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HISTÓRIA DA IDADE MÉDIA ORIENTAL

A DIPLOMACIA BIZANTINA E OS
COMNENOS

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Olá!
Ao final desta aula, o aluno será capaz de:

1. Caracterizar o Império Bizantino entre o final do século XI e o XIII;

2. Entender o significado das Cruzadas;

3. Relacionar o início das Cruzadas ao processo de expansão do Islamismo;

4. Compreender como a continuidade dos conflitos externos afetou a estrutura interna do Império Bizantino;

5. Determinar os principais elementos componentes da política dos Comnenos.

1 Bizâncio do final dos séculos XI ao XII


Conforme estudamos na aula passada, o século XI foi muito importante para a história bizantina, sobretudo, no

que se relaciona a questões religiosas. O ano de 1054 celebra a ruptura definitiva entre as visões clericais

ocidentais e as orientais. Depois de séculos de divergência, a Igreja Católica é dividida em duas: a Igreja Católica

Romana e a Igreja Ortodoxa.

Em termos de política externa, a situação não estava muito melhor. Velhos e novos opositores rondam as

fronteiras bizantinas. Seus domínios na Península Itálica foram assediados pelos Normandos, ao mesmo tempo

em que os Turcos Seldjúcidas cercam suas possessões na Ásia Menor.

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O anteriormente poderoso Império Bizantino não se encontrava em posição de defesa. Com o passar dos séculos,

sua economia havia se deteriorado e o custo com a defesa aumentado significativamente. (Há muito eles

empregavam exércitos mercenários, o que gerava uma despesa altíssima).

Para completar o caos reinante, imperadores (um após o outro) eram investidos, sem que solucionassem

satisfatoriamente as contendas internas e externas. O ápice dessa situação ocorreu no ano de 1081 quando os

turcos seldjúcidas chegaram às portas de Constantinopla. Ao fundar a capital de seu reino em Niceia, eles

estabeleceram o centro de seu poder a menos de 100 km da capital bizantina. Bem, essa não é uma distância

muito segura, concorda?

Ao final do século XI, um breve momento de esperança se instaura. Assume o poder Aleixo I (1081-1118) que

inaugura a Dinastia Comnena (tecnicamente ele foi o segundo imperador dessa família, mas, na prática, o que

estabeleceu a continuidade deles no poder).

Logo no início de seu governo, por habilidade e sorte, ele conteve os Normandos e os Seljúcidas. No caso dos

primeiros, porque seu líder morrera, enfraquecendo o ímpeto dos comandados. No casc dos turcos, mais uma

morte, a do sultão, resultou em disputas internas de poder, o que culminou err momentânea desarticulação

militar. De qualquer forma, essa efêmera paz externa permitiu que ele voltasse suas preocupações para os

problemas econômicos do império e ainda, par a manutenção de suas fronteiras. Constatando a fraqueza de seus

limites, Aleixo 1 enviou uma comitiva para o Concílio de Piacenza, em 1095.

Esses enviados relataram ao Papa Urbano II as mazelas enfrentadas pelos seguidores de Cristo na região

oriental. Percebendo uma oportunidade de reforçar seu poder, o Papa convocou outro concílio, o Concílio de

Clermont, onde conclamou os cristãos a lutar para recuperar Jerusalém. Estava iniciada a Primeira Cruzada,

como veremos detalhadamente a seguir.

Cruzadas é um nome bastante conhecido. Observe que virou mesmo adjetivo, pois quando temos que cumprir

uma missão muito difícil, dizemos que temos que fazer uma "cruzada". A mídia fala em uma "cruzada" contra a

corrupção, não é verdade? Mas, o que é uma Cruzada?

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Precisamos de uma aula de História para entender (começo lembrando-me de uma história contada por Tom

Holland em seu livro, Fogo Persa). Diz o autor que um amigo seu fora convidado para ser reitor de uma

universidade americana buscando, em especial, modernizá-la.

O novo reitor quis inovar, manter a tradição, mas buscar um novo tema. Algo que instigasse, que provocasse uma

pesquisa maior. Foram a conselho, várias ideias surgiram e então ele apresentou a sua: Cruzadas - Movimento do

século XI - XII que pôs em sangrento diálogo o mundo islâmico e o cristão. Seus colegas refutaram, afirmaram

que não tinha cabimento aquilo, estudar uma coisa tão velha, tão sem sentido como as cruzadas. Que não havia

sentido discutir, às portas do século XXI, um passado morto e enterrado como aquele.

2 O que nos mostra a história


Infelizmente a História mostra que seus elementos, suas disputas não são tão facilmente esquecidas. Na manhã

do dia 11 de Setembro de 2001 2.996 pessoas foram mortas quando as Torres Gêmeas, um dos grandes símbolos

do poder do capitalismo americano, foram atingidas por aviões tripulados por membros do grupo extremista

islâmico, Al Qaeda.

Seu líder, Osama bin Laden, em um dos seus primeiros pronunciamentos, diz que está devolvendo os ataques

ocidentais que há mil anos assolam o Islão.

Um dos principais lideres ocidentais, o então presidente americano George W. Bush, em suas ações para mediar

e preparar o contragolpe dos EUA, foi a uma importante mesquita, e lá proferiu o discurso em que afirmava que

o Islã não era o culpado pelos ataques, mas que naquele momento a América faria "Uma Cruzada contra os

terroristas". Alguém que conhece um pouco de história certamente evitaria utilizar uma analogia como essa...

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3 As Cruzadas
As Cruzadas foram um movimento dos mais interessantes, pois mesmo tanto tempo depois ainda notamos a

presença de duas linhas historiográficas. A primeira, que busca abordar a ação europeia (ação que foi nomeada

de Cruzada); e uma linha islâmica, que trata da agressão europeia executada naquele momento.

Nosso desafio nessas aulas é fazer o trabalho do historiador, notando que temos discursos diferentes em meio a

organização sobre o que é um dos mais longos conflitos entre o mundo islâmico e a Europa Cristã.

Sendo assim, vamos apresentar duas visões sobre o momento que vai da Primeira Cruzada, organizada em 1095,

até o deflagrar da Terceira Cruzada. Para não nos perdermos, contaremos duas vezes a mesma história e, ao

final, dialogaremos sobre as duas visões tão díspares.

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Saiba mais
Para ilustrar melhor a ação que foi nomeada de Cruzada, assista ao filme “A Cruzada”.

Vamos ler agora o discurso de Urbano no Concílio de Clermont. Sua fala é considerada pela historiografia

tradicional o marco inicial das cruzadas:

"Meus queridos irmãos, ungido pela necessidade, eu, Urbano, com a permissão de Deus o bispo chefe e prelado

de todo o mundo, vim até esse lugar na qualidade de embaixador, trazendo uma mensagem divina a todos os

servos de Deus. (...) Posto que vossos irmãos que vivem no Oriente requerem urgentemente as vossas ajudas, e

vós deveis esmerar para prestar-lhes a assistência que a eles vem sendo prometida faz tanto tempo. Aí que, como

sabeis todos, os Turcos e os árabes, os tens atacado e estão conquistando vastos territórios da terra de România

(Império Bizantino), tanto no oeste como na costa do Mediterrâneo e em Helesponto, que é chamado o braço de

São Jorge.

Estão ocupando cada vez mais e mais os territórios cristãos, e já venceram sete batalhas. Estão matando e

capturando muitos, e destruindo as igrejas e devastando o império. Se vós, impuramente, permitires que isso

continue acontecendo, os fieis de Deus seguirão sendo atacados, cada vez com mais dureza.

Em vista disso, eu, e não bastante, Deus, os designa como herdeiros de Cristo para anunciar em todas as partes e

para convencer as pessoas de todas as gamas, os infantes e cavaleiros, para socorrer prontamente aqueles

cristãos e destruir a essa raça vil que ocupa as terras de nossos irmãos. Digo isto para os presentes, mas também

se aplica a aqueles ausentes. Mais ainda, Cristo mesmo os ordena.

Todos aqueles que morrerem pelo caminho, seja por mar ou por terra, em batalha contra os pagãos, serão

absolvidos de todos seus pecados. Isso lhe é garantido por meio do poder com que Deus me investiu. Oh terrível

desgraça se uma raça tão cruel e baixa, que adora demônios, conquistar a um povo que possui a fé de Deus

onipotente e tem sido glorificado em nome de Cristo!

Com quantas reprovações nos oprimiria o Senhor se não ajudarmos a aqueles, que como nós, professam a fé de

Cristo!

Façamos que aqueles que estão promovendo a guerra entre fieis marchem agora a combater contra os infiéis e

conclua em vitória uma guerra que deveria ter se iniciado há muito tempo. Que aqueles que por muito tempo

tem sido foragidos, que agora sejam cavaleiros. Que aqueles que estão pelejando com seus irmãos e parentes,

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que agora lutem de maneira apropriada contra os bárbaros. Que aqueles que estão servindo de mercenários por

pequena quantia, ganhem agora a recompensa eterna. Que aqueles que hoje se malograram em corpo tanto

como em alma, se dispunham a lutar por uma honra em dobro.

Vejam! Neste lado estarão os que lamentam e os pobres, e neste outro, os ricos; neste lado, os inimigos do

Senhor, e em outro, seus amigos. Que aqueles que decidam ir não adiem a viajem senão que produzam em suas

terras e reúnam dinheiro para os gastos; e que, uma vez concluído o inverno e chegada à primavera, se ponham

em marcha com Deus como guia."

O discurso inegavelmente é forte, mas precisamos refletir um pouco. Em primeiro lugar, foi um discurso escrito a

posteriori, ou seja, não é o registro do que se passou de fato na reunião conciliar. Foi resultado de uma discussão,

em um momento que busca exaltar as palavras do clérigo como aquele que insuflou e guiou o Cristãos às

Cruzadas.

Será que podemos imaginar isso sem um mínimo de cuidado? Urbano II vivia um momento de tentativa de

consolidação do papado. As tensões entre a Igreja e os principais poderes europeus eram uma constante. As

disputas de poder em todo o mundo cristão ocidental também eram intensas, fossem pelo estabelecimento

recente dos Normandos, pelas disputas dos Capetíngios na construção do Reino de Francia ou ainda, pela

imposição, muitas vezes questionada, do Sacro-Império Romano Germânico.

O discurso de Urbano tem elementos ricos a serem observados: perdão de dívidas e pecados, a ascensão política

dos turcos como uma ameaça; o pedido de socorro de Bizâncio; crise das peregrinações. Enfim, um quadro que

oferece uma nova possibilidade de enriquecimento, afinal, é uma terra que brota leite e mel, mesmo sendo um

deserto...

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As primeiras frentes europeias que se dirigiram ao Oriente não eram nada
As primeiras
organizadas; foram grupos de peregrinos, fanáticos e mendigos, que causaram
frenteseuropeias
horror por onde passavam, atacando judeus e bizantinos, considerando ambos, em

muitos momentos, como traidores da fé cristã.

A grande questão se dá na ação política de Urbano II que não aparece bem descrita

Ação política na documentação. Fruto de um acordo escuso que previa terras nas conquistas e

deUrbano II recompensas em dinheiro, ele envia grupos de normandos recém-convertidos ao

cristianismo com força de ataque para as cruzadas.

Com a chegada desse grupo, Alexis Conmeno, imperador bizantino, vê a

A possibilidade possibilidade de recuperar antigos territórios que estavam perdidos para os turcos

derecuperar Seldjúcidas. É firmado então um acordo entre Boemondo, primeiro líder cruzado e

antigos territórios os bizantinos. Territórios na atual Turquia seriam bizantinos e o restante das

conquistas divididas.

Com o apoio bizantino e os contingentes normandos, as primeiras vitórias não

Muitas tardaram a acontecer. Em pouco tempo, todo o sultanato de Kalij Arslan, príncipe

batalhassangrentas turco, havia sido vencido. Muitas batalhas sangrentas foram vencidas e a ótica dos

foram vencidas cruzados era não perdoar os infiéis (o discurso religioso está presente). Com isso,

judeus e muçulmanos eram alvo de constantes massacres.

As notícias sobre as conquistas no Oriente e o enriquecimento com as novas terras chegaram rapidamente à

Europa e neste momento é iniciado um intenso movimento em direção a essa região, constituindo-se dessa

forma, a Primeira Cruzada.

Em menos de quatro anos do seu início os cruzados já haviam vencido em algumas das cidades mais importantes

do oriente mediterrânico e, principalmente, haviam conquistado o grande símbolo da batalha, a cidade sagrada

de Jerusalém. Dessa forma, o que seria o objetivo primordial das Cruzadas, ou seja, retomar a Terra Santa do

domínio infiel, estava sendo bem-sucedido.

Observe no mapa abaixo o caminho percorrido pela Primeira Cruzada

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A vitória na Terra Santa foi o ponto alto das cruzadas. Fragilizados e enfraquecidos, os reinos islâmicos viram

surgir no Oriente uma série de novos reinos cristãos, que reproduziam o modelo europeu, com juramentos de

fidelidade, de características militares e com distribuição de terras.

A Igreja, para dar garantias à organização cristã no Oriente, cria, neste momento, uma de suas mais famosas

ordens: Os Templários.

Precisamos entender neste ponto um traço fundamental: ninguém conquista um território para destruí-lo

(existem raras exceções na História). Com as Cruzadas não foi diferente. Encerrado o primeiro ímpeto, os

europeus e muçulmanos buscaram uma coexistência pacífica no Oriente, ainda que as disputas e animosidades

não cessassem. Temos, por exemplo, as cidades de Alepo e Damasco, onde existiam negociações comercias entre

os dois lados. Esse fato é, aliás, bem retratado no filme A Cruzada.

Na primeira metade do século XI, João II (1118-1143), assume o poder no lugar de seu pai. Em virtude de abusos

cometidos, o imperador não renova um acordo comercial que existia com os venezianos (Os cruzados saiam, em

geral, do porto de Veneza). A atitude de João gerou retaliação dos mercadores venezianos, o que fez com que ele

voltasse atrás. Mas, por que estamos citando esse pormenor? Porque veremos que em alguns momentos os reais

interesses de muitos participantes das Cruzadas se evidenciam. Por vezes, cristãos, atacaram cristãos quando

seus interesses econômicos estavam em jogo.

4 Os Cruzados acabam perdendo o apoio de Bizantino


Os Cruzados acabam perdendo o apoio dos bizantinos, em especial depois do ataque do cavaleiro cristão, Renaud

de Chatillôn, à Ilha de Chipre. Vale destacar que não é o primeiro alvo cristão dos cruzados que antes haviam

tomado a cidade Armênia de Edessa, região cristã. Em suma, os bizantinos se ressentiram do chamado "fogo

amigo" - ataque de cristãos a cristãos.

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Inicia-se, partindo do Oriente, uma série de movimentos de resistência. Zinki Atabeg (líder militar) toma a cidade

Edessa e é convocada uma nova Cruzada, que é vitoriosa em seu primeiro empreendimento, mas acaba por

desequilibrar as forças no Oriente, uma vez que rompe acordos que vinham garantindo a paz.

Viram então uma nova liderança militar surgir, Saladino. Ele consegue reunir grupos antagônicos do mundo

islâmico como Fatímidas e Seldjúcidas. Sobre sua liderança, o Cairo e Trípoli são reconquistadas e também

assume a liderança das cidades de Alepo e Damasco.

Os cristãos tentam uma reação, mas não são frente para as tropas de Saladino. Perdem Jerusalém em 1187 e,

neste momento, parecia que os reinos cristãos estavam inteiramente condenados no Oriente.

O discurso cruzadista, no entanto, ainda era forte e, desta vez, os principais reis da Europa tomam a frente na

chamada Cruzadas dos Reis. Liderados por Ricardo Coração de Leão, rei inglês, conseguem vencer as

adversidades, como a morte de Frederico Barba Ruiva, imperador do Sacro-Império e a resistência de Felipe

Augusto da França, e conseguem novas conquistas cristãs. O maior prêmio, porém, permanece nas mãos do Islão

- Jerusalém não é retomada.

Veja no mapa o caminho percorrido pela Cruzada dos reis

E o Império Bizantino? A partir do século XIII, sua desagregação somente se acentuará conforme veremos na

próxima aula.

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O que vem na próxima aula
• As caraterísticas sócio-político-econômicas dos Turcos Seljúcidas;
• A visão dos muçulmanos sobre as Cruzadas;
• A Reconquista.

CONCLUSÃO
Nesta aula, você:
• Compreendeu as mudanças sofridas pelo Império Bizantino, a partir da ascensão da dinastia dos
Conmenos;
• Aprendeu que o processo de desagregação das fronteiras do Império Bizantino prosseguiu nos séculos
XII e XIII;
• Analisou as relações entre o expansionismo islâmico e as Cruzadas.

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