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06/06/2020 Medicina e Espiritualidade

Medicina e Espiritualidade:
Redescobrindo uma antiga aliança
Resenha elaborada por
Jennifer Braathen Salgueiro, PhD
GPPG/HCPA

Neste capítulo o autor nos coloca diante de importantes questões:


· A enfermidade e a dor tem acompanhado a vida humana desde sua origem; p.891
· O teólogo Antonio Autiero propõem três modelos interpretativos da enfermidade; o
modelo mágico, a interpretação religiosa e o modelo científico-empírico moderno; p.891
· A medicina passou de um período mágico-religioso iniciado no ano 500 a.C. até a
medicina científica do séc. XIX, baseada na experimentação e não só na mera experiência.
A partir disto três etapas são descritas por Larry Dossey: 1) a medicina materialista e
fisicalista: etapa que começa no meio do séc. XIX, genuinamente científica, tem a física de
Newton como modelo: o universo inteiro, incluindo o corpo humano, é como um relógio
regido pelos princípios da casualidade determinista; 2) o modelo mente-corpo: inicia após a
segunda guerra e admite a influência das percepções, emoções, atitudes e pensamentos
sobre o corpo humano. A mente está localizada no cérebro e tem a capacidade de
influenciar o seu próprio corpo; 3) a medicina transpersonal e translocal: exige uma
compreensão que a relação mente-corpo transcende os limites de espaço e tempo. A
mente é não local; p.892-95
· Dados que indicam que as crenças espirituais e religiosas tem um efeito positivo na
saúde dos pacientes: - Nos EUA, 95% da população crê em Deus e 57% reza ao menos
uma vez por dia; - Os médicos são menos religiosos que a população em geral; - Estudo
com 272 pacientes da terceira idade, encontrou que os que praticavam atividades religiosas
tinham maiores índices de felicidade, de sentirem-se úteis e de ajuste pessoal; - Estudo
clássico do Dr. Comstock encontrou que as pessoas que iam as igrejas pelo menos uma
vez por semana, tinham 50% menos falecimentos por doenças coronárias, enfisema e
suicídio e 75% menos de morte por cirrose; p.896
· Benson, professor da Faculdade de Medicina de Harvard, está convencido que as
crenças têm repercussões físicas e possuem um papel importante na prevenção e
tratamento de enfermidades. Na sua opinião a medicina é como um banco com três pés:
farmacologia, cirurgia e outros procedimentos médicos e o cuidado consigo mesmo (que
inclui o exercício, o descanso, a nutrição e suas crenças); p.896
· Toda pessoa é necessariamente espiritual, enquanto está dotada de espírito. A palavra
espírito não se refere a divindade, mas a um ser dotado de autoconsciência e de
capacidade de reflexão sobre si mesmo. A espiritualidade não implica necessariamente na
fé em uma divindade pessoal, ao estilo do Deus dos cristãos. O ser humano seria um ser
intrinsecamente espiritual, pois demonstra capacidade para reflexionar e auto-transcender-
se; p.900
· A espiritualidade pode estar ligada a religião, mas não necessariamente; p. 902
· A busca de sentido e de significado é uma das necessidades fundamentais do ser
humano, que o distingue, até onde nós sabemos, das demais espécies; p.902
· O ser humano é um ser em relação: consigo mesmo, com seus semelhantes, com a
natureza, com a divindade. No fundo, a espiritualidade sempre tem a ver com o transcender
a si mesmo e para transcender a si mesmo é preciso entrar em relação; p.903
· A pessoa espiritual sabe que não está só no universo e que não pode encontrar-se a si
mesmo, alcançando sua própria plenitude, sem estar em relação com outros seres
humanos e com outras criaturas. Na verdade, a experiência de sentido mais profundo é o
amor ( de uma pessoa, de uma comunidade, de um ideal, da divindade) e o amor é,
certamente, uma relação; p.903
· ...o valor mais alto e importante que confere sentido a existência. Para a pessoa
religiosa, este valor é deus. Para a não religiosa, este valor pode ser a liberdade, a justiça,
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a verdade, a humanidade, etc. Mas a pessoa não espiritual encontra-se centrada em si


mesmo, de uma maneira míope e egocêntrica. O egocentrismo é o mais oposto a uma
genuína espiritualidade; p.904
· Os médicos resistem a espiritualidade e a oração para a saúde humana porque isto foi
internalizado durante o processo de sua formação; p.904
· Benson sustenta que a tendência dos seres humanos a religião e a experiência
espiritual está inscrita em nossos genes. Nós fomos desenhados para crer. Para ele a fé
em deus é tão natural para a humanidade como o instinto de lutar e fugir; p.906
· Estudos de Newbwerg e D′ Aquili sugerem que a religião está intimamente ligada a
constituição biológica do ser humano. Através do uso de tomografia (SPECT), encontraram
que durante a experiência religiosa (oração), as áreas de maior atividade eram os lóbulos
frontais, que governam a atenção, enquanto eram muito baixas as atividades do lóbulo
posterior superior parietal, associada ao espaço físico; p.908
· Desde 1994, algumas faculdades americanas começaram a incluir componentes de
espiritualidade no seu ensino. Por exemplo: ensinar ao aluno a incluir o elemento de
espiritualidade como parte da história clínica, apresentar bibliografia existente sobre a
importância das espiritualidade para a assistência sanitária, apresentar casos em que as
crenças espirituais afetaram os pacientes, ensinar a reconhecer conselheiros espirituais
como parte integrante do corpo clínico, animar os alunos a ver seus próprios sistemas de
crenças, avaliando como podem ajudar ou impedir a relação de ajuda ao paciente,
introduzir as principais tradições religiosas, pondo em relevo sua relação com a medicina e
as decisões no campo da saúde; p.911.
· Os médicos devem ser, ao menos, sensíveis e respeitosos diante das crenças,
sobretudo em situações de crise. Isto constitui um ingrediente indispensável para uma boa
prática clínica; p.912.
· Um problema distinto encontra-se quando o enfermo quer que a equipe ore com ele...a
oração feita pelo médico é aceitável em três condições: não há agentes pastorais, o
paciente deseja orar com seu médico e o médico pode orar com fé sincera e sem inibir o
paciente. Se o médico não pode orar sinceramente deve limitar-se a escutar
respeitosamente a oração feita pelo paciente; p.914
· Tem que ficar claro, que a espiritualidade não pode reduzir-se a mais uma terapia, que
os médicos podem receitar, da mesma maneira, por exemplo, que receitam antibióticos
para uma infecção. A espiritualidade e a oração tem sentido em si mesmas e por si
mesmas. Não são meros meios para melhorar a saúde; p.915.
· Nem a oração necessita ser justificada pela medicina, nem a medicina pela religião.
Ambas são atividades genuínas e valiosas, que se justificam a si mesmas em sua própria
esfera; p.916.
· Pessoas são seres bio-psico-sociais-espirituais, que se realizam na comunidade de
pessoas e na comunidade dos povos do mundo. p.917

Referência:
Ferrer, J. Medicina y Espiritualidad: redescubriendo uma antigua alianza. In: Bioética: um diálogo Plural
(Homenaje a Javier Gafo Fernández). Madrid: Ed. Univ. Pontificia Camillas, 2002:891-917.

Material de apoio - Bioética e Espiritualidade


Página de Abertura - Bioética
Texto incluído em 07/08/2003
(c)Salgueiro/2003

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