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Amores de inverno

AMORES DE INVERNO
Comédia de Rua de Everaldo Vasconcelos

PERSONAGENS:
IRENE
PREFEITO
CABO MALAGUETA
MARIETA
BENEDITO
CARLÃO (ou Carlota)
JUIZ

CENA 1 - BORDEL DE DONA IRENE

IRENE - Benzinho, eu soube que o povo da capelinha não quer que eu vá por lá para não
contaminar o ambiente...
PREFEITO - Ligue para esse povo não, é um monte de beata que só faz rezar o dia todo,
IRENE - Mas eu também tenho necessidade de ir rezar...
PREFEITO - Então vá, você tem a minha autorização...

CENA 2 – NA PRAÇA DO CORETO

CABO MALAGUETA - Marieta, você deve se casar comigo...


MARIETA - Mas eu gosto é de Benedito...
CABO- Mas ele é um pé rapado...
MARIETA - Mas eu gosto dele...
CABO - que futuro ele pode lhe dar...
MARIETA - E tu Cabo da guarda municipal de Arraial das Flores, que é que tu pode me dar?
CABO - Primeiramente , o meu amor...
MARIETA - Amor, custa caro viver no dia a dia com uma mulher luxenta como eu...
CABO - Eu faço de tudo pra você ter do bom e do melhor...
MARIETA - Tu me dá uma TV de plasma 3D com 300 polegadas?
CABO - E tem dessas?
MARIETA - Se tem não sei, só sei que eu sou muito exigente e não gosto das mesmas coisas que
as outras...
CABO - Vou levar você prá comer em restaurante chique...
MARIETA - Aonde será, será na Bodega do Marcolino ou no Mosqueiro da rodoviária?
CABO - Não caçoe de mim que eu mesmo apaixonado ainda sou uma autoridade.
MARIETA - Cabo, de vassoura ou Cabo de panela?
CABO- Acredite em meu amor...
MARIETA - Já lhe disse que eu gosto de Benedito...
CABO - Pois eu vou lhe provar que com ele você não se casa...
MARIETA- Pois o casamento já está marcado para acontecer na capelinha de São João.
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CABO - Vou lhe mostrar que tu não casa.

(ENTRA BENEDITO)

BENEDITO - Cabo Malagueta, a maior autoridade militar de Arraial das Flores...


CABO - Não me venha com caçoada...
BENEDITO – Eu? Quem sou eu, para caçoar da guarda municipal que só tem um Cabo e
dois soldados?
MARIETA - Pois é, se tu fosse ao menos coronel...
CABO - Pois me aguarde...
BENEDITO - Cabo, eu quero lhe convidar para ser o padrinho de meu casamento...
CABO - e tu vai casar com quem?
BENEDITO - Com Marieta.
CABO- Ela está iludida com a sua lábia, mas eu vou conseguir um meio de mostrar que você é
um bosta...
BENEDITO- Cabo, cuidado com os palavrões, não fica bem para uma autoridade...
CABO - E o que está fazendo você aqui no horário do expediente?
BENEDITO - No meu expediente mando eu...
CABO- Vou comunicar ao Prefeito esta irregularidade...
BENEDITO - O Prefeito não pode atendê-lo pois está com a sua quenga preferida.
CABO- Me aguarde...
BENEDITO- Vou ficar aqui tremendo de medo, aguardando ...

(O CABO SAI SEGUIDO POR BENEDITO E MARIETA)

CENA 3 - NO GABINETE DO PREFEITO

CARLÃO- Senhor Prefeito aconteceu uma estrondosa calamidade na capelinha...


PREFEITO - o que foi ? O teto caiu?
CARLÃO - Que nada... Muito pior...
PREFEITO - Alguém morreu... espero que tenha sido alguém da oposição...
CARLÃO- Que nada, muito mais fedido...
PREFEITO - Encontraram uma beata morta apodrecendo?
CARLÃO - Que nada, jogaram bosta na Dona Irene...
PREFEITO - Bosta?
CARLÃO - E ainda ficaram gritando: “quenga de bosta do Prefeito bostão”...
PREFEITO- mas isto é um atentado à minha administração...
CARLÃO - Atentado mesmo vai ser quando a Dona Irene chegar aqui toda coberta de titica...
PREFEITO - Ele está vindo para cá toda melada de coco?
CARLÃO_ corri na frente para avisar o senhor...
PREFEITO - Vá ao encontro dela se agarre com ela e leve-a para casa, dê-lhe um banho, que eu
estou chegando...
CARLÃO - Dar um banho em dona Irene?
PREFEITO - De olhos fechados, se eu souber que você abriu os olhos, nem que seja pra ver um
pedacinho do biquinho do peito dela, eu capo você.
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CARLÃO - Pode deixar que eu sou cego de nascença...
PREFEITO - E depois vá chamar o Juiz que eu tenho umas obrigações para ele.

CENA 4 – NA PRAÇA DO CORETO

MARIETA - Benedito, como tu é forte. Gostei da tua brabeza com o Cabo...


BENEDITO - Então eu mereço uns beijinhos e uns amassos.
MARIETA- Que safadeza é essa? Eu sou uma moça direita.
BENEDITO - E quem disse que era torta? O que eu pedi foram somente uns arrochos pré-
nupciais...
MARIETA - Por quem você me toma?
BENEDITO- É só para ir começando a cheirar a fruta antes de comê-la.

(MARIETA BATE EM BENEDITO )

BENEDITO - ai, ai, não me bata...


MARIETA - Isto é para você aprender a respeitar as mulheres.
BENEDITO - Mas nem uma bitocazinha.
MARIETA- Nada... Somente depois do casamento...
BENEDITO - É por isso que os homens se desesperam e terminam indo ficar com as mulher-
dama da casa de Dona Irene.
MARIETA- O que foi que tu disse Benedito?
BENEDITO - Eu disse que o Prefeito foi para a casa de Irene procurar um sofá-cama...
MARIETA - Não foi isso que eu escutei.
BENEDITO - Ai, que mulher de ouvido mais sensível...
MARIETA - Falou o quê...
BENEDITO - que você tem um coração muito sensível.

CENA 5 – NO GABINETE DO PREFEITO

(ENTRA O PREFEITO PENSATIVO, LOGO EM SEGUIDA ENTRA CARLÃO)

CARLÃO - Prefeito, Prefeito, o homem disse que não podia vir ao seu gabinete que pega mal.
PREFEITO - Volte e diga pra ele que deixe de ser frouxo, que quem manda aqui sou eu...
CARLÃO - Já disse, mas ele tem medo da corregedoria do tribunal.
PREFEITO- Mas será o Benedito?
CARLÃO - Benedito foi no mictório.
PREFEITO- Não é desse Benedito que estou falando.
CARLÃO - É de qual então?
PREFEITO- Homem faça o que eu disse ...
CARLÃO - O que?
PREFEITO- Nada, nada. Se Maomé não vem, eu vou até ele...

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(O PREFEITO SAI. ENTRA BENEDITO)

CARLÃO - Lá vai o prefeito feito uma bala.


BENEDITO - Esse homem não é muito bom do juízo, não.
CARLÃO - Fala baixo senão tu vai para a lista medonha.
BENEDITO - E eu vou temer o que?
CARLÃO - Cala a boca Benedito senão tu perde o emprego...
BENEDITO - Esta merda...
CARLÃO - Benedito, cuidado com a língua.

CENA 6 - NO GABINETE DO JUIZ.

JUIZ- Boa tarde, Senhor Prefeito, bem vindo ao tribunal de Arraial das Flores...
PREFEITO- Boa tarde, só se for prá suas quengas...
JUIZ- Prefeito, nós somos amigos, mas se lembre que eu sou a autoridade... E nós temos muitos
problemas aqui nesta cidade, a começar pela sua eleição, o senhor sabe que perdeu o pleito por
um voto para Marieta…
PREFEITO- E o Senhor se lembre que eu tenho as fotos de Vossa Excelência entrando no
Cabaré de Dona Irene... Preciso de mais algum argumento.
JUIZ- Nós somos amigos...
P- Então, esqueça o resultado da eleição e vá logo assinando aí uma liminar que eu quero botar
abaixo aquela capela.
JUIZ- Não precisa, o Senhor já desapropriou o imóvel...
PREFEITO- É, mas aquele gentinha descarada não quer sair de lá e tudo porque uma beata teve
uma visão de um anjo batendo as asas.
JUIZ- Não dá para ter um entendimento entre as partes?
PREFEITO- Não, já estou com o trator da prefeitura acampado na rua vizinha, quando o senhor
assinar este papel, eu entro lá e derrubo tudo. Lá vai ser o aeroporto de Arraial das Flores.
JUIZ- Homem, eu posso me prejudicar...
PREFEITO- Se prejudica, não sei, mas eu sempre lhe recompensei muito bem , ou com
dinheiro, ou com passe livre na Casa de Irene.
JUIZ- Que é isso, não fale assim,
PREFEITO- Falo, e se quiser boto na difusora. Mas não se preocupe não, que estamos nos
extremos dos judas. O resto do mundo nem sabe que nós existimos.
JUIZ- O senhor pode tudo, não precisa de minha assinatura.
PREFEITO- Preciso, por causa da oposição e do falatório geral. Isto poderia atrapalhar a minha
candidatura a cargos maiores...
JUIZ- Amanhã, pois agora estou sem papel...
PREFEITO- Não seja por isso, eu trouxe uma folha em branco. Assine aí logo...
JUIZ- Em branco?
PREFEITO- É para não dar trabalho ao senhor de pensar nas palavras, deixe que eu cuido disso.
JUIZ- O senhor não pode me obrigar...
PREFEITO- Pegue esse envelope...
JUIZ - É dinheiro?
PREFEITO- Dessa vez não. É teu rabo preso. São cópias das tuas devassidões na Casa de Irene.
Cabaço custa caro doutor.
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(O JUIZ ASSINA O PAPEL)
PREFEITO- Passe bem.
(O PREFEITO SAI)

CENA 7– NA RUA DO TRATOR

MARIETA - Cabo Malagueta, eu não acredito que você vai derrubar a Capelinha de São João...
CABO MALAGUETA- Se o Prefeito mandar, claro que vou...
MARIETA- Pois eu nunca mais quero falar com você. Vou ficar com Benedito.
CABO MALAGUETA - Marieta, se tu fizer isso eu te arrebento toda...
MARIETA- E tu vai preso pela Lei Maria da Penha.
CABO MALAGUETA - Aqui não tem lei, tem o Prefeito.
MARIETA- vou reclamar ao Juiz.
CABO MALAGUETA - O Juiz se borra de medo do Prefeito. Não se preocupe que ninguém virá
lhe ajudar nesse cú do mundo...
MARIETA- Que linguagem baixa, poderia pelo menos usar um sinônimo.
CABO MALAGUETA - Furico, serve? Este furico de lugar pertence a quem tem mais força.
MARIETA- Imbecil... (SAI)

(ENTRA O PREFEITO)

PREFEITO- Cabo malagueta, ligue o trator, consegui a liminar do homem, está aqui...
CABO MALAGUETA - Mas está em branco.
PREFEITO- Melhor ainda, assim a gente pode usar mais de uma vez.
CABO MALAGUETA - O senhor acha que a gente deve mesmo botar abaixo logo, não seria
melhor pedir para eles retirarem a imagem do santo primeiro?
PREFEITO- Não. Quem espera demais não faz nada, primeiro a gente bota abaixo depois a
gente pensa em como calar os insatisfeitos.
CABO MALAGUETA- Não poderia deixar para amanhã?
PREFEITO- Cabo, você está amarelando?
CABO MALAGUETA - É que Marieta disse que me largava se eu derrubar a capela.
PREFEITO- Mande essa mulher à merda, tem muito material novinho no Cabaré.
CABO MALAGUETA - O senhor, está chamando Marieta de quenga?
PREFEITO- Ainda não. Vamos lá, ligue a máquina.
CABO MALAGUETA - O senhor é quem manda, mas quero promoção de patente, quero ser
Capitão.
PREFEITO- Não existe este posto na Guarda Municipal...
CABO MALAGUETA - O senhor não é o dono... Então crie...
PREFEITO- Olhe o respeito!
CABO MALAGUETA- Seja feita a sua vontade.
PREFEITO- Tanto na sua casa, como em toda a cidade de Arraial das Flores.
CABO MALAGUETA- (APARTE) – É Jesus Cristo...
PREFEITO- Falou o que Sargento?
CABO MALAGUETA- Nada não. (APARTE)Está melhorando... Já subi de patente. (PARA O
PREFEITO) Eu ouvi “Capitão”, Senhor Prefeito?
PREFEITO- Ainda não...
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CABO MALAGUETA- Vou botar tudo abaixo agora!

(SAI O PREFEITO. O CABO MALAGUETA PEGA UM TRATOR. ENTRA MARIETA E


FICA NA FRENTE)

CENA 8– NA RUA DO TRATOR MOMENTOS ANTES

CABO - Saia da frente Marieta...


MARIETA... Não saio.
CABO- Você está me prejudicando a minha promoção.
MARIETA- mas uma promoção destas não vale a pena...
CABO - eu vou ser capitão... já sou praticamente sargento.... e se derrubar esta capela
então,
MARIETA - você é um cabeça de melão...
CABO - Olhe o respeito com as autoridades.
MARIETA - Eu devia era ter escutado Benedito...
CABO - Que é que tem Benedito...
MARIETA - Ele falou que voce era uma pessoa muito arrogante...
CABO - Ee falou isso?
MARIETA- Falou mais... Disse que era burro...
CABO - pois agora eu vou mostrar a ele quem é burro,

(O CABO DÁ RÉ NO TRATOR. E FAZ UM DESVIO MAS MARIETA SE


LEVANTA E SE COLOCA NOVAMENTE DEITADA NA FRENTE DO TRATOR. )

MARIETA - É burro.
CABO - Marieta, não me faça cometer uma besteira...
MARIETA - Se cometer vai prá cadeia e nem sargento, nem CABO, nem capitão...
CABO- Marieta, eu vou bater em você...
MARIETA- Encoste um dedinho em mim que lhe boto na lei Maria da Penha e aí quero
ver a cor de tua patente atrás das grades.
CABO- É assim, pois espere...

(O CABO DÁ RÉ NOVAMENTE NO TRATOR E TENTA OUTRO DESVIO, MAS


MARIETA VOLTA A SE DEITAR NA FRENTE DO TRATOR.)

MARIETA- É melhor você desistir que eu estou com a proteção dos anjos...
CABO - É assim, pois eu tenho também a proteção deles desde criancinha...
MARIETA - E vai derrubar a capela deles...
CABO - Não sou eu, eu somente cumpro ordens, é o Prefeito para agradar a Dona Irene.
MARIETA - Seja o que for, você só passa aqui por cima de meu cadáver...

(O CABO DESCE DO TRATOR E VAI TENTAR ARRASTAR MARIETA, MAS


QUANDO DÁ AS COSTAS PARA VOLTAR PARA O TRATO MARIETA CORRE
E SE COLOCA NOVAMENTE NA FRENTE DA MÁQUINA. )
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CABO - ah, mulher bexiguenta, pois eu vou na capela pedir logo perdão dos meus
pecados antecipadamente, pois vou cometer uma besteira...

(O CABO DEIXA NOVAMENTE O TRATOR E ENTRA NA CAPELA, ENQUANTO


ISSO MARIETA SOBE NO TRATOR E COMEÇA A DIRIGI-LO AOS SALTOS.)

MARIETA - Agora sou eu que vou dar uma lição àquele Prefeito. Meu deus como é que
se controla isto aqui, acuda aqui Cabo, senão eu derrubar a capela com você dentro.

(O CABO FICA NA PORTA DA CAPELA.)

CABO - vire a direção para o outro lado.


MARIETA - aprendi, deixe comigo que agora eu tenho um servicinho para fazer.
CABO - Marieta desligue a chave e vamos conversar civilizadamente...

(MARIETA COMEÇA A PERSEGUIR O CABO COM O TRATOR)

MARIETA - Quem que vai bater em mulher?


CABO - Marieta pare com isso, que eu vou enredar de você ao Prefeito...
MARIETA- Estou morrendo de medo... Corre Cabo... Já ficando com as calças borradas
de medo.

(O CABO SE ESCONDE ATRÁS DA ESTÁTUA DO PREFITO EM FRENTE À


PREFEITURA )

CABO - Nós já chegamos ao prédio da prefeitura, vou lhe dar mais uma chance de parar
senão grito pelo Prefeito.

MARIETA - Eu vou é botar abaixo a estátua do Prefeito...


CABO - Faça isso não Marieta...

(MARIETA DERRUBA A ESTÁTUA DO PREFEITO)

MARIETA - Tá derrubado... Tá correndo prá onde Cabo...


CABO - Estou indo para a casa de sua excelência...
MARIETA - Antes de ir à casa de dona Irene, vou passar na pracinha e derrubar a outra
estátua desse ditador...
CABO - Faça isso não... ele é somente uma velha estátua...
MARIETA - De pedra, vai retornar ao pó.

MARIETA DERRUBA ESTÁTUA

MARIETA - Governante indígno para o chão agora...


CABO - Marieta, você vai ser presa em nome da ordem e dos bons costumes, esta
estátua custou ao município um milhão de reais.
MARIETA - Quanto Cabo?
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CABO - Um milhão...
MARIETA - Pois somente por isso eu vou eu vou passar com o trator por cima do
jardim da casa do Prefeito.
CABO - Você está presa...
MARIETA - Venha me pegar... Agora já peguei o jeito com o volante, vou para a casa
de Irene pegar a corja toda com uma tratorzada só.
CABO- Marieta, você perdeu o juízo...
MARIETA - Nunca tive... Senão não teria me candidatado a prefeita de Arraial das Flores…
CABO - E perdeu…
MARIETA - Por um voto só.

(ENTRA CARLÃO)

CARLÃO - Que marmota é essa?


CABO - Homem, corra e avise o prefeito que Marieta sequestrou o trator e está indo
para a casa de Irene botar tudo ao nível do terreno.
CARLÃO - E o Prefeito autorizou uma barbaridade dessas?
CABO- Claro que não, não tá vendo que estamos no meio de uma rebelião civil armada
de trator?
CARLÃO- O Prefeito não vai gostar disso nem um pouco.
CABO - Vá correndo antes que a desgraça seja maior.
MARIETA - Avise ao Prefeito e aos seus amigos que hoje a casa de lanternas vermelhas
vai ser libertada.

(CARLÃO SAI EM DISPARADA SEGUIDO PELO CABO E POR MARIETA COM


O TRATOR.)

CENA 9 – BORDEL DE DONA IRENE

(IRENE ESTÁ ESCONDIDA ENTRE A PLATÉIA)

PREFEITO- Cade o meu periquitinho da india?


IRENE - Tô aqui escondidinhinha...
PREFEITO - e se eu te achar?
IRENE - eu vou gritar...
PREFEITO - então grita...
IRENE - só se você me pegar.
PREFEITO-... Onde está o meu periquitinho da índia?
IRENE- está frio, muito frio...
PREFEITO- Já sei, você está escondida no meio desses moveis...
IRENE- está quente... mais quente, fervendo....
PREFEITO- Achei...

(IRENE CORRE ENTRE AS PESSOAS DEPOIS INDO PARA O CENTRO DA CENA )

IRENE - Se me pegar eu grito.


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PREFEITO- vou pegar, vou pegar.
IRENE - Ai, ai,ai
PREFEITO- - Grita mais alto...
IRENE - Ai, ai, ai
PREFEITO - Me dá um beijinho...
IRENE - Isso, não. É mais caro. Já fez o que me prometeu?
PREFEITO - Deixe o Cabo Malagueta tomando as providências.
IRENE - Quero aquela capelinha derrubada
PREFEITO - Já vou derrubar...
IRENE - depois de derrubar eu lhe dou um beijo...
PREFEITO - - E o meu docinho preferido...
IRENE- Esse você só come depois de fazer a Praça dos amores.
PREFEITO - Trato feito - Mas meu amorzinho eu estou na seca desde que você encasquetou
com aquelas beatas...
IRENE - Use a mão...
PREFEITO - - Você também está na seca...
IRENE- Sei me virar com este dedo, que diga-se de passagem é melhor amante que você.
PREFEITO - - Não precisa humilhar...
IRENE - Então se comporte...
PREFEITO - - Deixe eu beijar ao menos o seu pezinho...
IRENE- Tudo bem, o pezinho eu consinto.

(O PREFEITO FICA DE QUATRO NO CHÃO AOS PES DE IRENE)

PREFEITO- Minha florzinha linda, que pezinhos lindos, que me dá vontade de lambe-los.
IRENE - ai que nojo, lamber não.
PREFEITO - por que não, benzinho?
IRENE - é mais caro.
PREFEITO - Mais caro?
IRENE - pela tabela de hoje, mande botar na minha conta dez por cento da propina que
voce recebeu do construtor da nova sede da prefeitura.
PREFEITO- Mas eu não recebi propina, benzinho...
IRENE – Recebeu, que Isabel dos peitão fez um serviço especial para o empreiteiro e ele
entregou o serviço todo.
PREFEITO - Mas isto foi uma doação simbólica para o meu caixa de campanha...
IRENE - Então devolve o meu pé, que ele não merece a sua saliva.
PREFEITO - Eu pago, amanhã mesmo eu mando Carlão depositar em sua conta.
IRENE - Assim, pode lamber...

(ENTRA CARLÃO ESBAFORIDO)

CARLÃO - Prefeito, uma tragédia... O que é que o senhor está fazendo de quatro?
PREFEITO - É que caiu um cisco no meu olho
CARLÃO- E o seu olho caiu no chão?
IRENE - Não imbecil, foi uma arruela do meu brinco de brilhante olhão, que caiu no chão e sua
excelência está investigando o terreno...
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CARLÃO - E pelo jeito lambendo... O seu pé está todo melecado.
IRENE - (BATENDO NO PREFEITO) Eu já lhe disse prá não escarrar no meu pezinho.
PREFEITO - Pondo se de pé - Desculpe, é este meu pigarro.
CARLÃO - Aconteceu um fato inesperado...
PREFEITO - Fala homem desembucha...
CARLÃO - Marieta ... O Cabo malagueta...
PREFEITO- Deu Cabo daquela infeliz...
CARLÃO - Que nada...
PREFEITO - Derrubou a capela?
CARLÃO - Que nada...
IRENE- Não derrubou a capela?
CARLÃO que nada...
PREFEITO - O que acontece, então?
CARLÃO - Marieta, se deitou na frente do trator...
PREFEITO - O Cabo passou por cima?
CARLÃO - Que nada... Ele deu ré e avançou pelo outro lado...
IRENE- Derrubou a capela?
CARLÃO- que nada... Ela correu e se deitou na frente novamente,
PREFEITO - Ai ele deu ré e contornou de novo...
CARLÃO - Que nada... Ele desceu do trator e foi na capelinha fazer uma oração pra Marieta
sair da frente do trator.
PREFEITO - Aí, ele saiu e pegou o trator...
CARLÃO - Não o trator sumiu...
PREFEITO - Sumiu? Como? Um anjo levou pro além?
CARLÃO- Que nada... Marieta subiu nele...
PREFEITO - E ela sabe dirigir aquela coisa?
CARLÃO - Que nada... Este é o problema que corri pra avisar o senhor... Ela está aprendendo
por tentativa e erro, ela já errou na sua estátua que tinha na frente da prefeitura, já passou por
cima do seu carro importado, derrubou a outra estatua sua dignissima pessoa que estava na
frente do clube e está vindo para cá para pegar o senhor e os seus amigos e libertar a casa de
Irene.
IRENE - Ah, meu benzinho me defenda desta doida...
CARLÃO - É como se diz dona, quem com ferro fere...
PREFEITO - Cala a boca Carlão...
CARLÃO – Já calei e já estou de saída que estou escutando o barulho do trator se aproximando.
IRENE - Faça alguma coisa.
PREFEITO- Vamos arredar daqui agora...
IRENE- Chame a guarda municipal?
PREFEITO - Contra um trator enfurecido não há argumentos, vamos sair daqui agora...
IRENE - Eu me recuso a deixar a minha casa por causa desta doida...
PREFEITO - Ela é doida e eu tenho juízo e além do mais não posso ser flagrado aqui neste
estabelecimento obscuro...
IRENE - Repita o que acabou de dizer?
PREFEITO - Amanhã, eu digo o que você quiser. (SAI)
IRENE - Isto não vai ficar assim… Garotas, venham para cá para receber a nossa quase-
prefeita.

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CENA 10 – NA CASA DO JUIZ

PREFEITO - Meritíssimo, eu lhe chamei aqui para discutir os detalhes da condenação à


morte de Marieta.
JUIZ - Mas o senhor não pode condena-la à morte,seria um homicídio
PREFEITO - por que não posso?
JUIZ - é contra a lei...
PREFEITO - Mas eu tenho uma ordem judicial...
JUIZ - Impossível...
PREFEITO - assinada pelo senhor...
JUIZ- por mim?
PREFEITO - Aqui está...
JUIZ - Mas está em branco...
PREFEITO - que o senhor assinou e agora eu vou preencher...
JUIZ - Mas eu assinei na confiança...
PREFEITO - obrigado pela parte que me toca...
JUIZ - Nós dois iremos para a cadeia...
PREFEITO - Deixe de ser frouxo, se eu quisesse já teria apagado ela do mapa sem
precisar de nenhuma assinatura sua...
JUIZ - Então porque resolveu usar justo agora...
PREFEITO - É por que eu quero fazer uma figura bonita diante do eleitorado...
JUIZ- No Brasil, não existe a pena capital...
PREFEITO - Da capital ou do interior eu não sei, mas se os americanos têm, o senhor
está querendo insinuar que nós não temos.
JUIZ - Acho melhor o senhor falar com o governador...
PREFEITO - Chamei o senhor aqui para decidirmos uma forma de fazer a execução,
uma coisa bonita que possa ser transmitida pela rádio, isto mostrará o meu valor no
combate a criminalidade...
JUIZ - O governador não vai gostar...
PREFEITO - O senhor sabe que neste extremo dos Judas quem manda sou eu, então vá
se conformando que o governador come aqui na minha mão.

(ENTRA O CABO MALAGUETA )

CABO - Já prendi a meliante terrorista no coreto da Praça...


JUIZ - Amarrou a pobre mulher no coreto?
CABO - Bem amarradinha, vamos deixa-la dormir no sereno de castigo...
JUIZ - E amanhã ela será executada...
CABO - Como assim...
PREFEITO - Morta...
CABO - O senhor quer dizer, morta de frio...
PREFEITO - Ela vai ficar friazinha depois...
CABO - Depois do que...
JUIZ - O Prefeito está querendo dizer que vai mata-la de verdade numa execução
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pública...
PREFEITO - Cabo, eu preciso dos seus conselhos profissionais...
CABO- Senhor Prefeito, essas coisas a gente não faz na frente das pessoas não...
PREFEITO - E por que não?
CABO - é uma coisa assim muito constrangedora para ambas as partes...
JUIZ - Deve haver uma saída...
CABO - E por que não obriga Marieta a se casar comigo?
PREFEITO - Isto era para ser um funeral e não um casamento...
CABO - É que Marieta disse que preferia a morte a se casar comigo. Para ela seria a
morte...
JUIZ - É uma boa idéia...
PREFEITO - Senhor Juiz, isto está me cheirando a uma sacanagem comigo...
JUIZ - Não pelo contrário... O senhor quer fazer uma bela figura, quer agradar a dona
Irene, e ao povo deve mostrar a sua força, então faça algo pela salvação da família de Arraial das
Flores botando nos eixos
esta sujeita que desafiou a sua autoridade...
CABO - Eu tenho certeza de que ela vai morrer de tristeza se casar-se comigo... Será
uma morte lenta, a cada dia no lar, ela ali definhando de tristeza porque queria casar
com Benedito e foi obrigada pela justiça a casar comigo.
PREFEITO - Estou começando a gostar disso.
JUIZ - Eu mesmo posso celebrar o casamento.

CENA 11 – NA PRAÇA DO CORETO

MARIETA- Eu quero mesmo ver o que ele vai fazer comigo...


CABO - MARIETA, meu amor, nós vamos nos casar...
MARIETA - nunca...
CABO - É isto ou a morte...
MARIETA - Oxente, que escolha mais fácil, prefiro a morte...
CABO - e o casório vai ser agorinha mesmo, que é prá gente fazer a lua de mel ainda
esta noite...
MARIETA - Você está variando do juízo, Cabo?
CABO - Pronto estão chegando, o doutor Juiz, o Prefeito, e não precisa de testemunha.
MARIETA - eu sabia que aquele safado estava metido nesta estória. Ele me aguarde
que vou desmantelar a cara dele de tabefe.

(ENTRAM O PREFEITO, O JUIZ E DONA IRENE)

PREFEITO - Já soube da novidade?


MARIETA - Vou arrancar todos os seus cabelos...
PREFEITO - Vai se casar com o Cabo Malagueta, vai passar bem esta noite não é Cabo, carne
novinha e mulher assim braba, é uma loucura na cama...
MARIETA - Ja disse que não me caso...
CABO - meu amor,
MARIETA - Meu amor um cacete...
CABO- Depois, depois... Por ora se acalme…
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PREFEITO - então aqui está a terrível destruidora do patrimônio alheio...
MARIETA- E vossa excrescência não queria derrubar a capelinha de São João?
PREFEITO - É diferente, é diferente, eu posso, mando e desmando. Tudo isto aqui está
sob o meu domínio.
MARIETA - O senhor é um governante corrupto...
PREFEITO - Epa, isso não, tudo menos isso, todas as minhas contas foram aprovadas
pela câmera municipal...
CABO - Vamos apressar a o castigo que eu já estou ficando aperreado para aplica-la
umas chibatadas em casa.
MARIETA - Quero mesmo ver...
CABO- Vai prá chibata.
JUIZ- bem , estamos aqui para celebrar o casamento de Marieta com o Cabo...
MARIETA- Então é sério...
CABO - claro, meu benzinho...
MARIETA - No duro...
CABO - Já gostou da idéia?
MARIETA - Prefiro morrer de qualquer morte matada, menos me casar com este
idiota...
CABO - Vamos logo minha gente...

(ENTRA BENEDITO)

BENEDITO - Esta mulher não pode se casar...


PREFEITO - Ora e por que não?
BENEDITO - Por que nós somos amantes e ela já se casou informalmente comigo.
PREFEITO - Não seja por isso, senhor Juiz faça-me o favor de declarar eles dois
divorciados...
JUIZ - Mas eles nem são casados...
PREFEITO - Faça o que eu disse...
JUIZ- Em nome da justiça de Arraial das Flores declaro que Marieta e Benedito estão
divorciados...
CABO - Pronto meu bem, agora voce é uma mulher solteira.
PREFEITO - Pronto, senhor Juiz agora declare que o Cabo está casado com Marieta...
JUIZ - Dona Marieta, a senhora aceita...
MARIETA - Nãooooooo.
PREFEITO - Pule esta parte e vá para os finalmente , rápido antes que esta cobra
caninana se solte daí e faça outro estrago ainda maior.
JUIZ - Declaro Marieta e o Cabo malagueta casados...
CABO - Para sempre?
BENEDITO - Aí depende da dureza do quengo.

(BENEDITO BATE NO CABO COM UM PORRETE E ELE DESMAIA)

PREFEITO - Cuidado com este Benedito que ele é tinhoso.

(BENEDITO BATE NO PREFEITO NO JUIZ)

13
Amores de inverno
BENEDITO - E tu Carlão babão quer apanhar também.

(CARLÃO FOGE PERSEGUIDO POR BENEDITO)

(NISSO IRENE ENTRA E DESAMARRA MARIETA. ENTRA BENEDITO)

MARIETA - Benedito, tu é o meu herói.


BENEDITO- Marieta, acho que desta vez a gente vai ter que ir embora de Arraial das Flores…
MARIETA - É, não dá prá ficar aqui neste fim de mundo a mercê dos desmandos, mas
por outro lado se a gente for embora quem é que vai lutar para melhorar este lugar?
BENEDITO - mas quando eles se acordarem, vão querer me esfolar vivo...
MARIETA - tive uma idéia, vamos negociar...Pegue um balde d’água, Dona Irene…

(IRENE PEGA UM BALDE COM AGUA E JOGA NOS QUATRO QUE ESTÃO
AMARRADOS)

MARIETA - Acorda minha gente.


PREFEITO - Sua bandida, me solte daqui agora...
MARIETA - Calminha, que eu tenho uma proposta razoável, primeiro o senhor vai
regurlarizar a sua situação com Dona Irene.
PREFEITO - Como assim regularizar...
MARIETA- O senhor vai pagar tudo que lhe deve a ela agora...
IRENE - Gostei da proposta...
MARIETA - Vamos lá excelência, preencha o cheque...
PREFEITO - Pera aí, que não estou concordando com esta estória...
IRENE - Como não?
PREFEITO - Eu não posso me pagar nada a você...
IRENE - Porque não? Responda se for homem...
PREFEITO - É porque se eu pagar tudo o que lhe devo eu vou ficar sem nada…
MARIETA - É isto mesmo...
JUIZ - E tem mais uma coisa que eu preciso revelar…
PREFEITO - Não diga nada
IRENE - Desembuche homem
MARIETA - Estou aguardando…
PREFEITO - Vossa excelência não pode ser refém destes bandidos, senão pode se arrepender de
suas palavras…
JUIZ - Não me importo mais, pois isto já passou dos limites. Dona Marieta a senhora é que é a
verdadeira prefeita de Arraial das Flores. Aceitei ser chantageado por que sou apaixonado por
Dona Irene.
MARIETA - Eu sou a prefeita eleita?
JUIZ - Sim. E vou dar posse a você agora.Marieta, declaro você prefeita de Arraial das Flores.
IRENE - Muito bem, gostei de ver.
JUIZ- Pois é, Dona Irene, eu consegui manter a nossa paixão em segredo debaixo de muita
chantagem. O prefeito achava que eu estava ficando com as meninas... Até me dava envelopes
com dinheiro, nunca gastei um centavo, e vou entrega-los todos a nova prefeita.
PREFEITO - Então, eu é que fui o idiota?
IRENE- Meu bem, não precisamos esconder mais o nosso amor.
14
Amores de inverno
CABO - E eu? Vou ser demitido?
IRENE- Ora, Cabo, você poderia aprender a tratar melhor as pessoas.
CABO- E a minha patente?
MARIETA - Você voltou para o cargo de cabo. Agora pode desamarrar-los. Eu garanto que ele
não vão machucar
ninguém.
PREFEITO - E mudou assim tão rápido. De onde vem essa tua força?
MARIETA - São os mistérios do povo, agora duvide de mim que faço uma
demonstração.

(BENDITO DESAMARRA TODOS)

BENEDITO - Tive uma ideia melhor, vamos fazer o casamento coletivo na capelinha.
IRENE - É uma boa ideia.
BENEDITO - Até parece que tudo se resolveu direitinho.
MARIETA - É este o poder que tem as estórias de faz de conta, mas na vida a dureza é
outra.

(ENTRA CARLÃO)

CARLÃO - Todo mundo se arrumou e eu fiquei sozinho.


MARIETA - Ora Carlão, pergunta pra alguém aqui presente se quer se casar com
você.
CARLÃO - Alguem aqui quer se casar comigo?
BENEDITO - Acho melhor a gente encontrar uma outra saída para o final deste
espetáculo, senão vai ficar parecendo com novela de televisão.
CARLÃO - Eu também quero casar. Não quero nem saber se é chavão, mas menino, eu
sou besta?
MARIETA- Adoro, um movimento, mas antes dos casórios quero anunciar o meu primeiro
decreto: Fica proibido ter preconceito com as pessoas, a capelinha de São João é de todo mundo.

CENA 12 - CASAMENTO COLETIVO NA CAPELA

( JOGO DE IMPROVISAÇÃO COM A PLATÉIA PUXANDO-SE UMA NOIVA


PARA O CABO, OUTRA PARA CARLÃO E OUTRA PARA O JUIZ).

FIM

15

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