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Jornalista, membro do Clóvis Moura investigava o passado histórico para
Comitê Central do
Partido Comunista do compreender melhor as lutas do presente
Brasil,  editor do jornal
A Classe Operária  
 Dois  livros  publicados  em  1959  tornaram­se  clássicos  na  literatura
histórica  brasileira  ­  Formação  Econômica  do  Brasil,  de  Celso  Furtado,  e
Rebeliões  da  Senzala,  de  Clóvis  Moura,  modelos  de  duas  formas
radicalmente  opostas  de  se  considerar  aqueles  que  sofreram  a  escravidão
VERSÃO em  nosso  país.  Celso  Furtado,  tributário  de  idéias  tradicionais  ­  e  mesmo
WORD [ZIP] do  limitado  marxismo  brasileiro  de  então  ­  comparava  os  escravos  dos
 engenhos de açúcar "às instalações de uma fábrica", pois eram comprados
como elas e sua manutenção representava os custos fixos.
Rebeliões  da  Senzala  contrapunha­se  pioneiramente  a  essa  visão  do
escravo  como  vítima  passiva  de  seu  destino.  As  visões  dominantes  da
história  de  nosso  passado  escravista  descreviam  uma  sociedade  idílica,
sem  luta  de  classes  e  onde  os  conflitos  entre  senhores  e  escravos  eram
vistos como choques entre a cultura superior dos europeus, os senhores, e
a  barbárie  dos  africanos,  os  escravos,  uma  contradição  que  só  seria
resolvida  quando  os  últimos  fossem  aculturados  e,  abandonando  suas
raízes originárias, adotassem  a  cultura  dos  dominadores.  A  principal  fonte
dessa  visão  rósea  foi  a  obra  de  Gilberto  Freyre,  mas  os  ecos  da  visão
senhorial  podiam  encontrados  em  quase  todos  os  autores  importantes  de
então,  inclusive  em  marxistas  como  Caio  Prado  Jr.  Foi  preciso  o  esforço
pioneiro  de  gente  como  Edison  Carneiro,  Clóvis  Moura  ­  com  a
sistematização  definitiva  feita  em  Rebeliões  da  Senzala  ­  e  da  geração  de
estudiosos liderada por Florestan Fernandes, Octávio Ianni, Emilia Viotti da
Costa,  Fernando  Henrique  Cardoso,  e  tantos  outros,  para  que  essa  visão
idílica  pudesse  ser  colocada  em  seu  justo  lugar  de  apologia  da  ordem
dominante, nostálgica do império e do escravismo.
Rebeliões da Senzala é obra de um autor marxista, no sentido ortodoxo da
palavra.  Seu  objetivo  é  investigar  o  passado  histórico  para  compreender
melhor  as  lutas  do  presente,  e  forjar  os  instrumentos  conceituais  que
permitam,  aos  oprimidos  de  todos  os  matizes  de  nosso  tempo,  lutar  pela
igualdade  entre  os  homens  e  por  uma  forma  superior  de  organização  da
sociedade.  Nesse  sentido,  Clóvis  Moura  partiu,  contra  aquelas  visões
tradicionais,  de  uma  premissa  teórica  marxista  fundamental:  como  em
todas  as  demais  sociedades  divididas  em  classes,  na  sociedade  escravista
também existiu luta de classes.
Seu livro, Rebeliões da Senzala, é assim um marco, o primeiro painel  das
lutas  escravas  no  Brasil,  que  assinala  o  declínio  das  velhas  concepções
sobre  a  passividade  e  a  docilidade  do  escravo.  Livro  que  abriu  uma
vertente  que  levaria,  nos  anos  seguintes,  a  um  reconhecimento
aprofundado  da  luta  escrava  e  sua  importância  para  a  dinâmica  da
 sociedade  brasileira.  O  número  de  estudos  que  surgiram,  então,  muitos
inspirados  diretamente  pela  sua  leitura,  levaram  ao  reconhecimento  de
que  a  história  do  negro  no  Brasil  se  confunde  com  a  história  do  povo
brasileiro.
As lições de Rebeliões decorrem disso. Ele nos ajuda a compreender  como,
a partir daquelas contradições de nosso passado histórico, o Brasil tornou­
se o que é hoje. Em primeiro lugar, o caráter e a persistência de algumas
características  que,  enraizados  no  passado  colonial  e  escravista,
perambulam  ainda  como  autênticos  mortos­vivos  pelo  presente  de  nosso
país,  na  sobrevivência  fantasmagórica  do  poder  das  oligarquias
tradicionais,  na  pessoa  de  políticos  como  Antonio  Carlos  Magalhães  e
assemelhados, estes sim os verdadeiros dinossauros de nossa vida  política
e social. Foi a relevância numérica da escravidão, seu tempo de duração e
a  forma  como  foi  abolida  no  Brasil  que  "determinaram  a  emergência  do
modelo  do  capitalismo  dependente  em  que  vivemos  até  hoje",  ensina
Clóvis  Moura.  Aquelas  elites,  que  dominaram  durante  todo  o  período
escravista,  na  Colônia  e  no  Império,  conduziram  e  determinaram  a  forma
como se deu a abolição em nosso país, e continuaram à frente do Estado e
do  governo  sob  a  República.  Contra  essas  elites,  Rebeliões  da  Senzala  é
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talvez o primeiro estudo onde a história do escravo (e do negro) brasileiro
é  colocada  no  seu  justo  lugar  de  história  do  povo  brasileiro,  e  não  de  um
segmento  populacional  à  parte,  específico  e  segmentado.  Rebeliões  reata,
assim, a história do povo brasileiro de nossos dias com a história daqueles
que,  antes  de  1888,  mourejavam  sob  o  instituto  infame  e  desumano  que
foi a escravidão.
Ao  aprofundar  o  conhecimento  de  nosso  passado,  e  demonstrar  que  a
história  da  história  da  escravidão  faz  parte  do  fio  contínuo  da  história  de
nosso  povo,  Clóvis  Moura  aprofundou  também,  e  inovou,  o  pensamento
marxista  e  contribuiu  para  que  aprofundar  a  consciência  socialista  e  anti­
racista das gerações seguintes de historiadores e militantes do movimento
revolucionário e anti­racista brasileiro.
Uma  dessas  inovações  é  a  lição  fundamental,  aprofundada  nas  obras  que
vieram  depois  de  Rebeliões  da  Senzala,  de  que,  em  sociedades  como  as
nossas,  os  conceitos  de  classe  e  raça  são  inseparáveis  para  a
compreensão  da  situação  das  classes  dominadas.  Não  se  compreende  a
situação das classes dominadas no Brasil, hoje como no passado, sem que
se  leve  em  conta  as  duas  dimensões  essenciais  da  dominação,  a  classista
e  a  racial.  Elas  imbricam­se,  e  conferem  características  próprias  às
relações de dominação em nossas sociedades.
Rebeliões  da  Senzala  preparou  também  o  rompimento  com  os  esquemas
fossilizados do oficialismo marxista de então, que impunham uma evolução
das  sociedades  obrigatoriamente  em  cinco  estágios  sucessivos  ­
comunidade  primitiva,  escravismo,  feudalismo,  capitalismo  e  socialismo.
Ao  ajudar  a  resolver  o  problema  que  durante  décadas  atormentou  os
estudiosos  do  passado  brasileiro  ­  qual  a  natureza  do  modo  de  produção
que aqui existia, capitalista ou feudal ­ Clóvis Moura deu importante passo
para a  compreensão  de  elas  estavam  ligadas  a  uma  visão  eurocêntrica  da
evolução  das  sociedades,  que  não  se  aplica  ao  Brasil,  onde  o  passado  foi
escravista  colonial  e  o  modo  de  produção  capitalista  emergiu,  depois  de
uma  lenta  transição,  da  desagregação  do  escravismo  ­  e  não  do
feudalismo, como na versão clássica européia.
Finalmente, um último aspecto que deve ser ressaltado: contra as análises
tradicionais, que enfatizavam o caráter reflexo de nossa história, Rebeliões
da  Senzala  mostrou  que  a  formação  social  brasileira  era  um  pouco  mais
complexa.  Aqui,  influência  externa  interage  com  a  dinâmica  interna  da
sociedade  brasileira,  e  nossa  história  resulta  da  combinação  destes  dois
elementos,  a  influência  externa,  colonial  e  neocolonial  (e  imperialista,
hoje), com os interesses que dominam nossa sociedade.
Historiador  marxista  e  veterano  militante  comunista,  o  objetivo  da
atividade intelectual e científica de Clóvis Moura é compreender o passado
para  fundamentar  a  ação  transformadora  no  presente.  Neste  ponto,  um
elemento  se  destaca:  o  que  é  o  conhecimento  histórico,  como  se  dá  a
intervenção  consciente  do  homem  na  história,  e  qual  é  a  natureza  da
consciência  de  classe.  São  temas  marxistas  fundamentais,  não  por  um
capricho  teórico,  mas  por  uma  necessidade  prática.  A  luta  política
orientada  pelo  marxismo  não  se  fundamenta  nos  desejos  arbitrários  dos
militantes,  sendo  orientada  por  teses  que  surgem  da  análise  cuidadosa  da
origem  da  situação  atual,  análise  em  que  os  aspectos  históricos
combinam­se  com  os  conjunturais,  compreendidos  como  desdobramento
de  um  processo  histórico  mais  longo  e  que,  portanto,  só  podem  ser
entendidos em sua inteireza a partir de sua gênese.
A  história  é,  para  os  marxistas,  a  ciência  no  sentido  mais  profundo.  A
objetividade do processo histórico deve ser procurada na análise cuidadosa
do  desdobramento  da  aventura  humana  através  do  tempo.  A  lógica  deste
processo,  que  é  a  lógica  da  história,  está  inscrita  na  ação  dos  atores  da
história.  Nesse  sentido,  a  história  não  é  linear  ou  previsível  como,  por
exemplo,  a  trajetória  dos  astros  no  firmamento,  e  toda  compreensão
teleológica  da  história  de  uma  história  que  seja  autora  de  seu  próprio
destino  mais  próxima  do  providencialismo  religioso  com  seu  passado  já
pré­definido  na  mente  eterna  de  um  criador,  do  que  propriamente  do
marxismo,  que  compreende  a  história  como  resultado  da  ação  humana,
que  encara  o  processo  histórico  como  conseqüência  do  entrechoque  de
vontades,  interesses,  culturas,  preconceitos,  nível  de  conhecimento,  dos
homens que são personagens desse processo.
Assim, o processo histórico não é externo à ação dos agentes sociais  e  às
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suas lutas, mas intrínseco a eles, determinado por  eles  e  pela  consciência


histórica  e  social  daqueles  atores  sociais.  Isto  introduz  outro  elemento
fundamental  na  visão  marxista  da  história,  cuja  compreensão  em  nosso
país  foi  iluminada  pelas  conquistas  registradas  em  Rebeliões  da  Senzala:
trata­se da complexa questão da consciência de classe.
Clóvis Moura aborda esta questão de forma explícita nas conclusões de  seu
livro, onde diferencia os escravos que, ao rebelar­se, iniciavam o processo
de formação de uma "classe para si", daqueles que, conformados com seu
destino  e  prostrados  sob  o  escravismo,  sem  compreender  sequer  sua
situação imediata, eram ainda componentes "de uma classe em si, simples
objeto do fato histórico".
Isto  é  o  que  diferencia  o  conteúdo  da  consciência  dos  atores  sociais  e
imprime  sua  marca  ao  processo  histórico.  Clóvis  Moura  filia­se  à  longa
tradição  marxista,  iniciada  em  1847  com  a  publicação  de  Miséria  da
filosofia, onde Karl Marx, sob nítida influência hegeliana, diz que massa de
trabalhadores  de  um  país,  que  é  uma  classe  em  si,  só  na  luta  contra  o
capital  "constitui­se  em  classe  para  si  mesma".  Os  interesses  que  ela
defende  tornam­se  interesses  de  classe",  e  a  luta  de  classe  "é  uma  luta
política".  Mais  tarde,  em  Dezoito  Brumário  de  Luís  Bonaparte,  Marx
reafirma  esta  tese:  os  camponeses  se  distinguem  dos  demais  franceses,
diz, por suas condições econômicas de existência, seu modo de viver, seus
interesses  e  cultura,  e  por  se  opor  às  outras  classes  de  forma  hostil.  Por
isso,  eles  "formam  uma  classe";  entretanto,  sem  nenhuma  união  nacional
ou organização política, diz Marx, eles "não formam uma classe".
A  "consciência  histórica",  a  consciência  social,  de  classe,  não  se  reduz  à
percepção  imediata,  pelo  oprimido,  de  sua  situação,  mas  envolve  uma
reflexão  aprofundada  sobre  as  relações  sociais,  que  tem  caráter  científico
e elabora uma compreensão mais avançada e mais complexa do que mera
sensação imediata. Marx já havia notado, em O Capital, que a ciência seria
desnecessária se houvesse coincidência entre essência e aparência.
Em  conseqüência,  uma  compreensão  do  processo  histórico  com  as
ambições  que  a  análise  marxista  se  impõe  não  pode  resumir­se  à
apreensão  dos  significados  com  que  a  ação  social,  em  seu  sentido  mais
amplo,  aparece  para  a  consciência  dos  próprios  agentes  históricos.  É
preciso  ir  além  disso;  compreender  o  grau  de  consciência  que  a  própria
ação  indicava  ­  e,  daí,  a  distinção  entre  as  formas  ativas  e  passivas  de
resistência  do  escravo,  aquelas  denunciadoras  de  elementos  iniciais  de
uma compreensão que poderia englobar as múltiplas e complexas relações
em que o escravo estava inserido; estas, indicadoras de uma compreensão
ainda  limitada  e  incipiente,  presa  às  vicissitudes  do  dia  a  dia  e  das
imposições  da  sobrevivência  e  da  acomodação.  É  preciso  distinguir
também, aqui, o sentido político que a ação escrava tinha, não ­ de novo  ­
na  forma  como  ele  aparecia  imediatamente  ao  escravo,  mas  na  sua
capacidade  de  formular  um  projeto  mais  global  de  reordenação  social,
capaz  ou  não  de  transcender  os  limites  do  escravismo.  O  sentido  político
não se define apenas subjetivamente, mas depende também das condições
objetivas da ação e da compreensão da relação entre estes dois aspectos,
subjetivo  e  objetivo.  Sem  esta  distinção,  a  expressão  sentido  político  da
ação  indica  mais  propriamente  a  boa  intenção  do  analista  de  respeitar  a
individualidade  do  personagem  da  história  do  que  o  caráter  de  sua  ação
que,  assim  indefinida,  pode  oscilar  da  malandragem  adaptativa,
macunaímica,  à  vontade  revolucionária  manifestada  pelos  malês  em
Salvador,  em  1835  ­  um  leque  amplo  o  suficiente  para  diluir  a  correta
compreensão  nas  miríades  de  forma  que  o  sentido  político  da  ação  pode
assumir.
Finalmente,  é  aqui  que  está  ancorada  a  ênfase,  no  conjunto  da  obra  de
Clóvis Moura, na rebeldia escrava, na consideração da ação dirigida contra
a manutenção do escravismo como principal elemento para a  compreensão
das contradições fundamentais não só daquele modo de produção, como do
capitalismo  que  o  sucedeu,  e  das  formas  políticas  que,  sobreviventes  do
passado,  estão  ainda  baseadas  num  autoritarismo  gerado  e  nutrido  no
domínio da senzala pela casa­grande.
Entre  Zumbi  e  Pai  João,  para  usar  a  metáfora  que  ficou  famosa,  a  ênfase
recai  sobre  o  herói  palmarino.  Não  por  um  gosto  arbitrário  do  heróico,
nem  pelo  desconhecimento  das  complexas  formas  que  as  relações  entre
senhores  e  escravos  assumiram.  A  própria  continuidade  da  exploração

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escravista  e  colonial  impunha  uma  combinação  complexa  entre  coerção  e


convencimento,  onde  o  chicote  e  os  castigos  físicos  combinavam­se  em
BIBLIOGRAFIA doses  variadas  com  pequenas  concessões  cotidianas,  num  jogo  de
pressões  e  contrapressões  que  a  historiografia  de  nossos  dias  descreve
1. Chalhoub, Sidney.
Visões da liberdade ­ com muita precisão.
uma história das
últimas décadas da Entretanto,  trata­se  aqui  de  captar,  primeiro,  aquela  dimensão  onde  o
escravidão na Corte, caráter  e  as  contradições  do  escravismo  possam  emergir  com  nitidez.  A
Cia das Letras, SP, negociação  possível  naquele  regime  desumano  podia  disfarçar  as  agruras
1990
da  opressão  e  permitir  ao  escravo  estratégias  de  sobrevivência  que
2. Furtado, Celso. minoravam  sua  sorte,  e  a  ênfase  neste  aspecto  parece  baseada  num
Formação econômica
do Brasil, Cia Editora contratualismo  impróprio  e  fora  de  época,  envolvendo  partes
Nacional, SP 1972 (1a absolutamente desiguais, o dono do escravo e o escravo por ele possuído,
edição: 1959) uma  assimetria  social  e  política  indisfarçável.  O  conflito,  ao  contrário,
3. Gomes, Flávio dos parte cotidiana  da  vida  do  escravo,  podia  variar  de  grau  e  intensidade,  de
Santos. Histórias de
quilombolas ­ pequenas  resistências  diárias  no  trabalho,  à  morte  de  feitores  e  senhores
mocambos e ou à rebelião aberta, e sua eclosão quebrava todos os véus, dilacerava os
comunidades de disfarces  que  a  negociação  construía,  opondo  as  duas  facetas
senzalas no Rio de
Janeiro ­ século XIX.
contraditórias e inconciliáveis daquela relação, o senhor e o escravo.
Arquivo Nacional, RJ,
1995

4. Lara, Silva H.
Campos da violência,
Depoimento:
escravos e senhores na A maior lição que aprendi com Clóvis Moura
capitania do Rio de José Carlos Ruy
Janeiro, 1750/1808,
Paz e Terra, RJ, 1988 
5. Machado, Maria Conheci Clóvis Moura há quase 30 anos, em 1975. Eu era então um rapaz muito curioso sobre a
Helena P. T. "Em torno história de nosso país, que tentava estudar meio às cegas. Já tinha lido um livro do Clóvis,
da autonomia escrava: Introdução ao pensamento de Euclides da Cunha, e sabia que era um autor marxista, condição
uma nova direção para que fazia aquele primeiro contato significar também, para mim, a chance de reencontrar o
a história social da PCdoB, pois havia perdido minha ligação com o partido depois de uma série de prisões que
escravidão", in Revista ocorreram no ABC paulista nos anos anteriores e que, imagino, atingiram também o camarada
Brasileira de História, que era meu contato.
no. 16, ANPUH/Marco Nasceu assim uma amizade que me honra. Pude trabalhar ao lado do Clóvis, quase que
Zero, SP,
diariamente, até 1977. Através dele, obtive, de fato, notícias dos comunistas, de vez em quando
março/agosto de 19880 pude mesmo ter acesso a algum documento clandestino, como edições de A Classe Operária (é
6. Marx, Karl, Miséria preciso lembrar, para os mais novos, que a época era ainda de ditadura pesada!). O Clóvis
da filosofia, Edições Moura tornou­se, para mim, um orientador político e um grande professor. Não à maneira dos
Avante!, Lisboa, 1991 acadêmicos, mas da forma muito mais eficaz da transmissão de conhecimento e experiência
através de atividades desenvolvidas em comum. E com tudo o que um professor tem direito:
7.__________. "El
orientação de leitura, indicação de caminhos, crítica implacável das tentativas de atalhos e de
dieciocho Brumário de caminhos que não dão em nada, etc.
Luis Bonaparte", in
Marx, Karl, e Engels, Lembro­me, por exemplo, de minha tendência a seguir os autores consagrados pela universidade
Friederich, Obras e pela mídia. Contra essa tendência, Clóvis insistia que o essencial é o conhecimento da luta de
Escogidas, Tomo I, classes, não a história dos regimes políticos, dos governos, não a história da elite. O essencial,
Editorial Ayuso, Madrid, ensinava, é a história do povo brasileiro, que ainda não está feita. E indicava a riqueza de nosso
1975 passado, as lutas do povo, a luta de idéias que a refletia.
8. Matteucci, Nicola. Era comum o Clóvis mostrar livros de autores brasileiros que não freqüentam listas de best
"Contratualismo", in sellers ­ entre eles, poetas como o telegrafista baiano Sosígenes Costa; ou como a gaúcha Lila
Norberto Bobbio e Ripoll. Ambos comunistas e esquecidos pela mídia.
outros, Dicionário de Também aprendi com Clóvis que não há teoria política fora do partido. O pensamento político
Política, Editora UnB, precisa estar ligado, e a serviço, do instrumento da luta política que é o partido. Fora disso, é
Brasília, 1986 diletantismo, passatempo, jogo intelectual sem maiores conseqüências.
9. Moura, Clóvis.
Porém, a maior lição que aprendi com Clóvis Moura é a de que a história do povo brasileiro se
Rebeliões da senzala ­ confunde com a história do trabalho no Brasil, e essa história é, principalmente, a história da
quilombos, escravidão e da luta dos escravos contra aquele estatuto iníquo. E que, decorrência disso, a
insurreições, guerrilhas. história do negro no Brasil é a história do povo brasileiro, a história dos povos ­ negros, índios,
Mercado Aberto, Porto mestiços ­ oprimidos primeiro pela colonização e pela escravidão e, depois, pelo capitalismo e
Alegre, 1988 (1a pelo imperialismo.
edição: 1959)
Intelectual, jornalista, historiador, poeta, sociólogo, professor, escritor (como, quase sempre,
10. __________. O definia­se).
negro: de bom escravo
a mau cidadão?, Aquele que é seu livro mais importante ­ Rebeliões da Senzala, publicado inicialmente em 1959,
Editora Conquista, RJ, reeditado em 1972, 1981 e 1988 ­ foi a primeira tentativa de apresentação sistemática da luta
1977 dos escravos em nosso país. Ele assinala o início de um esforço de compreensão teórica das
lutas do povo brasileiro e do papel que o intelectual tem a desempenhar nela. De denúncia
11. __________. Os
quilombos e a rebelião
permanente do racismo e do estudo de seu significado numa sociedade como a nossa, que traz LEIA +
ainda muito vivas as marcas deixadas pelo escravismo.
negra, Brasiliense, SP,
1981 Clóvis Moura era sobretudo um militante comunista do pensamento, da causa do socialismo. Ele História do
ajudou a aprofundar a compreensão de nosso país, de nossa história e de nosso povo. Tinha Brasil:
12. Reis, João José e verdadeira aversão aos estudiosos de gabinete, que tratam o povo como um objeto de pesquisa, Passando o
Silva, Eduardo.
distante e frio. Ao contrário, ele era parte da pesquisa que fazia, juntou­se ao povo, aos passado a
Negociação e conflito ­ trabalhadores, aos operários, negros, camponeses, e colocou seu conhecimento e sua arte a limpo
a resistência negra no serviço da libertação dos oprimidos. Nunca deixou cair essa bandeira. Era um intelectual
Brasil escravista, Cia
indignado, mas também generoso, movido pela razão e também pelo coração.
das Letras, SP, 1989

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