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DIÁLOGO E INTERAÇÃO

volume 3 (2010) - ISSN 2175-3687


http://www.faccrei.edu.br/dialogoeinteracao/

A PICARESCA ESPANHOLA E O ROMANCE BRASILEIRO DA


MALANDRAGEM

Dr. Altamir Botoso (UNIMAR)

RESUMO: No artigo, traçamos um panorama do surgimento do romance picaresco


espanhol nos séculos XVI e XVII. Focalizamos o pícaro em três obras, que são
consideradas como o núcleo da picaresca clássica  Lazarillo de Tormes (1554),
Guzmán de Alfarache (1ª parte -1559, 2ª parte – 1604) e El Buscón (1626), até chegar
ao malandro brasileiro, que pode ser visto como uma recriação do pícaro espanhol no
Brasil.
PALAVRAS-CHAVE: Pícaro. Malandro. Picaresca clássica. Literatura brasileira.

ABSTRACT: In this article, we trace a panorama of the appearance of the spanish


picaresque novel in the XVI and XVII centuries. We focus on the picaro in three novels
which are considered as the center of the classic picaresque  Lazarillo de Tormes
(1554), Guzmán de Alfarache (1st part – 1599, 2nd part – 1604) and El Buscón (1626),
until arriving at the brazilian trickster, who can be seen as the re-creation of the spanish
picaro in Brazil.
KEYWORDS: Picaro. Trickster. Classic Picaresque. Brazilian literature.

Antes de adentrarmos o assunto que irá ocupar-nos neste artigo, faz-se


necessário apresentar um panorama histórico da Espanha dos séculos XVI e XVII,
período no qual floresceu a picaresca espanhola.
Na primeira metade do século XVI, a Espanha estava no auge de sua
prosperidade. Seu governante, Carlos V, o mais poderoso da Europa, tinha sob seu
domínio a Alemanha, os Países Baixos, territórios da Itália, possessões africanas e
asiáticas e a América Espanhola. No entanto, seu reinado foi uma mescla de vitórias
com crises e dificuldades.
Enquanto em outros países, como França e Inglaterra, o rei aliou-se à burguesia
para consolidar o absolutismo, o rei espanhol reprimiu as aspirações burguesas em seu
país e favoreceu a nobreza com distinções:

A nobreza é o grupo mais privilegiado e poderoso, com distinções legais muito


vantajosas sobre o povo, tanto no penal quanto no contributivo e no exercício das
funções administrativas. A nobreza era o instrumento imediato da monarquia. A Coroa
enchia de favores aos nobres para assegurar a estrutura estatal e ser baluarte do trono e
seu absolutismo. (CARRILLO, 1982: 114, tradução nossa).

Tal favorecimento tinha o objetivo de garantir a estrutura estatal de uma


sociedade baseada no princípio de castas e arraigada em costumes medievais. A
Espanha fechou-se sobre si mesma, paralisou-se. Enquanto no resto da Europa o
fenômeno do capitalismo nascente expandia-se e se fortalecia, na Espanha ocorria
exatamente o inverso. O soberano espanhol não incentivava a indústria de manufaturas.
Chegou a autorizar a importação de tecidos estrangeiros e a proibir toda exportação de
fazendas espanholas, permitindo apenas que tais produtos fossem exportados para a
América. Além disso, outro fator que contribuiu para dificultar um possível processo de
industrialização na Espanha foi o fato de que qualquer pessoa que se dedicasse a
trabalhos manuais perdia sua carta de fidalguia porque “nem o comércio, nem o trabalho
eram coisa nobres” (CARRILLO, 1982: 115, tradução nossa). O trabalho era, portanto,
atividade desonrosa e, além do mais, associada a mouros e, por extensão, a judeus,
recriminados pela prática da usura.
Entretanto, vale ressaltar que os judeus, e de certa forma os mouros, já tinham
uma mentalidade burguesa, sabiam ou intuíam que o trabalho podia ser fonte de riqueza
e prosperidade. O espanhol desprezava o trabalho e valorizava a figura do fidalgo, que,
embora pobre e miserável em muitos casos, não trabalhava e se alimentava do mito da
estirpe. Tais fatos são, sem dúvida, uma “má preparação para uma entrada na era
capitalista” (VILAR, 1984: 46, tradução nossa), e a Espanha pagará um alto preço por
isso, arruinando-se política e financeiramente.
A nobreza, improdutiva e parasitária, não investia seu dinheiro na indústria,
comprava terras e títulos e se comprazia em ter criados pois, para ela, “a grandeza e a
riqueza se media pela quantidade de criados que se possuía [e] era motivo de ostentação
sobretudo para os que vinham de outros lugares” (CARRILLO, 1982: 119, tradução
nossa). Improdutividade, parasitismo e ostentação são também as características da
esfera eclesiástica, como veremos a seguir.
A igreja exerceu um grande poder econômico e político durante os séculos XVI
e XVII. A sua submissão ao rei, e vice-versa, foi um poderoso instrumento de
sustentação da estrutura social do império. Desse modo, o clero “não favorece a
produção e circulação de riquezas: a multiplicação do número de clérigos e das
instituições de beneficência obstruem a economia com classes improdutivas” (VILAR,
1984: 46, tradução nossa). Tal qual a nobreza, o clero torna-se estéril e parasitário.
Em 1482, instalou-se o Tribunal da Inquisição na Espanha, o qual chegou a
“criar uma verdadeira psicose de pânico, especialmente pela ‘limpeza de sangue’”
(CARRILLO, 1982: 113, tradução nossa). Para mouros, judeus e seus descendentes, a
situação tornou-se crítica. O Santo Ofício prendia-os, confiscava seus bens. Ninguém
estava a salvo, conforme afirma Francisco Carrillo (1982: 130-131, tradução nossa):

Os célebres ‘livros verdes’ [...] levaram à chantagem e ao libelo, como o Libro verde de
Aragón ou El tizón de España, punham diante da nação a infâmia de todos. [...] Os
estatutos de ‘limpeza de sangue’ tiravam certos direitos e não concediam privilégio
nenhum. Qualquer acusação ou suspeita era alentada por ódios e inimizades, e era
suficiente para tirar a honra com todas as suas consequências. Ser convertido e honrado
era ‘desonra’, enquanto que ser cristão velho blasfemo e vicioso era ‘honrado’.

Esse estado de coisas afirma-se sobre uma longa tradição de lutas em que a
Espanha católica combate aqueles a quem considera inimigos da fé. Como se sabe, em
711 os árabes muçulmanos invadem a Península Ibérica e lá permanecem durante cerca
de oito séculos. Sob seu domínio surgem reinos importantes como Córdova, Sevilha e
Granada. Inicialmente, não houve quase nenhuma resistência à invasão por parte dos
reinos cristãos, pois eles se encontravam divididos. Entretanto, aos poucos, esses reinos
agruparam-se e passaram a combater a expansão do islamismo e os “infiéis” que o
propagavam. É o início do período da chamada Reconquista espanhola, uma sucessão
de sangrentas batalhas, conhecidas como guerras santas.
A primeira derrota significativa do poder árabe ocorre em Las Navas de Tolosa,
em 1212. Fernando III conquista Córdova em 1236, e Sevilha, em 1247. Apenas o reino
de Granada resiste. Somente em 1492, sob o comando dos Reis Católicos, é que o
Estado tomará Granada. Neste mesmo ano ocorre a expulsão dos judeus, com prejuízos
para o desenvolvimento da burguesia espanhola, porque eles ocupavam altos cargos
administrativos e tinham habilidades para lidar com capitais. De 1609 a 1611, dá-se a
expulsão drástica dos mouros, com grandes perdas para a agricultura e consequente
desorganização da economia e o advento da escassez de mão-de-obra qualificada. Pierre
Vilar (1984: 46, tradução nossa) sintetiza este quadro ao afirmar que

o mundo muda ao redor da España, e esta não se adapta. O unitarismo religioso [...]
afeta, por cima, à atividade financeira judia, e por baixo, à atividade agrícola dos
mouriscos [...]. O triunfo do ‘cristão velho’ significa certo menosprezo pelo espírito de
lucro, pelo próprio espírito de produção, e uma tendência ao espírito de casta.

Se de um lado o elemento que seria denominado cristão-novo sobressaía-se pela


posse de capitais e pela força de trabalho, os quais resultavam num certo domínio
material, por outro, o cristão-velho assumia um posicionamento que buscava a
supremacia contrária: a fidalguia e a fé sem a mancha do que era tido como impureza
religiosa. Para o cristão-velho, capital e força de trabalho eram considerados como
fatores indignos e, por isso, menosprezados. Entretanto, é válido ressaltar que a
expulsão drástica de todos os convertidos ao cristianismo e considerados como
suspeitos, entre 1609 a 1611, acarreta uma “grave perda material para o país” (VILAR,
1984: 45, tradução nossa).
Os sinais da decadência, como afirmado anteriormente, iniciaram-se no reinado
de Carlos V. Para manter seu poder sobre um império tão vasto, foram necessárias
multidões de soldados, as quais resultavam insuficientes e, então,

se faz necessário [...] pagar mercenários. E pagar também viagens imperiais, cortes de
vice-reis, assim como o prestígio de um soberano do século XVI. [...] É preciso pedir
empréstimos, com a garantia das famosas receitas das Índias. Em 1539 se deve um
milhão de ducados aos banqueiros Fugger, Welser, Schatz e Spínola: em 1551, se
devem 6.800.000. Em 1550, não se pode dispor das receitas da América por um prazo
de dois anos. Os interesses tornam-se usurários. Oferecem-se garantias, não só das
colônias, mas da própria Espanha: os territórios militares, as minas de Almadén.
(VILAR, 1984: 49, tradução nossa).

Os gastos com mercenários, viagens e a corte induzem o rei a fazer empréstimos


dando como garantias não só colônias,mas também regiões e minas espanholas. A
situação torna-se crítica e, em 1556, Carlos V abdica. Seu filho, Felipe II sobe ao trono,
preocupado com os credores da coroa: “O rei da Espanha, a quem todo o mundo crê
coberto de ouro encontra-se paralisado por esta miséria” (VILAR, 1984: 50, tradução
nossa). O grande império está falido e endividado. Com acerto afirma Eduardo Galeano
(1971: 35) que a coroa estava hipotecada por dívidas astronômicas e pela incapacidade
política e econômica de seus governantes. Dessa forma, a Espanha acabou por se tornar
“uma fachada [...] impotente, que ocultava um edifício já em ruínas” (VILAR, 1984: 48,
tradução nossa).
A nação espanhola era dominada pela moral aristocrática, repudiava o trabalho,
impedia o desenvolvimento da burguesia e se afundava em crise. Para os excluídos, o
povo pobre e marginalizado, já quase não restavam saídas. As consequências de tal
estado de coisas, inclusive frente ao resto da Europa, cujas nações prosperavam e se
desenvolviam, foram o despovoamento dos campos (causado por imigrações, guerras,
êxodo rural), o aparecimento de latifúndios improdutivos, desemprego, dívida externa e
inflação. A este respeito, Ulla Trullemans (1968: 44, tradução nossa) dá-nos uma visão
aterradora da sociedade espanhola do período

O particular para Espanha [...] era a contaminação [...] do corpo inteiro da sociedade. A
corrupção, vinda de cima  da corte e dos nobres  contaminou todos os demais. O
desequilíbrio econômico do Estado  concentração dos bens (trazidos de Ultramar) 
sob o poder centralizador da coroa e da Igreja, impedia o desenvolvimento de uma
classe burguesa, e favorecia a classificação da sociedade em dois grupos: aristocratas e
povo.
Este último, que veio a ser a grande massa do corpo social, eram os pobres, os que não
tinham nada e tampouco queriam trabalhar. Os trabalhos manuais consideravam-se
desonestos e se deixavam para os mouriscos e os cristãos novos. O espírito vaidoso do
fidalgo havia contagiado a todos. Acabava sendo mais honroso viver de esmolas.

A corrupção, o desequilíbrio econômico, o não desenvolvimento de uma classe


burguesa e o desprezo pelo trabalho transformam a Espanha num império estagnado,
que se arruína paulatinamente. Dentro da tríade formada pela realeza, igreja e nobreza,
que era a base da sociedade aristocrática, destacava-se a figura do fidalgo miserável e
empobrecido, cuja função social se resumia a alimentar, como já afirmado, o mito da
estirpe. No extremo contrário, alinhados entre as camadas banidas socialmente,
pululavam os criados, os quais “eram célebres por sua indiscrição, espionagem, intriga,
murmuração, mexerico e covardia. Seu único objetivo era o interesse material”
(CARRILLO, 1982: 120, tradução nossa). Eles exerciam as funções de pajens,
escudeiros ou lacaios. Some-se a este quadro a grande quantidade de parasitas que se
juntavam em torno das universidades e que se punham a serviço dos estudantes. Além
disso, pragas e pestes trouxeram para as cidades camponeses que buscavam trabalho e
proteção. Essas circunstâncias geraram um fato crucial para o processo de derrocada da
sociedade espanhola  a instituição da mendicância:

A mendicância constituía uma verdadeira praga social em toda Europa [...]. Mas chegou
a institucionalizar-se tanto por parte do Estado como dos mesmos mendigos que se
organizaram em corporações. Na Espanha o Estado pede aos municípios que se
encarreguem de seus pobres. Em 1545 apareceram ordenanças a respeito em Zamora,
Salamanca e Valladolid. Por outro lado se organizaram as instituições de beneficência
que tiveram um papel importante nos momentos críticos de pragas e pestes [...]. Estes
desastres atraíram do campo grandes quantidades de seres necessitados que se
estabeleceram nas cidades para viver da caridade pública. (CARRILLO, 1982: 120,
tradução nossa).

Esses seres marginalizados acabaram por se transformar em vagabundos,


mendigos e delinquentes, por necessidade, para poder sobreviver. Em tal contexto,
todos os pobres, pedintes, indigentes, fossem ou não delinquentes, passaram a receber a
designação de pícaros. Eram considerados como pessoas que se entregavam aos vícios
voluntariamente e não como miseráveis, produtos do meio social. É certo, porém, que
“nos séculos XVI e XVII nem todo pobre é pícaro, mas a condição de pobre é a base
comum sobre a que aparecem os pícaros” (MARAVALL, 1986: 37, tradução nossa).
A pobreza, portanto, impulsiona a picardia. A injustiça e a desordem social
fomentavam a delinquência, que começava na infância. Assim, as crianças nuas,
famintas e cheias de vermes, “chegavam aos mercados e se adestravam nas artes que
haviam de levá-las ao verdugo, às galeras ou à forca. Desde pequenos estavam
excluídos da cultura, da comida e da dignidade de seres humanos” (CARRILLO, 1982:
122, tradução nossa). Tal fato vai reforçar e aumentar o número de vagabundos,
mendigos e delinquentes, que ficarão sendo conhecidos como pícaros na estrutura social
espanhola dos séculos XVI e XVII.
O termo pícaro referia-se, em geral, a um indivíduo andrajoso, sujo, adolescente
ou rapaz, que fora abandonado pelos pais ou fugira deles. Esse indivíduo vivia pelas
ruas entregue ao ócio, ao jogo, a expedientes como furto, esmola e atividades marginais,
em função de sua sobrevivência.
A aparição da palavra pícaro é observada, primeiramente, na Farsa custodia, de
Bartolomé Palau, entre 1541 e 1547 provavelmente. O frei Prudencio de Sandoval
empregará a mesma palavra na Primera parte de la vida y hechos del emperador
Carlos V, para relatar fatos ocorridos no ano de 1520. Em 1545, Diego Hurtado de
Mendoza usa o vocábulo pícaro em um verso de seu poema Sátira contra las damas. O
termo é retomado, em 1548, na Carta del bachiller de Arcadia al capitán Salazar, e
será largamente empregado a partir das datas assinaladas. No reinado de Felipe II, o
conceito de pícaro como ajudante de cozinha generaliza-se, e os pícaros passam a ser
rotulados de parasitas, vadios, maus elementos. Alguns críticos, entre eles Leo Spitzer,
aceitam a derivação de pícaro do vocábulo picard, de Picardia, província francesa cujos
mendigos eram conhecidos por toda Europa e gozavam de péssima fama. Esta palavra
pode ainda ser considerada como derivada do verbo “picar”, apropriado para referir-se à
vida de um vagabundo ou parasita que não é propriamente um criminoso (VALBUENA
Y PRAT, 1956: 15-18).
Os pícaros, como se pode verificar pelas definições arroladas, eram,
inicialmente, ajudantes de cozinha e, mais tarde, passaram a ser considerados
vagabundos, mendigos, rufiões, pessoas suspeitas, sem domicílio fixo. Suas estratégias
de ação eram diversas. Podiam, por exemplo, tornar-se criados que se prestavam a
qualquer tipo de trabalho que lhes fosse oferecido. Ou eram capazes de se mutilar para
explorar a caridade pública, conforme atesta o teólogo Juan de Medina (apud MOLHO,
1972: 18-19, tradução nossa): “eles mesmos se fazem chagas e paralisam, cegam e
mancam a seus filhos e filhas [...]. Alguns a quem se têm tentado curar de suas doenças,
respondem [...] que a chaga do braço lhes são umas Índias, e outro que a chaga da perna
lhe é um Peru.” Tais seres eram, enfim, vilões e vítimas da sociedade que os engendrava
e se nutria deles.
O pícaro histórico forneceu promissor material humano para a literatura de
ficção. Transitando da realidade social da Espanha dos Áustrias para o mundo
novelesco, ele foi recriado pelos autores da época, deflagrando-se assim, o que viria a
ser o gênero picaresco.
Um dos fatores que possivelmente acarretou a elevação do pícaro espanhol
histórico à categoria de figura literária foi o interesse do público-leitor por obras que
tratavam da vida dos marginalizados, os quais “passam a ser alvo da literatura em toda
Europa” (MOLHO, 1972: 19, tradução nossa). Tais obras tinham o objetivo de divertir e
advertir este público, com sua temática da indigência.
Surge, então, uma grande quantidade de relatos cujo tema é a miséria social:
Líber Vagatorum (Alemanha, 1510), Fraternity of Vacabondes e Caveat for
commom Cursetors (Inglaterra, 1561 e 1567), Advertissement, Antidote et Remede
contre les piperies des pipeurs e Vie généreuse des Mercelots, Gueux et
Bohesmiens (França, 1587 e 1596) (MOLHO, 1972: 19). Tais obras, inventários da
vida marginal, passam a ser consumidas avidamente pelos leitores.
A partir destes livros sobre a indigência e também observando a realidade da
época, os autores espanhóis criam o pícaro ficcional. A Espanha foi, de fato, um terreno
fértil para a gestação do pícaro literário. O país reunia condições excepcionais para o
nascimento desse anti-herói. A sociedade espanhola, durante os reinados dos Reis
Católicos, de Carlos V e dos príncipes da casa dos Áustrias, está dominada pela noção
fundamental de “fidalguia”. Além disso, ela isola-se da Europa quando se recusa
obstinadamente a se adaptar ao capitalismo nascente. E mais: revelar-se-á inábil para
administrar as imensas quantidades de ouro e prata tomadas da América, as quais irão
parar nos cofres estrangeiros devido ao empenho na continuidade das guerras santas.
Sendo assim, “o grande império, cujos signos maiores são, contraditoriamente, a fé e a
improdutividade, conhece [...] a sua decadência” (MILTON, 1986: 24). Nesta nação
afidalgada eclode então a voz do marginalizado, que “grita” a sua desonra e expõe, sem
nenhuma vergonha, as suas “manchas de origem”.
Isso gera uma transformação nas convenções literárias da época e, por
consequência, nos heróis consagrados. Um deles, a figura do cavaleiro andante, uma
espécie de “super-homem” que vencia dragões, protegia fracos e oprimidos, participava
de inúmeras batalhas e aventuras fantásticas, vitorioso sempre, vai sendo substituído por
um outro protagonista que é o seu oposto, faminto, oportunista, embusteiro e que
“pretende com sua habilidade, não com seu trabalho, beber bom vinho, vestir-se
honradamente, e para isso compreende que necessita abandonar a condição de pobre e
passar ao grupo dos distinguidos ociosos” (MARAVALL, 1986: 43, tradução nossa).
A busca de ascensão social será um dos motivos mais importantes dos romances
picarescos, cujo ciclo tem início com a publicação das aventuras de Lazarillo de
Tormes (1554), obra na qual, “pela primeira vez na literatura espanhola, um homem
pobre e desprezível, escória da sociedade, tece com graça e elegância, com sua
insignificante vida, a trama apaixonante de um romance” (TRULLEMANS, 1968: 20,
tradução nossa). Sucederam-se a esta publicação, os relatos dos pícaros Guzmán e
Pablos.
O núcleo da picaresca clássica é constituído, portanto, por três obras: Lazarillo
de Tormes, de autor anônimo, Guzmán de Alfarache, de Mateo Alemán, El Buscón,
de Francisco de Quevedo, publicadas em 1554, 1599-1604 e 1626 respectivamente.
Ressalvamos que El Buscón é editado em 1626, mas trata-se de uma edição pirata e o
texto circulou manuscrito desde sua composição inicial, a começos do século XVII.
Com base no que é comum a estas obras, Mario González (1994: 263) afirma
que o romance picaresco é

a pseudo autobiografia de um anti-herói, definido como marginal à sociedade, o qual


narra suas aventuras, que por sua vez, são a síntese crítica de um processo de tentativa
de ascensão social pela trapaça e representam uma sátira da sociedade contemporânea
do pícaro, seu protagonista.
Todas as três obras apontadas são a história de um anti-herói que, valendo-se de
sua astúcia, procura integrar-se à sociedade, narrando ele próprio as suas aventuras e
desventuras (a autobiografia).
Assim, o Lazarillo inicia o gênero, contrapondo-se parodicamente aos
romances de cavalaria. Lázaro é um individualista, que busca obstinadamente a
ascensão social no âmago da sociedade que ele critica em seu relato. Enfrentará a fome,
será criado de vários amos, aprenderá a lutar, através dos mais diversos recursos, contra
as adversidades. Ao final, conseguirá integrar-se, ainda que seja de uma maneira baixa e
vil: aceitará casar-se com a amante de um arcipreste, fechando os olhos e os ouvidos à
traição da esposa, apesar dos comentários de todos. Desta forma, viverá no que ele
considera como sua “prosperidade e auge de toda boa fortuna” (ANÔNIMO, 2005:
183).
Já Guzmán, no capítulo 7 do livro III da 2ª parte, devido a vários roubos e à
tentativa de fuga da prisão, é condenado a remar nas galeras e, a partir de então, começa
a narrar sua vida de pícaro. Acaba solucionando a sua situação de prisioneiro pela
delação de uma rebelião planejada pelos seus companheiros de galera. Muitos são
enforcados, outros são castigados severamente e Guzmán fica esperando a sua
recompensa, ou seja, a liberdade.
El Buscón trata da vida do pícaro Pablos, cujo intento é tornar-se cavaleiro.
Jamais alcança seu objetivo e, degradado, decide ir às “Índias”, mas nunca deixará de
ser pícaro, pois, como ele afirma na conclusão de sua história, “nunca melhora o seu
estado quem muda somente de lugar e não de vida e costumes” (QUEVEDO, 1985:
107).
As três obras assinaladas apresentam esse narrador-personagem que, já maduro,
decide relatar sua vida e suas aventuras, de forma autobiográfica. Opondo-se ao modelo
da onisciência narrativa então vigente, o pícaro consuma a posse de um foco narrativo
em primeira pessoa para contar, apoiado na convenção do realismo formal e numa
estrutura narrativa muito específica, as peripécias de sua vida de forma exemplar. Como
efeito, tem-se a impressão de que se trata de um relato verídico. No entanto, o leitor
descobrirá que o pícaro, como pondera Claudio Guillén (apud CARRILLO, 1982: 78,
tradução nossa), “é um solitário ou um enganador ou um hipócrita. O mesmo,
naturalmente, que seu narrador. O romance picaresco é, simplesmente, a confissão de
um mentiroso.” O prólogo das obras comprova que o narrador é um “mentiroso”,
porque instância autoral por excelência, acaba sendo espaço projetivo do próprio
personagem-protagonista. Além disso, frente à opressão exercida pela censura
inquisitorial, o prólogo procura dar um caráter pedagógico à história narrada, mas, ao
mesmo tempo, deixa transparecer, nas entrelinhas, que a pretensa moralidade do relato é
apenas mais uma entre as tantas máscaras assumidas pelo narrador e que a obra oferece
outras possibilidades de leitura, além da distração ou entretenimento.
Com relação aos vários traços comuns apresentados por Lázaro, Guzmán e
Pablos, podemos inicialmente destacar, como marcante, a itinerância. Estes personagens
jamais se fixam durante o percurso da narrativa, seja por suas más ações, que fatalmente
os conduzem à rua, seja pelo próprio prazer que encontram no nomadismo da vida
picaresca. Não conseguem sujeitar-se por muito tempo a qualquer tipo de trabalho.
Ainda que em alguns momentos eles consigam estabilizar-se, tal estabilidade nunca é
permanente. Lázaro, por exemplo, quando vai ser criado do buleiro e depois do
aguadeiro, já não passa fome, mas abandona os dois amos. Pablos recebe uma herança
dos pais, ganha dinheiro no jogo, e poderia, portanto, afastar-se da vida picaresca.
Contudo, procura casar-se com uma mulher rica e fracassa. Guzmán, em vários
momentos de seu relato, tem dinheiro, pode deixar de ser pícaro, mas não o faz. Vale
acrescentar que, dentre as razões da itinierância dos pícaros, está também a necessidade
que eles têm de fugir à identidade inicial ou anterior (parentes e genitores que vivem na
marginalidade e valem-se da astúcia e da trapaça para sobreviver), conforme aponta
José Antonio Maravall (1986) em sua obra La literatura picaresca desde la historia
social.
Dos três pícaros mencionados, somente Lazarillo fixa-se num local determinado,
no final de sua narração. Quanto a Guzmán, reveste-se de maior ambiguidade, pois não
ficamos sabendo se ele realmente deixa a vida picaresca, já que a obra termina com o
personagem aguardando a liberdade nas galeras. Pablos, por sua vez, nunca deixa de ser
pícaro e a sua itinerância continua até o fim da obra, quando embarca para as “Índias”,
onde, como ele próprio declara, não teve melhor sorte.
Resta ainda assinalar que uma das características essenciais do pícaro é a astúcia
para safar-se dos perigos e adversidades que enfrenta no embate contra a sociedade que
lhe é hostil. A astúcia e a esperteza do pícaro vão aumentando na medida em que o
personagem assume o exercício da picardia como resposta única à marginalização
social.
A sociedade espanhola dos séculos XVI e XVII é marcada pela hipocrisia e os
falsos valores, e isso se reflete na picaresca através do gesto artístico que a constrói: o
fingir deliberado. O fingimento estende-se da máscara da autobiografia,
pretendidamente verídica e sincera, até as minúcias que compõem o retrato satírico da
sociedade, deflagrado principalmente pela caracterização do estamento dos fidalgos. O
escudeiro do Lazarillo de Tormes, por exemplo, nada tem para comer e, quando o faz,
é alimentado pelo criado. Usualmente, ainda que famélico, sai à rua palitando os dentes
para fingir o que não é. Emblema fictício de seres existentes na realidade social da
Espanha dos séculos XVI e XVII, ele valerá como espelho do pícaro no processo
ambivalente de crítica, agressão e busca de integração à sociedade.
De fato, ao comprovar que todos fingem, o pícaro incrementará em si os mesmos
aspectos observados no conjunto da sociedade  a mentira, o engano, o roubo e a
hipocrisia  e a eles acrescentará a inteligência e a esperteza direcionados para a
consumação de seus objetivos. A vida picaresca mantém, portanto, uma relação direta
com a astúcia. Ser um pícaro pressupõe sagacidade, pragmatismo, agudeza e manha,
recursos primeiros do seu projeto de superação de obstáculos.
Do comentário que fizemos sobre as obras picarescas, podemos concluir que a
narrativa picaresca apresenta um anti-herói como personagem-narrador, que se
autobiografa relatando peripécias repletas de astúcia e perspicácia no enfrentamento de
uma sociedade que, atrelada ao princípio da honra aparente, também se faz pícara. Além
disso, o personagem é um itinerante, e dessa itinerância depende a evolução da
narrativa, pois esse movimento contínuo desencadeará as ações narradas. Estas
características que apontamos são as que, como sintetiza Mario González (1994: 18 e
263), definem a picaresca e o seu protagonista, o pícaro.
No que se refere à expansão do romance picaresco, levando-se em conta o fato
literário de que “a partir da concepção de todo texto como redistribuição ou
reelaboração de elementos pré-existentes  eixo da seleção  e como fiel realização,
modificação ou (inclusive) subversão de práticas discursivas” (GÓMEZ-MORIANA,
1980: 133, tradução nossa), é possível considerar o renascimento do pícaro e da
modalidade narrativa que o define fora das fronteiras espanholas.
É inegável que o pícaro como protagonista de romance é um fenômeno da
literatura espanhola dos séculos XVI e XVII; contudo, é certo também que ele se
transferiu para outras literaturas, inicialmente por meio de traduções que, muitas vezes,
acabaram mutilando os originais. É o caso da tradução do Guzmán de Alfarache feita
por Lesage (1732), na qual foram eliminadas as digressões e os comentários
moralizantes, considerados como “moralidades supérfluas”. Na tradução de Sieur de La
Geneste (1633), de El Buscón, ocorre o acréscimo de uma esposa, Rozèle, inexistente
no original de Quevedo. Pablos, na tradução, torna-se um marido próspero, que não tem
dificuldades manter uma vida “reformada” com relação aos vícios do passado (SIEBER,
1977: 38). Acrescentem-se a estes dados as diversas continuações que tiveram os
romances picarescos, dentro e fora da Espanha: Lazarillo de Tormes, segunda parte
(1620), de H. de Luna; Guzmán de Alfarache, segunda parte apócrifa (1602), de
Mateo Luján de Sayavedra (Juan Martí). Em Portugal, é escrita a Tercera parte del
Guzmán de Alfarache (1650) pelo Marqués de Montebelo, Felix Machado da Silva
Castro e Vasconcelos. Estes são apenas alguns exemplos.
Embora muitas traduções possam ser consideradas como “traições” aos originais
picarescos, é certo também que elas e as continuações de tais obras contribuíram para
que a figura do pícaro permanecesse viva e atingisse diversos países, como França,
Alemanha, Itália e Portugal. A este respeito acrescenta Ulla Trullemans (1968: 13-20,
tradução nossa) que a picaresca,

gênero tão fecundo da literatura dos Séculos de Ouro, teve um êxito fabuloso que o
levou muito além das fronteiras do país de origem. [...] Os descendentes da picaresca
tomaram diferentes rumos pelo mundo. Renasceram segundo o espírito e o solo que os
nutriu.

O crítico Harry Sieber (1977: 3, tradução nossa) vai mais longe ao levantar a
hipótese da existência de um mito picaresco, ou seja, “um história, enredo, ou ‘situação’
que pode ser vista funcionando em certas obras do século dezenove e vinte”. Tal
hipótese, para nós, vem se confirmando e se fortalecendo, graças a grande quantidade de
trabalhos críticos que tratam da expansão do gênero picaresco, privilegiando muitas
vezes a figura do pícaro ou de seres ficcionais com características similares. O gênero
dissemina-se e com ele viaja o pícaro na sua condição de símbolo da rebeldia:

Com a sua geografia, as suas éticas, linguagem, genealogia e mentalidade [...] [o pícaro]
extravasa das fronteiras da Península e do tempo clássico e vai renascer, nas épocas de
crise e de desencanto, um pouco por toda parte como personagem com caráter próprio e
inimitável, ressuscitando, nos nossos dias, [...] em gerações diferenciadas e em países e
línguas diferentes, para [...] se fixar como uma atitude de rebelião contra os quadros
estabelecidos pela sociedade, pela moral oficial, pelas imposições da ordem, dos
sistemas de leis [...]. (PALMA-FERREIRA, 1981: 9-10).

Em suma, sua excelência, o pícaro, ultrapassou fronteiras, passou pelas barreiras


alfandegárias e espalhou-se pelo mundo. No Brasil, vamos encontrar um “parente” seu:
o malandro, cuja primeira manifestação literária aparece no romance Memórias de um
sargento de milícias, de Manuel Antonio de Almeida, publicado entre 1852 e 1853, no
suplemento “A Pacotilha”, do Correio Mercantil. A partir desta obra, o malandro
configurará, como protagonista, uma importante vertente literária: a do romance
malandro, também denominada por Mario González (1994: 278-314) de neopicaresca.
Memórias de um sargento de milícias foi a obra que, dentre outros atributos,
teve o mérito de introduzir a figura do malandro no romance brasileiro. A seguir, já no
século XX, apareceu Macunaíma: o herói sem nenhum caráter (1928), de Mário de
Andrade. Nesta obra, o malandro seria elevado à categoria de símbolo, como afirma
Antonio Candido (1970: 71). Tanto Leonardo quanto Macunaíma apresentam
características que os aproximam do pícaro espanhol.
Além dessas duas obras marcantes, nas décadas de 70 e 80 aparecem vários
romances que retomam as características do gênero picaresco, sedimentando, na
literatura nacional, a vertente da malandragem. Tais obras surgiram com maior
intensidade no período do apogeu e decadência do “milagre econômico brasileiro”,
sustentado pela ditadura militar que governou o país entre 1964 e 1986, como afirma
Mario González (1992: 82).
Com base nos fatos acima mencionados, González estabeleceu um corpus de
oito romances que, de forma modelar, podem ser relacionados com a picaresca: A
pedra do reino (1971), de Ariano Suassuna: Galvez, imperador do Acre (1976), de
Márcio Souza; Meu tio Atahualpa (1978), de Paulo de Carvalho Neto; Os voluntários
(1979), de Moacyr Scliar; O grande mentecapto (1979) de Fernando Sabino;
Travessias (1980), de Edward Lopes; O tetraneto del-rei (1982), de Haroldo
Maranhão; e O cogitário (1984), de Napoleão Sabóia. Os personagens centrais dessas
obras são malandros continuadores da linhagem de Leonardo e Macunaíma e, como tais,
ocupantes do espaço picaresco na condição de neopícaros, de acordo com as
formulações de Mario González (1994: 315).
O malandro, em geral, apresenta várias semelhanças com o relato picaresco,pois,
além de se tratar de uma narrativa de anti-herói, é também oriundo de um momento de
grave crise nacional, no caso, o suposto “milagre” econômico. Como assevera ainda
González (1992: 92, tradução nossa), o “bloqueio dos caminhos ascensionais, derivado
da concentração da riqueza e da desvalorização do trabalho, impõe a marginalidade,
cujos recursos são parodiados como outrora, quando o romance moderno nascia na
Espanha”. É, pois, inegável que essa modalidade de romance brasileiro guarda
similaridades com o antecedente espanhol.
Quanto ao personagem malandro, pode ser visto como um correlato do pícaro no
que concerne à sua aversão ao trabalho, à busca incansável de integração à sociedade,
ao rufianismo e a muitos outros aspectos aproximativos. Entretanto, é importante que se
destaque que o malandro não é uma cópia fiel e exata do pícaro espanhol. Ele tem
características próprias que muitas vezes o distanciam de seu ancestral, e compará-los é
também uma maneira de se verificar as transgressões e mutações que sofreu o anti-herói
da literatura picaresca ao migrar para outros âmbitos literários.
Assim, é possível concluir que, tanto o romance picaresco quanto o romance
malandro brasileiro são duas modalidades literárias que puseram em destaque uma
linhagem literária: aquela que abriga, num território em contínua mutação, pícaros e
malandros, seres esses assumidamente instalados nas margens e que consagram,
efetivamente, o espaço do anti-herói no universo literário.

REFERÊNCIAS

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de Valeria De Marco. São Paulo: Ed. 34, 2005.
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sargento de milícias’). In: Revista do Instituto de Estudos Brasileiros. N. 8,
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