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PROCESSO Nº: 0801071-04.2021.4.05.8500 - HABILITAÇÃO


REQUERENTE: CRISTIANO JOSE MACEDO COSTA FILHO e outros
ADVOGADO: Pedro Henrique Lisboa Prado
REQUERIDO: EMPRESA MUNICIPAL DE SERVIÇOS URBANOS e outro
1ª VARA FEDERAL - SE

DECISÃO

1. Relatório.

JOÃO GABRIEL DANTAS SOBRAL FEITOSA, MARIANA HENRIQUE SANTOS


ANDRADE, GUSTAVO MOTA DE MENEZES MONTEIRO, SUSANA DOS SANTOS,
NAELSON BISPO DO SACRAMENTO, CRISTIANO JOSÉ MACEDO PORTO FILHO,
ELISABETE RIBEIRO DO NASCIMENTO, MARCOS ALVES DOS SANTOS, AMANDA
ALMEIDA, KARINE ROSE FELISDÓRIO BATINGA, JOSÉ ROBERTO DOS
SANTOS, CÉLIO AMORIM DE SOUSA, JOSÉ ALEX SANTOS OLIVEIRA,
LIDIANE DE ALMEIDA MATOS, FRANCISCA SANTANA DE SOUSA, MICHELLE
DOS SANTOS, ELIELSON BRITO VILELA SANTOS, COSME MORAIS SANTANA,
JULIANA BARBOSA ARAÚJO E UBIRATAN DOS SANTOS ajuizaram ação
cautelar antecedente em face da União Federal e da Empresa
Municipal de Serviços Urbanos (EMSURB), em que requerem a
concessão de liminar visando a "suspender a demolição das
barracas situadas na faixa de areia da Praia da Cinelândia, a
fim de que possam continuar a trabalhar dignamente e prover o
sustento das suas famílias, proibindo que as Requeridas efetuem
qualquer dano ao patrimônio dos Requerentes sem o devido
processo legal sob pena de multa no valor de R$ 50.000,00
(cinquenta mil reais)".

Ao exporem os fatos que conferem substrato ao pedido, narram que


são proprietários de barracas, as quais se localizam na Praia da
Cinelândia, de cuja atividade depende a subsistência de mais de
cento e cinquenta famílias. Mencionam que a EMSURB, diante da
grande quantidade de ambulantes no local, anunciou que
procederia ao seu cadastramento. Relatam que foram realizadas
diversas reuniões entre os comerciantes e a EMSURB e que, em
19/02/2021, receberam notificação da EMSURB para que
desocupassem o local no prazo de 72 horas, sob pena de remoção
forçada ou demolição da estrutura pelas autoridades competentes.

Já no que concerne aos fundamentos jurídicos do pedido,


defendem, inicialmente, a competência da Justiça Federal, tendo
em vista que a praia é bem público da União (art. 20, IV,
Constituição Federal). No mérito, invocam o direito ao trabalho
(art. 170, Constituição Federal), o contraditório, a ampla
defesa e o devido processo legal (art. 5º, LV, Constituição
Federal). Sublinham, ainda, o perigo na demora, uma vez que o
prazo concedido para a desocupação está da iminência de findar.

Requerem, assim, a concessão da liminar, informando que, no


prazo legal, apresentarão o pedido principal, na forma do art.

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308 do Código Processual Civil.

Juntaram documentos.

É o relatório.

2. Fundamentação.

Aplicam-se ao caso os mesmos fundamentos que ensejaram a


concessão da liminar nos autos do processo nº
0801057-20.2021.4.05.8500, cujos motivos adoto, aqui, como
razões de decidir:

No caso, a parte autora impugna ordem de desocupação que


lhe foi comunicada por meio de notificação entregue em
19/02/2021, com o prazo de 72 (setenta e duas) horas.
Considerando que o prazo está na iminência de expirar,
não há condições efetivas de apreciação do pedido pelo
juízo a que o feito vier a ser distribuído durante o
expediente forense regular, tampouco de cumprimento
tempestivo de eventual decisão favorável à parte autora.
Diante, portanto, do efetivo risco de perecimento do
direito, justifica-se a análise do pleito em sede de
plantão judiciário.

A concessão da tutela provisória requerida depende,


consoante o art. 300 do CPC, do preenchimento de dois
requisitos, quais sejam, a probabilidade do direito
alegado (fumus boni iuris) e o perigo de dano ou o risco
ao resultado útil do processo (periculum in mora).

De início, registro que, neste momento, a cognição


judicial a respeito da situação trazida a juízo é
sumária, limitando-se aos documentos juntados pela
própria parte autora. Assim, não se tem, por ora, acesso
aos documentos citados na notificação recebida pela
autora (procedimento extrajudicial instaurado pelo MPF e
ofícios enviados pela SPU), certamente relevantes para a
adequada compreensão da controvérsia. Ainda assim,
diante do risco de perecimento do direito, o pleito deve
ser examinado com suporte nos documentos juntados aos
autos, sem prejuízo de que, posteriormente, com a
apresentação de outros elementos, seja reavaliado pelo
juízo a que for distribuído o feito.

Conforme narrou a parte autora, a sua barraca, nominada


"Rango da Cine", ocupa área localizada na Praia da
Cinelândia. Como é cediço, as praias constituem bem de
uso comum do povo, de titularidade da União (art. 20,
IV, CF), de modo que só podem ser ocupadas por
empreendimento particular mediante a prévia concessão de
título autorizativo.

Se os órgãos competentes constatam a ocupação irregular


do bem público, agem no regular exercício do poder de
polícia ao exigir que o particular desocupe o local, sob

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pena de demolição da obra. Essas medidas repressivas são


consequência do atributo da autoexecutoriedade dos atos
administrativos (e, em especial, do poder de polícia),
que é "a possibilidade que tem a Administração de, com
os próprios meios, pôr em execução as suas decisões, sem
precisar recorrer previamente ao Poder Judiciário",
conforme lição de Maria Sylvia Di Pietro (in Direito
Administrativo, Atlas: São Paulo, 13ª edição, p. 113).

Não obstante, justamente tendo em vista a prerrogativa


que é conferida à Administração Pública de impor o
cumprimento de seus atos sem a necessidade de recorrer
ao Poder Judiciário, exige-se que tais atos sejam
precedidos por processo administrativo no qual seja
franqueado ao particular atingido pela decisão
administrativa o exercício do contraditório e da ampla
defesa (art. 5º, LV, CF; art. 2º, Lei 9.784/99). É o que
se verifica quando a autoridade competente determina a
remoção ou demolição de ocupação que não é recente, mas,
ao revés, já se prolonga no tempo.

A respeito da exigência da instauração de prévio


processo administrativo, transcrevo a doutrina de Celso
Antônio Bandeira de Mello (in Curso de Direito
Administrativo. 20 ed. São Paulo: Malheiros, 2012, p.
519):

Surge, pois, uma questão de importância capital, qual


seja, a de saber-se quando se deverá reputar obrigatória
a instauração de um procedimento. Esta obrigatoriedade
propor-se-á nos seguintes casos:

(...)

B) Quando a providência administrativa a ser tomada,


tendo efeitos imediatos sobre o administrado, envolver
privação da liberdade ou de bens. Isso porque o art. 5º,
LIV, da Constituição estabelece: "ninguém será privado
da liberdade ou de seus bens sem o devido processo
legal". Vale dizer, estando em causa ato restritivo ou
ablativo de direitos integrados no patrimônio do
sujeito, é obrigatória a prévia instauração de
procedimento administrativo externo, ressalvadas,
evidentemente, as exceções constitucionais.

Nesse passo, o Superior Tribunal de Justiça já afirmou


que "À luz do princípio da autoexecutoriedade dos atos
administrativos, que dispensa ordem judicial para sua
plena eficácia, a demolição de construção pode ser
ordenada diretamente pela Administração, desde que
precedida de regular processo" (REsp 1457851/RN, Rel.
Ministro HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, julgado em
26/05/2015, DJe 19/12/2016). O Tribunal Regional Federal
da 5ª Região, a seu turno, igualmente já assentou que "A
demolição da barraca pode ser determinada na esfera
administrativa, vez que precedida de regular processo e

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levando-se em consideração que a auto-executoriedade é


um dos atributos do ato administrativo (AC - Apelação
Civel - 416916 2005.84.00.010063-8, Desembargador
Federal Francisco Barros Dias, TRF5 - Segunda Turma, DJ
- Data::01/07/2009 - Página::258 - Nº::123). Noutra
oportunidade, registrou: "Após a autuação, a autarquia
deve instaurar o regular processo administrativo,
assegurando o contraditório e a ampla defesa devendo,
ela própria, aplicar a pena de demolição, se concluir
por sua adequação ao caso concreto, podendo o
interessado socorrer-se do Poder Judiciário para evitar
a execução da ordem administrativa" (EDAC - Embargos de
Declaração na Apelação Civel - 364594/02
2002.82.00.009337-9/02, Desembargador Federal Frederico
Pinto de Azevedo, TRF5 - Terceira Turma, DJE -
Data::14/12/2009 - Página::42.).

No caso, a notificação enviada à autora não faz


referência a processo administrativo prévio, no qual lhe
tenha sido assegurado o contraditório e a ampla defesa.
Em verdade, trata-se de notificação dirigida
indistintamente a todos os ocupantes do local, sem
qualquer análise acerca da situação da parte autora.
Nessa linha, nada foi apontado acerca do requerimento de
licença formulado pela autora ainda em 12/2020 (id.
4058500.4518628). A Administração Pública não informa
ter indeferido o requerimento, tampouco, se ainda não o
analisou, por que razão determina a remoção da barraca
sem antes concluir a apreciação do pedido.

Outro corolário do ato administrativo que surte efeitos


negativos no administrado é a motivação (art. 50, I, Lei
9.784/99). Na hipótese, ao se perscrutar a motivação do
ato, constata-se a referência ao descumprimento, pelos
estabelecimentos, "de regras básicas de saúde e
higiene." Ocorre que não se individualiza(m) qual(is)
barracas teriam descumprido essas regras e quais regras
teriam sido, efetivamente, descumpridas. Com isso,
tolhe-se o exercício da defesa. Ademais, não restou
claro qual o fundamento legal a respaldar a conclusão de
que o descumprimento de regras sanitárias imporia a
imediata remoção da barraca do local.

Esses elementos conferem verossimilhança às alegações


autorais, ao menos para obstar a imediata demolição do
bem - providência irreversível que causaria o
perecimento do direito autoral -, até que a
Administração Pública seja ouvida e se manifeste sobre
as inconsistências acima apontadas. Inexiste,
saliente-se, evidência de que postergar a demolição, ao
menos até o melhor delineamento das questões postas,
possua o condão de causar prejuízos ao interesse
público, mormente considerando que a barraca da autora
está em operação há meses, conforme a narrativa
autoral.

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A hipótese, portanto, é de concessão da liminar.

É certo que, considerando a multiplicidade de autores que


integram o polo ativo, a situação de cada qual demandaria exame
mais detido, à luz de documentos que, inclusive, não foram
juntados com a inicial. Porém, isso não afasta os fundamentos
apontados acima, mormente considerando que a notificação
dirigida a todos, e juntada no processo nº
0801057-20.2021.4.05.8500, é a mesma. Também aqui, portanto, e
por isonomia, deve-se prestigiar a solução conferida no Processo
nº 0801057-20.2021.4.05.8500, que visa, como exposto naquela
decisão, a evitar a adoção de medida irreversível, que
implicaria o perecimento do direito dos autores, ao menos até
que as inconsistências referidas sejam esclarecidas pela
Administração Pública.

3. Dispositivo.

Ante o exposto, defiro a liminar, para determinar à EMSURB


(Empresa Municipal de Serviços Urbanos) que deixe de proceder à
remoção ou à demolição das barracas situadas na faixa de areia
da Praia Cinelândia, de propriedade dos autores, até posterior
deliberação do juízo, sob pena de responder por crime de
desobediência.

Intime-se a EMSURB, por mandado e com urgência, para cumprimento


da liminar.

Intimem-se as demais partes, via PJe.

Promova-se a correção da classe judicial.

Aracaju/SE, datado eletronicamente conforme rodapé deste


documento.

Guilherme Jantsch
Juiz Federal Substituto no exercício da titularidade da 1ª Vara
Federal (Ato nº 15/2021)

Processo: 0801071-04.2021.4.05.8500
Assinado eletronicamente por: 21022221341684000000004534735
GUILHERME JANTSCH - Magistrado
Data e hora da assinatura: 22/02/2021 21:49:59
Identificador: 4058500.4522940

Para conferência da autenticidade do


documento:
https://pje.jfse.jus.br/pje/Processo
/ConsultaDocumento/listView.seam

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