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UFRB

Copyright © 2009 by Universidade Federal do Rio de Janeiro / Pró-Reitoria de Extensão.


O conteúdo dos textos desta publicação é de inteira responsabilidade de seus autores.

Coordenação da Coleção: Jailson de Souza e Silva


Jorge Luiz Barbosa
Ana Inês Sousa

Organização da Coleção: Monique Batista Carvalho


Francisco Marcelo da Silva
Dalcio Marinho Gonçalves
Aline Pacheco Santana

Programação Visual: Núcleo de Produção Editoria da Extensão – PR-5/UFRJ

Coordenação: Claudio Bastos


Anna Paula Felix Iannini
Thiago Maioli Azevedo

C183

Caminhadas de universitários de origem popular : UFRB / organizado por Ana Inês Souza,
Jorge Luiz Barbosa, Jailson de Souza e Silva. — Rio de Janeiro : Universidade Federal
do Rio de Janeiro, Pró-Reitoria de Extensão, 2009.
100 p. ; il. ; 24 cm. — (Coleção caminhadas de universitários de origem popular)

Ao alto do título: Ministério da Educação. Secretaria de Educação Continuada,


Alfabetização e Diversidade. Programa Conexões de Saberes : Diálogos entre a Universidade e
as Comunidades Populares.
Parceria: Observatório de Favelas do Rio de Janeiro.
ISBN: 978-85-89669-39-9

1. Estudantes universitários — Programas de desenvolvimento — Brasil. 2. Integração


universitária — Brasil. 3. Extensão universitária. 4. Comunidade e universidade — Brasil. I.
Souza, Ana Inês, org. II. Barbosa, Jorge Luiz, org. III. Silva, Jailson de Souza e, org. VI.
Programa Conexões de Saberes : Diálogos entre a Universidade e as Comunidades Populares.
V. Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. VI. Universidade Federal do Rio de Janeiro. VII.
Observatório de Favelas do Rio de Janeiro.

CDD: 378.81
Ministério da Educação
Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade
Programa Conexões de Saberes: diálogos entre a universidade e as comunidades populares

Organizadores
Jailson de Souza e Silva
Jorge Luiz Barbosa
Ana Inês Sousa

UFRB

Pró-Reitoria de Extensão - UFRJ

Rio de Janeiro - 2009


Coleção

Autores
Presidente da República Adriano Guedes de Souza
Luiz Inácio Lula da Silva
Alessandra Régis do Rosário
Anderson dos Santos da Silva
Ministério da Educação André Bruno Santos da Anunciação
Fernando Haddad
Ministro Bruna Maria Santos de Oliveira
Daniela de Souza Sales
Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Daniela da Silva Santos
Diversidade – SECAD Daniela de Melo Oliveira
André Luiz de Figueiredo Lázaro
Secretário Deraci Souza dos Santos
Edilon de Freitas dos Santos
Diretoria de Educação para a Diversidade - DEDI
Edimilson Pereira dos Santos da Silva
Armênio Bello Schmidt
Ednólia Oliveira dos Santos
Coordenação Geral de Diversidade – CGD Eliana Souza dos Santos
Leonor Franco de Araújo
Emanuel Silva Andrade
Érica Paixão da Silva
Evanilda dos Santos
Esmeralcy Almeida Santos
Programa Conexões de Saberes: Fabiana Aguiar Fonseca
diálogos entre a universidade e
as comunidades populares Geoston Caetanos Castro Oliveira
Jorge Luiz Barbosa Gerlan Cardoso Sampaio
Jailson de Souza e Silva Iranildes Sales Bispo
Coordenação Geral
Jailton Almeida dos Santos Barbosa
Jeovana Ribeiro de Jesus do Nascimento
Cláudio Orlando Costa do Nascimento
Coordenação Geral do Programa Conexões de Saberes/UFRB Joana Angelina dos Santos Silva
Jordana da Silva Chaves
Rita de Cássia Nascimento Leite
Eduardo David de Oliveira José dos Santos
Djenane Brasil da Conceição José Raimundo dos Santos
Priscila Carvalho Leão Joselita de Jesus Bomfim
Sivanildo da Silva Borges
Coordenação Adjunta Juliana de Jesus Santos
Leila Pereira da Cruz
Lucas Dias Reis
Maria Joseni Borges de Souza
Maria Gilcilene Maciel Rocha
Paulo Gabriel Soledade Nacif Marly Silveira
Reitor
Meire Aparecida de Souza Fiuza
Naiara Fonseca de Souza
Silvio Luiz de Oliveira Sóglia
Vice-Reitor
Núbia Oliveira
Palmira Magaly Passos Gusmão
Rita de Cássia Dias Pereira de Jesus Queilane Salvador Santos
Pró-Reitora de Políticas Afirmativas e Assuntos Estudantis Rosiane do Carmo Teixeira
Rosiane Rodrigues da Silva
Robenilson Ferreira dos Santos
Silmary Silva dos Santos
Simone Santana da Cruz
Solange Conceição Silva
Tatiane Santos de Brito
Toniel Costa do Carmo Santos
Vanessa Morais Paixão
Uirlon Sábigo Alves Cardoso
Prefácio

A sociedade brasileira tem como seu maior desafio a construção de ações que permi-
tam, sem abrir mão da democracia, o enfrentamento da secular desigualdade social e econô-
mica que caracteriza o país. E, para isso, a educação é um elemento fundamental.
A possibilidade da educação contribuir de forma sistemática para esse processo impli-
ca uma educação de qualidade para todos, portanto, uma educação que necessita ser efeti-
vamente democratizada, em todos os níveis de ensino, e orientada, de forma continua, pela
melhoria de sua qualidade. No atual governo, o Ministério da Educação persegue de forma
intensa e sistemática esses objetivos.
Conexões de Saberes é um dos programas do MEC que expressa de forma nítida a luta
contra a desigualdade, em particular no âmbito educacional. O Programa procura, por um
lado, estreitar os vínculos entre as instituições acadêmicas e as comunidades populares e,
por outro lado, melhorar as condições objetivas que contribuem para os estudantes univer-
sitários de origem popular permanecerem e concluírem com êxito a graduação e pós-gradu-
ação nas universidades públicas.
Criado pelo MEC em dezembro de 2004, o Programa é desenvolvido a partir da
Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (SECAD-MEC) e repre-
senta a evolução e expansão, para o cenário nacional, de uma iniciativa elaborada, na
cidade do Rio de Janeiro no ano de 2002, pela Organização da Sociedade Civil de Interesse
Público Observatório de Favelas do Rio de Janeiro. Na ocasião constitui-se uma Rede de
Universitários de Espaços Populares com núcleos de formação e produção de conhecimen-
to em várias comunidades populares da cidade. O Programa Conexões de Saberes criou,
inicialmente, uma rede de estudantes de graduação em cinco universidades federais, distri-
buídas pelo país: UFF, UFMG, UFPA, UFPE e UFRJ. A partir de maio de 2005, ampliamos
o Programa para mais nove universidades federais: UFAM, UFBA, UFC, UFES, UFMS,
UFPB, UFPR, UFRGS e UnB. Em 2006, o Ministério da Educação assegurou, em todos os
estados do país, 33 universidades federais integrantes do Programa, sendo incluídas: UFAC,
UFAL, UFG, UFMA, UFMT, UFPI, UFRN, UFRR, UFRPE, UFRRJ, UFS, UFSC, UFSCar,
UFT, UNIFAP, UNIR, UNIRIO, UNIVASF e UFRB.
Através do Programa Conexões de Saberes, essas universidades passam a ter, cada uma,
ao menos 251 universitários que participam de um processo contínuo de qualificação como
pesquisadores; construindo diagnósticos em suas instituições sobre as condições pedagógi-
cas dos estudantes de origem popular e desenvolvendo diagnósticos e ações sociais em
comunidades populares. Dessa forma, busca-se a formulação de proposições e realização de

1
A partir da liberação dos recursos 2007/2008 cada universidade federal passou a ter, cada uma, ao
menos 35 bolsistas.
práticas voltadas para a melhoria das condições de permanência dos estudantes de origem
popular na universidade pública e, também, aproximar os setores populares da instituição,
ampliando as possibilidades de encontro dos saberes destas duas instâncias sociais.
Nesse sentido, o livro que tem nas mãos, caro(a) leitor(a), é um marco dos objetivos do
Programa: a coleção “Caminhadas” chega a 33 livros publicados, com o lançamento das 19
publicações em 2009, reunindo as contribuições das universidades integrantes do Cone-
xões de Saberes em 2006. Com essas publicações, busca-se conceder voz a esses estudantes
e ampliar sua visibilidade nas universidades públicas e em outros espaços sociais. Esses
livros trazem os relatos sobre as alegrias e lutas de centenas de jovens, rapazes e moças, que
contrariaram a forte estrutura desigual que ainda impede o pleno acesso dos estudantes das
camadas mais desfavorecidas às universidades de excelência do país ou só o permite para os
cursos com menor prestígio social.
Que este livro contribua para sensibilizar, fazer pensar e estimular a luta pela constru-
ção de uma universidade pública efetivamente democrática, um sociedade brasileira mais
justa e uma humanidade cada dia mais plena.

Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade


Ministério da Educação
Observatório de Favelas do Rio de Janeiro
Sumário

Apresentação ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○
09
Rita de Cássia Dias, Cláudio Orlando Costa do Nascimento
Eduardo Oliveira, Djenane Brasil da Conceição e Priscila Leão

Texto autobiográfico
Adriano Guedes de Souza ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○
13
Autobiografia
Alessandra Régis do Rosário ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○
15
Em busca de um sonho
Anderson dos Santos da Silva ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○
18
Memorial
André Bruno Santos da Anunciação ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○
21
Meus relatos
Bruna Maria Santos de Oliveira ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○
24
Caminhos cruzados: muitas vidas, uma história
Daniela de Souza Sales, Esmeralcy Almeida Santos,
Gerlan Cardoso Sampaio, Iranildes Sales Bispo,
Jailton Almeida dos Santos Barbosa, Joana Angelina dos Santos Silva,
Juliana de Jesus Santos, Maria Joseni Borges de Souza ,
Naiara Fonseca de Souza, Rosiane do Carmo Teixeira,
Rosiane Rodrigues da Silva, Robenilson Ferreira dos Santos,
Silmary Silva dos Santos, Simone Santana da Cruz,
Tatiane Santos de Brito e Vanessa Morais Paixão ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○
27
“Caminhando contra o vento”
Daniela da Silva Santos ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○
36
Autobiografia
Daniela de Melo Oliveira ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○
38
Memorial
Deraci Souza dos Santos ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 40
Quem sou eu?
Edilon de Freitas dos Santos ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 41
Memorial
Edimilson Pereira dos Santos da Silva ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 45
Em busca dos sonhos
Ednólia Oliveira dos Santos ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 47
Minha trajetória de vida
Eliana Souza dos Santos ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○
50
Trajetória da conquista de um sonho
Emanuel Silva Andrade ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 53
Texto autobiográfico
Érica Paixão da Silva ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 55
Texto autobiográfico
Evanilda dos Santos ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○
56
Vários obstáculos, novas conquistas
Fabiana Aguiar Fonseca ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 58
Texto autobiográfico
Geoston Caetano Castro Oliveira ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 61
Texto autobiográfico
Jeovana Ribeiro de Jesus do Nascimento ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○
64
Autobiografia
Jordana da Silva Chaves ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 67
O impossível aconteceu
José dos Santos ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○
68
Texto autobiográfico
José Raimundo dos Santos ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 70
Autobiografia
Joselita de Jesus Bomfim ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○
72
Verdadeira identidade
Leila Pereira da Cruz ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 73
Texto autobiográfico
Lucas Dias Reis ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 75
Meus passos, minha caminhada
Palmira Magaly Passos Gusmão ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 77
Memorial
Maria Gilcilene Maciel Rocha ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 79
L’Amore
Marly Silveira ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 83
Superação
Meire Aparecida de Souza Fiuza ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 85
Texto autobiográfico
Núbia Oliveira ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○
88
A realizaçao do sonho
Queilane Salvador Santos ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 90
Minha história
Solange Conceição Silva ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○
92
Texto autobiográfico
Toniel Costa do Carmo Santos ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 95
Autobiografia
Uirlon Sábigo Alves Cardoso ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 99
Apresentação
A Universidade Federal do Recôncavo da Bahia - UFRB nasce impregnada de refe-
renciais históricos e culturais da tradição do “Recôncavo Baiano, berço da nação brasileira”.
São saberes e experiências que se caracterizam, fundamentalmente, pelo reconhecimento e
valorização das formas de resistência, reação e afirmação das diferenças e da possibilidade
de coexistência coletiva.
A UFRB, imbuída do propósito de contribuir para a correção das distorções sociais
ainda presentes, compromete-se em propiciar a inclusão social e a igualdade racial, através
de políticas institucionais, é assim que a UFRB torna-se pioneira no âmbito das universida-
des brasileiras, na criação de uma Pró-Reitoria dedicada a implantar políticas de ação
afirmativa associadas aos assuntos estudantis, instituindo a PROPAAE - Pró-Reitoria de
Políticas Afirmativas e Assuntos Estudantis - cuja missão é promover a execução de políti-
cas afirmativas e estudantis, garantindo à comunidade acadêmica condições básicas para o
desenvolvimento de suas potencialidades, visando a inserção cidadã, cooperativa, propo-
sitiva e solidária nos âmbitos cultural, político e econômico da sociedade e o desenvolvi-
mento regional.
A PROPPAE nasce comprometida com a perspectiva multicultural, sintonizada com
a luta dos movimentos sociais, e com as atuais políticas públicas relativas à diminuição
das disparidades sociais e a promoção da igualdade racial e da diversidade, sobretudo,
vincula-se àquelas políticas que impliquem na promoção de práticas relativas à democra-
tização do acesso, permanência e pós-permanência do estudante de origem popular no
ensino superior.
A UFRB/PROPAAE, de forma dialógica e articulada com os vários segmentos contem-
plados pelas políticas institucionais, pôs em prática uma ação de co-responsabilidade e
mutualidade no trato com as demandas da comunidade acadêmica, instituindo o Programa
de Permanência embasado nos princípios da experiência universitária, que integra nas
ações de permanência, práticas de ensino, pesquisa e extensão, fomentadas em torno do
conceito de permanência qualificada.
O Programa de Permanência visa contribuir com a permanência dos estudantes nos
cursos de graduação da UFRB, assegurando formação acadêmica qualificada, através de
aprofundamento teórico, por meio de participação em projetos de extensão, atividades de
iniciação científica vinculadas a projetos de pesquisa e atividades de ensino relacionadas
à sua área de formação e ao desenvolvimento regional. Implementando assim, uma política
de permanência associada à excelência na formação acadêmica.

Conexões de Saberes na UFRB


O Programa Conexões de Saberes: diálogos entre a universidade e as comunidades
populares integra a política institucional da UFRB que vincula de forma inextrincável, a

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 9


formação técnico-científica, ao compromisso social e à promoção do protagonismo dos
cidadãos acadêmicos.
Baseado no plano de ação da PROPAAE-UFRB, de construção e implantação de
políticas de acesso e permanência para estudantes de origem popular, afro-descendentes e
indígenas no ensino superior, a UFRB esteve presente no II Seminário Nacional do Progra-
ma Conexões de Saberes, realizado no período de 1 à 4 de novembro de 2006, no Rio de
Janeiro. Nessa oportunidade, foi possível vivenciar uma conexão nacional, constituída pela
participação dos coordenadores locais e nacionais, dos estudantes bolsistas, das representa-
ções comunitárias e das universidades integrantes do Programa, que contempla todas as
unidades da Federação.
A PROPAAE articulou no Projeto institucional a participação da Pró-Reitoria de
Pesquisa e Ensino de Pós-Graduação - PRPPG e da Pró-Reitoria de Extensão - PROEXT,
instituindo uma coordenação colegiada, e um plano de trabalho que pudesse articular à
política de permanência e de ações afirmativas, às ações de pesquisa e extensão.
Segundo o Reitor Prof. Paulo Gabriel Nacif, a decisão de participarmos do Conexões
de Saberes deveu-se, sobretudo à importância de envolver experiências entre Universida-
de-Comunidade, tendo os jovens de origem popular como protagonistas das ações que
buscam valorizar tradições, saberes e experiências locais.

As caminhadas, experiências e saberes emancipatórios


A escrita autobiográfica foi o nosso ponto de partida para a execução do Projeto.
Consideramos que a escrita e a socialização dos textos sobre as histórias de vida possibili-
tou vários olhares sobre itinerários e itinerâncias realizados pelos estudantes no decorrer de
suas vidas. Esses textos, num primeiro momento, possibilitaram a condição de reconheci-
mento e apropriação dos sentidos correspondentes às caminhadas, ao vivido individual e
coletivamente.
O caminho percorrido, reconhecido, refletido e apropriado pelos sujeitos expressa
suas vivências, experiências e saberes. Em outras palavras, os estudantes ao escreverem
sobre suas histórias, acordaram suas memórias, buscaram compreender as situações
vivenciadas, os contextos, os tempos-lugares de onde cada um fala, produz seus sentidos
consoantes com suas vidas de agora.
Podemos perceber muitas histórias diferentes e em comum, experiências protagonis-
tas, vivências tradicionais, culturais, saberes ancestrais, conhecimentos contextualizados,
encarnados na região do Recôncavo, um Ethos que institui realidades e expressa a prepon-
derância de referenciais pertencentes a etnia negra.

Caminhadas no ensino médio: às rodas de formação


Os textos das histórias de vida, experiências e saberes dos estudantes-conexistas pre-
sentes nesse livro destinam-se à execução do Programa na sua fase de extensão junto às
escolas de ensino médio, numa ação que consiste na realização de atividades de formação
junto aos alunos do 3º. ano do ensino médio nos espaços escolares.
Pretendemos assim, favorecer o diálogo entre os estudantes da UFRB e os estudantes
do ensino médio através das Rodas de Formação para tratarem de temas transversais perti-
nentes à formação cidadã, social, cultural e protagonista dos Jovens.

10 Caminhadas de universitários de origem popular


As Rodas de Formação são constituídas e organizadas pelos estudantes e coordenado-
res do Conexões na UFRB e pelos alunos de escolas públicas de ensino médio da Região do
Recôncavo. As Rodas promovem o debate de temas transversais do currículo dessas esco-
las, a exemplo das ações afirmativas, articulado com as políticas de acesso e permanência
no ensino superior. Essa ação de extensão nas escolas do ensino médio, possibilita aos
estudantes-conexistas uma permanência qualificada, um exercício protagonista implicado
e comprometido com atividades de formação, que resulta em integração, debate, pesquisa e
formação. A metodologia de abordagem coletiva de temas previamente elencados, enfocados
a partir da sistemática de relatos e discussões. As Rodas são compostas por Jovens que se
revezam nas funções de facilitadores, ao apresentarem seus relatos, saberes e experiências a
fim de dinamizar o início das discussões sobre os temas escolhidos para a formação.

Profa. Dra. Rita de Cássia Dias


Pró-Reitora de Políticas Afirmativas e Assuntos Estudantis

Prof. Dr. Cláudio Orlando Costa do Nascimento


Coordenador de Políticas Afirmativas – CPA e do Programa Conexões de Saberes na UFRB

Prof. Dr. Eduardo Oliveira


Centro de Formação de Professores – CFP

Profa. Ms. Djenane Brasil da Conceição


Centro de Ciências da Saúde – CCS

Priscila Leão
Assistente Social UFRB

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 11


Texto autobiográfico
Adriano Guedes de Souza*

Fiz o curso primário em escola pública, onde tive muitas dificuldades para estudar, pois
muitas vezes não tinha material escolar suficiente. Mas com a ajuda de minha mãe, que sempre
me incentivou aos estudos, eu concluí o ensino primário sem nunca ter perdido um ano.
O maior problema em estudar era financeiro, pois o meu pai não me reconheceu como
filho e fui criado somente por minha mãe. Ela, por ser quase analfabeta - concluiu somente
a 4ª série do primário -, tinha dificuldades em conseguir um emprego. Então, ela sempre
trabalhou com bicos: lavadeira, faxineira, venda de produtos de catálogos de revistas. O
dinheiro que entrava servia praticamente só para pagar aluguel e a comida.
Entrei para o ensino fundamental com onze anos de idade. Foi nessa época que minha
mãe começou a vender doces (balas, chicletes etc) e eu passei ajudá-la. Pela manhã ia à
escola e ela ficava na barraca de doces. Durante a tarde, eu ficava na barraca e ela podia fazer
outras coisas, como vender produtos e fazer faxinas. Aos sábados era dia de eu trabalhar na
feira com carrinho-de-mão (carregando compras) e ela ficar o dia inteiro na barraca. O
dinheiro era pouco, mas dava para ajudar na alimentação para a família: minha mãe, eu e
minha irmã Adriana, que ainda era muito pequena.
Concluí o ensino fundamental sem também perder nenhum ano. Nesse intervalo de
tempo, a barraca foi perdendo freguesia, os doces foram acabando e eu fui à procura de outros
trabalhos como engraxate, ajudante de marceneiro e de ajudante de oficina de bicicletas.
Durante o ensino médio, comecei a trabalhar numa oficina de conserto de moto,
recebendo metade do salário mínimo na época, onde além de trabalhar aprendi a profissão.
No período da manhã eu estudava e à tarde trabalhava. Também concluí o ensino médio de
forma regular, sem perder nenhum ano.
Após isso fiquei um ano sem poder estudar, pois passei a trabalhar o dia todo e chega-
va em casa muito tarde (20h) e cansado, mas não podia deixar de trabalhar porque minha
mãe não conseguia mais trabalhar por motivos de saúde (problemas de coluna e nervos) e
também não podia se aposentar por nunca haver trabalhado com carteira assinada. Então,
era praticamente eu que sustentava a casa, e nessa época já não pagávamos mais aluguel,
pois o meu avô havia falecido e deixou um terreno grande na roça, que foi vendido e o
dinheiro dividido entre os filhos. Com esse dinheiro compramos um terreno e com a ajuda
de uma prima da minha mãe, Eneide, e conseguimos construir uma casa.
Nesse período eu passei a me engajar em grupos de jovens da Igreja Católica, onde
desenvolvíamos trabalhos de evangelização.

* Graduando em Engenharia Agronõmica pela UFRB.

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 13


Então achei um emprego melhor, como balconista numa lanchonete, onde recebia
melhor remuneração e com isso podia ajudar mais em casa. Foi nessa mesma época que senti
necessidade de entrar em um cursinho pré-vestibular. Por participar do grupo de jovens da
igreja, consegui, através de um amigo, uma vaga em um cursinho pré-vestibular mantido
pela Igreja Católica, que era gratuito e direcionado para jovens de origem popular. Mesmo
trabalhando, fiz o cursinho à noite e aproveitava as horas vagas no trabalho para estudar.
No final de 2003 me inscrevi para o vestibular da Universidade Federal da Bahia
(UFBA) no campus de Ciências Agrárias, em Cruz das Almas, que posteriormente se torna-
ria a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e fui aprovado. Mas aí surgiu
um novo obstáculo: o curso para o qual fui aprovado (engenharia agrônoma) era em perío-
do integral e isso dificultou as possibilidades de continuar trabalhando, pois eu era o único
funcionário da lanchonete. E, além disso, era eu sozinho quem sustentava a casa. Fiquei
sem saber qual decisão tomar. Foi aí que minha mãe me deu a maior força para optar pelos
estudos. Saí do emprego e entrei na universidade.
Quando entrei na faculdade, uma ex-professora e um amigo me informaram que os
estudantes tinham direito a uma bolsa alimentação, e que era somente para estudantes que
morassem fora da cidade, mas que os que estivessem numa situação muito difícil poderiam
tentar concorrer à bolsa, mesmo morando na cidade. Então tentei, e apesar de tudo, conse-
gui. Com isso, os gastos em casa diminuíram um pouco. Minha mãe passou a fazer outros
bicos e conseguiu também a Bolsa-Família, um auxílio do governo federal de R$ 65,00
mensais. Uma tia, Enilda, passou a assinar a sua carteira de trabalho, para tentar garantir uma
futura aposentadoria.
Apesar de todas essas dificuldades, estou feliz e orgulhoso por cursar agronomia e
apaixonado pelo curso. Mesmo tendo estudado em escola pública, consegui entrar em uma
universidade federal e passei de certa forma a ser uma referência em meu bairro para os
outros jovens, pois assim como eu consegui passar, eles também são capazes de conseguir.
Desde que comecei a estudar na universidade, me empolguei com as informações
relacionadas ao meu curso de agronomia, quando algo dentro de mim me chamou muito a
atenção. Sentia uma vontade muito grande de poder dividir com a sociedade, principal-
mente com os jovens como um todo; tudo aquilo que aprendi e venho aprendendo no meu
curso e na minha luta como estudante pobre, vindo de espaço popular e de origem afro.
Sempre que chegava da universidade os amigos do meu bairro se aproximavam, e me
perguntavam como era a faculdade, como eu havia conseguido entrar, algumas pessoas que
nem falavam comigo antes, me paravam nas ruas me desejando parabéns; eu achava tudo
aquilo tudo o máximo.
Quando estava no 5° semestre do curso fiquei sabendo de um Programa do governo
federal, chamado Conexões de Saberes. Procurei mais informações e, quando soube que a idéia
era trabalhar com questões sociais voltadas para comunidades populares, me interessei muito
pelo Programa. Fiz o processo seletivo, mas veio logo em seguida a decepção, pois não fui
selecionado. Fiquei triste, mas não desanimei, pois pessoas muito queridas haviam passado.
Passado alguns meses, estava em casa à noite, quando um primo veio até minha casa
para dizer que a universidade tinha ligado para ele, dizendo que eu devia comparecer no dia
seguinte na coordenação de assuntos estudantis. Fiquei muito curioso, mas nem me lembra-
va mais do programa do governo, pensei que era por outros motivos. Quando cheguei lá, no
dia seguinte, tive uma grande surpresa: fiquei sabendo que tinha sido escolhido como novo
membro do programa. Esse foi um dos momentos mais emocionantes, depois de ter sido
aprovado no vestibular, em minha caminhada estudantil.

14 Caminhadas de universitários de origem popular


Autobiografia
Alessandra Regis do Rosário*

Sou filha de Antonio Geraldo do Rosário Filho e Maria Lucia Regis do Rosário e
tenho Luana e Anderson como irmãos.
Nasci em 28 de junho de 1980, na cidade de Valença, interior da Bahia, sendo a
primeira filha de uma família de classe média baixa.
Graças ao bom Deus, que ilumina nossa família, nunca passamos por dificuldades,
meu pai sempre manteve a casa, pois era a única pessoa que trabalhava.
Ele nunca teve um emprego fixo, sempre trabalhou para si mesmo como produtor
rural e na alta estação - como minha cidade é costeira - ele também trabalhava com venda de
mariscos num ponto que meu avô cedeu pra ele, no fundo do mercado da cidade, e minha
mãe sempre foi dona de casa.
Meus pais não completaram os estudos, só cursaram até a oitava série do ensino
fundamental, mas sempre lutaram para que eu e meus irmãos fôssemos mais além. Então,
com toda dificuldade e estudando sempre em colégio público, eu e meus irmãos fomos
adiante. Minha irmã, mesmo sendo mais nova que eu, está concluindo a faculdade de
administração pela Universidade Estadual da Bahia (UNEB) e eu agora entrei na Universi-
dade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).

Meu caminho até a universidade


Sempre estudei em escola pública, cursei o ensino fundamental no Complexo Escolar
Gentil Paraíso Martins, na época o único colégio de ensino fundamental da cidade.
Lembro que ia para o colégio sem nenhuma vontade, sem nenhum estímulo, pois a
estrutura docente era precária . Os professores passavam o conhecimento de forma mecânica
e me lembro que chegava muitas vezes a ter medo de alguns deles, nesta época acabei
repetindo a sétima série, atrasando assim minha formação. No ano seguinte consegui passar
para a oitava série e concluí o ensino fundamental.
O meu ensino médio cursei em uma escola técnica - Escola Média de Agropecuária
Regional (EMARC) onde fiz o curso técnico em agropecuária. Na época era considerado
ensino médio, optei por fazer este curso pensando em ajudar meu pai.
Foi uma época mais animadora em minha vida, pois a escola tinha uma estrutura bem
melhor do que a outra, que eu tinha cursado o ensino fundamental.
Porém, no final do curso, vi que não era aquilo que eu queria seguir e fiquei um pouco
desesperada, pois agora a responsabilidade caía um pouco sobre mim. Tinha chegado a

* Graduanda em História pela UFRB.

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 15


hora de retribuir um pouco a meus pais do que eles tinham feito por mim todo aquele tempo
e ajudá-los nas despesas, pois agora chegava a hora de meus irmãos estudarem também,
então deixei de lado os conhecimentos que tinha aprendido no segundo grau (pois a difi-
culdade de conseguir emprego na área era grande) e fui procurar emprego no comércio da
cidade.
Não foi fácil, como não consegui resolvi fazer um teste de seleção na outra instituição de
ensino da minha cidade, o Centro Federal de Educação Tecnológica da Bahia (CEFET),
passei e comecei o curso técnico em turismo, pois era uma área que estava gerando muito
emprego na cidade, pela vocação como cidade turística. Comecei o curso, que era noturno,
mas não desisti de procurar emprego e acabei conseguindo um estágio na própria instituição,
onde exercia a função de monitora do laboratório de informática e recebia uma bolsa de meio
salário mínimo. Lá pude também aprender computação e esta bolsa foi de grande importância
para mim, pois além do conhecimento tinha a ajuda de custo que me auxiliou muito.
Após o final do curso, e conseqüentemente o final da bolsa, consegui um emprego no
comércio da cidade como vendedora em uma loja de calçados. Este trabalho tomava prati-
camente todo o meu tempo, então parei de estudar e só tinha tempo para o trabalho, que era
muito cansativo e muitas vezes humilhante, devido às muitas cobranças dos chefes.
Nesta época minha irmã passou no vestibular e entrou na universidade. Foi um mo-
mento muito feliz para mim e para meus pais, que ate então não tinham noção do que era a
filha de um produtor rural e de uma dona de casa na universidade. Essa vitória de minha
irmã foi cada vez mais me estimulando, cada degrau que ela alcançava me deixava mais
interessada e feliz, de certo modo eu me realizava com as conquistas e descobertas dela.
E foi ela mesma que me incentivou a voltar a estudar. Foi aí que resolvi entrar em um
cursinho pré-vestibular: trabalhava durante o dia e fazia o cursinho à noite, e logo no
começo me senti muito feliz por estar ali, lutando por um sonho, porém muitas vezes
chegava muito atrasada e cansada e não conseguia assistir as aulas. Além disso, por eu ter
optado por fazer meu ensino médio em escola técnica, deixei de lado muitas matérias que
eram de suma importância, essenciais para o vestibular, como física, química etc. Daí,
quando os professores do cursinho passavam estas matérias me sentia totalmente aérea, com
os assuntos que nunca tinha visto. Isso me desanimava muito e eu pensava que nunca iria
passar no vestibular. Infelizmente, devido ao cansaço e os horários irregulares, acabei desis-
tindo do cursinho. Assim, como era de se esperar não passei no vestibular.

A grande decisão
Mesmo com a derrota do primeiro vestibular, não tinha desistido do meu objetivo, que
era entrar na universidade.
Depois de cinco anos de trabalho e sem perspectiva de melhora, veio em minha mente
uma idéia: largar o emprego e me dedicar exclusivamente ao vestibular.
Cheguei em casa e comentei com meus familiares a minha decisão de sair do trabalho,
sabia que seria uma decisão que poderia me trazer muitas preocupações, pois não poderia
ajudar nas despesas da casa e nem mesmo nas minhas próprias despesas.
Minha família, apesar das dificuldades que iríamos enfrentar, me deu o maior apoio e
disse que eu poderia sair do trabalho o correr atrás dos meus objetivos. Nesse momento não
posso deixar de falar na pessoa que é a razão do meu viver: minha mãe, que acredita em mim
até mais do que eu. Ela me deu toda força e incentivo. Então a decisão estava tomada: saí do

16 Caminhadas de universitários de origem popular


trabalho e comecei a estudar. Com o dinheiro da minha rescisão de trabalho paguei o
cursinho pré-vestibular e aí pude chegar no horário, sempre disposta a aprender tudo nas
aulas, além de estudar em casa também. Passaram-se oito meses, tinha chegado finalmente
a reta final do cursinho e as provas de vestibular. Nessa época o dinheiro que eu tinha
recebido já havia acabado, então como já estava mais segura do vestibular resolvi voltar a
trabalhar. Consegui outro emprego, bem mais maleável que o antigo, e comecei a viajar
para fazer vestibular. Eu tinha me escrito em duas universidades – a Universidade Estadual
da Bahia (UNEB) para o curso de pedagogia e a Universidade Federal do Recôncavo da
Bahia (UFRB) para o curso de história, que era o meu curso preferido. Fiz as provas, fiquei
meio apreensiva, mas com muita fé fiquei aguardando o resultado.

O grande dia
Lembro que entrava na internet todos os dias na esperança que o resultado saísse antes
que o previsto mas via que seria realmente na data prevista. Exatamente no dia que eu não
tinha entrado na net foi quando saiu o resultado. Eu estava no trabalho e logo que a loja
abriu minha amiga Selma me deu os parabéns, dizendo que eu passei no vestibular da
UNEB. Eu fiquei sem graça e trêmula, agradecia muito a Deus pela vitória de estar dentro de
uma universidade. Fiquei a manhã toda ansiosa para chegar a hora do almoço e contar a
maravilhosa notícia para minha mãe e pra minha família.
O que eu não sabia é que Deus tinha me reservado uma surpresa ainda maior. Depois da
comemoração de ter passado em um vestibular e confirmado que tinha valido a pena todos
os meus esforços e abdicações, outro amigo meu me ligou e disse que tinha saído o resulta-
do da federal e eu tinha passado também. Eu não acreditava naquilo que eu ouvia, era muita
felicidade para uma pessoa só (chorei muito junto com minha mãe, pois tinha passado na
UFRB para o curso dos meus sonhos, foi o dia mais feliz da minha vida).
Depois da euforia havia chegado à hora de pensar como eu iria estudar, pois a univer-
sidade ficava em outra cidade e seria difícil achar um lugar para morar. Então minha irmã
entrou em cena mais uma vez: ligou para uma amiga dela que morava próximo de Cachoei-
ra e perguntou a ela se eu poderia passar um tempo em sua casa. Ela disse que eu poderia
ficar quanto tempo quisesse, então mais uma vez larguei tudo e fui atrás dos meus objetivos.
Logo quando entrei na universidade tive a oportunidade de me inscrever na seleção
para bolsista de um projeto maravilhoso que é o Programa Conexões de Saberes, no qual fui
selecionada e fiquei muito feliz não só pela ajuda de custo que me proporcionaria como
também pela maravilhosa experiência de poder passar para muitos jovens a minha história
de vida e incentivá-los a correr atrás dos sonhos deles, mesmo com muitas dificuldades que
nós sabemos que são inevitáveis, principalmente para estudantes que são oriundos de co-
munidades pobres e de escolas públicas.

Veja, não diga que a canção está perdida


Tenha fé em Deus tenha fé na vida
Tente outra vez.
Raul Seixas

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 17


Em busca de um sonho
Anderson dos Santos da Silva*

Vou contar a história de um jovem que lutou bastante para conquistar seu sonho.
Foram muitas as barreiras que ele encontrou no caminho, porém superou cada uma delas e
correu como um verdadeiro atleta, a fim de alcançar seu objetivo: entrar na faculdade.
A princípio gostaria que você, leitor (a), o chamasse de Silva. O jovem Silva é de uma
família simples e humilde de interior da Bahia. Sua mãe, Railda, uma senhora amigável e
uma mãe formidável, teve três filhos. O Aprígio, o mais velho, o Ademir (que após contrair
uma doença ficou mudo e surdo) e o caçula Silva. Seu pai chama-se Dermeval, um senhor
que segundo sua mãe cercava seu filho caçula de todo amor e carinho. Silva não conheceu
a figura paterna, pois o pai morreu quando ele tinha três anos de idade. Não digo que foi
uma dor para esta criança, pois ela desconhecia o significado desta palavra.
Railda, mesmo abalada com a morte de seu marido, decidiu cuidar dos três filhos.
Tornou-se não só mãe, mas - porque não dizer - um pai também. Era uma guerreira, uma
mãe brasileira, uma mulher que mesmo viúva lutou pelo bem-estar dos seus filhos. Ela
encontrou dentro de casa uma ajuda fundamental na criação das crianças: seu filho mais
velho, Aprígio. Este, por sua vez, começou a trabalhar cedo para ajudar a pagar as despe-
sas de casa. Surgia então um batalhador, um exemplo. Batalhador sim! Travou uma luta
nada fácil, por ter que conciliar trabalho e estudo. Quantas noites mal dormidas teve este
jovem, afim de que seus irmãos ficassem bem. A ajuda dele foi indispensável para a
criação da família.
Mas passados alguns anos e muitas lutas de sua mãe e irmão, chega a época de Silva
começar seus estudos numa escolinha chamada Menino Jesus. Os primeiros anos foram
difíceis para ele, por não conseguir entender o significado de estudar; deu muito trabalho
para seu irmão e sua mãe. Uma das frases que ele não cansava de repetir era que “escola não
dá futuro”. Ledo engano.
Essa fase turbulenta de Silva passou, e o Colégio Virgílio de Senna, onde cursou o
primário, lhe ajudou a amar e admirar os estudos; a partir de então Silva teve uma verdadeira
história de paixão com o conhecimento, mesmo com o Virgílio de Senna deixando a desejar
com relação à estrutura. Em meio a tudo isso o jovem Silva concluiu as quatro séries iniciais
neste colégio e passou a estudar em outro colégio, chamado Senador Pedro Lago.
Mas antes de passar para a quinta série, Silva passou as férias de fim de ano com sua tia
Almira Nunes, irmã de sua mãe, e conviveu com seus primos Adenilse (Lila) e Isaias (Sassá),
além do tio Antônio Carlos, um policial militar. O que era para serem férias acabou se

* Graduando em Comunicação Social pela UFRB.

18 Caminhadas de universitários de origem popular


tornando a realidade de Silva, pois ele vive até hoje com essa família. Você acha que ele
abandonou sua mãe? Claro que não! Ele vive entre a casa de uma e outra mãe.
Tia Almira tornou-se uma segunda mãe para ele. Foi ela que, também uma guerreira, o
levou a conhecer o mundo à sua volta. Enquanto uma das mães o superprotegia (Railda) a
outra o ensinou a encarar seus desafios e medos (Almira).
No Colégio Estadual Senador Pedro Lago o amor de Silva pelos estudos aumentou
mais ainda. Era um colégio com novos professores, amizades, aprendizagens. E mesmo com
tanta novidade, o colégio caía aos pedaços, o que levou os alunos a serem transferidos até
a conclusão de uma reforma local. Apesar das condições precárias de infra-estrutura, ele
aprendera muitas lições que pôde levar para o ensino médio no Centro Educacional Teodoro
Sampaio.
O Teodoro Sampaio foi mais um colégio público na vida de Silva; mesmo assim, era
uma fascinação a cada aula, a cada seminário, havia uma verdadeira emoção no ato de
estudar. Porém, nem tudo eram flores: havia também as dificuldades com alguns professores
e muitas vezes a má qualificação e a falta de responsabilidades dos mesmos.
Passados três anos, ele concluiu o ensino médio em 2004 e, a partir daí, começou a
busca pelo seu sonho, o ensino superior.
Inscreveu-se num programa do governo federal, Universidade para Todos, e obteve
uma vaga. E neste momento começou a dimensionar o quanto era grande a “brecha” entre o
ensino público médio e superior. Ele percebeu, na prática, que havia muitos assuntos do
ensino médio que o vestibular cobrava e que ele não tinha a mínima noção.
Então ele começou a esforçar-se bastante para tapar os espaços que o ensino médio
deixou. Foram muitas madrugadas afora com a cara nos livros, para ver se conseguia pelo
menos tornar-se competitivo no vestibular.
Participou do processo seletivo do Centro Federal de Educação Tecnológica (CEFET),
para um curso técnico, de nível médio: foi aprovado, mas não era isso que queria. O CEFET
era apenas um aperitivo perto do seu sonho. Ele cursou parcialmente, mas não desistiu de
entrar na faculdade.
Logo após inscreveu-se no vestibular da Universidade Federal da Bahia (UFBA), em
Salvador e passou na primeira fase. Parecia que alcançaria seu sonho. Após fazer a segunda
etapa, com todas as dificuldades, foi saber no que deu: REPROVADO.
Mesmo com a derrota, o que ele não podia era desistir, de seu sonho. Desta vez tentou
a Universidade Estadual da Bahia (UNEB), novamente em Salvador, e achou que desta vez
seria diferente, estava confiante, tinha que ser aprovado. Passados alguns dias saiu o resul-
tado, e por incrível que pareça ele foi REPROVADO.
Uma tristeza total para ele, sentia-se incapaz, temia não conseguir nunca. Mas sabia
que só não alcançaria seu sonho se parasse de tentar! Foi tentar em outra cidade, na Univer-
sidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), e durante os três dias de prova acordava às
quatro horas da manhã e pegava o ônibus às cinco. Depois de toda correria para realizar as
provas, saía a lista de aprovados, e seu nome... não estava lá, REPROVADO mais uma vez.
Já dá para imaginar como estava difícil para ele, após três derrotas consecutivas, o quê
fazer? O que você faria, leitor(a)? Desistiria de seu sonho?
Silva jamais desistiria, e é por isso que escolhi a história dele para vos contar. Ele
continuou em busca do seu sonho. Cursou por mais um ano o Universidade para Todos,
aprendendo e revisando todos os assuntos.

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 19


Em seguida procurou pela isenção da taxa do vestibular da Universidade Federal do
Recôncavo da Bahia (UFRB), e conseguiu pela quarta vez obter uma isenção. Fez sua
inscrição para o curso de Comunicação Social, e pela primeira vez concorreria a um curso
que o agradava.
Finalmente chegou o dia da prova, fez a primeira fase e conseguiu ser aprovado. Desta
vez não se alegrou tanto como da primeira vez, mas estudou bastante, afim de não ser
reprovado como das outras vezes.
Realizou a segunda fase e, após alguns, dias saiu o resultado. Ele estava com muito
medo do que poderia estar escrito lá, temia mais uma vez ser reprovado, estudou muito e
passar era tudo que mais queria. E quando tomou coragem para ver o resultado, contemplou
o que assim poderia estar escrito como uma notícia de jornal: “Depois de dois anos tentando
ser aprovado numa universidade pública, após perder a vaga em três vestibulares consecu-
tivos, o jovem Silva é APROVADO no processo seletivo da Universidade Federal do
Recôncavo da Bahia, para o curso de Comunicação Social”.
Finalmente Silva alcançou seu sonho, mas tenham certeza, muitos outros virão. E sabe
por quê? Silva vai em busca de seu sonho.
Ah! Quase esqueci seu nome... Anderson dos Santos da Silva, atual membro do Cone-
xões de Saberes e o mesmo que vos escreve.

20 Caminhadas de universitários de origem popular


Memorial
André Bruno Santos da Anunciação*
Eu prefiro ficar com os gestos
a me perder com as palavras.
Intuo a docilidade dos versos,
a versificação da alma.
Tua rima é doce, teu propósito é suave.
Melindra no campo das flores,
escorre saudades.
Espero, um dia, amadurecer-te e coser-te de
detalhes,
encher-te de brilho.
Tomara que venha à minha boca
e que eu não fale bobagens.
Faça-me entendê-la clara e precisa,
que eu a compreenda leve e tranqüila,
mas não sucumba a tua verdade,
doce palavra.
André Bruno Santos da Anunciação

Histórico e caminhadas
Meu nome, antes de eu nascer, já estava certo, iria ser Bruno, se menino; Poliana, se
menina; depois que eu nasci, acrescentou-se o André por convenção de minhas outras duas
irmãs primogênitas, Andréia e Adriana, ficando assim, André Bruno.
Há 24 anos eu nascia em Salvador, capital baiana. Era fofinho, bem cuidado e todo
mundo queria um pedacinho meu. Talvez este tenha sido o meu primeiro momento entre
tantas pessoas juntas.
Sou filho de mãe solteira. Sou fruto da convivência quase efêmera entre minha mãe e
meu progenitor.
Minha mãe trabalhava como auxiliar de contas médicas no Instituto de Dermatologia
e Alergia da Bahia (IDAB) quando conheceu o meu pai, que era funcionário público do
município onde nasci. Namoraram por, mais ou menos, dois anos, até que eu nascesse e ele
se eximisse de sua responsabilidade sobre mim quando descobriu que ela, sua namorada,
aguardava um filho seu.
Embora o fato de ser mãe solteira tenha começado anos antes de eu nascer e ganhado
maior impulso nos anos seguintes ao meu nascimento, mulheres de muita coragem como
minha mãe já executavam a difícil tarefa de ser mãe e pai ao mesmo tempo.

* Graduando em Engenharia Agronômica pela UFRB.

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 21


Estudei sempre em rede pública de ensino. Fui aluno de creche, onde aprendi, entre
outras coisas, a cantarolar. Coisa que faço até os dias de hoje debaixo do chuveiro. Não me
arrisco em público.
Tive uma passagem breve por duas escolinhas de ensino pré-primário que eram parti-
culares, mas nada que onerasse as despesas de minha família (que era basicamente compos-
ta por mim, minhas irmãs, minha mãe e minha avó [que guardo com muito carinho em
minha memória]).
Depois desse período pré-silábico, eu passei os anos áureos de minha infância na Escola
Vila Vicentina – Vicentina em homenagem a São Vicente de Paula – que apesar de ser
Católica, o ensino era gratuito, pois havia um convênio entre a igreja e o Governo do Estado.
Entrar lá foi o meu primeiro grande sacrifício, pois embora fosse de caráter público, o
ensino era de excelência e exigia-se muito para ingressar nela.
Eu saí do pré-primário sem base alguma, e uma das exigências da escola era que
soubéssemos ler, escrever e fazer continhas. Mas eu não sabia, absolutamente, nada.
Acabei por ser alfabetizado por minha mãe, em casa, sob beliscões, safanões,
xingamentos etc., bem ao modo em que ela aprendera. Mas eu só tenho a agradecê-la por
tudo, pois me motivou a querer mais e a perseguir isso.
Havia todo um rito de entrada, saída e permanência nas dependências de lá. Entráva-
mos enfileirados, executando alguma canção católica propícia do mês, a caminho do pátio
maior do antigo convento, onde ficávamos de frente à matriarca da escola (católica-nata)
que nos regia, como ninguém, acalmando nossos ânimos com as canções que tratavam de
amor, perdão, paciência e paz, seguidos de sermões às vezes dados por ela própria, pelo
Monsenhor, ou mesmo pela secretária paroquial do Monsenhor.
Ainda me lembro com muito carinho de uma que dizia assim:

Eu te peço perdão, meu Deus;


Se não perdoei, se não obedeci;
Se não parei para agradecer:
O meu despertar, o meu viver,
Minha alegria de brincar
E o meu sonho gostoso
À noite, ao deitar.

Se era mês mariano, cantarolávamos à Virgem Maria; se era a Páscoa, ressentíamos o


nascimento e a paixão de Cristo...

Duas pessoas muito importantes


A primeira, minha avó, a segunda, minha madrinha (aliás, meus padrinhos). Falar de
seres tão angelicais, ternos, amigos como minha avó e minha madrinha é me remeter, assim
como em todo momento anterior, a um mundo que me traz muitas boas recordações: essas
duas pessoas (ou melhor, três, com o meu padrinho) sempre estiveram bastante presentes em
minha vida.
Tanto minha avó como meus padrinhos eram aquele ombro amigo com o qual podia
contar e ter em troca palavras confortáveis, animadoras, amorosas e de esperança. Por diver-
sas vezes, ambos, socorreram-me. Sinto falta de minha avó querida!
Meu padrinho é a figura mais próxima que tenho de um pai, minha madrinha é uma
segunda mãe, grande amiga.

22 Caminhadas de universitários de origem popular


Origem e manancial
Sou oriundo do índio (do mato) e do preto (escravo e quilombola), com raízes fincadas
no Sul e Recôncavo da Bahia.
A universidade me deu a oportunidade fazer o caminho que os meus ancestrais não pude-
ram fazer, por serem negros e, por isso, não tinham “alma” (negro vem do latim que quer dizer
“coisa sem alma”). Como poderiam ter direito à educação, se nem alma eles podiam ter?
Minha tataravó era índia que fora trazida por “focinho” (estrutura análoga a uma
boca) de cachorro a um quilombo (de história e elenco perdidos) que havia aqui no
Recôncavo, antes mesmo de haver a circunscrição política de Cruz das Almas.
Meu bisavô, Tomás Nogueira, negro alto, espigado, nascera livre, no mato, provavel-
mente em algum quilombo, pois nascera por volta dos anos 1840, morrendo por volta dos
anos de 1960, com cento e quinze anos de idade em Cruz das Almas, cuja causa mortis dada
pelos seus foi “uma feridinha no pé.”

Lutas
Comecei a “lutar” (executar atividade remunerada) desde os dezesseis anos de idade
com a oportunidade do meu primeiro emprego, chance que tive ao ser selecionado por
concurso mirim para ser estagiário da Secretaria de Cultura e Turismo do Estado da Bahia,
onde levei um ano sob contrato.
Aos dezessete, quase dezoito, tive o meu primeiro emprego com a Carteira de Traba-
lho e Previdência Social (CTPS) assinada em Clínica Oftalmológica, depois na Vivo Tele-
comunicações.
Nunca fui ativista de movimentos sociais, contudo encetei a primeira turma de instru-
tores de um Curso Pré-Vestibular da Organização de Auxílio Fraterno (OAF), mantido pelo
Ministério da Educação (MEC), através do Programa Inovadores de Cursos (PIC) e Organi-
zação das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), voltado, em
especial, para os negros e jovens em situação de risco social.
Nem por isso deixei de estudar, eu queria mais, mais do que os meus antepassados
haviam conseguido ou tentado, eu queria uma carreira acadêmica, uma formação intelectu-
al, social e política...
O meu primeiro vestibular foi para Ciências Contábeis no Instituto de Educação
Superior Unyhana Salvador (IESUS), onde passei, mas não cursei. A instituição era particu-
lar e eu só o fiz porque fui isentado da taxa de inscrição.
Eu continuei estudando. Queria ser militar, e, por isso, inscrevi-me no curso prepara-
tório para a Academia Superior de Armas do Exército Brasileiro, que tinha sede no Centro
Federal de Educação Tecnológica (CEFET), mas quando faltavam quatro meses para con-
correr a uma vaga para cadete na Academia Superior de Armas (ASA) - Escola de Formação
Militar das “Agulhas Negras”, que é uma instituição de formação militar da Marinha do
Brasil, desisti, fazendo o meu primeiro vestibular federal para a Escola de Agronomia, que
pertencia à Universidade Federal da Bahia (UFBA), mas que agora compõe um dos campi da
Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), onde curso.
Assim como eu pretendia antes de entrar na universidade, continuo perseguindo os
meus sonhos (que eram: independência, ascensão social, crescimento intelectual, moral,
humano...) e tenho certeza de que chagarei lá, unindo à minha profissão, a minha realização
pessoal de estar fazendo o que gosto (em breve, ser engenheiro agrônomo).

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 23


Meus relatos
Bruna Maria Santos de Oliveira*

Meu nome é Bruna Maria Santos de Oliveira, sou de Barreiros – Distrito de Riachão
do Jacuípe, na Bahia, e vou contar alguns relatos de minha vida, talvez comuns a tantas
outras marcada por uma trajetória de dificuldades e conquistas.
Tudo começou com o namoro de dois jovens, Odenice e Orlando, meus pais biológi-
cos. Nasci prematura de sete meses, na casa de meus avós maternos, sem nenhuma condição
favorável para um parto. Tive problemas de saúde que quase me levaram à morte, sobrevivi
graças a Deus e aos cuidados de minha família.
Por esses e outros motivos, quando tinha alguns meses de vida, fui morar na casa de
meu avô paterno, cuja morte ocorreu após dois anos, e minha ida pra lá, que era pra ser por
alguns dias, ficou em definitivo, pois continuei lá morando por toda a minha vida.
Essa talvez tenha sido a parte mais difícil e prazerosa de minha vida, pois ganhei uma
família maravilhosa composta de uma mulher (segunda mulher de meu avô) que até faltam-
me palavras para descrevê-la, cujo nome é Maria de Jesus Ferreira, minha mãe ou, como
costumo chamá-la, “mainha”. Uma mulher batalhadora, guerreira e muito forte que criou
seus sete filhos, que são meus tios-irmãos.
“Mainha” além de mãe, foi o pai de seus filhos, netos e de algumas crianças que
“apareceram” como eu. Trabalhou durante toda sua vida como lavradora para sustentar a
todos e não tinha nem os domingos para descansar. Mesmo não sabendo ler e escrever e das
demais dificuldades, sempre nos mostrou a importância dos estudos. Sempre dedicou seu
amor e cuidados pra mim igual aos seus filhos.
Lembro-me dos cuidados especiais - e até exagerados - que recebia por causa dos
meus ataques de bronquite asmática e das muitas vezes onde todos “perdiam” noites e dias
em revezamento para cuidar de mim, faltando até mesmo nos seus trabalhos, pois desde
muito cedo todos já lidavam com isso para ajudar na renda familiar, tudo para dedicar total
atenção a mim.
Lembro-me também com muitas saudades das belas tranças que eram feitas em meus
cabelos ao domingos, dia este em que eles eram lavados sempre às dez horas da manhã,
quando o sol estava “quente”, pois tinha que ficar aquecendo-me para secar mais rápido.
Nesses momentos, como em tantos outros, parecia até que o mundo todo parava para dedi-
car-me amor, carinhos e segurança, e foi assim ao logo de minha vida.
Estudei durante toda minha vida em escolas públicas, etapa maravilhosa e marcante,
onde comecei a traçar meus objetivos e conviver com pessoas que me ajudaram em tal

* Graduanda em Engenharia Agronômica pela UFRB.

24 Caminhadas de universitários de origem popular


trajetória. Concluí o ensino médio em 2004, apesar das dificuldades, pois além da falta de
preparação de alguns professores, não existia na comunidade uma sede própria e adequada
para o único colégio de ensino médio do lugar. Para tal finalidade foi utilizado um galpão
de um ex-supermercado, desativado por falta de estrutura física, e tive também que traba-
lhar durante o período escolar para ajudar na renda familiar, o que não foi motivo para
interromper meus objetivos.
Em decorrência da falta de oportunidade de emprego e estudo em Barreiros, em janei-
ro de 2005, fui pra Feira de Santana fazer um Curso Técnico em Agropecuária pela Funda-
ção Bradesco, que a princípio foi apenas a primeira oportunidade que encontrei pra conti-
nuar estudando. Entretanto, me apaixonei pela área de atuação, que conseqüentemente
foi responsável pela minha escolha profissional: a Engenharia Agronômica.
O curso técnico me proporcionou também a oportunidade maravilhosa de morar com
meu irmão Paulo Marcos, com quem até então tinha pouco contato. Foi nele que encontrei
também total apoio para continuar estudando, pois ele é uma pessoa maravilhosa e um dos
meus exemplos.
Após concluir o curso técnico, fui trabalhar em uma ONG, o Movimento de Organiza-
ção Comunitária (MOC). Meu trabalho era em Itiúba, na Região Sisaleira, desenvolvendo
atividade com jovens e familiares baseado em agricultura familiar, agroecologia e crédito,
com objetivo de melhorar a qualidade de vida e geração de renda das pessoas daquela
região. O MOC foi uma academia importante em minha vida, pois a partir dele tive a
oportunidade de me envolver verdadeiramente com os movimentos sociais e causas que até
então só me envolvia como coadjuvante. Me possibilitou também conhecimentos e mo-
mentos que me ajudaram não apenas profissionalmente, mas também pessoalmente, graças
ao convívio com pessoas e lugares que me possibilitaram tal papel. Conquistei e fui con-
quistada por várias pessoas e construí muitas amizades. Afastei-me do trabalho por causa da
universidade, pois não tinha como conciliar o trabalho com os estudos acadêmicos por
serem em municípios diferentes e distantes, pois Itiúba, fica aproximadamente 400 km de
Cruz das Almas, onde está o campus de Engenharia Agronômica da Universidade Federal
do Recôncavo da Bahia (UFRB).
Consegui, apesar de muitas dificuldades, ingressar na UFRB e fazer o curso Engenha-
ria Agronômica. Consegui quebrar o paradigma que existe na cabeça de muitas pessoas de
que a universidade, apesar de pública, não é para todos.
Realmente faltam políticas afirmativas contínuas e intensivas para erradicar as des-
vantagens que os grupos sociais de baixa renda enfrentam ao longo da história e que
dificultam sua inserção igualitária na competição social, como ingressar e permanecer em
uma unidade pública de ensino superior. Pois os cursos oferecidos, na maioria das vezes,
possuem um turno integral diurno, ficando quase impossível conciliar trabalho e estudo.
Isso muitas vezes define os que podem continuar e os que sacrificam o estudo. Sei também
que a caminhada é longa e que entrar não foi o maior desafio: concluir e enfrentar o compe-
titivo mercado de trabalho será ainda mais duro.
O meu ingresso na UFRB possibilitou-me o conhecimento do Programa Conexões de
Saberes, que despertou meu interesse não apenas pela possibilidade de ganhar uma bolsa
que iria ajudar a manter-me na universidade com menos dificuldades financeiras por um
período de tempo, como também pela proposta de poder ajudar e contribuir no crescimento
de pessoas de classes populares como a minha.

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 25


Sem dúvida, os maiores responsáveis pelo meu sucesso foram minha mãe Maria, meu
irmão Paulo Marcos, minha família, alguns professores e amigos, que com certeza sabem da
contribuição que tiveram durante minha vida. Fica aqui registrado o meu muito obrigada
por terem me incentivado sempre e acreditarem em mim. Agradeço principalmente a Deus
por te me dado a vida e a possibilidade de conviver com pessoas maravilhosas e poder con-
quistar meus objetivos.

26 Caminhadas de universitários de origem popular


Caminhos cruzados:
muitas vidas, uma história
Texto a 16 mãos

Introdução
São quase seis da tarde. As aulas já acabaram faz algum tempo. As salas estão vazias,
chorando de saudades da euforia que há pouco tudo preenchia e agora se transforma em um
vazio amistoso entre a angústia e o descanso. Olhando ao redor não se vê uma alma sequer.
Já foram todos embora para seus afazeres, para suas tendas, para suas famílias. As luzes do
pátio já se encontram apagadas e seria difícil encontrar direção caso a luz da saída não
ficasse costumeiramente acesa, servindo de bússola.
Parando no meio do pátio e fazendo ecoar três palmas seguidas, logo surgirá em meio
ao breu um dos porteiros, seu Gerson ou seu Josafá, em dias alternados. O primeiro magro,
queixo fino, olhos grandes, semblante amigável. O outro roliço e contente, pronto para
servir. Ambos negros - como a maioria dos brasileiros -, vagam pelos corredores à espera do
vigia noturno que chega às sete.
Está tudo vazio. O silêncio é sonoro. Se apurar os ouvidos um instante, perceberá um
burburinho ao longo do corredor. Descendo as duas escadas, chegará à frente de uma sala, às
vezes a porta encontra-se aberta, outras vezes não. Será fácil perceber que nem tudo é
silêncio. Nessa sala, em um grande e irregular círculo, senta-se um pequeno grupo de jovens
atentos. Descobrir-se-á, em meio a muitas vozes, risos, contos, histórias de vida e de supera-
ção, trajetórias que se cruzam perfazendo um desenho único. Esses jovens passaram por
muitas dificuldades. Fizeram dos obstáculos um meio de preparação para a vida, do estudo
um alicerce e da negritude um orgulho de viver. São negros e pobres, critério imprescindí-
vel para compor o grupo de contemplados pelas políticas afirmativas da Universidade
Federal do Recôncavo da Bahia - UFRB.
Guardamos lembranças maravilhosas, sonhamos, fazemos gracejos. Nossas histórias
são bem parecidas, mas não são iguais...
Não somos iguais, pois uns são bolsitas da Fundação Clemente Mariane e outros do
Programa Conexões de Saberes. Vivemos em lugares diferentes, cidades diferentes, temos
famílias diferentes, cursos universitários diferentes, mas também somos parecidos... estu-
damos em escolas públicas, tivemos o mesmo sonho de ingressar na universidade, mora-
mos em bairros populares, temos histórias marcadas pela desigualdade social e discrimi-
nação racial, somos protagonistas de nossas histórias, somos negros e negras que, histori-
camente excluídos, resolveram responder com a inserção, daí que desejamos incluir os
bolsitas da Fundação Clemente Mariane com trajetórias semelhantes às nossas, que, na
verdade, entrelaçam-se com nossas vidas. Por isso realizamos o desafio de escrever esse
texto a 16 mãos!

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 27


Infância
O cheiro da terra preenche o ar. Terra molhada, chuva forte, incessante... dá vontade
de ver um filme, comer pipoca, ficar enrolado no cobertor quentinho, olhar da vidraça a
chuva caindo na calçada, levando as folhas do chão na rua silenciosa. No entanto, numa
casa de pau-a-pique, chão batido e coberta por palhas, a chuva não inspira momentos
alegres... pai, mãe e quatro filhos... todas as crianças foram debaixo da mesa. Lá permane-
ceram até a chuva passar.
Na zona rural de Mutuípe a vida não era fácil. Ora comiam banana verde cozida em
rodelas, ora comiam um ovo dividido para seis pessoas, e carne fresca só quando o pai
fosse, no sábado, comprar uma cabeça de boi na feira.
A menina olhava impotente com os olhos marejados e irritados pela fumaça, o fogo a
consumir suas lembranças e o trabalho de seus pais. Era a segunda vez que a casinha de pau-
a-pique ardia em chamas. Da primeira, reduziu os sonhos da família a cinzas. Da segunda, a
fumaça causou insuficiência respiratória no caçula. O fogo, então, lhe roubava a vida. Seu
pequenino irmão morrera.
Uma mesma vida, outras experiências. Um sorriso maroto e sapeca alegra seu rosto e
ilumina qualquer coração angustiado. A menina brinca com os irmãos... faz comidinha de
ervas silvestres, fabrica bonequinhos e animais de chuchu com pernas e braços de taliscas
de café, corre feliz pelas campinas verdes... não se queixa da vida nem da sorte. Rosiane
Teixeira sorri e encanta, sabe o que é sonhar.
Na zona urbana de Amargosa tinha uma rua com muitas crianças que brincavam o dia
inteiro. Brincavam de casinha, amarelinha, comidinha, esconde-esconde, escolinha, desfi-
les... Daniela amava brincar com a turminha de sua rua. Era tão divertido que Vanessa,
moradora de outra rua, às vezes aparecia pra brincar também. Em casa, cantava com uma
toalha na cabeça fazendo graça para os pais. Também fazendo graça, Maria Joseni fazia o
pai de brinquedo enchendo a cabeça dele de xuquinhas coloridas. Era uma alegria só na
zona rural de Ubaíra.
Na zona rural de Elísio Medrado não era difícil encontrar Gerlan dentro do panacun,
servindo de contrapeso para a lenha, enquanto seu avô seguia puxando o jumento pelo
caminho de terra seca. Para o menino, aquele era um divertido e prazeroso passeio. “Ah! Que
saudades!”
Da zona rural vem o alimento. São das raízes firmadas na terra que brota o sustento não
apenas do corpo, mas da cultura e da tradição de um povo. Iranildes e Robenilson moraram
em lugares diferentes de Brejões e, após alguns anos, ambos mudaram-se para a zona urbana
da cidade. Maria Joseni saiu da roça após conseguir a bolsa do Conexões de Saberes. A sua
família continua morando no mesmo lugar. Jailton, Tatiane e Simone viveram na zona rural
de Amargosa, mas logo migraram para a cidade. Já Esmeralcy, ainda hoje, vive com sua mãe
no campo, nos arredores de Amargosa. Quando a noite cai, no silêncio ela ouve apenas o
canto dos grilos, que vêm do mato. Então, pega um papel e uma caneta, senta-se na cama e,
à luz de uma vela, começa a escrever a sua história. E assim, fazendo suas as palavras de
Cora Coralina, diz:

Eu sou aquela mulher


A quem o tempo
Muito ensinou.

28 Caminhadas de universitários de origem popular


Ensinou a amar a vida.
Não desistir da luta.
Recomeçar na derrota.
Renunciar as palavras e pensamentos negativos.
Acreditar nos valores humanos.
Ser otimista.
Cora Coralina

Como vive no meio rural, encontra-se em estreito contato com a natureza, sentindo-se,
muitas vezes, como um pássaro livre. Ali, respira um ar puro e sacia sua sede com a mais pura
água de uma nascente que se encontra ao pé da mata, na propriedade da família. Foi ali que
aprendera a dar os primeiros passos, fazer os primeiros riscos e, apesar de ter sido uma
criança “fechada” e ciumenta, era também feliz, brincalhona e estudiosa, tornando-se, hoje,
uma pessoa simples e humilde.
Os mais velhos sempre gostaram de contar para as crianças, na zona rural ou urbana,
histórias antigas e de assombração que rendem muitas fantasias, pesadelos e sustos para a
criançada, despertando a criatividade e a relação de respeito com as crenças dos antigos.
Era um dia especial. A recepção era sempre calorosa: “que milagre é esse você por
aqui!?”, a vovó indagava. E com um brilho nos olhos, começava a contar a história que
mais gostava:

Os cangaceiros eram temidos em toda a região, pois eram valentes.


Andavam todo o nordeste. Piauí, Ceará, Pernambuco... e na Bahia
eles saíam em bando, assaltando e matando gente rica como
coronéis e outras autoridades da época. Eles eram temidos por
todos e admirados por alguns. Tinham fama de justiceiros,
principalmente Lampião, o líder, com sua mulher e companheira,
Maria Bonita. Ela sempre era vista como uma mulher corajosa,
com chapéu na cabeça e arma na mão. Lampião e Maria Bonita
lutaram juntos até a morte.

Iranildes, atenta, ouvia as histórias que a avó contava.


À beira do rio Jiquiriçá-Mirim o Sol se põe mais uma vez, e ao adentrar da noite o
candeeiro é aceso e colocado sobre a mesa junto ao pequeno caderno. Após um longo e
cansativo dia de trabalho, o coração de mãe sabe que passar o conhecimento é uma linda
forma de demonstrar amor. Então, a mão calejada coloca-se sobre as mãos pequenas e
delicadas que desajeitadas desenham as primeiras letras à luz do candeeiro. Tatiane foi
alfabetizada em casa por sua mãe.
Sentadas à mesa da pequena sala, Daniela era orientada por sua mãe, que paciente-
mente ensinava-lhe as letrinhas e os números. Era impressionante como ela aprendia rápi-
do. Orgulhosa de ver a filha lendo e escrevendo, a mãe resolveu matriculá-la numa escolinha
pública em que havia estudado e, além disso, ficava próxima do bairro em que moravam. As
histórias são diversas, mas formam um mesmo mosaico de infâncias que se desenharam na
mesma cena social, cada uma com seu colorido, cada uma com sua tristeza.

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 29


Trajetória escolar: do ensino infantil ao fundamental
A professora ficava na porta recebendo os pequenos alunos, a mãe ia levando pela
mão a garotinha Iranildes para o primeiro dia na escola. Robenilson era muito pequeno para
ficar num lugar com tanta gente, então, no rostinho assustado, começaram a escorrer lágri-
mas incessantes, fazendo o pequeno adormecer... só despertou quando a mãe chegou para
buscá-lo. Não muito diferente aconteceu com Jailton que, ao entrar na escola, as portas
foram fechadas e aquele portão grande de ferro foi trancado. Não daria mais para alcançar a
mamãe, então no meio do pátio ele entregou-se ao desespero do choro.
Rosiane Rodrigues não entrava na escola de jeito nenhum, ficava do lado de fora,
entre a curiosidade e a vergonha. No final - indecisão completa - chorava. Simone entusias-
mou-se com tudo que via e Silmary fez logo amizade e achou a escola o maior barato!
Um “toquinho de gente” iria ser interna no Convento de Santa Clara, em Salvador.
Muitas meninas de várias idades olhavam para aquela garotinha recém-chegada. Aquela seria
a família de Juliana por muitos anos. Só iria para casa nos fins de semana e se o comportamen-
to fosse satisfatório. Juli era muito pequena para compreender as circunstâncias que a levaram
para aquele lugar tão diferente do seu cotidiano. O convento era um lugar de disciplina e
oração, mas para a interna, havia tantas obrigações como orações. A imposição religiosa era
constante: às 6:00 acordava e rezava aos pés de Nossa Senhora; às 6:10 escovava os dentes e
penteava os cabelos; 6:20: esperava até o horário do café; 6:30 era a fila e oração para o café
da manhã; 7:00 oração de agradecimento, em seguida vinham as atividades de limpeza e até
o fim do dia tantas outras rezas e obrigações... a mãe de Juliana sabia que uma criança pobre,
negra e mulher, só venceria na vida através de muito estudo e dedicação.
Uma garotinha fofa... saia de prega azul marinho e um shortinho da mesma cor por
baixo, blusa branca de tergal, um lindo laço nos cabelos, sapatinhos pretos e meias brancas.
Feliz, andava em direção ao educandário Imaculado Coração de Maria, em Amélia Rodrigues,
administrado por irmãs missionárias, que ensinavam com dedicação os valores cristãos.
Joaninha passou muitos momentos bons no educandário, mas certo dia sumiu uma lapiseira
0,7 mm na sala, e a dona da grafite asseverou: “só saio daqui quando aparecer minha
lapiseira!” Não precisa dizer que essa era a menina mais chata da turma. Todos procuraram
em seus pertences, e as irmãs também revistaram e olharam a bolsa de todos, um por um.
Entrevistaram cada aluno, individualmente, inquirindo sobre o objeto. No entanto, nem o
culpado nem a lapiseira apareceram. Então, as férias de São João terminaram em sabatina e
limpezas do pátio das 8h às 17h. Acontece que no meio do pátio, entre o cimento, nascia um
capim. Ajoelhadas, sol quente, arrancavam o matinho, assim como quem paga um pecado
que não cometeu...
Aos sete anos, sua mãe a matriculou na alfabetização numa escola da zona urbana,
porém a professora percebeu que a pequena já estava alfabetizada e a transferiu para a 1ª
série. Na sala, tudo lhe parecia estranho e confuso, pois seus colegas lhe olhavam com
desconfiança.
Quase nada a inibia, a não ser um colega que todos os dias ao término das aulas
cercava-lhe e tentava agredi-la fisicamente. Este dilema se estendeu por vários e vários
meses, até que um dia, Tatiane disse a si mesma: “Tenho que dar um jeito nisso! Ele não
pode continuar me atormentando...!” Então, por mais irresponsável que fosse seu ato,
decidiu levar uma faca para a escola e ameaçar o menino. Após isso, ele não mais a incomo-
dou. Depois de ter vivido tal experiência ela aprendeu uma lição que traz consigo em todos

30 Caminhadas de universitários de origem popular


os momentos de sua vida, que nossos grandes medos só podem ser superados se enfrentados
corajosamente.
A pequena Maria Joseni que carinhosamente era chamada de Dodi. Estudava pela
manhã e, na volta da escola, as pernas curtas encaravam uma estrada longa de terra, os carros
passavam a lançar poeira em seu meigo rosto. Sentia um vazio que parecia consumir a alma.
Então, sem outra reação mais espontânea para aquela situação, sentava e chorava em meio
às vacas por trás da cerca e, olhando os meninos andando pelo caminho, as lágrimas não
solucionavam nada, mas era a única coisa que lhe ocorria naquele momento.

Trajetória escolar: ensino médio


Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá, Si... as notas da canção não podem ser esquecidas por nenhum
dos músicos, pois um erro compromete todo o grupo, a música é um excelente veículo para
levar alegria. Robenilson conheceu a música no Colégio Estadual Ana Lúcia Castelo Bran-
co, o que lhe deu a oportunidade de tocar instrumentos musicais e de aprender a reger as
experiências vividas rumo às conquistas.
• Lave todos os pratos!
• Deixe a cozinha limpa!
• Tire a poeira dos móveis!
• Arrume todas as camas!
• Varra a casa!
• Lave o banheiro, está imundo!
• O menino está chorando mais uma vez...!
Esta era uma rotina triste para uma adolescente com muito desejo de estudar... e
precisava suportar humilhações, tristezas, dores, aflições, trabalhando como babá e domés-
tica. Sozinha, naquela casa, servia de alvo para críticas cruéis... sentia-se só, estava longe do
abraço da mãe e do olhar protetor do pai. Já não daria mais para agüentar, era hora de
Rosiane Teixeira voltar para sua casa, na roça.
Ainda não havia raiado o sol, eram 4h da manhã, o sono precisava dar lugar à determi-
nação, estava frio, chovia muito, seria bom ficar debaixo das cobertas... esticou o corpo,
passou a mão nos olhos, bocejou, pensou em sonhar mais um pouco, mas para realizar os
sonhos era necessário levantar, então vestiu a roupa e seguiu pelo caminho de terra, que era
apenas lama a grudar em suas pernas e sapatos. Meia hora depois do trajeto e essa corajosa
mocinha chegaria ao ponto para pegar o ônibus que a levaria para a escola na cidade. No
caminho de sempre, prestando atenção no pasto, no cheiro forte de esterco molhado, na
paisagem que se desenhava tranquilamente à sua frente, surpreendeu-se com um grande
animal que desembestava em sua direção. Calafrio, taquicardia, pavor, correu desesperada,
afobada e, sem saber medir o susto e a fuga, caiu na lama, lambuzou-se, mas livrou-se da
vaca. Estava suja e cansada nos primeiros minutos da manhã, isso não era uma novidade.
Dentro da bolsa tinha sempre roupas limpas de reserva, entrou na plantação, trocou de
roupa e seguiu a longa jornada em busca da realização dos sonhos que acordada criava.
As 4:00 da manhã, em Ubaíra, Maria Joseni também carecia despedir-se do sono e
enfrentar mais uma difícil jornada rumo à escola. Como já era de costume nos dias de chuva,
a roupa limpa ia dentro da bolsa, pois o risco de cair era grande e sempre acontecia. No dia
da entrevista para a seleção do Programa Conexões de Saberes, Joseni chegou na universi-

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 31


dade completamente suja de lama. Havia caído de moto em uma das ladeiras que tinha de
subir para chegar em seu destino.
A platéia aplaudiu de pé a estréia do jovem grupo de teatro. As pessoas se divertiram
muito naquele dia e os atores se sentiam realizados com os sorrisos e aplausos. A partir
daquele momento, a paixão pela arte de interpretar nasceu no coração de Naiara, que passou
todo o ensino médio desenvolvendo seu talento.
Também no ensino médio, Juliana estudava num colégio perto do convento; ela se
dividia entre a escola, a casa e as fugidas que dava do convento.
Na vida há muitos encontros e desencontros. Em um encontro do colegiado escolar na
5º série do ensino fundamental Jailton e Vanessa tornaram-se amigos. Nas histórias existem
planos e coincidências. Em uma dessas, Simone foi colega de Rosiane Rodrigues por mui-
tos anos, vivendo alegrias e tristezas lado a lado. Gerlan era um rapazinho que dava “nó em
pingo d’água”. Certo dia armou com os colegas da sala e deu uma tortada na cara da vice-
diretora da escola. Foi o maior fuzuê! Ele era colega da comportada Esmeralcy. Como
Brejões não é uma cidade muito grande, Robenilson e Iranildes foram colegas três anos
consecutivos. O mundo se faz pequeno quando quer, e planejando ou não, as conexões
sempre acabam acontecendo.

Entrada na universidade
A filha de uma família de baixa renda não poderia de forma alguma fazer um cursinho
pré-vestibular, pois isso significaria muito no orçamento precário da casa. Vanessa estudava
sozinha em casa utilizando revistas, jornais e livros emprestados. O primeiro vestibular que
fez foi um grande desafio para a moça de 17 anos que acabara de concluir o ensino médio,
mas, para sua surpresa, teve resultado satisfatório e está cursando o tão sonhado curso de
Pedagogia. As longas noites de estudo não foram exclusividade de Vanessa. Todos os outros
tiveram muita coragem e determinação para entrar na universidade, alguns pelo sistema de
reserva de vagas, outros não, alguns com cursinho pré-vestibular, outros sem, mas todos,
sem exceção, deram duro pra entrar na faculdade!
Similar, Iranildes estudava em casa e, com um pequeno grupo de amigas, também
almejavam cursar o ensino superior público. Fez algumas tentativas sem sucesso, porém, o
momento de realizar seu objetivo estava se aproximando. Fez o vestibular e alcançou a
realização. Essas são nossas histórias comuns!

Negritude
Todos os alunos deveriam se reunir em grupos. E assim foi feito. Havia um grupo com
meninas brancas e apenas uma negra. Então em alto e bom som a professora gritou para a
menina negra: “Você é muito fraca para ficar nesse grupo de meninas mais fortes que
você!” A menina negra e gordinha não sabia o que fazer, estava com vergonha, se sentido
muito mal, como se estivesse lhe faltando chão nos pés. Pensava: “como essa mulher, que
nem me conhece, pode dizer que eu sou fraca? Fraca por quê?” Triste, abaixou a cabeça em
meio àquela cena constrangedora. Fez o trabalho no “grupo dos fracos” que acabou sendo
o melhor de toda a sala. Silmary aprendeu a mostrar sua capacidade e determinação, o que
iria ser fundamental na formação de sua identidade como negra. No ensino médio, Mary
não se atemorizava, pelo contrário, organizava apresentações sobre negritude e fazia expo-
sições orais para todo o Colégio Estadual Pedro Calmon.

32 Caminhadas de universitários de origem popular


Certa vez, Gerlan foi assistir a um filme na casa de sua tia. Um amigo negro sentou-se
na cama dela. Ao cair da tarde, quando o garoto foi embora, a tia pegou o lençol e lavou com
o maior desprezo. Esse acontecimento chocou Gerlan, que não cruzou os braços diante da
ofensa. Junto com alguns colegas integrou uma comissão que organizou o Primeiro Desfile
da Consciência Negra, onde propuseram um evento que mostrasse o valor, a cultura e a
beleza do negro.
Chegou a uma loja para fazer um pagamento. Todos a olhavam com desconfiança e
uma apreensão tomou seus passos, que divagavam em direção ao caixa sob olhares atentos
e desconfiados. A funcionária da loja, depois de muito fazê-la esperar, perguntou com
indiferença: “Você veio pagar algo do seu patrão? Qual é o nome dele?” Abateu-lhe uma
tristeza e uma revolta que a levaram às perguntas que não calavam em sua mente: “por que
me julgam doméstica? Por que a desconfiança? Acham que estou aqui para roubar?”
Olhou-se, e na pele encontrou o motivo das suspeitas: por ser negra, não mereceu confiança.
Lembrou-se das inúmeras vezes que, ao manifestar qualquer opinião em sala de aula, no
ensino médio, era chamada de “negrinha atrevida”. Então, disse com altivez: “Não! A
conta é minha mesmo! Eu comprei, trabalhei e posso pagar com meu próprio dinheiro!
Você acha que não posso pagar porque sou negra, é!?”
As aulas começavam em Salvador. Pais e filhos iam às papelarias comprar os materiais
escolares. Juliana entrou na loja e encontrou atendentes aparentemente de origem oriental.
Inesperadamente um senhor a convidou a se retirar. “Será que ele achou que eu não tinha
condições para comprar? Achou que eu poderia roubar, ou era só por eu ser negra?”
Depois de muito pensar, Juliana percebeu que eram as três coisas juntas. Então prometeu a
si mesma que jamais se calaria novamente diante de um ato de preconceito.
As crianças sentavam ao redor da mesa e Daniela ia explicando as lições, uma a uma.
No meio delas havia uma menina que, apesar de ter apenas seis anos de idade, demonstrava
atitudes preconceituosas, por isso quanto mais Dani se aproximava mais a menina se afas-
tava. Era uma menina branca que não se esquivava das outras crianças brancas, porém, da
professora negra do reforço escolar, ela fugia o quanto podia. Um sentimento desafiador
tomou conta de Daniela, que resolveu mostrar à criança que a única diferença existente
entre elas era a cor da pele e nada mais. Após muito tempo de convivência e insistência, a
criança aprendeu. Hoje ela está crescendo e sempre vai visitar sua ex-professora negra.
Daniela não desistiu e contribuiu muito para a formação cidadã daquela criança.
Ela segurava com doçura a mão da netinha indo para a missa. No caminho da igreja
encontrou uma beata que perguntou: “É sua neta? Mas é tão moreninha?! Que moreninha
bonita”. E a avó respondeu: “é minha neta sim, meu chocolate!” E não era apenas na rua
que a estranhavam. Na sua própria casa alguns parentes diziam: “você foi trocada no hos-
pital!” Isso acontecia por que a família materna inteira possuía pela clara e apenas sua mãe
tinha se relacionado com um homem negro, gerando uma filha negra, consequentemente
discriminada. A confusão na cabeça da criança ficava completa por não ter contato com a
família paterna, restando-lhe apenas enfrentar os preconceitos na casa de pessoas de pele
branca. Hoje, Naiara não se importa com os comentários sobre suas origens, pois se declara
negra e orgulha-se disso!
Na Escola Santa Bernadete, em Amargosa, no censo escolar, uma pergunta foi
lançada para o rapaz: “qual seu pertencimento étnico-racial?” Ele rapidamente respon-
deu: “negro”. A professora, espantada, exclamou: “você é pardo!” Depois de uma longa

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 33


discussão, Jailton foi declarado como pardo por determinação da professora, gerando mui-
tos conflitos no rapaz. No colégio sempre havia aqueles que cantavam musiquinhas de
provocação às crianças negras, o que deixava Jailton bastante triste e sem reação, mas hoje
ele já sabe como agir diante de situações semelhantes.
“Lugar de preto e pobre é na escola e você só será gente se conseguir se formar!”, já
diziam os pais de Tatiane. Os meninos gritavam: “nega preta!” Tatiane, ao se dar conta que
se dirigiam a ela, lembrava que sua mãe sempre dizia: “quando esses meninos ficarem te
chamando desse jeito você tem que responder: ‘sou negra sim, com muito orgulho!’ Não
deixe ninguém pisar em você!” Entre lágrimas, Tati falava exatamente como a mãe lhe dizia
e assim fez inúmeras vezes. Algumas pessoas lhe diziam: “essa sua cor é cabo verde”,
outras diziam: “sua pele é tão linda, que nem parece negra!” E Tati, não esqueceu a lição
da mãe, e, ainda hoje, diz: “sou negra sim, com muito orgulho!”
Ser negro em um país regido por valores que têm na aparência a primeira razão de um
ser, é ir para uma entrevista de trabalho sabendo que as chances são mínimas, é saber que nas
penitenciárias a maioria dos detentos são pretos, é ser discriminado, é sofrer a ideologia do
branqueamento para ser mais aceito, é ser marginalizado em qualquer situação, é ser o
primeiro suspeito sem investigação, é sentir-se culpado pela falta de reconhecimento de sua
humanidade, é ter sua religião distorcida. Quantas vezes em uma rua escura e deserta,
alguém passou para outra calçada ao ver um negro? Até quando será permitido?
Ser negro no Brasil é também ter na pele, na mente, na alma e no coração as marcas da
história desse povo que é, antes de tudo, negro; é ter a força de não se deixar abater, é ter
sempre coragem pra lutar, é estudar para se fazer ouvir, é ter na arte um instrumento de
liberdade, é ter na tradição a imortalidade de seus ancestrais, é ter na natureza a razão de sua
existência, é ter confiança em suas divindades, é cultuar seus orixás, é conviver em famílias
– nucleares ou extensas, é ter orgulho do samba no pé, do sorriso no rosto, da resistência à
opressão, da criatividade, da inclusão, do colorido que povoa nossa pele; é sonhar que
nossas crianças não sofrerão preconceitos, é ter sensibilidade para ensiná-las o caminho do
respeito à diversidade.

Protagonismo
Sendo movimento social lutando pelos direitos da população, lá estava Joseni presente.
A comissão de menores em Ubaíra conta com a colaboração de Dodi, que percebe as dificul-
dades que as crianças da sua localidade tinham para estudar, assim, começou a dar reforço
escolar para os pequenos, mesmo sabendo que financeiramente eles não poderiam retribuir.
Os corações jovens sempre acabam sendo invadidos pelos sonhos antigos ainda não
alcançados. Jailton é um desses jovens com sonhos antigos de solidariedade e amor ao
próximo. Uma idéia se concretizou quando ocorreu a II Gincana Entre Ruas de Amargosa
para arrecadar alimentos, roupas, remédios e brinquedos que deveriam ser doados à popula-
ção carente da cidade. Também arrecadavam livros para as bibliotecas. Esse evento ocupou
alguns finais de semana de jovens, crianças e adultos que, participando de provas diversas
e brincadeiras diferentes, contribuíam para amenizar o sofrimento de muitas pessoas. Daniela,
com seus colegas e amigos, também faziam o possível para arrecadar o máximo de contri-
buições para ajudar pessoas de bairros humildes da cidade, mas ouvir lamentos e aflições a
angustiava, no entanto - e apesar do sentimento de impotência - jamais deixou de ser
generosa e participativa.

34 Caminhadas de universitários de origem popular


No Centro Sapucaia, Silmary e Vanessa ocupavam-se elaborando e contando histórias
para crianças do Timbó, localidade atendida pela ONG Sapucaia, que trabalha para preser-
var os recursos naturais de Amargosa e região.

Políticas afirmativas
Na estrada de chão, entre um carro e outro, só dava pra ver muita poeira com o Sol a
arder na cabeça. Em um dos carros que viajavam entre as cidades de Brejões e Amargosa, ia
uma picape D20 a carregar em sua carroceria três estudantes da UFRB, Iranildes, Robenilson
e Paloma, que não é bolsista. Essa realidade não era nada agradável, mas a motivação
mostrava-se tão grande que não os deixava desistir.
Essa situação findou quando Robenilson obteve a bolsa Conexões de Saberes, pois
ele passou a ter condições de manter-se em Amargosa. Não foi diferente com Naiara, Juliana,
Joana, Joseni e Rosiane.
Outros moravam em Amargosa, mas a família não tinha como dar subsídios para todas
as despesas que demandava os estudos na universidade, assim era para Daniela, Gerlan,
Simone, Vanessa e Esmeralcy. Já Silmary, Jailton e Tatiane não conseguiam conciliar traba-
lho e estudos acadêmicos, por esse motivo estavam numa situação difícil. Rosiane Rodrigues
perdeu o emprego assim que resolveu estudar, pois os horários coincidiam. Todos estavam
com dificuldades para continuar a graduação...
Vemos na roda de conversa nossas histórias encontrarem-se mais uma vez na UFRB, no
programa de políticas afirmativas, que visa não só a permanência qualificada do estudante na
graduação, mas prioriza a valorização e o reconhecimento étnico e racial como um dos funda-
mentos do Programa de Permanência da Pró-Reitoria de Políticas Afirmativas e Assuntos
Estudantis. O Programa Conexões de Saberes não oferece apenas um auxílio financeiro.
Antes de tudo, é uma oportunidade de um encontro mais profundo, verdadeiro e sincero
consigo e sua história. Muitos chegaram confusos: ‘‘eu coloquei na inscrição que sou pardo,
mas que cor tu achas que sou?” Ou: “sou afrodescendente, mas visivelmente parda!”Assim, a
confusão de pensamentos propagou-se, as discussões foram dando margens para que o reco-
nhecimento étnico-racial começasse a acontecer, já que eles vão muito além da cor da pele.
Como um indivíduo pode desenvolver-se sem reconhecer sua etnia? Porque a vergonha de ser
preto? Porque o medo das conseqüências que ser negro traz? Hoje, estamos em processo de
reflexão. As lágrimas tomam um novo sentido, os sonhos moldam-se e tomam novos horizon-
tes. Em nossos semblantes começa a surgir o orgulho que cresce dia-a-dia e a felicidade de
poder assumir o que somos, sem máscara nem disfarce, sem vergonha ou receio. O melhor
ficou para o final, que é mais um começo, para nós que nas políticas afirmativas encontramos
o suporte para uma permanência de qualidade na universidade. Enfim, os sorrisos estão che-
gando, os sonhos são grandes e a vontade de realizá-los ainda maior, o que dá razão para
muitas novas histórias de sucesso, determinação e superação de obstáculos.
As dezesseis mãos que assinam esse artigo são:
Daniela de Souza Sales (Dani), Esmeralcy Almeida Santos, Gerlan Cardoso Sampaio,
Iranildes Sales Bispo, Jailton Almeida dos Santos Barbosa, Joana Angelina dos Santos
Silva (Joaninha), Juliana de Jesus Santos (Juli), Maria Joseni Borges de Souza (Dodi),
Naiara Fonseca de Souza, Rosiane do Carmo Teixeira, Rosiane Rodrigues da Silva,
Robenilson Ferreira dos Santos (Rob), Silmary Silva dos Santos, Simone Santana da Cruz,
Tatiane Santos de Brito (Tati) e Vanessa Morais Paixão.

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 35


“Caminhando contra o vento”
Daniela da Silva Santos*

Meu nome é Daniela da Silva Santos, tenho 24 anos, nasci em dois de setembro de
1982, em Santo Antonio de Jesus, na Bahia.
Falarei de minha mãe. Seu nome é Sonia Maria da Silva Santos e teve três filhos: Ana
Paula, Luis Cláudio e eu, que sou a terceira. Não conheci meu pai e nunca tive meios para
procurá-lo e me aproximar dele.
A verdade é que eu tive uma vida “madrasta”, sofri muito, toda lembrança que tenho
de minha infância é de sofrimento e tristeza. Começarei o relato de minha história a partir de
lembranças remotas que marcaram muito a minha vida.
Minha mãe me levou muito cedo para a casa de uma de suas amigas, a qual não me
recordo o nome agora. Ela foi para Salvador, e eu tive de ficar morando com essa amiga dela.
Lembro-me muito bem que fiquei aos prantos,não entendia porque ela teria que se afastar
de mim. Os dias se passaram e senti muito a sua falta. Após alguns meses ela voltou, era uma
época de São João eu fiquei muito feliz de estar ao seu lado, mas o período de festas passou
e ela logo voltou para Salvador para trabalhar e novamente nos afastamos. Foi difícil segu-
rar, e o pior é que tive que sair da casa dessa amiga de minha mãe para morar com outra
amiga dela, que as pessoas chamavam de “dona Neném”.
Passei alguns anos morando na casa de dona Neném, ela é uma pessoa muito boa, pois
cuidava bem de mim, mas eu precisava de uma mãe, de uma família, pra me passar valores,
me ensinar as coisas da vida, enfim, precisava de um lar que me acolhesse e que fosse meu,
precisava sentir os pés no chão.
O período que fiquei na casa de dona Neném foi muito angustiante pra mim, ficava o
tempo inteiro na janela esperando minha mãe voltar, ficava na expectativa de que ela viesse
me buscar e sonhava com a possibilidade de morarmos juntas pra sempre; por mais dura que
fosse a minha realidade, eu, como criança, ainda tinha capacidade de sonhar com dias
melhores.
Depois de alguns anos na casa de dona Neném, fui surpreendida com a notícia de que,
a pedido de minha avó, eu iria morar com meu tio José e sua esposa Lucia, que eram então
recém-casados. Fiquei feliz, pois pelos menos iria morar com um parente, mas as coisas não
seguiram como eu imaginava. No início, quando fui morar na casa de meu tio José, tudo foi
bem, mas depois de algum tempo, sua esposa e eu já não convivíamos bem, isso porque ela
me maltratava muito. Eu ficava refletindo em alguns momentos, indagando o porquê de eu
sofrer tanto? Porque eu tinha que passar por todas essas coisas?

* Graduanda em Comunicação pela UFRB.

36 Caminhadas de universitários de origem popular


Toda experiência que passei no período na casa de meu tio José mexeu muito comigo,
hoje eu sou uma pessoa muito conflituosa, inconstante e insegura. Tenho medo da vida em
alguns momentos e em outros enfrento ferozmente os obstáculos que surgem diante de
mim, acredito que toda essa experiência que passei me tornou a pessoa que hoje eu sou, ou
como diria o filósofo francês Jean Jacques Rousseau: “O homem é fruto do meio”.
Sinto que às vezes sou muito exagerada quando conto a minha história de vida, mas
eu faço um auto-reflexão e me questiono se houve durante minha infância algum momento
feliz. A resposta é não, não tinha nenhum momento de felicidade, não sei como não morri de
tristeza; sei, contudo, que essa situação me fez ver o quanto fui e sou forte e persistente.
Fui à escola pela primeira vez aos dez de idade, pois eu não tinha documentos em
mãos que me possibilitassem a inscrição em um colégio atrás de educação formal. Até que
minha tia Rita se dispôs a ir ao cartório pegar a segunda via de minha certidão de nascimen-
to. Daí fui matriculada, esse era o meu melhor momento. Gostava muito de ir a escola, me
sentia alguém, só não gostava quando tinha que realizar trabalhos escolares: era preciso
comprar materiais e eu não tinha a quem recorrer. Eu observava que meus colegas tinham
pai e mãe, que por mais humildes que fossem fariam um sacrifício e comprariam materiais
pros filhos. Quanto a mim, não tinha a quem pedir.
Os anos passaram e cheguei à adolescência. Meus conflitos se acentuavam, eu perce-
bia que já não dava mais pra continuar morando na casa de meu tio José, pois minha
convivência com Lucia estava insuportável, daí eu resolvi que sairia de lá e moraria na casa
de minha tia Minusinha. Ela não queria que eu fosse, pois não tinha condições de me
sustentar, mas eu argumentei que não havia mais nenhuma possibilidade de conviver com a
esposa de meu tio.
Minha tia é uma pessoa muito boa, mas não podia fazer por mim o que eu realmente
precisava, porém eu fui seguindo em uma nova fase de minha vida. Quando fui morar com ela
tinha treze anos de idade e uma longa experiência de vida. Na escola eu estava indo mal, havia
perdido o ano e estava desolada, mas mesmo assim não desisti e prossegui minha caminhada.
Quando completei dezessete anos comecei a namorar o Joel, quando tínhamos um ano
e meio de namoro fomos morar juntos, e com dois anos juntos fiquei grávida de meu
primeiro filho: Joilson. Eu cursava o primeiro ano do ensino médio e, com o nascimento de
meu filho minha irmã Ana Paula foi morar comigo: ela tomava conta de Joilson pra que eu
pudesse estudar.
Quando eu estava no segundo ano fiquei grávida de meu segundo filho, o João Pedro.
Aí as dificuldades se acentuaram, mas eu não desisti. Com quinze dias de parida voltei às
aulas, no terceiro ano, e nos intervalos das aulas ia correndo pra casa amamentar meu filho.
Concluí o ensino médio e prestei meu primeiro vestibular para o curso de História, mas não
consegui aprovação. No ano seguinte me matriculei num cursinho pré-vestibular .
No início deste mesmo ano eu sofri uma grave decepção no meu casamento e estava
decidida a dar um novo sentido a minha vida, além de meus filhos: meus estudos. Prestei
vestibular pela segunda vez, mas também não passei.
Continuei me dedicando muito aos meus estudos e prestei vestibular pela terceira vez
para os cursos de Comunicação na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e Geogra-
fia na Universidade Estadual da Bahia. Consegui aprovação nas duas, fiquei feliz da vida,
pois parecia um sonho. Tenho muitos planos para o meu futuro e tenho grandes sonhos:
encontrar meu irmão, meu pai e escrever a minha história de vida em um livro.

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 37


Autobiografia
Daniela de Melo Oliveira*

Ei, psiu! Será que você me deixa ser seu anjo de guarda aqui na terra? Então leia minha
história e pense na sua...
Nasci em Nazaré, uma cidade próxima a Santo Antônio de Jesus, ambas na Bahia, por
que o médico que atendia minha mãe trabalhava naquela cidade por questões políticas.
Vivi parte da minha infância em na chamada Rua do Areal. Lembro-me bem de uma
professora que tive nesta rua onde morei. Ela tinha uma escola pequena, simples, perto de
minha casa e foi onde comecei a dar os primeiros passos em busca do conhecimento. A
professora Edite, como era chamada, era muito carinhosa e marcou muito minha vida, a
começar pelo jeito de chamar-me: Dade. Ela era uma negra bem forte e sempre com seu
lindo sorriso nos lábios, que nos fazia sentir vontade de ficar pertinho dela.
Com mais ou menos doze anos de idade eu e minha família mudamos para mais perto
do centro de Santo Antônio de Jesus. Continuei estudando nas escolas públicas perto de
minha casa, e a maior parte do ensino fundamental fiz no Colégio Estadual Francisco da
Conceição Menezes. Nesse colégio fiz boas amizades, tanto entre o corpo discente, como
também entre o corpo docente. Foi lá que me formei em magistério (curso preparatório para
formação de professores de 1ª a 4ª séries). Dez anos atrás, esse era o curso mais procurado
para quem queria ensinar, ou seja, formar-se e logo trabalhar. Esse curso também era o que a
maioria das famílias de baixo poder aquisitivo estimulavam seus filhos a fazerem, pois a
maioria delas não podia encaminhar seus filhos para estudarem fora.
Os meus pais, não sei se pelo grau de instrução que era muito baixo, pois meu pai só
sabia assinar o próprio nome e minha mãe estudou na roça apenas até a 3ª série, não me
incentivaram a continuar meus estudos. A única pessoa da família que faz um curso de nível
superior sou eu, a caçula da família.
Mas hoje entendo que meus pais não me incentivaram a estudar porque quisessem,
mas porque eles não tiveram esse tipo de incentivo, pois tiveram que batalhar desde muito
cedo. Meu pai foi caminhoneiro até o dia que Deus o levou e a minha mãe sempre foi dona-
de-casa e costureira, exercício que aprendeu com as tias, pois minha avó morreu ainda
quando ela era bebê.
Formei-me e, depois de ensinar por muito pouco tempo, fui trabalhar no comércio, que
era a única saída para arrumar emprego. Contudo, dentro de mim existia uma força que
queria fazer-me movimentar, ou seja, eu não estava satisfeita profissionalmente e precisava
continuar estudando.

* Graduanda em Enfermagem pela UFRB.

38 Caminhadas de universitários de origem popular


Em um belo dia comecei a namorar um rapaz de nome José Fidelis. Nós trabalhávamos
juntos em um escritório de seguros e, com pouco tempo de serviço e pouca maturidade,
fiquei grávida: aí, tudo complicou para mim, pois atrasou mais ainda meus estudos. O pior
de tudo é que nem sabíamos se realmente queríamos ficar juntos, pois tudo tinha aconteci-
do abruptamente. Fomos morar num bairro bem distante do centro e comecei a perceber que
estava sozinha, apesar de estar casada. Ele não ligava para mim, não me tratava bem, apesar
de ser sempre um pai amoroso. Segundo as normas da empresa onde trabalhávamos, não
podia trabalhar junto quem fosse parente, então eu resolvi sair e deixá-lo trabalhando.
Resumo: eu e o pai de Gabriella Merícia, minha filha, vivemos cinco mal vividos anos
juntos. No entanto, no dia 19/04/2003 ele veio a falecer, vítima de um acidente automobi-
lístico. Eu sofri muito, pois pensava e lembrava no amor que Fidélis e Gabriella dispensa-
vam um ao outro. Aos poucos fui tentando tirar forças da fé que tenho em Deus e que a cada
dia aumenta mais.
Desempregada e vivendo na casa de minha mãe, comecei a fazer artesanato para
vender. Depois tive a brilhante idéia de dar aulas em minha casa. Com o tempo comecei a
fazer um curso para prestar concurso para Polícia Militar da Bahia e foi através deste curso
que me chamaram para ministrar aulas de reforço escolar para alunos de 1ª a 8ª séries. E foi
a partir desta experiência de dar aulas que adquiri bagagem para passar, em 2007 no vesti-
bular para Enfermagem na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), no campus
de Santo Antônio de Jesus. Um curso lindo, pelo qual a cada dia me apaixono mais. Também
passei no mesmo ano para o curso de Geografia na Universidade Estadual da Bahia (UNEB),
porém optei por Enfermagem.
Eu não posso reclamar de nada. Deus me deu um grande presente que eu não sabia que
era possível que acontecesse. Hoje estudar em uma universidade pública é um sonho e
ainda ganhei mais um lindo presente, que é fazer parte de um grupo tão acolhedor quanto o
grupo do Programa Conexões de Saberes. Fazer parte do Conexões é saber a cada dia que
pessoas passam por muitos problemas e que acham que não vão chegar onde eu cheguei.
Por isso, precisam do meu apoio e saber que é só acreditar em nós mesmos e lutarmos para
conquistarmos o nosso espaço na sociedade.

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 39


Memorial
Deraci Souza dos Santos*

Nasci em oito de abril de 1987, em Santo Antônio de Jesus, filha de Aládio Fagundes dos
Santos com Clara Souza dos Santos, já falecida. Sou a última de onze filhos de pais lavradores
e semi-analfabetos. Sem condições financeiras favoráveis, meu destino parecia previsível.
Meu nascimento e sobrevivência foram difíceis, pois minha mãe, além de estar em idade
avançada para ter uma criança, apresentava problemas de saúde. Então, quando nasci, o
médico logo advertiu que eu não passaria mais que semanas viva, mas como é preciso ir contra
as determinações que nos limitam, agora estou tentado contar um pouco da minha história.
Passei minha infância em localidade conhecida com Fazenda Congonha, na zona
rural de Varzedo. Lá meus irmãos precisavam caminhar uma distância de aproximadamente
4 km para chegarem até a escola, por isso, todos desistiram de estudar e saíram de casa para
trabalhar, devido também às condições financeiras.
Quando completei oito anos, minha família se mudou para o Povoado do Cruzeiro –
na zona rural de Laje – lá comecei a minha vida escolar. Estudei sempre em escolas públi-
cas, e sou mais alguém que teve que “correr atrás” para superar as marcas deixadas por um
ensino deficiente. Lembro que das dificuldades no curso pré–vestibular, a pior delas, era a
angústia em pensar que tanto esforço poderia culminar em apenas uma tentativa frustrada.
Quero ressaltar um fator importante em minhas conquistas: a FÉ. Esta me sustenta e me
impulsiona a continuar lutando por meus desejos. Em um mundo real e baseado na razão, a
presença de um Deus sobrenatural foi essencial para a realização de sonhos que vão além daqui.
É bom falar do relevante papel de uma importante instituição na vida de alguém: a FAMÍLA.
Quando tinha treze anos minha mãe faleceu e, com o tempo, percebo quão grande foi esta perda!
Possuía um vínculo muito grande com ela. Atualmente, reconheço meu pai, meus irmãos e
amigos - que considero como família - como atores também responsáveis por minhas vitórias.
Completei o ensino médio e comecei a estudar em um curso pré-vestibular de cunho
social que era uma oportunidade única!!! Então prestei vestibular para História na Univer-
sidade Estadual da Bahia (UNEB) e para Psicologia na Universidade Federal do Recôncavo
da Bahia (UFRB) e fui classificada em ambas.
Escolhi cursar psicologia na UFRB porque é uma universidade federal, que prepara os
melhores profissionais para atuar em diversas áreas. Até então, conhecia muito pouco de
psicologia, e o que me fez optar por este curso foi a possibilidade de desempenhar um
trabalho que suprisse não apenas minhas necessidades materiais mas que permitisse um
contato humanizado com as pessoas, poder entendê-las e participar dos processos de “trans-
formação” social, mudando de vida, superação de traumas.
Sou a primeira em minha família a ingressar em um curso superior de graduação e isso
é uma grande vitória; não é o final, mas o início de uma outra caminhada em que deverei
superar limites. Permanecer na faculdade é ainda um grande desafio, porém um importante
passo foi dado e atualmente faço parte do programa de permanência na faculdade, na qual
contribuirei para que outras pessoas lutem contra as determinações sociais que os limitam.

* Graduanda em Psicologia pela UFRB.

40 Caminhadas de universitários de origem popular


Quem sou eu?
Edilon de Freitas dos Santos*

Um dia você foi inscrito para participar do


maior concurso do mundo, da maior
corrida de todos os tempos. Acredito, você
estava lá! Eram mais de quarenta milhões
de concorrentes. Pense nesse número. Todos
tinham potencial para vencer e só um
venceria. Será que você era um número na
multidão ou tinha algo especial?
Augusto Cury

Para mim foi um susto quando soube da possibilidade de escrever um memorial. Não
me é nada confortável falar da minha vida, mas vamos lá.
O meu nome é Edilon de Freitas dos Santos, brasileiro, nascido em Cachoeira, na
Bahia e resido desde criança em Conceição da Feira. Tenho dois irmãos, Elane e Marlon,
que são filhos de pais distintos. Tenho dezenove anos de idade.

Sobre minha mãe

...mas é preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana,
sempre, quem traz no corpo a marca, Maria, Maria, possui a
estranha mania de ter fé na vida...
Milton Nascimento e Fernando Brant

Eu não poderia começar a relatar minha trajetória de vida sem primeiro citar a pessoa
responsável por grande parte do que sou – minha mãe, Maria da Paixão Suzart de Freitas.
Ela desde muito cedo enfrentou a vida praticamente sozinha. O pai da minha irmã, Elane,
nunca ligou muito pra lá. Só dava pensão quando queria, e quase nunca queria.
O meu pai, esse praticamente não conheço. Só o vi uma vez em toda a minha vida,
devia ter mais ou menos nove anos. Consigo lembrar-me com requinte de detalhes como
tudo aconteceu. Eu estava voltando da escola, quando minha avó paterna me interceptou
para informar que meu pai estava para chegar no final de semana. Na hora fiquei sem reação.
Em minha cabeça houve uma briga dos mais extremos sentimentos: amor, ódio, enfim,
fervia um turbilhão de sensações.

* Graduando em História pela UFRB.

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 41


No entanto, minha mãe - apesar do abandono do meu pai em relação a mim - nunca
estimulou sentimentos negativos meus em relação a ele. Então decidi vê-lo, escutar suas
explicações, seus pedidos e aceitá-los. Mais uma vez decepção total. Ele veio conversar
comigo cheio de autoridade e, ao invés de dar-me um grande abraço, quis saber como ia
na escola.
O fato é que essa foi a primeira - e talvez última vez - que pude estar cara a cara com
o homem que afirma ser meu pai e que, por mais incrível que pareça, me registrou como
seu filho.
No final de 2006 ele ligou para mim se colocando à disposição para procurá-lo, sempre
que precisar. Achei sua intenção nobre. O único problema são dezenove anos de atraso.
De fato, não conheço o significado da palavra “pai”. Já minha mãe, a essa serei grato
para o resto da vida, nunca conseguirei retribuir tudo o que ela fez por mim. Faltam-me
palavras para descrever uma pessoa que abdicou da própria vida pessoal em troca de propor-
cionar uma vida honrosa para mim. Lembro-me de suas insônias quando faltava algo para
mim e meus irmãos, lembro-me também de sua alegria pelas minhas conquistas. Para mim,
essa pessoa interpretou com mais exatidão a palavra “mãe”.

A primeira escola
Depois de um breve período na creche Mimos da Tia Lena, a qual não me adaptei, fui
matriculado na Escola Cantinho do Saber. Lá estudei dos três até os oito anos de idade.
Durante esse tempo fui muito bem alfabetizado, vivi inesquecíveis momentos. Até hoje
tenho vários amigos dessa época.
Foram vários acontecimentos especiais, recordo-me com mais intensidade de quando
participei da formatura do ABC. Ainda hoje consigo buscar em minha memória a imagem
nítida. A diretora da escola colocando o anel no meu dedo, minha professora vibrando
juntamente com minha mãe, que se derramava em lágrimas na platéia. Lembro dos ensaios
para a valsa dos debutantes, posso inclusive ver diante de meus olhos a decoração do salão.
Consigo escutar a música cantada em coro por nós.

Este ano quero paz em meu coração, quem quiser ter um amigo,
que me dê a mão. O tempo passa, e com ele caminhamos todos
juntos, sem parar, nossos passos pelo chão vão ficar,
marcas do que se foi, sonhos que vamos ter...”
Os Incríveis

Ensino fundamental
Escola Estadual Hérlio Mascarenhas Cardoso, essa foi a escola onde fiz quase todo
meu ensino fundamental. Quase porque comecei lá a partir da segunda série. Este ambiente
para mim foi além do meramente escolar. Tive oportunidade de conviver com professores
que foram muito mais que simples orientadores acadêmicos, mas também pessoas que esti-
mularam meu crescimento moral.
Não tenho conhecimento da atual situação desta escola, no entanto, quando era mem-
bro do corpo discente dela a percebia como uma “grande família”.

42 Caminhadas de universitários de origem popular


Talvez precocemente foi lá que, durante a sétima série, decidi o que queria como
profissão para o resto da minha vida. Confesso que essa decisão foi bastante influenciada
por um professor por quem tenho bastante admiração. Quanto ele chegava para dar aulas
podia sentir o prazer, o regozijo com que ele desempenhava sua função. Professor Joaquim
foi um dos “culpados”, por eu estar encarando uma graduação em História. Um dos culpa-
dos porque, mais tarde, durante o ensino médio, tive um exemplo semelhante novamente
com professor de História. Desta vez foi a professora a Ana Maria, essa foi muito mais que
regente da disciplina, fez-se mestra na arte de lecionar.

Ensino médio
Fiz todo o meu ensino médio no Colégio Estadual Yêda Barradas Carneiro, concluí
em 2005. Essa fase foi bastante comum, o que não quer dizer irrelevante, pois como já
relatei, foi neste contexto que confirmei o desejo que tinha de me graduar em História, mais
precisamente durante o primeiro e o segundo anos em que estudei com Ana Maria.
Entre as experiências que tive com a professora desta disciplina, algumas foram gra-
ves e constantes, pois não aceitava alguns comportamentos dela como docente. Batia sem-
pre de frente com ela. Mas sempre fui de deixar os problemas acadêmicos dentro dos muros
do colégio e fomos bons amigos.

O caminho até a UFRB

A gente quer ter voz ativa, no nosso destino mandar, mas eis que
chega roda viva e carrega o destino para lá..
Chico Buarque

Quando concluí o ensino médio estava meio sem perspectiva acadêmica, pois já tinha
decidido que, diante das dificuldades econômicas pelas quais minha família vinha passan-
do, era melhor eu procurar um trabalho e, consequentemente, deixar de lado meu grande
sonho, que era entrar para a universidade pública.
Assim fiz, e logo no início de 2005 recebi proposta para trabalhar informalmente
como cobrador do transporte alternativo que faz a linha Conceição da Feira/Feira de Santana-
BA. Não sei se por obra do acaso ou vontade divina, fato é que mesmo tentando distanciar-
me do meio acadêmico, esse trabalho me colocava em constante contato com ex-professo-
res, que me faziam sermões e sermões por eu ter me acomodado.
Os professores não sabiam do sacrifício que eu fazia para me convencer e aceitar
naquele momento que eu tinha mesmo é que me encaixar logo no mercado de trabalho.
Neste conflito fui até o meio do ano, quando soube de um pré-vestibular comunitário
e resolvi encarar a dupla jornada. No entanto, fisicamente para mim tornou-se insustentá-
vel, pois meu trabalho começava às 5:00 da manhã e ia até horário indeterminado. Após três
semanas, desisti definitivamente do pré-vestibular.
Resolvi fazer o exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). Obtive uma média boa, então
me inscrevi para concorrer a uma bolsa do programa PROUNI (Universidade para Todos).
Um dia encontrei uma pessoa que tem uma parcela enorme de responsabilidade no
fato de hoje esta na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). A minha grande
amiga Joana, que em uma conversa onde eu falava das minhas dificuldades, ela me falou da

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 43


nova universidade que havia se instalado no Recôncavo e que já estava aberto o processo
de isenção da taxa do vestibular. Então eu corri para conseguir a isenção, me inscrevi para
o vestibular e o fiz, pra História.

A melhor surpresa da minha vida


Saiu o resultado da seleção para a bolsa do PROUNI. Eu não podia acreditar: consegui
uma bolsa integral para Administração de Empresas, numa instituição particular, a Faculda-
de de Tecnologia e Ciências (FTC). Com alguns dias saiu o resultado da federal. Pensei que
era ilusão de ótica, não podia, como é que eu, sem pré-vestibular e de primeira, podia passar
numa federal. Felizmente não foi ilusão, realmente um rapaz de origem humilde havia
conseguido. Eu me senti o cara mais feliz do mundo.
Agora na universidade, o primeiro momento foi um “choque”, tudo fascinante, mais
surpreendente do que imaginei. Tenho plena sobriedade e entendo o importante papel
social que assumirei. Papel por vezes de protagonista, por vezes de coadjuvante, mas sem-
pre de forma conjunta tentando transformar a minha realidade e a de todos à minha volta.

44 Caminhadas de universitários de origem popular


Memorial
Edimilson Pereira dos Santos da Silva*

Sou Edimilson Pereira dos Santos da Silva, 24 anos, moro em Cabaceiras do Paraguaçu-
BA, terra natal do poeta Castro Alves, que lá nasceu em 14 de março de 1847, em uma fazenda
da região. Gosto de realçar esse fato porque as manifestações culturais acerca dessa data
tiveram importante influência em minha vida, desde a minha infância. Essa é uma das datas
mais festivas do meu município, levando em conta que estudei todo o ensino médio em
escolas que tinham relação direta em preservar a memória do poeta, através de diversos con-
ceitos e empreendimentos realizados pela escola. Tempos marcantes, tanto que posso me
recordar de um trecho do poema de Castro Alves (Navio Negreiro) que diz assim:

Senhor Deus, dos desgraçados!


Dizei – me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... Se é verdade,
Tanto horror perante os céus...
Ó mar! Por que não apagas
Co’a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?...
Astros! Noite! Tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!
Castro Alves

Reflito também todos os desafios em minha trajetória de vida dentro e fora da escola.
Posso dizer que sou de comunidade popular e filho de agricultores que fizeram bas-
tantes esforços para a minha permanência na escola, apesar das dificuldades enfrentadas.
Retrato original, pode-se dizer, de toda a comunidade da região, e apesar de minha mãe e
meu pai trabalharem duro na lavoura de milho, feijão, fumo, mandioca etc, eu freqüentava
a escola e começava a visualizar os horizontes do mundo letrado.
Portanto ricos e pobres só se assemelhavam em uma só vertente subjetiva: no pensamento
de que a fuga da pobreza, a solução econômica, social e profissional se dá através da educação.
Minha relação com a comunidade onde vivo é bastante harmônica, me relaciono bem
com meus pais e amigos, gosto de praticar esportes, meu preferido é o futebol, o principal
esporte da região.
Sempre que posso estou presente em eventos religiosos da Igreja Católica, no entanto
a religiosidade da minha comunidade é diversificada e tem abrangência também para o
Protestantismo e o Candomblé.

* Graduando em Engenharia Agronômica pela UFRB.

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 45


Concluí todo o ensino médio profissionalizante (magistério), na rede pública de
ensino; municipal e estadual consecutivamente.
Os obstáculos tiveram uma proporção de aumento gradativo ao longo dessa árdua
jornada, mas a força de vontade foi e está sendo a força motriz para estar hoje na Universi-
dade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), onde curso Agronomia.
Durante todo o período colegial tive a oportunidade de me inserir em alguns grupos
de incentivo, me instruí e busquei informação sobre diversos problemas, inclusive sobre
doenças epidêmicas que assolavam a comunidade desta região, participei de grêmios estu-
dantis e gincanas, isso também é algo para se lembrar. Além disso, sempre procuro estar
informado sobre alguns programas de melhoria social implantados em meu município,
sejam eles programas de governo ou não; o importante é que essa interação nos proporciona
aprender muito, tanto na teoria quanto na prática, trazendo maior engajamento social atra-
vés de maior relação com a sociedade.
Sobre todos esses períodos que relatei dou enfoque para uma frase que diz: “quando
evoluímos, evolui também tudo que está à nossa volta”. Desconheço o autor dela. Visualizo
que o homem é um ser de vivência coletiva e, desapropriado de seus recursos básicos,
utiliza diversos esforços para sua permanência no espaço geográfico.
Pois essa situação gera um conjunto de aspectos da vida material e cultural em que
cada civilização desenvolve suas características próprias. Dentre esses aspectos a escola
tem um papel mediador que instrui o indivíduo a ser construtor do meio social, tendo em
vista normas e patamares a seguir.
Partindo daí o homem sempre irá buscar em cada estágio de seu desenvolvimento o
mais alto grau de sua evolução. E evoluir é nos despimos da condição de “homens primiti-
vos” e ditarmos raízes na sociedade moderna. Porque o homem contemporâneo modifica
constantemente seus padrões de vida; claro que acoplado com o avanço tecnológico, por
isso há a necessidade de mudança para adequar-se a essa evolução.
A universidade, na minha perspectiva e concepção é mais uma amplitude desse espa-
ço, onde para transformamos idéias e criações; utilizamos um fundamental artifício que é a
ciência (uma intrincada teia de conhecimentos) com base no principio ético e moral.

46 Caminhadas de universitários de origem popular


Em busca dos sonhos
Ednólia Oliveira dos Santos*

Sou filha de Antonio Gonçalves dos Santos e Honorina Oliveira dos Santos. Nasci em
11 de março de 1978, em uma pequena fazenda dos patrões dos meus pais na Mata das
Covas, zona rural de Amargosa-BA, onde meu pai trabalhava como vaqueiro e minha mãe
cultivava a terra. Sou a quarta filha de uma família de quatorze filhos, sendo que três
morreram ainda pequenos.
Tive uma infância com poucas oportunidades de brincar com os amigos, pois meu pai
era muito rigoroso. Meu maior sonho era ganhar uma boneca de cabelo grande, pois eu
tinha os cabelos curtos e crespos e, por isso, sofria alguma discriminação na escola. Não sei
ao certo o motivo desse desejo. Seria uma forma de chamar a atenção das pessoas pelo fato
de elas só valorizarem cabelos lisos e grandes?
Estudei até a 2ª série do ensino fundamental numa escola municipal onde nasci.
Recordo-me claramente da minha primeira professora, que por sinal era muito carinhosa e
chama-se Celice.
Quando completei onze anos, meus pais deixaram essa fazenda e compraram um
pequeno pedaço de terra no Timbó, também zona rural de Amargosa. Lá, iniciaram a agri-
cultura. Eu e meus irmãos, que até então éramos seis, sempre trabalhamos ajudando nossos
pais: acordávamos cedo e passávamos o dia inteiro no Sol quente. Mesmo assim o dinheiro
nunca era suficiente.
A vida no campo é muito difícil, pois seus moradores são esquecidos e discriminados
por todos. Falta dinheiro e investimento para garantir a sobrevivência e a permanência
nesse espaço.
Eu não desejava aquele sofrimento para o futuro, queria mudanças, porém sabia que
para isso acontecer eu tinha que estudar. Ali o acesso à escola era difícil e assim resolvi ir
para a cidade trabalhar na casa dos ex-patrões dos meus pais, com apenas treze anos. Sofri
muito por deixar meus familiares.
Aí aconteceu uma etapa importante da minha vida: ambiente novo, família distante,
tarefas a cumprir. No começo foi muito duro, mas com o tempo, tudo foi se acomodando,
pois tinha encontrado uma segunda mãe: a querida professora Lygia, a pró Lygia (como
carinhosamente todos a chamam) que logo cuidou de me levar ao médico, pois eu era uma
criança doente, que necessitava de cuidados.
Aos quatorze anos voltei a estudar, depois de quatro anos fora da escola. Estudava no
turno matutino e fazia as tarefas domésticas à tarde. Fiz 3ª e 4ª séries nas Escolas Reunidas

* Graduanda em Letras pela UFRB.

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 47


Almeida Sampaio; já de 5ª a 8ª, na Escola Estadual Santa Bernadete e o Ensino Médio no
Colégio Estadual Pedro Calmon. Foram muitos anos de sacrifícios e trabalho também.
Encontrei amigos maravilhosos e inesquecíveis como Elâne, Jemile, Jirlene, Silvando,
Virgílio e outros. O meu sonho era tornar-me professora da Escola Mundo Encantado, que
era da minha patroa-mãe, pró Lygia.
Imagine o quanto seria gratificante para minha família ter uma filha professora daque-
la escola tão famosa na cidade. Concluí o ensino médio no ano de 2000. Tive um professor
de Didática no 1º ano que marcou a minha vida. Ele sempre incentivava muito os seus
alunos a continuar os estudos e nos acompanhou até o 3º ano. Seu nome é Fábio Josué.
Depois fui morar na casa da família fantástica da minha amiga Elâne e comecei a
trabalhar como auxiliar de classe nessa escola que tanto sonhava ser professora. Em 2002,
voltei para casa da pró Lygia e comecei a lecionar na 3ª série do ensino fundamental.
Sonho realizado! Quanta alegria! Porém os empecilhos começaram a surgir, pois os
pais dos alunos não acreditavam que eu seria capaz de conduzir aquela turma, já que no ano
anterior eu era auxiliar de classe do maternal. A pró Lygia sabia o que estava fazendo, pois
sempre acompanhou meus estudos, sempre me incentivava e sabia que eu era capaz. Conti-
nuei e desenvolvi bem o meu trabalho, no final do ano fui elogiada pelos próprios pais.
Quando essa turma concluiu a 4ª série, fui convidada para ser madrinha de formatura. Con-
tinuei ensinando na 3ª série durante cinco anos, sempre tendo um bom relacionamento com
os meus pequenos. Eles gostavam tanto de mim que faziam a maior propaganda da pró
Dinha, como carinhosamente me chamavam.
Mesmo trabalhando, na medida do possível, fazia leituras extras para o vestibular. Em
2004, tentei meu primeiro vestibular e não passei. Fiz um ano de cursinho, mas o tempo não
era suficiente para me dedicar. Tentei novamente em 2005 e 2006, também sem sucesso.
Porém não desisti. Nesse último ano conheci Gilvânio, começamos a namorar. Ele fazia o 3º
ano do ensino médio e combinamos estudar juntos nos fins de semana. Sempre tentei vestibu-
lar para Letras Vernáculas na Universidade do Estado da Bahia (UNEB), em Santo Antônio de
Jesus, pois sempre tive afinidade com Português. Mas meu maior sonho era fazer Psicologia.
Como era um curso que só existia em cidade grande, eu achava um tanto quanto difícil
conseguir; além de não gostar de lugares grandes, não tinha condições de me manter lá.
Quando a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) nasceu, trazendo
para Santo Antônio de Jesus o curso de Psicologia, meu sonho renasceu, apesar de ter muito
medo de encarar o vestibular numa universidade federal. Então resolvi fazer o vestibular da
UFRB e também na UNEB para Letras, juntamente com o meu namorado, que havia decidi-
do também fazer Letras por gostar muito da literatura brasileira.
Quanta alegria! Passei na federal e nós dois passamos na UNEB. Presente triplo!
Valeu a pena!
Em 2007, nova etapa, novos sonhos, mudanças, outros obstáculos: perdi meu empre-
go, pois não dava para conciliar trabalho e estudo. Deixei minhas amorosas crianças e mais
uma vez a pró Lygia apoiou-me, sabia que eu faria falta naquele ambiente, mas deu-me toda
força necessária e disse: “vá em busca de seus sonhos”.
E agora, como ficaria minha vida? Como continuar estudando sem emprego, sem
ajuda financeira da família, pois ela não tem condições de me ajudar? Inscrevi-me no
Programa Conexões de Saberes e fui contemplada. Estou super feliz, terei um ano de bolsa
de estudos, vou poder permanecer aqui e incentivar outros jovens. Os anos seguintes? Não

48 Caminhadas de universitários de origem popular


sei o que irá acontecer. Quero continuar estudando. Alguns sonhos já foram realizados,
outros estão a caminho.
Não vou desistir! Meus pais continuam lá no campo fazendo as mesmas atividades de
sempre e eu estou aqui a lutar. Sou a única filha que está numa universidade e tenho a
esperança que meus três irmãos menores cheguem onde estou e que milhares de outras
pessoas também não parem no meio do caminho, pois tudo é possível para aqueles que
crêem e não desistem.

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 49


Minha trajetória de vida
Eliana Souza dos Santos*

Sou de uma família simples e humilde toda oriunda do interior (zona rural) da Bahia. Meu
pai, Cornélio, nasceu e cresceu no povoado conhecido como fazenda das Corocas, em Entre
Rios, onde aprendeu desde muito cedo a lidar com a lavoura. Não teve tempo de ir à escola,
apesar de seu maior desejo ser aprender a ler: só aprendeu a assinar o nome e fazer contas.
Já a minha mãe, Edileuza, nasceu em Itanagra e cresceu em Araçás, localidade próxima a
Entre Rios, onde estudou até a 6ª série do ginásio. Sempre fez pequenos bicos para ajudar nas
despesas de casa, com uma família grande (minha avó teve dezenove filhos). Ela fazia cabelo (a
ferro), unhas, lavava roupa de ganho (para fora), fazia faxina, vendia na feira... tudo para ajudar.
Surgiu em Araçás uma empresa de construção onde meu pai trabalhava como ajudan-
te. O destino fez com que minha mãe fosse lavar a roupa desses rapazes, então numa dessas
entregas de trouxa de roupas Edileuza conheceu Cornélio. Começaram a namorar e pouco
tempo depois ela ficou grávida.
Minha mãe passou uns dias na casa de uma tia, Leli, até o a época do meu nascimento.
Após um fim de semana com muitas dores, na manhã da segunda-feira, 12 de novembro de
1984, na maternidade Ticila Balbino, nasceu Eliana Souza dos Santos. Como a vida no
interior não é fácil, após esse momento lindo que foi o meu nascimento “painho e mainha”
resolveram se mudar para Salvador, para assim eu ter um futuro melhor do que o deles.
Como começar a vida numa nova cidade? A primeira moradia deles foi uma casa de
lona preta numa invasão denominada Bate Coração, no bairro de Paripe. Nessa época eles
possuíam as roupas, um fogareiro de uma boca, uma cama de campanha, dois pratos, dois
talheres, dois copos e a “cara e a coragem”. Como era mês de junho e fazia muito frio, pela
primeira vez minha mãe se desligou de mim e eu fiquei na casa de tia Leli. Ela arrumou um
trabalho como doméstica e meu pai de ajudante de caminhoneiro. Passaram-se quinze dias
neste barraco até conseguir comprar um quarto-e-sala de taipa no mesmo lugar.
A vida começou a se ajeitar: eu ficava na casa de tia Leli com os meus primos Antonio
Marcos e Patrícia e meu padrinho Manuel. Nos fins de semana ia ver meus pais, até que, depois
de quase três anos nessa toada, mudamos para uma casa maior, já com mainha grávida. Eu já
freqüentava uma banca - que equivale a aulas de reforço escolar, mesmo não tendo ainda
começado a estudar - que a vizinha dava, pois era muito “arteira” e só ficava quieta indo para
lá. No dia 17 de março de 1989 nasceu meu irmão Jamerson e, como eu era a “princesinha da
casa”, tudo mudou: tive de aprender a dividir a atenção, o amor e o carinho de todos.

* Graduanda em Museologia pela UFRB.

50 Caminhadas de universitários de origem popular


Como aos quatro anos eu já era esperta o bastante, meus pais me puseram na Escolinha
Tia Liliane, no bairro da Plataforma, porque com o nascimento do meu irmão meu pai
resolveu mudar para um lugar melhor.
Estudei em outra escola até a alfabetização, o Jardim de Cristo. Um fato interessante
foi que aos seis anos (louca para ler tudo e qualquer frase) eu saí com minha mãe para fazer
compras, mas só que quando a gente saía ela dizia: “Vou comprar isso, não tenho dinheiro
pra comprar nem água, então não me peça nada porque não vou te dar e não faz escândalo”.
Aí eu ia toda feliz e não pedia nem para fazer xixi, só que desta vez foi diferente. Paramos em
frente a uma banca de jornais e vi uma revista em quadrinhos do Chico Bento. Fiquei
alucinada, mainha disse que me daria só quando eu soubesse ler, pois eu soletrava, mas
insisti tanto e ela comprou. Eu aprendi a ler em três dias: dormia, acordava, comia e tomava
banho com a revista do lado.
Me alfabetizei naquele ano. Meu pai resolveu mudar de bairro de novo e fomos morar
numa ocupação com o nome de Nova Constituinte, no bairro de Periperi, comunidade
popular que não possuía saneamento básico nem água encanada. Fui matriculada na Escola
Comunitária Nova Constituinte, que ficava a quase meia hora de casa. Quando chovia
virava um verdadeiro lamaçal e eu tinha de colocar meus pés num saco plástico; ao chegar
lá a professora lavava os meus pés. No ano seguinte a escola fechou e fui transferida para a
Escola Cleto Araponga, onde estudei até a 4ª série e que ficava a quase uma hora e meia à pé
da minha casa. Como não gosto de perder aulas, ia debaixo de chuva ou sol.
Depois desse sofrimento morei na casa de minha madrinha Zélia por quase nove
meses, por que Periperi era perigoso: fomos assaltados em casa, minha mãe ficou com medo
e minhas tias resolveram que era melhor morarmos em Águas Claras, perto dos nossos
parentes. Nessa época cursava a 5ª série no Colégio Renan Baleeiro, que é literalmente em
frente a casa de minha tia. Meu pai comprou um terreno no final de linha de ônibus de
Águas Claras, construiu nossa casa e logo após descobriu que ele fora picado pelo barbeiro
e tinha o Mal de Chagas.
Meu pai fez o tratamento no Hospital das Clínicas, e como eu morava próximo do
ponto final da linha de ônibus do bairro, todo fim de semana eu ia visitá-lo. Painho passou
a tomar remédios controlados, alguns eram doados e outros comprados.
Terminei o ensino fundamental e parti para o ensino médio. No sorteio de vagas, a escola
que caiu para eu estudar foi o Colégio Estadual da Bahia – unidade central. Surgiu a preocu-
pação de como iria estudar, pois teria de pagar ônibus, e, com meu pai doente, a situação
estava crítica. Então comecei a vender doces em casa e brigadeiros na escola, a fazer pesquisa
escolar manuscrita (acabei com tendinite)... tudo para ter o dinheiro do transporte.
Em 2001 ocorreu uma greve escolar enorme e eu, pela primeira vez, perdi o ano letivo.
Tive de repetir tudo, fiquei triste mas meus pais me apoiaram. Estava no 3º ano.
Quando estava no 3º ano, em 2003, aconteceu algo inesperado: meu pai sofreu um
derrame em 19 de julho, sobreviveu até 7 de agosto e faleceu nos braços de minha mãe. A
tristeza abalou a nossa família, agora resumida a mainha, eu e Jamerson.
Minha maior lembrança dele era quando dizia: “como ovo com farinha mas eu formo
a Eliana, ela vai ser doutora”. Tudo que ele queria para si depositou em mim, tendo orgulho
da minha capacidade.
Por isso que desde então me esforço para ter uma graduação no curso que adoro,
Museologia. Fiz vestibular em outras instituições particulares e públicas, fui aprovada em

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 51


particulares, mas como não tenho condições de pagar nem era o que eu queria, nunca fiz
matrícula.
Ao saber da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), resolvi me inscre-
ver. Fui aprovada, só que surgiu um grande problema: não tenho parentes em Cachoeira e
isso dificultaria cursar Museologia. Mas como existe Deus, surgiram dois anjos na minha
vida: Agnaíldes e Vera, que me acolheram em sua casa sem me conhecer direito.
Saí de casa para estudar, deixando meu quarto, minha família, minha vida, mas está
valendo a pena. Estou em Cachoeira e, quando retornar, estarei realizada.
Com a minha graduação desejo atuar na área de pesquisa e documentação de uma
instituição, atrás do reconhecimento profissional. Desejo fazer pós-graduação em História
da África (um assunto que tenho curiosidade em conhecer profundamente), quero fazer
cursos de especialização na área de restauro.
Tenho de agradecer a Deus e a todos que me ajudaram a ser a primeira pessoa da família
a ser universitária, em especial a tia Leli, tia Esperança, tia Didi, tia Regina, tio Chico, tio João,
tio Antonio, tio Pedro, tio José, minhas madrinhas Ene e Zélia, meu padrinho Manuel, aos
meus primos e primas, a seu Luiz e dona Raimunda (pelos conselhos), Nilza e Helena (por me
ajudarem a segurar a barra e a chorar, quando precisava), a Jamerson, Gilmar, Irani e a todos
que sabem o quanto eu os amo.
Eu dedico tudo o que eu fiz, faço e vou fazer a painho (in memorian) e a mainha.
Também não posso esquecer do meu maior tesouro, que é Tamires, minha afilhada. Minha
vida simplesmente se resume ao modo em que fui criada, humildemente, e como vou
transformá-la após minha participação no Programa Conexões de Saberes e na UFRB.

52 Caminhadas de universitários de origem popular


Trajetória da conquista de um sonho
Emanuel Silva Andrade*

Logo quando comecei a freqüentar a escola, com uns seis anos de idade, numa comu-
nidade da zona rural de Maragogipe-BA, onde morava com meus pais e mais três irmãos,
percebi que estava me deparando com algo totalmente novo: a leitura. Ficava ansioso para
aprender a ler e assim poder mostrar para os meus pais a novidade que já fazia parte da
minha vida. Foi tudo tão rápido que, quando me dei conta, já estava terminando a quarta
série do ensino fundamental e no ano seguinte iria estudar a quinta. Daí que surgiu um novo
desafio. Teria que me deslocar de onde morava, na zona rural, para a zona urbana da cidade,
pois só lá tinha escolas que ofereciam cursos a partir desta série.
Nossa! Lembro-me como se fosse hoje. No início foi muito difícil. Tinha que ir na
carroceria de um caminhão com meus irmãos e mais uma turma de pessoas. Às vezes, este
quebrava ou a prefeitura atrasava o salário do motorista, e assim o transporte faltava, então
tinha que andar durante uma hora até a escola. Minha mãe, Maria, ficava muito preocupada,
pois me achava muito ingênuo em comparação ao pessoal da cidade, que eles poderiam
fazer algo de mau comigo. Com exceção das brincadeiras discriminatórias, por eu ser da
zona rural, não havia nada de tão preocupante assim.
Na época em que estudava, nas horas vagas, ajudava meus pais no trabalho da lavoura;
nunca gostei desse tipo de trabalho, mas era necessário praticar. Quando terminei a primeira
série do ensino médio, fui chamado pela diretoria da escola onde estudava para trabalhar
como conferente de matrícula, pelo meu boletim acadêmico ser um dos melhores da sala.
Oficialmente, era o meu primeiro trabalho remunerado; trabalhei durante um mês e meio e foi
uma experiência muito significativa para o meu desenvolvimento pessoal e profissional.
Em 2004, com dezoito anos, quando estava perto de concluir o ensino médio, o
pensamento sobre o futuro não saía de minha mente. Era um período de ansiedades, dúvidas
e deduções sobre a minha vida após o término do período escolar, mas de uma coisa eu tinha
certeza: queria continuar estudando.
Minha irmã Fernanda, com dezenove anos, estava na expectativa de fazer o vestibular
para estudar numa faculdade particular, o Instituto Adventista de Educação do Nordeste
(IAENE); eu não tinha idéia de como ela pagaria as mensalidades, pois o seu trabalho não
pagava o suficiente e nossos pais não tinham condições de ajudá-la. Aliás, eles e os morado-
res da comunidade não tinham noção alguma sobre universidade. Ela acabou passando
para o curso de Pedagogia e deu um jeito de pagar. Eu, ao concluir o ensino médio, vim
morar com ela numa casa alugada no centro de Maragogipe. Então enquanto ela trabalhava

* Graduando em Museologia pela UFRB.

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 53


e estudava, eu trabalhava como orientador pedagógico em um projeto na área de alfabetização
de jovens e adultos. Era muito legal, visitava à noite as turmas de alunos, fazia reuniões com os
professores e às vezes dava aula para os educandos. Foi uma experiência inesquecível pra mim.
No ano seguinte, minha irmã não teve mais condições de pagar as mensalidades da
faculdade. Após uma negociação com o IAENE, onde estudava, ela conseguiu um ótimo
desconto, mas teria que trabalhar nesta instituição. Consequentemente ela largou o trabalho
anterior, e daí surgiu uma chance de trabalho pra mim, que seria no lugar dela, novamente na
área de educação, mas dessa vez, para trabalhar com alunos do ensino fundamental em um
projeto em que coordenava trinta professores. Foi nesse período, início de 2006, que um curso
preparatório para vestibulares e concursos públicos vinculado a uma nova universidade que
tinha sido criada recentemente, a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB),
passou a fazer parte da minha vida. Senti que era uma ótima oportunidade para me ajudar a
ingressar numa instituição de ensino superior, assim como minha irmã já conseguira, ainda
mais sendo pública, em que não me preocuparia com mensalidades. Seria um sonho pra mim.
Quando o curso preparatório começou, Fernanda já morava em Cachoeira, onde estu-
dava e trabalhava, e eu voltei para a casa de meus pais na zona rural, pois não tinha como
pagar o aluguel sozinho. Saía de casa para trabalhar às seis horas da manhã e chegava às
onze da noite, só depois do cursinho. Era uma rotina muito cansativa, mas sabia o que
estava fazendo e tinha certeza que no final iria valer a pena.
No meio do ano a UFRB abriu o seu primeiro vestibular. Eu não perdi a oportunidade
e me inscrevi para o curso de Comunicação, mas no dia da prova, logo na primeira fase,
fiquei doente e não fui fazê-la; isso me deixou muito triste e minha família também, pois
sabia o quanto era importante para mim. Mesmo assim, não desanimei, continuei no cursi-
nho e, no final do ano, novamente me inscrevi no vestibular do primeiro semestre de 2007,
agora para o curso de Museologia, algo que nunca tinha pensado antes, apesar de sempre ter
admirado uma instituição como um Museu.
Dessa não houve imprevistos. Fiz o vestibular e fiquei na expectativa do resultado.
Achei que tinha ido mal, pois tive dificuldades com os cálculos na prova de matemática e,
no momento, fiquei muito nervoso, perdi tempo. Mas estava confiante, pois fiquei feliz
com o meu desempenho na área de Ciências Humanas. Quando saiu o resultado e vi que
estava aprovado, foi uma felicidade única, não só para mim e minha família, mas também
para o pessoal da comunidade, pois lá praticamente ninguém tinha conseguido ingressar
numa universidade pública.
Depois disso, minha vida mudou totalmente. Mudei para Cachoeira, que é um pouco
distante de Maragogipe, pois o curso é lá. Passei a morar numa casa alugada com alguns
colegas. O primeiro mês de aula foi de adaptação, tanto com o curso quanto com a cidade, e
logo surgiu um sério problema: as despesas eram muitas, meus pais não tinham como me
ajudar e minhas economias do trabalho já estavam no fim. Foi exatamente neste tumultuado
momento que surgiu a inscrição para o Programa Conexões de Saberes. Não perdi a chance de
me inscrever, pois achei muito interessante a proposta e também seria uma grande ajuda
financeira para continuar tranqüilo no curso. Para a minha felicidade, fui selecionado e hoje,
com 21 anos, estou no primeiro semestre e com grandes expectativas para o futuro. Conscien-
te de que a universidade é um mundo de diferenças em que prevalece o conhecimento, que
para mim deve ser transmitido sempre como meio de transformação social para mudar essa
dura realidade que ainda oprime muitos jovens a inserirem numa universidade.

54 Caminhadas de universitários de origem popular


Texto autobiográfico
Érica Paixão da Silva*

Minha história é muito simples. Como em toda família de classe popular, passei por
várias dificuldades. Meus pais sempre lutaram para criar a mim e meus dois irmãos, além de
sempre nos incentivarem a estudar. Meu pai é pedreiro e minha mãe dona-de-casa.
Estudei todo o ensino fundamental e médio em escolas públicas, sempre sonhei em
fazer vestibular, concluí meus estudos mas desanimei um pouco. Trabalhei temporariamen-
te numa loja de roupas da minha cidade, Cruz das Almas. Em 2005 me casei, e encontrei no
meu esposo a força e o empurrão que precisava para despertar e voltar aos estudos. A convite
de um primo, passei a estudar na biblioteca da cidade todas as tardes; cada semana lia um
livro e ali mesmo, com alguns colegas, tirava minhas dúvidas. Muitas vezes pensei em
desistir, mas Deus sempre colocava à minha frente pessoas que me incentivavam, assim
continuei a estudar.
Ao saber que a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), seria implanta-
da na minha cidade e em cidades próximas, me animei bastante. Como não me interessava
pelos cursos oferecidos em Cruz das Almas, me inscrevi para Cachoeira, e hoje - com muito
orgulho - curso Museologia, que antes era um curso desconhecido para mim. Era muito
difícil explicar para as pessoas do que tratava o curso, alguns diziam: “Museologia? Ah,
você vai cuidar de coisas velhas”. E eu tentava, mesmo sem ter muito domínio sobre o que
estava falando (porque ainda estava no primeiro semestre), explicar que além de preservar
a memória, iria cuidar do nosso patrimônio histórico.
Apesar das dificuldades enfrentadas na sala de aula, principalmente porque sou muito
tímida e tinha que apresentar seminários e debater assuntos em sala de aula, estar na facul-
dade tornou-se algo maravilhoso, muito interessante e encantador.
Mas apesar de todo encanto e interesse, tive que encarar a realidade das dificuldades
financeiras de ter de cursar uma faculdade algo distante de minha casa, mesmo pública.
Pagar o transporte e tirar várias fotocópias por semana não é fácil, ainda mais para quem não
trabalha, como eu. Quando soube do Programa Conexões de Saberes me interessei, me
inscrevi, e quando descobri que tinha sido escolhida fiquei muito feliz e encontrei mais
forças para continuar.

* Graduanda em Museologia pela UFRB.

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 55


Texto autobiográfico
Evanilda dos Santos*

Feliz o homem que acha sabedoria, o


homem que adquire conhecimento: porque
melhor é o lucro que ela dá do que o da
prata, e melhor a sua renda do que o ouro
mais fino.
Provérbio 3. 13-14

Em busca de conhecimento
Meu nome é Evanilda dos Santos. Nasci em Cachoeira-BA, no dia 6 de fevereiro de
1982. Sou da zona rural de Conceição da Feira e filha do encanador Ezequiel dos Santos e
da doméstica Maria do Carmo dos Santos. Tenho quatorze irmãos, entre os três casamentos
de meu pai. Hoje moro apenas com meu pai, minha madrasta Carolina e meu irmão Willys.
Quando eu tinha dois anos de idade meus pais se separaram, então minha mãe foi
embora levando consigo duas irmãs: Elenilda e a caçula Elizabeth, deixando seis filhos
para meu pai criar. Ele sempre foi um homem batalhador e sua infância foi muito sofrida.
Apesar de tudo sempre foi forte e nos criou da melhor forma possível.
Foi uma fase bastante difícil para mim e meus irmãos, pois vimos nossa mãe ir embora
e não podíamos fazer nada para impedir, apenas choramos pedindo que ela não fosse.
Ficávamos sozinhos em casa e meus irmãos mais velhos, Raimundo e Ecia, tomavam conta
dos demais. Meu pai saía bem cedo para trabalhar, chegava muito tarde e, além do mais,
nesse período ele bebia muito.
Depois de alguns anos meu pai casou-se com Carolina, que consigo, trouxe três filhos:
Uberlândio, Wilsa Carla e Willys. Para nós, Carolina não se tornou apenas uma madrasta,
mais sim nossa mãe, pois ajudou meu pai a nos criar e nos tornou pessoas de bem. Ainda não
freqüentávamos a escola, e logo que ela chegou nos matriculou. No primário, estudei na
escola Canteiro da Alegria que ficava bem próxima de minha casa, e depois na escola Jessé
Bittencourt Dalto, que ficava um pouco mais distante; para mim era maravilhoso freqüentar
a escola.
Em 1994, comecei a estudar o ensino fundamental e tive muita força de vontade, pois
a escola Padre Alexandre de Gusmão, que eu freqüentava, era muito longe e meu pai não
tinha como para pagar o transporte; assim, tive que ir a pé, percorrendo três quilômetros
todos os dias. Mas apesar de ter andado vários quilômetros durante cinco anos, enfrentando

* Graduanda em Museologia pela UFRB.

56 Caminhadas de universitários de origem popular


períodos de chuva e sol, eu confesso que foram os melhores anos que estudei e que mais me
diverti. Encontrei pessoas maravilhosas, principalmente minhas amigas Dorlene e Adriana,
que estiveram sempre comigo durante todos esses anos. Depois de concluir o ensino funda-
mental, fui estudar no centro da cidade, no Colégio Yêda Barradas Carneiro, em 1999,
enquanto que Dorlene e Adriana foram para outro colégio. Apesar de termos tomado rumos
diferentes, ainda matemos algum contato e, quando nos encontramos, nos divertimos bas-
tante, lembrando dos velhos tempos.
No primeiro ano do ensino médio, em meio a tantas dificuldades financeiras, meu pai
teve que pagar transporte, pois não daria para ir à pé. Já nos anos seguintes, a prefeitura
colocou ônibus à disposição dos alunos. Assim, foi maravilhoso concluir meu ensino mé-
dio, sem me preocupar com esse problema. Nesse colégio encontrei Ariana e Clésio e nos
tornamos bons amigos, desde o primeiro dia de aula nos identificamos muito e sempre
estávamos juntos. Hoje estamos distantes, mas sempre mantemos contato.
Em 2001 concluí o ensino médio. Desde então, passei seis anos sem nenhuma ocupa-
ção profissional, apenas trabalhei com reforço escolar para crianças da minha comunidade
e, nos fins de semana, me reunia com meus irmãos Willys e Ecilene e com minha amiga
Joseane e com outros colegas para ensaiarmos no nosso grupo de dança, “Blit Dance”.
Resolvi estudar para o vestibular, meu grande sonho ainda é fazer Letras com habili-
tação em Inglês, mas devido às condições financeiras, não tive nenhuma oportunidade de
fazer. Eu sempre me perguntava: será que vou conseguir fazer parte de uma universidade? E
quando eu consegui o dinheiro para pagar o vestibular, escolhi a Universidade Federal do
Recôncavo da Bahia (UFRB), mesmo não tendo o curso de Inglês que eu tanto queria, pois
o custo de manutenção seria menor, principalmente no que diz respeito a passagem, pois a
universidade fica mais próxima de minha casa.
Prestei vestibular pela primeira vez e escolhi Museologia. Fui aprovada, confesso que
estou adorando e pretendo concluí-lo; vejo que as portas estão se abrindo e quero aprovei-
tar cada momento da melhor forma possível, inclusive para manter aceso aquele sonho, de
fazer Letras.
Estou muito feliz por ter conseguido entrar para uma universidade e, mesmo enfren-
tando problemas financeiros, sei que vou conseguir vencer, pois Deus tem me dado muitas
provas e hoje mais uma porta foi aberta. Agora faço parte do Programa Conexões de Saberes,
onde pretendo me dedicar e desempenhar um bom trabalho junto às comunidades, adqui-
rindo e passando conhecimentos.
Agradeço a Deus e à minha família por tudo que tem acontecido comigo, além de meu
namorado, Neto, que amo muito e tem me ajudado bastante.
Hoje, diante de todos os fatos ocorreram em minha vida, carrego sempre comigo a
seguinte frase:

Lutar sempre, vencer às vezes, desistir jamais.


Pensamento Popular

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 57


Vários obstáculos, novas conquistas...
Fabiana Aguiar Fonseca *

O passado pra mim é uma cortina de vidro. Estou feliz e orgulhosa, pois posso observá-
lo para caminhar para o futuro. Espero, através da minha história de vida, nutrir esperanças,
estimular e quem sabe até desenterrar os sonhos daqueles que pensam que universidade é
um sonho inatingível.
Nasci em 18 de abril de 1981, em Imperatriz, no Maranhão. Quando criança, adorava
fabricar meus próprios brinquedos com meu irmão. Minha mãe e meu pai passavam o dia
trabalhando na roça e na casa de farinha, fazendo fécula de mandioca. E nós passávamos o
dia ajudando nossos pais nas tarefas e fazendo travessuras. Não posso dizer que fui uma
criança completamente feliz, pois me faltava algo muito especial e desejado: estudar! O que
foi muito difícil, devido ao lugar onde a família morava, na zona rural, muito distante da
cidade, onde ficava a escola. Por isso essa felicidade só veio se concretizar aos nove anos,
quando minha mãe conseguiu a casa de minha avó para ficarmos.
Foi então que pude ir à escola e estudar, como as outras crianças. Um mundo novo no
qual aos poucos fui me inserindo. Confesso que no começo fui um “bicho do mato” tentan-
do adaptar-se num mundo completamente diferente, porém muito fascinante, que fez de
mim uma aluna muito dedicada.
Aos quatorze anos, depois de ter cursado a 6ª série, tive que parar os estudos, por falta
de lugar para morar, e voltei para o campo. Com 15 anos, acontecimentos marcantes muda-
ram minha vida: casei e vim morar aqui na Bahia, com promessas de emprego para meu
esposo. Aqui, fomos morar com meus sogros, na zona rural de Sapeaçu, onde passamos
momentos difíceis, ficando dois anos desempregados.
Quanto aos meus estudos, foram ficando um sonho cada vez mais distante. Tentei
inúmeras vezes recomeçá-lo, mas meu esposo não concordava com tal idéia, o que tornou-
se motivo de desavenças durante alguns anos.
Com muita dificuldade, terminei o ensino fundamental fazendo Comissão Permanen-
te de Avaliação (CPA), no Colégio Estadual Olavo Galvão, em Santo Antonio de Jesus. O
CPA marcou a data da prova, eu peguei a relação dos assuntos e só voltei lá para fazê-la. Foi
uma experiência com frutos de má qualidade, pois se com os professores explicando na sala
de aula torna-se difícil estudar, imagine sem eles, como foi meu caso.
Em 1999 nasceu minha filha Bianca, que hoje é meu incentivo para lutar. Foi e é
maravilhoso dedicar-me a ser mãe. Apesar de toda essa euforia, eu queria ser mais que isso.

* Graduanda em Enfermagem pela UFRB.

58 Caminhadas de universitários de origem popular


E o sonho de continuar meus estudos permanecia vivo em mim, nunca deixei de lutar pelo
direito de continuá-lo.
Porém, nessas várias batalhas, só obtinha fracassos, lágrimas e problemas. Só consegui
continuar quando minha filha chegou à época de ir para escolinha. E depois de um “longo
acordo”, pude estudar num colégio regular, a Escola Estadual Doutor Eliel da Silva Martins.
Foi para mim uma grande vitória e também um desafio, pois tive que me desdobrar para
acompanhar os assuntos, devido à deficiência do curso CPA. Mas venci com muita dedicação
e prazer. E com tudo isso adquiri frutos bons, um deles foi meu boletim escolar, que foi meu
passaporte nas inscrições dos vestibulares, sendo sempre isenta da taxa de inscrição.
Ao concluir o terceiro ano, ainda sem muitas perspectivas de estudos, fui incentivada
pelos meus professores, me inscrevi para o vestibular da Universidade Federal da Bahia
(UFBA) e prestei para Agronomia. Para minha surpresa, passei para segunda fase, porém não
fui aprovada na lista final - não foi desta vez.
Com essa experiência e conscientização dos professores e pessoas de minha família,
foi brotando dentro de mim a idéia de que um diploma de 2º grau não seria suficiente, que
ainda existia muito a ser conquistado e que eu era capaz. Tais idéias, apesar de simples para
alguns, pra mim foram revolucionárias. E mais uma vez, estava eu diante de uma grande
batalha. Imaginei que não existem vitórias sem lutas... garimpei pedras preciosas nas ruínas
dos meus conflitos e nada conseguiu arrancar de mim esse tão desejado sonho.
Com ajuda da minha mãe, que sempre acreditou em mim, pude fazer um cursinho pré-
vestibular em 2006 em Cruz das Almas, de domingo a domingo. Com essa oportunidade,
realmente conheci de verdade a física, a química e a matemática que pensava ter conhecido.
Tudo parecia “grego”, e às vezes batia o desespero, mas eu estava ali com um objetivo e para
isso tive que “traduzi-las” e absorver tudo. Torrei muito a paciência dos meus professores,
muitas madrugadas foram minhas companheiras.
E com a concretização da Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB) e as
oportunidades por ela proporcionadas, pude então decidir o que realmente queria fazer.
Acabei me apaixonando pela área de Enfermagem. E no segundo vestibular para este curso
na UFRB, apesar do nervosismo, conseguir passar para 2ª fase.
Então, decidi dar mais de mim, estudando até dezesseis horas por dia e, felizmente,
conquistei a minha tão sonhada vitória. Ufa!
Não era mais um sonho, meu nome constava na lista dos classificados para enferma-
gem da UFRB. E também para História na Universidade Estadual da Bahia (UNEB). O sabor
da conquista foi duplamente maravilhoso, uma felicidade inigualável e inexplicável. A
vontade de gritar ao vento invadiu o meu ser, mas me faltaram forças e palavras. Só conse-
guia chorar muito.
A partir de então, comecei a organizar os meus documentos para a matrícula, a ansie-
dade tomou conta de mim. Não via a hora de começar a estudar.
Chegado o dia tão esperado da matrícula, numa manhã de chuva, vi meu sonho e
minha alegria tornarem pesadelo, minha matrícula não poderia ser realizada devido a al-
guns problemas na documentação escolar (mais um fruto do CPA). Confesso que pensava
que tudo estava indo por água abaixo, mas diante de todo esse desespero, permaneci sóbria,
a fé me reergueu e fui à luta para ter o direito de poder realizar minha matrícula. Foram duas
semanas de sofrimento e angústia, mas finalmente consegui regularizar a documentação e
pude enfim ingressar na universidade. Ufa, mais uma vez!

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 59


Novos horizontes surgiram depois de tantas barreiras e meus sonhos renasceram após
lágrimas derramadas. Apesar do cansaço, pois moro longe da universidade, tenho que ir e
vir todos os dias de Sapeaçu. Estou gostando muito dessa nova etapa.
Para complementar minha alegria, consegui a bolsa do Programa Conexões de Sabe-
res, que está sendo muito importante para manter-me, principalmente com relação aos trans-
portes. Além de proporcionar-me oportunidades para que eu possa exercer minha função
social como cidadã universitária.
Confesso que ainda tenho grandes desafios para enfrentar, obstáculos para superar e
crises para vencer, pois dar conta de todas as responsabilidades (estudo, Conexões de Sabe-
res, filha, esposo e casa), não é fácil. Mas a coragem é o combustível que mantém a chama
acesa dos meus sonhos e o que me torna autora da minha própria história.
E para isso, “precisamos apenas entender que não existem pessoas fracassadas, o que
existe são pessoas que lutam pelos seus sonhos ou desistem deles. Por isso, nunca desista
dos seus sonhos!” Augusto Curi.

60 Caminhadas de universitários de origem popular


Texto autobiográfico
Geoston Caetano Castro Oliveira*

Pais
Acho que devo começar a contar um pouco da minha história de vida, por meus pais,
a quem devo uma gratidão eterna, mesmo com todos os problemas, percalços, indiferenças
e brigas.
Miguel Araújo Oliveira, nascido em Canudos, sertão baiano, como a maioria das
crianças nordestinas não teve a infância que uma criança merece, e viu que o único caminho
para a sobrevivência era pelo trabalho. Tendo que escolher entre trabalhar e estudar, parou
na 4ª série do ensino fundamental.
Assim como a vida deixa marcas, ela traz presentes, e a grande dádiva do meu pai é a
minha mãe, mesmo sem ele demonstrar isso (ou talvez nem saber). Dalva Caetano Castro
Oliveira, nascida em Jeremoabo e criada em Canudos, é uma mulher guerreira, de fibra, que
modificou sua vida a favor dos filhos, mas nunca desistiu de realizar seus sonhos, como em
2001, o ano em que concluiu o ensino médio.
A vida de um sertanejo poderia se resumir na fuga da seca, da pobreza e a busca de um
a vida melhor. Ela foi morar em Feira de Santana e ele foi onde o trabalho o levava, tudo
muito rápido. Se conheceram, namoraram e se casaram, concebendo quatro filhos: Giovanne,
George, Geórgia e Geoston.

Eu
Sou Geoston Caetano Castro Oliveira, mas minha família e amigos de infância me
chamam de “Nenê”, e outros me chamam de “Geo”, já que para um cara de quase dois metros
de altura não fica bem chamar de “Nenê”. Tenho poucos amigos, mas os que tenho são
pessoas as quais admiro muito. Não sei ser espontâneo no começo, só quem é meu amigo
sabe como eu sou, tímido, sincero e adoro admirar as coisas à minha volta.
Sou um cara legal, tenho meus defeitos mas sei ser honesto com aquilo que faço ou
sinto, não sei enganar as pessoas nem mentir. Meus amigos sempre falam que muita gente já
quis se aproximar de mim, mas não o fazem. Não sei porquê, talvez um dia eu descubra.

Na escola
A primeira escola em que estudei se chamava Talento Infantil, eu tinha sete anos.
Lembro bem desse dia porque não chorei, não sorri, nem fiquei alegre ou triste, simplesmente

* Graduando em Comunicação Social - Jornalismo pela UFRB.

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 61


curioso: uma mistura de medo com admiração, vendo aquele mundo todo colorido, com
figuras e desenhos na parede que eu não sabia o significado, que só depois vim saber que
eram letras e números. Nessa escola estudei da alfabetização à 1º série e foram anos surpre-
endentes, acho que o despertar pelo estudo não poderia ter sido em um lugar melhor.
Mas a realidade da minha família era outra. Meus pais não tinham como me sustentar
em uma escola particular, então fui para o Colégio Estadual Dr. Wilson da Costa Falcão.
Sorte minha que dois amigos foram comigo para o mesmo colégio, cuja integração com os
novos colegas foi mais fácil, apesar de ser muito tímido.
O “Wilson”, como chamávamos, foi palco da minha infância e começo da adolescên-
cia. Todas as alegrias, tristezas - enfim – as emoções e sensações da juventude ocorreram no
pátio daquele colégio. Lembro da primeira vez que pensei na universidade, quando a pro-
fessora de História Maria Araújo perguntou, logo no primeiro dia de aula, pra que área
faríamos o vestibular e qual seria o curso escolhido. Foi quando se iniciou toda a vontade
de fazer um curso superior. De lá até o primeiro vestibular foram vários cursos em que pensei
em Medicina Veterinária, Biologia, História, Educação Física, Direito, Medicina e Odonto-
logia, mas só o curso mudava, porque a vontade de estudar na universidade só crescia.
Estudar nunca foi problema pra mim. Mas em relação a aprender o conteúdo, o proble-
ma se encontrava em como obtê-lo. Como no “Wilson” não havia ensino médio, fui para a
Escola Estadual Helena Assis Suzart, que não era o colégio que eu queria, mas o mais perto
da minha casa. Passei um ano reclamando com minha mãe que o ensino era muito fraco,
porque o colégio era recém-inaugurado. No 2º ano do ensino médio fui para o Instituto de
Educação Gastão Guimarães (IEGG), um colégio grande no centro da cidade, mas meu
único interesse no colégio era o esporte, já que ele tinha fama neste setor.
O meu ensino médio foi muito complicado, pois o dinheiro do transporte, lanche e
fotocópia era curto, minha mãe às vezes me perguntava como eu conseguia passar a manhã
toda sem comer nada, acho que era a vontade de entrar para a universidade.

Pré-universidade
Me formei em 2002 e, logo em seguida, prestei vestibular para a Universidade Estadu-
al de Feira de Santana (UEFS) não consegui entrar porque zerei a prova de redação. Daí
percebi que parte do que tinha aprendido não significava nada para o vestibular. Entre
outros problemas, não conseguia fazer um cursinho preparatório porque me preocupava em
como pagar. Então o governo federal lançou o Universidade para Todos, um cursinho pré-
vestibular, mas não fui aprovado no seu processo seletivo. Não desisti, e quinze dias depois
das aulas começarem fui pedir à coordenadora que me deixasse assistir às aulas, e a resposta
dela foi positiva.
Fiz alguns vestibulares, só passei no quinto e, por sinal, foi a alegria e surpresa de
todos, pois eu já trabalhava de manhã e fora aprovado no processo seletivo do Centro de
Educação Tecnológica da Bahia (CETEB). Cursava à tarde, à noite ia para o pré-vestibular
e estudava de madrugada até o sono e o cansaço me derrubarem. Tive êxito na Universidade
Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), na Universidade Estadual da Bahia (UNEB) e na
UEFS. Mas nesta, que era meu alvo principal, julguei que não teria condições de me manter
ao longo do curso e optei por não me inscrever.
Foram quatro anos de espera para ver a cena mais linda e perfeita, o olhar e o sorriso da
minha mãe, algo que com palavras, sinais, gestos ou imagens é indescritível, algo que só eu sei.

62 Caminhadas de universitários de origem popular


Universidade
“Um mundo totalmente diferente do que pensamos”. Essa é a primeira impressão que
senti quando entrei na universidade, que como o próprio nome diz, é um universo de
conhecimento e descoberta. Algo interessante de se ressaltar na UFRB é que existe uma
mistura de etnias, religiões, classes sociais e opiniões, algo que a diferencia das outras
universidades.
Optei por Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, depois de tantas dúvi-
das. Descobri que quero seguir na área, mesmo sendo tímido, porque o curso é muito
abrangente. Escolhi Jornalismo mas quero me especializar no campo audiovisual, pois na
Bahia as universidades públicas só oferecem esta formação, além de Relações Internacio-
nais ou Multimeios.
Existe um rótulo sobre o curso de Comunicação e acho que isso se reflete na sala, pois
ela é heterogênea, não é como na maioria das universidades em que grande parte dos alunos
do curso é oriunda de classe social mais abastada. O que me parece é que há uma separação na
sala entre os alunos, em grupos formados, mas o clima é legal. Tento ser amigo de todos e, por
incrível que pareça, as pessoas mas legais são aquelas que têm as mesmas dificuldades que eu!
Espero que o curso me dê a oportunidade de conseguir um emprego que me ajude a
levar meus estudos adiante. Sei que quero seguir na vida acadêmica, talvez fazer mestrado
e doutorado, e para isso terei que trabalhar e estudar como nunca, algo que já fez parte da
rotina de minha vida.
Com o projeto da Bolsa Clemente Mariane e o Programa Conexões de Saberes, posso
ficar um pouco mais tranqüilo e só me dedicar aos estudos e ao projeto e aumentar minha
experiência profissional e humana, pois trabalhar com pessoas é uma forma de aprendizado
muito gratificante e o projeto está ainda começando, assim como a universidade. Mas faço
projeções de que será um sucesso.

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 63


Texto Autobiográfico
Jeovana Ribeiro de Jesus do Nascimento*

Chamo-me Jeovana Ribeiro de Jesus do Nascimento, tenho 20 anos, fui aprovada no


vestibular 2007 da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) no curso de
Museologia, em Cachoeira, no turno da manhã. Moro em Cruz das Almas e me desloco
diariamente para poder estudar.
Em 2005 me inscrevi no curso de Psicologia na Universidade Federal da Bahia (UFBA)
e não passei. Devido a pesquisas na internet, para me informar melhor sobre a área de
atuação da Psicologia, tomei afinidade pelo curso e gostaria muito de ser psicóloga, mas
como não tinha conseguido passar nessa minha primeira tentativa, então resolvi mudar de
curso, algo que não fugisse daquilo que eu tinha tido afinidade e que estivesse ao alcance
das minhas condições. Daí surgiu esse projeto da UFRB, e tomando conhecimento dos
cursos que estariam disponíveis fiz uma análise de cada um. Vi que teria o curso de Psico-
logia na UFRB para Santo Antônio de Jesus, era o que eu desejava fazer, mas por questões
financeiras percebi que, com o transporte, os gastos seriam ainda maiores. Por mais que eu
gostasse de Psicologia, não poderia me comprometer a fazer esse curso, e, se eu passasse,
não teria como me manter caso fosse morar lá.
Nós, estudantes, quando concluímos o ensino médio, desejamos prosseguir nos estu-
dos fazendo algum curso superior. Muitas vezes por pressão dos pais que exigem, obrigam
e até mesmo escolhem os cursos que seus filhos devem fazer, e por outro lado os jovens
vêem na faculdade uma forma de “independência”, ou seja, se ver livre pra tomar suas
próprias decisões. Muitos saem de casa pra morarem sozinhos, em repúblicas, alugam casas,
etc; alguns conseguem arranjar um emprego e conciliar trabalho e estudo, e outros têm sua
“independência” limitada, pois dependem de pensões dos seus pais para se manter.
Muitos jovens ficam iludidos com a faculdade, esse desejo de sair de casa, ter sua
liberdade, festas, curtição: tudo é uma maravilha. Mas quando você está lá dentro a realida-
de é outra, temos que ter responsabilidades, precisamos de muita atenção para termos um
bom aproveitamento do curso. Eu mesma pensava em ir pra Salvador trabalhar e estudar lá,
era meu sonho de consumo, mas eu vi que não teria condições, se eu fosse pra lá teria que
morar na casa de parentes, o que não é a mesma coisa que a minha casa e, mesmo trabalhan-
do, as despesas seriam muitas.
Então nessa minha análise me interessei pelo curso de Museologia, que envolve His-
tória da Arte, restaurações de patrimônios históricos, o estudo dos museus e a função que ele
vem a desempenhar na sociedade, as transformações, enfim, é algo novo pra mim e a princí-

* Graduanda em Museologia pela UFRB,

64 Caminhadas de universitários de origem popular


pio gostando muito, porém com dificuldades em algumas disciplinas, pois como falei é
tudo muito novo e a quantidade de assuntos é grande, principalmente para quem vem de
uma escola pública e que não está acostumada com essa sobrecarga. Fica um pouco puxado
e além disso há algumas novas matérias que nunca tinha visto no ensino médio. Mas pelo
fato de Cachoeira ser próximo a minha cidade, resolvi investir e me inscrevi, só não tinha
pensado como eu faria para me deslocar todos os dias. Fiz as provas da 1° fase não muito
confiante em passar, mas tinha fé, então passei para a 2° fase e percebi que minhas chances
de ingressar na faculdade estavam aumentando, era uma oportunidade única que eu não
poderia deixar escapar.
Hoje em dia ou você é qualificado, ou seja, ser apto para exercer uma função, ou você
entra na enorme fila dos desocupados; até os profissionais que tem curso superior se depa-
ram com esse caos que é o desemprego, e por necessidade acabam exercendo cargos que não
estão relacionados com sua formação. Então, diante desses fatos, temos que ir sempre em
busca de aperfeiçoamento para estarmos preparados para o mercado de trabalho. Espero ao
concluir o curso de Museologia fazer estágios e me especializar cada vez mais, para atender
as necessidades do mercado.
Nunca participei de movimentos estudantis, já contribuí com a comunidade popular
arrecadando alimentos não perecíveis e estaria disposta a contribuir mais ainda com algum
projeto da faculdade para com essas pessoas.
Venho de uma família de classe média, pois apesar de muitas dificuldades nunca
passei fome, sempre tive moradia e assistência médica. Meus pais não tiveram a oportunida-
de de estudar como eu tenho hoje, mas eles sempre trabalharam muito para não faltar nada
dentro de casa e sempre me deram uma boa educação.
Estudei o ensino fundamental todo em rede pública, e sabemos que o ensino público
deixa muito a desejar, os alunos têm uma enorme carência de aprendizagem e nem sempre
estão preparados o suficiente para enfrentar essa competitividade de mercado. Meus pais,
em busca de melhorias de ensino pra mim, após a conclusão do ensino fundamental me
colocaram em uma escola privada, juntamente com a ajuda de minha madrinha, que pagava
as mensalidades para que eu tivesse no ensino médio uma boa preparação acadêmica que
me ajudaria futuramente, porém as condições financeiras não permitiram que eu continuas-
se nessa escola privada, então concluí o ensino médio numa escola estadual.
Minha mãe é de cor branca e o meu pai de cor negra e dessa mistura eu nasci. Conforme
as características genéticas, me considero negra e até o momento nunca fui discriminada
pela minha família, amigos ou em qualquer lugar que eu fosse. Meus pais são separados e
moro apenas com minha mãe. Não trabalho e a única renda da casa é proveniente da aposen-
tadoria de minha mãe, que recebe um salário mínimo. Esse dinheiro é dividido em alimen-
tação, água, luz, gás e medicamentos, pois minha mãe sofre de hipertensão e necessita
sempre de remédios para o seu tratamento, fora outras despesas que surgem, então essa
renda mal dá pra suprir as necessidades da casa. Tenho que buscar ainda o dinheiro do
transporte, porque tenho que ir e vir todos os dias, tirar fotocópias, alimentação na faculda-
de, e as possíveis viagens em grupo que teremos para as aulas práticas, como conhecer os
museus de Salvador, Minas Gerais (aonde desejo muito ir, para conhecer Ouro Preto), Rio de
Janeiro, entre outras cidades, ir para congressos etc.
Além das despesas da faculdade, eu usaria parte da bolsa para fazer um curso de
línguas estrangeiras, pois hoje em dia vários lugares exigem que as pessoas falem mais de

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 65


um idioma, e nessa área da Museologia é muito bom aprender mais de um idioma. Quanto
mais qualificada for a pessoa, melhores serão as oportunidades de trabalho; seria bom se na
universidade implantassem esse curso de línguas estrangeiras também.
Gostaria muito de ter um emprego pra suprir essas minhas necessidades, mas é tão
complicado arranjar para as pessoas que estão disponíveis a cumprir a carga horária de oito
horas por dia, imagine pra mim, que estudo pela manhã e que teria apenas a tarde ou a noite
para trabalhar, fora que teria que reservar um tempo pra estudar em casa, e também tem a
questão que eu talvez não conseguisse conciliar os dois, trabalho e estudo, pelo menos
nesse início de semestre.
Por isso me inscrevi no Programa Conexões de Saberes, para tentar essa bolsa, porque
de certa forma eu dependo de alguma renda pra continuar a freqüentar a faculdade.
Eu achei essa iniciativa de criar um programa que ajude financeiramente os alunos da
universidade oriundos da rede pública muito importante para o aproveitamento estudantil,
porque apesar de ser pública, existem gastos nos quais aqueles mais necessitados desistem
de estudar e deixam de lado seus sonhos por falta de renda, mas com essa ajuda torna-se
propício a permanência daqueles que precisam se manter na faculdade.

66 Caminhadas de universitários de origem popular


Autobiografia
Jordana da Silva Chaves *
Eu me chamo Jordana da Silva Chaves, sou filha de Josino Campos Chaves e Maria
Rita da Silva Chaves. Nasci em Santo Antonio de Jesus, Bahia, porém nos meus primeiros
anos de vida morei na zona rural de Dom Macedo Costa (cidade natal de minha mãe).
Para entender melhor a minha história, é necessário voltar ao tempo e falar um pouco
de meus pais. Com muita dificuldade minha mãe, em uma família de sete irmãos e mãe
solteira, conseguiu estudar e concluir o ensino médio, onde fez magistério. Já o meu pai
nem conseguiu se alfabetizar: vindo de uma família de doze irmãos, o trabalho acabou
sendo bem mais importante que os estudos.
Os problemas de saúde fizeram com que minha mãe parasse de lecionar, ela ensinava
alunos de primário e, portadora da Doença de Chagas , foi preciso colocar marcapasso no
coração, não podendo mais exercer sua função de professora. Ela hoje está em fase de
readaptação, com a saúde fraca. Outra dificuldade é o fato de meu pai ser autônomo, e não
ter renda fixa; a maior parte das contas da casa minha mãe quem paga. Apesar de tudo, os
dois sempre fizeram questão que eu e meu irmão Diêgo estudássemos para no futuro vislum-
brar uma vida melhor do que a que eles tiveram.
Sempre estudei em escola pública. Fiz meu primário na Escola Municipal Cefira
Baylão Diniz, mesmo local onde minha mãe trabalha. Foi lá que eu construí meus primeiros
laços de amizade fora da família.
No ginásio, comecei a estudar no Colégio Felix Gaspar e concluí no Colégio Rômulo
Almeida. Sei das dificuldades e das falhas da educação no país em que vivemos e isso fez
com que eu desse cada vez mais valor aos esforços dos meus pais. Mesmo contra a vontade
deles, resolvi trabalhar durante meu ensino médio na expectativa de ajudar nas despesas,
mas vi que essa não era a melhor maneira de ajudá-los. Trabalhar sem carteira assinada não
dá expectativa nenhuma de vida e eu não via futuro ali.
Minha mãe sofreu derrame cerebral e foi um choque muito grande para toda a família.
A fala foi prejudicada, mas graças a Deus, ela está viva. Decidi abandonar o trabalho e
estudar para a universidade. Entrei em um cursinho pré-vestibular de caráter social, mas por
já ter entrado atrasada, não consegui acompanhar o ritmo, ficando apenas seis meses.
No ano seguinte, retornei ao cursinho e me dediquei de corpo e alma, lutei ao máximo
para alcançar meu objetivo, que era a universidade.
Nessa batalha tive pessoas maravilhosas ao meu lado e Samuel, meu namorado, foi
quem mais esteve mais presente, estudando, apoiando, e até mesmo dando bronca. Resulta-
do: ambos passamos na mesma universidade e, por incrível que pareça, no mesmo curso:
ENFERMAGEM. Hoje sei que posso conquistar todos os meus objetivos, basta ter força de
vontade e perseverança.

* Graduanda em Enfermagem pela UFRB.

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 67


O impossível aconteceu
José dos Santos*

Em 27 de janeiro de 2007, ao abrir timidamente o jornal A Tarde, consultei a relação dos


candidatos aprovados no vestibular da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e
constatei que o meu nome se encontrava entre os aprovados do curso de Engenharia de Pesca.
O impacto foi tão grande que terminei transformando a bela notícia da conquista em
um silêncio profundo, acompanhado de meditação e agradecimento a Deus, pela tão sonha-
da vaga que já estava se tornando uma utopia. Em três outros concursos do referido vestibu-
lar eu já havia fracassado. Além disso outros fatores, como o longo período afastado da sala
de aula (vinte anos), a conclusão dos ensinos fundamental e médio em escola pública e a
falta de um curso preparatório para a realização de vestibular me respaldavam em certo
desânimo e davam a entender que ser aprovado em um concurso de universidade federal era
algo muito difícil nessas condições.

Quem sou eu
Para uns, José pescador; para outros, José do camarão; mas eu gosto mesmo é de ser
chamado Zé de Dona Jovelina ou de Zé do seu João.

José pescador: Desde a infância acompanhava meu pai e meus queridos irmãos nos
dias de boas marés. Antes de ir para a escola, para vencer na vida e conseguir uma parte da
alimentação, tínhamos grandes compromissos com a pesca, pois quando não estava lançan-
do rede, estávamos arrastando um pequeno calão (rede de pesca de porte médio). Um saudo-
so amigo do meu pai, Antônio Viana, sempre que via a nossa saída do porto, dizia: “Lá vai
a canoa cobiçada com seu João e sua tripulação, para mais um dia de ensinamento de uma
grande lição: de como seus filhos se defenderem da fome através da pesca, sem nada dos
outros lançarem mão”
José do camarão: Para não fugir do mar e ter uma carreira, o único jeito que arrumei
foi trabalhar com o cultivo de camarão. Foram muitos anos de vida dedicados a esta função;
com ela eu fiz quase tudo: criação em gaiolas, cativeiro e até pesca de arrastão. É por isso
que alguns me chamam até hoje de José do camarão.
Zé filho de dona Jovelina ou Zé do seu João: João é o meu pai e Jovelina é a minha
mãe. Eles são as maiores pessoas da minha vida, por quem eu tenho grande consideração.
É com muito carinho, amor e muita satisfação que os guardo no meu coração. Portanto,
antes de tudo, jamais irei preferir ser chamado de outro nome, a não ser Zé de Dona
Jovelina ou Zé do seu João.

* Graduando em Engenharia de Pesca pela UFRB.

68 Caminhadas de universitários de origem popular


De onde eu venho
Venho de uma linda cidade do Baixo Sul da Bahia, chamada Ituberá. Como eu não sei
falar em versos, deixarei alguém com mais experiência as belezas dela recitar.

Minha terra tem palmeiras,


Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar –sozinho, à noite–
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Gonçalves Dias

Para onde eu vou

A partir desta nova etapa de vida, acadêmica, me preparo para realizar a minha grande
missão, que é, sem me interessar em ganhar muito dinheiro, compartilhar com o próximo,
sendo ele sem terra, sem lar ou sem chão, os conhecimentos adquiridos com minha nova
profissão de engenheiro de pesca.

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 69


Texto autobiográfico
José Raimundo dos Santos*

Nasci em Amargosa, no interior da Bahia, oriundo de uma família pobre. Por isso,
desde criança, trabalhei pela busca de melhores dias de vida para mim e para toda minha
família. Pela falta de apoio da figura paterna em todos os aspectos, tive que trabalhar desde
muito cedo para ajudar no sustento da família.
Aos doze anos estudava o primário durante a semana e comecei a vender picolé aos
sábados na minha cidade natal. À medida que crescia, sentia uma maior necessidade de
trabalhar mais, pois as despesas da família aumentavam. Foi quando comecei a fabricar e
vender vassouras feitas artesanalmente por mim, o que continuei a fazer por alguns anos.
No final de 1995 terminei o primário e, por conta disso, passei a estudar na Escola
Agrotécnica de Amargosa, onde fui elogiado e incentivado pelos meus professores pelo
meu bom desempenho escolar. Também conquistei a amizade de muitas pessoas, de quem
até hoje sinto saudades.
Em 1997 mudei-me com minha família para Santo Antônio de Jesus, onde passamos a
morar de aluguel num bairro pobre da cidade, cujo nome é Irmã Dulce. Matriculei-me no
Colégio Luis Viana Filho, para fazer o supletivo da 7ª a 8ª séries.
Em 1999 fui para o Colégio Rômulo Almeida estudar à tarde, já que trabalhava duran-
te a noite, sendo por isso reprovado no final do ano. Por isso, só terminei o ensino médio no
final de 2002.
Ainda dentro do meu terceiro ano, brotou o sonho de cursar História, pelo fato de ter um
professor que ensinava esta disciplina de forma crítica e reflexiva: professor Edinaldo. Foi
isso que me motivou a conhecer as questões sociais, porque o modelo capitalista contribui
para a desigualdade social, onde prevalece a falta de perspectiva de vida em pessoas que
vivem na miserabilidade econômica, que em sua grande maioria são pessoas de origem afri-
cana – na minha opinião – porque isso reflete diretamente na comunidade onde eu moro.
Através do estímulo de alguns professores, matriculei-me em 2004 no curso pré-vesti-
bular Tiro de Guerra, para prestar vestibular na Universidade Estadual da Bahia (UNEB) no
final do ano, sem êxito no processo de seleção.
Em 2005 fiz cursinho novamente, estudava em casa, mas não tive sucesso novamente
na prova, para cursar História na UNEB.
Em 2006 entrei no curso pré-vestibular Razão, participei no meio do ano do processo
seletivo da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), passei na primeira fase,
no entanto não passei na segunda. Inscrevi-me novamente no processo seletivo da UNEB e

* Graduando em Psicologia pela UFRB.

70 Caminhadas de universitários de origem popular


UFRB, no final do ano, e graças a Deus, passei para cursar Psicologia na UFRB, que também
me fascinou por ser uma área que está ligada ao estudo do homem em diversos contextos,
como histórico, social e cultural.
Tive que sair da empresa em que trabalhava, pois não dava para conciliar o trabalho e o
estudo. Por isso, vários obstáculos estão surgindo e surgirão outros pela frente, tenho certeza.
Já matriculado na UFRB, espero ao terminar o meu curso, colaborar na melhoria da
qualidade de vida das pessoas, principalmente aqueles que vivem oprimidos pelos detento-
res do poder político do nosso país.

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 71


Autobiografia
Joselita de Jesus Bomfim*

Eu, Joselita de Jesus Bomfim, nasci na Zona Rural de Itamari, na Bahia. Tenho 25
anos, sou solteira, moro com meus pais e três irmãos, tenho pele negra, olhos castanhos
escuros e 1,65 metro de altura.
Iniciei a minha vida escolar aos seis anos, me alfabetizarei na zona rural e logo depois
comecei a estudar o primário na Escola Estadual Dr. Vasco Filho, onde concluí a 4ª série no
ano de 1994. Já em 1995, comecei o ginásio na Escola Municipal Centro Educacional de
Apuarema. Nesta mesma escola cursei todo o ensino médio, e em 2001 prestei o meu primei-
ro vestibular na Universidade Estadual da Bahia para o curso de Enfermagem. Fui classifi-
cada, mas não convocada em virtude no número insuficiente de vagas. Essa trajetória con-
tinuou e, já em 2005, prestei novamente vestibular, desta vez me sentia mais preparada,
pois estudei um ano de cursinho. O problema é que ainda não foi suficiente, fui reprovada
de novo! Voltei para a minha cidade, trabalhei durante o dia, dava aula de Ciências de 5ª a
8ª séries e à noite trabalhava com classe de alfabetização.
Hoje, realizo o meu sonho ao cursar Enfermagem na UFRB. Espero que seja a minha
verdadeira vocação, pois a luta não foi fácil, já que vim de uma família de classe baixa com
pouca ou quase nenhuma instrução escolar.
Espero que consiga concluir o curso, já que este é um dos grandes desafios do aluno
que vem da escola pública com baixo poder aquisitivo, como o meu caso. Mas apesar de
todos os obstáculos, pretendo realizar o meu novo sonho, que é concluir a graduação, me
especializar na área e fazer um doutorado em Patologia Humana. Ser, enfim, realizada
profissionalmente. E dar uma condição de vida melhor para os meus pais, que tanto lutaram
e se dedicaram para a conquista do meu sonho.

* Graduanda em Enfermagem pela UFRB.

72 Caminhadas de universitários de origem popular


Verdadeira identidade
Leila Pereira da Cruz*

Nascia mais um dia, o Sol aquecia a terra, o mundo estava tão diferente e não sabia que
ali, logo em frente, a poucas horas, aconteceria uma coisa especial.
No dia 8 de setembro de 1989, às 12:20, o mundo se alegrou, a felicidade aumentou,
nascia em uma maternidade de Cruz das Almas uma criança de nome Leila, filha de Luiz
Alberto e Valneide Pereira.
Meu pai, pedreiro, estudou até a 4ª série. Órfão de pai aos sete anos, teve que trabalhar
para ajudar sua mãe na criação de seus oito irmãos e, devido a isso, não pode se dedicar aos
estudos. Teve de abrir mão de ser uma criança com infância normal e divertida para ser uma
criança cheia de responsabilidade desde cedo. Ele começou a trabalhar vendendo picolé
para ajudar nas despesas de casa, um pouco mais tarde ele aprendeu a profissão de pedreiro
e começou a trabalhar nessa área. Depois ele conheceu minha mãe, que já tinha dois filhos.
Minha mãe, dona de casa e aposentada, estudou até a 6ª série. Largou a escola devido
a problemas de saúde e não pôde nem concluir o ensino fundamental. Aos 18 anos já era
mãe e depois precisou criar dois filhos só com a ajuda de Deus e de seus pais.
Somos seis irmãos em casa, três homens e três mulheres. Minha irmã Valdinéia, de 25
anos, abandonou os estudos ainda na 4ª série, se tornou mãe cedo e foi trabalhar em casa de
família. Meu irmão Everaldo, de 22 anos, estudou e conseguiu concluir o ensino médio.
Trabalha em uma fábrica chamada Bibi Calçados. Os meus outros irmãos ainda estão no
colégio: Leandro na 1ª série, Luiz na 5ª série e Leilane no 2º ano.
Ao completar três anos entrei na escola, iniciando pelo Jardim, na Escolinha Casa da
Criança, que na época era na minha rua. Logo depois eu me mudei de escola e fui estudar no
Colégio Batista, onde fiquei da 1ª à 4ª série. Eu, quando pequena, sempre fui uma criancinha
frágil e doente, porque tinha problemas respiratórios, sentia falta de ar, e devido a isso eu
deveria me limitar a certos tipos de brincadeira, como de correr e coisas que exigissem
muito esforço físico.
Quando eu concluí a 4ª série, fui estudar no Centro Educacional Cruzalmense (CEC),
onde fiz meus ensinos fundamental e médio. Na 6ª série uma colega minha de sala me tratou
com preconceito racial, pelo simples fato da cor da minha pele ser negra. Essa situação foi
muito difícil para mim e assim eu descobri que existiam pessoas capazes de julgar o outro
pela cor da pele. Isso se repetiu mais uma vez mais tarde, dessa feita um pouco diferente: foi
pelo fato de ser de classe baixa. Uma pessoa me discriminou mais uma vez. Isso tudo foi

* Graduanda em Engenharia Florestal pela UFRB.

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 73


superado porque eu conversei com minha mãe e ela me disse que não me importasse com
isso, que no mundo existiam algumas pessoas desse tipo, e eu sempre senti orgulho da
minha cor e da minha classe social.
No ensino médio sempre acontecia um evento no colégio chamado “Projeto Literá-
rio”, e isso era muito legal porque cada sala ficava com uma obra literária para desenvolver
e apresentar uma peça teatral. Era feita a divulgação do projeto em formas de cartazes e de
mini-apresentações; participei por três anos desse projeto, durante o tempo em que estudei
nesse colégio.
Em 2005, no dia 1º de novembro, minha avó materna, que estava doente devido a um
acidente vascular cerebral, faleceu. Nesse dia para mim o mundo tinha desabado, por que
ela era alegre, sorridente e uma pessoa muito querida por filhos, netos e amigos, não dava
para acreditar. Quando eu vi minha avó dentro do caixão, cheia de flores, eu pensava que
aquilo era um pesadelo e que ela estava apenas dormindo.
Em 2006 eu fiz o 3º ano do ensino médio no CEC à tarde e um cursinho no turno da
noite no Pré-Vestibular do Povo. Em agosto meus pais me deram 75 reais para fazer a
inscrição. Fiz o ENEM e continuava estudando e freqüentando o cursinho. Em novembro se
realizaria a 1ª fase do vestibular da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB),
um dia antes dei uma revisada nos assuntos e continuava ansiosa. No dia da prova saí de
casa cedo e isso se repetiu nos dois dias seguintes. Eu fiquei contando as horas para sair o
resultado e, quando saiu, descobri que tinha sido aprovada. Começava minha luta rumo à 2ª
fase, que seria para mim mais difícil que a primeira porque as questões eram discursivas e,
apesar de ter me preparado, me faltava confiança.
Na 2ª fase eu estudei mais que na primeira, a ponto de me desesperar. E se eu não
conseguisse? Passado o dia da prova, esperei até o resultado e, quando saiu, fui na internet
abrir a página da UFRB. Procurei resultado para o curso de Engenharia Florestal, cujo
campus é em Cruz das Almas, e quando vi meu nome na tela eu senti uma forte emoção,
inexplicável até hoje, para mim era um sonho e que eu demorava a acreditar.
Ao sair do 3º ano para uma universidade, minha família ficou muito feliz e daí em
diante eu comecei a imaginar como seria a universidade. No dia da matrícula foi quando
entrei na UFRB pela primeira vez e a sensação que tive foi de estar no jardim da infância,
porque é o período em que você vai para a escola com sua mãe, e foi isso que aconteceu
comigo: me senti feliz por poder compartilhar isso com minha mãe.
As aulas começaram, cheguei na UFRB tímida e demorava para acreditar que agora eu
tinha se tornado universitária, devido às minhas origens, filha de um pedreiro e uma dona
de casa, que mal concluíram o ensino fundamental.
No começo foi um pouco difícil, eu não conhecia quase ninguém e nem como funciona-
va a universidade, afinal eu estava costumada com o colégio. Eu passei a enxergar o mundo de
outra forma totalmente diferente de quando eu estava do lado de fora da faculdade.

Sábio não é aquele que sabe muito, mas aquele que sabe que o
pouco que ele sabe é o muito que ele precisa.
Autor desconhecido

74 Caminhadas de universitários de origem popular


Texto autobiográfico
Lucas Dias Reis*

Tenho 19 anos e sou natural de Cruz das Almas, no interior da Bahia. Sempre fui uma
pessoa muito criativa, o que sempre chamou a atenção de amigos e parentes. Em muito a
minha família contribuiu (e até hoje contribui) para as minhas conquistas, sempre me incen-
tivando a fazer o que de fato gosto, sem, contudo, deixar de alertar-me a respeito dos riscos
a que estamos expostos na vida, ressaltando ainda que eu deveria buscar as minhas vitórias
pessoais de maneira disciplinada e honesta. Herdei, portanto, através de lições familiares,
valores que hoje me caracterizam como pessoa e que prezo muito.
Minha família sempre foi bastante envolvida com questões religiosas. Com efeito, aos
11 anos entrei no grupo de coroinhas da Igreja Católica, na paróquia da minha cidade.
Nesse mesmo período cursava a 5ª série do ensino fundamental, tendo, na escola em que
estudava, um acerta popularidade que resultou em diversas indicações para assumir lide-
ranças em atividades extra-classe, como gincanas, feiras de cultura etc.
No final de 2000, período em que já havia concluído a 6ª série, minha família se
mudou para Salvador; porque meu pai apresentava graves problemas de saúde e buscáva-
mos oferecer-lhe melhores condições de tratamento. Seis meses após tal mudança, lamenta-
velmente, meu pai veio a falecer, causando abalos à nossa estrutura familiar. Com isso,
minha mãe, de uma modesta dona-de-casa, foi obrigada a se tornar chefe de família. Embora
houvesse muitas dificuldades naquele momento, decidimos permanecer em Salvador, ten-
do em vista que eu e meus três irmãos teríamos mais oportunidades quanto aos estudos, bem
como no mercado de trabalho.
Em busca de atividades que me levassem a lidar, de maneira menos angustiante, com
a ausência do meu pai, decidi me matricular na oficina de teatro oferecida pela escola onde
estudava; daí surgiu a oportunidade de participar de um festival de música sobre o meio
ambiente, organizado pela Secretaria de Educação de Salvador e a Secretaria de Planeja-
mento (SEPLAN), no qual fui vencedor com a música Beleza Ambiental.
Já em 2003 cursei o ensino médio em um dos colégios mais conceituados da rede
pública de Salvador: Colégio Estadual Anísio Teixeira – CEAT. Fazia apenas duas sema-
nas desde a minha chegada no CEAT, quando fui eleito, por meus colegas, líder da turma.
Certo de que estaria apto para representar todo o corpo discente dessa instituição, decidi me
inscrever nas eleições do Colegiado Escolar (no segmento dos alunos). Durante o processo
eleitoral, surpreendi professores e colegas ao apresentar bom desempenho nos debates e
demais atividades correlatas. Doravante, venci as eleições para os três turnos (matutino,

* Graduando em Engenharia Agronômica pela UFRB.

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 75


vespertino e noturno), e, logo após tomar posse, fui convidado pelo presidente do grêmio
estudantil para assumir a diretoria de cultura do grupo: aceitei o desafio, e junto à coorde-
nação pedagógica, desenvolvi e implementei diversas atividades culturais. Entretanto, como
diretor da função, permaneci por pouco tempo: cinco meses após assumir o cargo, fui
nomeado vice-presidente do grêmio no turno vespertino.
Como sempre fui um estudante bastante sensível às causas sociais, nesse mesmo perí-
odo, tornei-me militante junto à Juventude Socialista Brasileira (JSB) e, juntamente com
outros militantes, fundamos a Associação de Grêmios e Estudantes de Salvador (AGES).
Embora, como se pode observar, eu tivesse participação ativa no movimento estudan-
til, em momento algum releguei a um plano secundário as minhas atividades religiosas,
sempre cumprindo, com afinco, as minhas obrigações como catequista na Pastoral da Ju-
ventude da paróquia que freqüentava.
Em agosto de 2005, quando cursava a 3ª série do ensino médio, fui nomeado presiden-
te do grêmio estudantil. Como já presidia a comissão de formatura do colégio, decidi me
afastar da JSB e da AGES, a fim de me dedicar mais ao grêmio, à organização da formatura
e, é claro, aos estudos, já que faria vestibular ao final daquele ano.
Apesar do grande interesse que sempre apresentei pelas questões socioculturais, haja
vista as atividades que executei durante a minha vida estudantil, era um desejo meu prestar
vestibular para um curso que estivesse dentro da área de Ciências Agrárias, campo extenso,
que me atraía por representar uma junção das Ciências Naturais e Sociais. Decidi, portanto,
me inscrever para o curso de Engenharia Agronômica, na certeza de que ele contemplaria
toda a riqueza oferecida pelas Ciências Agrárias. Aprovado, voltei então para Cruz das
Almas, com grande expectativa quanto ao início de mais uma fase – desafiadora e prazerosa
– da minha vida.
Cheguei à universidade um pouco tímido; entretanto, graças à minha busca incessan-
te por novos amigos, fui rapidamente integrado à comunidade acadêmica, o que me possi-
bilitou, já no primeiro semestre, a participar de trabalhos de pesquisa da área.
Hoje estou no segundo semestre e, gradativamente, acentua-se a minha paixão pelo
curso. Continuo, pois, expondo-me a novos desafios, tendo como base o seguinte preceito
do pedagogo e sábio Paulo Freire: “Sem a curiosidade que me move, que me inquieta, que
me insere na busca, não aprendo nem ensino”.

76 Caminhadas de universitários de origem popular


Meus passos, minha caminhada
Palmira Magaly Passos Gusmão*

Acredito que qualquer pessoa, quando descreve sua jornada vivida, inicia seu relato
falando sobre a família.
Tenho meus pais vivos e três irmãos, que são mais novos que eu. Meus pais são
separados há doze anos e nós moramos com minha mãe e um tio deficiente mental. Apesar
da separação e de uma situação financeira limitada, meus pais nos criaram priorizando
sempre nossa educação.
Essa situação financeira, somada ao término do casamento, marcou minha vida esco-
lar, que foi cheia de migrações entre colégios públicos e particulares. As séries iniciais
cursei em escolas públicas, parte do ensino fundamental em colégios particulares, e outra
parte em colégios públicos. Ao final do ensino fundamental resolvi iniciar o meu ensino
médio com um curso profissionalizante, então fiz magistério. Nos três anos de magistério
fiz estágios remunerados em três escolas diferentes.
Fiz um cursinho pré-vestibular e, no mesmo período, ingressei num curso de
capacitação para jovens no Instituto Cultural Steve Biko.
Na Steve Biko me formei, junto com outros vinte e nove jovens, na primeira turma de
recreação infantil, onde tivemos oficinas de diversas atividades e fizemos apresentações em
muitos lugares. Neste período fui eleita líder da turma e representei o grupo num encontro
com primeira dama do país na época, Ruth Cardoso e outros jovens que participavam de
outros cursos com a mesma característica que o meu. Também fui chamada para trabalhar
em festas particulares e em festas populares feitas pela prefeitura de Salvador.
Apesar de diariamente discutir questões raciais, foi a partir do ingresso na Biko que
realmente comecei a atuar na área. Li muito sobre esses assuntos, participei de palestras,
discussões, amadureci meus pensamentos e decidi então prestar vestibular para um curso
que não é historicamente freqüentado por negros e que me parecia estimulante e novo.
Queria viver novas experiências e contribuir com minha causa em um campo diferen-
te. Prestei vestibular para Engenharia Agronômica da então Universidade Federal da Bahia
(UFBA) e passei. Quando cheguei aqui, desenvolvi algumas atividades como voluntária
no projeto da universidade, chamado UFBA em Campo. Este projeto auxiliava uma comu-
nidade localizada dentro de sua área.
O projeto findou mas a minha vontade de trabalhar na área social não, então fui
nomeada diretora social da Cooperativa de Estudantes de Agronomia (COOPEA). Idealizei

* Graduanda em Engenharia Agronômica pela UFRB.

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 77


alguns projetos, mas poucos foram postos em prática, por falta de verbas. Havia pensado em
hortas comunitárias, em ciclo de palestras para serem desenvolvidas nessa comunidade,
mas infelizmente não foram possíveis essas realizações.
Assim que acabou a minha gestão como diretora da Coopea, iniciei um estágio na
escola sob a orientação da professora Gilca Garcia, que discutia as diversas formas de acesso
a terra no Médio São Francisco, próximo à Chapada Diamantina, na Bahia. Nesse estágio
trabalhei principalmente em comunidades ribeirinhas e remanescentes de quilombos. Para-
lelo a este estágio, trabalhei em São Felipe (no interior da Bahia, próximo a Cruz das Almas)
como professora do ensino médio. Por quatro anos estive em São Felipe e, durante os
últimos anos, me dediquei exclusivamente às atividades que desenvolvia; deixei de priorizar
a faculdade pela necessidade de me sustentar em Cruz das Almas.
Mesmo distante da faculdade, formei junto com seis colegas o Núcleo de Estudantes
Negros da Escola de Agronomia, que chamamos de Azeviche.
Com o Azeviche, eu e meus colegas fizemos algumas discussões até chegarmos à
conclusão que deveríamos promover um seminário que discutisse as questões raciais na
faculdade, onde poderíamos então abrir nossas idéias a outros estudantes, como também
para o público da cidade no geral. O seminário que ocorreu no mês de outubro de 2005 se
chamou “UFBA EM NEGRITO, o Recôncavo discute suas raízes”.
Para mim, a experiência foi única. Ao final do evento me senti realizada e frustrada por
perceber a total falta de interesse dos professores em discutir ou até mesmo participar do
seminário. Deste evento em diante poucas foram as atividades do Azeviche e, em virtude
disso, terminamos nos afastando. Porém a minha jornada ainda não havia esfriado, e eu
então decidi me dedicar a faculdade e me formar de uma vez, e isso só seria possível se eu
tivesse um emprego na mesma cidade. Saí da escola que trabalhava e passei a estagiar na
Prefeitura de Cruz das Almas, no departamento de Reparação Racial.
No departamento, pude me aproximar mais efetivamente das minhas antigas ativida-
des junto à comunidade negra, além de conhecer e me envolver na política local. Mesmo
gostando de estagiar neste departamento, ainda assim não dispunha de tempo para a facul-
dade e não podia também abrir mão da remuneração, então me inscrevi no Conexões de
Saberes para poder unir a minha vontade em trabalhar às questões raciais nas comunidades
e, ao mesmo tempo, obter uma remuneração para a minha permanência na universidade.
Agora que me aproximo do final da minha graduação, espero que o Conexões seja um
instrumento para o enriquecimento da minha caminhada e construção da minha carreira na
forma como pretendo desenvolvê-la.

78 Caminhadas de universitários de origem popular


Memorial
Maria Gilcilene Maciel Rocha*
Introdução

I
Eu vou cantar pra vocês
um pouco da minha história
Sou de uma família humilde
que veio para mudar a trajetória

II
Ninguém da família enfrentou a história
enfrentei as distâncias para me encaixar na história

III
Está é Maria Gilcilene
que acabei de descrever
que está no Conexões de Saberes
na UFRB

• Para falar de mim, precisei fazer uma síntese da minha história de vida, assim
conectei as informações descritas nesse documentário.
• O memorial foi elaborado levando em conta as condições, situações e contingên-
cias que envolveram o desenvolvimento do meu percurso até a entrada na univer-
sidade.

Origem/família
Em São Felipe, na zona rural chamada Copioba do Sul-BA, em 15 de agosto de 1982,
nasceu uma negra linda, entre as lindas da minha cor, chamada, Maria Gilcilene M. Rocha,
filha de gerações de agricultores rurais de subsistência.
Meu pai, Antonio Paulo Conceição Rocha, aprendeu a lidar com a lavoura e só estu-
dou até a 4ª série primária do fundamental, por causa da distância até a escola. Minha mãe
vem de uma família numerosa é a segunda de dez filhos. Não teve muitas oportunidades de
estudar e fez até a 3ª série primária do fundamental.
Após se casarem ainda adolescentes (dezessete e quinze anos, respectivamente) tiveram
quatro filhos: Jivanildo, eu, Maria Jane e Gilmar. O casamento só durou sete anos e separam-se.

* Graduanda em Engenharia Agronômica pela UFRB.

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 79


Meu pai ficou com a guarda dos filhos. Nos levou para a casa do meu avô paterno,
Antonio Alves da Rocha, agricultor e serralheiro, hoje aposentado.
Minha mãe, saiu de casa e foi morar na casa dos meus avós maternos (Laura Pereira e
José Maciel), que deixaram a zona rural (e se mudaram para o centro urbano, de Cruz das
Almas-BA). Minha mãe não conseguiu um trabalho qualificado e começou a trabalhar de
doméstica.

Infância/adolescência
A separação do casal aconteceu em 1988, estava com seis anos na época. A infância
ficou marcada por esta tragédia e por uma adolescência precoce. Assim, a maior parte da
infância foi concluída sem a participação dos pais. Era mãe e irmã ao mesmo tempo dos
meus irmãos. Aprendemos a caminhar sozinhos, um aconselhando ao outro. Ainda neste
período, tolerava um sofrimento por não poder ver a minha mãe, por imposição paterna.
Como residíamos na casa de meu avô, ele preenchia a lacuna de carinho, nos permitia
brincar de tudo, de cantiga de roda, macaquinho, sete-pedra, casinha, até cozinhar; preferia
mesmo era jogar futebol. Lembro nitidamente dos “babas” de fim de tarde com meninos e
meninas, no pequeno campo, na propriedade do meu avô.
Como diz o ditado, “alegria de pobre dura pouco”, e assim foi a minha curta infância.
Passados alguns anos nesta casa, minha avó Carmelita faleceu. Eu, por ser a “menina-
mulher” mais velha, tive que assumir o controle dos afazeres domésticos, como lavar roupa
e pratos, cozinhar e outros. Assim, antecipei minha adolescência.

Escola
Para estudar tive que superar as dificuldades econômicas, e acima de tudo, as distân-
cias das escolas. Na zona rural as escolas ficavam distantes entre si, quando não éramos
obrigados a estudar em outras cidades.
Para chegar até o colégio tive que andar de pé, caminhão ou ônibus, enfrentando altas
e baixas temperaturas, sol e chuva, até chegar ao destino final, meu colégio.
Antes de começar a estudar, imaginava que a escola era uma grande casa com quatro
paredes, cheia de cadeiras e esteticamente bonita. A primeira vez que fui à escola tive um
choque, porque era o contrário do que imaginava. Era pequena, velha e feia. Em um breve
momento me desestimulei a estudar.
Comecei a estudar com seis anos, na escola Municipal Geraldo Pereira Lordelo, do
povoado da Tapera. Lá estudei o ABC e a Cartilha (alfabetização). Apesar de tudo, a profes-
sora era excelente, a dona Vitória, que me fez mudar a concepção sobre a escola, dizia “que
não importava a beleza da escola, mas sim o que ela oferecia, o estudo”. Ela era paciente ao
ensinar o beabá e a tabuada.
Cursei da 1ª a 4ª séries na mesma escola. Nesse período tive as professoras Laura,
Mariza e Antonia, esta carinhosamente chamada de Toinha, tão excelente quanto a dona
Vitória. Só me lembro que havia competição interna para mudar de lição, terminar o livro
e pegar outro. Sempre fui uma das primeiras a terminar os exercícios e trocar de livro, o que
gerava elogios das professoras. Havia também gozações por parte dos alunos, para quem
errasse a tabuada; isto incentivava a leitura constante em casa para não errar a resposta.
Na entrada para a 5ª série do fundamental tive um grande problema, pois a zona rural
só oferecia estudo até a 4ª série fundamental. No centro urbano de São Felipe só haviam

80 Caminhadas de universitários de origem popular


dois colégios que ofereciam o ensino fundamental e médio completo. Um era o Colégio
Estadual João Durval Carneiro (CEJDC), que tinha poucas vagas por ano, preenchidas por
estudantes do centro da cidade e, se sobrassem, para os da zona rural.
Meu pai foi procurar vaga para me matricular no CEJDC, mas não conseguiu como era
esperado. Como eu era esforçada nos estudos, ele resolveu falar com o dono do Colégio
Cenecista São Felipe para tentar uma bolsa de estudos, em troca de alguns sacos de farinha
de mandioca. Aí ele teve êxito e me matriculou. Fiz a 5ª e 6ª séries no Cenecista São Felipe.
Antes de terminar a sexta série, enfrentaria outro obstáculo, dessa vez era em relação ao
transporte. O prefeito da cidade não estava pagando o salário dos motoristas e na época eles
deixaram de circular os carros.
Nesse período escrevi para minha mãe, expondo a situação e pedindo para ela reservar
uma vaga de 7ª série em um colégio público. Ela conseguiu vaga no Colégio Estadual
Landufo Alves de Almeida (CELAA). Porém ao passar para estudar em Cruz das Almas, o
ônibus era pago isso constituía um outro obstáculo, porque meu pai não queria que eu fosse
estudar lá e tivesse contato com minha mãe, entretanto, se eu fosse estudar ele não pagaria
o ônibus. Visando o melhor pra mim, decidi estudar em Cruz das Almas, porque não tinha
previsão para os motoristas voltarem a circular os ônibus para São Felipe.
Nas 7ª e 8ª séries do fundamental fui estudar no CELAA. Ia e voltava todos os dias
para casa do meu avô, financiado pela minha tia Maria, irmã do meu pai.
O ensino médio continuei no Landulfo Alves. Nesse período fiz grandes amizades
com Railda, Kátia, Núbia, Ana Paula, Regiane, tenho até hoje contatos com todas elas, em
especial a Ana Paula, que é minha cunhada.
O professor que mais se destacou nesse colégio foi Das Neves, de matemática. Sua
metodologia cativou muitos alunos, inclusive a mim. Era rígido quando necessário, po-
rém ensina bem.
Nesse colégio participei de feiras de ciências, recitais de poesias, gincanas estudantis,
feiras de cultura, seminários, entre outros eventos.
Nesses cinco anos conquistei amizades de muitos professores, inclusive a professora
Delma, que me incentivou a fazer o vestibular.

Trabalho x vestibular
Em 2002, ao término do ensino médio, não fiz o vestibular, por falta de dinheiro para
pagar a inscrição. Em 2003, minha mãe pagou a inscrição do vestibular, mas não tive êxito.
Prestei para enfermagem na Universidade Federal da Bahia (UFBA), passei na 1ª fase e perdi
na 2ª. Ainda nesse ano ela me matriculou em um cursinho pré-vestibular comunitário da
Igreja Católica, chamado “cursinho do povo” e depois no pré-vestibular Garagem. Nesse
mesmo ano prestei o vestibular para pedagogia pela Universidade Estadual da Bahia (UNEB),
no campus de Valença. Dessa vez tive sucesso, fiquei feliz, mas tinha um problema: era em
outra cidade e não teria recursos para me sustentar. Por conta de uma greve, as aulas só iriam
começar no segundo semestre de 2004.
Enquanto as aulas na universidade não começavam, trabalhei para juntar dinheiro e
poder estudar. Fui garçonete em um restaurante no centro de Cruz das Almas e ganhava
muitas gorjetas, o que me incentivava a continuar no emprego. Trabalhava mais tempo que
deveria por pouco menos de um salário mínimo.

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 81


Em 2004, por intermédio do empregador de minha mãe, que era na época diretor
acadêmico da Faculdade de Ciências Tecnologia Albert Einstein (FACTAE) fiquei saben-
do da seleção para o cargo de telefonista na instituição, com inscrição gratuita. Fui pessi-
mista, nem os amigos achavam que iria conseguir, mas como quem “não chora não mama”,
tentei. Fui selecionada para a 2ª fase, da entrevista coletiva, e mais uma vez fui pessimista,
pois só havia uma negra, que era eu. As outras concorrentes eram loiras e morenas. Havia
três vagas para o cargo, com quinze meninas na entrevista. Após oito dias saiu o resultado
e quase não acreditei: consegui, e isto foi motivo de alegria para todos, mãe, amigos, tios....
Deixei o trabalho de garçonete e fui trabalhar como telefonista. Passei quase três meses
em fase aprendizado para logo depois receber elogios de um trabalho bem feito, por parte de
todos inclusive do presidente da faculdade, que disponibilizaria meia bolsa de estudos para
os funcionários da instituição. Então prestei vestibular para Administração, fui aprovada,
juntei o útil ao agradável (trabalhando e estudando na mesma cidade, perto de casa).
Estudava de manhã e trabalhava à noite.
No segundo semestre de 2004, chegaria a hora de decidir entre Pedagogia na UNEB,
que é pública, e Administração na FACTAE, particular. Visando o melhor para mim, minha
mãe preferiu que eu continuasse na FACTAE e desisti de estudar Pedagogia em Valença,
pela UNEB.
No segundo semestre de 2005 prestei novamente o vestibular e passei, dessa vez para
Agronomia, pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Hoje o curso faz parte da Univer-
sidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Fiquei muito feliz, consegui passar numa
faculdade pública, como desejava. Não pensei duas vezes, ao término do 3º semestre de
Administração da FACTAE tranquei matrícula.
Achava que iria continuar a trabalhar na FACTAE e estudar na UFRB. Entretanto, não
sabia do regulamento da instituição, em que funcionário bolsista que deixasse de estudar,
perderia o trabalho. Logo, estava em uma escolha novamente entre FACTAE X UFRB.
Consultei meus familiares, que aconselharam para ficar na FACTAE.
Estava na pior indecisão de toda a minha vida. Então pensei, pensei e decidi: resolvi
ir contra os conselhos de minha família, pois acho que a sorte não bate duas vezes na mesma
casa, então o melhor pra mim era fazer a UFRB.
Hoje posso dizer com certeza que escolhi certo, pois uma das vantagens, é estar no
Conexões de Saberes, e poder contar a minha história.

Reflexão final
A trajetória da minha vida, até o dia atual, é marcada por muitos obstáculos financei-
ros. As dificuldades ocasionadas pelo dinheiro se agravam, ainda mais por pertencer a uma
etnia negra.
Oriunda de uma família humilde, onde tem como prioridade o estudo, acreditam que
isso pode mudar o estado socioeconômico, de status e conhecimento para quem consegue
estudar.
Para estudar, tive que superar as dificuldades econômicas, e acima de tudo as distân-
cias das escolas.
Enfim, a síntese da minha vida é marcada por muitos obstáculos, porém não me fize-
ram desistir em nenhum momento do que hoje é meu objetivo principal, que é concluir o
curso superior.

82 Caminhadas de universitários de origem popular


L’Amore
Marly Silveira*

Uma história de amor, uma lição de vida


Sou estudante do curso de Nutrição da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia
(UFRB) e venho contar um pouco da minha historia de vida. Ela é como a de milhões de
outras mulheres negras e pobres que vivem discriminadas, sem muitas oportunidades.
Estava no ventre da minha mãe quando meu pai morreu. Porém cresci na zona rural, no
seio de uma numerosa família de nove irmãos, ao lado da minha mãe, que lutava com
dificuldade para criar seus filhos.
Nossa situação financeira não era favorável, mas sempre fui uma criança alegre. Quan-
to sentia medo, sempre procurava a “mainha”, que me transmitia muita seriedade e paz.
Aos dozes anos de idade fiquei órfã de mãe e passei por várias moradas na casa de parentes,
estudando com dificuldade, sempre a perseguir o sonho de um dia obter um futuro melhor.
Após alguns anos fui acolhida por minha tia, hoje com 80 anos. Lá pude concluir os
estudos do ensino médio e prestar vestibular, realizando o sonho de tentar freqüentar uma
universidade para, no futuro, assegurar uma melhor condição de vida para mim e meus irmãos.
Muito dedicada aos estudos, e com grande facilidade no aprendizado nas áreas de
exatas, principalmente química e física, logo que concluí o ensino médio passei a trabalhar
com reforço escolar para todas as séries, única fonte de renda para custear as minhas despe-
sas pessoais.
Estudando em escola pública e sem dinheiro para custear um curso pré-vestibular,
tentei quatro vestibulares para uma universidade pública estadual ou federal. Estas reprova-
ções me deixaram num estado depressivo, me sentido incapaz de tudo, porém dei a volta
por cima e voltei a estudar, e dessa vez decidida a passar.
Hoje, após a minha aprovação no curso de Nutrição na UFRB, tenho receio de que sem
o suporte financeiro, tenha que abandonar o sonho da minha vida, pois sem trabalho fixo,
não terei como pagar as despesas como alimentação e transporte para freqüentar a faculdade.
Entretanto com aprovação no vestibular, perdi o suporte financeiro do reforço escolar
que eu oferecia, porque coincidiu o horário do curso com o horário das aulas da faculdade,
não sendo possível remanejar o grupo para o horário noturno.
Freqüentadora de um centro espírita na cidade onde resido, trabalho como coordena-
dora e evangelizadora do departamento de infância e juventude, que oferece às crianças e
jovens da comunidade carente palestras sobre a doutrina e tem como objetivo mantê-los

* Graduanda em Nutrição pela UFRB.

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 83


afastados das drogas, mostrando a importância do convívio familiar, da boa conduta peran-
te o seu próximo e conscientizando-os da contribuição para um mundo melhor.
Também atuo no departamento de assistência social, que visa completar a renda da
população de baixa renda, com cursos profissionalizantes e uma cesta básica mensal.
Com essa experiência vivenciada junto à comunidade, gostaria de ampliar minhas
ações, mais frequentemente na área de reforço escolar, levando conhecimento não só as
pessoas que já se encontram na escola, mas principalmente aquela que não têm essa possi-
bilidade, dando-lhes a chance de ter uma vida melhor.
Após a minha formação acadêmica, espero obter um trabalho que esteja aliado à
realização financeira, a oportunidade de atuar em projetos sociais com as comunidades
populares, propiciando uma melhor qualidade de vida geral.
Sabendo que a formação acadêmica não se completa na graduação, tenho pretensões
de continuar os estudos, em cursos de especialização na área de nutrição clínica, e posteri-
ormente fazer um mestrado e doutorado.
É dessa forma que levo minha vida, mostrando que por mais que existam obstáculos
em nossas vidas, nada é impossível.

84 Caminhadas de universitários de origem popular


Superação
Meire Aparecida de Souza Fiuza*

Não te mandei eu? Esforça-te, e tem bom


ânimo; não temas nem te espantes; porque
o Senhor teu Deus é contigo por onde quer
que andares.
Josué1: 9

Poderia ter começado minha história de várias maneiras, mas iniciei com este versículo
bíblico porque sou evangélica e gosto muito desta mensagem, ela me reanima sempre. Ao
contar minha história você entenderá.
Nasci e fui criada em Cruz das Almas, cidade situada no Recôncavo da Bahia, onde
sempre estudei em escola pública. Sou filha adotiva, talvez por isso valorize muito meus
pais. Eles me criaram com muita dedicação, mesmo com todas as dificuldades que surgiam,
me incentivavam e me alertavam que tinha de lutar por meus objetivos e que deveria
romper as barreiras que a vida colocasse à minha frente: que tentasse sempre, e não desistis-
se ou desanimasse jamais.
Na escola primária, participava das aulas e de todas as atividades da escola. Lembro-
me que sempre visitávamos a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA),
onde eu e a turma aprendíamos muito sobre os alimentos; também desfilávamos no aniver-
sário da cidade. Bons tempos! Quando pequena, ia continuamente com minha mãe à bibli-
oteca municipal, onde escolhia livros de histórias infantis bem coloridos e cheios de gravu-
ras. Gosto muito de ler.
Estudar sempre foi um prazer. Ia ao colégio para adquirir mais conhecimento e com-
partilhar momentos de alegria com meus colegas; ajudávamos-nos naqueles assuntos de
difícil assimilação. Minhas notas sempre foram boas, mas em algumas matérias obtinha
notas piores. Precisei de reforço escolar em matemática; tinha horror a essa matéria e posso
dizer que o assunto mais interessante nesta seara foi matriz, pois o professor fazia com que
desenvolvêssemos nosso raciocínio lógico.
Morávamos eu e meus pais em uma casa no bairro da Assembléia. Em 1994, quando
minha avó comprou uma casa nova, nos chamou para morar com ela, no bairro do Itapicuru.
Vivo lá atualmente. A convivência em minha casa é muito boa, mas é claro que houve
momentos de crise, com crises financeiras que atingiam minha família. Havia constantes
discussões e meus pais quase se separam. Sofria em ver que um casamento de 25 anos

* Graduanda em Comunicação pela UFRB.

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 85


poderia se desfazer. Desde que meus pais tinham vindo embora de São Paulo nunca conse-
guiram arranjar um emprego fixo, “se viravam”. Trabalharam como ambulantes e autôno-
mos durante dezoito anos e não foram bem sucedidos. Vendiam em barracas carne, bijute-
rias, desinfetantes e doces. Foram tempos difíceis, meus pais contraíram dívidas e o que
ganhavam era pouco para cobrir as despesas da casa. Após esse período, em 2005, meu pai
conseguiu emprego em uma fábrica de lajes e pré-moldados. As coisas melhoraram.
Estimulada por mim, em 2002 minha mãe voltou a estudar e deve concluir em 2007 o
3º ano do ensino médio. Muito dedicada, ela participou do concurso da Prefeitura Munici-
pal de Cruz das Almas em 2006, conseguiu boa pontuação e foi admitida no mesmo ano;
hoje trabalha como auxiliar de serviços gerais. Ainda bem que as lutas só serviram para que
o amor na nossa família crescesse mais e que pudéssemos valorizar uns aos outros.
Como disse, sempre me interessei pelos estudos. As matérias que mais gostava eram
Ciências e Educação Artística, porque sempre amei fazer artesanato e sempre fazíamos algo
novo. Aos doze anos comecei a fazer artesanato para vender, o dinheiro dava para comprar
algumas coisas, a realidade financeira não era fácil, vendo a situação que passávamos e não
me acomodei. Aprendi a confeccionar caixas presenteáveis, bordados, pinturas em tecido e,
há cerca de quatro anos, conheci o “Biscuit”, material que se assemelha massa de modelar,
utilizado para fazer ímãs de geladeira e objetos de decoração de cozinhas. Rende pouco,
mas me ajudou a comprar minhas apostilas do colégio e mesmo no início da faculdade.
Estudei na escola Recanto Feliz da alfabetização à 4º série. Nessa última série (aos
dez anos) participei do concurso de desenho “Pinta o Sete”, promovido por um mercado
do município. O desenho devia ser baseado na história de origem da cidade. Entre os
primeiros colocados fui classificada em sétimo lugar. Ao concluir o ensino primário,
minha professora disse que minha vaga estava garantida no Centro Educacional
Cruzalmense (CEC). Mas não foi tão fácil assim: sofri preconceito racial. Sou negra e me
orgulho disso. Minha mãe conversou com as professoras da antiga escola, elas recomen-
daram que fôssemos falar com a diretora do CEC. Ao conversar com a diretora da institui-
ção minha mãe explicou que eu era uma boa aluna e que não sabia o porquê de ter sido
mandada para outra escola. A diretora, com tom arrogante, perguntou: “Esta menina é boa
mesmo?” Recordo-me que minha mãe se calou, apenas tirou o boletim de notas da bolsa
e apresentou a ela. Então ela voltou e disse, meio sem jeito: “Continue assim que você
terá sucesso na sua vida estudantil”. Minha vaga foi concedida, estudei neste colégio da
5ª série ao 3º ano científico.
Estive sempre atenta a concursos e atividades que ocorressem em minha cidade. No 2º
ano científico, participei do concurso da Secretaria da Fazenda para um estágio. Eram seis
vagas, fui a nona colocada e, como não houve desistência, não consegui o estágio. Já no 3º
ano científico participei de uma seleção para um cursinho pré-vestibular da prefeitura,
nomeado “Pré-vestibular do Povo”: fui aprovada. Efetuei minha matrícula e cursei durante
2006, no período noturno. Estudava no colégio à tarde e, com muito esforço, me deslocava
para o centro da cidade à noite. Ia de bicicleta com minha vizinha, que desistiu, mas eu
continuei a ir, porque meu pai me buscava todos os dias.
Em setembro de 2006 me inscrevi em um concurso de redação criado pelo Rotary
Club da minha cidade, cujo tema central era “A melhoria do ambiente físico de Cruz das
Almas”. Esperava-se por sugestões de educação ambiental ou gestão ambiental do municí-
pio. Fiquei em primeiro lugar do Ensino Médio e fui premiada com um computador, (até

86 Caminhadas de universitários de origem popular


então nunca tive condições financeiras para comprar). Minha redação foi publicada na
Revista Canal, que circula na cidade.
Cursar a universidade sempre foi um sonho, às vezes achava inatingível. As dúvidas
brotavam em minha cabeça. Não era só a escolha do curso, mas como me manteria se
passasse. Os cursos com os quais me identificava eram desenho industrial, design de produ-
tos, decoração de interiores e editoração gráfica. Mas eles só existiam em Salvador. Não
havia como morar lá, não tinha parentes que pudessem me acomodar e a grana era curta.
Decidi procurar outro curso que gostasse e fosse perto de casa. A solução foi o curso de
Comunicação Social em Cachoeira, próximo da minha cidade.
Fiquei na expectativa do processo de isenção de taxa de inscrição do vestibular e
consegui êxito. Estava ansiosa e preocupada. Minha cabeça era um turbilhão de pensamen-
tos! Dediquei-me mais ao colégio, além de ter feito cursinho. Prestei o vestibular e fui
aprovada na 1º etapa, uma alegria só! Uma amiga minha que havia sido também aprovada
me convidou para estudarmos juntas. Assistimos aos filmes cobrados no vestibular e ainda
pagamos uma revisão em um cursinho particular, pois a 2º etapa já se aproximava. Nela a
prova seria aberta, mas mesmo assim fiquei calma pedi direção a Deus. Fiz a prova tranqüila,
afinal se não fosse aprovada já seria experiência para o próximo! Sou muito otimista acho
que isso me ajudou muito e apesar das preocupações não entrava em desespero. Respondi
minha prova e fui para casa. Quase todos os dias ia a uma lan house próxima para ver se já
havia saído o resultado. Finalmente, no dia 26 de janeiro de 2007, soube a tão boa notícia:
passei! Abracei meus familiares, chorei de emoção. Em minha cabeça passava um filme de
tudo que havia feito para conseguir realizar meu sonho. Vou sempre me lembrar deste
momento ímpar em minha vida. Infelizmente algumas amigas minhas não conseguiram
serem aprovadas, dou o maior apoio para que elas prestem vestibular novamente. A palavra-
chave é tentar.
Hoje sou universitária e curso Comunicação Social. Estou muito feliz, afinal com
muito esforço realizei um dos meus sonhos. Incentivo todos que têm interesse em fazer
vestibular. Que não fiquem estagnados diante dos obstáculos e que almejem as vitórias que
estão por trás deles. Sei que é difícil, mas não impossível; a vitória é virtude apenas dos
fortes, pois os fracos não conseguem ao menos lutar.
Sou grata a Deus, minha razão de viver, à minha família e meus amigos. Agradeço a
todos que sempre me estimularam; se hoje consegui o que tenho não é privilégio só meu, é
uma vitória de todos que me deram força, e não me deixaram desanimar

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 87


Texto autobiográfico
Núbia Oliveira*

Em 1983 o meu mundo começou. Foi quando minha mãe, com a graça do Espírito
Santo, trouxe-me pra cá e a minha história é mais ou menos a seguinte...
Nasci em Pintadas, cidadezinha no interior da Bahia, e comecei a minha vida escolar
aos sete anos de idade na Escola Municipal Públio Barreto. Sempre gostei de estudar, acho
que os obstáculos e dificuldades que passei para freqüentar a escola até concluir todo
ensino fundamental eram o que despertavam meu desejo de sempre continuar. Falo isso
porque minha família sempre morou na zona rural, em um povoado localizado na divisão
dos municípios de Pintadas e Maíri, e isso dificultava minha caminhada escolar.
Comecei a minha alfabetização já tardia, estudava em uma escola multiseriadada, ou
seja, a professora lecionava para alunos da alfabetização até a 4ª série do ensino fundamen-
tal. No mesmo turno e sala era impossível dar a mesma da atenção para todos os alunos.
Dessa forma eu, assim como todos os outros coleguinhas de sala, tivemos uma base escolar
prejudicada.
Para prosseguir com os estudos após esta etapa foi um processo difícil, pois morando
na zona rural ficava complicado o deslocamento para a cidade e, para proceder com a
caminhada estudantil teria que ser assim, já que na zona rural só tinha escola que ensinava
até a 4ª série do ensino fundamental.
Mas foi assim que a prefeitura disponibilizou um microônibus para levar os estudan-
tes interessados. Não foi fácil, pois eu tinha que andar todos os dias um bocado, devido o
ponto do transporte ser distante da minha casa. Sendo assim, tinha que sair cedo, por volta
das onze horas, e só retornava para casa novamente mais ou menos umas sete da noite.
Foi assim que comecei a estudar da 5ª a 8ª séries do ensino fundamental na Escola
Municipal Professora Zilda Dias da Silva, na cidade em que nasci. Após a 8ª série tive que
mudar de colégio, já que lá não havia ensino médio.
Comecei a estudar no Colégio Estadual Normal de Pintadas, durante dois anos, con-
cluindo o último ano no Rio de Janeiro, no Colégio Estadual Charles Dickens. Ao começar
o ensino médio optei por magistério (curso preparatório para formação de professores para
ensinar de 1ª a 4ª séries), pois como não tinha certeza se no futuro iria fazer um curso
superior, imaginava que optando por este curso, poderia depois de concluído conseguir um
emprego na prefeitura, como muitos dos professores dos quais me ensinaram conseguiram.
A maioria dos professores que me ensinaram na época não tinha nível superior, ensinavam

* Graduanda em Enfermagem pela UFRB.

88 Caminhadas de universitários de origem popular


apenas com o conhecimento que tinham adquirido no nível médio. Hoje, graças a Deus,
esta realidade está mudando, pois só agora eu sei as dificuldades que tenho passado pelo
fato de não ter tido uma formação melhor. Não quero menosprezar o trabalho deles, afinal
tenho consciência que a maioria se esforçou para dar o melhor de si e também sei que se
não fosse dessa forma nem o ensino básico eu teria conseguido, uma vez que eu não tinha
outra opção.
Sou filha de Osvaldo Gonçalves das Mercês e Carmezinda Vitalina de Oliveira, ambos
lavradores, hoje aposentados.
O nível cultural da minha família, no que diz respeito ao conhecimento formal, é
pouquíssimo. Sou filha de pais semi-analfabetos, e isso se justifica em parte pela falta de
oportunidade que os mesmo não tiveram de freqüentar uma instituição educacional formal,
afinal o conhecimento que adquiriram a foi graças a organizações feitas na comunidade
com propósito de transmitir o limitado conhecimento de uma pessoa para os componentes
da mesma. Foi dentro da casa de um dos moradores da comunidade, com outras crianças
reunidas, que meus pais também puderam ter a chance de concluir até a 3ª série do ensino
fundamental.
Pertenço a uma família composta de quatro irmãos, dos quais dois deles não tiveram a
oportunidade de concluir nem o ensino médio, sendo hoje também considerados semi-
analfabetos.
Desde criança estudei em escola pública e o meu maior sonho era cursar enfermagem em
uma instituição federal. Me sinto lisonjeada de hoje fazer parte do corpo discente de uma.
Mas sei que as dificuldades serão inúmeras, porque não tive uma boa formação escolar.
Espero que, a partir dessa bolsa do Conexões de Saberes eu possa contribuir com as
políticas afirmativas ajudando as comunidades populares e, ao mesmo tempo, eu possa com
a parte financeira investir em melhorias no meu curso, participando de projetos e com
tempo disponível para evoluir profissionalmente.

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 89


A realização do sonho
Queilane Salvador Santos*

Meu nome é Queilane Salvador Santos, a segunda filha de Pedro Pereira dos Santos e
Cleonice da Conceição Salvador, irmã de Fabio Salvador Santos. Nasci em maio de 1988
em Cruz das Almas-BA. Oito meses após o meu nascimento, meu pai comprou um sítio na
zona rural, no povoado de Cerquinha, que faz parte de Cabaceiras do Paraguaçu. Foi lá que
dei os meus primeiros passos. Meu pai, nesta época, trabalhava em Salvador como garçom
em um restaurante, e minha mãe como professora do ensino fundamental, profissão que
exerce até hoje. Minha mãe, além disso, trabalhava nas horas vagas na agricultura.
No entanto, mesmo morando na zona rural, estudava em Cruz das Almas, e para chegar
até a cidade tinha que pegar ônibus todos os dias. Estudava numa Escola Municipal Maria
Peixoto Barbosa junto com meu irmão, Fabio que estava dois anos adiantado em relação à
mim. Tive que repetir a alfabetização por não saber soletrar as palavras.
A minha infância foi bem divertida no povoado onde morava, pois tinha muitas
amigas e brincávamos bastante. Não posso deixar de falar do Fabio, que sempre foi um
“irmãozão” para mim. Sempre gostei de brincar de boneca, tanto que quando percebi já
estava com quinze anos e brincando de boneca.
Algum tempo depois meu pai deixou o trabalho de garçom e foi trabalhar de agricul-
tor no seu próprio sítio onde morávamos. Até que um dia meu pai resolveu comprar algumas
terras em Juazeiro-BA, e infelizmente foi obrigado a vender seu sítio para poder pagar as
terras. Foi a partir daí que a nossa vida financeira começou a mudar.
Nesta época estava com dez anos, estudava no Colégio Municipal Jorge Guerra, em
Cruz das Almas, estava na quinta série. Tivemos que nos mudar para o povoado da Pindobeira,
em Muritiba-BA, em um sítio do meu avô.
Chegando a Pindobeira , percebi que a vida não seria fácil. Meu pai, endividado,
sendo obrigado a trabalhar como agricultor, e como se sabe, não é muito rentável viver da
agricultura, contávamos apenas com o salário mínimo da minha mãe para nos mantermos.
Tanto eu como meu irmão sempre fomos estimulados pelos nossos pais a superar as dificul-
dades e procurar o caminho do aprendizado e do crescimento. E graças a Deus nasci no
berço evangélico. Somos da igreja Assembléia de Deus, e era na igreja que nos sentíamos
revestidos de força para enfrentar as dificuldades.
Desde a minha adolescência que vejo e sei o que é privação, é você querer alguma coisa
e não poder ter. Não que meus pais não quisessem me dar as coisas, mas porque realmente não

* Graduanda em Museologia pela UFRB.

90 Caminhadas de universitários de origem popular


tinham condições. Tanto eu como meu irmão tínhamos que trabalhar junto com nossos pais
na lavoura. Era uma vida complicada, porque, além disso, era preciso estudar.
Graças a Deus sempre fui uma boa aluna, desde o ensino fundamental até o ensino
médio nunca passei por uma recuperação, e sempre dei orgulho aos meus pais.
Para ser realista, não pensava em fazer um dia uma faculdade, porque achava que não
tinha capacidade de passar no vestibular. Mas quando vi meu irmão ingressar na faculdade,
me despertou uma vontade muito grande, de entrar e fazer o mesmo. Meu irmão prestou o
vestibular sem fazer cursinho, ele estava encerrando o seu terceiro ano quando prestou
vestibular da Universidade Federal da Bahia (UFBA) no curso de Zootecnia. Alguns dias
depois, saiu o resultado do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), e ele foi aprovado
no Programa Universidade Para Todos (PROUNI) e faz Geografia na Faculdade Maria Milza
(FAMAM). Resumindo, meu irmão faz duas faculdades.
Então pensei: meu irmão passou, eu também posso passar. Estava no meu segundo
ano do ensino médio e já falava em estudar para o vestibular. Lembro-me que nas minhas
férias de final de ano estudei dois livros de História e alguns romances. Quando iniciei o
terceiro ano, só falava em vestibular. Estudava no Colégio Estadual Landulfo Alves e na
minha sala tinha 52 alunos; dentre esses, só eu prestei o vestibular.
Havia dificuldades para poder estudar para o vestibular, porque pela manhã trabalha-
va, à tarde ia para o colégio e à noite era o único tempo que me restava para estudar, tanto
para o colégio quanto para o vestibular.
Não tive condições financeiras para fazer um cursinho pré-vestibular, tinha que pegar
livros emprestados na Biblioteca Municipal.
Meus pais e meu irmão sempre me deram maior foca na época em que estudava para o
vestibular. Na igreja onde congrego pedi aos irmãos da igreja que orassem por mim. E
sempre dizia para os meus pais que este vestibular era o vestibular do milagre, pois estava
firmemente confiante em Deus que tudo ia dar certo. E realmente tudo deu certo.
Prestei o vestibular 2006/2007 da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia
(UFRB), e passei para o curso de Museologia. Este foi o meu primeiro vestibular, e sinto-me
bastante vitoriosa, porque vim de uma família pobre, de uma escola pública.
Hoje faço parte do Programa Conexões de Saberes e espero que, através da minha
história pessoal, muitas pessoas possam ser incentivadas a prestar o vestibular e entrar numa
faculdade.

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 91


Minha história
Solange Conceição Silva*

Nasci em Salvador-BA, no dia 13 de março de 1986. Em 2007 dei um passo muito


importante para minha vida ao passar no vestibular da Universidade Federal do Recôncavo
da Bahia (UFRB).
Para muitos a entrada na universidade é apenas uma continuação de seus estudos, mas
para mim é a melhor forma de exercer cidadania, assim cobrar nossos direitos.
Não quero que digam “coitadinha” sobre mim, mas que minha história pessoal sirva
de incentivo para quem tem outras histórias e saiba que não há limites para quem acredita
em si mesmo.

Infância
Grande parte de minha infância morei com meus avós em Cruz das Almas-BA e,
devido a essa convivência, me habituei a referir-me a eles como “mainha e painho”. E
sempre que me recordo disso me vem à memória o dia em que minha mãe foi nos visitar e,
após seu regresso, meu tio Lucas, com ciúme, me mandou sair do colo de mainha, pois
aquela era mãe dele e não minha. Então mainha nos explicou carinhosamente que por ela
ser minha avó, era o mesmo que ser minha mãe por duas vezes. Daquele dia em diante ele
passou a explicar a todos que ele era meu tio, de forma muito engraçada, onde demonstrava
o orgulho de ser mais do que meu irmão.
Meu avô bebia muito, o que dificultava ainda mais a vida em casa. Minha avó fazia
crochê. Nenhum deles possuía educação formal, aliás, ninguém na família foi muito longe
nesta área, com exceção de minha mãe, que cursou até a oitava série do ensino fundamental.
Por esses e outros motivos eu praticamente não freqüentei a escola infantil. Lembro que,
por influência de minha mãe, cheguei a ser matriculada, mas que no meu primeiro contato com
a escola eu adquiri verdadeira aversão, por sentir-me inferiorizada (não sabia sequer o abecê).
Talvez também por ter olhos grandes, ser magrela e possuir cabelos crespos e avermelhados,
o que era assustador e servia como alvo de deboche. No meu primeiro dia de aula, a
professora pediu-me para dizer as vogais; fiquei apavorada e comecei a fazer xixi no meio
da sala. Aquilo repercutiu muito mal, fui tratada de forma cruel enquanto estive na escola.
Com aproximadamente nove anos de idade fui morar com dona Helena (amiga de
igreja de minha avó). Lá, minha vida não foi nenhum mar de rosas, porém foi nesse local que
aprendi a ler e escrever e decidi voltar a estudar. E ao retornar para morar com meus avós -
agora em Candeias-BA - pedi a eles que me matriculassem em uma escola melhor e assim foi

* Graduanda em Engenharia Agronômica pela UFRB.

92 Caminhadas de universitários de origem popular


feito. Ao chegar à nova escola percebi que tirava sempre as melhores notas e ganhei afeto e
a admiração de todos, pois tinha idade e conhecimento avançado para estar na primeira
série do ensino fundamental. Foi proposto então pela secretaria da escola uma forma de
adiantar-me no nível escolar. Fui neste mesmo ano para a terceira série e, desde então, não
mais parei de estudar.
Durante a minha infância também houve momentos em que estive ao lado de minha
mãe. Esses foram marcados por brigas horríveis entre ela e Raimundo (pai de meus irmãos),
contudo foi quando freqüentei com muito entusiasmo a praia, shoppings e parques, ou seja,
lugares que até então eu só conhecia pela televisão. Em relação a meu pai, ele nunca esteve
presente em minha vida, apenas sei que tenho mais três irmãos.

Adolescência
Ao concluir a terceira série do ensino fundamental, saí de Candeias e fui morar com
minha mãe em Salvador. Eu estava com aproximadamente doze anos, minha mãe se encon-
trava separada de Raimundo e, com muito esforço, acabava de construir uma pequena casa
para morarmos nós três: eu, ela e Reijane, minha irmã mais nova que estava morando com
sua avó paterna.
Fomos matriculadas em uma escola que ficava a 40 minutos à pé de casa. No primeiro
ano ambas estudávamos pela manhã e, como eu me encontrava na quarta série do funda-
mental, no ano seguinte passei para o turno vespertino, pois a norma da escola era primário
pela manhã e ginásio à tarde, então fomos separadas.
A minha estadia nessa escola foi tranqüila e amigável, fiz amigos para toda uma vida;
no entanto foram momentos conturbados em casa, pois Reijane acabou se afastando da
escola. Indiretamente isso ocasionou a reconciliação de minha mãe com Raimundo, e de-
pois disso veio o nascimento de meu irmão mais novo em 1999. Com a reaproximação do
casal vieram também conflitos familiares.
Mesmo com varias confusões “daquelas”, em momento algum deixei minha vida
acadêmica, e então eu tentei conciliar trabalho com estudo. Comecei a trabalhar como
atendente em uma loja de aluguel de painéis perto de casa. E em meados de 2004 arrumei
um estágio de recepcionista em uma pequena empresa de cursos profissionalizantes. Fiquei
por um ano e meio, até a conclusão de meu ensino médio.

2006: um ano especial


O ano de 2006 se iniciava e eu desempregada e desesperada, pois não contava
sequer com a ajuda de custo do estágio, que havia acabado, já tinha distribuído currículos e
não conseguia emprego. Sem alternativa, trabalhei com jogo de bicho com minha mãe,
na esperança de encontrar algo de meu interesse depois. Trabalhava de dia e fazia o
cursinho Universidade para Todos (programa do governo federal) à noite, para no final
do ano prestar vestibular. E assim, prestei vestibular para Universidade Federal da
Bahia (UFBA), Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Universidade
Estadual da Bahia (UNEB) e CEFET-BA (Centro Federal de Educação Tecnológica da
Bahia). Fui aprovada em Engenharia Agrônoma na UFRB e em Automação e Processos
Industriais no CEFET.

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 93


A escolha do curso
Minha intenção de fato era passar na UFRB, pois nos outros centros escolhi cursos
estritamente ligados a Ciências Exatas. Eu prefiro algo mais ligado à área de Ciências Bio-
lógicas e naquele mesmo ano conheci uma pessoa que cursa Agronomia na UFRB, então
despertei meu interesse no curso. Estou adorando meu curso, sei que futuramente não será
fácil, mas espero contribuir de forma qualificada para a sociedade.

A chegada na UFRB e o Programa Conexões de Saberes


No dia em que vi o resultado do vestibular, ao mesmo tempo em que sentia alegria
sentia também medo; eu mesma me indagava sobre o que iria fazer. No entanto, ouvindo a
música “Caminhos”, de Raul Seixas, que diz “o caminho do risco é o sucesso”, deixei o
emprego para me dedicar ao estudo.
E chegando na universidade pensava todo o tempo em como iria me manter no curso,
já que o horário da faculdade já é um grande empecilho para conciliar estudo e trabalho.
Estágio só se consegue a partir do terceiro semestre e com todos os pré-requisitos, como
média superior a sete nas notas em sala, além da concorrência. Ao ver o edital do Programa
Conexões de Saberes verifiquei que me encaixava em todo o perfil proposto, isso me surgiu
como a “luz no fim do túnel”.
Ao entrar no Programa, percebi que era algo muito maior do que a ajuda financeira:
era a oportunidade de conscientizar pessoas da mesma origem que a minha e que se encon-
tram incrédulas quanto à sua própria capacidade de cursar o nível superior em uma faculda-
de pública. Espero corresponder ao objetivo do Programa.

94 Caminhadas de universitários de origem popular


Texto autobiográfico
Toniel Costa do Carmo Santos*

Contar por escrito a história da minha vida é algo inédito para mim, mas também é
uma experiência que me possibilita trazer à memória alegrias e tristezas, dificuldades e
vitórias. Mesmo tendo o hábito de escrever sobre diversos assuntos não somente na escola
e posteriormente na universidade, mas também em casa, encaro a tarefa de redigir um texto
autobiográfico como bastante desafiadora.
Meu pai, Gilberto, natural de Cachoeira-BA e minha mãe, Janice, nascida em São
Félix-BA, se casaram no final de 1984. Alguns meses depois meu pai faleceu vítima de
afogamento; mesmo sabendo nadar, ele sofreu congestão e seu corpo só foi encontrado no
dia seguinte. Ele tinha 18 anos.
Numa tarde de dezembro de 1985 eu nasci, pesando pouco mais de três quilos e
quebrando os prognósticos de alguns vizinhos que diziam que eu, devido a ter pais com
porte físico magro, iria nascer com bem menos peso.
Após a morte de meu pai, minha mãe continuou morando com minha avó Guilhermina.
Ela era do tipo “matriarca”, que gostava de ver toda família reunida e manter tudo, inclusive
a vida de todos os familiares, sob seu controle. Ela só teve duas filhas “legítimas”, porém
tinha uma grande vocação para adoção. Sempre fez questão de nos ensinar princípios de fé,
carinho, respeito e equilíbrio.
Iniciei a alfabetização com quatro anos de idade, tardiamente para padrões da época e
mais tardio ainda para os atuais numa escola vinculada a uma igreja evangélica a qual nós
pertencemos até hoje, o Instituto Educacional Batista (IEB). Lembro-me que no primeiro
dia de aula chorei muito. Não me adaptei bem à professora no primeiro ano da alfabetização
e por isso a direção me tirou do turno matutino e me colocou no vespertino, com uma
professora chamada Norma. Com ela meu comportamento melhorou. No último ano do
período pré-escolar, em uma das brincadeiras do recreio, caí e fraturei o braço esquerdo, o
que gerou muita preocupação por parte dos professores e funcionários, pois tinham receio
de que minha avó responsabilizasse os mesmos por isso; porém quando ela e minha mãe
perceberam que se tratava de nada muito grave, se acalmaram.
Aos sete anos minha mãe me matriculou no Grupo Escolar Carlos Marques de Almeida,
onde cursei da 1ª a 4ª séries do primário. Na 1ª e na 2ª séries estudei no turno da tarde. Tive
boas notas e gostava muito de Português e Estudos Sociais, uma matéria que ensinava
assuntos relacionados à História e Geografia.

* Graduando em Comunicação Social - Jornalismo pela UFRB.

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 95


As duas professoras que me ensinaram nestas séries foram muito boas. Já na 3ª e na 4ª
séries, somente uma professora chamada Edna me ensinou ambas. Ela é uma profissional
competente e, naquele período, sua característica marcante foi ser exigente quanto ao de-
sempenho dos alunos, tanto que na sala havia vinte alunos e somente três não precisaram de
recuperação para passar para a 4ª série - eu estava entre eles. A 4ª série ficou marcada pela
grande dificuldade que tive com Matemática, visto que se eu não tivesse bom desempenho
em Português e não dominasse as quatro operações não ingressaria na 5ª série. Com defici-
ência nas operações de divisão, precisei de aulas de reforço para solucionar o problema.
Porém, o que mais me marcou nessa época, foi o período de outubro de 1995 a janeiro
de 1996. Foi quando minha avó paterna Celina ficou muito doente e acabou falecendo.
Gostava muito dela e todos os domingos ou ela vinha até minha casa ou íamos até Cacho-
eira visitá-la.
No Centro Educacional Rômulo Galvão (CERG), um colégio estadual, cursei da 5ª
série ao 3ª ano de formação geral entre 1997 e 2003. A 5ª série foi um período de adaptação:
mais disciplinas, mais professores, mais aulas por dia e maior cobrança de desempenho. As
aulas de que eu mais gostava eram as de Geografia, com a professora Girlene; Português,
com a professora Edna e posteriormente com a professora Rosângela e Educação Artística,
com a professora Lélia. Tive dificuldade com Ciências, Inglês e Educação para o Lar, uma
disciplina relacionada a artesanato. Surpreendentemente não tive problemas com Matemá-
tica, pois a professora Marilda explicava os assuntos de forma simples e prática, facilitando
a compreensão.
Na 6ª série não fiz uma boa primeira unidade, período geralmente equivalente há um
bimestre, mas nas outras me dediquei mais e me recuperei.
Em 1999, na 7ª série, não tive problemas nas disciplinas, mas em meados de junho
fiquei doente. Primeiro veio a febre alta que surgiu diariamente nos mesmos horários, de-
pois começaram as dores no corpo e principalmente nas articulações. Como não havia um
especialista na cidade, um clínico geral diagnosticou “febre sem origem”. Fomos a uma
reumatologista em Feira de Santana e ela descobriu que se tratava de uma Artrite Reumatóide
Juvenil, que apesar de ser uma doença óssea, tem origem no sangue devido a fatores gené-
ticos. Ela aparece geralmente em mulheres - a probabilidade de aparecer em homens é de
uma a cada cem casos - e por isso quando acontece em homens vem de forma mais intensa
e agressiva.
Foram três meses de perda de peso, restrição de movimentos e enfraquecimento do
sistema imunológico devido aos medicamentos. Em setembro consegui retornar à escola
com parte do peso recuperado e dos movimentos também.
Fiz as provas e trabalhos pendentes e ainda deu tempo de participar da 1ª Exposição
Interdisciplinar do CERG, que tinha como tema a cidade de São Félix. Foram apresentados
trabalhos de pesquisas nos locais mais importantes da cidade. Além disso, foi feito um
telejornal no qual eu era um dos apresentadores, onde as reportagens eram voltadas para os
problemas dos bairros.
A 8ª série foi em 2000 e, mais uma, vez precisei ficar alguns meses sem estudar devido
ao aparecimento de Lupus Eritrematoso Sistêmico, uma patologia reumática que se asso-
ciou à Artrite Reumatóide. O Lupus afeta o sistema imunológico para fazer que as defesas
ataquem, ou seja, o sistema de proteção do organismo desenvolve mecanismos de ataque ao
próprio organismo.

96 Caminhadas de universitários de origem popular


Desta vez a recuperação foi mais gradativa. Precisei ir de táxi até o colégio e voltar
andando com dificuldades; mesmo assim recuperei as provas que eu não tinha feito no pe-
ríodo de tratamento e com boas notas. Acho que a superação foi fundamental naquela situação,
assim como o apoio de minha mãe, minha avó e pessoas como meus amigos Carlos e Angelino.
Em 2001, prestes a iniciar o ensino médio, existiam duas opções de curso: o Magisté-
rio (Ensino Médio Normal) e o de Formação Geral (popularmente chamado na época de
Científico). Optei pelo último porque já pensava em fazer vestibular para Jornalismo.
O ano letivo ficou marcado pelo início da reforma no CERG, que começou na metade
de 2001 e se estendeu até os primeiros meses do ano letivo de 2002. Foi período de aulas
quinzenais em uma escola municipal inativa. Nesse mesmo ano, apareceram seqüelas da
atividade do Lupus, como as deformidades nas mãos, cotovelos e pés.
No 2º ano do ensino médio, grande parte do ano letivo foi cursado no CERG, após a
reforma do mesmo. Tive bom desempenho nas disciplinas, em especial Química, Sociolo-
gia, Artes, Espanhol e História, porém eu achei muito importante ter feito mais textos nas
aulas de língua portuguesa com o professor Conrado.
No 3º ano do ensino médio tive novamente problemas físicos. Só pude freqüentar a
escola a partir de abril. Neste mesmo ano fiz o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM)
pela primeira vez e repeti nos anos de 2005 e 2006. Fiz apenas para testar meus conheci-
mentos, me preparando assim para o vestibular, visto que não tinha condições financeiras
para fazer um curso preparatório.
Em 2006 surgiu em Cachoeira a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB),
só que a informação que eu recebi de início era que haveria cursos de História, Museologia
e Pedagogia. Como não me interessei por nenhum deles, resolvi não me inscrever. Posteri-
ormente descobri que o curso de Pedagogia seria substituído pelo de Comunicação e, desta
vez, pensei em prestar o vestibular no fim do ano. Só tomei a decisão dois dias antes do final
das inscrições.
Também me inscrevi no Programa Universidade Para Todos (PROUNI), pois como
meu perfil se encaixa nas exigências, achei que teria mais chances do que no vestibular da
UFRB. A prova da 1ª fase representou para mim um momento de reflexão. O fato de eu estar
ali significou um ato de força de vontade. Percebi que basta querer e se esforçar para que
todas as coisas conspirem a favor dos objetivos.
Impulsionado pelo êxito na 1ª fase, usei todo tempo possível para estudar para a prova
da 2ª fase. Assim como na 1ª, a minha tática foi usar todo o tempo disponível no dia da
prova. Alguns dias antes do resultado final saiu outro resultado, o do PROUNI e eu não
estava entre os relacionados. Só restava portanto, o vestibular da UFRB.
Na verdade eu fiz o vestibular apenas com o intuito de ganhar experiência, pois
achava que passados três anos da minha formatura eu estaria desatualizado, e portanto não
teria chances reais de passar. Esse pensamento mudou quando passei para 2ª fase, pois
percebi que, se tinha chegado até aqui, não poderia perder essa oportunidade.
Após mais de um mês de espera, saiu o resultado e eu soube de forma inusitada: num
fim de tarde de sábado, um colega que também fez o vestibular veio me parabenizar, trazen-
do o jornal que continha a lista de aprovados, ou seja, eu fui o “último a saber”. Assim como
eu, ele também passou, só que para Museologia. Infelizmente Carla, uma vizinha que muito
me ajudou nesse período, não passou para enfermagem. A “ficha só caiu” após a matrícula.
Todo esforço e espera valeram a pena.

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Nesta ocasião, inclusive, contei com a colaboração da professora Maria José, que
resolveu todos os detalhes da matrícula e tem me ajudado bastante nesse processo de adap-
tação a este novo desafio.
Ao entrar na universidade percebi que este não era um local apenas de aprendizado
acadêmico, mas de troca de conhecimentos tanto dentro como fora da instituição. O
surgimento na UFRB do Programa Conexões de Saberes tornou-se uma evidência firme
deste principio, pois proporciona que nós, bolsistas, sejamos agentes modificadores da
sociedade.
Mesmo enfrentando muitos desafios, posso afirmar que Deus coloca pessoas em nosso
caminho para nos ajudar nos momentos em que mais precisamos.
Foram professores, amigos e familiares que me deram a mão. Se eu for listar estes
nomes posso me esquecer alguns, porém devo destacar a professora Edna Macedo e amigos
como Albert, Djavan, Eliane, Fernando, Hilário e principalmente Cleiton, que “apesar de
torcer para o Vitória” sempre me ajudou e continua assim fazendo.
Não posso deixar de destacar também a importância fundamental de minha mãe.
Preocupada sempre com o melhor para mim, me incentivou nos momentos que eu mais
precisava e até hoje me ajuda de todas as formas possíveis, se fazendo constantemente
presente e influente em minha vida. E principalmente agradecer a Deus não só por estar ao
meu lado, sustentando-me, mas também por Ele ter me proporcionado aprender lições de
bondade, solidariedade e determinação.
Cheguei até aqui e pretendo ir mais longe, preservando os ensinamentos que minha
avó materna, falecida em 2005, deixou para mim: acreditar em Deus, pois Ele dá forças e
suporte para as batalhas da vida e não se intimidar com os obstáculos, porque eles não
surgem para serem temidos e sim para serem vencidos.

98 Caminhadas de universitários de origem popular


Autobiografia
Uirlon Sábigo Alves Cardoso*

É com orgulho e honestidade que relato a trajetória de minha vida. Até os oito anos de
idade convivi com meu pai, Antonio Carlos, minha mãe, Neuza, e minhas duas irmãs Uitier
e Werla; devido a vários desentendimentos entre meus pais, ocorreu a separação, sofri
muito, pois amo muito meus pais.
Minha mãe, mulher guerreira, professora na época do ensino médio e fundamental,
trabalhou muito para nos criar e educar, educação essa sempre ministrada em instituições
públicas.
O tempo foi passando e minha infância terminando de forma tão sutil que só as lem-
branças restaram, ficou um gosto amargo devido a frustração por não ter em minha casa um
ambiente saudável e propício para uma criança se desenvolver, por minha família ser de
origem humilde, tendo baixa renda e pela relação conturbada entre meus pais.
Agradeço a Deus todos os dias por minha mãe ter se revelado uma mulher batalhadora,
me incentivando a estudar e me dando todo auxílio possível para que eu pudesse vir me
tornar um homem de bem. Porém a mesma vem enfrentando problemas de saúde sérios. Há
pouco tempo minha mãe se submeteu a uma carga de exames, e por infelicidade do destino,
a maioria em seus diagnósticos apontou problemas. Com isso, ela se encontra no momento
afastada de suas atividades para poder dar início aos tratamentos.
O esforço de minha mãe vem se refletindo na minha vida, porque ultrapassei barreiras
e hoje aqui estou, em uma universidade federal de respaldo, cursando Nutrição, profissão
que venho conhecendo e me apaixonando cada vez mais.
Sei que existem dificuldades, gastos, responsabilidades pessoais comuns que têm que
ser cumpridas, mas essa bolsa de estudos vai me dar um suporte para que eu possa permane-
cer na universidade e vencer mais esse obstáculo.
Diante de todas as dificuldades encontradas no meu caminho, entre vitórias e derro-
tas, posso analisar com clareza os fatos ocorridos na minha curta trajetória de vida, e con-
cluir que a garra e a vontade de vencer estão sempre comigo, e por isso eu sou vitorioso.

* Graduando em Nutrição pela UFRB.

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