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Qualidade de energia

Capítulo I

Conceitos gerais sobre


qualidade da energia
Por Gilson Paulilo*

O termo “qualidade da energia” inclui uma pelos motivos a seguir:


gama de fenômenos, abrangendo áreas de interesse • Os equipamentos e maquinários atuais estão
de sistemas da energia elétrica até problemas mais sensíveis às variações da qualidade da
relacionados com a comunicação em redes de energia em relação aos utilizados no passado.
transmissão de dados. Dessa forma, devem ser Muitos dos aparelhos modernos contêm controles
divulgados e reconhecidos por todos os setores microprocessados e/ou unidades eletrônicas de
envolvidos com o consumo, transmissão e potência, tornando-os muito sensíveis a certos tipos
geração de energia elétrica. A interpretação destes de distúrbios, que por décadas podem ter ocorrido
fenômenos, principalmente as distorções de tensões sem causar efeitos adversos e, atualmente, resultam
e correntes, localizadas tanto nos PACs (ponto de em má operação e, sobretudo, redução da vida útil;
acoplamento comum) como também dentro das • O crescente interesse na racionalização de
instalações dos próprios consumidores de energia, energia para o aumento da eficiência dos sistemas
está associada diretamente à correção do fator de elétricos resultou em uma crescente aplicação de
potência, racionalização da energia e aumento equipamentos de alta eficiência, acionamentos
da produtividade. A ocorrência destes problemas eletrônicos e bancos de capacitores para a correção
determina a necessidade de uma busca mútua de do fator de potência. Estas atitudes levaram ao
soluções, entre ambas as partes, para a realização de incremento das amplitudes das componentes
medidas práticas e econômicas. harmônicas nas redes elétricas e na preocupação
De forma geral, a conceituação da perda da generalizada com o impacto destes níveis em um
qualidade da energia é adotada pelos especialistas futuro próximo;
da área, como sendo: “qualquer desvio que possa • O aumento do interesse dos consumidores pelo
ocorrer na magnitude, forma de onda ou frequência assunto “qualidade da energia”. Os consumidores
da tensão e/ou corrente elétrica, que resulte em falha estão tornando-se mais bem informados sobre os
ou operação indevida de equipamentos elétricos”. efeitos de alguns fenômenos como: interrupções,
Independentemente da definição e da descargas elétricas e transitórios de chaveamentos.
conceituação, a preocupação tanto por parte Além disso, estão pressionando as concessionárias
das concessionárias quanto pelos consumidores para a melhora da qualidade da energia fornecida;
é considerada um assunto técnico emergencial, • É crescente a utilização de linhas de
encontrando respaldo internacional e justificado comunicações de dados em todos os setores da
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sociedade, tornando-se necessárias as operações


ininterruptas das transações comerciais e dos
processos de controle industriais, associado
às tendências futuras com os projetos de redes
elétricas inteligentes (smart grids).
Define-se, então, que um serviço de
fornecimento de energia elétrica é de boa qualidade
quando garante, a custos viáveis, o funcionamento
seguro e confiável de equipamentos e processos,
sem afetar o meio ambiente e o bem-estar das
pessoas.
Observa-se que o conceito apresentado
integra os aspectos sociais, ambientais, técnicos e
econômicos.
A qualidade do atendimento aborda o aspecto
comercial, que trata das relações do cotidiano
entre o cliente e o fornecedor de energia; e o
atendimento de emergência, que contempla
as solicitações do consumidor, quando da
ocorrência de contingências na rede elétrica. De
um modo geral, a qualidade do atendimento diz
respeito à presteza e à eficiência do atendimento
da concessionária.
A qualidade do serviço é medida segundo a
continuidade do fornecimento da energia elétrica.
Assim sendo, do ponto de vista ideal, a qualidade
de serviço deveria oferecer continuidade plena e
oferta ilimitada de energia elétrica.
Finalmente, a qualidade do produto diz
respeito à conformidade do produto “energia
elétrica”, que pode ser interpretada como a
capacidade do sistema elétrico de fornecer energia
com tensões equilibradas e sem deformações de
forma de onda. Do ponto de vista ideal, seria a
disponibilidade de energia elétrica com tensões
senoidais, equilibradas e com amplitude e
frequência constantes.
Os desvios do conceito ideal do produto
“energia elétrica” apresentados são tratados, em
nível internacional, sob o título de Power Quality
e Voltage Quality, sendo este último tratado
assim no âmbito do Cigré. No Brasil, embora
sem uma terminologia totalmente consolidada, o
assunto vem sendo tratado sob a denominação de
Qualidade da Energia Elétrica (QEE).
A questão da qualidade, associada ao produto
energia elétrica, apresenta características bastante
específicas, uma vez que o processo de produção,
transporte, distribuição e consumo ocorrem
simultaneamente em um sistema físico cada vez
mais complexo, sendo que cada fase do processo
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pode afetar e ser afetada pelos demais. As variações de tensão de longa duração são fenômenos
Qualidade de energia

O estabelecimento de indicadores para o controle e avaliação semelhantes aos fenômenos de curta duração, porém, com a
do produto “energia elétrica” é bastante complexo e apresenta característica de se manterem no sistema elétrico por tempos
peculiaridades técnicas que dificultam seu tratamento de forma superiores a três minutos. São causadas por saídas de grandes
simples. Dentre as particularidades mencionadas podem-se blocos de carga, perdas de fase, dentre outras.
destacar:
4. Desequilíbrios
• Caráter aleatório nas ocorrências de distúrbios de QEE; Os desequilíbrios podem ser definidos como o desvio
• Inevitabilidade técnica de ocorrências destes distúrbios; máximo da média das correntes ou tensões trifásicas, divididos
• Variado nível de sensibilidade dos consumidores, uma vez pela média das correntes ou tensões trifásicas, expressados em
que cada consumidor percebe a qualidade da energia de forma percentual. As origens destes desequilíbrios estão geralmente nos
diferenciada; sistemas de distribuição, os quais possuem cargas monofásicas
• Dificuldade de executar controle prévio da QEE, como ocorre distribuídas inadequadamente, fazendo surgir no circuito
com outros produtos, visto que geração, transmissão, distribuição tensões de sequência negativa. Este problema se agrava quando
e consumo da energia ocorrem simultaneamente; consumidores alimentados de forma trifásica possuem uma
• Extensa área de vulnerabilidade do sistema elétrico, má distribuição de carga em seus circuitos internos, impondo
representado por milhares de quilômetros de linhas de correntes desequilibradas no circuito da concessionária.
transmissão, subtransmissão e distribuições aéreas.
5. Distorções da forma de onda: harmônicos, cortes de
Principais distúrbios associados à qualidade da tensão, ruídos, etc.
energia A distorção da forma de onda é definida como um desvio,
O termo qualidade da energia elétrica refere-se a uma ampla em regime permanente, da forma de onda puramente senoidal,
variedade de fenômenos eletromagnéticos conduzidos que na frequência fundamental, e é caracterizada principalmente
caracterizam a tensão e a corrente em um dado tempo e local pelo seu conteúdo espectral. Existem cinco tipos principais de
do sistema elétrico. distorções da forma de onda:
A qualidade da energia em uma determinada barra do sistema • Harmônicos: tensões ou correntes senoidais de frequências
elétrico é adversamente afetada por uma ampla variedade de múltiplas inteiras da frequência fundamental (50 Hz ou 60 Hz)
distúrbios: na qual opera o sistema de energia elétrica. Estes harmônicos
distorcem as formas de onda da tensão e corrente e são oriundos
1. Transitórios de equipamentos e cargas com características não lineares
Os transitórios são fenômenos eletromagnéticos oriundos instalados no sistema de energia.
de alterações súbitas nas condições operacionais de um sistema • Inter-harmônicos: componentes de frequência, em tensão
de energia elétrica. Geralmente, a duração de um transitório ou corrente, que não são múltiplos inteiros da frequência
é muito pequena, mas de grande importância, uma vez que fundamental do sistema supridor (50 Hz ou 60 Hz). Elas podem
submetem equipamentos a grandes solicitações de tensão e/ aparecer como frequências discretas ou como uma larga faixa
ou corrente. Existem dois tipos de transitórios: os impulsivos, espectral. Os inter-harmônicos podem ser encontrados em redes
causados por descargas atmosféricas, e os oscilatórios, causados de diferentes classes de tensão. As suas principais fontes são
por chaveamentos. conversores estáticos de potência, ciclo-conversores, motores
de indução e equipamentos a arco. Sinais "carrier" em linhas
2. Variações de tensão de curta duração de potência também podem ser considerados como inter-
As variações de tensão de curta duração podem ser harmônicos. Os efeitos deste fenômeno não são bem conhecidos,
caracterizadas por alterações instantâneas, momentâneas ou mas admite-se que podem afetar a transmissão de sinais "carrier"
temporárias. Tais variações de tensão são, geralmente, causadas e induzir "flicker" visual no display de equipamentos como tubos
pela energização de grandes cargas que requerem altas correntes de raios catódicos.
de partida, ou por intermitentes falhas nas conexões dos cabos • Nível CC: a presença de tensão ou corrente CC em um sistema
de sistema. Dependendo do local da falha e das condições do elétrico CA é denominado "DC offset". Este fenômeno pode
sistema, o resultado pode ser um afundamento momentâneo de ocorrer como o resultado da operação ideal de retificadores de
tensão (“sag”), uma elevação momentânea de tensão (“swell”), meia-onda. O nível CC em redes de corrente alternada pode
ou mesmo uma interrupção completa do sistema elétrico. levar à saturação de transformadores, resultando em perdas
adicionais e redução da vida útil.
3. Variações de tensão de longa duração • "Notching": distúrbio de tensão causado pela operação normal
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Qualidade de energia
de equipamentos de eletrônica de potência quando a corrente rendimento dos equipamentos elétricos, interferência nos sistemas de
é comutada de uma fase para outra. Este fenômeno pode ser proteção, e efeito "flicker" ou cintilação luminosa.
detectado pelo conteúdo harmônico da tensão afetada. As
componentes de frequência associadas com os "notchings" 7. Variações de frequência
são de alto valor e, desta forma, não podem ser medidas pelos Variações na frequência de um sistema elétrico são definidas
equipamentos normalmente utilizados para análise harmônica. como sendo desvios no valor da frequência fundamental deste
• Ruído: definido como um sinal elétrico indesejado, contendo sistema (50 Hz ou 60 Hz). A frequência do sistema de potência
uma larga faixa espectral com frequências menores que 200 está diretamente associada à velocidade de rotação dos geradores
KHz, as quais são superpostas às tensões ou correntes de que suprem o sistema. Pequenas variações de frequência podem
fase, ou encontradas em condutores de neutro. Os ruídos em ser observadas como resultado do balanço dinâmico entre carga
sistemas de potência podem ser causados por equipamentos e geração no caso de alguma alteração (variações na faixa de 60
eletrônicos de potência, circuitos de controle, equipamentos ± 0,5Hz). Variações de frequência que ultrapassam os limites para
a arco, retificadores a estado sólido e fontes chaveadas que, operação normal em regime permanente podem ser causadas por
normalmente, estão relacionados com aterramentos impróprios. faltas em sistemas de transmissão, saída de um grande bloco de
carga ou pela saída de operação de uma grande fonte de geração.
6. Flutuações de tensão Em sistemas isolados, entretanto, como é o caso da geração
As flutuações de tensão correspondem a variações própria nas indústrias, na eventualidade de um distúrbio, a
sistemáticas dos valores eficazes da tensão de suprimento dentro magnitude e o tempo de permanência das máquinas operando
da faixa compreendida entre 0,95 pu e 1,05 pu. Tais flutuações fora da velocidade, resultam em desvios da frequência em
são geralmente causadas por cargas industriais e manifestam-se proporções mais significativas.
de diferentes formas, a destacar: A título de ilustração, a Figura 1 mostra os principais
• Flutuações aleatórias: causadas por fornos a arco, onde as distúrbios envolvendo a qualidade da energia.
amplitudes das oscilações dependem do estado de fusão do
material e do nível de curto-circuito da instalação. Em que:
• Flutuações repetitivas: causadas por máquinas de solda, a - tensão senoidal f - salto de tensão
laminadores, elevadores de minas e ferrovias. b - transitório impulsivo g - harmônico
• Flutuações esporádicas: causadas pela partida direta de c - transitório oscilatório h - corte de tensão
grandes motores. d - afundamento de tensão i - ruídos
e - interrupção j – inter-harmônicos
Os principais efeitos nos sistemas elétricos, resultados das
oscilações causadas pelos equipamentos mencionados anteriormente, A Tabela 1 apresenta as categorias mais comuns dos
são oscilações de potência e torque das máquinas elétricas, queda de distúrbios, suas causas e algumas soluções práticas.

Figura 1 – Principais distúrbios da qualidade da energia elétrica.


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Tabela 1 – Categorias de classificação dos distúrbios associados à qualidade da energia

Distúrbios Causas Efeitos Soluções


Transitórios impulsivos • Descargas atmosféricas; • Excitação de circuitos ressonantes; • Filtros;
• Chaveamentos de cargas e/ou dispositivos • Redução da vida útil de motores, geradores, • Supressores de surtos;
de proteção. transformadores, etc.; • Transformadores isoladores;
• Erros de processamento e perdas de sinais.

Transitórios oscilatórios • Descargas atmosféricas; • Mau funcionamento de equipamentos • Filtros;


• Chaveamentos de capacitores, linhas, controlados eletronicamente, conversores de • Supressores de surtos;
cargas e transformadores; potência, etc.; • Transformadores isoladores;
• Transitórios impulsivos. • Redução da vida útil de motores, geradores,
etc.

Sub e sobretensões • Partidas de motores; • Pequena redução na velocidade dos • Reguladores de tensão;
• Variações de cargas; motores de indução e no reativo dos bancos • Fontes de energia de reserva;
• Chaveamento de capacitores; de capacitores; • Chaves estáticas;
• TAPs de transformadores ajustados • Falhas em equipamentos eletrônicos; • Geradores de energia.
incorretamente. • Redução da vida útil de máquinas rotativas,
transformadores, cabos, disjuntores, TPs e
TCs;
• Operação indevida de relés de proteção,
motores, geradores, etc.

Interrupções • Curto-circuito; • Falha de equipamentos eletrônicos e de • Fontes de energia sobressalentes;


• Operação de disjuntores; iluminação; • Sistemas “no-break”;
• Manutenção. • Desligamento de equipamentos; • Geradores de energia.
• Interrupção do processo produtivo (altos
custos).

Desequilíbrios • Fornos a arco; • Redução da vida útil de motores de • Operação simétrica;


• Cargas monofásicas e bifásicas; indução e máquinas síncronas; • Dispositivos de compensação.
• Assimetrias entre as impedâncias; • Geração, pelos retificadores, de 3º
• Falta de transposição de linhas de harmônico e seus múltiplos.
transmissão.

Nível CC • Operação ideal de retificadores de meia • Saturação de transformadores;


onda, etc. • Corrosão eletrolítica de eletrodos de
aterramento e de outros conectores.

Harmônicos • Cargas não lineares. • Sobreaquecimento de cabos, • Filtros;


transformadores e motores de indução; • Transformadores isoladores;
• Danificação de capacitores, etc.; • Reatores de linhas.
• Operação indevida de disjuntores, relés,
fusíveis, etc.

Inter-harmônicos • Conversores estáticos de potência; • Interferência na transmissão de sinais


• Cicloconversores; Carrier;
• Motores de indução; • Indução de flicker visual no display de
• Equipamentos a arco, etc. equipamentos.

Notching • Equipamentos eletrônicos de potência. • Operação indevida de dispositivos de


medição e proteção.

Ruídos • Chaveamento de equipamentos eletrônicos • Distúrbios em equipamentos eletrônicos • Aterramento das instalações;
de potência; (computadores e controladores programáveis). • Filtros.
• Radiações eletromagnéticas.

Flutuações de tensão • Cargas intermitentes; • Flicker; • Sistemas estáticos de compensação de


• Fornos a arco; • Oscilação de potência e torque nas reativos;
• Partidas de motores. máquinas elétricas;
• Queda de rendimento de equipamentos • Capacitores em série.
elétricos;
• Interferência nos sistemas de proteção.

Variação de frequência • Perda de geração, perda de linhas de • Danos severos nos geradores e nas palhetas
transmissão, etc. das turbinas, etc. podem ocorrer.
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Qualidade de energia

A Tabela 2 mostra as categorias e as características típicas sua duração. Assim tem-se:


de fenômenos eletromagnéticos que contribuem para a perda • Fenômenos transitórios: são fenômenos de curtíssima
da qualidade da energia em um determinado sistema elétrico. duração, podendo ser do tipo impulsivo ou oscilatório;
Grande parte destes fenômenos já recebeu comentários iniciais • Fenômenos temporários: são fenômenos que envolvem a
quando da apresentação da Tabela 1. A Tabela 2 é uma síntese variação da tensão eficaz da rede durante algum período de
de todos os distúrbios que eventualmente possam ocorrer tempo. Dependendo deste período são denominados variações
sobre determinado sistema elétrico, trazendo as principais de curta duração, compreendendo as instantâneas (0,5 – 30
características pelas quais os fenômenos são definidos. No que ciclos), as momentâneas (30 ciclos – 3 s) e as temporárias (3
segue, a maioria destes distúrbios será novamente apresentada, s – 1 min) ou variações de longa duração, para períodos acima
procurando-se melhor caracterizá-los conforme o seu efeito, de 1 minuto;
duração e intensidade sobre determinado sistema elétrico. • Fenômenos a regime permanente: correspondem aos
Conforme se verifica com a tabela anterior, a proposta fenômenos de regime permanente e que ficam superpostos
básica para agrupar os fenômenos de qualidade é baseada em à frequência fundamental da rede, compreendendo os

Tabela 2 – Características dos principais distúrbios da qualidade da energia

Categorias Conteúdo Espectral Durações Magnitudes


Transitórios
Impulsivos
ns Frente de 5 ns < 50 ns
µs Frente de 1 µs 50 ns – 1 ms
ms Frente de 0,1 ms > 1 ms
Oscilatórios
Baixa frequência < 5 kHz 0,3 – 50 ms 0 – 4 pu
Média frequência 5 – 500 kHz 20 µs 0 – 8 pu
Alta frequência 0,5 – 5 MHz 5µ 0 – 4 pu

Variações de tensão de curta


duração
Instantânea
Interrupção 0,5 – 30 ciclos < 0,1 pu
Afundamento 0,5 – 30 ciclos 0,1 – 0,9 pu
Elevação 0,5 – 30 ciclos 1,1 – 1,8 pu
Momentânea
Interrupção 30 ciclos – 3 s < 0,1 pu
Afundamento 30 ciclos – 3 s 0,1 – 0,9 pu
Elevação 30 ciclos – 3 s 1,1 – 1,4 pu
Temporária
Interrupção 3 s – 1 min < 0,1 pu
Afundamento 3 s – 1 min 0,1 – 0,9 pu
Elevação 3 s – 1 min 1,1 – 1,2 pu

Variações de tensão de longa


duração
Interrupção sustentada > 1 min 0,0 pu
Subtensão sustentada > 1 min 0,8 – 0,9 pu
Sobretensão sustentada > 1 min 1,1 – 1,2 pu

Desequilíbrio de tensão Regime permanente 0,5 – 2%

Distorção da forma de onda


Nível CC Regime permanente 0 – 0,1%
Harmônicos 0 – 100 H Regime permanente 0 – 20%
Inter-harmônicos 0 – 6 kHz Regime permanente 0 – 2%
Notching Regime permanente
Ruído Regime permanente 0 – 1%

Flutuação de tensão < 25 kHz Intermitente 0,1 – 7%

Variações de frequência < 10 s


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desequilíbrios de tensão, as distorções na onda e as flutuações forma de onda e simetria;


de tensão, este último de caráter intermitente. • NORMA IEEE – 519: concentra-se na divisão de
responsabilidades do problema de harmônicos entre os
Instituições internacionais e normas consumidores e a concessionária. É aplicada de forma mais
As principais instituições internacionais que buscam apropriada aos grandes sistemas industriais;
analisar os problemas associados à qualidade da energia são: • NORMA IEC – 555: documento voltado ao estabelecimento
• IEEE – Institute of Electrical and Electronics Engineers; de limites para os harmônicos gerados pelos equipamentos
• IEC – International Electrotechnical Commission; eletrônicos de baixa potência;
• CIGRE – Grand Réseaux Électriques a Haute Tension; • NORMA IEC – 61000: referência mundial para as medições
• ANSI – American National Standards Institute. do nível de harmônicos em sistemas de distribuição.

Estas instituições, além de outras, elaboraram uma série


de normas e recomendações para analisar os problemas da
qualidade da energia: * Gilson Paulilo é engenheiro eletricista, com
mestrado e doutorado em Qualidade de Energia Elétrica

• ANEEL: Procedimentos de Distribuição de Energia Elétrica no pela Universidade Federal de Itajubá. Atualmente,

Sistema Elétrico Nacional – Módulo 8 – Qualidade da Energia é consultor tecnológico em energia no Instituto de

Elétrica; Pesquisas Eldorado, em Campinas (SP). Atuação voltada

• ONS: Padrões de Desempenho da Rede Básica – Submódulo para áreas de qualidade de energia elétrica, geração

2.2; distribuída, eficiência energética e distribuição.

• CURVA CBEMA (ITIC): documento recomendado aos


Continua na próxima edição
fabricantes de equipamentos eletrônicos; Confira todos os artigos deste fascículo em www.osetoreletrico.com.br
• NORMA EUROPEIA – EN50160: define e descreve as Dúvidas, sugestões e comentários podem ser encaminhados para o e-mail
redação@atitudeeditorial.com.br
características da tensão com relação à frequência, amplitude
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Qualidade de energia

Capítulo II

Harmônicos – conceitos
Por Gilson Paulilo e Mateus Duarte Teixeira*

Harmônicos e equilibradas. No entanto, verifica-se que, na


Os primeiros relatos relacionados a harmônicos prática, os sinais de tensão e corrente encontram-se
em sistemas elétricos remontam à década de 1920, distorcidos. Este desvio é usualmente expresso
com a instalação de conversores em refinarias em termos das distorções harmônicas de tensão e
de cobre nos Estados Unidos, que provocaram a corrente, e normalmente causadas pela operação
interrupção dos sistemas telefônicos. Este e outro de cargas com características não lineares, como
similar, ocorrido em uma mineração no Canadá, ilustrado na Figura 1.
são dois casos históricos registrados sobre este A magnitude da distorção de tensão depende,
importante e atual fenômeno presente no sistema basicamente, da impedância equivalente vista pela
elétrico atual, principalmente em instalações carga não linear ou fonte de corrente harmônica
industriais. e da corrente suprida por ela. Deve-se reconhecer
que a carga não exerce controle sobre os níveis
Conceitos gerais de distorção de tensão. Consequentemente, uma
Em se tratando de um sistema elétrico ideal, mesma carga poderá resultar em distorções de
as tensões de suprimento devem ser, conforme o tensão diferentes, dependendo da sua localização
contrato de fornecimento, perfeitamente senoidais no sistema elétrico.

Figura 1 – Carga elétrica não linear e sua consequência na corrente do sistema.


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Tecnicamente, um harmônico é um componente de uma onda 1) Os harmônicos que causam problemas geralmente são os
periódica cuja frequência é um múltiplo inteiro da frequência componentes de números ímpares;
fundamental (no caso da energia elétrica brasileira, de 60 Hz). 2) A magnitude da corrente harmônica diminui com o aumento da
Harmônicos são fenômenos contínuos e não devem ser frequência.
confundidos com fenômenos de curta duração, os quais duram
apenas alguns ciclos. Distorção harmônica é um tipo específico de Como comentado, altos níveis de distorções harmônicas em
energia suja, que é normalmente associada à crescente quantidade uma instalação elétrica podem causar problemas para as redes
de acionamentos estáticos, fontes chaveadas e outros dispositivos de distribuição das concessionárias, para a própria instalação e
eletrônicos nas plantas industriais, isto é, associado com cargas para os equipamentos ali instalados. As consequências podem
não lineares. Estas perturbações no sistema podem normalmente chegar até a parada total de importantes equipamentos na linha
ser eliminadas com a aplicação de filtros de linha (supressores de produção, acarretando prejuízos econômicos. Dentre eles, de
de transitórios). Um filtro de harmônicos é essencialmente um maior importância estão a perda de produtividade e de vendas
capacitor para correção do fator de potência, combinado em série devido a paradas de produção, causadas por inesperadas falhas em
com um reator (indutor). motores, acionamentos, fontes ou simplesmente pelo "repicar" de
A distorção harmônica vem contra os objetivos da qualidade do disjuntores.
suprimento promovido por uma concessionária de energia elétrica, As componentes harmônicas geradas por estas cargas não
a qual deve fornecer aos seus consumidores uma tensão puramente lineares propagam-se pela rede elétrica, resultando em sérios danos
senoidal, com amplitude e frequência constantes. Entretanto, aos equipamentos elétricos e/ou eletrônicos. Dentre os principais
o fornecimento de energia a determinados consumidores que efeitos causados, em termos gerais, podem ser citados:
causam deformações no sistema supridor prejudica não apenas
o consumidor responsável pelo distúrbio, mas também outros • Má operação de equipamentos eletrônicos, de controle, de
conectados à mesma rede elétrica. proteção, de medição e outros;
A natureza e a magnitude das distorções harmônicas geradas • Sobretensões gerando comprometimento da isolação e da vida
por cargas não lineares dependem de cada carga em específico, útil do equipamento;
mas duas generalizações podem ser assumidas: • Sobrecorrentes ocasionando efeitos térmicos nocivos aos
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equipamentos;
Qualidade de energia

• Interferências em sistemas de comunicação (principalmente


sinais de rádio);
• Efeitos sobre a resistência dos condutores elétricos.

Série de Fourier
Para a quantificação do grau de distorção presente na tensão
e/ou corrente, lança-se mão da ferramenta matemática conhecida
por série de Fourier. As vantagens de se usar a série de Fourier para Figura 3 – Sinal distorcido e seu espectro harmônico.
representar formas de onda distorcidas é que cada componente
Distorções harmônicas
harmônica pode ser analisada separadamente e a distorção
A distorção harmônica de tensão é o resultado da corrente
final é determinada pela superposição das várias componentes
harmônica circulando através da impedância série (linear) do
constituintes do sinal distorcido. A série de Fourier é calculada pela
sistema elétrico. Para cada frequência harmônica, há uma queda de
seguinte expressão:
tensão de mesma frequência, resultando, desta forma, na distorção
da tensão na barra, conforme a Figura 4.

Assim, os sinais distorcidos podem ser decompostos por meio


da série de Fourier em sinais distintos que possuem frequência
múltipla da frequência fundamental, conforme mostrado na Figura Figura 4 – Sistema elétrico submetido a uma distorção harmônica.
2. Esta apresenta a decomposição de um sinal distorcido nas várias A magnitude da distorção de tensão depende, basicamente,
componentes harmônicas que compõem esse sinal. Nessa ilustração, da impedância equivalente vista pela carga não linear ou fonte
a frequência fundamental é 60 Hz e significa a ordem harmônica. de corrente harmônica e da corrente suprida por ela. Deve-se
Outra forma de visualizar o conteúdo harmônico do sinal reconhecer que a carga não exerce controle sobre os níveis de
distorcido é por meio do seu espectro harmônico, conforme distorção de tensão. Consequentemente, uma mesma carga poderá
mostra a Figura 3, em que se pode identificar a componente resultar em distorções de tensão diferentes, dependendo da sua
fundamental e as componentes harmônicas de ordem 3, 5 e 7 do localização no sistema elétrico.
sinal de tensão. Um dispositivo não linear é equipamento que não produz uma
corrente senoidal quando lhe é aplicada uma tensão senoidal.
Esses equipamentos são classificados em três importantes
categorias, a saber:

• Dispositivos a arco: fornos a arco, máquinas de solda, etc.;


• Dispositivos saturados: transformadores, reatores, etc.;
• Equipamentos de eletrônica de potência: conversores, retificadores, etc.

Distorção harmônica total e individual


Matematicamente, um sinal distorcido pode ser
adequadamente representado em termos de sua frequência
fundamental e suas harmônicas. A frequência fundamental
é usualmente assumida como sendo igual à frequência de
suprimento do sistema e seus múltiplos inteiros são chamados
de harmônicas. Comumente, as componentes harmônicas
são medidas na forma de “distorções” e quantificadas como
Distorção Harmônica Total (DHT) ou Total Harmonic Distortion
(THD), que pode ser usada para as formas de onda de tensão e
Figura 2 – Composição harmônica de um sinal distorcido. de corrente, com a seguinte expressão:
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Tabela 1 – Características harmônicas do sinal analisado


Qualidade de energia

Tensão Harmônica Valor rms Tensão Harmônica Valor rms


V1 100 V7 20
V3 10 V11 10
Em que: V5 30 V13 5
Mh e M1 são, respectivamente, os valores eficazes da componente
harmônica e da componente fundamental nominal da grandeza .
Reescrevendo a expressão anterior, em percentual e
português temos que a distorção harmônica total de tensão e de
corrente serão:

Em que:
DHTv% - Distorção harmônica total de tensão em percentagem;
DHTI% - Distorção harmônica total de corrente em percentagem;
h - Número de ordem harmônica;
Vh - Tensão harmônica de ordem ‘h’, [V];
V1 - Tensão fundamental, [V];
Ih - Corrente harmônica de ordem ‘h’, [V];
I1 - Corrente fundamental, [V]. Figura 5 – Forma de onda do sinal analisado.

Para expressar a distorção individual provocada pelas


componentes harmônicos, ou índices de Distorção Harmônica
Individual, definidos pela relação do valor da componente
harmônica pelo valor da componente fundamental, utilizam-se
as seguintes expressões para a tensão e corrente:

Em que: Figura 6 – Espectro harmônico do sinal analisado.


DHIv% - Distorção harmônica individual de tensão em
De uma forma geral, as concessionárias de energia elétrica
percentagem;
fornecem uma tensão cuja forma de onda é muito próxima da senoidal.
DHIi% - Distorção harmônica individual de corrente em
A conexão de uma carga não linear à rede elétrica, por exemplo, um
percentagem;
forno de indução, ocasionará a circulação de uma corrente, que se
O valor eficaz da onda total não é a soma das componentes
apresentará sob uma forma de onda não senoidal e, por conseguinte,
individuais, mas sim a raiz quadrada da soma dos quadrados,
correntes harmônicas serão produzidas.
conforme mostrado a seguir.
Dentre as cargas comumente encontradas e que produzem
tais correntes, destacam-se os fornos de indução, acionamentos de
velocidade variável, controladores estáticos, retificadores em geral, tipos
de iluminação fluorescente e diversas cargas domésticas.
Como exemplo, considere um sinal distorcido com as Para fins práticos, geralmente, os componentes harmônicos
características apresentadas na Tabela 1. Esta forma de onda de ordens elevadas (acima da 50ª ordem, dependendo do sistema)
desse sinal é mostrada na Figura 5 e seu respectivo conteúdo são desprezíveis para análises de sistemas de potência. Apesar
harmônico é mostrado na Figura 6. Para esse sinal tem-se a de poderem causar interferência em dispositivos eletrônicos de
seguinte situação: baixa potência, elas usualmente não representam perigo aos
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sistemas de potência. Efeitos das distorções harmônicas


Quanto aos limites estabelecidos para tensões harmônicas, As distorções harmônicas causam alguns efeitos indesejáveis ao
existem algumas normas internacionais (IEEE 519, IEC, NRS 048, sistema elétrico. Pode-se destacar:
NTCSE) que estabelecem limites tanto para tensão quanto para
a emissão de correntes harmônicas. No Brasil, o ONS, por meio • Variação da resistência com a frequência, acréscimo das perdas,
do submódulo 2.2 (padrões de desempenho da rede básica), aumento da temperatura e diminuição da vida útil em cabos elétricos.
oferece níveis tanto para as ordens ímpares como também para
as componentes pares. Como podem ser visualizados na Tabela Transformadores
2, estes são considerados para dois níveis distintos da tensão • Aumento de perdas joulicas nos enrolamentos;
de operação. Todavia, vale mencionar que este documento • Perdas devido a correntes parasitas nos enrolamentos. Essas perdas
nacional não tem caráter normativo, com estabelecimento de aumentam com o quadrado da frequência da corrente;
punições aos infratores, sendo apenas uma recomendação aos • Perdas no núcleo;
diversos agentes conectados à rede básica. • Possíveis ressonâncias entre os enrolamentos do transformador e as
Tabela 2 – Limites globais da tensão fundamental expressos em porcentagem
V < 69 kV V ≥ 69 kV
Ímpares Pares Ímpares Pares

Ordem Valor(%) Ordem Valor(%) Ordem Valor(%) Ordem Valor(%)


3, 5, 7 5 3, 5, 7 2
2, 4, 6 2 2, 4, 6 1
9, 11, 3 9, 11, 1,5
13 ≥8 1 13 ≥8 0,5
1
15 a 25 15 a 25
≥ 27 ≥ 27
Apoio
40

capacitâncias das linhas ou bancos de capacitores; Estudo de caso


Qualidade de energia

• Existência de componente contínua de corrente levará o transformador Um sistema elétrico industrial apresenta as seguintes características:
a se sobreaquecer e, também, a saturar o seu núcleo rapidamente; uma linha de distribuição de 13,8 kV com 18 km de extensão desde
• Em geral, um transformador que esteja submetido a uma distorção a subestação até o PAC com o consumidor. As cargas do consumidor
de corrente superior a 5% deverá ser operado abaixo da sua potência são distribuídas em nove cabines com transformadores abaixadores
nominal, operação conhecida como derating. para as tensões de 380/220 V e 220/127 V, assim denominadas: Cabine
01 – Acabamento; Cabine 02 – Onduladeiras; Cabine 03 – Máquina
Motores de indução de papel I; Cabine 04 – Desagregação; Cabine 05 – Caldeira; Cabine
• Sobreaquecimento de seus enrolamentos e diminuição de vida útil. 06 –Máquina de Papel II; Cabine 07 – Picador; Cabine 08 – TAR; Cabine
09 – Administração/Portaria.
Máquinas síncronas Uma grande parte das cargas existentes na instalação tem características
• Sobreaquecimento das sapatas polares, causado pela circulação não lineares e gera componentes harmônicos que estão causando
de correntes harmônicas nos enrolamentos amortecedores, torques problemas de queima dos bancos de capacitores instalados para a correção
pulsantes no eixo da máquina e indução de tensões harmônicas no do fator de potência da instalação, bem como gerando níveis de distorção
circuito de campo, que comprometem a qualidade das tensões geradas. harmônica elevada na barra de 13,8 kV. Problemas na operação das cargas
também foram relatados pelos técnicos da empresa em estudo.
Bancos de capacitores A concessionária realizou medições no PAC junto ao seu
• Fadiga (“stress”) do isolamento, sobreaquecimento e redução da vida útil. alimentador (13,8 kV - Scc 21 MVA), com os seguintes resultados em
termos de distorção harmônica total de tensão e distorção harmônica
Mitigação de harmônicos total de corrente, conforme as Figuras 7 e 8 a seguir.
Diante de tantos problemas causados por harmônicos, torna-se As medições mostradas anteriormente demonstram níveis elevados
necessário tomar medidas preventivas ou corretivas, no sentido de de distorção harmônica total de tensão (Figura 7), acima dos limites
reduzir ou eliminar os níveis harmônicos presentes nos barramentos e recomendados pela IEEE-519/1992 e pela Aneel/ONS, apesar de injeção
linhas de um sistema elétrico. harmônica de corrente no 13,8 kV não apresentar valores elevados.
Dentre as diversas técnicas utilizadas destacam-se: Tal fato justificou a realização de estudos e medições de harmônicos
visando à redução de tais níveis de distorção.
• Filtros passivos: são constituídos basicamente de componentes
R, L e C por meio dos quais se obtêm os filtros sintonizados e
amortecidos. Estes filtros são instalados geralmente em paralelo
com o sistema supridor, proporcionando um caminho de baixa
impedância para as correntes harmônicas. Podem ser utilizados para
a melhoria do fator de potência, fornecendo o reativo necessário
ao sistema. Entretanto, existem alguns problemas relacionados à
utilização destes filtros, dentre os quais se destacam o alto custo, a
complexidade de sintonia e a possibilidade de ressonância paralela
com a impedância do sistema elétrico.
• Filtros ativos: um circuito ativo gera e injeta correntes harmônicas
com defasagem oposta àquelas produzidas pela carga não linear. Assim,
há um cancelamento das ordens harmônicas que se deseja eliminar. Figura 7 – Distorção harmônica total de tensão – 13,8 kV.

Embora bastante eficiente, este dispositivo apresenta custos elevados


(superiores aos filtros passivos), o que tem limitado sua utilização nos
sistemas elétricos.
• Compensadores eletromagnéticos.
• Moduladores CC.

Técnicas tais como eliminação por injeção de um componente de


corrente alternada ou pulsante, produzidas por um retificador e aumento
do número de pulsos dos conversores estáticos também podem ser
utilizados. Dentre estas, a última tem sido mais usada e se enquadra
dentro do contexto de equipamentos designados por compensadores
eletromagnéticos de harmônicos.
Figura 8 – Distorção harmônica total de corrente – 13,8 kV.
Apoio
42
Qualidade de energia

Figura 9 – Diagrama unifiliar para os estudos de fluxo de carga e de distorção harmônica.

OLESKOVICZ, M. Qualidade da Energia Elétrica LSEE – Laboratório de Sistemas de


Energia Elétrica, USP – Universidade de São Paulo, 2007.
CANESIN, C. A. Qualidade da Energia Elétrica nos Sistemas Elétricos. Unesp – Ilha
Solteira.
MARTINS, J.; COUTO, C., AFONSO, J. L. Qualidade da Energia Elétrica. CLME
2003. 3º Congresso Luso-Moçambicano de Engenharia, Maputo, Moçambique,
2003.
ROBERT, A.; JAEGER, E.; HOEFFELMAN, J. Power Quality & EMC, CIRED – 18th
International Conference on Electricity Distribution, Turin, 2005.
VELASCO, J. M. Computer Analysis of Voltage Variations in Power Systems:
Application on Over voltages and Voltage Sags. Universitat Politècnica DAE
Catalunya, Barcelona, Espanha.
ORTMANN, P. Understanding Power Quality. University of Idaho.

* Gilson Paulilo é engenheiro eletricista, com


mestrado e doutorado em Qualidade de Energia Elétrica
pela Universidade Federal de Itajubá. Atualmente,
é consultor tecnológico em energia no Instituto de
Figura 10 – Espectro harmônico dos estudos de fluxo de carga e Pesquisas Eldorado, em Campinas (SP). Atuação voltada
distorção harmônica.
para áreas de qualidade de energia elétrica, geração
distribuída, eficiência energética e distribuição.
O estudo foi realizado com base na configuração do sistema
Mateus Duarte Teixeira é engenheiro industrial
elétrico da indústria mostrada na Figura 9, cujo espectro harmônico
e eletricista, mestre em engenharia elétrica e
é mostrado na Figura 10.
doutorando na Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Atualmente, é pesquisador do Instituto de Tecnologia
Referências
DUGAN, R. C.; MCGRANAGHAN, M. F.; SANTOSO, S.; BEATY, H. W. Electrical para o Desenvolvimento (Lactec), professor efetivo
Power Systems Quality. McGraw-Hill, Second Edition. do curso de engenharia elétrica da UFPR e secretário
BOLLEN, M. H. J. Understanding Power Quality Problems: Voltage Sags em
Interruptions, Wiley-IEEE Press, October 1999. executivo da Sociedade Brasileira de Qualidade da
ARRILAGA, J.; WATSON, N. R. Power System Harmonics. Wiley-IEEE Press, Energia Elétrica (SBQEE).
November 2004, Second Edition.
OLIVEIRA, J. C.; DELAIBA, A. C.; CHAVES, M. L.; SAMESIMA, M. I.; RESENDE, Continua na próxima edição
J. W.; RODRIGUES, K. D. Qualidade da Energia Elétrica – Apostilas. NQREE – Confira todos os artigos deste fascículo em www.osetoreletrico.com.br
Núcleo de Qualidade e Racionalização da Energia, UFU – Universidade Federal Dúvidas, sugestões e comentários podem ser encaminhados para o e-mail
de Uberlândia, 2007. redacao@atitudeeditorial.com.br
Apoio
42
Qualidade de energia

Capítulo III

Desequilíbrios de tensão
Por Gilson Paulilo*

O desequilíbrio em um sistema elétrico trifásico analisado com base no fator de desequilíbrio,


é uma condição na qual as três fases apresentam que exprime a relação entre as componentes de
diferentes valores de tensão em módulo ou defasagem sequência negativa e sequência positiva da tensão
angular entre fases diferentes de 120º elétricos ou, expressa em termos percentuais da componente de
ainda, as duas condições simultaneamente. sequência positiva.
O desequilíbrio de tensão também é muitas vezes
definido como o desvio máximo dos valores médios Conceitos sobre desequilíbrios
das tensões ou das correntes trifásicas, dividido pela O conceito de desequilíbrio de tensão em um
média dos mesmos valores, expresso em porcentagem. sistema elétrico é uma condição na qual as três fases
O desequilíbrio pode ser definido usando-se a apresentam diferentes valores de tensão em módulo
teoria das componentes simétricas. A razão entre os ou defasagem angular entre fases diferente de 120°
componentes de sequência negativa ou zero, com a elétricos ou, ainda, as duas condições.
componente de sequência positiva, pode ser usado Em um sistema trifásico ideal, livre de desequilíbrios,
para especificar a porcentagem do desequilíbrio. considerando a fase “a” na referência e sequência de
As origens destes desequilíbrios geralmente são fases positiva, tem-se em pu:
nos sistemas de distribuição, os quais possuem cargas
monofásicas distribuídas inadequadamente, fazendo
surgir no circuito tensões de sequência negativa. Este
problema se agrava quando consumidores alimentados
de forma trifásica possuem uma má distribuição de
carga em seus circuitos internos, impondo correntes Na realidade, porém, as tensões não são perfeitamente
desequilibradas no circuito da concessionária. Tensões equilibradas. Isso se deve a desequilíbrios que aparecem
desequilibradas podem também ser resultados da internamente às instalações das concessionárias e dos
queima de fusíveis em uma fase de um banco de consumidores, estando diretamente relacionado com as
capacitores trifásicos. cargas instaladas.
Segundo os Procedimentos de Distribuição No caso específico de as amplitudes das tensões
(Prodist), da Aneel, o desequilíbrio de tensão é apresentarem valores em módulo diferentes de 1,0 pu,
43

porém, mantendo-se o defasamento angular de 120° entre fases,


esta situação é definida como um problema de queda de tensão.
Verifica-se, dessa maneira, que este problema, extensivamente
estudado ao longo dos anos e que recebeu um sem-número de
proposições para a mitigação dos seus efeitos, constitui-se em um
caso particular no universo dos desequilíbrios de tensão.
Considerando-se cargas trifásicas e monofásicas em um
sistema elétrico, ele é equilibrado quando circulam correntes
equilibradas. No caso de cargas monofásicas, ele é considerado
equilibrado quando estas forem cuidadosamente distribuídas ao
longo das fases, de forma que, no ponto comum, a corrente seja,
idealmente, igual a zero. Por este motivo é importante se fazer,
com cautela, a distribuição de cargas monofásicas nas fases do
sistema. Entretanto, no sistema elétrico, não existem conectadas
somente cargas monofásicas totalmente dissociadas das cargas
trifásicas ou vice-versa. O que se tem é a associação dessas cargas
no sistema, tornando-se impossível prever quais cargas e em que
instante estarão em operação.
Isso demonstra o grau de complexidade que o sistema pode
apresentar e a dificuldade no trabalho de balanceamento destas ao
longo das três fases do sistema.
Este fato fez com que, durante muito tempo, toda a atenção
fosse concentrada em solucionar os problemas de quedas de tensão,
convivendo-se, então, conscientemente, com os desequilíbrios do
sistema. Isso pode ser comprovado pelo fato de os próprios engenheiros
de planejamento das concessionárias trabalharem com um limite
de até 2% de desequilíbrio de tensão nos níveis de transmissão e
de subtransmissão (tensões iguais ou superiores a 13,8 kV) em seus
estudos. Soma-se a isso o fato de os equipamentos trifásicos não
possuírem, na realidade, impedâncias iguais em cada fase. Estes,
por consequência, absorvem correntes desequilibradas que, por sua
vez, provocam o aparecimento de tensões desequilibradas. Dessa
forma, no ponto de acoplamento comum entre a concessionária e
os consumidores, já se considera certo grau de desequilíbrio, com
origem nos equipamentos instalados – geradores, transformadores
e linhas de transmissão – respectivamente, nos setores de geração,
transmissão e distribuição.
De acordo com a literatura clássica e com vários trabalhos
apresentados ao longo dos anos, o grau ou fator de desequilíbrio de
tensão de um sistema elétrico pode ser definido de diversas maneiras.
Dentre elas, destacam-se:

• O grau de desequilíbrio é definido pela relação entre os módulos


da tensão de sequência negativa e da tensão de sequência
positiva. Esta definição está baseada no fato de que um conjunto
trifásico de tensões equilibradas possui apenas componentes
de sequência positiva. O surgimento, por alguma razão, de
componentes de sequência zero, provoca apenas a assimetria
das tensões de fase. As tensões de linha, cujas componentes de
sequência zero são sempre nulas, permanecem equilibradas.
Entretanto, a presença de componentes de sequência negativa
Apoio
44

também introduz uma assimetria nas tensões de linha. Este fator, e recomendações de várias instituições para calcular o
Qualidade de energia

em porcentagem, é dado por: desequilíbrio de tensão.


Tabela 1 – Principais recomendações sobre desequilíbrios

Recomendações/Normas Expressões

IEC
Em que:
FD% - Fator de desequilíbrio de tensão em porcentagem;
V- - Módulo da tensão de sequência negativa; ONS / PRODIST
,em que
V + - Módulo da tensão de sequência positiva.

• A operação de motores de indução trifásica com tensões CENELEC

desequilibradas causa sérios danos ao mesmo, como será


apresentado no item seguinte. A fim de quantificar este efeito,
,em que
a norma NEMA – MG1 – 14.34 define o fator desequilíbrio de NRS 048
tensão como a relação entre o máximo desvio da tensão média
e a tensão média, tomando-se como referência as tensões de
linha. Este fator, em percentagem, é dado por:
ANSI

IEEE

Em que:
Origens dos desequilíbrios
ΔU - máximo desvio da tensão média [V];
Os desequilíbrios de tensão afetam fortemente o nível de
UAV - tensão média [V].
distribuição de energia elétrica se comparado com os demais
níveis. Por este motivo, as fontes destes estão diretamente
• Alternativamente, pode-se usar a expressão conhecida como
associadas com as cargas elétricas e com os arranjos utilizados
CIGRÉ-C04, que é dada por:
para sua alimentação neste nível de tensão.
De uma maneira geral, salvas as características exclusivas
de alguns sistemas isolados, como no caso de sistemas
ferroviários eletrificados, as fontes dos desequilíbrios de tensão
Em que: são as seguintes:

• A combinação de cargas monofásicas e trifásicas desequilibradas,


principalmente cargas especiais como fornos a arco e máquinas
de solda, no mesmo sistema de distribuição, sendo as cargas
monofásicas desigualmente distribuídas ao longo das três fases
• Por fim, o IEEE recomenda que o desequilíbrio trifásico possa
do sistema;
ser obtido pela seguinte relação:
• Em sistemas de transmissão de energia elétrica, devido
às características das impedâncias das linhas, aparecem
desequilíbrios de tensão. Uma das maneiras de se minimizar
os seus efeitos é fazer a transposição das fases nas torres de
As definições anteriores indicam maneiras diferentes de transmissão de energia elétrica. Em sistemas de distribuição,
avaliação dos desequilíbrios de tensão no sistema elétrico porém, isso é uma prática não usual, o que contribui para que o
apresentadas na normalização internacional. Elas constituem-se sistema permaneça desequilibrado.
nas definições mais utilizadas. Todavia, novos métodos e
definições de como se avaliar desequilíbrios de tensão, bem Estas causas são as mais frequentes. Contudo, ainda são
como de outras grandezas elétricas – como potência ativa, relatados transformadores conectados em delta aberto, abertura
potência reativa, potência aparente, potência de distorção, de fusíveis em bancos de capacitores, dentre outras causas.
dentre outras – considerando-se condições não senoidais dos Em sistemas específicos, como sistemas ferroviários, a
sinais de tensão e corrente, estão sendo propostos atualmente. influência das cargas monofásicas na rede de alimentação se torna
A Tabela 6.1 apresenta um resumo das principais normas mais evidente. Neste sistema, a carga característica, locomotivas
Apoio
46

elétricas, são cargas puramente monofásicas controladas girante é resultado da composição dos campos de sequência positiva
Qualidade de energia

atualmente por semicondutores de potência. Na rede de e negativa: a de sequência positiva executando as mesmas funções
alimentação são utilizadas topologias especiais de transformadores caso o campo fosse normal e o de sequência negativa opondo-se ao
como, por exemplo, as conexões Scott e conexões Woodbridge. anterior e produzindo o desequilíbrio magnético do motor. Outro efeito
Essas conexões permitem minimizar, em parte, o desequilíbrio importante é o fato das impedâncias de sequência negativa possuir
gerado pelas cargas de tração devido à brusca variação de carga valores muito pequenos, resultando em um desequilíbrio de corrente
de acordo com os períodos de aceleração e frenagem. bastante elevado. Consequentemente, a elevação de temperatura do
motor operando com uma determinada carga e sob determinado
Consequências dos desequilíbrios desequilíbrio será maior que o mesmo operando sob as mesmas
Tensões desequilibradas provocam consequências condições e com tensões equilibradas. Isso causa o sobreaquecimento
danosas no funcionamento de alguns equipamentos elétricos, do motor e a diminuição da sua vida útil. Um exemplo destes efeitos
comprometendo, na maioria dos casos, o seu desempenho está apresentado na Tabela 2, para um motor de 5 Hp.
e a sua vida útil. Entretanto, por mais paradoxal que possa Tabela 2 – Efeitos dos desequilíbrios de tensão em motores elétricos
parecer, as cargas elétricas se constituem na principal fonte de – Motor de indução trifásico: 5 Hp, 1725 rpm, 230 V, 60 Hz
desequilíbrio, como visto anteriormente. A fim de esclarecer esta
Característica Desempenho
relação de causa/efeito, o comportamento de cargas lineares, do
tipo motores de indução trifásicos, e de cargas não lineares, do Tensão Média [V] 230 230 230
tipo conversores estáticos CA-CC, operando sob esta condição é Desequilíbrio de Tensão [%] 0,3 2,3 2,3
apresentado a seguir. Desequilíbrio de Corrente [%] 0,4 40 17,7

Elevação Temperatura [ºC] 0 40 30


Cargas lineares – motores de indução
As características de desempenho de um motor de indução A importância desta tabela está nos seguintes fatos:
trifásico são um conjunto de grandezas eletromecânicas e térmicas
que definem o comportamento operacional deste sob determinadas • Aproximadamente 60% da energia produzida é consumida na
condições. Desta forma, em função da potência exigida pela alimentação de motores elétricos nos sistemas industriais;
carga em um determinado instante e das condições da rede de • Um pequeno desequilíbrio de tensão – da ordem de 2,3% – é
alimentação, o motor apresenta valores definidos de rendimento, responsável por um desequilíbrio de corrente – da ordem de 17%
fator de potência, corrente absorvida, velocidade, conjugado – juntamente com uma elevação de temperatura de 30 °C;
(torque) desenvolvido, perdas e elevação de temperatura. • Sabe-se que a cada 10 °C de elevação de temperatura, a vida
Dessa maneira, quando as tensões de alimentação útil da isolação de um motor elétrico diminui pela metade.
apresentam desequilíbrios, seja em módulo ou em ângulo,
ocorrem alterações nas características térmicas, elétricas e
mecânicas dos motores de indução, afetando o seu desempenho
Desequilíbrio de tensão (%)
e comprometendo a sua vida útil.
100
Vários estudos foram efetuados desde a década de 1950 no 80

sentido de explicar os efeitos que ocorrem internamente aos


60
motores de indução. Em 1959, Williams provou que o motor
apresenta redução de rendimento. Em 1959, Gafford avaliou
40
a sobrelevação da temperatura e a diminuição da vida útil do
motor. Em 1963, Berndt apresentou um método de avaliação do 20
motor e em 1985 Cummings estudou métodos de proteção do
motor contra desequilíbrios de tensão. 0
0 2 3,5 5
Quando as tensões de linha aplicadas aos motores de indução
Desequilíbrio de corrente (%)
apresentam variações tanto no módulo quanto no ângulo de fase, a Elevação de temperatura (0C)
primeira consequência é a deformação do campo magnético girante, Figura 1– Exemplo gráfico do uso das componentes simétricas.
originando uma operação semelhante àquela existente quando o
entreferro não é uniforme. Neste caso, é inevitável a produção de Estes dados demonstram o impacto econômico decorrente dos
esforços mecânicos axiais e radiais sobre o eixo, com o aparecimento de efeitos dos desequilíbrios de tensão nos motores de indução, uma
vibrações, ruídos, batimento, desgaste e o aquecimento excessivo dos vez que se agregam às deficiências impostas na operação os custos
mancais em consequência de correntes parasitas que podem aparecer de manutenção preventiva e corretiva. Um estudo mais recente,
no sistema eixo-mancais-terra. A deformação do campo magnético conduzido por Lee em 1998 investigou os efeitos de diferentes
Apoio
47

desequilíbrios de tensão com o mesmo VUF no desempenho • Corrente de rotor bloqueado: o desequilíbrio desta corrente será da
de um motor de indução e a influência destes no sistema de mesma ordem que o desequilíbrio das tensões;
potência. A partir de oito diferentes situações, monofásicas, • Ruído e vibração: como já citado anteriormente, estes efeitos
bifásicas e trifásicas, considerando elevação e diminuição das aparecerão, sendo mais severos em motores de dois polos.
tensões, resultando em desequilíbrios da ordem de 4% e 6%,
foram investigados o rendimento e o fator de potência. Além das Cargas não lineares – sistemas multiconversores
conclusões já apresentadas, o estudo mostrou: CA – CC
A utilização de sistemas multiconversores CA-CC foi largamente
• A importância de se considerar o valor da tensão de sequência difundida nas aplicações industriais nos últimos 20 anos. Isso
positiva que, quando muito elevada, provoca um baixo fator de ocorreu devido ao estágio de desenvolvimento adquirido pela
potência e alto rendimento; eletrônica de potência e pela eletrônica de controle que permitiram a
• As piores situações em relação à sobrelevação de temperatura ocorrem disponibilidade de componentes cada vez mais potentes associados
para desequilíbrios trifásicos considerando diminuição das tensões; a esquemas de controle cada vez mais eficazes.
• Uma vez que os desequilíbrios causam perdas excessivas e Podem-se citar como exemplos práticos de dispositivos
aumento no consumo, estes também influenciam a estabilidade desenvolvidos a partir desta tecnologia os sistemas de
do sistema de potência, sendo necessária a sua incorporação a acionamento para motores de corrente contínua e para motores
estudos desta natureza. de corrente alternada. Apesar de serem sistemas que competem
entre si em nível de aplicações, ainda hoje é possível se
De uma maneira geral, os efeitos em outras características encontrar nichos específicos de mercado em que um sistema
elétricas podem ser resumidos da seguinte maneira: se sobrepõe ao outro. Vale lembrar, porém, que a tendência do
mercado, em um futuro próximo, é a utilização em larga escala
• Torque: os torques de rotor bloqueado e de frenagem diminuem. de acionamentos para motores de corrente alternada.
Em condições extremamente severas, o torque pode não ser o Os conversores estáticos de potência são dispositivos que
adequado para a aplicação; possuem, por natureza, uma característica não linear gerando
• Velocidade nominal: a velocidade nominal diminui ligeiramente; harmônicos no sistema de fornecimento de energia. Como resultado
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48

direto, estes sistemas apresentam normalmente fatores de potência 4) Limite global de desequilíbrio de tensão e limite de desequilíbrio
Qualidade de energia

ruins e que variam com a carga. Estes sistemas, da mesma forma que de tensão por consumidor na conexão a redes de transmissão e
qualquer outro, foram projetados para trabalharem sob condições subtransmissão.
equilibradas de fornecimento na frequência fundamental. Na prática,
porém, os sistemas de alimentação são desequilibrados dentro de Apesar dos diferentes valores encontrados na tabela anterior,
certa faixa, tornando complexo o problema de geração harmônica, adota-se, de maneira geral, o limite de 2% para desequilíbrios de
degradando as características e a qualidade da corrente de entrada tensão, sem qualquer tipo de prejuízo à operação de cargas lineares
do conversor e interferindo significativamente na tensão de saída. e não lineares.
Vários trabalhos estão disponíveis na literatura investigando estes
problemas, abordando a modelagem do conversor através de diferentes Referências
métodos. Contudo, dois métodos podem ser, basicamente, distinguidos: DUGAN, R. C.; McGRANAGHAN, M. F.; SANTOSO, S.; BEATY,
o método no domínio do tempo e o método no domínio da frequência. H. W. Electrical power systems quality. New York: McGraw–Hill,
A análise temporal tem a vantagem de prever o comportamento do 2ª Edição.
conversor em regimes transitórios. Um sistema de equações diferenciais BOLLEN, M. H. J. Understanding power quality problems: voltage
descreve o funcionamento do conversor e sua solução é encontrada por sags in interruptions. Wiley-IEEE Press, Oct. 1999.
meio de técnicas de análise numérica. Os harmônicos são avaliados pela ARRILAGA, J.; WATSON, N. R. Power system harmonics. New York:
Transformada Rápida de Fourier (FFT). Como inconveniente, tem-se o Wiley-Ieee Press, November 2004, Second Edition.
longo tempo de simulação para se atingir o regime permanente, ou seja, PAULILLO, G. Proposta de um mitigador de harmônicos não
característicos através da compensação de desequilíbrios de tensão.
despende-se um grande esforço computacional. Alguns dos simuladores
Tese de Doutorado (Universidade Federal de Itajubá), Itajubá-MG,
que utilizam este método: EMTP, EMTPDC, ATP, SABER, etc. Por sua
2001.
vez, o método frequencial consiste em descrever o conversor por um
PAULILLO, G. Um compensador de desequilíbrios de tensão.
sistema de equações em regime permanente e sua resolução é obtida
Dissertação de Mestrado (Universidade Federal de Itajubá),
por um método interativo. Em alguns casos, são relatados problemas de
Itajubá-MG, 1996.
convergência na aplicação deste método.
PAULILLO, G.; ABREU, J. P. G. Development of a voltage imbalance
electromagnetic compensator. Computational Methods in Circuits
Limites dos desequilíbrios and Systems Applications, WSEAS Press, 2003, p. 253-257.
Antes de serem apresentadas as soluções para desequilíbrios de
ABREU, J. P. G.; ARANGO, H.; PAULILLO, G. Proposal for a line
tensão, serão apresentados os limites permissíveis dos desequilíbrios drop and unbalance compensator. Proceedings of the 7th IEEE PES
de tensão em sistemas elétricos definidos por diversas normas, International Conference on Harmonics and Quality of Power –
tanto em nível nacional como em nível internacional. Estes valores ICHQP, Las Vegas, p. 276-279, Oct. 1996.
constituem-se como indicadores da necessidade ou não de se adotar ABREU, J. P. G.; ARANGO, H.; PAULILLO, G. A novel electromagnetic
medidas de mitigação, de modo a se respeitar a normalização compensator. Proceedings of the 14t h International Conference on
vigente. Estes limites estão apresentados na Tabela 3 a seguir. Electricity Distribution – CIRED’97, Birmingham, 1997;
Tabela 3 – Limites permissíveis para desequilíbrios de tensão ABREU, J. P. G.; GUIMARÃES, C. A. M.; PAULILLO, G. Reducing
harmonics in multiconverter systems under unbalanced voltage
Norma L imite
supply – a novel transformer topology. Proceedings of the IEEE PES
2% Summer Meeting 2000, Seattle, Jul. 2000.
NEMA MG1 14-34 (1)
ABREU, J. P. G.; ARANGO, H.; PAULILLO, G. Compensador de
ANSI C.84.1-1989 (2) 3%
Desequilíbrios e de Quedas de Tensão. Anais do XI CBA – Congresso
IEEE Orange Book – 446/1995 (3) 2,5%
Brasileiro de Automática, USP – São Paulo, p. 1.661-1.665, 1996.
GTCP/CTST/GCPS – ELETROBRÁS (4) 1,5% e 2%

ONS e ANEEL 2% * Gilson Paulilo é engenheiro eletricista, com


mestrado e doutorado em Qualidade de Energia Elétrica
pela Universidade Federal de Itajubá. Atualmente,
Observações: é consultor tecnológico em energia no Instituto de
1) Reconhecendo o efeito prejudicial dos desequilíbrios sobre Pesquisas Eldorado, em Campinas (SP). Atuação voltada
o desempenho do motor, a norma Nema recomenda ainda para áreas de qualidade de energia elétrica, geração

fatores a serem aplicados ao motor operando sob condições de distribuída, eficiência energética e distribuição.

desequilíbrio. Além disso, estuda-se a possibilidade da redução Continua na próxima edição


deste limite para 1%; Confira todos os artigos deste fascículo em www.osetoreletrico.com.br
2) Máximo valor medido sem carga no sistema; Dúvidas, sugestões e comentários podem ser encaminhados para o e-mail
redacao@atitudeeditorial.com.br
3) Desequilíbrio trifásico permissível;
Apoio
38
Qualidade de energia

Capítulo IV

Variações de tensão de
longa duração
Por Gilson Paulilo e Mateus Duarte Teixeira*

Dos problemas relacionados às variações na dos transformadores incorretamente conectados


tensão, citamos os efeitos de longa duração por também podem resultar em sobretensões no
um período superior a um minuto, sendo, portanto, sistema.
consideradas como distúrbios de regime permanente Variações de tensão de longa duração incluem
que podem ser caracterizados como desvios que as variações normais de tensão do dia a dia, como
ocorrem no valor eficaz da tensão, na frequência as variações causadas pela variação da carga e
do sistema. Estas variações podem estar associadas pelos equipamentos de regulação (mudanças de
a sobre ou subtensão e a faltas sustentadas. No caso taps, reguladores de tensão, banco de capacitores,
de sobre ou subtensão, geralmente, não resultam de etc.). Estas variações são tipicamente caracterizadas
falhas do sistema, mas são causadas por variações pela plotagem dos perfis de tensões em relação a
na carga e/ou operações de chaveamento sobre longos períodos de tempo, como 24 horas (veja a
ele. Tais variações são tipicamente apresentadas e Figura 1).
analisadas como gráficos do sinal de tensão (RMS – Geralmente, são instalados nas indústrias
root meansquare) versus o tempo. bancos de capacitores, normalmente fixos, para
As variações de tensão de longa duração são correção do fator de potência ou mesmo para
causadas por variações de carga ou por perda de elevação da tensão nos circuitos internos da
interligações no sistema elétrico e são classificadas instalação. Nos horários de ponta, quando há
em sobretensão, subtensão e interrupção sustentada. grandes solicitações de carga, o reativo fornecido
A seguir será analisado cada um destes eventos. por estes bancos é desejável. Entretanto, no horário
fora de ponta, principalmente no período noturno,
Sobretensões tem-se um excesso de reativo injetado no sistema,
Podemos designar uma sobretensão como o qual se manifesta por uma elevação da tensão.
sendo um aumento no valor eficaz da tensão CA, Com relação às consequências das sobretensões
maior do que 110% (valores típicos entre 1,1 pu e de longa duração, estas podem resultar em falha dos
1,2 pu) na frequência do sistema, por uma duração equipamentos. Os dispositivos eletrônicos podem
maior do que 1 minuto. Sobretensões usualmente sofrer danos durante condições de sobretensões,
resultam do desligamento de grandes cargas ou embora transformadores, cabos, disjuntores,
da energização de um banco de capacitores. Taps TCs, TPs e máquinas rotativas, geralmente, não
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39

automáticos, tanto em sistemas das concessionárias como


em sistemas industriais, possibilitando um maior controle do
nível da tensão e a instalação de compensadores estáticos de
reativos.

Subtensões
Já a subtensão apresenta características opostas, sendo que
agora um decréscimo no valor eficaz da tensão AC para menos de
90% na frequência do sistema é caracterizado também com uma
duração superior a 1 min.
As subtensões são decorrentes, principalmente, do
carregamento excessivo de circuitos alimentadores, os quais são
submetidos a determinados níveis de corrente que, interagindo com
a impedância da rede, dão origem a quedas de tensão acentuadas.
Figura 1 – Exemplo ilustrando o perfil da tensão para uma variação de Outros fatores que contribuem para as subtensões são: a conexão
longa duração.
de cargas à rede elétrica, o desligamento de bancos de capacitores
apresentem falhas imediatas. Entretanto, tais equipamentos, e, consequentemente, o excesso de reativo transportado pelos
quando submetidos a repetidas sobretensões, poderão ter a circuitos de distribuição, o que limita a capacidade do sistema no
sua vida útil reduzida. Relés de proteção também poderão fornecimento de potência ativa e, ao mesmo tempo, eleva a queda
apresentar falhas de operação durante as sobretensões. Uma de tensão.
observação importante diz respeito à potência reativa fornecida A queda de tensão por fase é função da corrente de carga, do
pelos bancos de capacitores, que aumentará com o quadrado fator de potência e dos parâmetros R e X da rede. Dessa forma,
da tensão, durante uma condição de sobretensão. pode-se concluir que aqueles consumidores mais distantes da
Dentre algumas opções para a solução de tais problemas, subestação estarão submetidos a menores níveis de tensão. Além
destaca-se a troca de bancos de capacitores fixos por bancos disso, quanto menor for o fator de potência, maiores serão as
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40

perdas reativas na distribuição, aumentando a queda de tensão no • Transformadores de tap variável: Existem transformadores de
Qualidade de energia

sistema. tap variável com acionamento mecânico ou eletrônico. A maioria


Para evidenciar a influência do fator de potência na tensão, a destes é do tipo autotransformador, embora existam numerosas
Figura 2 ilustra o perfil de tensão ao longo de um alimentador. aplicações de transformadores de dois e três enrolamentos com
Dentre os problemas causados por subtensões de longa comutadores de tap. Os do tipo mecânico são para cargas que
duração, destacam-se: variam lentamente, enquanto os eletrônicos podem responder
rapidamente às mudanças de tensão;
• Redução da potência reativa fornecida por bancos de capacitores • Dispositivos de isolação com reguladores de tensão
ao sistema; independentes: dispositivos de isolação incluem sistemas UPS
• Possível interrupção da operação de equipamentos eletrônicos, (Uninterruptible Power Supply), transformadores ferroressonantes
tais como computadores e controladores eletrônicos; (tensão constante), etc. Estes são equipamentos que isolam a carga
• Redução de índice de iluminamento para os circuitos de da fonte de suprimento por algum método de conversão de energia.
iluminação incandescente; Assim, a saída do dispositivo pode ser separadamente regulada e
• Elevação do tempo de partida das máquinas de indução, o que manter constante a tensão, desprezando as variações provenientes
contribui para a elevação de temperatura dos enrolamentos; e da fonte principal;
• Aumento nos valores das correntes do estator de um motor de • Dispositivos de compensação de impedância: Capacitores
indução quando alimentado por uma tensão inferior à nominal. shunt ajudam a manter a tensão pela redução da corrente
Desta forma, tem-se um sobreaquecimento da máquina, o que de linha ou pela compensação de circuitos indutivos. Estes
certamente reduzirá a sua expectativa de vida útil. capacitores podem ser fixos ou chaveados dependendo do
tipo e da necessidade do sistema. Capacitores em série são
relativamente raros, mas são muito úteis em algumas cargas
impulsivas como britadeiras, etc. Estes capacitores compensam
grande parte da indutância dos sistemas. Se o sistema é
altamente indutivo, a impedância é significativamente
reduzida. Se o sistema não é altamente indutivo, mas tem uma
alta proporção de resistência, os capacitores série não serão
muito efetivos. Compensadores estáticos de reativos podem
ser aplicados tanto em sistemas das concessionárias como
industriais. Eles ajudam a regular a tensão pela rápida resposta
ao suprir ou consumir energia reativa. Existem três tipos
principais de compensadores estáticos de reativos: o reator
controlado a tiristor, o capacitor chaveado a tiristor e o reator
Figura 2 – Perfil de tensão ao longo de um alimentador em função do a núcleo saturado. Estes equipamentos são muito usados em
fator de potência
cargas geradoras de flutuações (flicker), tais como fornos a arco
Como solucionar problemas de VTLDS e em outras cargas que variam randomicamente.
Para minimizar estes problemas, as medidas corretivas
geralmente envolvem uma compensação da impedância Z ou a
compensação da queda de tensão causada pela impedância.
As opções para o melhoramento da regulação de tensão são:

• Instalar reguladores de tensão para elevar o nível da tensão;


• Instalar capacitores shunt para reduzir a corrente do circuito;
• Instalar capacitores série para cancelar a queda de tensão indutiva;
• Instalar cabos com bitolas maiores para reduzir a impedância Z;
• Mudar o transformador de serviço para um de capacidade maior,
reduzindo, assim, a impedância Z; e
• Instalar compensadores estáticos de reativos, os quais têm os mesmos
objetivos que os capacitores, para mudanças bruscas de cargas.

Existe uma variedade de dispositivos usados para regulação de


tensão. Tais dispositivos são tipicamente divididos em três classes: Figura 3 – Reator a núcleo saturado.
Apoio
42

Interrupções sustentadas vários minutos a horas (em média 2 horas), dependendo do local da
Qualidade de energia

Quando o fornecimento de tensão permanece em zero por um falta, do tipo de defeito na rede e também da operacionalidade da
período de tempo que excede um minuto, a variação de tensão de equipe de manutenção. Em redes aéreas, a localização do defeito
longa duração é considerada como uma interrupção sustentada. não demora muito tempo, ao passo que em redes subterrâneas
As interrupções maiores do que um minuto são geralmente necessita-se de um tempo considerável, o que contribui para o
permanentes e requerem intervenção humana para reparar e comprometimento da qualidade do fornecimento. Entretanto, a
retornar o sistema à operação normal no fornecimento de energia. probabilidade de ocorrer uma falta em redes subterrâneas é muito
As interrupções sustentadas podem ocorrer de forma inesperada menor do que em redes aéreas.
ou de forma planejada. A maioria delas ocorre inesperadamente e as
*Gilson Paulilo é engenheiro eletricista, com
principais causas são falhas nos disjuntores, queima de fusíveis, falha de mestrado e doutorado em qualidade de energia elétrica
componentes de circuito alimentador, etc. Já as interrupções planejadas pela Universidade Federal de Itajubá. Atualmente,
são feitas geralmente para executar manutenção na rede, ou seja, serviço é consultor tecnológico em energia no Instituto de
como troca de cabos e postes, mudança do tap do transformador, Pesquisas Eldorado, em Campinas (SP). Sua atuação
é voltada para áreas de qualidade de energia
alteração dos ajustes de equipamentos de proteção, etc.
elétrica, geração distribuída, eficiência energética e
Seja a interrupção de natureza inesperada e/ou sustentada, o distribuição.
sistema elétrico deve ser projetado e operado de forma a garantir que: Mateus Duarte Teixeira é engenheiro eletricista e
mestre em sistemas de potência – qualidade de energia
elétrica. Atua há mais de dez anos em projetos de
• O número de interrupções seja mínimo possível;
tecnologia aplicada ao setor elétrico nas áreas de
• Uma interrupção dure o mínimo possível; e qualidade da energia, geração distribuída, eficiência
• O número de consumidores afetados seja pequeno. energética e proteção de sistemas elétricos para
empresas do setor.
Ao ocorrer uma falta de caráter permanente, o dispositivo de Continua na próxima edição
proteção do alimentador principal executa três ou quatro operações Confira todos os artigos deste fascículo em www.osetoreletrico.com.br
Dúvidas, sugestões e comentários podem ser encaminhados para o e-mail
na tentativa de se restabelecer o sistema, até que o bloqueio
redacao@atitudeeditorial.com.br
definitivo seja efetuado. A duração desta interrupção pode atingir de
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36
Qualidade de energia

Capítulo V

Variações de tensão de curta


duração - Parte I
Por Gilson Paulillo, Mateus Teixeira, Ivandro Bacca e José Maria de Carvalho Filho*

Entre os fenômenos que contribuem para a elétrica, definem-se as Variações de Tensão de


perda de qualidade de um determinado suprimento Curta Duração (VTCD), englobando os fenômenos
elétrico, aqueles associados às variações dos de elevação de tensão, afundamento e interrupção.
valores RMS das tensões ocupam posição de De acordo com esses procedimentos,
destaque. Neste sentido, as Variações de Tensão de entende-se por Variação de Tensão de Curta
Curta Duração (VTCDs) têm mobilizado esforços Duração: “um desvio significativo da amplitude da
de pesquisadores de todo o mundo na busca de tensão por um curto intervalo de tempo.”
soluções tanto para suas causas quanto para os A amplitude dos VTCDs é definida pelo valor
efeitos sobre o sistema. extremo do valor eficaz (média quadrática) da
Estas variações podem ser designadas como tensão em relação à tensão de referência do sistema
instantâneas (0,5 a 30 ciclos), momentâneas (30 no ponto considerado, enquanto perdurar o evento.
ciclos a 3 s) ou temporárias (3 s a 1 min). Variações Por sua vez, a duração dos VTCDs é definida
de tensão de curta duração são causadas por pelo intervalo de tempo decorrido entre o instante
condições de faltas, energização de grandes em que o valor eficaz da tensão, em relação
cargas que requerem altas correntes de partida, à tensão de referência do sistema no ponto
ou a perda intermitente de conexões nos cabos considerado, ultrapassa determinado limite e o
do sistema. Dependendo da localização da falta instante em que a mesma variável volta a cruzar
e das condições do sistema, a falta pode causar esse limite.
um decréscimo da tensão (afundamento) ou um As variações de curta duração são classificadas
aumento da tensão (elevação), ou ainda, a completa em elevação de tensão, afundamento de tensão,
perda da tensão (interrupção). A condição de falta e interrupção de curta duração. A seguir será
pode estar próxima ou longe do ponto de interesse. detalhado cada um destes eventos.
Em ambos os casos, o impacto da tensão, durante a
condição de falta é uma variação de curta duração Elevação momentânea de tensão
até que os dispositivos de proteção operem para Elevação momentânea de tensão, também
limpar a falta. conhecida como Voltage Swell, são distúrbios
No Brasil, nos Procedimentos de Rede, que podem ser caracterizados por um aumento
elaborado pelo Operador Nacional do Sistema da tensão eficaz do sistema (aumento este entre
Elétrico (ONS), item Padrões de Desempenho da 10% e 80% da tensão, na frequência da rede,
Rede Básica (Prodist), Submódulo 2.2, dentre os com duração de meio ciclo a 1 min), ocorrendo
indicadores de avaliação da qualidade de energia frequentemente nas diferentes fases de um circuito
Apoio
37

trifásico, quando da ocorrência de um curto-circuito. O termo de grandes cargas ou energização de grandes bancos de
sobretensão momentânea é empregado por vários autores capacitores, o tempo de duração das elevações depende do
como sinônimo para o termo “elevação de tensão”. tempo de resposta dos dispositivos reguladores de tensão das
Como para o item anterior, elevações são usualmente unidades geradoras. Tem-se ainda o tempo de resposta dos
associadas às condições de faltas no sistema, mas não são tão transformadores de tap variável e da atuação dos dispositivos
comuns como afundamentos de tensão. compensadores de reativos e síncronos em sistemas de
As elevações são caracterizadas pela sua magnitude (valor potência e compensadores síncronos que porventura existam.
eficaz) e duração. A severidade deste distúrbio durante uma
condição de falta é uma função da localização da falta,
impedância do sistema e do aterramento. Em um sistema
não aterrado com impedância de sequência zero infinita,
as tensões fase-terra das fases não aterradas serão 1,73 por
unidade durante uma condição de falta envolvendo uma fase
com conexão a terra. Próxima à subestação em um sistema
aterrado, haverá um pequeno ou nenhum aumento nas
fases não faltosas porque o transformador da subestação é
usualmente conectado em delta-estrela, provendo um baixo
caminho de impedância de sequência zero para a corrente
de falta. Na Figura 1, está ilustrada uma elevação de tensão
proveniente de uma falta monofásica.
A duração da elevação também está intimamente ligada
aos ajustes dos dispositivos de proteção, à natureza da
falta (permanente ou temporária) e à sua localização na
rede elétrica. Em situações de elevações oriundas de saídas Figura 1 - Elevação de tensão devido a uma falta fase-terra.
Apoio
38

Este fenômeno pode também estar associado à saída depende apenas da magnitude da elevação, mas também
Qualidade de energia

de grandes blocos de cargas ou à energização de grandes do seu período de duração.


bancos de capacitores, porém, com uma incidência pequena
se comparada com as sobretensões provenientes de faltas Afundamento momentâneo de tensão
monofásicas nas redes de transmissão e distribuição. Os afundamentos momentâneos de tensão, também
A Figura 2 apresenta um sistema elétrico composto por conhecidos como Voltage Sag ou Voltage Dip, destacam-se
uma concessionária, uma carga equivalente e um banco de como os mais significantes distúrbios da qualidade da
capacitores. Neste sistema, o banco de capacitores é energizado energia que se manifestam nas redes elétricas. Tal destaque
200 ms antes da conexão da carga ao barramento. se justifica pelo fato de que os afundamentos de tensão,
quer sejam de curta ou de longa duração, são os que
mais notadamente se fazem presentes na operação dos
complexos elétricos.
Um afundamento de tensão consiste numa redução no valor
eficaz da tensão por um curto período de tempo, causada por
curtos-circuitos, sobrecargas, energização de transformadores
de grande porte ou partidas de grandes motores.
O interesse no estudo deste fenômeno reside
principalmente nos problemas que podem causar em vários
tipos de equipamentos, tais como: ASDs, CLPs, computadores,
etc., cargas estas bastante sensíveis a estas variações de tensão.
Alguns componentes falham quando a tensão decresce para
um valor abaixo de 85% por um ou dois ciclos, com eventual
Figura 2 – Elevação de tensão devido à energização de um banco de
capacitores.

Nas Figuras 3 e 4, estão mostradas, respectivamente, as


formas de onda das tensões fase-fase medidas no barramento
da concessionária e os valores eficazes dessas tensões.
Como consequência das elevações de curta duração
em equipamentos, podem-se citar falhas dos componentes,
dependendo da frequência de ocorrência do distúrbio.
Dispositivos eletrônicos, incluindo ASDs (Adjustable
Speed Drivers), computadores e controladores eletrônicos,
podem apresentar falhas imediatas durante estas condições.
Contudo, transformadores, cabos, barramentos, dispositivos
de chaveamento, TPs, TCs e máquinas rotativas podem ter a
vida útil reduzida. Um aumento de curta duração na tensão
Figura 3 – Oscilogramas das tensões fase-fase no barramento da
em alguns relés pode resultar em má operação enquanto concessionária.
outros podem não ser afetados. Uma elevação de tensão
em um banco de capacitores pode, frequentemente, causar
danos no equipamento. Aparelhos de iluminação podem
ter um aumento da luminosidade durante uma elevação.
Dispositivos de proteção contra surto como um circuito de
fixação da amplitude (clamping circuit) podem ser destruídos
quando submetidos a elevações que excedam suas taxas de
MCOV (Maximum Continuous Operating Voltage).
Dentro do exposto, a preocupação principal recai
sobre os equipamentos eletrônicos, uma vez que estas
elevações podem vir a danificar os componentes internos
destes equipamentos, conduzindo-os à má operação ou, em
casos extremos, à completa inutilização. Vale ressaltar mais
uma vez que, a suportabilidade de um equipamento não
Figura 4 – Tensões fase-fase eficazes no barramento da concessionária.
Apoio
40

comprometimento do processo produtivo. sendo propostos para melhor caracterizar os fenômenos aqui
Qualidade de energia

Um parâmetro relevante para determinar os impactos enfocados. Dentre eles, destacam-se a evolução da forma de
dos afundamentos em um subsistema é a frequência de onda, o ponto de início e término do afundamento na onda e a
ocorrência, que corresponde à quantidade de vezes que variação súbita do defasamento angular (phase angle jumps).
cada combinação dos parâmetros de duração e amplitude Em afundamentos trifásicos, as três tensões de fase
ocorrem em determinado período de tempo ao longo do poderão ter e, na maioria dos casos, têm magnitude e duração
qual um barramento tenha sido monitorado (três meses, um diferentes para cada uma das fases. Algumas propostas têm
ano, etc.). sido formuladas para caracterizar esses parâmetros nesses
A Figura 5 registra a alteração da forma de onda de afundamentos. A mais comumente aceita considera a
tensão na ocorrência de um afundamento de tensão. magnitude e a duração da fase mais afetada como referência
A magnitude pode ser definida como o menor valor da para caracterizar o fenômeno trifásico.
tensão RMS e a duração reflete o tempo em que a magnitude Conhecendo-se a magnitude e a duração de um voltage sag,
da tensão está abaixo de 90% da tensão eficaz nominal. este pode ser apresentado em um ponto no plano: magnitude
versus duração. Um exemplo dessa plotagem é mostrado
na Figura 7, onde os números referem-se a voltage sags
provenientes de:

1. Faltas em sistema de transmissão;


2. Faltas em sistemas de distribuição remotos;
3. Faltas em sistemas de distribuição local;
4. Partida de grandes motores;
5. Interrupções curtas;
6. Fusíveis.

Figura 5 – Afundamento de tensão ocorrido num sistema elétrico.

A ocorrência de eventos sequenciais, denominados


multiestágios, é bastante comum devido à atuação dos
religadores do sistema elétrico e, neste caso, um exemplo
da forma de onda correspondente é mostrado na Figura 6.

Figura 7 – Sags de diferentes origens nas plotagens de magnitude


versus duração

Os afundamentos de tensão nos sistemas elétricos, de um


modo geral, podem ser oriundos de várias causas, entre elas
pode-se destacar: partidas de grandes motores e ocorrência de
curtos-circuitos.

Partida de grandes motores


Durante a partida, os motores absorvem do sistema elétrico
correntes da ordem de cinco a oito vezes a corrente nominal.
Figura 6 – Forma de onda da tensão em afundamentos sequenciais. A circulação dessa alta corrente de partida pela impedância do
sistema, sobretudo em redes de baixo nível de curto-circuito,
Como já mencionado, os principais parâmetros que poderá resultar em afundamentos de tensão bastante severos.
caracterizam um afundamento de tensão são a amplitude A Figura 8 ilustra um sistema elétrico para análise da partida
e a duração. No entanto, outros parâmetros também estão de um grande motor.
Apoio
41

Figura 8 – Partida de um grande motor.

Figura 9 – Oscilogramas das tensões fase-fase no barramento da


Nas Figuras 9 e 10, estão ilustradas, respectivamente,
concessionária.
as formas de onda da tensão fase-fase e os seus valores
eficazes o afundamento de tensão no barramento da
concessionária. Como pode ser verificado, houve um
afundamento para aproximadamente 65% da tensão
nominal do barramento.
Deve-se ressaltar, no entanto, que, em geral, os consumidores
industriais adotam medidas para reduzir a tensão na partida dos
motores, de forma a minimizar os impactos das altas correntes. Isso
torna os efeitos das partidas de motores menos relevantes quando
comparada com a ocorrência de curtos-circuitos no sistema.
Verifica-se ainda, na figura mostrada, que os afundamentos
causados por partidas de motores têm restauração gradual. Figura 10 – Tensões fase-fase eficazes no barramento da concessionária.
Apoio
42

Faltas elétricas As faltas bifásicas, bifásicas à terra e, particularmente


Qualidade de energia

As faltas no sistema elétrico consistem, normalmente, nas as fase-terra, apresentam maiores taxas de ocorrência e
principais causas dos afundamentos temporários de tensão, geram afundamentos de tensão menos severos, porém
sobretudo as originadas no sistema da concessionária, desequilibrados e assimétricos.
devido à existência de milhares de quilômetros de linhas Na Figura 1.11, está representado um sistema composto por
aéreas de transmissão e distribuição, sujeitas a vários tipos uma concessionária e por uma carga equivalente. Neste sistema
de fenômenos naturais. serão aplicados os quatro tipos de faltas, descritos anteriormente.
Curtos-circuitos também ocorrem em subestações Nas Figuras 12 a 15, estão representadas, respectivamente,
terminais de linha e nos sistemas industriais, porém, com as formas de onda das tensões fase-fase no barramento da
menor taxa de ocorrência. Geralmente, nos sistemas concessionária devido a uma falta trifásica, monofásica,
industriais, a distribuição primária e secundária é feita por bifásica a terra e bifásica.
cabos isolados, que possuem uma menor taxa de falta quando
comparados às linhas aéreas.
As faltas nas linhas aéreas são quase que exclusivamente
devido a descargas atmosféricas, porém, queimadas, vendavais,
contatos acidentais, falhas nos isoladores, acidentes, também
são causadores de curtos-circuitos.
As faltas podem ser de natureza temporária ou permanente.
As temporárias são, em sua grande maioria, devido à
ocorrência de descargas atmosféricas, temporais e ventanias,
que, em geral, não provocam danos permanentes ao sistema de
isolação. O sistema pode ser prontamente restabelecido pelos
religamentos automáticos. As faltas permanentes são causadas
Figura 12 – Tensões fase-fase no barramento da concessionária para
por danos físicos em algum elemento de isolação do sistema,
uma falta trifásica.
sendo necessária a intervenção da equipe de manutenção.
Na ocorrência de um curto circuito, o afundamento de
tensão tem a duração do tempo de permanência da falta,
ou seja, desde o instante inicial do defeito, até a completa
eliminação do mesmo.
As faltas no sistema elétrico podem ser: trifásicas,
bifásicas, bifásicas à terra e monofásicas. As faltas trifásicas
são simétricas e geram, portanto, afundamentos de tensão
também simétricos. Embora produzam afundamentos mais
severos, ocorrem com menor frequência.

Figura 13 – Tensões fase-fase no barramento da concessionária para


uma falta monofásica.

Figura 14 – Tensões fase-fase no barramento da concessionária para


Figura 11 – Afundamentos de tensão devido a faltas elétricas. uma falta bifásica a terra.
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43

Tabela 1 – Classificação dos afundamentos de tensão

Tipo de falta conexão de carga Tipo de afundamento

Estrela E strela
E quilibrada trifásica
Triângulo T riângulo
Estrela E strela
Monofásica
Triângulo T riângulo
Estrela E strela
Bifásicas
Triângulo T riângulo
B ifásicas à terra
Estrela E strela
Triângulo T riângulo

Após tais observações, pode-se concluir que seis tipos de


afundamentos de tensão, classificados como tipos A, B, C, D, E e F,
Figura 15 – Tensões fase-fase no barramento da concessionária para resultam da associação entre os diferentes tipos de faltas (trifásica,
uma falta bifásica.
bifásica, bifásica à terra e monofásica) e as duas formas tradicionais
Classificação dos afundamentos de tensão de se conectar uma carga trifásica, bem como, conforme se verá
Neste item, será analisada a influência das formas de adiante, do tipo de conexão dos transformadores. Além dos
conexão das cargas trifásicas (estrela ou triângulo), bem seis tipos de afundamentos, descritos acima, existe mais um,
como dos diversos tipos de ligação dos transformadores, denominado de tipo G, como será visto a seguir.
normalmente presentes entre o ponto onde ocorre a falta Para uma melhor compreensão dos tipos de afundamentos
e os terminais dos equipamentos, na ocorrência de faltas descritos, a seguir serão abordadas de forma resumida as
equilibradas e desequilibradas. principais características desses afundamentos.
Para tanto, será apresentada, na Tabela 1, uma classificação
dos afundamentos de tensão de acordo com o tipo de falta e • Voltage Sag Tipo A
conexão da carga. Essa classificação é baseada nas proposições Na Tabela 2, são apresentados os diagramas e as equações
estabelecidas por Math H. J. Bollen. no domínio da fase e do tempo para este tipo de afundamento.
Apoio
44

Tabela 2 – Principais características do Voltage Sag do tipo A


Qualidade de energia

Representação fasorial Representação temporal

Em que:
h - Magnitude do afundamento de tensão;
V - Magnitude da tensão nominal do sistema;

• Voltage Sag Tipo B


Na Tabela 3 são apresentados os diagramas e as equações no domínio da fase e do tempo para o afundamento do tipo B.
Tabela 3 - Principais características do Voltage Sag do tipo B
Representação fasorial Representação temporal

• Voltage Sag Tipo C


Na Tabela 4 são apresentados os diagramas e as equações no domínio da fase e do tempo para o afundamento do tipo C.
Tabela 4 - Principais características do Voltage Sag do tipo C
Representação fasorial Representação temporal

• Voltage Sag Tipo D


Na Tabela 5 são apresentados os diagramas e as equações no domínio da fase e do tempo para o afundamento do tipo D.
Apoio
46

Tabela 5 - Principais características do Voltage Sag do tipo D


Qualidade de energia

Representação fasorial Representação temporal

• Voltage Sag Tipo E


Na Tabela 6 são apresentados os diagramas e as equações no domínio da fase e do tempo para o afundamento do tipo E.
Tabela 6 - Principais características do Voltage Sag do tipo E
Representação fasorial Representação temporal

• Voltage Sag Tipo F


Na Tabela 7 são apresentados os diagramas e as equações no domínio da fase e do tempo para o afundamento do tipo F.
Tabela 7 - Principais características do Voltage Sag do tipo F
Representação fasorial Representação temporal

• Voltage Sag Tipo G


Na Tabela 8 são apresentados os diagramas e as equações no domínio da fase e do tempo para o afundamento do tipo G.
Apoio
47

Tabela 8 - Principais características do Voltage Sag do tipo G


Representação fasorial Representação temporal

*Gilson Paulilo é engenheiro eletricista, com Ivandro Bacca é engenheiro eletricista e mestre pela
mestrado e doutorado em qualidade de energia elétrica Universidade Fé engenheiro eletricista e mestre pela
pela universidade Federal de Itajubá. Atualmente, Universidade Federal de Uberlândia (UFU) em Qualidade da
é consultor tecnológico em energia no Instituto de Energia. É engenheiro da Copel Distribuição com atuação
Pesquisas Eldorado, em Campinas (SP). Sua atuação na área de manutenção de equipamentos eletromecânicos.
é voltada para áreas de qualidade de energia
elétrica, geração distribuída, eficiência energética e José Maria de Carvalho Filho é engenheiro eletricista
distribuição. pela UFMG, com mestrado e doutorado pela Unifei.
Atualmente, é professor da Unifei e membro do Grupo de
Mateus Duarte Teixeira é engenheiro eletricista e Estudos em Qualidade da Energia (GQEE), com atuação em
mestre em sistemas de potência – qualidade de energia Qualidade e Proteção de Sistemas Elétricos.
elétrica. Atua há mais de dez anos em projetos de
tecnologia aplicada ao setor elétrico nas áreas de Continua na próxima edição
qualidade da energia, geração distribuída, eficiência Confira todos os artigos deste fascículo em www.osetoreletrico.com.br
energética e proteção de sistemas elétricos para Dúvidas, sugestões e comentários podem ser encaminhados para o e-mail
empresas do setor. redacao@atitudeeditorial.com.br
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34
Qualidade de energia

Capítulo V

Variações de tensão de curta


duração - Parte II
Por Gilson Paulillo, Mateus Teixeira, Ivandro Bacca e José Maria de Carvalho Filho*

Este capítulo continuará a abordar as Variações para explicar a transferência dos afundamentos de
de Tensão de Curta Duração (VTCDs), que têm um nível de tensão para outro:
mobilizado esforços de pesquisadores de todo o
mundo na busca de soluções tanto para suas causas 1. Transformadores que não introduzem
quanto para os efeitos sobre o sistema. defasamento angular e nem filtram as componentes
A maioria dos afundamentos de tensão tem de sequência zero: fazem parte desta categoria os
origem em pontos físicos dos sistemas elétricos transformadores com as conexões Y N Y N (estrela-
com níveis de tensão diferentes daqueles estrela, aterrado em ambos os lados);
onde os equipamentos estão conectados. 2. São aqueles que somente filtram as componentes
Portanto, nem sempre as características dos de sequência zero: exemplos destes tipos são os
afundamentos trifásicos monitorados nos pontos transformadores com conexões YY (estrela - estrela),
de acoplamento comum, ou em outras partes do ΔΔ (delta-delta), YN Y (estrela-estrela, aterrado
sistema, correspondem às experimentadas pelos no primário), Y YN (estrela-estrela, aterrado no
equipamentos. Tal fato se deve, principalmente, à secundário) e ΔΖ (delta – zig-zag);
existência de transformadores entre o sistema da 3. Transformadores em que cada tensão em um
concessionária (e do próprio complexo industrial) dos enrolamentos (primário ou secundário) é
e os terminais dos equipamentos. função da diferença fasorial entre duas tensões
Sabendo-se que a maioria dos transformadores aplicadas ao outro enrolamento: além de filtrarem
empregados comercialmente é, por exemplo, a componente de sequência zero da tensão, estes
do tipo estrela-delta e como tais conexões introduzem ainda defasamentos angulares entre as
exercem forte influência sobre as propagações tensões primária e secundária. Tais equipamentos
de fenômenos desequilibrados, é de se esperar são aqueles com conexões YΔ (estrela-delta),
que os afundamentos percebidos pelas cargas, (delta-estrela), (estrela-delta, aterrado no primário),
tanto no que tange às magnitudes como seus ΔY (delta-estrela, aterrado no secundário) e YN Ζ
correspondentes ângulos de fase, venham a ser (estrela – zig-zag).
afetados por tais equipamentos.
Apesar da existência de várias formas de A transferência dos afundamentos de tensão
conexão dos enrolamentos dos transformadores, pelos transformadores agrupados nas três categorias
agrupá-los em apenas três categorias é suficiente acima descritas pode ser sintetizada na Tabela 1.
Apoio
35

Tabela 1 – Transferência do tipo de afundamento por curtos-circuitos em alimentadores de uma SE de distribuição


meio de transformadores
causam impacto apenas nos consumidores alimentados pelos
C onexão do T ipo A T ipo B T ipo C T ipo D Tipo E Tipo F T ipo G
T ransformador
ramais adjacentes.
YN YN A B C D E F G A Figura 1 ilustra este fato: quando ocorre uma falta
YY, ΔΔ, ΔΖ A D* C D G F G na concessionária 1, todo sistema irá sentir os efeitos do
YΔ, ΔY, YΖ A C* D C F G F
afundamento de tensão (distribuição e transmissão); já uma falta
*Significa que a magnitude não é igual a V, mas igual a 1/3 + 2/3 V.
no lado de baixa da Subestação 2, apenas as cargas conectadas
Outros fatores que influenciam os afundamentos
a esse alimentador irão percebê-la.
de tensão
Além dos fatores já descritos acima, os afundamentos de
tensão podem ser influenciados por outras características como:

• Localização da falta
A localização da falta no sistema elétrico influencia,
significativamente, o impacto do afundamento de tensão
sobre os consumidores. As faltas, quando ocorrem no
sistema de transmissão e subtransmissão, afetam certamente
um número maior de consumidores do que as faltas no
sistema de distribuição. Este fato deve-se, principalmente, às
Figura 1 – Influência da localização das faltas em um sistema elétrico.
características dos sistemas de transmissão e subtransmissão
que são normalmente malhados. A título de exemplo, há registros nos Estados Unidos que uma
Já os sistemas de distribuição possuem, geralmente, falta, sobre um sistema de transmissão de 230 kV, foi percebida
configuração radial, sendo que curtos-circuitos nos ramais de sob a forma de afundamento de tensão por equipamentos
uma subestação (SE) de distribuição dificilmente provocarão instalados a aproximadamente 160 km, enquanto, para um
afundamentos de tensão significativos em outra. Normalmente, sistema de 100 kV, o raio de ação é da ordem de 80 km.
Apoio
36

• Impedância de falta Normalmente, o perfil de tensão do sistema segue a


Qualidade de energia

Raramente, os curtos-circuitos no sistema elétrico são variação da curva de carga diária, observando-se elevações
metálicos, ou seja, com impedância de falta nula. Normalmente, de tensão durante períodos de carga leve, de um modo geral,
ocorrem por impedância de falta que é constituída da associação de madrugada, sábados, domingos e feriados e reduções de
dos seguintes elementos: tensão nos períodos de carga pesada.
Geralmente, nos estudos do sistema elétrico, assume-se
• Resistência do arco elétrico entre o condutor e a terra, ou que a tensão, no instante anterior à falta (tensão pré-falta), é
entre dois ou mais condutores, para defeitos envolvendo mais de 1pu. No entanto, em função da curva de carga do sistema,
de uma fase; esta premissa, na maioria das vezes, não é verdadeira,
• Resistência de contato devido à oxidação no local da falta; incorrendo-se em erros, quando do cálculo da magnitude do
• Resistência de terra para defeitos englobando a terra. afundamento de tensão.

O aparecimento do arco elétrico é devido ao aquecimento • Desempenho do sistema de proteção


provocado pela corrente de curto-circuito, que propicia O sistema de proteção possui como objetivo principal
a ionização do ar no local de defeito. A resistência do arco remover ou retirar de serviço todo e qualquer equipamento ou
elétrico pode ser empiricamente calculada pela fórmula de componente do sistema que estiver operando sob condições
Warrington indicada pela Equação 1. anormais (sobrecarga, curto-circuito, etc.).
A duração do afundamento de tensão é dependente
do desempenho do sistema de proteção da rede elétrica,
Rarco elétrico = 2870 x L [Ω]
I1,4 caracterizado pelo tempo de sensibilização e de atuação dos
relés, somado ao tempo de abertura e extinção de arco dos
Em que: disjuntores. De fato, quanto mais rápido a falta for eliminada,
L - Comprimento do arco elétrico em metros (m); menor será a duração do afundamento de tensão.
I - Valor eficaz da corrente de arco em ampères (A). Vale ressaltar que o tempo de atuação dos relés é função
de suas características de resposta tempo versus corrente, bem
Os defeitos fase-terra, os mais comuns, são, normalmente, como da filosofia e dos ajustes implantados para se obter a
resultantes de arcos por meio de isoladores. Sendo assim, a seletividade desejada. Já o tempo de abertura e de extinção
impedância entre a fase e a terra (impedância de falta) é a da corrente de curto-circuito dos disjuntores é função das
função dos seguintes fatores: características construtivas destes equipamentos.

• Resistência de arco; Efeitos sobre equipamentos eletroeletrônicos


• Resistência da torre; Atualmente, quem se envolve com a operação de sistemas
• Resistência da base da torre, caso não haja cabos para aterramento. computadorizados, eletroeletrônicos ou congêneres pode,
frequentemente, se deparar com problemas relacionados
Deve-se ressaltar que a resistência da base da torre com a qualidade da energia elétrica (QEE). Muitas pesquisas
constitui, normalmente, a parte preponderante da impedância e estudos têm sido realizados com o objetivo de obter um
de falta, isso por depender das condições locais do solo. banco de dados sobre a sensibilidade destes equipamentos.
Finalmente, conclui-se que desprezar a impedância de falta Nesse sentido, nos itens subsequentes será apresentada a
significa obter valores mais severos de afundamento de tensão. sensibilidade dos principais equipamentos eletroeletrônicos
obtidas de artigos técnicos.
• Tensão pré-falta
Em condições normais de operação, as concessionárias • Computadores
de energia buscam suprir seus consumidores com tensões A sensibilidade dos computadores frente aos distúrbios
de operação entre os limites 0,93-1,05 pu estabelecidos pelo de QEE é retratada pela Curva CBEMA (Computer Business
Módulo 8 dos Procedimentos de Distribuição (Prodist), da Equipment Manufacturers Association), publicada na norma
Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). IEEE-446, representada pela Figura 2.
Basicamente, o perfil de tensão, em regime permanente, Apesar de a Curva CBEMA ter sido originalmente proposta
é função da curva de carga do sistema elétrico e também da para caracterizar a sensibilidade de computadores mainframe,
disponibilidade de equipamentos destinados à regulação de atualmente ela também tem sido aplicada para outros
tensão, como compensadores síncronos, banco de capacitores, componentes eletrônicos como: microcomputadores, aparelhos
reatores de linha, etc. de fax, impressoras e demais equipamentos correlatos.
Apoio
38

A Figura 3 apresenta a curva de sensibilidade obtida


Qualidade de energia

para vídeos cassetes (VCR’s), fornos de micro-ondas e


relógios digitais.

Sensibilidade dos Equipamentos Domésticos

Porcentagem da Tensão Nominal


Microondas
CBEMA
Vídeos

Relógios

Duração (ciclos)
Figura 2 – Curva CBEMA.

Figura 3 – Sensibilidade dos equipamentos de uso doméstico.

A Figura 2 mostra três regiões distintas de operação, onde


• Microprocessadores
estão associadas às letras A, B e C, que representam:
Atualmente, as indústrias buscam aumentar a produção,
com objetivos de obter melhores índices de produtividade
• Região A – Região normal de trabalho;
e, nesse sentido, os microprocessadores têm adquirido o seu
• Região B – Região inadequada de trabalho, com possibilidade
espaço no mercado. Eles oferecem aos processos industriais
de ruptura da isolação dos equipamentos (perda de hardware).
a possibilidade de realização das mais variadas operações,
Nesta região, situam-se as sobretensões transitórias e os saltos
seja no controle da produção e da qualidade dos produtos,
de tensão;
seja no monitoramento de operações de processos, com alta
• Região C – Região também inadequada de trabalho, com
velocidade e com excepcional desempenho.
possibilidade de parada de operação dos equipamentos
A ocorrência do afundamento poderá ocasionar a perda
(disfunções). Estão representados nesta região o afundamento
de programação destes equipamentos; como consequência,
de tensão juntamente com as interrupções transitórias.
ocorrerá a interrupção de processos. A Figura 4 mostra a faixa
de sensibilidade destes dispositivos.
Da curva CBEMA, destacam-se dois pontos principais:
o primeiro é 0,5 ciclo (8,3 ms), indicando que durante este
período o equipamento tem de ser capaz de absorver uma
Faixa de Sensibilidade dos Microprocessadores
interrupção de energia; o segundo é o ponto de 2 s, a partir do
qual todos os equipamentos desta categoria devem suportar,
continuamente, quedas de tensão de até 13% ou acréscimos CBEMA
Porcentagem da Tensão

de tensão de até 6%.

• Equipamentos de uso doméstico


Região de
Inicialmente, relatos de problemas associados à Disrupção
ocorrência dos distúrbios da QEE ocorriam apenas
para os equipamentos de uso industrial e comercial,
como computadores. Contudo, devido ao uso cada vez Duração (ciclos)

mais frequente de equipamentos eletroeletrônicos, os


consumidores residenciais também começaram a perceber Figura 4 – Sensibilidade dos microprocessadores.
os problemas ligados à qualidade da energia.
Vale ressaltar que os efeitos causados pela ocorrência do • Controladores Lógicos Programáveis (CLPs)
afundamento de tensão em equipamentos de uso doméstico Os controladores lógicos programáveis são considerados um
são percebidos pela perda de memória e perda de programação dos equipamentos mais importantes dentro da indústria, uma vez
de relógios digitais, fornos de microondas, etc. Normalmente, que, independentemente de tamanho, custo e complexidade, eles
estes problemas não estão associados a prejuízos financeiros, são responsáveis pelo controle de equipamentos eletroeletrônicos
mas sim à satisfação dos consumidores e à imagem das e também dos processos industriais.
empresas de energia elétrica. De um modo geral, quando da ocorrência do
Apoio
39

afundamento de tensão, os CLPs apresentam disfunções e Independentemente de sua aplicação, os contatores e relés
perda de programação, que causam interrupção de parte auxiliares têm sido identificados como um dos pontos fracos
ou de todo o processo produtivo. A Figura 5 apresenta a dos sistemas elétricos, principalmente, quando associados a
curva de sensibilidade dos CLPs, quando submetidos à processos industriais automatizados. Os problemas geralmente
afundamentos de tensão. surgem quando da ocorrência de afundamento de tensão no
sistema, ocasião em que estes dispositivos, indevidamente,
Faixa de de sensibilidade dos CLPs
provocam a abertura de circuitos de força e/ou comando.
A literatura especializada mostra que o desempenho
Porcentagem da Tensão Nominal

dos contatores e relés auxiliares, durante a incidência


CBEMA
do afundamento de tensão, depende de um conjunto de
parâmetros que caracterizam o distúrbio, destacando-se
Região de
Disrupção a magnitude e a duração. No entanto, sabe-se que
estudos mais recentes indicam que o desempenho destes
dispositivos também depende do ângulo de fase da corrente
na bobina do contator no momento anterior à ocorrência
Duração (ciclos)
do afundamento de tensão.
Figura 5 – Sensibilidade dos CLPs.
O fato é que, quando da ocorrência do afundamento de
• Contatores e relés auxiliares tensão, as bobinas dos contatores e/ou relés auxiliares poderão
Os contatores e os relés auxiliares, embora sejam desatracar, abrindo seus contatos principais e auxiliares, causando
equipamentos eletromecânicos, continuam tendo vasta a parada e a desconexão de várias cargas e equipamentos.
aplicação nas indústrias seja no controle, de forma integrada A título de ilustração, as Figuras 6 e 7 representam,
com os sistemas de automação (CLPs), seja no chaveamento de respectivamente, as faixas de sensibilidade dos contatores e
circuitos de força (alimentação de motores e demais cargas). relés auxiliares.
Apoio
40

• Acionamentos de Velocidade Variável (ASDs)


Qualidade de energia

Faixa de Sensibilidade dos Contatores


Os ASDs, a exemplo da maioria dos equipamentos
industriais, são constituídos de dispositivos de eletrônica de
Porcentagem da Tensão

CBEMA potência, componentes estes que podem ser danificados,


quando submetidos a surtos de corrente ou de tensão.
Normalmente, os ASDs são equipados com dispositivos
Região de Disrupção de proteção adequados (fusíveis ultrarrápidos, relés
de proteção, etc.), além dos sistemas de controle que
reconhecem situações operacionais de risco e que
promovem o bloqueio do disparo de tiristores ou até mesmo
Duração (ciclos)
o desligamento imediato da fonte de suprimento.
Figura 6 – Sensibilidade dos contatores. Nas Figuras 8 e 9, estão ilustradas as topologias típicas
dos acionamentos CA e CC, respectivamente.
Faixa de Sensibilidade dos Relés Auxiliares
Os acionamentos CA são constituídos normalmente de
três estágios: ponte retificadora, barramento DC (filtragem)
Porcentagem da Tensão

CBEMA
e sistema inversor (normalmente PWM). Estes equipamentos
têm dispositivos de armazenamento de energia (capacitor e
indutor) no barramento DC e os de menor potência utilizam
ponte retificadora não controlada (a diodos) no primeiro
Região de Disrupção
estágio. Estes acionamentos fornecem tensão e frequência
variável para motores de indução trifásicos.
Já os acionamentos CC são constituídos basicamente
Duração (ciclos)
de uma ponte retificadora, que fornece tensão CC variável
Figura 7 – Sensibilidade dos relés auxiliares.
para o motor de corrente contínua. Os acionamentos CC

Figura 8 – Acionamento típico CA.

Figura 9 – Acionamento típico CC.


Apoio
42
Qualidade de energia

utilizam pontes controladas ou semi-controladas, cujos poderão promover a parada destes equipamentos.
tiristores são gatilhados de forma sincronizada com a fonte Constata-se que os ASDs, a exemplo dos demais
de suprimento. Normalmente, estes acionamentos são equipamentos industriais, têm a sensibilidade caracterizada
desprovidos de capacitor (filtragem) no lado CC. por uma faixa dentro do plano: magnitude versus duração
Ambos os tipos de acionamentos (CA e CC) são do afundamento de tensão. Isso ocorre geralmente devido
vulneráveis à ocorrência de afundamento de tensão, aos seguintes fatores:
principalmente, no que se refere à intensidade e duração • Diferenças entre as tecnologias de fabricação dos
deste distúrbio. fornecedores;
No entanto, estudos técnicos recentes relatam que, • Diferenças entre as condições operacionais e de ciclo de
dependendo do tipo de acionamento e sistema de controle carga dos equipamentos quando em operação;
utilizado, o desequilíbrio e a assimetria angular presentes • Fatores ambientais do local em que o equipamento está
no afundamento de tensão também poderão promover o instalado;
desligamento dos acionamentos ou até mesmo provocar • Desaceleração do acionamento (motor e carga mecânica).
danos permanentes nestes equipamentos. Portanto, os Dependendo do processo, isso poderá comprometer a
ASDs poderão estar sendo desligados devido à combinação qualidade do produto;
de, pelo menos, três fatores normalmente presentes no • Flutuação do torque do motor (AC e DC) com as mesmas
afundamento de tensão (magnitude, duração e assimetria implicações citadas anteriormente;
angular). • Desligamento do acionamento devido à atuação de
Devido às características construtivas, os acionamentos dispositivos de controle e proteção (subtensão, sobretensão,
CC são mais sensíveis aos afundamentos de tensão que os perda de fase, sequência de fase, etc.);
acionamentos CA. Isso ocorre devido aos seguintes fatores: • Queima de fusíveis e componentes, principalmente, nos
acionamentos DC operando no modo regenerativo.
• Os acionamentos CC são normalmente desprovidos de
dispositivos de armazenamento de energia (capacitor no Conclui-se que, para conhecer profundamente
lado CC); o comportamento dos ASDs, quando submetidos a
• Os sistemas de comando destes equipamentos bloqueiam afundamentos de tensão, ainda será necessário o
o sistema de disparo da ponte controlada devido ao desenvolvimento de muitas pesquisas, envolvendo
desequilíbrio e assimetria presentes nos três fasores do principalmente universidades e fabricantes.
afundamento de tensão.
Ações mitigadoras
O fato é que muitos dos acionamentos, sejam eles Os processos de mitigação dos afundamentos de tensão
CA ou CC, deixarão de operar quando da ocorrência de podem ser realizados em várias partes do sistema elétrico,
afundamento de tensão, o que inevitavelmente conduzirá a contudo, os custos envolvidos aumentam à medida que
perdas de produção. aumenta a tensão do sistema conforme verificado na Figura
A Figura 10 apresenta a curva de sensibilidade dos ASDs 11.
diante do afundamento de tensão, representada por apenas
dois parâmetros (magnitude e duração). Observa-se que
afundamentos de tensão com valores abaixo de 0,90 pu

Faixa de Sensibilidade dos ASDs


Porcentagem da Tensão Nominal

CBEMA

Região de
Disrupção

Duração (ciclos)
Figura 11 – Custos envolvendo os processos de mitigação dos
Figura 10 – Sensibilidade dos ASDs. afundamentos.
Apoio
43

Para se reduzir os efeitos de VTCDs, pode-se, em da eficiência da técnica de controle de chaveamento dos
princípio, adotar uma das seguintes medidas básicas: inversores. Os inversores são geralmente elementos do tipo
“Space Vector Pulse With Modulation pulses (SVPWM)”
1. Agir nas suas causas; que maximizam a utilização da tensão do elo CC.
2. Atuar na sensibilidade dos equipamentos. O segundo tipo de ação seria mais abrangente, evitando
a propagação dos afundamentos pelo sistema, evitando que
No que diz respeito às ações de compensação e/ou ele atinja as cargas. Normalmente, este tipo de solução
eliminação dos afundamentos momentâneos de tensão, está diretamente ligado à tomada de ações de coordenação
pode-se visualizar duas possibilidades distintas. A primeira da proteção dos sistemas de potência, como atuação de
corresponde à compensação visando reduzir os impactos religadores automáticos, instalação de fusíveis limitadores;
destes fenômenos sobre as cargas. Dessa forma, busca-se implantação de estratégias “fuse saving”. Outras formas
uma solução momentânea e localizada. Como exemplo de compensação podem ser ajustadas de maneira a contribuir
de soluções na eliminação das
pode-se citar a variações de ten -
instalação de alguns são como o apro vei-
equipamentos, tais tamento ou in stalação
como: de com pensadores
de tensão, tais como
• Transformadores STATCOM, DVR,
ferrorresonantes RCT, CCT, dentre
(CVT) – Também outros. No entanto,
conhecidos por todas estas estratégias
transformadores de demandam grande
tensão constante.
Constituem-se em
unidades altamente Interrupções de
excitadas em relação curta duração
a sua curva de Uma inter rup-
saturação. Aplicável ção ocorre quando
a pequenas cargas; o fornecimento de
• UPS – Formadas tensão ou corrente
por um retificador, de carga decresce
um conjunto de para um valor menor
baterias/capacitores do que 0,1 pu por
conectados ao intervalos típicos
barramento CC, um não superiores a 2
inversor estático e ou 5 segundos.
um dispositivo para As interrupções
transferência automática da carga; podem ser resultantes de faltas no sistema de energia,
• Grupo motor-gerador – Formado por máquinas rotativas falhas nos equipamentos e mau funcionamento de sistemas
e dispositivos mecânicos apropriados para o bloqueio das de controle. As interrupções são medidas pela sua duração
transferências das variações de tensão; desde que a magnitude da tensão é sempre menor do que
• Flywheel – São equipamentos mecânicos instalados nos 10% da nominal. A duração de uma interrupção, devido a
eixos de motores elétricos com intuito de fornecer a inércia uma falta sobre o sistema da concessionária, é determinada
necessária à carga mecânica instalada no referido eixo; pelo tempo de operação dos dispositivos de proteção
• DVR – Os “Dynamic Voltage Restorer” (VSI) são empregados.
equipamentos que consistem de um uma fonte inversora Religadores programados para operar instantaneamente,
de tensão (VSI), transformadores de injeção, filtros passivos geralmente, limitam a interrupção a tempos inferiores a 30
e fontes armazenadoras de energia como baterias e ciclos.
capacitores. A eficiência do DVR depende principalmente Religadores temporizados podem originar interrupções
Apoio
44

momentâneas ou temporárias, dependendo da escolha equipamentos, na eventualidade de uma interrupção de


Qualidade de energia

das curvas de operação do equipamento. A duração curta duração.


de uma interrupção devido ao mau funcionamento de
equipamentos é irregular. Algumas interrupções podem ser 30 5 15 30
Isc
precedidas por um afundamento de tensão quando estas Ciclos Segundos Segundos Segundos

são devidas a faltas no sistema supridor. O afundamento


ocorre no período de tempo entre o início de uma falta
e a operação do dispositivo de proteção do sistema. A
Figura 12 mostra uma interrupção momentânea devido a
um curto-circuito, sendo precedida por um afundamento.
Observa-se que a tensão cai para um valor de 20%, com
duração de 3 ciclos e, logo após, ocorre a perda total
do suprimento por um período de 1,8 s até a atuação do
Figura 13 – Sequência de manobras efetuadas por dispositivos
religador. automáticos de proteção.

Tensão na Fase B - Alguns dados estatísticos revelam que 75% das faltas em
Variação rms redes aéreas são de natureza temporária. No passado, este
Duração percentual não era considerado preocupante. Entretanto, com
2300s o crescente emprego de cargas eletrônicas, como inversores,
Min. 0.257 computadores, videocassetes, etc., este número passou
Méd. 22.43 a ser relevante nos estudos de otimização do sistema, pois
Máx. 100.4 é, agora, tido como responsável pela saída de operação de
Tempo (s)
diversos equipamentos, interrompendo o processo produtivo
e causando enormes prejuízos às indústrias.
Para corrigir este problema, algumas concessionárias têm
mudado a filosofia de proteção com o objetivo de diminuir
o número de consumidores afetados pelas interrupções. Na
Tempo (ms) filosofia de proteção coordenada, o dispositivo de proteção do
Figura 12 – Interrupção momentânea devido a um curto-circuito e alimentador principal, seja o religador ou o disjuntor, sempre
subsequente religamento. opera uma ou duas vezes antes da operação do dispositivo à
Seja, por exemplo, o caso de um curto-circuito no jusante, geralmente um fusível.
sistema supridor da concessionária. Logo que o dispositivo
de proteção detecta a corrente de curto-circuito, ele
*Gilson Paulilo é engenheiro eletricista, com
comanda a desenergização da linha com vistas a eliminar mestrado e doutorado em qualidade de energia elétrica
pela universidade Federal de Itajubá. Atualmente,
a corrente de falta. Somente após um curto intervalo de é consultor tecnológico em energia no Instituto de
Pesquisas Eldorado, em Campinas (SP). Sua atuação
tempo, o religamento automático do disjuntor ou religador é é voltada para áreas de qualidade de energia
elétrica, geração distribuída, eficiência energética e
efetuado. Entretanto, pode ocorrer que, após o religamento, distribuição.
o curto persista e uma sequência de religamentos pode Mateus Duarte Teixeira é engenheiro eletricista e
mestre em sistemas de potência – qualidade de energia
ser efetuada com o intuito deeliminar a falta. A Figura 13 elétrica. Atua há mais de dez anos em projetos de
tecnologia aplicada ao setor elétrico nas áreas de
mostra uma sequência de religamentos com valores típicos qualidade da energia, geração distribuída, eficiência
de ajustes do atraso. energética e proteção de sistemas elétricos para
empresas do setor.
Sendo a falta de caráter temporário, o equipamento Ivandro Bacca é engenheiro eletricista e mestre pela
de proteção não completará a sequência de operações Universidade Fé engenheiro eletricista e mestre pela
Universidade Federal de Uberlândia (UFU) em Qualidade da
programadas e o fornecimento de energia não é Energia. É engenheiro da Copel Distribuição com atuação
na área de manutenção de equipamentos eletromecânicos.
interrompido. Assim, grande parte dos consumidores,
José Maria de Carvalho Filho é engenheiro eletricista
principalmente em áreas residenciais, não sentirá os efeitos pela UFMG, com mestrado e doutorado pela Unifei.
Atualmente, é professor da Unifei e membro do Grupo de
da interrupção. Porém, algumas cargas mais sensíveis do Estudos em Qualidade da Energia (GQEE), com atuação em
Qualidade e Proteção de Sistemas Elétricos.
tipo computadores e outras cargas eletrônicas estarão
sujeitas a tais efeitos, a menos que a instalação seja dotada Continua na próxima edição
de unidades UPS (Uninterruptible Power Supply), as Confira todos os artigos deste fascículo em www.osetoreletrico.com.br
Dúvidas, sugestões e comentários podem ser encaminhados para o e-mail
quais evitarão maiores consequências na operação destes redacao@atitudeeditorial.com.br
Apoio
38
Qualidade de energia

Capítulo VII

Flutuações de tensão
Por Gilson Paulillo e Mateus Teixeira*

Flutuações na tensão são variações sistemáticas Flutuações aleatórias:


dos valores eficazes de tensão, ou uma série de
mudanças aleatórias, cujas magnitudes normalmente • A principal fonte destas flutuações são os fornos
não excedem faixas de valores preestabelecidos a arco, em que as amplitudes das oscilações
(faixa compreendida entre 0,95 pu e 1,05 pu). Estas dependem do estado de fusão do material, bem
variações, repetitivas, esporádicas ou aleatórias como do nível de curto-circuito da instalação.
são em geral provocadas pelas alterações rápidas
nas potências ativas e reativas das cargas elétricas, Flutuações repetitivas:
como em fornos a arco.
Cargas industriais que exibem variações • Máquinas de solda;
contínuas e rápidas na magnitude da corrente • Laminadores;
de carga podem causar variações na tensão que • Elevadores de minas;
são frequentemente referidas como flicker ou • Ferrovias, etc.
oscilação. Dos itens de avaliação da qualidade
da tensão, o efeito flicker apresenta destacada Flutuações esporádicas:
importância, uma vez que pesquisas mostram A principal fonte causadora destas oscilações é
que seus principais efeitos se manifestam sobre as a partida direta de grandes motores. Os principais
pessoas na forma de incômodo visual, irritação, efeitos nos sistemas elétricos, resultados das
perda de concentração e, nos casos extremos, sob oscilações causadas pelo equipamento mencionado
a forma de problemas neurológicos. anteriormente, são:

Aspectos gerais da flutuação de tensão • Oscilações de potência e torque das máquinas


As flutuações são geralmente causadas por cargas elétricas;
industriais e manifestam-se de diferentes formas: • Queda de rendimento dos equipamentos elétricos;
39

• Interferência nos sistemas de proteção;


• Efeito flicker ou cintilação luminosa.

Como exemplo da geração de flutuação de tensão, considere


o sistema apresentado na Figura 1. Este sistema é composto por
uma concessionária e um grande motor, cujo conjugado de
carga varia repetitivamente com o tempo, ou seja, este motor
pode representar, por exemplo, um laminador.

Figura 1 – Flutuação de tensão.

As Figuras 2 e 3 apresentam, respectivamente, as formas de


onda das tensões fase-fase no barramento da concessionária e
os seus valores eficazes.

Figura 2 – Formas de ondas das tensões fase-fase no barramento da


concessionária.

Figura 3 – Tensões eficazes fase-fase no barramento da concessionária.


Apoio
40

Tipos de flutuações de tensão 6. É resultante da combinação de diversos tipos de cargas, tais


Qualidade de energia

A Norma IEC 60555-3 define quatro tipos distintos de como motores, prensas, compressores, etc.
flutuação de tensão de forma a facilitar a aplicação de
métodos de análise e de ensaios de conformidade em
equipamentos elétricos.

• Tipo A:
Representa uma série repetitiva de variações retangulares
em torno de um nível de tensão de referência. Esta flutuação
apresenta um padrão (retangular) bem definido, tendo como
variáveis importantes a amplitude e a frequência, conforme
mostra a Figura 4.

Figura 6 – Flutuação de tensão tipo C.

• Tipo D:
Compostas por variações contínuas e aleatórias, em
geral provocadas por cargas com operação intermitentes,
tais como fornos a arco elétrico (veja a Figura 7). Em função
da potência das cargas, esta pode se propagar pelo sistema
de transmissão e distribuição.

Figura 4 – Flutuação de tensão tipo A.

• Tipo B:
Resultado da composição de uma série irregular de
variações bruscas, não apresentando um período ou ciclo
definido. Este tipo pode representar sucessivos degraus
de tensão, crescentes ou decrescentes, caracterizada pela
entrada ou saída de cargas que operam por etapas, tais
como elevadores, laminadores, prensas, etc. e é mostrada
na Figura 5.

Figura 7 – Flutuação de tensão tipo D.

Principais cargas geradoras de flutuações de tensão

Forno a arco
Um forno elétrico a arco é uma máquina elétrica que
transforma energia elétrica em energia térmica. Os principais
tipos de forno a arco estão apresentados na Figura 8.

Figura 5 – Flutuação de tensão tipo B.

• Tipo C:
Resultado da composição de uma série irregular de formas
diversas, as quais podem ser por degraus (retangular), em rampa
(triangular) ou oscilatórias (senoidais), conforme mostra a Figura Figura 8 – Principais tipos de fornos a arco.
Apoio
42

O comportamento típico da tensão de suprimento de um Máquinas elétricas de solda


Qualidade de energia

forno a arco, em um barramento de 14,4 kV, é apresentado na Este tipo de equipamento, utilizado nas mais diversas
Figura 9. indústrias, trabalha com o princípio do arco elétrico. A Figura
12 apresenta o esquema elétrico básico desses equipamentos.

Figura 9 – Oscilações de tensão oriundas da operação de um forno a arco. Figura 12 – Esquema elétrico de uma máquina de solda.

Laminadores O comportamento da corrente de uma máquina elétrica


Os laminadores são usados largamente em processos de solda é apresentado na Figura 13.
siderúrgicos para moldar chapas de ferro e aço. A Figura 10
mostra o esquema típico de operação de um laminador.

Figura 13 – Comportamento da corrente de uma máquina de solda.

Figura 10 – Princípio de construção de um laminador. Efeitos da flutuação de tensão


Os efeitos das flutuações de tensão basicamente são:
O comportamento da tensão de suprimento de um
laminador em um barramento de 13,8 kV está mostrado na
• Oscilações de potência e torque de motores elétricos;
Figura 11.
• Interferência na instrumentação eletrônica, equipamentos de
processamento de dados e de controle de processos industriais;
• Interferência em aparelhos residenciais, tais como: vídeos,
relógios digitais e TVs;
• Redução da velocidade de fusão e da produtividade de fornos
a arco;
• Falhas ou comprometimento do processo de soldagem;
• Desconforto visual provocado pela cintilação luminosa
das lâmpadas, principalmente das incandescentes, também
conhecido como efeito flicker.

Entretanto, o fenômeno flicker consiste no efeito mais


comum provocado pelas oscilações de tensão. Este tema merece
Figura 11 – Oscilograma de tensão do funcionamento de um laminador. especial atenção, uma vez que o desconforto visual associado
43

à perceptibilidade do olho humano às


variações da intensidade luminosa é, em
toda sua extensão, indesejável.

Métodos para a avaliação do


flicker
Os métodos de medição mais
difundidos, em nível internacional,
para a avaliação do efeito flicker são os
seguintes:

• Método britânico: proposto pela


Electrical Research Association (ERA);
• Método francês: apresentado pela
“Electricité de France”;
• Método padrão: proposto pela União
Internacional de Eletrotermia (UIE).

Cada um dos métodos de avaliação


do efeito flicker possui filosofias distintas,
no entanto, alguns fundamentos comuns
podem ser destacados:

• A lâmpada incandescente é adotada


como referência para a quantificação do
efeito flicker;
• Os procedimentos baseiam-se no
princípio de modulação de sinais;
• Os métodos britânico e padrão
utilizam teorias estatísticas considerando
o caráter aleatório das flutuações de
tensão;
• Os métodos francês e padrão valorizam
as frequências críticas existentes no
sinal modulante, causadoras de maior
incômodo ao olho humano.

A seguir, uma descrição detalhada


do método padrão empregado na
quantificação do fenômeno de cintilação
luminosa.

Método padrão UIE


O método padrão foi idealizado
com o objetivo de unificar, em nível
internacional, os critérios de medição
mais difundidos. Como resultado, este
método reúne as principais vantagens
dos métodos francês e britânico e, por
consequência, tornou-se mais flexível e
abrangente do que os outros dois.
Apoio
44

A uniformização foi proposta no âmbito da União


Qualidade de energia

Internacional de Eletrotermia (UIE), que propôs uma


metodologia estatística para a avaliação da severidade de Em que:
flicker, reconhecendo a característica aleatória do fenômeno. PST – Valor correspondente ao índice de severidade de
Desta forma, o método avalia, não somente o valor máximo “Flicker” de curta duração;
num dado período, como também a porcentagem do tempo no K1, K2,.....Kn – Coeficiente de ponderação;
qual um determinado nível de flicker foi excedido. P1, P2,.....Pn – Probabilidade de determinados níveis de
Para a realização da análise estatística, devem-se correlacionar flicker serem excedidos.
os níveis de flicker e as correspondentes porcentagens de tempo
de duração. Deste modo, os níveis instantâneos de flicker Para a obtenção de um número adequado de pontos e de
são classificados, ou seja, são organizados de forma a obter a coeficientes, houve a necessidade de se resolver equações
distribuição de frequências da amostra e, por conseguinte, a múltiplas, relacionando a severidade de flicker com as várias
correspondente Curva Função de Probabilidade Acumulada curvas FPCs. Analisados os resultados, verificou-se que uma
(FPC), em pu. Esta construção pode ser também designada por solução equilibrada foi alcançada com a aplicação de cinco
porcentagem de tempo não excedido para os níveis instantâneos níveis probabilísticos, conforme o que segue:
de flicker. Logo, pode-se dizer que o procedimento adotado para
a obtenção dos níveis instantâneos de flicker e sua distribuição • P0,1 – Nível excedido por 0,1% do período de observação;
de frequências engloba, respectivamente, o método francês e o • P1 – Nível excedido por 1% do período de observação;
método britânico. Pelo método francês, pelo cálculo das doses, • P3 – Nível excedido por 3% do período de observação;
tem-se o nível de flicker instantâneo e pelo método britânico, com • P10 – Nível excedido por 10% do período de observação;
levantamento das Curvas de Função de Probabilidade Acumulada • P50 – Nível excedido por 50% do período de observação.
(FPC) e sua complementar, obtém-se, respectivamente, os níveis
que não foram ultrapassados e aqueles que foram excedidos O ponto de avaliação correspondente a 50% reflete o nível
durante uma determinada porcentagem de tempo do período de médio de flicker, fornecendo uma indicação geral da magnitude
observação. do distúrbio. Os demais pontos de avaliação caminham em
Se todas as curvas FPCs seguissem o mesmo tipo de direção ao final da escala de probabilidade (FPCC), objetivando
distribuição, como a Gaussiana, por exemplo, a severidade do ponderar de maneira apropriada os níveis mais elevados de
efeito flicker seria perfeitamente caracterizada por meio dos flutuação, causadores de maior incômodo ao olho humano.
parâmetros média e desvio padrão. Entretanto, esta situação Observa-se que o máximo nível de flicker constatado durante
não corresponde à realidade. Verificou-se que, dependendo o intervalo analisado, não é incluído nos níveis probabilísticos
do tipo de distúrbio, as curvas FPCs obtidas apresentam-se utilizados, descartando-se, assim, eventuais picos esporádicos.
sensivelmente diferentes. A escolha do ponto de avaliação correspondente a 0,1%
Pelo que foi apresentado em relação às FPCs, no fornece uma resposta adequada na análise deste tipo de evento.
tocante às diferenças entre os resultados para cada tipo de Uma vez estabelecidos os pontos de avaliação, o próximo
distúrbio, constata-se a necessidade do estabelecimento de passo consiste na determinação do tempo dispensado para a
um único critério que quantifique a severidade de flicker, avaliação do índice de severidade de flicker de curta duração.
independentemente da forma do distúrbio. Esse critério, de Embora as cargas perturbadoras possuam diferentes ciclos de
acordo com o Método Padrão UIE, baseia-se na conversão operação, o tempo de análise deve ser independente da fonte
da curva FPC em um índice representativo da severidade de distúrbio considerada. Desta maneira, faz-se necessário
de flicker. Para tal, o procedimento adotado pela UIE, foi o considerar, novamente, o fenômeno fisiológico induzido no
desenvolvimento de um algoritmo que avaliasse a curva FPC olho humano, na determinação do intervalo médio de tempo
em múltiplos pontos. Assim, este processo requer o cálculo de que melhor caracterize o efeito flicker. Por meio de testes de
duas variáveis, a saber: percepção realizados em seres humanos e suas reações ao
fenômeno de cintilação luminosa, estipulou-se o período de
• PST – Índice de severidade de “Flicker” pelo método de curta dez minutos que, embora possa ser considerado longo para a
duração ou “Short-TermProbability”; pessoa exposta ao distúrbio, evita a supervalorização de picos
• PLT – Índice de severidade de “Flicker” pelo método de longa esporádicos e ainda permite caracterizar, detalhadamente,
duração ou “Long-TermProbability”. distúrbios procedentes de equipamentos com ciclos de carga
distintos.
O nível de severidade de flicker de curta duração, PST, é Os valores P0,1, P1, P3, P10 e P50 são obtidos da curva
definido pela Equação 1. complementar da FPC, ou seja, da curva 1-FPC no período de
Apoio
46

dez minutos, consistindo dos níveis que foram excedidos em A expressão resultante para o índice de severidade
Qualidade de energia

0,1%, 1%, 3%, 10% e 50%, respectivamente. de flicker de curta duração, incluindo os valores dos
Com relação aos valores obtidos para os coeficientes Ki, coeficientes Ki, é dada pela Equação 2.
estes foram determinados a partir da curva recomendada pelo
(2)
documento IEC 555-3, a qual, baseada em investigações de
sensibilidade do olho humano, correlaciona a variação de A avaliação da severidade no nível flicker pelo método
tensão com variações retangulares de tensão, por minuto, para de curta duração é empregada, adequadamente, quando
a obtenção de PST igual a 1. se realiza a análise de distúrbio causada por fontes
Simplificadamente, a conversão da curva FPC, em um individuais. Quando da existência de várias fontes de
índice representativo da severidade do incômodo visual para distúrbio ou cargas com longos e variáveis ciclos, torna-se
um período de dez minutos, é determinada de modo que o necessária e conveniente uma análise criteriosa pelo índice
valor de PST seja igual a 1 para todos os valores de variação de de severidade de flicker de longa duração (PLT).
tensão expressos pela curva IEC 60555-3. O estabelecimento de O índice de severidade de flicker de longa a duração –
um valor limite para PST foi resultante de testes em laboratório; PLT – mais utilizado é derivado do parâmetro PST a partir do
verificou-se que uma proporção substancial de observadores cálculo da raiz cúbica dos valores de PST cúbicos, expresso
mostrou-se sensível ao flicker para PST igual a 1. pela Equação 3.
Os valores determinados para os coeficientes Ki são
apresentados na Tabela 1.
(3)

Tabela 1 – Valores dos coeficientes Ki


Coeficientes de ponderação Valor Conforme já citado, este método é empregado quando
k 0,1 0.0314 o distúrbio é provocado por várias fontes como máquinas
k1 0.0525
k3 0.0657 de solda e motores, assim como quando as fontes possuem
k10 0.28 longos e variáveis ciclos de carga, como os fornos a arco.
k 50 0.08
O tempo requerido para a quantificação do nível de
47

“flicker”, segundo a avaliação pelo PLT, foi estipulado para


cada duas horas de operação de carga.
Quanto aos limites aceitáveis do método padrão UIE,
têm duas referências importantes no Brasil, as quais são
representadas pelos valores indicados pelo Módulo 8, dos
Procedimentos de Distribuição (Prodist), definidos pela
Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), bem como
pelo submódulo 2.8, do Procedimento de Rede, definido
pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).
No caso do Prodist, consideram-se três faixas para
classificação dos indicadores PST e PLT: adequado, precário
e crítico. Os valores de referência para cada uma das faixas
é mostrado na Tabela 2 e o valor a ser considerado para o
fator de transferência na Tabela 3:
Tabela 2 – Valores de referência – Prodist
Valor de referência PstD95% PltD95%
Adequado <1 p.u. / FT <0,8 p.u. / FT
Precário 1p.u. – 2 p.u. / FT 0,8 p.u. – 1,6 p.u. / FT
Crítico >2 p.u./ FT >1,6 p.u./ FT

Tabela 3 – Fatores de Transferência – FT


Tensão nominal do barramento FT
Tensão do barramento ≥ 230 kV 0.65
69 kV ≤ Tensão do barramento < 230 kV 0.8
Tensão do barramento < 69 kV 1,0

Para o caso do procedimento de rede, consideram-se dois


limites globais para avaliação de desempenho da qualidade da
tensão: global inferior e superior, cujos valores são mostrados
nas Tabelas 4 e 5:
Tabela 4 – Valores de referência – Procedimento de Rede
Limite PstD95% PltD95%
Global inferior 1p.u. / FT 0,8p.u. / FT
Global superior 2p.u. / FT 1,6p.u. / FT

Tabela 5 – Fatores de transferência - FT


Tensão nominal do barramento FT
Tensão do barramento ≥ 230 kV 0.65
69 kV ≤ Tensão do barramento < 230 kV 0.8
Tensão do barramento < 69 kV 1,0

*Gilson Paulilo é engenheiro eletricista, com


mestrado e doutorado em qualidade de energia elétrica
pela universidade Federal de Itajubá. Atualmente,
é consultor tecnológico em energia no Instituto de
Pesquisas Eldorado, em Campinas (SP). Sua atuação
é voltada para áreas de qualidade de energia
elétrica, geração distribuída, eficiência energética e
distribuição.

Mateus Duarte Teixeira é engenheiro eletricista e


mestre em sistemas de potência – qualidade de energia
elétrica. Atua há mais de dez anos em projetos de
tecnologia aplicada ao setor elétrico nas áreas de
qualidade da energia, geração distribuída, eficiência
energética e proteção de sistemas elétricos para
empresas do setor.

Continua na próxima edição


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redacao@atitudeeditorial.com.br
Apoio
36
Qualidade de energia

Capítulo VIII

Compensação reativa e
qualidade da energia elétrica
Por Flávio Resende e Gilson Paulillo*

No contexto da qualidade da energia elétrica nestes equipamentos, liberam sua capacidade e,


(QEE), um dos temas mais importantes envolve o portanto, permitem um maior aproveitamento dos
equacionamento da demanda de reativos na rede mesmos.
elétrica, classicamente abordado para a correção 3 – Melhoria das condições de tensão: Pelas
do fator de potência em instalações, e os aspectos reduções das quedas de tensão, os capacitores
relacionados aos fenômenos de QEE, principalmente ajudam a manter o sistema de tensão sustentado ao
harmônicos. Neste aspecto, se por um lado a longo dos alimentadores. Esta melhoria na tensão
adoção de filtros – passivos e ativos – permite a significa melhor rendimento dos motores e aumento
compensação da demanda de reativos da rede e de de eficiência do sistema.
uma instalação, por outro lado, este também deve 4 – Redução de perdas: Pelo fornecimento de KVAr
ser adotado com cuidado em virtude dos potenciais no ponto onde há a necessidade, os capacitores
efeitos negativos advindos das ressonâncias aliviam o sistema de transmitir corrente reativa.
harmônicas. Estas, dependendo da configuração da Desde que a corrente elétrica na linha é reduzida,
rede e da instalação, podem aparecer na adoção as perdas (I2R) e (I2X) também diminuem e reduzem
de soluções simples – instalação de um banco o kWh consumido.
de capacitores não chaveado – e complexas – 5 – Redução e/ou postergação de investimentos
instalação de filtros ativos – para a compensação de em instalações elétricas, justamente em função dos
reativos em uma instalação. item 2, 3 e 4 citados anteriormente.
Vale lembrar que os principais efeitos
decorrentes da aplicação de capacitores em Estes aspectos, os principais conceitos e os
derivação (compensação reativa) junto à carga: potenciais impactos na QEE da instalação serão
1 – Redução nas contas de energia: Em função abordados neste artigo.
das penalidades impostas pela legislação pelo
baixo fator de potência, os capacitores reduzem Redução de perdas
as contas de energia evitando o pagamento de tais As perdas elétricas estão associadas à
penalidades. corrente elétrica em uma instalação. Estas são
2 – Liberação da capacidade do sistema: Em proporcionais ao quadrado da corrente, sendo
equipamentos limitados termicamente, como é o e estando diretamente associadas à melhoria do
caso dos geradores, transformadores, cabos, chaves, fator de potência de uma instalação. Isto pode ser
etc., os capacitores diminuem a corrente circulante demonstrado pela relação (1) e pela Figura 1:
Apoio
37

Analisando-se a Figura 1, verifica-se que uma carga com F.P.


original igual a 0,7, se corrigida para um F.P. de 0,9, gera uma
redução das perdas de 39,5%.
Em que: cos Ø1 = F.P. original
(1)
cos Ø2 = F.P. corrigido Redução das quedas de tensão
A melhoria da tensão após a aplicação de capacitores deve
ser considerada como mais um benefício. Para tanto, considere
a Figura 2, que representa a aplicação típica de um banco de
capacitores em uma instalação.

Figura 2 – Aplicação de compensação de reativos em uma instalação

Com base na Figura 2, a queda de tensão desta instalação é


determinada pelas seguintes relações:

(2)
Figura 1 – Relação entre perdas e fator de potência corrigido de uma
instalação.
Apoio
38

Logo, a redução do valor de Ix, que pode ser viabilizada por Clientes com medição do tipo média mensal:
Qualidade de energia

meio da aplicação, por exemplo, de um banco de capacitores Considera-se, neste caso, a correção do fator de potência de
tipo shunt, permitirá a melhoria do perfil de tensão da instalação. consumidores do tipo “B”, que, via de regra, estão submetidos
Vale lembrar que cuidados especiais devem ser tomados à medição mensal do fator de potência.
quando da operação do banco de capacitores sob condições O valor atualmente mais indicado para correção do
de carga leve, pois, nesta situação, a tensão tende a se elevar fator de potência é de 0.95, recomendando-se que ele não
bastante, podendo atingir valores acima dos permitidos. Nestes apresente fatores médios abaixo de 0.93 ou acima de 0.98.
casos, é aconselhável a adoção do chaveamento manual ou No primeiro caso, conforme a característica da instalação,
automático dos capacitores, de acordo com as necessidades da adotar a estratégia de correção para valores abaixo de
instalação. Esta condição pode ser observada na Figura 3, que 0.93 pode ocasionar multas em determinados períodos do
mostra que a instalação apropriada de capacitores pode manter ano devido à estreita margem de erro. No segundo caso, a
a tensão no fim da linha dentro de limites bem próximos do correção para valores acima de 0.98 pode levar a problemas
valor da tensão no início da linha. na instalação do consumidor.
Assim, recomenda-se a realização de um estudo detalhado
das diversas alternativas de compensação como, por exemplo,
a aplicação de bancos automáticos, correção localizada, filtros
ativos, dentre outros.
A identificação mais prática e segura dos problemas de
multa por baixo fator de potência e, consequente, a necessidade
de se adotar um mecanismo de compensação de reativos é a
análise das contas de energia da instalação.

Dados das contas de energia:


Em geral, as contas de energia dos quatro meses antecedentes
ao estudo, normalmente, são suficientes para avaliar as
necessidades da instalação no tocante ao fator de potência.
Todavia, deve-se considerar o tipo de atividade do cliente e,
conforme o caso, esta análise deve considerar as últimas 12
contas de energia. Por meio desta análise serão identificados os
seguintes parâmetros:

• Demanda máxima: é a máxima demanda registrada pela


instalação, expressa em kW;
• FP registrado;
Figura 3 – Variação da queda de tensão em linhas com carga distribuída.
• Consumo (kWh): é importante considerar as variações de
Eliminação das multas por baixo fator de potência consumo do cliente. Quando o consumo é razoavelmente
A regulamentação definida no Módulo 8, dos Procedimentos estável, pode-se utilizar o valor médio das contas disponíveis.
de Distribuição (Prodist), da Aneel, indica os seguinte limites Sabendo se a quantidade de horas que o cliente trabalha por
para o fator de potência da instalações elétricas conectadas às mês, pode-se calcular a demanda média em kW (kilowatt).
redes de distribuição, com tensão inferior a 230 kV: Utilizando se da demanda média, obtêm-se a quantidade
mínima de capacitores a serem instalados.
MEDIÇÃO MEDIÇÃO
• Horário de trabalho do cliente: este dado é importante para
TRADICIONAL HORÁRIA
calcular a demanda média do cliente. Devemos ser atentos
Fator de Potência Mensal Horária
Limite FP Indutivo F.P > 0,92 0:00-06:00 HS com falsas informações (muito comum).
Sem limite
6:00-24:00 HS Para clientes com medição horária:
FPind > 0,92 Os valores indicados para correção do fator de potência (na
Limite FP Capacitivo Sem limite 0:00-06:00 HS
média horária) são:
FPcap > 0,92
6:00-24:00 HS
Sem limite • Das 0h00 – 6h00 - de 0,00 ind a 0,92 cap
Demanda Max Reativa Não mede Mede • Das 6h00 – 24h00 - de 0,00 cap a 0,92 ind
Apoio
40

Dados adicionais do cliente: Cliente com medição do tipo média horária:


Qualidade de energia

Estas informações são indispensáveis para a determinação No caso da utilização da demanda registrada em cada
do local mais indicado para instalação dos capacitores, assim hora como referência para (3) e (4), o resultado é a definição
como o modelo e tipo de capacitor mais apropriado. Em geral, da compensação a ser inserida na rede em cada hora em
estão disponíveis no diagrama unifilar da instalação e deve função do perfil de carregamento do consumidor. Logo,
apresentar as seguintes informações: tem-se que:

(6)
• Todos os transformadores (com tensões e potência definidas);
• Todos os capacitores fixos (com potência definida);
Aplicação de capacitores em circuitos com
• Todos os bancos automáticos de capacitores (com potência
harmônicos
definida);
Pelas considerações estabelecidas nas normas
• Todos os capacitores não fixos, em geral instalados junto a
mundialmente reconhecidas de especificação de capacitores
máquinas especiais, motores, etc. (com potência definida);
de potência, existem restrições quanto à sua utilização em
• Cargas especiais, fundamental para os circuítos onde pode
circuitos com condições anormais de operação (transitórios,
haver a circulação de correntes harmônicas. Nestes casos,
sobretensões, harmônicos, etc.).
recomenda-se efetuar o estudo de penetração harmônica da
Tais restrições são decorrentes do fato de que o
instalação. Neste caso, o unifilar deve ser completo, constando
fabricante, ao projetar e fabricar um determinado tipo
os seguintes dados:
de capacitor, leva em consideração os valores normais
 Impedância de todos os equipamentos;
de tensão e corrente a que ele estará submetido (valores
 Características das fontes geradoras de harmônicas;
nominais), não podendo prever de modo generalizadoas
 Potência de curto circuíto da concessionária;
possíveis condições adversas. Tais condições adversas,
 Outros.
em muitos casos, ultrapassam os valores normalizados de
suportabilidade do equipamento, sacrificando desta forma
Definição do valor da compensação de reativos
sua vida operacional.
O montante de compensação pode ser definido por meio
Todo circuito que opera com dispositivos que alteram
dos dados disponibilizados pela fatura de energia elétrica ou
a forma de onda da corrente e da tensão fundamental de
ainda pelos dados disponibilizados pela concessionária de
alimentação possui componentes harmônicos. A amplitude
energia a partir da memória do medidor de energia (hora a
e a frequência destes harmônicos dependerão do tipo
hora). Dessa forma, pode-se obter o valor da compensação por
de equipamento utilizado, de sua potência e dos valores
meio da seguinte relação:
intrínsecos do circuito e equipamentos a ele conectados.
(3) A impedância de qualquer tipo de capacitor (reatância
Em que: capacitiva) é definida pela seguinte expressão:

tg(φ)r = tangente para fator de potência real;


tg(φ)d = tangente para fator de potência desejado;
kW = Potência ativa em kilowatts. Em que: w - frequência angular da rede em radianos
Cliente com medição do tipo média mensal: f - frequência da rede em Hz.
A utilização da demanda máxima registrada como potência
Dessa forma pode-se concluir que a impedância dos
ativa em (3) resulta no limite máximo de compensação que o
mesmos será tanto menor quanto maior for a frequência da
cliente pode instalar. Logo:
rede, uma vez tal impedância é inversamente proporcional
(4) à frequência. Tal efeito fará do capacitor um “caminho” de
baixo impedância para a circulação de harmônicos, fazendo
Por outro lado, caso seja utilizada a demanda média como
com que uma grande parte das correntes harmônicas geradas
potência ativa em (4), a resposta será o limite mínimo de
passem pelo capacitor.
compensação, definido em (5).
Cabe salientar que os capacitores “não geram”
(5) harmônicas, mas, como outras cargas elétrica, sofrem seus
efeitos. Observa-se também que determinados circuitos
No caso dos consumidores que trabalham no regime
poderão ter seus valores de harmônicos amplificados em
horosazonal, os cálculos anteriores devem considerar os
intensidade após a instalação de capacitores nos mesmos,
consumos na ponta e fora da ponta.
Apoio
41

uma vez que estes tendem a diminuir a impedância geral do Logicamente, o equipamento utilizado para tal proposição
circuito para frequências acima da fundamental. é dimensionado para suportar as adversidades de funciona­
mento (sobrecorrentes e sobretensões harmônicas), sendo
Ressonância série aproveitada a sua potência de serviço na tensão fundamental
Em relação à circulação de componentes harmônicos sobre para a correção do fator de potência no ponto de instalação
os capacitores, ressalta-se que a condição mais severa ocorrerá do mesmo.
quando for estabelecida uma sintonia em série entre os valores
da impedância equivalente do sistema com o capacitor Resssonância paralela
(ressonância série). Neste caso, a atenuação da amplitude do Esta ressonância apresenta um elevado valor de
harmônico considerado é praticamente nenhuma, transferindo impedância pela combinação em paralelo da reatância
para o capacitor toda (ou quase toda) a energia corresponde à capacitiva com a reatância indutiva, na frequência em
harmônica sintonizada. Neste caso, considera-se: que ambas se equivalem. Isto pode representar um sério
problema quando esta impedância for percorrida por uma
corrente, mesmo que pequena, de mesma frequência,
fazendo com que se elevem drasticamente as tensões em
Em que: Zr = Impedância Resultante
seus terminais e as correntes harmônicas desta ordem
existentes no sistema, levando a danos aos equipamentos
do sistema, principalmente aos bancos de capacitores
instalados no ponto de ocorrência de tal ressonância.
Em que: fr = Frequência de Ressonância
Em sistemas de potência, a utilização de capacitores
Contudo, uma estratégia comum é a utilização do para correção do fator de potência pode caracterizar uma
efeito de ressonância em questão para a “filtragem” das ressonância paralela no ponto de instalação àafrequências
harmônicas existentes em sistemas elétricos. Cria-se, harmônicas que estejam presentes no sistema. Desta forma,
dessa forma, o conceito de “Filtro de Harmônicos”. em sistemas onde existem cargas geradoras de harmônicas
Apoio
42

significativas, é imprescindível a realização de estudos harmônicas, tais ligações deverão ser reforçadas, evitando
Qualidade de energia

harmônicos para garantir a instalação segura dos bancos sobrecarga nos condutores e placas.
de capacitores para correção do fator de potência, evitando
com isto danos a estes bancos e ao próprio sistema. c) Na prática, pode-se considerar que a média quadrática
Para determinação da frequência de ressonância quando dos valores das correntes existentes, nos dará a noção
da instalação de bancos de capacitores, pode-se utilizar a apropriada da corrente resultante, para o dimensionamento
seguinte equação: dos condutores a placas associados ao capacitor.

Eventuais sobrecorrentes de frequência e intensidades


Em que: não previstas geram sobrecarga nos condutores e
N - Ordem harmônica da ressonância; placas com consequente aumento das perdas devido a
KVAcc - Potência de curto-circuito no ponto de instalação aquecimento. Este processo leva ao sobreaquecimento dos
do banco de capacitores em KVA; materiais isolantes, o que resulta na diminuição da vida útil
KVAr - Potência do banco de capacitores em KVAr. do capacitor.

Efeitos das componentes harmônicas sobre capacitores d) Efeito combinado: tensão X corrente: este efeito, gerado
Os valores nominais de tensão de potência de operação a partir da presença de tensões e correntes harmônicas,
são utilizados para o dimensionamento dos capacitores leva à necessidade de estabelecer, com critérios, o
em sua utilização mais genérica, ous seja, funcionamento adequado dimensionamento dos capacitores da instalação.
na frequência fundamental. Entretanto, em circuitos com Além disso, devem ser consideradas as variações bruscas
presença de harmônicos os valores de suportabilidade dos na forma de onda distorcida da tensão sobre o capacitor,
capacitores ficarão prejudicados em função do acréscimo resultante das componentes harmônicas.
de corrente, tensão e potência introduzidos por este Neste caso, considere-se a que a corrente no capacitor
fenômeno. é dada, em função de sua tensão, pela seguinte relação:
Basicamente, os efeitos prejudiciais causados pelas
componentes harmônicas podem ser explicados da seguinte
forma:

a) Tensão: O isolamento entre placas, além de suportar Em que: C = capacitância


a tensão fundamental, terá que suportar também as V(t) = tensão no capacitor
sobretensões causadas pelos harmônicos drenados pelo
capacitor. Tal efeito é significativo em frequência de 120 Hz Observa-se que as bruscas variações de tensão provocam
a 720 Hz, quando o produto da impedância do capacitor variações na corrente demandada pelo capacitor, e, por
pela intensidade (amplitude) da corrente na frequênca conseguinte, variações no campo elétrico existente entre as
considerada tendem a assumir valores representativos. suas placas, resultando em danos ao dielétrico do mesmo.
Para a determinação do valor máximo de sobretensão,
é necessário que se faça a computação instantânea dos Conclusão
valores de tensão de cada harmônica, em amplitude e fase. Devido à severidade que os efeitos comentados
Esta degradação também pode ser resultante das poderão assumir, é inadmissível conceber que um
descargas parciais no dielétrico do capacitor. Quando o capacitor dimensionado para funcionamento em circuitos
nível de descargas parciais atinge valores elevados, a vida convencionais possa suportar as condições adversas
útil do capacitor degrada-se rapidamente. impostas pelas harmônicas.
Entretanto, conhecendo os níveis e ordem das harmônicas
b) Corrente: Uma vez que os capacitores são associação em que o capacitor deverá suportar, é possível estabelecer um
série e/ou paralelo de unidades capacitivas em (elementos estudo para o seu correto dimensionamento. Tal capacitor
capacitivos = bobina capacitiva = menor parte formadora tenderá a ter seu projeto sobredimensionamento, a fim de
do capacitor), existe a necessidade de fazer conexões suportar, além da contingência normal de funcionamento da
elétricas com cabos/terminais/cordoalhas/soldas, etc. Com frequência fundamental, todos os esforços eletromecânicos
o acréscimo de corrente implementado pelas correntes adicionais causados pelas harmônicas.
Apoio
43

Invarialvemente, o “reforço” dos capacitores leva a um Sinusoidal Voltage on Intrinsic Aging of Cable and Capacitor
aumento no seu tamanho com a reavalição de todas as Insulating Materials”, IEEE Transactions on Dielectrics and
suas características de projeto, repercutindo em acréscimos Electrical Insulation, pp. 798-802, Dec. 1999.
de custos e, possivelmente, prazos de entrega. Porém, [5] Life Expectance Test Procedures – General Electric –
paralelamente, tais inconvenientes são justificáveis em Reactive Compensation Business.
função dos benefícios obtidos com o aumento de vida útil [6] GARCIA, F.R. “Procedimentos de Projeto de Capacitores
alcançado, se comparados com capacitores convencionais. e Bancos de Capacitores em Sistema com Harmônicos”,
Aconselha-se, em função da problemática que circuitos Inepar.
com harmônicos podem assumir, fazer um criterioso estudo
de características, dando ao fabricante de capacitores os *Gilson Paulilo é engenheiro eletricista, com
subsídios necessários para o correto dimensionamento de mestrado e doutorado em qualidade de energia elétrica
pela universidade Federal de Itajubá. Atualmente,
seu equipamento. é consultor tecnológico em energia no Instituto de
Pesquisas Eldorado, em Campinas (SP). Sua atuação
é voltada para áreas de qualidade de energia
Referências
elétrica, geração distribuída, eficiência energética e
[1] ARRILAGA, J., “Harmonic Elimination”, in International distribuição.
Conference on Harmonics in Power Systems Proceedings,
Flávio Resende Garcia é consultor técnico da empresa
September 1981, Manchester, England, pp. 37-75.
INEPAR S/A desde 1992. É engenheiro eletricista, com
[2] ARRILAGA, J., BRADLEY, P. S., BOGDER, P. S., “Power mestrado em Cargas Elétricas Especiais e Harmônicos
Systems Harmonics”, John Wiley and Sons, New York, 1985. em Sistemas Elétricos de Potência e especialização em
“Power Quality Management” pela Westinghouse-USA.
[3] DUGAN, R. C., McGRANAGHAN, M. F., BEATY, H. W.,
“Electrical Power Systems Quality”, McGraw-Hill, USA,
Continua na próxima edição
1996. Confira todos os artigos deste fascículo em www.osetoreletrico.com.br
Dúvidas, sugestões e comentários podem ser encaminhados para o e-mail
[4] MONTANARI, G.C. and FABIANI, D. “The Effect of Non- redacao@atitudeeditorial.com.br
Apoio
44
Qualidade de energia

Capítulo IX

Estudo de caso – diagnóstico


da QEE
Por Fernando Nunes Belchior, José Maria de Carvalho Filho e Gilson Paulillo*

Consideremos o complexo industrial do A linha de produção é constituída de um


consumidor X, alimentado por meio de uma linha conjunto de máquinas associadas em série,
de distribuição em 13,8 kV, circuito protegido utilizadas na produção de fios e cabos óticos.
(rede compacta), originária da subestação de 138 Todas as fases do processo necessitam de
kV/13,8 kV, semi-exclusivo e compartilhado com as controle preciso de velocidade, implicando na
indústrias S e T. instalação de sofisticados sistemas de controle
Internamente, a linha de produção da fábrica (cartões de controle, PLCs, etc.) associados
é alimentada por um transformador de 750 kVA a inversores de frequência e conversores
13,8/0,38 kV, conexão delta-estrela, solidamente de corrente contínua. Estes equipamentos
aterrado. O diagrama unifilar deste consumidor é (inversores e conversores) são considerados
apresentado na Figura 1. tanto como cargas especiais, devido à
geração de harmônicos, tanto como cargas
sensíveis, por sofrerem o impacto de distúrbios
eletromagnéticos originários da rede elétrica,
sob a forma de queima de componentes e/ou
parada de funcionamento.
Ao contrário da linha de produção, a área
de utilidades da fábrica é constituída por
cargas convencionais, ou seja, sistema de ar
comprimido, compressores, bombas, torres de
resfriamento de água etc., acionados por motores
de indução.
Devido à alta sensibilidade dos equipamentos
utilizados nas linhas de produção, o consumidor
X vem enfrentado diversos problemas, tais como,
paradas de produção, perdas de matéria-prima etc.
Neste sentido, a principal suspeita é a ocorrência
de distúrbios na rede elétrica, relacionados à
Qualidade da Energia Elétrica (QEE).
Dentro deste contexto, este trabalho
Figura 1 – Diagrama unifilar. tem como objetivo apresentar a análise e o
Apoio
45

diagnóstico da QEE, visando identificar o(s) distúrbio(s) • Harmônicos:


associados às paradas de produção e potenciais soluções. – Duração: uma semana;
– Equipamento utilizado: AR4 – Circutor;
Metodologia – Locais de medição:
A metodologia adotada para a elaboração do diagnóstico • Ponto de acoplamento comum: 13,8 kV;
dos problemas consistiu das seguintes etapas: Secundário do transformador de 1 (produção):

3,8/0,38 kV;
• Levantamento de dados dos equipamentos e das • Painel de alimentação linha de produção CB-I:
instalações da unidade consumidora;
• Variações de tensão de longa duração (sub e
• Registro das ocorrências; sobretensão):
– Duração: uma semana;
• Monitoramento dos principais fenômenos de QEE, – Equipamento utilizado: EL0 63 1;
com o objetivo de identificar e quantificar os distúrbios – Locais de medição (medição simultânea):
potencialmente associados às paradas de produção, • Ponto de acoplamento comum: 13,8 kV;
utilizando-se equipamentos específicos para cada um dos Secundário do transformador de 1 (produção):

principais fenômenos, a saber: 3,8/0,38 kV;
• Variações de tensão de longa duração;
• Harmônicos; • VTCD e Transitórios:
• Desequilíbrios de tensão; o Duração: 50 dias;
• Transitórios; o Equipamento utilizado: PQ Node 7100;
• Variações de tensão de curta duração (VTCD). o Local de medição:

Secundário do transformador de 1 (produção):
• Procedimento de medição associado a cada fenômeno: 3,8/0,38 kV.
Apoio
46

Características dos dados coletados distúrbios de QEE, destacando-se:


Qualidade de energia

Foram coletadas informações referentes ao sistema


de suprimento de energia (concessionária Y), sistema de − Sub e sobretensões;
alimentação interno (consumidor X) e dos equipamentos − Harmônicos;
envolvidos diretamente nas linhas de produção, conforme − Transitórios;
a seguinte descrição: − VTCDs: afundamentos e elevações de tensão.

− Sistema de suprimento: Uma vez identificados e quantificados os distúrbios,


• Diagrama unifilar do sistema da concessionária, o próximo passo consistiu na comparação dos resultados
englobando a região geográfica e adjacências, nas obtidos com os limites estabelecidos em normas técnicas e/
tensões de 13,8 kV e 138 kV; ou recomendações internacionais.
• Características do sistema de proteção das linhas de
transmissão e distribuição, bem como ajustes dos relés Resultados das medições
de proteção; Os resultados das medições para os principais distúrbios
• Práticas de religamento utilizadas pela concessionária; associados à QEE são mostrados a seguir:
• Nível de curto-circuito no barramento da subestação
de suprimento de 138 kV/13,8 kV; - Sub e sobretensões
• Quilometragem total das linhas de transmissão e de O tratamento estatístico executado para estes dois
distribuição; itens está sintetizado nas figuras 2 e 3, considerando o
• Relatórios de ocorrências no sistema da concessionária primário e o secundário do transformador de 750 kVA,
nos instantes em que foram registradas paradas de respectivamente.
produção.
Histograma Média: 8127.77V
• Banco de dados de curto-circuito da rede transmissão
e distribuição.
25000 120,00%
20000 100,00%
Frequência

− Sistema de distribuição do consumidor: 80,00%


15000 Frequência
60,00%
• Diagrama unifilar do sistema de distribuição da 10000
40,00% %cumulativo
fábrica; 5000 20,00%
0 ,00%
• Dados sobre o sistema de aterramento;
• Filosofia de chaveamento dos bancos de capacitores
2 6
8 1
4 6
0 1
65 6
1
77 9,0
78 8,4
80 7,7
82 7,7
83 6,4
,8

existentes.
6
75

Bloco

− Cargas sensíveis do processo industrial:


Figura 2 – Tensão de regime permanente – Primário do transformador.
• Tipos de equipamentos utilizados no processo
industrial; Média: 224.61V
Histograma
• Diagrama unifilar, indicando a forma de alimentação
destes equipamentos (circuitos de força e de controle); 25000 120,00%
20000 100,00%
Frequência

• Sensibilidade destes equipamentos diante dos


80,00%
15000 Frequência
distúrbios de QEE, por meio de consultas diretas aos 60,00%
10000 %cumulativo
fabricantes; 40,00%
5000 20,00%
• Obtenção dos ajustes e das parametrizações das 0 ,00%
proteções e controles inerentes aos acionamentos;
21 09
21 ,4
22 ,8
22 ,2
6
1
6,
23

• Relatórios de produção e de manutenção.


3
7
2
2

Bloco
Diagnóstico da QEE
Inicialmente, foram analisados os dados obtidos nas Figura 3 – Tensão de regime permanente – Secundário do transformador.

medições de campo, de forma a quantificar e correlacionar - Harmônicos


os distúrbios de QEE com as ocorrências de paradas de O tratamento estatístico dos harmônicos de tensão, consolidado
produção. Foram investigadas a presença dos principais por meio do indicador associado à distorção harmônica total de
Apoio
48

tensão (VTHD – Voltage Total Harmonic Distortion) é mostrado tensão (VTHD – Voltage Total Harmonic Distortion) é mostrado
Qualidade de energia

na Figura 4 e a forma de onda representativa desta distorção é na Figura 4 e a forma de onda representativa desta distorção é
mostrada na Figura 5. mostrada na Figura 5.

Model 7100 Waveshape Disturbance Three Phase Wye


450.0V 10.0A
VTDm: 2,20 Va
Vb
60 1 20,00%
Vc
50 100,00%
Frequência

40 80,00%
Frequência
30 60,00%
%cumulativo 0.0V 0.0A
20 40,00%
10 20,00%
0 ,00%
5
5

s
1,
0,

2,

3,

4,

ai
M

Bloco -450.0V -10.0A


0.00ns 1.67ms/div 33.33ms
Figura 4 – Distorção harmônica total de tensão – Painel de entrada. 19:34:13.26

Model 7100 Snapshot Waveform Three Phase Wye Figura 6 – Transitório de chaveamento de banco de capacitores
350.0V 10.0A
Distortion: THD=2.31% Odd=2.30% Even=0.25% Va
- VTCDs – Afundamentos e elevações de tensão
Os eventos registrados no período de monitoramento (50
dias) estão sintetizados na Tabela 1 e na Figura 7. Observa-se,
0.0V 0.0A
quantitativamente, que os afundamentos de tensão foram os
distúrbios que estiveram mais presentes nas instalações do
consumidor X.

Tabela 1 – Afundamentos de tensão


Intensidade (%)
90-85 85-80 80-75 75-70 70-65 65-60 60-55 55-50
-350.0V -10.0A Duração (ms)
0.00ns 833.33us/dv 16.67ms/div
01:49:22.18 PM 0-50 3 3 3 3 3 3 3 3
50-100 1 3 3 3 3 1 3 3
2.0%
100-150 5 2 2 2 2 3 2 2
150-200 2 1 1 1 1
1.0%
200-250
300-350 3 2 1 2 1
0.0%
60Hz 2940Hz 350-400 3 1 1 1
Figura 5 – Forma de onda de tensão e respectivo espectro harmônico.
400-450 3 1 1 1
450-500 1
Observando-se os resultados obtidos, conclui-se que 500-550 1 1
a distorção harmônica total de tensão em todos os pontos 550-600 1 1
monitorados ficou abaixo do menor limite recomendado
pelas normas internacionais, ou seja, 5% (IEEE). Além disso, o A f u n d a m e n t o d e Te n s ã o
espectro de frequência mostrado na Figura 5 confirma os valores
esperados, com predominância dos harmônicos de quinta e
sétima ordem, devido à presença de conversores de seis pulsos
utilizados nos diversos acionamentos utilizados na planta.
Frequência

- Transitórios
A Figura 6 mostra um transitório típico associado ao
chaveamento de banco de capacitores, comandado pelo
Intensidade(%)
controlador de fator de potência. Como não houve registro de
Duração (ms)
paradas de produção nestes instantes, não se pode, neste caso,
correlacionar os transitórios medidos e as paradas de processo. Figura 7 – Características dos afundamentos de tensão.
Apoio
50

Em função da característica dos desligamentos dos Estes eventos culminaram em diversas paradas de produção na
Qualidade de energia

equipamentos associados ao processo produtivo, bem unidade consumidora, com os seguintes impactos:
como aos resultados mostrados anteriormente, concluiu-se
que as ocorrências de afundamentos de tensão de tensão − Desligamento de acionamentos CA e CC e efeitos associados
constituíram-se na principal suspeita da causa das paradas ao processo;
de produção do consumidor X. − Paradas de produção em processos contínuos devido às
A fim de confirmar esta hipótese, correlacionaram-se os disfunções ocorridas em CLPs e cartões de controle;
eventos registrados (paradas de processo) com as ocorrências − Desligamento de motores na área de serviços auxiliares
dos afundamentos de tensão e suas características intrínsecas devido ao desligamento de contatores e relés auxiliares.
(intensidade e duração). Neste caso, a combinação do
grau de severidade dos afundamentos e a sensibilidade Para minimizar os problemas identificados, recomendou-se
dos equipamentos (acionamentos CA e CC e sistemas de a execução de estudos de viabilidade e projeto de instalação,
controle) tiveram impacto direto no desligamento dos visando as seguintes ações:
equipamentos e na interrupção dos processos produtivos
associados. Como exemplo, a Figura 8 mostra um registro − Estabilizar as tensões de comando para alimentação de CLPs
de afundamento de tensão com elevado grau de severidade. e cartões de controle por meio de no-break (solução local);
A correlação de todos os registros de afundamentos de − Estabilizar as tensões de comando para a alimentação de
tensão com o relatório de produção indicou a ocorrência bobinas de contatores e relés auxiliares;
de seis eventos. − Implantar um sistema de alarmes, visando notificar a equipe
Assim, com base nestas informações concluiu-se que a de manutenção elétrica dos desligamentos de equipamentos
causa principal das paradas de produção do consumidor auxiliares;
X foram os afundamentos de tensão, provocando o mau − Avaliar, juntamente com todos os fabricantes, a possibilidade
funcionamento e desligamento de Controladores Lógico de dessensibilização dos acionamentos CA e CC por meio de
Programáveis (CLPs) e acionamentos CA e CC. uma nova parametrização dos acionamentos. Neste particular,
faz-se necessário a obtenção, junto aos fornecedores, das
parametrizações em uso nos equipamentos;
Model 7100 RMS Sag Disturbance Three Phase Wye
300.0V 20.0A
− Estabilizar as tensões de alimentação das demais cargas
Va
sensíveis por meio de nobreaks (solução local).
Vb
Vc

150.0V 10.0A *Gilson Paulilo é engenheiro eletricista, com


mestrado e doutorado em qualidade de energia elétrica
pela universidade Federal de Itajubá. Atualmente,
é consultor tecnológico em energia no Instituto de
Pesquisas Eldorado, em Campinas (SP). Sua atuação
é voltada para áreas de qualidade de energia
0.0V 0.0A elétrica, geração distribuída, eficiência energética e
0.00ns 29.17ms/div 583.33ms
5:18:02.78PM distribuição.

Figura 8 – Afundamento de tensão de grande severidade. Fernando Nunes Belchior é engenheiro eletricista,
mestre e doutor em Engenharia Elétrica pela
Universidade Federal de Uberlândia (UFU-MG). Desde
Conclusões fev/2007 é professor adjunto no Grupo de Estudos da
Qualidade da Energia Elétrica (GQEE) no Instituto de
Considerando as condições de carga, as medições realizadas
Sistemas Elétricos e Energia (ISEE) da Universidade
indicaram que o sistema de distribuição do consumidor X tem Federal de Itajubá, UNIFEI-MG, Brasil. Atualmente é
boa qualidade da energia no que se refere às tensões de regime presidente da SBQEE, Gestão 2013-2015.

permanente, distorção harmônica e transitórios. José Maria de Carvalho Filho é engenheiro eletricista
Contudo, verificou-se um número substancial de pela UFMG, com mestrado e doutorado pela Unifei.
Atualmente, é professor da Unifei e membro do Grupo de
ocorrências de afundamentos de tensão. Considerando que a
Estudos em Qualidade da Energia (GQEE), com atuação em
instalação do consumidor não registrou e ocorrência de curtos- Qualidade e Proteção de Sistemas Elétricos.
circuitos internos, bem como não dispõe de motores de elevada Continua na próxima edição
Confira todos os artigos deste fascículo em www.osetoreletrico.com.br
potência, principais causas deste tipo de fenômeno, os eventos Dúvidas, sugestões e comentários podem ser encaminhados para o e-mail
registrados foram originados fora da instalação do consumidor. redacao@atitudeeditorial.com.br
Apoio
40
Qualidade de energia

Capítulo X

Aspectos da qualidade da
energia elétrica no contexto
das redes inteligentes
Por Gilson Paulillo e Paulo Ribeiro*

A Qualidade da Energia Elétrica (QEE) dos sistemas de medição e de distribuição de


envolve aspectos relacionados ao fornecimento energia elétrica, a integração em larga escala
e à disponibilidade da energia, bem como a de diferentes tecnologias de geração distribuída
conformidade do produto, o qual inclui uma e de armazenamento de energia elétrica –
gama de fenômenos com diferentes origens, incluindo a integração dos veículos elétricos
características, impactos na rede elétrica. Estes –, a implantação de uma ampla camada de
envolvem setores distintos nos diversos segmentos comunicação para monitoramento e controle de
de geração, transmissão e distribuição. Logo, é dispositivos e equipamentos, etc. O resultado
de fundamental importância a interpretação de final é a integração de todos os agentes e a
todos os fenômenos, os quais são embasados na produção e consumo de energia de forma plena,
disponibilização para processamento dos sinais eficiente, segura, confiável, ambientalmente
de tensão e corrente nos pontos de interesse, sustentável e viável economicamente.
principalmente nos PAC’s (Ponto de Acoplamento Questões operacionais e de segurança,
Comum), como também dentro das instalações associadas à sustentabilidade, desenvolvimento
dos próprios consumidores de energia elétrica. e expansão da rede elétrica estarão presentes na
Neste contexto, a implantação em larga ordem do dia do setor elétrico nos próximos 30
escala das redes elétricas inteligentes (REIs) anos. Estimativas globais indicam que até o ano de
– uma agregação da rede elétrica com a rede 2030, o setor elétrico demandará investimentos
de comunicações e controle de informações – da ordem de 16 trilhões de dólares, conforme
apresenta uma oportunidade ímpar para a gestão estatísticas da International Energy Agency.
em alto nível da Qualidade do Fornecimento Destes, somente na Europa serão necessários 500
e da Qualidade do Produto Energia Elétrica. bilhões de euros na expansão e modernização
Isto se deve aos benefícios proporcionados da infraestrutura de distribuição e transmissão. O
pela implantação de uma infraestrutura de objetivo é tornar as redes elétricas mais seguras,
tecnologias de informação e comunicação confiáveis e ambientalmente compatíveis.
(TICs) à rede elétrica, que proporciona, entre Este desafio é consubstanciado pelas
outros benefícios, elevado nível de automação tendências de consumo de energia para o futuro,
41

em que a consciência ambiental traz a dependência de maior


consumo de fontes renováveis e por tecnologias verdes,
associados a um aumento da posse de eletrodomésticos e,
consequentemente, da energia elétrica na matriz. Ademais,
o consumidor demandará uma maior interação com os
agentes setoriais e de mercado, fará a gestão do seu consumo
e buscará maior eficiência energética no seu ambiente, nas
suas edificações, na sua locomoção e na sociedade em
geral. Isso provocará uma demanda por indicadores de
monitoramento e automatização dos sistemas.
Este artigo apresenta por meio de exemplos uma análise
dos principais impactos e desafios para a Qualidade da
Energia Elétrica no contexto da implantação das redes
inteligentes no setor elétrico. Nesse sentido, destacam-se
os seguintes aspectos:

• Análise das variações de magnitude de tensão, de


emissão harmônica e ressonância harmônica em função
da introdução em larga escala de novas fontes de geração
distribuída, principalmente solar, eólica, térmica a biogás,
microturbinas e células a combustível;
• Desenvolvimento de indicadores de desempenho
estatísticos e limites associados à capacidade de
hospedagem do sistema elétrico para fontes renováveis, que
inclui todas as fontes de energia;
• Desenvolvimento de métodos de análise automática para
tratar e gerar informação a partir do grande volume de dados
gerados pelas REIs. Estes devem incluir o desenvolvimento
de ferramentas avançadas de processamento digital de sinais;
• Adoção de técnicas para identificar a emissão,
propagação e mitigação de sinais de tensão e corrente
em alta frequência, geradas a partir de equipamentos com
interface eletrônica. Outros equipamentos que contribuem
com emissões nessa faixa de potência incluem certos
tipos de geradores eólicos, painéis solar fotovoltaicos,
microturbinas, conversores tipo fonte de tensão e outros
dispositivos DFACTS. O crescimento deste tipo de
equipamento na rede demanda conhecer detalhadamente a
emissão e a propagação da forma de onda de distorção em
frequências superiores a 2 kHz;
• Adoção de técnicas de agregação de sinais variantes no
tempo no PAC produzidos por múltiplas fontes de sinais
não lineares;
• Consideração da utilização de técnicas de análise de
harmônicos com condições de variação no tempo, de forma
a proporcionar mais conhecimento e exatidão quanto aos
níveis de distorção, suas fontes e especificação de soluções
para mitigação dos problemas associados, principalmente
ressonâncias em harmônicas de ordem superior;
Apoio
42

• Análise da Qualidade do Produto em Sistemas CC, de arquitetura de telecomunicação e TI, bem como softwares
Qualidade de energia

principalmente alterações na qualidade da tensão devido a e capacidade de processamento de dados que são a essência
transitórios e oscilações. Isto é de muita importância especialmente da rede inteligente. Estes, associados a aplicativos de Business
para cargas de centros de processamento de dados. Inteligence, são direcionados para atender prioritariamente os
seguintes objetivos:
Conceitos de redes elétricas inteligentes
Usado pela primeira vez em 2005, o termo “smart grid”, • Reduzir as perdas técnicas e comerciais (fraudes);
doravante Redes Elétricas Inteligentes (REIs), contempla • Melhorar a qualidade do serviço prestado pelas distribuidoras;
a convergência da aplicação de elementos digitais e de • Reduzir os custos operacionais;
comunicações nas redes de transporte de energia elétrica, • Melhorar o planejamento da expansão da rede;
proporcionando a efetiva digitalização do sistema elétrico. • Melhorar a gestão dos ativos;
Neste caso, esta convergência proporciona a disponibilização • Promover a eficiência energética;
de um grande volume de dados, gerados a partir de “n” • Fomentar a inovação e a indústria tecnológica.
dispositivos instalados na rede elétrica e que se referem a
diversas grandezas de interesse. Estes, devidamente tratados e Não obstante, este novo ambiente apresenta os seguintes
processados em centros de monitoramento e controle, geram desafios:
informação estratégica sobre a rede elétrica, auxiliando na
operação e controle do sistema como um todo. • Desenvolver um modelo de mercado;
Trata-se de um tema amplamente debatido no mundo atual • Estabelecer padrões de interoperabilidade e de segurança de
e envolve um conceito de relativa complexidade conceitual, equipamentos e sistemas;
formado por relações dinâmicas, envolvendo não somente • Desenvolver novos equipamentos, sistemas de comunicação
a infraestrutura elétrica, de tecnologia da informação e de e aplicações de software para suporte das funcionalidades
telecomunicação, como os agentes de governo, mercado, requeridas;
consumidores em geral e demais entidades. Este ambiente • Desenvolver e priorizar mecanismos, procedimentos e
considera uma vasta diversidade de tecnologias, de soluções associadas a cibersegurança;
equipamentos e de fabricantes, com uma gama de benefícios • Estabelecer politicas e regulamentação;
associados como inovação tecnológica, desenvolvimento de • Integrar todos os agentes do setor e mostrar a importância
novos produtos e serviços e novas oportunidades de mercado, das REIs;
atrelados a toda cadeia de provimento e consumo da energia • Promover uma politica de CT&I de forma a gerar tecnologias
elétrica. nacionais, infraestrutura de pesquisa e disponibilidade de
Esta junção entre os dois tipos de infraestrutura – redes profissionais qualificados nos diversos níveis e temas;
elétricas e redes de TI e Telecom – e sua evolução é mostrada • Promover uma politica industrial que garanta a sustentabilidade
na Figura 1. da cadeia produtiva;
A mudança de paradigma proporcionada por esta • Prover uma energia com qualidade compatível para uma
tecnologia demanda uma série de transformações que passam economia digital.
pela modernização da infraestrutura, definição e instalação Um exemplo prático deste desafio é a evolução dos atuais

Figura 1 – Estrutura de uma REI.


Apoio
44

sistemas de medição para sistemas de medição inteligentes, Qualidade da energia e redes elétricas inteligentes
Qualidade de energia

que devem ser regulamentados e definidos, somente no tocante No contexto das REIs, diversas possibilidades podem
à continuidade da questão os seguintes aspectos: ser relacionadas a partir da disponibilização de uma grande
quantidade de dados de uma determinada rede elétrica,
• Medição da tensão, energia ativa e energia reativa instantâneas; destacando-se, por exemplo:
• Registro de frequência e duração das interrupções, bem como
dos indicadores de nível de tensão (DRP, DRC); − Análise de contingências e simulações em tempo real;
• Capacidade de aplicação de quatro postos tarifários; − Integração de fontes renováveis e de geração distribuída em
• Corte, religamento, parametrização e leitura realizados larga escala na rede, proporcionando o autoabastecimento total
remotamente; ou parcial de uma residência, comércio ou indústria a partir
• Protocolo de comunicação aberto. do aproveitamento da geração de energia solar fotovoltaica,
eólica, biogás, etc.;
Qualidade da energia elétrica − Monitoramento, controle e proteção da geração distribuída,
A Qualidade da Energia Elétrica (QEE) refere-se a qualquer incluindo a adoção de mecanismos de antiilhamento;
desvio que possa ocorrer na magnitude, forma de onda ou − Monitoramento em tempo real de ativos e do estado
frequência da tensão e/ou corrente elétrica, que resulte em falha operacional de equipamentos da rede elétrica, possibilitando a
ou operação indevida de equipamentos elétricos. Este conceito otimização dos procedimentos de operação e manutenção;
inclui uma ampla gama de fenômenos, com características
e particularidades intrínsecas que abrangem diversas áreas No tocante à qualidade da energia, esta configuração
de interesse de sistemas de energia elétrica, incluindo até apresenta as seguintes preocupações e desafios:
problemas relacionados com a comunicação em redes de
transmissão de dados. − Monitorar, diagnosticar e responder a todas as demandas
Este conceito envolve aspectos relacionados à continuidade de QEE, independentemente da origem dos problemas e da
do fornecimento de energia elétrica, bem como com a complexidade da solução;
conformidade dos sinais de tensão e de corrente presentes no − Proporcionar diferentes níveis de qualidade, com preços
sistema. A interpretação destes fenômenos, principalmente diferenciados, no entendimento pleno de que energia elétrica
as distorções de tensões e correntes, localizadas tanto nos é, sobretudo, um produto;
PACs (ponto de acoplamento comum) como também dentro − Encontrar um equilíbrio entre os indicadores e limites
das instalações dos próprios consumidores de energia, preconizados pelas diferentes normas, ponderando-se o nível de
estão associadas diretamente a diversos fatores, dentre os sensibilidade dos equipamentos elétricos e o custo associado à
quais pode-se mencionar a correção do fator de potência, tarifa. No caso de uma economia digital em larga escala, níveis
racionalização do consumo de energia elétrica e o aumento diferenciados de qualidade em função de requisitos de alimentação
da produtividade em processos industriais que demandam das cargas elétricas, demanda níveis diferenciados de tarifas;
a aplicação em larga escala de dispositivos baseados em − Prover soluções para os problemas de QEE devem ser
eletrônica de potência, microleletrônica e controle. adotadas tanto para as instalações dos clientes quanto a
Os principais fenômenos associados são mostrados na nível de sistema elétrica. Isso se deve ao fato de que o grau
Figura 2. de complexidade dos problemas associados a QEE no futuro
tendem a aumentar e a busca de soluções mais próximas das
fontes perturbadoras deve ser prioritária;
− Desenvolver sistemas inteligentes de monitoramento da
QEE a partir da potencialidade proporcionada pela implantação
em larga escala de medidores inteligentes na rede elétrica,
que agregam funcionalidades importantes em termos de
processamento, armazenamento de dados e comunicação com
Figura 2 – Fenômenos associados à QEE. centros de medição, de forma a:
Em que:  Otimizar o investimento na prevenção e mitigação dos
a - tensão senoidal f - salto de tensão
problemas de QEE;
b - transitório impulsivo g - harmônico
c - transitório oscilatório h - corte de tensão  Estabelecer um benchmark no tocante ao desempenho
d - afundamento de tensão i - ruídos da rede e das instalações;
e – interrupção j – interharmônicos
Apoio
45

 Definir níveis adequados para a QEE; escala de geração distribuída à rede é a distorção harmônica
 Atender as necessidades das cargas elétricas no tocante dos sinais de tensão e de corrente e tem relação direta com
aos diferentes fenômenos; a interface de conexão com a rede. No caso de máquinas
 Antecipar eventuais demandas regulatórias. rotativas, normalmente a emissão de harmônicos é pequena.
No caso de conexões baseadas em dispositivos de eletrônica
− Minimizar o impacto da integração em larga escala de de potência, a situação é diferente. Muitos inversores utilizados
geração distribuída à rede elétrica, principalmente a geração na conexão de painéis solares fotovoltaicos são baratos e de
solar fotovoltaica, eólica, microturbinas e células a combustível. baixa qualidade, resutando em um invasão significativa de
harmônicos de baixa ordem na rede de distribuição.
Neste contexto, os principais aspectos impactos associados Esta situação depende de diversos fatores, principalmente,
à QEE no contexto das REIs são: da mudança dos parâmetros da impedância da rede, dos níveis
de tensão de rede da distribuidora, da potência de curto-circuito
• Controle bidirecional de fluxo de potência ativa e reativa na no ponto de conexão e, especialmente, da quantidade de
rede elétrica; capacitância adicionada à rede. Neste caso, esta capacitância
• Regulação de tensão; acionará novas frequências ressonantes e modificarão as
• Controle antiilhamento em geração distribuída; ressonânicas dominantes para baixas frequências, provocando
• Sobretensões indesejáveis na rede elétrica; a necessidade de estudos adicionais. Esta situação pode ocorrer
• Coordenação e seletividade da proteção; particularmente em redes de transmissão vinculadas a parques
• Harmônicos. eólicos. Para minimizar este problema, o inversor deve ser
capaz de reduzir os níveis de distorção harmônica de tensão,
Integração de geração distribuída à rede elétrica mesmo nos casos em que a potência de curto-circuito se reduz.
A Figura 3 mostra a geração harmônica resultante da simulação
Um dos principais efeitos decorrentes da integração em larga de diversas fontes de GD a uma rede elétrica.
Apoio
46
Qualidade de energia

Figura 3 – Geração harmônica de GD na rede.

Controle bidirecional de fluxo de potência ativa e reativa Regulação de tensão


na rede elétrica Painéis fotovoltaicos e geração eólica podem apresentar
As práticas utilizadas em sistemas de distribuição assumem consideráveis flutuações na potência gerada e provocar variações
que não existem outras fontes senão a subestação. Isso significa na magnitude de tensão. A injeção de potência ativa resultará
que o fluxo de potência é da subestação para os alimentadores. em sobretensões normalmente aceitáveis, conforme mostra a
A regulação nesta condição é feita tipicamente com o uso Figura 5. Nesta figura, a injeção de GD provoca elevação dos
de transformadores com comutadores de tap do tipo LTC, níveis de tensão, o que indica a necessidade de se adicionar um
instalados na subestação, em conjunto com reguladores de controle de tensão mais robusto e complexo. Ademais, torna-se
tensão e bancos de capacitores ao longo dos alimentadores. necessário um estudo para se avaliar estas sobretensões e seu
Estes equipamentos são dotados de funções de controle impacto nos equipamentos dos consumidores a fim de se
coordenadas para manter a tensão dentro de limites adequados, balancear a integração destes tipos de fontes (renováveis) e o
normalmente em torno de ±5% (conhecido como “ANSI Range impacto associado.
A”). Quando a GD é adicionada ao sistema, todas as premissas
anteriores entram em colapso, principalmente se a capacidade
adicionada ao alimentador for significante.
Esta situação pode provocar interações indesejáveis com
os compensadores de queda de tensão. Se uma GD de grande
porte for adicionada ao sistema, por exemplo, logo após o
regulador de tensão, esta poderá mascarar o total de corrente
visto pelo regulador. Esta situação é mostrada na Figura 4.

Figura 5 – Perfil de tensão de um alimentador de distribuição com GD.

As variações na magnitude das tensões ocorrem em um


período típico entre um segundo e dez minutos. O desafio
associado a esta situação é desenvolver modelos estocásticos
associados à integração destas fontes, incluindo a correlação
em diferentes escalas de tempo e entre geradores em locais
distintos.
Esta situação é exemplificada na Figura 6. Nesta, uma
medição de 1 segundo das tensões rms é usada como
ponto de partida. Considera-se a injeção de potência
ativa decorrente da integração de uma geração eólica
a um alimentador de 10 kV. A função de distribuição de
Figura 4 – Variação de tensão em um alimentador devido a integração de GD. probabilidade da geração eólica foi calculada para uma
Apoio
48

turbina de 600 kW para diferentes faixas de potência (neste e faltas para terra são mais prováveis durante ilhamentos não
Qualidade de energia

caso, 1 MW, 2 MW ou 3 MW). Uma simulação de Monte intencionais, como um equipamento pode ser isolado com um
Carlo foi usada para obter a distribuição de probabilidade grande banco de condensadores que podem provocar uma
da soma de duas variáveis estocásticas (tensão pré-vento e ressonância com as fontes de energia do sistema ilhado.
elevação da tensão). Os resultados são mostrados na Figura
7, com a potência da geração eólica crescendo da esquerda Esta situação indesejável é mostrada na Figura 7, em que
para a direita. A elevação da magnitude da tensão devido ao o ramal onde está instalada a GD deve ser desconectado para
crescimento da geração eólica é visível. impedir que esta assuma outras cargas da rede. Para tanto, os
ajustes de proteção devem estar coordenados com as demais
proteções dos alimentadores.

Figura 7 – Ilhamento e GD na rede de distribuição.


Figura 6 – Função de distribuição de probabilidade da magnitude da
tensão – esquerda para direita: sem gerção eólica; 1 MW de geração
Agregação no PAC de múltiplas fontes não lineares
eólica; 2 MW de geração eólica; 3 MW de geração eólica.
variantes no tempo
A agregação de sinais variantes no templo produzidas
Ilhamento
por múltiplas fontes não linares no ponto de acoplamento
A ocorrência de ilhamento em redes com forte penetração
comum (PAC) demandará esforços significativos no futuro. Os
de GD é indesejável pelas concessionárias de energia devido
métodos para agragação da GD, como sítios eólicos, definidos
aos seguintes aspectos:
na IEC 61400-21, necessitam melhor entendimento, validação
e generalização em função dos diferentes tipos de fontes e
• Segurança de pessoas e instalações – concessionária e
topologias do sistema elétrico. Esta situação é demonstrada
consumidor;
pela Figura 8
• Danos em equipamentos elétricos, tais como chaves,
geradores e cargas, em decorrência de religamento de redes em
uma condição de falta de fase;
• Equipes manutenção podem encontrar subsistemas
energizados não intencionais, tornando o trabalho mais
perigoso e retardo no processo de recuperação de energia;
• Ilhamentos não intencionais não costumam ter seus geradores
configurados com os controles adequados para manter a tensão
e frequência para superimento às cargas dos clientes;
• Considerando que os inversores fotovoltaicos são programados
para seguir a tensão do sistema, eles não ajudam a controlar
a tensão durante as condições de ilhamento. Em cenários
futuros onde o ilhamento fará parte da operação do sistema, os
conversores serão programados para controlar a tensão dentro
de valores aceitáveis;
• As sobretensões transitórias provocadas por ferrorressonância Figura 8 – Exemplo de agregação da geração eólica.
49

Como um exemplo de agregação de harmônicos no PAC, a


norma IEC 61400-21 propõe a seguinte expressão:

Em que:

Nwt é o número de geradores conectados à rede;


IhΣ é o termo hth da componente harmônica no PAC;
ni é a relação de transformação do gerador ith;
Ih,i é o termo hth da distorção harmônica do gerador ith;
β é a constante que depende da ordem harmônica.

Procedimentos e expressões de agregação que determinem


as características no PAC e o impacto nas características do
sistema, as condições das fontes não lineares, bem como a
interação entre estas fontes, são necessárias. Esta situação
apresenta desafios de modelagem analítica e computacional,
principalmente pelo fato destas múltiplas fontes estarem
conectadas eletricamente muito próximas umas das outras.

Processamento de sinais e qualidade da energia


No contexto das REIs, os requisitos de análise de
desempenho da QEE da rede elétrica são viabilizados
pela utilização de métodos e técnicas de processamento
de sinais. Estes serão utilizados para explorar todas as
condições proporcionadas pela complexa interação entre
as fontes de suprimento, os consumidores e os operadores
das redes. Neste ambiente de interação entre múltiplos
agentes, os sinais resultantes são complexos e devem ser
monitorados e processados a fim de se determinar o estado
e os desenvolvimentos dos dispositivos e sistemas, conforme
mostra a Figura 9.

Figura 9 – Sinais, tecnologias e interações da REI e a qualidade de


energia elétrica.
Apoio
50
Qualidade de energia

Figura 10 – Conceito básico dos sinais e parâmetros que podem ser processados e derivados para a QEE no âmbito das REIs.

Por meio da medição e análise dos sinais em diferentes pontos, o Redes Elétricas Inteligentes, 2011.
• PAULILLO, G.; TEIXEIRA, M. D.; BACCA, I. Qualidade da energia elétrica, 2010.
estado da rede pode ser avaliado. Este conceito é mostrado na Figura
• BOLLEN, M. H. J. et. al. Power quality aspects of smar grid. International Conference
10, que mostra como os sinais e os parâmetros de avaliação podem on Renewable Energies and Power Quality – ICREPQ´10. Granada, spain, mar. 2010.
ser processados em etapas sucessivas. O resultado proporcionará ao • PAULILLO, G.; DREHER, J. H.; TOYAMA, J. Conexão e proteção de geração distribuída
engenheiro visualizar a natureza das condições variantes no tempo no sistema de distribuição. XXI SNPTEE, Florianópolis, out. 2011.
• RIBEIRO, P. F.; DUQUE, C. A.; Silveira, P. M.; CERQUEIRA, A. S. Signal processing for
das REIs no tocante aos diferentes aspectos da QEE.
smart grids. Wiley (to be published in 2013).
• BOLLEN, M. H. J.; RIBEIRO, P. F.; GU, I. Y. H.; DUQUE, C. A. Trends, challenges
Conclusão and opportunities in power quality research. European Transactions on Electrical Power,
2009.
O interesse e problemas associados com a qualidade de
• DUQUE, C. A.; SILVEIRA, P. M.; Riberio, P. F.; BOLLEN, M. H. J. Future trends and
energia tedem a aumentar com o aumento da complexidade e research opportunities in power quality: an integrated perspective. VIII CBQEE VIII
desenvolvimento das redes inteligentes. Este artigo apresenta CBQEE. Blumenau, p. 100-106, Blumenau, 2009.
as principais preocupações e as possíveis soluções para garantir
*Gilson Paulillo é engenheiro eletricista, com mestrado e
uma qualidade de energia compatível com a complexidade e doutorado em qualidade de energia elétrica pela universidade
as características das cargas, a integração em larga escala da Federal de Itajubá. Atualmente, é consultor executivo em
energia no Instituto de Pesquisas Eldorado, em Campinas
geração distribuída e as tecnologias de TI e Telecom associadas (SP). Sua atuação é voltada para áreas de qualidade de
às REIs. Dessa forma, abrem-se alternativas para, a partir da energia elétrica, geração distribuída, eficiência energética
e distribuição.
alta observabilidade do sistema elétrico, mitigar os problemas
associados e dispor de amplo sistema de monitoramento, Paulo F. Ribeiro é engenheiro, pesquisador e professor
controle e gestão da qualidade da energia elétrica. de engenharia com experiência nos Estados Unidos, Europa
e Brasil, nas áreas de eletrônica de potência, qualidade
de energia, redes inteligentes e processamento de sinais
Referências bibliográficas em sistemas de potência. Atualmente, é professor na
• BREUER, W. et al. Prospects of smart grid technologies for a sustainable and secure Universidade de Eindhoven na Holanda e registrado com
power supply. 20th World Energy Congress, Rome, Italy, nov. 2007. Engenheiro Profissional (PE) no estado de Iowa, USA.
• AMIM, S. M.; WOLLEMBER, B. F. Toward a smart grid: power delivery for the 21st É membro do IEEE e do IET.
century. IEEE Power and Energy Magazine, v. 3, Issue 5, p. 34-41, set.-out. 2005. Continua na próxima edição
Confira todos os artigos deste fascículo em www.osetoreletrico.com.br
• INTERNATIONAL ENERGY AGENCY. Technology roadmap – smart grid, 2011.
Dúvidas, sugestões e comentários podem ser encaminhados para o e-mail
• MINISTÉRIO DE MINAS E ENERGIA. Smart grid. Relatório do Grupo de Trabalho de redacao@atitudeeditorial.com.br
Apoio
42
Qualidade de energia

Capítulo XI

Transitórios
Por Gilson Paulillo, Mateus Duarte Teixeira e Ivandro Bacca*

O termo transitório tem sido aplicado à análise da tensão e/ou corrente, sendo unidirecional na sua
das variações do sistema de energia para denotar um polaridade (primeiramente positivo ou negativo).
evento que é momentâneo e indesejável. De outra Em razão da alta frequência, os transitórios
forma, entende-se por transitórios eletromagnéticos impulsivos são amortecidos rapidamente devido à
as manifestações ou respostas elétricas locais ou resistência dos componentes do sistema. Geralmente,
nas adjacências, oriundas de alterações súbitas nas não são conduzidos para muito longe do ponto
condições operacionais de um sistema de energia onde foram gerados. Estes transitórios podem excitar
elétrica. ressonâncias naturais do sistema elétrico e provocar
Os sistemas elétricos estão sujeitos a inúmeros outros tipos de transitórios, como os transitórios
fenômenos transitórios, variando desde as oscilações oscilatórios.
eletromecânicas (baixas frequências) até as rápidas Normalmente são causados por descargas
variações de tensões e correntes causadas por atmosféricas com frequências bastante diferentes
chaveamentos ou mudanças bruscas de estado. daquela da rede elétrica. A Figura 1 ilustra a aplicação
Geralmente, a duração de um transitório é de uma descarga atmosférica na fase A de um
muito pequena, mas de grande importância, uma determinado sistema elétrico.
vez que os equipamentos presentes nos sistemas A Figura 2 apresenta a forma de onda da corrente da
elétricos estarão submetidos a grandes solicitações descarga atmosférica aplicada ao sistema em análise.
de tensão e/ou corrente. Como resposta do sistema à aplicação dessa descarga,
Os fenômenos transitórios podem ser classificados a Figura 3 apresenta as formas de onda das tensões
em dois grupos, os chamados transitórios impulsivos e fase-fase no receptor. Pode-se observar que a aplicação
os transitórios oscilatórios. de um transitório impulsivo, isto é, uma descarga
atmosférica, ocasionou transitórios oscilatórios.
Transitórios impulsivos Os transitórios impulsivos são normalmente
Um transitório impulsivo é uma súbita alteração caracterizados pelo seu tempo de aumento e
não desejável no sistema, que se encontra em condição decaimento, os quais podem ser revelados pelo
de regime permanente, refletido nas formas de ondas conteúdo espectral do sinal em análise. Como exemplo,

Figura 1 – Aplicação de uma descarga atmosférica em um determinado sistema elétrico.


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43

um transitório impulsivo 1,2 μs x 50 μs com 2.000 V nominalmente as descargas atmosféricas é por meio de um condutor fase, no
aumenta de zero até seu valor de pico de 2.000 V em 1,2 μs e decai primário ou no secundário, causando altas sobretensões no
a um valor médio do seu pico em 50 μs. sistema. Uma descarga diretamente na fase geralmente causa
Como anteriormente citado, a causa mais comum de transitórios flashover na linha próxima ao ponto de incidência e pode
impulsivos são as descargas atmosféricas. Devido à alta frequência gerar não somente um transitório impulsivo, mas também
do sinal resultante, a forma dos transitórios impulsivos pode ser uma falta acompanhada de afundamentos de curta duração e
alterada rapidamente pelos componentes do circuito e apresentar interrupções. Altas sobretensões transitórias podem também ser
características significantes quando observadas de diferentes partes geradas por descargas que fluem ao longo do condutor terra.
do sistema de energia. Existem numerosos caminhos através dos quais as correntes de
Em sistemas de distribuição, o caminho mais provável para descarga podem fluir pelo sistema de aterramento, tais como

Figura 2 – Corrente proveniente da descarga atmosférica. Figura 3 – Tensão fase-fase no receptor do sistema analisado.
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44

o terra do primário, o terra do secundário e as estruturas do


Qualidade de energia
composto por uma concessionária e um banco de capacitores.
sistema de distribuição. A tensão no barramento e a corrente do banco de capacitores
Os principais problemas de qualidade da energia causados por encontram-se ilustradas nas Figuras 5 e 6, respectivamente.
estas correntes no sistema de aterramento são os seguintes: Considerando o crescente emprego de capacitores pelas
concessionárias para a manutenção dos níveis de tensão, e
• Elevação do potencial do terra local, em relação a outros terras, em pelas indústrias com vistas à correção do fator de potência,
vários kV. Equipamentos eletrônicos sensíveis que são conectados têm-se verificado uma preocupação especial no que se refere à
entre duas referências de terra, tal como um computador conectado possibilidade de se estabelecer uma condição de ressonância,
ao telefone por meio de um modem, podem falhar quando devido às oscilações de altas frequências, entre o sistema da
submetidos aos altos níveis de tensão; concessionária e a indústria, e assim ocorrer uma amplificação das
• Indução de altas tensões nos condutores fase, quando as correntes tensões transitórias, bem superiores às citadas anteriormente, que
passam pelos cabos a caminho do terra. podem atingir níveis de 3 pu a 4 pu.
Um procedimento comum para limitar a magnitude da
Em se tratando de descargas em pontos de extra alta tensão, o tensão transitória é transformar os bancos de capacitores do
surto se propaga ao longo da linha em direção aos seus terminais, consumidor, utilizados para corrigir o fator de potência, em filtros
podendo atingir os equipamentos instalados em subestações de
manobra ou abaixadoras. Entretanto, a onda de tensão, ao percorrer
a linha, desde o ponto de incidência até as subestações abaixadoras
para a tensão de distribuição, tem o seu valor de máximo
consideravelmente atenuado, e assim, consumidores ligados na baixa
tensão não sentirão os efeitos advindos de descargas atmosféricas
ocorridas em nível de transmissão. Contudo, os consumidores
atendidos em tensão de transmissão e supostamente localizados nas
proximidades do ponto de descarga estarão sujeitos a tais efeitos,
podendo ocorrer a danificação de alguns equipamentos de suas
Figura 4 – Energização de um banco de capacitores.
respectivas instalações. Como principais medidas para mitigar os
efeitos desses transitórios destacam-se o uso de filtros, supressores
de surtos (para-raios) e transformadores isoladores.

Transitórios oscilatórios
Também como para o caso anterior, um transitório oscilatório
é uma súbita alteração não desejável da condição de regime
permanente da tensão, corrente ou ambas, em que as mesmas
incluem valores de polaridade positivos ou negativos. É caracterizado
pelo seu conteúdo espectral (frequência predominante), duração e
magnitude da tensão.
Figura 5 – Tensão fase-fase no barramento do de conexão do banco de
Transitórios oscilatórios de baixa frequência capacitores.

Um transitório com uma componente de frequência primária


menor do que 5 kHz, e uma duração de 0,3 ms a 50 ms, é considerado
um transitório oscilatório de baixa frequência. Estes transitórios são
frequentemente encontrados nos sistemas de subtransmissão e de
distribuição das concessionárias e são causados por vários tipos
de eventos. O mais comum provem da energização de bancos
de capacitores, que tipicamente resulta em uma tensão transitória
oscilatória com uma frequência primária entre 300 Hz e 900 Hz.
O pico da magnitude pode alcançar 2,0 pu, mas são tipicamente
1,3 pu a 1,5 pu com uma duração entre 0,5 e 3 ciclos dependendo
do amortecimento do sistema. A Figura 4 apresenta um sistema
Figura 6 – Corrente do banco de capacitores.
Apoio
46

harmônicos. Uma indutância em série com o capacitor reduzirá


Qualidade de energia

a tensão transitória na barra do consumidor a níveis aceitáveis.


No sistema da concessionária, utiliza-se o chaveamento dos
bancos com resistores de pré-inserção. Com a entrada destes
resistores no circuito, o primeiro pico do transitório, o qual causa
maiores prejuízos, é significativamente amortecido.
Transitórios oscilatórios com frequências primárias menores
do que 300 Hz também podem ser encontrados em sistemas de
distribuição. Estes são geralmente associados com a ferroressonância
e a energização de transformadores. Transitórios envolvendo Figura 8 – Tensão sobre o indutor não linear.
capacitores em série podem também ser incluídos nesta categoria.
Estes ocorrem quando o sistema responde pela ressonância com
componentes de baixa frequência na corrente de magnetização do
transformador (segunda e terceira harmônica) ou quando condições
não usuais resultem em ferroressonância. A ferroressonância é um
fenômeno caracterizado por sobretensões formas de ondas irregulares
e está associado com a excitação de uma ou mais indutâncias através
de uma capacitância série [ANSI/IEEE Std 100-1984].
Oscilações de ferroressonância podem aparecer nos TPCs
devido à possibilidade de uma capacitância entrar em ressonância
Figura 9 – Corrente do sistema.
com algum valor particular de indutância dos componentes que
contém núcleo de ferro. Esta situação não é desejável no caso
dos TPCs, uma vez que informações indesejáveis poderiam ser
transferidas aos relés e aos instrumentos de medição.
A Figura 7 ilustra um sistema elétrico onde ocorre o fenômeno
da ferroressonância. Nesse sistema o indutor não linear representa
o equivalente de um transformador e a capacitância em série
representa as capacitâncias do sistema.
Figura 10 – Energização de uma linha de transmissão.
As Figuras 8 e 9 apresentam, respectivamente, a tensão e
corrente obtida nesse sistema.

Transitórios oscilatórios de média frequência


Um transitório com componentes de frequência entre
5 kHz e 500 kHz, com uma duração média de dezenas de
microssegundos (ou vários ciclos da frequência principal), é
referenciado como transitório oscilatório de média frequência.
Estes podem ser causados pelo chaveamento de disjuntores para
a eliminação de faltas e podem também ser o resultado de uma
Figura 11 – Tensão fase-fase no transmissor do sistema.
resposta do sistema a um transitório impulsivo, que também
podem ser causados pela energização de linhas de transmissão.
Transitórios oscilatórios de alta frequência
A Figura 10 apresenta um sistema onde será realizada a
Transitórios oscilatórios com uma componente de frequência
energização de uma linha de transmissão. As tensões fase-fase
maior do que 500 kHz e com uma duração típica medida em
no receptor desse sistema estão ilustradas na Figura 11.
microssegundos (ou vários ciclos da frequência principal) são
considerados transitórios oscilatórios de alta frequência. Estes
transitórios são frequentemente resultados de uma resposta local do
sistema a um transitório impulsivo. Também podem ser causados
por chaveamento de circuitos indutivos.
A desenergização de cargas indutivas pode gerar impulsos de
Figura 7 – Sistema elétrico em que ocorre uma ferroressonância. alta frequência. Apesar de serem de curta duração, estes transitórios
Apoio
47

amplificação deste tipo de transitório não utilizando capacitores em


baixa tensão nas instalações dos consumidores finais. Como forma
de proteção de equipamentos sensíveis dos consumidores seria a
utilização de filtros de linha, bem como o uso de para-raios.
Muitos problemas de transitórios em consumidores envolvem
o sistema de aterramento das instalações elétricas e sua interação
com os sistemas de comunicação, sejam as redes de comunicação
local ou sistemas de proteção de equipamentos e controle de
processos. Na maioria das vezes, os transitórios são drenados pelos
Figura 12 – Desenergização de uma carga indutiva.
equipamentos, como para-raios, varistores, capacitores de surto
etc., para o sistema de aterramento. Tais sobretensões podem gerar
acoplamentos com os sistemas de comunicação, em que mesmo
transitórios de baixa magnitude podem causar má operação ou
falhas de componentes. Para estes casos, devem-se utilizar tipos
especiais de proteção específicos.
Dentre os principais equipamentos de proteção contra
sobretensões transitórias podemos citar:

• Supressores de surto, como varistores, centelhadores, capacitores


de surto, diodos tipo Zener, etc.;
Figura 13 – Tensões fase-fase no barramento da carga indutiva.
• Transformadores isoladores;
• Filtros passa baixa;
• Para-raios (ZnO).

Figura 15 – Equipamentos Supressores de surto: (a) Varistor; (b) Para-


Figura 14 – Corrente do sistema. Raio; (c) Centelhador.

*Gilson Paulillo é engenheiro eletricista, com mestrado


podem interferir na operação de cargas eletrônicas. Filtros de e doutorado em Qualidade de Energia Elétrica pela
Universidade Federal de Itajubá. Atualmente, é consultor
alta-frequência e transformadores isoladores podem ser usados tecnológico em energia no Instituto de Pesquisas
para proteger as cargas contra este tipo de transitório. A Figura 12 Eldorado, em Campinas (SP). Atuação voltada para áreas
de qualidade de energia elétrica, geração distribuída,
apresenta um sistema onde será desenergizado uma carga indutiva. eficiência energética e distribuição.
As Figuras 13 e 14 apresentam, respectivamente, as tensões fase- Mateus Duarte Teixeira é engenheiro industrial e
eletricista, mestre em engenharia elétrica e doutorando
fase no barramento de conexão da carga e a corrente do sistema. na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Atualmente,
é pesquisador do Instituto de Tecnologia para o
Desenvolvimento (Lactec), professor efetivo do curso de
Princípios de proteção contra sobretensões transitórias engenharia elétrica da UFPR e secretário executivo da
Sociedade Brasileira de Qualidade da Energia Elétrica
Os problemas de sobretensão transitória devem ser controlados (SBQEE).
pela fonte geradora, alterando-se as características do sistema afetado Ivandro Bacca é engenheiro eletricista e mestre pela
pelos transitórios ou pela utilização de equipamentos de proteção Universidade Fé engenheiro eletricista e mestre pela
Universidade Federal de Uberlândia (UFU) em Qualidade da
junto à carga. Como exemplo, podemos tomar os transitórios Energia. É engenheiro da Copel Distribuição com atuação
na área de manutenção de equipamentos eletromecânicos.
gerados pelo chaveamento de capacitores nos sistema elétricos das
concessionárias de energia. Estes podem ser controlados na fonte Continua na próxima edição
geradora, realizando o chaveamento no momento da passagem Confira todos os artigos deste fascículo em www.osetoreletrico.com.br
Dúvidas, sugestões e comentários podem ser encaminhados para o e-mail
por zero da onda de tensão. Da mesma forma, pode-se evitar a redacao@atitudeeditorial.com.br
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28
Qualidade de energia

Capítulo XII

Tópicos avançados e desafios


futuros associados à QEE
Por Paulo Ribeiro, Carlos Duque e Gilson Paulillo*

No período compreendido entre 1990 e 2007, Neste contexto, este artigo introduz alguns
o número de contribuições técnicas apresentadas dos desafios futuros na área de QEE até o presente
pelos diversos segmentos da sociedade – academia, momento, o que inclui aspectos relacionados
institutos de pesquisa, indústrias, fabricantes às novas fontes de geração de energia elétrica,
de equipamentos, consultorias e empresas de equipamentos com front end ativos, links HVDC,
engenharia e órgãos governamentais – cresceu a necessidade de métodos de análise automática
quase que linearmente, conforme mostra a Figura de grande volume de dados de medição, dentre
1, sendo que, somente em 2007, mais de 800 outros aspectos. Assim este artigo indica algumas
artigos técnicos foram publicados sobre o tema potenciais direções para o futuro da pesquisa em
Qualidade da Energia Elétrica (QEE). QEE.
Muitas das questões técnicas foram
equacionadas e um relevante progresso tem Diferentes tipos de distúrbios
sido alcançado em alguns temas não totalmente Existem diferentes formas de se definir um
equacionados. Isso mostra que ainda existem problema ou distúrbio associado à QEE. Para tanto,
muitos temas a serem tratados e muita pesquisa deve-se lembrar da definição de QEE: “Qualquer
a ser realizada na área, principalmente com a desvio que possa ocorrer na magnitude, forma
inserção de novas tecnologias em equipamentos e de onda ou frequência da tensão e/ou corrente
suas aplicações em sistemas elétricos de potência. elétrica, que resulte em falha ou operação indevida

Figura 1 – Número de artigos publicados, por ano, com o termo Power Quality no título, resumo ou palavras-chave – Fonte:
Banco de dados INSPEC.
29

de equipamentos elétricos”. Outras definições importantes,


como as normas IEEE 1100 e IEC 61000-1-1, relacionam este
conceito com o nível de compatibilidade e de interferência
entre o funcionamento satisfatório de um equipamento
ou sistema com os distúrbios e interferências intoleráveis
que provocam o seu mau funcionamento. Estes níveis de
interferência referem-se à falha ou danos no equipamento e
que provocam a redução de sua vida útil ou má operação
e limitações nas funcionalidades do equipamento e que
estão diretamente relacionadas à inadequada qualidade da
energia elétrica. Como exemplo, uma variação de tensão de
curta duração – afundamento de tensão – é um distúrbio que
pode ou não resultar em uma interferência na operação de
um equipamento elétrico, bem como provocar ou não uma
parada de produção de um processo continuo ao qual este
mesmo equipamento é utilizado.
Um aspecto importante associado a esta questão são os
estudos relacionados aos impactos econômicos associados à
qualidade da energia elétrica, o qual tem sido objeto de estudos
por diversos grupos de trabalho e de discussão internacionais,
como o JWG CIGRE –CIRED C4.107 – Economic Framewok
for Voltage Quality. Partindo das características técnicas
intrínsecas a cada um dos fenômenos associados à QEE, o
trabalho avalia o impacto econômico sob o ponto de vista
dos diversos agentes e propõe uma metodologia de avaliação
econômica para ponderar os custos para a indústria e as
concessionárias associadas a um fenômeno de QEE não
mitigado, bem como dos custos para a prevenção e mitigação
deste mesmo fenômeno.
O entendimento das diferentes tipos de distúrbios de QEE
é fundamental para proporcionar um bom entendimento
dos impactos associados, o que tem sido objeto de diversas
normas e recomendações relacionadas ao tema QEE. Contudo,
pesquisas devem ser contínuas no sentido de ampliar o
entendimento de cada um dos diversos fenômenos e seus
diversos aspectos e aprimorar estas referências normativas.
Podem ser considerados os seguintes exemplos:

• Normas relacionadas a harmônicos cobrem uma faixa


de frequência típica de 2 kHz a 2.4 kHz. Contudo, existem
estudos que apontam que esta faixa deve ser ampliada para
avaliar o impacto de harmônicos de ordens elevadas;
• A distorção de forma de onda é quantificada por de um
espectro que envolve uma janela de até 200 ms, o que não deve
limitar novas pesquisas no sentido de desenvolver e ampliar
métodos alternativos com elevadas resolução de tempo, o que
será muito útil no estudos de interharmônicos individuais, o
que seguramente é um objeto de estudos avançados;
• A quantificação da cintilação luminosa deve considerar as
Apoio
30

novas tecnologias de iluminação e os novos tipos de lâmpadas, Variações na magnitude de tensão


Qualidade de energia

o que indica a necessidade de novos conceitos associados a As variações na magnitude da tensão em redes de
essa quantificação. distribuição têm impacto significativo na geração distribuição.
A injeção de potência ativa resultará em sobretensões
Um exemplo de como este aprimoramento deve ser consideradas aceitáveis, conforme mostra a Figura 2. Nesta,
contínuo pode ser tomado a partir do risco de sobrecarga a introdução da geração em um alimentador de distribuição
de um transformador de distribuição, o qual é impactado eleva o nível de tensão. Por sua vez, isso demanda a adoção de
pelas potências ativa e reativa, pela corrente desequilibrada um controle de tensão mais complexo na rede de distribuição
e seu conteúdo harmônico, pelos transitórios de chaveamento devido ao inesperado impacto que estas sobretensões podem
das cargas, dentre outros aspectos. O desafio, neste caso, acarretar nos equipamentos.
é combinar todos os tipos de distúrbios de uma forma que Além disso, a geração distribuída pode ocasionar
resulte em indicadores que estimem a perda de vida ou o risco transitórios, aumento do nível de curto-circuito e demandará
de sobrecarga devido às características da corrente de carga. ajustes na proteção do circuito. Para evitar transtornos,
devem-se equilibrar os limites de sobretensões e demais
Novos tipos de geração parâmetros de desempenho com os riscos nos inerentes nas
A penetração de novas fontes de geração nos sistemas de cargas. Isso inclui considerar os equipamentos de baixa tensão
distribuição e transmissão é uma realidade nos dias atuais utilizados em residências e no comércio em geral, tais como
no Brasil e em diversas partes do mundo. As vantagens e TVs, computadores, lâmpadas e refrigeradores, etc., os quais
desvantagens associadas a estes desenvolvimentos têm sido muitas vezes não são considerados nos estudos associados à
apontadas e discutidas em diversos fóruns de discussão. QEE.
Todavia, existem muitos desafios associados a este Outro aspecto importante trata das variações na magnitude
desenvolvimento no âmbito da QEE. da tensão ao longo do tempo, que podem ocorrer desde
um segundo a 10 minutos ou varações ainda maiores. Isso
Indicadores de desempenho ocorre em fontes de geração que sofrem influência climática,
Um dos primeiros desafios está associado à conexão da como a geração solar e a fotovoltaica. Nestes casos, o desafio
geração em baixa e média tensão, o que tem muita similaridade consiste em desenvolver modelos estocásticos da potência a
com as conexões utilizadas em plantas industriais. Isso implica ser gerada, incluindo a correlação com diferentes escalas de
que o nível de QEE no ponto de conexão deve ser adequado tempo e entre os geradores instalados em diferentes locais.
para a conexão da geração distribuída.
O termo "capacidade de hospedagem" recentemente Emissões harmônicas e ressonâncias
desenvolvido no âmbito de um projeto de investigação A emissão de harmônicos devido à integração de fontes
europeu combina indicadores de desempenho adequados renováveis depende da interface com a rede. Quando máquinas
com um limite de suprimento que resulta em desempenho rotativas (indução ou síncronas) são utilizadas, o nível de
aceitável do sistema. O principal desafio é definir este conjunto emissão é geralmente pequeno. Essa situação se modifica
de indicadores e limites que cobrem todas os parâmetros quando são utilizadas interfaces baseadas em eletrônica de
elétricos de qualidade do suprimento de energia. potência. Como exemplo, alguns conversores de baixo custo

Figura 2 – Perfil de tensão de um sistema de distribuição com geração distribuída (GD).


Apoio
32

utilizados na conexão de painéis solares injetam um elevado


Qualidade de energia
desenvolvimento de métodos similares para análise de dados
nível de harmônicos de baixa ordem na rede elétrica. de transitório de tensão e corrente. Esta situação é mostrada
Ademais, a introdução da GD está associada à introdução na Figura 3.
de capacitâncias à rede. Como exemplos podemos citar os
filtros de interferência eletromagnética de painéis solares,
os capacitores para correção do fator de potência para os
geradores de indução e a rede de conexão de parques eólicos
os sistema de transmissão. Esta capacitância adicional pode
adicionar frequências de ressonância e alterar as ressonâncias
dominantes em baixa frequência. Em redes de baixa tensão,
frequências de ressonância abaixo do 10º harmônico não
são comuns, porém, análises devem ser conduzidas para
eliminar qualquer dúvida. No caso de redes de transmissão,
frequências de ressonância de baixa ordem podem ocorrer no
futuro. Como exemplo, uma frequência de ressonância de 140
kHz foi encontrada na conexão de um parque eólico marítimo
a uma rede de 150 kV.
Vale destacar que as principais emissões devido às novas
Figura 3 – Exemplo de segmentação de evento aplicado a uma forma de
fontes de geração ocorrerão em frequência acima das quais
onda de tensão.
são normalmente consideradas, tendo como origem, por
exemplo, os conversores baseados em eletrônica de potência Neste exemplo, a segmentação resultou em um intervalo
usados em turbinas eólicas, painéis solares e microturbinas, de tempo de 4.8 a 25 ciclos, consistindo de quatro
que utilizam elementos de chaveamento como transistores, “segmentos de transição” (marcados em amarelo) e três
IGBTs e GTOs. “segmentos de eventos” entre cada um dos segmentos de
transição. Nestes casos, o segmento anterior ao primeiro
Análise automática de registros de distúrbios segmento de transição (segmento “pré-evento”) e o segmento
A disponibilização de um grande volume de dados de posterior ao último segmento de transição (segmento “pós-
medições torna impossível que a análise e a manipulação dos evento”) são relacionados aos estados normais.
mesmos ocorra de forma manual. Logo, métodos que possam Este método resulta em diversas características associadas à
automatizar e extrair informações úteis e necessárias para QEE e é apenas um primeiro passo para uma análise automática
a análise de distúrbios e ocorrências associadas à QEE são de um grande volume de dados associados a afundamentos
necessárias para a gestão e a definição de soluções. de tensão e interrupções. Os próximos passos incluem a
Um primeiro nível de extração da informação já está associação de métodos automáticos de classificação, os quais
disponibilizado e implantado na maioria dos monitores de podem ser um sistema especialista, uma rede neural ou um
QEE disponíveis no mercado. Estes tratam da classificação método de processamento avançado de sinais, juntamente
do evento (transitório, afundamento de tensão, interrupção, com a aplicação de métodos estatísticos.
etc.) e do cálculo das características padrão intrínsecas a cada
evento associado (magnitude, duração, etc.) e suas variações Distúrbios de alta frequência
(THD, rms, etc.). A introdução de equipamentos com front end ativos resulta
Além disso, devem-se aprofundar estudos de forma a na injeção de novos componentes de frequência no sistema
proporcionar a extração automática de informação associada elétrico. Um exemplo é mostrado na Figura 4, em que a parte
a um grande volume de dados. Como exemplo, a definição superior mostra a corrente medida nos terminais de uma
e a extração automática de características pode proporcionar lâmpada fluorescente compacta. A forma de onda é senoidal
informações adicionais sobre a origem dos eventos. O e a distorção harmônica é claramente inferior em comparação
método de segmentação introduzido em “Expert system com os tipos mais comuns desta lâmpada. Apesar da ausência
for classification and analysis of power system events” (ver de harmônicos de baixa ordem (3, 5 e 7), esta carga apresenta
referências) mostrou ser uma base adequada para a análise distorções em frequências de alta ordem, conforme mostra a
automática de interrupções e afundamentos de tensão. Embora parte inferior da Figura 4. Neste, observam-se oscilações em
o método possa ser aprimorado, um grande desafio futuro é o alta frequência e com diversas amplitudes.
Apoio
33

mas outros métodos de processamento de sinais avançados


podem ser aplicados para extrair mais informação.

Figura 4 – Medições de corrente em uma lâmpada fluorescente compacta.

A fim de descrever os níveis de emissão destes equipamentos


e estudar o impacto de sua disseminação no sistema elétrico Figura 5 – Espectograma da corrente de uma lâmpada fluorescente
compacta.
é fundamental a adoção de novas ferramentas de análise. O
espectograma, desenvolvido para analisar estes sinais, têm se Vale destacar que outros equipamentos provocam emissões
mostrado uma ferramenta útil. Um exemplo de espectograma nestas faixas de frequência, tais como turbinas eólicas,
é mostrado na Figura 5, resultante da aplicação de um filtro painéis solares, microturbinas, conversores de fonte de tensão
passa alta sobre uma janela de 20 ms. Este espectograma foi para HVDC e outros dispositivos FACTS. O crescimento da
resultante da utilização da transformada discreta de Fourier, penetração deste tipo de equipamento no sistema elétrico
Apoio
34

demandará novos estudos para avaliar estas emissões em


Qualidade de energia

frequências superiores a 2 kHz.

Harmônicos variantes no tempo


O conceito associado a harmônicos os associa a condições
periódicas e de regime permanente. A técnica mais comum
para análise harmônica aplica a Transformada Rápida de
Fourier (FFT), em geral implementada computacionalmente
de forma eficaz por meio da Transformada Discreta de
Fourier (DFT). Este algoritmo apresenta resultados satisfatórios
nas seguintes condições: sinal estacionário; frequência de
amostragem duas vezes maior que a frequência do sinal;
número de períodos de amostragem inteiros; e a forma de
onda não contém frequências que não sejam múltiplas inteiras
da frequência fundamental.
Caso as condições mencionadas sejam atendidas, a FFT Figura 6 – Corrente de inrush – Fase A.

fornece resultados com boa exatidão, sendo, neste caso,


necessária apenas uma amostragem do sinal. Por outro
lado, caso estejam presentes interharmônicos, múltiplos
períodos devem ser amostrados a fim de se obter magnitudes
harmônicas precisas.
No entanto, em condições reais, os níveis de distorção de
tensão e corrente, bem como suas componentes fundamentais,
estão constantemente variando no tempo. As variações no
tempo dos harmônicos individuais são, nesse caso, analisadas
por meio das transformações de Fourier de curto período (em
janelas de tempo) e cada espectro harmônico corresponde a
cada janela de tempo aplicada em um sinal contínuo. Mas,
devidos aos existentes em cada menor janela de tempo
possível, diferentes tamanhos de janela resultam em diferentes
espectros harmônicos e a seleção da menor janela de tempo
mais adequada é uma questão complexa que ainda carece de
Figura 7 – Decomposição da corrente de inrush.
discussões e consenso.
Muitas abordagens vêm sendo propostas nos últimos Processamento de sinais e qualidade da energia
anos para equacionar esta questão e melhorar a exatidão das Conforme mencionado anteriormente, os requisitos de
magnitudes dos harmônicos em condições variáveis no tempo. análise de desempenho da rede elétrica no tocante aos
Isso incluem os analisadores baseados em filtros de Kalman, aspectos relacionados à QEE são viabilizados pela utilização
filtros adaptativos e PLL, uma combinação usando redes de métodos e técnicas de processamento de sinais,
neurais adaptativas e uma abordagem por decomposição de especialmente o processamento de grande quantidade de
bancos de filtragem. Cada um dos métodos possuem vantagens dados gerada por meio das redes elétricas inteligentes, ao
e desvantagens e a busca pelo melhor método continua qual deverão ser aplicadas técnicas de processamento de
com uma das mais ativas e promissoras áreas no âmbito do dados em larga escala (Big Data). Estas serão utilizadas para
processamento de sinais. Como ilustração, considere uma explorar todas as condições proporcionadas pela complexa
corrente de energização típica de um transformador, mostrada interação entre as fontes de suprimento, consumidores e
na Figura 6. A Figura 7 apresenta a decomposição harmônica operadores das redes. Neste ambiente de interação entre
variando no tempo de alguns harmônicos utilizando um múltiplos agentes, os sinais resultantes são complexos e
método de composição por bancos de filtros. Este método de devem ser monitorados e processados a fim de se determinar
analise pode levar ao desenvolvimento de uma nova filosofia o estado e os desenvolvimentos dos dispositivos e sistemas,
para proteção e controle de redes elétricas. conforme mostra a Figura 8.
Apoio
36

Figura 8 – Sinais, tecnologias e interações da REI e a qualidade da energia elétrica.

Figura 9 – Conceito básico dos sinais e parâmetros que podem ser processados e derivados para a QEE no âmbito das REIs.
Apoio
37

Por meio da medição e da análise dos sinais em • WIECHOWSKi, W.; BØRRE ERIKSEN, P. Selected Studies
diferentes pontos, o estado da rede pode ser avaliado. Este on Offshore Wind Farm Cable Connections – Challenges and
conceito é mostrado na Figura 9, que mostra como os sinais Experience of the Danish TSO. IEEE PES General Meeting,
e os parâmetros de avaliação podem ser processados em Pittsburgh, jul. 2008.
etapas sucessivas. O resultado proporcionará ao engenheiro • STYVAKTAKIS, E.; BOLLEN, M. H. J.; GU, I. Y. H. Expert
system for classification and analysis of power system events.
visualizar a natureza das condições variantes no tempo das
IEEE Transactions on Power Delivery, v. 17, n. 2, abr. 2002,
REIs no tocante aos diferentes aspectos da QEE.
p. 423-428.
• BOLLEN, M. H. J.; GU, I. Y. H., SANTOSO, S.;
Conclusões MCGRANAGHAN, M. F.; CROSSLEY, P. A.; RIBEIRO, P. F.
Este trabalho apresentou as principais tendências e desafios Bridging the gap between signal and power – state of the art
em termos de áreas de interesse e de pesquisa na área de and remaining challenges for signal-processing applications to
QEE para os próximos anos. Devido ao impacto técnico e power system quality. IEEE Signal Processing Magazine, in print.
econômico associado, a área de QEE continuará sendo foco de • DJOKIĆ, S. Ž.; BOLLEN, M. H. J. Dip Segmentation Method.
grande interesse por parte de todos os agentes do setor elétrico IEEE Int Conf on Harmonics and Quality of Power (ICHQP),
– concessionárias, consumidores, fabricantes de equipamentos Wollongong, Australia, set. 2008.
e órgãos reguladores. Para tanto, contribui fortemente a • LARSSON, A. High frequency distortion in power grids due
proliferação de novas fontes de energia na rede, estimulada to electronic equipment. Licentiate thesis, Luleå University of
pelo crescimento da geração distribuída, a intensificação Technology, Luleå, Sweden, 2006.
• LARSSON, E. O. A.; LUNDMARK, C. M.; BOLLEN, M. H.
do uso da eletrônica de potência em conjunto com novas
J. Distortion of Fluorescent Lamps in the Frequency Range
tecnologias, principalmente as abordagens que demandam
2-150 kHz. IEEE Int Conf on Harmonics and Quality of Power
grande frequência de chaveamento, a adoção de dispositivos
(ICHQP). Cascais, Portugal, out. 2006.
FACTS, os novos investimentos em HVDC, a ampliação dos
• RÖNNBERG, S.; WAHLBERG, M.; BOLLEN, M. H. J.;
investimentos em redes elétricas inteligentes, dentre outros LARSSON, A.; LUNDMARK, M. Measurements of interaction
aspectos. Este contexto caracteriza um ambiente complexo between equipment in the frequency range 9 to 95 kHz. IEEE
para as redes de transmissão e distribuição e proporciona novos Int. Conf. on Electricity Distribution, Prague, jun. 2009.
desafios para estudos e pesquisas no contexto da Qualidade da • GU, I. Y. H.; GU, BOLLEN, M. H. J. Estimating interharmonics
Energia Elétrica. by using sliding-window esprit. IEEE Transactions on Power
Delivery, v. 23, n. 1, jan. 2008.
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• BOLLEN, M. H. J.; GU, I. Y. H. Signal processing of power- and determination of load composition using a least square
quality disturbances. Wiley – IEEE Press, 2006. method. Electric Power Systems Research, v. 37,
• ARRILLAGA, J., Watson, N. R. Power system harmonics. Wiley. p. 203-208, 1996.
2nd Edition. Chichester, 2003.
• PAULILLO, G. et. al. Conceitos associados a QEE. Revista O *Gilson Paulillo é engenheiro eletricista, com mestrado
e doutorado em qualidade de energia elétrica pela
Setor Elétrico, jan. 2013. universidade Federal de Itajubá. Atualmente, é consultor
• Economic Framework for Power Quality, CIGRE Technical executivo em energia no Instituto de Pesquisas Eldorado,
em Campinas (SP). Sua atuação é voltada para áreas de
Brochure JWG CIGRE-CIRED C4.107, 2011. qualidade de energia elétrica, geração distribuída,
• BOLLEN, M. H. J.; RIBEIRO, P. F.; LARSSON, E. O. A.; eficiência energética e distribuição.

LUNDMARK, C. M. Limits for voltage distortion in the frequency Paulo F. Ribeiro é engenheiro, pesquisador e professor
de engenharia com experiência nos Estados Unidos, Europa
range 2-9 kHz”. IEEE Transactions on Power Delivery, v. 23, n. 3, e Brasil, nas áreas de eletrônica de potência, qualidade
July 2008, p. 1.481-1.487. de energia, redes inteligentes e processamento de sinais
em sistemas de potência. Atualmente, é professor na
• GU, I. Y. H.; BOLLEN, M. H. J. Estimating interharmonics Universidade de Eindhoven na Holanda e registrado com
Engenheiro Profissional (PE) no estado de Iowa, USA. É
by using sliding-window esprit. IEEE Transactions on Power membro do IEEE e do IET.
Delivery, v. 23, n. 1, jan. 2008.
Carlos A. Duque possui graduação pela Universidade
• RONG, C. et al. New flicker weighting curves for different lamp Federal de Juiz de Fora (1986), mestrado e doutorado em
types based on the lamp light spectrum. Int Conf Harmonics Engenharia Elétrica pela Pontifícia Universidade Católica
do Rio de Janeiro e Pós-doutorado pela Florida State
and Quality of Power (ICHQP), set. 2008. University, FL – USA. Atualmente é Professor Associado
da Universidade Federal de Juiz de Fora.
• BOLLEN, M. H. J.; YANG, Y.; HASSAN, F. Integration of
distributed generation in the power system – a power quality Fim
approach. IEEE Int Conf on Harmonics and Quality of Power Acesse todos os capítulos deste fascículo em
www.osetoreletrico.com.br.
(ICHQP). Wollongong, Australia, set. 2008.