiva a buscar nais, litúrgicas e seus derivados. 25 espécies vegetais, consideradas
possuam viabilidade hídrica para a opções de emprego em atividades escassas, a partir de escutas reali-
Os Terreiros de Candomblé encon- implantação de hortos agroecológi- características do ambiente urbano, Descrição da metodologia a ser zadas com as comunidades de ter-
tram-se, portanto, sob pressão de cos, e um (horto) onde será insta- mesmo nas cidades do interior. empregada reiros de Candomblé, as quais se-
uma crise ecológica instalada na so- lado o centro de beneficiamento, rão distribuídas entre os terreiros
ciedade baiana, que tem como base que será abastecido pelos demais O Projeto RHOL visou ao incentivo Foi implantada a Rede de Hortos envolvidos, considerando o tipo de
uma alteração social marcada, por terreiros que completam a rede. à Economia Solidária e ao Comércio para produção e beneficiamento terreno mais adequado para cada
um lado, pela escassez de moradia Justo e Solidário – em consonância de plantas de usos medicinais e Li- espécie. As 25 espécies seleciona-
para os seus habitantes que, em Há, portanto, questões centrais di- com a Lei Estadual 12.368/2011, que túrgicos (RHOL) em 12 terreiros de das são as seguintes: 1. Alcachofra;
sua maioria, vivem em condições versas a serem consideradas pelo cria a Política Estadual de Fomento Candomblé, distribuídos por cinco 2. Anador; 3. Alecrim, 4; Alfavaca;
insalubres, e, por outro lado, pelo projeto: uma, a recuperação dos à Economia Solidária no Estado da municípios do Estado da Bahia: Dias 5. Bete Cheiroso; 6. Capim Santo;
poder da especulação imobiliária, vegetais, enquanto elementos fun- Bahia –, na atuação de forma as- D’Ávila (Ilê Axé Onijo Onilekwe), 7. Carqueja; 8. Espinheira Santa;
que determina o valor da terra e damentais nas práticas medicinais sociativa e cooperativa dos Terrei- Itaparica (Terreiro de Oyá – Nação 9. Fedegoso; 10. Girassol; 11. Na-
promove a acentuação da segrega- e litúrgicas do Candomblé; outra, o ros de Candomblé, com assistência Ketu), Lauro de Freitas (Unzo Mean moscada (sic); 12. Macaçã (sic); 13.
ção espacial já instalada. Tais fato- empoderamento socioeconômico técnica continuada, em produção e Dandalunda – Nação Bantu; Ilê Asé Malva; 14. Manjericão Graúdo; 15.
res exercem influência decisiva nas das comunidades de terreiros de beneficiamento de plantas de uso Oyá Gimuda – Nação Ketu; Manso Manjericão Miúdo; 16. Maria Preta;
transformações e ressignificação Candomblé, historicamente des- medicinal e litúrgico, na expectativa Dandalunga Kisimbe N’zambe – 17. Mastruz; 18. Mirra; 19. Folha da
das religiões de matriz africana. favorecidas, o que está em conso- de gerar alternativas de ocupação e Nação Bantu; Sítio de Paz – Nação Costa; 20. Água de Alevante Miúda;
nância com a Lei 12.288/2010, que renda aos beneficiários desse pro- Ketu; São Jorge Filho da Gomeia – 21. Palma da Rainha; 22. Patchouli
98 Segundo os preceitos do Candom- estabelece o Estatuto da Igualdade jeto, enquadrando-os no contexto Nação Bantu), Salvador (Mokambo (Patchuli); 23. Poejo; 24. ‘Tansagem’ 99
blé, todas as atividades litúrgicas Racial. da Economia Solidária, a partir da Onzo Nguzo Za Nkissi Dandalunda (Tanchagem); 25. Velame.
Fluxograma do Projeto RHOL RMS

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A proposta para o cultivo é de que A metodologia do projeto é basea-
cada terreiro produza espécies dife- da nos Princípios da Economia So-
rentes dos outros da Rede, visando lidária – definidos na Lei Estadual REFERÊNCIAS
caracterizar a interdependência e a 12.368/2011, em seu Art. 2º, inciso
cooperação. Dessa forma, todos os III –, princípios estes que incenti-
terreiros foram estimulados a cui- vam o protagonismo local, no qual
dar de forma satisfatória de sua pro- os beneficiários deverão participar
dução, uma vez que cada um deles diretamente das ações planejadas,
irá gerar um tipo diferente de ma- buscando novas alternativas e so- CONCEIÇÃO, S. S. O processo de
téria prima para o centro de bene- luções para que as orientações e in- urbanização como imperativo da
ficiamento ou mesmo para a comer- formações transmitidas pela equipe reestruturação espacial e litúrgica
cialização in natura, no sentido de de profissionais contratados atin- das religiões de matriz africana.
garantir a sustentabilidade da Rede. jam resultados significativos, capa- 2008. 138f. Dissertação (Mestrado
zes de melhorar a qualidade de vida em Estudos Étnicos e Africanos) –
Um terreiro da Rede sofreu adap- das pessoas e garantir a sustentabi- Faculdade de Filosofia e Ciências
tação em uma parte da sua área lidade, tanto do negócio quanto do Humanas, Universidade Federal da
edificada para receber o centro de meio ambiente. Bahia, 2008.
beneficiamento. O terreiro Mokam-
bo, em Salvador, foi escolhido para O gráfico abaixo ilustra a estrutura
receber essa reforma, por possuir a idealizada para o Projeto RHOL.
estrutura em que funcionava uma
fábrica de velas, o que facilitou a
adaptação do espaço.

Organograma do Projeto RHOL

100 101
Foto RICARDO LAF

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O patrimônio biocultural das
comunidades de terreiro não se
limita aos territórios sagrados
e aos serviços ecosssistêmicos
que eles prestam à cidade
(manutenção do microclima,
conservação de espécies
silvestres, redução da poluição,
recarga de aquíferos etc.), mas
vai, em particular, ao acervo de
conhecimentos e saberes sobre
as plantas que são fundamentais
para o Povo de Santo. As folhas,
como são chamadas as plantas de
maneira genérica nos terreiros,
são centrais nas práticas litúrgicas,
rituais e etnomédicas.

FÁBIO PEDRO S. DE F. BANDEIRA


5

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Pisada de Caboclo
6

PISADA DE CABOCLO
2019
PAI RICARDO DE MOURA

Pelo terceiro ano consecutivo, as os corpos indígenas, é o encontro de


comunidades tradicionais de ter- duas subjetividades que confluíram
reiro se juntam aos indígenas para – a que veio da África com a que era
promover a Pisada de Caboclo. Or- nativa daqui. Essas subjetividades
ganizada inicialmente pela Casa de são o Brasil. E essa união foi prós-

Pisada de Caboclo
Caridade Pai Jacob do Oriente, em pera subjetivamente, e em tempos
2019, foi promovida pela união dos passados de dificuldade, as subjeti-
terreiros de umbanda – a Reunião vidades se apoiaram uma na outra
Umbandista Mineira (RUM). para sobreviver.

Realizada sempre na Lagoa do Então, essa união formou uma ir-


Nado, neste ano, integrou a pro- mandade que a gente celebra com
gramação do Festival de Arte Negra a Pisada de Caboclo. Este ano nós
(FAN) e foi o momento de encerra- tivemos a presença de vários re-
mento do Seminário do projeto “Jar- presentantes, e pertencentes a vá-
dins do Sagrado, cultivando insabas rias etnias participaram também do
que curam”. Seminário Jardins do Sagrado. E foi
lindo! Vários terreiros, várias casas
Os Jardins do Sagrado constitui um de umbanda e vários representan-
projeto divisor de águas em Belo tes do candomblé. Tivemos passe,
Horizonte, que foi coroado com a incorporação e uma mesa de frutas
Pisada de Caboclo. A Pisada de Ca- com bebidas tradicionais, com ca-
A Pisada de Caboclo é uma manifesta- boclo é o encontro do povo de ter- chimbos, com cantos indígenas, um
ção cultural organizada pela Reunião reiro com o povo da mata, o povo canto para os encantados e um can-
Umbandista Mineira (RUM) que forta- das folhas, o povo Indígena. E além to para os caboclos. Essa foi a Pisada
lece a confluência cultural e espiritual do encontro dos corpos negros com de Caboclo 2019.
entre os povos de matriz africana e
indígena, celebrando a ancestralidade
desses povos, afirmando seus laços de
união, base da resistência dos povos
tradicionais.

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Fotos RICARDO LAF

Pisada de Caboclo
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PROGRAMAÇÃO: DIA 21 DE NOVEMBRO DE 2019

S E M I N Á R I O A S C I D A D E S E O S A G R A D O D O S P O V O S T R A D I C I O N A I S : T E R R I T Ó R I O , I D E N T I D A D E S E P R ÁT I C A S C U LT U R A I S e p r át i c a s c u lt u r a i s
LOCAL: CENTRO CULTURAL DA UFMG
AV. SANTOS DUMONT, 174 – CENTRO/BELO HORIZONTE

jeto Guernica, da Prefeitura de Belo Horizonte, ministrando


MESA: OS POVOS TRADICIONAIS E O CONTEXTO URBANO oficinas de artes, história e grafite para jovens e em formação
de professores (2000-2014). Exerceu a regência e foi membro
Tema abrangente e orientador das discussões do Seminário. da equipe de coordenação pedagógica do Programa de For-
Com esta mesa, pretende-se refletir sobre a dinâmica, as dis- mação para o Trabalho Jovem Aprendiz / Jovem Trabalhador
putas e as identidades associadas à prática e à vivência dos (AMAS). Tem experiência na área da História, com ênfase em
saberes tradicionais no meio urbano. História Social da Cultura, atuando principalmente em temas
correlatos ao patrimônio cultural, identidades, culturas urba-

SEMINÁRIO AS CIDADES
CONVIDADOS: nas e história da arte. Tem experiência na área da Educação
como docente e gestor de políticas educacionais – educação
Joana Munduruku integral e cursos técnicos.
Licenciada e Bacharel em História pela Universidade Federal

E O SAGRADO DOS de Mato Grosso (UFMT). Bacharel em Teologia com ênfase em


Música Sacra pelo Seminário Teológico de Belém. Professora
Mestra em História do Brasil, com ênfase em História Regional
VIVÊNCIA: TRADIÇÃO QUE ALIMENTA
Partilha de alimentos, de saberes falados, tocados e canta-

POVOS TRADICIONAIS:
e Memória pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), dos. Confluência entre os saberes e os sabores de povos de
com a dissertação O cotidiano e o trabalho em Taquarussu (1940- terreiro e indígenas por meio de suas comidas tradicionais.
1960). Membro indígena do povo Munduruku. Implantou o De- Pretende-se afirmar o alimento como direito sagrado desses
partamento do Patrimônio Histórico e Cultural e foi membro povos e visibilizar que seus costumes e modos de vida resis-

TERRITÓRIO,
da Comissão que criou o Espaço Cultural, ambos da cidade de tem à homogeneização das práticas produtivas e dos hábitos
Palmas, em Tocantins. Gerente de Educação Escolar Indígena alimentares, ao empobrecimento e à industrialização da co-
na Secretaria da Educação, Juventude e Esportes do Estado do mida. Diariamente, esses povos, por meio de suas práticas
Tocantins (SEDUC-TO), foi quem implantou o Ensino Médio e o culturais, alimentam o sagrado, o corpo e a alma, e colabo-

IDENTIDADES E PRÁTICAS curso de Magistério Indígena e realizou o 1º Inventário Socio-


cultural dos Povos Indígenas desse estado. Hoje, trabalha na
Federação do Povo Huni Kui do Estado do Acre.
ram no combate à fome e na manutenção de territórios do
“Bem Viver”. Foi montada uma mesa, com comidas prepara-
das pela indígena Mayo Pataxó e pela Mametu Oiacibelecy

CULTURAIS
(Mãe Rita), em um ambiente de interação com os participan-
Makota Celinha Gonçalves tes do Seminário.
Makota Celinha é liderança junto às comunidades tradicio-
nais de terreiro, jornalista e empreendedora social da Rede CONVIDADOS:

(PROGRAMAÇÃO COMPLETA) Ashoka. Formada em Comunicação Social, pós-graduada em


Gestão Estratégica pela UFMG, atua na coordenação nacional
do Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-Brasi-
Mametu Oiacibelecy (Mãe Rita)
Rainha de Congado, benzedeira, parteira e raizeira. Iniciada
leira (CENARAB). Faz parte do conselho editorial e colunista na Tenda Espírita São Bartolomeu (Omolocô). Coordenadora
do jornal eletrônico Brasil de Fato. Foi conselheira do Conse- na Rede RENAFRO-MG; Coordenadora de Mulheres no FON-

programação
lho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR) e su- SANPOTMA-MG. Coordenadora de Mulheres de AXÉ DO BRA-
plente no Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Ra- SIL – Região Metropolitana de Belo Horizonte-MG; Suplente no
cial (CONEPIR-MG). Atuou também na Coordenação Nacional Comitê Estadual de Diversidade Religiosa; Membro da Comis-
do Coletivo de Entidades Negras (CONEN). são Estadual de Povos e Comunidades Tradicionais do Estado
de Minas Gerais (CEPCT-MG); Representante da Matriz Africa-
MEDIAÇÃO: na do interior de Minas Gerais; e Membro do Comitê de Saúde
da População Negra. Conselheira nos Conselhos Municipais de
Álan Pires Direitos da Mulher, de Igualdade Racial (COMPIR), de Saúde e
Possui graduação em História pela Pontifícia Universidade de Segurança Alimentar. Participante do Projeto Onã Ewê “O
Católica de Minas Gerais (2009), especialização em História caminho das folhas no terreiro das Religiões de Matriz Africa-
da Cultura e da Arte pela Universidade Federal de Minas Ge- na na Região Metropolitana de Belo Horizonte”. Palestrante na
rais (2009) e mestrado em História Social da Cultura pela Uni- Oficina de Agroecologia Saberes Tradicionais: Ciência, Técnica
versidade Federal de Minas Gerais (2017). Atualmente é co- e Tecnologia 2018. Palestrante no Ciclo de Encontro: Saberes
ordenador técnico na Diretoria de Patrimônio de Patrimônio do Quintal 2019.
Cultural e Arquivo Público da Prefeitura de Belo Horizonte.
Atuou como gerente de educação na Fundação Educacional Mayôweynehy Pataxó
Caio Martins (FUCAM), Secretaria de Estado de Trabalho e De- Perfil profissional e experiências em Agroecologia e Etnogas-
senvolvimento Social de Minas Gerais (SEDESE), como tutor tronomia Indígena: Maria Eliana, também reconhecida por
presencial nos cursos de graduação EaD em História e So- seu nome indígena Mayôwerymehy Pataxó, possui Gradua-
ciologia da Universidade Norte do Paraná (Unidade Centro, ção em Pedagogia pela Universidade Vale do Rio Doce (Univa-
Belo Horizonte) e também como coordenador pedagógico le), Especialização em Terapia Comunitária pela Universidade
estadual do Programa de Educação Integral da Secretaria de Federal do Ceará e Pós-Graduação em Educação do Campo
108 Estado de Educação de Minas Gerais (2015-2017). Trabalhou pela Universidade Federal de Minas Gerais. Além disso, fez 109
como professor e realizou coordenação pedagógica no Pro- cursos de Formação Holística de Base, Terapia Tradicional
S E M I N Á R I O A S C I D A D E S E O S A G R A D O D O S P O V O S T R A D I C I O N A I S : T E R R I T Ó R I O , I D E N T I D A D E S E P R ÁT I C A S C U LT U R A I S e p r át i c a s c u lt u r a i s
dos Sonhos e Ecologia Integral pela Universidade Internacio- em Minas Gerais nos anos 1990 e hoje dedica-se à luta contra PUC-MG. Jornalista com atuação nas rádios Itatiaia, Guarani, da Federação Espírita Umbandista de Minas Gerais (1970-
nal da Paz, e outros diversos cursos nas áreas de terapias o racismo ambiental e em defesa do legado eco-africano e Mineira, Universidade e Inconfidência. Atuou nos jornais Bi- 2010) e editor do jornal A Tribuna de Xangô. Um dos organiza-
holísticas, agrobiodiversidade, teatro e danças tradicionais. feminino presentes nos terreiros de candomblé. nômio, Última Hora, Diário de Minas, Estado de Minas, Jornal da dores das festas de Preto Velho e Iemanjá, tendo sido o seu
Ministrou vários cursos e oficinas como terapeuta holística, Cidade e Diário da Tarde; nas televisões Itacolomi e Alterosa. apresentador por mais de 30 anos. Foi um dos coordenado-
cursos e oficinas de agroecologia, oficinas de benzeção, co- Avelin Buniaká Kambiwá É folclorista, ex-presidente da Comissão Mineira de Folclore. res do Primeiro Seminário sobre Medicina Popular e Plantas
midas tradicionais e exerce a função de Coordenadora Pe- Indígena pertencente à etnia Kambiwá, socióloga, professora Conselheiro do Centro de Tradições Mineiras, diretor do Cen- (1970), promovido pela UFMG, da Comissão Mineira de Folclo-
dagógica na Majú Escola dos Saberes Tradicionais e Terapias especialista em gênero, raça e estudos religiosos, palestrante tro de Referências da Cachaça no Brasil e Capitão Honorário re e Federação Espírita e Umbandista do Estado de Minas Ge-
Holísticas, no Núcleo de Estudos em Agroecologia Oca Tokma e também fundadora do Comitê Mineiro de Apoio às Causas das Guardas de Nossa Senhora do Rosário do Estado de Minas rais, e de outros seminários subsequentes, com a participação
Kahap, na Associação de Terapeutas das Culturas Tradicio- Indígenas e colaboradora frequente do núcleo étnico-racial Gerais. Foi integrante e presidente do Conselho Deliberativo de representantes de setores científicos, culturais e religiosos.
nais. Tem ampla experiência em Educação Intercultural, Edu- do Instituto Imersão Latina. Atua na luta pelos Direitos Indí-
cação do Campo, Educação Popular e Educação Ambiental, genas em situação urbana, pelos direitos da Mãe Terra e pro-
com enfoque em metodologias participativas voltadas para põe a “indianização da cidade”. PROGRAMAÇÃO: DIA 22 DE NOVEMBRO DE 2019
a sensibilização e o resgate de práticas terapêuticas tradicio-
nais. Fábio Bandeira LOCAL: CENTRO CULTURAL DA UFMG
Bacharel em Ciências Biológicas – Modalidade Ecologia pela AV. SANTOS DUMONT, 174 – CENTRO/BELO HORIZONTE
Odair Pataxó Universidade Federal da Bahia (1992) e Doutor em Ciências
Perfil profissional e experiências em Agroecologia e Produ- (Ecologia/Etnoecologia), pela Universidad Nacional Autóno- experiência na área de Comunicação, com ênfase em Teorias
ção Orgânica: Odair Pataxó possui formação em Holística de ma de México (2002). Professor e Coordenador do Núcleo de MESA: OS SABERES CIENTÍFICOS, ACADÊMICOS E da Imagem, atuando principalmente nos seguintes temas: ci-
Base, Ecologia Integral pela Universidade Internacional da Pesquisa em Ambiente, Sociedade e Sustentabilidade (NU- nema moderno (ficção e documentário) e experiência estética.
Paz e outros diversos cursos nas áreas de Terapias Holísticas, PAS) e professor do Programa de Mestrado Profissional em TRADICIONAIS: CONFLUÊNCIAS PARA A Editor da revista Devires: Cinema e Humanidades. Integrante do
Agrobiodiversidade e Agroecologia. É especialista em Espiral Planejamento Territorial, do Departamento de Ciências Bio- Grupo de Pesquisa “Poéticas da Experiência”. Foi coordenador-
de Ervas Sagradas. Ministrou vários cursos e oficinas como lógicas da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). CONSTRUÇÃO DE CONHECIMENTO -geral do Festival de Inverno da UFMG de 2012 a 2014, com o
guardião da semente crioula e de construção de espiral de Tem mais de vinte anos de experiência em pesquisa com po- Projeto de Extensão “O Bem Comum”. Coordenador do Projeto
ervas agroecológico. É da equipe de coordenação do Núcleo vos indígenas no Brasil, no México e na Bolívia, em comunida- No campo da política de patrimônio cultural, um dos desafios de Extensão Formação Transversal em Saberes Tradicionais.
de Estudos em Agroecologia Oca Tokma Kahap. É membro da des afro-brasileiras, de pescadores artesanais, dentre outras que se coloca é a implementação de medidas de salvaguarda.
equipe de coordenação do Centro Agroecológico Tamanduá. comunidades tradicionais no Brasil. Construídas a partir da identificação dos processos estrutu- Cleonice Pankararu
Participa da elaboração de comidas sagradas, tem ampla ex- rantes das práticas culturais e do diagnóstico das fragilidades Graduada em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual
periência em Educação Intercultural, Educação do Campo, Isaka Huni Kuin internas e externas que as afetam, as medidas de salvaguarda de Minas Gerais e especialista em Sociobiodiversidade pelo
Educação Popular e Educação Ambiental. Professor na aldeia São Joaquim, no Centro de Memórias, na devem ser construídas, via de regra, pelo entrecruzamento de Centro de Estudo do Cerrado da Chapada dos Veadeiros, da
Terra Indígena Kaxinawá do Baixo Rio Jordão. Presidente do campos distintos do conhecimento. Promover, divulgar, difun- Universidade de Brasília (UnB). Em sua especialização, pesqui-
Coletivo de Produções Audiovisuais Beya Xinã Bena e coorde- dir, transmitir, fomentar constituem linhas de atuação para a sou “O desaparecimento das plantas medicinais do Cerrado:
MESA: AS CIDADES, AS PRÁTICAS DO SAGRADO nador indígena do projeto do videogame Huni Kuin: Yube Baita- salvaguarda que se efetivam a partir de uma abordagem inter- as implicações nas práticas de cura dos(as) raizeiros(as), ben-
na (Os caminhos da jiboia). Coautor de Una Isi Kayawa: livro da setorial. Salvaguardar, no contexto da política de proteção ao zedores(as), curandeiros(as) e pajés das comunidades indíge-
E SUAS RELAÇÕES cura do povo Huni Kuin do rio Jordão, livro pioneiro que reúne o patrimônio dito imaterial, exige uma articulação concatenada nas Pankararu-Pataxó e Aranã”. É técnica de enfermagem no
profundo conhecimento das plantas e das práticas medicinais dos distintos saberes, dado que seu campo de atuação consti- Polo de Saúde Indígena do Distrito Sanitário Especial Indígena,
As práticas culturais indígenas e de terreiro têm no exercício do povo indígena Huni Kuin. Dirigiu o filme Txirin, o batismo do tui produto que não é estático; ele se faz e se refaz no diálogo e onde atende comunidades indígenas dos estados de Minas
do sagrado seu ponto central de estruturação. Esse sagrado, gavião e participou da equipe de fotografia de Shuku Shukuwe: nas interações sociais. Partindo, então, da necessidade da con- Gerais e do Espírito Santo.
por sua vez, encontra-se umbilicalmente vinculado com os a vida é para sempre. Atualmente vem estudando as plantas fluência de conhecimentos para a implementação de medidas
elementos da natureza. Plantas, rios, mares, pedras, animais, medicinais nativas. de salvaguardas eficazes, toma-se como referência temática Jaqueline Dias
terra, floresta são elementos essenciais para os processos sa- desta mesa a discussão sobre as potencialidades e o relato Graduada em Agronomia pela Universidade Federal de Viço-

programação
grados desses povos. Em meio urbano, o acesso a ambientes Pai Geraldo de experiências de entrecruzamento dos saberes científicos, sa. Mestre em Agronomia (etnobotânica) pela Universidade
que ofertem, em certa medida, contato com esses elementos Presidente da Casa de Cultura e Assistência Social e dos Cul- acadêmicos e tradicionais como fio condutor de processos de Estadual Paulista. Doutoranda em Desenvolvimento Rural na
é mediado pelo estabelecimento de regramentos sociais e ins- tos Afro-Brasileiros Ogum Lodé e Oxum Apara em Santa Luzia salvaguarda das práticas culturais indígenas e de terreiro. Par- Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Organizou diver-
titucionais construídos de maneira apartada das particularida- (MG). Foi presidente da Congregação Mineira de Candomblé, tindo, então, da necessidade da confluência de conhecimentos sas pesquisas junto a povos e comunidades tradicionais, com
des do modo de vida dessas comunidades. Refletir sobre os realizou várias conferências discutindo as práticas culturais para a implementação de medidas de salvaguardas eficazes, destaque para a Farmacopeia Popular do Cerrado; o Ofício das
problemas e as possibilidades da prática do sagrado na cidade afro-brasileiras no Brasil e em Luanda (Angola). É autor de toma-se como referência temática desta mesa a discussão Raizeiras e Raizeiros do Cerrado; e os Povos e Comunidades
constitui, portanto, o tema principal desta mesa. “Crianças e adolescentes versos (sic) Vídeogames e fliperamas” sobre as potencialidades e o relato de experiências de entre- Tradicionais do Pampa. Possui experiência no desenvolvimen-
(Editora Mazarello) e “Coisas da Mãe África”, publicado no 4º cruzamento dos saberes científicos, acadêmicos e tradicionais to de cadeias de valor de produtos da Sociobiodiversidade.
CONVIDADOS: caderno de Palavra e Imagem: “Da Arte de Contar História”, da como fio condutor de processos de salvaguarda das práticas
Secretaria de Estado da Educação. Autor do projeto “Escola de culturais indígenas e de terreiro. Vanda Machado
Ângela Gomes Graduados em Tradição, Cultura e Cultos dos Orixás”, em par- Graduada em História pela Universidade Católica do Salvador,
Engenheira Florestal, doutora em Etnobotânica Negro-A- ceria com o Axé Ile Oba (SP). Graduado em Administração de CONVIDADOS: Mestre e Doutora em Educação pela Universidade Federal da
fricana pela UFMG e mestre em Controle de Contaminação Empresas pela Universidade de Brasília, em Homeopatia pela Bahia. Sua trajetória acadêmica é dedicada à Educação Etni-
Ambiental pela Universidade Politécnica de Madri. Coordena- Universidade Federal de Viçosa e Pós-Graduado em Gestão de César Guimarães corraciais, currículo e cultura. Criadora e coordenadora do
dora Nacional do Movimento Negro Unificado para Assuntos Pequenas e Médias Empresas pela Fundação Getúlio Vargas- César Guimarães possui graduação em Língua Portuguesa Projeto Político Pedagógico Irê Ayó, na Escola Eugenia Anna
Internacionais. Foi consultora da ONU na Guatemala, traba- -SP. Eleito vice-presidente da COMCAN, gestão de 1992-1994. pela Universidade Federal de Minas Gerais (1988), doutorado dos Santos, no Ilê Axé Opô Afonjá, e em outras comunidades
lhando com mulheres refugiadas indígenas Maya. Foi Repre- Eleito presidente na gestão 1094-1998, criada para a melhoria em Estudos Literários (Literatura Comparada) pela Universi- quilombolas. Criou e coordenou, também, o Projeto Capoeira
sentante das Mulheres Socialistas na Comunidade Europeia. da qualidade do culto das religiões de matriz africana em todo dade Federal de Minas Gerais (1995) e pós-doutorado pela Educação para a Paz – Formação para Capoeiristas Educado-
É membro do coletivo feminista Emakume Internacionalista território de Minas Gerais. Universidade Paris 8 (2002). É Professor Titular da Universi- res (Lei 10.639/03), no Forte de Santo Antônio Além do Carmo,
da Espanha. É professora universitária e Diretora do Sindi- dade Federal de Minas Gerais, integrante do corpo perma- Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural, Secretaria de Esta-
cato dos Professores SINPRO-Minas, leciona nos cursos de MEDIAÇÃO: nente do Programa de pós-graduação em Comunicação da do de Cultura e Turismo (IPAC/SECULT).
Engenharia Ambiental e Geografia e possui 4 livros publica- FAFICH-UFMG, pesquisador do Conselho Nacional de Desen-
110 dos. Ya Ewe do Ilê de Oxaguian, é a eco-feminista negra que Carlos Felipe Horta volvimento Científico e Tecnológico e colaborador da Coorde- Yone Gonzaga 111
denunciou o trabalho escravo em monoculturas de eucalipto Formado em Filosofia e Sociologia e Política. Professor da nação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. Tem Graduada em Letras, Mestre e Doutora em Educação pela Uni-
S E M I N Á R I O A S C I D A D E S E O S A G R A D O D O S P O V O S T R A D I C I O N A I S : T E R R I T Ó R I O , I D E N T I D A D E S E P R ÁT I C A S C U LT U R A I S e p r át i c a s c u lt u r a i s
versidade Federal de Minas Gerais. Foi Superintendente de Po- CONVIDADOS: posta Curricular da Licenciatura Intercultural em Educação Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) no Brasil, executando
líticas Afirmativas e Articulação Institucional da Secretaria de Escolar Indígena, na Universidade Estadual da Bahia, onde é o Projeto de mapeamento de áreas com potencial produtivo
Estado de Direitos Humanos, Participação Social e Cidadania. Flávio dos Santos Licenciada em Artes e Linguagens. Atualmente contribui na para cultivo de plantas medicinais e litúrgicas das religiões de
Com extensa experiência na área de Educação, tem atuado na Licenciado em Ciências Biológicas pelo Centro Universitário formação de professores no projeto Saberes Indígenas nas Es- matriz africana em territórios na Região Metropolitana de Sal-
discussão de temas como “gestão”, “relações e diversidade ét- Izabela Hendrix. Especialista em Gestão Escolar e Educação colas Indígenas. vador. Foi responsável pela elaboração do Plano Socioambien-
nico-raciais”, “políticas públicas” e “Direitos Humanos”. Atual- Ambiental pela Faculdade de Administração, Ciências, Educa- tal e Sustentável (PLANSES), de 14 comunidades quilombolas
mente vem atuando no debate sobre o impacto das políticas ção e Letras (FACEL). Atualmente, pesquisa “Etnoecologia e seu Pai Sidney da Chapada Diamantina. Coordenou o Projeto de Agentes Vo-
de afirmação na entrada e permanência de negras e negros potencial educativo: um estudo em narrativas Pataxó” em seu Graduado em Filosofia, é Babalorixá Sidney de Oxossi do ter- luntários das Águas (AVA), em comunidades indígenas Pataxós
nas universidades. Atua como Consultora de Relações Étnico- Mestrado pela Universidade do Estado de Minas Gerais, onde reiro Ilê Wopo Olojukan, no bairro Aarão Reis, em Belo Hori- no Extremo Sul da Bahia. Coordenou o Projeto de Extensão
-Raciais e de Gênero, desenvolvendo formação para gestores, também participa do projeto Onã Ewê, que busca compreen- zonte. Fundado por Carlos Olojukan, em 1964, foi o primeiro Pedagógica Band’Erê, da Associação cultural e Bloco Carnava-
docentes, movimentos sociais e empresas corporativas. der o caminho das folhas nos terreiros da Região Metropolita- terreiro a ser reconhecido como Patrimônio Cultural do Mu- lesco Ilê Aiyê.
na de Belo Horizonte (RMBH). Integra o KAIPORA: Laboratório nicípio, em 1995. Homenageado na “Quilombos urbanos, fé e
MEDIAÇÃO: de Estudos Bioculturais, pesquisa povos e comunidades tradi- cultura: Mostra CineAfroBH homenageia mestres populares”, Tiago Paulino Sales (Ibã Huni Kuin)
cionais e é integrante da comunidade tradicional o Ilé Omiojú- em 2019. Em diversas palestras proferidas em várias partes do Morador da aldeia Novo Natal, localizada na Terra Indígena
Claudia Mayorga àrò, no Rio de Janeiro. Brasil, aborda especificidades históricas, filosóficas e culturais Kaxinawá do Rio Jordão, no Estado do Acre. Gestor do Parque
Doutora em Psicologia Social pela Universidade Complutense da religião do Candomblé. de Medicinas Txaná Banê e pesquisador das medicinas da flo-
de Madri – Espanha com foco em estudo sobre gênero, políti- Gabriel Ricardo de Moura resta e psicologia da floresta. Embora muito jovem, atua como
ca e feminismo. É professora do Departamento de Psicologia Gabriel Ricardo de Moura, jovem de terreiro de umbanda, ne- Rose Thioune pajé na Aldeia Novo Natal. Em 2014, deu início a um trabalho
da Universidade Federal de Minas Gerais e do Programa de gro, herdeiro dos costumes e das práticas dos cultos de ma- Mestranda em Cultura e Sociedade no Pós-Cultura pela Uni- de coordenação dos jovens pajés na Terra Indígena. Destaca-
Pós-graduação em Psicologia. Coordena o Núcleo de Ensino, triz afro-brasileira na Casa de Caridade Pai Jacob do Oriente. versidade Federal da Bahia e licenciada em Língua Portuguesa -se também sua participação na autoria indígena coletiva no
Pesquisa e Extensão Conexões de Saberes na UFMG. Atuou Neto dos fundadores e mantenedores dessa tradição, atua e Literaturas, pela Universidade Estadual da Bahia. Atua com projeto Una Shubu Hiwea: Livro Escola Viva do povo Huni Kuin
como pesquisadora visitante na Universidade Complutense de na comunidade da Vila Senhor dos Passos-Complexo da Pe- educação, arte, cultura e memória, priorizando os temas “mi- do rio Jordão, próximo à fronteira com o Peru. Esse projeto, de
Madrid (2011 e 2012). Atualmente é co-editora da Revista Psi- dreira Padro Lopes como gestor, produtor, mediador cultural gração” e “estudos culturais e linguísticos”. Ministra aulas de transmissão e fortalecimento da cultura Huni Kuin, envolve 3
coperspectivas – Chile (Qualis B1). Foi editora chefe da Revista e promotor de vivências dos projetos culturais desenvolvidos letramento pedagógico, literário e cultural em escolas de en- mil pessoas das 36 aldeias nos rios Jordão e Tarauacá e já se
Psicologia & Sociedade (Qualis A2), periódico científico da As- pela Associação da Resistência Cultural Afro-Brasileira Casa de sino básico, médio e universitário. Como produtora cultural, estendeu a outras terras indígenas Huni Kuin do Acre.
sociação Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO) (2012-2015) Caridade Pai Jacob do Oriente (CCPJO). Participa de atividades prioriza as áreas de música, dança, artes cênicas e visuais foca-
e Editora da Revista Interfaces – Revista de Extensão da UFMG culturais que confluem para reoxigenar as práticas e os costu- das nas culturas brasileiras. Participa do planejamento da ação
(Qualis B3 -Interdisciplinar) de 2015 a 2018. Foi membro do Co- mes dos viveres em comunidades tradicionais. Coordenador cultural, educativa e de direitos humanos da Casa das Culturas MEDIAÇÃO:
mitê Editorial de Scielo em Perspectiva – Humanas (2014 e 2015). do projeto Ciclo das Insabas e membro da Associação de Re- do Senegal.
Foi membro da Diretoria Nacional da Abrapso (2004/2005) e sistência Cultural Afro-brasileira Casa de Caridade Pai Jacob Sérgio Augusto Domingues
vice-presidente da Abrapso Regional Minas (2006/2007). Como do Oriente (CCPJO). Filho do pai de santo e mestre Ricardo Sueli Conceição Presidente da Fundação de Parques Municipais e Zoobotânica.
editora da Revista Psicologia & Sociedade, recebeu grant da de Moura, tem dado continuidade à prática cultural de matriz Graduada em Ciências Biológicas com especialização em Ges- Biólogo (UFMG), atuou no Projeto TAMAR e na elaboração do
American Psychological Association (2012/2013). Foi coorde- afro-brasileira, atuando cotidianamente nas atividades do ter- tão Ambiental pela Universidade Católica do Salvador. Mestre Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado da RMBH; profes-
nadora da Formação Transversal em Direitos Humanos da reiro. Sua função dentro da casa de tradição abarca também em Estudos Étnicos e Africanos pela Universidade Federal da sor (ensino médio e superior); especialista em monitoramento
UFMG (2017 e 2018). Áreas de pesquisa e extensão: Psicologia a transmissão do ensino da cultura e história afro-brasileira Bahia e Doutora em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela e informações ambientais (UNESCO); gestor de projetos am-
Social e Feminismo com os seguintes temas: “análise intersec- a partir das referências ritualísticas da casa de tradição, por Universidade Estadual de Santa Cruz. Coordenou o proje- bientais em ONGs; formação complementar na universidade
cional da desigualdade social brasileira”; “psicologia comunitá- meio de formações que envolvem a musicalidade e o manejo to RHOL – Rede de Hortos de Plantas Medicinais e litúrgicas. Yale/EUA (Estratégias de restauração de florestas tropicais).
ria e intervenção psicossocial”; “participação social e política”; de ervas. Atuou, em 2012, como Consultora do Programa das Nações
“democratização da universidade e ações afirmativas”; “episte-
mologia feminista e metodologias participativas”. Foi Pró-rei- Makota Kisandembu
PROGRAMAÇÃO: DIA 23 DE NOVEMBRO DE 2019

programação
tora adjunta de extensão da UFMG (2014-2018). Atualmente é Com formação em Moda, é Educadora em Direitos Humanos
Pró-reitora de Extensão da UFMG (2018-2022). e Promoção de Igualdade Racial. Possui formação em Desen-
volvimento, Gestão e Produção Cultural pela Fundação João LOCAL: PARQUE LAGOA DO NADO/CENTRO DE REFERÊNCIA DA CULTURA POPULAR E TRADICIONAL
Pinheiro, Políticas Públicas de Gênero e Raça e Políticas Públi- RUA MINISTRO HERMENEGILDO DE BARROS, 904 – ITAPOÁ/BELO HORIZONTE
PAINEL: EXPERIÊNCIAS DE IMPLANTAÇÃO E GESTÃO cas pelo Legislativo Municipal. Residiu em vários estados do
Brasil, sempre pesquisando a cultura de Matriz Africana. No-
DE ESPAÇOS DE CULTIVO DE PLANTAS SAGRADAS DOS tório Saberes e Fazeres em Cultura Afro-brasileira. Ativista do PISADA DE CABOCLO
Movimento Negro desde a década de 1980. Atuou e atua junto
POVOS DE TRADIÇÃO NO BRASIL a vários movimentos, em caráter nacional e estadual, como o A Pisada de Caboclo é uma manifestação cultural organiza-
Movimento da Nação Bantu (MONABANTU), o Fórum Nacional da pela Reunião Umbandista Mineira (RUM) que fortalece
Considerando que a escassez de áreas verdes compromete de Segurança Alimentar e Nutricional dos Povos Tradicionais a confluência cultural e espiritual entre os povos de matriz
a manutenção dos modos de vida dos Povos Tradicionais, e de Matriz Africana (FONSANPOTMA) e a Associação Nacional africana e indígena, celebrando a ancestralidade desses po-
conhecer e divulgar experiências de acesso à natureza para da Moda Afro-Brasileira (ANAMAB). Desde 2017, atua como Di- vos, afirmando seus laços de união, base da resistência dos
práticas sagradas e de cultivo de plantas litúrgicas em ple- retora de Políticas para a Igualdade Racial da Secretaria Muni- povos tradicionais.
na cidade torna-se necessário. É objeto desta mesa refle- cipal de Assistência Social, Segurança Alimentar e Cidadania da
tir sobre as possibilidades e desafios do desenvolvimento, Prefeitura de Belo Horizonte.
no meio urbano, de ações capazes de nutrir os modos de
vida dos povos de tradição em suas relações com a nature- Nádia Akawã Tupinambá
za. Nesse contexto, cabe também refletir sobre os possíveis Pedagoga autodidata, Mbo’esara (educadora indígena), mulher
desdobramentos dessas experiências para a cidade, para medicina, conselheira espiritual e militante do movimento In-
além do culto à ancestralidade. dígena. Conduz rituais de cura, vivências xamânicas, retiros
espirituais e círculos sagrados para mulheres. É Membro da
112 Comissão Executiva do Fórum Estadual em Educação Escolar 113
Indígena (Forumeiba) e da Comissão de implantação da Pro-
S E M I N Á R I O A S C I D A D E S E O S A G R A D O D O S P O V O S T R A D I C I O N A I S : T E R R I T Ó R I O , I D E N T I D A D E S E P R ÁT I C A S C U LT U R A I S e p r át i c a s c u lt u r a i s
Enquanto houver oralidade, a
experiência cotidiana será nosso
melhor aprendizado. Nossos
anciões(ãs), os troncos. Nossos
jovens, flores e frutos, e nossas
crianças, as que lançarão as
sementes da esperança plantadas
pelas guardiãs Guaimbim, nossas
avós.

NÁDIA AKAWÃ TUPINAMBÁ

programação
Foto RICARDO LAF

114 115

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