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O Vampiro

"O vampiro é um tipo peculiar de morto retornado, uma pessoa morta que retorna à vida
para uma continuada forma de existência bebendo o sangue dos vivos”. No pensamento
popular, o vampiro é considerado um 'morto-vivo', tendo completado a vida terrena, mas
ainda ligado a essa vida e ainda não-recebido nos reinos dos mortos.
O vampiro é diferente do fantasma, um espírito desencarnado, na medida em que o
vampiro habita um corpo inanimado. Distingue-se do violador de túmulos porque esse não
tem controle da inteligência, sendo guiado apenas pela sua fome, banqueteando-se no
corpo de sua vítima mais do que apenas sangue. O consumo de sangue é a atividade mais
característica dos vampiros. Portanto, o tema vampiro, também é usado para descrever
várias criaturas mitológicas que bebem sangue, bem como pessoas vivas que se
engajam em atividades similares.
Finalmente, o termo tem sido usado para descrever pessoas (e espíritos) que se engajam
em vampirismo psíquico, o processo de drenar a força vital ou a energia (ao contrário
de sangue) de outras pessoas.

A CONTROVÉRSIA DO VAMPIRO NO SÉCULO 18:


No século 18, os estudiosos ocidentais consideraram, pela primeira vez, a existência do
vampiro como algo mais do que apenas um elemento da vasta cultura folclórica rural do
sobrenatural. A controvérsia foi desencadeada por uma série de incidentes de histeria
vampírica, ocorridos na Prússia Ocidental, em 1721, e nas terras do Império Austro-
Húngaro de 1725 a 1732.
Esses casos culminaram com os famosos eventos em torno de Arnold Paul (ou Paole),
um soldado austríaco aposentado que tinha se estabelecido na Sérvia e que foi acusado
de ser o surto de vampirismo na sua comunidade. Diversos casos dessa natureza foram
objeto de investigação e de relatórios formais para o governo, e um relato feito as pressas
sobre o caso Paul circulou em toda a Europa. A publicação do livro sobre Paul originou
nada mais nada menos do que uma dúzia de tratados e quatro dissertações. A
controvérsia sobre seu caso durou uma geração, envolvendo por fim, alguns dos mais
famosos estudiosos da Europa, incluindo Diderot e Voltaire. A questão da existência dos
vampiros foi argumentada sob bases legais, teológicas e científicas. A questão se tornou
mais do que acadêmica na medida em que os aldeões, afetados na crença dos vampiros,
estavam ativos em suas comunidades, abrindo túmulos e mutilando ou destruindo
quaisquer corpos que mostrassem características indicativas de vampirismo. Embora
alguns membros da comunidade intelectual tentassem defender a existência dos
vampiros, a maioria concluiu que pelas provas apresentadas eles não existiam. Essa última
argumentação citou uma porção de fenômenos naturais relacionados a vampiros, tais
como sepultamento prematuro e raiva (que causa uma sede insaciável nos infectados).
Também atribuíram os relatos a polêmicas teológicas em áreas onde o governo austríaco
católico tem sido imposto sobre a população ortodoxa.
A mais cuidadosa defesa dos vampiros veio do estudioso bíblico francês Dom Augustin
Calmet em seu trabalho de 1746 intitulado Dissertations sur les Apparitions des Anges,
des Démons et des Espirits, et sur les revenants, et Vampires de Hungrie, de Bohême, de
Moravie, et de Silésie.
A publicação do tratado de Calmet, dada a sua reputação como estudioso, iniciou um
segundo estágio de controvérsia acadêmica, em grande parte encerrada no final da
década de 1830. 
Mesmo que o Vaticano tenha ignorado Calmet, sua opinião de que os vampiros não
existiam foi estabelecida por um conjunto de conclusões do Arcebispo Guiseppe
Davazanti, publicado dois anos antes do livro de Calmet.
Dez anos após o lançamento do livro de Calmet - e em meio à controvérsia que provocou
- uma onda de histeria vampírica ocorreu na Silésia. A Imperatriz austríaca Maria Thereza
enviou seu médico particular para investigar o incidente. Em seu relatório, o Dr. Gerhard
Van Swieten ridicularizou a prática da exumação e da execução de supostos vampiros
como uma "mágica póstuma". Como resultado, em 1755 e 1756, Maria Thereza proibiu a
Igreja e as autoridades locais das vilas de tomar qualquer ação em casos de supostos
vampiros. Somente funcionários graduados do governo central poderiam responder a
esses casos. As ações da imperatriz austríaca terminaram com o que restava de qualquer
debate público sobre o assunto.

VAMPIROS REAIS NO SÉCULO 19:


Da metade do século 17 até a segunda metade do século 19, nenhuma tentativa séria
para provar a existência dos vampiros foi feita, pelo menos em sua forma folclórica.
Uma tentativa para defender o vampiro folclórico foi lançada em meados de 1800 pela
comunidade espírita. Porta-vozes que surgiram durante a primeira geração de espíritas da
Europa, onde as lendas de vampiro eram mais prevalentes, ofereceram um novo raciocínio
para os vampiros - vampirismo psíquico.
Na década de 1860, Z.J. Piérart sugeriu que os fenômenos descritos nos relatos
folclóricos de vampiros poderiam ser atribuídos aos corpos-astrais dos vivos ou dos mortos
que se alimentavam da energia dos vivos. O corpo-astral, por mais indefinível que fosse,
proporcionava um agente para a transmissão da vitalidade aos mortos e era responsável
pelos corpos, que, enterrados durante semanas ou meses, não se decompunham, e
quando descobertos manifestavam inúmeros sinais de uma vida em andamento. A
sugestão de Piérart, que tinha precursores em escritores de ocultismo anteriores, foi
adotada por expoentes teosóficos e espíritas e os relatos de "vampiros verdadeiros"
começaram a aparecer nos jornais de ocultismo.

VAMPIRISMO COMO FETICHE DE SANGUE:


Enquanto incidentes mais benignos de vampirismo psíquico estavam sendo relatados,
começaram a aparecer relatos de crimes de vampiro.
Nos anos 20, dois casos de assassinos em série com tendências vampíricas chocaram a
opinião pública da Europa.
Em 1924, tomaram conhecimento de Fritz Haarmann de Hanover, na Alemanha, que
matou nada menos que 24 rapazes. Recebeu seu apelido de matador "vampiro" porque
mordia as pessoas que assassinava e bebia um pouco de seu sangue.
Cinco anos mais tarde, Peter Kürten (ou Kuerten), de Düsseldorf, participou de uma
orgia assassina, confessando mais tarde que sentia um gozo sexual e uma descarga
quando observava o sangue jorrar de suas vítimas.
Relatos raros de matadores em série com algum fetiche de sangue, também foram feitos.
Um dos mais lúgubres referia-se a uma série de assassinatos de prostitutas em Estocolmo,
Suécia, entre 1982 e 1987. Durante esses períodos  pelo menos 27 prostitutas
desapareceram da cidade e seus corpos  foram descobertos mais tarde cirurgicamente
desmembrados e drenados de sangue. Finalmente presos e julgados, neste caso estavam
dois médicos, Teet Haerm e Thomas Allgren.
A detenção de Haerm chocou muitas pessoas. Era médico examinador sênior da polícia e
um dos principais patologistas do mundo. Seus artigos tinham sido publicados em vários
periódicos médicos, incluindo o Lancet, importante revista médica britânica. Ele tinha
ainda sido chamado para examinar os restos mortais de algumas mulheres que
posteriormente foi acusado de assassinar. Allgren, o melhor amigo de Haerm, era
dermatologista. No final, Allgren confessou e testemunhou no julgamento de Haerm. De
acordo com Allgren, Haerm tinha um intenso desejo de brutalizar e matar prostitutas. Para
justificar a ânsia de seu desejo os dois tinham iniciado uma cruzada para livrar Estocolmo
das prostitutas. Entretanto, Allgren também descobriu que Haerm tinha uma ânsia por
sangue derramado e que depois das mortes drenava e bebia o sangue das vítimas.
Allgren foi finalmente denunciado por sua filha, que alegou ter sido molestada
sexualmente pelo pai. Ao falar sobre sua experiência, também descreveu em detalhes o
assassinato de uma prostituta que ela tinha presenciado. Os testemunhos de Allgren e de
sua filha foram ouvidos no julgamento de 1988, na qual a filha testemunhou que a ânsia
de sangue levou Haerm ao campo de patologia, mas que ele descobriu posteriormente,
que trabalhar com cadáveres não lhe dava satisfação. Começou aí, então, sua orgia
assassina.
Haerm e Allgren foram condenados pelo tribunal, em 1988, à prisão perpétua. Entretanto
suas sentenças foram anuladas e em novo julgamento foram declarados inocentes,
mesmo tendo o juiz anotado em sua decisão que havia provas razoáveis de que não eram
inocentes. Os dois acusados foram soltos.

Outro caso recentemente divulgado de um matador "vampiro" referia-se a Richard


Chase, de Sacramento, Califórnia. Os atos nefandos documentados, cometidos por Chase,
começaram em dezembro de 1977, com o assassinato de Ambrose Griffin. Um mês
depois, em 13 de janeiro de 1978, Chase atirou em Theresa Wallin, após o que mutilou
seu corpo com uma faca. Nesse ato, coletou um pouco de sangue numa xícara e bebeu.
Uma semana após o ataque a Wallin, matou quatro pessoas na casa de Evelyn Miroth, que
ele também mutilou e cujo sangue também bebeu. O sobrinho pequeno de Miroth, que
estava lá em visita, foi levado por Chase, que o matou, bebeu seu sangue e jogou seu
corpo no lixo.
De acordo com Chase, ele acreditava que estava com envenenamento de sangue e
precisava de sangue novo. No passado, tinha caçado, ou seja, começado por pequenos
animais, como coelhos e gatos, passando mais tarde para vacas. Matava-os e bebia seu
sangue, e seu desleixo tinha ocasionado diversos encontros com as autoridades. Após um
desses encontros em 1977, tomou a decisão de começar a matar as pessoas. Um ano
antes, tinha se internado em um manicômio, manifestando uma mania de sangue. Seus
companheiros de hospital começaram a chamá-lo de Drácula. Detido logo após o
assassinato de Miroth foi condenado por seis acusações de homicídios. Morreu na prisão,
onde se suicidou em 1980, com 31 anos.

Os exemplos de Haarmann, Kürten e Haerm são apenas tangenciais ao que


tradicionalmente se tem julgado como vampirismo. São matadores em série, que, entre
outros problemas, manifestam uma ânsia por sangue. O sangue não era o objeto de sua
procura e beber o sangue era apenas uma prática lúgubre e muitas vezes superficial nas
quais se engajavam. Chase era um pouco diferente e se aproximava mais do verdadeiro
vampirismo (sanguinarius). Embora não tivesse procurado sangue para prolongar sua
vida, procurava ingestões regulares de sangue para contrabalançar os efeitos do veneno
que ele achava estar recebendo. No final, entretanto, sua atividade vampírica se encaixou
na modalidade de assassino em série, a ânsia de sangue sendo apenas um aspecto
periférico dos assassinatos.

SURGEM ALGUNS VAMPIROS REAIS:


Durante os anos 60, e em parte, devido aos filmes Dracula, da Hammer Films*, e a
série Dark Shadows*, o interesse do público por vampiros aumentou sobremaneira,
sendo fundado o primeiro dos atuais fã-clubes e grupos de interesses por vampiros.
No início dos anos 1970, o Count Dracula Fan Club, o Vampire Information
Exchange e o Vampire Studies Society (agora Vampire Studies)* foram formados
nos Estados Unidos, sendo seguidos na Inglaterra pelo Vampire Research Society e o
Dracula Society*. À medida que esses grupos se formavam, os responsáveis
começaram a encontrar pessoas que alegavam ser vampiras. No início, dedicados que
eram ao vampiro literário (e não acreditando realmente que os vampiros existiam), os
líderes dos grupos de interesse por vampiros não levavam em conta essas histórias. Entre
os que levavam os relatos a sério estavam D. Scott Rogo, Sean Manchester*,
fundador da Vampire Research Society, em Londres, e Stephen Kaplan*, fundador do
Vampire Research Center*, em New York.
Rogo, Manchester e Kaplan começaram suas pesquisas a partir de um interesse anterior
pelos fenômenos psíquicos. No final dos anos 60, Rogo tentou fazer com que a American
Society for Psychical Research* se interessasse pelo vampirismo, mas foi incapaz de
movê-los de seus interesses mais centrais. A maioria dos parapsicólogos pensava que seu
campo já estava suficientemente colocado na periferia. Forçado a escolher, Rogo logo
reprimiu seu interesse pelo vampirismo e, durante os anos 70 e 80, deu sua própria
contribuição como escritor, tentando trazer a pesquisa psíquica para o centro da
comunidade científica.
O Vampire Research Society de Sean Manchester se originou de seu papel anterior como
líder de um bureau de investigação sobre o ocultismo. A sociedade investiga todos os
aspectos de "fenômenos sobrenaturais vampíricos", tarefa que tem proporcionado uma
série de projetos de pesquisa, incluindo o famoso Vampiro de Highgate e os projetos
Kirklees.
Stephen Kaplan fundou o Vampire Research Center em 1982. Sua primeira entrevista com
pessoas alegadamente vampiras foi com um casal que o apresentou ao mundo noturno
dos vampiros,  suas práticas sexuais alternativas (no caso, sadomasoquismo) e a
existência de doadores, pessoas que (mediante pagamento) permitem que os vampiros
bebam seu sangue. De seus primeiros encontros, Kaplan começou a desenvolver uma
definição racional dos vampiros. Eram pessoas que se encaixavam nos seguintes critérios
(sanguinarius): precisam de quantidades regulares de sangue, acreditam que o sangue
prolonga sua vida ajudando-os a se manterem jovens, e muitas vezes acham que o
sangue e o seu consumo são sexualmente excitantes.

(Fonte: O Livro dos Vampiros – A Enciclopédia dos Mortos-Vivos, J. Gordon


Melton, 2003).