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PATRIMÔNIO ARQUITETÔNICO

BRASIL-PORTUGAL
Maria Rita Amoroso Cêça Guimaraens Diego Dias
Aníbal Costa Alice Tavares
organizadores

PROARQ
UNIVERSIDADE DE AVEIRO
Patrimônio Arquitetônico
Brasil - Portugal
Engenho Massangana, em Cabo de Santo Agostinho, Pernambuco. Foto de Diego Dias, 2019.
Patrimônio Arquitetônico
Brasil - Portugal

Maria Rita Amoroso


Cêça Guimaraens
Diego Dias
Aníbal Costa
Alice Tavares
organizadores

7º FIPA
Proarq
Universidade de Aveiro
2020
Detalhe do painél de azulejos de Cândido Portinari na Igreja de São Francisco de Assis, Pampulha, Belo Horizonte. Foto de Diego Dias, 2020.
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

pARA UM PATRIMÔNIO DE CULTURA BRASIL-PORTUGAL

N
o momento em que todos os mundos se transformaram em um só mundo, o 7º Fórum
Internacional do Patrimônio Brasil - Portugal – FIPA reafirma que a Cultura, à luz dos diferentes
comportamentos e formas, é, desde sempre, uma representação dos desejos que movem a
sociedade em lugares e tempos reais e imaginados. Portanto, apesar da ameaça de pandemia
jamais vivenciada, este livro reúne o pensamento apresentado em conferências e mesas-redondas do
FIPA. Profissionais e acadêmicos brasileiros e portugueses organizaram e participaram desse encontro
que promove os valores patrimoniais luso-brasileiros.

Em contínua colaboração, universidades, museus e representações de coletivos, integram-se


aos eventos do 27º Congresso Internacional de Arquitetos da União Internacional de Arquitetos
– UIA2021RIO realizado na cidade do Rio de Janeiro, Brasil. No que diz respeito à identificação e
promoção do Patrimônio Arquitetônico, ao reforçar a competência internacionalmente reconhecida dos
participantes da sétima edição do FIPA, a temática abordada amplia os eixos do UIA2021RIO.
Espaços urbanos, arquitetura e arte, cidades e paisagens, festas e comemorações, personagens e
histórias da vida cotidiana, aos quais foram acrescentados os atributos que identificam as expressões
culturais de portugueses e brasileiros em todos os mundos, encontram-se aqui tratados.

Em um universo onde, hoje, parece um só mundo se impor, a capa do livro destaca a singularidade de
Brasília a capital modernista do Brasil que completou seis décadas de fundação em 2020. Pois, dentre
os acervos do patrimônio de cultura arquitetônica, em que processos criativos do Movimento Moderno
e ações de conservação se veem entrelaçados, a capital federal do Brasil, junto à Baixa Pombalina de
Lisboa, ressalta uma singular configuração física e social do modernismo.

Ao se anunciarem com as reproduções da azulejaria brasileira e portuguesa estampadas na capa e na


contracapa, os conteúdos do livro afirmam a intenção de aproximar variantes culturais que apontaram
para os futuros. Brasília e Lisboa, desse ponto de vista, possuem morfológico denominador comum, na
medida em que são modelos de produção das formas urbanas que, de modo paradoxal, consideraram a
ausência e a sobreposição do Tempo.

A complexa realidade do século vinte e um, entretanto, não admite mais a criação de abstrações que o
puro desenho urbano produziu. Hoje, as operações relacionais dos projetos de transformação valorizam
as preexistências, criando processos que abrangem adição, sobreposição e sedimentação.
Desse modo, esta coletânea de artigos, em coedição da Editora do Programa de Pós-Graduação em
Arquitetura da Universidade Federal do Rio de Janeiro - Proarq e da Universidade de Aveiro, representa
a afirmação e a vontade de resiliência que demonstram ser perene o estudo e a discussão das
dimensões concretas e intangíveis do Patrimônio Cultural das sociedades.
Maria Rita Amoroso
Cêça Guimaraens
Diego Dias
Aníbal Costa
Alice Tavares
organizadores
Fonte no Museu do Açude, Rio de Janeiro. Foto de Diego Dias, 2019.
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Objetivos e possibilidades para Novamente sediado no Rio de Janeiro,


o Patrimônio Brasil-Portugal o 7º FIPA a ser realizado no ano

S
próximo será mais uma possibilidade
ob a égide do tema central Todos de aprofundar questões relativas ao
os mundos – O Patrimônio que Patrimônio Cultural em meio a uma
nos une, a 7ª edição do Fórum “urgente” atualidade de nossa história.
Internacional de Patrimônio Pois foi buscando enfatizar um contexto
Arquitetônico Brasil-Portugal - FIPA, mais amplo, sobretudo global, sem
programada para 2020, infelizmente perder de vista o horizonte local
teve sua realização adiada para o ano prestigiado pela colaboração mútua
de 2021, em respeito à pandemia de entre brasileiros e portugueses, que
COVID-19 que atualmente assola a o 7º FIPA vinculou diretamente sua
Humanidade e alterou parte significativa programação aos quatro eixos temáticos
da agenda de eventos nacionais e do UIA2020RIO / 27º Congresso Mundial
internacionais. Em prol da vida, da de Arquitetos (adiado também para
fomentação da cultura e do incentivo 2021 e sediado no Rio de Janeiro, cujo
ao futuro de nossa civilização, mesmo tema principal é “Todos os mundos –
atravessando este grave problema Um só mundo”. Isso porque os quatro
de proporções mundiais, buscamos eixos – 1) Diversidade e Mistura; 2)
através da publicação do presente livro Mudanças e Emergências; 3) Fragilidades
e também e-book trazer a público, ainda e Desigualdades; 4) Transitoriedades
em 2020, uma parte significativa dos e Fluxos – nos pareceram suficientes
conteúdos já pertencentes ao 7º FIPA, a como ponto de partida para debates
serem debatidos no Fórum do ano que sobre a problemática mundial do
vem. Esta é nossa forma de contribuir Patrimônio Cultural, e ainda o são
para a possibilidade de pensarmos, neste difícil momento. Observados de
juntos, as ações cabíveis – previsíveis perto, tais eixos representam vertentes
e imprevisíveis – a este momento do pensamento contemporâneo
de mudança atravessado por toda a em sua característica instável ou
Humanidade de forma nunca vista na “líquida” (Zygmund Bauman), que
história. pode significar, justamente, imagens
O presente prefácio descreve os opostas: o problema, de um lado, e
objetivos do 7º FIPA repassando, em do outro, a solução. Afinal, a única
resumo, a relação entre o momento certeza que nos resta, neste contexto
trágico que estamos passando desde o de radical instabilidade mundial e
início de 2020 e os enfoques já pensados “exaustão” do mundo contemporâneo,
para nossos debates, presentes e é acreditar na possibilidade (ainda
futuros, com base no tema geral dos que um pouco ofuscada pelo avanço
diversos Patrimônios Materiais e desta guerra comum) da sobrevivência
Imateriais que nos unem. Para tanto, de pensamentos e comportamentos
retomarei muito sumariamente um positivos – melhor dizendo, renovados,
ou dois pontos que o leitor encontrará confiáveis e concretos, para
desenvolvidos, a rigor, em todos os continuarmos a acreditar em presente
textos que agora publicamos. factível.

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Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Empenhado na busca de soluções um mundo mais cívico, menos “doente” interinstitucionais para intercâmbio
originais e criações autorais, é preciso e mais humanamente “vivível”. Isso de experiências, investigação e boas
ressaltar que a união propiciada pelo é possível através das novas técnicas práticas entre Portugal e o Brasil,
Patrimônio Arquitetônico comum aos arquitetônicas que, no nosso caso, têm procurando desta forma atingir o fim
países Brasil e Portugal depende muito sido usadas com seriedade, confiança e último, o da integração duradoura do
de uma consciência tão mais real quanto intercâmbio de conhecimentos atuais, Património Arquitetónico nas ações
esclarecida a respeito de um passado em prol da manutenção de culturas de desenvolvimento e respeito pela
comum, vale dizer, de uma história diversificadas e compartilhadas de identidade das sociedades.
íntima que, inscrita a mais de 500 modo viável, prático, real e possível. Isso O FIPA decorreu de um debate de uma
anos, vem atrelada e se faz base para o acarreta uma revisão radical dos modos conferência em 2012 no Laboratório
conhecimento daquilo que o Patrimônio tradicionais de entender e aplicar os Nacional de Engenharia Civil - LNEC,
– e só ele – traz de mais particular em conceitos com os quais a Arquitetura e a Portugal, onde duas investigadoras
sua presença: a possibilidade de extrair Cultura têm sido trabalhadas nas últimas e arquitetas de Portugal e do Brasil
sentidos verdadeiros da relação humana décadas. apresentaram realidades distintas
com o ambiente que nos une, como a Em resumo: reavaliemos no âmbito sobre boas práticas e dificuldades
história nos conta dos feitos “possíveis” internacional do Patrimônio os na preservação do Património, mas
e “impossíveis” constituintes de nosso conceitos de cultura, política, ética, a com uma conclusão comum: a falta
de comunicação interdisciplinar e
presente. relação com a natureza e com a própria
interinstitucional pode comprometer
O maior patrimônio conhecido na história. Este é o empenho dedicado
a qualidade da prática construtiva e a
história é o ser humano, se pensarmos pelo FIPA no cenário contemporâneo,
da gestão sustentável do Património.
que edifícios, monumentos e criações como é resultado desta 7ª edição do
Esta circunstância comum, a
diversas contam sobre nós, cidadãos do FIPA a ser realizada no Brasil, em 2021,
realidades distintas, foi o motor
século XXI. No momento em que o ser quando então dedicaremos vários dias
para a criação do FIPA, tendo o 1º
humano precisa reabilitar a si mesmo e ao compartilhamento das noções mais FIPA sido realizado em Campinas em
o monumento, então, é preciso buscar atualizadas sobre patrimônio, identidade, 2014, após acordos bilaterais que
soluções na atual apropriação múltipla comunicação, justiça, ética, enfim, a envolveram a Universidade de Aveiro
de patrimônios culturais, a qual abriu própria troca de saberes comuns e (com a coordenação de Alice Tavares e
possibilidades originais de relações de diversos. Aníbal Costa) e o IAB Campinas, a PUC
toda sorte. Maria Rita Silveira Campinas e a Prefeitura de Campinas
Assim, reabilitar ao mesmo tempo nosso de Paula Amoroso (com a coordenação de Maria Rita
lado humano e solidário e proteger a Amoroso).
si e a cada vida existente, neste meio Coordenadora Geral no Brasil –  Nessa fase inicial verificou-se ser
ambiente ainda “comum”, exige a 7º FIPA - Fórum Internacional do urgente um Fórum que colocasse a
capacidade de unir as novas tecnologias Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal Academia/Comunidade científica a
à proteção (e não à destruição) da dialogar com as entidades gestoras de
biodiversidade, tanto quanto, em termos Intercâmbio de experiências, Património e entidades responsáveis
sociais, da manutenção do “patrimônio investigação e boas práticas: pela definição de regulamentos
humano” como consequência da o Patrimônio Portugal-Brasil municipais, estaduais ou nacionais, bem

O
preservação de seu patrimônio cultural. como com os técnicos das mais variadas
As soluções mais atuais para a Fórum Internacional do valências que trabalham na conservação
conservação do Patrimônio fazem da Património Arquitetónico e reabilitação. Procurava-se desta forma
problemática dos interesses públicos Portugal Brasil (FIPA) tem responder às necessidades de maior
uma ponte para a retomada de relações como objetivo a promoção fundamentação na definição de critérios
humanitárias apoiadas na construção de de debates interdisciplinares e de intervenção no edificado e de gestão,

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Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

incluindo a componente financeira, como debater formas operacionais de o - Que medidas na área da formação
numa perspetiva de longo curso e sustentar perante entidades estaduais técnica e científica devem ser potenciadas
devidamente planeada. e municipais e formas de retorno e/ou criadas para responder à qualidade
Os sucessivos FIPAs que se realizaram para os proprietários que vêm as suas de intervenção no Património
nos anos seguintes, um ano no Brasil, propriedades tombadas. Arquitetónico, envolvendo desde as
outro ano em Portugal, procuraram O 7º FIPA que se integrará nas empresas às universidades e entidades
acompanhar os temas mais urgentes conferências preparatórias da governamentais?
de debate considerando a realidade de conferência mundial UIA 2020 com as - Que linhas de investigação são
ambos os países e desafios comuns, linhas temáticas – Diversidade e Mistura; necessárias desenvolver? De que forma
passando pelo reconhecimento de valor Mudanças e Emergências; Fragilidades podem ser divulgadas e colocadas nas
cultural com potencial de ancoragem e Desigualdades; Transitoriedade e práticas construtivas que melhorem a
do desenvolvimento de comunidades Fluxos – faz um balanço das atividades qualificação da intervenção? Que práticas
e regiões, ao funcionamento em desenvolvidas e procura identificar os de diagnóstico e de relatórios devem ser
rede de entidades, à problemática desafios futuros de curto prazo. implementados como prática corrente?
do re-uso do Património e o que é No presente, podem ser enunciados - Que Património Arquitetónico queremos
passível de ser transformado ou não, alguns dos desafios entre outros: ter no futuro e com que nível de
as técnicas construtivas do passado e - Que formas equilibradas de atuação no autenticidade?
a sua reaplicação na atualidade com Património Arquitetónico podem garantir No presente, a existência de uma
suporte científico, a necessidade de a autenticidade deste e a permanência pandemia (COVID 19) a nível mundial
uma Educação para o Património sem deste como registo da Identidade de um permite dar este tempo prévio de
fronteiras e as responsabilidades e povo? reflexão sobre o que queremos construir
consequências de um reconhecimento - Se o Património tem subjacente para um futuro mais sustentável e
de valor cultural regional, nacional um reconhecimento público de uma genuíno, num legado comum entre
ou mundial para os proprietários, sociedade, que retorno está esta Portugal e o Brasil, deixando para
entre outros. Durante este período disponível dispensar aos proprietários 2021 a oportunidade deste encontro,
a realidade em Portugal alterou-se que o mantenham com elevados níveis um debate entre pares que decerto
substancialmente, passando de um de autenticidade e integridade? Através reequacionará os desafios que as
défice de manutenção e conservação de benefícios fiscais? Através de apoios comunidades querem para o futuro.
do Património Arquitetónico com financeiros? Através de linhas de crédito
um parque edificado abandonado e acessíveis? Anibal Costa e Alice Tavares
degradado, com particular relevância - Que medidas preventivas e reguladoras
nos centros históricos, para um devem ser desenvolvidas para Coordenadores Gerais
crescimento muito acelerado do turismo prevenir o risco de turismo de massas em Portugal – 7º FIPA - Fórum
e do investimento imobiliário nacional e o consequente impacto de grande Internacional do Patrimônio
e estrangeiro que foi nos últimos 5 transformação do Património? Arquitetônico Brasil-Portugal
anos responsável por uma reabilitação - Que medidas devem ser desenvolvidas
do Património edificado com elevada para integrar uma Educação para
perda de valores de autenticidade e o Património nos currículos desde a Todos os mundos, um só mundo:
integridade, usando o fachadismo infância? Patrimônio, diversidade e mistura

A
como prática corrente, apesar da - De que forma podemos manter
crítica severa de muitos Especialistas o Património Arquitetónico vivo e identidade nacional brasileira
Portugueses. Já o Brasil procura enraizar promover o Património Imaterial como foi constituída, na fase
a necessidade da defesa e proteção do meio fundamental de mostrar a nossa heroica do Iphan (1937-1967),
Património nas práticas correntes e de diversidade contrariando o efeito da através da sacralização da
planeamento do desenvolvimento, bem globalização? arquitetura e da arte barroca. A partir

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Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

da década de 1970, o Iphan repensou os sobrados do Centro Histórico de patrimonial que, no Brasil e em muitos
a noção de patrimônio nacional, Salvador, na Cidade Alta, e sem a países, nasce de um discurso baseado na
passando a incorporar uma série de contribuição dos arquitetos, engenheiros identidade nacional – e, de certo modo,
exemplares de estilos e linguagens e construtores italianos e de outras nele se baseia ainda hoje –, é preciso
arquitetônicas antes desprezados, como origens, que, nas primeiras décadas do buscar compreender “de que modo o
a arquitetura eclética da República século XX, construíram os casarões do estrangeiro contribui para a construção
Velha, o Art Nouveau e o art déco de bairro do Comércio, na Cidade Baixa? do nacional brasileiro, ao afirmar sua
origens europeias e a arquitetura do Teria a arquitetura moderna brasileira ‘estrangeirice’ e ao colocar em questão
ferro, importada da Grã-Bretanha ou da obtido o reconhecimento internacional a própria noção do nacional por meio
Bélgica. que angariou sem a decisiva participação da política pública de patrimônio”,
Mais de quarenta anos depois, cabe-nos do franco-suíço Le Corbusier no projeto como fez a equipe coordenada por
fazer algumas reflexões: do Ministério da Educação e Saúde, Simone Sayuri Takahashi Toji, no Bom
O que seria da arquitetura brasileira hoje Palácio Capanema? Ou sem a Retiro, onde, há décadas, convivem e
sem a Praça do Comércio do Rio de exemplar e, ao mesmo tempo, singular se misturam imigrantes judeus, gregos,
Janeiro (atual Casa França-Brasil), do contribuição da romana Lina Bo Bardi armênios, coreanos e bolivianos, dentre
francês Grandjean de Montigny? Sem as em obras como o Museu de Arte de São outros.
igrejas e palácios de Belém, concebidos Paulo (Masp), o Sesc Pompeia e o Teatro Agora, vamos Learning from Bom Retiro,
ou reformados pelo bolonhês Oficina? conforme diriam Robert Venturi, Denise
Giuseppe Antonio Landi? Sem a vila de O quanto o patrimônio nacional brasileiro Scott Brown e Steve Izenour…
Paranapiacaba, em Santo André, sem está impregnado – ou é resultante – da Todos os mundos. Um só mundo.
a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, mistura das mais diversas culturas? Das Os Fóruns Internacionais Patrimônio
em Rondônia, e sem a Estação da tradições milenares do consumo do Arquitetônico (FIPA) Brasil-Portugal
Luz, em São Paulo, todas planejadas e chá e da construção em madeira com anteciparam, desde sua primeira edição,
executadas por engenheiros ingleses ou encaixes do Japão aos cultos aos orixás, realizada em Campinas, em 2014, a
norte-americanos? inquices e voduns das diversas tradições necessidade de compreender esses
O que seria do patrimônio histórico e africanas, passando pelas construções fluxos transatlânticos de contaminação
artístico nacional sem a Casa Presser, em em ferro dos engenheiros europeus e e diálogo internacional no campo do
Novo Hamburgo, e outros exemplares norte-americanos? patrimônio cultural.
do sistema construtivo enxaimel O quanto uma obra referencial da O Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB),
erguidos por imigrantes alemães? arquitetura moderna brasileira e no ano em que completa o primeiro
Sem o Casarão do Chá, em Mogi das mundial, como o Palácio Gustavo centenário de sua fundação, se orgulha
Cruzes, cuidadosamente erguida por um Capanema, é devedora do encontro profundamente de ter sido um dos
carpinteiro japonês recém-chegado ao entre o racionalismo de um franco-suíço, idealizadores e promotores destes
país? a criatividade neobarroca de um carioca Fóruns, inicialmente através do Núcleo
O que seria da cultura brasileira sem da gema, a profunda compreensão de Campinas do IAB, em parceria com a
o aporte dos africanos escravizados, da tradição arquitetônica local de Pontifícia Universidade Católica (PUC)
oriundos de diversas nações, na um brasileiro nascido na França, o de Campinas e a Universidade do Aveiro.
constituição dos terreiros da Casa paisagismo de um genial teuto-paulista- As edições subsequentes, promovidas
Branca, do Gantois, do Ilê Axé Opô pernambucano radicado no Rio de na Universidade de Aveiro (2015); no
Afonjá, do Bate Folha e de tantos outros, Janeiro e as esculturas de um judeu campus da PUC-Campinas (2016); no
espalhados de São Luís do Maranhão lituano, de um paulista filho de italianos Mosteiro do Pombeiro, em Portugal
a Cachoeira? Sem as obras dos e de uma fluminense de ascendência (2017); no Museu Histórico Nacional,
construtores portugueses e africanos grega? no Rio de Janeiro (2018); e no Mosteiro
que, a partir do século XVI, ergueram Frente a uma retórica da preservação da Batalha, em Portugal (2019),

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Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

consolidaram e ampliaram o debate no Rio de Janeiro, fosse remarcado direitos, se tornou uma fratura exposta,
sobre o patrimônio arquitetônico entre para julho de 2021 - e com ele o 7º que não pode mais ser ignorada, porque
antiga metrópole e antiga colônia. Fórum Internacional de Patrimônio o risco de vida de uns passou a significar
Este processo culmina, agora, com a Arquitetônico Brasil-Portugal. o risco de vida de todos.
realização da sétima edição do FIPA, Todos os mundos. Um só mundo. Na região metropolitana do Rio de
que ocorrerá no Rio de Janeiro, em julho Arquitetura 21. O profético tema Janeiro mais de 70% da população faz
de 2021, no marco do 27º Congresso do Congresso, estabelecido anos um trajeto das periferias para o centro
Mundial de Arquitetos UIA2021RIO e antes da pandemia, traduz, mais da cidade que lhes sequestra de 4 a 6
como parte da programação elaborada do que nunca, o grande desafio que horas na ida e volta de todos os dias.
entre o IAB e parceiros para celebrar a temos pela frente. Diversidade e Hoje esse ritmo foi interrompido.
designação do Rio como primeira Capital mistura; mudanças e emergências; Mas e quando a pandemia passar?
Mundial da Arquitetura Unesco/UIA. fragilidades e desigualdades; fluxos Perpetuaremos a lógica dos tempos
Todos os mundos. Um só mundo. e transitoriedades. Os quatro eixos de isolamento social, em que estradas
Patrimônio cultural como resultado de temáticos do Congresso, que estavam e ruas são apenas para serviços
fluxos, diversidade e misturas. igualmente definidos antes da essenciais? Criaremos, finalmente,
deflagração da pandemia, também têm cidades polinucleadas e mais
Nivaldo Vieira de Andrade Junior sua relevância reforçada. caminháveis, com oportunidades mais
Quais as transformações que nossas distribuídas e relações de vizinhança
Presidente Nacional do Instituto cidades precisarão passar para mais próximas, mais humanas? São
de Arquitetos do Brasil responder à emergência sanitária de incontáveis as reflexões que a situação
escala global? Quais são os acúmulos atual impacta, de maneira definitiva,
O confinamento e o patrimônio anteriores que já nos levavam a definir em cada um desses eixos. Se eles já
que seguirá nos unindo estes como os eixos temáticos do faziam todo sentido como foco das

V
Congresso? Quais lições podemos investigações de Arquitetos e Arquitetas
ivemos um momento difícil aprender com nossos erros no e já demandavam nossa atenção,
para a humanidade. Em enfrentamento à emergência climática? agora esses eixos se tornam mais
poucos meses, a pandemia Como nos recuperar de séculos de que essenciais: imediatos, urgentes,
de Covid-19 se espalhou desmatamento, de esgotamento de emergenciais.
com velocidade inimaginável por um recursos naturais, de multiplicação de O Patrimônio que nos une, tema
mundo altamente globalizado, em que resíduos na cadeia produtiva e mais do 7º FIPA - Fórum Internacional de
a população se concentra como nunca recentemente de produção desenfreada Patrimônio Arquitetônico, que investiga
e da lógica insaciável da sociedade de os mesmos quatro eixos e também foi
em metrópoles e megalópolese viaja
consumo e do crescimento eterno? adiado junto com o Congresso para
com uma velocidade e constância antes
Segundo um estudo da Oxfam, os 5% 2021, é outro que ganha ainda mais
inimagináveis.
mais ricos do Brasil, detêm a mesma potência e toda uma nova dimensão
Tempos de crise são também, sempre,
fatia de renda que os outros 95%. Como com a experiência que a humanidade
tempos de oportunidade para fazermos
precaver o contágio com assepsia está passando neste momento. Afinal,
diferente do padrão que nos levou até
constante sem acesso a ventilação e qual é o Patrimônio que faz dessa
esse ponto. Neste sentido, uma daquelas
iluminação natural, abastecimento comunidade global um grupo - ainda que
oportunidades que surgem no meio do de água, limpeza e drenagem urbana, diverso, múltiplo, polifônico - coeso?
caos foi o incontornável adiamento que esgotamento sanitário? De repente, Quais os recados de nossos povos
fez com que o XXVII Congresso Mundial o drama das famílias brasileiras de indígenas, quilombolas, caiçaras
da União Internacional de Arquitetos, baixa renda, sem nenhuma segurança e ribeirinhos, que não vinham
que aconteceria em julho de 2020, trabalhista depois de seguidas perdas de sendo ouvidos? Quais as lições de

13
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

sua materialidade, de estratégias Paço Imperial: símbolo Tendo sediado juntamente com o
bioclimáticas, de relações com a do patrimônio Brasil-Portugal Museu Histórico Nacional o 5º FIPA,

S
natureza e com os outros animais que em 2018, o Paço Imperial sente-
teimávamos em não aprender? Como ituado no Corredor Cultural do se honrado em receber em 2021 a
podemos incorporar à nossa arquitetura Rio de Janeiro, o Paço Imperial é sétima edição do FIPA, importante
contemporânea materiais como o barro um raro exemplo de monumento contribuição para o debate acerca
das paredes das ocas, que controlam histórico que, em diferentes dos temas diversidade e mistura,
a umidade do ar, ou as piaçavas de momentos, foi palco de relevantes mudanças e emergências, fragilidades
seus telhados, que permitem que suas acontecimentos de nossa história. e desigualdades e transitoriedade
residências respirem? Como podemos Antiga residência do governador e e fluxos em um ambiente onde
incorporar à dinâmica de nossas do Vice-Rei no século XVIII, o Paço arquitetura, habitação, cidade, cultura
sociedades a relação respeitosa que Imperial foi o centro das movimentações e planejamento urbano, entre tantos
esses povos têm com a natureza, que políticas e sociais da época, registrando outros temas, serão amplamente
lhes fornece insumos renováveis, em importantes fatos históricos do Brasil debatidos adensando a reflexão sobre
quantidades suficientes, e acolhe sem Colônia, Real e Imperial. Entre eles, o problemas da sociedade atual. Antigos
grandes traumas sua baixa produção de Dia do Fico, a Abolição da Escravidão paradigmas serão expostos às mudanças
resíduos? e a Proclamação da Independência do do mundo contemporâneo e práticas
Vivemos um momento inquieto, onde Brasil. Em 1808, com a vinda de Dom arquitetônicas e urbanísticas serão
a incerteza é a única premissa. Por isso João VI, o local passou a se chamar Paço norteadas por questões relativas à
o compartilhamento das reflexões de Real e recebeu o atual nome em 1822. emergência e à fragilidade do mundo
agora se tornatão relevantes. Porque Em 1938, o Paço Imperial foi tombado contemporâneo, onde soluções de
nossas cidades e sociedades estão neste
pelo Instituto do Patrimônio Histórico e grande sofisticação interpõem-se à dura
momento entre “aquilo que já foram,
Artístico Nacional e em 1985, depois de realidade econômica e social das nossas
mas não são mais” e “aquilo que serão,
restaurado, tornou-se um centro cultural cidades. Com 160 milhões de habitantes
mas ainda não são.” Qual será o novo
vinculado ao IPHAN. Mais do que um vivendo nos centros urbanos essa
mundo que estaremos dispostos a criar?
museu, o Paço Imperial é um espaço discussão torna-se ainda mais urgente. E
Este 7º FIPA poderá ser importante peça
da grande engrenagem que compõe voltado para a pesquisa e a produção é aqui na cidade do Rio de Janeiro diante
a oportunidade de toda uma geração. de conteúdo e para o mapeamento, o de ícones de majestosa arquitetura
Apresentar e compilar saberes da incentivo e a difusão de manifestações colonial, moderna e contemporânea -
nossa área, com reflexões de grandes artísticas e intelectuais. No Paço motivo pelo qual recebeu o relevante
arquitetos, arquitetas, pesquisadores e Imperial, as expressões do mundo título de Capital Mundial da Arquitetura
urbanistas sobre o que o futuro reserva atual dialogam com as referências - que revela-se a face mais dura dessa
às nossas cidades tem o poder de criar do passado, convidando o visitante a realidade com cerca de 1.400.000
um impacto real e relevante no destino passear pelos tempos. Sua programação habitantes vivendo em situação de risco
de toda a comunidade global. Vamos diversificada inclui exposições de artes e deprecariedade habitacional. Mais
construir juntos essa nova realidade. visuais, arquitetura e design, espetáculos do que nunca é fundamental refletir e
Todos os Mundos. Um só Mundo. de artes cênicas, concertos musicais, debater possíveis medidas mitigadoras
Arquitetura 21. seminários e palestras. Com um acervo dessa árdua realidade.
Igor de Vetyemy de oito mil volumes e 250 títulos de
periódicos a Biblioteca Paulo Santos Claudia Saldanha
Copresidente do Departamento conta com obras raras dos séculos XVI
do Rio de Janeiro do Instituto de a XVIII sobre arquitetura, engenharia e Diretora do Centro Cultural
Arquitetos do Brasil literatura. do Patrimônio Paço Imperial

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Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Portão da Praça da República, no Centro do Rio de Janeiro. Foto de Diego Dias, 2020.

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Sumário
transitoriedade e fluxos
Um legado português e brasileiro - que futuro? 21
Alice Tavares, Maria Rita Silveira de Paula Amoroso e Aníbal Costa
Tutte le strade portano a Roma: a autonomização do campo da
restauração arquitetônica na América Latina e a contribuição da Scuola
Di Roma 33
Nivaldo Vieira de Andrade Junior
MUSEU NACIONAL RESISTÊNCIA E LIBERDADE: FORTALEZA/PRISÃO POLÍTICA/MUSEU 53
Paula Araújo da Silva e Teresa Pacheco Albino

Rota do românico: um produto turístico estruturado 59


Maria do Rosário Correia Machado e António Duarte Pinheiro
PATRIMÔNIO ARQUITETÔNICO PORTUGUÊS ULTRAMARINO: APROXIMADOR
DE DIFERENTES POVOS 65
Thaís Motta do Nascimento e Cláudia Carvalho Leme Nóbrega
diversidade e mistura
Os pavilhões do passeio público: dissidências no concurso e o projeto
de archimedes memória e francisque cuchet 75
Diego Dias

a investigação para a conservação do patrimônio da arquitetura


de terra (adobe) na região central de portugal 85
Alice Tavares e Aníbal Costa
formando o arquiteto restaurador: qualificação profissional para
intervenções no patrimônio cultural edificado brasileiro 97
Marcos Tognon e Haroldo Gallo
SESC POMPEIA, PATRIMÔNIO E CULTURA POPULAR BRASILEIRA 105
Weber Schimiti
capoeira-patrimônio: identidade, mandinga, resistência e difusão da
língua portuguesa no mundo 113
Uelber Barbosa Silva, Lásaro Vieira dos Santos e Dayane Silva Oliveira
fragilidades e desigualdades
O Recife em benicio whatley dias 121
Cêça Guimaraens
conjunto moderno da pampulha: evolução da sua gestão desde a sua
candidatura a patrimônio mundial da humanidade 129
Flávio de Lemos Carsalade e Maria de Lourdes Martins Alves de Sousa
Estratégias para combater o over-tourism 141
Rui Leão
caminhada da perda: arquitetura demolida 147
Lucas B. Volpatto, Rômulo P. Giralt, Oritz A. Adams de Campos, Rodrigo Spinelli e Eduardo Hahn
plano de conservação preventiva do pavilhão arthur neiva - fundação
oswaldo cruz, rio de janeiro 153
Carla Coelho, Rosana Zouain, Elisabete Silva e Vanessa Amorim
preservação versus esquecimento: proposta de intervenção na ladeira
da misericórdia, rio de janeiro 161
Leonardo Rodrigues Mesquita Santos
mudanças e emergências
Preservação do patrimônio e gestão do território: uma tentativa
de caracterização da paisagem do bairro da Lagoinha, belo horizonte 169
Leonardo Barci Castriota, Laura Lage e Samantha Nery
uma abordagem sobre a “circunstância”: a origem, o espaço, o tempo,
a visibilidade, o significado 181
Cláudia Sofia da Costa Santos
reabilitação sustentável de edifícios históricos: o caso do museu
nacional da quinta da boa vista 189
Isabel Cristina Ferreira Ribeiro
NOVOS USOS PARA O ESPAÇO URBANO DO RIO DE JANEIRO: ANÁLISE DA AVENIDA
MARECHAL FLORIANO 197
Alejandro Cuenca Gómez
sítio pyranhenga: identificação, reconhecimento do bem e tecnologia bim 203
Hugo Calheiros Rodrigues e José António Viana Lopes
PROJETOS 209
ENGLISH VERSION 219
Escada do conjunto do Parque Guinle, Rio de Janeiro. Foto de Diego Dias, 2020.
TRANSITORIEDADE E FLUXOS
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Figura 1 - Casa de meados do século XIX-XX, em Ílhavo. Fonte: Foto de Alice Tavares.

20
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Alice Tavares, Maria Rita Silveira de Paula Amoroso e Aníbal Costa

Um LEGADO PORTUGUÊS E BRASILEIRO – QUE FUTURO?

O Patrimônio Arquitetônicodo século XIX integra um conjunto de vários edifícios residenciais


de grande valor, representativos da época e da ligação entre Portugal e o Brasil. Por um lado,
os que foram construídos por Portugueses que estiveram no Brasil e regressaram a Portugal
cujas casas ficaram conhecidas como Casas de Brasileiro e por outro lado as Casas das Fazendas
construídas por Portugueses naturalizados Brasileiros.

O registro completo deste inclusive, deixando-se perder o que foi a Salvador contemplava
Patrimônio e a sua classificação realizado antes de 1930. o conjunto de edifícios.
Entretanto, o valor destas
(tombamento) por vezes revela-se Muito se perdeu principalmente obras nunca foi reconhecido e
como o único meio de garantir a sua pelo desconhecimento, pela falta elas foram demolidas.
preservação. No entanto, em Portugal de um inventário técnico rigoroso e
este registro não é feito na generalidade sensibilidade frente às questões da
Outro contexto preocupante se
e está na responsabilidade de privados história do urbanismo no Brasil que,
refere a falta de reconhecimento
ou de entidades municipais a sua segundo Reis Filho (2005), são perdas
junto as fazendas de café, no Vale do
preservação. irreparáveis, demonstradas pelos
Paraíba fluminense e fazendas paulistas,
No caso do Brasil, infelizmente exemplos da Bahia, na cidade baixa
raramente classificadas (tombadas)
foi feito muito pouco para esse de Salvador, com o desaparecimento
pelo IPHAN sendo que a maioria fez
período em termos de preservação de dois de seus conjuntos urbanísticos
parte do áureo ciclo do café e continuam
e classificação (tombamento), pois mais importantes,
aguardando reconhecimento a sua
houve uma grande dificuldade gerada
um construído em meados preservação e conservação. Considerando
pelo Movimento Moderno que rejeitava do século XVIII, conhecido a relevância dos testemunhos existentes
essa arquitetura e arte anteriores. como o Cais da Farinha,
que já existia no momento e os reconhecendo como passíveis de
Segundo Reis Filho (2005), era difícil
em que ocorre um grande estudos, inventários e preservação de
lidar com a produção do século XIX terremoto e incêndio em suas técnicas construtivas, saberes e
e começo do XX, dos períodos do Lisboa, e que se assemelha
muito com o projeto da fazeres de um pensar, a um modo de
neoclássico e eclético.Neste processo
reconstrução da capital viver, é importante que se elaborem
de rejeição,uma falha teórica foi portuguesa, implementado estratégias de conservação e uso através
cometida porque a continuidade da ao longo da segunda metade
do século XVIII; e no início do dos instrumentos de preservação para seu
História foi esquecida.A História da
XIX, à frente desse conjunto reconhecimento e preservação.
Arte e da Arquitetura escrita através foi construído um outro, Considerando que em Portugal os
dos quadros técnicos do SPHAN/ conhecido como Cais das
Amarras, que era um conjunto últimos censos de 2011 revelaram que
IPHAN¹ terminava no começo do
magnífico de prédios de sete o edificado anterior a 1919 representa
século XIX e vai recomeçar novamente andares, com pé direito muito apenas menos de 6% do total dos edifícios
apenas com o Movimento Moderno e, alto, de frente para o mar, de
maneira que quem chegava e considerando que estes edifícios
mesmo assim, só a partir dos anos 30 –

21
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

portugueses não representou o mesmo de azulejos na fachada por vezes com


poder económico no retorno nem o painéis de autor; uso dos torreões ou
mesmo período de permanência no Brasil. de escadarias (interiores ou exteriores)
Talvez esta situação justifique as duas de maior destaque; afastamento da
vertentes expressas na Arquitetura das casa em relação à rua e por vezes
Casas, tendo uns por um lado adotado a ligeiramente sobre-elevado em
Arquitetura Eclética em voga na época relação a esta; existência de árvores ou
(Figura 1), com referenciais franceses arbustos de espécies tropicais na frente
ou italianos e uma organização espacial e no tardoz da casa; por vezes sistema
que fazia a distinção entre as áreas de rega com alguma autonomia no
mais públicas/sociais das mais privadas/ logradouro – entre outros sinais que
familiares, enquanto outros adotaram as indiciam que estamos perante uma
Figura 2 – Casa de Brasileiro em contexto urbano
(após incêndio), Ílhavo. Fonte: Foto de Alice
linguagens vernaculares da Arquitetura Casa construída por um português
Tavares. da sua região incluindo a organização regressado do Brasil.
espacial tradicional de corredor central, O uso da cor forte, quer no interior
singulares – as Casas de Brasileiro – são em com reduzidas variações. Contudo, quer no exterior em muitas das paredes
muito menor número, torna-se urgente no independentemente do modelo de é algo que praticamente se perdeu a
presente tomar medidas concretas para a arquitetura escolhido existe um elo leitura pela uniformização, sobretudo
sua proteção. comum, todos eles se preocuparam com a partir dos anos 40 do século XX, do
Este artigo tem como objetivo a qualidade construtiva e decorativa das branco. No entanto, em muitos casos,
enunciar esta problemática e propor suas casas, indo buscar os materiais e os as fotografias antigas a preto e branco
algumas medidas para a salvaguarda deste mestres mais qualificados disponíveis para revelam a existência de cores fortes.
Patrimônio Arquitetônico Luso-Brasileiro a construção das mesmas. De acrescentar que tendo sido
e de o integrar no desenvolvimento Esta qualidade construtiva e construídas durante um período
urbano, destacando a sua singularidade. material pode justificar nos dias de embrionário de industrialização em
hoje a sua presença na paisagem, Portugal, beneficiaram muito do
Características comuns do Patrimônio mesmo após por vezes décadas de crescimento da ferrovia que permitiu
Arquitetônico em Portugal e no Brasil
abandono e degradação (Figura 2). o transporte de materiais provenientes
do século XIX
Ficaram, no entanto, sinais deste traço, do comércio internacional com o

A
mesmo quando já não se conhecem os Brasil, nomeadamente as madeiras
s Casas de Brasileiro construídas
antigos proprietários nem a história de maçaranduba (TAVARES, 2015)
em Portugal destacam-se
destas Casas, que podem passar pelos registradas nos anuários comerciais no
da paisagem urbana e rural
vestígios de: madeiras tropicais usadas início do século XX.
normalmente pela linguagem da
sobretudo na entrada, escadaria e Tendo sido igualmente a ferrovia
Arquitetura e pela dimensão. No entanto,
salas; decoração colorida das paredes o grande apoio para a disseminação
a investigação realizada demonstra que
específica para cada espaço; vidros no território deste tipo de Casas, com
apesar da grande emigração de Portugal
coloridos de produção pré-industrial modelos muitas vezes replicados
para o Brasil durante os séculos XIX-XX ter
nas portas e janelas da fachada principal com base em imagens de revistas
sido especialmente duradoura na região
e por vezes nas bandeiras das portas internacionais e disseminados na
Norte e Centro de Portugal, sendo que
interiores; qualidade das madeiras das região norte, nomeadamente através
os distritos do Porto e de Aveiro em 1939
estruturas de pavimento e de cobertura do Porto. Por este motivo, podemos
representavam ainda 47% da emigração
com seleção de madeiras por função observar na região central Casas de
total do país para o Brasil (TAVARES,
estrutural; uso de materiais pétreos por Brasileiro semelhantes com outras da
2015), o regresso de muitos desses
vezes decorativos nas fachadas; uso região Norte apesar da base estrutural

22
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

do sistema construtivo ter um material


diferente da pedra (a Norte) e sendo
construídas em alvenaria ordinária ou
alvenaria de adobe.
Verifica-se que o período de
regresso dos Portugueses do Brasil
(finais do século XIX) coincide com a
fase inicial da implantação da ferrovia
e do desenvolvimento industrial,
pelo que as opções por materiais e
técnicas construtivas estavam sujeitas
a algumas limitações. No entanto,
os inquéritos anuais realizados às
indústrias do período de 1881 a 1890,
período em que se dá o retorno de
Portugueses do Brasil que investem
em Portugal e constroem as suas
grandes Casas, mostram igualmente
uma preponderância da região Norte
das fábricas e oficinas associadas aos
materiais de construção.
A destacar as das madeiras,
cerâmico/vidro/materiais de construção
e construções mecânicas. As oficinas Figura 3 – Fazenda Santa Genebra, em Campinas (SP). Fonte: Lago, Bia Correa do; Lago, Pedro Correa
transformadoras de matéria-prima do. Coleção Princesa Isabel. (In: Fotografia do século XIX. Rio de Janeiro: Capivara, 2008).
para a construção na região do Porto
conseguiam nesse período ser em
maior número que as da região de
Lisboa entre o período de 1881 a 1930
(com exceção de cerâmica e vidro em
1890 e 1930), representando em relação
às madeiras quase o dobro do número
de indústrias e oficinas. Ou seja, todo o
período de grande relevo de construção
dos Portugueses que regressam
do Brasil conhecerá a influência do
Porto, algo que não se ficará apenas
pelos materiais de construção, já que
arquitetos e engenheiros do Porto
também projetarão para a região
centro.
Há, no entanto, a acrescentar que
durante o período de 1881 e 1890 a
exportação Portuguesa de materiais de Figura 4 – Sede da Fazenda Santa Genebra. Fonte: Secretaria da Cultura, “Bens Tombados”, 2001.

23
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

se tornou o maior exportador de café


do Império), não dependendo mais
das tropas de muares e das péssimas
estradas – pode-se dizer caminhos e
picadas – por onde era transportado
o café. É possível encontrar ferrovias
passando dentro das principais
fazendas produtoras e das cidades que
foram sendo criadas em seu percurso.
A ferrovia não apenas transportava o
Figura 5 – Fazenda Santa Genebra no século XIX. Fonte: Secretaria da Cultura, “Bens Tombados”, 2001.
café, mas também uma enorme gama
de produtos importados. Os trens
passaram a levar, principalmente para
as áreas rurais, materiais importados
tanto para a construção civil como
para a decoração. Além, é claro, do
“artigo” mais importante que eram
os profissionais habilitados para se
responsabilizarem pela execução de
vastos projetos, então só vistos na
corte e no estrangeiro. Dentre eles,
profissionais como o Engenheiro/
Arquiteto Francisco de Paula Ramos
de Azevedo, principal arquiteto do
ecletismo no Estado de São Paulo,
bem como outros artistas italianos,
espanhóis e franceses que participaram
desta modernização – uma nova
maneira de viver – introduzindo novos
conceitos, como, por exemplo, o
higienismo na maneira de morar.
Figura 6 – Fazenda Secretário, em Vassouras (RJ). Fonte: CRUZ, 2004, p. 131. O interesse dos grandes senhores de
engenho depois também dos Barões de
construção fazia-se sobretudo para o Brasil as transformações se mostram
café era ter tanto na vila, como também
Brasil e para Inglaterra. A emigração de através do padrão da moradia da elite
em suas terras, casas suntuosas,
Portugueses da região Norte e Centro cafeeira, que revela as mudanças
pois eram elas que representavam a
(Quadro 1), para o Brasil, teve como sociais e econômicas inclusive com
materialidade de seu poderio e status,
destinos significativos o Rio de Janeiro, a implantação de redes de ferrovias
e hoje ainda fazem parte de nosso
São Paulo, Pará, Maranhão e Baía. principalmente no Estado de São Paulo.
Património Arquitetônico.
Pelo Quadro 1 é possível aferir que A chegada da ferrovia foi o marco
Importante foi o processo de
o retorno de Portugueses do Brasil teve de todo esse desenvolvimento, pois
implantação do café no Vale do Paraíba,
um especial impacto na região Norte passou a viabilizar o transporte mais
vemos relações importantes de saberes
e Centro decorrente da significativa rápido, seguro e barato para os portos,
que circularam e influenciaram esse
origem geográfica desta emigração. No principalmente o Porto de Santos (que
grande período de nossa história, pois

24
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

foi no ano de 1808, com a transferência


da corte para do Rio de Janeiro, que
ocorreu a ruptura com o passado.
Grandes e notáveis artistas chegam
ao Rio de Janeiro, como Lebreton
(em 1816) ou Grandjean de Montigny,
fundador do curso de Belas Artes,
transformando a arquitetura do Rio
de Janeiro em neoclássica, não apenas
a arquitetura urbana, mas também
rural veio influenciar grandemente Figura 7 – Fazenda Resgate, em Bananal (SP). Fonte: CRUZ, 2004, p. 82.
não apenas a região do Rio de Janeiro,
mas também São Paulo, que formava
através de suas escolas, profissionais
capazes de realizar os desejos e sonhos
dos Barões do Café.
Será essa arquitetura
neoclássica que iria influenciar
profundamente as sedes das
fazendas do vale do Paraíba,
cujos proprietários já as
vivenciando e formados na
Europa as aceitam com grande
facilidade aqui, ao serem
projetadas por profissionais
que exigem dos mestres
semelhança com os palácios
e palacetes do Rio de Janeiro.
(ALCIDES; CZAJKAWSKI,
1984, p. 34).

Esta foi a razão do caráter urbano das


casas de fazenda no ciclo do café no Vale
do Paraíba. A influência neoclássica, vinda
Figura 8 – Fazenda Santa Justa, em Rio das Flores (RJ). Fonte: CRUZ, 2004, p.100.
com os arquitetos que acompanharam
o Príncipe Regente ao Rio de Janeiro, apareceram mais fortes, devido à (MERCADANTE, 1984, p. 22).
foi utilizada nas construções urbanas ausência de profissionais especializados, Foi em meados dos Oitocentos
que depois foram transportadas para pois dependiam então da mão de obra que as fazendas cafeeiras fluminenses
as fazendas, demonstrando assim um escrava, grosseira e pouco requintada, passaram a apresentar seus palacetes
refinamento na arte de construir. A fazendo com que os recursos neoclássicos elegantes, graças aos proprietários já
princípio, tentou-se trabalhar com a ficassem mais restritos às fachadas: “(...) enriquecidos pela lavoura. A decoração
introdução de algumas mudanças como: obedeciam elas, na verdade, aos patrões do solar passou a mostrar o grande
escadarias, colunas, frontões de pedras, urbanos. Idêntico acabamento externo, salão de visitas, decorado com luxo
mas atrelado ainda a uma edificação com ênfase nos portões de entrada, como os da corte. Não faltaram pinturas
que seguia os esquemas coloniais. de um estilo neoclássico, seguiu-se, no em papéis decorativos com motivos
Foram nas fazendas que as restrições curso dos Oitocentos, para o Ecletismo.” variados, que iam de pilastras e colunas

25
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

todo o processo desse importante ciclo geralmente são habitáveis, mostrando


do café conhecido por “ciclo do ouro a evolução da casa rural.
verde” que ajudou a transpassar fronteiras O gosto eclético foi sentido na
territoriais – como demonstrado por ênfase que se deu aos elementos de
alguns exemplares rurais a seguir. O ferros importados da Europa, e nos
casarão, com muitas portas e janelas, não elementos decorativos da madeira
é exclusivo do meio rural; ao contrário, foi recortada – como os lambrequins, que
sempre utilizado também no meio urbano, foram muito utilizados na arquitetura,
quando se destinava à construção para os quando o chalé substituíra o que restou
Barões do café. Além de trabalhado tanto do neoclássico.
no meio urbano quanto no rural, foi um tipo Casa de um pavimento com
encontrado tanto no civil como no religioso, um sobrado ao centro da fachada,
recebendo grande influência neoclássica. ocupando uma área menor que a do
Figura 9 – Residência Barbosa de Oliveira, projeto Foram esses casarões que mostraram térreo.
de Ramos de Azevedo. Fonte: Portfólio Ramos uma boa composição arquitetônica, Essa arquitetura chega a província
de Azevedo, biblioteca do CONDEPHAAT. Foto:
João Mursa. como o acerto nas proporções e na de São Paulo pela grande importância
relação dos cheios e vazios, bem como a e riqueza de sua produção cafeeira. A
até paisagens do Rio de Janeiro e Paris, eventual ornamentação. Possui fachadas arquitetura rural paulista se diferenciou
sempre sugerindo uma ambientação longas com muitas janelas, sendo estas da arquitetura do Vale do Paraíba por
neoclássica, com muitos espelhos, primordiais na evolução estética desses estar mais longe da corte,mas nem por
cristais venezianos, baixelas de prata sobrados. isso se trabalhou com menos requinte
e de ouro, tapeçarias orientais e O casarão de um só pavimento, (AMOROSO, 2009). Foi no último
francesas, e pelos móveis de jacarandá ou pavimento sobre porão alto, quartel do século XIX que a arquitetura
lavrados em gosto inglês. Jardins tinha como principal característica a rural paulista sofreu significativas
bem traçados e cuidados, assim como horizontalidade, com a existência, ao alterações na programação da casa-
inúmeras outras edificações, orbitavam centro da fachada principal, de uma sede da fazenda de café como o
entorno do solar para atender todas escadaria formada por um ou dois surgimento do alpendre, o qual “não foi
as necessidades, como dependências lances, levando ao patamar geralmente o mesmo das casas bandeiristas ou o da
hospitalares, com pequena farmácia, coberto por um pequeno copiar. Em mineira”, segundo Lemos (1999), visto
maternidade e creche. algumas casas, essa cobertura assumia que “o alpendre que conhecemos foi
O solar destacava-se, enorme, as dimensões de um pórtico ou varanda, elaborado com a projeção do telhado
atarracado, com alpendre no muitas vezes apoiado sobre colunas externamente à parede mestra com a
centro da fachada, ladeado de ferro. A casa sobre porão alto ou função de refrescar a casa, tornando-se
de janelas e com escadarias um elemento marcante da arquitetura
de acesso na varanda “habitável” parece ser de origem mais
ampla, reuniam-se à tarde a antiga. São deste gênero, no século cafeeira paulista”.
família e os hospedes para XVIII, numerosas quintas portuguesas As construções rurais, segundo
observar o crepúsculo e o Miranda e Czaikowiski (2004, p. 33),
espetáculo do dia que findava. e alguns solares brasileiros, como a
(MERCADANTE, 1984, p. 22). Casa do Conde dos Arcos, em Salvador. [...] são sempre de autores
Na transposição desta tipologia para a desconhecidos embora muitas
fazenda, apesar de sofrer as implicações vezes nos fizesse observar
Grandes solares dessa época trabalhos mais apurados nas
de praxe, mantém a relação hierárquica colunas, beiras encachorrados
localizados no Vale do Paraíba - Rio de
entre o térreo e o piano nobile, o que de recorte apuradíssimo
Janeiro (Figura 6) guardam testemunhos denunciando a presença de
diferencia este tipo do sobrado, onde os
dessa história e nos ajudam a entender caprichosos artistas.
dois pavimentos têm a mesma altura e

26
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Com o auge do ciclo do café surgem de beirais ora horizontais, como planos de emergência. Recorreu-
profundas alterações nas edificações das ora inclinados, compondo no se a várias Cartas Internacionais e
ar hipotéticos frontões em
áreas urbana. É nesse momento que a balanço, protegendo óculos, Recomendações que enunciam os riscos
moradia se transforma, passando a ser medalhões, janelas de sótão, para diferentes tipos de Património
o símbolo pelo qual essa camada mais balcões e tantos outros para verificação da correspondência
elementos de composição
privilegiada expressa sua incontestável arquitetônica. (LEMOS, 1989, destes riscos com o que se observa
posição de elite econômica, social e, pela p. 99. Grifo nosso) no terreno em relação ao Património
adoção do novo estilo de vida, também das Casas de Brasileiro ou Casas
cultural. O novo refinamento também se de Fazenda. Enunciam-se assim os
Também foi Lemos que classificou as
manifestou diretamente na planta da casa seguintes riscos:
moradias da classe mais privilegiada deste
que, graças ao surgimento da indústria A. Risco de uso (ver Recomendação
período, situando-as como residências
e do respectivo comércio que se inicia, sobre a salvaguarda dos conjuntos
de luxo equipadas com tudo que havia
passam também a retirar a exclusividade históricos e da sua função na vida
de mais moderno (e caro), visando o
da atribuição da riqueza apenas ao café contemporânea, UNESCO, 1976) – A
conforto ambiental. Destaca, ainda, que
(AMOROSO, 2009). ocupação de Patrimônio Arquitetônico
essas residências eram localizadas dentro
Será, portanto, a nova disposição Luso-Brasileiro foi feita por empresas
de grandes parques e chácaras, e que foi
espacial do terreno que identificará ou privados que preservaram as
o café que estabeleceu estas diferenças
a mudança do partido arquitetónico, fachadas, mas nem sempre as
qualitativas entre as residências ricas
definindo um tipo de residência: o suas características interiores,
e as demais (diferenças estas apenas
partido marcado pela construção nomeadamente as de organização
quantitativas).
isolada em seus quatro lados (Figura 9): interna. A UNESCO já pelo menos desde
Os riscos atuais nas intervenções 1976 recomendava a proteção ativa
Já que eram edifícios
isolados, seus telhados do Patrimônio Luso-Brasileiro contra todo o tipo de deteriorações,

E
poderiam participar com mais especialmente as decorrentes de usos
desenvoltura da composição impróprios, ampliações inconvenientes
arquitetônica, em vez ste é um Patrimônio
de ficarem escondidos e Arquitetônicode muito valor, e transformações abusivas ou
acomodados atrás de altas símbolo de migrações que desprovidas de sensibilidade, que
platibandas. A tônica desses prejudiquem a autenticidade do
palacetes isolados eram as trouxeram um contributo
coberturas movimentadas, positivo em termos de desenvolvimento Patrimônio Arquitetônico.
com seus beirais bastante para Portugal, mesmo que na época em B. Risco de transmissão de
recortados e nessa hora propriedade – Problemas associados
recorreu-se mesmo ao alguns casos tenham existido algumas
ecletismo desenfreado, com críticas e um menor reconhecimento. à divisão de heranças as deixaram ao
o abandono obrigatório do As Casas de Brasileiro distinguem-se e abandono até aos dias de hoje, sem
neoclássico, para serem que na generalidade as entidades
escolhidos os mais variados marcam o território. Encontram-se em
estilos ou combinações de diferentes estados de conservação e de públicas estabelecessem medidas para
modernismos que permitissem preservação da sua autenticidade. se ultrapassar a situação. Há ainda a
com mais facilidade e sempre acrescentar que a dimensão grande
almejada personalização Tal como já enunciado na Carta
do imóvel rico. E surgiram de Cracóvia (2000) é fundamental destas Casas já não se adequa aos
telhados arrematados conhecer os riscos atuais para se agregados familiares reduzidos do
por caprichosas grimpas presente e exigem muito investimento
de ferro forjado, telhados conseguir antecipar os sistemas de
inclinados à moda dos Luíses, prevenção apropriados, proteger e de manutenção ou conservação ou uso,
com suas mansardas entre planejar estratégias de longo prazo o que afasta muitos dos que herdam de
panos de ardósia, telhados as habitar.
de interseções esdrúxulas e para a sua valorização e usufruto, bem
C. Risco de especulação imobiliária

27
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

– A especulação imobiliária que em do Património Cultural, UNESCO 2003) orientações claras na legislação,
muitos casos provoca a sua demolição – Em um momento em que os técnicos regulamentos e planos que antecipem
total ou parcial, já que estas Casas projetam para todo o mundo e não este risco e o evitem.
eram construídas em propriedades de mais confinados à sua região, verifica- G. Risco de más intervenções
grande dimensão para a envolvente se um tendência para a uniformização decorrentes da falta de conhecimentos
urbana em que se inserem e, por isso, de abordagens, em muitos casos técnicos e construtivos (ver Princípios
alvo da pressão imobiliária em uma fase impulsionadas por investidores para a análise, conservação e
de maior desenvolvimento turístico e internacionais, que acabam por não restauro das estruturas do Patrimônio
imobiliário. conhecer suficientemente bem por Arquitetônico, ICOMOS 2003) – Este é
D. Risco de lacunas no planeamento um lado os valor cultural que está um risco muito atual nas intervenções
urbano e na gestão do território (ver em causa e por outro as condições no edificado antigo em geral, dado que
Recomendação nº R (89) 6 sobre a climatéricas e socioeconômicas do poucas universidades de arquitetura e
proteção e a valorização do património local de intervenção, implementando de engenharia preparam os seus alunos
arquitetónico rural, Conselho da Europa soluções pouco duradouras ou de difícil para a reabilitação e conservação.
1989 - Integração das construções manutenção ou ainda com condições Assim, este risco toma proporções
novas – Anexo à Recomendação, de uso economicamente viáveis. graves ao nível da compatibilidade
ponto II) – O risco de não se assegurar F. Risco de perda de autenticidade e durabilidade de materiais e
um controlo efetivo dos solos pode e integridade (ver Princípios para a técnicas aplicadas, comprometendo
favorecer uma localização anárquica análise, conservação e restauro das muitas vezes de forma irreversível
das construções ou equipamentos, estruturas do Patrimônio Arquitetônico, a preservação do edifício, onerando
um aumento excessivo de densidade ICOMOS, 2003) – É um risco transversal ainda a intervenção.
e de aumento de escala, degradando que envolve a componente técnica e de H. Risco do não reconhecimento
de forma irremediável por vários decisões ao nível da arquitetura, mas da autoria de técnicos do passado –
anos, por vezes décadas, a paisagem também ao nível do reconhecimento do Atualmente vive-se o culto da autoria
urbana e rural. A omissão de regras valor cultural do edifício como um todo. da Arquitetura, pelo que cada arquiteto
nos Planos urbanísticos e nos O ICOMOS (2003) alerta para o fato procura deixar a sua imagem de marca
Regulamentos que imponham limites do valor do Patrimônio Arquitetônico no edifício, sacrificando muitas vezes os
e forneçam orientações de integração não se restringir à sua aparência valores do passado que este apresenta
são igualmente responsáveis pela visual. Neste sentido, a integridade e que fazem parte do registo histórico
desvalorização das envolventes do e autenticidade refere-se a todas as da cultura de uma sociedade.
Patrimônio Arquitetônico. Mais do que partes do edifício considerando-o I. Risco de negligência e dilapidação
o estabelecimento de Zonas Especiais como um produto genuíno da (ver Declaração de Amesterdã,
de Proteção (ZEP) deveria existir tecnologia construtiva da época. conclusões do Congresso sobre o
uma cultura transversal às diferentes Assim, temos já pelo menos desde Patrimônio Arquitetônico Europeu,
entidades e comunidade técnica de 2003 a consideração de que a remoção Conselho da Europa, Amesterdã, 1975)
valorização da paisagem em primeiro de elementos estruturais e preservação – O risco de demolição deliberada,
lugar e dessa forma a integração de apenas da fachada não é uma boa proximidade de construções novas
novas construções far-se-ia de forma prática nem preserva, por isso, o valor dissonantes e o tráfego automóvel
equilibrada e não danificaria a visão do Patrimônio Arquitetônico. Esta é excessivo são fatores que permanecem
integrada que se pretende ter do uma responsabilidade partilhada entre como riscos de grande atualidade,
Patrimônio Arquitetônico. técnicos (arquitetos, engenheiros, aparentemente em muitas regiões
E. Risco de uniformização da cultura etc.) e investidores/proprietários. Mas não se soube ainda prevenir. Se por
e globalização socioeconômica (ver também das autoridades nacionais um lado se perde o bem comum por
Declaração sobre destruição intencional e regionais que devem estabelecer demolição, por outro lado é permitida

28
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

a sua transformação com adição de ou rural. Assim, existem medidas - promoção de formação
partes de edifício novas e de grande importantes a desenvolver, tais como: especializada, dirigida a técnicos
contraste ou simplesmente de grande - inventariação deste Patrimônio e empresas de construção e o seu
cércea ou desalinhados do Patrimônio Arquitetônico, incluindo o seu espaço quadro operário, para que se melhorem
Arquitetônico a preservar, que envolvente e maquinaria pré-industrial as práticas e se consiga responder
concomitantemente com as vibrações eventualmente presente. Num acervo a critérios de compatibilidade e
provocadas por obras e por tráfego informático disponível, assegurando durabilidade nas intervenções que se
automóvel excessivo condenam à no entanto, as devidas medidas de projetam e realizam. O pensamento do
destruição o bem que se devia proteger segurança; final de ciclo de vida dos novos materiais
e preservar. - integração deste Patrimônio e a pegada ecológica que estes têm
Outros riscos importantes podem nos Planos Urbanísticos, com devem ser inseridos na equação da
ser enunciados, nomeadamente os previsão de medidas pró-ativas para decisão pelas melhores opções. Mais
decorrentes da exigente capacidade a sua preservação e valorização, do que reciclar interessa reutilizar com
financeira para manter estas Casas com controle do desenvolvimento reduzido processamento.
de Brasileiro ou Casas de Fazenda e urbano, de forma a que este fique
a falta de apoios ou linhas de crédito sempre harmoniosamente integrado, Conclusões

O
acessíveis que permitam que este evitando que a especulação imobiliária
Património preserve a sua função e não provoquem danos neste ou na leitura Patrimônio Arquitetônico
fique abandonado. da sua envolvente; das Casas de Brasileiro e
- distribuição de responsabilidades das Casas das Fazendas é
Que futuro se pode perspectivar para este e execução das operações de reconhecido como de grande
Patrimônio? salvaguarda, que integrem formas valor e pode desempenhar um papel

A
adequadas de participação pública em importante na Cultura, no turismo
salvaguarda do Patrimônio determinados momentos da decisão, e na imagem de marca de muitos
Arquitetônico Luso-Brasileiro para que posteriormente seja possível territórios. Deve existir a consciência
dos séculos XIX e inícios recorrer à participação pública para a de que este é um Patrimônio em risco
de XX depende de um continuidade e apoio da salvaguarda e se pretendemos que a Arquitetura do
conjunto alargado de fatores, mas que deste Patrimônio; século XIX e XX, contemporânea das
exigem sobretudo atuação atenta das - promover um funcionamento em maiores transformações da sociedade
entidades responsáveis. Começando rede, com capacidades polivalentes e da indústria, o berço da atualidade,
por uma abordagem integrada que que integrem o meio científico através seja conhecido pelas gerações
coloque este Patrimônio como um das Universidades e laboratórios, o vindouras, então teremos de ter a
dos componentes do desenvolvimento meio educacional através das Escolas, responsabilidade de tomar as medidas
urbano e econômico-social sem o estratificando as diversas atividades necessárias pela sua salvaguarda.
destruir. Dependendo das diversas de forma a que a Educação para A representatividade da Arquitetura
circunstâncias em que este Patrimônio o Patrimônio se faça desde o Pré- Eclética como imagem de uma época
se localize, pode ter funções diferentes escolar, o meio empresarial através das e a qualidade construtiva estão
e ser âncora de desenvolvimento da empresas que exploram os recursos intrinsecamente associados a este
região ou simplesmente repositório associados a este Patrimônio, o meio Patrimônio que liga Portugal e o Brasil.
de um contexto histórico-cultural- político através dos organismos Os riscos de perda foram enunciados
social que, mesmo mantendo a sua públicos como Prefeituras, Municípios, e muitos destes já se encontram em
função de habitação (eventualmente Direções de Cultura, de forma a Cartas Internacionais e recomendações
multifamiliar), permanece como que os meios e a valorização sejam de entidades internacionais como a
imagem de marca da paisagem urbana implementados em tempo útil; UNESCO e o ICOMOS, sem, no entanto,

29
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

as termos ultrapassado. Perante os Fazendas: solares da região cafeeira


riscos identificados específicos deste do Brasil Imperial. Rio de Janeiro: Nova
Patrimônio são apresentadas algumas Fronteira, 2004.
medidas que interessa implementar ou ICOMOS/UNESCO. Site oficial.
reforçar a curto prazo. Estas devem ter Disponível em: <http://whc.unesco.org/
subjacente o problema multifacetado en/danger/>. Acesso em 06/05/2017.
da questão e, portanto, a necessidade LEMOS Carlos A. C. Casa Paulista:
da criação de diversas âncoras, desde história das moradias anteriores ao
a cultural, a educacional, a econômica ecletismo trazido pelo café. São Paulo:
e a política. Um elo entre Portugal e o Universidade de São Paulo, 1999.
Brasil a preservar e a inserir na nova MERCADANTE, Paulo. Introdução. In:
realidade do presente. social, símbolo PIRES, Fernando Tasso Fragoso (Org.).
das sociedades. Fazendas: solares da região cafeeira
do Brasil Imperial. Rio de Janeiro: Nova
Notas Fronteira, 2004.
MIRANDA, Alcides da Rocha;
CZAJKOWSKI, Jorge. Aspectos de uma
1 SPHAN/IPHAN: Instituto do
arquitetura rural no século XIX. In:
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
PIRES, Fernando Tasso Fragoso (Org).
2 A autora Alice Tavares agradece o
Fazendas, solares da região cafeeira do
apoio da Fundação Portuguesa para a
Brasil Imperial. Rio de Janeiro: Nova
Ciência e Tecnologia (FCT), no âmbito do Fronteira,1995.
seu Programa de Pós-doutoramento com REIS FILHO, Nestor Goulart. Alice Tavares
a referência SFRH/BPD/113053/2015 e os “Olhar ampliado”: Entrevista com o
autores agradecem o apoio da Unidade arquiteto Nestor Goulart Reis Filho, Professora convidada da Universidade
de investigação RISCO, Departamento de por PatriciaMariuzzo e Daniel Chiozzini. de Aveiro e investigadora da unidade
Engenharia Civil, Universidade de Aveiro. In: Patrimônio - Revista Eletrônica do de investigação RISCO – Departamento
IPHAN – Labjor, Nº 2, Nov./Dez. de de Engenharia Civil da Universidade
Referências bibliográficas de Aveiro
2005. Disponível em <http://www.
labjor.unicamp.br/patrimonio/materia.
AMOROSO, M. R. Arquitetura php?id=116>. Acesso 12/03/2020. Maria Rita Silveira de Paula Amoroso
campestre na obra de Ramos de TAVARES, A. Estratégias de
Azevedo: a fazenda São Vicente em Reabilitação Integrada do património Arquiteta e Urbanista, doutora em
Campinas. Dissertação (Mestrado em Edificado. Tese de Doutoramento em Arquitetura, Tecnologia e Cidade pela
Urbanismo). Programa de Pós-Graduação Engenharia Civil, Universidade de Aveiro, Universidade Estadual de Campinas,
em Arquitetura, PUC Campinas, 2009. Portugal. 2015. Pesquisadora Pós-Doc da Universidade
CARTA DE CRACÓVIA - Princípios de Aveiro e Coordenadora Geral no
para a Conservação e o Restauro do Brasil do 7º FIPA
Património Construído, Cracóvia, Polónia
(2000). Disponível em: <http://www. Aníbal Costa
patrimoniocultural. gov.pt/media/
uploads/cc/cartadecracovia2000.pdf>. Professor Catedrático da Universidade
Acesso em acesso em 04/03/2019. de Aveiro. RISCO – Departamento
CRUZ, Pedro Oswaldo. Fotografias de Engenharia Civil da Universidade
In: PIRES, Fernando Tasso Fragoso (Org.). de Aveiro

30
Figura 1 – Corte do desenho técnico do projeto de restauração do Mercado Modelo de Salvador. Fonte: Acervo do arquiteto Paulo
Ormindo de Azevedo.
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Nivaldo Vieira de Andrade Junior

tutte le strade portano a roma:


a autonomização do campo da restauração
arquitetônica na américa latina
e a contribuição da SCUOLA DI ROMA
Todos os mundos. Um só mundo. O tema geral do 27º Congresso Mundial de Arquitetos UIA 2021
RIO, que a União Internacional dos Arquitetos (UIA) promove, com organização do Instituto
de Arquitetos do Brasil (IAB), em julho de 2021, se estrutura em quatro eixos temáticos. Um
deles, Transitoriedades e fluxos, aborda justamente “os deslocamentos em geral, buscando
ampliar a compreensão sobre as transitoriedades e os fluxos na escala planetária e nas escalas
locais em suas dimensões demográfica, temporal e humana”, posto que “A velocidade desses
novos fluxos tem contribuído para a consolidação de uma cultura global e a globalização da
prática da arquitetura e do urbanismo”1 .
A dimensão global dos fluxos de de monumentos. uma prática coletivos, fundamentados
ideias na arquitetura também pode A hipótese que pretendemos na teoria do restauro crítico de Cesare
ser observada no campo específico da demonstrar é que, na América Brandi, Renato Bonelli e Roberto
restauração arquitetônica. Este artigo Latina, seja no âmbito da prática Pane e em documentos como a
trata da autonomização do campo da profissional, seja no da formação Carta de Veneza, e que se difunde
restauração arquitetônica na América profissional, a autonomização do mundialmente a partir dos anos 1960.
Latina, nas décadas de 1960 e 1970. campo da restauração arquitetônica, Como definiu Andrzej Tomaszewski,
Essa autonomia se dá em duas frentes, ocorrida nas décadas de 1960 e 1970, diretor do ICCROM entre 1988 e 1992
de forma simultânea, e muitas vezes sofreu uma influência decisiva e direta (apud SANTA BÁRBARA MORERA,
através dos mesmos atores: no âmbito da escola italiana da restauração e, 2018, p. 294, tradução nossa):
da prática profissional, através da mais especificamente, da Scuola
A existência de uma escola
atuação dos primeiros profissionais com di Roma, isto é, dos cursos de italiana da restauração tem um
formação específica na área, adquirida especialização promovidos pela Scuola papel fundamental na difusão
no exterior; e no âmbito da formação, di Specializzazione per lo Studio ed il de sua experiência no exterior.
Nesta importante influência,
através da incorporação, pela primeira Restauro dei Monumenti da Faculdade também dificilmente
vez, de disciplinas de restauração aos de Arquitetura da Universidade degli calculável e indireta, de Brandi
cursos de graduação em arquitetura Studi di Roma “La Sapienza” em parceria e seus métodos de restauração
de obras de arte em escala
e, principalmente, através da criação com o International Centre for the Study internacional, o conceito
dos primeiros cursos de pós-graduação of the Preservation and Restoration of de “escola” pressupõe uma
em restauração arquitetônica do Cultural Property (ICCROM). atividade coletiva, de grupo,
não obstante a diferente
continente, no México, Peru e Brasil, o A escola italiana da restauração deve educação de base dos
que possibilitará a formação de gerações ser entendida aqui em um sentido mais diferentes alunos.
inteiras de especialistas em restauração amplo: aquele de um pensamento e de

33
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

A Scuola di Roma é, indiscutivelmente, área. na Faculdade de Arquitetura da


o mais influente e longevo espaço de A Carta de Veneza é o primeiro e Universidade de Roma” aos quais a
difusão internacional da escola italiana mais conhecido dentre os 13 documentos resolução de 1964 se refere são aqueles
da restauração no campo da arquitetura, resultantes do II Congresso Internacional oferecidos a partir do ano acadêmico
cumprindo uma função análoga àquela que de Arquitetos e Técnicos dos Monumentos 1960-1961 pela Scuola di perfezionamento
o Istituto Centrale del Restauro, fundado e Históricos, promovido entre os dias 25 e 31 per lo studio ed il restauro dei monumenti do
dirigido pelo próprio Brandi por mais de de maio de 1964 em Veneza pelo Direção Istituto di Storia dell’Architettura da Facoltà
vinte anos, teve no campo da restauração Geral das Antiguidades e das Belas Artes di Architettura da Università degli Studi di
de obras de arte. do Ministério da Pública Instrução da Itália, Roma “La Sapienza”, criada em 1959 por
A presente pesquisa baseia-se sob o Alto Patronato da Unesco. No que Vincenzo Fasolo e por Guglielmo De Angelis
na consulta a fonte primárias2, em se refere à formação profissional, merece d’Ossat, seus primeiros diretores, que teve
entrevistas realizadas com alguns dos destaque outro documento produzido sua denominação alterada posteriormente
principais protagonistas do processo no mesmo congresso: a “Resolução para Scuola di specializzazione per lo studio
de autonomização do campo na concernente ao ensino da conservação e ed il restauro dei monumenti. 5
América Latina3 e em extensiva revisão da restauração dos monumentos”, que A Scuola di Roma ofereceu o
bibliográfica. propõe primeiro curso de pós-graduação em
Embora se trate de pesquisa em estágio restauração de monumentos da Itália e,
Que uma iniciação aos
inicial, as informações encontradas já nos problemas de conservação e indiscutivelmente, foi também o mais
permitem obter os primeiros resultados restauração de monumentos importante do país. A Scuola di Roma
relevantes. antigos seja incluída no segue formando especialistas na área até
programa de todas as
Faculdades Universitárias que os dias atuais, sob o nome de Scuola di
A Scuola di Roma compreendam o ensino da specializzazione in beni architettonici e del

P
arquitetura, da história da Arte paesaggio, ainda vinculada à Sapienza.
ara analisarmos a essência e da Arqueologia.
Neste intervalo, ela foi dirigida por alguns
do campo da restauração II. Que os cursos internacionais dos mais importantes nomes do campo da
arquitetônica, faz-se necessário organizados na Faculdade de restauração arquitetônica na Itália, como
analisar a história deste campo e, Arquitetura da Universidade
de Roma se desenvolvam Renato Bonelli, Gaetano Miarelli Mariani
em especial, o período específico em que dentro de um espírito de e Giovanni Carbonara – os dois últimos,
se deu o seu processo de autonomização, cooperação internacional e egressos do curso.
no qual foram definidas as características em colaboração com o Centro
Internacional de Estudos para Outras escolas de especialização
que o diferenciam do campo mais amplo da a conservação e restauração em restauração de monumentos
arquitetura.4 Essa autonomização se dá, dos bens culturais. foram fundadas na Itália a partir de
simultaneamente, nos âmbitos da prática - Que as autoridades nacionais 1969, quando Roberto Pane – um dos
profissional e da formação profissional. interessadas lhes concedam protagonistas da Carta de Veneza – cria
No campo da prática profissional, a seu apoio e lhes facilitem o a Scuola di specializzazione in restauro
acesso frequente a jovens
historiografia atribui à “Carta internacional arquitetos, historiadores da dei monumenti da Università degli studi di
sobre a conservação e restauração de arte e arqueólogos, escolhidos Napoli Federico II. Hoje, outras seis escolas
monumentos e sítios” – mais conhecida entre os melhor preparados de especialização em restauração de
e mais aptos para beneficiar-
como Carta de Veneza – o caráter de se dos cursos e garantir uma monumentos e conjuntos urbanos estão
marco fundamental no estabelecimento alta qualidade científica. [...] em funcionamento na Itália, em Florença,
de parâmetros internacionalmente (ICOMOS, 1971, tradução Turim, Milão, Gênova, Bari e Veneza.
nossa).
válidos para o campo da restauração Nenhuma destas, contudo, alcançará o
arquitetônica, ainda hoje considerados grau de influência e o cosmopolitismo da
Os “cursos internacionais organizados
como uma das principais referências na Scuola di Roma.6

34
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Em um texto em que promove um “indiferença teórico-metodológica: d’Ossat, se estava apenas


balanço dos primeiros trinta anos de nenhuma doutrina claramente definida e começando a organizar cursos
de restauração arquitetônica.
atuação da Scuola di Roma, Renato expressa, nenhum sistema de conceitos Desde o início, esses cursos
Bonelli, um dos seus mais ilustres destinado a ligar a subentendida e passiva eram também abertos a
docentes, registraria que a “fisionomia aceitação de uma ideia tardo-positivista do estrangeiros. Nós pensamos
que, colocando algum dinheiro
cultural do restaurador” que a Scuola restauro, e uma concepção marcadamente adicional, poderíamos
di Roma pretendia formar era a de empírica e prática da intervenção”. convidar especialistas
“uma figura de intelectual [...], uma Voltando à “Resolução concernente estrangeiros, e deste modo
ampliar a iniciativa... (apud
figura complexa, dotada de preparação ao ensino da conservação e da JOKILEHTO, 2011, p. 37,
humanística e histórico-crítica de um restauração dos monumentos”, de tradução nossa)
lado, e científica e técnica do outro, 1964, o ”espírito de cooperação
unidas a uma real sensibilidade estética internacional” ao qual ela faz O arquiteto finlandês Jukka Jokilehto
e capacidade artística”, enquanto referência diz respeito à articulação (2011, p. 38, tradução nossa), um dos
outros cursos de pós-graduação em entre a Scuola di specializzazione per coordenadores do curso do ICCROM a
restauração de monumentos oferecidos lo studio ed il restauro dei monumenti partir dos anos 1970, registra que
em outros países da Università degli studi di Roma “La
[...] ficou acordado que se
Sapienza” e o ICCROM, criado pela buscaria atrair estudantes
[...] desenvolvem uma didática
apenas informativa, confiada Unesco em 1957 e cujas atividades estrangeiros para os cursos:
prevalentemente não a se iniciaram, efetivamente, em 1959, oito em 1962, nove em
docentes profissionais, mas a 1963. Em 1964, cinco dos
tendo como primeiro diretor Harold dez participantes eram
profissionais da restauração
edilícia, os quais, contando James Plenderleith, antigo Diretor de estrangeiros e, em 1965, eram
as próprias experiências Pesquisa do Laboratório do Museu oito de 12. Os contatos entre
práticas, desenvolvem um o Centro e De Angelis d’Ossat
Britânico, e como Secretário Executivo resultaram em um maior
ensino baseado na prática
exercitada como “homens de o Dr. Italo Carlo Angle.8 Tanto a fortalecimento da colaboração
ofício”. Trata-se, portanto, Scuola di specializzazione quanto o que também respondia à
de um método que remete recomendação do Congresso
ICCROM – inicialmente chamado de de Veneza de 1964.
indiretamente à escola-
oficina, ou melhor da escola- “Centro de Roma” – tiveram papel
ateliê, ou seja, um critério determinante na organização do II Em 1966, quando o orçamento
arcaico, atrasado três séculos. permitiu, o Centro de Roma
Congresso Internacional de Arquitetos e se apropriou do Curso para
(BONELLI, 1987, p. 33,
tradução nossa) Técnicos dos Monumentos Históricos e o Estudo e Restauração de
na redação da Carta de Veneza. Monumentos da Universidade,
sendo, a partir de então,
Segundo Bonelli (1987, p. 33, tradução Foi a parceria, entabulada a partir organizados sob a direção
nossa), a Scuola di Roma se distinguiria de 1962, entre a Università degli studi de De Angelis d’Ossat e
di Roma “La Sapienza” e o ICCROM que administrados por Italo Angle,
de outros cursos de pós-graduação Secretário Geral do Centro.
em restauração de monumentos7 por garantirá à Scuola di Roma um caráter Naquele ano, o número de
diversos aspectos, como “a sua concepção ainda mais cosmopolita. O historiador participantes subiu para 23,
da arte belga Paul Philippot, diretor de 18 países, com cada país
teórica da história artística e do restauro tendo, no máximo, um ou dois
arquitetônico, o seu conceito estético adjunto do ICCROM até 1971 e diretor estudantes. Havia apenas um
de arquitetura, os seus procedimentos do centro entre 1971 e 1977, lembraria italiano.
historiográficos para a leitura histórico- que, nos primeiros anos da década de
figurativa da obra, e os critérios e métodos 1960, Sobre a estrutura do curso em
adotados”. Porém, acima de tudo, estes seus primeiros anos, uma brochura
Na Faculdade de Arquitetura
outros cursos se caracterizavam pela da Universidade de Roma, comemorativa da primeira década de
sob a direção de De Angelis atuação do ICCROM (1969, p. 16-17,

35
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

tradução nossa) destacava que “O curso uma experiência profissional mínima de países de todos os continentes, 40,4%
está planejado para um período de quatro anos no campo da preservação. eram oriundos de outros países europeus,
dois anos, o primeiro ano ocupado por (ICCROM, 1978, p. 9-11, tradução sendo 12,5% dos países socialistas da
princípios gerais, apresentações, etc [...]. nossa) Europa Oriental. Em seguida, destacavam-
O segundo ano é para que o candidato O programa dos dois cursos incluía se os asiáticos (23,6% dos estrangeiros)
trabalhe para obter o título de arquiteto/ aulas de história da arquitetura; teoria e os latino-americanos (19,2%), havendo
restaurador apresentando um projeto da restauração; conservação urbana; ainda um número significativo de norte-
como tese para avaliação.” tecnologia da restauração; projeto de americanos (10,2%, considerando os
Entre 1974 e 1976, o curso de conservação, restauração e adaptação; alunos provenientes dos Estados Unidos
restauração arquitetônica passa por e políticas públicas e legislação e Canadá), além de um número pouco
uma reformulação, com a decisão do da preservação do patrimônio expressivo de africanos (6,6%).
ICCROM e da Faculdade de Arquitetura da arquitetônico. As aulas eram oferecidas A dimensão internacional do
Universidade de Roma de separar o curso conjuntamente para os dois cursos, curso pode ser observada também
em dois, sendo que ambos permaneceriam nos primeiros seis meses. Os exercícios através da análise das nacionalidades
sob a direção geral de De Angelis d’Ossat e práticos e visitas guiadas, por sua dos docentes. Em 1978, o curso de
a coordenação de Jokilehto. vez, eram realizados separadamente. restauração arquitetônica contava
A partir de 1977, entram em (ICCROM, 1978, p. 9-11, tradução com 67 professores, dos quais 31
funcionamento os dois cursos. O Curso A, nossa) eram italianos, nove britânicos,
com dois anos de duração, era oferecido O cosmopolitismo da Scuola di Roma oito franceses, três austríacos, dois
em italiano pela Scuola di Specializzazione pode ser observado pela presença de espanhóis, dois norte-americanos, dois
per lo Studio ed il Restauro dei Monumenti alunos oriundos de dezenas de países belgas, dois poloneses e os demais
da Università di Roma “La Sapienza”, sob a de todos os continentes, ao menos provenientes das Alemanhas Ocidental
coordenação de Gaetano Miarelli Mariani, nas suas duas primeiras décadas de e Oriental, Holanda, Turquia, Finlândia,
e oferecia um diploma de especialização. funcionamento. Uma brochura do Suíça, Canadá e Iugoslávia (um
Estava aberto para “italianos graduados em ICCROM datada de 1969 destacava que professor de cada um destes países).
arquitetura, humanidades ou engenharia Dentre os docentes italianos do curso,
Hoje, apenas quatro anos
civil, e não italianos possuidores de um depois [do início da parceria merecem destaque nomes como Cesare
título universitário obtido até dez anos entre ICCROM e Sapienza], Brandi, Renato Bonelli, Paolo Marconi,
antes do início do curso”. (ICCROM, 1978, o número de candidatos Gaetano Miarelli Mariani, Paolo Mora
provenientes de todas as
p. 9-11, tradução nossa) partes do mundo que recebem e Laura Sbordoni Mora, Leonardo
O Curso B se chamava de bolsas de fundações, do JDR Benevolo, Giorgio Torraca, Gianfranco
Architectural Conservation Course e 3rd Fund [John D. Rockefeller] Caniggia, Liliana Grassi, Bernardo
em Nova York, da Unesco e do
tinha seis meses de duração (de janeiro programa bilateral do Governo Secchi e Piero Sanpaolesi. Dentre os
a junho), sendo oferecido pelo ICCROM Italiano excede as vagas estrangeiros, os franceses François
exclusivamente em inglês (embora disponíveis. (ICCROM, 1969, p. Sorlin e Germain Bazin, os belgas
16, tradução nossa)
o idioma italiano fosse considerado Raymond Lemaire e Paul Philippot,
“útil para fins sociais e debates”). os britânicos Bernard Feilden, Donald
De fato, dos 697 alunos que
Eram previstos até 25 participantes W. Insall e Colin Buchanan, o espanhol
participaram do Curso de Especialização
por turma, que podiam ser arquitetos, Alberto García Gil, o austríaco Walter
em Conservação e Restauração de
engenheiros civis, urbanistas, Frodl e o norte-americano James M.
Monumentos e Sítios Históricos de Roma
historiadores da arte e arqueólogos Fitch. (ICCROM, 1978)9
entre 1960 e 1980, pouco mais de um
“interessados na preservação do Percebe-se, portanto, que, embora
terço (36,7%) eram italianos. Dentre os
patrimônio arquitetônico e de sítios os alunos fossem provenientes de todo
estrangeiros, provenientes de 74 diferentes
históricos”. Era exigida dos candidatos o mundo, com um percentual elevado

36
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

de asiáticos e latino-americanos, os
professores provinham exclusivamente
da Europa, dos Estados Unidos e do
Canadá.10
A presença significativa de latino-
americanos na Scuola di Roma já a
partir dos seus primeiros anos11 não
se refletiu, na mesma proporção, na
participação de latino-americanos no II
Congresso Internacional de Arquitetos
e Técnicos dos Monumentos Históricos
e na redação dos documentos ali
elaborados. Dos 622 delegados de
62 países que participaram daquele
Congresso, somente 12 eram latino-
americanos (menos de 2% do total), Figura 2 – Scuola di Roma: alunos por região geográfica nos cursos de especialização em restauração de
representando seis países. A maior monumentos (1960-1980) Fonte: Gráfico elaborado por Lucas Gomez Trindade e pelo autor, a partir de
delegação da América Latina era a dados do arquivo do ICCROM em Roma.
mexicana, com quatro membros;
seguida da Venezuela, com três concernente à criação de um organismo se arquiteto pela Escuela Nacional de
membros; de Cuba, com dois membros; internacional não governamental para Arquitectura da Universidad Nacional
e do Brasil, Colômbia e Peru, com um os monumentos e sítios”, que resultaria Autónoma de México (UNAM) em 1956
membro cada.12 na criação, no ano seguinte, do Conselho e cursou a especialização em restauro
Dois delegados latino-americanos Internacional de Monumentos e Sítios de monumentos na Scuola di Roma no
se destacaram por participarem do (Icomos).14 início dos anos 1960.
grupo de trabalho criado para redigir, Tanto Victor Pimentel Gurmendi Ambos desempenhariam, nos anos
durante o Congresso, a Carta de Veneza: quanto Carlos Flores Marini haviam seguintes, papéis fundamentais no
o peruano Victor Pimentel Gurmendi estudado, anteriormente, restauração processo de autonomização do campo
e o mexicano Carlos Flores Marini.13 de monumentos na Facoltà di da restauração arquitetônica, como
Este último foi o presidente da primeira Architettura da Università degli Studi di veremos mais adiante.
das cinco sessões do programa, Roma “La Sapienza”. Entre 1955 e 1960,
A autonomização do campo da Restauração
dedicada à “Teoria da conservação Victor Pimentel, graduado arquiteto em
no âmbito da prática profissional
e da restauração dos monumentos e 1953 pela Escuela Nacional de Ingenieros,

D
suas aplicações”. Esta seção teve como em Lima (atual Universidad Nacional de
Ingeniería), havia cursado uma série de iversos historiadores da
relator o belga Raymond Lemaire – arquitetura na América Latina
também relator da Carta de Veneza – e, disciplinas do curso de graduação em
arquitetura na universidade romana. identificam nos anos 1960 e
como conferencista principal, o italiano 1970 o momento em que o
Roberto Pane, considerado, junto com Dentre as disciplinas cursadas por
Pimentel, merecem destaque “os campo da restauração arquitetônica
Piero Gazzola, o principal responsável se autonomiza, surgindo o arquiteto
pelos postulados defendidos na Carta cursos de restauração ministrados
por Carlo Ceschi e colaboradores” especialista em restauração de
de Veneza. Victor Pimentel, por sua monumentos. Esses historiadores
vez, fez parte também, junto com a entre 1956 e 1957 (BEINGOLEA
DEL CARPIO, 2014, p. 111, tradução atribuem, de modo geral, relevância
mexicana Ruth Rivera de Coronel, da especial ao advento da Carta de Veneza,
Comissão de redação da “Resolução nossa).15 Já Flores Marini graduou-

37
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

em 1964. Nos trabalhos de restauração destaquem a importância da Carta de


No caso específico do México, e museografia do Museu Veneza nesta mudança de paradigma,
Nacional do Vice-Reinado
Mónica Cejudo Collera (2012, p. 377, no antigo colégio jesuíta de algo que aparece apenas nas entrelinhas
tradução nossa), defende que Tepotzotlan, pelo contrário, dos textos citados, apresentado como um
havia toda uma equipe de dado pouco relevante, e que pretendemos
A partir da década dos jovens coordenados por Jorge
sessenta e da participação Gurria Lacroix, historiador ressaltar é a importância da Scuola di
da Delegação do México de grande experiência, e Roma como centro de formação, em
na Segunda Conferência Francisco de la Maza. Na nível de especialização, de boa parte dos
Internacional para a restauração, estávamos Carlos
Conservação de Monumentos, Flores Marini e Mario Elizondo jovens arquitetos que atualizam o campo
realizada em 1964 em Veneza, e na museografia Miguel da restauração arquitetônica na América
os monumentos históricos Celorio. (FLORES MARINI, Latina a partir da década de 1960.
adquirem o valor de herança 2014, p. 99, tradução nossa)
patrimonial e se refletiu sobre Enquanto os profissionais identificados
sua vulnerabilidade, assim por Hayakawa Casas como atuantes no
como sobre a impossibilidade No Peru, José Carlos Hayakawa Casas
primeiro período (1920-1964) não tiveram,
de sua substituição. (2010, p. 30, tradução nossa) identifica,
de modo geral, qualquer formação
de modo análogo, o ano de 1964 como
específica no campo da restauração,16
Com relação à recepção aceitação momento de radical mudança no campo
aqueles atuantes no segundo período,
da Carta de Veneza no México, Carlos da restauração de monumentos em
em sua grande maioria,a tiveram (1964-
Flores Marini (2014, p. 93, tradução nossa) Lima. Para ele, o período de 1920 a
1990), sendo que boa parte deles, ainda
registra que 1964 se caracteriza pela “Capacitação
que esse dado não seja em muitos casos
em função da experiência, mediante a
O documento teve no México apresentado por Hayakawa Casas, a
uma aceitação de extremos técnica de aproximações sucessivas ou
contrastantes, os arqueólogos obtiveram na Scuola di Roma, como
de tentativa e erro” e pela “Aproximação
que trabalhavam nos antigos Roberto Samanez (1969), José Correa
à restauração monumental por meios
centros cerimoniais das Orbegoso (1972), Filiberto Ramírez (1976),
culturas mexicanas sentiram empíricos, pragmáticos e academicistas,
uma intromissão em seus Lucila Uzátegui (1976), Manuel Ganoza
já que a especialização não existiu,
particulares métodos (1976), Jorge Cosmopolis (1977), Eulogio
baseando sua ação no conhecimento
reconstrutivos. [...]Na década Tapia (1978) e Bertha Estela (1979), além
de sessenta, o arqueólogo da tecnologia artesanal e dos estilos e
trabalhava sozinho e do já citado Victor Pimentel Gurmendi
ordens, porém sem maior consciência
estabelecia seus próprios (que, como vimos, estudou em Roma entre
histórica de suas intervenções.”. Já o
critérios de intervenção. [...] 1955 e 1960, antes mesmo da criação da
período seguinte, entre 1964 e 1990, se
Scuola di Specializazzione). (HAYAKAWA
caracteriza pela “Capacitação em função
Para ilustrar os “extremos CASAS, 2010)
da especialização, mediante um estudo
contrastantes” aos quais se refere, Flores O arquiteto e professor peruano José
sistemático e específico de história,
Marini cita duas obras de restauração que García Bryce corrobora a afirmação de
arte, tecnologia e arqueologia” e pela
se encontravam em sua etapa final em Hayakawa Casas:
“Aproximação metodológico-científica
maio de 1964, quando é redigida a Carta
de seu perfil profissional, incorporando à Não é uma afirmação errada
de Veneza: as de Teotihuacán e a do Museu dizer que antes dos anos
sua ação uma maior consciência histórica
Nacional do Vice-Reinado: 1960 não havia uma prática
de suas intervenções, ademais de uma profissional da restauração.
A primeira a cargo de maior base ideológica – especialmente Os que faziam restauração
arqueólogos da velha guarda a Carta de Veneza – quase inexistente efetivamente eram arquitetos
[...], que adotaram um critério que não tinha formação
de reconstrução total no anteriormente”(HAYAKAWA CASAS, como restauradores.
Palácio de Quetzalpapalotl e 2010, p. 31-32, tradução nossa). Eram arquitetos que se
nos embasamentos da Plaza Embora todos esses autores interessavam pela arquitetura
de la Luna. [...] peruana do passado. [...](apud

38
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

HAYAKAWA CASAS, 2010, p. Pimentel e Harth-Terré, que Garcilaso de la Vega, José Correa Orbegoso
112, tradução nossa) 17 (apud HAYAKAWA CASAS, 2014b, p. 133,
[...] era um pouco distinto de
Pimentel e se ufanava muito 139, tradução e grifos nossos) registra:
Hayakawa Casas (2013, p. 128-130, de suas conquistas e de suas
restaurações e, claro, estavam [...] Harth-Terré [...] pensava
tradução nossa) destaca o papel de que era possível e necessário
em luta por terem posições
Pimentel, na década de 1960, e de José contrárias. Harth-Terré havia contribuir para “melhorar” o
Correa Orbegoso e outros, na década de começado muito antes, de tal monumento, para “fazê-lo”
modo que, quando Pimentel de novo. Sobre este tema,
1970: Harth-Terré também propôs
chegou com a Carta de
Veneza, fez uma dura crítica à [...] praticamente refazer a
[...] foi o arquiteto Víctor casa de Garcilaso em Cusco,
Pimentel Gurmendi quem, sua reconstrução da portada
da igreja de la Merced e Harth- o que teria sido muito ruim,
logo após suas viagens porque ele colocava arcos
e especialização [sic] em Terré se defendeu.
por aqui e por ali, e não se
restauração de monumentos sabia se eles haviam existido.
na Itália e seu posterior O caso mais representativo dessa Ele pensava que porque era
protagonismo no II Congresso a casa de Garcilaso, então
de Técnicos em Conservação e mudança de paradigma – e também
teria que ter certo porte e,
Restauração de Monumentos geracional – no ambiente profissional da nesse sentido, Pimentel teve
[...], retornou ao Peru e logo restauração arquitetônica peruana, nos um grande mérito porque
insistiu incansavelmente – combateu isso. Houve uma
em Lima e em várias cidades anos 1960, é a substituição do projeto
certa polêmica e Harth-Terré
do interior do Peru – na elaborado pelo Emilio Harth-Terré – um muito fidalgamente aceitou a
necessidade de ‘refundar’ – dos profissionais atuantes no “primeiro proposta de Pimentel, talvez
acadêmica e profissionalmente um pouco porque ele já se
– a restauração de período” – para a “restauração” da Casa do
havia dado conta de que havia
monumentos com parâmetros Inca Garcilaso de la Vega, em Cusco, por perdido a batalha porque seu
mais científicos. Do mesmo um projeto de autoria de Victor Pimentel. projeto – que era o aprovado
modo, o arquiteto José Correa e, portanto, o que ia ser
adquire uma significativa Trata-se de uma construção do século XVI,
executado – não era o mais
especialização na Itália e na sobre base inca, que estava abandonada e adequado e que este jovem
Espanha, que lhe permitiu prestes a ser demolida. arquiteto (Pimentel) tinha
assumir uma importante novas ideias e formação.
liderança na Direção de O projeto de restauração de Pimentel,
Conservação do Patrimônio no executado entre 1964 e 1969, se tornou Enfim, Harth-Terré cedeu o
Instituto Nacional de Cultura, bastão a Pimentel.
paradigmático da adoção, no Peru,
especialmente neste momento
culminante que representou dos princípios da Carta de Veneza e do A compreensão de que a década
a década de setenta. Nos restauro crítico italiano, tendo recebido o de 1960 dá início a uma nova forma
âmbitos regionais, destaca- principal prêmio de arquitetura do país, o de atuação no campo da restauração
se a valiosa liderança que arquitetônica na América Latina, tendo
assumiram tanto o arquiteto Hexágono de Oro do Colegio de Arquitectos
Manuel Ángel Ganoza, para o del Perú, em 1970: “Primeiro se elaborou como principal acontecimento o advento
caso de Trujillo e Costa Norte, um levantamento e um diagnóstico da da Carta de Veneza (1964), bem como o
quanto o arquiteto Roberto fato de diversos arquitetos locais terem
Samanez, no caso de Cusco e situação, se consolidaram as estruturas, se
do sul peruano. liberaram os acréscimos e se terminou com estudado na Scuola di Roma, pode ser
O retorno de Pimentel a Lima, em 1960, uma cuidadosa intervenção que reintegrou facilmente adaptada a outros países
após cinco anos em Roma, resulta em muitos elementos originais. Estupendo latino-americanos.
um choque com os arquitetos da geração exemplo de patrimônio recuperado.” No Brasil, por exemplo, o “período
anterior que atuavam em intervenções (MARTUCCELLI CASANOVA, 2013, p. heroico” do Instituto do Patrimônio
em monumentos. José Correa Orbegoso 143, tradução nossa). Histórico e Artístico Nacional (Iphan),
(apud HAYAKAWA CASAS, 2014b, p. 133, Sobre o projeto de restauração correspondente às três primeiras décadas
tradução nossa)recorda dos embates entre elaborado por Pimentel para a Casa do Inca de atuação da instituição, fundada

39
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

A autonomização do campo da Restauração


em 193718, foi caracterizado pelo de intervenção em monumentos e sítios
tombados executados a partir da década no âmbito da formação profissional
domínio do patrimônio da “pedra e cal”

N
(edificações religiosas, militares e civis de 1940, sempre de forma absolutamente
o que se refere à formação
do período colonial) e pela contribuição empírica, sem jamais ter tido qualquer profissional específica no campo
dos intelectuais vinculados à vanguarda formação específica na área. Nos anos da restauração arquitetônica,
modernista, inclusive alguns dos mais 1980, Rebouças, na condição de consultor é também nas décadas de
do Iphan, coordenou a restauração 1960 e 1970 que serão observadas tanto
destacados arquitetos modernos, como
do Solar Berquó (século XVII), um dos a incorporação de disciplinas específicas
Alcides da Rocha Miranda e José de em alguns cursos em países latino-
Souza Reis, no Rio de Janeiro; Sylvio de principais exemplares da arquitetura civil
americanos, quanto a criação de cursos
Vasconcellos, em Minas Gerais; e Diógenes do Centro Histórico de Salvador. O projeto de pós-graduação com esta temática, no
Rebouças, na Bahia; sob a liderança de Rebouças, que tinha como objetivo México, Brasil e Peru.
inconteste de Lucio Costa. Nenhum principal converter o Solar Berquó em sede Hayakawa Casas (2014a, p. 102-
do Iphan, recebeu diversas críticas dos 103, tradução nossa) ressalta que a
deles possuía formação específica em
arquitetos das gerações seguintes, muitos Universidad Nacional de Ingeniería
restauração de monumentos; o Iphan se (UNI), em Lima, “exerceu uma liderança
constituiu, portanto, na própria escola. deles seus ex-alunos que haviam realizado
chave no meio formativo peruano ao
A partir das décadas de 1960 e 1970, cursos de especialização em restauração introduzir precocemente [...] uma oferta
simultaneamente à aposentadoria de monumento. Esses arquitetos de disciplinas mais especializadas nas
compulsória destes “heroicos” pioneiros, questionavam a demolição, por Rebouças, temáticas patrimonialistas”. Ele se refere
da “maior parte de sua estrutura” em taipa a duas disciplinas de “Restauração de
o protagonismo no campo do patrimônio
por alvenarias de tijolos. Em resposta a Monumentos” oferecidas no curso de
é transferido para uma nova geração, com graduação em arquitetura da UNI: uma
nomes como Paulo Ormindo de Azevedo, essas críticas, Rebouças se lamentaria da
de teoria, criada em 1960, e outra prática,
na Bahia, e Cyro Corrêa Lyra, inicialmente “teoria [...] de certos técnicos italianos” criada em meados da década de 1970.
no Paraná e posteriormente no Rio de que defenderiam “o respeito total ao que Ambas tiveram “uma origem fundacional
Janeiro, que atuam simultaneamente no está lá”, contrapondo essa abordagem, no âmbito nacional e latino-americano”,
chamada por ele de “restauração de tipo e esse pioneirismo peruano, segundo
Iphan e em universidades públicas. Não por
arqueológico” e “romântico”, por “uma ele “se explicaria em boa medida pelas
acaso, diferentemente dos autodidatas contundentes lideranças ‘históricas’ que
da geração anterior, tanto Azevedo restauração que garantisse à sede futura
exerceram os catedráticos responsáveis
quanto Lyra tinham especialização em da Pró-Memória uma perenidade” e (arquitetos Victor Pimentel G. e José
restauração de monumentos: ambos que otimizasse os recursos públicos nela Correa O.), os dois mais importantes
cursaram a especialização em restauro na investidos. Para ele, não haveria sentido restauradores de monumentos
em “respeitar” as paredes de taipa arquitetônicos da segunda metade do
Scuola di Roma, respectivamente em 1969
preexistentes “só porque é mesmo velho”, século XX no Peru.”
e 1976. O próprio José Correa Orbegoso
Para que compreendamos como se deu pois “Se é de taipa, se é de tijolo, ninguém
recorda, com relação ao período em que
essa ruptura geracional, basta lembrarmos vai ver, a não ser quebrando a parede”, foi aluno da Facultad de Arquitectura da
o caso de Diógenes Rebouças, arquiteto posto que as paredes seriam rebocadas UNI (1961-1965), que
autodidata que, na condição de colaborador (apud ANDRADE JUNIOR et al., 2017,
[...] havia, para aqueles que
do Iphan, foi o autor de diversos projetos p.337). estávamos interessados
nestes temas [de restauração

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Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

de monumentos], uma Inmuebles.21 Ainda sobre a influência da Carta de


maior aproximação, já a Veneza e da teoria do restauro crítico
partir do aspecto técnico, da Um relatório da Unesco de 1982
conservação, com o curso de registrou que, entre os “casos excepcionais italiana no Centro de Churubusco, Valerie
Restauração de monumentos, de capacitação prática e pesquisa” na Magar observa que, “No caso específico
a cargo do arquiteto Victor do México, a Carta de Veneza junto com a
Pimentel. Este curso era um América Latina, destaca-se o Centro de
metodologia e visão de C. Brandi estiveram
dos eletivos do último ano.19 Churubusco, que “desempenhou um papel
Este ambiente motivou de pioneirismo exitoso nas suas áreas de presentes desde os inícios do centro de
bastante vários de nós a não especialização, tanto no país quanto em conservação criado no início da década de
menosprezar a arquitetura 1960, localizado no antigo convento de
tradicional histórica. [...] nível regional.” (HUTAGALUNG & SAWE,
Do que lembro, no curso de 1982, p. 13) Churubusco.” Magar lista ainda alguns dos
restauração éramos poucos. O mesmo relatório destaca que, especialistas internacionais que realizaram
[... Pimentel] tinha lutado considerando os diversos cursos na área de visitas e aulas no Centro de Churubusco,
muito desde que havia
regressado com a Carta de patrimônio cultural oferecidos pelo Centro muitos deles vinculados à Scuola di Roma,
Veneza, mas o ignoravam. de Churubusco à época, como Harold Plenderleith, Paul Philippot,
(apud HAYAKAWA CASAS, Laura e Paolo Mora, e Paul Coremans,
2014b, p. 130-131, tradução Ainda que mais da metade do
nossa) corpo discente seja mexicano, dentre outros. (MAGAR, 2014, p. 150-151,
o Centro está aberto a outros tradução nossa).
No que se refere à oferta de cursos países latino-americanos, Carlos Chanfón Olmos (1981, p. 67-68,
particularmente nos cursos tradução do autor), diretor do Centro de
de pós-graduação em restauração de patrocinados pela OEA. Na
monumentos, por sua vez, o México média, cerca de 30 estudantes Churubusco entre 1974 e 1981, concorda
parece deter o pioneirismo no âmbito latino-americanos estiveram com essa interpretação, ao afirmar que “O
realizando cursos no Centro Centro de Churubusco deu seus primeiros
latino-americano, com duas iniciativas nos últimos anos com bolsas
surgidas em meados da década de 1960, da Unesco e OEA. [...] passos inspirado nos princípios teórico-
quase que simultaneamente. práticos aprendidos de especialistas
Em diversas ocasiões durante europeus que, como professores
A primeira é o curso de restauração a sua visita à região, os
arquitetônica com duração de três meses, inspetores tiveram evidências convidados, chegavam para oferecer os
oferecido em 1965 pelo Instituto Nacional da influência do Centro. primeiros cursos.”
[...]. Os centros nacionais de O peruano Victor Pimentel também
de Antropología e Historia (INAH), e que conservação e restauração de
se transformou, no ano seguinte, com alguns dos países visitados participou da constituição do Centro de
o apoio da Unesco, no Centro Regional devem suas existências em Churubusco:
larga medida à disponibilidade
Latinoamericano de Estudios para la de egressos de Churubusco Por obra do destino, a Unesco
Conservación de Bienes Culturales “Paul para neles trabalharem. [...] O me escolhe também como
Coremans”, conhecido como Centro de Centro inquestionavelmente
desempenhou um papel de um de seus consultores
Churubusco, por localizar-se no convento grande influência na formação neste campo e me envia a
deste nome.20 Em 1972, passa a oferecer, de diversas gerações de Churubusco para ministrar o
pela primeira vez, o Curso de Especialidad conservadores, museólogos,
restauradores e arquitetos. primeiro curso de Restauração
en Restauración de Bienes Inmuebles, com de Monumentos no México.
Estes, por sua vez, atuaram
duração de dois anos, criado pelo ICCROM frequentemente como Foi para mim um privilégio
e pela Unesco e que, no ano seguinte, em catalizadores em ativar um ter iniciado esses cursos nos
parceria com a Organização dos Estados crescente reconhecimento dois países onde havia vice-
Americanos (OEA), se transforma na do patrimônio nacional e reinado e onde se encontra um
Maestría en Restauración Arquitectónica, da sua importância para o
processo de desenvolvimento. patrimônio cultural imenso.
posteriormente Maestría en Conservación (HUTAGALUNG & SAWE, (apud RODRÍGUEZ BERNUY,
y Restauración de Bienes Culturales 1982, p. 21) 2015)

41
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

A segunda iniciativa de formação em latino-americano, e destaca que a Maestría a visitas para possibilitar o
nível de pós-graduação a surgir no México en Restauración de Monumentos contato prático com os temas
ministrados em sala: 1) Teoria
em meados da década de 1960 corresponde da conservação. 2) Técnicas
[...] influenciou nas
aos cursos organizados, a partir de maio de restaurações realizadas por de restauração. 3) Técnicas
1966, pela Escuela Nacional de Arquitectura profissionais preparados para auxiliares de restauração.
isso, assim como nas obras 4) Projetos de restauração.
da Universidad Nacional Autónoma de 5) Seminários de formação
realizadas neste período. Os
México (UNAM) e patrocinados pela mestres egressos da Faculdade brasileira e regional. 6)
Secretaría del Patrimonio Nacional. de Arquitetura [da UNAM] Estágios.
Intitulados de Seminarios de Restauración influenciaram no campo
profissional da restauração
de Monumentos, esses cursos eram arquitetônica com todo êxito Dentre os professores do curso, além
dirigidos inicialmente pelo arquiteto e suas obras são reconhecidas de professores da USP e arquitetos e
Ricardo de Robina e contavam com a em escala nacional e
internacional. outros colaboradores do IPHAN, estavam
participação de diversos professores os arquitetos Paulo Ormindo de Azevedo,
Em meados dos anos 1970, dois
estrangeiros, vindos da Bélgica, Espanha, professor da UFBA, e Victor Pimentel
cursos de especialização em restauração
Estados Unidos, França, Itália, Polônia e Gurmendi que, como vimos, haviam
arquitetônica, no Brasil e no Peru,
Venezuela (CEJUDO CRESPO, 2018, p. estudado restauração em Roma.
virão se somar aos dois cursos de pós-
45).22 Estes cursos eram dedicados a temas Para Mayumi (2008, p. 155), “Esse
graduação oferecidos no México, citados
como “Reestruturação de monumentos”, curso representa um marco na história da
anteriormente.
“Critérios de restauração”, “Projeto preservação do patrimônio no Brasil, em
O primeiro é o Curso de Restauração
arquitetônico de uma restauração” e muitos aspectos”, dentre os quais
e Conservação de Monumentos e
“Análises de técnicas nos monumentos” e,
Conjuntos Históricos, realizado em São [...] porque difundiu, se
em paralelo, seus participantes realizavam não introduziu, no meio
Paulo entre agosto e dezembro de 1974 e
visitas técnicas a monumentos mexicanos, profissional e acadêmico,
organizado pelo Iphan, pelo Conselho de
organizadas pelos professores arquitetos a Carta de Veneza com
Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, suas noções até então aqui
Carlos Flores Marini e Salvador Aceves desconhecidas (ou pelo
Arqueológico e Turístico (Condephaat) do
(CEJUDO COLLERA, 2018). Em 1968, estes menos, nunca explicitadas),
Estado de São Paulo e pelo Departamento
cursos “se transformaram formalmente na colocando em discussão
de História e Estética do Projeto da as práticas tradicionais de
Maestría en Restauración de Monumentos”, restauração do Iphan [...] E [...]
Faculdade de Arquitetura da Universidade
da qual uma primeira geração de 17 alunos porque inaugurou um modelo
de São Paulo (FAUUSP). Segundo Lia
se graduou em agosto de 1969. Este de formação do profissional
Mayumi (2008, p. 149-150):23 de restauração, no qual a
mestrado se consolidou como um dos mais formação conceitual e teórica
importantes da América Latina, tendo Das 30 vagas criadas, 15 foram precede a formação prática.
tido, até 1999, um total de 535 alunos em preenchidas por técnicos
enviados pelos órgãos
25 turmas, dos quais 428 concluíram os interessados de várias regiões
estudos. Dos 535 alunos que passaram do país, de acordo com critério As duas edições subsequentes do
pelo Mestrado no período, 497 eram do Iphan. Outras 15 vagas Curso de Especialização em Restauração e
foram preenchidas de acordo Conservação de Monumentos e Conjuntos
mexicanos e 38 estrangeiros, dos quais 31 com indicação do Governo
latino-americanos e 7 europeus. (CEJUDO do Estado de São Paulo, Históricos para Arquitetos ocorreram
CRESPO, 2018, p. 45-46) dando prioridade para dez em 1976 em Recife e em 1978 em Belo
arquitetos da Secretaria de Horizonte, sempre em parceria entre o
Mónica Cejudo Collera (2012, p. 380- Cultura, Esportes e Turismo,
381, tradução nossa) defende que “O e para três arquitetos da USP. Iphan e as universidades federais locais.
México foi provavelmente o primeiro país a [...] O conteúdo disciplinar foi Em 1981-1982, com a sua quarta edição,
organizado em seis blocos, o curso se instala, de forma definitiva, em
incluir a restauração arquitetônica no nível incluindo o que foi chamado
acadêmico de pós-graduação”, em âmbito de ‘estágio’, correspondente Salvador, em parceria com a Universidade

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Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Federal da Bahia (UFBA), com a seguir, e os italianos Franca Helg e Antonio originalmente pela Unesco
denominação de Curso de Especialização Piva, sócios de Franco Albini, que, como e pelo sistema das Nações
Unidas.(apud UNESCO, 1979,
em Conservação e Restauração de vimos, era frequentemente professor p. 5, tradução e grifos nossos)
Monumentos e Conjuntos Históricos (Cecre), convidado da Scuola di Roma.
passando a ter um alcance internacional, Também em meados da década de
contando com a participação de alunos 1970, começaram a ser promovidos, na Entre 1975 e 1980, foram oferecidos
estrangeiros, e dispondo do apoio da cidade peruana de Cusco, os Cursos de seis Cursos de Restauração de
Monumentos em Cusco, com seis meses
Unesco. O Cecre manteve edições Restauración promovidos pelo Programa
de duração cada, sempre no período de
bienais por cerca de trinta anos, até se das Nações Unidas para o Desenvolvimento
junho e dezembro. Os dois primeiros
transformar, em 2009, no atual Mestrado (PNUD) e pela Unesco, com a colaboração cursos foram coordenados pelo arquiteto
Profissional em Conservação e Restauração do Instituto Nacional de Cultura (INC) argentino Ramón Gutiérrez e, a partir do
de Monumentos e Núcleos Históricos (MP- através do Plano COPESCO (Proyecto terceiro, em 1977, a coordenação passou ao
Cecre), ainda hoje considerado das mais Nacional de Conservación y Puesta en Valor peruano Ronald Peralta. Pelos seis cursos,
importantes formações na área no país e del Patrimonio Cultural en el Perú), voltado passaram um total de 206 alunos, dos
na América Latina. à exploração turística do patrimônio, e o quais 126 contaram com bolsas (UNESCO,
Alguns dos mais importantes Projeto PER-71/539. Os arquitetos Victor 1981, p. 4). Com o fim dos Cursos de Cusco,
professores do Cecre após a sua instalação Pimentel e Roberto Samanez Argumedo, em 1980, o apoio do PNUD/Unesco é
definitiva em Salvador tiveram sua este último especialista em restauração de transferido para o Cecre, em Salvador.
formação na Scuola di Roma, como Paulo monumentos pela Scuola di Roma, foram Sobre a incorporação do tema da
Ormindo de Azevedo e Odete Dourado, os principais coordenadores técnicos conservação de centros históricos, a partir
ou em outras escolas italianas, como destes dois projetos. do terceiro curso, em 1977, Mutal afirma
Mario Mendonça de Oliveira, especialista Em 1979, Sylvio Mutal, então que
em restauração de monumentos e Coordenador Regional e Assessor Se, no começo, o Curso de
centros históricos pela Università degli Técnico Principal do Projeto Regional de Cusco teve como objetivo
Studi di Firenze em 1975, o que contribuiu Patrimônio Cultural da Unesco, registraria principal a formação de
especialistas em restauração e
sobremaneira para amplificar a influência que conservação de monumentos
italiana e, em particular, da Scuola di Roma e bens móveis, nos últimos
A ideia de criar um Curso de anos a realidade da região e
no ensino do curso. Além disso, outros Conservação e Restauração
de Monumentos em Cusco um conceito global e integral
especialistas com formação em Roma do que constitui o patrimônio
também atuaram como professores nasceu em 1975, em vista cultural contribuíram para que
de que, por aqueles anos, se dessa maior importância
convidados do Cecre, como os peruanos nenhuma universidade da área
oferecia uma especialização ao estudo de centros e sítios
Victor Pimentel, presente nas primeiras históricos. A partir de 1977
cinco edições do curso, e José García na matéria. A região carecia, e 1978, se estabeleceram
portanto, de especialistas ateliês dedicados a formar
Bryce, professor visitante do Cecre em no campo da conservação e
restauração, tão necessários os bolsistas em matéria de
1990, e o finlandês Jukka Jokilehto, conservação de centros
egresso da Scuola di Roma e coordenador para custodiar seu vasto históricos, de renovação
patrimônio monumental e urbana e de valorização social
do curso de restauração arquitetônica do artístico. dos monumentos. (apud
ICCROM por muitos anos, além de Giorgio UNESCO, 1979, p. 6, tradução
Lombardi, vinculado ao ICCROM. Por [...] nossa)
fim, participaram ainda como docentes Atualmente os Cursos de
convidados outros importantes arquitetos Cusco se consideram em Dentre os docentes, muitos arquitetos
estrangeiros, como Sylvio Mutal e Ramón um nível equivalente ao
dos Centros de Capacitação latino-americanos formados pela Scuola
Gutiérrez, principais responsáveis pelo de Roma, de Churubusco di Roma, como os peruanos Victor
Curso de Cusco, que será abordado a e de Jos (Nigéria), criados Pimentel, José Correa Orbegoso e Roberto

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Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

éramos arquitetos jovens


que tínhamos um claro
interesse pelo conhecimento
da restauração. Foi
extremamente interessante
nos enfrentarmos com as
tendências ideológicas da
época, ou seja, um Flores
Marini, que tinha umas ideias
muito claras de entender o
que era a Carta de Veneza,
porém também a liberdade
que se tinha com relação às
estruturas de intervenção; o
caso de Graziano Gasparini era
também muito evidente, por
exemplo, o fato de que para
ele toda obra de restauração
era um laboratório de
experimentação. Isso se
contrapunha, na época,
Figura 3 – Scuola di Roma: alunos dos cursos de especialização em restauração de monumentos por com os princípios que nos
país (1960-1980). Fonte: Gráfico elaborado por Lucas Gomez Trindade e pelo autor, a partir de dados infundia, por exemplo, o
do arquivo do ICCROM em Roma. arquiteto [boliviano José]
De Mesa [...]. Ele nos imbuía,
Samanez, o mexicano Carlos Flores 1980, destaque profissional no campo da digamos, de uma ideologia
Marini, o brasileiro Paulo Ormindo de restauração nos países andinos fizeram muito conservadora. [...] Havia
uma grande diferença nestes
Azevedo e o equatoriano Jorge Benavides o Curso de Cusco. Merecem destaque aspectos entre Gasparini,
Solis. Vários docentes vinculados à Scuola a equatoriana Dora Arizaga Guzmán, Flores Marini e De Mesa. Se a
di Roma participaram igualmente como criadora e diretora do Fondo de Salvamento isso somamos as teorias que
professores do Curso de Cusco em suas seis del Patrimonio Cultural de Quito (FONSAL) nos traziam Giorgio Lombardi
edições, como Bernard Feilden e Giorgio entre 1988 e 1996, e os peruanos José da Itália, Franca Hell [sic],
neste caso, era uma amálgama
Torraca (respectivamente, diretor e vice- María Gálvez Perez, Carlos Díaz Mantilla, de pensamentos que nos
diretor do ICCROM no período), Giorgio Jorge Marroquin Paiva, Jorge Cosmopolís ajudou muito a ter um critério
Lombardi e Leonardo Benevolo, além Bullon e Bertha Estela Benavides mais amplo sobre qualquer
de Franca Helg, sócia de Franco Albini. (UNESCO, 1979; HAYAKAWA CASAS, intervenção arquitetônica.
(apud HAYAKAWA CASAS,
Outros arquitetos de formação italiana, 2010). Os dois últimos, após fazerem o 2010, p. 137-138, tradução e
como o ítalo-venezuelano Graziano Curso de Cusco, em 1975, seguiram o curso grifos nossos).
Gasparini e o peruano José García Bryce, de especialização da Scuola di Roma, a
também atuaram como docentes do partir de 1977 e 1979, respectivamente. Roma: Urbi et Orbi

A
Curso de Cusco. Merece menção ainda a Aluno do Curso de Cusco de 1977, Díaz
participação como professor, em Cusco, Mantilla (apud HAYAKAWA CASAS, 2010, Scuola di Roma foi o principal
de Carlos Chanfón Olmos, então diretor do p. 139, tradução nossa) afirma que o curso
centro mundial de formação
Centro de Churubusco, o que, junto com a peruano “era equivalente ao realizado em
participação de Azevedo, um dos principais Roma, os programas de estudos eram no campo da restauração de
docentes do Cecre, em Salvador, mostra iguais, a maioria dos professores, em sua monumentos por décadas,
a integração entre três dos mais antigos maioria eram os mesmos”: inspirando os centros regionais criados em
e importantes cursos latino-americanos diversos continentes a partir da década
voltados à formação de arquitetos para a Pela primeira vez, na cidade de 1960. A sua atratividade não se limitou
de Cusco, se reuniam os
restauração arquitetônica. principais profissionais aos países em desenvolvimento, posto
Deve-se ressaltar ainda que muitos latino-americanos que que, mesmo na Europa, poucos eram,
arquitetos que tiveram, a partir dos anos iam se preparar, a maioria até os anos 1980 ou 1990, os cursos

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Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

de pós-graduação em restauração de
monumentos e conjuntos históricos.24
Está ainda por ser estudado o impacto
que as centenas de profissionais que
passaram pela Scuola di Roma tiveram nos
seus países de origem, após seus retornos.
Em que medida esses profissionais
contribuíram para difundir, em âmbito
mundial, a escola italiana do restauro,
seja através de sua atuação profissional,
seja como docentes e, portanto,
retransmissores, em alguma medida,
da formação que tiveram na Itália? Qual
o impacto, por exemplo, que a teoria
do restauro crítico teve em contextos
culturais, econômicos e sociais tão distintos
Figura 4 – Scuola di Roma: alunos dos cursos de especialização em restauração de monumentos por
quanto os Estados Unidos (36 alunos da país latino-americano (1960-1980). Fonte: Gráfico elaborado por Lucas Gomez Trindade e pelo autor,
Scuola di Roma entre 1960 e 1980), México a partir de dados do arquivo do ICCROM em Roma.
(24 alunos no mesmo período), Grécia (19
alunos), Irã (18 alunos) e Japão (9 alunos)? arquitetônica na América Latina, contaminação dos profissionais da área
Entre 1960 e 1980, 85 latino- existem claros indícios de que o número pelos princípios da escola italiana do
americanos estudaram restauração significativo de jovens arquitetos restauro, foi determinante o papel das
arquitetônica na Scuola di Roma. O México, latino-americanos que haviam cursado diversas organizações internacionais
por exemplo, foi o terceiro país – atrás a Scuola di Roma e, após retornarem como a ONU (através do PNUD e
apenas da Itália e dos Estados Unidos – aos seus países de origem, assumiram da Unesco), o ICCROM e o Icomos.
com maior número de alunos cursando a papéis de destaque no ambiente Estas organizações, por um lado,
Scuola di Roma neste período. Na América profissional e/ou acadêmico local pode amplificaram a dimensão internacional
Latina, destacam-se ainda, pelo elevado ter sido mais impactante que a Carta de do curso oferecido pela Università
número de profissionais egressos da Veneza. Trata-se da primeira geração di Roma a partir da parceria com o
Scuola di Roma, o Peru (16 alunos entre de arquitetos atuantes em intervenções ICCROM e da oferta de bolsas para
1960 e 1980), a Colômbia (10 alunos no em monumentos na América Latina os alunos latino-americanos da Scuola
período), o Brasil (9 alunos), a Venezuela (6 a possuir formação específica no di Roma; por outro, estruturaram
alunos) e a Guatemala (6 alunos). campo da restauração – uma formação ou apoiaram a criação de cursos de
A contribuição de cada um desses muitas vezes ampliada através de especialização na América Latina,
profissionais na autonomização do experiências profissionais significativas como aqueles de Churubusco, de Cusco
campo do restauro arquitetônico na como aquela vivenciada por Gonzalo e o Cecre, estruturados, em diversos
América Latina, após retornarem de Villa em Veneza, como membro da aspectos, à imagem e semelhança da
Roma, ainda está por ser dimensionado. equipe de Piero Gazzolana restauração Scuola di Roma e que, financiados pelas
Entretanto, algumas reflexões já de monumentos da importância do mesmas organizações internacionais,
podem ser enunciadas. A primeira é Palazzo Ducale. (GÓMEZ ARRIOLA, receberam docentes vinculados à
que, embora a historiografia tenda 2006) escola romana como professores
a destacar a Carta de Veneza como No processo de autonomização do convidados.
a principal causa da constituição de campo da restauração arquitetônica Deste modo, a partir da década
um campo autônomo da restauração na América Latina, mas também na de 1960, se estabelecem claramente

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Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

fluxos que disseminam, em boa a Roma buscando uma formação na Após seu retorno à Guatemala,
parte da América Latina, este novo área da restauração arquitetônica foi nomeado Conservador da
Cidade de Antigua Guatemala,
paradigma de arquiteto-restaurador passam, após seu retorno aos países de permitindo-lhe colocar em
estabelecido pela Scuola di Roma: “uma origem, a gozar de elevado prestígio no práticas as lições aprendidas
figura de intelectual [...]complexa, ambiente profissional. Os nomes mais no ICCROM. “Foi quando
óbvios são os de Victor Pimentel, no eu assumi a direção técnica
dotada de preparação humanística e administrativa do CHPAG
e histórico-crítica de um lado, e Peru, e Carlos Flores Marini, no México, que eu percebi a importância
científica e técnica do outro, unidas pois, ademais, participaram da redação e aplicabilidade da minha
da Carta de Veneza, o que lhes garantiu formação. Eu consegui reunir
a uma real sensibilidade estética e um grupo de profissionais
capacidade artística”, como observara imenso capital simbólico. Entretanto, competentes preocupados
Bonelli (1987, p. 33, tradução nossa). podemos identificar muitos outros com a proteção, conservação
profissionais que, após seu retorno e restauração de Antigua
Essa difusão decorre não somente para dirigir cada um dos
em função da atuação profissional de Roma, consolidaram-se como departamentos.”
referências importantes nos seus países
e acadêmica dos egressos da Scuola
no campo da preservação patrimonial,
di Roma, de volta aos seus países de
como José Correa Orbegoso (Peru); Investigar a influência da Scuola
origem, mas também em função dos
Jaime Ortiz Lajous, Sergio Zaldivar, di Roma no campo da preservação do
docentes da escola romana que passam
Salvador Díaz-Berrío e Olga Orive patrimônio edificado a partir da Roma
a atuar como professores convidados (México); Marcelo González Cano
no Centro de Churubusco, no Curso de Negra25 e, mais especificamente, do
e José María Magaña (Guatemala);
Cusco e no Cecre. A partir da segunda lugar de professor do MP-Cecre da UFBA,
Paulo Ormindo de Azevedo e Cyro
metade dos anos 1970, esses fluxos curso ainda hoje fortemente influenciado
Lyra (Brasil); e Jorge Benavides Solis
também podem ser observados entre pela Scuola di Roma, é aceitar o desafio
(Equador, hoje radicado na Espanha).
cidades latino-americanas: estudantes de tentar compreender a história da
Deve-se destacar que, mesmo
de outros países andinos que seguem fora das capitais nacionais, em restauração arquitetônica na América
o Curso de Cusco ou arquitetos vindos centros regionais como Cusco, Latina e do próprio MP-CECRE.
de toda a América Latina para o Cecre Trujillo, Guadalajara e Cali, os É, também, tentar mapear os fluxos
– ambos cursos caracterizados pela profissionais egressos da Scuola di e contrafluxos de conhecimentos
presença marcante de docentes com Roma desempenharam importante estabelecidos entre a urbe romana e o
formação italiana e, principalmente, papel na preservação patrimonial, mundo. Urbi et orbi. Todos os mundos, um
romana, inclusive diversos latino- destacando-se nacionalmente. É o caso só mundo.
americanos. dos peruanos Manuel Ángel Ganoza
Notas
Paralelamente, esses fluxos em Trujillo e na Costa Norte peruana;
constituem redes de integração e de de Roberto Samanez em Cusco; de
intercâmbio. Por exemplo, a atuação Gonzalo Villa no Estado mexicano de 1 Trechos do texto de apresentação do
profissional e acadêmica do brasileiro Jalisco; e de José Luis Giraldo em Cali e Eixo Temático “Transitoriedades e Fluxos”
Paulo Ormindo de Azevedo em Cusco, no vale do Cauca colombiano. do 27º Congresso Mundial de Arquitetos
nos anos 1970, está diretamente Mesmo em países latino-americanos UIA2021RIO, disponível na página oficial
relacionada à amizade construída menos populosos, é notável a do evento: <https://www.uia2020rio.archi/
com o cusquenho Roberto Samanez contribuição da Scuola di Roma na tema_pt.asp>.
Argumedo, durante os anos de estudo formação de quadros especializados. 2 Merece destaque para os resultados
na Scuola di Roma, no final da década No caso da Guatemala, por exemplo, obtidos a pesquisa inicial realizada no
anterior. Jokilehto (2011, p. 73) recorda o papel Arquivo do ICCROM (International
É indiscutível que parte significativa de José María Magaña, egresso da Centre for the Study of the Preservation
dos latino-americanos que se dirigiram Scuola di Roma na turma de 1976, que, and Restoration of Cultural Property),

46
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

em Roma, Itália, entre os dias 13 e 22 estabelecido por Pierre Bourdieu (2010). Bonelli dos quais a Scuola di Roma se
de novembro de 2019, com apoio da 5 A Scuola di perfezionamento per distinguiria, estão o Diplôme d’études
CAPES através de “Auxílio para missões lo studio ed il restauro dei monumenti, supérieures pour la connaissance
de trabalho no exterior” realizada no por sua vez, nascera da Scuola per lo et la conservation des monuments
âmbito do Programa CAPES/Print. studio della storia dell’architettura, anciens da École de Chaillot de Paris,
Nesta pesquisa, que deverá ser retomada instituída em 02 de setembro de 1957. vinculada ao Service des monuments
e finalizada em uma próxima missão Vincenzo Fasolo foi o diretor da Scuola historiques francês, oferecido a partir
de trabalho em Roma, foi localizada e di Roma entre 1959 e 1960, enquanto de 1887; o Masters Program in Historic
pesquisada abundante documentação De Angelis d’Ossat a dirigiu por mais de Preservation da Columbia University,
sobre o curso oferecido conjuntamente, vinte anos, de 1961 a 1982. Importante em Nova York,fundado em 1964; ou
entre 1966 e 1980, entre o ICCROM e a destacar que este último havia sido, o Diploma Course on Conservation
Scuola di Specializzazione per lo Studio ed entre 1947 e 1960, Diretor-geral das Studies da University of York, na
il Restauro dei Monumenti da Università Antiguidades e das Belas Artes da Inglaterra, criado em 1972.
degli Studi di Roma “La Sapienza”, além Itália, cargo mais importante do país 8 A decisão de criar o ICCROM
de algumas informações esparsas sobre no campo da preservação patrimonial, ocorreu na Conferência Geral da Unesco
o curso oferecido exclusivamente pela sendo o responsável pela reconstrução realizada em Nova Délhi, em 1956. O
Sapienza entre 1960 e 1965.Durante a e restauração dos monumentos Conselho provisório foi instalado em
mesma missão à Itália, foram também destruídos no país durante a Segunda Roma em 1957. (JOKILEHTO, 2011)
realizadas pesquisas nos Arquivos Guerra Mundial. Deve-se destacar 9 É interessante observar que,
Históricos da Sapienza Università di Roma, também que a Scuola Superiore di junto aos historiadores da arte e da
em Roma, sem qualquer resultado, e nos Architettura – posteriormente Facoltà arquitetura, aos especialistas nos
Arquivos da Scuola di specializzazione di Architettura – da Università degli aspectos tecnológicos da restauração
in restauro dei monumenti da Università Studi di Roma “La Sapienza” oferecia e aos profissionais vinculados à gestão
degli studi di Napoli Federico II, na cidade uma disciplina de “Restauração dos do patrimônio e ao planejamento de
de Nápoles, com resultados excelentes. monumentos” desde o ano acadêmico sítios históricos urbanos, dentre os
3 Foram entrevistados até o momento 1920-1921, sendo a pioneira na Itália. professores do curso estavam arquitetos
alguns renomados ex-alunos da Scuola 6 Por exemplo, a Scuola di reconhecidos principalmente pelos
di Roma, dentre os quais destacamos os specializzazione in restauro dei projetos de intervenção e adaptação
arquitetos Victor Pimentel Gurmendi, monumenti da Università degli studi de monumentos a novos usos, como
pioneiro no campo da restauração no di Napoli Federico II (hoje Scuola di Franco Albini, nos anos acadêmicos
Peru (entrevista realizada em Lima, em specializzazione in beni architettonici 1966-1967 e 1968-1969, e Carlo Scarpa,
setembro de 2018), e Paulo Ormindo de e del paesaggio di Napoli), teve nos anos acadêmicos 1967-1968 e
Azevedo, uma das principais referências do um número bem menor de alunos 1968-1969, que apresentaram seus
campo no Brasil (entrevista realizada em estrangeiros ao longo de 50 anos projetos mais conhecidos de adaptação
Salvador, em maio de 2019). Entrevistamos de existência. Até o final da década de edifícios históricos em museus.
ainda o arquiteto Giovanni Carbonara, ex- de 1970, período de análise deste 10 O arquiteto brasileiro Renato
aluno da Scuola di Roma nos anos 1960 e artigo, foram apenas dois brasileiros: Soeiro, Diretor do Iphan entre 1967 e
seu diretor entre 1996 e 2013 (entrevista Raymundo A. Bispo da Silva (biênio 1979, foi professor em algumas edições
realizada em Roma, em novembro de 1976-1977) e Francisco Giuseppe do curso entre o final da década de
2019). Carbonara é considerado um dos Mazzoni Sampaio (biênio 1979-1980) 1960 e o início da década seguinte,
maiores especialistas da atualidade no (GENOVESE, 2001). Como veremos, no ministrando aula sobre “Tecnologias
campo da restauração arquitetônica, na mesmo período, a Scuola romana teve antigas e atuais das estruturas e dos
Itália e no mundo. centenas de alunos estrangeiros. materiais de construção em países
4 Conforme conceito de campo 7 Dentre os cursos citados por tropicais”. Deve-se destacar que Soeiro

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Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

foi o único latino-americano a fazer e Peru estavam representados por identificados por Hayakawa Casas
parte do Conselho do ICCROM na um delegado cada, respectivamente (2010, p. 31) como atuantes no primeiro
década de 1960. Na década de 1970, Wladimir Alves de Souza, Professor momento (1920-1964), estão nomes
apenas dois latino-americanos fizeram catedrático da Faculdade Nacional como Ricardo de Jaxa Malachowski,
parte do Conselho: os mexicanos Luis de Arquitetura da Universidade do Rafael Marquina, Héctor Velarde
Ortiz Macedo (1971-1972) e Sergio Brasil; o arquiteto colombiano José e Emilio Harth Terré, nascidos nos
Zaldivar Guerra (1975-1980). Esse Luis Giraldo (aluno da Scuola di Roma últimos quinze anos do século XIX.
último foi aluno da Scuola di Roma. no biênio 1963-1964); e o arquiteto 17 Como destaca Jorge
11 No biênio 1960-1961, a Scuola di peruano Victor Pimentel Gurmendi. Cosmopolís Bullon (apud HAYAKWA
Roma teve apenas seis alunos, todos (ICOMOS, 1971) CASAS, 2010, p. 192), o processo
italianos. No biênio 1961-1962, foram 13 Dos 23 signatários da Carta de de profissionalização no campo da
cinco alunos, dos quais dois mexicanos Veneza, 18 eram europeus. Além de restauração arquitetônica no Peru – e,
e um colombiano. No biênio 1962-1963, Flores Marini e Pimentel Gurmendi, paralelamente, de autonomização do
dentre os onze alunos, em sua maioria os outros não europeus eram o campo – decorreu também da criação,
estrangeiros, não havia nenhum latino- brasileiro Deoclecio Redig de Campos, em 1972, do Instituto Nacional de
americano. No biênio 1963-1964, entre representante do Vaticano e, à época, Cultura (INC), como consequência das
os oito alunos, havia um colombiano. inspetor dos Museus Vaticanos; o comemorações do Sesquicentenário da
No biênio 1964-1965, dos 12 alunos, japonês Hiroshi Daifuku, representante Independência do país, e que resultou
uma era boliviana e um venezuelano da Unesco; e o tunisiano Slimane na realização de uma série de obras
(UNIVERSITÀ DI ROMA, 1965). Não Mostafa Zbiss. de restauração em diversas cidades
foi possível obter qualquer informação 14 Carlos Flores Marini seria um do país, como Trujillo, Cajamarca,
com relação aos alunos do biênio 1965- dos fundadores do Icomos México, em Ayacucho, Arequipa e Lima. Alejandro
1966. 1965, sendo seu primeiro secretário Alva Manfredi (apud HAYAKAWA
12 Os quatro membros da e, entre 1991 e 1997, seu presidente. CASAS, 2010, p. 210) destacará,
delegação mexicana eram Carlos Flores Victor Pimentel Gurmendi foi um dos no INC, o setor de conservação do
Marini, Chefe do Departamento de fundadores do Icomos Peru, em 1965, patrimônio monumental, dirigido por
Monumentos Coloniais do Instituto e seu presidente daquele ano até 1989. José Correa Orbegoso entre 1973 e 1978
Nacional de Antropología e Historia 15 Embora diversas publicações e no qual trabalharam muitos nomes
(INAH) e ex-aluno da Scuola di Roma); façam referência aos cursos de “pós- importantes da área nos anos 1970.
Ruth Rivera de Coronel, Chefe do graduação” que Victor Pimentel teria 18 Da sua criação em 1937 até
Departamento de Arquitetura do realizado na Universidade romana na os dias de hoje, a instituição criada
Instituto Nacional de Bellas Artes segunda metade da década de 1950 para salvaguardar o patrimônio
(INBA); e os arquitetos Salvador Aceves (p. ex., HAYAKAWA CASAS, 2010, p. cultural brasileiro já possuiu diversas
(que, à época, estudava restauração 68), o próprio arquiteto reconheceu, na denominações: Serviço do Patrimônio
no Politecnico di Milano) e Jacques de entrevista concedida ao autor e já citada Histórico e Artístico Nacional – Sphan
Veyrac. Da Venezuela, participaram anteriormente, que, no período em que (1937-1946), Diretoria do Patrimônio
três delegados: Luis Ramírez García, estudou em Roma, não existia ainda o Histórico e Artístico Nacional – Dphan
diretor da Escola de Arquitetura; curso de especialização em restauração (1946-1970), Instituto do Patrimônio
Gustavo Díaz Spinetti, professor; e o de monumentos e que toda a formação Histórico e Artístico Nacional – Iphan
arquiteto Graziano Gasparini. Cuba que obteve na área se deu nos cursos (1970-1979), Secretaria do Patrimônio
enviou dois delegados: Ferdinando de graduação e no acompanhamento Histórico e Artístico Nacional – Sphan,
López Castañeda, Chefe da Seção de canteiros de restauração dirigidos e Fundação Nacional Pró-Memória –
de Monumentos do Ministério, e o por Carlo Ceschi e colaboradores. FNPM (1979-1990), Instituto Brasileiro
arquiteto Raul Oliva. Brasil, Colômbia 16 Dentre os profissionais do Patrimônio Cultural – IBPC (1990-

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Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

1994) e, novamente, Iphan, desde Pane, da Università degli Studi di Referências bibliográficas
1994. Não obstante as mudanças no Napoli, e Giovanni Astengo, do Istituto
nome, pode-se considerar que houve Universitario di Architettura di Venezia. ANDRADE JUNIOR, Nivaldo;
clara continuidade institucional, Da Venezuela, o convidado era o SAMPAIO, Gabriela Gusmão; OTREMBA,
tornando o Iphan um dos mais longevos italiano Graziano Gasparini, professor Gabriela; ALBAN, Pedro (Orgs.). Diógenes
órgãos do Estado brasileiro. Deste da Universidad Central de Venezuela. Rebouças: cidade arquitetura patrimônio.
modo, neste artigo nos referiremos 23 O Curso de Restauração e Salvador: EDUFBA, 2017.
sempre à instituição como Iphan, BEINGOLEA DEL CARPIO, José Luis.
Conservação de Monumentos e
independentemente do período em “Victor Pimentel Gurmedi: Conservación
Conjuntos Históricos de 1974 teve um
análise. del patrimonio monumental y modernidad
precedente: o curso de pós-graduação
19 Pimentel, por sua vez, afirma (1956-2009)”. In: MARTORELL CARREÑO,
em preservação e restauração de Alberto (Coord. general). Conservación y
que o curso de Restauração dos monumentos organizado em 1964
monumentos que oferecia nos anos patrimonio: reflexiones a los 50 años de
pela FAUUSP, com o apoio do Iphan, la Carta de Venecia. Lima: Icomos-Perú,
1960 aos alunos do último ano do curso e destinado aos docentes da própria 2014. p. 109-117.
de graduação em arquitetura da UNI faculdade, visando atender às BENAVIDES SOLIS, Jorge. Hacia una
não era eletivo, mas obrigatório (apud exigências acadêmicas do Ministério da teoría de la restauración arquitectónica
RODRÍGUEZ BERNUY, 2015) Educação e Cultura. (MAYUMI, 2008) y estudio de los centros históricos. Tesis
20 Na década de 1960, a Unesco 24 Mesmo países como a (Doctoral). Madrid: Escuela Técnica
criou cinco centros regionais para Espanha só contariam com cursos Superior de Arquitectura / Universidad
a preservação do patrimônio. Além de pós-graduação em restauração Politécnica de Madrid, 1997.
deste, criado no Centro de Churubusco, arquitetônica a partir dos anos BONELLI, Renato. “La Scuola di
na Cidade do México, e voltado para 1980, com a única exceção daquele Specializzazione di Roma: un trentennio
as Américas, foram criados aqueles de promovido, na primeira metade di educazione al restauro”. In: BONELLI,
Tóquio, para o Extremo Oriente; de da década de 1970, pelo Instituto Renato; DE ANGELIS D’OSSAT, Guglielmo.
Nova Délhi, para a Ásia Meridional e de Restauración de Monumentos y Due lezioni di restauro. Roma: Scuola
o Sudeste Asiático; de Bagdá (Iraque), Conjuntos em Madri, de vida curta. Por di Specializzazione per lo studio ed il
para os Países Árabes; e de Jos esta razão, Jorge Benavides Solis (1997, restauro dei monumenti / Università
(Nigéria), para a África. Na década de degli studi di Roma “La Sapienza”, 1987,
p. 22, tradução nossa) observa que, “A
1970, foi criado um sexto centro, em p. 31-40.
partir dos anos setenta, a maioria dos
Cusco (Peru). BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico.
arquitetos espanhóis foi especializar-se Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010.
21 O Centro de Churubusco na Itália, onde, sem dúvida alguma, a
também oferece, há décadas, cursos CEJUDO COLLERA, Mónica. “La
tradição é maior e a partir de onde se restauración en el cambio secular del siglo
semelhantes nas áreas de museologia podem importar com maior facilidade
e restauração de bens móveis. Todos XX al XXI en México”. In: SAN MARTÍN
(parecidos e semelhantes o idioma e as CÓRDOVA, Ivan; CEJUDO COLLERA,
estes cursos ainda hoje são oferecidos realidade) as ideias.” Mónica (Comp.). Teoría e historia de la
pelo Centro de Churubusco, atualmente 25 O epíteto de Roma Negra faz arquitectura. Pensar, hacer y conservar
rebitazado como Escuela Nacional referência ao fato de Salvador ser la arquitectura. México: Universidad
de Conservación, Restauración y tanto a cidade com maior percentual Nacional Autónoma de México, 2012, p.
Museografía “Manuel del Castillo de população afro-brasileira quanto 377-387.
Negrete” (ENCRyM) Fonte: <https:// a principal referência das religiões de CEJUDO COLLERA, Mónica (Comp.).
www.encrym.edu.mx/principal/ matriz africana no Brasil, do mesmo Restauración UNAM 50 años. Medio
historia.php>. modo que Roma abriga a sede da Igreja siglo de contribuciones de la Maestría en
22 Os italianos eram Roberto Católica. Restauración de Monumentos. México:

49
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

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50
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

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303.
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1979.
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programmi 1965. Roma: Università di
Roma / Facoltà di Architettura, 1965.

Nivaldo Vieira de Andrade Junior

Arquiteto e Urbanista, Doutor


em Arquitetura e Urbanismo,
professor da Universidade Federal
da Bahia e Presidente Nacional do
Instituto de Arquitetos do Brasil

51
Figura 1 – Museu Nacional Resistência e Liberdade. Fonte: Foto de Arlindo Homem, 2019.
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Paula Araújo da Silva e Teresa Pacheco Albino

MUSEU NACIONAL RESISTÊNCIA E LIBERDADE:


FORTALEZA/PRISÃO POLÍTICA/MUSEU

Em abril de 2017 o Governo português aprovou um plano de recuperação da Fortaleza de


Peniche para nela instalar um Museu Nacional que perpetue a memória histórica deste
monumento, enquanto antiga prisão política da Ditadura Fascista que dominou Portugal
desde 1928 até à Revolução de Abril de 1974. Estamos perante uma memória muito longa e
marcante para o Povo Português e em simultâneo sensível e dolorosa, um património material
e imaterial recente, o que suscita inúmeros desafios.

Em setembro de 2019, a Fortaleza ação, inscreve-se no tempo futuro. Esse isolamento, e as condições
de Peniche, construída no século Essa é a grande mística do Património: agrestes inerentes à sua localização,
XVII e classificada como monumento pertencer por inteiro a todos os batida pelo mar e pelo vento, criou as
nacional desde 1938, passou para a tempos. condições ideais para servir de prisão
tutela da Direção-Geral do Património A Fortaleza de Peniche é exemplo política de 1934 a 1974.
Cultural, que de imediato deu início vivo desta dinâmica. Trata-se de um Após a libertação dos presos
aos procedimentos necessários à conjunto patrimonial notável, que políticos em 1974 (a Revolução de Abril
preservação do edificado histórico e à começou por ser uma fortificação ou dos Cravos), a Fortaleza de Peniche
criação daquele que será o 15º Museu militar, depois foi prisão política e agora foi de imediato reivindicada pelos
Nacional. renasce num uso distinto, enquanto habitantes da cidade de Peniche como
Os blocos prisionais construídos no espaço de cultura e memória. um espaço que pudesse ser visitado e
início da década de sessenta são hoje Mas é também o grande desafio do utilizado pelos seus habitantes.
um conjunto edificado em processo tempo presente – conseguir conciliar a A Fortaleza, monumento nacional,
de degradação pela sua falta de memória e perpetuá-la para o futuro, sempre esteve inacessível à população
funcionalidade. E todo o complexo sem a desvirtuar. devido às condicionantes próprias
defensivo, como as muralhas e os A Fortaleza de Peniche insere-se do seu uso, mas a comunidade local
baluartes, precisa de trabalhos de num conjunto militar defensivo de sempre a sentiu como sua.
consolidação e recuperação urgentes. fortificações construídas ao longo da Até à década de oitenta, a vila
costa marítima portuguesa ao longo peninsular, mais tarde cidade de
A Fortaleza e a cidade de Peniche
Peniche, estava ligada ao restante

S
dos séculos XVII e XVIII, de elevado
valor patrimonial e que teve um papel território por uma única estrada
abemos que o Património
estratégico no sistema defensivo do que durante o regime fascista era
Cultural, sendo memória, nunca
território português até ao século controlada pela Polícia de Defesa do
chega a ser, simplesmente,
XIX. Está implantada praticamente Estado, mais conhecida como PIDE.
passado. Ele pertence sempre
dentro do mar, numa península que em Isolada e controlada esteve
ao tempo presente, porque dele faz
tempos foi uma ilha. igualmente a população de Peniche
parte e nele participa. E, por essa

53
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Programa Revive, desenvolvido pelos


Ministérios da Cultura e da Economia
e Finanças, que incluía a Fortaleza de
Peniche no conjunto de 30 edifícios
a ser concessionados a investidores
privados.
Entendendo que não há
compatibilização possível, entre a
preservação da memória de um dos
mais simbólicos lugares da luta pela
liberdade em Portugal e uma unidade
hoteleira privada, o Governo, com o
apoio da Assembleia da República,
decide criar o Museu Nacional
Resistência e Liberdade na Fortaleza de
Peniche.(Resolução 73/2017 Conselho
Figura 2 – Blocos Prisionais. Fonte: Foto de José Paulo Ruas, 2018.
de Ministros).
que, em vários momentos, mostrou a cidade de Peniche transformou-se
Processo
sua solidariedade para com os presos em um símbolo maior da Resistência

C
políticos e suas famílias (participação ao Fascismo, o dia 27 de Abril de
omo resgatar, preservar
em protestos por melhores condições 1974, o dia da libertação dos presos
políticos é festejado todos os anos, e divulgar esse passado
de vida na prisão, acolhendo as famílias
como testemunham as placas doloroso/sensível vivido por
dos presos em sua casa, oferecendo
comemorativas existentes no espaço. muitos portugueses e expor
alimentos, “cooperando” nas fugas).
Placas comemorativas colocadas na esse património na Fortaleza? Quais
Este tipo de relação estabelecida
Fortaleza por instituições, associações, são os desafios?
entre uma prisão e uma comunidade
amigos e familiares, em homenagem Após o levantamento da
local é situação única em Portugal. Mas
aos antigos presos políticos da Prisão investigação existente até à data
devido à influência que a prisão política
de Peniche e à sua luta pela conquista sobre o tema, no âmbito da História
exerceu sobre a própria população de
da liberdade. Contemporânea, da Antropologia e
Peniche, ao condicionar profundamente
o seu quotidiano, existem algumas Em 1999, perante as dificuldades da Museologia, e após a recolha de
pessoas que preferiam esquecer esse financeiras de conservação, informação científica e técnica sobre
passado doloroso, enquanto outras manutenção e revitalização do espaço, projetos semelhantes existentes ou em
acham muito importante enaltecer o Município de Peniche decide instalar curso (Espaços de Memória/Direitos
essa memória da cidade. uma unidade hoteleira na Fortaleza e Humanos),noutros lugares do mundo,
É o caso de antigos presos políticos encomenda um projeto de arquitetura. o método do Diálogo impôs-se.
e os seus familiares, provenientes de Essa decisão, que implicaria alterações Dialogar com as entidades e as
regiões de norte a sul de Portugal, e os nos antigos blocos prisionais, é alvo de pessoas que de um modo ou de outro
portugueses simpatizantes ou ligados uma forte contestação local e nacional, estiveram ligadas à Prisão Política
a movimentos cívicos que reivindicam protagonizada por muitos cidadãos e e à Fortaleza de Peniche,sobre esse
a criação de um Museu Nacional da pelas forças políticas de esquerda. passado recente e as oportunidades
Resistência e da Liberdade. A polémica atinge o seu auge em atuais - e envolvê-los no objetivo de
Ao longo dos anos a Fortaleza da 2016, quando o Governo anuncia o conceber a Fortaleza de Peniche como

54
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

um espaço de memória, de promoção


dos direitos humanos, dos valores da
cidadania e dos ideais de democracia
– visando a criação do Museu
Nacional Resistência e Liberdade
em prol do desenvolvimento social
e cultural tornou-se, desde então,
uma prioridade da Direção-Geral do
Património Cultural.
Se por um lado trabalhamos com um
distanciamento histórico confortável,
na medida em que já passaram 46
anos desde os acontecimentos que
nos propomos narrar em discurso
museológico, por outro lado temos
o enorme privilégio de enriquecer a Figura 3 – Fortaleza de Peniche. Fonte: Foto de José Paulo Ruas, 2018.
nossa tarefa com os contributos de
muitos dos que viveram aquele período se destacou pela “sobreposição de neste primeiro momento a Exposição
e estiveram nesta prisão. percursos de diferente natureza nunca “Por Teu Livre Pensamento” e o
A abordagem para iniciar perdendo, cada um deles, autonomia, Memorial de homenagem aos presos
o projeto foi criar um Comité significado ou fluidez no seu conjunto”. políticos.
Prevê-se que o Museu Nacional Trata-se de um ato profundamente
Executivo e um Grupo Consultivo
Resistência e Liberdade esteja simbólico, a marcar a abertura ao
(CICAM - Comissão de Instalação
concluído em 2022, mas, até lá, a público de um projeto museológico
dos Conteúdos e da Apresentação
Direção Geral do Património Cultural ímpar, que tem desafiado a Direção-
Museológica) constituídos por
decidiu abrir alguns dos espaços da Geral do Património Cultural em
elementos chave: antigos presos
Fortaleza de Peniche. múltiplas e entusiásticas frentes,
políticos, investigadores, professores,
abraçadas por uma equipa vasta
representantes da população de e multidisciplinar de qualificados
A reabertura da Fortaleza
Peniche, museólogos, arquitetos,

A
profissionais dos seus quadros.
engenheiros e responsáveis da Fortaleza de Peniche reabriu O objetivo da exposição é prestar
Direção-Geral do Património Cultural ao público a 25 de abril de homenagear aos antigos presos, às
e do Ministério da Cultura. Diferentes 2019, investida num novo suas famílias, à população de Peniche e
experiências de vida, perspetivas e uso de índole museológica, aos milhares de homens e mulheres que
conhecimentos em Diálogo sobre o que posiciona Portugal no roteiro dedicaram as suas vidas à resistência ao
programa do Museu. internacional dos chamados Museus de fascismo e à conquista da Liberdade.
A 7 de fevereiro de 2018 foi lançado Memória, evocativos de lutas travadas Na exposição, resgatam-se
o concurso público de arquitetura, em nome da Liberdade e dos Direitos momentos marcantes da História
incidindo a escolha final no projeto Humanos. Contemporânea a partir de
do Atelier AR4, sob a coordenação de Resultado de um profundo trabalho documentos, fotografias e objetos que
João Barros Matos. de pesquisa desenvolvido pela integrarão o acervo do futuro Museu.
Das 22 propostas apresentadas, CICAM, que irá ser continuado e que Há também registos fílmicos que
o júri considerou que a vencedora se consolidará em 202I, inaugurou-se documentam testemunhos de presos

55
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

políticos, de seus familiares e as fugas


heroicas, com destaque as que foram
protagonizadas por Dias Lourenço
e Álvaro Cunhal. E um núcleo com a
história da Fortaleza desde o século
XVI até aos nossos dias.
O Memorial, instalado na entrada
da Fortaleza, é uma peça de grandes
dimensões executada em aço corten, e
apresenta gravados os nomes dos 2510
presos políticos que passaram pela
Cadeia de Peniche ao longo de 48 anos
de repressão do Estado Novo.
Considerações

É
com assumido orgulho que
estamos a posicionar Portugal
na rota internacional dos
Figura 4 – Exposição “Por teu Livre Pensamento”. Fonte: Foto de Arlindo Homem, 2019. monumentos e museus que
celebram os Direitos Humanos.
No tempo conturbado em que
vivemos, a chamada de atenção para
essa conquista torna-se quase um
imperativo ético, e é seguramente uma
questão de cidadania global.
O 15º Museu Nacional perpetuará
a memória da resistência à ditadura
e afirmar-se-á como espaço de
homenagem à árdua e sofrida luta
travada em nome da Liberdade e
dos Direitos Humanos em Portugal,
durante 48 longos anos de repressão.
Constituir-se-á, também, como
fonte de conhecimento e de reflexão
sobre valores humanistas que, sendo
matriciais, são contudo facilmente
perecíveis ao sabor dos ciclos da
História.
Ao retratar o sofrimento do que
é não ser livre, sequer para pensar,
Figura 5 – Memorial. Fonte: Foto de Teresa Pacheco Albino, 2019.

56
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

ultrapassamos o campo da memória e


apontamos claramente para o futuro.
Este Museu lembrar-nos-á sempre que
a mais valorosa conquista de abril de
1974 - a Liberdade - continuará a ser o
que não queremos, nunca mais, perder.

Paula Araújo da Silva

Licenciada em Arquitetura pela


Escola Superior de Belas Artes
do Porto e Mestre em Arqueologia
pela Universidade do Minho. Diretora-
Geral do Património Cultural

Teresa Pacheco Albino

Licenciada em Antropologia
Cultural pela Universidade Nova
de Lisboa e Mestre em Relações
Interculturais pela Universidade Aberta.
Chefe da Divisão do Património Imóvel,
Móvel e Imaterial e Coordenadora
do Museu Nacional Resistência e
Liberdade/Fortaleza de Peniche da
Direção-Geral do Património Cultural

57
Figura 1 – Mapa da Rota do Românico – 58 monumentos nos 12 municípios. Fonte: elaborado pelos autores, 2019.
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Maria do Rosário Correia Machado e António Duarte Pinheiro

Rota do românico: um produto turístico


estruturado

Na atualidade, a luta de afirmação dos territórios numa lógica de estratégia de desenvolvimento


local e/ou regional, operacionalizada através de um instrumento económico complexo que resulta
da atração de fluxos de visitantes e turistas, o turismo cultural surge como um dos eixos principais
dessas estratégias das políticas públicas.

“…uma nova moral […] considera os hotelaria, de transportes, de animação nacionalidade portuguesa e testemunhos
valores culturais como um património e restauração, administrativos e do papel relevante que este território
comum, aberto, para lá das fronteiras organizativos, entre outros. Estes são outrora desempenhou na história da
e exigindo esforços unificados. atributos de sobra para, com base nos nobreza e das ordens religiosas em
Respeitando o valor inerente a cada conceitos e metodologias abordados, Portugal.
um dos seus elementos […] enriquece desenvolvermos experiências turísticas Desde a sua génese em 1998, a Rota
a mensagem espiritual do passado de únicas e inesquecíveis, respondendo do Românico assume-se como um projeto
todos os que compõem como peças às necessidades e aos desejos de um público de cariz supramunicipal, que
pertencentes a um conjunto que reforça turista que pretende sair do processo de visa contribuir para o desenvolvimento
o seu sentido. Ilustra igualmente a consumo transformado a estruturação de integrado e sustentado de toda a região,
conceção contemporânea dos valores do produtos turísticos”. A Rota do Românico fomentando a competitividade, a coesão
património para a sociedade, enquanto encontrou forma de integrar os circuitos e a identidade territoriais, numa ótica de
recurso para um desenvolvimento social tradicionais de comercialização. qualificação e de valorização económica
e económico durável.” (ICOMOS, 2008: de um conjunto de recursos endógenos
Rota do Românico: uma experiência
1). O turismo surge assim como um distintivos – o denso e rico património
fundada na história
instrumento para o desenvolvimento edificado e intangível deste território.

E
social e económico sustentável, refira- Ancorada num conjunto de monumentos
se, contudo, que o turismo cultural não m terras dos vales do Sousa, do de grande valor e de excecionais
é, na verdade, uma criação recente. Tem Douro e do Tâmega, no coração particularidades, esta Rota pretende
assumido um crescimento significativo do Norte de Portugal, ergue- assumir um papel de excelência no âmbito
ao nível do sector económico, resultado se um importante património do touring cultural, capaz de posicionar a
de um conjunto muito vasto de fatores, arquitetónico de origem românica. A região como um destino de referência do
entre eles, a já referida direccionalidade sua riqueza e singularidade estiveram na românico nacional.
das estratégias de desenvolvimento dos génese do projeto da Rota do Românico, A melhoria da qualidade ambiental
territórios. um itinerário estruturado que leva os e da reestruturação física do território,
Segundo Nuno Madeira, 2010 “…só se visitantes à descoberta de mais de meia protegendo-o e impulsionando o seu
vende aquilo que temos; a nossa oferta e centena de elementos patrimoniais, correto reordenamento, através do
os nossos destinos são compostos por um desde mosteiros, igrejas, capelas, planeamento turístico dos recursos,
rico e diversificado património cultural, memoriais, castelos, torres e pontes, das infraestruturas de suporte e
natural e ambiental, entre outros recursos, edificados sobretudo entre os séculos XII das facilidades de apoio turísticas; o
combinados com serviços qualificados de e XIV, intimamente ligados à fundação da desenvolvimento de uma nova fileira

59
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

produtiva, associada ao turismo e com uma linha de “merchandising”. A dinamização turística e a estruturação
forte potencial de dinamização de Foram instalados painéis informativos do produto

O
atividades conexas, passível de compensar bilingues com informação histórica,
a tradicional monodependência industrial arquitetónica e geográfica em todos os que é o Turismo?
desta região; a dinamização de cursos monumentos da Rota do Românico, assim Diz a Organização Mundial
e ações de formação que contribuam como o sistema de sinalização turística e de Turismo – OMT (2000)
para a formação dos profissionais do cultural em toda a rede viária da região. que se entende por turismo
turismo e de atividades associadas, que Perante o imperativo de cidadania de “as actividades das pessoas durante
facilitem o aumento da empregabilidade promover a mobilidade e a acessibilidade as suas viagens e estadas fora do seu
qualificada; e, por último, a melhoria da para todos, tem sido desenvolvido, meio envolvente habitual, num período
imagem, interna e externa, da região desde 2008, o Plano de Promoção da consecutivo que não ultrapassa um ano,
onde se insere, reforçando a autoestima Acessibilidade da Rota do Românico, por motivo de lazer, negócios ou outros.
coletiva, constituem igualmente outros identificadas as necessidades de Ficam de fora as viagens com o objectivo
intervenção nos monumentos, nas suas de exercer uma profissão fora do seu meio
importantes objetivos da Rota do
envolventes e nos acessos aos transportes envolvente habitual”.
Românico.
públicos. No âmbito da comunicação O turismo do ponto de vista
acessível e da infoacessibilidade, económico, como refere Licínio Cunha
Como nasce o projeto
procedeu-se à produção de materiais de (1997), abrange todas as deslocações
Em 1998, foram selecionados 21
informação em escrita braille e de um de pessoas, quaisquer que sejam
monumentos dos seis municípios (Castelo
vídeo promocional com legendagem as motivações que as obriguem ao
de Paiva, Felgueiras, Lousada, Paços
e língua gestual, bem como à pagamento de prestações e serviços
de Ferreira, Paredes e Penafiel) que
implementação de uma ferramenta que durante as suas deslocações, pagamento
compõem a VALSOUSA – Associação dos
permite uma versão falada dos conteúdos esse superior ao rendimento que,
Municípios do Vale do Sousa e, em 2003, no
do nosso sítio da internet em tempo real. eventualmente, aufiram nos locais
âmbito dos cofinanciamentos europeus,
Em 2008, a Rota do Românico iniciou visitados e a uma permanência temporária
deu-se início ao desenvolvimento
um processo de concertação entre os fora da sua residência habitual.
concreto deste projeto através das
ações de conservação e valorização dos vários agentes económicos da região,
tanto públicos como privados, com o O Turista Cultural
monumentos previamente selecionados.
objetivo de apresentar uma verdadeira O primeiro passo para a
Para além da componente
estratégia de eficiência coletiva em torno comercialização de um produto é saber
infraestrutural, entendeu-se que o plano
de um objetivo comum – a dinamização a quem o devermos dirigir. O turista já
de ação da Rota do Românico deveria
da Rota do Românico. não é hoje aquele turista que nos anos 70
incluir uma componente imaterial,
Em março de 2010, os municípios respondia assim a uma pergunta sobre
que permitisse elaborar materiais de
de Amarante, Baião, Celorico de Basto, o grau de conhecimento da história,
informação e promoção do património
Cinfães, Marco de Canaveses e Resende da cultura e do património cultural do
românico da região.
firmaram um protocolo de adesão à Rota país visitado: “Sim, conheço bem o país
Ainda antes da apresentação pública
do Românico. O processo de seleção do onde estou, dado que já li tudo sobre
da Rota do Românico, que viria a ocorrer este destino na brochura fornecida pelo
património de origem românica desses
a 18 de abril de 2008, foi desenvolvido um municípios culminou na integração de agente de viagens” (De Kadt, 1979). De
conjunto de materiais de comunicação, 34 elementos patrimoniais, localizados acordo com (Bodo, 1995; Prentice,1993),
entre eles uma publicação científica, um no Baixo Tâmega/Douro Sul, e de mais as características socioeconômicas do
guia turístico, uma brochura, um vídeo três, no Vale do Sousa, sendo a Rota do turista cultural são:
promocional, um mapa de bolso, um sítio Românico atualmente composta por 58 “Visitantes estrangeiros de idiomas
na internet (www.rotadoromanico.com) e monumentos. e bagagens culturais diferentes”,

60
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

“Cidadãos do próprio país, que procuram


uma relação mais aprofundada com o
seu património cultural”, “Residentes
locais que procuram um conhecimento
mais aprofundado do território que
habita”, “Pessoas com rendimentos
acima da média, que gastam mais, que
passam mais tempo num mesmo sítio”,
“Pessoas com mais probabilidade de
alojamento em hotéis”, “Pessoas cultas
e provavelmente mulheres”, “Jovens que
procuram experiências culturais intensas
e pouco estereotipadas”, Whoopies
(Wealthy Healthy Older People), pessoas
mais velhas com meios económicos e
saúde. Vinte por cento dos australianos,
norte-americanos e europeus, em geral,
têm mais de 60 anos”, “Turistas de “alta
qualidade”, desejáveis, pois são cultos, Figura 2 – Modelo de interação dos produtos turísticos com o território. Fonte: elaborado pelos auto-
poderosos e distinguidos”. res, 2020.

O Destino Turístico conceito alargado que inclui o atributo como produto turístico, estimular nos
O destino turístico contempla todo funcional básico, ao qual acrescem o intervenientes da indústria turística uma
o conjunto de elementos e organizações preço, o design, as parcerias, a imagem, melhoria nos padrões de qualidade, em
que desenvolvem a atividade turística a marca, o prestígio, o serviço pós-venda, produtos, serviços e recursos humanos
e que contribuem ativamente para o atendimento, a assistência, a garantia e e garantir uma maior cooperação entre
a estruturação do ou dos produtos outros atributos. Para a estruturação do todos os agentes, públicos e privados,
turísticos. Um destino é normalmente produto turístico, muito tem contribuído que participam no setor do turismo,
gerido pelas entidades públicas, a implementação em 2014, do Sistema mediante um processo de qualificação.
nacionais e regionais que procuram de Valorização de Produtos e Serviços da Este sistema permite a identificação dos
identificar as melhores estratégias para Rota do Românico – Selo de Qualidade, diferentes parceiros, e com eles facilitar
se posicionarem através das suas marcas envolvendo as unidades de alojamento, a organização e a interligação com os
e dos seus produtos. restauração e produtores locais, cujo vários operadores turísticos, empresas
Como refere a SAER (2005), o turismo objetivo é assegurar um patamar de de animação e agências de viagem que
é uma constelação de serviços, um qualidade uniforme capaz de garantir desta forma inserem a Rota do Românico
conceito que espelha bem os inúmeros uma oferta equilibrada e harmoniosa nos seus circuitos de comerciais. Na
elementos presentes no destino. dos diferentes tipos de bens e serviços comercialização de destinos e produtos
disponibilizados ao turista e visitantes, turísticos teremos sempre como cliente
O Produto Turístico consolidar o produto turístico de um turista atual que, no seu processo
Segundo Lambin (1998), o produto forma integrada e aumentar o nível de de aquisição quer poder a qualquer
é o conjunto de atributos tangíveis confiança e satisfação dos visitantes e momento ter acesso a toda a informação
e intangíveis que o comprador pode turistas, melhorar a imagem e o prestígio que lhe permita adquirir e concretizar
aceitar no sentido de satisfazer uma da Rota do Românico e do turismo o seu desejo em tempo imediato. Cada
necessidade ou expectativa. Este é um da região, acrescentar valor à marca vez mais recorrendo à Internet que lhe

61
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

permite comparar destinos, produtos cultural contribuindo de forma decisiva, Universidade do Minho, 2015.
e serviços de forma transparente, para o aumento da notoriedade do SAER, Reinventando o Turismo em
clara com condições e preços, e assim seu território de influência e para o seu Portugal. Estratégia de Desenvolvimento
organizar o seu produto com grande desenvolvimento. Não sendo a tábua Turístico Português no 1.º Quartel do Séc.
flexibilidade. Esta comercialização é feita de salvação de uma região marcada por XXI, 2005.
essencialmente através das empresas de estrangulamentos socioeconômicos Recursos on-line:
animação turística, operadores turísticos estruturais, a Rota do Românico tem <http://www.unwto.org/index.php>.
e agências de viagens que em estreita vindo a contribuir decisivamente para a Acesso em 03 de abril de 2020.
colaboração com a Rota do Românico captação de visitantes e turistas, para a
conseguem apresentar um conjunto promoção do crescimento económico da
diversificado de programas turísticos, região, com reflexos diretos e indiretos na
que vão ao encontro dos seus potenciais criação de riqueza e de emprego. Tem sido
clientes previamente identificados. Esta criado um número crescente de negócios
oferta estruturada é apresentada não só associados ao turismo, nomeadamente
nas plataformas eletrónicas, na forma de na área da restauração, dos produtos
sites, redes sociais e outras tecnologias regionais, dos transportes, da animação
que ganham cada vez mais expressão, turística e do alojamento. A Rota do
mas também através da presença em Românico constitui, de forma inequívoca,
eventos e certames do setor. um dos produtos turístico-culturais mais
Desde 2008 que a Rota do relevantes de Portugal, a que já está
Românico encara como um instrumento associada uma imagem de qualidade,
fundamental para a sua projeção junto reconhecida, entre outras formas, pelos
dos principais mercados emissores prémios que tem vindo a granjear, em
a participação não só em feiras e particular, nos últimos anos por diversas
exposições locais e regionais promovidas entidades públicas e privadas.
por entidades do território onde está
Maria do Rosário Correia Machado
inserida, como também a nível nacional Referências bibliográficas
e internacional, marcando presença nas Licenciada em Sociologia pela
mais importantes e conceituadas feiras BODO, C. Nuevas Políticas para un
Faculdade de Economia
do setor como a ITB Berlim, na Alemanha, turismo cultural sostenible. Actas das
da Universidade de Coimbra.
a FITUR – Feira Internacional de Turismo, Jornadas Europeias da Cultura, Lazer e
Turimo. Guadalupe: Cáceres, 1995. Doutoranda em Estudos Culturais na
em Espanha, a AR&PA – Bienal do Universidade do Minho. É membro
Restauro e Gestão do Património, CUNHA, Licínio., Economia e Política
do Turismo, Editorial Verbo, Lisboa, 1997. do Conselho Internacional de
também em Espanha, e a BTL - Bolsa de Monumentos e Sítios - ICOMOS
Turismo de Lisboa. DE KADT, E. Turismo: ¿Pasaporte al
desarrollo?. Madrid: Edymion, 1991.
António Duarte Pinheiro
Conclusão MADEIRA, Nuno. Marketing e

A
Comercialização de Produtos Turísticos. Graduado em Turismo pelo Instituto
Rota do Românico é Lisboa, SPI, 2010. Superior de Ciências Empresariais e
considerada, a nível nacional e ICOMOS. Carta dos Itinerários do Turismo. Mestre em Patrimônio e
internacional, um verdadeiro Culturais. Québec, Canadá, 2008. Turismo Cultural pela Universidade do
caso de sucesso e um exemplo PINHEIRO, António. O Perfil do Turista Minho. Integra a equipa da Rota do
de boas práticas no que diz respeito à no Destino da Rota Românico, Mestrado Românico para a área da dinamização
conservação e valorização do património em Património e Turismo Cultural, turística e cultural desde 2007

62
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Thaís Motta do Nascimento e Cláudia Carvalho Leme Nóbrega

PATRIMÔNIO ARQUITETÔNICO PORTUGUÊS


ULTRAMARINO: APROXIMADOR DE DIFERENTES POVOS

Durante o século XV e XVI Portugal realizou expedições marítimas que possibilitaram o


descobrimento de novos territórios. Com objetivos político-sociais, econômicos e religiosos,
foram estabelecidas colônias em diversas localidades, construídas a partir de padrões
portugueses, que contemplam um vasto patrimônio que abrange a arquitetura militar, civil
e religiosa. Essas edificações ficaram como registro de um período histórico marcado pelo
imperialismo, e nelas é possível reconhecer as particularidades derivadas do meio sociocultural
e ambiente, independentemente de um padrão português sobreposto. As peculiaridades locais
compreendem desde representações artísticas a métodos construtivos únicos, que atualmente
são tidas como patrimônio da humanidade.
Nesse contexto, os portugueses na paisagem. Dentro desse nicho, foi a arquitetura portuguesa edificada no
alcançaram à África, Ásia e América, escolhido investigar quanto a produção Brasil e na Índia, a ser desenvolvido em
constituindo muitas colônias. O presente Jesuíta nas duas colônias estudadas, Doutorado.
trabalho trata-se de uma primeira por seu papel expressivo na colonização
aproximação ao estudo de duas ex-colônia de áreas conquistadas junto à coroa O contexto português perante a expansão
distantes entre si: o Brasil e a Índia. portuguesa. Foram escolhidas uma igreja marítima

D
Países que tiveram seu descobrimento jesuíta em cada uma dessas colônias,
e desenvolvimento como colônia representativas quanto ao valor histórico, urante a Idade Média, Portugal,
praticamente simultâneos e, apesar de para analisar suas características situado na Europa Ocidental,
terem se tornado ex-colônias em períodos arquitetônicas e compará-las a uma igreja despontou a se consolidar como
díspares no tempo, ainda preservam jesuíta construída em Portugal no mesmo um reino. De acordo com Fausto
edificações originais do período de período. (1995), o contexto histórico durante o
administração portuguesa, em que serão Esse estudo possibilitou identificar século XIV se constituía de guerras pela
analisadas semelhanças e diferenças semelhanças e diferenças, principalmente disputa de territórios, pela expansão da
existentes nesse patrimônio. derivadas do contexto histórico-político Europa Cristã, crises econômicas, escassez
Foi escolhido em um primeiro vivenciado em cada colônia no mesmo de alimentos e epidemias, que ocasionou
momento, para possibilitar uma período. Foi possível também, o no declínio da população. Motivos
comparação detalhada, explorar o reconhecimento do legado português esses, que a única solução possível, foi
patrimônio religioso, por seu potencial que foi deixado e que acaba por aproximar o investimento na expansão da base
representativo e por seu destaque esses povos. geográfica e da exploração de outras
A pesquisa realizada para a produção populações.
Página anterior desse artigo faz parte do eixo temático Nessas circunstâncias, Portugal
Figura 1 – Fronteira dos limites do território diversidade e mistura, sendo uma veio investir na expansão marítima
português na Índia em 1950. Fonte: Acervo pioneiramente no início do século XV.
da Revista Visão História. Modificado pela proposta de um estudo comparativo para
autora, 2020. reconhecimento de características entre Além de sua posição privilegiada, voltada

65
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

para o Oceano Atlântico, Fausto (1995) África, até a chegada à Índia ocorrer em e ornamentações decorativas levaram
destaca que a exploração marítima era 1498. Nesse contexto, o Brasil veio a ser a arquitetura portuguesa a ter uma
interessante para diferentes grupos descoberto por uma comissão comandada expressão no território indiano que não
sociais: para a Coroa e para a nobreza, pela por Pedro Álvares Cabral, em 1500, a aconteceu de forma igual em nenhuma
melhoria no comércio e a criação de novas caminho das Índias, por conta de um outra colônia, fator que justifica a diferença
fontes de receita; para o Clero, sendo um desvio feito no trajeto. da expressividade nas construções entre a
meio para a expansão da religião,assim O autor Luis Silveira (sem Índia e o Brasil:
como a recuperação de áreas que passaram data),comenta que houve grande diferença
Afastando-se
a ser de domínio muçulmano; e para o do que foi encontrado na América do significativamente dos
povo, pela oportunidade de emigração e Sul e na Índia. No território que viria a modelos comportamentais
restabelecimento em um território com conformar o Brasil não foram encontradas europeus este discurso
transporta-se para a cultura
mais recursos, se tornando “um grande povoações consolidadas, o que possibilitou estética e para a arquitectura
projeto nacional”. as cidades serem construídas desde revelando uma das
Esse projeto envolvia também alguns à raiz, sem influências locais. Tendo características mais peculiares
da arquitectura indo-
outros objetivos, como a busca por bens somente as demandas de adaptações portuguesa que se expressa
estratégicos como: o ouro, aceito como ao clima que levaram às modificações por uma forte acentuação
moeda de trocas e utilizado em larga escala em relação à estabilização de um padrão da dimensão simbólica dos
seus elementos formais. [...]
para decorações; e as especiarias,usadas português. Entretanto, nas cidades da Este aumento de escala e
como tempero, conservante alimentício, Ásia, principalmente na Índia,por terem se preocupação na acentuação da
remédios e perfumes. O difícil acesso a deparado com civilizações estabilizadas, a carga simbólica dos elementos
formais vai dotar toda a
esses itens os tornavam objetos de alto implantação no território não foi facilitada, produção arquitectónica
valor comercial, especialmente por serem por isso,a construção da cidade portuguesa dum aparato decorativo e
vendidos em pequenas quantidades. se deu de forma diferente, acabando duma monumentalidade sem
paralelo com a arquitectura
Posteriormente a estabilização de algumas inclusive, vindo a conformar características produzida noutros lugares do
colônias na costa africana, a venda de próprias de um tipo luso-índico. Império. (CARITA, 1999, p.80)
escravos também veio a se tornar uma das
principais fontes de renda portuguesa, a A implantação das colônias no Brasil Em paralelo, no Brasil, os portugueses
partir de 1441. Fausto (1995) destaca a e na Índia tiveram maior facilidade em controlar o

C
exploração iniciada na África possibilitou território vista à falta de infraestrutura
a melhora da economia de Portugal, além onforme o apresentado e limitação dos nativos. Os índios se
de manter os investimentos as expedições. anteriormente, os portugueses caracterizavam em tribos nômades, que se
Posteriormente, veio ao conhecimento, encontraram na Índia uma estabilizavam de acordo com os recursos
por conta do domínio comercial terrestre, sociedade e cultura consolidadas. disponíveis. Perante a esse quadro, os
por parte dos muçulmanos, que a Índia Carita (1999) aponta que devido a portugueses fizeram escambos com as
era a principal fonte de especiarias.Deste divisão em castas que regulavam os tribos amigáveis, ou utilizaram formas de
modo, o rei D. João II inicia às expedições comportamentos sociais, o ambiente dominação mais agressivas, em casos de
marítimas em busca da Índia. Contudo, encontrado não foi amistoso à presença tribos resistentes à imposição de uma nova
os portugueses precisaram fazer diversas dos portugueses, “revelando uma invulgar cultura. O território foi sendo contido e foi
viagens e paradas no continente africano capacidade de adaptação dos portugueses construído o primeiro arraial, que veio a
em busca do objetivo principal. Vindo a na Índia”. Essa situação fez com que fosse se tornar a primeira cidade, São Salvador,
ocorrer a primeira conquista, a Cidade de desenvolvido na arquitetura uma forma com a construção de uma fortaleza.
Ceuta, em 1415. Durante esse processo, ao de imposição da presença portuguesa Com o desenvolvimento da plantação de
avançarem no percurso, os portugueses nesse território. O autor destaca que a cana-de-açúcar e a divisão da terra em
alcançaram as ilhas do Atlântico, além da dimensão simbólica expressa em escalas capitanias hereditárias, para aumentar

66
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

a proteção, a ocupação e a produção, colônias. Segundo Branco (sem data), Análise comparativa do patrimônio
Portugal, veio a recorrer à Companhia com arquitetônico jesuíta da colonização
houve investimento na arquitetura militar
portuguesa em Salvador e em Goa
e religiosa, fortemente expressivas como alguns objetivos: levar o catolicismo às

T
segurança da colônia. novas colônias; catequização dos índios da
odas as construções produzidas
Dessa forma, é reconhecível as América com ensino da civilização; difundir
nas colônias foram baseadas em
diferentes expressões portuguesas nos a religião no oriente; criar escolas católicas
padrões e linguagens europeus.
territórios dominados. Por exemplo, pelo mundo.
Desse modo, foram escolhidos
na Índia houve uma maior expressão Os Jesuítas chegaram na América,
um exemplar em Portugal e um em cada
renascentista, enquanto no Brasil em 1549, tendo o objetivo de auxiliar na
uma das colônias supracitadas, para
inicialmente, a arquitetura colonial era construção da cidade de Salvador, primeira
realizar uma análise comparativa,de modo
mais simplificada, apesar de também capital da colônia. Constituíram a Bahia
a identificar semelhanças e diferenças
se utilizar de elementos originados da como sede da província, e conformaram
em relação às produções nas diferentes
linguagem clássica e haver exemplares um vasto patrimônio composto por igrejas,
localidades, representativas da presença
em estilo maneirista. Esse fator também mosteiros e colégios, além da atuação em
lusitana nesses lugares. Os exemplos
é relativo ao fato de que na Índia já havia hospitais, prisões, orfanatos e fortalezas,
escolhidos foram: a Sé Nova, Catedral
o comércio de ouro, pedras preciosas até a expulsão, em 1759.
de Coimbra, construída no ano de 1640
e especiarias, enquanto no Brasil, em Já no Oriente, a chegada à Índia se
e inaugurada por completo em 1698; a
um primeiro momento foi explorado deu entre os anos de 1499 a 1542, com o
Basílica do Bom Jesus, localizada em Goa,
o comércio de madeira, depois a cana- mesmo papel. Era visada a agregação do
Índia, concluída em 1605; e por fim, a
de-açúcar, até chegar no período mais território e na formação de uma identidade,
Catedral de Salvador, inaugurada em 1672,
lucrativo com a descoberta das minas tendo um só governo e uma só religião,
localizada na Bahia, Brasil.
de ouro, no século XVII e XVIII. Nesse que funcionavam como aglutinadores
Ambas as edificações são em estilo
momento a arquitetura teve maior do Império. Contudo, os autores Felipe
barroco, sendo similares a suntuosidade
expressividade com o estilo barroco e Borges e Célio Costa (2013) apontam que
e a imponência, que as destacam na
rococó, com ostentação decorativa com o mau desempenho da evangelização na
paisagem. Ao analisar a composição das
o uso de ouro e o aumento da escala nas Índia, justificou o fracasso da consolidação
fachadas, são reconhecidos elementos
construções religiosas. Em comparação, da colônia, em frente a forte influência
que acentuam a verticalidade, como as
a necessidade dos portugueses de se de outras religiões existentes nesse lugar.
colunas adossadas com capitéis clássicos,
fazerem presentes no território indiano Como Goa foi estabelecida como capital da
destacadas em cor de rosa na comparação
era tanta, que algumas edificações foram província das Índias, assim como Salvador,
da figura 4. Assim como os frisos, que
construídas com peças produzidas em a concentração dos jesuítas também
marcam a horizontalidade, por mais que as
Lisboa e enviadas para Goa, para garantir foi expressiva lá. O que fundamenta
divisões entre eles não sigam as mesmas
os elementos idênticos aos existentes em o primeiro recorte deste trabalho se
proporções (em rosa escuro nas figuras
Portugal, de acordo com Carita (1999). concentrar na análise dessas duas cidades. 4 a 6). Há também o uso de elementos
Por conta da influência exercida pelos classicizantes, como as vergas, que
O papel dos Jesuítas na construção
religiosos, as edificações construídas por destacam as janelas, sendo diferenciadas
das colônias
eles tiveram igual papel, constituindo um

A
somente na igreja indiana, que tem vergas
vasto patrimônio, que em parte, resiste retas decoradas e óculos envidraçados
linhada às demandas de
expansão da fé católica, a até os dias de hoje. Sendo justificado como aberturas. Todas as três edificações
ordem religiosa Companhia ser escolhido o patrimônio jesuíta como detêm três portas na fachada, em que a
de Jesus, criada em 1534, teve representativo da presença portuguesa entrada central é de maiores dimensões,
um importante papel na consolidação nos territórios coloniais, como a segunda sendo a da Basílica de Goa, a única que
de novos territórios descobertos como etapa desse estudo. apresenta a porta central arqueada,

67
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

destacadas em azul claro, nas figuras 4 a 6.


Ainda é possível reconhecer diversas
outras características na análise das
figuras 4 a 6, como: as semelhanças
no coroamento da igreja indiana e
da brasileira, destacados em laranja,
que apresentam volutas laterais e
pináculos, coroados por um pequeno
frontão triangular, que se dão de
forma diferente na igreja portuguesa;
a dessemelhança entre os referidos
coroamentos acontecem na igreja de
Goa pelo brasão central dos jesuítas,
e na igreja da Bahia, pela grande
janela central; A presença das torres
sineiras,presente nos exemplares
português e no brasileiro, destacadas
em verde.Ambas têm o mesmo
tratamento e o mesmo telhado;O
uso de estátuas em nichos, que,
entretanto, são utilizadas em posições
distintas na fachada, destacadas em
amarelo; o tratamento material, por
serem mantidos crus, ao mostrar
suas texturas. Dessa forma, a igreja
de Portugal e a do Brasil mostram
igualdade, ao se utilizarem de pedra de
Lioz. Diferentemente, a igreja da Índia,
em que se utiliza de Laterite, uma pedra
local usada por conta da dificuldade
de achar materiais conhecidos pelos
colonizadores no local.
Ao analisar as plantas é visto que
as igrejas usam a cruz latina e têm

Coluna 1
Figuras 1 a 3 – Sé Nova, Catedral de Coimbra. Foto de Gas-
par Alves, 2011; Basílica de Bom Jesus, Goa. Foto de Rajan
P. Parrikar, 2010; Catedral de Salvador, Bahia. Foto de Paul
R. Burley, 2019.

Coluna 2
Figuras 4 a 6 – Análise comparativa da composição das
fachadas nas três igrejas. Sobreposições elaboradas pela
autora, 2020.

68
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

transeptos laterais, destacados em uso exagerado de dourado e o uso de reconhecíveis. Lúcio costa (1941),
vermelho nas figuras 7, 8 e 9. Sendo que colunas em espirais duplas e triplas, descreveu que a arte jesuítica pode se
na Sé Nova e na Catedral de Salvador, que criam movimento de ascensão manifestar de formas variadas, a partir
as capelas laterais são profundas e para as composições. O altar principal dos recursos locais e de características
intercomunicáveis, diferentemente da acontece, em todas as igrejas, sob um de estilos predominantes em cada
Basílica de Bom Jesus, indicadas em vão abobadado, com teto decorado em período, apesar da mudança das formas,
rosa claro, nas figuras 7 e 9. caixotões, apoiado em colunas clássicas, de materiais e técnicas, essa é sempre
Em seus interiores muitas conforme as figuras 10, 11 e 12. reconhecível. Ainda assim, autores como
semelhanças são reconhecíveis. Apesar de todas essas igrejas já Rui Lobo (2014) defendem que existem
Nos exemplos são encontradas terem passado por intervenções, diferenças entre as produções nessas
características do estilo barroco, como suas características gerais ainda são duas colônias, em que no Brasil houve

Figuras 7 a 9 – Planta Baixa Sé Nova – Catedral de Coimbra. Fonte: Acervo blog Acerca de Coimbra; Planta da Basílica de
Bom Jesus. Fonte: Nss Akhil, 2016; Planta da Catedral de Salvador. Fonte: IPAC. Imagens adaptadas pela autora, 2020.

Figuras 10 a 12 – Interior Sé nova Coimbra. Foto de Vitor Oliveira, 2013; Interior da Basílica de Bom Jesus. Foto de Matthew
Williams-Ellis, 2017. Interior Catedral de Salvador. Foto de Amanda Silveira, sem data.

69
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

uma produção aproximada ao português como nos telhados de quatro águas, em Companhia de Jesus no século XVI. Lisboa:
original, e na Índia existiam influências varandas, conformando um tipo Indo- sem data. Disponível em: <http://www.ipv.
vindas de Roma, flamengas e das próprias português. Do mesmo modo, só que pt/millenium/Millenium36/6.pdf>. Acesso
civilizações locais, o que confirma a talvez mais sutil, aconteceu no Brasil, com em 23 de fevereiro de 2020.
mescla das características portuguesas algumas influências indígenas aplicadas CARITA, Helder. Arquitetura civil indo-
com as vernáculas desses dois lugares. na arquitetura, como o uso da taipa de portuguesa e a paisagem urbana de Goa.
Contudo, independentemente das pilão e do pau-a-pique, assim como a 1999, p.78-89.
semelhanças ou diferenças, é facilmente utilização de outros materiais vindos da COSTA, Lúcio. A arquitetura dos
reconhecível uma linguagem que natureza aplicados na edificação. Jesuítas no Brasil. In: Revista do Serviço do
unifica essas edificações e as tornam Esse artigo teve como resultado a Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
representativas de algo em comum. comprovação de que mesmo ao utilizar a Rio de Janeiro: 1941, nº. 05, p.105-169.
arquitetura como meio para demarcação FAUSTO, Boris. História do Brasil. 2ª ed.
Considerações finais e firmamento de um território, os São Paulo: Editora da Universidade de São

T
portugueses souberam se adaptar às Paulo; Fundação de Desenvolvimento da
odas as edificações características locais e aos materiais Educação, 1995.
apresentadas são exemplos disponíveis nesses lugares, deixando LOBO, Rui. A arquitetura das primeiras
do rico patrimônio que os construções, que após ao imperialismo, igrejas jesuítas em Portugal: São Roque
portugueses edificaram e poderiam ter se tornado sem sentido, de Lisboa e Espírito Santo de Évora.
representativas de um momento histórico serem abandonadas e destruídas, Universidade de Coimbra. Coimbra. 2014
que impactou o mundo como um todo. conforme aconteceu em alguns casos, SILVEIRA, Luís. Ensaio de iconografia
Esse legado é mantido e preservado mas que em sua maioria, foram cuidadas das cidades portuguesas do ultramar:
como patrimônio da humanidade, apesar e mantidas. Sendo na atualidade, tidas Marrocos e Ilhas Adjacentes. Vol.1.
de todas as transformações ocorridas como representações da história desses Ministério do ultramar. Junta de
desde o encerramento do domínio lugares, mesmo que a cultura imposta investigações de ultramar. Lisboa.19??.
português nessas colônias. Na Índia, por tenha sido rompida. Essas edificações, Disponível em: <http://memoria-africa.
exemplo,apesar das cidades que eram independentemente do lugar, sejam na ua.pt/Library/ShowImage.aspx?q=/EICPU/
colônias terem deixado a administração Índia, no Brasil, em Moçambique, em EICPU-1&p=1>. Acesso em 15 de fevereiro
portuguesa a pouco mais de 50 anos Guiné-Bissau, na China, e em outros de 2020.
(durante a unificação da Índia,no século lugares em que os portugueses passaram,
XX, assim como em outros eventos que representam algo familiar e que acaba
também impactaram na preservação por aproximar diferentes culturas, por
desse patrimônio), essas edificações seu potencial valor de rememoração e Thaís Motta do Nascimento
são mantidas e utilizadas por parte da da formação cultural, devendo serem
população que pertence à religião católica preservadas e conservadas. Arquiteta e Urbanista, mestre pelo
ou com o uso turístico. Todavia, nessas Programa de Pós-Graduação
cidades é possível ver que as influências Referências bibliográficas em Arquitetura da Universidade
foram além das construções religiosas Federal do Rio de Janeiro
e jesuítas, ao serem identificadas BORGES, Felipe, A. F.; COSTA, Célio
Cláudia Carvalho Leme Nóbrega
técnicas construtivas e características Juvenal. Jesuítas no oriente no século XVI:
arquitetônicas tipicamente portuguesas o padroado português no estado da Índia. Arquiteta e Urbanista, doutora em
mescladas à arquitetura de origem hindu. In: Anais do XXVII Simpósio nacional de Panejamento Urbano e Regional
Essa mistura pode ser reconhecida em História: Natal, 2013. e professora do Programa
habitações e em templos, até os dias de BRANCO, Alberto Manuel. O sentido de Pós-Graduação em Arquitetura da
hoje, sendo facilmente reconhecidas, do Brasil integrado nos objetivos da Universidade Federal do Rio de Janeiro

70
Detalhe da fachada do edifício da Biblioteca Parque, no Rio de Janeiro. Fonte: Foto de Diego Dias, 2020.
DIVERSIDADE E MISTURA
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Figura 1 – Corte transversal do projeto de Memória e Cuchet para o Teatro Casino. Fonte: Arquivo do Escritório Técnico Heitor de Mello.

74
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Diego Dias

Os pavilhões do passeio público: dissidências


no concurso e o projeto de archimedes
memória e francisque cuchet
Nas primeiras décadas do século vinte o Rio de Janeiro passou por inúmeras remodelações, à
época denominadas obras de “embelezamento” da cidade, em prol da eliminação de morros
e favelas da área central, com consequente ganho de área plana para novas construções.
Tais obras, encabeçadas na maioria das vezes pelos dirigentes públicos, embasavam-se na
estética das grandes cidades europeias, a exemplo da abertura da Avenida Central, nos moldes
arquitetônicos da Champs-Élysées de Paris. O prefeito Carlos Sampaio foi um dos grandes
estimuladores dessas obras. Ocupando o cargo entre 1920 e 1922, dando prosseguimento
às intervenções na cidade, promoveu o arrasamento do Morro do Castelo, com a criação do
aterro em frente à Santa Casa de Misericórdia para a Exposição Internacional Comemorativa
do 1º Centenário da Independência do Brasil, dentre diversas outras obras urbanas.
A Exposição Internacional, que tese do autor em desenvolvimento2, cariocas, que mesmo hoje não mais
aconteceu em 1922, demandou grande pretende analisar e expor parte do existindo, foi responsável por grandes
infraestrutura da cidade (LEVY, 2010). acervo do escritório de Archimedes. A desdobramentos e discussões da classe
Pretendendo inicialmente ser apenas análise da documentação iconográfica de arquitetos e urbanistas.
mais uma das exposições nacionais, inédita encontrada permitirá um novo
teve adesão de diversos países, olhar sobre a historiografia da cidade O Escritório Heitor de Mello

H
transformando-se em num evento do Rio de Janeiro, revelando o fazer
de grandes proporções, adquirindo arquitetônico do escritório e propostas eitor de Mello foi um grande
caráter internacional. Preocupado, projetuais não executadas. Fatos arquiteto, construtor e
Carlos Sampaio logo tratou de dotar históricos importantes são ressaltados professor. Muito conhecido na
a cidade de maior infraestrutura para e, ao serem vinculados à ação projetual cidade do Rio de Janeiro, tinha
receber o contingente de pessoas que um grande escritório, e contava com
da época, poderão recontar de novas
visitariam a cidade, especialmente diversos profissionais para auxiliá-lo.
formas as dinâmicas urbana e social
aquelas de outros países. Dentre suas Projetou e executou obras na Avenida
que envolvem os personagens e o Rio
ações, viabilizou a construção de Rio Branco e em diversas partes da
de Janeiro das primeiras décadas do cidade. Dentre seus projetos mais
dois hotéis, o Sete de Setembro (no século vinte. Dessa forma, parte-se
Flamengo) e o Balneário (na Urca), e conhecidos estão o antigo Palácio da
aqui da apresentação do escritório e do Polícia Central, à esquina da avenida
de um restaurante envidraçado para corpo de arquitetos que o compunham, Henrique Valadares com a rua dos
o Passeio Público, estes dois últimos seguindo-se do histórico do concurso Inválidos, o Palácio Pedro Ernesto
projetos de autoria de Archimedes e da exposição do projeto executado, (Câmara dos Vereadores) à praça
Memória e Francisque Cuchet. como um ponto importante a ser Floriano, e o plano urbanístico da
Este artigo, fruto da pesquisa de marcado nas transformações urbanas Exposição Nacional de 1908, na Urca.

75
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

No meio acadêmico, foi professor escritório expor sua forma de projetar, 10 de março de 1921, às 14 horas.
da Cadeira de Grandes Composições de momento este que lhe rendeu diversos Destaca-se em ambos os editais,
Arquitetura da Escola Nacional de Belas outros projetos nos anos seguintes. ainda nos primeiros parágrafos, que
Artes, lecionando para Archimedes Lucio Costa, que posteriormente se “à Prefeitura reserva-se o direito de
Memória, que logo convidaria para tornaria um dos maiores arquitetos do não aceitar qualquer das propostas
trabalhar em seu escritório, ainda em Movimento Moderno, foi estagiário apresentadas ou anular a presente
1918. Elaboraram diversos projetos do escritório na época da Exposição, concorrência desde que julgue as
em coautoria, sendo Archimedes seu colaborando nos pormenores do propostas recebidas inaceitáveis.”
principal auxiliar. Entretanto, com a interior do projeto do Pavilhão das Dentre as especificações do
morte prematura de Heitor em 1920, Grandes Indústrias (SANTOS, 1962, segundo edital, no que se refere às
Archimedes assumiu a direção do p.10-11). características principais do edifício,
escritório, e convidou Francisque ressalta-se que:
Cuchet, francês, que era seu colega de O concurso para o restaurante envidraçado
b) É facultado aos
trabalho, para sócio. O escritório então do Passeio Público proponentes inteira liberdade

D
passou a se chamar “Escritório Técnico na organização do projeto,
Heitor de Mello - Archimedes Memória ada a largada para a respeitadas as leis em vigor,
ficando à escolha de seus
e Francisque Cuchet - Engenheiros inauguração da Exposição autores o estilo arquitetônico
Architectos”. Finalizaram diversos Internacional de 1922, o e demais condições salvo as
dos projetos iniciados por Heitor, a prefeito Carlos Sampaio especificadas abaixo:
saber: Palácio Pedro Ernesto, Jockey e apresentou para a Câmara dos 1º) O projeto deverá
Derby Club, e os grupos escolares de Vereadores sua proposta de construção respeitar as condições atuais
Petrópolis e de Nova Friburgo. de um restaurante em área contígua do terreno.
O escritório consolidou-se como à da Exposição3 , que votou e aprovou 2º) Sendo intenção da
o maior do Rio de Janeiro da década um decreto em 25 de outubro de 1920 administração não privar o
de 1920, procurado por toda a classe público do gozo do terraço
para tal feito. Assim a prefeitura do e do jardim, fica estipulado
abastada da sociedade. Os projetos Rio de Janeiro publicou o edital do que o proponente não poderá
de residências, mais recorrentes, concurso público que receberia as em caso algum se utilizar do
predominavam entre os bairros da jardim do Passeio Público
propostas para a construção do que nem tão pouco projetar a
Zona Sul carioca (Botafogo, Flamengo, chamou de “Restaurante envidraçado construção de forma a impedir
Catete, e Copacabana) e Tijuca, e para o terraço do Passeio Público”, o livre trânsito entre o jardim e
a cidade de Petrópolis. Memória e a Avenida Beira-Mar.
terraço este apresentado na Figura 2.
Cuchet foram os grandes agentes As propostas seriam recebidas de 14 Assim a construção
da Exposição Internacional de 1922, de dezembro de 1920 a 14 de janeiro deverá ser construída por
sendo responsáveis pelos projetos dois pavilhões laterais
de 1921 (PREFEITURA DO RIO DE independentes de modo a
dos mais importantes edifícios: o JANEIRO, 1920). permitir a circulação e que
Palácio das Festas, em estilo eclético Entretanto, em 28 de janeiro de as pessoas que passem pela
acadêmico (Luiz XVI), e o Pavilhão Avenida tenham a impressão
1921 o primeiro edital foi anulado da existência do jardim.
das Grandes Indústrias, em estilo pela prefeitura, informando
neocolonial, a partir da remodelação apenas que seria aberta “uma nova 3º) Na parte do subsolo
além da cozinha poderão ser
do complexo pré-existente da Ponta concorrência determinando agora instaladas cabines apropriadas
do Calabouço. Elaboraram ainda o mais detalhadamente as condições”. para mudança de roupa e
projeto do pavilhão da General Electric Logo em seguida foi lançado o segundo toilettes das pessoas que
desejem tomar banho de mar.
e do plano urbanístico da Exposição. edital, que informava que as propostas
Este foi o grande momento para o de projetos seriam recebidas no dia c) Os projetos deverão

76
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

ser acompanhados do
respectivo orçamento
referente não só à construção
propriamente dita, como à
instalação do restaurante
compreendendo o mobiliário,
utensílios, iluminação, etc.;
e tendo-se sempre em vista
o estabelecimento a ser
montado deverá satisfazer
dos requisitos exigidos para
um restaurante de primeira
ordem. (PREFEITURA DO
RIO DE JANEIRO, 1921, não
paginado)
O edital ainda estabelece prazo para
conclusão das obras até 30 de junho de
1922, cabendo multa em caso de atraso.
Sobre os aspectos para a escolha do
projeto no concurso, o documento
ressalta as “condições principais”:
a) O valor do projeto.
Figura 2 – Avenida Beira-Mar em outubro de 1906, ressaltando-se o terraço do Passeio Público antes da construção dos
b) O menor prazo para pavilhões. Foto de Augusto Malta. Fonte: Acervo do Instituto Moreira Salles.
início e conclusão das obras.
A grande diferença entre os editais Moreira e Costa, cujo projeto não
c) O menor prazo para é que o primeiro informava que o foi encontrado no Arquivo Geral da
reversão.
edifício deveria ter um só pavimento, Cidade do Rio de Janeiro. Entretanto,
d) A maior contribuição podendo ser encimado por um terraço, o contrato firmado entre os dois e
mensal em dinheiro a ser paga enquanto o segundo além de não fazer a Prefeitura informa, dentre suas
à Prefeitura. (PREFEITURA DO
RIO DE JANEIRO, 1921, não referência ao número de pavimentos, cláusulas, que
paginado) especificava que deveriam ser dois
I - [...] se obrigam a
pavilhões independentes. O decreto da executar [...] um restaurante
Além de dar liberdade aos Câmara dos Vereadores que autorizou a de primeira ordem,
arquitetos concorrentes pela construção do restaurante no primeiro devidamente aparelhado,
escolha do estilo arquitetônico a ser devendo ter dependências
edital ressaltava que este deveria ser para chás, bebidas, salões
empregado no edifício, num período um edifício envidraçado, talvez para para reuniões, conferências,
onde o neocolonial impunha-se sobre mesclar-se de forma mais natural à banquetes, festas, etc.,
o ecletismo, este segundo edital a juízo da Prefeitura, de
paisagem, onde predominavam as inteiro acordo com as plantas
já informava que o projeto seria árvores e o jardim do Passeio. Já o apresentadas e aprovadas,
obrigatoriamente constituído por dois segundo edital informava apenas que salvo modificações que sejam
pavilhões independentes, numa atitude posteriormente combinadas
deveria ser construído um edifício, com a Prefeitura.
de preocupação com a circulação de eliminando assim a obrigatoriedade
pessoas entre a área da praia e o Passeio do uso do vidro como característica II - iniciar as obras no prazo
Público. O edifício também deveria de trinta dias, contados da
principal. data da assinatura do presente
ser pensado para um público seleto, Dessa concorrência venceram José contrato, e a concluí-las no
tendo em função da exigência de um Augusto Prestes e Francisco de Godoy prazo mínimo de 18 meses e
“restaurante de primeira ordem”. máximo de 24 meses.

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Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

IV - O prazo de duração do editais (apenas o terraço do Passeio De posse do parecer, o prefeito


presente contato será de vinte Publico) não era suficiente para dotar Carlos Sampaio buscou auxílio junto ao
e sete anos, contados da data
da conclusão das obras. Findo os edifícios de toda infraestrutura Instituto Brasileiro de Arquitetos (IBA)
esse prazo, reverterão para a necessária a um restaurante de em 13 de abril de 1921, explicitando o
Municipalidade os edifícios, primeira ordem, o prefeito permitiu caso e ressaltando o curto prazo para
todas as obras, instalações,
móveis e utensílios em bom que a construção ganhasse terreno a execução das obras, tendo em vista
estado de conservação, dentro do jardim. a proximidade da data de realização da
em fim tudo que estiver A Sociedade Brasileira de Belas Exposição Internacional do Centenário.
destinado diretamente ao fim
determinado neste contrato. Artes, tendo conhecimento do caso, e Acredita-se que Sampaio tenha
contrária ao projeto selecionado para procurado o IBA por este instituto
VIII - Os contratantes construção, em prol da preservação sempre advogar em favor dos concursos
contribuirão mensalmente
para os cofre municipais, à do patrimônio histórico do conjunto públicos, podendo assim apresentar
partir da data da inauguração do Passeio Público, remeteu ao uma solução plausível ao caso.
dos edifícios, com a quantia de prefeito um parecer elaborado por Uma comissão formada por
um conto de réis (1:000$000).
A Prefeitura do Distrito José Marianno Filho, com sugestões já membros do IBA se reuniu e estudou
Federal participará também da aprovadas por seus membros. Neste o assunto, e em seu parecer, remetido
quota de dois por cento (2%) parecer, publicado na primeira edição ao prefeito pelo presidente do Instituto
sobre a renda bruta mensal
recebida pelos contratantes. da revista Architectura no Brasil (1921a), Gastão Bahiana, considerando,
Marianno ditou como se dariam as dentre outros, que “um restaurante
XI - Os contratantes, obras no que se refere: ou bar envidraçado ou empergolado,
observadas as leis municipais e
federais, e o destino principal 1) ao terraço, onde deveria ser satisfazendo condições estéticas
deste contrato, isto é, o construída uma pérgula sobre colunas peculiares ao local e ao estilo do jardim
restaurante, terão livremente toscanas galbadas, por toda sua pode emprestar àquele trecho da
o uso e gozo das outras
dependências, dando-lhes o extensão; nossa capital um motivo decorativo
destino que mais lhes convier, 2) à construção do edifício, que, menos feio do que o atual”, que “esse
em benefício das respectivas localizado atrás da pérgula, consistiria mesmo terraço com suas escadarias,
rendas. No caso, porém, dos
contratantes estabelecerem em dois pavilhões com 36 metros de balaustradas e fonte dos jacarés, são
no andar inferior dependências largura cada, ligados também por primores do século XVIII, que nós
para banhos de qualquer uma pérgula ou arcaria de 18 metros brasileiros, orgulhosos dos nossos
espécie, quentes, frios,
medicinais e cabines para de extensão. “Os pavilhões serão antepassados, devemos respeitar
mudança de roupas para projetados em arquitetura tradicional com carinho e admirar com profunda
banhos de mar, não terão e constarão de três pavimentos, a veneração” e que “as relíquias só
direito a qualquer reclamação
ou indenização, por esse saber: um rés do chão, um no plano deverão ser transferidas ou demolidas
balneário se a Prefeitura do terraço atual e outro superior à em caso excepcional de defesa pública,
resolver aterrar futuramente pérgula” (MARIANNO FILHO, 1921a, quer seja ela militar ou sanitária”,
a parte do mar, fronteira ao
Passeio Público. 4 p. 33). Marianno aqui já infere sobre conclui que
o estilo que deveria predominar no
Sabe-se que o projeto apresentava o projeto tal como está
projeto, a “arquitetura tradicional”, concebido não preenche as
os dois edifícios preconizados pelo ou seja, o estilo neocolonial, do qual é condições do edital publicado;
segundo edital, em dois pavimentos considerado o grande mentor; não respeita as condições
cada, encimados por pérgula e estéticas do local nem se
3) à fonte do jacarés, que seria subordina ao estilo do jardim
separados por uma abertura de 45 removida para outro ponto dentro do e das obras nele contidas;
metros. Entretanto, como a área próprio Passeio Público, não devendo não obedece ao princípio de
inicialmente delimitada pelos dois decoração do terraço como
ficar isolada no centro de área gramada.

78
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

complemento do que existe; Tabela 1 – Lista dos concorrentes no concurso do restaurante para o Passeio Público
não respeita as condições
de higiene na instalação
dos quartos para banhos,
enfim, não parece satisfazer
o objetivo tão bem colimado
por V. Exa. (BAHIANA, 1921a,
p. 33)
Em seguida infere sobre as
características que devem predominar
no projeto, principalmente o emprego
Fonte: Elaborado pelo autor com base no texto disponível na revista Architectura no Brasil, 1921a, p. 34
de materiais de aparência leve, sobre
colunas ou pilastras, devendo o acham instalados o “restaurante” e no Brasil esclarece que o projeto era de
complexo compor-se em cores claras, o “grill-room”. Foram classificados os autoria de Memória e Cuchet.
“de sorte que, a vegetação luxuriante quatro primeiros projetos, e a tabela 1
do jardim sirva de fundo para o conjunto lista os concorrentes. O desentendimento entre a classe de
construído” (BAHIANA, 1921a, p. 34). Curioso fato é que além de solicitarem arquitetos e a divisão em duas associações

C
Ressalta ainda que o projeto deveria ter que o concurso fosse realizado pelo
o mesmo estilo do jardim, deixando o Instituto, diversos dos membros do arlos Sampaio, ao recusar os
terraço livre em sua maior parte, sendo 5 projetos classificados no con-
corpo administrativo do IBA figuravam
o jardim do Passeio pré-existente o entre os concorrentes e os classificados, curso do IBA e convidar Memó-
objeto principal, e não o contrário. incluindo o vencedor. Os quatro projetos ria e Cuchet para um novo pro-
Aproveitando a oportunidade, classificados foram enviados ao prefeito, jeto, acabou dividindo o Instituto em
e tendo em vista que foi o prefeito que, não tendo gostado de nenhum, dois grupos com visões opostas: aquele
quem buscou o auxílio do Instituto, resolveu chamar Archimedes Memória que abdicava em favor do comprimento
a comissão do IBA sugere que seja e Francisque Cuchet para elaborarem do resultado do concurso [1], e aquele
elaborado um concurso ao qual outro projeto, que prontamente foi que ou não se importava com tal situa-
concorram apenas os arquitetos aceito por Carlos Sampaio e assim deu- ção, ou tinha mais simpatia pelo proje-
vinculados ao instituto, tendo em vista se início à construção. A esse respeito to de Memória e Cuchet [2]. Ressalta-se
que “somente um arquiteto será capaz informou Architectura no Brasil: “Sobre que esta era uma época onde os enge-
de interpretar o fim tão bem imaginado este último projeto, nada precisamos nheiros arquitetos lutavam em prol de
por V. Exa” (BAHIANA, 1921a, p. dizer depois de ter citado o nome um maior reconhecimento da profis-
34). Carlos Sampaio concorda com dos seus ilustres autores, cujo valor é são, que muitas vezes era exercida por
a sugestão e, tendo sido divulgados suficientemente conhecido e admirado. outros profissionais ou até por pessoas
e apresentados os projetos, com Preenche integralmente as exigências sem formação, mestres-de-obras e pe-
concorrentes de grandes escritórios da do estilo do parque” (ARCHITECTURA dreiros, sem fiscalização, sendo os cur-
capital, venceram Fernando Nerêo de NO BRASIL, 1921b, p. 86). sos da ENBA, em 1923, considerados
Sampaio e Gabriel Fernandes. Descreve Muitos atribuem o projeto inicial dos ainda de “nível inferior ao dos institutos
a Architectura no Brasil: “Inspirado na pavilhões a Heitor de Mello, informando de ensino secundário” (UZEDA, 2006,
velha arquitetura de Valentim. Compõe- que Archimedes Memória e Francisque p. 237).
se o projeto de uma entrada central em Cuchet apenas teriam o finalizado. As duas menores associações de
rotunda deixando livre o eixo da escada Entretanto, os editais para a construção classe formadas foram o Instituto
com a pequena fonte do “sou útil inda dos pavilhões foram publicados em data Brasileiro de Arquitetos (IBA) [1], que
brincando”, e de cada lado duas alas posterior ao falecimento de Mello, e a manteve o mesmo nome, e a Sociedade
terminando em pavilhões onde se própria matéria da Revista Architectura Central de Arquitetos 6 (SCA) [2], da

79
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

qual Memória e Cuchet faziam parte nunca antes publicados, em cópia firma M. Lopes & Cia. O contrato,
(KESSEL, 2001). Tal divisão não blueprint guardada pelos arquitetos que indicava que as obras deveriam
perdurou por muito tempo, tendo em no acervo do escritório. Figuram na estar concluídas até 6 de setembro de
vista que ambos defendiam a mesma fachada características que vinculam 1922, foi assinado por Campos com a
causa, e que unidos tinham mais voz. seu estilo ao movimento neocolonial, prefeitura em 28 de outubro de 1921.
Assim, fundiram-se em 31 de julho de como colunas torsas, volutas e ornatos Entretanto a obra acabou ficando
1924 no Instituto Central de Arquitetos talhados em pedra sobre as aberturas, abandonada, não sendo concluída para
(ICA), sob a presidência de Fernando de enfatizando que os arquitetos mais Exposição de 1922. Neste momento,
Nerêo Sampaio, tendo também como uma vez teriam adotado o parecer de como aponta Santucci, “apresentou-
membros José Marianno e Gabriel José Marianno Filho, que indicava que se para sua conclusão a empresa
Marmorat, e que logo se transformou o projeto deveria ser elaborado em Sociedade Anônima Rio Casino, que
em Instituto Brasileiro de Arquitetos “arquitetura tradicional”. Entretanto, desejava estabelecer-se como casa de
(IBA), a partir de 12 de agosto de 1924, elementos típicos da arquitetura jogos e diversões noturnas” (2005, p.
durante o perído político do Estado eclética também se fizeram presentes, 32). Mas a empresa faliu e mais uma vez
Novo, Instituto este que existe até hoje. como “os detalhes decorativos as obras permaneceram inacabadas.
fantasiosos: o coroamento dos torreões Em 1924, durante leilão, arremataram
O projeto, sua execução, usos diversos e e as linhas diagonais dos caixilhos o conjunto os empresários Nicolino
demolição precoce que compunham as esquadrias” Viggiani e Paulo Laport, que se

O
(SANTUCCI, 2005, p. 34). Tal ecletismo associaram e, sugerindo transformar o
anteprojeto de Memória e é classificado por Paulo Santos como esqueleto inacabado do complexo em
Cuchet para o restaurante, “afrancesado” (1962, p. 91). Santos um teatro, concluíram as obras (Figura
que também passou a ter também ressalta que, ao contrário do 5), com gastos que ultrapassaram todos
o uso de teatro e cassino, que transparecia o projeto, Marianno os orçamentos estipulados. Dessa
incorporou diversas das sugestões de não gostou do resultado, inferindo que forma o complexo que deveria ser um
José Marianno, em prol da manutenção o aspecto francês teria sido incorporado restaurante e mudou seu uso para
do patrimônio pré-existente e da livre ao projeto por Cuchet (SANTOS, 1962, cassino durante as obras, no final se
circulação de pessoas: no desenho da p. 91). consolidou como teatro e casa noturna.
fachada do anteprojeto publicado na Outro item que merece destaque, e Se os dois hotéis projetados para dar
revista Architectura no Brasil, em 1921 que foi uma das grandes preocupações respaldo à Exposição não agradaram
(Figura 3), os arquitetos enfatizaram da Sociedade Brasileira de Belas muito ao público, que preferiu outras
a presença da natureza ao fundo, e Artes, refere-se à fonte dos jacarés, opções de hospedagem na cidade, o
a pérgula que liga os dois edifícios localizada bem próxima ao terraço. mesmo não pode ser dito dos Pavilhões
possibilitou o acesso livre entre a praia e Marianno, em seu parecer, alvitrava do Passeio Público. Apesar da demora
o interior do jardim. Nota-se que nesta a transferência do monumento para em sua inauguração, que aconteceu
época ainda não havia sido aterrada a outra área do Passeio. No projeto, a em 1926, o complexo se consolidou
área fronteira, pela presença de barcos fonte foi mantida em seu local original, como palco de grandes apresentações
e da água bem próximos aos pavilhões. tendo sido incorporada ao projeto no e vida noturna agitada, tendo ali se
Já no projeto executivo (Figura centro da pérgula, sem prejuízo às suas apresentado companhias francesas
4), ao compará-lo com o anteprojeto características de composição, como como a do Bat-Ta-Clan e a do Moulin
apresentado, notam-se algumas mostra imagem publicada no livro de Rouge, e atrizes como Josephine Baker
diferenças marcantes: a pérgula Santucci (2005). e Bibi Ferreira.
tornou-se bem menos extensa e as O responsável inicialmente pela Na pesquisa nos arquivos do
portas de entrada diminuíram de cinco execução do projeto foi o engenheiro Escritório Técnico também foi
para três. Este é um dos desenhos Pedro de Siqueira Campos, sócio da encontrada a proposta apresentada

80
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Figura 3 – Fachada principal do anteprojeto do “Restaurante envidraçado do Passeio Público”, de Archimedes Memória e F. Cuchet. Fonte Architectura no Brasil, 1921c, p. 115.

Figura 4 – Fachada principal do projeto executivo de Memória e Cuchet para o “Restaurante para o terraço do Passeio Público”. Fonte: Arquivo do Escritório Técnico Heitor de Mello.

Figura 5 – Os Pavilhões do Passeio Público: Teatro Casino (à esquerda) e Casino Beira-Mar (à direita), já em funcionamento. Fonte: SANTUCCI, 2005, p. 35.

81
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

começava a dilapidação da arquitetura


eclética que eliminou mais de 90%
do complexo edificado da Avenida
Rio Branco, símbolo da Belle Époque
brasileira.

Considerações finais

A
arquitetura de Archimedes
Memória e Francisque Cuchet
marcou o cenário carioca e
brasileiro do século vinte,
tendo os arquitetos desenvolvido
projetos do nordeste ao sul do país.
Entretanto, por estar a maior parte
de sua produção vinculada aos
movimentos cuja estética foi renegada
Figura 6 – Os pavilhões do Passeio Público, em primeiro plano, e proposta de Memória e Cuchet para um edifício recuado
em 11 pavimentos ao fundo (não executado), no mesmo estilo e simetria formal dos pavilhões. Fonte: Arquivo do Escritório com o advento do Movimento Moderno
Técnico Heitor de Mello. e a criação do IPHAN, suas obras cada
na Figura 6, que inclui um edifício Vizinho ao Palácio Monroe, sofreram vez mais vem sendo dilapidadas e
de 11 pavimentos alinhado à pérgula o mesmo mal que o acometeria anos desaparecendo, cumprindo com o
dos pavilhões. O arranha-céu, que mais tarde: a demolição. A prefeitura objetivo dos arquitetos modernos de
parece estar recuado em relação solicitou a desocupação do imóvel apagar o ecletismo da historiografia
da arquitetura brasileira. Este estudo
ao resto do conjunto, nunca foi em 1935, baseada em um laudo
buscou explicitar a trajetória de um
construído. Entretanto acredita-se técnico que informava sobre o grande
concurso, nos primórdios da formação e
que este edifício tenha sido elaborado risco de desabamento do prédio. O
defesa da atuação da classe profissional
para ser construído junto com os complexo permaneceu desocupado e
de arquitetos, concurso este envolvo
pavilhões, ou logo em seguida, talvez abandonado por dois anos, tendo sido
por polêmicas e reviravoltas.
abrigando a função de hotel, que seria iniciada sua demolição integral em
A partir da consulta em
o mais próximo à área da Exposição 1937. “A demolição dos edifícios foi documentação inédita pode-se traçar
Internacional do Centenário. O mais coordenada pela engenheira Carmen uma linha do tempo a respeito da
provável é que este corpo vertical Portinho, da Prefeitura do Distrito história deste imóvel que, apesar da
tenha sido pensado para ser executado Federal” (SANTUCCI, 2005, p. 119), vida curta, marcou toda uma época e
na área dos jardins do Passeio Público, e a prova maior de que a construção uma sociedade. A análise dos desenhos
o que justificaria o abandono precoce era bem estruturada foi a necessidade técnicos e croquis do projeto, aliados
da ideia após a repercussão negativa do do uso de dinamite para que o prédio à revisão da história que envolve
projeto dos pavilhões pela Sociedade viesse abaixo, o que aconteceu apenas sua elaboração e execução permitiu
Brasileira de Belas Artes. após a terceira explosão. Archimedes sanar questionamentos e preencher
Após anos de apresentações e Memória assistiu a todo o processo, lacunas que ainda não haviam sido
diversão a pompa dos espetáculos de longe, acompanhado dos filhos, exploradas em publicações anteriores,
foi diminuindo e os pavilhões aos risos, em vista da dificuldade de contribuindo para divulgar e registrar
efetivamente edificados deixaram se colocar ao chão uma obra que levou parte da história da antiga capital
de ter a preferência da população. cinco anos para ser concluída. E ali do país. Buscou-se também com a

82
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

apresentação deste estudo de caso Sylvio Rebecchi (vice-presidente), Nestor MARIANNO FILHO, José.
ressaltar produção do Escritório de Figueiredo (secretário), J. P. Preston Restaurante envidraçado para o Passeio
Técnico Heitor de Mello, que foi o maior (tesoureiro), Marcelo de Mendonça Público. In: Architectura no Brasil, ano 1,
escritório arquitetura do Rio de Janeiro (procurador). Conselho administrativo: v. I, nº. 1, outubro, 1921a, p. 33.
da década de 1920, fazendo jus ao fazer Archimedes Memória, A. Morales de PREFEITURA DO RIO DE JANEIRO. 1º
arquitetônico da virada do século vinte los Rios Filho, E; de Souza Aguiar, C. S. Edital - Cuncurrencia para a construção e
que só em tempos recentes voltou às San Juan, Francisque Cuchet, Antonio installação de um restaurant no terraço
graças dos órgãos de preservação. Jannizzi, John Curtis, F. de Oliveira Passos do Passeio Público, de conformidade
e L. Riedlinger (Architectura no Brasil, 1923, com o Dec. N. 2317, de 25 de outubro de
Notas
nº.23, p.137-138). 1920. 14 de dezembro de 1920.
PREFEITURA DO RIO DE JANEIRO. 2º
Referências Edital - Cuncurrencia para a construção e
1 O autor agradece à Coordenação installação de um restaurante no terraço
de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Arquivos: do Passeio Público, de conformidade
Superior (CAPES), pela concessão de Arquivo do Escritório Técnico Heitor com o Decreto N. 2317, de 25 de outubro
bolsa de doutorado; à família Memória, de Mello - Archimedes Memória e de 1920. 19 de fevereiro de 1921.
nas pessoas de Thales e Péricles Filho, pela Francisque Cuchet. Núcleo de Pesquisa SANTOS, Paulo F. Presença de Lucio
preservação do acervo; e ao Conselho de e Documentação da Faculdade Costa na arquitetura contemporânea do
Arquitetura e Urbanismo no Rio de Janeiro, de Arquitetura e Urbanismo da Brasil. Manuscrito inédito, Biblioteca
pelo auxílio no transporte do acervo. Universidade Federal do Rio de Janeiro. Paulo Santos, Paço Imperial do Rio de
2 Pesquisa em desenvolvimento Bibliografia: Janeiro. 131 páginas datilografadas.
pelo autor no doutorado do Programa Architectura no Brasil. Rio de Janeiro, 1962.
de Pós-Graduação em Arquitetura da ano 1,vol. I, nº. 1, outubro, 1921a. SANTUCCI, Jane. Os pavilhões
Universidade Federal do Rio de Janeiro. Architectura no Brasil. Rio de do Passeio Público: Theatro Casino e
3 Mesmo estando em área contígua à da Janeiro, ano 1, vol. I, nº. 2, novembro, Casino Beira-Mar. Rio de Janeiro: Casa
Exposição, ao lado do Palácio Monroe, que 1921b. da Palavra/Prefeitura, 2005.
havia sido incorporado ao evento como um Architectura no Brasil. Rio de UZEDA, Helena Cunha de. Ensino
dos pavilhões, o complexo do restaurante Janeiro, ano 1, vol. I, nº. 3, dezembro, acadêmico e modernidade: O Curso de
envidraçado não fez oficialmente parte do 1921c. Arquitetura da Escola Nacional de Belas
conjunto da exposição, não constando em Architectura no Brasil. Rio de Janeiro, Artes: 1890-1930. Tese (Doutorado em
nenhuma das plantas ou mapas do evento. ano 2, vol. IV, nº. 23, agosto, 1923. História e Crítica da Arte) - Programa
4 Esta cópia da minuta do contrato BAHIANA, Gastão. Restaurante de Pós-Graduação em Artes Visuais,
foi encontrada nos arquivos do Escritório envidraçado para o Passeio Público. In: Universidade Federal do Rio de Janeiro,
Técnico Heitor de Mello. Architectura no Brasil. Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2006.
5 Membros do corpo administrativo do ano 1,vol. I, nº. 1, outubro, 1921a, p. 33-
IBA em 1921: presidente: Prof. Arquiteto 34.
Gastão Bahiana; vice-presidente: KESSEL, Carlos. Entre o pastiche e a
Arquiteto Fernando de Nerêo Sampaio; modernidade: arquitetura neocolonial
primeiro secretário: Arquiteto Henrique no Brasil. Tese (Doutorado em História
de Vasconcelos; segundo secretário: Social), Instituto de Filosofia e Ciências Diego Nogueira Dias
Arquiteto Raphael Peixoto; procurador: Sociais, Universidade Federal do Rio de
Arquiteto Serafim de Souza; tesoureiro: Janeiro, 2002.
Arquiteto Cypriano Lemos; suplentes: Arquiteto e Urbanista, Mestre
LEVY, Ruth. A exposição do em Arquitetura e Doutorando
Arquitetos Ângelo Bruhns, Gabriel centenário e o meio arquitetônico
Fernandes e Raul Cerqueira. pelo Programa de Pós-Graduação
carioca no início dos anos 1920. Rio de
6 Diretoria da SCA para 1923-1924: em Arquitetura da Universidade
Janeiro: EBA/UFRJ, 2010.
Adolfo Morales de los Rios (presidente), Federal do Rio de Janeiro

83
Figura 1 – Casa urbana, Aveiro. Fonte: Foto de Alice Tavares.
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Alice Tavares e Aníbal Costa

a investigação para a conservação


do patrimônio da arquitetura de terra (adobe)
na região central de portugal
A Arquitetura de terra na região centro de Portugal está intrinsecamente ligada à vida das
populações no passado, à sua forma de usar os recursos naturais e de se integrar na paisagem.
Representa por isso um legado patrimonial valioso, pela manifestação de valores efetivos de
sustentabilidade, segundo o conceito atual e nos procedimentos de uso e reuso desses mesmos
materiais de construção. Trata-se de uma arquitetura que recorre aos materiais naturais de cada
região, a terra, a cal, a palha, a pedra, a madeira e com reduzido processamento constrói diferentes
tipologias arquitetónicas muito ligadas à tradição e às relações sociais e familiares de cada região.
Ao contrário do que acontece noutros países, a arquitetura de terra na região centro de Portugal
não era apenas usada por pessoas de reduzidos recursos, pelo contrário, era usada por toda a
população independentemente do estrato social ou da função do edifício.
Por esta razão, vemos que nos de construção e sobretudo pela falta sendo de destacar a região Centro de
sucessivos períodos de regresso de de planeamento e gestão do território Portugal com uma perda 25%. São
Portugueses do Brasil ou dos Estados que a salvaguarde. Tal facto está a por isso necessárias medidas urgentes
Unidos, desde o século XIX, que com permitir a rápida demolição e elevada para a salvaguarda deste património.
grande capacidade económica optam transformação deste tipo de edifícios, A região Centro de Portugal apresenta
pelas técnicas tradicionais antigas perdendo-se a sua autenticidade e manifestações de arquitetura em terra,
de cada região, ou seja, neste caso, transmissão deste legado para as desde o adobe, ao tabique e à taipa,
pela arquitetura de terra (Figura 1). gerações futuras – um Património em estando ainda presente as alvenarias
Temos assim, lado a lado, expressões risco. ordinárias com pedra e terra.
vernaculares da arquitetura de terra com Em Portugal o edificado antigo
os seus pátios e alpendres (Figura 2) e anterior a 1919 é o que representa a O adobe

A
outras de arquitetura civil mais erudita maior parte da arquitetura vernacular,
totalmente construídas em terra até independentemente do sistema região Litoral Centro de
meados do século XX, já na fase do betão construtivo, nos censos de 2011 o Portugal é uma região
armado. edificado anterior a 1919 representava representativa da arquitetura
A durabilidade destas construções apenas 5,8% do número total de de adobe em Portugal,
é atestada pela existência na região de edifícios. Este é um valor crítico que concentrando-se a maior parte dos
vários edifícios em uso, de construção demonstra que se entrou num processo edifícios ao longo da costa marítima,
em terra, datados de pelo menos o irreversível de perda de património da desde Ovar a Leiria. O facto de ser uma
século XVIII. Mas esta é uma arquitetura arquitetura vernacular. No espaço de 10 região rica em areias, argilas e cal, com
em risco de se perder para sempre, anos (de 2001 a 2011) Portugal perdeu vários rios e abundância de água, facilitou
por não pertencer às práticas atuais 18,9% do seu edificado anterior a 1919, a implantação deste tipo de construção,

85
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

representando até há uns anos atrás do tabique ter sido correntemente


quase 50% do edificado antigo de muitas usado para a construção de divisórias
localidades. Nomeadamente na região interiores, praticamente em todos
do Baixo Vouga, com 12 municípios, 10 os tipos de sistemas construtivos de
dos quais apresentavam na arquitetura alvenarias antigas em Portugal, neste
vernacular preponderantemente o caso particular, dá forma às fachadas
adobe. Este era aplicado para todo o tipo sendo por isso estrutural. Constrói-
de edifícios, públicos e privados, podendo se com uma estrutura de prumos de
ter vários pisos, em contexto urbano madeira verticais, ligados a vigas de
normalmente 2-4 pisos (Figura 3) e em madeira, aos quais são pregadas tábuas
contexto rural 1-2 pisos. A arquitetura com aproximadamente 20-30cm de
de adobe apresenta uma riqueza de largura, podendo ser em painel duplo
formas ao longo da região, com paredes com orientações diferentes, sobre as
rebocadas ou não rebocadas, mantendo quais era pregado um fasquiado de
importantes preocupações comuns com madeira de 2-3cm de largura por 1,0-
a ventilação e durabilidade. Tal como 1,5cm de espessura. A argamassa de
a construção de um desvão sanitário
terra, muitas vezes incorporando palha
que permite a ventilação da base da
na sua composição (conforme acontece
construção e consequentemente
na região norte transmontana) era
Figura 2 – Pátio interior, Mira. Fonte: Foto de melhora a durabilidade das paredes e
Alice Tavares. aplicada em ambas as faces e revestida no
da estrutura de madeira de pavimentos.
Sendo a madeira o material mais usado final por uma camada de estuque (Figura
nas construções de adobe, incluindo 4). A maior preocupação era evitar o
a estrutura de cobertura, nas suas contacto da estrutura de madeira com a
diferentes tipologias. humidade, nomeadamente do solo, mas
a exigência de uma manutenção regular
O tabique e repintura das paredes anual, tornou

O
este tipo de construção mais sujeito
s municípios do interior da ao desaparecimento. Representa,
região Centro apresentam no entanto, uma forma expedita de
ainda alguns exemplares de construção com os recursos naturais da
edifícios de tabique estrutural, região, abundante em madeira.
sendo este usado nas fachadas dos pisos Outro sistema construtivo que usa a
superiores, garantindo normalmente terra e a madeira é o gaioleiro, datado
que o rés-do-chão é de alvenaria de sobretudo do século XIX, é uma derivação
pedra de granito ou de alvenaria de pedra menos controlada de um sistema de
ordinária argamassada. Muitos dos gaiola pombalina. Encontra-se presente
exemplares encontram-se em contexto igualmente em algumas zonas pontuais
urbano nos centros antigos das cidades, da Região Centro (Figura 5). Trata-se
com as suas fachadas com janelas de de um sistema que usa a madeira como
guilhotina, corroborando a otimização elemento estrutural e é revestido com
do espaço interior que se pretendia argamassas de terra, podendo ter ainda
Figura 3 – Parede meeira de adobe. Fonte: Foto com esta solução construtiva. Apesar
de Alice Tavares. tijolos e elementos de pedra.

86
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

A taipa tem desenvolvido um contínuo trabalho

A
de investigação e apoio à prática da
taipa apresenta-se com menor reabilitação, que passam pela análise
expressão na região Centro em das características dos adobes, das
áreas restritas mais a sul (Figura alvenarias e da Arquitetura.
6), sendo mais comum o uso O adobe da região Centro é um
de uma alvenaria de terra argamassada adobe de cal, embora para construções
com pedra, construída igualmente com mais pobres fosse usado um adobe de
taipais. É uma arquitetura sobretudo terra de menor resistência e durabilidade
térrea, com paredes espessas de 50- (Figuras 7 e 8), sendo muito suscetível
Figura 4 - Tabique, Almeida e Pinhel. Fonte: Foto
60cm, sobre fundações de alvenaria à degradação na presença de água e de Alice Tavares.
de pedra, por vezes irregular ou normalmente usado apenas em períodos
argamassada. As paredes construídas de falta de cal para a construção. Os
pelo processo tradicional apresentam adobes da região eram normalmente
por vezes camadas de lajetas cerâmicas feitos no local da construção, mas podiam
ou pedra rolada argamassada entre também ser feitos por adobeiros, que os
camadas de terra compactada. Trata-se vendiam, sendo estes distinguidos dos
de uma estratégia para tentar melhorar a restantes adobes por possuírem uma
resistência das paredes. As paredes eram marca (as siglas do nome do adobeiro).
normalmente rebocadas e caiadas, sendo Os moldes e a necessidade de
a estrutura de cobertura principalmente transporte definiam em parte as suas
de madeira e com revestimento a telha. dimensões, que variam igualmente de
região para região, conforme indicativo
O adobe e suas características na Tabela 1.

A
Para além dos adobes correntes
arquitetura de terra, em para fachadas, existiam adobes mais
adobe, sendo a mais expressiva estreitos para as paredes interiores Figura 5 – Estrutura de gaioleiro sobre estrutura
de pedra, Castelo Mendo. Fonte: Foto de Alice
(em maior quantidade) na e ainda adobes curvos para os muros Tavares.
região Centro de Portugal dos poços e adobes de base circular
no passado, apresenta atualmente para fundações interiores, pontuais,
movimentos de algumas populações de apoios de elementos de madeira
para a sua defesa e preservação, da estrutura de piso. As análises aos
mesmo apesar da perda da sua prática adobes permitem concluir que apesar da
construtiva na atualidade. A recriação variabilidade de curvas granulométricas
da construção do barreiro e da produção usadas, importantes para a definição da
de adobe são experiências raras, como a capacidade resistente dos mesmos, a
que aconteceu em 2019 no Seixo em Mira sua constituição química é semelhante,
(Figura 7) com adobeiros hoje com mais sendo constituídos sobretudo por: SiO2,
de 80 anos e que representam para a sílica; CaCO3, carbonato de cálcio;
região a última oportunidade de reativar KAlSi3O8, feldspato. Tendo de forma
a técnica com base nos conhecimentos pontual micas, caulinite e outras argilas.
dos antigos e da tradição (Tavares, A. et As análises laboratoriais do
al, 2019). Com o objetivo de apoiar estas Departamento de Engenharia Civil Figura 6 – Construção em taipa. Fonte: Foto de
comunidades a Universidade de Aveiro da Universidade de Aveiro reportam- Alice Tavares.

87
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

se a adobes de toda a região da Beira do ensaio apresentam uma distribuição adobes de outras regiões da Beira Litoral
Litoral e destacam-se as seguintes: granulométrica muito semelhante, apresentam valores mais elevados.
curva granulométrica de acordo com a Figura 9, com cerca de 70% das partículas As argamassas de revestimento e de
especificação ISO/TS 17892-4:2004(E); com uma distribuição granulométrica de assentamento apresentam as mesmas
dissolução ácida; ensaio à compressão areia, enquanto que o adobe C apresenta características que o adobe, sempre
simples; ensaio de resistência à flexão partículas de maior dimensão, com cerca que a construção seja realizada com
simples. A título de exemplo foram de 50% das partículas com a classificação material do local, outros casos podem
usados adobes de uma Casa rural de areias e 50% de pedregulho fino e apresentar capacidades resistentes
situada na Oliveirinha, Aveiro sobre médio e o adobe D apresenta partículas diferentes, dependendo igualmente do
os quais se apresentam de seguida de maior dimensão, com cerca de 60% traço usado – cal: areia/terra e das curvas
dados de referência. Os adobes A e B das partículas com a classificação de granulométricas.
areias. Nos ensaios de dissolução ácida
verificou-se que a percentagem média de Características materiais e mecânicas
das alvenarias de adobe recorentes da
cal nos adobes de ensaio era de 10%. No
investigação da Universidade de Aveiro
entanto, em ensaios de dissolução ácida

N
realizados no Laboratório sobre adobes
os últimos anos o
da região de Aveiro, têm-se obtido
Departamento de Engenharia
percentagem de cal muito semelhantes
Civil da Universidade de
e a que correspondem traços de 1:3 (cal:
Aveiro tem vindo a realizar
areia) em volume. Em termos de peso
várias campanhas de ensaios a fim
volúmico médio obteve-se no ensaio um
de caracterizar o comportamento da
valor de 16,28 kN/m3, considerando a
alvenaria de adobe, que tipicamente
análise de 38 provetes.
se encontra nos edifícios antigos,
Para o caso de estudo foram
e contribuir para esta área de
efetuados ensaios de compressão
conhecimento através de uma forte
simples sob 36 provetes de adobe, com
componente técnico-científica, mas sem
as medidas aproximadas de 8 × 8 × 8
descurar os aspetos arquitetónicos.
cm3 e peso médio de 842 gramas. Os
Num estudo recente desenvolveu-
resultados encontram-se condensados
se uma vasta campanha de ensaios
Figura 7 – Recriação da produção de adobe 2018, na Tabela 2.
Seixo, Mira. Fonte: Foto de Alice Tavares. sobre diversos elementos de alvenaria
Os ensaios de resistência à flexão
de adobe, visando a caracterização
simples de provetes de adobe com base na
mecânica dos vários parâmetros
especificação EN12390- 5:2000 obteve
e mecanismos que controlam o
uma média de 0,36 MPa. No entanto,

Figura 8 – Parede com adobe de cal e adobe de


terra, Aveiro. Fonte: Foto de Alice Tavares.

88
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

comportamento deste tipo de alvenaria.


Para este estudo, foram recolhidos
adobes de construções existentes.
Numa primeira fase foram estudadas
as propriedades mecânicas dos blocos
de adobe, nomeadamente a resistência
em compressão, flexão e módulo de
elasticidade, e da argamassa de junta.
Depois, foram desenvolvidos ensaios
para a caracterização da interface entre
o adobe e a argamassa utilizada nas
juntas, nomeadamente pela realização
de ensaios de arrancamento dos blocos
e de ensaios de corte (perpendicular e
paralelo à junta). Foram ainda realizados
ensaios de caracterização mecânica
de paredes de adobe, nomeadamente
ensaios de compressão normal às juntas, Figura 9 – Características de curva granulométrica de 4 tipos de adobes (origem: Oliveirinha, Aveiro).
de compressão diagonal e de flexão para Fonte: Elaborado pelos autores, 2020.
fora do plano (perpendicular e paralela às
juntas). Têm sido também construídos e
testados modelos à escala real e à escala
reduzida e têm sido realizados ensaios
in situ e também em mesa sísmica. Um
dos ensaios à escala real envolveu uma
construção com dimensões em planta de
4,00 x 3,00 m2 e 2,35 m de altura. Este
modelo foi ensaiado sob condições de
carregamento vertical constante e com
uma carga lateral cíclica de amplitude
crescente até se atingir a rotura. Após
avaliação dos danos, estes foram
reparados, nomeadamente pela injeção
das fissuras com argamassas de cal.
Após reparação o modelo foi reforçado
com uma malha polimérica embebida
no reboco e ensaiado para as mesmas
condições.

À direita
Figuras 10 e 11 – Setup de ensaio para
determinação da resistência à compressão:
pórtico de ensaio e setup de instrumentação.
Fonte: Foto e desenho dos autores.

89
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Para os ensaios de compressão A tensão de compressão é em média realizados ensaios à compressão diagonal
foram construídas paredes de adobe 25% superior nas paredes rebocadas e num dos casos foram construídas
rebocadas, com as dimensões 0.92 x (P1 a P3). As paredes não rebocadas cinco paredes com as dimensões 0.92 x
0.92 x 0.32 m3, e paredes de adobe sem apresentam uma resistência média 0.92 x 0.31 m3 com adobes do centro da
reboco, com dimensões 0.88 x 0.88 x de 0,59 MPa enquanto que as paredes cidade de Aveiro, (Figuras 12 a 14). Estas
0.27 m3, posteriormente ensaiadas em rebocadas apresentam 0.79 MPa de paredes foram rebocadas e ensaiadas
compressão de acordo com a norma NP resistência média em compressão, ver em compressão diagonal, de acordo com
EN 1052-1: 2002 (IPQ, 1998). Tabela 3. No seu conjunto, a resistência a norma ASTM E519 (ASTM, 2010), 90
As paredes foram colocadas sobre de compressão média, das 6 paredes, é dias após a sua construção.
a laje de reação do laboratório e sob de 0.69 MPa. A par de outros estudos De forma a transportar e a rodar
um pórtico metálico. Entre a laje de sob paredes de adobe, como aqueles as paredes, para a sua colocação na
reação e a parede e entre esta e o perfil realizados por Bartolomé and Pehovaz mesa de ensaios, foi desenvolvido um
metálico foi colocada uma “caixa de (2005), Yamin et al. (2007), Wu et al. sistema, constituído por peças metálicas
areia” molhada (diâmetro das partículas (2013) e Silveira et al. (2014), verifica-se e varões de aço, por Silveira et al. (2014).
inferior a 2mm), de forma a regularizar que a resistência média em compressão Este sistema foi também usado para
as faces de contacto das paredes com a das paredes é menor que a resistência o transporte das paredes ensaiadas
laje e com o perfil metálico. Acoplado ao dos materiais constituintes das paredes, em compressão simples. As paredes
pórtico foi colocado um servo-atuador nomeadamente, 57% da resistência em foram ensaiadas num pórtico metálico
hidráulico, com uma capacidade máxima compressão média dos adobes e 4% da e a carga de compressão foi induzida
de 300kN em compressão, e um perfil resistência média em compressão das através de um servo-atuador com 300kN
metálico HEB 300 para transferir a carga argamassas constituintes. de capacidade em compressão, Figura
de forma uniforme ao topo das paredes A resistência da alvenaria de adobe, 15. De forma a equilibrar e a estabilizar
a serem ensaiadas. Entre o atuador para além de depender da resistência as paredes antes do ensaio e servir
e a viga metálica encontrava-se uma e comportamento dos seus materiais de suporte após o ensaio, evitando o
rótula, colocada de forma a acomodar as constituintes (adobe e argamassa), colapso das paredes, foram colocadas
deformações sofridas durante o ensaio depende também de outros fatores duas peças triangulares de madeira
de compressão das paredes, de acordo como a aderência entre a argamassa e o entre as faces inferiores da parede e a
com as Figuras 10 e 11. adobe (Bosiljkov et al., 2005). Têm sido viga metálica. Estas peças permitem
após o ensaio analisar o dano e a retirada
dos transdutores de deslocamento,
colocados de acordo com a Figura 16.
O ensaio decorreu a uma velocidade
de 0.025 mm/s e os transdutores de
deslocamento foram colocados em
ambas as faces das paredes, perfazendo
um total de 4 transdutores verticais (2
por face) e 4 transdutores horizontais (2
por face).
Na Tabela 4 são apresentados os
resultados obtidos para os ensaios de
compressão diagonal, calculados com
recurso aos transdutores curtos (0,4m).
A tensão de corte máxima média é de
0,211 MPa. Resultados presentes na

90
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Figuras 12 a 14 – Etapas da construção das


paredes. Fonte: Foto de Alice Tavares.

Figuras 15 e 16 – Compressão diagonal: parede posicionada no pórtico de


ensaio e Setup de instrumentação. Fonte: Foto e desenho dos autores.

91
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

literatura, para alvenaria de adobe,


variam entre 0,03 e 0.14 MPa.
Foram também realizados diversos
ensaios em modelos de paredes e de
edifícios, quer em laboratório quer in
situ, apresentando-se como exemplo
de um desses ensaios o realizado num
modelo à escala reduzida de ¼ que
foi desenvolvido no Laboratório do
Departamento de Engenharia Civil da
Universidade de Aveiro, reproduzindo
um verdadeiro edifício de alvenaria de
adobe no centro da cidade de Aveiro.
O modelo de teste foi construído
sobre uma plataforma reclinável, com
dimensões da vista superior de 3,90 x
1,90 m². A plataforma foi alimentada
com um atuador hidráulico em seu
centro geométrico (Figuras 17 a 19).
O corpo principal do edifício é
constituído por rés-do-chão, sótão e
anexo apenas por rés-do-chão. O modelo
foi construído com adobes à escala,
fabricados com terra e cal na proporção
em peso de 3: 1, tendo-se usado 9% de
água na mistura. O modelo foi rebocado
com uma argamassa semelhante à dos
adobes. A laje do sótão e a estrutura do
telhado foram construídas com madeira
e cobertas com telhas cerâmicas à
escala. O modelo foi testado até se
atingir um nível de danos considerável,
tendo posteriormente sido reforçado e
novamente ensaiado.
A eficiência do reforço foi evidenciada
através do ensaio realizado uma vez
que para se atingir o nível de danos no
modelo reforçado, semelhante ao que
foi atingido no modelo não reforçado foi
necessário aplicar uma ação 2,5 vezes
superior, (Lobo, 2014). O reforço foi
efetuado através de uma combinação
Figuras 17 a 19 – Modelo de teste; Esquema
(dimensões em metros); e vistas do modelo. de técnicas de reforço visando promover
Fonte: Desenho e fotos dos autores. a ligação de todos os elementos

92
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

estruturais (paredes e cobertura), Aveiro, que pode apoiar medidas Methods of test for mortar for masonry
desde a ligação entre fachadas com o municipais para a salvaguarda deste – Part 11: Determination of flexural
reforço da ligação nos cunhais ao uso da património da arquitetura de terra, um and compressive strength of hardened
estrutura de cobertura para melhorar o valor cultural e histórico das populações, mortar. European Committee for
comportamento das paredes para fora pelo que se espera que os decisores Standardization, Brussels.
CEN 2002. EN 1052-3: 2002 - Methods
do plano, reforçando a ligação entre as políticos tenham a capacidade de
of test for masonry. Part 3: Determination
paredes e a estrutura de cobertura. reconhecer este valor cultural como um of initial shear strength. European
catalisador do desenvolvimento e tomar Committee for Standardization, Brussels.
Recomendações para a preservação medidas para a sua preservação. Este é 0 580 40269 X
da arquitetura de Adobe em Portugal um trabalho de aliança por uma cultura CEN 2005. Eurocode 6 - Design of

U
a promover e preservar nos próximos masonry structures. Part 1-1: General
ma análise mais aprofundada anos. rules for reinforced and unreinforced
da situação da arquitetura em masonry structures.
terra (adobe) na região Centro Notas EN 12390-5:2000.Testing hardened
de Portugal permite verificar concrete. Flexural strength of test
que em termos de dados estatísticos A autora Alice Tavares agradece o specimens
para o edificado antigo (anterior a 1919) apoio da Fundação Portuguesa para a FERNANDES, Maria; TAVARES, Alice. O
onde se inclui a arquitetura de terra, Ciência e Tecnologia (FCT), no âmbito do Adobe. Editora Argumentum, 2016.
teve um decréscimo de 10% entre 2001 seu Programa de Pós-doutoramento com IPQ 1998. NP EN 1052-1: 2002
e 2011. Com especial destaque para Método de ensaio para alvenaria.
a referência SFRH/BPD/113053/2015. Os
Parte 1: Determinação da resistência à
municípios onde a arquitetura de adobe é autores agradecem o apoio da unidade compressão.
praticamente todo o património antigo, de Investigação RISCO. ISO/TS 17892-4:2004 Describes
como Anadia com um decréscimo de methods for the determination of the
43%, Ílhavo com um decréscimo de 35% Referências particle size distribution of soil samples.
ou a Mealhada com um decréscimo de LOBO, B. (2014) Técnicas de Reforço
46%. Para alguns dos municípios onde o ASTM 2010. E519-2010. Standard test em Edifícios de Adobe. Tese de mestrado.
adobe foi o mais representativo material method for diagonal tension (shear) in Departamento de Engenharia Civil da
da região, em 2011, o edificado antigo masonry assemblages. American Society Universidade de Aveiro.
for Testing Material; 2010. RILEM 1991a. RILEM Technical
anterior a 1919 representava menos
BARTOLOMÉ, A. S. & PEHOVAZ, R. Recommendations for the testing and
de 3% do total (Mealhada, Oliveira Behavior under cyclic lateral loading
do Bairro, Vagos). Estes são valores use of construction materials. LUMB5 -
of confined adobe walls. SismoAdobe Short-term shear test for the interface
conservadores, já que a situação de 2005: Architecture, Construction and between the masonry unit and mortar
saída da crise e elevada transformação Conservation of Earthen Buildings in or moisture-insulating interlayer, TC 76 -
do edificado a partir de 2015 revela o uso Seismic Areas, 2005 Pontifical Catholic LUM.
disseminado da demolição, sem prévia University of Peru, Lima, Peru. RILEM 1991b. RILEM Technical
avaliação do valor deste edificado e do BOSILJKOV, V., Z.TOTOEV, Y. & Recommendations for the testing and
seu real estado de conservação, pelo NICHOLS, J. M. 2005. Shear modulus use of construction materials. LUMB 3 -
que se prevê que nos próximos 5 anos, o and stiffness of brickwork masonry: An Bond strength of masonry using the bond
experimental perspective Structural wrench method, TC76-LUM.
edificado de adobe nestas regiões esteja
Engineering and Mechanics, 20(1), 21–43. SILVEIRA, D., VARUM, H., COSTA,
à beira da extinção, ou com a sua forma CEN 1999a. BS EN1052-2: 1999 A. & CARVALHO, J. 2014. Mechanical
original muito comprometida. Methods of test for masonry. Part 2:
Existe no presente, investigação Properties and Behavior of Traditional
Determination of flexural strength. 0 580 Adobe Wall Panels of the Aveiro District.
e conhecimento relevante, 35470 9 Journal of Materials in Civil Engineering,
nomeadamente da Universidade de CEN 1999b. EN 1015-11: 1999: 04014253.

93
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

SILVEIRA, D., VARUM, H., COSTA, A., perda de valor patrimonial associada à
MARTINS, T., PEREIRA, H. & ALMEIDA, falta de conhecimento, Livro de Actas do
J. 2012. Mechanical properties of 2º Congresso Internacional de História
adobe bricks in ancient constructions. da Construção Luso-Brasileira, 14-17
Construction and Building Materials, 28, Setembro, 2016, FAUP, PORTUGAL
36-44. TAVARES, A., MENDES, C., VICENTE,
TAVARES, A. (2009) O sistema R., COSTA, A., FONSECA, J. (2016) A
construtivo tradicional em período de evolução das alvenarias da região
transição de linguagens de Arquitetura. O centro de Portugal e o comportamento
Movimento Moderno e o adobe. Estudos higrotérmico, Livro de Actas do 2º
Avançados. FEUP, Porto. Congresso Internacional de História
TAVARES, A.; COSTA, A.; VARUM, da Construção Luso-Brasileira, 14-17
H. (2012) - Adobe and Modernism Setembro, 2016, FAUP, PORTUGAL.
in Ílhavo, Portugal - International TAVARES, A., COSTA, A., FRADA,
Journal of Architectural Heritage, G., CASTELHANO, M., PEREIRA, M.,
Paper reference ID UARC-2011-0357. FERNANDES, M., 2019. O Barreiro.
R1, Volume 6, Issue 5, 525-541. DOI: Redescobrir a prática comunitária e a
10.1080/15583058.2011.590267. USA, importância doo adobe de cal. Edição
UK, Portugal. da Associação Cultural e Recreativa do
TAVARES, A., COSTA, A. & VARUM, Seixo de Mira. ISBN: 978-989-20-9954-5.
H. (2014) Edifícios de adobe. Manual Outubro de 2019
de manutenção. Publindústria Edições WU, F., LI, G., LI, H.-N. & JIA, J.-Q. 2013.
Técnicas, ISBN Papel: 978-989-723-073-8 Strength and stress-strain characteristics
e E-book:978-989-723-074-5. Outubro de of traditional adobe block and masonry.
2014. Materials and Structures, 46(9), 1449–
TAVARES, A. (2015) Estratégia de 1457.
Conservação Integrada do Património YAMIN, L., PHILLIPS, C., REYES, J.,
Edificado (Integrated Conservation RIVERO, S. & RUIZ, D. 2007. Estudios de
Strategy of Built Heritage). Tese de vulnerabilidad sísmica, rehabilitación y
doutoramento. Departamento de refuerzo de casas en adobe y tapia pisada.
Engenharia Civil da Universidade de Revista de Estudios sobre Património, J
Aveiro. Cult Heritage Stud, ISSN 1657-9763.
TAVARES, A.; COSTA, A.G.; ROCHA, F.;
VELOSA, A. (2016) - Absorbent materials
in waterproofing barriers, analysis
of the role of diatomaceous earth. Alice Tavares
Construction and Building Materials,
Elsevier, Volume 102, Part 1, 15 January Professora convidada da Universidade
2016, Pages 125–132. doi:10.1016/j. de Aveiro e investigadora
conbuildmat.2015.10.169. da unidade de investigação RISCO –
TAVARES, A., COSTA, A., (2016) A Departamento de Engenharia Civil
construção Luso-Brasileira em período da Universidade de Aveiro
de transição da Indústria, Livro de Actas
do 2º Congresso Internacional de História Aníbal Costa
da Construção Luso-Brasileira, 14-17
Professor Catedrático. RISCO –
Setembro, 2016, FAUP, PORTUGAL
TAVARES, A., COSTA, A., (2016) A Departamento de Engenharia Civil
da Universidade de Aveiro

94
Figura 1 – Tulha de Taipa da Fazenda Espírito Santo do Atibaia. Equipe de estudantes realizando o mapeamento de danos
da fachada sudoeste. Fonte: foto dos autores, 2019.
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Marcos Tognon e Haroldo Gallo

formando o arquiteto restaurador:


qualificação profissional para intervenções
no patrimônio cultural edificado brasileiro
A formação de quadros especializados insere-se na problemática e na atualidade da questão
da preservação cultural, especialmente em se considerando as constantes expansões da área
preservacionista dos pontos de vista conceitual, geográfico e tipológico. Essa expansão da área
também expande um nicho profissional para a preservação e o restauro em várias áreas correlatas do
saber. A formação profissional de graduação, ainda que inclua esses conhecimentos e habilidades em
seus currículos para algumas das profissões como a arquitetura, não trata em todas as modalidades
desse saber (FARAH, 2008). Quando o faz, não dispõe da carga didática, extensão de tempo e
profundidade necessárias ao desenvolvimento de habilidades fundamentais, bem como do domínio
dos instrumentais conceituais, metodológicos e tecnológicos necessários à habilitação para as
intervenções na materialidade dos artefatos culturais, bem como da relação dessa com o intangível.
A ampliação do conceito de monumento, fundante para a preservação, alterou significativamente os
territórios e os limites disciplinares da área, percurso que já tem quase 30 anos desde as primeiras
reflexões mais consistentes, em um quadro internacional (JOKILEHTO, 1987).

A consequência de toda essa e de utilização, impregnando- também estabelecer novos


transformação e ampliação do se a vida de cultura. Para que vínculos entre memória e a
conceito de monumento é que esse objetivo venha a ser vida corrente, ela deve cuidar
se tornou mais difícil manter atingido, fica a necessidade para que sejam reforçadas
territórios e divisas claras de de um projeto de intervenção as relações de identidade,
intervenção entre a tutela de postura mais humilde ao que assim estabelecerá, num
arqueológica, monumental, se confrontar a exigência contexto indissolúvel, um
a arquitetura e o urbanismo. atual com a herança histórica, constante diálogo entre as
Assim sendo, ao zelarmos a fim de não danificar a inovações, as permanências
para que não haja destruição peculiaridade dessa última. e a autenticidade. (GALLO,
da história, admitimos Esse projeto de intervenção 2006, p.96)
que novas funções tornem e restauro deve também ser
necessárias intervenções genuíno, não só pelo eterno
arquitetônicas, ampliações e compromisso de renovação A pesquisa na academia, pela sua
novas construções. Ao mesmo criativa da arquitetura, mas especificidade, normalmente leva a
tempo em que devemos também porque isso significa um “mergulho” em uma problemática
tutelar o documento histórico que ele deve fomentar uma
na sua originalidade, devemos contraposição dialética e rica recortada, enfoque de todo necessário
também respeitar o modo de tensões entre o antigo e o para a conformação e sistematização
coerente de existência do contemporâneo. Sendo então de conhecimento, mas que não resulta
contemporâneo, para atingir compromisso da intervenção
como fim último um resultado atual não só agregar novos necessariamente em visões globais
geral de alto conteúdo estético valores à pré-existência, mas abrangentes que permitam a formação

97
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

de juízo crítico sobre o conjunto desse cultural”, portanto inseridas no eixo e a atualização tecnológica, não se
conhecimento patrimonial, ainda que, temático de mesmo título no Evento. Isto recolocam os artefatos no fluxo natural da
no universo da pesquisa, muitas vezes porque envolve assuntos relacionados vida e não se promovem sua apropriação
permitam a identificação e possíveis com a intervenção no patrimônio e pertencimento, correndo-se o risco de
resgates de técnicas e de saberes edificado e nos artefatos de natureza perda de seus valores de originalidade e
e fazeres específicos. Também a artística (restauração, conservação, do esforço para uma preservação vazia,
especificidade da área da preservação manutenção, reutilização, consolidação, porque sem a apropriação dos bens pela
tem confluído para um universo etc.), nas instâncias conceitual, comunidade que os detém.
fechado pela sua história formativa e metodológica e tecnológica, e na relação No fluxo dessa demanda crescente é
peculiaridades, com dificuldades de entre as dimensões tangíveis e intangíveis que o valor econômico se insurge com as
diálogo com outros interesses amplos dos artefatos. Considera-se sempre ferramentas de marketing, distorcendo,
do universo da cultura e com o conjunto como objetivo principal a preservação com intervenções inadequadas, os
da sociedade, em última instância, da autenticidade, material dos edifícios “fundamentos de verdade” dos reais
razão de ser da própria preservação. e dos artefatos artísticos para a sua valores culturais e simbólicos dos
Ainda que essa estratégia formativa efetiva salvaguarda, bem como a artefatos e conjuntos, esvaziando
da especialização também se preste emulação para o registro e continuidade seu conteúdo e transformando-os
à equalização e revisão de conteúdos da imaterialidade. Nesse sentido, em objetos de alegorias, muito ao
necessárias à etapa de strictu sensu, a procuramos desenvolver habilidades sabor do hiperconsumo e do turismo
ênfase preponderante assumida é aquela projetuais não apenas com as novas desenfreado. Torna-se inevitável discutir
da qualificação para a participação na abordagens e ferramentas advindas e instrumentalizar os estudantes para a
efetiva intervenção. Uma das primeiras da era digital, como a Laser Scanning, formulação de propostas alternativas
reflexões sistematizadas sobre esse Termografia e demais exames não de intervenção como práticas de
assunto das competências e da respectiva destrutivos por imagem, mas também projeto que superem o “fachadismo”
formação de pós-graduação nessa discutimos as relações necessárias e a transformação de edifícios e
área, no âmbito internacional, nos foi entre campos do conhecimento muitas artefatos culturais em objetos de
oferecida pelo texto de Pietro Gazzola, vezes estanques em suas temáticas consumo cenográfico. Mantendo-se
então presidente do Icomos no final dos ou abordagens: como exemplo, a visão de excepcionalidade, é preciso
anos de 1960, da qual destacamos: mobilizamos a História, a Técnica e o atualizá-la para a dimensão do comum
Desenho na compreensão alargada representativo e inserido nas novas
É essencial, para uma
compreensão imparcial da dos sistemas construtivos históricos dinâmicas de vida que se desenvolvem.
situação atual, procurar brasileiros, suas territorialidades, suas
um momento no passado e manufaturas, os processos de trabalho Metodologia
considerar qual o papel do

P
estudo da história na formação (TOGNON, 2018).
de arquitetos, aplicando o A ampliação ainda em curso da área ara satisfazer a essas premissas
termo “arquiteto” a todos da preservação, se tem o valor positivo expostas, a grade curricular
os envolvidos no projeto e do curso foi composta por
na construção de edifícios, e de seu reconhecimento e acolhimento
que assim contribuem para pela sociedade, tem também o negativo disciplinas cujos conteúdos
a transformação da cidade e de expor os artefatos de valor cultural foram agrupados em blocos de 8 horas
da paisagem concomitantes aula para que pudessem ser ministrados
com a difusão da influência à inabilidade de profissionais nem
do homem em nosso planeta. sempre adequadamente capazes para de uma só vez por professor de efetiva
(GAZZOLA, 1969, p. 15) as inevitáveis intervenções, o que expertise no assunto. Assim sendo,
tem ocasionado perdas irreparáveis à uma mesma disciplina fica sob a
O curso da Unicamp versa sobre memória, identidade e ao pertencimento. responsabilidade de vários professores.
questões de “intervenção no patrimônio Sem as intervenções conservativas A indispensável conexão entre esses

98
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

blocos se faz tanto na dimensão História da Arte e Patrimônio; História da


conceitual quanto pela presença e Arquitetura e Patrimônio; Arqueologia,
participação das coordenações nesses Patrimônio e Restauro; Práticas de
vários módulos para formar o conjunto Educação Patrimonial; Visita técnica
disciplinar. Todas as disciplinas são guiada I – Artes;
introduzidas e concluídas por avaliações 3 – Reconhecimento do artefato
pelas coordenações. em Patrimônio e Restauro -
Assim sendo, o curso foi proposto Processos de identificação, registro,
com o seguinte objetivo geral: fornecer reconhecimento e diagnóstico dos
instrumental conceitual, metodológico artefatos; caracterização e identificação
e tecnológico para a intervenção, o das patologias; orientação das ações
restauro e a conservação em artefatos de intervenção. Conteúdo: Pesquisa
de natureza artística e arquitetônica; histórica e iconográfica no patrimônio
promover estudos e debates sobre a e restauro; Levantamento métrico e
história e atualidade da questão da fotográfico de bens patrimoniais; Relevo
intervenção, preservação, conservação digital de artefatos; Estudos de casos
e restauro de bens que constituam referenciais II;
patrimônio cultural nos contextos 4 – Metodologia de Projetos no
nacional e internacional, para artistas, Patrimônio e Restauro - Processos
arquitetos, urbanistas, designers, metodológicos de definição e
restauradores, historiadores e áreas desenvolvimento de projetos de Figura 2 – Anotações de aula sobre técnica de
afins. Com uma duração de 368 horas- intervenção, conservação e restauração tijolos de barro cozido. Fonte: Foto do autor,
aula e realizado em 24 meses, o curso de artefatos de natureza patrimonial. 2019.
foi composto por oito disciplinas, Conteúdo: Conceituação Metodológica
com ementas e conteúdos a seguir I; Conceituação Metodológica II;
explicitados: Conceituação Metodológica III;
1 - Fundamentos do Patrimônio e Conceituação Metodológica IV; Visita
Preservação - Teorias fundantes da área técnica guiada II – arquitetura;
de preservação, conservação e restauro; 5 – Tecnologia na Preservação e
recomendações internacionais; bases Restauro I - Técnicas de intervenção de
legais referenciais e conexão com outras conservação e restauro em artefatos
áreas do conhecimento. Conteúdo: artísticos de valor patrimonial, como
Patrimônio, Memória e Sociedade; Bases artefatos em papel, manufatura
conceituais do patrimônio, conservação/ pictórica em tela, em painel mural e
restauro - documentos referenciais em escultura. Conteúdo: Técnicas de
(cartas patrimoniais); Bases legais – intervenção de patrimônio e restauro
legislação, normatização e fiscalização; em arte – papel; Técnicas de manufatura
Patrimônio e Interdisciplinaridade; pictórica – Pintura de Tela; Técnicas de
Estudos de casos referenciais I; intervenção de patrimônio e restauro
2 - Patrimônio e História - em arte– painel mural; Técnicas de
Historicidade da questão; relações da intervenção de patrimônio e restauro
história com a arte, a arquitetura, a em arte– escultura e artefatos; Estudos Figura 3 – Aula sobre estudo de caso de
arqueologia, a preservação e o restauro; de casos referenciais III; arqueologia com o Prof. Dr. Paulo Zanettini.
a educação patrimonial. Conteúdo: 6 – Tecnologia na Preservação e Fonte: Foto do autor, 2019.

99
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

o objetivo de estabelecer um amplo


panorama dos debates, posturas e
tecnologias contemporâneos:
Tema A: políticas de preservação
no Brasil e no exterior, desde os
principais aportes conceituais envolvidos
especialmente nas intervenções
promovidas de caráter público ou
privado, até as práticas e iniciativas
culturais e educacionais;
Tema B: O projeto de restauro
dos bens arquitetônicos e artísticos
e suas principais ferramentas de
desenvolvimento, assim como seus
processos e produtos efetivos;
Tema C: As tecnologias de
documentação e representação dos
Figura 4 – Aula teórica e prática sobre drones e documentação de sítios históricos com o Prof. Sérgio
Sapia da empresa Aerofrog . Fonte: Foto dos autores, 2019.
bens materiais culturais nas suas
mais diversas escalas, com especial
Restauro II - Técnicas de intervenção de conclusão de desenvolvimento e atenção aos sistemas e processos de
conservação e restauro em artefatos finalização. Conteúdo: Estudos de escaneamento digitais; procura-se
arquitetônicos. Conteúdo: Técnicas de casos referenciais V; Desenvolvimento nesse sentido apresentar experiências
intervenção de Conservação e restauro e orientação de trabalho aplicado II – tanto no âmbito acadêmico quanto de
em arquitetura colonial brasileira; Bancas de avaliação. empresas que atuam nesse mercado,
em arquitetura eclética brasileira; em Considerando o complexo cenário como prestadoras de serviço;
arquitetura industrial; em arquitetura do restauro arquitetônico, como a Tema D: A especificação de materiais,
moderna; Visita técnica guiada III – profusão de grupos e redes de pesquisa produtos, processos e equipamentos
Patrimônio e Restauro em áreas urbanas internacionais, número significativo de relevantes para o restauro arquitetônico
e paisagísticas; publicações a cada ano, seja de referência de baixa à alta complexidade, como
7 – Desenvolvimento de Trabalho conceitual ou técnica, assim como revestimentos minerais de alvenarias
Aplicativo I - Monografia e projeto de disponibilidade de processos e materiais históricas ou para superfícies artísticas
conclusão de curso - Trabalho aplicativo inovadores lançados no mercado, por de bens integrados, controle de umidade
de conclusão enquanto fundamentação meio de feiras como o Salone del Restauro em estruturas edificadas, processos de
e pesquisa monográfica em arte e em Ferrara e em Firenze (Itália), dentre desinfestação e prevenção a ataques
artefatos artísticos ou no projeto muitos outros, nosso curso propôs a de xilófagos, trabalhos de conservação
para intervenções em artefatos de efetiva participação de convidados preventiva em locais de difícil acesso,
arquitetura. Conteúdo: Estudos de nacionais e estrangeiros para oferecer etc.;
casos referenciais IV; Metodologia do um aporte de conhecimentos, vivências e Tema E: Workshops sobre materiais
Trabalho Científico – Artes e Arquitetura; tecnologias hoje disponíveis para apoiar de estudo e de consulta, sobretudo para
Desenvolvimento e orientação de os estudos e as decisões projetuais no apresentação de publicações recentes
trabalho aplicado I – Pesquisa. campo do patrimônio material. de referência e técnicas nacionais
8 – Desenvolvimento de Trabalho Foram definidos cinco temas e internacionais, adquiridas pela
Aplicativo II - Monografia de conclusão fundamentais para estabelecer o perfil Universidade e pelos grupos de pesquisa
de curso - Trabalho aplicativo de de nossos convidados externos, com em patrimônio cultural da Unicamp

100
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

envolvidos no projeto do nosso curso,


assim como de sites e bancos de dados
relevantes para a área.
O processo de avaliação, tanto das
disciplinas que compõem o curso, quanto
o trabalho programado final de conclusão
da especialização, foram também
modelados para se harmonizarem
metodologicamente com as atividades
didáticas, proporcionando para os
estudantes, a cada uma das etapas, a
oportunidade de elaborar um “produto”
pertinente à atuação profissional no
campo dos bens culturais (artigo a
ser publicado, cartilha de educação
patrimonial, mapa de danos, protocolo
para processo efetivo de intervenção,
laudo pericial, detalhamento técnico
projetual). Logo, para cada uma das
disciplinas é programado um desses
produtos a partir da abrangência
temática dada pelas aulas e exercícios.
O trabalho final do curso, previsto
para ser desenvolvido no último
semestre, deverá cumprir duas exigências
fundamentais: desenvolvimento de um
projeto de restauro para um artefato
ou edificação existente, e, uma reflexão
sobre soluções e modelos aplicáveis a
casos similares aos bens materiais em
questão, nos âmbitos temáticos mais
sensíveis dos projetos de intervenção
de restauro como a acessibilidade, a
museografia, instalações e infraestrutura
novas, a comunicação visual, sistema de
combate a incêndios, luminotécnica, e a
inclusão e educação patrimonial.

Primeiros resultados

A
configuração didática final para
a formação de novos quadros
de especialistas no campo do Figuras 5 e 6 – Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande (c. 1582), vista geral do acesso pelo canal e
projeto de intervenção sobre aula na praça de armas. Fonte: Foto dos autores, 2019.

101
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

os bens culturais, propostas pelo nosso avaliar concretamente as configurações Conclusão

E
curso na UNICAMP e iniciado em março técnicas efetivas de uma edificação
de 2019, pode ser assim resumida nas histórica com os protocolos estudados ntende-se finalmente que as
suas principais atividades: em sala de aula sobre as alvenarias ações para a formação adequada
- Aulas expositivas (docentes de pedra do patrimônio brasileiro. A de quadros especializados na área
regulares do curso e convidados); identificação correta da manufatura dos do Patrimônio Cultural, como
- Apresentação de tecnologias sistemas construtivos e artísticos é um essa aqui relatada, contribuem para uma
aplicáveis (pesquisadores e empresas); dos principais preceitos para desenvolver ação de preservação mais consistente,
- Workshops sobre material de um equilibrado projeto de intervenção, adequada e atualizada. Não podemos
referência (livros, cartilhas, sites, bancos na qual as disciplinas da história da arte, esquecer os problemas emergentes do
de dados); da tecnologia e social da cultural se século XIX para o contexto dos espaços
- Visitas técnicas (canteiros de obras, convergem e, sobretudo, esses estudos edificados, como a sustentabilidade,
sítios e cidades históricas, laboratórios fomentam uma plena consciência das postura exigida e necessária também
de restauro artístico, museus); possíveis soluções sejam elas reversíveis, nos sítios e centros históricos (DE VITA,
- Treinamento prático em sítios e de consolidação, reintegração ou 2012).
edificações (cadastro, caracterização e mesmo manutenção ordinária (ROCA, Essa formação foi proposta com
diagnóstico). LOURENÇO, GAETANI, 2019). uma estratégia diferenciadora, porque
Entre os primeiros resultados A segunda atividade de campo trata num só tempo de instrumentais
muito positivos que podemos colher já promovida para a formação dos específicos de intervenção e do juízo
dessa estrutura didática de formação estudantes foi em uma fazenda de crítico sobre a globalidade da área
avançada estão as atividades de café de meados do século XIX, em 28 da preservação, bem como aclara
treinamento prático em sítios históricos, de setembro de 2019, na região de as interfaces e especificidades entre
e descrevemos duas experiências. Campinas, a Fazenda Espírito Santo do a tangibilidade e a intangibilidade
A primeira, no Museu Histórico Atibaia, cujo rico patrimônio edificado e do patrimônio. Insere-se, então, na
Fortaleza de Santo Amaro da Barra tecnológico é muito significativo para a esfera da Globalização que impacta
Grande, no Guarujá, litoral paulista, em paisagem cultural histórica relacionada a área preservacionista, porquanto
24 de agosto de 2019, onde a turma a um ciclo econômico decisivo para o amplia, nas diversas dimensões dos
de estudantes conheceu o projeto de nosso estado de São Paulo. saberes e fazeres, a disponibilidade dos
valorização da Arquitetura militar da Nas atividades de campo os quadros profissionais mais qualificados
costa brasileira, sob tutela do IPHAN, estudantes puderam empregar as e atualizados do ponto de vista
que se prepara para a candidatura a metodologias de caracterização e conceitual, metodológico e tecnológico,
patrimônio da humanidade, e, na ocasião diagnóstico promovidas durante a contribuindo, assim, para uma mais
da visita, foram feitos trabalhos de disciplina 3, como o mapeamento efetiva e consistente formação de
levantamento cadastral das estruturas de danos de elevações edificadas, memória e identidade.
características da fortificação de a mensuração de componentes O projeto final de conclusão do curso
matriz portuguesa, particularmente as construtivos usando os padrões moderno abrange exatamente o patrimônio
estruturas de pedra e seus configurações (o metro) e antigo (o palmo), como arquitetônico de matriz industrial e
construtivas. Além das atividades de ferroviária, um acervo significativo em
matérias tijolos, revestimentos, janelas e
aplicação de conceitos, metodologias nossas cidades e que muitas vezes,
portas, e construir um dossiê fotográfico
e técnicas que o curso desenvolve, essa por parte de seus proprietários, não
de caracterização das três tulhas
vivência espacial “in loco” fomenta se encontram soluções adequadas,
uma especial sensibilidade para com os históricas da Fazenda, respectivamente tecnicamente e economicamente, para
artefatos de valor histórico-cultural. construídas ao longo das décadas em favorecer investimentos que aproveitem
Nessa ocasião os estudantes puderam pedra, taipa de mão e tijolos cerâmicos. essas estruturas já consolidadas, com

102
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

projetos de qualidade e com programas 1987, p. 99–104.


de uso interessantes para toda a ROCA, Pere; LOURENÇO, Paulo B.;
sociedade. Esse é o desafio dado aos GAETANI, Angelo. Historic Construction
arquitetos que se qualificam em nosso and Conservation – Materials, Systems
curso, que devem cumprir, além dos and Damage. Nova York: Routledge, 2019.
estudos de caracterização e diagnóstico, TOGNON, M. História, técnica e
um conjunto de projetos detalhados representação: as seções transversais
temáticos para os edifícios escolhidos murárias exemplares do patrimônio
tais como acessibilidade, consolidação arquitetônico brasileiro. In 5º Fórum
estrutural, infraestrutura e instalações Internacional do Patrimônio Arquitetônico
normatizadas, novos usos espaciais, selo Brasil-Portugal – FIPA – 2018. Anais.
“Green Building”, entre outros. AMOROSO, Maria Rita Silveira de Paula
Esses projetos temáticos poderão Amoroso et alii (organizadora) – Brasília,
compor protocolos, expondo DF: Iphan, 2018, p. 158-163.
metodologias, soluções materiais e
processos que, exemplarmente, poderão
orientar intervenções em espaços e
tipologias similares em nossas cidades
brasileiras, superando os vazios sociais
do nosso patrimônio arquitetônico
abandonado.

Referências bibliográficas

DE VITA, M. et alii. Città storica e


sostenibilità. Florença: Firenze University
Press, 2012.
FARAH, A. P. Restauro Arquitetônico:
a formação do arquiteto no Brasil para a
preservação do patrimônio edificado. In
revista História, São Paulo, n. 27, 2008, p.
31-47.
GALLO, H. Arqueologia, Arquitetura e
Marcos Tognon
Cidade: a preservação entre identidade e
autenticidade. In: MORI, V.; SOUZA M. C.
De; BASTOS, R. L.; GALLO, H. Patrimônio Professor Livre Docente, Instituto
Atualizando O Debate. São Paulo: 9ª SR de Filosofia e Ciências Humanas –
IPHAN, 2006. p. 92-116. Universidade Estadual de Campinas
GAZZOLA, Pietro. The Training of (UNICAMP)
Architect-Restorers, in Monumentum,
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Paris, vol. 3, 1969, p. 15-25.
JOKILEHTO, J. Sull’insegnamento nel
campo del restauro dei monumenti in Professor Livre Docente, Instituto
vari paesi.In: Restauro, ano 16, n. 94, de Artes – Universidade Estadual de
Campinas (UNICAMP)

103
Figura 1 – Vista geral do SESC Pompeia. Fonte: Ilustração de Daniloz - comissionado por: Arkitektur Museum der TUM.
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Weber Schimiti

SESC POMPEIA, PATRIMÔNIO E CULTURA POPULAR


BRASILEIRA

A proposta deste artigo¹ é analisar a vinculação entre aspectos arquitetônicos da principal


obra de Lina Bo Bardi (LBB), com foco na criação do grande espaço de estar, e sua atividade
como estudiosa da cultura popular brasileira e, em especial, do artesanato. Dada a sua rique-
za e complexidade, para avançar na compreensão das intenções da autora e dos meios por
ela empregados para realizá-las, será necessário enfocar nos edifícios em seus aspectos for-
mais, funcionais e simbólicos. Demais obras, registros ou manifestações de LBB, assim como
de outros arquitetos serão convocados como referências para estabelecer semelhanças ou
diferenças em relação aos posicionamentos observados nos projetos em tela.
Distante seis quilômetros A oeste o projeto da nova unidade.Ganharam instalações relativas à manutenção.
do centro, o terreno fica numa zona de força a noção da relevância da antiga A ideia inicial de LBB para o espaço
São Paulo que não era alcançada pelas fábrica para a história urbana do bairro principal do centro, ou seja, aquele
unidades em funcionamento naquela e a ideia da preservação dos galpões, abrigado pelos galpões situados à direita
época. Sua compra ocorreu num momento que poderiam ser progressivamente da entrada, era uma intervenção em
de redirecionamento do SESC, cujo foco adaptados. A contratação de LBB diversos níveis, com mezaninos e rampas,
de atuação passava do assistencialismo consolidou internamente essa orientação que ocuparia o espaço em toda sua altura.
social ao lazer e à cultura (SARTORELLI, alternativa que, abraçada na elaboração Rapidamente, após concluídos os
2019, p. 58). do novo projeto, foi fundadora das primeiros levantamentos, constatou-se
Como os galpões da antiga fábrica diretrizes arquitetônicas definitivas do que tal solução seria inviável pois não
não eram protegidos pelos órgãos ligados SESC Pompeia. havia altura suficiente para acomodar os
ao patrimônio histórico, havia, por parte Localizados nos galpões à direita diversos níveis. A partir daí mudou o rumo
do SESC-SP, divergência quanto a sua do acesso principal, o espaço multiuso do projeto e passou-se a estudar uma
manutenção. O movimento inicial foi e o espaço de exposições temporárias nova estratégia de ocupação dos espaços.
de providenciar o projeto de uma sede contêm a biblioteca e formam o grande Nesse estudo, progressivamente, o corte
totalmente nova, que ocuparia o terreno espaço de estar do centro. Mais adiante, foi sendo substituído pela planta.
todo. Para realizá-lo foi contratado descendo pelo acesso principal, uma Na versão final, a criação do volume
o arquiteto Júlio Neves. Ele também área remanescente entre dois galpões foi elevado da biblioteca na faixa central deste
assumiu a coordenação dos projetos coberta com telhas de vidro para abrigar espaço coberto por cinco telhados em
complementares e aprovação na o foyer do teatro. Os dois últimos galpões shed, subdivide espacialmente o ambiente,
prefeitura, e inclusive o alvará de demolição do lado direito foram adaptados para criando duas áreas laterais, com dois sheds
da fábrica, efetivamente obtidos em 1975 o teatro e para as oficinas de cerâmica, cada uma. Em relação ao acesso principal,
(BECHARA, 2017, p. 51 e p. 56). pintura, carpintaria, etc. Nos galpões uma das áreas é anterior (à direita do
Durante esse período emerge dentro do lado esquerdo foram criados o bar volume da biblioteca) e a outra posterior
do SESC-SP uma visão alternativa para e o restaurante, a cozinha e depois, as (à esquerda do volume da biblioteca).

105
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

parcialmente ocupado pelos espaços


de leitura baixos, pelo acervo e áreas
de apoio da biblioteca. Como resultado
dessa disposição,se o espaço à direita do
volume da biblioteca pode ser entendido
como uma antessala, chegamos agora
ao espaço posterior, que é caracterizado
como a sala principal do SESC Pompeia,
com a lareira e o espelho d’água. Seus
usos predominantes são como área de
exposições e espaços de estar.
Desprovido de volumes construídos,
à primeira vista pode-se ter a impressão
de que este espaço foi resultado de um
gesto perfunctório dos arquitetos pois, à
primeira vista, pouco se criou na fábrica
adaptada, já que ela seguiu muito parecida
a uma fábrica qualquer. A recuperação das
etapas de projeto e obra mostra o quanto
é equivocada e distante da realidade
essa primeira impressão. Nestes galpões
muito foi retirado, feito e refeito para
que se chegasse à configuração atual.
As principais intervenções aqui foram a
Figura 2 – Planta do Sesc Pompéia, projeto de Lina Bo Bardi. Disponível em:<https://images.adst- retirada do reboco das paredes da fábrica,
tc.com/media/images/5626/eb86/e58e/cee6/f000/01d5/large_jpg/Pompeia_planta_gral_1er_nivel.
jpg?1445391233>. Acesso em 18/03/2020.
deixando as alvenarias em tijolo aparente,
a troca completa do piso, a substituição
Essa construção destinada a abrigar estabelecido pelas aberturas e escadas de telhas cerâmicas por telhas de vidro e
de acesso, semelhante ao da estrutura, a substituição de vidraças por alvenaria
espaços para leitura pode ser vista como
do tipo tijolo de galinheiro.
remanescente daquela ideia inicial de uma enfim, tudo nele busca a integração
Tendo já descartada a ideia original,
ocupação vertical dos galpões. Constituída com o existente. Essa definição formal
de uma intervenção de natureza
basicamente de duas áreas, uma delas concisa e mimética reflete a perda de
expressivamente construída, LBB
elevada pouco mais de um metro acima protagonismo desse elemento, registrada recorreu ao fogo e a água para interferir
do nível dos galpões, simplesmente nos croquis iniciais, onde ele figurava como na configuração espacial antiga e
delimitada por muretas de concreto à meia um elemento requalificador da ordem estabelecer uma nova espacialidade.
altura e a outra, elevada, com mesas para espacial existente, e que depois degradou- Juhani Pallasmaa destaca o poder
leitura na parte superior e áreas destinadas se em um divisor de dois compartimentos evocativo desses dois elementos e lembra
a atividades diversas, geralmente voltadas espaciais. Na terminologia de Kevin Lynch, que, segundo Bachelard, são os elementos
passou de elemento marcante a limite. que possuem o maior potencial para
ao público infantil, na parte inferior.
No momento em que as áreas baixas estimular a imaginação:
Todo construído em concreto aparente,
de leitura e suas escadas são posicionadas
o volume elevado da biblioteca tem o à direita do volume elevado, a simetria Dentre todos os objetos
mesmo material dos pilares da antiga do mundo que invocam o
espacial inicialmente configurada (dois devaneio, a chama provoca
fábrica. Sua posição centralizada, suas galpões para cada lado) é alterada imagens mais rapidamente
linhas discretas, sua forma regular e o ritmo funcionalmente, e o lado direito fica que os demais. Ela nos

106
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

compele a imaginar; quando


sonhamos em frente a uma
chama, o que se percebe não
é nada em comparação com
o que é imaginado. A chama
carrega suas metáforas e
imagens nas esferas mais
diversificadas da meditação....
(BACHELARD apud
PALLASMAA, 2013, p. 49)

Em relação a água, Pallasmaa


complementa:
As imagens da água são
igualmente variadas e
poeticamente evocativas. A
água é, ao mesmo tempo, a
imagem da vida e da morte;
também é um elemento
feminino, maternal – que
pode, porém, em suas formas
mais potentes, adquirir
caraterísticas masculinas. Mais
importante que isso: junto
com o imaginário do fogo, a
água é a imagem mais potente
da imaginação (PALLASMAA,
2013, p. 50).
Figuras 3 a 5 – Croquis do Sesc Pompéia. Fonte: Instituto Lina Bo e P. M. Bardi. Foto de Henrique Luz.
Tanto a lareira quanto o espelho d’água Disponíveis em:<http://www.institutobardi.com.br>. Acesso em 18/03/2020.
possuem características autônomas,
visualmente independentes em relação Pallasmaa: Construtivamente a lareira do espaço
aos demais elementos arquitetônicos. multiuso consiste numa base de pedras
A lareira é formada por blocos de pedra Camadas de diferentes usos
e alterações ao longo do e uma coifa metálica pendurada nas
maciços, agrupados e simplesmente tempo em um edifício ou tesouras do telhado. Sua forma e o foco
apoiados. Ela não dispõe de nenhum contexto sugerem um tempo pontual do fogo criam um ambiente
embasamento ou suporte que a vincule ao condensado e denso, bem
como a técnica deliberada da intimista, relacionado ao âmbito
piso. O espelho d’água não tem margens colagem. A reforma de um doméstico. Partindo desse ponto, a
expressivas. Suas bordas parecem prédio resulta inevitavelmente chama gera um gradiente de círculos
encaixadas após um corte cirúrgico das na justaposição de estruturas,
formas, tecnologias, materiais concêntricos de luz e calor, ou seja, uma
pedras do piso. Tendo sido retirado todo
e detalhes contrastantes à singularidade que, na sua essência, é
o piso existente da fábrica, o novo piso foi maneira de uma colagem. A
projetado sem que sua disposição criasse conflitiva em relação ao antigo galpão
justaposição deliberada do
eixos, direcionamentos ou molduras. Sua antigo e do novo revela as visto que é estranha à diretriz linear e
paginação não demonstra intenção de diversas vidas e os períodos homogeneizante do espaço dos galpões.
culturais da estrutura. A Assim como a lareira, o espelho
conectá-lo à lareira nem tampouco ao expressão arquitetônica e o
espelho d’água. simbolismo originais podem d’água tem na sua origem uma questão
O conceito de colagem parece muito bem entrar em um relacionada ao conforto térmico. A ideia
adequado ao procedimento adotado para conflito dramático com o uso inicial de LBB era promover a substituição
adaptado (PALLASMAA,
inserir esses dois elementos. Segundo 2013, p. 50). das telhas cerâmicas por telhas de

107
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

que diz respeito às relações estabelecidas


entre o uso fabril, original dos galpões
construídos para abrigar e dar mais
eficiência ao processo produtivo, e os
novos usos como centro da vida social
do bairro e da cidade, espaço de cultura
e lazer.

Identidade, cultura popular e cidade

O
SESC Pompeia exibe
os frutos e conquistas
de LBB dentro da área
crítica aberta pelo Team
X na década de cinquenta,
juntamente com o seu amadurecimento
Figura 6 – Vista do acesso aos espaços de leitura da biblioteca, em dois níveis elevados: desde as mesas no nível do galpão,
o nível intermediário e ao fundo, o volume elevado com a escada de acesso intercalada entre os pilares da antiga fábrica.
como arquiteta e sua aproximação à
Fonte: Foto do autor, 2019. arquitetura e cultura nacional, sobretudo
à cultura popular.
vidro em toda área de convivência e construída em concreto aparente com
Para mapear esse deslocamento é
exposições, solução que foi adotada escadas e rampas, agora ela foi rebatida
crucial levar em conta a atuação desse
posteriormente no foyer do teatro. no plano horizontal, apresenta-se
grupo, que teve no holandês Aldo van
Após a elaboração de alguns estudos desconectada construtivamente do piso e
Eyck um de seus representantes mais
e simulações, o consultor encarregado desmaterializada.
proeminentes, cuja atuação marcou o fim
alertou para a excessiva carga térmica Quase imperceptível à distância,
da hegemonia dos CIAM e desaguou na
que essa troca acarretaria. Sugeriu que a linha da borda se abre em curvas
explosão contestadora dos anos sessenta.
a troca fosse realizada somente em uma e remansos, à medida que nos
Agrupados em torno à ideia da
das águas de cada telhado e, mesmo aproximamos, serpenteando curvilínea
assim, que fossem adotadas algumas por entre os pilares. Assim como o fogo, resistência aos desdobramentos negativos
medidas para atenuar o excesso de calor: a fluidez silenciosa do espelho d`água do Movimento Moderno, já observados
aumento da ventilação natural, que foi invade a homogeneidade do espaço fabril no pós-guerra, mais especificamente
obtido com a substituição de vidraças por e se esparrama pelo amplo salão para nos seus aspectos sociais e urbanísticos,
tijolo de galinheiro e criação de área com criar uma nova situação: onde a fábrica o Team X cristalizou-se à medida que
vegetação, que foi vetada pela arquiteta, é linha reta, ele é curva; onde a fábrica cresceu a visão crítica e a convicção da
ou com água. (BECHARA, 2017, p. 119) é estática, ele é fluxo. Na sua superfície, necessidade de uma mudança de rumo.
A ideia de uma intervenção marcante vemos refletida a imagem de uma Segundo Charles Jencks, as evidências
no espaço principal, com característica realidade transformada. Onde a fábrica é apontavam para duas conclusões: “A vida
orgânica, fluída, envolvente, que fosca, ele é reflexo; onde a fábrica é piso, do homem urbano estava se tornando
se sobrepõe à estrutura existente e ele é telhado. Ao contrário dos volumes mais anônima e móvel ou, em termos
estabelece uma nova situação - que era a da biblioteca que ocupam o espaço, a arquitetônicos, havia um movimento
intenção original - renasce encarnada na água amplia o vazio, dando-lhe um novo inexorável de sistemas simbolicamente
solução do espelho d’água. Enquanto na sentido. ricos a outros mais empobrecidos, de
ideia inicial a intervenção seria vertical, Em relação aos significados, uma das atuações culturais a atuações funcionais
em diversos níveis, provavelmente chaves que nos parece importante é a ou, simplesmente, do lugar ao espaço”

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Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

(JENCKS, 1983, p. 302, tradução do autor).


O enfrentamento a essas tendências
e o repúdio ao sentimento crescente de
que o homem do futuro seria “ninguém
vivendo em lugar nenhum”, aglutinou
esse que viria a ser o principal foco e
resistência e ativismo na década de
cinquenta. Segundo Jencks, “a história
entre os CIAM e o Team X, entre 1953 e
1963, é basicamente a história de uma
tentativa de reestabelecer as bases da
identidade urbana: ‘o sentimento de que
se é alguém, vivendo em algum lugar’,
como dizia Peter Smithson” (JENCKS,
1983, p. 302, tradução do autor).
O interesse de LBB pelo artesanato e
pela cultura popular brasileira se insere,
portanto, nesse contexto de recolocação do Figura 7 – Vista desde o fundo para o acesso: espaço principal com as áreas de estar, lareira, espelho d’água e área de ex-
ser humano como o centro da arquitetura posições, limitado à esquerda pelo volume elevado da biblioteca. Fonte: <http://www.artecapital.net/uploads/estado_arte/
e de oposição à uma homogeneização POMPEIA_AREA-DE-CONVIVENCIA.jpg>. Acesso em 18/03/2020.

cultural empobrecedora. Constante ao


brasileiros daquele período, que incluía os intelectuais citados
longo de sua carreira, esse interesse anteriormente e muitos outros
também se distanciaram da ortodoxia
vai progressivamente se tornando mais (GONZÁLEZ, 2016, p. 141).
modernista e buscaram se aproximar da
profundo e extenso graças a suas viagens
expressão popular regional, vernácula,
e vivência pelo país e, marcadamente Na imagem matinal,sob o filtro “Névoa
incorporando-a de maneira experimental
após a sua intensa atividade em Salvador tóxica paulistana”, a luz aveludada do sol
a sua expressão artística. Nesse sentido,
na década de sessenta (1958-1964), encontra, mais uma vez, o embaçado
podem ser citados como exemplos os
passou a ocupar um papel central em sua vulto de concreto. Sua massa, o peso
artistas ligados ao Centro Popular de
proposta estética e arquitetônica. e a contundência de seus contornos
Cultura e ao Teatro de Arena, os cineastas
Segundo Julieta González: materializaram em novas formas, antigas
agrupados no movimento do Cinema
A abordagem material Novo, artistas plásticos como Hélio questões nacionais. Cravaram nos
e técnica de Bo Bardi Oiticica e Lygia Pape, o poeta Ferreira anos oitenta uma fortaleza afirmativa
para o design industrial e Gullar e o crítico de arte Mario Pedrosa. dos espaços para a sociabilidade, da
arquitetônico tomou rumos
radicais em direção ao que ela identidade da periferia do mundo
Dessa forma, é possível situar moderno, do artesanal e da inventividade
descreveria como ‘arquitetura Lina Bo Bardi no contexto
pobre’, uma arquitetura desta onda de experimentação tosca. Afirmaram a criatividade dos
reduzida ao estritamente da cultura brasileira, que
essencial, que evitava iletrados e ergueram-se a ostentar suas
visava abarcar e incorporar imperfeições como trunfos.
artifícios, revelava traços estas outras formas de
estruturais e salientava as conhecimento. Em sua defesa Nos galpões antes ocupados pelo
características dos materiais da cultura popular, fica claro
empregados (GONZÁLEZ, proletariado terceiro-mundista, o Sesc
que, embora agisse com muita Pompeia recebeu imigrantes, baianos,
2016, p. 147). independência com relação
Outro aspecto importante para às vanguardas artísticas do aposentados, evangélicos, punks,
contextualizar o movimento observado Rio de Janeiro e de São Paulo, pensionistas e quem mais chegasse, em
na obra de LBB é identificar o seu paralelo ela não agia isoladamente,
e sim como parte de um uma cidade a qual chegavam trezentas
com o de outros artistas e intelectuais movimento significativo que mil pessoas por ano. Hoje na Pompeia,

109
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Figura 8 – Lareira do Sesc Pompeia. Fonte: <https://brazilianconcrete.files.wordpress.com/2016/06/


img_4239.jpg?w=584&h=438>. Acesso em 18/03/2020.

em sua arquitetura, Lina resiste. Projeto Hermann BlumeEdiciones, 1983.


de uma cidade diferente. O resto é GONZÁLEZ, Julieta. Quem não tem
gentrificação. cão caça com gato. São Paulo, 2016.
Disponível em <https://www.academia.
Notas e d u / 3 3 0 5 8 6 4 0 /A _ m ã o _ d o _ p o v o _
brasileiro_Quem_não_tem_cão_caça_
1 O presente trabalho foi realizado c o m _ ga t o _ n e w _ J G _ c h g s _ a c c p t d _
com apoio da Coordenação de for_publication.docx>. Acesso em:
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível 25/01/2020.
PALLASMAA, Juhani. A imagem
Superior – Brasil (CAPES) – Código de
corporificada. Porto Alegre: Bookman,
Financiamento 001.
2013.
Referências bibliográficas
SARTORELLI, Cesar Augusto.
Arquitetura de exposições: Lina Bo Bardi
e Gisela Magalhães. São Paulo: Edições
BECHARA, Renata C. A atuação de Lina
SESC, 2019.
Bo Bardi na criação do SESC Pompeia
(1977-1986). Dissertação Mestrado
Instituto de Arquitetura e Urbanismo –
USP. 2017.
GUIMARAENS, Maria da Conceição
Alves de. Dois olhares sobre o patrimônio Weber Schimiti
cultural brasileiro: Lina e Lygia. Dissertação
Mestrado em Comunicação UFRJ-Escola Arquiteto e Urbanista, mestrando
de Comunicação. 1993. pelo Programa de Pós-Graduação
JENCKS, Charles. Movimientos em Arquitetura da Universidade
modernos en arquitectura. Madri: Federal do Rio de Janeiro

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Figura 1 – Apresentação de dança Afro no VIII 20 Bimba. Foto de Érica Daniela, 2019.
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Uelber Barbosa Silva, Lásaro Vieira dos Santos e Dayane Silva Oliveira

capoeira-patrimônio: identidade, mandinga,


resistência e difusão da língua portuguesa
no mundo
A capoeira foi criada por africanos como instrumento de resistência à sua escravização e de
manutenção das memórias culturais multiétnicas da África negra que mantinham certo nível
de entretenimento nas senzalas, quilombos e portos do Brasil (SOARES, 1993; 1998). Apesar
da maioria dos registros históricos serem do século XIX, ela já era reivindicada no século XVIII,
como muito bem observou Abreu (2003, p. 34). Os capoeiristas foram perseguidos e a capoeira
se tornou crime em 1890. Segundo Esteves (2004, p. 58), ela resistiu à perseguição estatal,
foi reinventada por capoeiristas baianos (Bimba, Pastinha etc.) e retirada do código penal
do Estado Novo, na Era Vargas. Em 2008 e em 2014, depois de ter dado volta ao mundo, foi
registrada como patrimônio cultural imaterial do Brasil (IPHAN) e patrimônio da humanidade
(UNESCO). Atualmente, ela é praticada em cerca de cento e cinquenta (150) países, divulgando
a língua portuguesa e a história do Brasil (SILVA, SANTOS, AMOROSO, 2017) e criando uma
identidade-mandinga-resistência entre os seus praticantes.
A capoeira é um símbolo da está ligada à criação de uma identidade não é “uma atividade exclusivamente
resistência afro-brasileira no Brasil onde a concepção de família- africana” e sim “fruto da combinação
escravista, uma resposta político- resistência aparece vibrante. Enfim, a de tradições africanas dispersas com
cultural contra a escravidão. capoeira é uma atividade social, criada ‘invenções’ culturais crioulas”, afro-
Contudo, ela é muito mais que isso. e vivenciada numa dialética do resistir- brasileiras (SOARES, 1998, p. 125).
Uma brincadeira, uma dança, uma entreter, que sobrevive e se reinventa A característica multifacetada e
encenação, um jogo, uma luta: uma cotidianamente. multidimensional da capoeira não é
arte marcial brasileira, esportivizada, apenas um floreio poético-filosófico,
patrimonializada. Essa arte-luta Desenvolvimento é um traço do seu ser na medida em

A
cultural causa um efeito estético: a que ela se configura como, segundo
luta, cantada em versos cadenciados capoeira se assemelha com Areias (1983, p. 8), “música, poesia,
pelo berimbau; e possui uma ética: a unidades familiares extensas festa, brincadeira, diversão e,
unidade de um povo para manter sua e se sobrepõe ao universo da acima de tudo, uma forma de luta,
cultura viva. O seu efeito estético é rua, assim, são aspectos de manifestação e expressão do povo, do
similar ao do caleidoscópio: a cada vinculação com as práticas culturais oprimido e do homem em geral, em
gesto realizado pelos capoeiras, na de origem africana, herdeiras de busca da sobrevivência, liberdade e
roda, surgem combinações de desenhos todo o conjunto ancestral da tradição dignidade”. Pode-se acrescentar que,
harmônicos diversos que encantam e cultural Banto, da região do antigo como observou Julio Tavares (2000),
hipnotizam os espectadores. E sua ética reino Kongo-Angola. Portanto, ela a capoeira sintetiza a ressignificação

113
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

do corpo no contexto escravocrata,


a libertação e reinvenção como
corpo hábil, dinâmico e produtivo,
para rememorar a função identitária
que possuía em África, podendo ser
considerada uma linguagem que
mantém viva a transgressão herdada
dos nossos ancestrais da África Negra.
Como arte marcial ela conta um
sistema de movimentos de ataque e
de defesa eficientes executados ao
som do berimbau. Sua prática é um
constante exercício dialético, um jogo
de perguntas e respostas, expressando
uma relação causa-efeito permeada
pelo acaso e pela tradição. A surpresa
provocada pelo acaso tira qualquer
Figura 2 – Apresentação de capoeiragem antiga no VIII 20 Bimba. Foto de Érica Daniela, 2019.
possibilidade de monotonia e aprofunda
o seu efeito caleidoscópico. Do ponto
de vista da tradição, a roda de capoeira
encerra uma constante necessidade
de superação de si e do outro. Cada
gesto-movimento abre um campo de
possibilidades e impossibilidades e
desencadeia ações que multiplica o
tempo de cada instante.
A capoeira é um diálogo entre
a música e a dança;o berimbau e a
ginga;os dois jogadores; os jogadores
e os espectadores; enfim entre o corpo
e a mente, num constante exercício de
superação de si e do outro. O vai e vem
da ginga expressa a dialética de ataque
e defesa, da afirmação e da negativa.
Enquanto tal, ela exige um pensamento
dinâmico e complexo, uma destreza
corporal e uma atenção continuada, um
segundo de desatenção pode significar
a morte, mas o olhar constante permite
o recuo na ginga, a esquiva, a negaça.
O capoeira é mandingueiro!
Diferentemente da linguagem
racista (que associa o mandingueiro
Figura 3 – Apresentação de jogo de Santa Maria no VIII 20 Bimba. Foto de Érica Daniela, 2019. ao “feiticeiro”, malvado, adorador

114
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

de deuses violentos, impiedosos,


injustos e homicidas), na capoeiragem
o mandingueiro é o malandro que,
dançando, dissimula tão bem a luta, a
letalidade de seus gestos-movimentos,
que até mesmo o oponente desatento
entra na “dança”. Mandinga é
dissimulação, é ironia, é sarcasmo, é
a ação de forçar o outro a revelar sua
intenção enquanto a sua segue oculta.
Mandinga é diálogo entre o eu e outro,
entre o eu e o mundo ambiente. A
mandinga, entretanto, é componente
das respostas à necessidade de
superação de si e do outro. Tal
necessidade, na roda, desencadeia
ações que se desconstroem, numa Figura 4 – Apresentação de maculelê no VIII 20 Bimba. Foto de Érica Daniela, 2019.
contínua dialética adaptativa, própria
das respostas das (os) trabalhadoras
(res) escravizadas (os), na cotidiana
resistência individual-coletiva.
Faz parte da filosofia do ser capoeira
a busca pelo equilíbrio entre o corpo e a
mente. Como representante da única
arte marcial genuinamente brasileira, o
capoeirista se apropriou da rica fauna,
imitando bichos e criando uma relação
autêntica com a natureza. O capoeira
joga descalço pra sentir o chão, que
vira e mexe ele toca, se apoia, abraça
e faz dele uma arma. A capoeira é a
reprodução da corporeidade humana
em plena conexão com a natureza, em
sua gênese está marcada a pluralidade
(ela foi desenvolvida por diversos povos
africanos no contexto da escravidão
moderna). Seus dois troncos
organizacionais – Regional e Angola –
se intercruzam dando origem a várias
outras “capoeiras”, sem deixar de ser a
mesma o tempo todo. Ela agrega valor
nessa composição multifacetada do
ser/existir/resistir da essência humana.
Todas essas características enriquecem Figura 5 – O Bando de Maria Felipa e Salomé no VIII 20 Bimba. Foto de Érica Daniela, 2019.

115
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

a capoeira e faz dela uma legítima língua culta. Esse uso performático da refluxos migratórios, identificam-se e
filha afro-brasileira, gestada em útero língua apresenta uma compreensão apresentam-se como uma verdadeira
africano. histórico-política e cultural do rede de solidariedade e respeito.
Na volta do mundo dada pela escravizado, do subalternizado, da Enfim, a capoeira pode ser
capoeira, ela tem demonstrado sua afrobrasilidade que luta por afirmação considerada como “O Patrimônio que
capacidade de universalização da contra a hegemonia daquelas relações nos une”, na medida em que cria uma
língua portuguesa, como meio de de poder oriundas da colonização e identidade-mandinga-resistência e
comunicação e ligação entre povos perpassadas pelo racismo (CARBONI, absorve “Todos os mundos”, como um
de várias nacionalidades (identidade- MAESTRI, 2003). patrimônio que engloba outros, pois
mandinga-resistência). Atualmente, sabe-se que já existem realizada em senzalas, quilombos,
Muito provavelmente o Festival profissionais não brasileiros dando aula portos, matas, praias, praças, espaços
de Artes Negras realizado em 1966, de capoeira pelo mundo afora. Contudo, públicos ou privados, territorializados
na cidade de Dakar, no Senegal, ainda que não sejam lusófonos, (ROLNIK, 1992), plenos de prestígio
tenha sido o primeiro movimento de tais profissionais mantém o idioma social (MARX, 1980), lugares de
internacionalização da capoeira. Logo português como característica básica memória (NORA, 1993), como
em seguida, na década de 1970, uma da arte da rasteira. Um português que patrimônio vivo e dinâmico. .
série de “balés folclóricos” passaram a muitas vezes (na maioria) não é formal,
se apresentar fora do Brasil, sobretudo mas que é carregado de significado. Referências bibliográficas
nos Estados Unidos e na Europa. É Esse universo perpassado pela língua
neste contexto de internacionalização portuguesa cria e recria uma identidade ABREU, Frede. O Barracão do mestre
que a capoeira passou a ser parte e que é dinâmica e complexa, que é uma Waldemar. Salvador: Zarabatana, 2003.
produtora daquilo que Lourenço (1999) unidade de diversidades. A potência AREIAS, Almir das. O que é a
conceituou como lusofonia. Assim, artística da capoeira abre portas para capoeira. São Paulo: Brasiliense, 1983.
ela passou a contribuir também para que o conhecimento, a compreensão e o CARBONI, Florence; MAESTRI,
a preservação e divulgação da língua uso do passado possibilite intervenções Mário. A linguagem escravizada.
portuguesa. As aulas ministradas no presente e planejamento para Revista Espaço Acadêmico. Maringá,
em português, a manutenção da o futuro, expressando o seu valor ano 2, n. 22, 2003.
nomenclatura dos gestos-movimentos, histórico e atual como patrimônio D’AMORIM, Eduardo; ATIL, José.
dos instrumentos musicais e das cultural do Brasil e da humanidade. A Capoeira:Uma Escola de Educação.
músicas cantadas nas rodas estimulam Recife: Ed. Do Autor, 2007.
o aprendiz estrangeiro a conhecer e se Conclusão ESTEVES, Acúrsio Pereira.

A
apropriar do português e da história do A “Capoeira” da Indústria do
Brasil. identidade-mandinga- Entretenimento: Corpo, Acrobacia e
Tal divulgação e preservação, resistência tem na Espetáculo Para “Turista Ver”. Salvador:
entretanto, tem um aspecto de preservação da língua A. P. Esteves, 2003.
rebeldia, como fundamento mesmo um ponto de encontro FALCÃO, Júlio L. C., 2006: “A
da capoeira: sobretudo nas cantigas, importante. Essa concepção de capoeira é do Brasil? A capoeira no
a linguagem aparece em sua identidade dialoga com aquilo que Hall contexto da globalização. In: MILANI,
dialética própria do ontem e do hoje, (2006) considerou como a “identidade Luciano. Portal Capoeira. Porto, 2006.
apresentando um diálogo entre tempos do sujeito sociológico”, que se cria e Disponível em: https://portalcapoeira.
distintos, preservando aspectos de uma recria constantemente num diálogo com/capoeira/publicacoes-e-artigos/a-
linguagem que já caiu em desuso com a entre o individual e o coletivo, entre o capoeira-e-do-brasil-a-capoeira-no-
vivacidade da língua falada, sobretudo eu e o outro. É nesta perspectiva que a contexto-da-globalizacao/. Acesso em:
entre aqueles que pouco dominam a comunidade da capoeira, nos fluxos e 15 fev. 2020.

116
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

HALL, Stuart. A identidade cultural


na pós-modernidade.11. ed. São Paulo:
DP&A, 2006.
LOURENÇO, Eduardo. A Nau de
Ícaro seguido de imagem e miragem de
lusofonia. Lisboa: Gradiva, 1999.
MARX, Murillo. Cidade brasileira.
São Paulo: Edições Melhoramentos,
1980.
NORA, Pierre et al. Entre memória
e história: a problemática dos lugares.
Projeto História: Revista do Programa
de Estudos Pós-Graduados de História.
São Paulo, v. 10, dez. 1993.
ROLNIK, Raquel. História urbana:
história na cidade? In: FERNANDES, A.;
GOMES,
M. A. F. (Org.). Cidade e história:
modernização das cidades brasileiras
nos séculos XIX e XX. 1992. Tese
(Mestrado em Arquitetura e Urbanismo)
– Universidade Federal da Bahia,
Salvador: UFBA,1992.
Uelber Barbosa Silva
SOARES, Carlos Eugênio Líbano. A
negregada instituição: Os capoeiras na
Licenciado em História pela
corte imperial, 1850-1890. São Paulo:
Universidade Estadual do Sudoeste da
Access, 1993.
SOARES, Carlos Eugênio Líbano. Bahia (2009), mestre em Serviço Social
A capoeira escrava e outras tradições pela Universidade Federal de Alagoas
rebeldes no Rio de Janeiro (1808-1850). (2011), doutorando em Serviço Social
São Paulo: Access, 1998. pela Universidade Federal de Alagoas
SILVA, Uelber Barbosa; SANTOS,
Lásaro Vieira dos Santos
Lázaro Vieira dos; AMOROSO, Maria
Rita. Capoeira: dança de negro, Mestre e fundador do Centro
contravenção penal, patrimônio Educacional de Treinamento Arte e
cultural imaterial da humanidade.
Movimento Capoeira Escola - CETA, de
In: “Congresso da reabilitação do
Vitória da Conquista, na Bahia
patrimônio”. Aveiro, Universidade de
Aveiro, 2017. Dayane Silva Oliveira
TAVARES, Julio. Educação, através
do corpo: a representação do corpo Licenciada em História pela
nas populações afro-ameríndias. In: Universidade Estadual do Sudoeste
Negro de corpo e alma. Mostra do da Bahia (2012) e mestranda
Redescobrimento. São Paulo: Fundação
em Serviço Social pela Universidade
Bienal, 2000.
Federal de Alagoas

117
Vista da Zona Portuária do Rio de Janeiro, a partir da Fábrica Bhering. Foto de Diego Dias, 2020.
FRAGILIDADES E DESIGUALDADES
Figura 1 – Construção da ponte Duarte Coelho, Recife, Pernambuco, Brasil. Foto de Benicio Whatley Dias, 1941.
Acervo Cehibra, Fundaj, Ministério da Educação.
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Cêça Guimaraens

O Recife em benicio whatley dias

A fotografia documental foi, a partir de meados do século dezenove e ao longo da primeira


metade do século vinte, eficaz ferramenta para o registro das sucessivas fases de crescimento,
transformação e uso da malha urbana. Nesse contexto, as demolições de quadras, ruas e sobrados,
adicionadas à construção de avenidas e edifícios, que ocorreram no Recife, capital do estado de
Pernambuco, região Nordeste do Brasil, foram os principais objetos dos trabalhos do fotógrafo
Benicio Whatley Dias. Ao entender de modo amplo a fotografia documental, apresento neste
artigo breve análise do olhar apurado com o qual Whatley Dias focou motivos diversos da cultura
e do modo de viver nordestino. De modo profissional e artístico, ele observou com suas lentes o
tecido e a geografia humana recifenses tanto na escala da paisagem quanto nas perspectivas em
nível do chão. Ao destacar as pessoas, as coisas e a natureza da cidade, afirmou a importância de
ambientes em transição; e, ao ressaltar a presença dos personagens que viviam e trabalhavam
nesses lugares que se encontravam em escombros, revelou aspectos sociais singulares e, também,
o alto nível da cultura que imprimiu ao Recife um caráter único e belo.
O curto percurso narrativo e visual aqui Benicio Whatley Dias era bacharel fotógrafos, artistas e arquitetos, Whatley
traçado também valoriza o valor artístico em Direito, comerciante, intelectual, Dias foi um legítimo representante da
desses registros das transformações colecionador e fotógrafo reconhecido, “mentalidade de vanguarda que guiou
ocorridas entre as décadas de 1930 e principalmente, por seus registros de uma os trabalhos” institucionais à época
1970 no centro histórico daquela cidade. das fases de modernização do Recife. (CAMPELLO, 2016).
A ênfase e o contraste das imagens Além de ministrar aulas de História da O relato e a iconografia do artigo
chamam a atenção para o contexto físico Arte na antiga Escola de Belas Artes da fazem parte da pesquisa realizada em
e sociológico provocado pela destruição Universidade do Recife, ele fundamentou arquivos institucionais que guardam
da arquitetura e pela construção do a expertise de colecionador e a atividade a produção fotográfica de Whatley
urbanismo moderno, sim. Mas, acima de antiquário com a sua obra fotográfica Dias. Desenvolvido entre 2014 e
de tudo, face ao sentimento de perda, elaborada para a Prefeitura Municipal, 2019 no Laboratório de Urbanismo e
as imagens sugerem a perplexidade dos Porto do Recife e para o Instituto do Patrimônio Cultural do Programa de
habitantes que, também transformados, Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Pós-graduação em Desenvolvimento
tornaram-se impotentes testemunhas Assim, ao fazer parte do grupo de Urbano da Universidade Federal de
das mudanças de seus ambientes intelectuais que vivenciou as décadas de Pernambuco, o trabalho, entre outros
cotidianos. 1940 a 1970, ao lado de Alexandre Berzin, objetivos, visou reconhecer o valor de
Recifense nascido em novembro Lula Cardoso Ayres, Hélio Feijó, Delfim conteúdos imagéticos, cuja importância
de 1914 e falecido em março de 1976, Amorim e Mário Russo, entre os principais para a história urbana e para a geografia

121
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Dessa perspectiva, verifica-se que


Pernambuco desenvolveu, nos séculos
dezessete e dezoito, escola artística
regional própria. Portanto, segundo os
estudiosos da fase colonial, a originalidade
com que, em Recife e Olinda, foram
reproduzidos e interpretados os manuais
da Metrópole gerou um conjunto
arquitetônico e urbanístico que tem
importância basilar para a compreensão
da arte brasileira.¹
Ao levar em conta o tecido espacial
identitário em meio às construções ditas
civis e militares, e à estrutura urbana
constituída por quadras, ruas, becos,
pátios e pontes, foi possível verificar que
as construções religiosas e institucionais
Figura 2 – Teatro Santa Isabel, Recife, Pernambuco, Brasil. Louis Vauthier, arquiteto. Foto de Benicio
Whatley Dias, 1940. Acervo Cehibra, Fundaj, Ministério da Educação.
tiveram lugar destacado no universo das
representações imagéticas da história e
humana recifense é inegável. Para tanto, 1970, uma das funções da Fotografia foi da arte urbana recifense. Dentre outros
a investigação compreendeu o estudo documentar as mudanças físicas e sociais aspectos, verificou-se que as mesclas
das fotografias existentes no Arquivo das cidades. estilísticas e o gosto exuberante das
Noronha Santos e na 5ª Superintendência Àquela época, os fotógrafos tiveram fachadas e dos interiores das igrejas e dos
Estadual do Instituto do Patrimônio papel relevante para a promoção das palácios refletiram o horror às superfícies
Histórico e Artístico Nacional, nos acervos ações de modernização dos espaços lisas. Por outro lado, a admiração pela
dos museus do Estado de Pernambuco de vida humana. Paisagens do campo, fria austeridade do suposto puro colonial
e da Cidade do Recife, e no Centro de “vistas” urbanas e registros de “estilos” de contrapôs a simplicidade ao estéril
Estudos da História Brasileira Rodrigo comportamentos citadinos se sucederam academicismo e à volúpia do historicismo.
Melo Franco da Fundação Joaquim para constituir acervos de memória Portanto, o acervo fotográfico
Nabuco. sobre os impactos modernizantes — estudado é a expressão visual da
sem precedentes — que, sob diferentes estética e da verdadeira história da
Cidade e fotografia formas, foram absorvidos pelo meio físico formação e desenvolvimento da capital

P
e social. Então, os inumeráveis registros pernambucana.
ara descrever a breve aventura da ebulição das transformações no
do intelecto contida na pesquisa, ambiente comprovaram que a experiência O Recife sonhado

M
que abrange certa crítica à complexa da arquitetura com a cidade
arquitetura e o urbanismo envolve sobre maneira o tecido social odernidade e modernismo
moderno e apresenta uma ‘viagem’ e, neste entrelaçamento, engenheiros, são categorias que
inspirada nas imagens fotográficas do arquitetos, mestres-construtores, permeiam as justificativas
Recife elaboradas por Benicio Whatley marceneiros, escultores e pintores das transformações físicas
Dias, é preciso, inicialmente, dizer de tiveram singular responsabilidade de criar decorrentes de mudanças nas estruturas
Fotografia e Cidade. Para tanto, começo espaços e objetos que tornaram o poder urbanísticas do Brasil. Portanto, moderno
observando que, após a segunda metade laico e religioso apreensível ao olho da e modernista tornaram-se adjetivos
do século dezenove e até a década de população. entrelaçados quando o objetivo é

122
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

legitimar destruições e qualificar novas


construções, fossem estas progressistas
ou conservadoras.
Ao tratar de modernidade no Recife,
estudiosos² observam diferentes
aspectos da história urbana no período
holandês e no século dezenove,
imprimindo relevância ao início da
formação da cidade e, depois, às missões
técnicas estrangeiras, destacando a
liderada por Louis Vauthier (1815-1901).
Então, engenheiros franceses realizaram
importantes alterações na estrutura
urbana e construíram arquiteturas de
linguagem neoclássica e eclética, levando
em consideração a expansão do núcleo
urbano, o progresso e as ideias socialistas Figura 3 – Demolição de sobrado, Recife, Pernambuco, Brasil. Foto de Benicio Whatley Dias, 1940.
utópicas. Tais planos de modernização Acervo Cehibra, Fundaj, Ministério da Educação.
foram implantados a partir da década
de 1840, quando pontes e intervenções Cintra (1943) representavam as ideias e empreendimentos para o segmento
urbanísticas foram propostas e os ideais higienistas. Com essa intenção, social de maior renda e o turismo estão a
executadas pelo Conde da Boa Vista com as propostas objetivavam as obras que, desvirtuar os planos de proteção. Porém,
o objetivo de devolver à cidade a condição de igual e sistemático modo, pretendiam a seguir a tradição da prática de protestos,
de capital regional. eliminar os resquícios da cidade colonial. intervenções que rompem a escala das
Na sequência de tais desejos Nas décadas de 1950 a 1970, destacadas áreas históricas, melhor exemplificadas
de modernidade, projetos de as particularidades regionais, os padrões nas construções situadas nas bordas do
melhoramentos, reformas e regulação da arquitetura e do urbanismo moderno bairro histórico de São José — as torres
urbana modernos e modernistas foram foram consolidados em todo o país. A Pier Duarte Coelho e Pier Mauricio de
idealizados, integrados, atualizados e atuação dos urbanistas, entretanto, Nassau e do projeto Novo Recife no Cais
diferenciadosa partir da década inicial do debatia-se com as recomendações Estelita — motivam fortes manifestações
século vinte. de preservacionistas que definiam as de moradores, intelectuais e coletivos
Entre 1909 e 1913, as ações higienistas pautas para a conservação de elementos que, em defesa da paisagem, buscam
e os planos de saneamento provocaram históricos singulares. Portanto, no Recife, ampliar o escopo do instrumental
as reformas estruturais do bairro do apesar das significativas perdas,³ embates normativo protecionista.
Recife, incluindo a modernização do e discussões formidáveis fundamentaram
porto e as demolições de monumentos. a elaboração dos decretos e códigos, O Recife imaginado

B
Em seguida, de 1922 e 1926, foram portarias do Iphan e planos de gabarito
realizadas importantes obras em direção para a proteção e reabilitação dos sítios enicio Whatley Dias colecionou
aos subúrbios, o que levou à abertura de históricos. e elaborou cópias de fotografias
avenidas, alargamento de ruas e reformas Hoje, são os Planos Diretores e antigas, além de fotografar obras
de praças. Adiante, sucessivos planos as propostas de expansão imobiliária de arte de acervos museológicos
que foram idealizados por Domingos que representam as maiores ameaças e de igrejas coloniais. Na medida em que
Ferreira (1927), Nestor de Figueiredo à preservação da autenticidade no reproduções de visadas constantes em
(1932), Atílio Corrêa Lima (1936) e Ulhôa ambiente urbano tradicional. Os gravuras e fotografias antigas do seu

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Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

erudito. Em largas perspectivas, as linhas horizontais, os pátios ‘enquadram’


panorâmicas que ele colecionou mostram as igrejas, reforçando, lateralmente, as
as estruturas urbanas e arquitetônicas perspectivas estruturantes. Estas, por
do Recife e a hegemonia paisagística das sua vez, conduzem a outros elementos
igrejas e edifícios das instituições públicas. urbanos abertos e amplos ou às contínuas
Largos, ruas estreitas, travessas e quadras que compõem o traçado urbano
becos configuram a feição antiga do centro híbrido que caracterizava e, até hoje,
do Recife imaginado por Benicio Whatley caracteriza o centro do Recife.
Dias. Em sua cidade também se destacam Nas linhas de fronteira verticais,
as torres a dominar os horizontes; mas, as platibandas e cumeeiras dos
por outro lado, os avantajados volumes remanescentes sobrados estabelecem
das quadras e as altas e delgadas fachadas as molduras das ruas e acentuam a
dos sobrados confirmam a verticalidade verticalidade que condiciona as larguras
original herdada dos holandeses. das ruelas e becos. Mas, o olhar do
Em termos urbanísticos e fotógrafo também mostra as pessoas
arquitetônicos, os becos históricos ainda que, ao viverem atmosferas em transição,
existentes são os mais antigos padrões revelam suposta vitalidade criadora com
de vias descobertas. Do ponto de vista a qual a imaginação do ‘povo’ buscou
morfológico, embora mais largos que superar a poeira das demolições e o
algumas ruas, os becos são passagens arruinamento imposto pelo progresso
estreitas ou servidões. Vielas ou ruelas modernista.
transversais que ligam edifícios e vias
de uma cidade. Caminhos estreitos Os meninos do beco do Marroquim

A
para pedestres. Lugar para passar e
caminhar entre quadras, jardins ou fotografia Beco do Marroquim,
parques. Originalmente habitados por clicada por Whatley Dias,
comerciantes ricos, os becos se tornaram recebeu o Prêmio Cidade do
Figura 4 – Beco do Marroquim, Recife,
Pernambuco, Brasil. Foto de Benicio Whatley lugares pouco habitáveis devido ao Recife no Primeiro Salão de
Dias, 1940. Acervo Cehibra, Fundaj, Ministério da ambiente escuro e insalubre. No final Arte Fotográfica promovido em 1944
Educação.
do século dezenove, os becos foram pelo DEPT.4 Alexandre Berzin, Lula
ocupados pela população pobre, sendo Cardoso Aires e ele eram considerados
acervo pessoal identificam as diferentes os “pontos altos da arte fotográfica na
e superpostas épocas da história urbana estigmatizados em virtude do lixo e de
usos criminosos. cidade”, segundo matéria jornalística
do Recife, ele utilizou histórica herança que promovia o Primeiro Salão. Entre
imagética para compor apropriado Whatley Dias dispõe, nas suas
visadas horizontais das vielas estreitas os fotógrafos mais conhecidos, Marcel
entendimento da complexidade urbana Gautherot e os sucessores do studio
da cidade. Exemplos de interesse para e das, sugestivamente, longas ruas, o
conjunto de volumes construídos e os Fidanza também foram seus mais
os estudiosos são as séries de visadas importantes concorrentes no citado
que ele criou dos mesmos pontos de vazios que conduzem o olhar em fuga
oblíqua a buscar pátios e quarteirões. concurso.
vista utilizados por fotógrafos e artistas No conjunto da sua obra, Beco do
reconhecidos. Nas quadras, os sobrados, as janelas,
os entalhes de portadas e até mesmo Marroquim é, ao lado das fotografias
Os negativos que compõem o conjunto
os pormenores do mobiliário exibem à Estivador Nascimento e o Homem da
inédito da sua produção fotográfica
nossa percepção os valores históricos de ostra, uma das mais conhecidas imagens.
mostram a sensibilidade do seu olhar
origem. Ainda no caso das visadas em Remanescente da estrutura antiga do

124
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

bairro, o beco é o elemento urbano que no tecido urbano, surpreendendo


liga o cais de Santa Rita à rua da Praia. o observador com a imagem do
Hoje, além dessa função, é utilizado poeta colocada no plano de fundo.
para o comércio informal. Espécie de Na composição da fotografia, a rua
“vitrine” ou corredor aberto apropriado Cristóvão Colombo, situada no bairro
por comerciantes, suas paredes laterais de São José, se configura em direção
estão cobertas de mercadorias. Portanto, oblíqua. A perspectiva estreita da viela
o beco do Marroquim ‘encarna’ o atual integra o casario e as linhas das fachadas,
espírito do lugar. conduzindo o olhar do observador para o
Whatley Dias produziu três imagens ponto de fuga, onde se adivinha a figura
do Beco do Marroquim, as quais, vistas do poeta. Ascenso Ferreira, a carregar nos
em sequência, revelariam um processo braços o seu sobretudo, complementa,
de elaboração usualmente utilizado pelos na calçada, a linha vertical que se inicia no
artistas para ‘moldar’ a própria obra. alto da torre da igreja de Nossa Senhora
Dessas fotografias pode-se considerar que do Terço.
ele, ao repetir a estrutura da composição, Por meio de inusitada assimetria,
experimenta rascunhar a imagem para, a estrutura da imagem sugere a
depois, de fato, configurar o modelo concentração do olhar no ponto de fuga.
definido. Ao comentar, em entrevista Detido o olhar, é possível ao observador
sobre o instante no qual ‘apreendeu’ a perceber que a face do poeta está
fotografia premiada, o fotógrafo afirmou: iluminada, indicando o encantamento
dele ao visualizar o pátio da igreja de
“Sempre namorei aquele beco.
E um dia quando ia passando, Nossa Senhora do Terço. O escritor, então
percebi os meninos brincando transformado em flâneur, espraia o olhar e
despreocupados. Era a minha parece surpreender-se com a luminosidade
oportunidade. Aproveitei.
O mais, aquele transeunte do pátio, espaço aberto e livre.
espremido para passar, o mais Figura 5 – Ascenso Ferreira, Recife, Pernambuco,
foi sorte do fotógrafo. Essa Cariri, o mascate de São José Brasil. Foto de Benicio Whatley Dias, 1942.
sorte que sempre ajuda a

O
Acervo Cehibra, Fundaj, Ministério da Educação.
gente.” 5 retrato configura a forma
da pessoa existir e estar no Cariri era um vendedor de ervas e peles
O poeta na cidade
mundo. À pergunta “quem sou de pequenos animais que vivia ao redor do

O
eu?”, imposta pelo retratado, Mercado Público e freqüentava as ruas do
percurso do poeta Ascenso bairro de São José.7 A percepção com que
o fotógrafo responde com uma pretensa
Ferreira6 desde a rua do Benicio Whatley Dias concebeu o retrato
representação da verdade idealizada. O
Imperador, passando pelo do personagem, embora filtrada pela
fotógrafo é, portanto, um artista e um
pátio de São Pedro dos câmera fotográfica, demonstra a troca
crítico da história. Entretanto, no caso
Clérigos até a igreja de Nossa Senhora das vontades de verdade que os cercavam
dos instantâneos tomados das pessoas
do Terço, compôs uma série de imagens no momento do clic. A natureza pessoal da
de rua, na medida em que acontece uma
fotográficas elaboradas por Benicio fotografia, expressa na posição e no olhar
espécie de empatia entre o fotógrafo e o
Whatley Dias, cuja força visual consagra o quase frontal do personagem demonstra
personagem observado, o conhecimento
gênero Retrato. certa franqueza e despojamento.
sensível das subjetividades se fixa na
Na sequência, o fotógrafo mostra Retratado com intenção pictorialista,
apreensão da postura corporal, gestos e
a fusão dos sentidos laico e religioso expressão do olhar. Cariri transmite a sua individualidade

125
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

A arte e o prazer de ver a cidade (2020); DANTAS, Leonardo (2011); DINIZ

B
MOREIRA, Fernando (1994); GESTEIRA,
enicio Whatley Dias, à maneira Heloísa Meireles (2004); GOMES, Geraldo
dos fotógrafos do seu tempo, (1998); LACERDA, Norma (2007); LIRA,
capturou os momentos fugazes e José Tavares Correia de (1997). MELLO,
a complexidade das pessoas e da José Antônio Gonsalves de (1947);
cidade. No conjunto de sua obra adivinha- MENEZES, José Luis Mota (1988);
se que a Fotografia era uma ferramenta NASLAVSKY, Guilah (2012); VERAS,
que servia para fixar a passagem rápida Lúcia (2014); PONTUAL, Virgínia (1998);
do cotidiano urbano. Paradoxalmente, ele REYNALDO, Amélia (2017); e ZANCHETI,
foi um crítico que testemunhou mudanças Sylvio (1995).
radicais, tornando história a realidade em 3 A abertura e o prolongamento da
vias de desaparecimento. avenida Dantas Barreto causaram a mais
A sensação de intimidade com as arrasadora destruição do tecido colonial
pessoas e os lugares é o prazer que dos bairros de Santo Antônio e São José
Benicio Whatley Dias transmite para os entre as décadas de 1940 e 1970. As
estudiosos de sua produção fotográfica. intervenções resultaram na demolição de
As cenas envolvem o compromisso do quadras e centenas de imóveis, devendo-
fotógrafo com a forma, reforçando a se destacar os edifícios de significativo
capacidade da Fotografia para registrá- valor histórico, entre esses, o Quartel
las. No ato de ver, o observador apreende do Regimento de Artilharia, de 1786, e o
que o sagaz enquadramento das imagens Hospital de São João de Deus, onde fora
deixa a perceber a sutil presença do instalada a Academia do Paraíso, um dos
fotógrafo. Transformado em olho do olho locais de onde se irradiou o movimento
do fotógrafo, o observador ‘vê’ que o revolucionário de 1817; as ruas (Águas
Figura 6 – Cariri, Recife, Pernambuco, Brasil. Recife de Whatley Dias é um espelho. Verdes, Hortas, Augusta, Alecrim, Dias
Foto de Benicio Whatley Dias, 1940. Acervo A refletir a forma com a qual Cardoso, Santa Teresa, Trincheiras,
Cehibra, Fundação Joaquim Nabuco, Ministério
da Educação.
percebemos o ambiente que antes Laranjeiras); o Pátio do Carmo e as igrejas
construímos o espelho mostra, em do Paraíso e do Senhor Bom Jesus dos
e a humanidade de cada homem ao simultâneo, que, apesar da luz de nossas Martírios.
mesmo tempo. Imerso em solidão, ideias a técnica e as experimentações 4 À fotografia Beco do Marroquim
se deixa retratar de modo nobre. Ao modernistas impuseram a destruição da foi outorgado o prêmio cujo valor em
expressar poder e prestígio, é a legítima história. dinheiro era três mil réis; além deste, com
representação da velhice e da sabedoria. a imagem intitulada Procissão, classificada
Notas
O ambiente que o enquadra ressalta em segundo lugar, Whatley Dias recebeu
o vazio de uma praça e aponta para dois mil réis.
construções e ruas que, em segundo plano, 1 Ver RIBEIRO DE OLIVEIRA, Myriam 5 Folha da Manhã, 7/1/1945.
indicariam o processo deambulatório que Andrade e SOUZA RIBEIRO, Emanuela. 6 Ascenso Ferreira (1895-1965) foi
impulsionava o cotidiano do personagem. Barroco e rococó nas igrejas de Recife e poeta e escritor integrante do Movimento
Cariri, transmudado por Whatley Dias Olinda. (2015). Brasília, DF: Iphan, volumes Moderno em Pernambuco. Ao agregar
em símbolo dos conflitos e dramas que 1 e 2. a seus versos elementos regionais e a
atingem os menos favorecidos, revela que 2 Entre outros estudos, são oralidade popular do povo nordestino,
o ímpeto de uma vida mundana e alienada importantes os trabalhos de CASTRO, imprimiu ritmo novo e originalidade à
exclui os diferentes habitantes da cidade. Josué de (1946); BARBOSA, David Tavares literatura modernista. A popularidade de

126
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

sua produção literária estendeu-se por (Mestrado em Desenvolvimento Urbano) Tese. (Doutorado em Desenvolvimento
todo o Brasil. - Universidade Federal de Pernambuco. Urbano). UFPE, MDU.
7 O personagem inspirou os seguintes GESTEIRA, Heloísa Meireles (2004). ZANCHETI, Sylvio. (2012). O Recife do
versos que compõem a letra do hino O Recife Holandês: história natural e século XVIII como cidade barroca. Recife:
oficial da Troça Carnavalesca Mista Cariri colonização neerlandesa (1624/1654). Centro de Conservação Integrada Urbana
Olindense: “Lá vem o Cariri ali/ Com saco Revista da Sociedade Brasileira de e Territorial-CECI, Universidade Federal
de pegar criança/ Pegando menino e História da Ciência, Rio de Janeiro, v. 2, de Pernambuco.
moça/ Pegando tudo o que a vista alcança n.1, p. 6-21.
GOMES, Geraldo (1998) Engenho &
(…)”. A Troça foi criada em 1921, sendo
Arquitetura. Recife: Fundação Gilberto
uma das agremiações carnavalescas
Freyre.
mais tradicionais e antigas de Olinda. _______ (2016). O Estilo Moderno na
Ainda hoje, o grupo percorre as ladeiras, Arquitetura de Pernambuco. Disponível
acordando a população na madrugada do em: <http://docomomo.org.br/wp-
domingo de Carnaval. No dia 20 de julho content/uploads/2016/01/Geraldo_
de 2016 o título de Patrimônio Vivo do Gomes.pdf>. Acessado em março de
estado de Pernambuco foi outorgado à 2020.
Troça Cariri. LACERDA, Norma. (2007).
Intervenções no bairro do Recife e
Referências bibliográficas no seu entorno: indagações sobre a
sua legitimidade. Sociedade e Estado,
BARBOSA, David Tavares. (2020). Brasília, v. 22, n. 3, p. 621-646. set./dez.
Ver, estar e ser (n)a paisagem: cidadania LIRA, José Tavares Correia de. (1997).
paisagística e o direito à paisagem na Mocambo e cidade: regionalismo na
cidade do Recife. Tese de doutorado. arquitetura e ordenação do espaço
UFRJ, Geopol. habitado. Tese de doutorado - USP/FAU.
CAMPELLO, Maria de Fátima MELLO, José Antônio Gonsalves de
Barreto e CORRÊA DE ARAÚJO, Maria (2001). 4ª edição. Tempo dos flamengos.
de Betânia. Os fotógrafos do DEPT e a São Paulo: Editora Topbooks. 1ª edição
construção da imagem do Recife. (2016). 1947.
In GUIMARAENS, Cêça. Museografia e MENEZES, José Luis Mota. (1988).
Arquitetura de Museus. Fotografia e Atlas Histórico Cartográfico do Recife.
Memória. Rio de Janeiro: Rio Books, p. Recife: Editora Massangana.
62-78. NASLAVSKY, Guilah. (2012).
CASTRO, Josué de. (2015). Um ensaio Arquitetura moderna no Recife 1949-
de geografia urbana: a cidade do Recife 1972. Recife: E. da Rocha.
/ Josué de Castro. Recife: Fundação PONTUAL, Virgínia. (1998). O saber
Joaquim Nabuco, Editora Massangana. 2ª urbanístico no governo da cidade. Uma
edição 1959, Editora Brasiliense. narrativa do Recife nas décadas de 1930
DANTAS SILVA, Leonardo, org. (2012); a 1950. Tese de Doutorado. FAU/USP. Cêça Guimaraens
Brasil Holandês: História, Memória e REYNALDO, Amélia. (2017). As
Patrimônio Compartilhado. São Paulo: catedrais continuam brancas. Recife: Arquiteta e Urbanista, Doutora
Alameda Casa Editorial. Cepe Editora. em Planejamento Urbano e Regional
DINIZ MOREIRA, Fernando (1994). VERAS, Lúcia M.S. C. (2014). e pós-doutora em Museum Studies.
A construção de uma cidade moderna: Paisagem-postal: a imagem e a palavra Professora UFRJ/FAU-Proarq e
Recife (1909-1926. 1994; Dissertação na compreensão de um Recife urbano. Pesquisadora UFPE/MDU-LUP e CNPq

127
Figura 1 – Casa do Baile e Lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte, Minas Gerais. Fonte: Foto de Diego Dias, 2020.
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Flávio de Lemos Carsalade e Maria de Lourdes Martins Alves de Sousa

conjunto moderno da pampulha: evolução


da sua gestão desde a sua candidatura a
patrimônio mundial da humanidade
O Conjunto Moderno da Pampulha é conformado por uma situação paisagística que agrega
cinco edifícios articulados em torno do espelho d’água de um lago urbano artificial, como
resultado integrado do gênio criador dos principais nomes brasileiros das artes e arquitetura
no século XX. O conjunto inclui a Igreja de São Francisco de Assis, o Cassino (atual Museu de
Arte da Pampulha), a Casa do Baile (atual Centro de Referência em Urbanismo, Arquitetura
e Design de Belo Horizonte) e o Iate Golfe Clube (hoje Iate Tênis Clube), construídos quase
simultaneamente entre 1942 e 1943.

O reconhecimento do Conjunto se prever maneiras mais Desde a implantação do Plano de


deu na reunião de Istambul, entre os dias eficazes de indicadores de Proteção, Gestão e Monitoramento
monitoramento relacionados à
10 a 20 de julho de 2016 e o documento proteção do Valor Excepcional do Conjunto Moderno da Pampulha
que ratifica o reconhecimento também Universal(UNESCO/ na época do Dossiê de Candidatura,
WHC/16/40.COM/8B, 2016,
apontou algumas recomendações p.40). seus gestores têm procurado aprimorar
pontuais sobre o estado de conservação suas condutas e ferramentas de
de alguns elementos dos conjunto e monitoramento e administração a fim
sobre a sua gestão. Quanto a este ponto Recomendações quanto ao plano de de garantir os atributos que conferem o
específico, assim se refere o Comitê para o gestão: Valor Universal Excepcional à paisagem
Patrimônio Mundial: i) Incluir diretrizes da Pampulha. Esta é uma tarefa complexa
estratégicas que possam porque o Conjunto se encontra em
O Plano de Gestão criar um amplo arco de
estabelece uma matriz de área urbana de grande complexidade,
responsabilidades. Este plano gerenciamento e decisões
como compromissos formais não apenas por abrigar monumentos
necessita ser ampliado de
maneira a prever diretrizes para certas áreas-chave; de interesse histórico e cultural, mas
estratégicas que possam criar também pela sua inserção em área de
um amplo arco de gestão e ii) Incorporar mais
tomada de decisões como claramente os desafios expansão metropolitana, importante
compromissos formais para da proteção não somente polo de moradia, serviços e lazer, e pelos
o desenvolvimento de certas nos edifícios-chave e seu conflitos entre o adensamento urbano
áreas-chave e prover um entorno, mas também nas
entendimento claro o bastante características essenciais da na bacia da Pampulha e a consequente
para os desafios de proteção vizinhança tradicional que degradação ambiental da lagoa. Assim,
não apenas dos edifícios em complementa o conjunto;
seu ambiente paisagístico, mas ao longo desses anos, algumas diretrizes
também das características iii) Adotar a metodologia e estratégias demandaram alteração,
essenciais da vizinhança do HUL (Historic Urban
tradicional que complementa aprimoramento ou ajustamento para
o conjunto e, conjuntamente, Landscape) para preservar sintonizar com processos inerentes à
forma a complexidade da a vizinhança (UNESCO/
paisagem histórica urbana. WHC/16/40.COM/8B, 2016, dinâmica socioeconômica desse contexto
O Plano também necessita p.40). urbano e às recomendações da UNESCO.

129
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Alterações na legislação urbanística da ADE Pampulha, mas permitiu-se do reconhecimento nesses últimos

T
uma maior densidade habitacional, anos - os órgãos que administram o
rês anos após o na medida em que, anteriormente Conjunto e sua Zona de Amortecimento
reconhecimento do Conjunto previa-se uma unidade a cada 1.000 propuseram revisões na sua gestão,
pela UNESCO, a Lei Uso, m2 e, segundo a nova lei, esta quota vislumbrando um enxugamento do
Ocupação e Parcelamento do passou a uma unidade a cada 500 m2, trâmite dos projetos nos vários órgãos
Solo do município de Belo Horizonte refletindo a tendência contemporânea responsáveis pela tutela do Conjunto.
foi revisada, conforme calendário de residências menores nos O Plano de Gestão do Conjunto
já previsto. Assim, a Lei Municipal bairros perilacustres. Face a esse Moderno da Pampulha elaborado
no 11.181/2019 estabeleceu novos dispositivo, passaram a ser permitidos em 2016, compreendendo o valor
parâmetros urbanísticos para toda a agrupamentos horizontais máximo de do patrimônio histórico, cultural,
cidade, afetando também a Zona de duas unidades habitacionais na ADE ambiental e paisagístico do Conjunto
Amortecimento do Conjunto Moderno Pampulha, exceto no setor Lagoa da e as características da área urbana
da Pampulha, conforme ela tinha se Pampulha, seguindo recomendações no qual se insere, baseou-se no
apresentada no Dossiê de Candidatura dos consultores do ICOMOS/ conceito de patrimônio sustentável,
à UNESCO, embora mantendo as UNESCO que visitaram o local na pré- ao traçar diretrizes, projetos e
determinações restritivas quanto candidatura. ações que se harmonizam com
à construção de edificações e ao a dinâmica urbana e permitem o
exercício de atividades, justamente Impactos da nova legislação urbanística e desenvolvimento socioeconômico
das recomendações da UNESCO no Plano
para proteção do patrimônio cultural e da região, ao mesmo tempo que faz
de Gestão
ambiental do local. Assim, as áreas de a preservação e conservação dos

A
diretrizes especiais (ADE’s) da Bacia da atributos que conferem ao Conjunto a
Pampulha e da Pampulha, que definem lém da legislação urbanística sua importância no cenário mundial.
políticas de intervenção específicas e supracitada, incidem sobre a Face às novas demandas, entretanto,
parâmetros urbanísticos mais restritivos core zone do bem e sua Zona o município procedeu no ano de
para o zoneamento, regulamentados de Amortecimento diversos 2019 à revisão do Plano de Gestão,
na lei anterior, continuaram garantidos instrumentos legais de natureza incorporando as recomendações da
na nova lei, apenas com ajustes em urbanística, ambiental e de proteção UNESCO e as práticas do HUL (Historic
seus limites. O perímetro da ADE do patrimônio, distribuídos em vários Urban Landscape) sugeridas pelo órgão
Bacia da Pampulha foi alterado com órgãos públicos nas três instâncias internacional.
a anexação de toda área das quadras governamentais. A existência desses O Relatório de Revisão do Plano
inseridas parcialmente nas sub-bacias vários instrumentos de proteção, de Proteção, Gestão e Monitoramento
hidrográficas dos córregos afluentes à ao mesmo tempo que contribuem relaciona, nas suas páginas 23 e 24,
Lagoa da Pampulha. A ADE Pampulha para a proteção e preservação dos dezesseis ações referentes à proteção e
também teve seu perímetro alterado, monumentos e seu entorno, a Zona monitoramento do Bem (PRÁXIS, 2019)
incorporando quadras nos limites de de Amortecimento, trazem risco mantendo, no entanto dois de seus
sua delimitação original que não tinham de segmentação da informação e princípios básicos mais importantes.
proteção legal e, consequentemente, consequente desarticulação das ações O Primeiro princípio corresponde
fragilizavam a proteção do Conjunto desses órgãos, os quais devem ter uma a mecanismos integrativos e
Moderno da Pampulha. administração articulada para evitar articuladores das três instâncias de
Também pelos novos dispositivos enganos ou práticas contraditórias. governo que respondem pela área. O
legais, foi proibido o uso residencial Diante dessa preocupação – e baseado segundo princípio estrutura o Plano
multifamiliar no setor Lagoa da na prática do Conselho Gestor do de Gestão em três eixos: Dimensão
Pampulha, seção definida dentro área Conjunto, implantado mesmo antes Normativa, Dimensão Estratégica e

130
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Operacional e Dimensão Avaliativa. água e esgoto, muito impactantes na A Dimensão Avaliativa analisa os
A Dimensão Normativa já se saúde da Lagoa), oito representantes resultados das ações propostas na
encontra abastecida de diversos da Prefeitura Municipal de Belo Matriz de Responsabilidades e no
dispositivos de proteção em vigor, Horizonte (órgãos setoriais de serviço Programa de Gestão Integrada do
porém necessita ainda articular esses de planejamento, obras e manutenção, Conjunto Moderno da Pampulha.
procedimentos normativos existentes além do órgão de proteção do As avaliações dos resultados são
entre as instituições que detêm a tutela patrimônio cultural municipal), um contabilizadas a partir das variáveis,
do Bem e a Zona de Amortecimento. representante da Prefeitura Municipal extraídas do Valor Universal
A Dimensão Operacional, relacionada de Contagem (o único outro município Excepcional: reconhecimento público
diretamente com a dimensão anterior, onde está a Bacia da Pampulha) e do bem candidato; condições de
institui duas instâncias de gestão: o três representantes da Sociedade fruição dos elementos que o compõem
Comitê Gestor do Conjunto Moderno da Civil (ICOMOS/ Brasil), Instituto de (o espelho d’água, o conjunto
Pampulha,encarregado da coordenação Arquitetos do Brasil, seção Minas de monumentos e as condições
geral, engloba as três instâncias Gerais e Fórum da Área de Diretrizes ambientais na Orla na área do Bem
governamentais, e outra vinculada Especiais da Pampulha – FADE. Candidato); estado de conservação do
à instância municipal, a Diretoria Outra alteração significativa da bem; controle das ameaças ao contexto
de Patrimônio Cultural e Arquivo nova legislação municipal de 2019, foi paisagístico no qual se insere (entorno
Público – DPCA, de cunho executivo. o reforço institucional da gestão do e zona de amortecimento). Relatórios
O Comitê é coordenado pelo IPHAN Conjunto através da nova estrutura semestrais deverão conter análise
(Instituto do Patrimônio Histórico e da Diretoria de Patrimônio Cultural e desse indicadores e sugestões para
Artístico Nacional) e tem como um Arquivo Público – DPCA, subordinada melhoria das medidas de proteção e
dos objetivos, dentre outros, articular à Fundação Municipal de Cultura - conservação do Bem. Os procedimentos
as políticas municipal, estadual e FMC, sendo esta Diretoria composta seguem como propostos no Dossiê de
federal, compatibilizando os diferentes pela Gerência de Monitoramento e Candidatura de 2016.
instrumentos de gestão de proteção Gestão do Patrimônio Cultural, da
do Bem já instituídos pela lei em cada Gerência do Conjunto Moderno da A revisão das Subzonas de Amortecimento

E
uma das instâncias e delimitando as Pampulha e do Arquivo Público da
áreas de atuação de cada uma delas. A Cidade de Belo Horizonte. A Gerência ntre os dias 6 e 10 de maio
composição deste Comitê foi reduzida do Conjunto Moderno da Pampulha, de 2019 ocorreu a Jornada
para descomplexificar suas ações. com caráter executivo, coordena Especial de Trabalho sobre o
Inicialmente contava com 26 membros a gestão integrada do Bem com Patrimônio, Gestão Turística e
efetivos e 26 suplentes e agora possui finalidade técnica e administrativa de Desenvolvimento Social do Conjunto
apenas 14 membros efetivos dos três articulação institucional e assessoria ao Moderno da Pampulha, dirigida por
níveis de governo e 3 representações Comitê Gestor do Conjunto Moderno arquitetos especializados do ICOMOS,
de ONGS, totalizando 17 membros. da Pampulha Patrimônio Mundial, com com o intuito de capacitar o corpo
Como exposto na Revisão do Plano de poder de decisão em nível municipal, técnico dos órgãos gestores para
Proteção, Gestão e Monitoramento e em nível estadual ou federal quando aplicação da abordagem HUL. Essa
(PRÁXIS, 2019), a composição atual estabelecido por convênios entre oficina foi uma oportunidade para os
do Comitê inclui dois representantes essas instâncias, a qualquer momento. técnicos identificarem os “objetos e
do Governo Federal (IPHAN), dois Com a função de assessor técnico processos que conferem integridade,
representantes do Governo do Estado do Comitê Gestor, encaminha a esse autenticidade e significados ao
de Minas Gerais (um do órgão de todas as demandas que necessitam Conjunto Moderno da Pampulha como
proteção do patrimônio cultural e ser ajustadas entre as demais esferas paisagem cultural” (PRÁXIS, 2019,
outro da concessionária de serviços de governamentais (PRÁXIS, 2019). p.66). As discussões travadas durante

131
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

essa oficina embasaram reflexões


sobre a Zona de Amortecimento,
gerando novas análises do território.
Com o intuito de identificar e reafirmar
valores e atributos que contribuem
para a integridade e dinâmica do
Conjunto e seu entorno, foram
conduzidas avaliações e investigações
sobre os bairros que compõem essa
área (PRÁXIS, 2019).
Paralelamente, a área foi estudada
segundo uma metodologia de
parametrização da paisagem, a qual
gerou alteração nos limites da Zona
de Amortecimento e sua divisão
em subzonas que, de acordo com
suas transformações no seu tecido
Figura 2 – Estudo paramétrico da paisagem – visadas. Fonte: PRÁXIS, 2019.
urbano, podem impactar qualitativa
e quantitativamente a paisagem do
Conjunto e seus atributos do Valor
Universal Excepcional, demandando
maior ou menor monitoramento
por parte dos órgãos do patrimônio
(PRÁXIS, 2019), visando assegurar
maior proteção para o Conjunto,
seu entorno e o desenvolvimento
socioeconômico.
A metodologia de parametrização
da paisagem utiliza visadas construídas
a partir da área de interesse
(quatro principais edifícios e pontos
significativos da orla) para analisar a
interferência do entorno sobre o bem
protegido, no caso a Paisagem Cultural
da Pampulha. A metodologia de
parametrização da paisagem trabalhou
com maquete eletrônica para simular
a realidade atual e a realidade possível
de acordo com os novos dispositivos
legais da lei de parcelamento, ocupação
e uso do solo. Após a construção das
maquetes eletrônicas que representam
Figura 3 – Estudo paramétrico da paisagem: simulação de edificações existentes nos bairros a simulação da paisagem existente e a
Bandeirantes e São Luiz. Fonte: MOURA, 2019. simulação paisagem futura de acordo

132
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

com os parâmetros autorizados pela


legislação, se fez uma comparação
entre as duas. A partir dessa análise
foi possível verificar se a legislação
proposta estaria de acordo com a
proteção pretendida para a área, ou
se seriam necessários ajustes nos
parâmetros urbanísticos para garantir
a preservação da paisagem na área de
interesse (Figuras 2, 3, 4 e 5).
O estudo de campos de visadas,
ferramenta oferecida pela metodologia
da parametrização, possibilitou, ainda,
a verificação de pontos visíveis ou
não no entorno da área de interesse
de preservação a partir de pontos
importantes no sítio preservado.
Este estudo identificou a inclusão Figura 4 – Estudo paramétrico da paisagem: simulação de volumes autorizados nos bairros Bandeirantes
de áreas da Zona de Amortecimento e São Luiz. Fonte: MOURA, 2019.
do Bem não contempladas no
zoneamento restritivo, assim como
a verificação de áreas incluídas
desnecessariamente nos parâmetros
restritivos de monitoramento da
paisagem. Especificamente, neste
momento do estudo, foi detectado que
existiam áreas com grande visibilidade
a partir dos monumentos e que não
se encontravam protegidas, como
áreas que estavam sob restrição de
potencial construtivo e não interferiam
na paisagem, pois não eram visíveis
a partir dos monumentos (PRÁXIS,
2019).
O estudo revelou, ainda, que de
acordo com os parâmetros urbanísticos
da nova legislação aprovada, as quadras
ao sul da Zona de Amortecimento, nas
imediações da Av. Fleming, quando
simuladas com todo seu potencial
construtivo, teriam grande visibilidade
a partir do Museu de Arte da Pampulha,
interferindo no pano de fundo da visão Figura 5 – Estudo paramétrico da paisagem: simulação de edificações existentes e volumes autorizados
para a Igreja São Francisco de Assis. nos bairros Bandeirantes e São Luiz. Fonte: MOURA, 2019.

133
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Ecológico, o Mineirão, o Mineirinho e o


Centro Esportivo Universitário – CEU.
O bairro São Luís, apesar de todas
as suas quadras não serem visíveis
a partir dos monumentos, contribui
enormemente para a paisagem
moderna do local com o atributo do
novo modo de morar modernista,
demandando fiscalização rigorosa para
a integridade da paisagem. Assim, esta
subzona mantém a tutela dos órgãos
de patrimônio nas três instâncias
patrimoniais governamentais. A gestão
se dará por meio de uma Comissão de
Interface com um representante de
cada um desses órgãos, que deliberam
Figura 6 – Zona de amortecimento original constante do Dossiê de Candidatura. Fonte: IPHAN, 2016.
em conjunto de acordo com diretrizes
Ficou acordada a inclusão imediata necessário maiores restrições de pactuadas e regulamentadas. A
dessa área nos limites do Conjunto ocupação (PRÁXIS, 2019). comissão, trabalhando conjuntamente
Urbano da Lagoa da Pampulha e O estudo gerou ainda a proposição com um representante de cada
adjacências, e promessa de futuros de três subzonas que incidem sobre a instância governamental e com
estudos para determinar altura máxima Zona de Amortecimento, de acordo poderes discricionários, analisará
das novas edificações, além dos nove com o seu grau de interferência na os projetos de acordo com o melhor
metros máximos para o restante da paisagem do entorno dos monumentos método adequado para verificar
Zona de Amortecimento (PRÁXIS, (Figuras 6 e 7). Além das subzonas foi a solução estética, a qualidade
2019). proposta também “uma nova forma de arquitetônica e a harmonização com
Outro fato, observado a partir a paisagem. “Ressalta-se que, até o
gestão para o Conjunto Moderno, que
desse estudo, é que algumas áreas momento, a tramitação de projetos
foi discutida pelas instâncias tutelares e
quando ocupadas pelas edificações ocorre separadamente em cada um
que ainda deverá ser referendada pelos
de acordo com a legislação, terão dos órgãos de patrimônio, gerando
respectivos Conselhos Deliberativos
grande visibilidade a partir da orla três pareceres individualizados, que
para efetivamente ser adotada” são remetidos ao final para a gerência
da Lagoa, como é o caso de áreas (PRÁXIS, 2019, p.37). municipal que emite o alvará de obras”
dos bairros Braúnas, Garças e Trevo, A subzona 1 – de maior impacto (PRÁXIS, 2019, p.38).
situadas a oeste do Bem, e ao sul, sobre o Bem, engloba a maior A subzona 2 – é composta por
área do bairro Ouro Preto. O nível quantidade de atributos que áreas da Zona de Amortecimento
das cotas de assentamento dessas contribuem para a paisagem moderna de menor impacto sobre o Bem.
áreas são superiores ao nível de cota da Pampulha. Ela é composta pelas Os projetos de intervenção serão
de assentamento da lagoa. Assim, quadras do bairro São Luís, parte do analisados discricionariamente apenas
ao serem ocupadas com edificações, bairro Bandeirantes, a encosta da Av. pela instância municipal de patrimônio
estas serão visíveis a partir da orla da Portugal, incluindo o bairro Jardim (DPCA), de acordo com diretrizes
Lagoa e dos monumentos. No entanto, Atlântico, toda a Lagoa e a sua orla, os pactuadas pelas equipes técnicas
por estarem distante da Core Zone, lotes voltados para a Av. Otacílio Negrão das três instâncias, preservando
teve-se o entendimento que não seria de Lima, e ainda, o Zoológico, o Parque as especificidades da paisagem do

134
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Conjunto Moderno da Pampulha


(PRÁXIS, 2019).
A subzona 3 – composta por
áreas da Zona de Amortecimento que
demandam apenas o controle dos
parâmetros urbanísticos quantitativos
– controle da altimetria das edificações,
coeficiente de aproveitamento
máximo, taxa de permeabilidade
mínima e quota de terreno por unidade
habitacional –suficientes para a
proteção da paisagem. Desse modo,
os projetos desta zona podem ser
aprovados como os outros imóveis,
através da Diretoria de Licenciamento
e Controle das Edificações – DLCE da
Figura 7 – Nova Zona de Amortecimento proposta: Subzona 1 (poligonal cinza), Subzona 2 (poligonal
subsecretaria de Regulação Urbana
verde), Subzona 3 (poligonal bege) e novo perímetro para a Zona de Amortecimento. Fonte: PRÁXIS,
– SUREG (PRÁXIS, 2019). A Figura 5 2019.
ilustra o Fluxo de encaminhamento de
projetos. outubro de 2019, uma equipe de - traz questões administrativas e
Esta nova forma de gestão para o arquitetos especializados na área de jurídicas complexas. Apesar do esforço
Conjunto Moderno, já discutida pelas patrimônio realizou a vistoria desses do governo municipal em manter suas
instâncias tutelares, requer ainda monumentos. Esse levantamento ações para cumprir com o compromisso,
ser desenvolvidos e regulamentados foi registrado em fichas de vistoria, muitos fatores contribuíram para
os procedimentos administrativos elaboradas especificamente para este sua não efetivação. Á época da
necessários à implementação dos fim, detalhando o estado físico de candidatura, em fevereiro de 2016, foi
fluxos da Porta Única para aprovação cada monumento, acompanhado de publicado um Decreto Municipal para a
de intervenções no Bem e nas três registro fotográfico. Consideradas o desapropriação da área em até 5 anos.
subzonas da Zona de Amortecimento. Registro Zero (R0), tais fichas amparam No entanto, após a troca de gestão
as ações de monitoramento dos municipal em 2017, o novo governo
Os impactos na conservação dos principais monumentos e auxilia no planejamento optou por procurar outras alternativas
edifícios e trechos urbanos das ações de proteção e conservação. à desapropriação total, como utilização

S
Foram elaboradas fichas de vistoria dos recursos provenientes de multas
egundo as diretrizes da dos seguintes monumentos: Casa do por danos causados ao patrimônio no
Dimensão Avaliativa, o Baile, Iate Tênis Clube, Igreja de São município para aquisição do imóvel.
estado de conservação dos Francisco de Assis, Museu de Arte da Vários fatores contribuíram para
monumentos que compõem o Pampulha, Praça Dino Barbieri e Praça não efetivação das expectativas da
Conjunto Moderno da Pampulha foi Dalva Simão (PRÁXIS, 2019). administração municipal. A Prefeitura
atualizado. Com o objetivo de elaborar A situação de proteção do edifício acabou procurando novas alternativas
uma ficha de registro inicial do estado do Iate Tênis Clube é a mais desafiadora para solucionar o caso, cogitando
de conservação dos monumentos para pois, além das questões ligadas às demolir o anexo, total ou parcialmente.
servir de guia para as futuras ações de alterações físicas da edificação, como Está sendo analisada a viabilidade
proteção e conservação dos mesmos, a demolição do anexo - que demanda dessa possibilidade, seus custos e
durante os meses de setembro e altas somas de recursos financeiro técnicas a serem empregadas (PRÁXIS,

135
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

concepção, além de contribuir


historicamente com o caráter
do Conjunto Moderno. Além
disso, uma opção tão extrema
pode levar a um trâmite
judicial imprevisível.
Cenário 2 – Manutenção
parcial da propriedade do
Clube, demolição do anexo
e cessão do Salão Portinari
para uso público. Este Cenário
tem menor custo, ainda assim
alto, por envolver indenização
pelas áreas e benfeitorias
suprimidas, uma eventual
compensação pela extinção
de fontes de manutenção
do Clube, tudo isto somado
aos valores da demolição
e da restauração completa
do imóvel. Depende ainda
da viabilidade técnica da
demolição do anexo, que se
encontra em estudo, seja ela
total ou parcial. A ordem de
grandeza do custo estimado
para o Cenário 2 é de US$ 3
milhões. (PRÁXIS, 2019, p.55)

Afirmando o interesse da
administração pública em manter a
integridade do Conjunto, o cumprimento
das demandas para a Casa do Baile foram
cumpridas. A guarita construída em
2003 que comprometia a visualização
Figura 8 – Fluxo de encaminhamento de projetos. Fonte> PRÁXIS, 2019. do edifício, e não servia à função atual
da edificação, foi demolida e o jardim foi
2019). alto custo do mesmo, pois recomposto no local. A Praça Dalva Simão,
O Relatório de Revisão do Plano envolve os valores do imóvel e localizada no entorno da Casa do Baile,
suas benfeitorias, das obras de
de Proteção, Gestão e Monitoramento arte integradas e de eventuais teve as obras de restauro concluídas.
do Conjunto Moderno da Pampulha indenizações requeridas A restauração da Igreja São
aponta dois possíveis cenários e suas pelo Clube pela perda de Francisco de Assis foi concluída em
fontes de financiamento.
consequências para a questão do Iate Além desses custos, deve setembro de 2019. Dentre os serviços
Tênis Clube: ser somada também a realizados nesta restauração, temos
restauração completa do a recuperação da impermeabilização
Cenário 1 – Desapropriação imóvel. A segunda, e não
completa do imóvel, com menos importante, é que das abóbadas de cobertura, dos forros,
encerramento das atividades sua demolição não seria pisos, pintura, instalações elétricas e
do Clube. Esse cenário não benéfica para o Conjunto, sanitárias, mobiliário, assim como a
pois o Clube e a Igreja são os
vem sendo considerado por monumentos que mantém o restauração das telas da Via Sacra e
duas razões. A primeira é o uso original previsto desde sua recuperação dos jardins do entorno.

136
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

A Igreja é um dos monumentos do paisagista John Godfrey ambiental de jardins históricos, amplia
Conjunto que mantém sua função de Stoddart, em que ele aborda o conhecimento das espécies utilizadas,
a restauração da praça Dino
origem, tem grande reconhecimento Barbieri. Esse paisagista, que permite a realização de registros e
pela população, é importante na trabalhou diretamente com catalogações e geração de protocolos de
dinâmica social do contexto urbano Burle Marx no início de sua cultivo (PRÁXIS, 2019).
carreira profissional, resume
pela realização de cultos e casamentos. na entrevista as dificuldades Nos últimos meses de 2019, o edifício
Como ressalta o Relatório de Revisão da restauração da Praça, em que abriga o Museu de Arte da Pampulha
do Plano de Proteção, Gestão e razão de existirem versões começou a ser preparado para obras
diferentes de projeto para
Monitoramento “A conclusão do o local. Segundo ele, o de conservação e restauração. Todo
restauro e a reabertura do templo já original de Burle Marx nunca seu acervo documental e da biblioteca
demonstraram impacto positivo para o foi executado conforme foram transferidos para o Museu Casa
planejado e, portanto, “a praça
movimento turístico e a promoção do deve ser conservada como Kubitschek, permitindo o acesso do
sítio.” (PRÁXIS, 2019,p.57). foi finalmente construída”, público para consulta no período das
A restauração da Praça Dino Barbieri recuperando “os principais obras. As obras de arte serão abrigadas em
aspectos do projeto original”.
que tinha como proposição inicial a (PRÁXIS, 2019, p.59). galpão no edifício do IPHAN na unidade de
demolição do edifício redondo da praça, Belo Horizonte. A obra de restauro tem
tem perdido força nesses últimos anos. previsão para se estender até 2022, sendo
Diante da realidade socioeconômica A implantação do uso exclusivo composta basicamente de serviços de
local e dessa infraestrutura suprir para pedestres do trecho da Av. Otacílo infraestrutura.
uma carência existente no entorno Negrão de Lima, entre as praças da
Conjunto Moderno da Pampulha. Igreja e Dino Barbieri, foi inteiramente Conclusão

E
Com uma localização estratégica efetivada, cumprindo uma das diretrizes
em frente à Igreja de São Francisco emergenciais listadas no Dossiê de 2016 mbora tenha sido considerado
de Assis, o mais emblemático para o entorno da Igreja São Francisco de uma peça importante no Dossiê
monumento do Conjunto, o edifício Assis. de Candidatura do Conjunto
redondo, restaurado, poderia abrigar Reafirmando o compromisso de manter Moderno da Pampulha, o
um receptivo turístico e os banheiros a integridade do Conjunto Moderno da seu Plano de Gestão foi revisado
no subsolo serem restaurados para Pampulha, a administração municipal com alterações significativas, o que
sua utilização pelos visitantes. Ainda implantou o Viveiro Burle Marx com o nos parece razoável, dado ao fato
permitindo a continuidade do uso do objetivo de cultivar espécies presentes de que tão importante quanto o
público que já tem o hábito de usufruir nos projetos dos jardins de Burle Marx na planejamento de um setor urbano é
dessa praça para lazer e recreação. Esse Pampulha e dar suporte à manutenção o seu monitoramento, o que torna o
direcionamento para a restauração dos mesmos. O viveiro foi criado em julho plano sempre operacional e evita a
da praça é uma escolha que sintoniza de 2019, viabilizado através de acordo de sua caducidade ou a sua inadequação.
com a realidade financeira atual do cooperação entre setores municipais da Três aspectos merecem ser destacados
país, mais sustentável, e corroborada cultura e da gestão de parques, e instalado nesta conclusão.
por personalidades internacionais, na Fundação Municipal de Parques e O primeiro deles se refere
como ressaltado no relatório de Zoobotânica – FPMZB. Além da reposição às alterações no comitê gestor,
Revisão do Plano de Proteção, Gestão e preservação, gerando menor custo de simplificando sua composição
e Monitoramento: manutenção para o município, esse viveiro e métodos, como resultado das
permite a qualificação da mão de obra observações praticadas em sua
O Comitê Gestor do Conjunto
Moderno da Pampulha tomou para manutenção dos jardins capacitando atuação. Estas observações e correções
conhecimento da entrevista jardineiros municipais, possibilita de rumo são necessárias porque
realizada com o arquiteto atividades de educação patrimonial e envolvem órgãos oficiais de instâncias

137
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

federativas que se renovam a cada dois Notas


anos e elas sempre trazem consigo
modificações de métodos, prioridades Agradecimentos ao Conselho
e estruturas de governo. Nacional de Desenvolvimento Científico
O segundo aspecto se refere à e Tecnológico (CNPq) e à Coordenação
alteração da Zona de Amortecimento, de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível
antes trabalhada segundo as Superior (CAPES) pelo financiamento
características morfológicas e
das pesquisas que deram origem a este
socioeconômicas de cada subzona e
trabalho.
agora também simplificada em número
e diretrizes, a partir da constatação Referências bibliográficas
de que as legislações urbanísticas e
planos de outros órgãos oficiais já
IPHAN – Instituto do Patrimônio
garantiriam sua proteção. A única
Histórico e Artístico Nacional. Dossiê
fragilidade seria aquela relativa à
de Candidatura do Conjunto Moderno
ameaça de interferências visuais
da Pampulha para inclusão na Lista do
resultantes da permissividade de altura
Patrimônio Mundial da UNESCO. Brasília,
edilícia permitida pela nova lei de uso
2016.
e ocupação do solo ou por outras que
MOURA, Ana Clara. Estudos de
a seguissem. O estudo paramétrico da
Parametrização da Paisagem. In: PRÁXIS
paisagem permitiu um filtro adequado
Projetos e Consultoria. Proteção, Gestão
para obstar esta ameaça.
e Monitoramento do Bem – Atualização
O terceiro aspecto é o mais
das Seções 5 e 6 Dossiê de Tombamento
complexo pois revela uma dicotomia do Conjunto Moderno da Pampulha. Belo
entre os critérios de “restauração” Horizonte, 2019. Anexo 1.
do Comitê do Patrimônio Mundial, PRÁXIS Projetos e Consultoria.
voltados para o retorno a uma suposta Proteção, Gestão e Monitoramento
configuração original de algumas áreas do Bem - Atualização das Seções 5 e 6
como o Iate Tênis Clube e a Praça Dino - Dossiê de Tombamento do Conjunto
Barbieri, sendo que, no primeiro caso, Moderno da Pampulha. Belo Horizonte,
a realidade é totalmente outra de 2019.
oitenta anos atrás e, no segundo, além UNESCO – United Nations Educational, Flávio de Lemos Carsalade
de tal configuração original nunca ter Scientific and Cultural Organization/
existido, sua função atual de suporte World Heritage Committee. WHC/16/40. Arquiteto e Urbanista, Doutor
turístico e recente restauração do COM/8B. Paris, 27 May 2016. em Arquitetura e Urbanismo (UFBA),
local justificam sua situação atual. Tal Professor da Escola de Arquitetura da
diferença de posicionamentos alerta Universidade Federal de Minas Gerais
para a importância das decisões locais
na preservação do patrimônio mundial Maria de Lourdes Martins
e da necessidade de uma harmonia Alves de Sousa
e sensibilidade dos organismos
internacionais para com situações Arquiteta e Urbanista, mestranda
como esta, bem como a aceitação de em Ambiente Construído e Patrimônio
diferentes teorias de restauro no trato Sustentável, Universidade Federal
destas áreas. de Minas Gerais

138
Figura 1 – Vista do turista sobre o acesso às Ruínas de São Paulo em um dia típico em 2017. Fonte: Foto de Ricky Leong.
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Rui Leão

Estratégias para combater o over-tourism

O aumento fenomenal de visitantes do centro histórico de Macau, que atingiu o pico a partir de 2012,
em consequência do redimensionamento do setor de jogos, do núcleo central dos monumentos e
dos espaços públicos que os sustentam, foi superutilizado a ponto de perturbar a vida tradicional e
as pequenas empresas ao longo dos bairros no Centro e Porto Interior. Os turistas usam apenas a
praça principal e a estrada principal que leva às Ruínas de São Paulo, a principal atração da cidade.
Isso não beneficiou a regeneração das áreas remanescentes do centro, para as quais nenhum
planejamento e nenhuma política foram implementados.
O Docomomo Macau realizou um exercício de planejamento, liderado por arquitetos locais
e urbanistas, com o objetivo de resolver os problemas causados pelo over-tourism no Centro
Histórico. Através de um esforço de colaboração com os lojistas locais e a comunidade local, de
2015 a 2018, reunimosao redor da mesa muitas partes interessadas para apresentar a nossa visão
para resolver os problemas que estavam afetando o centro histórico e para ouvi-los. Recebemos
muitas contribuições significativas da comunidade e acabamos mudando o escopo de nosso plano
para focar na urgência de implementar mudanças de políticas para abordar a incapacidade das
autoridades de planejamento em coordenar a resolução dos assuntos urbanos atuais.
Este documento tem a oportunidade da nova linha de fachada de água. A Cidade tipo de oportunidade com o surgimento
de apresentar o processo e o resultado chinesa e a Cidade católica se encontram de turistas do continente chinês, atraídos
do plano como um processo participativo ao longo da crista da colina da Penha2, ao para a cidade por seus novos Casino-
sobre a necessidade urgente de novas longo da Rua Central3, enquanto a Cidade resorts construídos após a redistribuição
políticas para abordar o Centro Histórico católica se desenvolve ao longo do lado da licença de jogo de 2002 em diante.
de Macau. sudoeste da península, de frente para o Eu queria estabelecer um plano para
mar (figura 2). o distrito ao longo da Rua da Tercena5,
Por que o Porto Interior é esquecido? O lento progresso da construção do uma das antigas estradas principais, os

O
novo porto no Porto Exterior4, iniciado alinhamentos originais das fontes de
distrito do Porto Interior na segunda década do século XX, viu água, antes de todo o assoreamento e
corresponde ao antigo Bazar a mudança de passageiros do Porto recuperação levar a linha do Porto a cerca
Chinês1. Localizado a leste Interior para o Porto Exterior e, com ele, de duzentos metros. Senti que olhar para
da península de Macau, a perda progressiva de seu status de esta estrada seria a chave para resolver
resulta de uma série de camadas movimentado centro da cidade. Depois de uma longa paralisação e decadência do
naturais consecutivas de assoreamento, ser um distrito adormecido por algumas Porto Interior.
urbanizadas progressivamente ao longo décadas, o Porto Interiorteve um novo
141
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

histórico utilizável, visível através da


reorganização do tráfego, e novas
condições espaciais definidas em torno do
reúso de conjuntos de patrimônios, onde
todas as atividades que não se encaixam
na curta trilha turística entre a Praça do
Senado6 e as Ruínas de São Paulo7 podem
ser acomodadas, portanto, trabalham
para regenerar a economia do Porto
Interior.
Para operar uma transformação
significativa do Centro Histórico, esses três
campos de intervenção tiveram que ser
desenvolvidos simultaneamente no plano
diretor. O mapeamento do patrimônio é
importante para a criação de um mapa
de pontos focais de interesse, enquanto
Figura 2 – O sul da península de Macau. A Rua Central marca a separação entre a cidade cristã e o bazar
chinês. As vias marcadas com verde são as principais estradas circulares que circundam as colinas,
a qualificação de espaços públicos é
típicas do urbanismo português. Desenho do autor sobre foto aérea. essencial para conectar esses pontos e
a construção de redes de pedestres, e
Metodologia do Plano A trilha do patrimônio, das Ruínas de tudo isso só será possível se o tráfego for

S
São Paulo à Praça do Senado – que faz desviado e criar espaço para que tudo o
endo uma cidade quase parte do conjuntodo Patrimônio Mundial mais se encaixe. E, no entanto, para que
exclusivamente dedicada ao jogo da UNESCO para o Centro Histórico a comunidade seguisse um processo de
e ao turismo, na época da sua de Macau – tornou-se a principal rota transformação do distrito, tivemos que
transferência para a China, com usada pelos turistas. No entanto, a Rua permitir um período de experimentação.
uma população de cerca de seiscentos e da Tercena e a cidade velha logo após Não queríamos perder as pessoas
quarenta mil habitantes, vivendo em 35 ela, que também é abundante em valor existentes, pois elas são o elo mais forte
Km², Macau recebe milhões de turistas patrimonial, não conseguem atrair o do passado do Bazar Chinês.
anualmente. De acordo com os dados fluxo de turistas. Decidimos nos dedicar a Em nosso inicial Mapeamento da
estatísticos de 2015, ao todo 30.714.628 entender por que esse fenômeno persistiu Avaliação do Patrimônio, descobrimos
turistas visitaram Macau (figura 1). A com o tempo e a descobrir estratégias que, embora a principal rota turística atual
cidade precisava abordar a questão crítica para resolver o problema. da Praça do Senado às Ruínas de São Paulo
de um afluxo excessivo de visitantes O desafio de lidar com o distrito seja a mais concentrada em monumentos,
diários, para um Centro Histórico histórico de Macau reside no fato de que através do mapeamento preliminar de
relativamente pequeno e os impactos ele só pode ser reconfigurado com um todo o distrito, o trecho da Rua da Tercena
causados na vida da comunidade, mas o plano que aborda simultaneamente a até a Avenida Almeida Ribeiro8 possui um
alto número de turistas,em parte, deve- reorganização do tráfego, o mapeamento número muito maior de edifícios com valor
se à política do governo central chinês da Avaliação do Patrimônio e a qualificação arquitetônico e conjuntos patrimoniaisde
de “abrir a torneira” sobre o número de do espaço público. Do meu ponto de interesse histórico. Se a área estiver
vistos de turista para apoiar a economia vista, o desafio era encontrar maneiras integrada a uma ilha de pedestres, o
de Macau e, como tal, as consequências de espalhar o novo fluxo de turistas em número de edifícios históricos de interesse
disso não estavam sendo abordadas direção ao Porto Interior pela Rua da que se tornarão visíveis e integrarão nossa
politicamente em Macau. Tercena, criando um novo conteúdo memória coletiva mais que triplicará o da

142
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

ilha de pedestres existente.


Juntamente com a organização de um
espaço público e visibilidade adequados
ao redor da área, a ilha de pedestres
pode se expandir em direção a eles e um
aumento significativo do varejo na rua
pode ser obtido para atender turistas e
habitantes locais. Como resultado, duas
das questões atuais do Centro Histórico
podem ser resolvidas: espaço insuficiente
para caminhadas e espaço de varejo
insuficiente para atender 30 milhões de
visitantes e a população local.
Na reorganização do tráfego,
propusemos fechar a rua principal ao
tráfego nos finais de semana, por acreditar
que ele levaria a questionamentos
sobre como ocupar o espaço público. Figura 3 – Plano mostrando as áreas de intervenção do plano mestre, com a ilha de pedestres existente
em vermelho e as expansões propostas da ilha de pedestres em verde escuro e claro. Fonte: Desenho
Levantamos essa discussão com as partes do autor.
interessadas locais, que compartilharam
conosco todos os mesmos males do de transporte e a velocidade mais lenta da aventurava pela Rua da Tercena e Rua
status quo atual, mas não possuíam o caminhada permitiriaàs pessoas olharem dos Ervanários. O fato de haver uma
conhecimento ou a experiência de ativar o e se aproximarem dos edifícios históricos, falha na queda de três metros ao longo
espaço público. Ao fechar o tráfego na Rua e, com o tempo,experimentarem o espaço do perímetro da principal trilha turística
da Tercena, a ilha de pedestres do Centro ao seu redor. A experiência e o uso desses se torna um dos fatores que impedem o
Histórico poderia ser facilmente dobrada locais de patrimônio criarão um forte fluxo natural de turistas. A linha de falha
em tamanho, como mostra a imagem vínculo da população com esses locais, encontra uma estrada de tráfego intenso
(figura 3). associando a imagem dos edifícios a na extremidade inferior, sem calçadas,
Uma longa estrada fechada ao tráfego, experiências de estilo de vida e pertença tornando a área um território não
com extensões de pedestres em ambos os que reconectarão o patrimônio a um contínuo para caminhadas.
lados e vários grupos de tecidos históricos reconhecimento da experiência da vida O fato de que essa queda de nível é
ao longo dela, funcionaria perfeitamente cotidiana da comunidade. Foi exatamente
acessada por faixas estreitas, algo que
para restaurantes ao ar livre, mercados o que aconteceu no caso da Praça do
sazonais, arte pública e performances. não é comum no urbanismo chinês,
Senado, a dois quarteirões de distância,
A estratégia para encerrá-lo nos finais provavelmente não ajuda a gerar um
quando foi reformada e todo o tráfego
de semana permitiria uma experiência de carros foi removido dela, e pudemos gesto de boas-vindas ao distrito.
progressiva de ocupação e ativação da aprender algo com isso. Também percebemos que o bairro
estrada pela comunidade existente, que se estendia até a beira-mar, com suas
levando a uma regeneração do bairro Dilema urbano colchas de retalhos, ruas estreitas e pátios,

N
pelos donos de lojas atuais e novos. já era uma ilha natural de pedestres, pois a
Adicionar espaço público também ossa primeira observação foi Cidade Chinesa nunca havia sido sujeita à
foi crucial para uma estratégia de re- que a população de turistas adoção de calçadas e calçadas ocidentais.
visualização do Porto Interior. Ao ampliar que passeava pela Rua da No Bazar Chinês, collies, pessoas, karts,
a ilha de pedestres do centro da cidade, Palha e pela Rua de São Paulo, barracas e carros sempre tiveram que
a caminhada se tornaria o principal meio às margens das Ruínas de São Paulo, se compartilhar o espaço público por meio

143
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Estrutura para o planejamento através do núcleo chinês, em palestras e em comitês


diálogo governamentais.

O
lhando para os últimos quinze Conclusão

E
anos e a maneira pela qual
as políticas e métodos de mbora nossas exigências para as
lidar com o centro histórico agências governamentais pela
foram tratados pelo governo, sentimos necessidade de políticas para lidar
que a abordagem de cima para baixo, com a cidade velha não nos levasse
com esforços isolados, visando apenas o a lugar algum, e nenhuma ação estivesse
tráfego, o patrimônio ou o descarte de lixo, sendo tomada de maneira alternativa,
não estava abordando as questões reais em 2018, com o crescente número de
no terreno e, portanto, não formulando turistas sendo permitido nos feriados
as questões importantes levantadas pelo nacionais chineses do Ano Novo Lunar,
over-tourism no centro e por um centro da a Semana Dourada e o Festival do Meio
cidade abandonado no Bazar Chinês. Outono, as calçadas do centro histórico
Através da análise realizada no terreno ficaram entupidas de gente. O número de
e do diálogo que estabelecemos com as pessoas circulando excedeu a capacidade
partes interessadas locais, começamos da calçada. A Polícia e o Departamento
a entender algumas questões críticas. de Turismo foram chamados para
Percebemos que muitos dos edifícios implementar medidas. Tornou-se uma
de interesse histórico eram muito questão de segurança nacional.
degradados e que muitos estavam em As calçadas tornaram-se passagens
vias onde o tráfego tornava impossível de mão única, patrulhadas pela polícia, e
sequer olhar para eles. Existem conjuntos no Porto Interior, a Rua da Tercena ficou
Figura 4 – Vista da Avenida Almeida Ribeiro do inteiros de tecido histórico que são fechada ao tráfego por uma semana
rio, com fotomontagem da proposta do plano de totalmente irreconhecíveis, tornando a consecutiva. No momento em que a rua
redução do tráfego de veículos. Fonte: Desenho
do autor.
conscientização pública e a conversão ficou fechada ao tráfego de veículos,
dessas áreas impensáveis, devido ao mau muitos lojistas e representantes locais
de negociações por meio dele. estado de manutenção e aparência dos viram nossa visão se tornando uma
Além disso, se pudéssemos controlar edifícios. possibilidade real. Algumas lojas montam
o tráfego nessa única estrada – Rua Na falta de uma comissão formal expositores externos e alguns lugares ao
da Tercena – a ilha de pedestres do para o nosso plano, só tínhamos o poder ar livre podem ser encontrados ao longo
centro histórico poderia ser expandida de compartilhar nossas observações e da rua.
automaticamente até a estrada principal as visões dele decorrentes. Realizamos Depois que a rua foi fechada pela
na Avenida Almeida Ribeiro (figura 4). várias mesas-redondas com a comunidade segunda vez em 2018, conversamos com
Nosso foco é a Rua da Tercena pelo fato de local, fazendo-as participar de petições e os representantes do Kai Fong. Eu disse a
esse eixo estar rompendo a continuidade parcerias com o plano diretor. Também eles que o Governo havia fechado a rua
da principal ilha de pedestres do Centro aproveitamos todas as oportunidades para os carros por vários dias, então isso
Histórico. Nosso esforço de colaboração que encontramos para compartilhar era agora uma possibilidade. Isso poderia
com a comunidade se concentrou no nossas descobertas e nossa visão de ser feito sob a lei, o que significa que
diálogo com os moradores, os donos das uma ilha pedonal expandida no centro o Kai Fong, sendo o equivalente a uma
lojas e Kai-Fong9 ao longo dessas duas da cidade, e o que permitiria à cidade autoridade distrital, também deveria ter
ruas principais históricas. resolver e reconciliar-se em seu antigo esse poder. Tínhamos uma cópia assinada

144
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

do nosso último relatório do plano diretor, 5 A Rua da Tercena é uma das principais Fuad-Luke, Alastair. Design Activism:
que oferecemos ao líder do Kai Fong: eu vias ancestrais do Porto Interior. Ao longo Beautiful Strangeness for a Sustainable
disse a ele que tínhamos feito tudo o que dos séculos, perdeu a proximidade do World, London: Earthscan/Routledge,
podíamos fazer com esse plano diretor e Porto devido a muitas recuperações. 2009.
que agora o plano mestre pertencia a eles. 6 Praça do Senado (ou Largo do de Sousa Santos, Boaventura
No mesmo ano, o Kai Fong começou a Senado) é a praça principal de Macau. & Gomes, Conceição. Macau, O
fechar a estrada para festivais e ocasiões 7 A fachada da antiga igreja Mater Pequeníssimo Dragão, Porto: Edições
especiais. Alguns dos edifícios degradados Dei, a sede histórica da ordem jesuíta Afrontamento, 1998.
foram pintados em cores vivas e no Extremo Oriente da Ásia, que Garrett, Richard J. The defences of
vários cafés, casas de chá, pequenos pereceu sob um grande incêndio em Macau: forts, ships and weapons over
restaurantes, galerias e bares abriram ao 1835. 450 years,
lado de lojas tradicionais. Nossas ações Hong Kong: Hong Kong University
8 A Avenida Almeida Ribeiro é
foram úteis para emancipar a comunidade Press, 2010.
uma via que atravessa o Bazar Chinês
local e liderar o caminho de uma Leao, Rui. Macau and the Place of
para conectar o Porto Interior à Praia
transformação necessária, que também Architecture, World Architecture/Macau:
Grande, na costa sul, e foi planejada Architecture and Urbanism in the first
é uma oportunidade sutil para o distrito para adicionar uma rua principal
reafirmar sua sustentabilidade econômica post-handover decade 1999-2009, 2009.
comercial ao distrito chinês. Magalhães, Sérgio.A Cidade na
e social. 9 As associações Kai-Fong (ou Incerteza: Ruptura e Contiguidade em
associações de assistência social) são Urbanismo. Rio de Janeiro:Viana &
Notas
organizações tradicionais de ajuda Mosley Editora/PROURB, 2007.
mútua que surgiram em Hong Kong Van Schaik, Leon & London, Geoffrey
1 O Bazar Chinês é o nome após a Segunda Guerra Mundial. O with George, Beth.Procuring Innovative
tradicionalmente usado para se referir à principal objetivo era fornecer serviços Architecture, Oxford: Routledge, 2010.
parte chinesa da cidade velha, construída gratuitos ou de baixo custo, em áreas
ao longo do Porto Interior de frente para como educação e assistência médica,
a costa norte da Península, e o principal para muitos refugiados da China.
centro de negócios de Macau até a primeira
metade do século XX. Referências bibliográficas
2 A Colina da Penha, ao longo do sul da
península de Macau, separa o Porto Interior Aggregate (Architectural History
ao norte, do distrito de Praia Grande ao sul. Collaborative).Governing by Design,
3 A Rua Central é a rua principal da Pittsburgh: University of Pittsburg Press,
cidade portuguesa, e que vai ao longo da 2012.
crista da Colina da Penha para chegar ao Bruni, Carlotta. Heritage and the Asian
centro da cidade. Cities, Architecture Asia, September,
4 O Porto Interior possui águas rasas, o 2001.
que significa que as instalações portuárias Chan, Stephen, Seng, Chak, Lui, Rui Leão
de Macau nunca foram boas para expandir André & Keong, Chak (catálogo) Macau
a atividade portuária e receber grandes Ilustrado – Exposição de Plantas Urbano- Licenciado em Arquitetura
navios. Houve vários esforços do governo Arquitectónicas da Colecção do Arquivo pela Faculdade de Arquitetura
colonial português para estabelecer uma de Macau, Instituto Cultural. do Porto e doutor em Arquitetura e
instalação melhor no lado sul de Macau, Chen, Arthur H. Macau: Transporting Urbanismo pelo Instituto Real
posteriormente denominado Porto the Idea of linear perspective, Macau: de Tecnologia de Melbourne.
Exterior. Instituto Cultural de Macau, 1998. Presidente da Docomomo Macau

145
Figura 1 – Comparação da paisagem pela perda do edifício do Café Colombo no Largo dos Medeiros. Fonte: Foto dos autores, 2019.
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Lucas Bernardes Volpatto, Rômulo Plentz Giralt, Oritz Adriano Adams


de Campos, Rodrigo Spinelli e Eduardo Hahn

caminhada da perda: arquitetura demolida

As perdas estão ligadas ao sentimento do vazio, da solidão, referências do passado que não
estão mais materializadas, mas também, as perdas muitas vezes nos servem como lições, como
alertas capazes de orientar posturas e condutas do presente e do futuro. A atividade proposta
pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio Grande do Sul (CAU/RS) é apresentar para a
população uma cidade que não existe mais, invisível aos olhos, mas muito presente na memória
dos mais antigos e saudosistas. Perdas que mudaram a fisionomia da capital gaúcha que a partir da
década de 1930 começava o processo de verticalização de seu centro.

A ideia de um percurso guiado pelos evoluiu para a 1ª CAMINHADA DA A arquitetura de Porto Alegre e a
principais espaços urbanos do centro PERDA, prevista para acontecer junto preservação do patrimônio edificado

E
histórico da cidade de Porto Alegre dos festejos do Dia Nacional e Estadual
surgiu durante uma reunião da Comissão do Patrimônio Cultural durante o mês ra uma manhã de 1921, quando
Temporária de Patrimônio Histórico de Agosto de 2019. Determinante foi assustado e com muito lamento,
(CTPH) do CAU/RS onde o centro das o convite do Governo do Estado do Rio passava Achylles Porto Alegre,
discussões naquele momento era criar Grande do Sul para que fosse ministrada escritor e cronista, pelo alto da
uma ação diferenciada de educação essa atividade no 1º Dia Estadual do matriz e avistou carroçadas de entulho
patrimonial, onde o sentimento de Patrimônio Cultural desse ano. Buscou- saindo dos fundos da velha catedral
perda fosse o condão para, além de se então fazer uma atividade de interação que aos poucos vinha sendo demolida
sensibilizarmos os presentes, contarmos com a comunidade com a temática para dar lugar a uma nova. O impacto
uma breve história de existência e de da perda inspirada nos lamentos da causado no intelectual foi tanto que
perda de edificações importantes para a população ao ver imagens antigas da dedicou um capítulo a velha catedral
no seu livro: Jardim de Saudades, onde
história da capital e também do estado. cidade nas principais redes sociais.
então lamentou a perda de tão antigo e
Um percurso de visitação guiado aos A Caminhada da Perda em suas três
importante edifício para a cidade:
lugares transformados, amparados por edições, a primeira realizada no no 1º
recurso visual de compartilhamento de Dia Estadual do Patrimônio Cultural, a Ali, naquele templo augusto,
fotografias antigas através de aplicativo segunda e terceira respectivamente no viviam pelo menos cinquenta
anos de minha existência, e eu
e de fotos ampliadas formato A3, além de Congresso Brasileiro de Arquitetos e Viva via-o agora atacado e ferido
um folder com todas as imagens, dados o Centro a Pé da Secretaria Municipal da pela picareta inconsciente do
Cultura, envolveu um público de mais operário rústico, que nada
históricos da construção e demolição, conhece da vida da cidade
arquitetos construtores e engenheiros de 600 pessoas que no período de duas antiga! (PORTO ALEGRE,
envolvidos, em que os participantes horas puderam refletir sobre o impacto 1921, p. 77).
simultaneamente poderiam comparar o destas perdas na paisagem urbana, mas
que estavam enxergando com o que ali trazendo para o presente a importância E da mesma forma lamenta no mesmo
estava no passado. da preservação do nosso patrimônio livro a perda afetiva que nos liga aos
O que era apenas uma ideia da CTPH, arquitetônico que ainda resta. nossos antepassados: “São mais de cento

147
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

menos de 30 anos eram demolidos,


praças e largos eram reformados. Com
a verticalização iniciada, algumas ações
de intelectuais entre as décadas de
1970 e 1980 amparadas pelo IPHAN
colocaram a capital gaúcha com
certo protagonismo nas ações de
preservação, sendo precursora pelos
seus planos urbanísticos. Foi em 1970
que foi promulgada uma lei orgânica
que definia o que era o patrimônio
histórico no município. Dessa lei uma
lista de bens públicos e privados foi
elaborada como se fosse um inventário
identificando os conjuntos urbanos e
Figura 2 – Antiga Matriz Madre de Deus, demolida para dar lugar a nova Catedral Metropolitana. Fonte: edificações expressivas e importantes
Arquivo Histórico da Cúria Metropolitana de Porto Alegre, sem data. para a identidade e memória da
cidade. Essa lista, em 1989, incentivou
e cinquenta anos da crônica da cidade e da arquitetura de Porto Alegre, como toda
a municipalidade a elaborar diversos
vida de nossos avós que são lançados em cidade de origem lusitana, era composta
terra, feitos destroços, transformados em outros inventários, expandindo o foco
pelas tradicionais edificações caiadas de
poeira”. (PORTO ALEGRE, 1921, p. 77). portas e janelas de arco abatido, cenário do centro para os bairros lindeiros
E conclui que não é um lamento que muda completamente com a chegada mais antigos, mesmo que a grande
pessoal e sim coletivo: “Não. Não sou só eu dos colonos alemães na década de 1820 maioria dos imóveis, dessa listagem
que choro: é quase toda a população. Cada que, se instalando nas colônias ao norte inicial, estivessem já demolidos. Planos
golpe da picareta repercute no coração do da cidade, utilizavam o porto da capital diretores posteriores determinaram
nosso povo como punhaladas”. (PORTO para o escoamento de suas mercadorias. zonas de interesse cultural tendo a
ALEGRE, 1921, p. 77). Com o tempo começaram a se instalar preservação das edificações históricas
Assim como a perda da velha matriz, na capital, suas fábricas e intenso como pauta de política pública. No
que começou a ser construída em 1779, comércio fizeram com que muitas entanto, na última década, embora
e demolida em 1921, impactou a vida famílias se transferissem para a cidade algumas ações como o programa federal
dos porto-alegrenses do início do século demandando uma transformação urbana Monumenta tenham sido exitosas na
XX, a ausência deste edifício ainda e arquitetônica. Arquitetos de origem recuperação do Centro Histórico, o
no século XXI repercute despertando teuta começam então a trabalhar na acervo composto por mais de 5.000
sentimentos de saudade e lamento. E capital transformando o cenário urbano imóveis inventariados é alvo constante
é deste sentimento que surge a ideia que aos poucos mudava suas feições. da especulação imobiliária fazendo a
de conscientizar a preservação do No entanto, a capital de arquitetura pauta da conservação uma constante
patrimônio que ainda temos através germânica não duraria por muito discussão que demanda maiores ações de
do reconhecimento da cidade invisível, tempo, em 1935 a cidade comemorava entendimento na sociedade civil do que é
levando a comunidade a reconhecer o centenário da Revolução Farroupilha o patrimônio cultural e a importância da
os espaços urbanos drasticamente e Porto Alegre era uma metrópole que preservação das edificações históricas
transformados e/ou descaracterizados queria crescer para o céu, começando a para a manutenção da identidade da
em um espaço tão curto de tempo. A verticalização do centro, edifícios com cidade.

148
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

A caminhada

O
trajeto tem início na
Praça Marechal Deodoro,
onde se pode observar a
transformação urbana de
um dos sítios mais antigos, destacando
a perda de alguns ícones como a antiga
Matriz Madre de Deus, construída
a partir de 1774 e demolida em 1921,
o antigo tribunal de justiça de 1850,
incendiado cem anos depois e o auditório
Araújo Viana de 1927, demolido e
transferido no ano de 1960. Segue para a
Praça Senador Florêncio, antiga Praça da
Alfândega, outro sítio muito antigo que
Figura 3 – Praça Parobé que foi destruída após a grande enchente de 1941. Fonte: Fototeca Sioma
foi testemunha da chegada dos primeiros
Breitman, Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo.
colonos açorianos que povoaram a
cidade em 1752, caracterizado pela perda exemplo a fachada do antigo Hotel máscara metálica, após uma operação de
do edifício do Grande Hotel construído Carrara (1933 -1960) e a perda pela retrofit, retorna com sua forma original
em 1916 e demolido em 1967. O trajeto substituição com a demolição da antiga para a paisagem do centro histórico de
vai adiante pela Rua dos Andradas(Rua Igreja Evangélica (1865- 1960). Na praça Porto Alegre.
da Praia) até o Largo dos Medeiros, que Osvaldo Cruz, a reflexão está na atenção
na verdade não é um largo e sim uma para as edificações remanescentes Conclusão

O
movimentada esquina onde ficava o descaracterizadas e para a perda do
Café Central de propriedade dos irmãos Teatro Coliseu (1915 -1956), que cedeu sentimento de perda é um
Medeiros, trazendo a reflexão sobre espaço para um dos maiores edifícios em despertar, um alerta contra o
a perda do edifício Chaves Barcelos altura da cidade que, como lembrança, vazio que pode assolar nossas
(1902 – 1948) e do Café Colombo (1909 leva o nome do antigo cinema. cidades que perdem sua
-1960), edificações de arquitetura O roteiro finaliza na praça XV de identidade a cada edifício que deixamos
expressiva e de referência para a Porto Novembro onde se debate a perda de um de preservar. A perda se dá pela
Alegre antiga. O roteiro segue até a dos espaços urbanos mais interessantes, demolição, pela descaracterização dos
rua Vigário José Inácio, onde se reflete a Praça Parobé (1935- 1941), que foi espaços urbanos, pelo sumiço de lugares
sobre a impressionante história do destruída pela fatídica enchente de com significância popular. Reconhecer a
destombamento e demolição da antiga 1941 e não foi restaurada, cedendo importância do que foi perdido é atentar
Igreja do Rosário (1817- 1951) , tombada espaço para um terminal de ônibus que os olhos para uma cidade invisível
pelo IPHAN em 1938, que somente foi ainda hoje existe. Como contraponto, presente no imaginário da população e
possível por um decreto que permitia o e alento de esperança, o percurso muitas vezes inimaginável às gerações
presidente da república a “destombar” se encerra no marco zero da capital mais recentes. Ações de educação
qualquer bem que estivesse protegido gaúcha, no paço dos Açorianos, onde patrimonial que induzem essa reflexão
pela União. Seguindo para a praça se contempla o edifício Guaspari, um através do impacto, do contato, e da
Otávio Rocha, se reflete sobre o exitoso ícone da arquitetura modernista de 1936 instigação de um olhar sensível, se
urbanismo dos anos 1930 e a perda que depois de décadas degradado e de demonstram eficazes, como constatado
pela descaracterização, tendo como muitos anos ocultado revestido por uma após as três edições da Caminhada

149
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

da Perda. O êxito da primeira edição,


que chamou a atenção da imprensa,
divulgando o evento antes, durante
e depois, fez com que acontecesse a
segunda e a terceira edição, esta última
em especial, solicitada pela própria
municipalidade, através da Secretaria
de Cultura. O retorno dos participantes,
convidados a prestarem depoimentos
no final, foi muito positivo, também
revelando que a atividade não atingiu
apenas um público específico de
arquitetos e urbanistas, mas sim diversas
áreas da sociedade, como historiadores,
funcionários públicos, professores,
guias de turismo, fazendo do arquiteto
e urbanista um vetor muito importante
nas atividades de educação patrimonial.
Figura 4 – Frente do folder com o percurso da atividade. Fonte: Lucas Volpatto / CAURS. Por fim, conclui-se que atividade
promovida pelo Conselho de Arquitetura
e Urbanismo do Rio Grande do Sul foi
muito exitosa, porque partilhou e gerou
conhecimento na certeza que o olhar
sensível a uma cidade demolida possa
despertar na sociedade o sentimento
de pertencimento, pois só se protege o
que se ama e aquilo que se conhece. A
atividade também é uma aposta para
que surjam novas iniciativas de educação
patrimonial para conscientização
e preservação de nossos acervos
arquitetônicos, garantindo uma cidade
viva e preservada para as futuras
gerações.

Referências bibliográficas

CUTY, Jeniffer. Porto Alegre e seus


Patrimônios no Século XX: evolução
de conceitos, valores e feições na
materialidade urbana. Porto Alegre: Em
Questão, UFRGS, 2007.
FRANCO, Sergio da Costa. Porto Alegre
Figura 5 – Verso do folder explicativo destacando as edificações e espaços urbanos perdidos. Fonte: Ano a Ano - Uma Cronologia Histórica
Luciano Antunes / CAURS.
150
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

1972 /1950. Porto Alegre: Suliani, 2012.


GUIMARAENS, Rafael. Rua da Praia:
um passeio no tempo. Porto Alegre:
Libretos, 2011.
INDA, Sofia: Arte Sacra em Porto
Alegre: A antiga igreja de Nossa Senhora
do Rosário. Porto Alegre; artigo.
PORTO ALEGRE, Achylles. Jardim de
Saudades. Porto Alegre: Wiedemann,
1921.
OLIVEIRA, Rogério Pinto Dias de.
Saul Macchiavello & Antônio Rubio:
modernidade arquitetônica em Porto
Alegre (1928-1938) – Porto Alegre, 2010.
Dissertação (Mestrado) – PUCRS.
PORTO ALEGRE, Achylles. “ A
Cathedral” In: Jardim de saudades. Porto
Alegre: Officinas Graphicas Wiedemann
&Cia, 1921, p. 77-80. Figura 6 – Parte do grupo de participantes no final da 1ª edição da atividade no Dia Estadual do
SILVEIRA NETO, Olavo Amaro. Cinemas Patrimônio Cultural. Fonte: Luciano Antunes / CAURS.
de rua em Porto Alegre; or. Fernando
Fuão - Porto Alegre UFRGS, 2001. Lucas Bernardes Volpatto
WEIMER, Gunter. Arquitetos e
construtores no Rio Grande do Sul. Santa Arquiteto e Urbanista, Mestre,
Maria: Ed. UFSM, 2004. Professor UniRitter
WEIMER, Gunter. Arquitetos e
construtores na Colônia e no Império. Rômulo Plentz Giralt
Santa Maria: Ed. UFSM, 2006.
Arquiteto e Urbanista, Mestre,
Professor UFRGS

Oritz Adriano Adams de Campos

Arquiteto e Urbanista, Coordenador


da CTPH CAU/RS

Rodrigo Spinelli

Arquiteto e Urbanista, Doutor,


Professor Univates

Eduardo Hahn

Arquiteto e Urbanista, Assessor


Especial de Memória e Patrimônio do
Estado do Rio Grande do Sul

151
Figura 1 – Pavilhões modernistas da Fundação Oswaldo Cruz, destacando-se o painel de Portinari. Foto das autoras, 2020.
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Carla Coelho, Rosana Zouain, Elisabete Silva e Vanessa Amorim

plano de conservação preventiva do pavilhão


arthur neiva - fundação oswaldo cruz,
rio de janeiro
Criada em 1900, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) administra um número significativo de
bens culturais, resultantes do desenvolvimento de suas atividades institucionais (relaciona-
das à pesquisa, à educação e ao desenvolvimento tecnológico em saúde pública). Edifícios
históricos, sítios arqueológicos e acervos arquivísticos, bibliográficos, museológicos e bioló-
gicos estão sob a salvaguarda de diversas unidades técnico-científicas da instituição, em di-
versos estados brasileiros. Sua sede está localizada em Manguinhos, no Rio de Janeiro.
A Casa de Oswaldo Cruz (COC) é uma Trabalho composto por integrantes dos As diretrizes da Política refletem o
unidade técnico-científica dedicada à diferentes departamentos da unidade empenho da Casa de Oswaldo Cruz em
preservação da memória da Fundação, que – com formações em arquitetura e investir cada vez mais em estratégias
atua desde 1986 na preservação dos bens urbanismo, arquivologia, biblioteconomia, de caráter preventivo para o patrimônio
culturais sob sua responsabilidade direta, e engenharia, história, museologia e institucional, bem como em estratégias
na definição de políticas para a preservação relações internacionais – coordenado pela de maior envolvimento da sociedade. Elas
do patrimônio cultural institucional. Vice-Direção de Informação e Patrimônio também representam o aprimoramento
Buscando ampliar a integração entre os Cultural. das estratégias realizadas pela unidade,
diferentes agentes institucionais que são Suas principais diretrizes são baseadas que mantém, desde o início dos anos
responsáveis pela sua preservação, foi na adoção de conservação preventiva, de 2000, ações contínuas de conservação dos
criado em 2010 o Preservo (Complexo gestão de riscos, de conservação integrada bens culturais sob sua responsabilidade.
de Acervos da Fiocruz). Seu objetivo é e de preservação sustentável. Além disso, Como resultado do aprimoramento do
estabelecer diretrizes, metodologias tem como estratégias a ênfase à pesquisa, planejamento das ações preventivas, que
e padrões normativos em relação aos ao desenvolvimento em preservação de visam reduzir a médio e a e longo prazo a
processos, às práticas e às infraestruturas acervos e à educação patrimonial para as necessidade de intervenções de grande
que visem à excelência na preservação atividades desenvolvidas pela unidade porte, a equipe da COC desenvolveu
do patrimônio científico e cultural da (Fundação Oswaldo Cruz, 2013). Além do uma metodologia de manutenção de
Instituição (Pinheiro, Elian e Coelho 2011). documento base, a Política de Preservação edifícios históricos. Ela se baseia no
O Preservo adota os princípios é composta também por programas acompanhamento, através de inspeções
norteadores da Política de Preservação e com temas específicos. O Programa de periódicas, que determinarão o nível de
Gestão de Acervos Culturais das Ciências Conservação e Restauração estabelece intervenção a adotar: preventiva, corretiva
e da Saúde, publicada em 2013 pela a necessidade da elaboração de Planos ou restaurativa (Pinheiro et al. 2009).
Casa de Oswaldo Cruz. O documento de Conservação Preventiva para edifícios As diretrizes também refletem os
base da Política, que tem como objetivo históricos e para edifícios novos que avanços das pesquisas realizadas pela
estabelecer as diretrizes gerais e orientar abrigam acervos móveis, considerando COC, que visaram alinhar a instituição
o desenvolvimento de programas e de forma integrada a conservação dos à abordagem contemporânea da
planos específicos, é resultante do conjuntos que compõem o patrimônio conservação preventiva e buscam evitar a
trabalho interdisciplinar de um Grupo de científico e cultural da Fiocruz¹. perda de valor dos bens culturais. Em 2008,

153
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Pavilhão Arthur Neiva

A
primeira geração de edifícios
projetados para abrigar as
atividades da Fiocruz foi
construída entre 1904 e 1919,
em estilo eclético. Este conjunto foi
parcialmente tombado pelo IPHAN,
na década de 1980, e hoje é conhecido
como Núcleo Arquitetônico Histórico de
Manguinhos (NAHM). O Pavilhão Arthur
Neiva e outros edifícios modernos foram
concebidos durante a fase de expansão
da instituição, que ocorreu a partir da
década de 1940. O arquiteto Jorge Ferreira
(1913-2008) adotou a linguagem da
Escola Carioca de Arquitetura Moderna,
Figura 1 – Pavilhão Arthur Neiva em primeiro plano, contrastando com os edifícios ecléticos (à esquerda e no centro).
Fonte: Casa de Oswaldo Cruz/Acervo da Fiocruz, Departamento de Arquivo e Documentação. que imprimiu feições da cultura brasileira
aos preceitos do Estilo Internacional,
a Casa de Oswaldo Cruz criou um Grupo Em 2015, o objeto deste projeto foi compondo uma linguagem própria.
de Trabalho multidisciplinar composto contemplado pelo programa Keeping it Roberto Burle Marx (1909-1994) projetou
por técnicos de diversos departamentos, Modern, da Getty Foundation. No Brasil, os jardins e o painel de azulejos do
cujo objetivo era conceber, organizar e além desse projeto, foi contemplado o auditório, com desenhos que reproduzem
desenvolver ações para a implantação de edifício da Faculdade de Arquitetura e o Trypanosoma cruzi, agente etiológico da
Planos de Conservação Preventiva. Como Urbanismo da Universidade de São Paulo, doença de Chagas³ (Figura 1).
resultado, o Grupo desenvolveu o projeto cujo projeto é assinado pelos arquitetos Construído para abrigar as atividades
de pesquisa “Conservação Preventiva João Batista Vilanova Artigas e Carlos de ensino do Instituto Oswaldo Cruz –
das Coleções Conservadas pela Casa de Cascaldi. Finalmente, o projeto estimulou e originalmente denominado Pavilhão
Oswaldo Cruz”, selecionado pelo edital o debate sobre os bens culturais da de Cursos – o edifício é composto
do Programa de Apoio à Pesquisa e ao Fiocruz como objetos de interesse para a por dois volumes distintos: um bloco
Desenvolvimento Tecnológico 2009-2010 preservação. Os resultados obtidos, além retilíneo e outro em forma de cunha. O
da Casa de Oswaldo Cruz. A iniciativa foi de contribuírem para o desenvolvimento primeiro bloco, contendo salas de aula e
realizada em parceria com a Fundação de novas estratégias de, correspondem laboratórios, possui pilotis no primeiro
Casa de Rui Barbosa, que desenvolve, a uma parte significativa do conteúdo do andar sobreposto a uma extensa varanda
desde a década de 1990, pesquisas e Plano de Conservação Preventiva. No que acentua sua horizontalidade. O
projetos fundamentais para o avanço do contexto institucional, o apoio da Getty segundo abriga o auditório, com uma das
tema no contexto brasileiro². Foundation reafirmou a importância, já paredes externas construída em forma
Essas experiências resultaram na atribuída pela Casa de Oswaldo Cruz, — de arco abatido e revestida por painel de
elaboração da metodologia utilizada no do Pavilhão Arthur Neiva. Os resultados azulejos em tons de branco e azul cobalto,
Plano de Conservação Preventiva, que obtidos, além de contribuírem para o elemento de destaque do conjunto. Essas
foi adotada pela Fiocruz, e é composta desenvolvimento de novas estratégias características foram destacadas no Guia
por quatro módulos: Caracterização, para a sua preservação, correspondem de Arquitetura Moderna do Rio de Janeiro
Diagnóstico, Avaliação de riscos e a uma parte significativa do Plano de (CZAJKOWSKI, 2000).
Procedimentos. Conservação Preventiva. Elementos de controle climático foram

154
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

adotados no edifício: parede de cobogós


protegendo as salas de aula do segundo
pavimento e brise-soleils instalados para
sombrear a parede do auditório voltada
para o norte, originalmente coberta por
grandes janelas em vidro.
O edifício possui estrutura
independente, composta de colunas e
vigas em concreto armado, e de vedações
em alvenaria de tijolos cerâmicos
perfurados. A cobertura do bloco das
salas de aula foi executada em laje plana
de concreto armado com vigas invertidas,
coberta com telhas de fibrocimento
sustentadas por treliças de madeira. As
varandas e os terraços do segundo andar
possuem corrimão em concreto moldado.
Figura 2 – Vista do pavilhão a partir da Avenida Brasil. Á esquerda, no primeiro pavimento, pode-se ver o primeiro andar
Em 2001 o edifício foi tombado pelo ocupado por um acréscimo, onde antes havia a varanda e o pilotis. Foto de Glauber Gonçalves, 2016.
Instituto Estadual de Patrimônio Cultural
(INEPAC), e em 2009 o painel artístico de As modificações ocorridas no edifício inicial de identificação e organização
azulejos foi incluído na lista das obras de estão associadas a questões funcionais. da documentação que já havia sido
Burle Marx protegidas pelo município do Dentre elas, vemos a instalação de diversos produzida por técnicos, por consultores
Rio de Janeiro. Atualmente, o edifício abriga equipamentos, como os de laboratório e por pesquisadores do DPH e de outras
salas de aula, laboratórios de pesquisa, e os de ar condicionado. Dentre outras, instituições. Em seguida, foi possível
escritórios, salas de administração e consequências dessas instalações foram organizá-las de acordo com as etapas
logística, serviços de limpeza, refeitório, a alteração do sistema de funcionamento definidas pela Política de Preservação da
almoxarifado e banheiros do Instituto das esquadrias, e, em alguns casos, até COC.
Oswaldo Cruz. O Pavilhão sofreu diversas a inutilização delas. Tais modificações O projeto Keeping it Modern, realizado
modificações ao longo dos anos (algumas interferem na apreensão espacial do entre 2015 e 2016, envolveu pesquisa
das quais aprovadas pelo próprio autor do edifício, além de contribuírem para a perda documental, atualização das bases gráficas
projeto), antes de ter seu tombamento de algumas qualidades de sua arquitetura. e levantamento dos danos e patologias
determinado. Dentre as principais Apesar disso, o edifício preservou a do edifício; análise de danos estruturais;
alterações arquitetônicas, estão: a lógica da sua distribuição espacial e as levantamento dos danos e diagnóstico
demolição dos brise-soleils; a mudança características mais proeminentes do dos azulejos cerâmicos; análise pictórica
no layout do hall de acesso ao auditório; a projeto arquitetônico original, o que do edifício; e atividades de educação
construção de acréscimo no primeiro andar, significa que sua significância ainda pode patrimonial4.
ocupando áreas antes desobstruídas, ser apreciada (Figuras 3 e 4).
Além disso, a pesquisa modificou a
de varanda e de pilotis; a instalação de
abordagem e o debate entre as partes
pastilhas no revestimento das paredes e O Plano de Conservação Preventiva

O
dos pilares externos; a retirada das janelas interessadas da Fiocruz. Diretamente
existentes no auditório, seguida pelo processo de desenvolvimento envolvidas na preservação do edifício,
fechamento dos seus vãos com alvenaria, do Plano de Conservação as partes incluem gestores, usuários
deixando ainda as demarcações de sua Preventiva do Pavilhão Arthur (geralmente não familiarizados com a área
preexistência (Figura 2). Neiva incluiu uma etapa de preservação) e técnicos responsáveis

155
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

já apontado, nesse caso a maioria deles


ocorreu devido à falta de planejamento
das intervenções sobre o edifício.
Externamente, os principais problemas
detectados foram a degradação do
concreto armado nos elementos
estruturais; a presença de uma fissura de
grandes dimensões na parede do painel
de azulejos; a deterioração da madeira
das esquadrias; e peças de revestimento
faltantes ou danificadas. A baixa qualidade
de muitas intervenções feitas na fachada,
principalmente as instalações de aparelhos
de ar condicionado,ainda gera um impacto
negativo sobre a apreensão visual do
edifício.
A análise dos azulejos cerâmicos
Figura 3 – Bloco do auditório com a demarcação das janelas preexistentes, no segundo andar. À frente
delas havia brise-soleis, que foram demolidos. Fonte: DPH/COC/Acervo da Fiocruz, 2013. demonstrou a presença de fissuras, de
perdas de material na chacota e no vidrado,
pela preservação dos edifícios históricos identificados. A vulnerabilidade do Pavilhão de eflorescência, de agentes biológicos,
sob salvaguarda da Fiocruz. Tal diálogo Arthur Neiva está associada aos métodos de manchas, de microfissuras, de lacunas
contribui para a valorização do patrimônio e materiais utilizados, que refletem os e de desgastes. Além disso, a micrografia
cultural e reforça as atividades contínuas recursos tecnológicos da época. Também observou defeitos de fabricação, como a
desenvolvidas pela COC. está associada ao seu entorno hostil, presença de orifícios na face do vidrado.
O primeiro dos quatro módulos do próximo a grandes rodovias, exposto A etapa de Avaliação de Riscos
Plano de Conservação Preventiva, a etapa a altas temperaturas e a altos níveis de inclui uma lista abrangente dos riscos
de Caracterização, compila informações poluição e de umidade relativa do ar. Outra identificados anteriormente e a análise
sobre o edifício, como sua história, as grande adversidade é consequência do seu desses riscos, visando determinar sua
principais intervenções realizadas, suas histórico de planejamento e de integração magnitude e comparar seus resultados,
características arquitetônicas, materiais nas atividades de manutenção e em outras estabelecendo, assim,prioridades de
empregados, dentre outros. Esta etapa intervenções no edifício. Infelizmente, ação (que vão desde prioridade baixa até
também inclui a identificação dos atores esse mesmo problema ocorre em outros catastróficas). Foram identificados mais
envolvidos com o edifício e sua relação com exemplares arquitetônicos do movimento de cinquenta riscos, sistematizados em
ele. Assegurando uma leitura mais ampla moderno, estando ligado à dificuldade uma tabela com suas descrições e seus
do Pavilhão, essa análise não se restringe de seu reconhecimento como patrimônio respectivos agentes de deterioração.
ao edifício, contemplando também seu cultural pela população. Posteriormente, esses riscos serão
entorno, em diferentes escalas; e também A análise dos ambientes internos analisados, e suas magnitudes,
seus bens integrados e móveis, e os acervos documentou o atual estado de comparadas.
móveis nele existentes. conservação, por meio de observação Por fim, a etapa de Procedimentos
A fase de Diagnóstico concentra e representação gráfica, dos pisos, das aborda estratégias de ação focadas
informações sobre o estado de paredes, dos tetos e das esquadrias. Em na prevenção de danos, com base nas
conservação do edifício, identificando seguida, os danos foram enquadrados de prioridades identificadas na fase anterior.
danos e procurando estabelecer relações acordo com os níveis leve, moderado e Ela inclui orientações conceituais,
de causa e efeito entre os problemas intenso, dependendo da gravidade. Como planejamento das intervenções,

156
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

conservação programada, procedimentos


de limpeza e segurança. Além disso,
estabelece diretrizes para a condução de
estratégias de monitoramento, de controle
ambiental e de educação patrimonial.

Considerações

A
conservação preventiva é uma
importante estratégia para
a preservação da arquitetura
moderna, especialmente se
considerarmos as questões técnicas
relacionadas à sua preservação e à
dificuldade de seus exemplares serem
reconhecidos como patrimônio cultural
pela população. Uma das razões para Figura 4 – Fechamento com cobogós no corredor avarandado do segundo pavimento, na fachada nor-
isso é a proximidade de sua produção deste. Fonte: DPH/COC/Acervo da Fiocruz, 2013.
com o momento presente, que se torna
mais um obstáculo à sensibilização para a php/patrimonio-cultural/politica-de- Referências bibliográficas
importância de sua preservação. preservacao-e-gestao-de-acervos.
O Plano de Conservação Preventiva do 2 Informações sobre pesquisas, ações COELHO, Carla M.T.; PINHEIRO,
Pavilhão Arthur Neiva procura consolidar e estratégias relacionadas ao Plano de Marcos José de A. 2016. A prevenção de
uma série de dados produzidos pela equipe Conservação Preventiva do Museu Casa danos como diretriz para preservação
do Departamento do Patrimônio Histórico de Rui Barbosa estão disponíveis em: do patrimônio cultural: a experiência
desde o início dos anos 2000. Os estudos <http://www.casaruibarbosa.gov.br/ da Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz.
realizados com recursos do programa conservacaopreventiva/>. Fórum Internacional Sobre Patrimônio
Keeping it Modern tem sido fundamentais 3 Carlos Chagas, que foi um Arquitetônico Brasil/Portugal (FIPA).
pesquisador e diretor da Fundação Anais... Campinas: PUC Campinas; IAB
para ampliar o entendimento sobre os
Oswaldo Cruz, descobriu a doença de Campinas; Universidade de Aveiro.
processos de deterioração existentes e
Chagas em 1909. CZAJKOWSKI, Jorge (Org.). 2000.
sobre os riscos futuros. Além disso, os
4 Os resultados do projeto estão Guia da arquitetura moderna no Rio de
produtos das análises são essenciais para
descritos na publicação “Preservation Janeiro. Rio de Janeiro: Casa da Palavra;
a orientação e definição de estratégias
of Modern Architecture: studies for Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro.
preventivas para o edifício, que
the Arthur Neiva Pavilion Preventive FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ.
incluem atividades de monitoramento,
Conservation Plan”, disponível em Casa de Oswaldo cruz. 2013. Política
procedimentos de limpeza adequados e
formato digital, no Arca - Repositório de Preservação e Gestão de Acervos
atividades de conservação planejadas.
Institucional da Fiocruz: <https://www. Culturais das Ciências e da Saúde da Casa
arca.fiocruz.br/handle/icict/20561>; e de Oswaldo Cruz – Fiocruz. Rio de Janeiro:
Notas
no repositório da Getty Foundation - Fiocruz/COC, Disponível em:<www.coc.
Keeping It Modern Online Report Library: fiocruz.br>.
1 A Política de Preservação e seus <http://www.getty.edu/foundation/ PINHEIRO, M. J. de A.; LOURENÇO, B.
programas estão disponíveis para consulta initiatives/current/keeping_it_modern/ C. G. de; DUARTE, M. C. C.; FRANQUEIRA,
em:http://www.coc.fiocruz.br/index. report_library/>. M. L.; LOPES, D. S. 2009. Metodologia

157
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

e Tecnologia na área de manutenção


e conservação de bens edificados – o
caso do Núcleo Arquitetônico Histórico
de Manguinhos. Rio de Janeiro: Fiocruz -
Casa de Oswaldo Cruz. Carla Maria Teixeira Coelho
PINHEIRO, Marcos José de A., ELIAN,
Paulo R., COELHO, Carla M. T. 2011. Doutora pelo Programa
Complexo de Preservação e Difusão de Pós-Graduação em Arquitetura e
de Acervos Científicos da Saúde. In: Urbanismo da Universidade Federal
Conference on Technology, Culture Fluminense, pesquisadora da Casa de
and Memory - CTCM. Strategies for Oswaldo Cruz/Friocruz e docente do
preservation and information access, Mestrado profissional em Preservação
2011, Recife. Anais... Recife: LIBER/UFPE, e Gestão do Patrimônio Cultural das
p.1-12. Ciências e da Saúde

Rosana Soares Zouain

Mestre pelo Programa


de Pós-Graduação em Preservação
do Patrimônio Cultural das Ciências
e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz/
Fiocruz (2018), atua como arquiteta no
Departamento de Patrimônio Histórico
da Casa de Oswaldo Cruz

Elisabete Edelvita Chaves da Silva

Doutoranda em Museologia e
Patrimônio pela Universidade Federal do
Estado do Rio de Janeiro (2019). Possui
graduação em Gravura pela Escola de
Belas Artes - Universidade Federal do Rio
de Janeiro (1992). Trabalha na Fundação
Oswaldo Cruz - Casa de Oswaldo Cruz,
Departamento de Patrimônio Histórico

Vanessa Ribeiro de Amorim

Arquiteta e Urbanista pela Universidade


Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Bolsista de pesquisa no Núcleo de
Estudos de Urbanismo e Arquitetura
em Saúde (Nucleuas) do Departamento
de Patrimônio Histórico da Casa de
Oswaldo Cruz/Fiocruz

158
Figura 1 – Ladeira da Misericórdia, Rio de Janeiro. Foto de Alejandro Cuenca, 2020.
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Leonardo Rodrigues Mesquita Santos

preservação versus esquecimento: proposta


de intervenção na ladeira da misericórdia, rio
de janeiro
O presente artigo foi baseado nas pesquisas e proposta apresentadas na disciplina Projeto
e Gestão do Patrimônio no Mestrado Profissional de Projeto e Patrimônio do Programa de
Pós-Graduação em Arquitetura (PROARQ) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ),
ministrada pela professora Doutora Cêça Guimaraens.
A Ladeira da Misericórdia, juntamente testemunho das transformações ocorridas No entorno da Ladeira existem outros
com o Largo de mesmo nome (Figuras na cidade. testemunhos do crescimento inicial da
1 e 2), é o único trecho remanescente do Foram realizadas pesquisas nas bases cidade, como a Igreja de Nossa Senhora do
Morro do Castelo, local inicial de ocupação cadastrais e registros históricos disponíveis Bonsucesso, o Hospital da Santa Casa da
da cidade do Rio de Janeiro (SILLOS, e visitas ao local, identificando aspectos Misericórdia, o Museu Histórico Nacional²
2015), sendo a primeira via pública da significativos e potencialidades da Ladeira e o Museu da Imagem e do Som³ (MIS).
cidade e tendo presenciado diversas e seu entorno, de forma a nortear as Após o desmonte do morro e
transformações urbanas, como a criação intervenções propostas. O objetivo é dispersão das instituições públicas
da Esplanada do Castelo, a construção do construir um discurso urbano informativo, existentes no local pela área já extensa
Elevado da Perimetral e sua demolição tendo como diretriz o conceito de que a da cidade, o entorno da Ladeira foi
como parte das obras para a Olimpíada de história não é um recorte fixo e inacessível sendo negligenciado, sendo o ápice da
2016. do passado (HUYSSEN, 2000). desvalorização do caráter histórico local
O trecho de aproximadamente a construção da Av. Perimetral, durante a
quarenta metros de extensão, Histórico década de 1950, cobrindo grande parte da

A
pavimentação em pedras tipo “pé-de- região e justificando inúmeras demolições.
moleque” e inclinação acentuada foi Ladeira é o último trecho Somente em 2013, no início das obras para
tombado pelo Instituto do Patrimônio remanescente do principal preparar a cidade para as Olimpíadas de
Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em acesso ao Morro do Castelo, 2016, a área volta a ser foco de atenções
2017¹. O tombamento, entretanto, não local inicial de ocupação da do poder público.
garante a valorização e reconhecimento cidade após a transferência do antigo Entre as medidas que buscavam
de sua importância histórica. núcleo no Morro Cara de Cão. No topo valorizar os espaços públicos e edifícios
Atualmente, a Ladeira encontra-se do morro se localizavam instituições históricos existentes estão a demolição
isolada por estacionamentos, escondida públicas, como a Casa da Câmara e da Perimetral e uma série de reforma
entre duas grandes praças recentemente
Cadeia e a Casa dos Governadores, além em praças que se propunham a retomar
reformadas, porém, sem uma utilização
da antiga Sé de São Sebastião, demolida a ambiência perdida do local. Contudo,
significativa por pedestres. Contudo,
com todo o conjunto do morro na década essas obras criaram espaços desconexos
a Ladeira e o conjunto arquitetônico
adjacente, composto pelo hospital da de 1920, cujo desmonte foi utilizado que, somados à falta de reflexão de como
Santa Casa da Misericórdia e pela Igreja de na série de aterramentos realizados na novas edificações podem contribuir para a
Nossa Senhora do Bonsucesso, possuem época, resultando atualmente na área preservação da ambiência e história local,
potencial para ressignificar a área onde se denominada Esplanada do Castelo não favorecem o patrimônio sobrevivente
encontram, devido a sua atuação como (SILLAS, 2015). da cidade.

161
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

áreas de suporte aos edifícios históricos


adjacentes, visto que sua utilização intensa
é vantajosa para sua preservação, porém,
pode acarretar danos à estrutura física do
edifício (LYRA, 2016), além de absorverem
mais usuários para a região (Figura 4).
O nivelamento de algumas vias com as
áreas de pedestres, utilizando redutores
de velocidade, somado a remoção
dos estacionamentos e a diminuição
do cercamento do Museu Histórico,
permitiria maior conexão entre as praças
existentes, tendo a Ladeira como vértice.
Ou seja, o fluxo entre os espaços públicos,
potencializado pelos novos edifícios, se
condensaria próximo à Ladeira.
São propostas intervenções nas
empenas da Santa Casa e da igreja,
Figura 2 – Ladeira da Misericórdia (em destaque) e entorno imediato. Fonte: Imagem do Google aliando informação sobre a Ladeira como
Maps, 2014. Disponível em https://www.google.com.br/maps/@-22.9050595,-43.1710076,163a,35y,17 elementos visuais marcantes da praça em
2.03h,39.41t/data=!3m1!1e3. Acesso em 20 de novembro de 2019. Modificado pelo autor, 2020.
frente. O muro da Santa Casa receberia
Atualmente, a Ladeira da Misericórdia potencial contaminadores dos espaços platôs para as pessoas sentarem, em
públicos devido ao intenso movimento referência às fundações do muro que foram
segue esquecida, mesmo inserida em
pendular que geram durante o dia. expostas com o desmonte do morro.
um contexto com grande potencial A empena da Santa Casa receberia
rememorativo possibilitado pelos Contudo, como não há oferta de
ambientes de lazer, comércio e refeições painéis com imagens históricos, levando
grandes espaços livres existentes e pelo informação ao espaço público de forma
próximos, esse potencial contaminador
reconhecimento tardio da Ladeira como espontânea e com maior impacto visual.
dos usurários dos edifícios próximos não
um patrimônio histórico nacional da é aproveitável. As duas praças próximas Propõe-se a construção de um acesso ao
formação da cidade do Rio de Janeiro. foram recentemente restauradas, porém hospital pela praça, aumentando o fluxo
não apresentam conexão entre si e nem de pessoas, e a diminuição da altura do
Análise do contexto atual com a Ladeira, que, por sua vez, devido ao muro que limita o lote para que se possa

A
difícil acesso, propicia o descaso e o uso avistar a arquitetura do hospital a partir da
Ladeira se encontra entre três como abrigo por moradores de rua, que praça (Figura 5).
edifícios de uso cultural com valor aproveitam o caráter recluso do ambiente. Na intervenção propõe-se enfatizar
artístico e histórico. Entretanto, O único indício da importância do local é o o corte executado na Ladeira, durante o
não há um diálogo entre eles totem informativo instalado no local. desmonte do Morro do Castelo, através
devido às barreiras existentes: uma via da exposição da espessura dos muros e
com intenso fluxo de veículos pesados, Propostas de intervenções
calçamento em pedra e da construção de

A
ininterruptas áreas de estacionamento um guarda-corpo em vidro, com impacto
e cercamentos afastando o público das valorização da Ladeira se inicia visual mínimo. A área a frente receberia a
edificações (Figura 3). intervenção proposta “Do pé-de-moleque
com a ocupação criteriosa dos
Os demais edifícios próximos, com ao desmonte”, composta por pedras que
terrenos ociosos próximos se iniciam semelhantes ao calçamento
predominância de escritórios de órgãos por edifícios contaminadores original da ladeira, gradualmente se
públicos como o Tribunal de Justiça do do espaço público, como comércios e transformando em pedras grandes,
Rio de Janeiro, com exceção do hospital restaurantes, aumentando o número representando os entulhos dos edifícios
da Santa Casa da Misericórdia, possuem de “olhos da rua”4 e podendo conter derrubados.

162
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Será instalada uma placa em metal


polido, como uma releitura do marco de
fundação da cidade que ficava guardado
na cidadela no alto do morro. A placa
teria o formato do marco e informações
sobre a Ladeira de forma similar ao totem
existente atualmente no local. Contudo,
quando o observador olhasse a placa, ele
veria o reflexo dos prédios novos atrás
de si. Buscou-se enfatizar a sensação
de perda, ao confrontar as informações
sobre o passado com a realidade existente
(Figura 6).

A devoção a São Sebastião

A
presença da antiga Sé de São
Sebastião no topo do Morro
do Castelo levou a realização
de inúmeras celebrações de
caráter religioso e comemorativo, sendo
a procissão em homenagem ao santo Figura 3 – Análise do entorno da Ladeira da Misericórdia. Fonte: Elaborado pelo autor, 2019.
padroeiro o maior festejo realizado, com
inúmeros eventos, repercutindo até hoje
na agenda carioca.
Nesta festa, em 1584, ocorreu a
primeira exibição teatral na cidade.
Originalmente, a procissão partia do
átrio da Igreja de Nossa Senhora do
Bonsucesso, e subia até a Sé, na cidadela.
Após o desmonte do Castelo, parte do
altar da Sé foi doada à igreja da base do
morro (SILLAS, 2015). Segundo dados do
último evento em janeiro de 2020, 6 mil
fiéis acompanham a procissão, partindo da
Igreja dos Capuchinhos, na Tijuca, rumo à
Catedral Metropolitana do Rio.
Reinserir a Ladeira da Misericórdia no
roteiro das comemorações representaria
reinserir a ladeira na cultura popular da
cidade, além de possibilitar um intenso e
importante uso que, mesmo que pontual
e limitado a uma data, reconectaria um
grande público a um marco da fundação da
cidade, através de um evento que já ocorria
originalmente no local.
Atualmente, a procissão possui um
Figura 4 – Proposta para o entorno da Ladeira. Fonte: Elaborado pelo autor, 2019.
roteiro consolidado, incluindo orações no

163
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Instituto do Câncer, no Centro, e a missa de palco novamente de um evento religioso, propostas de eventos somam à intervenção
encerramento na Catedral Metropolitana. e do passado com o presente, a imagem de na Ladeira em si, com objetivo de valorizar
Mudar o roteiro atual seria um ato São Sebastião percorrendo novamente o o patrimônio e preservar a memória. A
autoritário, priorizando um momento calçamento em pé-de-moleque. intervenção compreende uma série de
histórico do passado em detrimento do elementos que se estendem além da
presente. Propõe-se manter o percurso Considerações finais Ladeira, compreendendo a construção de

Q
atual, estendendo, após a missa na novos edifícios contaminadores do espaço
catedral, a procissão até o alto da Ladeira, ualquer proposta de preservação público, intervenções nas empenas cegas
onde ocorreria o encerramento simbólico, para a Ladeira da Misericórdia do muro Santa Casa, na Igreja de Nossa
com o público assistindo a partir da Praça dialoga, necessariamente, com Senhora do Bonsucesso e na empena
do Expedicionário. o esquecimento. Enquanto ato cortada da Ladeira da Misericórdia.
A Ladeira se localiza a 17 minutos de de preservação, o tombamento da Ladeira
caminhada da Catedral, possibilitando o da Misericórdia tem como objetivo transpor Notas
acesso do público da procissão ao local. ao presente e ao futuro determinado
Após o encerramento, a multidão poderia recorte do passado, neste caso, o Morro 1 O Processo de Tombamento nº 511 –
permanecer no local para a realização da do Castelo e, por consequência, sua T-54 do Trecho Remanescente da Ladeira
Festa de São Sebastião. Atualmente, não importância na formação da cidade do Rio da Misericórdia foi aberto em 1954.
há um evento concentrado em um espaço de Janeiro. 2 A edificação onde hoje é a sede do
público, havendo a disponibilidade de Baseado nas intervenções executadas Museu Histórico Nacional é composta
realizá-lo desde a Praça do Expedicionário até o momento, este processo de por uma amálgama de edificações que se
até a Praça Marechal Âncora. rememoração não tem sido efetivo, transformaram e se uniram no decorrer do
Estas ações relacionadas com as mantendo a história do Morro do Castelo tempo.
comemorações de São Sebastião no esquecimento como uma informação 3 A sede do MIS é um dos poucos
conectamos cariocas, que atualmente não plenamente difundida e não sendo representantes ainda existentes do
não possuem contato com a Ladeira da acessada pela vivência urbana e por conjunto de edifícios temporários erguidos
Misericórdia,ao lugar, assim como o lugar interações com a Ladeira da Misericórdia. para a comemoração do Centenário da
ao seu passado, com a Ladeira sendo As alterações nas vias,novos edifícios e Independência, em 1922.

Figura 5 – Conjunto paisagístico proposto no muro da


Santa Casa. Fonte: Elaborado pelo autor, 2019.

164
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

4 Os “olhos da rua” é um conceito


apresentado pela jornalista e teórica urbana
Jane Jacobs em seu livro Morte e Vida de
Grandes Cidades, lançado originalmente
em 1961, que consiste na relação direta
entre o número de pessoas que circulam
ou estabelecem alguma relação direta com
o espaço público (por exemplo, pessoas
sentadas em mesas de bares nas calçadas) e
a sensação de segurança das pessoas nestes
locais, devido a percepção de vigilância que
as pessoas em determinado espaço público
exercem uma sobre as outras.

Referências bibliográficas

BRANDI, Cesare. Teoria da


restauração. Tradução Beatriz Mugayar
Kühl. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2004.
HUYSSEN, Andreas. Seduzidos
pela memória. Rio de Janeiro: Editora
Aeroplano, 2000.
INSTITUTO DO PATRIMÔNIO
HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL.
Processo de Tombamento nº 511 – T- 54
do Trecho Remanescente a Ladeira da
Misericórdia, localizada no Munícipio do
Rio de Janeiro – RJ, 2017.
LYRA, Cyro Corrêa. Preservação do
Patrimônio Edificado: a Questão do Uso.
Brasília, DF: Iphan, 2016.
SILLOS, Jacques. Rio de Janeiro 450
anos: a fundação da cidade e seus marcos
históricos: Largo da Misericórdia. Rio de
Janeiro, RJ Jakobsson Estúdio, 2015.

Leonardo Rodrigues Mesquita Santos

Arquiteto e Urbanista, Mestrando


pelo Programa de Pós-Graduação
em Arquitetura da UFRJ. Atua na
Coordenação de Preservação de Imóveis
Figura 6 – Corte esquemático da Ladeira e instalação “Do
Tombados do Escritório Técnico da pé-de-moleque ao desmonte”. Fonte: Elaborado pelo
Universidade (UFRJ) autor, 2019.

165
Teleférico do Morro da Providência, no Centro do Rio de Janeiro. Fonte: Foto de Alejandro Cuenca Gómez, 2017.
MUDANÇAS E EMERGÊNCIAS
Figura 1 – Praça Vaz de Melo, Lagoinha, 1930. Fonte: <www.curraldelrey.com.br>. Acesso em 05/05/2020.
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Leonardo Barci Castriota, Laura Lage e Samantha Nery

Preservação do patrimônio e gestão do


território: uma tentativa de caracterização da
paisagem do bairro da Lagoinha, belo horizonte1
O campo do patrimônio cultural tem sofrido uma grande transformação nas últimas
décadas, que deriva tanto da ampliação do conceito de “patrimônio cultural”2, quanto
do próprio entendimento de qual deva ser seu papel. No final do século XX e início do
século XXI, passamos de uma visão restrita, onde o patrimônio era identificado quase
imediatamente aos monumentos e sítios e à ideia de excepcionalidade, para uma visão
muito mais abrangente, que inclui outros elementos e valores, ao ponto de ser considerado
um “fenômeno cultural onipresente” em nossos dias3. Além disso, deslocamo-nos de uma
visão basicamente reificadora, que identificava os valores patrimoniais como intrínsecos
aos bens culturais, para uma visão contemporânea, que percebe nos processos de
patrimonialização a - sempre presente - atribuição de valores, fazendo dela uma atividade
necessariamente intersubjetiva4.

Nesta ampliação e deslocamento, se modifica, descortinando-se uma do passado no presente, definida e


algumas ideias têm desempenhado gama nova de possibilidades, o que é caracterizada segundo a maneira pela
um papel importante, entre as quais reconhecido pela UNESCO ao adotar a qual se percebe o território, e que atua,
caberiam se destacar a de patrimônio rubrica da “paisagem urbana histórica” por sua vez, na própria percepção.
intangível, a de lugar e, principalmente, a (BANDARIN; VAN OERS, 2015). Essas duas perspectivas, que implicam,
ideia de paisagem cultural, que, de fato, Apesar de todo o aporte como anota Rafael Winter Ribeiro, em
parece-nos abrir novos horizonte para o importante que essa categoria traz, a “estratégias bastante diferenciadas,
campo da preservação do patrimônio. sua utilização no campo do patrimônio tanto pela abrangência como pelos
Ao tematizar de forma privilegiada as é marcada, desde sempre, por uma objetivos” (2007, p. 10) , podem ser
interações entre natureza e cultura aparente ambiguidade, que revela bem exemplificadas, respectivamente,
e ao entrelaçar inextricavelmente as muito da sua própria trajetória: uma por um lado, pela introdução da
perspectivas objetiva e subjetiva, a oscilação entre uma concepção que categoria de paisagem cultural para
ideia de paisagem cultural tem feito ainda vê a “paisagem cultural” como a inscrição como patrimônio mundial
com que categorias tradicionais no uma porção peculiar do território, pela UNESCO, a partir de 1992, e, por
campo do patrimônio possam ser dotada de características ímpares, outro, pela Convenção Europeia da
repensadas de forma inovadora. Entre que a tornam especial e que levam à Paisagem de 2000. Assim, a “paisagem
as categorias tradicionais afetadas pela necessidade de sua preservação; e uma cultural” parece oscilar entre mais um
introdução da paisagem, podemos outra concepção, que reconhece que, instrumento – mesmo que mais amplo
destacar a de “conjunto histórico”, que, no fundo, toda paisagem é paisagem – para reconhecimento de patrimônios
ao ser visada desde esta perspectiva, cultural, sendo essa um testemunho excepcionais, e um instrumento

169
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

da UNESCO, tendo-se como objetivo lugar, como um todo, para as pessoas


patrimonializar a paisagem, embora (GRENVILLE; FAIRCLOUGH, 2004-5,
esse processo já seja pensado p. 2), traduzindo-o de maneira fácil,
numa perspectiva contemporânea para que possa ser utilizado também
(com a exigência, por exemplo, de no planejamento espacial e na gestão
uma pactuação entre os agentes). local (FAIRCLOUGH, 2008, p.277).
Contrariamente, não registramos no O HLC teve seu início em 1994
Brasil muitas experiências de utilização na Cornualha, numa iniciativa
da paisagem como instrumento de conjunta do English Heritage e da
gestão do território, nos moldes Countryside Commission, tendo
propostos pela Convenção Europeia. inicialmente como foco as áreas
Este texto vai apresentar uma rurais. Com o desenvolvimento dos
experiência neste sentido, na qual trabalhos, no entanto, mostrou-se um
se utilizou a metodologia inglesa da instrumento versátil, com diversas
Historic Landscape Characterisation aplicações, expandindo-se também
(HLC) a um conjunto urbano da cidade para áreas marítimas, urbanas e
de Belo Horizonte, o tradicional bairro industriais (CLARK, DARLINGTON
da Lagoinha. & FAIRCLOUGH, 2004). Um dos
primeiros HLC do tipo ‘metropolitano’
A “Caracterização da Paisagem Histórica”: foi realizado entre os anos de 2012 e
um método inglês para conhecimento e
2014 pela Universidade de Newcastle
gestão do território
em parceria com a Câmara Municipal

O
de Newcastle, financiado pelo English
Historic Landscape Heritage, como parte de um programa
Characterisation (HLC) é nacional de pesquisa (COLLINS, 2014).
Figura 2 – Linha do tempo do HLC até 2011.
Fonte: English Heritage. um programa desenvolvido Atualmente, quase todo o território
e agenciado pelo English inglês se encontra caracterizado,
poderoso para gestão do território Heritage e um método, originalmente tendo-se dividido a Inglaterra em
como um todo, como fica claro tanto pensado por arqueólogos, para 159 partes distintas, definidas em
na Convenção quanto na sua aplicação investigar o caráter histórico da termos cênicos, naturais e de acordo
pelas diversas nações europeias. paisagem (TURNER, 2018). Em com os atributos históricos de suas
No caso brasileiro, essa categoria sua perspectiva, a paisagem é paisagens. Os mapas produzidos
é introduzida explicitamente com sempre contemporânea, parte pelos projetos do HLC, usando SIG
o instrumento da “chancela da tanto do passado como do presente, (Sistema de Informação Geográfica),
paisagem cultural”, definida pelo podendo ser ‘lida’ em suas camadas são feitos em nível dos condados, áreas
IPHAN em sua Portaria 127/2009 de desenvolvimento 5 . O HLC foi pequenas o suficiente para manter um
como “porção peculiar do território pensado para ampliar o conhecimento nível de detalhe razoável e amplas o
nacional, representativa do processo e melhorar a gestão do ambiente suficiente para manter a perspectiva
de interação do homem com o meio histórico para além da abordagem da paisagem. Baseiam-se em registros
natural, à qual a vida e a ciência humana tradicional, que se centrava em que se estruturam nos atributos visíveis
imprimiram marcas ou atribuíram edifícios e sítios restritos (CLARK, da paisagem e suas interpretações, que
valores” (IPHAN, 2009). Aqui, como 2004-5). Para isso, ele procura capturar são referenciados a datas, funções,
se pode perceber, parecemos estar o “caráter histórico” da paisagem, assentamentos, origem ou evolução.
muito mais próximos da concepção buscando entender o significado do Os arquivos são frequentemente

170
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

atualizados, incorporando novos


dados, entendimentos ou teorias,
de acordo com uma visão ampla da
paisagem (CLARK, DARLINGTON &
FAIRCLOUGH, 2004).
O método do HLC procura localizar
o que denomina character areas 6, áreas
com características relativamente
homogêneas que possuem “um padrão
específico que se repete e as diferencie
das áreas envolventes” (RIBEIRO, 2007,
p.61), sendo os fatores determinantes
para a definição deste caráter as formas
de relevo, a altitude, o uso do solo, a
tipologia urbanística, entre outros.
Define-se também o “contexto”,
Figura 3 – Complexo viário da Lagoinha, 2015. Fonte: P.B.H.
isto é, a relação entre edifícios e
monumentos e outros aspectos do
ambiente histórico e natural, a fim sempre em mudança, que deve ser fortes do HLC vai ser a possibilidade de
de se compreender tanto o passado bem gerenciada para se garantir o se combinar uma grande quantidade de
quanto as mudanças ou continuidades bem-estar dos cidadãos, tanto em dados sobre o território no ambiente
que produziram a paisagem, que seus aspectos econômicos quanto de SIG, preenchendo as lacunas
podem fornecer um ponto de partida simbólicos. A paisagem vai ser entre a análise em diferentes escalas
para futuras mudanças (GRENVILLE um instrumento privilegiado para ou contextualizando informações
& FAIRCLOUGH, 2004-5: p.3). O HLC interpretar o território, sintetizando de lugares ou tempos específicos.
utiliza como categoria as “tipologias de a compreensão de seus elementos O método também tem o potencial
caráter histórico da paisagem” (historic culturais e ambientais, funcionando de compartilhar pontos de vista
landscape character types), que servem como um indicador da qualidade diferentes, integrando percepções das
para identificar diferentes áreas cujo de vida e elemento motivador da pessoas comuns com dados e modelos
caráter de paisagem foi moldado por construção de culturas e identidades de especialistas, ensejando discussão
processos históricos semelhantes e coletivas. pública (FAIRCLOUGH, 2008, p.277-
reconhecíveis (TURNER, 2018, p.41). Ao criar um banco de dados amplos 278). Através do cruzamento de dados,
A paisagem é entendida no HLC especializados, o HLC teria múltiplas que facilita a investigação das diversas
como “onipresente e culturalmente possibilidades de utilização, podendo relações entre os diferentes aspectos
constituída” (COLLINS, 2014, p.1), servir para se entender, por exemplo, da paisagem, com o HLC podem-
de acordo com o entendimento da as principais contribuições para o se avaliar as reais necessidades e as
Convenção Europeia da Paisagem caráter da paisagem em diferentes possibilidades de mudança, onde todos
(CEP), em que paisagem significa períodos, a extensão e ritmo da sua os aspectos da paisagem e do ambiente
“uma área, como percebida pelas mudança ao longo do tempo, bem são considerados em conjunto. 8
pessoas cujo caráter é o resultado da como a de sua percepção por parte da Como se pode perceber, ao mesmo
ação e interação de fatores naturais e/ população (TURNER, 2018, p.42) 7. Ao tempo em que é uma ferramenta de
ou humanos” (EUROPE, 2000, cap.1, mesmo tempo, ele consegue ser um planejamento, o HLC possui forte
art.1). Neste sentido, a paisagem, instrumento poderoso de planejamento conexão com o patrimônio cultural,
presente em todo o território, está e gestão territorial: um dos pontos ao apresentar uma interpretação dos

171
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

processos históricos que moldaram capital, o bairro se torna rapidamente


o caráter da paisagem experienciada um importante centro social e
pelas pessoas. O método não traz em econômico na cidade. Na década de
si, porém, uma avaliação, como no 1950, a Lagoinha era considerada um
processo de patrimonialização, onde bairro de boemia, com intensa vida
se estabelecem necessariamente noturna, música e prostituição, ao
juízos de valor. Trata-se, muito mais, mesmo tempo em que mantinha, em
de um processo de caracterização, outra porção do seu território, um
descritivo, onde se reconhecem os caráter residencial, caracterizado pela
processos de mudança da paisagem tradição e religiosidade.
(TURNER, 2018, p.42). Neste sentido, Como o bairro ocupa uma posição
essa parecia ser uma metodologia estratégica de ligação entre o Centro
adequada para um estudo de caso e o Vetor Norte de Belo Horizonte,
no Brasil, onde, como anotamos, principal eixo de crescimento da Região
não temos muitas experiências que Metropolitana, ele tem sido objeto de
combinam a utilização patrimonial da grandes intervenções em seu tecido
paisagem com a sua perspectiva como urbano desde os anos 1940. Para se
instrumento de gestão do território, garantir maior capacidade viária à
como preconizado pela Convenção capital, geraram-se grandes cortes em
Europeia da Paisagem. Para investigar seu tecido urbano – com aberturas de
essa perspectiva realizou-se uma avenidas, ampliação de espaços viários
experiência piloto de caracterização e construção de viadutos e túneis,
da paisagem do bairro da Lagoinha, que trouxeram descaracterizações
em Belo Horizonte, que procurou importantes nos aspectos histórico,
dialogar com a experiência inglesa cultural, socioespacial e econômico do
já consolidada, baseando-se nos lugar (BERNARDES, 2016).
princípios do HLC metropolitano. Com isso, a parcela do bairro mais
atingida pelas intervenções apresenta
O HCL Lagoinha, um projeto piloto atualmente um aspecto de decadência

O
e de abandono, com imóveis e um
bairro da Lagoinha surgiu ambiente urbano degradados, além
com a construção de Belo da presença de muitos moradores de
Horizonte no final do rua e usuários de drogas, imagem que
século XIX, pertencendo, transmite aos transeuntes sensação
no projeto original de Aarão de insegurança. É interessante
Reis, à chamada área pericentral, observar, no entanto, que vai ser esse
caracterizada por uma morfologia “abandono” e o estigma ligado ao
orgânica adaptada à topografia, além local que, de forma paradoxal, causam
de ruas mais estreitas e lotes mais a preservação de muitas edificações
amplos que na área central (FREIRE, (FREIRE, 2009). Constata-se também,
2009). Ocupado primordialmente por que, apesar da perceptível degradação
operários – italianos, mas também ambiental da sua face exterior, o bairro
Figuras 4 e 5 – Mapas dos broad types produzidos
no HLC Lagoinha, 2019. Fonte: PPG-ACPS/ portugueses, turcos e espanhóis – que ainda mantém não só um importante
UFMG. vieram para trabalhar na construção da acervo arquitetônico, mas um rico

172
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

patrimônio imaterial, com manutenção poderia, a nosso ver, servir para


de muitos de seus usos e costumes, subsidiar tanto decisões relativas
além do saber-fazer tradicional à proteção do patrimônio cultural
(BERNARDES, 2016). da região, quanto ao planejamento
Considerando a singularidade do urbano, combinando duas perspectivas
bairro, ele tem sido objeto de várias muitas vezes tratadas separadamente
propostas legislativas e de intervenção e de forma estanque. Assim, no
urbana, que visam preservar o seu período de agosto de 2018 a junho
legado e propor novas alternativas de 2019, buscamos, utilizando-se a
para o seu desenvolvimento. Assim, perspectiva do HLC britânico, criar um
na primeira metade dos anos 1990, o modelo espacial detalhado, que nos
bairro recebeu o Projeto de Reabilitação permitisse perceber as permanências
Integrada da Lagoinha, que, numa e as mudanças em sua paisagem ao
perspectiva holística, procurou longo do tempo.
combinar ações de preservação Para isso, começamos com a
do seu acervo edificado e dos seus identificação das tipologias de
espaços públicos, com ações para paisagem encontradas na Lagoinha
fortalecimento de seu meio-ambiente (HLCtypes charactertypes), realizando
econômico, cultural e social 9 . No uma pesquisa prévia, que reuniu
mesmo espírito deste projeto, no Plano dados arqueológicos e históricos
Diretor de 1996, o bairro foi classificado sobre o bairro, utilizando-se
como “Área de Diretrizes Especiais” diferentes tipos de documentos
(ADE), com o objetivo de proteger seu e mapas, que nos permitiram
patrimônio cultural e paisagem urbana, identificar padrões e características
requalificar suas áreas degradadas reconhecíveis na paisagem. A partir
ou estagnadas e incrementar o seu desse reconhecimento, iniciou-se a
desenvolvimento econômico. Esta caracterização de cada uma dessas
ideia foi retomada na revisão do Plano, “tipologias”, o que permitiu que
em 2019, quando essas diretrizes gerais compreendêssemos as dinâmicas
foram regulamentadas e detalhadas. objetivas e subjetivas vividas no
Outra iniciativa importante, de território, ao representarmos a
reconhecimento e proteção da utilização da paisagem ao longo
região, foi seu tombamento como do tempo, as atividades, suas
conjunto, realizado em 2016, medida transformações e causas, entre outros
que garantiu a proteção do conjunto aspectos. Neste trabalho, definiram-se
urbano, tendo-se indicado mais de 400 cinco “tipologias gerais” (broadtypes)
imóveis para proteção individual. no bairro: Residencial, Comércio/
A riqueza e a singularidade da Serviços, Equipamentos, Vazios
Lagoinha, e o fato de já atuarmos Urbanos e Infraestrutura Viária, de
ali há muitos anos, fizeram com acordo com a metodologia que propõe
que a escolhêssemos para receber encontrar os padrões específicos de
um projeto-piloto de aplicação da cada macro área existente naquele
Figuras 6 e 7 – Mapas dos broad types produzidos
metodologia da HLC a um bairro de uma espaço, e que se diferenciavam no HLC Lagoinha, 2019. Fonte: PPG-ACPS/
cidade brasileira. Aquela metodologia também de áreas do entorno 10. UFMG.

173
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Há também uma ampliação da área


comercial/de serviços, principalmente
em direção à sua região central.
Como anotamos, a categoria
da paisagem sempre entrelaça as
perspectivas objetiva e subjetiva.
Assim, não bastava levantar como
a presença e a transformação das
“tipologias amplas” (broadtypes)
conformaram a paisagem histórica
da Lagoinha, mas era igualmente
importante compreender como essa
paisagem era percebida pelos sujeitos
que lhe atribuíam valores. Para
captar essa dimensão, recorremos
à realização de um grupo focal e de
Figura 8 – Edificações no interior do bairro da Lagoinha, 2018. Fonte: P.B.H.
um survey, no segundo semestre
A partir dos mapas constituídos pelas Avenida Antônio Carlos, conectando a de 2019. Importante ressaltar que
cinco tipologias gerais, em diferentes região central a áreas mais afastadas ao partimos também de levantamentos
períodos históricos, pudemos observar norte da capital, bem como o traçado já realizados, notadamente um survey
as mudanças históricas vividas no das vias mais relevantes do bairro. realizado em 1994 pela Prefeitura e
território. Em 1895 a Lagoinha Os próximos 50 anos trazem novas que subsidiou o Projeto de Reabilitação
apresentava-se basicamente vazia, mudanças ao espaço e, em 1990, vê- Integrada da Lagoinha (MORAES e
possuindo apenas pequenas manchas se uma considerável expansão das PEREIRA, 1995).
de uso exclusivamente residencial, e, conexões viárias, nos seus limites leste Em nosso estudo procuramos
apesar de escassa, a infraestrutura e e sul, além da abertura de diversas vias replicar o mesmo survey de 1994,
as conexões existentes indicavam o locais, a ampliação dos comércios e com as mesmas questões, buscando
direcionamento para uma conexão no serviços, cuja região de crescimento compreender a percepção das pessoas
sentido do vetor norte e do vetor leste, coincide – não por acaso, com o avanço em relação ao bairro. No survey de
onde havia uma parcela de via aberta, das conexões, também ocorrendo 2018, a percepção do caráter do
representando naquele momento a no sentido centro-sudoeste. Esse bairro variou de acordo com o perfil
infraestrutura viária local. novo percentual de ocupação resulta dos entrevistados, se morador ou
No mapa de 1940, já se podem trabalhador: para alguns, a área
na quase extinção de seus espaços
constatar grandes modificações no ainda possuía um caráter boêmio;
abertos.
bairro, percebendo-se a ocupação para outros a região era bastante
No mapa de 2018, finalmente,
completa de sua área, com predomínio tradicional e religiosa; para um terceiro
verifica-se expressiva redução em sua
grupo, a área tinha um caráter misto e
de uso residencial, além do surgimento área residencial, bem como redução no indefinido, o que pode se justificar pela
de espaços abertos, especialmente na próprio espaço do bairro. Identifica-se grande substituição de moradias por
área norte, ocupando as áreas vazias uma expansão modesta das conexões galpões comerciais e estacionamentos.
de antes. Além disso, observam-se existentes na região desde a década No geral, o bairro foi definido como um
novos usos no local, como o comercial/ de 1990, próxima ao Conjunto IAPI, espaço de religiosidade e solidariedade.
serviços, especialmente em sua porção devidos às extensas intervenções Para os entrevistados, a obra do
sudoeste. Já se vê uma parcela da ocorridas na Avenida Antônio Carlos. metrô teria sido a mais impactante,

174
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

considerando a poluição sonora como a entanto, os participantes apontaram experiência individual das pessoas
principal forma de poluição do bairro e a necessidade de se combinar a e seus valores culturais para a
a poluição visual como o fator negativo habitação com outros usos, como os sociedade em geral (TURNER, 2018,
de maior relevância. ofícios tradicionais e atividades ligadas p.40), fornecendo uma base útil
Para se complementar esses à economia criativa e solidária. Hoje para se planejar cenários futuros.
resultados, foi realizado também os moradores já se percebem como Neste sentido, com a aplicação do
um grupo focal, com o objetivo de possuidores de condições de preservar HLC ao bairro da Lagoinha pudemos
compreender as ideias e percepções seus imóveis, o que pode ser estimulado visualizar claramente as mudanças
dos moradores e trabalhadores em com a permissão para o seu uso misto. que ali ocorreram, de 1895 a 2018,
relação às suas vivências no bairro. À melhoria do acervo construído – com em termos de seu uso e ocupação,
Participaram 23 pessoas, incluindo a recuperação das casas degradadas, o que nos auxiliou a compreender
moradores, comerciantes, líderes deveria se somar a melhoria do espaço as modificações trazidas pelas
religiosos, ativistas e outros que público, com o tratamento das vias intervenções viárias a partir da década
vivenciam a realidade do bairro, além públicas e das calçadas, além de maior de 1940, que resultaram na degradação
dos pesquisadores e uma representante arborização. Tudo isso seria viabilizado, de uma parte do bairro e perda de
da Prefeitura de Belo Horizonte. O no ponto de vista do grupo, com a parte expressiva de seu território, com
roteiro prévio de questões, que guiou a maior participação dos habitantes a criação de barreiras físicas com o seu
conversa, foi preparado considerando- na vida social local, ampliando-se a entorno imediato e o centro da cidade.
se questões já levantadas pelas análises mobilização e fomentando os eventos Juntamente com perda de parcela
anteriores surgidas no processo de culturais e a criatividade. significativa de seu patrimônio, nota-
elaboração do seu HCL. Finalmente, o grupo apontou se, na face sul do bairro, a diminuição
Os resultados do grupo ainda o movimento de recuperação de áreas residenciais com o aumento
focal nos ajudaram a ajustar as que viria sendo promovido por alguns do comércio e serviços e grandes
“tipologias amplas” (broadtypes) e grupos locais, voltados principalmente vazios.
suas características, bem como a para a valorização de seu patrimônio Com isso, foi possível visualizar
compreender as causas das mudanças edificado e de seus aspectos culturais, também que há uma diferença
e as demandas mais urgentes da através da promoção de eventos importante na qualidade do espaço
Lagoinha. Um aspecto muito abordado culturais e educativos. Por outro entre a área externa do bairro – a sua
foi o processo de degradação de lado, no entanto, alguns participantes face sul, atingida pelas intervenções
certas áreas do bairro, atribuído pelos receiam que esta ação possa atrair viárias, e a área interna, mais
participantes às intervenções viárias. A investidores externos, podendo se residencial, que ainda conserva parte
seu ver a percepção da degradação está promover a gentrificação do bairro e de suas características originais, a
muito ligada ao aspecto visual de sua a expulsão de moradores e atividades população mais antiga e edificações
face externa, que inclui poluição visual, tradicionais. preservadas. Correspondentemente,
pichações e imóveis degradados. constatamos a existência de duas
Apesar desse problema – que colocam Conclusões imagens da Lagoinha: uma muito

O
como prioritário a enfrentar – eles negativa para os transeuntes, que
ressaltam a riqueza da história e do conhecimento do modo apenas atravessam o seu entorno, e
patrimônio do bairro, onde ainda como os lugares se outra, positiva, para aqueles que ali
perduraria a solidariedade: “a Lagoinha transformam ao longo do trabalham ou habitam, devida também
abraça, acolhe todo mundo”. tempo pode contribuir para à sua conexão afetiva ao lugar, que é
A sua percepção é a de um bairro entender não apenas as características valorizado por sua história, memória
vivo e dinâmico, caracterizado pelo físicas da paisagem mas também o e identidade. Com isso, confirmamos
predomínio do uso residencial. No modo como elas contribuem com a o que aponta Antrop: algumas

175
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

transformações podem levar à perda do seu patrimônio, com a incorporação Jokilehto resume bem os desafios
de diversidade, coerência, riqueza e à metodologia de procedimentos como colocados pela situação com a qual nos
identidade das paisagens existentes, o survey e o grupo focal. defrontamos: “O mundo em globalização
pois a “rapidez e escala são fatores Por outro lado, ficou claro que se do século XXI oferece novos desafios à
importantes uma vez que causam uma o HLC pode servir de forma bastante conservação do patrimônio. A noção
quebra visível na continuidade com imediata à gestão da paisagem e de patrimônio cultural se expandiu
o passado, quando novos elementos do território, ele deve, sem dúvida, graças ao reconhecimento da grande
e estruturas são introduzidas e ser complementado com outras diversidade de bens como patrimônio,
sobrepostas às existentes, ao invés de perspectivas para a sua utilização incluindo paisagens cultuais ou apenas
serem integradas” (2008, p.59). na área do patrimônio. Para isso, o lugares de memória. O patrimônio é
Em relação à aplicação do método, grupo investigou também mecanismos qualificado em sua diversidade e em seus
podemos perceber a dificuldade de utilizados na metodologia da Historic aspectos materiais e imateriais (tangíveis e
sua utilização na escala de bairro: no Urban Landscape (HUL), que vem intangíveis). Graças à perspectiva holística
contexto inglês, essa metodologia sendo desenvolvida por vários atual, e à necessidade de reconhecer a
é utilizada majoritariamente em pesquisadores ao redor do mundo, especificidade de cada lugar, a teoria da
condados, que possuem uma dimensão bem como recorremos às nossas conservação deve ser vista como uma
muito maior, ensejando também a próprias experiências anteriores, metodologia baseada no juízo crítico e
identificação de “tipologias amplas” utilizando mecanismos desenvolvidos integrada de modo geral com os processos
(broadtypes) abrangentes, que, por em trabalhos como o Inventário do de planejamento e gestão.” JOKILEHTO,
sua vez, são subdivididas em unidades Patrimônio Urbano e Cultural da Jukka. “Conservation Principles in the
menores, definidas como “subtypes”. Lagoinha, realizado na década de 1990. International Context”. In: RICHMOND;
No caso da Lagoinha isso não foi BRACKER, 2009, p. 82.)
possível, estando nossas “broadtypes” Notas 4 A esse respeito, confira CASTRIOTA,
muito mais próximas dos “subtypes” 2015.
utilizados nos casos ingleses. 1 Este trabalho foi viabilizado com o 5 Como um palimpsesto, como
Outra dificuldade de utilização apoio do Instituto de Estudos Avançados muitos especialistas gostam de se referir
do método foi exatamente o caráter Transdisciplinares da Universidade Federal à paisagem, devido à sua capacidade de
eminentemente descritivo do mesmo. de Minas Gerais, que patrocinou a vinda reter história. De acordo com Fairclough
Ao não se aprofundar no levantamento dos pesquisadores Sam Turner e Graham (2008, p.276), se podemos saber sobre o
dos valores envolvidos na apreensão Fairclough, num projeto coordenado pelos passado do lugar, e se o passado é ainda
do território, o método ainda mantém Professores Leonardo Castriota e Flávio manifesto de alguma maneira, mesmo
uma predominância da perspectiva Carsalade, e abrigado no Programa de que cognitivamente por associações,
objetiva, centrada no objeto, mesmo Pós-graduação em Ambiente Construído então ele se torna parte da percepção
que incorpore a percepção dos e Patrimônio Sustentável (PPG-ACPS / e consequentemente parte de nossa
usuários de diversas maneiras. O HLC UFMG). construção de paisagem.
não nos parece ser uma ferramenta 2 A respeito da expansão do conceito 6 O conceito de ‘character’ foi utilizado
suficiente para a atividade avaliativa, de patrimônio, confira CASTRIOTA, 2009, na legislação Conservation Area no ano de
operação indispensável nos processos p. 81-91. Nesse mesmo sentido, CHOAY 1967 e influenciou o Landscape Character
de patrimonialização. Neste sentido, (1992) faz uma interessante abordagem Assessment e o English Heritage Historic
procuramos por um lado, suprir uma do fenômeno da expansão do conceito de Landscape Project de 1992-1994. Em
deficiência nesse método inglês, dando patrimônio edificado, identificando uma 1998, a metodologia de caracterização
maior ênfase ao levantamento das tripla extensão do mesmo: tipológica, de áreas foi trazida à tona pelo projeto
dimensões intersubjetivas envolvidas cronológica e geográfica (p. 11-14). conjunto entre a Countryside Comission,
na apreensão e avaliação do território e 3 HARRISON, 2013, p. 3. Jukka o English Heritage e o English Nature, que

176
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

produziram o Countryside Character Map, 9 Mais a respeito deste Projeto, confira Paisagem, Florença, Itália, 2000.
um mapa representando as características CASTRIOTA, 2008, p. 235-268. CASTRIOTA, Leonardo Barci.
físicas do território inglês. Os mesmos 10 Após a avaliação dos mapas de Patrimônio Cultural: conceitos, políticas,
princípios foram utilizados no Settlement evolução dos broadtypes ao longo dos instrumentos. 1. ed. São Paulo:
Atlas, de 2000. (CLARK; DARLINGTON; anos, optou-se pela não definição de Annablume, 2009.
FAIRCLOUGH, 2004, p. 1) tipologias menores, que na metodologia CASTRIOTA, Leonardo Barci. A “via
7 Incluir as questões imateriais, como original são chamadas de sub-types. crítica” no patrimônio cultural: Uma
a significação dada à determinada área Como a escala utilizada na Lagoinha foi perspectiva comparativa. In: ZANCHETI,
pela população, ainda são desafios a se bem menor do que no caso dos estudos Silvio Mendes; AZÊVEDO, Gabriela
encarar. Turner (2018, p.46) aponta formas ingleses, dificultou-se uma caracterização Magalhães; NEVES, Carolina Moura.
de coletar essas informações de diversos de “tipos” menores, com características (Org.). A Conservação do Patrimônio no
atores, como estórias orais, métodos homogêneas, num espaço relativamente Brasil: teoria e prática. 1ed.Olinda: Centro
participativos como workshops, técnicas pequeno. de Estudos da Conservação Integrada,
digitais com SIG participativo a partir 2015, v. 1, p. 49-64.
de telefones celulares, dentre outras. Referências bibliográficas CLARK, Jo; DARLINGTON, John;
Como apontado por CLARK (2004-5), FAIRCLOUGH, Graham. Using Historic
o desenvolvimento de ferramentas que ANTROP, Marc. Landscape change: Landscape Characterisation. English
Plan or chaos?. In: Landscape and Urban Heritage & Lancashire County Council,
possibilitem uma maior participação
Planning, 41, pp.155-161, 1998. 2004.
pública é o principal objetivo.
ANTROP, Marc. Landscapes at risk: CLARK, Jo. Historic Landscape
8 Em resumo, o HLC é uma ferramenta
about change in the European landscapes. Characterisation: A national programme.
de pesquisa, possibilitando um melhor
In: Evolution of Geographical Systems In: Conservation Bulletin. English
reconhecimento da área de estudo,
and Risk Processes in the Global Context, Heritage, 2004-5, p. 20-22.
ajudando na preservação e na formação
ed. Peter Dostal, pp.57–79. Prague, Czech COLLINS, S. Tyne and Wear Historic
do espaço futuro; uma ferramenta de Landscape Characterisation Final
participação, onde são unidas as visões da Republic: Charles University in Prague.
Faculty of Science, 2008. Report. English Heritage Project
população e os valores dos especialistas; Number 4663 Main. McCord Centre
BANDARIN, F. & OERS, R. van (2012).
uma ferramenta de planejamento Report 2014.1. Retrieved November
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indivíduos (GRENVILLE; FAIRCLOUGH, Memória, cotidiano e as propostas 05/05/2020.
2004-5, p. 3). Neste sentido, o HLC ENGLISH HERITAGE. Understanding
institucionalizadas direcionadas ao
auxiliou no desenvolvimento de políticas Place: Historic Area Assessments.
bairro Lagoinha em Belo Horizonte/MG:
agroambientais e nos estudos da Londres: Historic England, 2017.
múltiplas visões de um mesmo lugar.
Countryside Agency, do Reino Unido, EUROPE, Council of. European
Dissertação de Mestrado, Escola de
e têm orientado trabalhos em diversos Landscape Convention, Florence. CETS
países europeus signatários da Convenção Arquitetura da UFMG, 2016.
No.176. Strasbourg: Council of Europe,
Europeia da Paisagem. Como uma BRAAKSMA, P. J.; JACOBS, M. H. & 2000.
ferramenta de ajuda na gestão da mudança ZANDE, A. N. van der. The Production of FAIRCLOUGH, Graham. Chapter
dos ambientes históricos, possuindo Local Landscape Heritage: A Case Study 12: The United Kingdom – England. In:
um caráter multidisciplinar, possibilita a in The Netherlands. Landscape Research, FAIRCLOUGH, Graham; MOLLER, Per
participação de profissionais de diversas vol.41, n.1, 2016, pp. 64-78. Grau (eds.). Landscape as Heritage.
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Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

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178
Figura 1 – Mapa com sinalização aproximada dos lugares queimados nos incêndios de 2017 no centro de Portugal. Fonte: Foto da autora.
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Cláudia Sofia da Costa Santos

uma abordagem sobre a “circunstância”:


a origem, o espaço, o tempo, a visibilidade, o significado

A minha intervenção no artigo para o 6º Fórum Internacional de Patrimônio Arquitetônico


sobre a “multiculturalidade”, expressa a ideia de patrimônio enquanto direito e bem comum
de todos (as). E, por essa via, o cidadão, como membro activo da sociedade e participante
na construção do território, é o suporte da identidade do patrimônio, construído enquanto
expressão estética, ética e técnica de uma civilização. Afirmo que o patrimônio é imagem de
cidadania, no sentido em que serve a sociedade, segundo várias dinâmicas: na promoção da
igualdade social, da formação cívica da população, criando relações de identidade coletiva
entre as pessoas e os lugares através do tempo. Revela a memória dos lugares, das pessoas,
das culturas, em suma, produz uma espacialidade e uma sociedade em rede.

Esta consciência, leva-me agora directo numa experiência que teve e culturais: “é obra de participação de
a reflectir sobre a organização e como objectivo criar uma medida todos os homens em graus diferentes
localização das povoações, enquanto de auxílio às populações afectadas de intensidade”, daí a importância do
um sistema de lugares1 . A reflexão pelos incêndios ocorridos em 2017 em processo da sua organização – plural e
que apresento, surge no âmbito do Portugal. Dessa experiência (ou como contínuo (TÁVORA, 1962, p. 18, 12, 19).
projecto de investigação que me propus consequência dela) surgiu a vontade Fernando Távora apresenta o texto
desenvolver no curso de doutoramento de reflectir, pensar e repensar estes “Da Organização do Espaço” como
em arquitectura, na Faculdade de lugares, esta paisagem, este território, “prova de dissertação para o Concurso
Arquitectura do Porto, desafiando- destacando a Arquitectura (onde incluo de Professor do 1º grupo da Escola
me a aprofundar uma certa concepção o urbanismo) como um bem público ao Superior de Belas Artes” (TÁVORA,
formal da organização do espaço, serviço das pessoas. 1962, p. 9), e desde então, se tornou
uma paisagem habitada, que implica Em 1962, foi publicado o ensaio um texto de referência para qualquer
a existência de uma identidade, de “Da Organização do Espaço”, em arquitecto.
uma ligação a um determinado local e que se dava a conhecer um texto A reflexão que proponho incidirá
que é partilhada pelos indivíduos que com reflexões relevantes em torno sobre um exercício de apropriação
pertencem a esse mesmo local. É este da “circunstância que emoldura (...) de cinco propriedades que destaquei
“patrimônio que nos une”, a construção o exercício de arquitectura”2, desde como essenciais, a partir do texto de
da paisagem para servir as pessoas, ao a dimensão física, territorial, numa Távora (a origem, o espaço, o tempo, a
longo do tempo. leitura de continuidade: “O espaço é visibilidade, o significado), aplicadas a
O presente artigo, resulta da contínuo, não pode ser organizado uma ideia de circunstância, relacionada
minha intervenção pública nos últimos com uma visão parcial”, “o espaço que com a experiência tida após os incêndios
anos na Ordem dos Arquitectos, que separa – e liga – as formas é também de 2017 e respectiva observação da
determinou o meu envolvimento forma”; às dimensões socioeconômicas realidade actual, de “delapidação” em

181
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

que se encontra o nosso território (e que A explicação das formas e respectivas medidas de defesa das
já Távora nos falava no seu ensaio “Da em função de determinada florestas contra os incêndios. Esquecidos
circunstância é em verdade
Organização do Espaço” em 1962). difícil, sobretudo a sua ficaram os problemas: do desenvolvimento
compreensão total, e assim do interior do país, a sua desertificação e
Circunstância - Oigem como um bom vinho só escassez de meios de vários âmbitos; do

N
“ poderá apreciar-se bebendo-o
e não raciocinando sobre ordenamento territorial e do planeamento,
o princípio criou Deus o céu e a a sua fórmula química, tratados como questões secundárias e
Terra. Ora, a Terra estava vazia assim uma forma só poderá supérfluas; da acção do Estado nas suas
e vaga ...” (BIBLIA SAGRADA, compreender-se vivendo-a,
bem como à sua circunstância dinâmicas nacionais, regionais e locais;
1986 – Gênesis 1:1, 2) sem e não apenas ouvindo das desigualdades territoriais entre o
forma. descrições a seu respeito ou interior e o litoral do país; da falta de
Depois veio o Homem e perante as consultando suas reproduções.
É verdade que esta é uma conhecimento das populações e respectivo
suas necessidades e vontades, posição um tanto teórica na envelhecimento.
medida em que é impossível Questões muito associadas à
Deslocando o seu corpo, reconstituir a circunstância
construindo a sua casa, de cada forma, ... [mas ainda identidade, à cultura que juntamente
arroteando um campo, assim]... é uma posição na com a Arquitectura (espaço construído
escrevendo uma carta, qual convém atender pois
vestindo-se, pintando, público e privado), as condições
que, embora limite inatingível
conduzindo o seu automóvel, dum modo quase geral, indica climáticas e os múltiplos factores que
levantando uma ponte...” e pelo menos um caminho contribuíram para que um incêndio
acrescento, relacionando-
se, “... poderíamos dizer –
a seguir para uma melhor evoluísse para uma catástrofe5 sob uma
compreensão das formas
vivendo – o homem organiza que aos nossos olhos se “população vulnerável6, estiveram na
o espaço que o cerca, criando apresentam. (TÁVORA, 1962, génese do acontecimento criador de uma
formas, umas aparentemente p. 23)
estáticas, outras claramente circunstância.
dinâmicas. (TÁVORA, 1962, Nestes termos, cada circunstância
p. 14) é uma enciclopédia, ou melhor, uma
A partir da visita aos locais afectados
pelos incêndios de 2017, no centro biblioteca, um inventário de objectos, um
O princípio cardinal da concepção é de Portugal, foram identificados de catálogo de estilos, onde tudo pode ser
assim a de que o objeto da arquitectura é o imediato alguns princípios de desarmonia continuamente remexido e reordenado
“Homem Integral”, encarado como pessoa e desequilíbrio do espaço construído, de todas as maneiras possíveis. E assim,
(Homem livre) e como cidadão (membro quanto mais fundo se mergulha, mais se
tais como: a localização em zonas de
ativo da cidade em que nasceu e vive), encontra o múltiplo e o diverso: é como se
topografia bastante acidentada, grandes
é o suporte da identidade da polis3 . E, a carências de investimento público em
na origem das coisas tivesse a totalidade
arquitectura está imersa na praxis social de um legado natural e humano, inscrito
infraestruturas, ausência de mobilidade
tal qual é colocada a questão da política, nos genes, e a dimensão social consistisse
social. Trata-se de lugares que estavam na ativação de vários elementos desse
no sentido bourdieusiano: “A política é o associados à produção agrícola, silvícola, patrimônio e na desativação de outros7.
lugar, por excelência, da eficácia simbólica, e outras actividades ligadas à ruralidade Por isso, estabeleço que a origem na
acção que se exerce por sinais capazes e que, por via de uma grande redução circunstância é a sua genética, que na
de produzir coisas sociais e, sobretudo, e envelhecimento demográfico, foram arquitectura (onde incluo o urbanismo)
grupos.” (BOURDIEU, 2005: p. 159)4 abandonadas. Lugares que não souberam assume-se pela “representação de
Tal como Távora (1962), assumo criar atractividade e foram esquecidos. poder”, a partir do reflexo dos quadros
que é um limite inatingível reconstituir Na altura, o discurso público foi de valores e dos modos de vida (o habitus
a circunstância de cada forma, até à sua marcado principalmente pela ausência que Bourdieu nos apresenta) dos
origem: de um Ordenamento e Gestão Florestal agentes sociais, mas também “se institui

182
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

como acto de poder”, condicionando o Fernando Távora descreve no seu conceptuais principais da prática da
comportamento dos indivíduos a partir ensaio “Da organização do Espaço” organização do espaço, “no qual se
do “modo como domina a matéria, – o respeito pelo lugar a partir da sua desenrola o quadro de vida dos indivíduos
(...) como ordena o espaço, (...) como integração e utilização de recursos (...)”. “A arquitectura ficainevitavelmente
antecipa soluções” (BANDEIRINHA, locais, o respeito pelo clima e pela dependente das orgânicas sociais
2009, p. 65), criando espaços ordenados valorização cultural – chaves antigas que regulam esses quadros de vida”
de forma harmónica, organizados para soluções inovadoras de futuro. (BANDEIRINHA, 2009, p. 65).
num sistema que enquadre a história, Por tudo o que ficou dito, a procura Tornarmo-nos arquitectos implica
a técnica, a ética e a estética, onde de uma origem serve também o aprendermos a conviver com um
os agentes sociais se posicionam e se seguinte desígnio: o da desconstrução conjunto de convenções destinadas
movem. e derrogação do existente, a partir do à integração do nosso ofício na vida
Uma circunstância é sempre qual apreciamos (ou não) os actos dos social, nas suas várias dimensões. Um
polifónica, porque com ela e através outros e os nossos actos são por eles dos aspetos mais relevantes dessa
dela também falam todas as outras, uma apreciados. É, em suma, a propriedade aprendizagem consiste em sabermos
espécie de base de dados a que, perante da arquitectura que mais contribui adequar o nosso trabalho ao contexto
uma circunstância concreta, vai buscar para trazer para o centro da disciplina o público, fortemente regulado e cada
tudo o que serve, para a transformar em incerto e o transitório. vez menos receptivo à expressão da
outra circunstância. circunstância existente. Pelo contrário,
Assim, organizo a presente Espaço
o padrão comummente considerado

O
propriedade em torno de dois adequado é aquele que nos aconselha,
conceitos nucleares, o da “genética” ponto de partida da à expressão do objecto enquanto
e o de “circunstância”, podendo-se reflexão sobre a segunda “produto” (BANDEIRINHA, 2009, p.
objectar que qualquer circunstância propriedade, o espaço, é a 68). Quer isto dizer que, o trabalho
é uma combinação de experiências, seguinte passagem do texto do arquitecto pode ser, actualmente,
de informações, de leituras, de de Távora: definido como uma instância individual
imaginações que originam novas Esta noção, tantas vezes responsável pela assimilação das
circunstâncias. esquecida, de que o espaço normas regulamentares e das vontades
Que, ao fim e ao cabo, é a base que separa – e liga – as
formas é também forma, é do grupo social a que um cliente
identitária da “Escola do Porto”
noção fundamental, pois é pertence. Entre outros aspetos, o
conforme o retrato feito por nela que nos permite ganhar processo sumariamente descrito vai
Paulo Coelho no livro “Arquitectos consciência plena de que não
há formas isoladas e de que fazendo com que progressivamente
Portugueses – Fernando Távora”:
uma relação existe sempre, nos esqueçamos da “função social do
“aprender com o passado e pensar quer entre as formas que arquitecto” (evidentemente política),
o presente, projectando o futuro, vemos ocuparem o espaço,
conciliando a especificidade de cada quer entre elas e o espaço que, do “desejo permanente de servir” que
embora não vejamos, sabemos afirma Távora (1962, p. 74) – o que
sítio e de cada contexto com as lições constituir forma – negativo ou se traduz em perda progressiva da
de modernidade da arquitectura do molde – de formas aparentes.
(TÁVORA, 1962, p. 12) organicidade, por ele definida como a
resto do mundo.” (COELHO, 2011, v.6,
capacidade de organizar o espaço, como
p. 15 e 16) e neste sentido estamos resultado da “harmonia do homem
sempre a aludir ao “conjunto de Assim, assumirei que não posso referir- consigo, com o seu semelhante e com a
saberes e do saber-fazer acumulados me ao espaço sem recorrer à noção de natureza” (TÁVORA, 1962, p. 46).
em todos os actos de conhecimento “forma” (TÁVORA 1962, p. 12). Por isso, Elegi a subtração da forma como
(...)” (BOURDIEU, 2005, p. 64) 8, ao começo por estabelecer que a subtração da a principal tarefa para a definição do
patrimônio. forma - o negativo - é uma das finalidades espaço, porque em contexto público,

183
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

a expressão espaço é definida por temporal, de movimento. tempo é assim indissociável do espaço
relações associadas a padrões morais, Mas, quando olhamos para os enquanto “dimensão de observação” e
religiosos, culturais estereotipados “lugares” afectados pelos incêndios enquanto “dimensão da própria obra”
e de clichés. Os primeiros, porque de 2017, reconhecemos o que Távora na ligação entre o passado e o futuro
institui sentimentos de pertença, afirma ser a “delapidação” do espaço (TÁVORA, 1962, p. 16). Não obstante
como são exemplo as manifestações (TÁVORA, 1962, p. 27) e sentimos o de se relacionar com o território a partir
públicas de uma qualquer referência mesmo desconforto descrito quando de uma medição em décadas, numa
a limites territoriais (exemplo Norte afirma que à altura (e ainda hoje se escala lenta do tempo.
versus Sul; interior versus litoral) 9; os observa), a prática aludia à separação Távora fala-nos na quarta dimensão
segundos, porque, ainda que vazios, da arquitectura e do urbanismo e, da arquitectura, como “resultado do
são códigos económicos, como é o caso sobre ambos, surge o reconhecimento observador que, deslocando-se para
da análise de um espaço tendo como da desarmonia e desequilíbrio que é encontrar os vários perfis, despende
único objectivo a verificação da sua possível encontrar no território nacional tempo na observação” (TÁVORA, 1962,
capacidade construtiva. (TÁVORA, 1962, p. 49). Trata-se de uma p. 15). Uma dinâmica de movimento
Talvez por isso o debate cada vez “doença”, como Távora apelida, porque físico do sujeito enquanto observador
mais se centra no programa sobre o o equilíbrio supremo da organização e usufruidor, num determinado espaço
espaço e menos no espaço enquanto do espaço harmónica, já não se pode com um comprimento, uma largura e
expressão estética, conquistada a partir atingir sem destruição. Do ponto uma altura.
de uma consciência nítida e informada de vista humano, a acção do espaço Em sentido figurado, poderemos
da miríade de actos inorgânicos que organizado, tal como a da doença, dizer que o espaço ganha significado
produz nos vários contextos sociais e deveria incitar uma tomada de decisão quando incita alguém a percorrê-lo,
naturais, determinados pelos modos de em face do destino que se pretende. E, seja pela via do inconsciente a partir de
apropriação e uso. tal como qualquer doença, resolve-se um impulso, seja de forma consciente
Se aceitarmos que o espaço a que ou pela morte ou pela cura. Por isso o prevendo o que se sucede. Daqui
me refiro é o resultado da exploração ser humano é partícipe da criação. decorre uma segunda observação
formal com implicações funcionais, Sendo, por excelência, o espaço, sobre a circunstância, implicando
estéticas e simbólicas, então podemos “lugar” de expressão dos indivíduos, é também uma convergência temporal:
também considerar que a arquitectura nele que tudo o que se vê, tudo o que se do passado, relacionado com a origem
é a “síntese perfeita” (BANDEIRINHA, faz e tudo o que se diz ganha um sentido da circunstância, a sua cultura enquanto
2009, p. 71) entre o contexto existente, e é interpretável, razão pela qual é nele suporte do presente; com o presente,
o valor moral e o valor de ordem que a distinção entre o essencial e o relacionado com a circunstância
prática, a Harmonia. O espaço, aberto acessório se torna mais premente. existente, com a realidade física e
ou fechado, interior ou exterior, nunca política; e o futuro, relacionado com a
Tempo transformação e/ou adaptação de uma
é homogéneo. Enquanto “lugar” é

E
polarizado pelo que existe nele, sendo circunstância existente.
nquadro a presente propriedade Nesse contexto, perante uma
ainda visto como lugar do gesto humano
enquanto função relacionada circunstância pós catástrofe como os
nas suas dimensões físicas, psicológicas
com a organização do espaço: incêndios de 2017, para além de todos os
e de posicionamento social. Por isso a de orientar a procura de uma seus factores físicos, há que relacionar
importa respeitar o espaço em que expressão necessária ao indivíduo os comportamentos e necessidades
o encontro com o ser humano (que enquanto usufruidor e observador de um da população em tudo o que os
o habita ou percorre) transcorre e o espaço, enquanto executor de gestos seus movimentos se exteriorizam e,
tempo que dura, pois ele será sempre sociais e culturais e criador de novas transformar a circunstância actual
analisado a partir de uma dinâmica circunstâncias a partir das existentes. O numa organização espacial harmónica,

184
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

com condições de segurança e de vida Assim, antes de se começar a Associarei a visibilidade, na organização
mais dignas para essa população. compreender os mecanismos que do espaço, à faculdade humana de focar
Considerando sempre os “destinatários proporcionam o espaço, deve-se ter visões, imagens, enquanto identificação
da arquitectura na sua especificidade consciência que o presente é reflexo de de um dado momento de uma dada
sociológica, quer individual, quer em um passado e, nesse sentido, promove um paisagem que é ela mesma, espaço,
grupo” (BANDEIRINHA, 2009, p. 68), futuro. tempo, matéria e forma. E pressupõe a
enquanto projecto político pronunciado Ambas as observações sobre a acção e a presença humana (o habitus que
por equidades socioeconômicas, e não o propriedade do tempo (o movimento físico Bourdieu nos apresenta). É necessário dizer
somatório de pequenos vários egoísmos e motor do ser humano e a continuidade do que a imagem de que falo não se conjuga
e grandes egoísmos, inscrevendo passado, o presente e o futuro) conciliam- com a imagem tecnológica: pelo contrário,
relações ou rupturas hierárquicas, que se na relação do espaço com o tempo para trata-se da expressão do consciente e do
até então se têm acumulado nestes que qualquer obra, mais do que contínua, inconsciente, que visa a desalienação do
territórios. promova a continuidade. indivíduo.
Recorro novamente a Távora, Pois, num tempo que, por ser de todos, A imaginação, enquanto expressão
para me focar em dois tipos de obriga ao respeito pelas diferenças, é da prática profissional do arquitecto,
participação que apelida para descrever necessário que alguns se empenhem a se a entendermos (aristotelicamente)
a organização do espaço, e com elas preservar uma herança que se perderá, se enquanto capacidade de criar as imagens
defender a continuidade entre a função não for registada em algo mais substancial do possível para se ver o real, e com
social do indivíduo e o seu quadro de vida que a memória ocasional. esse olhar sobre uma circunstância
privada: a “participação horizontal”, A propriedade tempo surge assim como existente, criar-se uma nova circunstância,
relacionada com o tempo presente, agente que articula as transformações valorizando as dinâmicas sociais e culturais
“entre homens de uma mesma época”; sociais, as mudanças de mentalidades, a de uma população.
e a “participação vertical”, relacionada nossa forma de observação do mundo, O arquitecto quando organiza o espaço
com um tempo passado e futuro, “entre mas também o reflexo de movimentos através da construção de formas, partilha
homens de épocas diferentes”: entre espaços definidores do quotidiano. uma obra que tem incutida uma série de
informações, que exercem uma influência
Podemos, talvez, considerar Visibilidade
dois tipos de participação consciente (e inconsciente) sobre quem a

A
na organização do espaço; usa ou aprecia. É a partir do acesso à forma,
uma participação a que propósito da sua atividade que as pessoas criam imagens visuais e se
chamaremos horizontal, que de arquitecto, diz-nos Távora movimentam no espaço, seja a partir do
se realiza entre homens de (1962) que a profissão de espaço privado, seja a partir dos efeitos
uma mesma época, uma outra arquitecto parte sempre do
a que chamaremos vertical que provoca no espaço público (no lugar).
que se realiza entre homens saber ler, com conhecimentos próprios Em conclusão e, porque por opção
de épocas diferentes. São do seu momento histórico e cultural, filosófica, acredito que as respostas para os
dois aspectos de uma mesma como profissional responsável e apto para problemas graves devem ser encontradas
realidade (…) A participação responder aos problemas do território com
horizontal é aquela que prende pelas comunidades que por eles são
homens de uma mesma objectivo de preservar ou reencontrar a atingidos, assim a propriedade visibilidade,
geração, enquanto que a harmonia do espaço (p. 26), desenhando adquire também um valor social e
vertical prende homens de o conhecimento. E como a intervenção no comunicacional traduzido na criação de
gerações diferentes em obra território é uma “actividade pertencente a contextos que, na máxima segurança
que se processa ao longo de
um período de tempo que todos os homens e não apenas a alguns, o possível – já que nada do que é humano
ultrapassa a dimensão da mesmo é que dizer que a organização do é absolutamente seguro –, permitam
geração. (TÁVORA, 1962, p. espaço é obra de participação de todos os contribuir para uma regeneração da
20) homens, (...)” (TÁVORA, 1962, p. 19). circunstância existente, preparada para

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resistir melhor ao futuro, com base numa imaginários em confronto com referências Conclusão

C
estratégia de especialização, inspirada no sociais, numa tentativa de colagem ao seu
sentir a comunidade a que se dirige e sobre significado implícito, que muitas vezes om base numa certa percepção
a qual produz efeitos. pretende ser uma cópia da vida de outros, de arquitecto, pretendi com o
na sua forma redutora de a representar. presente, delinear uma ideia
Significado Utilizando códigos de identificação de circunstância, apropriando-

R
política, cultural e moral, sobre uma me para o efeito, de cinco propriedades
elaciono a presente propriedade determinada visão do mundo. que atribuí ao ensaio “Da Organização
de uma circunstância, com a A ausência de uma organização do Espaço” de Fernando Távora. Tentei,
questão do sentido das coisas, na espacial tecnicamente eficaz que limita através da observação dos lugares,
sua relevância enquanto elemento a compreensão e análise de um qualquer identificar elementos essenciais que
físico de transmissão de conhecimento modelo de base espacial, deriva da acção caracterizam uma circunstância, porque
(na relação com a atribuição de valores e do poder político e da iniciativa privada, me fui apercebendo de que também
significados às formas), na sua relevância no que diz respeito às tomadas de decisão são eles que originam a maior parte
cultural e social (apoiada em sensibilidades para materialização da transformação das dificuldades e resistências nas
e visões distintas entre os sujeitos do espaço (e respectiva organização). comunidades.
usufruidores). Assim, o significado não Questionar o seu papel no campo do Essa opção obrigou-me, a refletir
é uma questão exacta, reverte para o espaço e do lugar, mas também no campo sobre os lugares visitados afectados pelos
significado social e histórico do lugar e da imaginação e da mente e da projecção incêndios de 2017 em Portugal, e relacioná-
a consciência de que cada pessoa é um que daí resulta, é essencial quando todos los com a função política da arquitectura
ponto de vista ideológico enquadrado participam na construção dos lugares. enquanto organizadora do espaço físico e
numa acepção de comunidade. Távora afirma que “o modo como se social, símbolo das sociedades.
Dada a natureza específica das suas organizam o espaço tem (...) uma função
circunstâncias de realização, “um espaço pedagógica” (1962, p. 26) e porque Notas
organizado nunca pode vir a ser o que já se pretende que as pessoas valorizem
foi.” (TÁVORA, 1962, p. 19). a organização espacial harmoniosa, 1 “Lugar”, não só numa lógica
Talvez por isso Távora alerta que além tanto na sua materialidade como no seu aristotélica, no que diz respeito ao lugar
da continuidade, o espaço organizado é sentido, “só a vida social, a praxis, na sua enquanto espaço determinado pelo
também irreversível. Daí a importância capacidade global, possuiria a capacidade movimento de um corpo, mas também,
na “criação de formas mais harmoniosas” de criar formas e relações novas”10. seguindo o pensamento de Norberg-
(TÁVORA, 1962, p. 10). Forma que O que significa simplesmente criar Schulz, enquanto inter-relação entre
“representa ou satisfaz, para além de relações harmoniosas da organização do o ambiente, o Homem e a sociedade,
um homem, toda uma sociedade que espaço, orientadas para o equilíbrio entre onde se revela a experiência do viver (o
dela se utiliza”, e é a partir dela que cada projectos individuais e colectivos numa habitus de Boudieu) enquanto expressão
pessoa cria imaginários, lembranças, construção que é simultaneamente física identitária e cultural.
recordações misturadas com emoções, e social. 2 José António Bandeirinha referindo-
vivências, em confronto com os clichés (de Será o entendimento com a Origem, se aos “textos de Ragon e de Bohigas”
gostos) que foram adquirindo e que nunca o espaço, o tempo, a visibilidade e a como “representações evidentes de acção
questionaram. construção dos significados de cada lugar e reacção à circunstância que emoldurava
No contexto da maioria dos lugares então o exercício da Arquitectura”, no seu
que permitirá adaptar a circunstância
afectados pelos incêndios de 2017, a artigo publicado no Jornal dos Arquitectos,
existente numa circunstância futura,
relevância é dada à habitação que, para 234, “Emília e o Espelho de Siza ou a
sempre em consolidação e valorizando
além de uma necessidade é também, Incómoda Residência da Arquitectura”,
a partir dela, que cada indivíduo cria premissas do passado, do patrimônio.
p.70.

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3 ”Identidade da Polis”, seguindo o Pierre – “Espaço Social e Génese das


pensamento de Aristóteles no que diz Classes”, O Poder Simbólico, Bertrand
respeito ao Homem como um ser que Brasil 2005, p.133): o espaço social
realiza os seus mais altos fins na relação que Pierre Bourdieu nos apresenta
indissociável com a comunidade e para como diagrama de elementos inter-
a efetivação de um bem comum. Polis relacionados, que estrutura a posição
como um todo (a comunidade) constituído social de cada agente, em função de
por diferentes formas de convivência campos específicos de actuação.
comunitária (social, política, territorial, 8 Bourdieu, Pierre – “Espaço
económica, …). Social e Génese das Classes”, O Poder
4 Bourdieu, Pierre – “Espaço Social e Simbólico, Bertrand Brasil 2005.
Génese das Classes”, O Poder Simbólico, 9 Descritos em Bourdieu, Pierre
Bertrand Brasil 2005. – “A identidade e a representação.
5 Do latim catastrŏphe (o qual, por Elementos para uma reflexão crítica
sua vez, deriva de um vocábulo grego sobre a ideia de região”, O Poder
que significa “ru.na” ou “morte”), o Simbólico, Bertrand Brasil 2005.
termo catástrofe diz aqui respeito a um 10 José António Bandeirinha
evento fatídico (os incêndios de 2017) referindo-se a Henri Lefebvre, LeDroit
que alteraram a ordem pré-existente das à la villesuivi de Espace et politique.
coisas. Paris: Gallimard, 1974. (1ª. ed. 1968),
6 A Organização Mundial de Saúde p. 111-112, no seu artigo publicado no
(WHO, World Health Organization) Jornal dos Arquitectos, 234, “Emília
publicou em 2012 um estudo referente ao e o Espelho de Siza ou a Incómoda
ano de 2009, que avalia os riscos ambientais Residência da Arquitectura”, p. 68.
enfrentados pelas populações menos
favorecidas, alertando para diferenças de Referências bibliográficas
desigualdade de exposição a estes riscos
entre os países da União Europeia, em que BANDEIRINHA, JOSÉ ANTONIO.
as condições de habitabilidade (dentro e “Emília e o Espelho de Siza ou a Incómoda
fora de casa) são apontadas como um dos Residência da Arquitectura”, Jornal dos
factores agravantes ou minimizadores da Arquitectos, 234, 2009.
vulnerabilidade, assim como as condições BÍBLIA. “Bíblia de Jerusalém”, Edições
socioeconómicas, demográficas e etárias. Paulinas, São Paulo, 1986.
No Quinto Relatório de Avaliação do BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico,
IPCC (Painel Intergovernamental para Bertrand Brasil, 2005.
as Alterações Climáticas) (IPCC, 2014, p. COELHO, PAULO. “Fernando Távora”,
Colecção de Arquitectos Portugueses,
27), são identificadas algumas medidas
vol. 6, Vila do Conde, Quidnovi e autores, Cláudia Sofia da Costa Santos
ligadas à gestão e planeamento, para
2011.
uma redução de vulnerabilidade, com
TÁVORA, FERNANDO. Da Organização Licenciada em Arquitetura,
base em indicadores de desenvolvimento
do Espaço, Livraria Sousa & Almeida, Ltd., doutoranda em Arquitetura pela
tecnológico, económico e institucional, tal
Porto, 1962. Universidade do Porto (PT) e Presidente
como de conhecimento e percepção sobre
as alterações climáticas. do Conselho Directivo Regional do Norte
7 A “Topologia Social” (Bourdieu, da Ordem dos Arquitectos de Portugal

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Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Isabel Cristina Ferreira Ribeiro

reabilitação sustentável de edifícios


históricos: o caso do museu nacional
da quinta da boa vista
A pesquisa objetiva apontar questões sustentáveis que envolvam os desafios impostos pelas
novas tecnologias para manutenção e preservação do patrimônio nacional que demandam
cada vez mais atenção à necessidade de se criar parâmetros mais modernos para a gestão
pública. Como metodologia para elaboração desse artigo, foram realizados levantamentos
bibliográficos, iconográficos e de campo, com observação direta não participativa.
O impacto causado pela perda do contar com programa de salvamento e de incêndios, bens são destruídos ou
patrimônio cultural pós-evento do recuperação do patrimônio. danificados, e, muitas vezes, contando
incêndio no Museu Nacional (Figura com informações sobre o que se
Um plano de emergência tem
1), alertou entes de diferentes níveis, como objetivo identificar a perdeu a reconstrução do bem até
quanto à necessidade urgente de vulnerabilidade de um edifício se torna possível, do ponto de vista
alocação de recursos para a manutenção ou patrimônio cultural a material, mas o valor da autenticidade
situações de emergência,
dos edifícios e programas de gestão de antecipar seus efeitos já não existe e muito de sua história foi
risco e segurança, fomentando o debate potenciais (sobre os edifícios, perdida.
sobre a falta de políticas públicas coleções e comunidade), Segundo Silva,
indicar como preveni-los,
voltadas à manutenção do patrimônio atribuir responsabilidades e Devido à incerteza da natureza
histórico-cultural no país. propor um plano de ação e dos incêndios, o estudo do
As ações de reabilitação, reparação de recuperação em caso de histórico das ocorrências é de
emergências. (Rev. do Museu extrema importância, pois a
ou conservação das edificações de Arqueologia e Etnologia, partir dele é possível obter
históricas, sejam elas leves moderadas São Paulo, 10: 345-350, 2000). informação de relevância
ou profundas, devem ter sempre significativa em distintos
a preocupação de melhoria das aspectos, com o intuito de se
Visto que a atual abordagem da obterem esclarecimentos sobre
condições de segurança aos incêndios. conservação tem como um de seus as causas, as consequências e
Por conseguinte, o plano de as circunstâncias envolventes.
pilares a prevenção, perdas como as que Este conhecimento vai
emergência para casos de incêndio
ocorreram com o incêndio do Museu permitir o desenvolvimento
em edifícios históricos ou que abrigam de medidas preventivas, que
Nacional abrem discussões sobre a terão o efeito de redução
acervos histórico-culturais exerce
um papel importante na proteção do vulnerabilidade destas áreas de risco. dos riscos. Dominando o
A ausência de uma gestão eficiente conceito de sustentabilidade
patrimônio, pois, além de um programa na construção, os seus
de prevenção contra incêndios, precisa objetivando a proteção do patrimônio objetivos e o meio de alcançá-
histórico contra incêndios pode por em los, consegue-se extrapolar
risco seu desenvolvimento sustentável. esse processo para projetos
Página anterior
A ocorrência de incêndios pode ou obras de reabilitação e
Figura 1 – Museu Nacional pós-incêndio. Disponível reaproveitamento de edifícios,
em: <https://gauchazh.clicrbs.com.br/cultura-e-lazer/ comprometer de forma irreversível uma vez que evitam a ocupação
noticia/2018/09/vice-diretora-admite-que-museu- os bens culturais pela perda de sua de território e o consumo
nacional-nao-tinha-seguro-nem-brigada-de-incendio-
autenticidade e integridade.No evento desnecessário de recursos,
cjloa65av00oj01mncueklcga.html>. Acesso em 09/03/2020. constituindo-se como uma

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Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Breve histórico da instituição

T
ombado pelo Instituto do
Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional em 11 de maio de
1938, nos Livros Histórico e de
Belas-Artes, e em 14 de abril de 1948,
no Livro Arqueológico, Etnográfico
e Paisagístico¹ o Museu Nacional,
atualmente em ruínas, está instalado
no Palácio de São Cristóvão e é parte
integrante da Quinta da Boa Vista, no
Rio de Janeiro (Figura 3).
A instituição que completou 200
anos em 06 de junho de 2018 foi criada
Figura 2 – Museu Nacional, antigo Palácio Imperial de São Cristóvão, 1884. Fonte: Acervo do Instituto Moreira Sales. em 1818 por Dom João VI como Museu
Real, no Campo de Santana (atual
via privilegiada para atingir os relações que a edificação Praça da República). Sua transferência
objetivos da sustentabilidade mantém com o programa a
(SILVA, 2014, p.7). ser satisfeito e verificadas as para o Paço Imperial de São Cristóvão
possibilidades de adaptação em 1889, ocorreu após banimento da
do uso ao edifício, sem que
Por esse motivo, as intervenções perca sua autenticidade família Real Portuguesa que ocupou o
para reabilitação devem reger-se pelo ou ocorra seu abandono, palácio entre 1822–1889 (Figura 2).
propósito de valorizar o patrimônio, preservando, assim, as O Museu Nacional abrigava um
edificações históricas que
tendo em consideração os materiais e fazem parte da identidade vasto acervo com mais de 20 milhões
sistemas construtivos existentes, pelo cultural da cidade. Uma de itens, englobando alguns dos mais
que se exige uma intervenção cuidada questão ligada à preservação relevantes registros da memória
do patrimônio edificado
e compatível com as existências. Assim é adequar a edificação brasileira no campo das ciências
sendo, a intervenção deverá envolver, às solicitações advindas naturais e antropológicas, bem como
sempre que possível, a utilização de novas demandas de
uso e tecnologias, sem amplos e diversificados conjuntos de
de materiais e técnicas tradicionais, descaracterizar o edifício. itens provenientes de diversas regiões
de forma a garantir a preservação (RIBEIRO, VASCONCELLOS, do planeta, ou produzidos por povos e
da identidade dos edifícios e, 2017, p.3). civilizações antigas.
simultaneamente, o respeito pelos As intervenções de reabilitação O edifício de 13.616,79 m² com
princípios ditados pelas Cartas e têm características diferentes da 122 salas em seu interior (Figura 4)
Recomendações Internacionais, construção tradicional e, além de marcado pelas linhas neoclássicas foi
visando à reversibilidade, recuperar o patrimônio construído, construído pelo arquiteto brasileiro
compatibilidade e o baixo impacto das precisa atender a expectativas e Manuel de Araújo Porto Alegre. Além
soluções a serem adotadas. solicitações específicas, que surgem do prédio principal, atualmente em
De acordo com Ribeiro e com os avanços da modernidade,
ruinas, a instituição conta com duas
Vasconcellos, sempre baseadas em três pilares
estruturas complementares: o Horto
principais: os valores sociais,
Na preservação do patrimônio Botânico e o edifício anexo Alípio de
ambientais e econômicos (SILVA, 2017.
edificado, de valor cultural, Miranda Ribeiro.
devem ser analisadas as p.1).

190
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Reabilitação sustentável

Q
uando a edificação
necessita de mais reparos
e de substituições ou se
alterações e adições são
necessárias para um novo uso, então
a Reabilitação é provavelmente
o tratamento mais adequado.
Independente do tratamento, os
requisitos da lei deverão sempre ser
levados em consideração evitando
assim o comprometimento da
edificação bem como seu caráter
histórico.
A reabilitação de edificações exige
um conhecimento específico e uma
tecnologia adequada, já que uma parte
dos seus componentes deverá ser
recuperada observando os critérios de
sustentabilidade para a recuperação Figura 3 – Planta de localização do Museu Nacional e da Quinta da Boa Vista. Fonte: Mapa elaborado pela autora sobre
de espaços obsoletos e degradados. base do Google Earth Pro, 2019.
Diante disso:
Podemos definir o conceito de
reabilitação como sendo um
conjunto de ações destinadas
à conservação e ao restauro
das partes importantes, tanto
a nível estético como histórico,
conferindo a possibilidade de
reutilização do edifício alvo.
Estas intervenções devem
permitir satisfazer os níveis
de desempenho e exigências
funcionais contemporâneas,
criando uma harmonia entre
a identidade original e a atual
(Oliveira, 2012, p.28).

As ações de reabilitação devem


primar pela maior reutilização
possível dos elementos estruturais
e materiais existentes, garantindo
a compatibilidade com intuito
Figura 4 – Museu Nacional do Rio de Janeiro. Fonte: Foto da autora, 2017.

191
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

remoção segura dos elementos, limpeza


e recomposição e a remontagem da
cobertura, enquanto protege o bem
edificado contra água proveniente de
chuvas.A etapa seguinte é finalizar
os projetos executivos de reforma da
fachada e do interior do prédio.
Segundo Appleton, a reabilitação
de edifícios antigos é hoje uma tarefa
da maior importância em todo o mundo
por diferentes razões: Preservação de
valores culturais, Proteção ambiental
e Vantagens econômicas (Appleton,
2011, p.3).
Figura 5 – O Museu Nacional recebe cobertura provisória em material metálico. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/
rio/museu-nacional-tem-instalacao-de-telhado-provisorio-concluida-23731917>. Acesso em 09/03/2020.
Considerações finais

O
de assegurar sua durabilidade e O Museu Nacional e as ações iniciais de
recuperação e reabilitação
Museu Nacional, apesar
reversibilidade, além da autenticidade de todas as dificuldades,

O
respeitando, assim, o que já existe. No continua atuando em quatro
caso do Museu Nacional, essas ações incêndio causou estragos
de diferentes intensidades frentes principais: pesquisa,
seguem dois eixos principais: salvar o formação de pessoas, guarda de acervo
em cada área do museu.
que for possível do acervo e reconstruir e educação científica.
Na maior parte das salas,
o prédio respeitando as exigências de É necessário, portanto, considerar
o reboco foi consumido e o piso de
durabilidade desta intervenção. os edifícios históricos como detentores
madeira queimou e desabou. Vigas de
De acordo com o Caderno de aço que sustentavam os pavimentos de significância em relação à sua
Síntese Tecnológica – Reabilitação ficaram retorcidas. integridade e sua identidade, de
de Edifícios (2015) e do projeto De acordo com a direção do forma que eles não devam ser
REABILITA (2007), apresentam-se museu, o cercamento do prédio foi a alterados substancialmente para
algumas recomendações e técnicas primeira etapa de recuperação com satisfazer apenas aos objetivos
para reabilitação descritas e resumidas o objetivo de proteger o local. Em ambientais da sustentabilidade, em
no quadro 1. seguida, foi realizado o trabalho de detrimento da dimensão sociocultural
Como descrito por Dinis: “A ou socioeconômica; o que leva a
contenção do prédio, para afastar o
reabilitação não só requalifica e crer que a reabilitação sustentável
risco de desabamentos. Uma cobertura
reutiliza um espaço, como também é essencialmente uma forma de
metálica foi instalada na parte superior
conservação do patrimônio cultural e
possibilita um menor consumo de do prédio (Figura 5), uma vez que o
que contribui para o desenvolvimento
materiais e energia, relativamente à telhado cedeu completamente com
sustentável de uma sociedade.
construção de raiz” (DINIS, 2010, p.34). o fogo. O objetivo foi proteger a A importância de reabilitar com
Por conseguinte, reabilitar é edificação contra chuva, fungos e mofo. sustentabilidade permite alcançar um
preservar as marcas históricas e Quando o estado de degradação da futuro mais promissor às gerações
culturais de um espaço, resultando daí cobertura em telhado é muito elevado, futuras. É justamente neste embate
a sua valorização social e econômica. é usual a construção de uma sobre (visando o aprimoramento da visão
cobertura provisória, que permita a de arquitetura sustentável) que surge

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Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Quadro 1 – Quadro-síntese das recomendações e técnicas para reabilitação

Fonte: Elaborado pela autora, 2020.

193
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

a necessidade de uma reflexão que Bomfim. São Paulo, 2007.


promova um olhar mais cuidadoso RIBEIRO, I.C.F.; VASCONCELLOS,
sobre as intervenções em edificações V. M. N..Edifício sede da Fundação
tombadas pelas instâncias municipais, Riozoo: Um Olhar Sobre a Qualidade
estaduais ou federais. do Projeto de Reabilitação do Edifício.
Por conseguinte, o trabalho In: Franciele Braga Machado; Tullio
visa contribuir para reabilitação do Leonardo Tullio. (Org.). GESTÃO DE
patrimônio histórico brasileiro e para PROJETOS SUSTENTÁVEIS. Ied. Ponta
estudos na área. Grossa - Paraná (PR): Atenas, 2018, v. I,
p. 255-266.
Notas SILVA, José Manuel. Segurança
Contra Incêndios na Reabilitação
1 Dados obtidos a partir de pesquisas Sustentável de Edifícios Antigos.
nos arquivos do IPHAN. Dissertação de Mestrado- Universidade
do Minho, Escola de Engenharia, 2014.
Referências bibliográficas SILVA, M. R. Reabilitação de
edifício e sustentabilidade no contexto
APPLETON, João. A das obras do Museu de Arte do Rio
Sustentabilidade nos Projectos de (MAR). Rio de Janeiro: UFRJ / Escola
Reabilitação de Edifícios. ENEC. Politécnica, 2017.
Encontro Nacional de Engenharia Civil. Periódicos
Universidade do Porto, 2011. Revista do Museu de Arqueologia
CADERNO DE SÍNTESE e Etnologia, São Paulo, 10: 345-350,
TECNOLÓGICA-REABILITAÇÃO DE 2000.
EDIFÍCIOS. Reflexão sobre a estratégia
para a Reabilitação em Portugal, 2015.
DINIS, Rita Sofia de Carvalho.
Contributos para a reabilitação
sustentável de edifícios de habitação.
Dissertação de mestrado em
Engenharia Civil, Faculdade de Ciências
e Tecnologia da Universidade Nova de
Lisboa, 2010.
OLIVEIRA, R. Tese submetida para
obtenção do grau de Doutoramento
em Engenharia Civil: Metodologia
de Gestão de obras de Reabilitação
em centros Urbanos Históricos. Isabel Cristina Ferreira Ribeiro
Universidade do Porto, 2012.
REABILITA. Diretrizes para Arquiteta e Urbanista, Mestre
Reabilitação de Edifícios para HIS – As em Projeto e Patrimônio e Doutoranda
experiências em São Paulo, Salvador pelo Programa de Pós-Graduação
e Rio de Janeiro. 2007. Organizadores: em Arquitetura da Universidade
Witold Zmitrowicz, Valéria Cusinato Federal do Rio de Janeiro

194
Figura 1 – Avenida Marechal Floriano, Rio de Janeiro. Fonte: Foto do autor, 2020.
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Alejandro Cuenca Gómez

NOVOS USOS PARA O ESPAÇO URBANO DO RIO


DE JANEIRO: ANÁLISE DA AVENIDA MARECHAL FLORIANO

Este artigo faz parte de uma pesquisa em desenvolvimento pelo autor, no Mestrado Profissional
em Projeto e Patrimônio do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura da Universidade
Federal do Rio de Janeiro, que busca elaborar uma análise da história e do atual estado da
Avenida Marechal Floriano, localizada no centro da cidade do Rio de Janeiro. Através dessa
pesquisa, busca-se propor possíveis intervenções urbanas para recuperação da importância
histórica e cultural da área.
Histórico da via século XIX, uma grande renovação modificou que reunia os filhos da elite econômica e
política carioca, foi inaugurado em 1837

A
o cenário urbano carioca. Na administração
Avenida Marechal Floriano foi do prefeito Pereira Passos, a Rua Larga foi no terreno anexo a igreja de São Joaquim,
criada no final do século XVIII, alterada dimensionalmente (largura), e que posteriormente seria demolida para a
formada pela unificação de duas modificando assim seu nome, com a intenção ampliação da escola e da rua.
vias, conhecidas como Larga e de fazer uma ligação entre o Centro e a Zona A rua ganhou mais fama em 1855,
Estreita de São Joaquim, chegou a ser durante Norte da Cidade. quando o conde de Itamaraty e comerciante
décadas uma das vias mais movimentadas da A Avenida Marechal Floriano, perdeu de café, Francisco José da Rocha, construiu
cidade. parte de sua importância como uma das um Palacete. Com o fim da monarquia e a
Por volta de 1632, com apenas 70 anos principais vias após a abertura da Avenida proclamação da Republica, o conhecido como
da fundação da cidade do Rio de Janeiro, a Central, atual Rio Branco. Em 1940, durante Palácio do Itamaraty transformou-se em sede
área chamada Vila Verde era o local por onde o Governo do presidente Getulio Vargas foi do Governo do Brasil, e posteriormente, sede
transitavam os carros, entre o centro urbano e idealizada e construída uma grande via que do Ministério das Relações Exteriores.
as zonas agrícolas, transformando-se em um ligaria a zona Norte-Sul da cidade, desviando Próximo ao Palácio se instalou, em 1911,
dos primeiros locais da cidade com indícios o antigo traçado da Marechal Floriano, o que em um edifício monumental, a Light and
de marginalização. A primeira rua a nascer provocaria a decadência do que foi a Primeira Power que seria a responsável de eletrificar
seria a Rua Estreita, desde a Rua do Valongo Avenida da Cidade do Rio de Janeiro. todos os bondes da cidade, favorecendo o
(logradouro do principal mercado de escravos No cenário de tantas reformas que desenvolvimento do transporte público e a
da cidade) até a Rua da Vala. Na Rua da Vala dotaram a via de tamanha importância, a formação de novos bairros.
foi construída uma pequena igreja em estilo Rua Larga foi se tornando menos comercial,
Estado atual da via
Barroco, dedicada a São Joaquim com o diversas instituições e casarões da burguesia

E
objetivo de melhorar a visibilidade do local. da época se foram se instalando no local. Em
m meados de 1943, com a
Para unir o atual campo de Santana com 1863 foi construída a Real Caixa de Socorros
inauguração da Avenida Presidente
a Rua do Valongo, foi proposto a criação de D. Pedro V, logo após, por volta de 1874,
Vargas, a histórica Rua Larga perdeu
uma via ampla, com 20 metros de largura, foi inaugurada a primeira escola normal da o título de uma das principais vias da
conhecida como Rua Larga de São Joaquim, cidade, propriedade de Manuel Francisco cidade, criando um cenário de decadência e
pois seu início era em frente à igreja. Correia, primeiro presidente do Tribunal de abandono. Porém, esse abandono, permitiu
Durante o período conhecido como a Belle Contas do Brasil. manter a maior parte dos casarios históricos
Époque, que iniciou-se na França no final do O Imperial Colégio Pedro II, instituição em meio as grandes reformas urbanas, e as

197
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Figura 2 – Recorte do centro do Rio de Janeiro, destacando-se a Avenida Marechal Floriano.


Fonte: Google Maps, 2020.Modificado pelo autor.

grandes demolições que aconteceram na contribuem para a degradação desses da vida urbana, através da reorganização do
capital carioca. espaços. A ONU-Habitat¹ define como planejamento urbano a favor dos pedestres e
A área portuária e o centro do Rio, espaço público de qualidade uma área com os ciclistas. Sua equipe desenvolveu projetos
abandonados durante anos, passaram por boa coletividade e acesso físico, segurança para diminuir o fluxo de carros dos centros
grandes projetos de requalificação, devido a pública, isolamento do trânsito, além de de cidades, como: Copenhague, Estocolmo,
melhora da economia do país correlacionada espaços de lazer e de trabalho. Esses fatores Rotterdam, Londres, Amman, Moscou,
à cidade se transformar no palco de grandes originam um grande espaço de intercâmbio Melbourne, Xangai, Nova Iorque e São
eventos, tais como a Copa do Mundo em 2014 econômico e cultural para uma grande Francisco.
e os Jogos Olímpicos em 2016. A Avenida variedade de usuários. No livro “Cidades para pessoas” o
Marechal Floriano foi a via escolhida para As cidades nos países em vias de arquiteto descreve suas teorias e pontos de
receber uma das linhas do projeto VLT (veículo desenvolvimento, como o Brasil, ainda vista sobre o desenvolvimento das cidades nos
leve sobre trilhos) que, inspirado nas cidades possuem um investimento reduzido últimos 150 anos, ressaltando a importância
da Holanda, tinha como objetivo dar maior para fomentar os espaços públicos e a que no inicio as cidades foram desenhadas
prioridade ao pedestre, aliviando o pesado conectividade, gerando pontos asilados de para a locomoção a pé, por tanto os centros
trânsito de ônibus no centro da cidade. Por riqueza e fomentando o uso do automóvel. históricos deveriam ser preservados para
outro lado, foi recuperado, com um sistema Nessas áreas, por exemplo, o centro do Rio essa finalidade, e não serem adequados para
mais modernizado, o legado histórico dos de Janeiro, a mobilidade torna-se ineficiente, o deslocamento de veículos.
bondes elétricos como meio de transporte com presença de engarrafamentos devido ao Paraentenderoprocessoderequalificação
na Cidade do Rio de Janeiro, no período que a número excessivo de veículos de transporte dos espaços públicos Jan Gehl se casa nos
Rua Larga vivia sua época de esplendor. coletivo e carros particulares, deteriorando princípios sobre dimensão humana. No
o espaço destinado ao público e aos passar dos anos e sobretudo com as teorias
Cidades para pessoas serviços básicos. Estudos da ONU-Habitat do Movimento Moderno, o qual separava os

A
demostraram que um bom planejamento usos dentro das cidades e desenhava edifícios
situação da Avenida Marechal de ruas como espaços públicos contribuem isolados que acabariam por destruir o espaço
Floriano é recorrente em diversas ao desarrolho, melhora a sustentabilidade e a vida urbana, como aconteceu em Brasilia,
cidades do país. As Ruas, Praças ambiental, gera uma maior produtividade e uma cidade setorizada, onde é necessário o
e Espaços Públicos sempre favorece a inclusão social. uso do carro para realizar qualquer atividade.
contribuíram para definir as funções culturais, O dinamarquês Jan Gehl, arquiteto e Nas últimas décadas esse pensamento vem
sociais e econômicas das cidades, porém, urbanista, dedicou grande parte de sua mudando, e numerosas cidades estão se
a falta de manutenção e investimentos carreira profissional para melhorar a qualidade baseando na revitalização da vida urbana e

198
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

dando prioridade ao pedestre. clima diferente, a cultura


NoBrasil,oMovimento Moderno foi muito diferente, nós amamos nossos
carros mais do que em outros
marcante tanto para sua arquitetura quanto lugares, assim é como somos
para a forma de pensar da sociedade. Ainda e não podemos ser mudados”.
hoje, muitos dos novos empreendimentos Então mudamos e ninguém
realizados nas cidades são casados no mais lembra quem tinha dito
“isso nunca poderá ser feito”.
desenho de blocos isolados e perímetro Eu ouvi isso em Nova York,
livre em condomínios fechados, onde o uso especialmente. “A Big Apple
do espaço livre é exclusivo dos moradores. não pode ser mudada, aqui
Desse modo, a preocupação sobre o espaço estamos sempre acordados,
você nunca poderá vir com
livre privado se sobrepõe sobre o espaço livre ideias europeias, pelo amor de
público. Deus, para Nova York”. Então Figura 3 – Centro da cidade destacando-se
Várias intervenções realizadas nas cidades mudamos. De repente eles as Avenidas Rio Branco e Marechal Floriano.
são apenas seres humanos
brasileiras demonstram que o pensamento em Nova York? Em Moscou,
Fonte: Acervo da Biblioteca Nacional, s.d.

de Jan Gehl é possível ser implantado no “isso nunca poderá ser


país. Várias vias dos centros das grandes feito em Moscou”. Foi feito,
cidades foram fechadas parcialmente ao aconteceu. O que você está
esperando, Brasil? (GEHL
trânsito, gerando uma grande movimentação apud TANSCHEI, 2016, não
econômica nessas áreas. Por outro lado a paginado).
Avenida Atlântica (Rio de Janeiro) e a Avenida
Paulista (São Paulo), de uso exclusivo para A rua que virou passeio público

N
pedestre aos Domingos, é um claro exemplo
de como grandes áreas sem a utilização de os últimos anos, a Avenida
veículos podem se transformar em espaços Marechal Floriano passou por uma
de lazer e divulgação de eventos culturais. grande intervenção, baseada nos
Em uma entrevista realizada ao arquiteto princípios discutidos por Jan Gehl,
durante uma palestra realizada em Porto por um lado mediante a implantação do VLT,
Alegre, explicou que suas teorias podem ser melhorando a conectividade e reduzindo o
Figura 4 – Avenida Marechal Floriano após as
aplicadas em qualquer cidade do mundo. tempo de deslocamento em 20%, por outro a obras de alargamento em 1905. Fonte: Coleção
No Brasil, existe uma população crescente retirada do 60% das linhas de ônibus (LIMA, família Passos.
e se mudando para as cidades, portanto, é 2019) para reduzir os engarrafamentos e
necessário organizar e adequá-las, para que a poluição da área. Para a implantação do
sejam mais sustentáveis e confortáveis, afim VLT, ainda foram mantidas as vias para o
de suprir as demandas atuais da população. trânsito dos carros, como consequência vários
Segundo a opinião do arquiteto, o Brasil, sobrados preservados de princípios do século
independentemente de ter sido altamente XX foram substituídos por estacionamentos.
influenciado pelo urbanismo de Brasília, A Marechal Floriano transformou-se em
tem os mesmos problemas de mobilidade uma rua de pedestres, porém, por manter
urbana que qualquer outra cidade em ainda o passeio de carros na avenida, há a
desenvolvimento do mundo: dificuldade de circulação de pedestres na área,
Vocês não são diferentes de utilizando assim, os usuários, os trilhos do VLT
ninguém. Em todos os países como calçada ou ciclovia improvisada.
que eu trabalhei por 30 anos, Pese a alguns investimentos fossem
sempre começavam dizendo
“você precisa entender que realizados em construções históricas da Figura 5 – Avenida Marechal Floriano e Palácio
aqui é diferente, temos o Avenida, apostando nas mudanças da linha Itamaraty. Fonte: Acervo da Biblioteca Nacional.

199
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

do VLT, informações recentes relatam que, os não afeta o seu funcionamento, pois a área
proprietários dos locais se queixam pela perda conta com um vasto sistemas de transporte
de clientes decorrentes da má gestão da área coletivo, permitindo um fácil acesso. Pode-
(DIÁRIO DO PORTO, 2020). se observar que no esquema apresentado
A área movimenta por dia mais de 773 mil a seguir (Figura 7), a circulação de ônibus e
pessoas economicamente ativas (74% estão carros particulares é mantida exclusivamente
trabalhando), segundo informações oficiais nas vias principais do centro (Av. Presidente
da SuperVia². Desses passageiros, 76% afirma Vargas, Av. Rio Branco e Av. Passos). Já a
não usar carro. Avenida Marechal Floriano é reservada
Nesse contexto, a Avenida Marechal exclusivamente para a passagem do VLT
Floriano é o lugar mais apropriado para criar como sistema de transporte e a implantação
uma via de pedestre criando uma ligação de uma ciclovia que conecta as regiões da
entre as aéreas da estação Central do Brasil ao Central do Brasil, a AV. Rio Branco, e a Praça
eixo da Avenida Rio Branco. XV.
Por manter ainda na sua grande maioria Com a requalificação da via, liberando-a
a morfologia original de antigos sobrados para os pedestres e implantando uma ciclovia,
de dois pavimentos, além da vegetação tem como objetivo gerar um passeio público
abundante, fazem da área um ótimo local de ligação entre várias áreas importantes do
para movimentação de pedestres. centro do Rio de Janeiro, em um percurso
Figura 6 – Espaço usado como área de descanso O fechamento de carros para a Avenida afastado das área super-aglomeradas e do
na Avenida. Fonte: Foto do autor, 2019.
caos das vias mais movimentadas. Os espaços,
antes destinados a passagem de veículos,
transformam-se em uma via arborizada, com
espaços de mobiliários urbanos para uso da
população que utiliza diariamente essa área,
permitindo a realização de tarefas e lazer em
um local mais agradável e sustentável.
Tanto as calçadas como as Praças, devido
sua proposta de alongamento, podem ser
utilizadas pelos comerciantes para incentivar
a economia local.

Considerações finais

É
necessário refletir sobre intervenções
urbanas, de forma a fomentar o
uso do espaço urbano por parte
da população, em uma época
onde a sustentabilidade, a integração

Figura 7 – Esquema de circulações propostas na


área da Avenida Marechal Floriano: em azul o
trilho do VLT, em laranja as linhas de ônibus e em
vermelho a ciclovia. Fonte: Elaborado pelo autor,
2020.

200
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

social e a qualidade de vida, são temas de


debate a nível global. A Marechal Floriano,
repleta de importantes construções que
foram aparecendo ao longo da história da
via e da cidade do Rio de Janeiro, ficou
no esquecimento da população devido
a percepção de obsoleta pelos novos
sistemas de deslocamento que surgiram
após a invenção do automóvel. Através
da implantação do VLT e a priorização
do pedestre pretende-se, a longo prazo,
recuperar a importância histórica de uma
avenida que ainda mantém a escala de uma
época onde não existiam carros, e as tarefas
eram realizadas a pé ou mediante transporte
público.

Notas

Figura 8 – Corte esquemático da proposta de intervenção para a Avenida Marechal Floriano.


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2013.
2 Ibope TGIndex Banco BrY17w1+w2 a natureza; Douglas Farr; tradução está esperando, Brasil?”. WRI Brasil,
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DIÁRIO DO PORTO. Lojistas da Disponível em: <https://extra.globo.com/
Marechal Floriano querem fim do VLT. noticias/rio/prefeitura-deve-comecar-
retirada-de-linhas-de-onibus-do-centro- Alejandro Cuenca Gómez
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Disponível em: <https://diariodoporto. na-proxima-semana-23433403.html>. Arquiteto pela Universidade da
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querem-fim-do-vlt/>. TANSCHEI, Paula. Defensor de Projeto e Patrimônio pelo Programa
FARR, Douglas. Urbanismo cidades mais humanas, Jan Gehl de Pós-Graduação em Arquitetura da
Sustentável: desenho urbano com provoca em entrevista: “O que você Universidade Federal do Rio de Janeiro

201
Figura 1 – Levantamento da Casa Grande do Sítio Pyranhenga. Fonte: Elaborado pelo autor, 2020.
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Hugo Calheiros Rodrigues e José António Viana Lopes

sítio pyranhenga: identificação,


reconhecimento do bem e tecnologia bim

O Sítio Pyranhenga foi fundado no início do século XIX em São Luís, no Maranhão, a partir
de valores culturais genuinamente burgueses (Figura 2), pertencendo à arquitetura luso-
brasileira (LOPES, 2008). Depois foi ocupado pela artista plástica Virginia Eftimié, a “[...]
quem se atribui a recuperação e preservação do conjunto após alguns anos de abandono [...]”
(LOPES, 2008, p. 318), tendo realizado naquele espaço intervenções artísticas, conservação e
obras de paisagismo; hoje o bem é administrado pela ONG CEPROMAR.

A pesquisa tem o intuito de Etapa 1: Reunir evidências Etapa 3: Justificar valores culturais
fundamentar a importância dos valores Esta etapa (levantamento) permitiu importantes
patrimoniais em um bem que apresenta definir o Sítio Pyranhenga, sua história Foi produzida a partir de uma
conflitos simbólicos. Foi necessário e seus usos, contemplando a etapa síntese dos valores históricos, estéticos
contrapor valores culturais com o de pesquisa e investigação histórica, e antropológicos encontrados na etapa
intuito de questionar as intervenções estrutural, estética e antropológica do em que se reuniu evidências do Sítio
posteriores da senhora Virginia Eftimié sítio, desde sua fundação até a ocupação Pyranhenga (Etapa 01), promovendo
sobre uma edificação de origem do CEPROMAR, caracterizando um diálogo dos períodos históricos com
colonial, demonstrando o porquê de seu tipologia, usos, aspectos arquitetônicos seu partido arquitetônico – conceito
reconhecimento. e urbanísticos; foi dividida, nesta etapa, balizador de sua concepção estética e
sentidos de lugar (cultura e instâncias
a periodização histórica pela qual o bem
Materiais e método de trabalho antropológicas), permitindo promover
passou.

B
um entendimento daquele objeto,
dotado de valores patrimoniais.
aseada na metodologia do Etapa 2: Coordenar, documentar e
Plano de Conservação Integrado analisar provas Etapa 4: Elaborar a Declaração de
elaborado por James Semple Desta maneira, foi realizada a Significância Cultural
Kerr do qual foi realizada a documentação através da tecnologia A elaboração da Declaração de
etapa única diagnóstica (understanding BIM (Figuras 1, 4 e 5), constituindo Significância Cultural é constituída
the place), objetivou-se constituir tecnologias digitais aplicadas no por uma síntese crítica dos valores
estudo patrimonial. São aspectos daquele patrimônio. Esta Declaração
um Dossiê Técnico Patrimonial, para
metodológicos de fundamental constitui um texto crítico que sintetiza
assessorar o processo de tombamento.
importância para guiar a investigação a importância cultural daquele bem,
Foi também associado à plataforma crítica, análise de dados do Sítio seguindo a disposição de um relatório
BIM (Building Information Modeling) Pyranhenga, promovendo o técnico que fornece subsídios teóricos
de trabalho, utilizando o 3D no entendimento do significado cultural para efetivar o tombamento do imóvel,
tratamento, análise, apresentação e deste bem, compondo o ciclo de vida identificando o escopo de valores
documentação patrimonial. Constituiu- em edificações através do faseamento pertencentes ao critério de significância
se nas seguintes etapas: histórico. cultural disposto.

203
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

Identificação, reconhecimento
e diagnóstico cultural

O
diagnóstico cultural permitiu
identificar seis (6) momentos
históricos que expressaram
usos distintos na história
do Sítio Pyranhenga, tais como:
habitação, estabelecimento fabril,
santuário e projeto social. Assim, têm-
se os seguintes períodos históricos
pelos quais o bem passou: período
José Clarindo de Souza (1805 - 1863),
no qual deu-se a fundação; período
Luiz António Pires (1864 - 1907), com
o desenvolvimento da produção da cal;
período Luiz Eduardo Pires (1907 - 1939),
que desenvolveu o sítio como parque
fabril; período Sincretismo religioso
(1939 - 1970), consagrando aquele
espaço como símbolo de resistência
Figura 2 – Casa Grande do Sítio Pyranhenga em 1940. Fonte: Arquivo do Instituto Histórico e Artístico
Nacional – IPHAN.
cultural; período Eftimié (1970 - 1991),
no qual Virginia Eftimié introduziu
sua ornamentação estética; e período
CEPROMAR (1991 - até o momento),
momento filantrópico encabeçado pelo
padre João de Fátima.
Desta forma, o Sítio Pyranhenga
esteve, em sua origem, ligado à tipologia
casa de sítio (SILVA F., 1998), seguindo
uma tradição arquitetônica luso-
brasileira, expressando uma edificação
desprovida de ornamentações
requintadas, tendo sido introduzido por
Virginia Eftimié um acervo ornamental
expressivo, exemplificado na Figura 3.
Este processo histórico-estético
(produção social do espaço) evidenciou
a expressão de sentidos de lugares
em momentos históricos próprios,
contribuindo na justificativa cultural
presente na atualidade do Sítio
Pyranhenga, sendo identificados os
Figura 3 – Capela que compõe o conjunto do Sítio Pyranhenga. Fonte: Foto do autor, 2020. seguintes valores: valor histórico, valor

204
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

de autenticidade e originalidade, valor


estético-estrutural, valor de lugar,
valor de diversidade, valor artesanal,
valor de resistência cultural, valor de
memória, valor arqueológico, valor
filantrópico, valor de transmissão e
valor paisagístico.

Conclusões

O
Sítio Pyranhenga
expressou em cada
momento histórico suas
próprias práticas culturais,
tornando-se um lugar na medida em Figura 4 – Esquema geral do conjunto edificado do Sítio Pyranhenga. Fonte: Elaborado pelo autor,
que apresentou marcos simbólicos 2020.
importantes de identidades grupais
ou como manifestações sentidas
na própria materialidade de seu
partido, expressando sua significância
contemporânea. O diagnóstico
cultural e o Dossiê Técnico Patrimonial
representaram significativamente
o reconhecimento destes valores
culturais junto à sociedade civil. O
uso da tecnologia BIM tornou-se um
forte instrumento de identificação,
reconhecimento e salvaguarda de
valores culturais. O Sítio deve ter sua
complexidade cultural reconhecida
como Sítio Cultural do Pyranhenga e
seu tombamento deve ser realizado,
protegendo as edificações de valor
patrimonial existentes no local.

Referências bibliográficas

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uma antropologia da supermodernidade.
Campinas: Papirus, 2012.
CANDAU, Joel. Memória e identidade.
São Paulo: Contexto, 2018.
KERR, James S. Conservation Plan, the
7th edition: A guide to the preparation Figura 5 – Levantamento da capela do Sítio Pyranhenga. Fonte: Elaborado pelo autor, 2020.

205
Patrimônio Arquitetônico Brasil-Portugal

of conservation plans for places of


European cultural significance. ICOMOS,
Austrália, 2013. Disponível em: <http://
openarchive.icomos.org/2146/>. Acesso
em 03/05/2020.
LOPES, José Antonio Viana (Coord.).
São Luís, Ilha do Maranhão e Alcântara:
Guia de Arquitetura e Paisagem. Ed.
Bilíngue. Madrid, Espanha: Consejería de
Obras Públicas y Transportes, Dirección
General de Arquitectura y Vivienda, Junta
de Andalucía, 2008.
RODRIGUES, Hugo Calheiros. Sítio
Pyranhenga: patrimônio e conservação.
Monografia (Graduação em Arquitetura
e Urbanismo) - Curso de Arquitetura e
Urbanismo - Unidade de Ensino Superior
Dom Bosco – UNDB, 2018.
SILVA F., Olavo Pereira da. Arquitetura
Luso-Brasileira no Maranhão. Belo
Horizonte: Formato, 1998.

Hugo Calheiros Rodrigues

Arquiteto e Urbanista pelo Centro


Universitário Dom Bosco, pós-
graduando em tecnologia BIM e Lean
Manufacturing

José António Viana Lopes

Arquiteto e Urbanista, mestre e


professor do curso de Arquitetura e
Urbanismo do Centro Universitário Dom
Bosco-UNDB

206
Painél de Paulo Werneck no edifício do antigo Banco Boavista, no centro do Rio de Janeiro. Foto de Diego Dias, 2020.
projetos
Barão de Tefé Residencial
O presente projeto de restauro, intervenção e transformação de uso do
imóvel localizado na Avenida Barão de Tefé nº 99, bem preservado municipal,
MARCOS 5
foi realizado entre os anos de 2014 e 2017 por uma equipe internacional com 1- CAIS DO VALONGO/ CAIS DA IMPERATRIZ (BTN)
sede no Rio de Janeiro (a+ arquitetura) e Buenos Aires (Arq. Eduardo Scagliotti 2- DOCAS D. PEDRO II (GALPÃO AÇÃO E CIDADANIA) (BTN)
& Asoc.) com experiências convergentes no projeto de recuperação, gestão e 3- JARDIM SUSPENSO DO VALONGO (BTN)
conservação do patrimônio cultural. As obras ainda não foram iniciadas. 4- PEDRA DO SAL (BTE)
O patrimônio cultural é conformado pelo conjunto dos bens materiais 5- MUSEU DE ARTE DO RIO - MAR (BTM)
6
e intangíveis que cada geração cria ou herda das precedentes que, por seus 6- FORTALEZA DA CONCEIÇÃO (BTN) 7
significados e carga representativa, contribui para definir e consolidar a 7- IGREJA DE SÃO FRANCISCO DA PRAINHA (BTN)
identidade de uma sociedade. Uma das maneiras de considerar o patrimônio é 8- OBSERVATÓRIO DO VALONGO
compreendê-lo como um órgão vital e dependente das condições do seu tempo 9- MOINHO FLUMINENSE (BTM)
e do seu lugar, sendo por consequência, mutante. Este ajuste complexo às 10- IGREJA DA SAÚDE (BTN)
reconfigurações do contexto cultural, social e econômico deve ser compatível
com o respeito pelo valor testimonial e a autenticidade dos produtos culturais
compreendidos como documentos históricos. 4
O Residencial Barão de Tefé é um projeto de reabilitação do patrimonio 2
construído e adaptação funcional e tecnológica da edificação para abrigar
um uso misto, com lojas no térreo e residências nos demais pavimentos. O
8
edifício se localiza no cruzamento de duas importantes vias da Zona Portu