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“DA CADEIRA AO BANCO”

INSTITUTO DE EDUCAÇÃO
TEORIA DA EDUCAÇÃO

Maria Celeste Ferreira Rodrigues 2. º semestre 2018/2019


Segundo Kant, "O Homem não é nada além daquilo que a educação faz dele".

Os caminhos e as tendências da historiografia educativa portuguesa, no período


contemporâneo, retratam as características significativas da evolução da educação e da
escola nos séculos XIX E XX.

Parti para a leitura do livro Da Cadeira Ao Banco, com a expectativa de encontrar novos
elementos e pistas reflexivas sobre a formação do sistema escolar português.
Uma primeira curiosidade consistia em compreender as circunstâncias que levaram à
produção deste livro, cujos contornos aparecem elucidados nas Questões Introdutórias
ao livro.

O contexto de crise e as suas repercussões no campo educativo, a par da opacidade


dominante em alguns campos de análise constituíram motivos de desassossego tendo
conduzido à escrita/publicação da obra.
A obra apresenta dois capítulos nucleares: “História do Educacional Português” (p. 101)
e “Da Cadeira ao Banco” (p. 411).
Ao longo de nove capítulos estruturados em duas partes, o autor percorre vários
caminhos analíticos no encalço de novas evidências empíricas sobre a história da
educação em Portugal. A opção teórico-metodológica por uma abordagem
multidimensional, ancorada em diversas escalas e planos analíticos permitiu aceder a
diferentes perspetivas, racionalidades e lógicas coexistentes no sistema educativo
português, revelando-se uma estratégia particularmente profícua e desafiadora da
própria “cultura escolar” (p. 417) desenvolvida com mestria ao longo do livro.
Os quatro primeiros capítulos incluídos na parte I oferecem uma leitura panorâmica,
extensiva e institucional das etapas da Educação no contexto português. A abordagem
sinaliza algumas linhas evolutivas em matéria de Teoria da Educação, sem deixar de
destacar algumas especificidades nacionais e regionais, tendo como referência o cenário
europeu. Este primeiro “sobrevoo” revela uma paisagem educativa trespassada por
dinâmicas, tendências e ruturas, mas igualmente por regularidades estruturantes
(continuidades) que se vêm sedimentando no sistema educativo português.

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Um primeiro desafio heurístico interpela o leitor - para quem estuda a problemática da
teoria educacional, pressente-se a necessidade de construir dispositivos para captar a
historicidade da instituição escolar, interrogando criticamente os seus alicerces
fundacionais. Ora, o livro em apreço ganhou ao imergir incisivamente nestas dimensões
substantivas da vida e da dinâmica da instituição escolar. Perante as sucessivas mudanças
e alterações políticas e legislativas ocorridas nas últimas décadas no campo educativo,
torna-se indispensável apreender as permanências sistémicas que configuram o sistema
educativo português. No fundo, identificar as regularidades no fluir das
descontinuidades. No cerne desta questão emerge a resistência de uma forma escolar
secular à vertigem das transformações sociais, tecnológicas, económicas e culturais. Por
outras palavras, a configuração organizacional da instituição escolar permanece
inalterável ao nível dos princípios fundacionais, designadamente políticos (modelo
assente na centralização, com focos desconcentrados), institucionais (modelo de
governação técnico-burocrático), organizacionais (estruturas verticais e assentes na
especialização), culturais (cultura diferenciadora alicerçada na segmentação e
individualização) e pedagógicas (modelo de ensino aprendizagem baseado no
agrupamento turma, no currículo hierarquizado, nos tempos e espaços racionalizados,
na avaliação uniformizada). A essência da configuração escolar subsiste a inúmeras
alterações e mudanças que parecem atuar nas periferias e ramificações do sistema, sem,
no entanto, atingir o tronco e a raiz do problema.
Ao incidir na primeira parte do livro sobre uma das problemáticas mais estudadas no
domínio educativo, foi oportuno revisitar e por à prova alguns contributos teórico-
empíricos produzidos sobre a realidade portuguesa, designadamente aqueles que
procuraram romper com um enfoque normativo e legalista que dominou a administração
educacional até meados da década de 1980, e que procuraram aduzir reflexão sociológica
às práticas e às estruturas da escola como organização. O espólio de investigações
acumulado nas últimas três décadas sobre as várias facetas do escolar é muito rico em
evidências empíricas denunciadoras de uma contradição entre a retórica política (nível
discursivo e legislativo) e a realidade concreta (nível das práticas em contexto),
mostrando as diferentes lógicas que se cruzam nos dois mundos (Lima, 1992; Torres,
2004, Torres e Palhares, 2010).

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A parte II do livro, composta por cinco capítulos privilegia um olhar meso e micro
analítico, no encalço das lógicas de apropriação do Educacional Português. A exploração
do tema revelou-se fundamental para apreender as a Escola na segunda metade do
século XX. Igualmente a este nível de análise ressalta a tensão entre mudança e
permanência, entre retórica e ação. A excelente narrativa de cada caso, sempre apoiada
num enquadramento metodológico rigoroso e elucidativo, oferece ao leitor uma incursão
visual pela ambiência e cultura do caso português. A combinação de várias técnicas de
pesquisa para perscrutar a realidade resultou num exercício laborioso de escuta e
observação ativa das diferentes facetas do fenómeno, sem o qual seria difícil desenvolver
uma abordagem holística do tema.
O autor sinaliza alguns exemplos paradigmáticos: bases da cultura escolar, a educação na
transição do antigo regime, a nacionalização da educação, escola e sociedade.
Este filão investigativo merecerá, certamente, novas abordagens e olhares plurais, cujas
sementes podem ser encontradas em alguns dados divulgados neste livro.
Concluo esta apreciação retomando a questão inicial sobre a especificidade educativa do
escolar em Portugal, podendo distinguir-se três fases. Na primeira (1950-60), há um
processo de acomodação do sistema de ensino vigente desde a década de 30 à realidade
socioeconómica do pós-guerra. Numa segunda fase (1960-74), assiste-se a uma maior
abertura do sistema, com uma nova tomada de consciência do atraso educacional do
país. Na terceira, e com a mudança de regime trazida pela Revolução de Abril (1974-97),
colocar-se-ão novos desafios e o sistema de ensino irá conhecer importantes
transformações qualitativas e quantitativas.
Através da procura de algumas temáticas educativas e do pensamento pedagógico no
quadro mais geral da História, o autor utilizou diversas fontes específicas, potenciando a
diversidade de interpretações, procurou romper com uma sequência excessivamente
diacrónica, permitindo não apenas uma visão mais sincrónica e interdisciplinar dos
fenómenos educativos mas potenciar comparações intemporais que, salvaguardado o
risco de anacronismos, permitem identificar a intemporalidade de alguns problemas
educativos.
Penso que, por opção, a problemática define-se num contexto da realidade portuguesa,
não esquecendo algumas comparações com realidades internacionais, mas aí sobretudo
quando essa perspetiva ajuda a perceber algumas decisões e opções internas. Também

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no que diz respeito ao pensamento pedagógico, procurou incluí-lo numa perspetiva de
receção em Portugal, fazendo nesses casos referências ao contexto internacional. Para
esta opção aduziu o sentido das temáticas, muito mais do que a especialização.
Finalmente, e alargando a inserção desta área científica no contexto institucional, o
trabalho desenvolvido visa claramente motivar os alunos desta cadeira a desenvolver,
com maior profundidade, investigação nesta área.
Eis aqui um sinal de apelo à reflexão, ela própria estimulada pela leitura deste livro.

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